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<DOCNO>PUBLICO-19940717-001</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940717-001</DOCID>
<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
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Phil Collins
Phil Collins, vocalista e baterista em «part-time» dos Genesis, vai divorciar-se da sua actual mulher, Jill, com quem casou em 1984 e de quem tem uma filha de cinco anos, Lily. O artista, com 43 anos de idade, justificou a decisão alegando declarações públicas feitas pela mulher, segundo as quais o cantor «está a travessar a crise da meia-idade e que isso dá cabo da relação». Collins respondeu de imediato, dizendo que a causa dos problemas não se deve à sua idade, mas a uma relação que teve há dois anos com uma antiga namorada. «Não posso permanecer numa relação em que a chama, pelo menos do meu ponto de vista, se apagou», disse o popular cantor, que no mês passado foi nomeado tenente da Real Ordem Vitoriana, pela Rainha Isabel II de Inglaterra.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-002</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940717-002</DOCID>
<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
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Influência Oriental
A exposição «A Influência Oriental na Cerâmica Portuguesa do séc. XVII», no âmbito de «Lisboa 94», tem a pré-inauguração prevista para a próxima quarta-feira, pelas 12h, no Museu Nacional do Azulejo, em Lisboa, anunciou a agência Lusa. A visita para jornalistas será conduzida pelo comissário da exposição e director do museu, João Castelo-Branco, e pela directora do Instituto Português de Museus e administradora do departamento de exposições de «Lisboa 94», Simonetta Luz Afonso. A exposição pretende demonstrar o modo como, na época dos Descobrimentos, a tradição e o gosto nacional se aliaram a formas decorativas próprias de outras culturas. A inauguração oficial está marcada para as 18h30, sendo a abertura ao público no dia seguinte.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-003</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
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Taslima Nasrin
Em resposta ao apelo feito na televisão inglesa à Amnistia Internacional, pela escritora feminista do Bangla Desh Taslima Nasrin, ameaçada de morte pelos fundamentalistas islâmicos por ter declarado a um jornal indiano que «o Corão necessitava de ser revisto do princípio ao fim», o Governo do Bangla Desh reafirmou que a romancista deverá render-se e entregar-se às autoridades. Segundo o ministro do Trabalho, Rafiqui Islam Miah, Taslima «recebeu ordem de prisão e, de acordo com as normas legais do país, deverá apresentar-se ao tribunal e só então pedir libertação sob fiança». «Caso queira apresentar-se», disse ainda o ministro Rafiqui Miah, «Nasrin apenas terá que informar a polícia para que esta lhe possa dar toda a protecção possível, defendendo-a da ameaça de morte que sobre ela pende».
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-004</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
<AUTHOR>ACRV</AUTHOR>
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Crítica de jazz
António Curvelo
A derrota de S. Pedro
Mais parecia Jazz Num Dia de Inverno. Quando o céu já ameaçava ficar azul e o público mais corajoso se preparava para receber o quarteto de Joshua Redman (penúltimo cabeça de cartaz da edição 94 do Estoril Jazz/Jazz Num Dia de Verão), abriram-se as comportas e a chuva veio por aí abaixo. Durante meia hora, ninguém pensou noutra coisa que não fosse resistir à molha e averiguar se havia ou não concerto. Pelas dez e meia, Duarte Mendonça dizia que sim, que ia haver música, e dez minutos depois Joshua estava no palco. Fica a dúvida se a mudança meteorológica se ficou a dever à ordem natural das coisas ou se não andou ali dedo divino. É que Mendonça ainda teve forças para apostrofar o bom do S. Pedro, chamando-lhe «quadrado» por não gostar de jazz. Pois que outra razão poderia esconder-se por trás do primeiro dia de chuva deste Julho?
Foi um bom concerto de quatro bons músicos. Mas se houve surpresa ficou a dever-se ao pianista Brad Mehldau, quase anónimo na sua juventude, apesar dos títulos já inscritos na sua discografia (parceiro de Cristopher Holliday e Jesse Davis). Durante a hora e meia que o quarteto esteve em palco, Mehldau foi não só uma das vozes que mais trabalhou mas também um dos principais responsáveis pela economia musical do grupo. Clássico no desenvolvimento dos temas (exposição-solo(s)-reexposição) e na sua arquitectura interna (sequências de solos individuais, geralmente três por tema, apenas com alteração da ordem de chamada: tenor / piano / contrabaixo, piano / tenor / contrabaixo, tenor / piano / bateria), o quarteto teve em Brad Mehldau o actor mais equilibrado. Preciso nas deixas, atento aos diálogos, inventivo nas improvisações e perfeito na mobilidade discursiva (rítmica, melódica e harmónica), nunca lhe sobrou texto nem piano. E que prazer, cada vez mais raro!, o de reencontrar um pianista que se ouve como se vive uma aventura e não como quem faz uma viagem por geografias conhecidas, com o olhar musical identificando sucessivas influências e memórias.
Mais discretos mas igualmente eficazes foram os tambores de Brian Blade, cara nova de New Orleans, logo, com herança pesada às costas. O solo de «apresentação» em «Echoes», um original de Joshua, aumentou-lhe o crédito e denunciou que por aqueles ouvidos passou a palavra do mestre dos mestres da Louisiana, Ed Blackwell. Boa gestão das peles, utilização oportuna dos pratos e capacidade para desenhar um solo, com conta, peso e medida, em torno de uma ideia agregadora. À habitual dispersão centrífuga, o caminho mais natural e por isso mais fácil dos bateristas fáceis (ou não será, antes, o contrário: o mais fácil e por isso o mais «natural»?), Blade preferiu a concentração centrípeta. E saiu-se bem. Bem, muito bem, óptimo, esteve Christian McBride. O rigor transparente da articulação e uma dimensão melódica luminosa fazem parte do seu nome. Quem duvidasse da sua imaculada maestria deve estar a esta hora a cuidar da saúde dos ouvidos. Não há nada que um contrabaixista deva saber, que as suas mãos não saibam. Nada do que um «guardador do tempo» tem de ter lhe falta. Tudo o que um homem de jazz mais preza, pode encontrá-lo no contrabaixo de McBride. Com mais onze como ele, Ray Brown poderia organizar uma nova Última Ceia.
Com Joshua Redman, o tenor volta a explicar que não há instrumento mais emblemático do jazz do que o saxofone. Plantado no centro do palco, o corpo gingão como bailarino à beira da pista de dança, Joshua desembrulhou a memória de Rollins e foi-se a ela. Sem lhe imitar a sonoridade, é a ela que vai procurar a respiração rítmica, o jogo dos volumes, a matemática dos timbres. O modo como vai escrevendo a frase tem a marca de Rollins, o jeito de interromper a respiração da escrita, abrindo-lhe parêntesis, saltando-lhe as vírgulas ou escondendo-lhe sujeito e predicado, torna-o um alvo predilecto dos «copy desks» da burocracia do jazz. Mas é com Joshuas destes que a música se renova.
À vontade nos tempos (dos blues rápidos às baladas, das cores da bossa nova às convulsões dos mais «shouters» dos rhythm&amp;blues), Redman tem o futuro à sua frente. Resta a esperança de que também possamos lá estar. Ao lado dele.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-005</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
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Timor em fotografias
A cultura luso-timorense mantém-se viva apresar dos esforços da Indonésia para a asfixiar, afirma uma antropóloga australiana, Margaret King Boyes, autora de uma exposição, em Freemantle, Austrália, de fotografias de Timor. As fotos foram tiradas nos anos de 1960 e 1961, quando a autora realizava um dos primeiros estudos antropológicos sobre o território. A exposição coincide com o lançamento de um livro sobre Timor Leste da mesma Margaret King Boyes, intitulado «Paraíso Perdido - Uma acusação». Para esta antropóloga, que se apaixonou pela cultura luso-timorense, os timorenses recusam-se a ser colonizados pela Indonésia.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-006</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
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Recordes em leilão
Um taco de golfe, datado do século XVIII, e uma bola fabricada no século passado atingiram somas recordes durante um leilão organizado na Escócia, antes do Open da Grã-Bretanha que está a ter lugar em Turnberry, perto de Glasgow, de 14 a 17 de Julho. O taco em ferro, fabricado segundo os peritos, no fim do século XVIII, foi vendido em Ayr, na Escócia, pela Sotheby's pela quantia de 12 250 libras (4 mil 300 contos). O objecto foi comprado pelo Museu do Club Espanhol de Valderrama. A bola de golfe, fabricada em 1840, foi vendida em Glasgow pela Christie's a um coleccionador privado da região pela soma de 12 075 libras (cerca de 4 mil contos).
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-007</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
<AUTHOR>MJG</AUTHOR>
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Festival de Almada
Brasil no penúltimo dia
Termina amanhã, segunda-feira, a XI edição do Festival Internacional de Teatro de Almada, com quase todas as atenções a convergir para as "Guerras de Alecrim e Majerona", o maior sucesso da Comuna nos anos 90. É no Palco Grande da Escola D. António da Costa. Mas o encerramento propriamente dito é depois, com o "teatro" musical dos Irmãos Catita, na Esplanada, noite fora, até às tantas.
Se é previsível uma enchente no "show" frenético dos "Catitas", foram poucos os que na noite de sexta-feira tiveram pachorra para o Théâtre de l'Impossible, cuja função, sob o título de "Il y a des Hommes Océans", começou a horas pouco católicas (após o "Malaquias" do Teatro Veredas) e terminou às três da manhã.
A evocação de Victor Hugo -- do poeta, do dramaturgo, do cidadão, do Júpiter Tonante da literatura romântica francesa -- merecia ter um público que não teve, uma plateia de profissionais do teatro português, que bem precisam de ver realizações destas, espectáculo cuidados, simples mas de bom gosto, baseados em textos literários dos clássicos, destinados a animar o património monumental e a divulgar o património poético. A música (os solos de harpa tocados por Lise Taupinard-Przybylski, entremeados com os textos ditos por Corine Théziert e Robert Bensimon) revelou-se essencial.
Retornando a "Malaquias", a adaptação do romance de Manuel de Lima, "Malaquias ou a História de um Homem Barbaramente Agredido" (ed. Estampa), conseguiu, apesar de todas as adversidades, electrizar o público da Esplanada. As adversidades foram os ruídos do trânsito na artérias circunjacentes. Afastado do Palco Grande (devido à montagem do espectáculo tunisino "Família", programado para ontem), "Malaquias", espectáculo da palavra, chegou em más condições ao público das últimas filas.
A programação de hoje, domingo, traz o Brasil até Almada. Com o "show", às 21h30, na Esplanada, de Kaká Brasil, que, com arranjos da sua lavra, canta Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim. Segue-se no Palco Grande, ao escurecer, o Teatro Piollin, grupo do Nordeste brasileiro, que acaba por ser o único representante do teatro latino-americano nesta edição do Festival. A peça "Vau de Serapalha" baseia-se num texto de João Guimarães Rosa, ponto alto da prosa brasileira (o James Joyce da lusofonia). E os fãs do teatro brasileiro não deixarão de passar, às 16h, pelo Palácio da Cerca, para ouvir Carmelinda Guimarães (da "Folha de São Paulo") dissertar sobre Antunes Filho, o mais famoso encenador paulista.
Mauel João Gomes
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-008</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
<AUTHOR>FL</AUTHOR>
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Abadia de Santa Maria vai converter-se em pousada
Arrancaram as obras no Mosteiro de Bouro
O Mosteiro de Santa Maria de Bouro, em Amares, inaugurou esta semana uma nova fase no seu atribulado destino. Após sucessivos impasses, tiveram finalmente início as obras de consolidação e restauro do imóvel, em vista ao seu aproveitamento para uma pousada que, segundo se prevê, estará concluída no primeiro semestre de 1996.
Os trabalhos de recuperação passam quase despercebidos a quem transita na estrada que liga Amares a S. Bento, mas embora não se trate de uma obra aparatosa, promete ser o início de uma reconversão que travará enfim a acentuada degradação a que tem estado sujeito este monumento de meados do século XII.
A Enatur, responsável pela transformação e dinamização do imóvel, não está disposta a esperar muito tempo pela conclusão das obras, e garante mesmo que a pousada estará pronta no primeiro semestre de 1996. Até lá, há muita coisa para fazer, a começar pela consolidação das paredes, objectivo desta primeira fase dos trabalhos. O maior problema, contudo, é ainda o do cumprimento dos prazos estabelecidos, pois a empresa a quem foi adjudicada a primeira etapa da obra se comprometeu a realizá-la em cinco meses, dispondo para o efeito de 300 mil contos, quantia que fica muito aquém dos cerca de um milhão e meio de contos previstos para a fase de acabamentos.
Esta aposta em transformar a abadia cisterciense de Bouro num complexo turístico de luxo promete, pois, operar uma pequena revolução na pacata vila de Bouro. Por enquanto, a população continua mais preocupada com os seus trabalhos agrícolas do que com o destino daquele que é o mais importante monumento da povoação. «O que importa é não deixar o mosteiro ao abandono; eles devem saber o que estão a fazer», repetem invariavelmente os habitantes, não se mostrando capazes de avançar quaisquer pormenores sobre o que vai ser feito na abadia de Santa Maria.
O projecto, da autoria dos arquitectos Souto Moura e Humberto Vieira, está já definido, prevendo-se que a futura pousada disponha de 32 quartos, salas de conferência e anfiteatros, a que se associarão, no exterior, campos de ténis e piscinas. A maior novidade será a criação, no interior do mosteiro, de um pequeno museu onde se contará a história da abadia. Os documentos relativos aos oito séculos de história do mosteiro são desanimadoramente escassos, mas espera-se, ainda assim, que este museu ajude a explicar os motivos que levaram o imóvel ao estado de degradação em que hoje se encontra.
Alvo de sucessivos impasses, a abadia de Santa Maria de Bouro viveu, nos últimos anos, alguns dos seus mais atribulados episódios. Considerando inadmissível a degradação do monumento, a Câmara Municipal de Amares decidiu adquiri-lo no início da década de 80. No entanto, a incapacidade financeira da autarquia impediu-a de promover as necessárias obras. O imóvel transita, por isso, em 1986, para o extinto Instituto Português do Património Cultural, hoje Ippar. Mas os anos passam e a nova tutela da abadia não cumpre as promessas de restauro. A solução agora encontrada foi a de confiar o mosteiro à Secretaria de Estado do Turismo, que, através da Enatur, se compromete a fazer aquilo que muitos consideram já um verdadeiro milagre: impedir a destruição da abadia cisterciense de Santa Maria.
Felisbela Lopes
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-009</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
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Sucessos de Cesária
Uma colectânea de êxitos da cantora cabo-verdiana Cesária Évora foi editada em Portugal pela Sony Music. Sob o nome "Sodade", a compilação de 16 canções inclui temas como "Odji Maguado", "Cabo Verde", "Cretcheu di Céu", "Luz dum Estrela", "Nova Sintra" e "Bia", para além de um inédito: "Papa Joachin Paris". Entretanto, a cantora nascida há mais de 50 anos em São Vicente, e radicada em Paris, iniciou uma digressão por Espanha que a levou, ontem, a Madrid, para cantar ao ar livre junto da Grande Muralha, no Parque Oeste; amanhã estará em Salamanca; e a 20 em Cartagena. Desde quarta-feira, já cantou também em Córdoba e Barcelona. Os jornais espanhóis "El País" e "El Mundo" dedicaram-lhe uma página cada um. "Canto a pobreza do meu povo", titulou o "El País", que entrevistou "a cantora dos pés descalços que o disco 'Miss Perfumado' deu a conhecer ao mundo".
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-010</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940717-010</DOCID>
<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
<AUTHOR>IC</AUTHOR>
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Uma história madrilena
O escândalo, Calvo Serraller e a mulher dele
O ex-director do Museu do Prado, Francisco Calvo Serraller, demitiu-se em Maio, 200 dias depois de ter ocupado o cargo, devido a um escândalo. Em causa esteve a publicação na revista «Nuevo Estilo» -- de que a sua mulher é conselheira editorial -- de uma reportagem de cadeiras de «design» feita no Museu do Prado, na sala de «Las Meninas», de Velásquez. Em sua defesa escreveu uma carta aberta, publicada no «El País» (14/05/1994), onde advogava que durante 1993-94 se realizaram 33 reportagens fotográficas no Prado.
Alguns meses antes, Serraller dera uma entrevista à revista francesa «Connaissance des Arts» (edição de Março), onde se insurgia contra as visitas guiadas por sistemas de cassetes áudio, contra os restauros «absurdos que transformam os quadros em cromos» e a «destruição da arte em nome da sua difusão». Mas as acções não foram coerentes com as palavras e, quando o escândalo se tornou público, a ministra da Cultura espanhola não o apoiou. Serraller demitiu-se.
Nessa entrevista afirma: «Estamos a caminhar para a destruição da arte em nome da própria arte, e da sua difusão. Estes museus barulhentos, convertidos em supermercados, nos quais só contam as cafetarias, as lojas, as próteses auditivas, tudo o que é exterior à arte... Não nos podemos distrair com a arte se aspirarmos a amá-la. Criamos no público uma espécie de relação-reflexo pela qual nos predispomos contra a arte, como se desconfiássemos dos quadros!»
A presidente do Instituto Português de Museus (IPM), Simonetta Luz Afonso, está de acordo com estas afirmações de Serraller: «Depois o que ele fez não sei... Isto é, sei, mas não coincide.» Concorda e diz que é possível promover uma cadeira de «design» contemporâneo num espaço antigo, desde que tenha qualidade e que o museu lucre com isso. «O problema é que aí houve outras coisas. Uma coisa é fazer destas operações o principal objectivo do museu -- então passa, por exemplo, a ser um restaurante com um museu -- e outra coisa é ter um bom museu e serviços que prestamos ao visitante», afirma.
«Ninguém aceita, hoje em dia, ir a um museu se não se pode sentar, tomar um copo de água, um café, parar para ler um catálogo!», diz Simonetta Afonso. «As lojas poderiam ganhar muito mais dinheiro se entrassem naquilo a que chamo a prostituição -- que é fazer o que as pessoas compram: os galos de Barcelos, as colheres com o emblema de Portugal. Isso vender-se-ia às toneladas, mas eu recuso! E faço coisas difíceis, como o `design' contemporâneo. Acho que é uma obrigação. A loja não é só um lugar onde o museu ganha dinheiro, mas onde se promove a arte portuguesa antiga e contemporânea.» I.C.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-011</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
<AUTHOR>IC</AUTHOR>
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Museus sob alçada do IPM
Onde comer e o que comprar
No Museu de Arte Antiga, ao almoço há um bilhete de cem escudos que dá acesso à zona do restaurante e permite ver parte da colecção exposta. Ali funciona um «self-service», mas o preço, em comparação, por exemplo, com um almoço no Museu do Azulejo, é exorbitante: um simples bolo custa 600 escudos. Às quintas, sextas e sábados, serve jantares à luz das velas e o preço é equivalente ao do restaurante do Museu do Traje, que é de luxo.
O Museu de Etnologia tem um bar, que serve «tartes», sanduíches e sopas, e o Museu do Teatro também. No Museu dos Coches e no de Arqueologia não funcionam nem restaurantes nem cafetarias. O Museu Soares dos Reis, no Porto, e o Machado de Castro, em Coimbra, já têm cafetarias.
Nas lojas dos museus de Lisboa encontram-se à venda objectos inesperados. Os frasquinhos de chá são o grande êxito (reproduções em porcelana de peças do reinado de Ch'ien-Lung). O preço varia conforme o tamanho (de 350000 a 650000).
Há uma réplica de serviço Companhia das Índias -- colher, pires, prato raso, prato de sopa, covilhete, castiçal, chávena e pires e molheira (30.00000). E existe também um prato coberto (segunda metade do século XVIII), reprodução de uma peça em porcelana da China. A decoração é com barra azul, flores rosa, verde e ouro (30.00000), e há uma compoteira igual (15.00000). Uma tulipeira (século XVIII) e uma réplica de uma faiança portuguesa, Fábrica do Rato (12.00000) também são muito procuradas.
As pessoas compram mais as louças e as casquinhas. Está à venda uma escudela com tampa, recipiente para comida que deu origem à tigela, séc. XVII, estanho, trabalho português (800000), e um lindíssimo açucareiro, século XX, casquinha, reprodução de um modelo invulgar «art deco» (25.37500). Taça tembladeira para caldos e tisanas (650000) e uma azeitoneira com colher, século XX, trabalho português «art deco» (28.00000).
Há uma linha contemporânea de «design» da Kukas -- jóias, anéis, alfinetes. Duas linhas de lenços de seda natural para senhoras: pintados à mão, específicos para o Arte Antiga, Azulejo e Conímbriga (12.50000) e que se esgotam rapidamente; e outra de lenços estampados industrialmente.
No Museu do Azulejo vendem-se, por exemplo, azulejos de Querubim Lapa por 20 mil ou por 30 mil escudos, se forem com brilho metálico e montagem. Réplicas de painéis de lambrilhas (16 ficam por 825900). Reproduções de azulejos arte nova (650000), azulejos de Paula Rego (500000) e de Jorge Martins (360000).
Em todos os museus há «t-shirts». O último modelo tem estampada uma figura de um quadro de Bosh. Também há blocos, um jogo da glória com pinturas, papel de carta, canetas, «puzzles», estojos. No Museu do Traje vendem-se plantas, mel e chá, pombos, laranjas, tangerinas, nozes e outros produtos vindos do Parque do Monteiro-Mor. I.C.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-012</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
<AUTHOR>IC</AUTHOR>
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Lojas, restaurantes e cafetarias nos museus de Lisboa
Ir ao museu já não é uma maçada...
Isabel Coutinho
Quando Simonetta Luz Afonso foi nomeada presidente do Instituto Português de Museus, só dois museus de Lisboa tinham lojas. Dois anos depois, todos as têm e alguns deles contam ainda com restaurantes e cafetarias. São fonte de receitas que servem para financiar as despesas e para reinvestir em publicações. Mas nem tudo é simples. Em Espanha, o director do Prado foi obrigado a demitir-se por causa de uma operação comercial.
Os museus portugueses tornaram-se modernos, têm restaurantes, cafetarias e lojas. Não serão iguais às lojas do Metropolitan, em Nova Iorque, ou do Louvre, em Paris -- enormes e com colecções de peças de «design» e livrarias especializadas em arte --, mas são já um avanço em relação ao que existia há dois anos. Têm produtos exclusivos. Funcionam perfeitamente como lojas de presentes e podem ali comprar-se as publicações editadas pelo Instituto Português de Museus (IPM).
Primeiro foi necessário criar o espaço físico. Os únicos museus com lojas eram o do Azulejo e de Arte Antiga, que dispunha de um «arremedo» de loja. «A localização das estruturas que criámos obriga os visitantes a atravessar uma parte do museu. É uma forma indirecta de levar as pessoas a passar nas colecções. Não é por acaso que as cafetarias não estão à porta dos museus. Muitas pessoas dizem: `Devia estar aqui à porta, era mais fácil.' Não é isso que procuramos. Não queremos fazer um restaurante no museu. Queremos fazer um museu com um restaurante, uma cafetaria, um bar, e também com que as pessoas passem duas vezes nas lojas. Primeiro ficam com a ideia, depois voltam e aí já compram», explica Simonetta Luz Afonso, presidente do IPM.
«Se no percurso para uma cafetaria, um terraço, um restaurante, o visitante atravessa o museu e nesse trajecto vê algumas das peças da colecção, pode ser que tenha curiosidade em voltar lá e chegue à conclusão que, afinal, não é uma maçada. Ver o museu de alto a baixo não é maneira de o ver, porque se apanha uma injecção tão grande que nunca mais se quer lá voltar. O museu é também um sítio onde as pessoas se podem sentar a pensar. Ali há paz e pode ser um lugar agradável depois do trabalho. No Museu de Arte Antiga servem-se jantares -- a exploração é da York House -- e dali os visitantes podem ir divertir-se para as discotecas e bares da Avenida 24 de Julho.»
Tradição e contemporaneidade
As lojas começaram praticamente todas ao mesmo tempo e a tendência é para a especialização. A do Museu do Traje tem objectos ligados ao «design» de roupa, acessórios e jóias. A loja do Museu do Azulejo já apresenta uma especificidade própria: vende azulejos, livros temáticos, lenços relativos à colecção do museu, objectos de cerâmica. A loja do Museu de Etnologia também já está especializada em CD de música popular, livros específicos de antropologia e alguns objectos, como as «t-shirts» relativas a algumas exposições.
A loja do Museu do Chiado, que abriu ao público no dia 12 de Julho, é virada para a contemporaneidade. «Gostava de ir um pouco mais além», continua Simonetta Luz Afonso. «No Chiado vamos ter alguns objectos do arquitecto francês Jean-Michel Wilmotte e estamos a trabalhar com `designers' portugueses, dos quais este museu podia ser uma grande montra. E gostaria que o átrio do Chiado, que tem uma `passerelle' lindíssima, fosse utilizado para passagens de moda contemporânea.»
Paralelamente existem lojas que vendem tudo. Como a remodelada loja de Arte Antiga, um museu central com mais objectos do que os da sua própria colecção. As publicações (catálogos, livros, roteiros) são vendidas em todos os museus. O Museu de Arqueologia vende réplicas próprias e ainda o livro de banda desenhada da exposição «Lisboa Subterrânea».
«Algumas das réplicas têm sido feitas a partir de encomendas para prendas de Natal de empresas. Quando realizamos uma edição destas e conseguimos vender à cabeça 250 exemplares, o custo inicial da edição é quebrado de imediato, o que permite vender ao público a um preço mais acessível e fazer mais edições», explica.
O IPM pede aos conservadores dos museus que escolham entre as suas colecções o que gostariam de ver reproduzido em réplica. Depois, o Instituto procura ver se é ou não exequível e quem o poderá fazer. «Tenho alguma experiência [que já vem da altura em que era conservadora do Palácio de Queluz] do que as pessoas gostam ou não e daquilo que compram», acrescenta. «Hoje em dia, os visitantes gostam de se apropriar do que vêem, é por isso que as réplicas de peças das colecções têm feito tanto sucesso. Elas nunca são absolutamente exactas: há pequenas diferenças em relação ao original que evitam futuras contrafacções. São vendidas com um cartão onde aparece a explicação da peça e em que museu se encontra exposta.»
Actualmente, nas lojas só existem dois vídeos: «Nos Confins da Idade Média» e «Descobrir os Descobrimentos no Museu Nacional de Arte Antiga». O custo da produção é enorme e o escoamento é lentíssimo, por isso viraram-se para os CDI (discos compactos interactivos). No Museu da Música, que abrirá no próximo mês na Estação do Alto dos Moinhos, em Lisboa, o público procurará, através do computador interactivo, todas as informações sobre os instrumentos. Está também a ser produzido um disco para ser vendido no museu. Quanto às publicações, o IPM é agora o distribuidor exclusivo para Portugal dos livros da Réunion des Musées Nationaux.
Números e receitas
Cada museu tem um orçamento anual inscrito no Orçamento do Estado, que assegura o seu funcionamento. A função comercial dos museus (lojas, publicações, etc.) acarreta despesas, mas também gera receitas -- que foram maiores em 1993-94. «O investimento feito foi coberto totalmente pelas receitas. O lucro gerado é desviado no final do ano para o orçamento dos museus e serve para colmatar as despesas e para reinvestir nas lojas. Todas as receitas dos museus são depositadas na conta do IPM», explica o seu vice-presidente, Luís Calado.
Em média, durante o ano passado, 65 por cento do total das receitas dos museus de todo o país resultaram da venda de entradas, trinta por cento do que se vende nas lojas e cinco por cento de outras receitas (como cafetarias e cedências de espaços). Para este ano, e já só em relação aos museus de Lisboa, a previsão do IPM é de que as receitas das lojas sejam iguais às das entradas (50 por cento para cada). Quanto às rendas fixas, que provêm da cedência dos espaços, este ano deverão ascender a 1 200 contos por mês (14 400 contos/ano). Mas a este valor devem adicionar-se as rendas variáveis, que dependem da facturação.
Curiosamente, os museus que têm menos público são os que vendem mais. O Museu dos Coches, o mais visitado, é onde os estrangeiros compram menos. Visitam o museu em grupo, têm pressa e a loja é muito pequena. Os visitantes que compram mais são os que vão sozinhos ao museu. Azulejo e Etnologia vendem muito bem. Aqui a frequência da loja é principalmente de universitários. O catálogo que vende melhor é o da exposição «Escultura Angolana». O catálogo encadernado mais vendido este ano é o de Silva Porto.
Os cartazes não se vendem. «Não vou investir mais em `posters', se não daqui a pouco tenho uma sala cheia. Fiz várias tentativas, de todos os feitios, mas não se vendem. O mesmo não acontece com as gravuras: no Museu das Caldas fizemos um múltiplo do Pedro Cabrita Reis.»
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Skite 94 começa em Setembro
O festival de dança contemporânea Danças na Cidade acolheu, anteontem, no dia do seu encerramento, uma conferência de imprensa para a apresentação do projecto Skite 94, dirigido por Jean-Marc Adolphe. Trata-se de um laboratório artístico internacional de pesquisa e formação que reunirá durante o mês de Setembro, em Lisboa, 120 artistas de várias áreas e nacionalidades. "Invenção, audácia, criação, experimentação, investigação e estímulo" são algumas das palavras que melhor caracterizam a filosofia deste projecto original que apresentará inúmeros espectáculos de dança e realizará "ateliers" pluridisciplinares e "workshops" experimentais sob o título "Fragmentos de Experiências".
O Skite-94 terá início no dia 1 de Setembro, com um espectáculo de Hervé Robbe. Durante o mês de Setembro, entre muitos outros artistas e companhias convidadas, apresentar-se-ão em Lisboa os grupos Artefact (França), Companhia Re.Al e Companhia Clara Andermatt (Portugal), Les Ballets C. de la B. (Bélgica), Random Dance Company (Grã-Bretanha) e Adato (Eslováquia).
O Skite é um projecto do Programa FORCE (Formação Contínua na Europa), da Comunidade Europeia. O Skite-94/Lisboa é uma co-produção Figures du Mouvement, Lisboa-94 e Fundação das Descobertas, em co-realização com o Fórum Dança, Companhia Re.Al, Amascultura/Centro Cultural da Malaposta, Théâtre de la Bastille e Clube Português de Artes e Ideias, entre outros parceiros. M.J.F.
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João Alves deixa o Estrela
A primeira «chicotada psicológica»
João Alves deixou ontem de ser o treinador da equipa de futebol principal do Estrela da Amadora. Ambas as partes entraram em conflito aberto e está assim definida a primeira «chicotada psicológica» da época, que ainda não começou em termos oficiais.
Depois de sexta-feira ter apresentado uma carta de onze reivindicações ao clube, Alves viu-se ontem confrontado com a resposta da direcção, reunida na madrugada do mesmo dia, que o levou, aos microfones da Antena 1, à ruptura definitiva. «Aproveito para dizer ao presidente que já não sou o treinador do Estrela.» Sucinto, o «luvas pretas» acabou por tomar uma posição da qual não podia fugir.
Entre os pontos que pretendia ver esclarecidos, Alves queria uma reparação pública efectuada por todas as pessoas envolvidas no processo; um reconhecimento de Jaime Salvado, presidente do clube, pela quebra do contrato de trabalho, que previa uma consulta prévia ao treinador na dispensa e contratação de jogadores; uma indemnização complementar caso fosse despedido antes do termo do contrato; o afastamento de um funcionário e a contratação de dois atletas.
Ontem, a direcção do Estrela, através de carta entregue ao técnico, não só não aceitou as condições, como exigiu que João Alves «se retracte publicamente face às declarações que prestou à imprensa» e negou que o seu contrato inclua a referida cláusula. O Estrela considera ainda que João Alves «visou criar intencional e premeditadamente um ambiente de desestabilização». Em comunicado, Jaime Salvado e seus pares estabelecem que «há, indiciariamente, justa causa para o Estrela rescindir o contrato de trabalho desportivo que tem com o seu treinador».
Dois anos após ter entrado para o clube, que se encontrava na II Divisão de Honra, e de ter levado o clube às meias-finais da Taça de Portugal em 1993/94 -- troféu que está na sala do clube e que fora conquistado anteriormente pelo mesmo técnico -- Alves saiu do clube em litígio. Em relação a possíveis indemnizações, o Estrela rejeita a ideia. Jaime Salvado diz que Alves já recebeu o subsídio de Natal de 1994 e espera agora que o ex-treinador da equipa «entregue ao clube todas as verbas que recebeu».
A rapidez com que o Estrela quis resolver a situação deveu-se à partida da equipa para um estágio em Castelo de Vide, já amanhã. Acácio Casimiro, que era adjunto de Alves, assume, interinamente, as funções, mas o clube vai procurar um técnico após o estágio.
José J. Mateus
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Artur Jorge ainda não tirou grandes conclusões, após a primeira semana de trabalho
Benfica à procura do caminho
Da nossa enviada
Berta Rodrigues, em Nyon
Uma semana depois do início do estágio do Benfica, o primeiro balanço, diz Artur Jorge, é positivo. Mas é apenas isso, o primeiro. Ainda há muita coisa por definir, os jogadores ainda não estão no seu pico de forma e estão tensos com tudo isso. Definida parece estar a situação de Bennett -- não serve ao Benfica.
«Estamos a começar, estamos numa primeira fase em que as pessoas ainda não estão completamente à vontade, ainda com uma certa cerimónia de parte a parte, os jogadores ainda não estão confiantes, estão com medo.» As palavras são de Artur Jorge, no primeiro balanço deste estágio do Benfica, que começou há uma semana em Nyon, na Suíça. «E isso viu-se nos jogos, parece que estavam a fazer um exame de 4ª classe», continua o novo treinador do Benfica.
Ainda há muita coisa por definir, neste «grupo de trabalho», designação que Artur Jorge usa, em vez da de equipa. Há jogadores para vir, outros que poderão não ficar, outros ainda que acusaram o esforço dos primeiros dias de trabalho intenso. Motivos suficientes para explicar a reacção tensa e pouco esclarecida dos jogadores, nos dois primeiros jogos da equipa -- dois empates com clubes suíços, o Grasshopers, da I Divisão (2-2), e o Carouge, da II Divisão (1-1).
O técnico assume esse clima de tensão, mas também responsabiliza os jogadores: «Se calhar nem toda a gente vai ficar, toda a gente não sabe exactamente onde é que está, estão à procura de si. E alguns jogadores não pensaram muito no princípio da época, chegou tudo com quilómetros a menos. Houve lesões a mais, dores musculares a mais, reacções um bocado mais demoradas.»
De fora dos jogos da equipa ficaram, por lesões diversas, sete jogadores -- João Pinto, Mozer, Veloso, Paulo Bento, César Brito, Nuno Afonso e Hugo Costa. O que, é certo, reduzia as opções de Artur Jorge e retirava alguma «veracidade» à exibição do conjunto. Antes e depois dos jogos, Artur Jorge não se cansou de lembrar isso, de dizer que as duas partidas não iriam passar de treinos.
Mas não pode fugir à expectativa que se criou em torno dos primeiros jogos do Benfica 94-95. Tanto mais aqui, num país onde há dezenas de milhares de emigrantes portugueses. Era inevitável que os pequenos estádios onde o Benfica esteve se enchessem. Em Friburgo, como em Genebra, milhares de portugueses pagaram (e não foi pouco, havia bilhetes a 35 francos, mais de quatro contos) para ver jogos que de modo algum os satisfizeram. E a transmissão em directo, pela TSF, do primeiro jogo, deu a tudo isto uma dimensão enorme.
Ao que Artur Jorge responde, divertido: «Acho graça a tudo isto. O Benfica vem fazer dois jogos com duas pequenas equipas, e são transmitidos para Portugal. Acho extraordinária esta capacidade de intervenção. Mas, sinceramente, isto não tem importância nenhuma.» Os jogos-treino, insiste Artur Jorge, não passaram disso: «Não são jogos, jogámos sem seis ou sete jogadores. Não houve indicações nenhumas. Os jogadores estavam cansados, e as conclusões que tirei não são brilhantes. Não se adiantou muito.»
Este ainda não é o Benfica 94-95. Artur Jorge continua à espera de decisões quanto a contratações de homens para a linha mais avançada e vai decidir ainda de quem vai prescindir. E tem mais problemas para resolver, nomeadamente no meio-campo, com as saídas de Rui Costa e Stefan Schwarz. Para os seus lugares, diz o técnico, não vai entrar mais ninguém, para além dos reforços portugueses que já estão integrados no plantel, como Tavares, Nelo ou Paulo Bento. «Saíram dois jogadores que jogavam no meio-campo, jogadores com alguma importância. Vamos tentar encontrar novos jogadores, jogadores que já temos, que vieram para o Benfica. São jogadores sem grande nome, mas com alguma experiência. E sobretudo com bom comportamento e bom carácter.»
Os dois primeiros já jogaram, Tavares com uma primeira exibição agradável e outra mais dispersa, Nelo com dificuldades notórias. «Temos de lhes dar tempo para eles se encontrarem», diz Artur Jorge. Para o sector mais avançado, continua o técnico, resta esperar: «Queria ter dois jogadores na frente, são situações que a gente vai continuar a estudar.
Preciso de dois ou três jogadores que possam ajudar o grupo a ficar mais compensado, mais equilibrado.»
Quanto a dispensas, nomeadamente de jogadores estrangeiros, na eventualidade de virem novos reforços, Artur Jorge prefere ainda não adiantar nada. «É evidente que não podemos ficar com toda a gente. São tudo questões para irmos vendo, vamos ver os jogadores que vêm, as carreiras destes jogadores...»
Quem já nem deverá seguir para Lisboa é Eduardo Bennett, o avançado hondurenho que está com a equipa desde o início do estágio, em observação. Bennett entrou nos dois jogos, em substituição de Ailton, primeiro, e de Kenedy, depois, mas não convenceu -- poucas vezes conseguiu que lhe passassem a bola, e mostrou poucas soluções. «Há mais cinco treinos para fazer, ainda é cedo. É um jogador com boas qualidades, mas talvez não tenha o que falta ao Benfica», comenta Artur Jorge.
Apesar de tudo, diz o técnico, «o primeiro balanço é positivo». «Mas é pouco importante», insiste, antes de dizer que a partir de agora vai ser melhor: «Os jogadores já estão a passar esta primeira fase, já se sabia que era a fase mais complicada.»
Faltam agora mais dois dias de estágio, novamente muito intensos, com dois treinos diários e um na manhã do regresso. «A segunda fase» desta preparação da temporada, diz Artur Jorge, «começa em Lisboa». É já na próxima semana. O Benfica a 100 por cento, não se sabe quando é que arranca: «Quando conseguirmos um ou dois jogadores que nos fazem falta. Há coisas que se vão compondo, é um caminho que não pára. Espero que seja o mais depressa possível.»
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Open Britânico em golfe
Ainda há sete candidatos
Quando hoje se começar a jogar a última volta do Open Britânico em golfe, terceira prova do Grand Slam da temporada, que decorre no percurso de Turnberry, Escócia, sete jogadores, separados por apenas duas pancadas de diferença, têm hipóteses de receber o famoso «jarro « que anualmente distingue o vencedor da mais antiga das competições golfísticas, bem como o cheque de 27 mil contos reservado ao campeão.
Para já, a vantagem vai para os norte-americanos Fuzzy Zoeller e Brad Faxon, que partilham a liderança da prova com um agregado de 201 pancadas, depois de terem feito voltas respectivamente de 64 e 67 pancadas.
Segue-se, a uma pancada de distância, um quarteto de jogadores constituído pelo zimbabweano Nick Price, pelo sueco Jesper Parnevik, pelo norte-irlandês Ronan Rafferty e pelo norte-americano Tom Watson, que liderava a prova após as duas primeiras jornadas. O sétimo jogador é o irlandês David Feherty, que soma apenas mais um «shot» do que este grupo de jogadores.
A lista de vencedores do Open Britânico demonstra que apenas os grandes jogadores, ou os que já estiveram perto de o vencer, aí conseguem triunfar, pelo que, dos sete candidatos, se podem eliminar alguns, como Ronan Rafferty, um profissional cuja nota de maior realce na sua carreira aconteceu quando foi primeiro classificado na Ordem de Mérito europeia de 1989, não confirmando posteriormente a expectativa que esta proeza criou em redor da sua figura.
David Feherty e Jesper Parnevik estão na mesma linha de Rafferty: são bons jogadores do circuito europeu mas sem categoria, pensa-se, para alguma vez conseguirem triunfar numa prova do Grand Slam. O caso de Brad Faxon é ligeiramente diferente, já que, sendo ele um jogador regular do muito mais forte e competitivo «tour» norte-americano, está em melhores condições para causar a surpresa do ano.
O favoritismo fica assim entregue a Fuzzy Zoeller, Tom Watson e Nick Price, sobretudo a este último, quarto do «ranking» mundial e, sem dúvida, um dos melhores jogadores da actualidade. O zimbabweano esteve perto de vencer o Open Britânico em 1982 e 88, mas nunca conseguiu aguentar-se nas rectas finais daquelas edições. Agora, novamente seis anos depois, já com uma prova do Grand Slam no seu currículo (o Campeonato do PGA de 1992) pode ser que consiga finalmente ser bem sucedido.
Quantos aos outros dois jogadores, Zoeller e Watson, ambos já veteranos, têm a seu favor uma enorme experiência e não menos sucessos em «majors». Mas os norte-americanos torcem pelo segundo, uma autêntica lenda viva da modalidade que, caso conseguisse vencer, igualaria o recorde de vitórias no Open Britânico, que pertence a Harry Vardon desde 1914. Seria um feito histórico, sem dúvida.
Resultados após a terceira ronda: 201-- Fuzzy Zoeller (71-66-64), Brad Faxon (69-65-67); 202 -- Ronan Rafferty (71-66-65), Nick Price (69-66-67), Jesper Parnevik (68-66-68), Tom Watson (68-66-69); 203 -- David Feherty (68-69-66); 206 -- Davis Love III (71-67-68), Loren Roberts (68-69-69), Greg Turner (65-71-70); 207 -- Ernie Els (69-69-69), Vijay Singh (70-68-69).
Rodrigo Cordoeiro/Pluripress
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«Tour»
Feliz aniversário, Miguel
O dinamarquês Bjarne Riis venceu ontem a 13ª etapa da Volta a França em bicicleta, disputada entre Bagnères-de-Bigorre e Albi, na distância de 223 km, no dia em que o camisola amarela, o espanhol Miguel Indurain, completou o seu 30º aniversário, tendo recebido uma inesperada «prenda»: a desistência do seu principal rival, o suíço Tony Rominger.
Rominger, que à partida para a etapa do dia era segundo classificado na geral, embora a 7m56s Indurain, abandonou a 40 km da chegada, depois de já ter perdido o contacto com o pelotão. Segundo o médico da equipa Mapei, que lhe diagnosticou uma gastro-enterite, Rominger ainda estava bem na véspera do contra-relógio individual. No entanto, a ingestão de algo que não estaria em perfeitas condições provocou-lhe grandes desarranjos intestinais. O próprio ciclista suíço já suspeitava que os seus problemas de saúde tivessem origem num vírus intestinal, aguardando apenas a confirmação do resultado dos exames.
Indurain ficou então mais só, passando a ter a concorrência directa do francês Richard Virenque, grande vencedor da tirada de alta montanha, embora a diferença para o líder não tenha sido alterada. Virenque vai ter que gerir a mesma desvantagem de 7m56s nas próximas etapas.
A jornada de ontem foi de transição dos Pirenéus para as planícies do Languedoc e, mesmo com uma fugaz passagem pela montanha, o ritmo imposto voltou a ser muito vivo, com a média do vencedor a atingir os 42 km/h, sob calor intenso e vento lateral forte.
Só a 60 km da meta teve sucesso uma das muitas tentativas de fuga, destacando-se sete corredores (Riis, Van Hooydonk, Museeuw, Alcala, Chioccioli, Cenghialta e Breukink). O ciclista dinamarquês conseguiu isolar-se e a 21 km da chegada logrou alguma vantagem sobre os companheiros de fuga, entretanto absorvidos pelo pelotão, cifrando-se em 7s a diferença para o eslovaco Jan Svorada, melhor que o uzbeque Djamolidine Abdoujaparov no «sprint» para o segundo lugar.
Bjarne Riis, que pela segunda vez triunfou em etapas no «Tour», concluiu a etapa com o tempo de 5h14m48s. O camisola amarela, com uma jornada calma, para mais em dia de aniversário, terminou englobado no pelotão, a 9s de Riis.
A etapa de hoje, a 14ª, disputa-se entre Castres e Montpellier, um percurso plano de 202 km.
Entretanto, a classificação geral está assim ordenada: 1º Indurain, 63h18m36s; 2º Richard Virenque, a 7m56s; 3º Armand de las Cuevas, a 8m02s; 4º Luc Leblanc, a 8m35s; 5º Vladimir Poulnikov, a 11m30s.
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Liga adia arbitragem
A Assembleia-Geral da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP), ontem reunida em Leiria, adiou a discussão e aprovação dos regulamentos da disciplina e arbitragem, limitando-se a aprovar o regulamento de competições das provas a organizar este ano. Para o major Valentim Loureiro, presidente da LPFP, não existe ainda generalizado consenso quanto ao assunto da nomeação dos árbitros, pelo que a discussão do tema será adiada para outra oportunidade. Entretanto, ficou decidido que os encontros do «Nacionais» da I e II Divisão de Honra a disputar de 1 de Agosto a 25 de Setembro terão início às 17h00, aos fins-se-semana, e às 18h00, nos dias úteis. A partir de 26 de Setembro, o horário de início passará a ser às 15h00, voltando às 17h00 no período de 27 de Março a 31 de Julho.
Benfica apadrinha aniversário do Boavista
O Boavista vai defrontar o Benfica no próximo dia 31, no Bessa, às 21h00, num jogo de futebol que servirá de apresentação aos sócios da equipa boavisteira e de comemoração do 91º aniversário. Na ocasião, é provável que o Boavista já apresente os dois benfiquistas que deverão transferir-se para o clube de Valentim Loureiro, César Brito e Paulo Madeira, envolvidos na transferência de Tavares e Nelo para a Luz.
Japão candidato ao «Mundial»
A candidatura japonesa à organização do Campeonato do Mundo de futebol de 2002 foi formalizada na Califórnia e os responsáveis nipónicos afirmaram ter assegurada uma percentagem de espectadores entre os «96 e 100 por cento das lotações» dos estádios. Para alojar tanto entusiasmo, o Japão propõe-se construir 15 novos estádios, com capacidade entre os 50 e os 70 mil espectadores. O inglês Bobby Charlton é um dos apoiantes do projecto: «Sendo a França o país organizador do `Mundial'-98, torna-se assim impossível à Inglaterra apadrinhar a edição do ano 2002», explica o campeão mundial de 1966. O grande rival dos japoneses na corrida pela nomeação para sede do primeiro Campeonato do Mundo do século XXI será a Coreia do Sul, já que parece óbvia a vontade da FIFA organizar o torneio num país asiático. A decisão será tomada nos próximos dois anos.
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Doohan na «pole» em Le Mans
O piloto australiano Michael Doohan, em Honda, largará hoje da primeira linha da grelha de partida para a corrida de 500cc do Grande Prémio de França em motociclismo, nona prova do «Mundial» de velocidade, que se disputa no circuito Bugatti, em Le Mans. Sem que tivesse conseguido melhorar a cronometragem na primeira sessão de treinos oficiais -- 1m40,759s -- Doohan não viu o seu tempo superado por qualquer outro concorrente, embora o italiano Luca Cadalora, em Yamaha, tivesse ficado muito perto, melhorando a marca da véspera e fixando-a em 1m40,944, apenas mais 185 milésimos que o registo de Doohan. Por sua vez, o norte-americano campeão mundial Kevin Schwantz, que detinha o segundo tempo, viu-se batido por Alberto Puig (Honda) e por John Kocinski (Cagiva), sendo assim relegado para a segunda fila da grelha. Em 250cc, o italiano Doriano Romboni, em Honda, fez o melhor tempo (1m42,967s), trocando a posição com o seu compatriota Massimiliano Biaggi, em Aprilia (1m43,322s). Em 125cc, Kazuto Sakata (Aprilia) lidera o trio de japoneses mais rápidos em pista, com o tempo de 1m50,552s. Noboru Ueda e Taekeshi Tsujimura, embos em Honda, foram os únicos a rodar no mesmo segundo.
Rui Costa venceu na Régua
Rui Costa em Morris Coopers, foi o vencedor da IX Rampa da Régua, prova pontuável para o Troféu Nacional de Clássicos Velocidade. Rui Costa cumpriu o traçado da rampa que utilizou a estrada nacional que liga a Régua a Santa Maria de Penaguião em 1m48,955s, à média de 99,12 km/h, deixando Mário Silva, em Ford Escort RS, a 1,039s (1m49,994s). A terceira posição foi de Júlio Guedes, em Ford Escort RS 1600, com 1m51,801s, na 2ª subida, à frente de Alberto Freitas, em Morris 1275 GT, com 1m52,013s, e de Rodrigo Gallego, em Porsche 911 R, com 1m53,130s, obtido na 1ª subida de prova. Classificação: 1º Rui Costa, Morris Cooper S, 1m48,955s; 2º Mário Silva, Ford Escort RS, 1m49,994s; 3º Júlio Guedes, Ford Escort RS 1600, 1m51,801s; 4º Alberto Freitas, Morris 1275 GT, 1m52,013s; 5º Rodrigo Gallego, Porsche 911 R, 1m53,130s; 6º Carlos Alves, Opel 1904 SR, 1m57,366s; 7º António Bento, BMW 2002, 2m00,229s; 8º Carlos Barbot, Austin Healey 3000, 2m00,312s; 9º Joaquim Bessa, Porsche 911, 2m02,423s; 10º Rui Cordeiro, Austin 1275, 2m04,557s.
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As primeiras impressões de um grupo de trabalho
Mozer é um veterano, João Pinto também já leva muitos anos disto, ambos têm uma sólida experiência de Benfica. Tavares chegou agora, Ailton está no segundo ano. Filipovic também se está a estrear, mas na equipa técnica «encarnada». Os primeiros estão lesionados, Tavares e Ailton já jogaram. E Filipovic já tem ideias sobre o que é trabalhar no Benfica. Estas são as suas impressões dos primeiros dias do Benfica 94-95.
Os primeiros treinos foram intensos. Duas vezes por dia, durante duas horas e meia, os jogadores não pararam de correr e fazer preparação física, sempre com bola. «Foi uma forma de treino completamente diferente, puxada. Trabalhamos muito a condição física em termos globais, `endurance', tudo ao mesmo tempo.» Mozer, que está limitado por uma «inflamação no tendão rotuliano», resume assim o trabalho destes dias. E continua: «É importante para uma equipa como o Benfica, dá uma mentalidade mais agressiva.»
João Pinto, que se queixa de uma dor no tendão de Aquiles, provocada pela bota velha que teve de usar por lhe terem «roubado as outras no final do campeonato», diz apenas que «com bola, o jogador entretém-se mais, sente menos o cansaço». Quanto a Tavares, seu antigo companheiro no Boavista, mostra-se satisfeito. E diz que estes treinos até são menos duros que na sua última equipa, onde «só se usava bola no treino da tarde».
Dos jogos da equipa, todos dizem o mesmo -- é ainda o princípio de época. Mozer, que viu de fora, resume: «Há um período de adaptação, onde se misturam jogadores de fora com jogadores da casa, as pernas estão ainda a aprender o ABC.» Tavares, que viu de dentro, assume que estiveram «inseguros». «Mas os primeiros jogos são muito difíceis.»
Elogios ao técnico
Sobre o novo técnico, os jogadores manifestam opiniões diversas. Mozer: «Artur Jorge é uma pessoa que tem o seu modo de estar, ao princípio, mas está a ser o contrário daquilo que se falava.» O que é que se falava? «Aquilo que pintaram é que era um homem que não dizia `bom dia', e é completamente ao contrário. Está sempre a querer saber o que nós estamos a pensar, e é uma pessoa séria e aberta.»
Ailton tem outra impressão: «Quase não conversa, a não ser as coisas que deve dizer um treinador que procura um trabalho sério, traz confiança ao grupo. É uma pessoa que gosta de ganhar, um treinador de nível bastante elevado.» De resto, João Pinto diz que o relacionamento com o técnico tem sido «normal» -- «fala connosco antes dos treinos e sempre que é necessário» --, enquanto Tavares leva vantagem, porque já trabalhou com Artur Jorge: «Connosco fala o essencial, e quando tem de dizer alguma coisa chama o jogador à parte.»
Sobre o futuro, Mozer e João Pinto dizem que querem fazer «melhor que no ano passado». Tavares garante que vai «lutar para ser titular», e Ailton mostra-se mais preocupado, nomeadamente com a eventualidade de virem mais estrangeiros: «Temos de esperar uma definição do treinador. E a continuidade vai depender da prestação dentro do campo. Mas o meu objectivo é fazer um bom campeonato no Benfica.»
Quem se está a estrear no Benfica é Filipovic que, com Neca, completa a equipa técnica «encarnada». Até agora, diz Filipovic, o «trabalho foi volumoso», mas serviu os objectivos: «Foi importante para nós, para conhecermos os jogadores e conhecermo-nos a nós.» O que é trabalhar num clube como o Benfica, diz Filipovic, percebe-se bem ao ver todo o entusiasmo, e as críticas, que rodearam os dois primeiros jogos da equipa.
Pressão acrescida, também para os jogadores: «Exige-se que se ganhe sempre. E temos de ir para a frente, com muito trabalho e ambição, que tem de ser transmitida ao grupo de trabalho. É muito importante que eles sintam essa pressão, é por isso que estão no Benfica, porque têm qualidades para isso.»
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«Meeting» de atletismo de Londres
O'Sullivan bate recorde europeu dos 3000 metros
A irlandesa Sonia O'Sullivan foi a autora da grande proeza do «meeting» de atletismo de Londres, anteontem à noite, a contar para a I Divisão do Grande Prémio da FIAA. Com 8m21,64s estabeleceu um novo recorde europeu para os 3000 metros, tornando-se, assim, a primeira não-chinesa a ultrapassar o prestigioso tempo da soviética Tatyana Kazankina, estabelecido em Leninegrado (hoje São Petersburgo) a 26 de Agosto de 1984, e que era de 8m22,62s.
Uma semana depois de ter conseguido o primeiro recorde mundial da sua carreira, na pouco concorrida prova de 2000 metros, O'Sullivan, que tem 24 anos (nasceu a 28 de Novembro de 1969), estabeleceu agora uma marca muito significativa, que a qualifica como favorita para os Campeonatos da Europa de Helsínquia, onde tentará apagar a desilusão do ano passado, dos «Mundiais» de Estugarda, onde não pôde ir além do quarto lugar, devido precisamente, às fundistas chinesas.
Depois do furacão chinês do início de Setembro, a irlandesa afirmou que se iria preparar especialmente para em 1994 se aproximar das asiáticas, e pelos vistos deu agora o primeiro passo. O seu melhor resultado anterior era de 8m28,74s, estabelecido no «meeting» de Oslo do ano transacto, em que ganhou. Anteontem, ficaram atrás dela a britânica Yvonne Murray, com 8m29,60s e a canadiana Angela Chalmers, com 8m38,72s.
O meio-fundo foi dominante na reunião londrina, mesmo para além do novo recorde. Nos 5000 metros, os quenianos reinaram por completo e colocaram três homens nos lugares cimeiros -- o campeão mundial de crosse William Sigei, com13m06,72s, Paul Bitok, com 13m07,30s, e Simon Chemwoyo, com 13m07,58s. Trata-se de três recordes pessoais, nem menos, a mostar como engrossa a cada dia o caudal dos candidatos ao máximo mundial do etíope Gebresilasie (13m56,96s). Nos 1500 metros masculinos, o argelino Noureddine Morceli, desta vez sem oposição, ficou a 11 centésimos da sua melhor marca anual, com 3m30,72s.
Fora do meio-fundo, as vedetas da reunião foram o cubano Javier Sotomayor e o americano Jon Drummond. «Soto» voltou a planar muito acima de toda a concorrência no salto em altura (desta vez 16 centímetros), com 2,41m, uma marca que actualmente só ele é capaz de fazer; Drummond, por seu lado, infligiu uma nova derrota ao britânico Linford Christie em 100 metros, com 10,03s contra 10,07s deste. Christie abandonou a pista a coxear e declarou ir agora deslocar-se à Alemanha para tratar uma alegada lesão...
No dardo feminino, a bielorrussa Natalya Shikolenko teve a pontaria suficiente para igualar o seu recorde nacional deste ano (e melhor marca mundial), com 71,40m. Mas a luta pelo triunfo foi cerrada, tal como promete ser em Helsínquia, com a norueguesa Trine Hattestad só a 32 centímetros.
Quem continua a afirmar a sua classe é o norueguês Vebjoern Rodahl, que uma vez mais bateu os quenianos (e os outros) em 800 metros, agora com 1m45,10s. Desta feita nada impediu, como em Lausana, o duelo até ao final entre Sally Gunnell (GB) e Kim Batten (EUA) em 400 metros barreiras. A primeira ganhou com 54,04s contra 54,22s, tirando dois centésimos ao seu melhor registo mundial da temporada.
Luís Lopes
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<DATE>19940717</DATE>
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Petrogal entre as maiores
A Petrogal ocupa a 394ª posição no «ranking» das 500 maiores empresas mundiais elaborado pela revista «Fortune». A empresa portuguesa subiu duas posições face ao seu posicionamento do ano passado, uma ascenção que tem a ver com a subida de 7,4 por cento do seu volume de vendas. O principal critério da lista da revista é a facturação das empresas, mantendo-se no primeiro lugar o gigante norte-americano General Motors.
ACE com presidente
Ilídio Prata, 54 anos, será o primeiro presidente do Acordo Complementar de Empresas (ACE) -- Vitrocristal --, a sociedade que terá por funções acompanhar a reestruturação e modernização do sector de cristalaria português. O ACE terá a sua primeira assembleia geral do próximo dia 25, da qual sairão os seus corpos dirigentes. Indigitado pelo Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas, Ilídio Prata já trabalhou no sector do vidro, como administrador entre 1984 e 1990 da CIVE, e foi um dos interessados na aquisição da Fábrica Escola Irmãos Stephens.
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<DATE>19940717</DATE>
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Certificado sobre proveniência e data de pescado continua a não existir
Qual é afinal o peixe português?
Daniel Deusdado
Na lota de Matosinhos, um dia depois do fim da greve, o movimento é o mesmo de sempre. O peixe chega e os comerciantes dão ordens de compra em lota. Os barcos portugueses vivem este mês um momento de pesca satisfatório, já que no Verão aumenta o consumo de peixe fresco e o bom tempo ajuda as pescarias. A agitação vivida nas duas últimas semanas acalmou com a reunião entre o sindicato da pesca de arrasto e o ministro. Mas, e agora?
As novas medidas saídas da reunião da passada segunda-feira entre o ministro do Mar e o Sindicato Livre dos Pescadores centraram-se na adopção de mais fiscalização sobre o peixe importado, mas não abordaram um ponto fundamental: há algum consumidor de peixe fresco em Portugal que saiba de onde vem o produto que está a comprar? E que saiba se ele é realmente fresco?
A falta de um certificado que indique a designação da origem e a data de validade para consumo é uma das maiores justificações para o que aconteceu nas duas últimas semanas. O peixe colocado nas bancas dos mercados ou das lojas não tem nenhuma especificação e os consumidores só se podem guiar pela maior ou menor experiência na compra de peixe. Daqui sobram responsabilidades vastíssimas para o Ministério do Mar, que, apesar de rodeado por uma verdadeira panóplia de técnicos e organismos de pesquisa e apoio ao mercado, não consegue operacionalizar medidas que ajudem os consumidores e até os pescadores portugueses. Assim, em Portugal ninguém sabe o peixe que come.
Os espanhóis vendem mais barato?
A falta de certificação não consegue esconder um problema: o peixe espanhol que chega a Portugal é, por vezes, mais barato e pode até ser mais fresco do que o português. No caso do carapau, a questão é relativamente simples: os espanhóis comem muito pouco esta espécie. Mas como a pesca de arrasto (redes que arrastam tudo o que apanham quando o barco passa) traz carapau ao capturar outras espécies, este peixe é aproveitado para venda em Portugal. E os preços podem variar consoante a oferta: desde 500 escudos a caixa até dois, três ou quatro contos.
Os pescadores de arrasto portugueses têm mais dificuldade em praticar preços destes. Se querem apanhar carapau em quantidade têm de ir pescar a águas galegas (aproveitando os acordos bilaterais entre Portugal e Espanha). A deslocação dos arrastões faz-se por três, quatro ou cinco dias de viagem e o resultado da pescaria não abona, muitas vezes, a favor do peixe capturado: metido normalmente à pazada para dentro dos porões durante dois ou três dias, sem acomodação que o resguarde do esmagamento e apenas com gelo que o refresca (não congela), o carapau chega a terra com um grau de frescura que muitas vezes não é maior do que o pescado pelos galegos. E na descarga volta a ser tirado do arco como calha, vai para a Docapesca (lota) para ser lavado, metido em cestos e esperar (às vezes horas) para ser vendido.
Os espanhóis podem sair de manhã dos portos de Vigo ou da Corunha e voltar à noite com o peixe. Podem, em alguns casos, fazer pescarias mais longas, mas acomodam o peixe em caixas de 12 quilos, e isso é suficiente para que chegue em melhor forma ao mercado, porque não necessita de manuseamento desde que sai do barco até às lojas. Claro que há barcos espanhóis onde o tratamento do pescado é deficiente, mas a regra acondicionar bem o peixe, enquanto cá essa é a excepção.
Porque não é embalado o peixe português?
Há quem afirme que a razão mais forte da greve foi a introdução das caixas a bordo dos arrastões. Como dizia uma organização de armadores ao PÚBLICO, «as coisas têm de ser feitas devagar, porque os pescadores, que andam há muito tempo nisto e sempre fizeram as coisas duma maneira, não vão de repente querer mudar para outra». O facto é que a Opesca (associação dos armadores da pesca do arrasto e pesca longínqua, com sede em Aveiro) introduziu as ditas caixas -- financiadas pelo Governo -- em algumas embarcações. O resultado foi que o peixe acondicionado em caixas conseguiu vender-se a mais 30 escudos por quilo, porque os comerciantes presentes na lota o consideraram em melhor estado.
Durante a greve do arrasto, o PÚBLICO ouviu pescadores. Em sua opinião, é difícil trabalhar com as caixas a bordo porque o curto período que medeia entre os lançamentos da rede, quando se detecta peixe, e a sua recolha não dá muito tempo para se fazer uma embalagem como deve ser. Além do mais, o frio no mar e o balancear dos barcos, acrescidos da ideia de «mais trabalho para o mesmo dinheiro», não torna a nova medida atractiva.
No comunicado lançado ao quinto dia de greve, os armadores afirmavam ir melhorar ligeiramente as condições dos pescadores através do pagamento de uma pequena percentagem sobre o peixe retirado do mercado (por não ser vendido). Quando, por exemplo, o carapau não é vendido, os armadores recebem um preço mínimo por quilo (5600), dinheiro que durante muitos anos veio do Orçamento do Estado e que agora provém dos fundos comunitários. Mesmo assim, esta verba fica longe dos cem ou 150 escudos que o carapau pode atingir em lota, e o acréscimo dos preços beneficiaria, por si só, os pescadores (que ganham uma percentagem sobre as vendas).
O dinheiro recebido pelos armadores quando o peixe não é vendido funciona como um mecanismo de compensação criado para a agricultura -- a Comunidade pagava aos agricultores pela produção mesmo que não houvesse comprador. Só que na pesca estes preços nunca foram compensadores, de modo a valer a pena aos barcos «trabalharem para a farinha» (destino dado ao peixe não vendido). Mesmo assim, o peixe continua por embalar...
Quem ganha mais dinheiro nestes negócios?
Quando os barcos vão para o mar, os objectivos podem ser dois: ou trazer a maior quantidade possível ou ir a pesqueiros próximos do porto para trazer o peixe no menor período de tempo. Chegados às docas, é descarregar, fazer as contas aos gastos e às receitas e logo ver no que deu. Este aspecto final encerra em si o ponto nevrálgico. Os pescadores não querem, ou não conseguem, dar o salto para o lado da comercialização.
Quarta-feira, 12 horas. Na lota de Matosinhos, o dia ia excelente em sardinha, apesar de os barcos terem chegado tarde do mar, por causa do nevoeiro. Os cabazes passam em cima das camionetas de caixa aberta perante a bancada de compradores. Para um cabaz de 22 quilos, os preços variam entre os mil e os 2600 escudos (o que dá uma média de 65 escudos por quilo). Nesse dia, ninguém conseguirá comprar sardinha nas lojas ou no mercado a menos de 180 escudos por quilo.
Ou seja: é no comércio que fica grande parte dos lucros. E, quando se diz comércio isto significa, em geral, várias mãos: os grandes comerciantes instalados nas lotas, e os que compram a estes para vender ao público. Normalmente é quem vende ao público que trabalha com margens de lucro sempre na ordem dos cem por cento, atingindo percentagens tanto maiores quanto mais barato for o peixe.
Por que não há pescadores-comerciantes?
Com este retrato, claro se torna que o negócio não é só produzir, mas também vender no mercado. Mas as empresas de pesca não se mostram preparadas para entrar num ramo pelo qual nunca se interessaram. Actualmente, estão de tal modo afogadas em dívidas bancárias contraídas a altas taxas de juro que não podem ter a veleidade de novos negócios.
As coisas andaram assim porque até à adesão à Comunidade, e mais particularmente até 1993, os pescadores dominaram completamente os preços do peixe. A venda em leilão obrigou os comerciantes, e por consequência os consumidores, a comprar aquilo que existia. A partir de 1 de Janeiro de 1993, a livre circulação de produtos permitiu a entrada em cena dos espanhóis. E desde aí que os valores em lota deixaram de funcionar com forma de pressão, atingindo níveis idênticos aos do princípio da década de 80. Talvez agora começasse a fazer sentido para os armadores tentarem encontrar parceiros comerciais ou irem para o outro lado do mercado obter lucros que permitam aguentar a concorrência espanhola e de outros países e ganhar o dinheiro que não conseguem só no mar.
Por que há cada vez menos barcos?
A dupla vertente modernização-comercialização poderá levar um empurrão com o novo pacote comunitário de 69 milhões de contos, a apresentar amanhã pelo Governo. Dos anteriores fundos, ressaltam à vista largos investimento em barcos da «frota do bacalhau», que depois não encontraram águas internacionais para pescar. Quanto à pesca da sardinha e do arrasto, já foram feitos alguns investimentos que permitiram modernizações, e sobretudo abates. «Como os preços estavam cada vez mais baixos, tivemos de abater barcos para intervir no mercado pelo lado da oferta, capturando menos peixe», diz Agostinho Mata, da Propeixe.
Pena é que a razão dos abates vá mais fundo. Quer dizer, os pescadores, na impossibilidade de venderem mais peixe por causa da concorrência, têm abatido barcos. Com menos embarcações e menos captura, os preços sobem e os barcos ganham mais do que se viessem carregados.
Este tem sido o logro em que têm caído os armadores e o Governo: para responder a menos procura na lota, respondem com menos peixe. Mas será que os portugueses deixaram, de repente, de comer peixe? A resposta é obviamente `não'. O problema é que a procura em lota diminui porque cada vez mais os comerciantes recebem o peixe «em casa». De Espanha e de outros sítios. Se se mantiver a pouca agressividade comercial, serão necessários cada vez mais abates.
Curiosamente, estão previstos 20 milhões de contos para abates entre 1994 e 1999. É a política comunitária do não aumento das capturas a vir ao de cima, correspondendo a uma rentabilização das frotas mais eficaz do que a já existente. Salve-se, porém, o princípio instituído de 13 milhões de contos para construção de novos navios ou modernização dos existentes e oito milhões para apoiar a comercialização.
Pode alguma coisa mudar rapidamente?
Acelerar o processo de modernização tem sido difícil. Mudam-se os barcos, mas as cabeças não mudam com a mesma facilidade. Trata-se de um dos sectores mais tradicionalistas da economia portuguesa e não é por acaso que um eminente problema de competitividade, como o do carapau, acaba, antes de qualquer resolução, por ir cair à porta do ministério que tutela o sector, mesmo que seja inteiramente justa a queixa sobre a inoperacionalidade da fiscalização. Mais subsídios do que nas pescas, só na agricultura... apesar dos pesados encargos, ao nível dos juros, que as empresas de pesca estão a suportar e de anos em que não abundaram as espécies no mar.
Mas as coisas começam a falhar desde logo nos organismos ligados ao Ministério do Mar, que acumulam técnicos qualificados e resultados de pesquisas que não conseguem fazer passar aos pescadores e armadores. A melhoria das técnicas de captura, o conhecimento das nossas águas, o incentivo ao consumo de peixe através de campanhas de promoção, a divulgação de processos de transformação do peixe em produtos de maior valor acrescentado (o «pâté» de sardinha é um exemplo) ou as técnicas de o cozinhar sem cheiro são dados prometidos mas não divulgados.
No sector as coisas correm ainda ao sabor de outras eras, cheias de esquemas paralelos e costumes que se tornaram lei, e tão lentamente quanto o Tejo em dia de Verão... A mudança não vai ser fácil.
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Notícias de que uma segunda vaga de fortes geadas ameaça a produção de café do Brasil fizeram esta semana disparar os preços para o seu máximo dos últimos oito anos.
Variedade Arábica
Maior quantidade e melhor qualidade dos grãos de café
Variedade Robusta
Qualidade e preço inferiores, mas a planta é mais resistente e cresce mais facilmente
Arábica
Robusta
Ambas
Grãos de café
Planta do café
Brasil
Maiores produtores mundiais de café 1992-93
Milhares de sacas
Brasil
Colômbia
Indonésia
Guatemala
Costa Rica
México
El Salvador
Vietname
Costa do Marfim
Uganda
Produção total mundial de café
Milhares de sacas (60 Kg)
Indicador compósito de preço*
Cêntimos de dólar por libra
* Médias mensais
Fonte: Organização Internacinal do Café, «The Oxford Book of Food Plants»
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<DATE>19940717</DATE>
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<AUTHOR>APC</AUTHOR>
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Saeb Erekat, membro da Autoridade Nacional Palestiniana, ao PÚBLICO
«Sem Jerusalém não haverá paz»
Alexandra Prado Coelho
É uma das figuras mais respeitadas de Jericó e um dos novos «ministros» de Arafat. Saeb Erekat, que tem estado a trabalhar «no terreno» para que a autonomia palestiniana funcione afirma que se esta não for alargada ao resto da Cisjordânia dentro de três meses o acordo de paz falhará. Assim como falhará se Israel não aceitar discutir a questão de Jerusalém. Os palestinianos foram os primeiros a aceitar a paz com Israel. Qual é o balanço de uma autonomia recém-nascida?
Saeb Erekat -- o «Doutor», como é conhecido por todos em Jericó --, ministro para os Assuntos Locais e Municipais da Autoridade Nacional Palestiniana que tomou posse no início do mês, falou recentemente ao PÚBLICO sobre as dificuldades que o seu povo enfrenta nos seus primeiros passos da autonomia em Gaza e Jericó. Habitante da cidade, professor e editorialista de jornais palestinianos, o «Doutor» passou os últimos dois meses a tentar normalizar a vida em Jericó, apesar de na sua própria casa ter frequentemente falta de água -- uma situação que faz questão de mostrar às televisões que o entrevistam.
PÚBLICO -- O que é que mudou em Jericó desde que a autonomia palestiniana foi implementada?
SAEB EREKAT -- A mudança significativa é o facto de nós, os palestinianos, termos o controlo. Não é um controlo total, é apenas o primeiro passo. Precisamos de alargar a autonomia ao resto da Cisjordânia imediatamente. O que mudou é que temos 26 novos departamentos e funcionar em Jericó. Nunca tivemos um departamento de ambiente, ou de educação, ou trânsito, antes tínhamos que ir a Ramallah ou Belém. Estamos a tentar construir, em circunstâncias muito difíceis, não temos minas de ouro nem poços de petróleo, temos os países doadores que têm estado a prometer, a prometer e nada se materializou ainda, temos os israelitas que até agora ainda não conseguiram mudar a mentalidade de ocupante para a de vizinho, mas apesar de todas estas dificuldades estamos a fazer o nosso melhor com os poucos recursos que temos.
P. -- Que recursos são esses?
R. -- Os próprios palestinianos. Temos 162 homens e mulheres que durante os últimos dois meses ofereceram o seu tempo e tem estado a trabalhar dia e noite, pagando do seu próprio bolso a gasolina para os carros. Os israelitas deixaram-nos com uma infraestrutura devastada porque o processo natural de desenvolvimento parou em 1967 [data da ocupação] Receio que se a autonomia não for alargada ao resto da Cisjordânia, se os países doadores não derem a ajuda que prometeram e se os israelitas continuarem a agir como ocupantes, este acordo não tem hipóteses de se aguentar de pé. Vai desmoronar-se.
P. -- E se a autonomia for alargada ao resto da Cisjordânia, como previsto, pensa que Jericó voltará a ser uma vila pacata e o centro da autonomia passará para Ramallah?
R. -- Penso que sim. Embora Jericó nunca mais volte a ser a mesma. Desde 1967 até 1990 foi uma área militar fechada porque era uma cidade de fronteira. Como residentes não podíamos sair nem entrar depois das 19 horas. Isto fez com que a cidade não tivesse qualquer desenvolvimento significativo desde 1967. Penso que Jericó vai viver um certo «boom» em termos de indústria, turismo e agricultura e uma expansão na construção, mas as pessoas não podem esperar que Jericó seja o quartel-general da autonomia.
P. -- Há muitos palestinianos que continuam a sentir-se sufocados aqui.
R. -- Penso que eles têm razão. O acordo tem tantos «buracos» e um deles é o facto de que quando se sai de Jericó não se sai de uma fronteira reconhecida internacionalmente, sai-se para Ramallah, para Jerusalém, para Belém, para Hebron, cidades que são parte integrante de Jericó. Não é como Gaza, de onde se sai ou para o Egipto ou para Israel, para fronteiras reconhecidas. É por isso que digo que Jericó sozinha não se aguentará em pé. Se em 90 dias não alargamos a jurisdição às outras partes da Cisjordânia será o colapso do acordo.
P. -- E não haverá eleições enquanto a autonomia não for alargada a toda a Cisjordânia?
R. -- Não podemos ter eleições enquanto o Exército israelita não se retirar das outras partes da Cisjordânia. Como é que se pode ter eleições para os governos locais ou para o nacional sem se saber exactamente que áreas é que controlamos? Se em Nablus não há uma definição que permita perceber quem controla o quê, como é que pode haver eleições para o município? Se os israelitas não se retirarem não podemos fazer eleições. Quando assinámos o acordo, um dos principais pré-requisitos era o de que, se quisermos realizar as eleições a nível nacional e local até 15 de Outubro, como foi determinado por ambos os lados, os israelitas têm que completar a retirada em 15 de Agosto.
P. -- Acredita que isso acontecerá?
R. -- Penso que deverá acontecer e que tem que acontecer. Mas tudo depende das intenções dos israelitas.
P. -- A tensão que se está a criar em torno da questão de Jerusalém poderá fazer atrasar o processo de paz, pelo aumento da pressão por parte da direita?
R. -- No que diz respeito a Jerusalém, os israelitas sabem disso, é a chave para a paz. Eles não deveriam nunca usar palavras como «eterna». Nós, entre os palestinianos, também temos uma forte oposição mas, depois de termos tentado o conflito durante os últimos 40 anos, temos que abrir um novo caminho na História. Penso que o sucesso de todo este processo de paz depende de uma coisa: seremos capazes de mudar a forma como nos temos visto uns aos outros durante os últimos 40 anos?
P. -- Mas não concorda que se a direita fizer cair o Governo será pior para os palestinianos? Para a paz é preciso o Governo de Rabin, não é?
R. -- E é preciso Arafat, não é? É preciso o campo palestiniano moderado. No que diz respeito a Jerusalém Oriental, os locais sagrados muçulmanos e cristãos pertencem ambos aos palestinianos. Se eles [os israelitas] disserem que não querem discutir o problema de Jerusalém daqui a dois anos, não haverá paz.
P. -- Receia as divisões entre os palestinianos?
R. -- Não. Penso que conseguimos estabelecer muito bem uma sociedade democrática. Penso que pela primeira vez na história política moderna do mundo árabe houve manifestações em Jericó e em Gaza contra a autoridade e os manifestantes foram protegidos pela polícia palestiniana. Estou muito orgulhoso do facto de termos uma forte oposição política, de termos muitos partidos. Isso não são divergências, chama-se democracia.
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Mundo</CATEGORY>
<AUTHOR>JH</AUTHOR>
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Intensificam-se as pressões sobre a Administração americana
Clinton sem argumentos para não invadir o Haiti
Paulo Moura, em Washington
Nos EUA, as pressões sobre o Presidente para que intervenha no Haiti são cada vez maiores e mais generalizadas. Vêm da ONU, de Aristide, dos congressistas negros, dos congressistas e homens de negócios da Florida, dos "think tanks» de Washington. Clinton está prestes a ficar sem argumentos para não invadir.
O Presidente dos EUA, Bill Clinton, manda os seus colaboradores dizer, nos jornais e em programas de televisão, que a intervenção militar contra o Haiti «não está excluída», mas também «não está iminente» e que o importante é agravar as sanções contra os militares de Port-au-Prince.
Mas as pressões sobre Clinton para que intervenha militarmente naquela ilha das Caraíbas são cada vez mais fortes. De súbito, todos parecem concordar que essa é mesmo a única hipótese e Clinton está prestes a chegar ao ponto em que, à míngua de argumentos, terá de ordenar a invasão.
O secretário-geral da ONU, Butros Butros-Ghali, recomendou ontem que fosse enviada uma força de 15 mil soldados para o Haiti para restaurar a democracia, quando o actual Governo abandonar o poder. Deixou por explicar o método pelo qual os militares seriam derrubados, mas afirmou que a força poderia ser multinacional, embora devesse ser colocada sob comando americano. Segundo as conclusões imediatas dos observadores da ONU, Butros-Ghali está, de sua própria iniciativa, a cumprir as condições que os EUA impõem para as intervenções militares e a enviar um sinal claro de que o Conselho de Segurança aprovará o eventual pedido americano de autorização para uma invasão.
Mais ou menos na altura em que o secretário-geral fazia estas declarações, o Presidente eleito e exilado do Haiti, Jean-Bertrand Aristide, inaugurava as emissões da Rádio Democracia, uma estação criada pelos EUA e destinada a transmitir para o Haiti propaganda antijunta militar.
Havia grande curiosidade sobre o que o padre Aristide iria dizer, uma vez que, no mês passado, tinha declarado enfaticamente que «nunca, nunca, nunca concordaria em regressar ao poder através de uma invasão». Ontem, porém, precisou o seu raciocínio: pediu uma «acção rápida e definitiva» para tirar do poder os que o tinham forçado ao exílio e garantiu: «O dia do regresso não está longe. Voltaremos em breve ao Palácio Nacional.» Concluiu, enviando uma mensagem aos haitianos que temem que a anarquia se instale se os militares forem vencidos: «Haverá vingança? Haverá violência? Não. Não aceitarei nenhuma vingança.»
Aristide acrescentou ainda: «Os pequenos soldados, que são a coluna vertebral do Exército, não serão punidos.» Foi um claro aviso de que os «graúdos», Raoul Cédras e o resto da junta militar, não escaparão à punição. Cédras, que nem por um momento, desde que tomou o poder, terá duvidado das intenções de Aristide, ameaçou, entretanto, em declarações à cadeia de televisão americana ABC, que ele próprio é «a espoleta da granada» no Haiti e que tudo explodirá mal seja afastado do poder.
Negros querem avançar
Ao nível da política interna americana, por outro lado, as pressões para que se avance para a intervenção militar são cada vez mais claras. No Congresso, o principal «lobby» desta causa é o Congressional Black Caucus, o grupo de senadores e representantes negros que tem cada vez mais influência nas instâncias legislativas americanas.
O partido da intervenção tem crescido rapidamente dentro do próprio Caucus, ao ponto de ser hoje defendido por praticamente todos os seus 40 membros (39 representantes e um senador). E a influência do grupo pode avaliar-se por este simples facto: em Março, o Caucus propôs uma lei na Câmara dos Representantes, exigindo o agravamento do embargo contra Port-au-Prince, cortar as ligações aéreas com os EUA, interromper as repatriações sumárias dos «boat-people» haitianos que chegam aos milhares às costas americanas e congelar os fundos de cidadãos haitianos depositados em bancos americanos. Esta lei não chegou a ser votada no Congresso, nem ninguém mais falou disso, porque não foi preciso. A Administração adoptou rigorosamente todas essas medidas por sua própria iniciativa.
O conselheiro especial para o Haiti, recentemente nomeado por Clinton, bem como membros do Congressional Black Caucus e certos congressistas queixam-se de que, sobre a hipotética intervenção no Haiti, a Administração consulta mais frequentemente os membros do grupo negro do que os comités organicamente competentes nessas matérias.
Funcionários da Administração admitem que o Caucus, que antes das eleições de 1992 tinha apenas 26 membros, se tornou de especial importância para os planos do Presidente de fazer aprovar a reforma da Saúde e as leis da Assistência Social e do combate ao crime.
Outra fonte de pressões no Congresso são os representantes e senadores da Florida, que, em ano de eleições, não podem deixar de dar voz aos receios dos seus constituintes de que a continuação da situação no Haiti leve a um aumento do fluxo de imigrantes e refugiados para a península do Sul dos EUA.
Temem pelo açúcar
Por outro lado, entre os grandes apoiantes e angariadores de fundos para Clinton na Florida, encontram-se algumas famílias com interesses na República Dominicana e estas temem que a instabilidade no Haiti venha a pôr em causa o seu domínio sobre as vastas plantações de cana do açúcar no país vizinho.
Quanto ao grande obstáculo psicológico à intervenção militar no Haiti -- o fantasma da Somália -- um dos proeminentes «think tanks» de Washington, o US Institute of Peace, financiado pelo Governo, está a encarregar-se de o dissipar. Acaba de publicar um livro, intitulado «Restaurar a Esperança. As verdadeiras lições da Somália para o futuro das intervenções», em que pretende demonstrar que, afinal de contas, a intervenção na Somália se saldou por um êxito e fixa as regras a cumprir em futuras invasões.
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<DATE>19940717</DATE>
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<AUTHOR>JH</AUTHOR>
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Mongólia
O renascimento de uma nação
António Caeiro, em Ulan Bator*
No século XIII, os nómadas mongóis tiveram o maior império da História, dominando todos os Estados entre a Áustria e a China. O lendário génio militar de Gengis Khan não venceu, contudo, a geografia -- encravada entre a China e a Rússia, a Mongólia acabou por estagnar durante vários séculos, às ordens de Pequim ou de Moscovo. O próprio Mao Tsé Tung defendeu a integração da Mongólia na China, mas a república popular proclamada em Ulan Bator, em 1924, era já uma espécie de 16ª república da União Soviética... Até há cinco anos, quando os ventos da Perestroika começaram a transformar um dos países mais isolados do mundo.
B. Tzerendorzh, funcionário do Governo mongol, viveu cinco anos em Cuba. Quando regressou a Ulan Bator, em Março de 1994, a estátua de Estaline em frente do edifício da Biblioteca Nacional tinha desaparecido e a avenida Lenine chamava-se Gengis Khan. O Ganden, o maior templo budista da Mongólia e um dos poucos que sobreviveram às perseguições religiosas dos anos 30, estava a ser restaurado. No ensino primário, a escrita tradicional mongol substituiu o alfabeto cirílico, introduzido em 1941 para «fortalecer a amizade com a União Soviética e adquirir a grande cultura russa». Em vez de um partido único -- o Partido Revolucionário do Povo Mongol, no poder desde a instauração do socialismo, em 1924 -- há agora 13, um dos quais com o nome de Partido Burguês. «Já não é a mesma Mongólia», diz B. Tzerendorzh, como se estivesse a redescobrir o seu país.
A Mongólia -- um território montanhoso 17 vezes maior que Portugal e apenas com 2,4 milhões de habitantes -- começou a mudar no Inverno de 1990, sob o efeito da Perestroika de Gorbatchov. Durante semanas consecutivas, manifestantes com cartazes reclamando «respeito pelos direitos humanos», «abertura do sistema político» e «destruição da opressão burocrática» concentraram-se na Praça Sukhbator, a Praça Vermelha de Ulan Bator, onde não falta sequer uma réplica do Mausoléu Lenine que se encontra em Moscovo. Apesar do frio (20 a 30 graus negativos), a praça austera tornou-se uma festiva assembleia permanente, com sociais-democratas, ecologistas e até adeptos do liberalismo de Margaret Thatcher.
«O movimento foi desencadeado por jovens democratas que estudaram no estrangeiro», conta Hulan Haskbet, 33 anos, dirigente do Partido Nacional Democrático, o maior da oposição. Num inglês fluente, aprendido no Instituto de Línguas Estrangeiros de Moscovo e aperfeiçoado durante um ano nos Estados Unidos, Haskbet salienta que «a Mongólia viveu sempre isolada do resto do mundo e nunca teve um movimento dissidente». «Para sair da Mongólia, temos de atravessar a Rússia ou a China. A maioria dos mongóis nem imaginava que houvesse um sistema diferente do socialismo», diz a líder partidária.
Em 1992, a Mongólia deixou de se chamar República Popular e aprovou uma nova Constituição, consagrando a economia de mercado e o multipartidarismo. No mesmo ano, 14 partidos concorreram às primeiras eleições livres do país.
A conjuntura, no entanto, não era propícia a grandes sonhos. «Tínhamos uma economia telecomandada de Moscovo e 85 por cento do nosso comércio externo era com a União Soviética», conta C. Ganzorig, director do Departamento de Cooperação Económica do Ministério do Desenvolvimento, a propósito do «colapso» que atingiu a Mongólia no início da sua transição para a economia de mercado.
De repente, segundo a expressão daquele economista, «o antigo sistema ruiu». Em 1991 e 92, o produto interno bruto diminuiu 20 por cento. Os mongóis descobriram o desemprego e a inflação, outro fenómeno inédito, ultrapassou os 300 por cento. O número de médicos nos hospitais diminuiu mais de um terço e 16,7 por cento das crianças em idade escolar abandonaram as escolas. «Não havia nada nas lojas. Das batatas ao tabaco, era tudo racionado», lembra uma professora.
As dezenas de milhares de soldados soviéticos estacionados na Mongólia retiraram e com eles partiram também os técnicos da maior central térmica de Ulan Bator, cidade onde vive um quarto da população do país. Os cortes de energia tornaram-se frequentes e, no longo e rigoroso inverno mongol, «muita gente esteve em risco de morrer gelada», diz um dos engenheiros norte-americanos que estão a «tentar manter a central em funcionamento».
Privatização intensa
Segundo Ganzorig, em apenas dois anos, o Governo mongol privatizou «80 por cento de toda a propriedade», um ritmo que alguns observadores internacionais consideram «demasiado rápido». «No fundo, eles estão a seguir o método comunista de sempre. Primeiro, a prática, depois a legislação», diz um diplomata ocidental acreditado em Ulan Bator.
«A população sofreu muito. Claro que as pessoas sentiram a falta do antigo sistema, que garantia emprego para toda a gente, e o partido no poder soube explorar esse sentimento», diz Hulan Haskbet.
Os resultados das eleições foram uma «grande decepção» para a oposição. O velho Partido Revolucionário do Povo Mongol (PRPM), que entretanto renunciou ao marxismo-leninismo, obteve 60 por cento dos votos e, devido ao sistema eleitoral, maioritário, conquistou mais de 90 por cento dos lugares do Parlamento.
«Quarenta por cento da população não tem nenhuma influência na vida política do país. Devíamos ter um sistema que encorajasse o pluralismo e combatesse as tendências totalitárias do passado, mas o PRPM só pensa em manter-se no poder», queixa-se Haskbet.
«Temos mais liberdade de falar, é verdade, mas há coisas que estão piores», admite a recepcionista de um hotel privado. «São as mesmas pessoas que continuam a mandar», acrescenta um colega, citando o caso do seu próprio patrão, um antigo ministro comunista «convertido» ao capitalismo e que a oposição designa por «representante da nova burguesia».
«A Mongólia é o caso típico de um país vítima de uma democratização precipitada e descontrolada», diz um diplomata europeu. O Governo sustenta, contudo, que «as maiores dificuldades da transição já estão ultrapassadas». «Em 1993, o produto interno bruto diminuiu apenas três por cento e, em 1994, o declínio da economia deverá ter acabado», afirma Ganzorig.
O desemprego atingiu os 7,8 por cento no final de 1993 e 26,5 por cento da população vivem em situação declarada de pobreza, mas as prateleiras das lojas já não estão vazias. Os «novos ricos», ligados sobretudo ao comércio, poderão até comprar um televisor Sony por 180 mil tugriks (cerca de 75 contos), o equivalente ao que ganha um professor em 15 dias...
Atraídas pelos incentivos fiscais ao investimento externo e o baixo custo da mão-de-obra, cerca de 100 empresas da China, Hong Kong e Formosa já se implantaram na Mongólia. Duas companhias norte-americanas começaram, entretanto, a fazer prospecção de petróleo e uma firma canadiana assinou um contrato idêntico com o Governo de Ulan Bator para procurar ouro.
«Não há alternativa à economia de mercado. É um processo difícil, sobretudo devido à grande falta de meios e estruturas, mas é irreversível», considera Ganzorig.
Apoio internacional
Para «modernizar» a Mongólia, Ulan Bator conta, desta vez, com a «assistência financeira internacional», nomeadamente do Banco Mundial e do Banco Asiático de Desenvolvimento. A ajuda internacional -- estimada em 771 milhões de dólares (cerca de 125 milhões de contos), em 1993 -- tornou-se mesmo «um dos principais recursos do país».
«O Ocidente tem obrigação de ajudar este país. Eles fizeram as mudanças que sempre defendemos e agora não os podemos abandonar», diz um diplomata europeu. «Se a democracia não for capaz de proporcionar bem-estar, as pessoas poderão começar a procurar outras soluções para os seus problemas», alerta o Programa de Combate à Pobreza na Mongólia, patrocinado pelas Nações Unidas.
«Há eleições livres, mas ainda não temos uma verdadeira democracia. Os órgãos de informação continuam nas mãos do Governo, os tribunais continuam a não ser independentes e os antigos comunistas usam em proveito próprio as estruturas que já controlavam», acusa Haskbet.
Esta representante da jovem oposição mongol mantém-se, contudo, optimista: «No Ocidente, o capitalismo também começou por ser um sistema brutal e a democracia demorou muitos anos a implantar-se.»
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Orient House, um «ministério» polémico
No centro de Jerusalém Oriental -- a parte da cidade ocupada por Israel em 1967 e anexada em 1980 -- existe agora aquilo que os palestinianos consideram como o seu «Ministério dos Negócios Estrangeiros»: a Orient House.
Ameaçada várias vezes de encerramento pelas autoridades israelitas, a Orient House é, acima de tudo, o principal símbolo de soberania palestiniana em Jerusalém, a cidade que os palestinianos querem ver como capital do seu futuro Estado e que os israelitas consideram como a sua «capital eterna».
Hatem Eid, responsável pelo gabinete de imprensa deste «ministério» explicou ao PÚBLICO que é a Orient House que faz a ponte entre a nova Autoridade Nacional Palestiniana (ANP) e as embaixadas estrangeiras em Telavive (praticamente nenhum país tem representação diplomática em Jerusalém porque a cidade não é reconhecida como capital de Israel). Dado que a ANP não é um Governo de um Estado independente mas apenas o orgão que gere a autonomia nas áreas de Gaza e Jericó, não deverá ter contactos oficiais com representações diplomáticas e, por isso, estes são feitos através da Orient House.
Eid tem dificuldade em explicar claramente qual é o estatuto deste edifício, uma elegante mansão que funcionou como hotel entre 1948 e 1967 quando a cidade estava sob controlo jordano, e que desde a sua construção em 1897 é propriedade dos Husseini, uma das mais conhecidas e influentes famílias palestinianas. Segundo aquele responsável, a Orient House tem um estatuto especial conferido pelo facto de «ser parte» integrante do processo de paz israelo-palestiniano, o que faz com que nem sequer esteja sob a jurisdição da ANP.
A verdade é que Faiçal Husseini, uma das principais figuras palestinianas ligada às conversações de paz de Washington, utiliza a mansão para receber delegações estrangeiras e para realizar todo o tipo de reuniões importantes. Husseini é um dos «ministros» da ANP, precisamente aquele responsável pela questão de Jerusalém.
Mas a tradição de receber distintos visitantes estrangeiros na casa dos Husseini vem de há muito tempo. Quando, em 1990, o imperador alemão Guilherme visitou Jerusalém foi-lhe oferecido um chá na mansão, e quando o chérif de Meca Hussein Ben Ali foi enterrado na mesquita de Jerusalém, em 1930, os seus filhos, o rei Abdullah, o rei Ali e o príncipe Zaid, receberam as condolências na casa dos Husseini. Alguns anos depois, entre 1936 e 37, a mansão albergou o imperador da Etiópia e a imperatriz da Abissínia.
Hoje, a segurança deste verdadeiro «ministério» é garantida por uma equipa que só funciona com a Orient House e que não está de forma nenhuma ligada à polícia palestiniana que se instalou em Gaza e Jericó. E, segundo Hatem Eid, nem polícias nem militares israelitas podem entrar na área da mansão, rodeada por um pequeno jardim.
É à Orient House que se dirigem os palestinianos de Jerusalém, Gaza ou Cisjordânia que precisem de resolver qualquer tipo de problema, conseguir licenças, solucionar disputas, etc. (para cada novo caso é criado uma ficha especial), e é ali que se realizam conferências de imprensa e se fornecem cartões para jornalistas.
O orçamento que permite o funcionamento de todos estes serviços também é completamente independente do orçamento da ANP, diz Eid. O dinheiro, explica, é proveniente de doações e apoios de vários países árabes (com destaque para a Arábia Saudita), do Japão e de países europeus. O responsável das relações com a imprensa está convencido de que a Orient House não corre qualquer perigo de ser encerrada pelo Governo israelita e afirma mesmo que existem cartas trocadas com as autoridades israelitas.
Para os palestinianos a existência da Orient House é uma afirmação do seu direito a Jerusalém como capital de um futuro estado palestiniano. Assim como os escritórios da Palestinian Broadcasting Corporation (PBC) que durante a recente visita de Arafat a Gaza e Jericó emitiam os cartões necessários aos jornalistas que quisessem cobrir o acontecimento (e sem os quais não se conseguia ter acesso aos territórios autónomos). Já depois de terminada a visita de Arafat, o vice-ministro israelita da Defesa, Mordechai Gur, afirmou que o Governo tencionava encerrar os escritórios da PBC em Jerusalém «se se vier a saber que aí estão a ser fornecidos cartões aos jornalistas». Segundo Gur, a PBC pertence à Autoridade Nacional Palestiniana e, por isso, a sua actividade tem que ser restrita a Gaza e Jericó. A.P.C.
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Tragédia no Ruanda
A mais grave crise humanitária
Jorge Heitor
O Ruanda vive hoje em dia aquela que é provavelmente a mais grave crise humanitária que a África e o mundo conheceram nos anos mais recentes. Ontem, as primeiras páginas da imprensa de Paris, Madrid e outras capitais eram dominadas por essa tragédia, que está a dizimar um povo.
O Ruanda poderá ter amanhã um novo Governo, formado por todos aqueles que se opunham ao Presidente Juvénal Habyarimana, morto em Abril. Mas a tragédia desse povo perdido no interior da África negra não pára de crescer: talvez mais de 600 mil mortos e alguns milhões de desalojados.
O representante em Nova Iorque da Frente Patriótica Ruandesa (FPR) disse que a tomada de posse do Governo de Unidade Nacional, presidido pelo hutu moderado Faustin Twagiramungu, deverá ser amanhã, ao meio-dia, enquanto centenas de milhares de pessoas, fugidas à violência dos últimos meses, continuam a entrar em território zairense, conforme a foto documenta.
O afluxo de refugiados ruandeses à região do Kivu Oriental, no Zaire, e muito em especial à área da cidade de Goma, é algo nunca visto na História recente da África, pois que em menos de uma semana o êxodo poderá movimentar qualquer coisa como um milhão de pessoas, um oitavo da população total que o Ruanda teria à data da morte de Habyarimana, em 6 de Abril.
Na vaga de violência que se seguiu ao desaparecimento do homem que há 21 anos tomara o poder, morreram até agora umas 600 mil ou 700 mil pessoas, enquanto alguns milhões deixavam as suas terras e fugiam para longe do conflito, que opôs essencialmente extremistas hutus, fiéis ao antigo regime, à Frente Patriótica Ruandesa (FPR) e à minoria tutsi.
Todos falam a mesma língua
O Programa Alimentar Mundial (PAM), das Nações Unidas, disse já que são necessários 78 milhões de dólares (cerca de 12,5 milhões de contos) da comunidade internacional, em alimentos, para que não se aprofunde aquela que parece ser «a mais grave crise humanitária mundial».
Jornais como o «Le Monde», o «El País» e o «Libération» dedicavam ontem as suas primeiras páginas ao grande êxodo do povo ruandês, que nas últimas décadas tem sido vítima do fosso cavado entre os camponeses hutus e os pastores tutsis. Salientavam que todos eles, no entanto, falam a mesma língua, na qual quem tem fome diz «ndashonge» ou «infite inzara».
Só o drama da Somália em 1992, quando o Presidente norte-americano George Bush decidiu lançar a operação Restaurar a Esperança, teve algo de comparável com aquilo que os ruandeses sofreram nos últimos três meses e meio, durante os quais ficaram quase sem um décimo dos seus cidadãos.
Da Grã-Bretanha, da Alemanha e de outros países, está a partir auxílio de emergência para aquele que é nesta altura o mais infeliz dos povos. Na verdade, quase nunca se viu na História, em tão curto espaço de tempo, a maioria da população de um território (pouco maior do que o Alentejo) deixar a pé os montes onde vive para se refugiar algures, com um mínimo dos seus parcos haveres.
É uma pátria de mil colinas verdejantes, com vulcões, gorilas, zebras e antílopes, que poderia ser um paraíso perdido para os turistas, mas que está a ser um cemitério e um lugar de exílio para os oito milhões de africanos que no início deste ano a povoavam.
Cessar-fogo incerto
Ontem, toda a gente aguardava a concretização de um cessar-fogo entre a FPR, que controla militarmente mais de dois terços do país, e os restos das Forças Armadas herdadas de Habyarimana, que morreu num atentado de origem desconhecida contra o seu avião, havendo quem alvitre que foi vítima dos próprios ultras do seu regime, que precisavam de um pretexto para dizimar os tutsis.
Uma vez que se confirme o cessar-fogo, a FPR irá entrar num Governo com Twagiramungu e outras figuras moderadas, mas receia-se que os extremistas hutus, embora derrotados, não fiquem de braços cruzados, pelo que a pacificação do Ruanda ainda poderá demorar muito tempo.
Esse Governo de Unidade Nacional será decerto bem visto pelos países anglófonos da África Oriental, como o Uganda, o Quénia e a Tanzânia, mas a França terá muita dificuldade em aceitar que fiquem à margem aqueles que, até há pouco, eram os seus principais amigos no terreno: os homens de Habyarimana, que, a partir do Zaire, poderão constituir um potencial de desestabilização.
Em princípio, o novo Governo de Kigali, uma capital modesta, que não chega a ter 400 mil habitantes, deverá basear-se nos acordos de paz que foram negociados no ano passado, em Arusha, na Tanzânia. Mas houve uma modificação substancial: a FPR, constituída durante o exílio de muitos ruandeses no Uganda, terá agora mais peso do que o então previsto, ficando pelo menos com seis ou sete ministérios.
Depois, se não houver mais complicações, é só esperar que daqui a uns dois anos, com a população de regresso às suas terras, se possa ir às urnas, para escolher livremente um Presidente da República e uma Assembleia Nacional.
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O regresso dos governos
Teresa de Sousa
Foi a cimeira mais rápida da história da Comunidade, aquela que escolheu Jacques Santer como sucessor de Jacques Delors à frente da Comissão de Bruxelas. Mas as suas consequências vão prolongar-se no tempo e marcar os próximos anos da construção europeia.
Ninguém duvida de que, nos próximos tempos, se verificará um maior protagonismo do Conselho de Ministros da União Europeia e um apagamento relativo da Comissão de Bruxelas. Sejam quais forem as capacidades que Jacques Santer, o sucessor de Jacques Delors a partir de 5 de Janeiro de 1995, vier a revelar como chefe do executivo comunitário, a sua escolha não disfarça a vontade mais ou menos explícita dos governos europeus de reaverem boa parte da iniciativa em matéria de construção europeia.
Esta é, sem grande margem para dúvida, a principal conclusão a retirar da decisão tomada, na sexta-feira passada, na Cimeira extraordinária de Bruxelas pelos doze chefes de Estado e de governo da União Europeia (UE). Mesmo que a escolha de Santer não pareça entusiasmar praticamente ninguém, mesmo que ela tenha sido, sobretudo, fruto de circunstâncias várias, que começaram no inesperado veto de John Major à candidatura de Jean-Luc Dehaene, durante o Conselho Europeu de Corfu, e terminaram na pressa com que o chanceler Helmut Kohl quis pôr ponto final numa crise de efeitos desmoralizadores para a UE e para a presidência alemã que decorre neste semestre.
É possível parar?
O primeiro-ministro luxemburguês -- um homem politicamente discreto e um pragmático sem particulares ambições, a não ser preservar o estatuto de paraíso fiscal para o seu minúsculo grão-ducado -- parece ter o perfil adequado a uma Europa cansada da rapidez com que, mal ou bem, teve de responder à «aceleração da história» dos últimos cinco anos, desejosa de uma pausa para respirar e consolidar os seus objectivos.
Jacques Santer, cuja personalidade política é diametralmente oposta à de Jacques Delors, poderia corresponder a esta necessidade de pausa e de consolidação. Após um período longo de dez anos em que a construção europeia foi marcada de forma indelével pela convicção de um visionário brilhante e determinado -- desde o Acto Único Europeu e o Mercado Interno, que retirou a Comunidade da profunda «esclerose» em que se encontrava mergulhada no início dos anos 80, até à concepção de Maastricht, da moeda única e da união política --, Santer poderia ter como missão fazer a UE regressar à Terra, ocupar-se dos seus cidadãos e reformar calmamente as suas instituições.
Só que a história não parece disposta a conceder à Europa esta pausa desejada. E os revezes sofridos pela União Europeia depois de Maastricht, os novos desafios colocados pelo pós-guerra fria, as incertezas e as perturbações que se acumulam no continente europeu não parecem compadecer-se com lideranças fracas ou visões de curto prazo nem, muito menos, com a perigosa tentação de um regresso aos egoísmos nacionais em que começam a cair os Estados-membros.
A maioria dos Doze líderes que se reuniram à volta da mesa na sexta-feira, em Bruxelas, convocados por Kohl para a mais rápida cimeira da história da Comunidade, tinha perfeita consciência do que estava em causa para a UE na escolha (sempre difícil) de um substituto para Jacques Delors.
O próprio chanceler alemão não poupou esforços para encontrar um candidato mais forte e mais capaz de imprimir um sentido às complicadas tarefas que a UE tem pela frente nos anos que vão até ao fim do século. Kohl sabe que o processo de revisão dos tratados e de reforma institucional, agendado para 1996, vai exigir uma enorme vontade política para não cair num impasse que paralizaria a construção europeia e, nomeadamente, o seu objectivo mais urgente de alargamento às democracias do Leste e do Centro. Só isso explica a sua insistência com Felipe González ou a sua aposta inicial no dinâmico e mais convincente primeiro-ministro belga.
Como explicar, então, o conformismo latente na decisão dos Doze e o pouco entusiasmo com que deixaram, na sexta-feira passada, quase à pressa, o velho edifício Charlemagne, em Bruxelas?
A escolha de Santer pelo método do menor denominador comum acaba também por revelar até que ponto as susceptibilidades nacionais e os interesses políticos imediatos manietaram os líderes europeus.
O primeiro-ministro britânico John Major precisava, sobretudo, de «salvar a pele» face a uma facção de eurocépticos cada vez mais arrogante dentro do seu Partido Conservador. Resta saber quem acreditará, no Reino Unido, nas «excepcionais» qualidades que descobriu em Santer para achar que o seu exercício do cargo será politicamente diferente do de Jean-Luc Dehaene.
A França, mergulhada nas barreiras defensivas do proteccionismo, a digerir mal a nova geografia política da Europa depois da queda do Muro, não parece ter perdoado as cedências que teve de fazer ao irlandês Peter Sutherland (um potencial candidato bem mais próximo do perfil de Delors), o actual director-geral do GATT e um pioneiro do comércio livre, para que o Uruguay Round chegasse a bom porto. Profundamente discretos -- ainda que certamente por razões distintas --, Mitterrand e Balladur quase passaram desapercebidos na Cimeira extraordinária de Bruxelas.
O presidente, a quem restam oito meses de mandato, tinha acabado de pousar para a história quando, na véspera, contemplara do alto da tribuna de honra o desfile dos «panzer» almães nos Champs-Élysées, ladeado por Helmut Kohl e Felipe González. «Porvu qu'il parle français...», foi tudo quanto teve a dizer da escolha de Jacques Santer. Quanto a Balladur, precisa de refrear a sua fé europeia perante um eleitorado desconfiado da Europa se quer jogar a sorte na sucessão de Mitterrand.
O chanceler Kohl parece nunca ter perdoado a Ruud Lubbers, o candidato holandês em quem Delors e González apostaram, as objecções públicas ao processo de unificação alemã. Berlusconi quer marcar a sua entrada no clube dos chefes de governo com uma nova atitude face à Europa, mais alinhada com Londres que com o tradicional eixo Paris-Bona. E não foi certamente por acaso que o seu «thatcheriano» chefe da diplomacia, Antonio Martino, afirmou que a Comissão Santer fará exactamente aquilo que os governos nacionais quiserem.
Finalmente, todos parecem desejosos de fazer «mea culpa» perante as respectivas opiniões públicas nacionais pelo excesso de secretismo e a falta de transparência e de democraticidade com que têm sido tomadas as grandes e as pequenas decisões comunitárias, propondo-se disfarçar os seus próprios pecados apontando o dedo para os «excessos» regulamentadores e burocráticos de uma Comissão transformada em bode expiatório das suas culpas e das culpas alheias.
Uma questão de liderança
A quem pode beneficiar uma Comissão Europeia politicamente enfraquecida? Esta é a questão que sobra da Cimeira extraordinária de Bruxelas e que vai permitir, certamente, as mais variadas leituras.
As reacções de cepticismo da imprensa e dos partidos holandeses são, talvez, paradigmáticas ao destacarem o facto de uma Comissão fraca poder abrir caminho a que «alguns grande países passem a ditar a direcção que a Europa deve seguir nos próximos anos». Por trás desta dúvida está, naturalmente, o receio holandês de que Santer seja apenas um «ventríloquo» do chanceler alemão, com o qual mantém, aliás, excelentes relações pessoais há quase vinte anos.
E muito embora alguns pequenos países (como Portugal) tenham saudado vivamente a escolha de Santer como um dos seus, a experiência da integração europeia vai no sentido de a Comissão ser um aliado tradicional dos mais fracos, tanto mais eficaz quanto mais forte ela for.
Resta o velho eixo Paris -Bona, que tem servido de motor e de sustentáculo à construção europeia desde o Tratado de Roma. A reunificação alemã, ao alterar o quadro geoestratégico europeu, veio criar fortes tensões nas relações franco-alemãs, que, até agora, a vontade política de Helmut Kohl e de François Mitterrand têm sabido ultrapassar. Mas o «eixo» que sustenta a Europa vai atravessar um período de muito difícil equilíbrio.
A Alemanha ganha progressivamente o seu estatuto de nação soberana, multiplicando o seu peso internacional e afirmando-se cada vez mais como a potência liderante da União. Digerindo com dificuldade o aumento do poder germânico, Paris balança entre apertá-lo num abraço europeu cada vez mais estreito ou refugiar-se sobre si própria e envolver-se nas velhas roupagens gaullistas. O fim do reinado de Mitterrand vem abrir um vazio que apenas as próximas eleições presidenciais de Maio poderão voltar a preencher. E se o facto de o chanceler Kohl ter praticamente assegurada nova vitória nas eleições legislativas alemãs de 16 de Outubro permite à UE suspirar de alívio, a incerteza que paira sobre quem será o futuro ocupante do Palácio do Eliseu vem perturbar fortemente a vida política francesa.
Curiosamente, Jacques Delors poderá voltar a ser um homem fundamental nesta encruzilhada da história. Porque, quer se goste quer não, muito do futuro da União Europeia passa pela escolha que os franceses fizerem em Maio de 1995.
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Paz no Médio Oriente
Os sírios serão os próximos?
Margarida Santos Lopes
Primeiro foram os palestinianos e agora os jordanos. E, bem vistas as coisas, antes deles já tinham sido os egípcios. Talvez, por isso, os sírios possam ser os próximos fazer a paz com Israel. Pelo menos é esse o objectivo de Warren Christopher no seu vaivém Jerusalém-Damasco.
Hafez Assad diz que, sem a Síria, não pode haver guerra nem paz no Médio Oriente. Ele esperava ser o primeiro a obrigar Israel a retirar-se dos territórios árabes, mas Yasser Arafat e Hussein bin Talal alteraram os seus planos. Agora, um acordo com o Estado judaico poderá depender apenas das garantias que vai receber do chefe da diplomacia americana, Warren Christopher, que hoje inicia um périplo entre Jerusalém e Damasco.
Christopher «vai trabalhar muito intensamente» para fazer avançar as negociações entre a Síria e Israel, declarou o porta-voz do Departamento de Estado em Washington, Michael McCurry. Mas, para não gerar falsas expectativas, avisou: «Não se esperam grandes progressos, porque o fosso entre os dois países permanece grande».
Os americanos são mais prudentes que os próprios israelitas. «O fosso [...] é ainda muito grande, mas nunca, nunca estivemos tão perto da paz com a Síria, nunca», declarou o vice-ministro israelita dos Negócios Estrangeiros, Yossi Beilin, no dia passado dia 7, em Paris. «O final de 1994, início de 1995 será decisivo». O Presidente Bill Clinton garantiu a Assad, num telefonema feito sexta-feira à noite, que Washington quer uma paz global na região (a conversa decorreu pouco tempo depois de ter sido anunciado o encontro entre o rei Hussein e o primeiro-ministro israelita, Yitzhak Rabin, no próximo dia 25).
As negociações israelo-sírias estão em ponto-morto desde a última visita de Christopher em Maio, mas o chefe da diplomacia judaica, Shimon Peres, numa extraordinária declaração, reconheceu quinta-feira a soberania de Damasco sobre os Montes Golã.
«Admitimos a soberania síria sobre o planalto do Golã em muitas ocasiões», salientou Peres, evocando uma decisão tomada pelo Governo israelita, em 19 de Junho de 1967, poucos depois da segunda Guerra dos Seis Dias que conduziu à ocupação daqueles montes, estratégicos pela geografia e recursos de água.
O Governo de então, chefiado pelo trabalhista Levi Eskhol (em coligação com o partido de direita Likud), admitia uma «retirada [dos Golã] até à linha de cessar-fogo, em troca de uma paz baseada nas fronteiras internacionalmente reconhecidas, tendo em conta as necessidades de segurança de Israel». Na altura, os sírios recusaram negociar e, em 1981, com o Likud sozinho no poder, os israelitas anexaram os montes.
Passo arrojado
Segundo o jornal hebraico «Haaretz», Peres «fez sair a carta que há muito guardava no bolso», para quebrar o impasse nas negociações com Damasco. As suas declarações foram «o maior e mais arrojado passo dado pelos israelitas em direcção à Síria».
«Shimon Peres, um membro muito importante do Governo, passou a uma nova fase -- ao mencionar efectivamente uma retirada completa dos Montes Golã», sublinhou Elie Goldschmidt, deputado trabalhista. «Ele falou, pela primeira vez, na aplicação, ou existência, de soberania síria em todos os Montes Golã».
Até agora, o primeiro-ministro Yitzhak Rabin falara apenas de «concessões significativas», com a possibilidade de desmantelar os colonatos judeus nos Golã, sem nunca abordar explicitamente a questão da soberania dos montes.
Numa entrevista publicada ontem no diário árabe «Al-Hayat», de Londres, Peres lembrou que a Síria poderia ter recuperado os Golã em 1979, se, tal como o Egipto, tivesse assinado um tratado de paz com Israel. Mas nessa altura, os sírios podiam dar-se ao luxo de recusar, porque o mundo era diferente. Se agora Hafez Assad se sente impelido a aproximar-se de Israel não é porque pessoalmente tenha mudado, mas porque ele sabe que o mundo mudou. Já não há guerra fria, já não há União Soviética, o seu maior aliado político e fornecedor de armas. Só há uma superpotência, que são os Estados Unidos.
«O problema não é saber se Assad quer a paz, mas se pode fazer a paz», dizia recentemente ao PÚBLICO um diplomata israelita, aparentemente céptico em relação à capacidade de o Presidente sírio impor um acordo com os israelitas a um povo ensinado a odiar a «entidade sionista».
Assad, o libertador
O acordo de autonomia palestiniana irritou profundamente Assad porque lhe deixou apenas os Montes Golã para negociar, privando-o de um dos seus maiores trunfos, o de guardião das causas palestiniana e árabe. Assad gostava de ser considerado não só o «libertador» dos Montes Golã mas de todos os territórios árabes. Quando Yasser Arafat aceitou um poder limitado em Gaza e Jericó, sem garantias de uma retirada total de Israel, o líder sírio acusou-o de sacrificar os interesses árabes.
Mas, apesar de tudo, Assad ainda guardava alguns trunfos. Ele continuou a dominar os «inimigos dos seus inimigos» -- os grupos palestinianos hostis a Arafat, que têm quartel-general em Damasco, e o Hezbollah, cada vez mais activo na luta contra a ocupação israelita do Sul do Líbano.
Só que para estes trunfos terem valor era preciso que os outros árabes seguissem as instruções de Assad. O Presidente sírio confiava especialmente em Hussein da Jordânia, mas o pequeno rei, depois da pressa de Arafat, não podia esperar mais. No dia 25, em Washington, vai encontrar-se publicamente, pela primeira vez, com Rabin, na esperança de assinar em breve um tratado de paz e obter ajuda económica dos EUA.
O encontro Hussein-Rabin foi anunciado pelo Presidente Clinton, em vésperas da partida de Christopher para Damasco. E não foi seguramente por acaso. Washington sabe que os sírios -- na lista do Departamento de Estado dos países que apoiam o terrorismo -- anseiam por ser reconhecidos politicamente e, tal como os jordanos e os palestinianos, necessitam de muitos dólares. Depois de ficarem órfãos da URSS, os sírios precisam mais do que nunca da protecção americana. Talvez ainda mais do que dos Montes Golã.
«Assad quer a paz, mas a maneira como faz a paz é muito importante para ele», comentou recentemente um diplomata ocidental em Damasco. «A sua dignidade e honra árabes devem ser preservadas. E é aqui que os Estados Unidos devem desempenhar um papel importante».
O que Assad tem para dizer aos israelitas depende, pois, do que ele irá ouvir de Christopher.
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Mundo</CATEGORY>
<AUTHOR>PCR</AUTHOR>
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Ulster
Comandos unionistas falam de paz
As milícias protestantes lealistas do Ulster divulgaram, na sexta-feira, um comunicado conjunto em que se comprometem a responder positivamente a um eventual cessar-fogo do Exército Republicano Irlandês (IRA), a organização republicana que combate a presença britânica nesta província e defende a unificação da Irlanda.
Apesar de não ser a primeira vez que os paramilitares protestantes se comprometem a baixar as armas, caso o IRA tome a iniciativa de adoptar atitude semelhante, analistas políticos citados pela France-Presse sublinham a importância do momento escolhido para a divulgação desta mensagem conciliatória, precisamente quando as forças de segurança do Ulster receavam violentas represálias lealistas em resposta ao recente aumento de actividade do IRA, que culminou, na segunda-feira passada, com o assassínio de um importante dirigente das milícias lealistas.
Num comunicado publicado em Belfast, o Comando Militar Lealista Conjunto (CLMC), que representa as duas principais milícias ainda em actividade -- Combatentes pela Liberdade do Ulster (UFF) e a Força dos Voluntários do Ulster (UVF) --, «afirma categoricamente»: «Se os republicanos cessarem as suas hostilidades, nós corresponderemos, com o objectivo de facilitar um diálogo civilizado, magnânimo e produtivo.»
A declaração também recorda, no entanto, que a «campanha» lealista significa «a resistência à imposição, pelas armas ou pela persuasão, de uma República de toda a Irlanda», sugerindo desta forma que toda a evolução política que possa ser interpretada como um «deslize» em direcção a uma Irlanda unificada impedirá o fim definitivo das actividades militares das milícias unionistas, independentemente do prosseguimento, ou não, das actividades do IRA.
Numa resposta quase imediata à sugestão das milícias lealistas, o Sinn Fein, ala política legal do IRA, limitou-se a considerar a proposta desonesta. «Os esquadrões da morte lealistas não falam a sério quando se referem à paz», pode ler-se num comunicado divulgado em Belfast. Uma posição reforçada pelo número dois do Sinn Fein, Mitchel McLaughlin, ao considerar que os comandos unionistas «estão a pedir aos nacionalistas do Norte que prescindam da sua nacionalidade».
Posição menos radical foi a adoptada por John Hume, dirigente do Partido Trabalhista e Social-Democrata do Ulster, nacionalista moderado, que cautelosamente saudou a proposta do CLMC. «Certamente que chegou o momento de reconhecer que somos, infelizmente, um povo dividido, e que a violência não tem contribuído para resolver o problema», considerou.
A declaração conciliatória dos extremistas pró-britânicos surge, de facto, num momento muito sensível para a província, assolada há 25 anos por uma onda de violência sectária. A proposta de paz inserida na declaração conjunta anglo-irlandesa do passado mês de Dezembro prevê a participação do Sinn Fein na mesa das conversações sobre o futuro da Irlanda do Norte, caso o IRA declare, e respeite, uma trégua de pelo menos três meses.
Londres e Dublin ainda aguardam o veredicto final do Sinn Fein sobre a Declaração de Downing Street, o qual tarda em ser emitido. Na sexta-feira, à margem da cimeira de Bruxelas, os primeiros-ministros dos dois países, John Major e Albert Reynolds, decidiram adiar para o Outono a próxima cimeira anglo-irlandesa sobre o Ulster, que ambos os governos desejavam realizar no final de Julho. Actualmente, os dois executivos estão a elaborar uma plataforma conjunta de propostas institucionais, que deverá ser apresentada às diversas partes envolvidas no conflito.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-033</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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Derrocada na rua do Século, em Lisboa
Mais um prédio vai abaixo
Eram cinco da madrugada quando Mariana Silvino, habitante do rés-do-chão de um prédio antigo que ontem ruiu na Rua do Século, chamou os bombeiros. «Estava cheia de medo. Acordei com o barulho das coisas a cair na cozinha». No dia anterior, tinha alertado os responsáveis pelas obras de reconstrução do prédio mesmo ao lado do seu. As rachas que tinham vindo a aparecer-lhe nas paredes do quarto não anunciavam nada de bom. Que não, que sossegasse, não era nada disso. «`Pode ser que caia, mas não é para já', disseram-me os bombeiros às cinco da manhã. Deixaram adesivos nas rachas. Meia hora depois, já o chão da cozinha se levantava».
Pelas 8h00 eram demasiado visíveis os sinais de que o edifício número 188, que fica ao lado do bar Snob, ia sucumbir à força da gravidade e à falta de apoio do tal prédio vizinho, que já lá não está. Os habitantes dos quatro andares saíram a correr com o que tinham vestido, por imposição dos bombeiros. Ainda podia ter sido pior: «Se fosse de noite, tínhamos morrido todos». A queda parcial deu-se cerca das 11h30 e arrastou uma pequena casa na rua de trás.
Ontem à hora de almoço, as quatro famílias desalojadas -- que irão ficar em casa de familiares até que a Câmara e a Protecção Civil tomem medidas -- permaneciam ainda defronte dos escombros vedados pela polícia.
Os moradores não hesitam: as escavações para a construção de um novo edifício, após a demolição do prédio do lado, há cerca de um ano, foram os culpados pelo acidente, de que não resultaram vítimas. Uma idosa de 91 anos, moradora no último andar, foi transferida para um lar de terceira idade.
«Agora há que apurar responsabilidades», diz José Rodrigues, outro habitante, que aponta o dedo à Câmara Municipal de Lisboa, pois as obras estavam a ser feitas com o apoio do programa municipal Recria e do Gabinete Técnico de Bairro Alto.
Pertencia aos Hospitais Civis de Lisboa o edifício que ruiu parcialmente. Os moradores pagavam renda.
Ana Henriques
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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Alcácer rejeita aterro de resíduos
A população de Alcácer do Sal voltou a recusar, na sexta-feira à noite, a instalação de um aterro de resíduos perigosos no concelho, num debate promovido pela autarquia, que acabou por se efectuar ao ar livre por causa do elevado número de participantes.
«Num concelho como Alcácer, em que o único resíduo que se produz é a casca do pinhão e em que não há indústria, não podemos aceitar a instalação do aterro», disse o presidente da Câmara, Rogério de Brito, durante a discussão. A instalação do aterro nas Minas de Jungéis ou no Barrancão I e II «irá contra os princípios aprovados no Plano Director Municipal e no Plano Regional de Ordenamento do Território para o Litoral Alentejano», sublinha o autarca, citado pela agência Lusa. A hipótese de escolha destes dois últimos locais, situados na freguesia de Santa Suzana, foi considerada por Rogério de Brito como «mais duas asneiras do Ministério do Ambiente», porque por ali passam os principais lençóis de água que abastecem a lagoa de Pego do Altar.
O dinheiro dado pelo Governo a quem receber a incineradora de resíduos perigosos e os aterros -- respectivamente 1,5 milhões de contos e 750 mil contos, segundo informou o autarca -- «não interessam de todo» o presidente do município.
Vereadores do PSD, do PS e deputados municipais da oposição presentes no encontro manifestaram-se igualmente contra a instalação do aterro em Alcácer do Sal.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-035</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940717-035</DOCID>
<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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Zona Ribeirinha
Edifícios terão altura média de 2,5 pisos
A altura média dos edifícios prevista pelo Plano de Ordenamento da Zona Ribeirinha de Lisboa (Pozor) para a área entre Poço do Bispo e Algés será de 2,5 pisos, de acordo com o arquitecto Miguel Correia. O projectista, que em conjunto com o britânico Terry Farrell executou o Pozor, responde desta forma às críticas de «construção excessiva à beira-rio» que têm sido levantadas por vários colegas seus e também por associações ambientalistas. Ribeiro Telles e Nuno Teotónio Pereira figuram entre os arquitectos que já manifestaram publicamente as suas reservas sobre a forma como o plano quer devolver rio à cidade.
Miguel Correia diz que não esperava outra coisa. São críticas de «pessoas rotuladas, cujas posturas a nível de densidade de ocupação do solo sempre foram claras». O plano de ordenamento que concebeu «não é autista», mas mudanças a este nível só serão feitas «depois de efectuados estudos de viabilidade e de tráfego». Remete para esses estudos a construção das unidades hoteleiras previstas em vários pontos da frente ribeirinha e a resposta à questão mais óbvia: como serão viáveis hotéis de três pisos?
A zona mais alta de todas, informa Miguel Correia, deverá ser a do Cais do Sodré, correspondente à altura dos edifícios da baixa pombalina: seis pisos, que incluem já mansarda e águas-furtadas. «Nalguns casos, a Administração do Porto de Lisboa até pediu aos projectistas para reduzirem a dimensão dos edifícios projectados!», comenta, ao mesmo tempo que salienta que os índices de ocupação de solo previstos são inferiores aos existentes -- ainda que seja pequena a percentagem de edifícios deitados abaixo. «A maioria será objecto de reconversão», diz.
De qualquer modo, tudo dependerá em última instância dos planos de detalhe, para os quais a administração portuária abrirá concurso em Setembro ou Outubro. O início das obras destinadas a remodelar os 20 quilómetros de beira-rio está previsto para o final de 1995.
O projectista tece ainda críticas à Câmara Municipal de Lisboa e ao seu plano director municipal. «Quando começámos a trabalhar no Plano de Ordenamento da Zona Ribeirinha ,nada estava definido para a área. O PDM fala em área de usos especiais. O que é isso?». A.H.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-036</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
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Crise no Alentejo
Bispo de Setúbal contesta acusações do PSD
O bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, reagiu ontem às acusações proferidas, sexta-feira, pelos responsáveis das distritais do PSD de Portalegre, Évora e Beja, que classificaram de «reprovável e insensata» a intervenção televisiva daquele prelado a propósito da crise que atravessa o Alentejo.
D. Manuel Martins, a quem os sociais-democratas alentejanos, reunidos anteontem em Beja, não reconhecem «autoridade particular» para falar do Alentejo, garantiu que não retira uma palavra ao que disse, acrescentando que com esta atitude o PSD apenas confirma que, tal como havia afirmado, muitos dos males do Alentejo residem no antagonismo político. Com atitudes destas, sublinhou o bispo de Setúbal, «não se chega lá [à resolução dos problemas que afectam aquela região]».
Além dos ataques a D. Manuel Martins, que criticou «os políticos que não juntam esforços para resolverem a situação», os responsáveis do PSD do Alentejo não pouparam os partidos da oposição, nomeadamente o PCP, que responsabilizaram pela crise na região. Ao fim do dia de ontem, esta força política ainda não tinha reagido às críticas dos sociais-democratas.
Aos comunistas lançaram, ainda, acusações de aproveitamento político com objectivos ilegitimamente partidários, que «semeiam a instabilidade política e instigam à instabilidade social». Por outro lado, os sociais-democratas congratularam-se com as medidas tomadas pelo Ministério do Emprego «para minorar a actual situação de desemprego no Alentejo». Um panorama que atribuem à crise profunda que atravessa a Europa e o mundo, aos anos de seca que prejudicaram a agricultura e ao PCP, a quem «devem ser pedidas contas» pelos investimentos que não conseguiram atrair e pelos empresários «que afugentaram», devido à agitação e instabilidade que «cultivam desde 1974».
Os problemas de fundo do Alentejo, afirmaram, só se resolverão com a «viabilização dos projectos estruturantes do Plano de Desenvolvimento Regional -- Alqueva em primeiro lugar -- a aplicação de um programa contínuo de formação profissional e com a instalação de um clima de confiança política e de estabilidade social».
Carlos Dias
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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Alegando «uso indevido das palavras sagradas"
Diocese de Leiria contesta campanha publicitária
Vários sectores da Igreja, em Leiria, reagiram nestes últimos dias à campanha publicitária da KC Cola, uma nova bebida lançada nos últimos meses no mercado português, acusada de fazer «manipulação e uso indevido das palavras sagradas com uma finalidade comercial», bem como «de instrumentalização comercial» das crenças dos católicos.
Num artigo publicado no jornal «Voz do Domingo», o jornal da diocese da Leiria, assinado pelo padre Jorge Guarda, é sugerido aos católicos boicotarem o consumo da bebida lançada nos últimos meses nos distritos de Aveiro, Beja, Santarém, Castelo Branco, Leiria e norte de Lisboa e Bragança. «Bem farão [os católicos] se reagirem à mensagem publicitária, abusiva e desrespeitadora, rejeitando o produto que se pretende vender com ela», afirma o referido artigo, acrescentando que «tal atitude pode levar à tomada de consciência de que, mesmo na nossa sociedade tolerante, nem todos os meios servem para atingir determinados fins».
As frases-alvo deste protesto relacionam-se com as alusões ao terceiro segredo de Fátima e uma outra descrita nos evangelhos, pronunciada por Jesus Cristo durante a última ceia: «Tomai e bebei todos».
O lançamento do refrigerante abriu com uma campanha tendo por base a seguinte primeira frase inscrita em painéis: «O terceiro segredo vai ser revelado». Semanas depois, uma imagem de uma freira dando um beijo a uma garrafa da bebida surgiu nos mesmos «outdoors» suportada pelo seguinte texto: «Já não é segredo. Chegou a KC Cola".
Na última fase desta campanha de lançamento, a figura de um padre de óculos escuros, sentado numa moto, aparece por baixo de um texto onde se lê: «Tomai e bebei todos».
Os católicos «não podem deixar de se sentir ofendidos e como que espoliados de algo para eles tão precioso», refere o texto do padre Jorge Guarda, explicando logo de seguida que «Tomai e bebei todos» é, para os católicos, «um convite de Cristo para comungarem o vinho transformado em Seu sangue». Poderão eles -- os católicos -- tolerar que essas palavras «sirvam para vender uma bebida qualquer?» pergunta-se o sacerdote. E conclui: «Os sentimentos religiosos são feridos com esta campanha.»
O texto publicado na «Voz do Domingo» vem ainda acompanhado por um outro recordando o conteúdo de uma nota recente do Patriarcado de Lisboa, onde se refere que «expressões ou imagens sagradas» na publicidade de produtos comerciais constitui um «abuso intolerável, motivo de fundado escândalo e ofensa a numerosos portugueses».
Duas cartas publicadas nesta semana em dois outros jornais da região, assinadas por «um grupo de paroquianos de Leiria», contestavam também esta publicidade, sobretudo pela forma considerada «abusiva» com que «se vulgarizam e reduzem a leituras meramente materialistas e consumistas, expressões milenarmente assumidas pelos crentes como constitutivas do núcleo central da fé que professam».
Francisco Gameiro, responsável da empresa que dirigiu a campanha, refere, por seu lado, ter sido «com uma certa perplexidade» que se apercebeu da «indignação de alguns sectores da Igreja», adiantando não ter havido «qualquer intenção de ferir susceptibilidades».
«Perdoai-lhes, senhor, que eles não bebem KC Cola» é como Francisco Gameiro responde ao apelo do clero leiriense aos católicos para não consumirem esta nova bebida, adiantando que essa atitude «deixa transparecer alguns sinais de fundamentalismo». Segundo ele, esta contestação não vai alterar a estratégia da campanha seguida até aqui. A primeira fase de lançamento está terminada e as imagens dos painéis começaram a ser retiradas nas últimas semanas. A marca pensa agora aparecer com o seu patrocínio a grandes eventos desportivos a nível nacional e, sobretudo, durante o Verão, aos «desportos radicais».
Carlos Camponez
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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Apesar da chuva
Mosquitos
reapareceram
Os pequenos mosquitos que anteontem invadiram diversos pontos do Porto e concelhos limítrofes reapareceram ontem, novamente em grande número. A chuva que caíra no final da tarde de sexta-feira não foi suficiente para acabar com estes insectos incómodos, que surgiram em maior número em zonas da Foz e da Boavista.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-039</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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«O Companheiro» apoia programa para os sem abrigo
Margarida Rodrigues
Não ter abrigo e ser maior de 18 anos são dois requisitos formais que devem reunir todos os candidatos ao programa Horizon, uma iniciativa de apoio aos sem abrigo, em curso no «Companheiro». Mas, segundo os técnicos responsáveis pela selecção, os critérios podem flexibilizar-se. E essencial mesmo para ser aceite, é conseguir demonstrar vontade para mudar.
Apoiar os sem abrigo não apoiados por outras instituições, levando-os a desejar a mudança é o objectivo primordial do programa Horizon, um projecto de apoio a desintegrados urbanos não institucionais, que a associação «O Companheiro» tem em curso. A acção, dividida em três fases distintas, teve início em Fevereiro passado, mas só estará concluída em Setembro, quando os indivíduos seleccionados estiverem definitivamente integrados nos cursos de formação disponíveis.
O programa entrou agora na fase de contacto directo com os potenciais candidatos. Antes, vários estudos tinham sido feitos, nomeadamente através de questionários distribuídos pelas esquadras, Juntas de Freguesia e paróquias, numa tentativa de identificar as zonas de maior concentração dos sem abrigo. Só assim, explicou ao PÚBLICO, Sandra Simões, psicóloga, e uma das coordenadoras do projecto, «foi possível partir para a rua com um conhecimento mais ou menos exacto de onde os poderíamos encontrar».
Os questionários e todo o trabalho preparatório que levaram a cabo durante mais de três meses, permitiu-lhes saber, por exemplo, que o maior número de indivíduos sem abrigo é do sexo masculino - «as mulheres com problemas recorrem, geralmente à prostituição» -,que se refugiam preferencialmente nas zonas velhas da cidade - «onde encontram mais estruturas de apoio social, como cantinas e dormitórios» - e que, muitas vezes, dormem durante o dia, sendo por isso mais fácil localizá-los à noite.
Agora, com o trabalho de campo bastante facilitado, o que lhes permite contactar um maior número de indivíduos, partem, vários dias por semana, a horas diferentes, para a rua à procura de potenciais candidatos. Através de uma abordagem directa e simples, explicam-lhes quais os cursos à sua disposição - carpintaria, serralharia, cozinha, costura e gestão doméstica - e disponibilizam, logo na altura, horários para entrevistas. Aos mais indecisos, distribuem panfletos e pedem-lhes que entrem em contacto com a instituição para mais informações.
Esta, referiu Sandra Simões, é também uma forma de aferir o grau de apetência dos indivíduos para os cursos, porque, explicou, «se nos aparecem logo no dia a seguir, sabemos que realmente devem estar interessados». A motivação em relação aos cursos vai ser mesmo um factor determinante para o trabalho futuro do programa. É que, por se tratar de um projecto piloto, o número de vagas é bastante restrito, e, se requisitos essenciais como o não ter casa ou ter mais de 18 e menos de 50 anos vão ser determinantes, a vontade de cada um em frequentar o curso não o vai ser menos. «Pode até dar-se o caso de aceitarmos um indivíduo que ultrapasse a barreira dos 50 anos desde que este se mostre mais interessado que um mais novo», esclareceu Sandra Simões.
Apesar de admitirem que é ainda cedo para falar de resultados, os responsáveis mostram-se satisfeitos com a forma como a iniciativa tem decorrido. Muitos dos indivíduos contactados têm marcado entrevista e, acima de tudo, demonstrado uma grande vontade de mudar de vida. E reacções como a de José Rodrigues, um arrumador de carros da zona das Amoreiras, que, assim que lhe foi explicado o que era o programa , desabafou: «Claro que estou interessado. Tudo é preferível a estar aqui a arrumar carros durante todo o dia. Isto não é vida para ninguém», têm sido bastante comuns.
Por outro lado, há também aqueles que já conhecem a organização e adiantam logo: «Não, não. Já conheço. Não estou interessado». Este é, muitas vezes, o caso, explicou Sandra Simões, de indivíduos que já frequentaram outros cursos na instituição e que não se conseguiram adaptar às regras ali impostas. Outros ainda, reconhece, preferem mesmo este tipo de vida. Até porque, ganham geralmente mais, por exemplo, a arrumar carros do que frequentando os cursos, onde apenas receberão 70 por cento do salário mínimo e um subsídio de alimentação.
Barreiras que as organizadoras do programa procuram contornar. Aliás, estão conscientes que a próxima fase poderá ser ainda mais complicada. É que, de todos os indivíduos contactados, apenas 24 poderão ingressar no programa. E, se por um lado é verdade que alguns deles, depois das entrevistas, poderão ainda ser encaminhados para outros cursos ou projectos para que mostrem mais apetência, outros serão, inevitavelmente, excluídos, o que «faz com que muitos deixem de acreditar que a mudança pode ser uma realidade», explicou Susana Sanches, uma socióloga também ligada ao projecto.
Este, admitem, é um dos riscos que têm de correr e que vale a pena correr, porque, adiantam: «se o projecto tiver sucesso, para o ano poderá continuar e dar ajuda a um maior número de indivíduos». Para já, «temos que apoiar da melhor forma possível os candidatos deste ano», dizem ainda.
Na própria instituição, tudo está preparado para receber o novo programa. Como contou ao PÚBLICO João Silva, administrador e director-geral do «Companheiro», estão já habituados a trabalhar com pessoas em condições semelhantes e mostram-se confiantes relativamente à adaptação dos novos indivíduos que venham a ser seleccionados para integrar o Horizon. É que, referiu, apesar dos casos «naturais» de insucesso, «quando lhes são dadas oportunidades, estes homens trabalham e conseguem ser úteis quer para eles quer para a sociedade».
Só assim se explica, adiantou, que seja possível à instituição manter um número mínimo de funcionários contratados. O resto do trabalho, desde a limpeza até ao serviço de secretaria, «é totalmente garantido pelos utentes, na sua maioria ex-presidiários e indivíduos sem abrigo», um factor que, na opinião de João Silva, «demonstra, por si só, o sucesso conseguido pelos programas da instituição».
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-040</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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Domingos da Costa Xavier
Sobre toiros
Uma faena «cumbre»!
O superar-se é, do meu ponto de vista, a ambição maior do toureiro, o que o leva a prosseguir e a cumprir o rito tarde após tarde. Mesmo quando já usufruindo dos louros e cabedais acumulados com os triunfos, mais não almeja ao fazer o «Paseillo» que ver sair pela porta dos sustos um toiro de investida nobre que lhe consinta o tourear a gosto.
Quando tal acontece, é possível ao próprio e ao público o viver momentos de tal transcendência que não raro as palavras escasseiam para que esses momentos se descrevam, muitas vezes até para que se acompanhem, não sendo portanto por acaso que o que com grandeza acontece por essas arenas seja entusiasticamente sublinhado com os sintéticos olés.
Em verdade, tivesse eu o juízo inerente à idade inscrita no meu bilhete de identidade e seria com um estentóreo olé!! que agradeceria a Álvaro Guerra a faena «cumbre» a que chamou «Esboços para Uma Tauromaquia», e por aqui me ficaria.
O taurinismo do autor presto entenderia tudo o que a minha exclamação contém; eu ficaria de bem com a minha consciência pelo dever cumprido e, sobretudo, com toda a certeza evitaria que sobre este texto de meios passes pudesse ouvir, bem à portuguesa, que não deve ir o sapateiro além da chinela...
Perdoe-se-me assim o atrevimento que aqui patenteio, ao permitir-me abordar e reflectir sobre esta última obra de Álvaro Guerra, que, de imediato vos digo, li de supetão, para depois, com calma, reler com os vagares de quem saboreia aromas de um puro, aromas que, devo confessar, se libertam do texto com fragância, a fragância da essência do pensamento taurino do escritor.
Li uma vez que um escritor escreve de facto um livro, o primeiro, e que, de certa forma, nos outros se repete. Confesso já não saber, ou por má memória ou por pura ignorância, de quem é a paternidade da afirmação, nem para o caso se me afigura relevante; o que posso e devo aqui agora eu próprio afirmar é que com a escrita de Álvaro Guerra o narrado não se comprova e os seus variados temas e títulos são disso testemunho.
Cultor de um estilo pessoalíssimo, é com uma facilidade extrema que nos arrasta para a trama dos seus romances, que nos confronta com a humanidade dos seus personagens nas suas grandezas e misérias; e é ainda pessoalíssimo sobretudo na forma como acaba por exorcizar as múltiplas paixões que em jeito sedutor nos faz percorrer e -- porque não? -- viver.
Acontece que sentindo-se, como é por de mais evidente, a alma do escritor em tudo isto, só com atrevimento lhe podemos imputar a vivência das suas ficções, certo e sabido que o autor não deve ser confundido com as suas «razões do coração».
Mas, nestes «Esboços», que são afinal desenhos acabados, creio que nos é possível descortinar um bom bocado do homem que tem sabido por força das variadas vivências ser cosmopolita e mundano, sem, como deliberadamente confessa, se esquecer das suas «raízes, que nunca param de crescer, como as de uma árvore antiga ainda mergulhada no húmus da vida».
A bibliografia taurina passa a contar com um livro valioso, integrante como figura em qualquer feira em posição de cabeça de cartaz, capaz até de alternar em mano a mano com o que de melhor se tem escrito sobre a especialíssima arte que conduz à afirmação do homem nas arenas.
Transporta-nos ainda o autor aos tempos em que, «galopando na perigosa descida do Bacalhau até ao largo da escola, entre cabrestos e toiros de pé descalço e o tropel de espontâneos acenando trapos que sonhavam capotes», cimentou pela mão de seu pai, que consentia estes devaneios infantis, a aficion intrínseca de que se orgulha e que ainda hoje o faz percorrer os caminhos da ibéria, agradavelmente buscando fruir «uma obra de arte que se extingue ao criar, que nem o seu autor pode possuir, a não ser no instante em que ela lhe está saindo das mãos».
Como lhe estou agradecido por esta faena, em que soube colocar tudo o que se exige aos toureiros, para que nos alimentem a alma.
Não me competindo desvendar à exaustão o teor do livro, visto que me não perdoariam os leitores que lhes roubasse o prazer da descoberta, compete-me, isso sim, avisar-vos de que ireis encontrar profundidade, na prosa quase poética, lúcida e esclarecida que a obra encerra, só possível porque escrita por quem soube captar o melhor que lhe entrou pela retina nas arenas do mundo que percorreu, e que, fazendo agora soar os clarins da emoção, nos arrasta para o mistério das vidas das arenas, que nos remetem afinal para as arenas da vida.
Na última frase impressa, Álvaro Guerra exclama: «Pudera eu fazer da minha vida uma tauromaquia.» Fez, porque toureio é grandeza, toureio é sentimento e é facto que rematou com estocada inteira, na cruz e fulminante a rodar «sin puntilla», a lide do que chamou, e eu entendo, o seu toiro de papel.
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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Legislação estagnada desde 1957
Pode parecer extraordinário mas não é. O decreto que regula e condiciona a actividade pára-quedista data de 1957. «Actualmente o pára-quedismo já nada tem a ver com o que era, a segurança, as técnicas e os equipamentos evoluíram espantosamente, mas não a legislação, que precisa urgentemente de ser revista», considera Casaca Ferreira. De comum ao pára-quedismo de 1957 e ao de hoje apenas existe a porta do avião e o solo.
Casaca Ferreira é um entusiasta da modalidade e um conhecedor profundo dos seus condicionalismos. Defende a criação da União dos Pára-quedistas Portugueses, ligada ao Instituto do Desporto e capaz de controlar, dirigir e organizar a actividade dos milhares de pára-quedistas e dos clubes e escolas que continuam a proliferar sem tutela e, algumas vezes, sem respeitar normas de segurança ou com objectivos essencialmente comerciais.
Saltar sai caro. Há clubes que cobram cinco contos por salto. A formação de um pára-quedista também custa algumas dezenas de contos, o que restringe o número de praticantes. E ainda há quem defenda que os candidatos à formação devem realizar um exame médico prévio, que custa 30 contos.
Casaca Ferreira considera que não se deveriam pôr mais entraves à formação dos pára-quedistas. «Precisamos de dar mais credibilidade a este desporto, apoiar a juventude que gosta de desportos radicais e procurar financiamentos oficiais e particulares. Temos meios, equipamentos e instrutores dos melhores a nível mundial -- mas vamos para as competições internacionais e falhamos sempre», diz.
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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Estrada Torres Vedras-Bombarral
Ambientalistas preocupados com IC 1
A Associação de Defesa do Património de Torres Vedras e o Espéleo Clube local estão preocupados com o impacte ambiental da passagem do Itinerário Complementar 1 (IC1) pelas zonas naturais do concelho. As Termas dos Cucos e a Quinta da Macheia são os locais que, segundo os ambientalistas, poderão ser «devassados» com a construção daquela via rápida, que irá ligar Torres Vedras ao Bombarral, funcionando como prolongamento da auto-estrada Lisboa-Torres.
Num comunicado, as organizações analisam os efeitos da construção da estrada e propõem medidas para «minimizar os impactes negativos em locais de interesse ambiental e arqueológico, como uma calçada medieval».
As zonas consideradas mais sensíveis são a da Quinta da Macheia, extensa propriedade de interesse histórico, económico e social, ligada às Termas dos Cucos e proposta no plano director municipal de Torres Vedras como área natural e turística. Segundo aquelas associações, «a estrada vai afectar um importante conjunto de vestígios arqueológicos que datam de quatro mil anos A.C.»
Os ambientalistas têm a garantia de que um arqueólogo está a acompanhar as obras naquele local. «O que não está salvaguardado é a necrópole, que poderá desaparecer», referiu Daniel Abreu, da direcção do Espéleo Clube de Torres Vedras.
Termas em perigo
Mais uma vez, e à semelhança daquilo que acontece na auto-estrada Lisboa-Torres com a luta dos moradores dos lugares de Orjariça e Catefica, esta associação denuncia que os projectos foram feitos «ao arrepio de algumas normas elementares do funcionamento democrático, nomeadamente a possibilidade de escolha, por parte dos cidadãos, do tipo de infraestruturas e do local onde elas são implementadas».
O traçado vai precisamente penetrar na área natural dos Cucos, o que, para os ambientalistas, criará perturbações, quer ao nível paisagístico, quer do ponto de vista da própria fauna, concretamente das aves que ali têm um pequeno santuário. «Por outro lado, vai alterar as possibilidades de utilização daquela área como espaço de lazer», de acordo com o Espéleo Clube.
Outra das questões levantadas com a passagem da via naquelas termas, prende-se com a omissão, no estudo de impacte ambiental, das consequências que poderão advir para «um valor tão importante como são as águas termais, cuja nascentes deveriam ser alvo de estudo hidrogeológico, para verificar ate que ponto as águas de escorrência da auto-estrada (que transportam desde resíduos dos pneus até ao próprio combustível, que contém vários materiais pesados), poderão, ou não, afectar as nascentes tremais».
Mas a grande crítica vai para a forma como o projecto é apresentado, pois as associações queixam-se de terem sido confrontadas com um único traçado, já na sua forma definitiva, reconhecendo a inviabilidade de apresentarem alternativas. Mas não deixam de apresentar alguns cuidados a ter, nomeadamente, trabalhos arqueológicos, a criação de corredores ecológicos para a fauna selvagem, barreiras de protecção sonora enquadradas na paisagem e minimização dos impactes na paisagem e das próprias obras, (ruídos e poeiras), durante a fase de construção, tendo em conta a proximidade das zonas referidas.
Jorge Humberto
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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Ponte de Lima
Hipódromo vem a galope
O novo hipódromo de Ponte de Lima vai hoje ser palco, a partir das 16h00, de uma corrida de galope, protagonizada por cerca de 70 cavalos de puro-sangue inglês. Uma competição com carácter experimental, como outras que se seguirão, até à conclusão do projecto e inauguração oficial em Abril do próximo ano.
As terraplenagens terminaram esta semana e, para já, o hipódromo, localizado na Quinta das Velhas, em Calvelo, dispõe de 50 boxes, secretaria e picadeiro descoberto. Segundo o seu proprietário, Pedro Mendonça, o picadeiro coberto estará concluído no próximo mês e a bancada, com capacidade para cinco mil pessoas, será construída antes de 1995. Durante o Inverno, a pista, de 1450 metros de comprimento por vinte de largura, será relvada.
«Um pouco à moda de Edgar Cardoso», como nos referiu Pedro Mendonça, a prova de hoje servirá para testar o trânsito de acesso, a colocação do público (a capacidade total será de 30 mil pessoas) e o próprio traçado da pista. A assinalar a retoma da «tradição da actividade cavalar» no concelho, as entradas são livres para um espectáculo ainda a dar os primeiros passos no nosso país. «Não tenho dúvidas que o hipódromo será o melhor de Portugal», adiantou o proprietário, referindo o enquadramento paisagístico e os equipamentos que completarão os cerca de 30 hectares consignados, nomeadamente um campo de obstáculos. O investimento total rondará os 200 mil contos, comparticipados pelo programa comunitário LEADER, em quase 30 mil contos nesta primeira fase.
António Gonçalves
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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Teatro no número 97 da Rua Saraiva de Carvalho, a Campo de Ourique, com a peça «Em busca de... Proust», baseada na obra de Marcel Proust. Adaptação e encenação de Aldona Skiba-Lickel, com cenografia e figurinos de Alix Rabaté du Cheyron. Às 21h00.
«Lua, Lua» é uma iniciativa do bar Bar&amp;Co, que abre as portas nas tardes de domingo, a partir das 17h00, à música, aos copos e às conversas no rio. No Tejo, ao Cais do Sodré.
Prossegue o Festival Internacional de Teatro de Almada. Às 16h00, «O valente soldado Schweik» sobe ao palco do Teatro Municipal da cidade. Às 20h00, o espectáculo vai à rua, com a peça «Os construtores», no Largo Alfredo Dinis, em Cacilhas. No palco grande da Escola D. António da Costa, às 22h30, passa o Teatro Piollin, com «Vau de sarapalha». Na mesma escola, mas na esplanada, há música brasileira com os Kaka Brasil, seguindo-se uma passagem de moda. Às 21h30.
Animação de rua para os mais pequenos no Largo Cidade de Vitória, em Cascais, com o espectáculo «Anasim, Ananão». A partir das 18h00. Na mesma vila, na Capela do Gandarinha, continua patente «A apresentação da rainha», uma exposição que reúne um conjunto de esculturas inéditas de João Cutileiro.
«Cavalos de papel e sortilégios de pessegueiro» é o título de uma mostra de xilogravura chinesa patente na Galeria de Colares, Rua Fria, em Colares, concelho de Sintra. Para ver até dia 21 de Agosto.
Obras de Haydn, Schubert e de Brahms pelo Quarteto de Cordas de Lisboa, às 19h30, no Centro Cultural São Lourenço, em Almansil.
Lançamento do livro «Propriedade e níveis de riqueza-formas de estruturação social em Reguengos de Monsaraz na primeira metade do século XIX», de Maria Manuela Rocha. Às 16h00, na Igreja de Santiago, em Monsaraz.
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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Decorre o Ciclo de Órgão, desta vez na Sé Patriarcal de Lisboa, com Francis Chapelet. Às 16h00.
O Palácio Ceia, sede da Universidade Aberta, continua a abrir as portas ao público, entre as 15h00 e as 19h00. Situado na Rua da Escola Politécnica, no eixo da Sétima Colina, o imóvel é um exemplar da arquitectura setecentista e alberga um «valioso» conjunto de azulejos atribuídos à Fábrica do Rato.
Escultura, pintura, tecnologia e música para ver e ouvir no Convento dos Cardaes, à Rua do Século. «In-ventos» é o nome da exposição, concebida por cinco artistas portugueses. Patente até ao final deste mês.
O Festival de Música de Sintra prossegue com a participação de Katia e Marielle Labèque. Às 19h00, na Quinta da Piedade.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-046</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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Oeiras
Câmara vacina funcionários
A Câmara Municipal de Oeiras lançou, recentemente, uma campanha de vacinação contra a hepatite B, que abrange os funcionários municipais ligados aos sectores considerados de maior risco, nomeadamente os trabalhadores da Divisão de Espaços Verdes e Higiene Pública.
Esta campanha, de acordo com o presidente do município, Isaltino de Morais, em declarações à agência Lusa, faz parte da própria acção social da autarquia junto dos trabalhadores. No entanto, o autarca nega a existência de qualquer caso de hepatite B entre os funcionários da Câmara.
No início do programa de vacinação, verificaram-se resistências por parte de alguns trabalhadores, o que obrigou a autarquia a lançar uma acção de sensibilização. Segundo Isaltino de Morais, o receio de parte dos funcionários deve-se ao facto de ainda existir no imaginário das pessoas «uma confusão entre hepatite B e sida».
A vacinação, que poderá ser alargada a outros sectores do município, foi adjudicada à Laboran-Laboratórios de Análises Clínicas por 1080 contos. O autarca justifica esta escolha com o facto de aquela empresa ter prestado em anos anteriores serviços idênticos, tendo demonstrado «grande profissionalismo». Para o futuro, Isaltino de Morais promete «mais cuidado» nas adjudicações, porque relativamente a esta campanha a Câmara recebeu reclamações de um laboratório que oferecia um processo idêntico ao seleccionado e cujo orçamento era inferior ao da Laboran.
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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Protestos contra supressão de estrada local
Obras suspensas na radial de Odivelas
As obras num dos ramos da radial de Odivelas, junto ao nó da Ramada, entre os bairros Casal do Chapim e Sítio da Várzea, vão estar suspensas enquanto a Junta Autónoma de Estradas (JAE) não tiver encontrado uma solução técnica que evite o corte da ligação física entre os dois núcleos populacionais.
O anúncio foi feito sexta-feira, ao fim da tarde, por Demétrio Alves, presidente da Câmara de Loures. O autarca deslocou-se ao local das obras, a pedido dos moradores dos dois bairros, que protestaram contra a supressão da actual ligação rodoviária e a futura substituição por uma passagem aérea pedonal.
Ao longo dos últimos dias, a contestação ganhou terreno e foi mesmo constituída uma comissão conjunta de moradores das duas localidades, que, em comunicado, se queixam de que «a população vai sentir desvalorizada a sua zona residencial com uma fronteira que não tem sentido, com uma interrupção rodoviária que não tem razões técnicas» e dizem que «ponte-a-pé, não». Junto ao «trevo» que constituirá o nó da Ramada, onde as obras decorriam a ritmo acelerado, Demétrio Alves revelou que a JAE aceitou o seu pedido de suspensão imediata dos trabalhos e prometeu que, já amanhã, uma equipa técnica da Junta se irá deslocar ao local, para fazer o levantamento das alternativas.
Solução difícil
A solução técnica não se apresenta fácil, porque um viaduto rodoviário no actual espaço disponível se faria com acentuado declive: «Não é uma questão de dinheiro, mas é uma questão de segurança», garantiu o presidente de Loures. Segundo técnicos da JAE, uma passagem rodoviária, naquele local, para ser segura, teria de implicar a demolição de uma escola pré-primária, frequentada por 120 crianças das duas localidades (onde foram gastos cerca de cem mil contos), e de algumas habitações existentes nas proximidades.
Mas quem não quer ouvir falar em demolições é Ilídio Ferreira, presidente da Junta de Feguesia da Ramada, que também está solidário com os moradores. «Parece que há problemas técnicos, mas a população não tem nada a ver com isso», diz Ilídio Ferreira, que considera que é tudo uma questão de investimento. Segundo o autarca da Ramada, suprimir a ligação entre o Casal do Chapim e o Sítio da Várzea (o primeiro situa-se na freguesia de Odivelas, o segundo na feguesia da Ramada), «é deitar fora a alternativa à Estrada Nacional 250-2 [que liga Odivelas e Caneças, passando a sul da Ramada] e que já se encontra saturada». Também a possibilidade de aquela ligação se fazer pela nova urbanização das Terras do Moinho é considerada inviável, por não ter capacidade de escoamento de tráfego.
Também Vítor Peixoto, presidente da Junta de Odivelas, é contrário à intenção inicial da JAE e afirma que se o corte físico das duas povoações gémeas se fizesse, ficava criada uma barreira à utilização conjunta dos equipamentos colectivos que foram concebidos quando a Ramada pertencia à freguesia de Odivelas. Numa moção aprovada sexta-feira à noite, numa garagem do Casal do Chapim, o executivo de Odivelas defende a ligação rodoviária e recorda a recente destruição do colector de esgotos de Odivelas pelas máquinas ao serviço da JAE e o impacte negativo do paredão de cimento no bairro da Codivel, como exemplos da forma «agressiva» e «pouco dialogante» como as obras das circulares e da radial de Odivelas estão a ser conduzidas.
A radial de Odivelas é uma via rápida que estabelece a ligação entre as circulares regionais interior e exterior de Lisboa (CRIL e CREL), entre Odivelas e Montemor (Caneças), distribuindo tráfego pelos nós de Odivelas, Ramada e Bela Vista.
Vítor Faustino
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-048</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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Pára-quedismo vai ter pólo de convergência em Vila Nova da Barquinha
De memória da guerra a desporto radical
Manuel Fernandes Vicente
Os pára-quedistas portugueses estão virados para o futuro. Apostam numa estrutura nacional que discipline alguns abusos e aguardam alterações na legislação de 1957, quando o pára-quedismo era uma actividade associada à guerra. Entretanto, em Tancos, os «Boinas Verdes» continuam a formar milhares de jovens e a sua futura sede vai transformar a Barquinha num grande pólo de convergência dos pára-quedistas.
O Pára-Clube Nacional «Os Boinas Verdes» (BV) quer transformar Vila Nova da Barquina num pólo de convergência dos pára-quedistas portugueses. A organização, que representa Portugal na União Europeia de Pára-quedistas, pretende aproveitar as pontencialidades do concelho -- localização no Centro do país, boas acessibilidades e presença da Escola de Tropas Aerotransportadas de Tancos -- para dinamizar a sua sede social nacional, que será construída na Barquinha, com o apoio da Câmara Municipal e da Secretaria de Estado do Ordenamento do Território.
«Em Dezembro do ano passado foi adquirido um vasto terreno na Barquinha, por 116 mil contos. Já há projecto de construção e pensamos que as obras poderão iniciar-se em Setembro», refere Casaca Ferreira, major da Escola de Tropas Aerotransportadas e director da secção de pára-quedismo dos BV. A própria Câmara pretende transformar o concelho num pólo nacional de actividades ligadas à aeronáutica.
A ideia de criar uma associação de pára-quedistas que mantivesse os elos carismáticos entre os militares desta especialidade depois de passarem à reserva surgiu em 1975, mas o Pára-Clube Nacional «Os Boinas Verdes» só surgiu dois anos depois. «Verificámos que a mística do avião e do salto se perdia lentamente entre os que passavam à reserva e todos sentiam a necessidade de criar uma associação que mantivesse o vínculo de amizade entre todos os pára-quedistas», diz Casaca Ferreira.
A actividade principal dos BV é a organização mensal de cursos de pára-quedismo, saltos de demonstração, execução de saltos «tandem» (para quem quiser experimentar a sensação do pára-quedista sem se sujeitar a aprender todas as técnicas pode saltar em conjunto com um instrutor experiente) e organização de torneios internacionais, como o que no ano passado reuniu em Vilamoura os melhores especialistas mundiais.
Os BV têm dois aviões Cessna, que lhes permitiram realizar cerca de seis mil saltos de formação, treino ou demonstração entre 1990 e 1993, desenvolver 48 cursos de pára-quedismo em vários locais, principalmente Tancos, São Jacinto, Viseu e Évora, e formar 615 novos «boinas verdes», entre os quais 54 mulheres.
Entregues ao Criador
O primeiro salto do avião é, naturalmente, uma experiência única. A história da «primeira vez» é o lugar onde num instante único se encontraram todos os medos e coragens resolvidos numa aventura que é sobretudo interior.
«Cada um sente esta experiência à sua maneira. Um padre que frequentou os nosso cursos disse, maravilhado, que nunca se sentira tão entregue ao Criador», conta Casaca Ferreira.
Maravilha, silêncio e liberdade são as palavras que mais vezes traduzem e sintetizam a aventura. Mas, às vezes, há quem dispense a aventura e as maravilhas à porta do avião. «Há seis anos, em Évora, um dos nosso alunos chegou à porta, assustou-se e recusou-se a saltar. Nos BV ninguém obriga ninguém», conta Casaca Ferreira, que, como todos os pára-quedistas, tem histórias para contar.
«Um dia, em pleno Verão, em Tomar, tivemos uma demonstração de saltos no estádio municipal, rodeado por grandes árvores em todo o seu perímetro. Era já tardinha e o vento soprava forte de uma linha lateral para a outra. Tomei posição com o pára-quedas cómico (os actuais, tipo ASA, são rectangulares) e estudei a aproximação ao estádio de modo a passar por cima da bancada central fazendo um ângulo de 30 graus com a horizontal.»
Ao passar sobre a bancada, «devido ao ar quente e rarefeito que se encontrava por cima», Casaca Ferreira sentiu o pára-quedas ser «puxado» rapidamente para baixo e viu-se na iminência de, em plena demonstração como especialista, com o estádios cheio, ter que «aterrar» em cima da bancada. «Assustei-me, dei um impulso e ainda raspei numa ponta da bancada, acabando por ir cair junto à linha lateral. `Nada Ortodoxo', comentou o meu comandante. A verdade é que tive muita sorte.»
Desporto radical
Há quem salte de 70 km de altitude (com escafandro, meios auxiliares e oxigénio) ou, como o italiano Camerroso, desça a 230km/h com a cabeça para baixo -- mas a verdadeira mística do pára-quedista é outra: «A porta do avião é só uma, é de lá que todos saltamos, e isso torna-nos unidos e iguais», explica o responsável dos BV.
Mas saltar no ar é estar noutro mundo e muitos «páras» conhecem o «efeito fobia do ar». Casaca Ferreira explica-o: «Vamos no ar e a sensação de liberdade e de bem-estar é tão grande que nos esquecemos de que nos deslocamos a grande velocidade quando estamos em queda livre.»
Este viver no «fio da navalha» é também um dos elos que une a família dos «boinas verdes». «Dantes havia o pára-quedismo de guerra, apenas um meio de transporte de militares para cumprir missões em solo. A formação dos páras era feita visando o combate e o treino exigia tensões elevadas, carga e esforço físico intenso», explica o director dos BV, salientando o contraste com o pára-quedismo de hoje, apenas «um desporto radical, para aventura e prazer dos seus praticantes».
Saltar de pára-quedas é ainda um risco, mas tem-se investido muito em segurança. «Não nascemos com asas e saltar do avião é de certo modo uma coisa contra-natura», e por isso se salta com 1300 contos de material às costas -- pára-quedas, capacete, rádio, altímetro e um razoável aparto de segurança, incluindo o «sistémico», que abre logo que a velocidade de queda atinge os dez metros por segundo (e que neutraliza os perigos da «fobia do ar»), e um «dittar», que apita se houver excesso de velocidade.
Agarrar o mundo
Lançado do avião, três segundos depois o dispositivo automático abre o «tecto» que conduzirá o corpo ao solo. A primeira atitude do pára-quedista é olhar para cima para ver se o «tecto» abriu -- apesar de saber que abre sempre. A invasão de silêncio é apenas perturbada pelo ar a bater no pára-quedas. «Tem-se a ideia de que dali se pode agarrar o mundo», refere o principal dinamizador dos «Boinas Verdes».
«Receio das alturas alturas não se sente no avião nem no ar. Uma pessoa pode ter vertigens num terceiro ou quarto andar de um edifício, mas não num avião, mesmo a três mil metros de altitude, porque não há uma base fixa a ligar ao solo», explica Carlos Jerónimo, da ETAT de Tancos.
Na queda em voo integral, homem e pára-quedas descem a 4m/s. A velocidade pode ser reduzida para 2m/s ou mesmo, por momentos, a zero. Em queda livre, a velocidade chega a 50m/s, apesar de, «por ausência de referência de inércia, parecer que se está parado», diz Casaca Ferreira. A 300 metros de altitude prepara-se a aterragem: ouvem-se as instruções pela rádio ou cumprem-se as ordens das raquetas do instrutor no solo. Manobrando com os cordões as nove células do pára-quedas, tipo ASA, ataca-se o solo. Não há nada como a terra firme.
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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Férias enchem acessos ao Algarve
O início de mais um período de férias voltou a encher, durante todo o dia de ontem, as vias de acesso ao Algarve. O trânsito esteve parado, sobretudo durante a manhã, em vários troços ao longo da Estrada Nacional 120 e no novo lanço de auto-estrada entre Palmela e a Marateca, onde as filas de automóveis chegaram a atingir os cinco quilómetros de extensão.
O tráfego nas saídas de Lisboa, à semelhança do que já havia acontecido na tarde do dia anterior, foi bastante intenso, quer na autoestrada do Norte, quer na Recta do Cabo, entre a ponte de Vila Franca de Xira e o cruzamento de Porto Alto. Mas foi nos acessos ao Algarve, segundo a Brigada de Trânsito da GNR, que se concentrou o maior número de automobilistas.
Logo pela manhã, já eram visíveis filas de trânsito parado na serra algarvia. Uma cena que se repetia em vários troços da EN 120, nomeadamente entre Alcácer do Sal e Grândola e na saída da auto-estrada até ao cruzamento da Marateca. Um panorama em que as ultrapassagens de nada adiantavam, já que os automobilistas, após um pequeno lanço mais desafogado, encontravam logo de seguida uma nova fila de trânsito congestionado.
Apesar da intensidade do tráfego, e de acordo com a GNR, não se verificaram muitos acidentes, havendo a registar, no entanto, o despiste de um motociclo, próximo de Ourique, do qual resultou a morte do condutor.
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<DATE>19940717</DATE>
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As crianças ao natural
Capitaneado por Carlos Vidal (conhecido nos meios infantis, mas não só, como «Avô Cantigas»), surgiu nos ecrãs nacionais, mais propriamente na TVI, um novo concurso. Não é original? Já tínhamos tão poucos... Mas, pronto, não obstante a fartura de concursos, qual deles o mais insuportável, demos connosco numa sexta-feira à noite a ver o Trocado por Miúdos. Deve dizer-se que não demora muito tempo, o que é óptimo, e não coloca os concorrentes em situações embaraçosas, daquelas estilo Jogo do Ganso, com pessoas a mordiscar serpentes ou a lamber sabe-se lá o quê.
Ultimamente, com a falta de «entertainners» nacionais, os canais de televisão vão recorrendo a artistas de teatro e da canção para apresentadores, o que, como solução de recurso, não é mau, mas não deveria ser um princípio. Devíamos ter pessoas novas preparadas e ensinadas a apresentar concursos, «talk-shows» e quejandos. Diga-se em abono da verdade que, por acaso, mau grado a voz de cana rachada que lhe servia às mil maravilhas no papel de Avô Cantigas, Carlos Vidal sai-se muito bem, sem alarvidades ou piadas de mau gosto. Limita-se a apresentar, e bem, o concurso -- e mais não se lhe pedia.
A razão por que decidimos falar deste tão pequeno e insignificante concurso é porque a base em que assenta são as crianças, esses seres também eles aparentemente insignificantes mas que o são só na aparência. Como já todos sabemos, a SIC continua a transmitir Mini-Chuva de Estrelas, programa sobre o qual já foi tudo dito, mas que nos vai aqui servir de termo de comparação. É que na Mini-Chuva de Estrelas as crianças são reduzidas a meros macaquinhos imitadores dos tiques dos adultos. Põem-lhes umas cabeleiras e uns fatos miniatura, escolhe-se um «playback» e põe-se a plateia a rir com os meninos para ali a sacudir-se de um lado para o outro como patéticas marionetas. O júri elogia-lhes sempre a «magnífica expressividade e a mímica» e os paizinhos ficam todos contentes com a «performance» dos rebentos.
No concurso Trocado por Miúdos, as crianças são mesmo crianças. Pede-se-lhes que descrevam à sua maneira um objecto que os adultos terão de adivinhar qual é e elas fazem-no com o improviso, a imaginação e a criatividade próprias das crianças. É só isso. Trata-se no fundo de as deixar ser tal como são, sem adereços nem «playbacks». Como escreveu há dias, numa carta dirigida ao PÚBLICO, Luísa Atalaia, do Centro de Formação Educacional Permanente (Cefepe), «estas são crianças ao natural».
Nuno Ferreira
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<DATE>19940717</DATE>
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La Féria, empresário megalómano
Filho de latifundiário, ontem militante de esquerda, hoje empresário, praticamente o único empresário teatral do país -- embora um empresário endividado --, Filipe La Féria sujeitou-se na noite de sexta-feira ao interrogatório de Margarida Marante, no programa Sete à Sexta. Pretexto: a estreia de «As Fúrias», que La Féria encenou com os actores do Teatro Nacional de D. Maria II.
Sobre a estreia e a peça Margarida e Filipe falam pouco. Breves segundos. Partindo da questão de «As Fúrias» serem ou não um «bom» retrato do 25 de Abril (a peça não é um retrato do 25 de Abril, mas um retrato de uma família rica, com o 25 de Abril como pano de fundo). É também ventilada a questão trivial de a peça ser uma adaptação fiel do romance de Agustina Bessa-Luís. E La Féria aproveita para definir o seu último trabalho como «uma peça para o grande público, o mesmo que viu `Passa por Mim no Rossio'».
Como um dos factos da semana é a polémica entre os cineastas portugueses e Zita Seabra, o empresário-encenador, amigo pessoal e caloroso de Santana Lopes, alinha pelas posições de Zita, defendendo como ela um cinema (e um teatro) que «tem que ir de encontro ao público». Alerta, público, que eles vêm aí de encontro a ti!
Fazendo questão de criticar o secretário de Estado da Cultura (a quem «a classe teatral deve bastante», diz), censura-lhe a extinção de companhias de teatro, as produções teatrais que consomem largos milhares de contos e ficam só 15 dias em cena (será o caso de «As Fúrias»). E, antes de tudo o mais, certos «festivais de teatro» caríssimos que o público não vê. Além disso, La Féria defende um cinema e um teatro muito nacionais, pois, «só sendo nacional, o cinema é universal». E dá um exemplo: «Agustina é universal porque é do Norte, do Porto.»
Confessa que foi «megalómano de mais» quando «previu» que «Maldita Cocaína» ficaria um ano em cena (afinal, seis meses passados, está já a saldar toda a existência). Em compensação, o empresário do Teatro Maravillas de Madrid, que viu a «Cocaína», já o convidou para fazer no dito teatro, durante dois anos, aquilo que La Féria quiser. Enquanto hesita entre ser ou não ser madrileno, o restaurador do Politeama tem já outro projecto «ainda mais megalómano» do que a «Cocaína»: uma produção luso-brasileira que o levará a dar «o salto para outros mercados».
Nas respostas a questões de política nacional, La Féria mantém que o «professor Cavaco Silva» é um mau actor (para a comunicação social), sem todavia deixar de ser «um grande político, um homem honesto». Tem consciência de que «estamos numa época negra do sonho `laranja'». La Féria tem uma formação humanista e acha que «este liberalismo à portuguesa tem resultados muito feios». Facto de que tomou consciência nas suas viagens de táxi (pois não tem carta de condução) e no percurso pedonal entre o Politeama e a Casa de Garrett -- entre a «Cocaína» e «As «Fúrias» --, onde a visão quer dos mendigos quer, principalmente, dos turistas que vêem os mendigos lhe deixa um grande mal-estar.
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Diversos</CATEGORY>
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A incompetência
No Verão passado tive faltas de água na casa que habito, na Rua de Monforte, Folgosa, concelho da Maia. Fiquei indignado quando, ao perguntar a um responsável autárquico das razões da falta de água, me respondeu com evasivas do género: «Aguente-se que também eu me tenho andado a lavar à preto», demonstrando que, para além de ser irresponsável, tinha também uma boa dose de racismo no sangue.
Entretanto, fui vendo em «placards»: «Sorria, está na Maia», mas a verdade é que, água, só de vez em quando.
Num dos últimos dias da campanha eleitoral para as autarquias, fui à janela para ver quem se tinha casado, tantas eram as buzinadelas. Afinal era uma caravana automóvel dos apaniguados do sr. Vieira de Carvalho, com este a comandar as tropas, com os dedos abertos e espetados para cima, anunciando a vitória. Lembrei-me logo da falta de água e de um simples contentor para o lixo e disse para os meus botões: «Vai enganar outro!»
Neste Verão a água continua a faltar. E ainda não há contentor! Já tomei iniciativas junto dos Serviços, da Câmara, mas... nada. Embora os «placards» me sugiram boa disposição, não tenho vontade nenhuma de rir.
E esta situação é tanto mais escandalosa quanto, no caso da Maia, vem de um município que tem à sua frente um presidente que vem do tempo da outra senhora, e portanto com obrigação de conhecer as necessidades do seu concelho.
Embora azedo e sujo pela falta de água, sorrio, não porque estou na Maia, mas porque vejo muita incompetência.
Mas, sr. Vieira de Carvalho, não fique triste. Não é só o senhor que é incompetente. Tem boas companhias nos presidentes das câmaras de Gondomar, Valongo, Porto, Matosinhos e Gaia.
Com tanta água no Douro e no nosso mar, não tenho outra palavra para caracterizar o vosso talento: incompetentes!
O meu voto? Nem pensar.
João Torres
Maia
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-053</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940717-053</DOCID>
<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Diversos</CATEGORY>
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A falta de água
No caderno Local [Porto] da edição do PÚBLICO de dia 12 de Julho, insere-se uma notícia que tem por título «Água volta a faltar em Ermesinde».
Na notícia em causa refere-se que «a água voltou a faltar este fim-de-semana nas residências das zonas mais altas de Ermesinde, Nogueira da Maia e Paranhos, no Porto, com interrupções de fornecimento domiciliário que se prolongaram pela tarde de sábado e manhã de domingo».
A referência feita na notícia a Nogueira não é verdadeira. Todo o concelho da Maia beneficiou nos dias referidos, e bem assim nos dias anteriores, de total abastecimento de água.
Embora durante o período em questão o fornecimento de água por parte dos SMAS do Porto se tivesse mostrado irregular, a rede dos SMAS da Maia controlou integralmente todas as situações, e o abastecimento manteve-se sempre nas melhores condições.
Não é esta a primeira vez que a questão do abastecimento de água à Maia é tratada de modo incorrecto pelo PÚBLICO, e, curiosamente, as posições usualmente assumidas pelo jornal, a este propósito, teimam em dar uma imagem inadequada, pela negativa, relativamente à situação real do concelho.
Como tive oportunidade de publicamente referir em comunicado oficial também dado à estampa no PÚBLICO, a Maia possui uma rede que tem respostas para a quase totalidade das situações de abastecimento irregular por parte dos SMAS do Porto.
Dir-se-á que, em vinte situações, em termos médios, a Maia tem resposta para dezoito ou dezanove -- o que, para uma rede sem captações próprias, captações essas que nunca pôde, pode ou poderá ter, é uma excelente «performance» de capacidade.
José Vieira de Carvalho presidente da Câmara Municipal da Maia
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-054</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
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Insólito
Até ao último acordo entre o Ministério de Educação e sindicatos de professores, os professores licenciados com estágio pedagógico e exame de Estado ascendiam naturalmente ao último escalão da carreira -- 10º -- dentro de prazos previamente estabelecidos. Com toda a justiça, eram consideradas condições suficientes a sua anterior preparação científica e pedagógica. No dito acordo, porém, esses professores foram vergonhosamente traídos pelos sindicatos que os diziam representar e proteger. Por insólito que pareça, a mais alta qualificação profissional foi preterida a troco de mais um ano de «tarimba lectiva». (...)
Professores que, após terminarem as cadeiras que compunham o currículo do seu curso, passaram um ou dois anos a prepararem conscientemente a sua tese e exame de licenciatura -- vendo-se alguns na necessidade de se ausentarem para o estrangeiro por exigência de consultas bibliográficas, onde, para sobreviverem, desempenharam as mais humildes tarefas.
Professores licenciados com cursos específicos para o ensino que, resolvendo enveredar pela carreira docente, para ela se prepararam escrupulosamente fazendo o curso de Ciências Pedagógicas, submetendo-se a exame de admissão ao estágio -- exame a nível nacional --, frequentando durante dois anos um estágio pedagógico, em tempos não remunerado, sendo constantemente avaliados e obrigados à realização de diversos trabalhos de carácter pedagógico-didáctico, culminando num exame de Estado assistido por vários metodólogos que lhes conferia a mais elevada qualificação profissional.
Muitos de entre eles foram desempenhando ao longo da sua carreira variados cargos e tarefas -- directores de escolas técnico-profissionais, presidentes de conselhos directivos, delegados de disciplina, assistentes de estágio pedagógico --, para já não falar das inúmeras acções e cursos de aperfeiçoamento que frequentaram.
A esses professores -- alguns contando mais de 60 anos de idade -- vêm agora dizer que tudo isso nada vale! Que não têm crédito! Só porque em 31 de Dezembro de 1989 não tinham completado 28 anos de serviço lectivo! Que justiça é esta? (...)
Teodora Coutinho Peixoto professora aposentada
Braga
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-055</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940717-055</DOCID>
<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Diversos</CATEGORY>
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Pouca-vergonha na banca
No PÚBLICO de 13 do do mês passado, uma carta do leitor de Chaves António Machado abordava o horário de trabalho, dito «de luxo», obtido pelos Sindicatos Bancários (...).
Gostaria de precisar o seguinte: depois do que os bancários alcançaram, antes e depois do 25 de Abril, prevalece hoje a «cultura» do ficar um pouco mais de tempo, só para acabar aquela «coisinha» arreliadora. Depois, ai de quem não fique...
(...) O que se julgaria libertador tornou maior a servidão. Mais valia manter o horário das 9h30 às 18h. Sobrariam menos horas para explorar e o intervalo de duas horas para almoço permitia uma maior convivência entre trabalhadores dos diversos bancos e o desenvolvimento de brilhantes acções sindicais que outrora tanto prestigiaram a classe bancária.
(...) Quanto às multas da Inspecção do Trabalho, só quem não conhece os meios, os recursos e o seu funcionamento (...) pode acreditar que está na sua acção a solução final para esta pouca-vergonha da exploração do trabalho extraordinário. (...) Ainda por cima, as multa são tão baixas que nem sequer desincentivam os bancos [e, mesmo assim, os que vão] a tribunal conseguem em muitos casos ser absolvidos...
Resultado: cada vez há mais balcões, mas não há mais bancários. Os postos de trabalho criados são ocupados não pelo recurso à legião de desempregados mas com a intensificação dos ritmos de trabalho e a exploração do trabalho extraordinário não pago. O trabalhador é considerado uma peça da máquina a quem deve dedicar toda a sua vida.
A nossa sociedade está a desumanizar-se. A competição, o salve-se quem puder, a produtividade, a rentabilidade, a redução de custos por todos os meios, incluindo a sobre-exploração dos trabalhadores, a disponibilidade total, enfim, o máximo lucro são elevados a valores absolutos. A entreajuda e a solidariedade estão fora de moda, dizem-nos.
Manuel Gaspar Martins
Porto
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-056</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
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Acordo à vista na Concertação Social?
Ouvi há dias, na RTP, o engenheiro Nogueira Simões, vice-presidente da CIP, a propósito das negociações que iam ser encetadas no Conselho Económico da Concertação Social, dizer que os empresários portugueses nada mais pretendiam do que condições idênticas às que existem nos demais países da Europa. Por outro lado, é público que os agricultores portugueses há muito que reivindicam, para se tornarem competitivos, a obtenção de factores de produção a preços idênticos aos que por eles pagam os seus congéneres europeus, e mão-de-obra é um factor de produção. Assim sendo e porque estou certo de que os trabalhadores portugueses e as suas organizações representativas aceitariam, sem qualquer dificuldade, trabalhar nas condições em que o fazem os demais trabalhadores europeus, tudo parece encaminhar-se para um entendimento entre as partes.
Estará à vista um acordo em que a todos sejam garantidas condições idênticas às que vigoram nos restantes países da União Europeia? Ou será que o Governo o inviabiliza ao recusar aos portugueses um rendimento mínimo (que aprovou em Bruxelas), um subsídio de desemprego e demais prestações sociais idênticos aos existentes nesses países?É
Arménio Rodrigues
Oliveira do Hospital
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-057</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
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Será legal?
Sucedem às vezes coisas que a gente é levada a concluir que já não se pode confiar em nada nem em ninguém neste país.
Adquiri em 1988-89 um certo número de títulos do Bicentenário do Ministério das Finanças, emitidos por ordem do correspondente Ministério, e fi-lo em virtude de ter lido no folheto então emitido e em que anunciava a emissão, que «os títulos e certificados gozam da garantia do pagamento integral dos juros e reembolso por força das receitas gerais do Estado e da isenção de todos os impostos, incluindo o imposto sobre as sucessões e doações».
Embora desde essa data, pontualmente, tenha vindo a receber semestralmente os correspondentes juros, foi com surpresa que em 15/4/94 sobre os mesmos me veio um desconto de uma «comissão» de 2.33800. Ou seja 5,54 por cento dos juros a receber!
Perguntando na Caixa Geral de Depósitos, onde os juros me são liquidados, que espécie de comissão era esta, foi-me respondido que se tratava de uma comissão a cobrar a partir de 1994.
Mas afinal em que país vivemos? Que sejamos assaltados à esquina de uma rua por um indivíduo de navalha em punho a exigir-nos a carteira, vá lá; mas que organismos oficiais, com obrigações morais, sem dizer água vai e sem nos avisar, nos preguem partidas destas, já é de mais.
Poderá a entidade responsável por estes títulos explicar aos ingénuos que nela acreditaram com que base legal nos começou a ser cobrada, só ao fim de cinco anos de vigência dos títulos, a referida comissão?
Se assim não suceder, resta-nos ficar desconfiados de que se trata de um abuso com cobertura oficial.
Marcos António Carvalho Botelho
Évora
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-058</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
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Notícias soltas
1. Segundo o Ministério Público, os factos ter-se-ão passado assim: no dia 14 de Novembro de 1992, Abílio Lopes estacionou o automóvel numa rua com cerca de dois metros de largura e que dava acesso, sem saída, à fábrica pertencente ao queixoso Luís Rego. Fê-lo de uma forma precisa: imediatamente atrás do automóvel de Luís Rego, impedindo-o de fazer marcha atrás e de sair daquela rua.
Luís insistiu com Abílio, por diversas vezes, para que este retirasse o seu automóvel permitindo-lhe, assim, sair com o seu carro. Abílio não cedeu. Em consequência de ter o seu carro bloqueado, Luís Rego viu-se obrigado a alugar durante três dias um carro, sofrendo prejuízos no valor de sessenta contos. Para o Ministério Público era claro que Abílio tinha cometido um crime e por isso requereu o seu julgamento, acusando-o como autor de um crime de dano previsto e punido pelo art.º 310º n.ºs 1 e 2 do Código Penal.
O Código Penal considera crime de dano «destruir, danificar, desfigurar ou tornar não utilizável coisa alheia», agravando-o no caso de o autor do mesmo, ao tornar não utilizável a coisa alheia, querer desse modo causar um prejuízo particularmente grave.
No entanto, o juiz que recebeu o processo recusou-se a marcar data para julgamento por considerar a acusação manifestamente infundada, já que nenhum crime tinha sido cometido pelo Luís.
No entender deste magistrado, o «tornar não utilizável» referido no art.º 310º refere-se a acções sobre as coisas e com consequências definitivas, nos mesmos termos em que se fala na lei de «destruir, danificar, desfigurar», e o Luís não destruíra, nem danificara, nem desfigurara nem tornara não utilizável o automóvel do Abílio, que após os três dias de bloqueio certamente já era utilizado em pleno.
Inconformado, o Ministério Público recorreu para o Tribunal da Relação do Porto, que, no seu acórdão de 6 de Abril do corrente ano e publicado na Colectânea de Jurisprudência -- 1994 -- tomo II, não lhe deu razão, mantendo a decisão do juiz.
Os juízes desembargadores Marques Salgueiro, Costa Morais e Baião Papão, com muita oportunidade, lembraram a primeiríssima disposição do nosso Código Penal, o n.º 1 do artigo 1º: «Só pode ser punido criminalmente o facto descrito e declarado passível de pena por lei anterior ao momento da sua prática.» Este princípio, em latim «nulla poena sine lege», é, apesar de por vezes ser pontualmente posto em causa em alguns aspectos concretos da sua aplicação, essencial ao normal funcionamento de uma sociedade democrática, por constituir um «dique» ao arbítrio e ao despotismo.
No caso de Luís, o Tribunal da Relação foi claro: haveria infracções ao Código da Estrada, haveria prejuízos indemnizáveis, mas nada disso configurava um crime de dano. Aderindo ao entendimento do juiz de 1ª instância, explicitou que, dos dois sentidos possíveis para a expressão «tornar não utilizável», um que a entende como uma acção directa sobre a coisa que a torna ela mesma não utilizável, outro que a entende como qualquer impossibilidade de utilização mesmo que seja por causas externas, o Código Penal optou pelo primeiro.
Não constitui, por exemplo, crime de dano, sem prejuízo da responsabilidade civil, «o simples sujar de uma coisa por forma a que esta não resulte alterada na sua essência por impregnação duradoura da substância utilizada ou a obstrução do único acesso a uma propriedade e que impede a sua normal utilização». Claro que se, por exemplo, houvesse uma ordem judicial para ser retirado o automóvel e o Luís não o retirasse, então já se estaria perante um crime de desobediência previsto e punido pelo Código Penal. Mas, face aos factos constantes da acusação, nenhum crime tinha sido cometido. Luís foi um percursor dos bloqueios rodoviários nacionais...
2. As recentes alterações à lei de imprensa, aprovadas na Assembleia da República, face à verdadeira aberração que era a proposta governamental, representam um esforço do legislador. No entanto, para além de alegadas inconstitucionalidades, o texto aprovado contém diversas barbaridades.
No campo processual, o facto de o(s) juiz(es) terem de proferir a sentença imediatamente no fim da audiência do julgamento ou, no máximo e com a devida fundamentação, nos quatro dias seguintes não abona nada quanto ao entendimento e consideração que o legislador tem pela liberdade de imprensa e pelo trabalho dos tribunais. Convém lembrar que uma sentença não é bem um despacho de um qualquer chefe de gabinete e que valores como a liberdade de expressão ou a honra não são propriamente questões burocráticas...
Por outro lado, o facto de os directores verem coarctado, de forma radical, o seu natural direito de apreciação mínima do conteúdo das cartas enviadas ao abrigo do direito de resposta será certamente objecto de profunda controvérsia. Como aspectos positivos destas alterações, saliente-se, contudo, a explicitação do facto de os directores do jornais e os jornalistas não serem responsáveis pelo conteúdo dos artigos de opinião devidamente assinalados e pelas declarações de entrevistados, bem como o facto de o direito de resposta, quanto a notícias de 1ª e última página, se poder exercer através de uma chamada na página em causa e publicação do texto no interior do jornal.
3. O recente livro «Em defesa de Aquilino Ribeiro», organizado por Alfredo Caldeira e Diana Andringa e publicado na Terramar, constitui um interessantíssimo programa para quaisquer férias. Não hesite.
Com a chegada do período de férias, o «Escrever Direito» torna-se, ainda, mais simples e ligeiro. Pequenas histórias ou comentários para ler no meio da sua sesta...
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-059</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
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Frei Bento Domingues, O.P.
1. A substituição do estudo confessional da Teologia pela investigação das religiões como objecto de ciência num Estado laico tem mais de cem anos (cf. «Cent ans de sciences religieuses en France à l'École Pratique des Hautes Études», Cerf, 1987). O jovem Marx exprimiu em 1844, de forma lapidar, a subversão cultural que estava em causa nesse gesto: «Em vez de teologizar questões seculares, nós secularizamos as questões teológicas.»
A partir daí, a própria Bíblia passou de fonte de luz para a caminhada humana a ser explicada a partir da História e das culturas extra-bíblicas, os factos religiosos foram despojados da sua especificidade e diluídos numa teoria geral da sociedade. Não admira que a aplicação dos métodos das ciências humanas aos fenómenos religiosos fosse sentida na Igreja como uma ameaça grave. A força corrosiva e redutora das ciências humanas sobre algumas expressões da fé católica era demasiado evidente.
Passados cem anos muita água passou sob as pontes, mas algumas interrogações -- por exemplo, como definir e como classificar a especificidade do fenómeno religioso? -- parecem ter voltado ao ponto de partida. Não se trata só de um debate entre especialistas. É o próprio mundo contemporâneo que interpela a nossa modernidade sobre a religião e o religioso, sobre as suas formas e o seu lugar.
Mas se o aspecto religioso, como dimensão do social, responde a uma necessidade de comunicação, de comunhão, de não solidão dos indivíduos; se, por outro lado, traduz no homem, ao mesmo título que a linguagem, aquilo que os psicólogos chamam «função simbólica», não é de estranhar que assuma muitas formas e se faça ouvir em lugares e situações onde não era nada esperado. Ao ser expulso pela porta, voltou pela janela.
Sem generalizar, poder-se-ia dizer que actualmente as ciências da religião conhecem melhor a fragilidade do seu estatuto e algumas instâncias culturais da Igreja já as chamaram para o seu convívio sem condições desonrosas.
2. O texto da Comissão Pontifícia Bíblica, «A interpretação da Bíblia na Igreja» (Ed. Rei dos Livros, 1994) -- a que aludi nos dois últimos domingos -- acolhe no seu seio, com toda a naturalidade, e sem excluir outras, as abordagens da Sociologia, da Antropologia e da Psicologia. Por uma razão muito linear: se a Palavra de Deus deitou raízes na vida dos grupos humanos (Ecli 24, 11) e os escritos bíblicos seguem os condicionamentos da psicologia dos seus diversos autores, o recurso a estas ciências só pode contribuir para uma melhor compreensão de certas dimensões da Sagrada Escritura.
Esta comissão, ao reconhecer que os textos religiosos estão unidos por uma conexão de relação recíproca com as sociedades em que nascem, não podia abrir uma excepção para os livros da Bíblia. Daí uma verificação tranquila: «No decorrer dos últimos 20 anos (1970-1990) a abordagem sociológica dos textos bíblicos tornou-se parte integrante da exegese» (p. 66).
A abordagem da antropologia cultural está relacionada com a sociológica. A sua contribuição ainda é mais fácil de evidenciar por se ocupar do estudo da linguagem, religião, arte, vestuário, ornamentos, festas, danças, mitos, lendas, etc. As investigações dos diferentes tipos de vida humana no seu ambiente social -- as diversas concepções de família e parentesco, a situação da mulher, os tabus, os ritos de passagem, as relações de sagrado-profano, etc. -- aplicadas à Bíblia ajudam a não tomar por natural ou por revelado, construções culturais da humanidade. A não fazer um absoluto de modelos de vida muito relativos.
3. No texto da Comissão Bíblica diz-se, de forma excessiva, que a Psicologia e Teologia nunca deixaram de estar em diálogo.
Algumas obras dedicadas à interpretação psicanalítica de textos bíblicos não fazem uma primavera. As vivas discussões que provocaram não impediram, que neste documento, recomendado por João Paulo II e pelo cardeal Ratzinger, se afirme claramente que a Psicologia e a psicanálise «abrem a via para uma compreensão pluridimensional da linguagem humana da revelação» (p. 71).
Não se diz, porém, que já fazem parte integrante da exegese bíblica como acontece com a Sociologia. É uma prática ainda muito restrita, embora sejam reconhecidas as suas vantagens no trabalho interdisciplinar. A título de exemplo, são apontados alguns temas para investigação conjunta de psicólogos, psicanalistas e exegetas: o sentido dos ritos do culto, dos sacrifícios e dos interditos; a linguagem cheia de imagens na Bíblia, o alcance metafórico dos relatos de milagres, a força dramática das visões e audições apocalípticas. Podiam ser outros.
O importante é perceber, como escreve Michel Meslin, que a ciência das religiões não poderá desabrochar plenamente senão no dia em que tiver realizado a síntese entre todos aqueles que procuram -- através dos mitos, das imagens e dos símbolos -- as estruturas fundamentais do ser humano. Para compreender, por pouco que seja, a essência do facto religioso, é preciso caminhar continuamente do histórico e do social para as estruturas profundas do pensamento, da linguagem falada e do inconsciente humano. Não existe só um modo de compreensão das atitudes religiosas do homem. Qualquer análise que aplique só uma hermenêutica torna-se imediatamente mutilante e redutora (cf. «Pour une science des religions», Paris, Seuil, p. 260-261).
Foi Michel Meslin que convidou Bernard Lang -- professor de História das Religiões na Universidade alemã de Paderborn e biblista de reputação internacional -- a dar um curso durante o ano universitário de 1992-1993, na Sorbonne, sobre a obra polémica de Eugen Drewermann, padre terapeuta, exegeta, teólogo e praticante da história comparada das religiões. É um caso julgado heterodoxo pelo bispo da sua diocese, que o impediu de ensinar Teologia e de exercer o sacerdócio, mas cuja audiência, absolutamente espantosa, continua a crescer. As lições universitárias de Bernard Lang resultaram num livro fascinante sobre um autor que perturbou a prática da leitura da Bíblia através da história comparada das religiões, do romantismo alemão e da psicanálise (cf. «Eugen Drewermann, interprète de la Bible», Paris, Cerf, 1994).
A partir da confluência de diversas áreas culturais, Eugen Drewermann conseguiu ajudar a redescobrir a Bíblia como palavra que explica, revela, cura e recria a vida. Não é um funcionário da letra morta de um texto dito sagrado, sina de tantos exegetas, teólogos e pregadores.
Dos exegetas devia-se dizer sempre algo de parecido com o que disseram de Cristo os acabrunhados discípulos de Emaús: «Não ardia o nosso coração enquanto ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?» (Lc 24, 32).
Destaque
As investigações dos diferentes tipos de vida humana no seu ambiente social aplicadas à Bíblia ajudam a não tomar por natural ou por revelado, construções culturais da humanidade. A não fazer um absoluto de modelos de vida muito relativos.
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<DATE>19940717</DATE>
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Este estranho país que não compreende o PSD
Sebastião Lima Rego
Portugal enveredou recentemente por caminhos esquisitíssimos, estrambólicos. Tornou-se num país irreconhecível. Aquele povo dócil, submisso, respeitador das hierarquias, esse povo encantador, o povo português -- tenho de o dizer com a morte na alma -- já não existe. Morreu no entrecruzamento dramático das disputas da História, na poeira enigmática do dever da civilização. Mas o que mais dói é assistir ao divórcio crescente entre este povo ingrato e o partido do Governo, o PSD.
É verdade. Presenciámos, nos últimos meses, o progressivo alastrar de um fosso (que é já uma cratera) entre o povo e o partido que o governa há quase nove anos. Sem se saber bem porquê, sem razões aparentes, ou até escondidas, que se percebam, as massas deram em duvidar do PSD e dos governantes, depois de desconfiar do primeiro-ministro, e agora põem em causa o poder no seu conjunto, o seu programa e a sua filosofia. Trata-se de um fenómeno altamente preocupante e a todos os títulos incompreensível, sabido como é que temos um Governo tão jeitoso, formado por pessoas tão distintas!
Vejamos com algum pormenor. Na Educação, professores, pais e alunos protestam porque as reformas implementadas não resultam, foram mal estudadas, mal explicadas, postas em prática atabalhoadamente. Também, já é vontade de protestar! Ninguém, com um mínimo de testa, desconhece que, seja onde for que haja reformas, emergem a confusão, os erros, a bagunça. Nós estamos singelamente a pagar esse preço inevitável pela coragem de querer mudar e, quanto mais o paguemos, quanto mais violentamente prestemos tributo à anarquia educativa, mais se prova que o Governo pretende mesmo honestamente inovar.
Portanto, os portugueses, quando vêem as escolas sem rei nem roque, os professores a faltarem, as reformas emperradas, o equipamento a escassear, a segurança nas escolas inexistente, os alunos descrentes, se, como pais, como educadores, podem com efeito franzir o sobrolho, como cidadãos, têm a estrita obrigação de se sentir eufóricos. É o caos? Decerto, logo, estamos no bom caminho, a luz há-de chegar... Provavelmente, porque não, teremos uma geração um pouco mais burra no limiar dos próximos anos. E então, é morte de homem? Não podemos ser todos doutores, alguma ignorância devidamente doseada até dá graça a uma sociedade.
Na saúde, o cenário é semelhante. Alegam os responsáveis, e muito bem, que falta o dinheiro para assegurar adequados serviços de saúde para todos. Então, é óbvio que, se os mais pobres não dispuserem de meios próprios para pagar, não restará eventualmente diferente remédio senão ficarem cada vez mais doentes. Isto é meridianamente lógico, nem precisa de nos ser explicado. O que, analisado de perto, nem é uma desgraça tão horrível quanto parece à primeira vista: como lutar contra o inquietante envelhecimento da comunidade, uma das pragas do nosso tempo, senão deixando subrepticiamente (legalmente) a taxa de mortalidade aumentar ligeiramente naqueles estratos mais debilitados? Mas, claro, lá estão os críticos profissionais a berrar que não, e é a solidariedade, e é a justiça social, e são os direitos iguais para todos...
Na agricultura, lamenta-se hipocritamente que, pura e simplesmente, ela esteja a acabar. Cinismo desbragado. A meu ver, a extinção da agricultura é a melhor coisa que aconteceu em Portugal desde as aparições de Fátima. Os nossos males, as desventuras da Pátria, vieram sempre do campo. As epidemias medievais, as revoltas inoportunas, o peso negativo para as estatísticas de civilização, provieram invariavelmente, em Portugal, dos camponeses, do obscurantismo campesino. Acabe-se, portanto, com a agricultura, retire-se o oxigénio vital a esse pântano de atraso, e o país progredirá automaticamente vários séculos! Agora, a frio, pode custar um bocadinho, mas o futuro mostrará como a mutilação da parte rural do país foi um benefício inestimável.
E eis-nos chegados às questões mais momentosas, o Alentejo, a Ponte. Vejam-me só se, no caso da Ponte, a acção do Governo não foi linear, de cabo a rabo do processo. Fez subir a portagem 50 por cento logo a seguir às eleições (de molde a evitar demagogias), para financiar uma outra ponte que não aquela e com tanto constrangimento que o próprio primeiro-ministro disse que até ele protestaria se não estivesse no lugar em que está. Caramba, depois de tanta ombridade, tanta transparência, não é possível recusar ao Governo legitimidade moral para lançar a polícia contra os energúmenos que contestaram a portagem!
A crise alentejana, essa, é um tema, reconheçam, terrivelmente irritante. Que o Alentejo se desertifica, que o desemprego cresce, que há lá fome... A fome, como sabemos, é um conceito movente, algures entre o cem (a bastança) e o zero (a inanição completa). Que os alentejanos não comem à tripa-forra, ninguém duvida, mas quem o faz hoje em dia? Relativamente ao desemprego, digam-me lá: num país com tamanho desemprego, porque é que o Alentejo haveria que nadar no pleno emprego? E o mesmo juízo relativizador se deve emitir no tocante à desertificação: se é indesmentível que o Alentejo é menos verdejante que a Escócia, no entanto, face ao Sara, o cotejo é-lhe francamente favorável...
De resto, o próprio primeiro-ministro esclareceu que cenas como as do Alentejo se vêem frequentemente nas margens do Sena e do Tamisa, indicação percucientíssima, que designadamente me levou a anular neste Verão o meu habitual périplo a Paris e a Londres: em 1994 vou fazer férias na Brandoa.
Não, realmente, que estranho país este, meus amigos, que país estranho o nosso que não compreende o PSD e o Governo! Não sendo admissível manter por muito tempo uma tal separação de entendimento entre governantes e governados, há que fazer algo, e já. Que o PSD mude de política, é impensável; que o PSD deixe de governar Portugal, é absolutamente inimaginável. Logo, quem tem que mudar, naturalmente, são os portugueses. Urge meter na cabeça dura dos nossos compatriotas a boa doutrina, expurgando a má. Os governantes, evidentemente, saberão melhor do que eu como agir, mas vou humildemente alvitrar.
Sugiro que a RTP seja limpa de conciliadores, que demitam o Cerqueira, coitado, e coloquem lá por exemplo o Vasco Graça Moura. Que se crie um Ministério da Propaganda, com um tipo inteligente à cabeça, assim estilo Macário Correia ou Nunes Liberato. E que a Lei de Imprensa seja mesmo endurecida, com cláusulas do género de se conceder ao direito de resposta o dobro da saliência do texto original, ou o triplo, se a resposta for de um governante.
É só um princípio, mas, que raio, há que começar por algum lado...
Destaque
As massas deram em duvidar do PSD e dos governantes, depois de desconfiar do primeiro-ministro, e agora põem em causa o poder no seu conjunto, o seu programa e a sua filosofia. Que o PSD mude de política, é impensável; que o PSD deixe de governar Portugal, é absolutamente inimaginável. Logo, quem tem que mudar, naturalmente, são os portugueses.
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Diversos</CATEGORY>
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O PS, as eleições e o futuro
Rui Namorado*
Fantasias eleitorais -- eis uma boa designação para as posições dos partidos sobre os resultados das recentes eleições europeias. Todavia, na actual conjuntura, é o PS o que mais pode perder com tais fantasias. De facto, dificilmente conseguirá assumir a iniciativa política que lhe cabe, refugiando-se em declarações retóricas e em protestos de fé partidária, com menosprezo pela análise objectiva da realidade.
Não tem evidentemente que esquecer os aspectos dos resultados que para ele foram mais positivos: o acréscimo de dois deputados; a subida de seis pontos percentuais; a conquista de um primeiro lugar, ainda que por ligeira margem; e o facto de não ter ficado irremediavelmente longe do patamar da maioria absoluta.
Em contrapartida, será ilusório escamotear dois aspectos negativos que os resultados assumem, o primeiro dos quais é especialmente relevante: a soma dos votos do PSD com os do CDS é superior à soma dos votos do PS com os do PCP; e, em termos de percentagem global, o PS recuou, em seis meses, cerca de três pontos percentuais.
Ora, quanto ao primeiro destes dois aspectos, deve lembrar-se que, repetindo-se estes resultados em eleições parlamentares, dariam origem a um governo de direita, tornando impossível um governo do PS, ou liderado pelo PS. Na verdade, este será seguramente governo se tiver maioria absoluta e poderá sê-lo se o PSD e o CDS, em conjunto, forem minoritários no Parlamento, mas não vejo como o poderia ser, repetindo-se os resultados das recentes eleições. Por isso, parece politicamente ilusório ignorar esta circunstância, em nome da exclusiva valorização do facto de o PS ter mais alguns milhares de votos do que o PSD.
Por outro lado, o segundo aspecto negativo do resultado traduz uma inequívoca quebra de ímpeto do PS, relativamente às últimas eleições autárquicas.
Mas será que a escassez desta vitória legitima a contestação da liderança de António Guterres? Penso que não, por dois motivos principais. Primeiro, fosse qual fosse o desenlace de uma luta interna, tendente a instituir uma nova liderança, muito dificilmente o partido sairia dela em condições de enfrentar com êxito os desafios eleitorais que o esperam; segundo, é politicamente injustificável e eticamente discutível procurar interromper o mandato de uma direcção partidária com base na maior ou menor desilusão que se sinta perante um resultado eleitoral.
Quer isto dizer que bastará que o PS continue tranquilamente como até aqui para ser o provável ganhador das próximas eleições legislativas e para poder aspirar com realismo à vitória nas presidenciais do candidato por si apoiado? Não me parece, em virtude dos resultados eleitorais obtidos, do modo como decorreu a campanha eleitoral e da eficácia evidenciada pelas diversas estruturas do partido.
Por isso, o actual secretário-geral tem de procurar desencadear um grande sobressalto político e organizativo do PS, capaz de estimular realmente a determinação dos militantes, fazendo-os sentir verdadeiros participantes na luta pela solução dos grandes problemas que afligem os portugueses.
Para que tal possa acontecer, a democraticidade interna do PS tem de ser de imediato robustecida e aprofundada, nomeadamente, de modo a que às minorias sejam sempre reconhecidos todos os seus direitos, deixando-se de as encarar como meras destinatárias da aleatória boa vontade da maioria. As competências dos militantes têm de passar a ser plenamente aproveitadas, tornando-se regra que as responsabilidades são atribuídas pelo mérito, e não por se pertencer a esta ou àquela sensibilidade interna, por se demonstrar fidelidade a este ou àquele dirigente.
E tudo isto deve ser projectado sem ambiguidades, por exemplo, na elaboração das listas de candidatos para as próximas eleições legislativas. Em cada distrito as correntes de opinião, que se revelem no que concerne às listas, devem ter nelas um peso proporcional à sua importância numérica. E, sem pôr em causa esse princípio, a direcção do partido deve estabelecer, previamente, um elenco das capacidades técnico-políticas de que o PS necessita no seu grupo parlamentar, devendo os candidatos ser escolhidos com base nelas.
Doutro modo, dificilmente se conseguirá uma mobilização efectiva de todo o partido, de pouco adiantando retoques pontuais circunscritos a meia dúzia de figuras, por muito relevo que elas tenham.
Se o referido sobressalto político acontecer, crescerá sem dúvida a sua credibilidade perante o eleitorado. Os factos, e não apenas o discurso, mostrarão que no PS não cabe o carreirismo nem a promoção da mediocridade, e a diversidade de opiniões é uma riqueza que se encoraja e não uma heresia que se sanciona. Mas mais do que isso tornar-se-ia ostensivo que ser-se deputado do PS é um exigente e qualificado serviço público que se presta, e não um degrau de uma carreira ou uma sinecura. E não se duvide que quanto mais nítida for esta imagem, maior será a credibilidade do PS, maior será o seu contributo para prestigiar e estimular a vida política.
No entanto, se este é um ponto de partida incontornável, está longe de ser, por si só, suficiente.
Na verdade, o PS tem de assumir também, com clareza, como preocupações suas, os grandes problemas do mundo actual, reflectindo-o nas suas propostas políticas e nas suas práticas organizativas. A título de exemplo podem referir-se, entre outros pontos, a luta contra a degradação ambiental, com base num verdadeiro desenvolvimento ecológico; o combate ao desemprego e à exclusão social, contrapondo-lhe uma justa repartição do trabalho e dos rendimentos; a oposição à decadência do ensino público, assumindo sem ambiguidades que o Estado tem de ser responsável pelo progresso da educação; a luta contra o estrangulamento do serviço nacional de saúde, assumindo o inequívoco compromisso de zelar pela saúde de todos os portugueses.
Em consonância com tudo isso, o PS não pode conformar-se com a lógica economicista dominante, devendo assumir um humanismo moderno e solidário na luta por um futuro sem injustiçados nem excluídos. Pelas suas propostas e pela sua prática, tem de ser uma força de mudança capaz de travar a actual degradação da sociedade portuguesa, sem tergiversar na rejeição do liberalismo económico como principal raiz da catástrofe social que ameaça o mundo. Nestes e noutros aspectos relevantes da vida social, são as soluções claras e sem ambiguidade que realmente convencem. Dissimulação e meias-tintas só anunciam fracassos.
Assim, parece ser uma tarefa urgente do PS a reanimação da vida política das suas estruturas, transformando-as em verdadeiros focos de acção cívica, em fontes de esclarecimento que sejam também instâncias de participação. E poderá então surgir um moderno movimento social, um movimento cívico e cultural, autêntica escola de cidadania, prestigiada aos olhos dos portugueses e preparada para contribuir para a construção europeia.
Destas tarefas não pode demitir-se o PS, se quiser dar à esquerda portuguesa uma energia libertadora. É um caminho longo o que tem de percorrer. Mas, nas próximas campanhas eleitorais, já deverá ter tornado ostensiva a sua viragem, o seu acréscimo de robustez organizativa, cultural e política, de modo a que seja visível que passou a ser um grande colectivo de militantes capaz de transformar a sociedade portuguesa. Se assim for, serão sólidas as suas possibilidades de vencer.
Se optar por gerir as rotinas, mesmo que consiga algumas vistosas realizações mediáticas, mesmo que venha a fazer uma campanha eleitoral brilhante, correrá um risco muito maior de não conseguir esvaziar ainda o balão cavaquista.
Com base nesta nova dinâmica interna, o PS poderá virar-se então proficuamente para o exterior, sem complexos e sem receios, sem sobranceria mas sem pedir desculpa por ser um partido político. E é precisamente aqui que se inscreve a necessidade de o PS apoiar uma candidatura presidencial que contribua para o ligar mais intimamente aos sectores de esquerda sem filiação partidária, inevitavelmente atraídos por essa candidatura, se ela for realmente forte. Por isso mesmo essa candidatura terá de surgir com naturalidade, de modo nenhum podendo aparecer como uma invenção da direcção do PS ou de um qualquer grupo de pressão.
Concluindo, pode dizer-se que os resultados destas eleições, não tendo representado uma vitória empolgante do PS, não tolhem as suas possibilidades de vencer as próximas, desde que a actual direcção se reformule de modo a poder assumir-se com autenticidade como força propulsora de todo o partido, renunciando a qualquer hegemonismo de facção e banindo quaisquer práticas clientelares internas. A partir daí, o PS poderá abrir-se afoitamente à sociedade civil, liderando com naturalidade a esquerda portuguesa e protagonizando assim uma forte alternativa de poder.
*professor da Universidade de Coimbra e militante do PS
Destaque: O PS não pode conformar-se com a lógica economicista dominante, devendo assumir um humanismo moderno e solidário na luta por um futuro sem injustiçados nem excluídos. Pelas suas propostas e pela sua prática, tem de ser uma força de mudança capaz de travar a actual degradação da sociedade portuguesa, sem tergiversar na rejeição do liberalismo económico como principal raiz da catástrofe social que ameaça o mundo.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-062</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
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Domingo, 10
· O Presidente são-tomense, Miguel Trovoada, dissolve a Assembleia Nacional e marca eleições legislativas antecipadas, para 2 de Outubro.
· O Grupo dos Sete (G7) e a Rússia reúnem-se em Nápoles, na Itália, para em conjunto analisar a situação no Médio Oriente, na Coreia e noutras zonas do mundo.
· O antigo primeiro-ministro ucraniano Leonid Kutchma, defensor de uma reaproximação com a Rússia, vence a segunda volta das eleições presidenciais nesta ex-república soviética.
· A Federação Nacional de Caçadores e Proprietários organiza três manifestações diferentes em Beja, Montemor-o-Novo e Caldas da Rainha, com a adesão de centenas de caçadores que lançam acusações de corrupção ao secretário de Estado da Agricultura e responsável pelo sector da caça, Álvaro Amaro.
· O piloto britânico Damon Hill vence o Grande Prémio de Inglaterra de Fórmula 1.
Segunda-feira, 11
· O deputado algarvio do PSD Mendes Bota anuncia o seu abandono da política activa do partido, insurgindo-se contra os «barões» e a «excessiva governamentalização» do aparelho partidário que, em seu entender, são os responsáveis pela «impopularidade» que se abate sobre o Governo.
· O ministro das Finanças, Eduardo Catroga, anuncia em Bruxelas, à margem do Conselho de Ministros de Economia e Finanças da União Europeia, que o Governo está a estudar a possibilidade de pagamento a prestações das dívidas acumuladas à segurança social e ao fisco, actualmente estimadas em quase 700 milhões de contos.
· Sete estrangeiros -- quatro russos, um romeno e dois cidadãos da antiga Jugoslávia -- são assassinados na Argélia, aumentando para 51 o número de não argelinos mortos no país desde Setembro.
· A DEEL -- Investiments Limited faz uma proposta de compra da Amadeu Gaudêncio. No total diz-se disposta a pagar um quinto das dívidas, mas sem contar com os juros.
· O jogador de futebol do Benfica Rui Costa assina um contrato de 1,2 milhões de contos com o clube italiano Fiorentina.
Terça-feira, 12
· O Tribunal Constitucional suspende as extradições de Macau para a China de cidadãos acusados de crimes cometidos naquele país susceptíveis de condenação à morte. Em breve o caso será julgado em definitivo.
· É divulgado um comunicado do Instituto de Protecção da Produção Agro-Alimentar que confirma a existência de quatro casos da doença das «vacas loucas» em bovinos portugueses.
· Guiné-Bissau: Nino Vieira anuncia que aceita os resultados das eleições presidenciais e que vai disputar a segunda volta com o candidato Kumba Ialá.
· O Tribunal Constitucional de Karlsruhe aprova o direito de participação das Forças Armadas alemãs em operações militares no estrangeiro fora do quadro da NATO, restrição imposta pela Constituição de 1949...
· ... Bill Clinton, em Bona, defende que a Alemanha poderia e deveria desempenhar um papel mais importante a nível mundial.
· Inauguração do Museu do Chiado, em Lisboa.
Quarta-feira, 13
· O secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Paulo Teixeira Pinto, defende, na Assembleia da República, uma proposta do Governo que retira os directores-gerais, presidentes e vogais dos institutos, fundações ou estabelecimentos públicos, e todos aqueles «cujo estatuto lhes seja equiparado», do actual regime das incompatibilidades, que passariam assim a poder acumular, com remuneração, cargos que pela actual lei lhes estão vedados.
· O PSD, valendo-se da maioria absoluta que possui no Parlamento, aprova as alterações ao Código Penal e à Lei de Imprensa.
· A Comissão Europeia aprova a repartição de verbas da maior parte das iniciativas comunitárias, cabendo a Portugal cerca de 250 milhões de contos até 1999.
· Zita Seabra, presidente do Instituto Português de Arte Cinematográfica e Audiovisual (IPACA), anuncia que está pronta e prestes a ser discutida no Conselho Consultivo a regulamentação para as três modalidades de apoio à produção.
Quinta-feira, 14
· Em Díli, a polícia de choque parte a cruz, rasga a bandeira do Vaticano, espanca e prende pelos menos 32 dos cerca de 400 manifestantes que protestava contra alegados actos de desrespeito por parte de soldados indonésios face a símbolos religiosos e a uma freira timorense.
· Pela primeira vez após a retirada de Paris, em 1944, tropas alemãs regressam à capital francesa para participar no desfile do 14 de Julho, a festa nacional francesa que comemora a tomada da Bastilha e o fim do absolutismo monárquico.
· Uma explosão de gás mata 27 pessoas num lar de terceira idade em Motta Visconti, no Norte da Itália, provocando a derrocada do edifício.
· A Assembleia Municipal de Cascais aprova a instalação da Universidade de Cascais na Quinta da Alagoa, em Carcavelos.
· Paulo Sucena, o recém-eleito dirigente do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, é eleito como novo secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof).
Sexta-feira, 15
· O Conselho Europeu extraordinário convocado pela presidência alemã escolhe Jacques Santer, 57 anos, primeiro-ministro democrata-cristão do Luxemburgo, para suceder a Jacques Delors à frente da Comissão Europeia.
· O Presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, anuncia um encontro histórico na Casa Branca, em Washington, no dia 25 de Julho, entre o rei Hussein da Jordânia e o primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin.
· O secretário-geral da ONU, Butros-Ghali, recomenda o envio de uma força de cerca de quinze mil militares para o Haiti, para assegurar a ordem pública e permitir o regresso ao poder do Presidente, Jean-Bertrand Aristide.
· A Comissão Nacional de Luta contra a Sida lança a campanha «Europa contra a sida», a primeira a nível europeu de prevenção contra a doença.
· As comissões políticas distritais do PSD do Alentejo, reunidas em Beja, criticam o que consideram ser a «reprovável e insensata» intervenção televisiva do bispo de Setúbal sobre a situação na região.
Sábado, 16
· O jornal «Expresso» noticia que o Tribunal Superior de Justiça de Macau considera que não deve acatar a decisão tomada, por unanimidade, no Tribunal Constitucional relativa à extradição para a China de um alegado homicida preso em Macau.
· Francesco Ambrosio, director da Italgrani, uma das mais importantes empresas italianas corretoras de cereais, é detido em Nápoles, devido ao seu envolvimento num caso de fraude na utilização de fundos comunitários.
· A Boeing e a McDonnel Douglas, os dois maiores construtores aeronáuticos norte-americanos, assinam um contrato de 440 milhões de dólares com a NASA para a concretização de um transporte civil de alta velocidade.
· Tem início uma ponte aérea para socorrer os milhares de ruandeses refugiados na zona fronteiriça oriental do Zaire.
· Cinco islamitas egípcios são condenados à morte por um tribunal militar do Cairo, no âmbito do julgamento de 17 islamitas acusados de tentativa de assassínio do ministro do Interior do Egipto.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-063</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
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No texto publicado na secção Cultura em 4/7/94, de Maria José Fazenda, e no Local Hoje de 8/7/94 e 12/7/94, sobre o Festival Danças na Cidade, referiu-se, erradamente, que este seria no âmbito de Lisboa 94 -- Capital da Cultura. Mas não é. Trata-se de uma iniciativa independente. Pelo lapso pedimos desculpa aos leitores e aos organizadores de Danças na Cidade.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-064</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
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Retrato da Semana
Há suspeitas de sabotagem nos caminhos-de-ferro! É o que dizem porta-vozes oficiais, apesar de um administrador da CP duvidar dessa versão. Não há evidência convincente, a não ser um parafuso, o que, a leigos, parece pouco. Mas, se são sólidos os vestígios de acção criminosa, só posso dizer, à Judiciária, à CP e ao Governo: força! Investigue-se tudo com todos os meios. E castigue-se a doer. A sabotagem não tem, em Portugal, muitas tradições. Convém matar a besta no ovo.
Mas as autoridades têm o dever de excepcional rigor. Têm de ser sérias a toda a prova. Exemplarmente cuidadosas. Ora, a alusão a sabotagem, feita quase na continuação da referência às greves de ferroviários, provocou imediato arrepio. É que os últimos tempos têm sido férteis em declarações selvagens, feitas por governantes, à procura de bodes expiatórios para as suas dificuldades. Na ponte do Tejo, eram comunistas os provocadores. Nas docas e nas lotas, os manipuladores eram socialistas. Nas áreas alentejanas, onde há fome e desemprego, são os autarcas, comunistas e socialistas por junto, que incitam. Nas escolas e faculdades, a propósito das provas globais e das propinas, são provocadores da oposição e paisanos que puxam pelos cordelinhos. Quanto às dificuldades da agricultura, são os eternos comunistas da CNA, a que se juntaram, desde as europeias, os oportunistas da CAP... E, em toda a circunstância, são os jornalistas que ampliam e as televisões que amplificam. Com tudo isto, o Governo tem vindo a criar uma insuportável tensão. Por enquanto, ainda é ele que cai no ridículo. Mas agora, com alusões a sabotagens, mortos e feridos, o clima está a mudar.
São os fracos que arranjam culpados fictícios para os seus problemas. São os governos débeis que vêem conspirações em qualquer dificuldade. São os ministros desorientados que descobrem intentonas ao virar da esquina. São os pequenos déspotas que entendem que as oposições políticas, os cidadãos mais ou menos organizados e os representantes de grupos e interesses não se devem «envolver» em movimentos sociais.
As deficiências da justiça e da investigação -- veja-se o caso do Aquaparque... --, os desastres das polícias, as intrigas do SIS, as escutas da Procuradoria, a imperícia do Ministério das Obras Públicas e tantos outros casos não se resolvem com conspirações fantasmagóricas.
Desorientação e medo são igualmente visíveis quando se olha para o modo como o Governo tem lidado com dois dos principais ingredientes da vida política: o diálogo e a autoridade. Um e outra, que ora se completam, ora se contrariam, são indispensáveis ao bom governo. Em justo equilíbrio. Moderando-se reciprocamente. Nas crises, um dos dois cede. E o descalabro surge. Estamos a viver um momento em que esse equilíbrio se rompeu. Há autoridade a mais na preparação das políticas. Há erros excessivos. Há tecnocracia politicamente incompetente. Há suficiência no poder. Tomadas as decisões, surgem reacções. Diante destas, as autoridades cedem. Com medo. Cederam perante os estudantes. Foram débeis com os pescadores. Mostraram-se inseguros com os automobilistas. Revelaram-se pusilânimes com os futebolistas e seus dirigentes. Estão aflitos com os agricultores. Não se pagam propinas. Não se fazem exames. Não se pagam portagens. Pagam-se impostos a prestações. Não se cumprem contratos com a administração fiscal. Nada se faz perante aqueles que impedem a livre circulação de mercadorias.
Não se pense que isto revela falta de autoridade e necessidade de «músculo». A autoridade perde-se quando se erra e quando há falta de diálogo no momento devido. A autoridade perde-se quando... se perde a cabeça.
Os «meteorologistas» da política são finos como coriscos. Entre eles, os que falam são os mais interessantes. Percebem mudanças de clima imperceptíveis ao comum dos mortais. Distinguem as várias espécies de correntes de ar. Medem as altas e as baixas pressões com excepcional sensibilidade. Detectam as brisas que se vão transformar em vendavais. Prevêem furacões com meses ou anos de antecedência. Por isso tomam «atitudes» e dão «sinais» antes de toda a gente. Gostemos deles ou não, os «meteorologistas» falantes são preciosos. Mendes Bota, Valentim Loureiro, Pinto da Costa, Jorge Lacão, Alberto João Jardim e Luís Filipe Menezes são alguns exemplos desta espécie de homens que tem o talento de ler nas estrelas. Vale a pena ouvi-los.
O Partido Socialista não me tem dado muitas alegrias durante os últimos anos. É sabido. Mas devo dizer que, desta vez, merece aplauso. Ao entregar o seu projecto de revisão constitucional, o PS mostrou ser capaz de tomar a iniciativa de uma das mais importantes reformas dos tempos que correm. A reforma eleitoral que propõe é o mais interessante projecto político que se desenha no horizonte. E custa a acreditar que o PSD esteja com reticências em acompanhar. Só uma grande fragilidade explica esta atitude do partido do Governo.
O tema da revisão merece reflexão e discussão, não se pode «despachar» com breves notas. Mas o essencial foi a iniciativa dos socialistas. Não sei se, com ela, ganharão votos ou não. Mas ganham seguramente o reconhecimento da história.
E já que de revisão falo. Não haverá um único deputado capaz de propor um artigo criando a instituição do «defensor público», uma das grandes lacunas da justiça portuguesa? O PS não propôs. O Governo não gosta. Consta que os juízes, os advogados e os magistrados do Ministério Público também não gostam... Eis excelentes razões para aprovar a proposta. Para bem dos cidadãos.
Museu do Chiado: polémico, estranho, mas ousado e interessante. Não sei se virei a gostar do edifício, ou antes, das soluções encontradas, mas sei que lá irei muitas vezes, até porque o que lá está está com cuidado e inteligência. O bando da Simoneta Afonso e da Raquel Henriques da Silva merece palmas.
Fabulosa exposição de fotografias de F. W. Flower, pioneiro em qualquer parte do mundo. Fotografou Portugal quando a arte ainda era tosca. As fotos de Flower foram civilizadamente guardadas, durante século e meio, pelos descendentes. Estão agora nas mãos do Arquivo Nacional, isto é, de Vitória Mesquita e José Pessoa, que muito bem tratam delas. Eram conhecidas de pouca gente, graças a um artigo de Joaquim Vieira, na «Colóquio», e a uma exposição, organizada por Manuel Magalhães, em Serralves. Eis que o escocês vai passar a figura pública e mundial.
Livro organizado por José Augusto França sobre a Sétima Colina, com brevíssimas, mas esclarecedoras memórias sobre os principais edifícios daquele luminoso sítio.
«Dicionário da História de Lisboa», coordenado por Eduardo Sucena e Francisco Santana, com quem colaboram dezenas de especialistas e autores. Andava a ser feito há mais de vinte anos! Editado na sexta-feira, ainda não se deixou ler bem. Mas o pouco que vi encantou pela minúcia informativa. Indispensável.
São só boas notícias! Já na semana passada tinha várias do mesmo tipo. É por causa delas que os fanáticos da Lisboa barra 94 e da Expo barra 98 defendem energicamente as festividades. Sem elas, grandes coisas deixariam de ser feitas, dizem eles. São oportunidades a não perder. Como os portugueses só trabalham à última hora, de improviso e para dar nas vistas, argumentam, são precisas comemorações especiais, concluem.
Nem com uma só palavra eu concordo. Como discordo das políticas que elegem estas prioridades. Apesar disso, não posso deixar de elogiar algumas iniciativas. E acrescento, à intenção dos amantes das barras noventa e tal: as melhores coisas que se vão fazendo são resultado de muito trabalho, de estudo, de amadurecimento, de tenacidade e de séria investigação. Não se fizeram como o nescafé: duas colheradas e já está!
Estarei ausente do PÚBLICO durante dois meses. Vou conspirar...
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<DOCID>PUBLICO-19940717-065</DOCID>
<DATE>19940717</DATE>
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Segunda-feira, 18
· Reunião do Conselho dos Assuntos Gerais da União Europeia, em Bruxelas.
· Início da quarta sessão do Tribunal Internacional sobre os crimes de guerra na ex-Jugoslávia, em Haia.
· Encontro Internacional Fátima 94, subordinado ao tema «Ser família hoje na Igreja e no mundo».
· Greve nacional dos trabalhadores dos matadouros, para protestar contra o bloqueamento das negociações salariais.
· Ténis: Taça da Federação, em Frankfurt, na Alemanha.
Terça-feira, 19
· Sessão constitutiva do Parlamento Europeu, em Estrasburgo.
· Cerimónia fúnebre do líder da Coreia do Norte, Kim Il-Sung, em Pyongyang.
· Plenário Nacional dos Sindicatos e reunião do Conselho Nacional da CGTP, em Lisboa.
· Abertura da Feira Internacional de Luanda -- Filda 94.
· Entrega do Prémio de Ensaio Literário da Associação Portuguesa de Escritores (APE) a António Cândido Franco, na sede da APE, em Lisboa.
Quarta-feira, 20
· XVI Congresso do Movimento da Escola Moderna, na Escola Superior de Lisboa.
· Espectáculo do cantor italiano Eros Ramazotti, no Estádio do Restelo, em Lisboa.
· Futebol: o Benfica conhece hoje os seus adversários na Liga dos Campeões.
· Abertura dos V Campeonatos do Mundo de Juniores de Atletismo, no Estádio Universitário, em Lisboa.
Quinta-feira, 21
· O primeiro-ministro, Cavaco Silva, inicia uma visita oficial à Rússia.
· Reunião do Conselho Permanente de Concertação Social, em Lisboa.
· Designação do sucessor de John Smith na liderança do Partido Trabalhista britânico.
· Espectáculo de Olga Roriz, no pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
Sexta-feira, 22
· Reunião do Comité Preparatório da Organização Mundial de Comércio, em Genebra.
· Concerto dos Pink Floyd, no Estádio de Alvalade, em Lisboa.
· Mostra de cinema português no Centro Cultural Malaposta, em Lisboa.
Sábado, 23
· O ministro adjunto, Marques Mendes, inicia uma visita de trabalho a Cabo Verde.
· Encontro Nacional de Dirigentes Associativos (ENDA), em Lisboa.
· XVII Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde.
· X Feira do Livro Português em Cabo Verde.
Domingo, 24
· Festa do PSD-Madeira, no Chão da Lagoa.
· Futebol: início da fase final do X Campeonato da Europa de sub-18.
· Grande Prémio de Motociclismo da Grã-Bretanha, no circuito de Donington Park.
· Termina nos Campos Elísios, em Paris, a Volta a França em Bicicleta.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-066</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
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Miguel Vale de Almeida
Quem não se interessa muito por futebol -- isto é, quem tem a infelicidade de não partilhar uma emoção que deve ser entusiasmante -- tem uma certa tendência para prestar atenção aos seus «efeitos secundários». Coisas de intelectuais, reconheço. Um destes efeitos secundários surge com particular força durante campeonatos mundiais. O simples facto de equipas de diversos países se disputarem nos ecrãs da TV global cria um espaço de representações muito peculiar.
Como no futebol não imperam necessariamente as leis da economia-mundo, graças ao uso do capital físico dos jogadores (que é relativamente independente das condições de desenvolvimento), surgem distorções das hierarquias a que estamos habituados: os búlgaros vencem os alemães (sorriso escarninho de contentamento e vingança), os brasileiros podem ser campeões de algo mais nobre do que o assassinato de crianças. Para mais, este ano, é na boca do lobo, no centro do «império capitalista», que se disputa o campeonato. E não é que os americanos são logo derrotados, além do facto de nem sequer saberem muito bem o que é o futebol?
Mas o mais curioso parece-me ser a atitude portuguesa perante esta feira de países. Fazem-se inquéritos a personalidades e a pessoas da rua sobre a equipa favorita e a resposta automática é «Brasil». Ouvem-se conversas nos autocarros, espreita-se por cima de ombros para os cabeçalhos dos jornais desportivos, e o apoio à equipa brasileira parece ir de si. O ponto máximo é atingido com um programa diário na SIC, produto da TV Globo (o programa, não necessariamente a SIC): durante alguns longos minutos, a equipa brasileira é magicamente transformada na equipa portuguesa. Isto é: estabelece-se um (con)senso comum de que o Brasil é a escolha lógica dos portugueses. Isto é um fenómeno bizarro de representações identitárias. Há dias, num café, o empregado dizia, peremptório: «Sobretudo que não ganhe a Espanha!»
Porque acho isto estranho? Por uma razão muito simples: é que duvido seriamente que o inverso acontecesse, se inversa fosse a situação. Se Portugal estivesse neste campeonato, a caminho da final, verificar-se-ia no Brasil a identificação com Portugal? Não quero apostar um mês de salário, mas apostava uma semana em como não.
A ser verdade, a hipótese mais verosímil para o fenómeno estaria numa forma de projecção identitária feita por Portugal (mais pequeno e suposta origem do país sul-americano) no Brasil (visto como espécie de filho que fez tudo o que o pai não conseguiu). Nesse caso, as coisas também bateriam certo no sentido contrário: o esquecimento e o desleixo do filho poderoso perante as origens humildes da família.
Quando se criam identificações, como esta de Portugal pelo Brasil, tem que haver des-identificações. Ora, Portugal está na União Europeia. O discurso oficial, tanto português como da União, é no sentido de realçar uma identidade europeia. Muitos portugueses de carne e osso usam na prática esta identidade para se sobrevalorizarem: basta ver a vaidade mal escondida com que muita gente, ao chegar à Portela, avança para o portão «Passaportes CEE», olhando contristada para os outros. No entanto, quantos portugueses torceram pela Holanda no jogo contra o Brasil? 421? 37? Dois?
A comunidade de língua, os laços históricos, os laços familiares via emigração, são realidades empoladas por Portugal e têm pouca equivalência nos sentimentos brasileiros por Portugal. São fortemente mobilizadas quando o lado «carnal» precisa de ser compensado: futebol, destreza física, alegria, sensualidade, samba e Carnaval. Os laços europeus, apesar de continuarmos a dizer «vou à Europa», e de muitos europeus duvidarem da nossa localização geográfica, são mobilizados quando se quer prestígio aristocrata, dignificação civilizacional. A nossa identidade parece uma bola de futebol: ora está nos pés de uma equipa, ora nos de outra.
Destaque: O mais curioso parece-me ser a atitude portuguesa perante esta feira de países. Fazem-se inquéritos a personalidades e a pessoas da rua sobre a equipa favorita e a resposta automática é «Brasil». Ouvem-se conversas nos autocarros, espreita-se por cima de ombros para os cabeçalhos dos jornais desportivos, e o apoio à equipa brasileira parece ir de si.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-067</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Nacional</CATEGORY>
<AUTHOR>ASLV</AUTHOR>
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Reitor da Lusíada quer universidade europeia em Famalicão
A carga do último eurodeputado
Foi o último eurodeputado a ser eleito e precisou de esperar que se conhecessem os votos da emigração e se encerrasse o ciclo de boicotes eleitorais nalgumas freguesias para ver oficializado o seu direito a ocupar a 25ª cadeira portuguesa no Parlamento Europeu. Homenageado ontem por quatrocentas pessoas na Trofa, concelho de Vila Nova de Famalicão, na região deprimida do Vale do Ave, o socialista Fernando Moniz foi aplaudido por personalidades de diversos quadrantes políticos, empresários e representantes das instituições locais
Autarca na Câmara liderada pelo seu correligionário Agostinho Fernandes e secretário coordenador da Federação Distrital do PS/Braga, Fernando Moniz optou, numa homenagem local em que escutou apelos e pedidos, por vincar o cunho regional da sua candidatura que, disse, nalguns momentos da campanha chegou a defender «contrariando a lógica e a estratégia nacional» do seu partido.
«Portugal teima em ficar sozinho na Europa das Regiões», afirmou Fernando Moniz, sustentando que o país deve «avançar rapidamente no processo de regionalização». Numa inciatitiva «abrangente», de «todos os famalicenses», a que compareceram alguns dos seus adversários políticos nas últimas autárquicas (sobretudo da área do CDS, já que alguns sociais-democratas, embora tenham enviado mensagens, optaram naturalmente por marcar presença na homenagem a Eurico de Melo a decorrer no mesmo momento em Braga), Moniz optou por um discurso cauteloso ao referir o agravamento das assimetrias regionais e o afastamento dos cidadãos do processo de construção europeia: «É necessário que não sejamos injustos ao atribuir todas as responsabilidades ao nosso Governo, seja ele qual for».
A presença de um considerável número de empresários do Vale do Ave e de representantes de várias instituições locais é reveladora da importância concedida à eleição de um eurodeputado numa região que se queixa de ser preterida no investimento apoiado por fundos comunitários.
Martins da Cruz, o reitor da Universidade Lusíada (com um dos seus três estabelecimentos em Famalicão), terá exprimido da melhor forma o que pretendiam os presentes de Moniz: apoio à região. Praticamente só se referiu ao homenageado para lhe pedir _ e a todos os presentes - auxílio para a Lusíada e não se pode dizer que sem ambição: quer fazer da Universidade localizada em Famalicão uma «universidade europeia» no ano 2000.
Monsenhor Joaquim Fernandes foi a voz da Igreja no evento. Uma intervenção bem disposta em que elogiou a campanha de «esforço e civismo» de Fernando Moniz - «ser político é ser um grande maestro e ele pôs o coro a tocar todo afinadinho» - e lhe deixou a sua própria experiência na Igreja como exemplo da defesa dos interesses locais. Não utilizou, claro, o termo «lobby», mas assinalou ter conseguido uma maioria de padres de Vila Nova de Famalicão no cabido e destacou o facto do secretário do Arcebispo de Braga ser famalicense.
E foi assim a festa. Espera-se de Fernando Moniz, agora «com projecção europeia», tanto um contributo para erguer uma Universidade no coração do Vale do Ave com prestígio para atrair estudantes dos outros países comunitários como a capacidade para impor à Europa uma vertente «humanista e cultural» que, na perspectiva do juiz desembargador Mascarenhas, falta ao projecto de construção europeia.
Talvez por achar a carga demasiado pesada, Fernando Moniz insistiu, na sua intervenção, na necessidade de informação dos cidadãos sobre a realidade da União Europeia (não acresentou «e sobre os poderes dos eurodeputados», mas podia tê-lo feito...), antes de poder relaxar na discoteca paredes meias com o restaurante, onde a festa prosseguiu, mas sem mais discursos. J.Q.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-068</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Nacional</CATEGORY>
<AUTHOR>ASLV</AUTHOR>
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Eurico de Melo lembra zangas com Cavaco
«Uma pedrita no sapato»
Eurico de Melo lembrou em Braga zangas passadas com Cavaco Silva. Numa festa de homenagem, promovida por sociais-democratas locais, pela sua eleição para o Parlamento Europeu, Eurico disse que isso não o impediu de comparecer quando o sino tocou a rebate. Zangas passadas, pois, mas «fica sempre uma pedrita no sapato».
O PSD de Barga homenageou anteontem à noite, em Braga Eurico de Melo, numa festa restrita, onde só era permitida a presença de militantes do partido. Com a comunicação social impedida de entrar na sala onde decorreu o jantar, Marques Mendes, ministro -adjunto e dos Assuntos Parlamentares e Ribeiro da Silva, governador civil de Braga, não pouparam elogios ao «grande sacrifício feito pelo Engenheiro Eurico de Melo» nas eleições europeias. Este acrescentou que, «quando o presidente do partido tocou o sino a rebate, eu não pude dizer que não». Os militantes aplaudiram a sua dedicação, mas o eurodeputado não deixou de reconhecer que «também já me zanguei algumas vezes com o professor Cavaco Silva...».
Foi perante mais de 150 mil militantes do seu partido- entre os quais estavam também a secretária de Estado do Planeamento e Desenvolvimento Regional, Isabel Mota, o sub-secretário adjunto do ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Amândio de Oliveira, deputados na Assembleia da República e vários presidentes de autarquias do distrito de Braga - que Eurico de Melo, no final do jantar em sua homenagem, resolveu contar um pouco daquilo que viveu durante a campanha eleitoral para o Parlamento Europeu. Reconheceu que teve «muitos momentos de desânimo», confessou que «todos os dias recebia apontamentos sobre aquilo que devia falar» e não deixou de lembrar «as impressões que diariamente trocava, por telefone, com os ministros Fernando Nogueira e Marques Mendes».
«Águas passadas não movem moinhos»
Já no final do seu discurso, o eurodeputado não deixou de apelar à mobilização dos militantes do PSD nas próximas eleições legislativas. Lembrando que a vitória depende do empenho de cada um, Eurico de Melo recordou o ambiente pré-eleitoral das últimas eleições europeias, afirmando que, quando «todos julgavam que o partido estava numa descida, os resultados eleitorais mostram que o PSD é um partido de vitalidade».
No entanto, acrescentou, «como se costuma dizer nas nossas aldeias, águas passadas não movem moinhos». O alerta foi percebido por todos, fazendo lembrar os recados dados por Cavaco Silva no último Conselho Nacional do PSD. Mas este discurso de aparente sintonia com as posições assumidas pelo líder dos sociais-democratas foi desfeito quando Eurico de Melo reconheceu que, no passado, teve já as suas divergências com Cavaco Silva e que, «dessas zangas, fica sempre uma pedrita no sapato...».
Felisbela Lopes
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-069</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Nacional</CATEGORY>
<AUTHOR>ASLV</AUTHOR>
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Revisão constitucional discutida em Coimbra
PE apoia reforma do sistema político
A possibilidade de apresentação de candidaturas de independentes a todas as eleições é um dos pontos do projecto de revisão constitucional do Partido Socialista que merece o apoio declarado da Plataforma de Esquerda, cuja mesa nacional esteve ontem reunida em Coimbra.
«Regozijamo-nos com a possibilidade que se abre a uma intervenção autónoma em todas as eleições», frisou Joaquim Pina Moura no final da reunião, acrescentando que «a bandeira da reforma do sistema político, protagonizada pelo PS, é uma batalha que vale a pena travar à esquerda».
Aludindo á situação política, o dirigente nacional da Plataforma de Esquerda referiu que «começam a amadurecer as condições para o surgimento de uma nova maioria».
Para Joaquim Pina Moura, «constata-se o aprofundamento de um ciclo de esgotamento da maioria, do Governo e de Cavaco Silva», a que a oposição terá de saber responder, sob pena, se não o fizer, de «o enorme caudal de expectativas gerado» poder «conduzir à frustração».
A Plataforma de Esquerda reiterou, através deste seu dirigente, o empenho deste movimento político em participar activamente na preparação dos Estados Gerais para uma nova maioria, dinamizados pelo PS, salientando o contributo que a iniciativa poderá dar à «mobilização dos cidadãos» e na preparação de um «contrato de legislatura».
Gabinete
Barros Moura
Barros Moura, recentemente eleito como independente pela PE nas listas do PS para o Parlamento Eurpeu, ausentou-se antes do final da reunião, devido a afazeres relacionados com o cargo que vai exercer.
O dirigente nacional da PE Carlos Cidade, adiantou que Barros Moura irá integrar o grupo socialista no Parlamento Europeu, mas também na qualidade de independente.
Carlos Cidade informou que vai ser aberto em Lisboa um gabinete para recepção de sugestões de eleitores, que poderão servir de material de trabalho para as recomendações e iniciativas legislativas do deputado plataformista no Parlamento Europeu.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-070</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Nacional</CATEGORY>
<AUTHOR>ASLV</AUTHOR>
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Apoiantes de Gomes recusam
«cheque em branco» a Narciso
O acordo para a liderança da Federação Distrital do PS/Porto, numa candidatura encabeçada por Narciso Miranda e apoiada por Fernando Gomes, faz o seu caminho. Mas não sem dificuldades. Gomes está a ser pressionado pelos seus apoiantes, que se recusam a passar um «cheque em branco» ao autarca de Matosinhos.
As guerras deixam feridas e tanto Fernando Gomes como Narciso Miranda, hoje unidos para encontrar uma candidatura de consenso para o PS/Porto, estão a pagar a factura de uma longa querela interna. Mais o primeiro que o segundo, já que é Narciso o cabeça-de-lista assumido à sucessão de Carlos Lage à frente do PS/Porto, o que constitui já uma vitória assinalável para os seus apoiantes de primeira hora.
Já com os apoiantes de Gomes a conversa é outra. Aceitar que Narciso seja o «número um» já é, para muitos, cedência suficiente. Não deixa assim de ser sintomático que, numa reunião com algumas dezenas de apoiantes seus, a que compareceram vários autarcas e coordenadores de secção, tenha sido o próprio Fernando Gomes a fazer a despesa de defender Narciso.
Vários intervenientes recusaram mesmo que se fale de um «consenso» para o PS/Porto, preferindo utilizar o termo compromisso. Não é uma questão de palavras. O que se pretende traduzir com esta «nuance» é que, no processo negocial para a constituição da lista para a Federação Distrital, o «bloco» que se reclama do apoio a Gomes e detém a maioria na actual direcção do PS/Porto não saia a perder. Um participante na reunião afirmou ao PÚBLICO que uma divisão a meias é o mínimo aceitável, mas que os apoiantes de Gomes vão lutar pela maioria, sobretudo no Secretariado da Federação.
Era esperada a comparência, ontem à noite, tanto de Narciso Miranda como de Fernando Gomes, numa reunião da Comissão Política Distrital do PS portuense, para clarificar a metodologia a seguir em todo o processo de negociação (que não devará começar antes de Setembro) para os órgãos distritais do PS.
A reunião tinha também na agenda a discussão do documento-base da candidatura (a que o PÚBLICO já fez referência), elaborado por um grupo mais restrito, com a participação de Fernando Gomes, Narciso Miranda, Francisco Assis e Carlos Lage, entre outros. Na reunião de ontem terá assim marcado o início da discusão do documento-base dentro do partido, que Narciso quer o mais alargada possível, recusando a ideia de «negociações secretas» e de «fulanização» da vida interna do PS distrital.
Mas, mais importante que o documento, no qual se defende um maior protagonismo do PS/Porto, é o método a seguir na constituição da candidatura e os reflexos que a mesma terá na lista dos deputados. Apoiantes de Fernando Gomes não sentem o terreno seguro e não querem deixar esta tarefa entregue apenas ou principalmente aos dois autarcas. As desconfianças ainda são muitas e, nas palavras de um membro do actual Secretariado Distrital, «não estamos dispostos a passar um cheque em branco» a Narciso.
A relação de forças nos futuros órgãos distritais preocupa ainda mais o «bloco» de Gomes, face à possibilidade de uma candidatura alternativa (que não crêem que vá ser encabeçada por Manuel dos Santos), que integrará na maioria ex-apoiantes de Narciso contra Lage e poderá conseguir alguns lugares na futura Comissão Política Distrital.
João Queirós
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-071</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Nacional</CATEGORY>
<AUTHOR>ASLV</AUTHOR>
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CNRM revela novos dados sobre os acontecimentos em Timor
Trinta e um desaparecidos e detidos
Eleva-se a 31 o número de timorenses detidos ou desaparecidos na sequência do ataque ocorrido no passado dia 14 em Díli, em que forças indonésias carregaram sobre estudantes que procuravam protestar contra o que consideravam ser ultrajes religiosos da parte de soldados e estudantes indonésios. Estes números e a identificação dos detidos ou desaparecidos foram revelados ontem pelo Conselho Nacional de Resistência Maubere (CNRM), em documento enviado à delegação da agência Lusa em Macau. No texto adianta-se que os dados divulgados poderão conter algumas imprecisões, resultantes não só da confusão que se vive em Timor-Leste, como das dificuldades levantadas pelos indonésios à livre circulação de informações.
De acordo com o Conselho Nacional de Resistência Maubere, foram detidos os seguintes cidadãos, todos residentes em Díli: Gomes Gonçalves, Agustino da Costa Mendonça, Alberto Jesus, João Teodoro, Joanico Pereira, moradores no Bairro de Becora. Detidos ainda Martino Pereira, Domingos Conceição, Mateus Alves, Carlito Mascarenhas, todos com domicílio em Balide, e Francisco Martins e Edmundo dos Reis, residentes em Bairo Pité. Da zona de Beto foram presos Manuel Abílio, Francisco Jesus, Manuel Exposto e Augusto. Presos ainda Justino Alves, de Quintal Bot, Justino de Jesus, residente no Bairro do Hospital, Jaime Hamjam de Bairo Pité, e Maria da Costa Ximenes, Cristóvão Jesus e Sabino Mendonça, todos de Aituri Laran.
O comunicado acrescenta que os primeiros 21 timorenses foram detidos pela polícia e que apenas Justino de Jesus e Sabino Mendonça foram presos por um batalhão do exército indonésio. Para além destas informações, o comunicado adianta ainda que Carlito Mascarenhas e Francisco Martins foram incluídos na lista de timorenses hospitalizados, a qual foi divulgada na passada sexta-feira.
Ainda de acordo com as informações fornecidas pelo CNRM, são dados como desaparecidos Manuel Sarmento, Francisco Leão, António Fernandes, Francisco de Jesus, Osório Florindo, Cipriano Oliveira e António Neves, todos dos Bairro de Aituri Latan, e Aniceto das Neves e Ana Bela Guterres, estes últimos residentes em Taibesse.
As coisas vistas por Lopes da Cruz
Enquanto Díli volta a viver dias de tensão, começou a circular entre os grupos de solidariedade timorense a cópia de uma notícia do «Jacarta Post», de 28 de Maio último, na qual Lopes da Cruz conta a sua versão da forma como foi recebido no Aeroporto da Portela. Na altura, um pequeno grupo de timorenses atirou excrementos em protesto contra a presença do embaixador do Presidente indonésio. De regresso a Jacarta, Lopes da Cruz referiu que, à sua chegada ao Aeroporto da Portela, foi «calorosamente» recebido por «cerca de 200 dos 1800 timorenses que vivem em Portugal».
A contrariar tal atitude de acolhimento havia apenas, na sua versão, um pequeno grupo de «ruidosos manifestantes» que vestiam camisas negras e chamavam aos peregrinos «traidores», «assassinos» e «vendedores de Timor-Leste».
O chefe da delegação de 50 peregrinos timorenses referiu ainda a presença de «28 manifestantes, incluindo João Viegas Carrascalão, José Manuel Ramos-Horta, Barbedo Magalhães, Luísa Teotónio Pereira e Mário Tomé, que são conhecidos por ter posições fortemente opostas à integração de Timor-Leste na Indonésia». Na opinião do embaixador de Suharto, o protesto tinha mesmo sido organizado por João Carrascalão, o líder da UDT, e Ramos-Horta, representante do CNRM. Só que, de todos os nomes citados, apenas Mário Tomé estava no aeroporto. A.M.
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Sociedade</CATEGORY>
<AUTHOR>DN</AUTHOR>
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Médicos ofendidos com Paulo Mendo
A Federação Nacional dos Médicos (Fnam) manifestou-se anteontem contra afirmações proferidas por Paulo Mendo que são «ofensivas da dignidade dos médicos» e apelou aos colegas para se manterem «particularmente atentos neste período de férias dado que a evolução da situação pode exigir uma intervenção urgente de toda a classe».
Os médicos não gostaram do que o ministro da Saúde terá dito a um órgão de comunicação social, considerando que houve «uma escalada no ataque às carreiras médicas». Em causa está um artigo num jornal diário, no qual o governante «preconizou para o Serviço Nacional de Saúde a existência de médicos fora da carreira pública que através de contratos individuais de trabalho rapidamente compensem as faltas do quadro». E onde se afirmava também que «o sistema fica livre dos médicos indesejáveis, que só o abandonam em caso de se verem envolvidos em processos disciplinares e coisas gravíssimas com não sei quantas testemunhas».
Este discurso bastou para que a Fnam, em comunicado, considere que os «factos demonstram que o actual ministro da Saúde prossegue uma política de saúde governamental que se caracteriza pelo ataque sistemático aos serviços públicos e aos seus profissionais».
A estrutura sindical lamenta que se pretenda «fazer crer que a criação de instabilidade no exercício da profissão e a inexistência de vínculos institucionais será a panaceia para a deficiente cobertura sanitária do país». Para a Fnam, «ao nomear um médico como ministro da Saúde, o Governo procurou estimular sentimentos corporativos num sector profissional que tem contestado uma política de saúde ruinosa e destruidora de direitos e interesses dos profissionais de saúde e dos utentes».
A destruição das carreiras médicas «constitui um objectivo da actual política governamental», apesar de constituirem «um factor decisivo na defesa da estabilidade profissional e do emprego médico e um garante da qualidade assistencial». Por isso avisa a Federação que «desenvolverá todas as iniciativas para impedir a concretização destes projectos e procurará estabelecer plataformas de entendimento e convergência com as várias organizações médicas de modo a serem adoptadas medidas reivindicativas».
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-073</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Sociedade</CATEGORY>
<AUTHOR>AMRJ</AUTHOR>
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Confrontos entre pescadores espanhóis e franceses
«Sérias confrontações» opuseram na madrugada de ontem pescadores franceses aos seus colegas espanhóis, anunciaram ontem organizações de pesca de Fuenterrabia (Guipuzcoa) e Bermeo (Biscaia), dando conta de incidentes registados 700 quilómetros ao largo das costas da Galiza. A confrontação foi generalizada quando pescadores espanhóis cortaram as redes dos arrastões franceses, verificando-se então tentativas de abordagem. Houve grande confusão, mas ninguém ficou ferido, noticiou a agência Lusa, citando as mesmas fontes. Tudo porque, segundo as associações espanholas, as traineiras francesas utilizam na pesca do atum redes de dimensões que as disposições comunitárias proíbem. O presidente da confraria dos pescadores de Fuenterrabia, Esteban Olaizola, afirmou a propósito que os arrastões espanhóis tiveram de «recorrer à força» para afirmarem a sua causa, uma vez esgotadas as possibilidades de diálogo.
Bebé Abbie regressa a casa
Abbie, a recém-nascida que foi raptada no primeiro dia de Julho de um hospital de Nottingham, foi ontem recuperada pela polícia numa residência situada a menos de um quilómetro de distância, tendo já sido restituída aos pais. A bebé, que se encontra de boa saúde, foi localizada em Wollaton, um bairro da classe média superior, localizado na periferia de Nottingham, não longe do Queen's Medical Centre, onde se verificou o rapto. Cerca das duas horas da madrugada, os polícias, com base em informações, irromperam na residência dos raptores indo encontrar Abbie, muito bem tratada, a dormir placidamente, rodeada de brinquedos. Um casal e outra mulher que se encontravam em casa no momento da operação policial não opuseram a mínima resistência e estão em situação de prisão preventiva. A polícia não divulgou as circunstâncias «complicadas» que a levou a Wollaton.
Morreu viúva de Marconi
A marquesa Maria Cristina Bezzi Scala, viúva do inventor da radiofonia (telefonia sem fios) Guilherme Marconi, morreu ontem com 94 anos, na sua residência de Roma. Esta informação foi divulgada pela Fundação Marconi que indicou que o funeral se realiza amanhã na capital italiana. Maria Cristina Bezzi casou-se com Guilherme Marconi a 15 de Junho de 1927 na Igreja de Santa Maria dos Anjos, em Roma. Nessa altura, Marconi era já um cientista de renome internacional pelas suas experiências de transmissão por ondas hertzianas, de 1895, e por ter recebido, em 1909, o Prémio Nobel da Física.
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<DATE>19940717</DATE>
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<AUTHOR>DN</AUTHOR>
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Consumidores revoltados com a amnistia
A Associação de Consumidores de Portugal está revoltada pelo facto de «inúmeros processos instaurados contra operadores económicos desonestos» terem acabado «de ser arquivados por terem sido amnistiados». A Acop argumenta, em nota à imprensa divulgada sexta-feira à noite, que num país «em que os atropelos são permanentes, procedimentos desta natureza, de cujos reflexos jamais se terão apercebido os senhores parlamentares, são ruinosos para as consequentes acções levadas a cabo pelas associações de consumidores na tutela dos seus associados ou dos consumidores em geral».
Considera «os processos arquivados como um atentado contra as associações e o seu esforço isolado na selva em que o mercado se converteu». Pelo que a Acop «exige do Parlamento respeito pelo seu esforço e pelos consumidores».
Paulo Duarte, secretário geral da Acop, sustenta que a associação mantém o propósito de «prosseguir indefectivelmente a perseguição dos burlões que pululam no mercado, a fim de dar vida ao Observatório do Mercado». Este, em funcionamento em Coimbra, «estuda o registo dos desvios verificados nas relações económico-jurídicas de consumo».
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-075</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940717-075</DOCID>
<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Sociedade</CATEGORY>
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Intoxicação alimentar em Santa Margarida
Mais de 150 militares, entre oficiais e soldados, sofreram uma intoxicação alimentar após o jantar da passada quarta-feira, no quartel de Santa Margarida. O corpo da Brigada Mecanizada Independente (ex-1ª Brigada Mista Independente) foi assistido quase na totalidade na enfermaria do quartel, após a ingestão do jantar de dia 13 de Julho. «Seriam certamente uns ovos que comemos que estavam estragados», queixou-se um militar que vomitou logo após a refeição.
Após a entrada na enfermaria dos militares mais indispostos, o quartel colocou de prevenção outros meios para uma eventual necessidade de fazer deslocar para o Hospital Militar de Lisboa doentes que viessem a revelar situações mais graves e que precisassem de maior acompanhamento. Tal não chegou a ser necessário porque, para além de terem sido de imediato socorridos, os militares aquartelados em Santa Margarida dispõem de pessoal e instalações apropriados para este tipo de incidentes.
Segundo conseguimos apurar, em Santa Margarida tinham sido dadas ordens para que ninguém falasse do assunto à comunicação social. É que no próximo fim de semana vai realizar-se uma das maiores operações de charme do Exército português -- o exercício Orion. Mas com a folga do fim de semana, alguns militares descontentes com o facto acabaram por relatar ao PÚBLICO aquilo que aconteceu na quarta-feira.
José Parreira
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Sociedade</CATEGORY>
<AUTHOR>RCM</AUTHOR>
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Atenção gráficos: Manter itálicos e negros! Eu faço cópia em papel. Obrigado
O bode respiratório
Personagens:
Manuel -- o que sofre do estômago
Joaquim -- o das cargas e descargas
Carlos -- o engraxador toxicodependente
Dois polícias -- ambos gordos e à paisana
A cena passa-se num típico largo de Lisboa, mas daqueles do piorio, onde de dia se fazem certas coisas e de noite bastante mais. Neste momento é dia no Intendente e o sol, espreguiçando-se do alto do castiço casario para o rendilhado da calçada, ilumina as asas sujas dos pombos e as camionetas estacionadas. No meio, em grande destaque, vários homens (uma dúzia, pelo menos, quase todos com roupa de mau corte) estão aparentemente distraídos a olhar para o chão. De facto, formaram um círculo fechado, de onde saem esporadicamente aplausos e palavrões. Estão separados do mundo (nem ligam às mulheres encostadas à esquina, com saia curta e decote), fumam cigarros e têm notas de conto na mão.
De repente, o largo anima-se com a chegada de dois senhores gordinhos que penetram no círculo como uma cunha de madeira afiada. Em dois segundos, os homens correm em todas as direcções, sussurrando a palavra «bófia» pelo canto da boca, como uma senha secreta. Só ficam no local Manuel, que sofre do estômago, Joaquim, que faz cargas e descargas e Carlos, o toxicodependente que se classifica como engraxador e «toxicoindependente».
No chão podem ver-se dois dados, numerados de um a seis, excelentes para um joguinho de sorte e azar no meio da via pública. Os três homens, agarrados pelos dois recém-chegados e metidos dentro de um jipe, têm um ar perdido e indignado.
Coisa que, como se vai ver, se mantém por largas horas. A acção transita para um frio tribunal.
Joaquim (com voz de quem fez mesmo agora uma visita à mãe moribunda) -- Eu estava encostado a uma camioneta, não estava a jogar. Havia ali um ajuntamento, mas aquele é o meu local de trabalho e estava à espera que me aparecesse um serviço, para dar de comer à minha família!
Joaquim ouve agora um juiz perguntar-lhe por que é que foi preso, se não estava a fazer nada.
Joaquim (mesmo tom de voz, mas com um toque irónico) -- Ora, porque as outras pessoas fugiram todas! Eu não pensei nisso, se não também tinha fugido. Mas como não tinha feito nada... Eles só me prenderam três minutos depois, porque eu fiquei ali a ver...
Manuel (mexendo significativamente os braços. Voz de quem protesta com toda a razão sobre a conta que lhe enviaram da companhia dos telefones) -- A história é sempre a mesma! As três vezes que vim ao tribunal eu nunca disse que não estava a jogar! Simplesmente esta versão é ridícula... Eu ia para o barbeiro. Vou lá há trinta anos cortar o cabelo a um rapaz que esteve comigo no Ultramar. Quando me agarraram, estava eu a caminho da farmácia para comprar uns comprimidos antes de ir ao barbeiro. Eu sofro do estômago! Eu nem me apercebi!...
O juiz murmura então como é que, se ia só a passar, foi detido como um dos que estavam a jogar aos dados, o que é proibido na rua.
Manuel (sem se desmanchar) -- Houve má fé, isto é indignante! O motorista, que já me conhecia do Bairro Alto, apontou para mim e disse `agarra esse que é batoteiro!' Isto é uma perseguição pessoal, eles só queriam apanhar um bode respiratório! Até agarraram este rapaz, que estava a dormir com a ressaca...
Carlos (como quem vem de um sonho profundo) -- Hã? Não me lembro de nada. Eu sou toxicoindependente... Estava a dormir, não sei de nada. Nem tenho dinheiro para o meu vício, quanto mais para estar a jogar... Só me apercebi melhor quando vi os dados.
«Então, quer dizer que todos os senhores aqui estão inocentes», reflecte o juiz, acertando no ponto central da questão. Sendo assim, o melhor é ouvir os guardas.
Um dos guardas (qual deles tanto faz, já que dizem basicamente o mesmo) -- Isso é mentira. Vemos um grupo de indivíduos, aí uns doze. Dirigimo-nos. E só prendemos estes três senhores, que tinham dinheiro na mão. Este rapaz (aponta para Carlos) só tinha umas moedas. Os outros todos fugiram.
Depois ouve-se a voz fresca de uma delegada do Ministério Público dizer que tudo ficou provado. E se não se opõe à absolvição de Carlos, quer ver condenados Joaquim e Manuel. Este tipo de crime, mesmo se há outros piores, «corrói a sociedade por dentro, com as pessoas que são levadas a gastar o dinheiro que ganham em manifesto prejuízo dos seus familiares.» Um advogado ainda discorda, esclarecendo, um pouco em voz «off», que face às versões dos arguidos só lhe resta pedir a absolvição.
Com a excepção de Carlos, isto não se verifica: Manuel leva nove contos de multa e um ano de prisão suspenso por dois anos; Joaquim 15 contos de multa, com alternativa de 30 dias de prisão.
O pano cai com quase todos muito bem dispostos, saindo da sala em fila ordenada.
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Sociedade</CATEGORY>
<AUTHOR>CF</AUTHOR>
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Fotomosaico
Valeu o susto pela fama: a gata Tabitha tinha desaparecido há 13 dias, quando fugiu da sua jaula, a largas centenas de metros de altitude e a bordo de um Boeing 747. Anteontem, finalmente, e depois de intensas buscas e de quase 50 mil quilómetros, Tabitha foi descoberta e efusivamente recebida em casa. À sua chegada estava uma montanha de microfones a aguardá-la. É o preço da fama.
Necessidade a quanto obrigas
Em Arouca, no Norte do distrito de Aveiro, um empresário do calçado decidiu descontar o equivalente a meia hora de salário aos trabalhadores que passam cinco minutos na casa de banho. Esta informação, ontem divulgada pela Lusa, foi denunciada pelo Sindicato dos Operários da Indústria do Calçado dos distritos de Aveiro e de Coimbra. De acordo com os sindicalistas, a referida empresa controla o tempo gasto pelos funcionários na satisfação das suas necessidades fisiológicas através de um relógio de ponto. Aqueles que ao fim de um mês totalizam 30 minutos nas idas às casas de banho recebem o vencimento reduzido na parte correspondente da hora. O Sindicato publica uma lista com os nomes de 11 associados que trabalham na empresa e que apresentaram queixa à Inspecção de Trabalho por causa desta situação. Segundo a nota do Sindicato, a referida empresa, que não é identificada mas onde trabalham 77 pessoas, já despediu vários funcionários que não podem trabalhar para além do horário de trabalho estipulado. São ainda divulgados os nomes dos três gerentes da fábrica, a respectiva morada, os telefones e o «fax». Já não basta o desemprego, os contratos a prazo, a trabalho precário, agora já nem à casa de banho se pode ir!...
Jogo do terror em vídeo
Esta é uma história macabra. Um adolescente de 16 anos apunhalou um colega de classe por acreditar que ao fazê-lo, isso facilitaria a sua aproximação dos monstros que aparecem num jogo de vídeo. O rapaz, que tinha planeado ainda comer o corpo do colega à refeição, foi detido em Fort Lauderdale, no Estado da Florida, Estados Unidos, por demência. Tudo isto se passou no dia sete de Fevereiro último. O autor do crime deverá permanecer hospitalizado durante pelo menos seis meses num estabelecimento psiquiátrico. A vítima, Cristopher Hill, também de 16 anos, foi atingida com 22 golpes de faca. Mas acabou por se salvar tendo ficado internado num hospital durante algumas semanas. De acordo com a France Presse, o agressor, que passa horas a jogar o seu jogo de vídeo, Mortal Kombat, tomou a decisão de esfaquear Cristopher Hill por pensar que isso lhe permitiria alcançar o nível superior do seu jogo. Esta a justificação avançada, na quinta-feira, pelo seu advogado, Chris Roberts: «Ele sabia que o seu gesto não era correcto, mas foi incapaz de avaliar as consequência.» Para o advogado o rapaz julgava que se cometesse um acto horrível os demónios que «o atormentavam (...) o aceitariam como um deles». Chris Roberts indicou ainda que o adolescente tinha planeado comer o corpo da sua vítima tendo avisado a mãe para não lhe preparar o almoço.
Polícia de má memória
Um juiz de Royal Oak, estado americano do Michigan, foi obrigado a mandar colocar uma fita adesiva na boca de um preso que estava a ser julgado, de forma a mantê-lo calado. O jovem, de 22 anos, chama-se Gregory Wright e é acusado de ter tentado matar um polícia. Durante o seu julgamento não parou de repetir: « Por favor, não me mate». Enquanto ia acrescentando: «O senhor está a tentar matar-me como fez com o meu pai». O seu progenitor tinha sido morto por um polícia, em 1987, depois de ter atirado contra a autoridade.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-078</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Sociedade</CATEGORY>
<AUTHOR>AN</AUTHOR>
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Fadiga provoca acidente
As duas caixas negras do avião Antonov 32P que se despenhou contra um morro, quando ajudava a combater um incêndio em Espanha, já foram encontradas e embora ainda não tenha sido feita a sua leitura, o PÚBLICO apurou que o acidente poderá ter sido provocado por fadiga da tripulação. Entretanto, já regressou a Portugal o técnico da Direcção-geral da Aviação Civil enviado para recolher informações.
O sinistro deu-se no passado dia 6, pelas 21h00, e provocou a morte do piloto português Jorge Silva Rodrigues, 39 anos, e de quatro técnicos ucranianos -- nacionalidade dos Antonov, aviões de fabrico recente, apresentados pela primeira vez no salão de Paris do ano passado. O único sobrevivente foi o engenheiro Alexander Smiriad que se encontra ainda internado no Hospital de La Fé (Valência), onde foi sexta-feira operado para limpar as feridas provocadas por queimaduras profundas de segundo e terceiro graus.
A fadiga poderá ter feito o comandante confundir silhuetas. As exigências feitas à tripulação nesse dia já tinham excedido o limite das horas de voo imposto por questões de segurança. O Antonov estava de regresso à base espanhola, depois de ter efectuado dez missões, a cerca de 80 quilómetros de Valência, quando lhe foi solicitada mais uma operação de combate. A 100 quilómetros a sul, na encosta de uma montanha, as chamas ameaçavam uma povoação. Um controlador espanhol que seguia a bordo de um helicóptero comandava a operação.
Na missão, participavam os dois Antonov 32P ucranianos alugados, com tripulação, pela operadora portuguesa Heliserviço a quem o Serviço Nacional de Bombeiros adjudicou os dois aviões pesados para a campanha de incêndios florestais deste ano, embora a comissão nomeada para apreciar o concurso tivesse colocado algumas reticências ao uso destas aeronaves. A.N./N.R.
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Sociedade</CATEGORY>
<AUTHOR>AN</AUTHOR>
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Segurança da aviação civil em causa
Pilotos fazem queixa da Direcção-Geral à Procuradoria
Anabela Natário
A aviação civil em Portugal é uma confusão de decretos-lei e portarias. A direcção-geral responsável não passa de um serviço burocrático que considera ter apenas um compromisso moral quanto às normas internacionais. Na navegação aérea falta segurança e «ninguém fiscaliza ninguém». Os pilotos querem que a Procuradoria-Geral da República intervenha.
Os pilotos da aviação civil estão a preparar-se para apresentar uma queixa na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra a Direcção-Geral de Aviação Civil (DGAC) por esta não cumprir os deveres previstos na lei nacional e internacional, em especial no que se refere às questões de segurança.
A legislação portuguesa classifica a DGAC como o serviço responsável pela orientação, regulamentação e inspecção das actividades de aviação civil no espaço nacional e no internacional confiado à jurisdição portuguesa, mas o vice-presidente do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC), Rui Jorge, disse ao PÚBLICO que «isto» é apenas o que está escrito, pouco sendo aplicado na prática.
«Estamos a pensar seguir o exemplo do sindicato francês dos pilotos de aviação civil. Recentemente também tiveram uma série de problemas com a entidade responsável pela fiscalização aérea e só conseguiram que esta reagisse às suas preocupações fazendo uma queixa ao procurador-geral da República» -- especificou Rui Jorge.
Há já alguns anos que o SPAC tenta trocar correspondência com a DGAC -- «pedindo esclarecimentos e alertando-a para uma série de problemas que afectam a aviação civil e podem pôr em risco vidas humanas» --, mas raramente essa troca é efectiva, já que a Direcção-Geral não responde às solicitações e quando acontece enviar um oficio «nunca o esclarecimento é conclusivo».
Entre Junho e Julho de 1993, o SPAC enviou à DGAC três ofícios a questionar o serviço responsável sobre algumas lacunas da lei no que respeita aos tempos de serviço de voo e repouso do pessoal navegante de transporte aéreo -- «há empresas que não cumprem o estabelecido». No dia 27 de Outubro desse ano, chegou pelo correio «uma curiosa» resposta: «(...) cumpre-me informar que foi solicitado o parecer da TAP-Air Portugal, através do nosso ofício 432-93/DG de 22 de Julho de 1993, aguardando-se resposta desta empresa».
O ofício 451/93 da DGAC era assinado pelo director-geral, Nelson Rey Garrido de Figueiredo, recentemente reconduzido no cargo pelo secretário de Estado dos Transportes, Jorge Antas, que tutela o organismo ao qual compete «fiscalizar a observância e instruir os processos relativos às infracções cometidas» aos regulamentos estabelecidos por decreto-lei, para «salvaguardar a segurança das operações aéreas contra os efeitos da fadiga das tripulações».
A DGAC, atendendo à questão colocada a uma das transportadoras aéreas nacionais, desconhece as suas próprias competências, dá pouca importância às regras internacionais e «demite-se» das suas responsabilidades, particularmente quanto à fiscalização das condições de segurança -- ou de casos notórios de «falta de segurança», como alega Rui Jorge, que afirma ter o seu sindicato dado conhecimento de diversas infracções praticadas por operadoras aéreas.
DGAC «nada fiscaliza»
No SAPC encontram-se alguns processos que envolvem pilotos mas que «provam» a existência de ilegalidades, resultantes, na sua maioria, de um desejo de obtenção de lucro fácil. Já houve casos, e continuam a existir, de comandantes obrigados coercivamente a levantar voo com aeronaves «feridas» de avarias ou sem o equipamento mínimo exigido pelas normas internacionais. E há também conhecimento de transportadoras que não deixam preencher os registos impostos por lei quanto a incidentes ocorridos nos seus aviões.
«Mas a DGAC nada fiscaliza» -- frisou Rui Jorge, recordando que uma vez o SAPC, ao receber uma resposta de Nelson Figueiredo acusando-o de não apresentar casos concretos, o sindicato resolveu «apontar alguns». Ainda hoje, o SAPC aguarda uma resposta ou a actuação conveniente para que se evite qualquer catástrofe. O problema é que a Direcção-Geral diz «só actuar por denúncia»...
Este organismo -- segundo técnicos contactados pelo PÚBLICO -- não faz fiscalizações porque não tem capacidade para as efectuar, «limita-se a proceder de forma burocrática: aceita a papelada e nada confirma», como aliás sucedeu com os helicópteros e aviões que andam na presente campanha de combate a incêndios.
São 36 as aeronaves adjudicadas pelo Serviço Nacional de Bombeiros para a campanha iniciada em Maio e com final previsto para Outubro, através de um concurso irregular que «não passa» pela DGAC e sobre o qual os pilotos «andam há anos» a alertar para o facto de pôr em causa a segurança de voo e das populações.
No final do ano passado, num dos muitos alertas lançados pelos pilotos, o sindicato lembrava à DGAC as normas comunitárias e evocava as propostas da JAA (Joint Aviation Authority), organismo reconhecido por todos os estados membros, incluindo Portugal. Mas a DGAC não parece muito preocupada nem com a legislação nacional, nem com as regras internacionais.
Regulamento é de 1930
Num parecer do passado mês de Maio, a que o PÚBLICO teve acesso, a jurista da DGAC Alda Maria Santos Pato -- recentemente nomeada directora dos serviços de transporte aéreo -- escreveu: «O compromisso assumido por Portugal nos `Arrangements Concerning the Development, the Acceptance and Implementation of Joint Aviation Requirements [JAR, normas emanadas pela JAA], tem apenas o carácter de intenção, de compromisso moral».
Alda Pato acrescentava que as normas da JAA «só obrigariam Portugal no plano de direito público internacional se tivesse sido objecto de aprovação por decreto do Governo». Por outro lado, reconhecia que «a maior parte das matérias constantes dos JAR não está coberta por legislação nacional publicada antes da sua adopção pelas JAA», porém estas serão obrigatórias para o país «a partir do momento em que sejam efectivamente publicadas no Jornal Oficial das Comunidades».
Em Portugal, dispersas por diversos «Diário da República», existem dezenas de decretos-leis e portarias, alguns dos quais com determinações contraditórias. O Regulamento de Navegação Aérea em vigor data de 25 de Outubro de 1930. Publicado no então «Diário do Governo» em 13 de Julho de 1931 foi, portanto, elaborado antes da Convenção de Chicago de 1944 (que regulamentou a aviação civil internacional), do Código Civil de 1966 e, até, sem ter em conta o Código Penal de 1929.
O Regulamento de Navegação Aérea é, inclusive, anterior à definição dos direitos administrativo e comercial e às normas jurídicas da União Europeia. Desde o princípio dos anos 80 que já foram elaborados quatro projectos para um novo código de conduta, tendo um deles demorado três anos a fazer. Mas «todos ficaram na gaveta».
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-080</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Sociedade</CATEGORY>
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Sentença de Vila Franca concluiu julgamento
Assaltantes de bancos condenados a 95 anos
O colectivo do Tribunal de Vila Franca de Xira condenou, sexta-feira à noite, 12 dos 13 indivíduos acusados de envolvimento numa quadrilha que entre Março de 1991 e Novembro de 1992 efectuou 28 assaltos à mão armada a instituições bancárias, a penas situadas entre um e 15 anos de prisão efectiva.
No seu conjunto, e já depois da aplicação das regras do cúmulo jurídico, os arguidos foram condenados a 95 anos e seis meses de cadeia, ligeiramente «amortizados» pelos perdões concedidos ao abrigo das duas últimas amnistias.
O acórdão considera provada a generalidade dos factos deduzidos na acusação e defende que «os arguidos, no seu conjunto, embora em momentos diferentes, ora actuando uns ora outros, uniram-se para a prática de actos que se configuram como associação criminosa».
Sugere, também, que os quatro arguidos que se terão sucedido na liderança do grupo -- Agostinho, de 37 anos, António, de 45, Francisco, de 28 e José, de 36 -- ao longo dos seus 20 meses de actividade, devem ser mais responsabilizados e que os arrependidos devem beneficiar de uma atenuação especial das suas penas.
Agostinho, que já se encontra a cumprir pena de 18 anos de cadeia, foi, assim condenado a mais de 12 anos de prisão pela prática de um crime de associação criminosa, seis crimes de roubo e três crimes de falsificação, entre outros. Deverá beneficiar de dois anos e meio de perdão ao abrigo das amnistias.
António sai condenado a 15 anos de prisão efectiva por um crime de associação criminosa, doze crimes de roubo, cinco de falsificações e, ainda, crimes de rapto e tráfico de estupefacientes, entre outros. Beneficiará, também, de dois anos e meio de perdão e do desconto da prisão preventiva que já cumpriu.
Francisco, primo de António, foi condenado pela prática de um crime de associação criminosa, 15 crimes de roubo e sete de falsificação, a 15 anos de cadeia. Para José foram sentenciados 10 anos de prisão efectiva, pela prática de um crime de associação criminosa, 17 crimes de roubo e 13 de falsificação.
Os restantes arguidos foram condenados a penas situadas entre um e nove anos de cadeia, à excepção do arguido Leal, o único absolvido neste processo. O arguido Abel sai, também, em liberdade porque o ano de prisão que lhe fora atribuído acabou perdoado ao abrigo da amnistia.
28 agências em todo o país
Este grupo de indivíduos foi acusado de ter assaltado 28 instituições bancárias espalhadas por todo o país, apoderando-se de mais de 53 mil contos, que terão sido gastos em proveito pessoal dos arguidos, designadamente em jogo clandestino e aquisição de drogas e bens de consumo.
De acordo com a acusação, iniciaram a sua actividade a 15 de Março de 1991, com um assalto ao balcão do BCI na Reboleira (Amadora), que rendeu cerca de 5917 contos.
Seguiram-se cerca de 20 meses de actividade delituosa da quadrilha que teve composições variadas mas sempre um tronco comum.
Inicialmente concentraram a sua actividade na região de Lisboa, mas alargaram-na, depois, ao resto do país, passando, a determinada altura, a privilegiar o assalto às Caixas de Crédito Agrícola Mútuo.
Terão, assim, estendido a sua «carreira» a pontos tão distantes como Montalegre, Arco de Baúlhe, Paranhos da Beira (Seia), Porto Alto, Vialonga, Palmela, Gavião, Vila Viçosa e Tocha. Na sequência do assalto à Caixa Agrícola desta última vila, efectuado a 12 de Novembro de 1992, a Polícia Judiciária viria a deter os indivíduos agora presentes a Tribunal.
O julgamento prolongou-se por dois meses e meio e envolveu mais de 130 testemunhas. A leitura da sentença, iniciada pouco depois das 19 horas de sexta-feira, demorou quase duas horas.
Jorge Talixa
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-081</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Economia</CATEGORY>
<AUTHOR>GM</AUTHOR>
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Nem gregos nem troianos
O ministro do Comércio, Faria de Oliveira, é geralmente tido por ser um político discreto, um negociador persistente e habilidoso e um homem que sabe gerar consensos. Mas com a sua actuação em dois casos recentes corre o risco de ver a sua imagem pública seriamente comprometida: as taxas do serviço Multibanco e a abertura dos estabelecimentos comerciais ao domingo.
A sua oposição à actuação concertada dos bancos, ofensiva das regras da concorrência, foi sem dúvida correcta e oportuna, num primeiro momento do «caso» das taxas Multibanco, mas daí para cá foi no mínimo ambíguo. As suas hesitações acabaram por surgir e disso se aperceberam todos os agentes envolvidos e a opinião pública em geral. Os sinais que deu foram tão contraditórios que até o grupo parlamentar do seu partido os interpretou mal. Os deputados do PSD perceberam que estariam a agir em consonância com o ministro se tomassem a iniciativa de proibir, pura e simplesmente, qualquer taxa sobre o serviço prestado pelos bancos que disponibilizam aos seus clientes os meios de pagamento electrónico. Proibir o pagamento de um serviço! Um monumental disparate, além duma cega manifestação de oportunismo político.
Só que o ministro acabou por resolver mal o imbróglio. É no mínimo discutível que a solução para o conflito de interesses que estava criado pudesse ser encontrada por via administrativa, em vez de se deixar que fosse o mercado a resolvê-lo livremente. Ainda por cima, a fórmula (complicada!) que veio a ser proposta acaba por diferir pouco da que os bancos começaram por querer impor. Agora está aberto o precedente -- é uma questão de tempo -- que levará a que todos os serviços prestados pelo sistema Multibanco venham a ser pagos pelos utilizadores (todos os utilizadores menos a banca, que também beneficia dele...) e a que o pagamento até seja uniforme. Pagamento igual, neste caso, até pode querer dizer que uns clientes sejam mais favorecidos que outros. Algo que a princípio o ministro pareceu querer evitar...
No caso da abertura do comércio ao domingo a posição do ministro é igualmente frágil. Não se percebe por que é que, ao fim de tantos anos, Faria de Oliveira admite mudar as regras do jogo que levaram a que grandes investimentos tivessem sido realizados e a que os consumidores criassem novos hábitos. Muito menos se percebe porque é que foi criado um grupo de trabalho, com representantes de todas as partes envolvidas, e, antes que tal grupo tivesse tempo de fazer o que quer que fosse, Faria de Oliveira viesse a público, ele próprio, especular sobre as várias hipóteses possíveis e permitir que cada um julgue ter percebido em que sentido ele vai decidir.
Estão mais que batidos os argumentos dos que apoiam e dos que se opõem à abertura ao domingo. Para os consumidores, poder fazer compras ao sábado e ao domingo aumenta a possibilidade de escolha e é mais cómodo, o que resulta do ritmo de vida que se tem hoje, do tempo gasto no trabalho, nas deslocações, das dificuldades de transporte, da falta de infra-estruturas sociais, como infantários e escolas. Os argumentos contrários são fracos e alguns até ridículos. Houve quem defendesse o encerramento porque aos domingos os hipermercados estão cheios e os museus estão vazios... Houve quem viesse recordar que o domingo é o dia da família ou de ir à missa. Como se ir à missa ou a uma exposição fosse um acto de obediência a um qualquer decreto ou algo que resulte apenas da falta de uma qualquer outra alternativa, como ir passear para o «shopping»... Põe-se a hipótese de haver um «hipermercado de serviço» por cada área, como com as farmácias... Parece anedota.
Querer discutir se está «bem» ou «mal» que o comércio abra ao domingo, hoje, nem sequer faz sentido. Como não faz sentido acreditar que fechar as grandes superfícies contribuirá para ajudar a «modernizar» o pequeno e médio comércio. O «progresso» não é resultado automático da falta de concorrência...
No meio disto tudo, passaram para segundo plano questões que são fundamentais. Pode ser pouco simpático dizê-lo, mas a verdade é que, de uma maneira geral, o pequeno e médio comércio funciona mal. Há estabelecimentos a mais e muitos deles não não têm qualquer hipótese de sobreviver. Portugal tem o dobro das lojas que os países da União Europeia que têm mais lojas, fazendo-se a relação entre o número de estabelecimentos e a população. E as lojas portuguesas facturam em média metade da média na UE.
Não se resolve problema nenhum se não se tiver estes factos em conta. Nem se ajuda os pequenos e médios comerciantes, nem os consumidores. E o ministro do Comércio arrisca-se, pondo em causa os créditos de bom negociador e político sensato que lhe têm sido reconhecidos, a desagradar a todos sem beneficiar ninguém.
Goulart Machado
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-082</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Desporto</CATEGORY>
<AUTHOR>FJM</AUTHOR>
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Vitória (4-0) sobre a Bulgária construída na primeira parte
Suécia no terceiro lugar do «Mundial-94»
A Suécia assegurou ontem o terceiro lugar no Mundial de futebol ao vencer a Bulgária por 4-0. Os escandinavos repetiram a posição do Mundial de 50 e do Europeu de 92, confirmando estarem na primeira linha do futebol mundial, apesar de não terem grande representatividade a nível de clubes. O quarto lugar da Bulgária foi a melhor classificação de sempre da selecção do Leste europeu, que ontem esteve disparatada durante a primeira parte, quando a defesa acumulou erros sobre erros, permitindo que os suecos marcassem praticamente todas as vezes que chegaram à área. Com os quatro golos de vantagem a Suécia estabeleceu um novo recorde de diferença de golos no jogo de consolação.
O jogo para atribuição dos terceiro e quarto lugares costuma ser apelidado como o mais desinteressante do Mundial. Coloca frente a frente os derrotados das meias-finais, já sem moral para o esforço suplementar que este jogo representa. Há mesmo quem defenda a extinção do encontro, atribuindo o terceiro posto às duas equipas, de resto, como acontece no Campeonato da Europa. Só que os interesses comerciais da FIFA falam mais alto.
Tradicionalmente este jogo serve também para os treinadores darem a oportunidade de jogar aos atletas não utilizados e que se mantiveram concentrados durante o mês em que a prova decorre. No entanto, nem Dimitar Penev, nem Tommy Svensson seguiram a tradição e colocaram em campo os seus melhores homens, o que acabou por dar maior interesse ao encontro.
O jogo começou aberto, como se esperava, com as duas selecções pouco preocupadas com os apertados esquemas tácticos de outras partidas, embora se notasse desde o início mais rigor dos suecos, sempre fieis ao futebol directo, que tão bons resultados lhes tem trazido. Do outro lado, via-se uma selecção búlgara ainda mais anárquica do que o habitual, onde metade da equipa se preocupa apenas em atacar e a outra metade em tentar defender.
E as debilidades defensivas da Bulgária ficaram bem evidentes logo aos sete minutos, quando Ingesson passou com facilidade por Kiriakov e cruzou tenso para o remate de cabeça de Brolin que inaugurou o marcador. Mihaylov não ficou isento de culpas, com uma saída precipitada que deixou a baliza deserta. Reagiu a Bulgária, o jogo passou a jogar-se mais junto à área de Ravelli -- nova boa exibição do guarda-redes sueco, que fez uma excelente defesa a um potente remate de Sirakov (14') --, mas pouco depois Brolin voltou a mostrar-se, marcando de imediato um livre que isolou Mild, que só teve de empurrar para a baliza (29'). Iniciavam-se dez minutos dramáticos para a Bulgária, que sofreria dois outros golos, primeiro por Larsson (36'), após mais um excelente passe de Brolin, depois por Kenneth Andersson, que voltou a chegar mais alto com a cabeça que o guarda-redes com as mãos, como já acontecera frente à Roménia.
Com quatro golos de desvantagem, a Bulgária limitou-se a jogar para Stoichkov, que procurava o golo que lhe permitisse adiantar-se na lista dos melhores marcadores, mas ontem tudo correu mal e apesar das boas oportunidades de que dispôs, nunca acertou na baliza.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-083</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940717-083</DOCID>
<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
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Feira do Livro Português em Angola
A vice-ministra angolana da Cultura, Ana Maria de Oliveira, afirmou ontem em Luanda, na sede da União dos Escritores Angolanos, durante a cerimónia de inauguração da 4ª Feira do Livro Português, que esta «vai contribuir para o reforço da amizade luso-angolana». Barreira de Sousa, encarregado de negócios da embaixada portuguesa em Luanda, referiu na sua intervenção que «é através da Cultura que se estreitam os laços de cooperação entre Portugal e Angola». Gabriela Antunes, secretária-geral da União dos Escritores Angolanos, apelou por seu lado à compra de livros, apesar de os preços serem, segundo diz, «os do mercado português», ou seja, bastante mais caros que os do mercado angolano. A mostra -- este ano não totalmente financiada pelo Estado português, o que levou os livreiros presentes a optarem pelo autofinanciamento da sua participação -- comporta 35 a 40 mil títulos de 21 editoras, numa iniciativa da Cooperação portuguesa e do ICEP -- Instituto de Comércio e Turismo de Portugal --, com o apoio da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros. No âmbito do certame, decorrem ainda, desde quinta-feira passada, uma exposição de literatura infantil, juvenil e banda-desenhada que integra 350 títulos, organizada pela Biblioteca Nacional Angolana, e um concurso de montras de livrarias.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-084</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940717-084</DOCID>
<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Mundo</CATEGORY>
<AUTHOR>JH</AUTHOR>
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Embaixadores raptados na Argélia -- Dois embaixadores em Argel, os de Omã e do Iémen, foram sexta-feira raptados em Khémis El-Kechna, um feudo islamita a Leste da capital. Foi o primeiro incidente do género desde o início, em Janeiro de 1992, dos embates entre grupos armados islamitas e forças da ordem. Os serviços de segurança anunciaram ontem o «desaparecimento» dos dois diplomatas desde há 24 horas, sem dar outros pormenores. Mas ninguém reivindicou o rapto do omanita Hillal El-Siyabi e do iemenita Askar Ali Hussain, este último um meridional, que teria apoiado Aden durante a recente guerra civil e que, por isso mesmo, já teria sido exonerado pelas autoridades de Sanaa.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-085</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
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ADIADOS OS FUNERAIS DE KIM IL SUNG -- A Coreia do Norte anunciou o adiamento por 48 horas dos funerais do Presidente Kim Il Sung, que deveriam decorrer hoje, provocando em Seul especulações sobre eventuais dificuldades na transmissão do poder para o seu filho mais velho e herdeiro designado, Kim Jong Il. «A cerimónia fúnebre para o último adeus ao camarada Kim Il Sung terá lugar em Pyongyang, capital da revolução, a 19 de Julho», indicou a agência oficial norte-coreana. Segundo o comunicado, o adiamento da cerimónia fúnebre, que deveria marcar o fim do luto oficial na Coreia do Norte, deve-se ao número «sempre crescente» de pessoas que pretendem render homenagem ao defunto chefe de Estado. Segundo os dirigentes sul-coreanos, a decisão poderá antes significar que Kim Jong Il ainda necessita de mais algum tempo para consolidar o seu poder.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-086</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Sociedade</CATEGORY>
<AUTHOR>PG</AUTHOR>
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Energias renováveis carecem de plano nacional
A necessidade de um plano nacional de energias renováveis, a definir com o contributo de empresas, organismos públicos e universidades, foi a principal conclusão do Seminário sobre o tema que se realizou, nos últimos dois dias, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real. A reunião contou com a participação de cientistas ligados a universidades e centros de investigação de seis países (Portugal, Espanha, Bélgica, Alemanha, Dinamarca e Estados Unidos).
Falando na sessão de encerramento do seminário, presidida por Cavaco Silva, Fernando Real, ex-ministro do Ambiente e actual gestor do ITIDAI (Instituto de Trás-os-Montes para a Investigação e Desenvolvimento Agro-Industrial, que promoveu o encontro), defendeu que a existência de um estratégia nacional para as energias renováveis «facilitaria a criação de mercado quer para produtores, quer para utilizadores».
Fernando Real salientou ainda a importância que projectos de instalação das fontes renováveis de energia teriam na «criação de emprego a nível regional, bem como para a fixação das populações nas regiões menos favorecidas». E defendeu ainda o envolvimento activo das autarquias e das populações nas diferentes fases de instalação dos sistemas de energias renováveis, para garantir a sua integração social.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-087</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940717-087</DOCID>
<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Sociedade</CATEGORY>
<AUTHOR>AMRJ</AUTHOR>
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GOVERNO FRANCÊS IRRITADO COM PESCADORES ESPANHÓIS -- Um dos barcos franceses que ontem se viu envolvido em confrontos com pescadores espanhóis ao largo da costa da Galiza (ver pág. 30) estava, ao fim da tarde, em risco de se afundar. Não havia, de qualquer modo, perigo de vida para qualquer membro da tripulação do Le Gabriel, uma vez que todos os pescadores foram recolhidos por um outro barco. Em reacção aos acontecimentos, o ministro francês das Pescas, Jean Puech, pediu ao Governo espanhol que fizesse cessar imediatamente «as agressões inadmissíveis e injustificáveis» dos pescadores espanhóis. Os incidentes, que não provocaram feridos, atingiram seis barcos franceses, segundo informações citadas pela agência France Presse. Em resposta ao apelo do ministro francês, o secretário de Estado espanhol da Pesca, José Loira, pediu aos pescadores que evitassem «qualquer acção violenta».
ACIDENTE COM CAMIÃO-CISTERNA EM LOS ANGELES -- Centenas de pessoas foram ontem retiradas de uma área da periferia de Los Angeles, depois de um camião-cisterma que transportava ácido clorídrico ter tido um acidente na auto-estrada, do qual resultou a libertação de fumos tóxicos. No acidente esteve envolvida uma outra viatura, tendo morrido pelo menos um dos seus ocupantes. O camião despistou-se na auto-estrada 60, a leste de Los Angeles, e acabou por ficar imobilizado nas traseiras de uma casa, deixando ferido o motorista. «O ácido misturou-se com algo mais que não sabemos ainda o que é», indicou Ruth O'Brien, da brigada de trânsito local. Algumas pessoas chegaram ainda a ser assistidas por terem inalado fumos tóxicos.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-088</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940717-088</DOCID>
<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Diversos</CATEGORY>
<AUTHOR>LP</AUTHOR>
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«Das feições de alma que caracterizam o povo português, a mais irritante é, sem dúvida, o seu excesso de disciplina. Somos o povo disciplinado por excelência. Levamos a disciplina social àquele ponto de excesso em que cousa nenhuma, por boa que seja -- e eu não creio que a disciplina seja boa -- por força que há-de ser prejudicial. Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo. E quando, por um milagre de desnacionalização temporária, pratica a traição à Pátria de ter um gesto, um pensamento, ou um sentimento independente, a sua audácia nunca é completa, porque não tira os olhos dos outros, nem a sua atenção da sua crítica. (...)
Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado. Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles saem? As poucas figuras que de vez em quando têm surgido na nossa vida política com aproveitáveis qualidades de perturbadores fracassam logo, traem logo a sua missão. Qual é a primeira cousa que fazem? Organizam um partido... Caem na disciplina por uma fatalidade ancestral. Trabalhemos ao menos -- nós, os novos -- por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa. Escrupulisemos no doentio e no dissolvente. E a nossa missão, a par de ser a mais civilizada e a mais moderna, será também a mais moral e a mais patriótica.»
Fernando Pessoa,i Abril de 1915
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-089</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940717-089</DOCID>
<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Diversos</CATEGORY>
<AUTHOR>LP</AUTHOR>
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«... muy preocupados por la situación en este país»
Há vinte anos, o «Diário Popular» e o «Diário de Lisboa» faziam manchetes sobre o «suspense» em torno da constituição do II Governo Provisório, liderado por Vasco Gonçalves. Tardava o anúncio oficial de Belém. «Quando às 21h15 abandonou o Palácio de Belém, o coronel Vasco Gonçalves disse aos jornalistas que o Governo estava praticamente constituído e que só faltava agora comunicar às pessoas cujos nomes havia indicado», dizia o «DP», enquanto o «DL» afirmava que «observadores postados desde o princípio da manhã em Belém interpretavam rumores de última hora como podendo significar que haveria algumas surpresas em relação a algumas pastas».
No «Diário de Lisboa» era transcrita -- em castelhano -- uma notícia do jornal «Hoy» sobre Portugal: «Los fusileros de la base recibieran al general con una adaptación de la canción `Grândola Vila Morena' com que se inició la revolución de Abril. Entre otras cosas el Presidente de la República dijo que `Portugal está enfermo'. Los organos de información europeus hablaban esta mañana de um possible contragolpe em Portugal, al tiempo que las declaraciones de Kissinger en el sentido de que los Estados Unidos estaban muy preocupados por la situación en este país.»
«Pensamentos de Mao guiam saneamentos nos Hospitais Civis» era o título de uma notícia nas páginas interiores do «Diário de Lisboa». E o «DL», ironicamente, desenvolvia o caso assim: «`Alguém que do assunto tem superior inteligência e a experiência de quem reformou uma sociedade de várias centenas de milhões de almas' é o proposto como o `guia' do saneamento dos Hospitais Civis de Lisboa. A proposta consta de uma ordem de serviço (nºCPG/16) datada do passado dia 28 de Junho, `para conhecimento geral e devidos efeitos', e auto-intitula-se `Programa do Saneamento dos Trabalhadores' dos HCL, o que acresce à sua incongruência de base. O `alguém' é, naturalmente, Mao Tsetung (...). Como deve ser então o saneamento nos HCL? Já vimos: `total, profundo e a todos os níveis', revestido de `minúcia, exactidão, rigor'. Mas não só: também `completo e modelar', `profundo e total», por assim dizer um «instrumento de precisão, eficaz e exacto' (...). Por fim o documento julga `oportuno citar alguns princípios básicos' comunicados por tal experiência, avançando com vários pensamentos de Mao Tsetung. Só falta, de facto, denunciar Confúcio, que não sabia pôr mercúrio-cromo.»
No «Diário Popular», Maria Armanda Falcão (Vera Lagoa) assinava a crítica teatral do espectáculo «Um Barco para Ítaca» de Manuel Alegre: «Se não fiquei, se não vi todo o espectáculo, foi por estar demasiadamente emocionada. Ainda não me habituei a ouvir dizer Manuel Alegre sem ser às escondidas. Ouvir os seus poemas, naquele palco, foi forte de mais para mim. (...) Aqueles poemas que nos alimentaram durante o nosso degredo interior. E o cantor começa por: `Venho dizer-vos que não tenho medo.' Já o sabíamos, Manuel. Já o sabíamos. E nunca te agradeceremos o suficiente por o teres sabido dizer, quando muitos de nós tínhamos medo.»
O «Diário de Lisboa» publicava as novas tabelas de preços para os cafés, cervejarias, restaurantes, bares e outros estabelecimentos. «A título de exemplo eis os preços máximos de alguns pratos mais vulgares, em restaurantes de 1ª, 2ª e 3ª categorias, respectivamente: bacalhau cozido ou assado -- 6500, 5500 e 4500; pescada cozida ou frita -- 6300, 5000 e 4000; bife normal -- 6300, 5000 e 4000 (...); frango assado para duas pessoas -- 8800, 6900 e 5600.» E adiantava o «DL» que, «conforme a categoria do estabelecimento, o carioca de limão varia entre 200 e 250, o galão entre 500 e 600, os chamados `salgados' entre 300 e 400 escudos, e a sanduíche mista entre 750 e 950 (...), enquanto a `imperial' varia entre 400 e 600».
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-090</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
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<AUTHOR>LP</AUTHOR>
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«Dizem que estar sozinho assusta um homem. Não é assim. O que o assusta na escuridão ou no matagal alto é que ele não pode ter certezas, e podia encontrar-se um exército mesmo na sua frente. O que mais o assusta é estar no meio de uma multidão e não poder adivinhar o que os outros pretendem fazer.»
Robert Louis Stevenson, «A Praia de Falesá»
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<DATE>19940717</DATE>
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Empossado o II Governo Provisório
Há vinte anos, a manchete de todos os jornais era a tomada de posse do II Governo Provisório, o primeiro liderado por Vasco Gonçalves. «Todos teremos de viver em atmosfera de autêntica austeridade -- afirmou o primeiro-ministro» era a frase em destaque no «Diário de Lisboa», enquanto o «Diário Popular» registava: «O Presidente da República conferiu posse ao 2º Governo Provisório depois do 25 de Abril».
«O Presidente da República, que estava acompanhado pelo chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, membros da Junta de Salvação Nacional e do Conselho de Estado, conferiu hoje de manhã, no Palácio de Belém, posse ao segundo Governo Provisório, nesta fase renovadora que o 25 de Abril trouxe ao país. O general António de Spínola tinha do seu lado direito o general Costa Gomes e à esquerda o novo primeiro-ministro, coronel Vasco Gonçalves; do lado esquerdo da sala azul viam-se todos os membros da J. S. N. com excepção do general Diogo Neto e, a seguir, conselheiros de Estado, ao mesmo tempo componentes do Movimento das Forças Armadas e da sua Comissão Coordenadora. Junto destes militares, o prof. Henrique de Barros, um dos civis que fazem parte do referido Conselho. Do lado direito, todos os ministros -- reescolhidos uns; pela primeira vez no Governo, outros (...) Não assistiram a esta transmissão de poderes alguns dos ministros que compuseram o I Governo Provisório», era assim a descrição da cerimónia na primeira página do «DP»:
O «Diário de Lisboa», nas suas páginas interiores, chamava a atenção para o facto de que seis dos ministros empossados tinham pertencido ao I Governo pós-25 de Abril. «Foram reconduzidos: drs. Álvaro Cunhal (sem pasta), Mário Soares (Negócios Estrangeiros), Almeida Santos (Coordenação Interterritorial), Salgado Zenha (Justiça), tenente-coronel Firmino Miguel (Defesa), e dr. Magalhães Mota (anteriormente na pasta da Admnistração Interna, agora sem pasta). Sete militares passavam a ocupar pastas ministeriais. Eram eles, para além do coronel Vasco Gonçalves: major Melo Antunes, major Vítor Alves, capitão Costa Martins, tenente coronel Firmino Miguel, tenente coronel Costa Brás e o major Sanches Osório.
«Com este elenco ministerial e com estes sete militares, que são profundamente democratas, quase poderia dizer que vamos agora implantar uma democracia militar; e não, nunca, uma ditadura militar -- comentou o chefe do 25 de Abril, o brigadeiro Otelo Saraiva de Carvalho quando ao princípio da noite de ontem chegou ao Palácio de Belém para dar um abraço à rapaziada do Movimento que está agora em funções ministeriais», abria assim o «Diário de Lisboa» a notícia sobre a passagem de Otelo por Belém no dia da tomada de posse do II Governo Provisório. Sob o título: «É irreversível o caminho para a independência das Colónias», o «DL» relatava as palavras do novo brigadeiro: «O brigadeiro Saraiva de Carvalho, que representa a cúpula de um MFA politicamente reforçado e consolidado na nova coligação governamental, produziu, ainda que a título pessoal, a mais importante declaração do dia: «estou convencido de que temos de caminhar para a independência do Ultramar. É um caminho que eu diria irreversível. O impasse criado pela crise ministerial pode ter atrasado as conversações com o PAIGC e com a FRELIMO. Mas estou certo de que a coisa agora muito rapidamente vai para diante». Minutos depois, especificaria: «Há uma irreversibilidade total no que concerne à independência dos povos ultramarinos. E já por várias vezes fora dito, até pelo dr. Mário Soares, durante as conversações, que estávamos dispostos a reconhecer a autodeterminação com todas as suas consequências, incluindo a independência. Está implícita aí a ideia de se chegar à independência, que é o que suponho que irá acontecer. Esta é a minha opinião pessoal», precisou Saraiva de Carvalho que a confirmaria depois quando lhe foi pedido que falasse «enquanto personalidade do Movimento».
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Diversos</CATEGORY>
<AUTHOR>LP</AUTHOR>
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Francisco Louçã
«Zita Seabra, administradora de alguma TAP»
Qual é a melhor recordação de Verão da sua infância?
A infância.
Durante 1994, a quem é que teve vontade de pregar uma grande estalada?
É de má política fazer a lista, já tenho inimigos suficientes. Atrevo-me, pelo contrário, a sugerir condecorações e mordomias para os que as merecem: a Zita Seabra, terminado o trabalho de extinção do cinema, deveria ser empossada admnistradora de alguma TAP; o director do SIS, que já fez tirocínio no Serviço de Estrangeiros, devia subir a ministro; os estrategos da nova ponte, os comandantes das polícias das pontes, os ministros das pontes, todos eles deviam ser compensados pela sua dedicação ao país.
Conte-nos os seus planos para o Verão de 1994?
Trabalhar no doutoramento que estou a preparar, o que significa ficar em Inglaterra numa arejada biblioteca durante quase todo o Verão. Quinze dias com a família a descobrir a Galiza.
Toma Prozac? Se não toma, toma o quê?
As únicas drogas que me permito são a teína e a cafeína, em doses discretas. Sou pela legalização e pelo não-consumo de todas as outras, incluindo as da hipocondria-dependência e do «chique» social.
O que é para si o final de tarde perfeito de um dia muito quente?
Uma noite fresca e aluada.
A artista brasileira Cristiane Torloni, depois de regressar ao Brasil, afirmou ao jornal «Globo»: «Santana Lopes faz política barata (...), em Portugal não se pode sonhar e agora entendo o índice de viciados em heroína.» Quer comentar?
O Santana merece todas as Torlonis, eles que se entendam. Quanto à heroína, a senhora está enganada: em Portugal, a elite que frequentou usa mais a cocaína e é o povão e os jovens que vão pela heroína e pelo «crack». A política proibicionista protege os mercados de uns e de outros.
O que é para si um totalmente detestável dia de férias?
Um dia em que me cruze com um discurso ministerial pela rádio ou que ouça a repetição daqueles mitos construidores do imaginário colectivo: que a imprensa é objectiva, que a informação é livre, que os poderes são imparciais, que as reformas são estruturais, que os políticos procuram libertar a sociedade civil.
Foi de alguma maneira sensível à novela mediático-melodramática Toni-Artur Jorge?
Não. O cinismo já faz parte da vida pública portuguesa que só é de espantar que o caso deste despedimento sem justa causa tenha tido tanto impacto. É claro que os vencedores é que são felicitados.
Consegue mergulhar numa piscina sem pensar em todo o tipo de doenças a que está sujeito?
Não mergulho em nenhum lugar sem saber o que lá está. Quanto às piscinas, a Deco publicou um inquérito na sua excelente revista: de todas as piscinas pesquisadas, uma única era mergulhável.
Há uma geração rasca em Portugal? E, se existe, como se comporta essa geração quando o calor aperta?
Claro que sim. Os ministros da Cultura, que são os directores dos canais de TV, que se empenham no avacalhamento da comunicação e na analfabetização dos espectadores, são os seus expoentes máximos. Os que os empregam, os que lhes pagam, os que os atendem, os que os respeitam, essa é a geração rasca.
Do Minho ao Algarve, escolha a praia que privatizaria só para si, para a sua família e para os seus amigos.
Deixemo-nos de tretas: ninguém tem o direito de privatizar uma praia. O que faria era, bem pelo contrário, nacionalizar e socializar imediatamente as praias privadas de hotéis e moradias que pululam por essa costa, contra a lei e os bons costumes.
O que é que pagava para ver acontecer?
Se alguma coisa importante que se deseja que aconteça tem que ser paga, é natural que não seja realmente importante.
Quais são os jornais que não dispensa na praia ou no campo?
Os que são referidos na resposta que se segue à próxima.
Conhece o Alentejo profundo? E o Pulo do Lobo? E então?
Conheço o Alentejo litoral. E o suficiente para lastimar a má fama que puseram ao Pulo do Lobo, que deve merecer melhor sorte e companhia.
O que é que o irrita profundamente?
Os mesmos da penúltima resposta.
Descreva-nos o seu dia ideal de férias. Praia ou campo? Ou cidade?
Passar o tempo sem ter de pensar no tempo que passa.
Quem é que espera não encontrar nestas férias?
As melgas da penúltima resposta.
Na costa portuguesa, recomende-nos um restaurante à beira-mar para um jantar de arromba. Recomende e justifique.
Há um pequeno restaurante, sem nome, numa das falésias do Sul da ilha Graciosa, onde se come o melhor peixe frito com molho de pescador, e as cracas mais verdadeiras. O jantar é marcado na véspera para o peixe ser encomendado do mar. E é de não esquecer nunca mais.
O que é que o incomoda mais: as melgas de Verão ou as melgas do ano inteiro?
As melgas da penúltima resposta.
O seu local de férias tem muito «jet set»?
Como se há-de descobrir pelo conjunto das respostas de todos os entrevistados deste «inquérito de férias», nem sequer existe nenhum «jet set», só pessoas sensíveis e bem acompanhadas.
Há 20 anos vivia-se o primeiro Verão pós-25 de Abril. Lembra-se como e onde o passou? E com quem? E quais eram as suas preocupações?
Por Lisboa, com um bando de jovens que acreditava que havia uma mudança no país e que tudo era possível, que os dias e as noites eram escolhas, que se podia falar com toda a gente, que se podia fazer jornais livres, que a guerra podia ser vencida, que a rotina estava proibida, que o futuro podia ser inventado, que nada era predestinado, que os seres humanos eram fundamentais, que a democracia era para todos. Agora, ainda essa mesma gente -- quase todos e muitos outros -- acredita simplesmente que para que haja mudança é preciso fazer mudar.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-093</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Diversos</CATEGORY>
<AUTHOR>LP</AUTHOR>
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«Todos os parques tem os seus cisnes e os seus patos favoritos.»
Lisboa, Guia Berlitz
Monique Roemy
50 anos
Suíça
Secretária
«... como se
estivesse numa aldeia»
Que razões a trouxeram até Portugal este Verão?
Vim passar férias a Portugal porque não conhecia este país e gostava de visitar Lisboa.
Que ideia fazia de Portugal e dos portugueses antes de visitar o país?
Não tinha uma ideia muito precisa. Via os portugueses um pouco como os espanhóis, ambos têm uma nação com um grande passado histórico.
O que é que, no seu país, aprendeu sobre Portugal e sobre a História e a cultura portuguesas?
Em termos históricos, aprendemos as grandes linhas. As conquistas, Salazar, a revolução dos cravos, etc.
Mudou de ideias sobre Portugal e sobre os portugueses depois de conhecer o país?
Bem, ainda não mudei a minha opinião, porque estou cá há pouco tempo e ainda não conheço o país e os portugueses suficientemente bem para formar uma opinião.
O que é que a tem impressionado mais favoravelmente?
O acolhimento. Nos hotéis as pessoas são muito simpáticas e acolhedoras e a cidade é muito bonita. Apesar de Lisboa ser uma grande cidade, uma pessoa sente-se como se estivesse numa aldeia e isso é muito simpático. Outra coisa boa é que uma pessoa não tem a sensação de que pode ser roubada a qualquer momento, como acontece noutros países onde se tem que andar sempre agarrado à carteira.
O que mais a desapontou em Portugal?
A única coisa má são os motoristas de táxi que são muito antipáticos. O pior de todos foi um que nos levou dos Jerónimos ao Castelo de São Jorge.
Gostava de viver em Portugal?
Porque não? Se a oportunidade surgisse não me importava nada de viver aqui.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-094</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Desporto</CATEGORY>
<AUTHOR>FJM</AUTHOR>
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Roberto Baggio
O milagreiro
Roberto Baggio não começou o «Mundial» em grande forma, sendo até substituído no segundo jogo, frente à Noruega. Mas à apatia da primeira fase sucedeu um Baggio decisivo, que nos jogos a eliminar tem carregado às costas a selecção italiana, com cinco golos em três jogos. Marca importante para quem não é um homem do golo, preferindo, normalmente, oferecê-los aos colegas. Só que, neste «Mundial», Baggio ainda não tem uma assistência para marcar golos, finalizando ele próprio.
O primeiro golo de Baggio aconteceu aos 88' do jogo dos oitavos-de-final, frente à Nigéria, quando a Itália perdia por 0-1 e estava à beira de regressar a casa. Baggio repetiria o milagre no jogo contra a Espanha, quando, também a dois minutos do fim, apontou o golo da vitória, na sequência de um contra-ataque rápido.
A capacidade individual da maior estrela da selecção italiana ficaria evidente no primeiro golo da meia-final, com a Bulgária, quando concluiu com um remate perfeito uma jogada individual, no que foi um dos golos mais bonitos da prova. Quatro minutos depois, marcaria o seu segundo golo, na sequência de uma jogada elaborada pela selecção italiana, mais uma vez com o remate de pé direito a sair rasteiro e junto a um dos postes, como, de resto, foram todos os golos que marcou.
Apesar de não ter qualquer assistência, Baggio tem sido o jogador decisivo da Itália, com os seus cinco golos a valerem 62 por cento dos oito que a Itália marcou. E se o tetracampeonato for para Itália, o pequeno budista será o homem do êxito, numa selecção italiana pouco espectacular.
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-095</DOCNO>
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Desporto</CATEGORY>
<AUTHOR>LF</AUTHOR>
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Roberto Baggio
O «bambino d'oro»
Era uma vez em Pasadena... Roberto Baggio, o menino insolente e incompreendido, marcou os dois golos com que a Itália chega hoje à final do «Mundial» dos Estados Unidos. E que golos! Mercê da sua habilidade, todo um país entrou em ebulição, dirigindo o olhar para os céus, agradecendo «il miracolo». Baggio, o menino de ouro, é um milagreiro.
Nasceu em 18 de Fevereiro de 1967 em Caldogno, na província de Vicenza, é casado com Andreina e pai de duas filhas (Valentina e Mattia) e professa a religião budista. Os seus gostos pessoais, exóticos, raramente passam despercebidos, e depois do rabo de cavalo e da barba de pêra, Baggio acaba de introduzir nos Estados Unidos a sua última moda: tranças apanhadas atrás, com missangas.
A sua história futebolística, que esteve para ser interrompida ainda muito jovem, começou no Vicenza, na III Divisão, passando rapidamente para o escalão maior, para a turma mais representativa de Florença, a Fiorentina, onde se afirmou. E em 21 de Setembro de 1986, jogando em casa, assombrou o mundo do «calcio» com uma vitória por 2-0 sobre a Sampdória. Estava feito o jogador e o ídolo com pés mágicos.
Mas Baggio passou um mau bocado durante a Primavera de 1985. Mais que uma história, foi uma fábula. A do seu joelho. Tudo começou com um lance casual mas muito duro, no encontro entre as turmas do Rimini e do Vicenza. O professor Viola, conceituado ortopedista de Veneza, emite um terrível veredicto: «Irrecuperável para o futebol.» Baggio nem queria acreditar. Não podia ser verdade. Semanas mais tarde, surge em cena, outro Viola, Dino. Estava disposto a levá-lo para Roma desde que outros médicos contradissessem o diagnóstico do veneziano. Mas a resposta foi sempre a mesma.
Antonio Caliendo, representante de Baggio, e que tudo apostara no jogador, decide empreender a viagem da esperança: acompanha Roberto a Lyon, onde procuram o professor Bousquet. Paga todas as despesas. Sofrem os dois no pequeno quarto do hospital francês. E acabaram por vencer o infortúnio.
Chegara a hora da entrada na «squadra azzurra». Baggio debutou a 18 de Novembro de 1988 no estádio Olímpico de Roma, frente à Holanda, com a camisola nº 11. Azeglio Vicini depositou nele inteira confiança. De então para cá, serviu a «Nazionale» em 42 ocasiões, marcando 24 golos, e é o sexto de sempre no «ranking» dos internacionais italianos.
Mas em 1990 Baggio dá o grande salto da sua vida. E que conturbado salto... Em vésperas do início do «Mundial» de Itália, a Fiorentina vende-o à Juventus de Turim, por 12,8 milhões de dólares (ao câmbio actual, mais de dois milhões de contos), contrato válido por três temporadas. Acabara de ser batido o recorde de transferências de jogadores em Itália. Uma verba muito superior à que o Milan pagou ao PSV Eindhoven pela compra de Ruud Gullit, maior ainda que o pagamento do Nápoles ao Barcelona pela mudança de Maradona.
A transferência provocou graves distúrbios em Itália, e particularmente em Florença, onde os adeptos da Fiorentina, enfurecidos, tentaram invadir e destruir as instalações do clube, envolvendo-se em violentos confrontos com as forças da ordem. Durante mais de um mês, e depois de uma publicação italiana ter fotografado Baggio com a camisola da «Juve», não se falou de outra coisa. O anúncio formal aconteceu precisamente dois dias depois da Juventus ter batido a Fiorentina na final da Taça UEFA. A família Agnelli começava a construir uma grande equipa. Contratara ainda o brasileiro Júlio César, os russos Zavarov e Aleinikov, e depois o português Rui Barros.
Em 1993 conquista, finalmente, o seu primeiro grande troféu, a Taça UEFA, e ao mesmo tempo um dos prémios mais invejados pelos jogadores: a Bola de Ouro, instituída pelo jornal francês «France Football».
Neste «Mundial» dos Estados Unidos, Baggio conseguiu libertar a Itália dos escombros. Dos seus pés nasceram já cinco golos: dois contra a Nigéria, um frente à Espanha e mais dois contra a Bulgária. Mas na meia-final dramática, Baggio teve de abandonar, por lesão, e a queixar-se do mesmo joelho. A sua fábula parece não ter ainda acabado. Permanece em dúvida para a grande final frente ao Brasil.
Dúvidas não teve Arrigo Sacchi durante o encontro com a Noruega. Após a expulsão do guarda-redes italiano Pagliuca, o seleccionador decidiu retirar Roberto Baggio. Uma decisão dura de engolir, especialmente para a estrela da equipa, que tão cedo não lhe deverá perdoar a soberba.
Carlos Filipe
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<DOCNO>PUBLICO-19940717-096</DOCNO>
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<CATEGORY>Desporto</CATEGORY>
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Brasil
O «onze» do costume
Nos últimos quatro jogos, o Brasil não marcou na primeira parte. E, no entanto, ganhou sempre, como já tinha ganho anteriormente, nunca precisou de prolongamentos e deu sempre a ideia de controlar o jogo de princípio a fim, com a certeza de que o golo apareceria. Porque, se não tem goleado, este Brasil tem criado muitas ocasiões de golo em cada jogo -- e isso é o mais difícil.
«O time está confiante, personalizado, rodado. Está bem, em suma. Continuo a dizer que não se deve mudar por mudar» -- e assim Parreira confirma que para a final a equipa será a mesma que iniciou os últimos jogos. Ou seja: Taffarel na baliza, Jorginho a lateral-direito, com Branco do lado contrário, Márcio Santos e Aldaír no meio, com Mauro Silva e Dunga na cobertura; Mazinho joga na direita do meio-campo e Zinho na esquerda, Bebeto e Romário serão os homens mais avançados. Raí continuará suplente, até porque de facto não foi brilhante naquela segunda parte frente à Suécia -- o Brasil não melhorou com a sua entrada.
Mas Carlos Alberto Parreira sabe que este é um jogo diferente, porque é uma final e porque é a Itália de Sacchi: «Conheço bem esta equipa e de facto temos problemas diferentes, mesmo em relação à Holanda, porque a Itália tem outro esquema, é outra história. A Itália joga de maneira parecida com a nossa, com posse de bola, joga pelo chão, rápida no contra-ataque. E isso o Brasil ainda não teve pela frente nesta Copa. Então, nós vamos manter a nossa maneira de jogar, mas tendo em conta que é preciso controlar bem o meio-campo, muito forte, da Itália. Mas acho que podemos vencer.»
O Brasil tem sido muito económico a gastar jogadores neste «Mundial»: até agora só jogaram 17 (contra 20 na Itália) mas três jogaram menos de 25 minutos no total (Cafu, Paulo Sérgio e Muller) e outro jogou apenas 68 (Ricardo Rocha, lesionado). Deste modo, no «escrete» têm jogado treze homens apenas. «Mas também temos o Ricardo Gomes lesionado, como o Mozer e o Ricardo Rocha, que só fez o primeiro jogo, mas não tenho dado pela falta deles, tão bem têm jogado o Aldaír e o Márcio e porque há entrosamento. Uma equipa tem que ter continuidade e estabilidade, essa é a minha filosofia», explica Parreira.
Depois elogia Dunga e Mauro Silva, «muito importantes pela sua mentalidade vencedora e porque sabem quando podem ir à frente ou ficar, porque têm liberdade para isso». E explica um pouco o seu trabalho: «Nunca tentámos descaracterizar esta equipa. O meu trabalho foi dar-lhe organização, sobretudo na forma de jogar sem bola, porque o problema era esse.»
Parreira causa muito boa impressão aos jornalistas, denota preparação, é rápido a falar, explica com clareza, não procura subterfúgios. A sua missão está a acabar, porque já tem contrato assinado com o Valência para a próxima época. «Desde o princípio que estava combinado assim, que eu sairia no fim do `Mundial' e iria para o Valência. Depois? O mundo dá muitas voltas.» Perguntam-lhe se podia designar um sucessor. Parreira tem um gesto bonito: «O meu colega e amigo Mário Zagalo, que sabe tudo de futebol e já pertence à CBF [Confederação Brasileira de Futebol].»
O Brasil prepara assim a final. Relaxado, tranquilo, unido, nunca como desta vez os jogadores se mantêm irmanados num único desejo. Tão grande que Muller, por exemplo, o avançado do São Paulo que seria provavelmente titular em qualquer das outras 23 equipas, nem sequer abre a boca, não mostra o seu descontentamento. Nem Viola, que só quer falar depois da final, nem Ronaldo, o miúdo que alguns compararam a Pelé mas que provavelmente só em 1998, na França, poderá pisar um relvado do Campeonato do Mundo.
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<DATE>19940717</DATE>
<CATEGORY>Desporto</CATEGORY>
<AUTHOR>MQ</AUTHOR>
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Balacov e Preud'Homme na equipa ideal
O búlgaro e sportinguista Krassimir Balacov e o belga e novo reforço do Benfica Michel Preud'Homme foram ontem eleitos pela Federação Internacional de Futebol (FIFA) para a constituição da equipa ideal do «Mundial» de futebol dos Estados Unidos.
A distinção, feita por um júri de oito elementos, foi ontem divulgada num hotel de Pasadena e incidiu sobre um grupo de 37 jogadores pré-seleccionados, sendo que todos eles estiveram ou estão ainda em prova.
Preud'Homme à baliza e Balacov a médio esquerdo figuram então no «onze» ideal, com a curiosidade de serem dois dos sete jogadores europeus, em maioria, portanto, face aos quatro sul-americanos, todos eles brasileiros.
O resultado da eleição foi o seguinte, tendo sido adoptado o sistema táctico de 3x4x3: Preud'Homme (Bélgica); Jorginho (Brasil), Márcio Santos (Brasil) e Maldini (Itália); Brolin (Suécia), Dunga (Brasil), Hagi (Roménia) e Balacov (Bulgária); Baggio (Itália), Romário (Brasil) e Stoichkov (Bulgária).
Outros nove futebolistas foram distinguidos com menções honrosas: Yekini (Nigéria), Ravelli (Suécia), Lalas (EUA), Belodedici (Roménia), Redondo (Argentina), Klinsmann (Alemanha), Bebeto (Brasil), Bergkamp (Holanda) e Goicoetxea (Espanha).
O júri foi constituído por Pelé, Bobby Charlton, Gérard Houllier, Andy Roxburgh, Josef Venglos, Osvaldo Ramirez, Juerg Nepfer e Walter Gagg.
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Brasil, Itália, Alemanha e Argentina
O clube dos ricos no futebol
Francisco J. Marques
As finais dos «Mundiais» de futebol são um feudo das grandes potências. Desde 1970 que só a Holanda conseguiu intrometer-se entre o quarteto de ricos do futebol (Brasil, Itália, Alemanha e Argentina), perdendo, depois, na final. O melhor que conseguem as selecções-surpresa é chegar às meias-finais.
Quando hoje, às 21h30 portuguesas, o árbitro húngaro Sandor Puhl apitar para o início da final do «Mundial» dos Estados Unidos, repete-se o duelo Brasil-Itália do México-70, que deu o último triunfo brasileiro num Campeonato do Mundo de futebol. Qualquer que seja o vencedor, pela primeira vez na história da competição, uma selecção atinge os quatro triunfos -- isto em apenas 15 edições --, o que mostra bem que as vitórias estão reservadas a uma pequena elite, que acaba sempre por discutir a vitória entre si.
Brasil, Itália, Alemanha e Argentina são as grandes potências do futebol. Desde o «Mundial» de 1970 que o campeão e vice-campeão são uma destas selecções, apenas com duas excepções, protagonizadas pela Holanda -- derrotada nas finais de 1974 e 1978. Para todas as outras selecções, resta a disputa dos dois outros lugares de honra.
Em todos os «Mundiais», os adeptos de futebol vibram com as façanhas dos chamados «outsiders», selecções não pertencentes a este grupo mas que mostram qualidade futebolística para o integrar. Só que, apesar de o futebol que exibem ser, muitas vezes, superior aos das potências citadas, acabam irremediavelmente por falhar a presença na final. E desde o «Mundial» de 1970 que existe uma lei que só a Holanda ousou quebrar: a final é obrigatoriamente disputada entre Brasil, Itália, Alemanha e Argentina -- duas selecções europeias e outras duas sul-americanas, respeitando o tradicional equilíbrio entre os dois continentes mais fortes, com a final de hoje a servir para desempatar o 7-7 em vitórias que actualmente existe entre a Europa e a América do Sul.
Desde 1970 que só os quatro grandes foram campeões, registando a Alemanha e a Argentina duas vitórias, e a Itália e o Brasil uma, sendo certo que umas destas duas últimas selecções igualará hoje alemães e argentinos. Quanto às presenças em finais nos últimos 24 anos, o primeiro lugar pertence à Alemanha, com quatro finais -- apenas falhou em 1970, 1978 e neste ano --, mais uma que Argentina e Itália e duas que Brasil e Holanda.
Descendo às meias-finais (nos «Mundiais» de 1974 e 1978 não se disputaram meias-finais, considerando-se semifinalistas derrotadas as selecções que ficaram em segundo lugar na «poule» final e que, depois, discutiram o terceiro e o quarto lugares), encontram-se então as selecções-surpresa, todas elas derrotadas nesta fase. São os casos, por exemplo, das representações francesas em 1982 e 1986, que, apesar do bonito futebol que apresentaram, sucumbiram nas meias-finais de ambos os «Mundiais» perante selecções alemãs bem menos espectaculares. O mesmo aconteceu à Polónia, em 1974 e 1982, eliminada por alemães e italianos, que até aí não tinham mostrado mais futebol que os homens do Leste europeu.
A explicação parece até ser simples: enquanto os quatro grandes (Brasil, Itália, Alemanha e Argentina) têm sempre gerações sucessivas de jogadores de nível mundial, as outras selecções têm de esperar por gerações ímpares para brilharem. Foi assim com a célebre «laranja mecânica» holandesa de Cruyff, Haan, Resenbrink, Koll, etc.; foi assim com a França de Platini, Giresse e Tigana; foi assim com a Polónia de Lato e Zmuda.
Gerard Houllier, seleccionador nacional francês e membro do grupo de estudos técnicos da FIFA, diz que os «Mundiais» de futebol estão estruturados para dar poucas possibilidades aos «outsiders»: «Não há substituto para a experiência que só as grandes potências têm. As selecções experientes marcam os golos vitais quando precisam e nós temos visto isso neste `Mundial'.»
Houllier destaca ainda o fanatismo com que o futebol é vivido no Brasil e em Itália como factor importante para o rendimento desportivo: «Eles sabem que têm de lutar pelas suas próprias vidas. A Itália começou mal, mas depois reagiu às críticas e está na final.» Para o seleccionador francês, o estatuto de «outsider» ficará ainda mais desvalorizado no próximo Campeonato do Mundo, disputado por 32 equipas, apurando na primeira fase apenas as duas primeiras selecções de cada grupo, ao contrário da presente edição, que repescou quatro terceiros.
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Final clássica num «Mundial» atípico
Do nosso enviado
Manuel Queiroz, em Los Angeles
Este foi o Campeonato dos três mundos: o primeiro, justiça se faça, foi o novo, esta América que o futebol achava que não seria capaz de o receber com dignidade e que afinal se colocou já em posição de receber outra prova igual num futuro mais ou menos próximo; o segundo e o terceiro são naturalmente a Europa e a América do Sul, que, habituadas a dividir entre si louros, honrarias e reconhecimentos, desta vez se apresentam na final, como quase sempre, mas num palco diferente, desconhecido até agora.
Os Estados Unidos, eles também, ainda se beliscam para ver se não sonham acordados: «Ainda não posso crer que tudo tenha corrido tão bem. Nem um problema, nenhuma violência, um futebol belo, extraordinário», dizia anteontem Alan Rothenberg, durante a apresentação de dois «sponsors» para a sua nova Liga, a MSL, o campeonato americano profissional ao nível de I Divisão que começará em Abril. Este foi um Campeonato de sonho no país da magia e da ilusão. Do cinema, é verdade, que Hollywood está aqui ao lado e o filme que vai passar no Rose Bowl, esta tarde, é um clássico.
Há 30 dias poucos acreditariam nisto, mas os americanos encheram os estádios, viram os jogos na televisão, descobriram que o «soccer» não era a violência (dos espectadores) que eles temiam e que fez até dos treinos verdadeiros espectáculos de segurança, com helicópteros e tudo. O futebol descobriu um novo mundo, que na ordem do futebol é o terceiro ou mesmo o quarto, mas que está destinado a ter um outro papel num futuro próximo.
O balanço do «Mundial» dos estádios cheios (batidos os recordes de total de espectadores por um número próximo do milhão), dos golos (a média desta segunda fase está em 3,1, quando foi de 2,6 no México-86 e de 2,07 no Itália-90), do futebol positivo (os casos de Tassotti e Leonardo foram ilhas num mar de correcção), faz-se numa frase de Carlos Bilardo, o antigo seleccionador argentino vencedor em 1986 e finalista em 1990: «Foi o `Mundial' mais bonito que já vi. Não foi um `Mundial' de grandes jogadores, tirando talvez Bebeto e Romário, porque Maradona quase não jogou, Baggio está muito só na Itália; não foi um `Mundial' de altíssimo nível técnico, mas foi um `Mundial' de retorno à pureza do futebol, que tem que crescer nesta direcção.»
Bilardo é capaz de ter razão, como terá o seleccionador brasileiro, Carlos Alberto Parreira: «Sempre disse que este `Mundial' não ia trazer grandes novidades tácticas, ou técnicas. Nesse aspecto, não houve grandes diferenças em relação à prova anterior, ou ao México.» Telé Santana, outro treinador brasileiro: «Este `Mundial' foi bonito porque a bola esteve sempre perto da baliza. Isso é bom. Mas correu-se muito e pensou-se pouco, e o que me espanta é que mesmo grandes equipas entraram nisso. Como é que a Alemanha pode perder com a Bulgária daquele jeito? Como é que a Itália pode ter estado à beira de perder com a Nigéria? Faltam jogadores que saibam fazer do futebol a ciência ligada à arte. Porque o Brasil, a Itália, a Argentina, têm jogadores para isso, mas fizeram-no poucas vezes. O Zinho, por exemplo, é um jogador excelente, mas no Brasil tem que fazer tantas coisas que se esquece até de como marcar um golo.» Ou seja, foi um «Mundial» atípico.
Todas as equipas se preocuparam muito com os aspectos físicos. Os horários dos jogos -- a final joga-se às 12h35 locais de Los Angeles -- e o calor que surpreendeu toda a gente levaram a melhor sobre algumas selecções, como a Alemanha, que esteve nas últimas três finais e que, com uma elevada média de idades, não conseguiu passar dos quartos-de-final. O seleccionador italiano, Arrigo Sacchi chegou a dizer que havia dois «Mundiais», o da Costa Leste (quentíssimo) e o da Costa Oeste (fresco). E até certa altura foi verdade.
Este é um dos factores que pode influenciar o jogo de hoje, a final clássica entre duas equipas que podem conquistar o «tetra». A Itália teve que jogar o prolongamento com a Nigéria, ganhou à Espanha com um golo ao 88º minuto, para não falar do que sofreu na primeira fase -- em suma, chega ao Rose Bowl mais desgastada, conseguindo as mesmas coisas que o Brasil mas com o dobro do suor.
«A Itália está mais desgastada, não tem vários jogadores importantes, mas uma final ganha-se com o coração. E isso a equipa italiana já mostrou que tem», diz Telé Santana.
«Claro, se o Baggio não jogar é óbvio que no plano individual a Itália fica em desvantagem em relação ao Brasil. Mas uma final ganha-se com o colectivo, com a equipa», afirma por seu turno Arrigo Sacchi. E trocar jogadores tem sido ponto forte da Itália, que ficou sem Evani logo no primeiro jogo por lesão, ficou sem Baresi logo após o intervalo do segundo com a Noruega, em que o guarda-redes Pagliuca também foi expulso aos 20', ficou sem Tassoti após o jogo com a Espanha, com oito jogos de suspensão por ter partido o nariz a Luís Enrique no jogo arbitrado pelo mesmo Puhl que será o juiz esta tarde.
E o árbitro é outro dos homens de quem se fala, precisamente por não ter visto -- nem ele, nem os juízes-de-linha, nem o delegado da FIFA ao árbitro -- a cotovelada que significou a maior punição na história do «Mundial». A FIFA apressou-se a dizer que a escolha feita pelo Comité de Arbitragem foi unânime, mas não agradou aos italianos. É que, depois do episódio Tassoti, os italianos temem que Puhl tenha a tendência para os prejudicar de forma a mostrar a sua independência. Mas Puhl é, seguramente, um dos melhores árbitros do mundo.
Do lado brasileiro, reina a calma na equipa, que sente ser mais forte do que uma Itália que teve até que mudar o seu jogo para chegar onde chegou. Do «pressing» constante dos primeiros jogos, desgastante e arriscado, passou a ser uma equipa mais calculista e a esperar mais pelos adversários. É que, verdadeiramente, nunca uma equipa a fazer aquele «pressing» ganhou uma competição de um mês como é esta e em condições de desgaste elevadas a uma enorme potência, com o calor e os horários. O Brasil confia na sua organização e em Bebeto e Romário, uma dupla que torna o golo tão fácil que às vezes até se deslumbra e falha as bolas mais fáceis. Este jogo só tem um problema, como dizia um dos muitos jornalistas brasileiros: «É a primeira final nos últimos 24 anos. Estes jogadores só viram o Brasil perder. A pressão pode ser muito grande e a Itália é profissional de Copa do Mundo. Se deixarem, ela ganha mesmo.»
É uma final clássica, embora só tenha acontecido anteriormente em 1970, no México, quando o Brasil de Pelé, Gerson, Tostão, Jairzinho, ganhou por 4-1. Em Campeonatos do Mundo estas equipas defrontaram-se mais três vezes: em 1978, na decisão para o 3º lugar, com vitória do Brasil por 1-0; em 1938 a Itália venceu por 2-1 e em 1982 venceu por 3-2 no jogo dos três golos de Paolo Rossi que levaria depois a sua selecção ao título mundial. Para além de se decidir aqui quem vai ser o primeiro tetracampeão da história, também há um desempate a fazer na conta-corrente particular de cada um.
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Itália
Baggio a meia haste
A grande questão da selecção italiana chama-se Roberto Baggio: joga ou não joga? A questão é mais ou menos falsa, porque, se jogar, Baggio só o poderá fazer com sacrifício e dificuldades. «Vamos esperar até à altura do jogo para sabermos se ele pode jogar», adianta Sacchi. «Sinto a dor quando flicto a perna, mas estou confiante em que posso jogar», explica o jogador.
Mas os médicos não têm dúvida de que Baggio normalmente não jogaria. Vai, com certeza, alinhar, mas não pode ter o mesmo peso na equipa que teve nos últimos jogos, isso é certo. E é isso que preocupa Sacchi, porque, sem ele, a sua equipa torna-se quase vulgar.
Anteontem de manhã, na conferência de imprensa já em Los Angeles, Sacchi foi o professor do costume: óculos na testa, pose formal, discurso cuidado. As perguntas encaminharam-se naturalmente -- depois de se saber de Baggio e de Sacchi reconhecer a menor capacidade da equipa sem ele -- para a forma como a Itália vai tentar deter a dupla Bebeto-Romário, talvez com a utilização de um líbero atrás dos dois homens que marcam os pontas-de-lança. Sacchi foi pronto: «Não vou revelar segredos. Mas quero dizer que, pela primeira vez na história do futebol, a Itália vai jogar a final de um Campeonato do Mundo sem líbero. É uma certeza absoluta e isso, para mim, é muito importante pessoalmente e mostra como jogaremos de peito aberto perante uma equipa tão poderosa.» Sacchi faz história.
Como se sabe, a Itália não pode contar com Costacurta e Tassoti (ambos a cumprirem suspensão), nem com Evani, que se lesionou no primeiro jogo. Baresi lesionou-se no segundo, fez uma pequena operação mas só recomeçou a treinar na semana passada. Houve jogadores que chegaram a pedir a Sacchi para Baresi jogar, mas parece que não -- aliás, há quem sustente que a sorte da Itália foi a lesão do seu «capitão», que já não seria capaz de aguentar o futebol de pressão e de risco que Sacchi impõe e que exige aos defesas uma velocidade e uma continuidade que Baresi já não tem.
Continuará a jogar Pagliuca na baliza, Mussi a lateral direito e Benarrivo à esquerda, Maldini e Apolloni no meio. Quanto ao meio-campo, Sacchi confirma-o em bloco (Berti, Albertini, Dino Baggio e Donadoni) e é talvez o sector mais forte da equipa. Só que, à última hora, até os anunciados problemas físicos do último -- uma contractura sofrida na viagem de avião para Los Angeles... -- lançam uma sombra sobre a equipa.
No ataque, estarão Baggio e, desta vez, Massaro, ponta-de-lança de maior movimento que Casiraghi, que Sacchi considera mais indicado para este jogo. Signori será titular se Baggio não jogar, apesar de se ter admitido que fosse titular mesmo assim, pois seria o homem indicado para controlar Jorginho, o defesa direito do Brasil. Mas Sacchi acha Benarrivo suficiente para isso, com a ajuda de Dino Baggio e Donadoni, porque ele é uma força da natureza.
Sacchi também analisou a selecção do Brasil com o devido elogio ao seu colega Parreira: «Parreira fez um grande trabalho à frente da selecção do Brasil. Toda a gente fala de Bebeto e Romário, dois grandíssimos jogadores, mas, às vezes, parece que esquecem que têm outros jogadores de grande nível, como Dunga, Mauro Silva, Jorginho. Sobretudo, Parreira conseguiu dar à equipa um equilíbrio que nem sempre é apanágio das grandes selecções brasileiras.»
De resto, do lado italiano fazem-se os elogios antes da festa. Disse Sacchi: «Aconteça o que acontecer, estou muito orgulhoso daquilo que, até agora, fizeram os meus jogadores, que têm enfrentado situações dificílimas e viraram resultados impossíveis.» Ou o presidente da Federação, António Matarrese, empossado anteontem como vice-presidente da FIFA, numa cerimónia que decorreu em Pasadena: «Já somos campeões mesmo antes de jogar a final. Somos campeões da honra de vestir a camisola italiana, até de jogarmos bem como na primeira parte com a Bulgária. Aos meus olhos, os nossos jogadores já são campeões do mundo.» M.Q.
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«O melhor futebol do mundo»
O último triunfo do Brasil num «Mundial» não passou despercebido em Portugal. A conquista do terceiro título, que permitiu aos brasileiros levar para casa a Taça Jules Rimet, foi incensada nas ruas e na generalidade da imprensa. Na essência, não faltaram os elogios. Muito apaixonados.
Nas primeiras páginas dos jornais, a vitória do Brasil trouxe a alegria e os títulos emocionados contrastando com o cinzentismo e a censura da época. «Brasil! Brasil! Brasil!» (O Século), «Ao Brasil o que é do Brasil.» (A Bola), «Gerson, Pelé e seus pares `mataram' a coragem italiana» (Record), são alguns dos exemplos.
Nas análises ao jogo, cada cronista procurou adjectivar o futebol «canarinho». Para Vítor Santos, um dos enviados de «A Bola», o resultado ao intervalo (1-1), com golos de Pelé (18') e Boninsegna (36') «reflectia a verdade do rectângulo»: «...O fantasma do contra-ataque italiano adensou-se à medida que o Brasil parecia descansar no seu tento de vantagem e se entretinha a trocar o esférico sem mais garra e pressa do que a de manter o jogo pelo jogo. Os futebolistas de Zagalo, por certo instruídos por lembranças aziagas de outros tempos, deram mostras de grande nervosismo, mais espicaçado pelo tratamento da defesa italiana que não dava largas nem que fosse à custa de rasteiras e cargas impiedosas. A partida entrou numa feição despida de interesse. (...) Na igualização dos europeus influiu tanto a teimosia do seu contra-ataque como a fragilidade de uma defesa -- a brasileira -- que sempre caprichou em acumular erros sobre erros...»
Os golos de Gerson (66'), Jairzinho (71') e Carlos Alberto (86'), fixando o resultado nos 4-1 finais, levaram Vítor Santos a escrever verdadeira poesia. «Foi um irrefragável atestado de categoria, sem par e sem discussão, do futebol do Brasil, do melhor futebol mundial; (...) Como que liberando-se nas asas da fantasia aqueles sujeitos dasataram a urdir a tela mais rica de quantos fixaram já o futebol. Dava a impressão de que os golos surgiam quando eles quisessem, assim como quem coloca os reagentes e espera, com a certeza física da experimentação, o infalível resultado vitorioso (...) Pedimos desculpa a todos os ingleses e a todos os alemães do mundo, mas aquilo é outro perfume, outro dialecto, outra imagem, outra cor, outra qualquer coisa. É macumba! Está-lhes no sangue e na alma.»
Alfredo Farinha, que apenas escreveu sobre a equipa brasileira, também não poupa nos adjectivos: «... É um corpo híbrido. Metade do corpo é muitíssimo bom, metade muito mau. Metade homem e metade burro.» Na edição seguinte, a veia continua activa. Vítor Santos escreve mesmo que «Pelé já está na Lua e Gerson vai a caminho», para ilustrar a exibição dos melhores jogadores brasileiros. Farinha, mais calmo, refere que a final do «Mundial» ficou longe do Alemanha-Itália (meia-final), que «foi o verdadeiro jogo do século», e estabelece que a Itália fez a mais completa demonstração de «cobardia futebolística». Um negativismo da «squadra azzurra» que todos, no seu jeito, realçaram.
No «Record», a euforia não fica atrás: «Esta vitória brasileira pode revolucionar o futebol! (...) O Brasil foi a perfeição em campo.» Amadeu José de Freitas esteve imparável: «Grande equipa esta onde tudo é fácil, límpido, tocado em longos e largos minutos pelo pincel de arte que o futebol tem.» Aurélio Márcio, na altura no «Diário Popular», não fica atrás: «O estilo dos brasileiros, sempre com a bola nos pés, acabaria por fatigar, por `triturar' os seus adversários. O que prevaleceu foi o conjunto, o estilo de jogar a bola com a simplicidade dos predestinados. O futebol, especialmente o que nele há de arte, de ciência, de elegância, de genialidade, está de parabéns...»
Quanto aos festejos, repare-se nos títulos do «Diário de Lisboa» e de «O Século»: «Em Lisboa como no Rio» e «Coração de Lisboa, Coração do Brasil», ou «Autêntico carnaval no Rossio». Os jornais dão conta de gente sem fim nas ruas, pequenas para conter as multidões que saíram de casa. Em «O Século» até um poema foi dedicado aos campeões, do qual reproduzimos duas estrofes: «(...) Brasil!Brasil! Povo irmão/é gémea a nossa euforia!/de Nação para Nação/somos um só coração/nesta hora de alegria. // Oh, grandeza no «gramado»/p'ra onde o Mundo espiava/estivemos a teu lado/cantando bem alto o fado/enquanto a bola sambava!
Como será hoje, se o Brasil chegar ao «tetra»?
José J. Mateus
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<DATE>19940717</DATE>
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Romário
O rei sem trono
O seu comportamento no relvado é digno de um rei. Tem arte nos pés. O seu jeito desengonçado de correr contrasta com a habilidade e sentido de golo que possui. Romário de Souza Faria é o rei sem trono da selecção brasileira. Ele manda no relvado. Como fiéis serviçais, os companheiros trabalham para ele, à espera que da sua magia saia o grito de «Brasil!» ecoando nas bancadas.
Tem o feitio dos miúdos reguilas e traquinas, numa herança dos hábitos de sobrevivência que apreendeu nas favelas do Rio de Janeiro, cidade onde nasceu a 29 de Janeiro de 1966. Como muitos jogadores do seu país, foi nas praias de Copacabana que o débil garoto deu os primeiros chutos na bola. Romário, o diabólico, sempre recebeu elogios unânimes por onde passou.
Tem sido assim desde tenra idade, na Vila Pena, um dos clubes de bairro, dirigido pelo seu pai e onde começou a carreira que o levou até ao Barcelona, sua equipa actual. Em 1979, passou pelo Olaria e aí conheceu Bebeto, para, entre 1985 e 1988, se fixar no Vasco da Gama (dois títulos conquistados). Em 103 jogos, marcou 96 golos. Incrível, não?
Em 1988, obteve a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Seul. Depois, viajou até à Holanda para jogar no PSV Eindhoven, clube onde se tornou uma máquina de fazer golos. A «fome de rede» não acalmava, antes se tornou um vício. Insaciável. Em três campeonatos, foi tricampeão e marcou 98 golos. Sem palavras. Qual a explicação? Um dom? Talvez... Romário explica: «Deus. Ele deu-me tudo e é por ele que eu jogo.»
Mais consciente e menos místico, diz que marcar três ou quatro golos é normal: «Para os meus olhos, nada tem de surpreendente. É simplesmente o trabalho para que me pagam. Mas o mérito pertence a toda a equipa, não apenas a um só homem.» Uma humildade que se foi perdendo na relação inversa dos elogios sobre o seu génio.
Para quem o observa, os caprichos da vedeta tornam-no exigente e surgem os primeiros problemas. No clube e na selecção «canarinha», entra em guerras e é acusado de preguiça. O carácter indolente de estrela leva-o ao conflito com Carlos Alberto Parreira e afastam-se. Só com os seus dois golos frente ao Uruguai, que apuram o Brasil para os Estados Unidos, é que o conflito é sanado. O Brasil e Parreira percebem que, sem ele, tudo será mais difícil.
No Barcelona, os seus primeiros tempos não são fáceis. A personalidade de Romário encontra resistência em Johan Cruyff, seu grande admirador. É com a bola no pé que responde ao seu técnico. Este aceita o desafio: «É um jogador extraordinário, capaz de jogar num metro quadrado apenas.» Um metro quadrado é difícil de ganhar nos tempos que correm. Um metro quadrado para ridicularizar o adversário e forçar a admiração e a confiança de Cruyff, outrora jogador e devorador de espaços. Como um «gangster», que se protege à sua volta, Romário é um intocável. Frio e demolidor.
Para o sistema de jogo de Cruyff, é um homem providencial. Todos jogam para ele, como se passa hoje no «Mundial». O seu estilo e a sua inteligência permitem-lhe usufruir desse estatuto sem contestação. Cruyff cede. Romário quer sair à noite, estar com os seus amigos, deitar-se tarde. O treinador resigna-se. Está nas suas mãos.
Na sua vida pessoal, tudo é feito à sua imagem. Casado com Mónica, chama ao seu filho... Romário. Claro.
O vencedor da Copa América (1989) chega a ser comparado a Maradona. Para alguns, isso é de mais. Para ele também, segundo disse na altura: «Estou a anos luz dele.» Certo. Mas no futebol de hoje, é uma espécie em vias de extinção, que deve ser preservada pela sua originalidade, pela sua leitura de jogo. A sua paixão, que explode quando toca na bola, torna-o único. Dantesco. É uma excepção. Um pequeno grande homem. O Senhor Golo.
A dois anos de se retirar do futebol, altura em que termina o contrato com o Barcelona e atinge os 30 anos, Romário definiu na sua cabeça que teria de ser campeão do mundo nos EUA. Metódico, está quase a satisfazer a sua ambição desmedida. Mesmo que o seu peito, sempre levantado, irrite alguns. Romário seria um bom bombeiro. Sozinho consegue apagar os fogos, criados pela incapacidade da sua selecção. Um Salvador, para alívio e alegria do povo brasileiro.
Se o Brasil, chegar ao tetra, entreguem-lhe os louros.
José J. Mateus
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Romário
O salvador
Romário marcar golos há muito tempo que não constitui notícia. Ser decisivo no resultado final também não é novidade nenhuma. Surpreendente, isso sim, é a dependência que o Brasil tem sofrido dos golos do «baixinho», como a claque brasileira lhe gosta de chamar.
Nas seis partidas que o Brasil disputou neste «Mundial», Romário só por uma vez não marcou. Foi frente aos Estados Unidos, naquela que até terá sido a sua melhor exibição. Em todas as outras cinco partidas marcou um golo, com a particularidade de ter sido sempre o primeiro do Brasil, que normalmente se diz ser o mais difícil.
A capacidade criativa de Romário fica evidente na variedade dos lances por ele finalizados. Já marcou através de um lance de bola parada (canto de Bebeto na estreia do Brasil, frente à Rússia), já concluiu um contra-ataque (golo frente à Holanda), já finalizou iniciativas individuais (primeiro, frente aos Camarões e, depois, no primeiro jogo com a Suécia), por fim, concluiu uma jogada elaborada (golo frente à Suécia, que valeu o apuramento para a final).
O traço comum dos golos do ponta-de-lança brasileiro é a colocação dos seus remates vitoriosos -- sempre junto aos postes --, quase sempre desferidos com o pé direito. A excepção foi o golo de cabeça na meia-final. Para lá dos golos marcados, Romário já ofereceu um a Bebeto, no tal jogo frente aos Estados Unidos em que ficou em branco, e sofreu o penalti que valeu o único golo de Raí. Ou seja, Romário teve participação directa e decisiva em sete dos 11 golos que o Brasil já marcou, uma percentagem de 63 por cento, tanto mais surpeendente se não esquecermos que estamos a analisar jogos da fase final de um «Mundial».
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Festa de encerramento
Os três tenores
José Carreras, Placido Domingo e Luciano Pavarotti. Os três, juntos. Vai ser assim amanhã na festa da final do «Mundial». Uma loucura para muitos, recordados do concerto que os três tenores, considerados os melhores do mundo, deram no encerramento dos Jogos Olímpicos de Barcelona 92. «Encore! The Three Tenors» é o título do espectáculo, que terá o maestro Zubin Mehta na condução da orquestra.
A festa vai ocorrer no estádio dos Dodgers, com capacidade para 56 mil pessoas, escolhido pelas suas excelentes qualidades acústicas e pela sua beleza -- está situado entre as montanhas e o deserto da Califórnia. Dois anos foi quanto tempo demoraram a organizar os festejos finais, que incluem ainda as participações da Los Angeles Philharmonic Orchestra, de 104 membros, e do Los Angeles Music Center Opera Chorus, de 60 elementos. O alinhamento do espectáculo, com 2h30 de duração, inclui árias de ópera, canções tradicionais e dois «medleys» especiais: um de canções internacionais e outro dedicado à música de Hollywood. No final de Agosto, a Warner Music vai colocar um álbum e um vídeo do concerto no mercado.
Para se dar uma dimensão global do que se vai passar, refira-se que mais de 600 pessoas trabalharam nos últimos seis dias para transformar o estádio num anfiteatro neoclássico. Para a pintura do palco gastaram-se 2500 latas de tinta, num trabalho feito pela companhia JC Backings, famosa pelos seus trabalhos nos filmes «Mary Poppins» e «O Feiticeiro de Oz». Vinte colunas clássicas rodeiam o palco, que terá por trás uma queda de água, de 15 metros, a qual vai utilizar cerca de 137 mil litros de água reciclada.
Na senda da habitual mania americana para os números, as previsões apontam para que no dia do concerto sejam consumidas 10 mil sanduíches «Three Tenors», 26 mil «croissants», 20 mil doses de salada de frutas, 10 mil pratos de massa italiana, 15 mil barras de chocolate, mais de 45 mil litros de gelado, 15 mil garrafas de água e 40 mil bebidas ligeiras.
Setenta países vão assistir em directo ao evento, prevendo-se uma audiência superior a mil milhões de pessoas.
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