Publicação internacional e avaliação de publicações

Diana Santos


Tem de haver algo que está muito mal mesmo quando a qualidade de um investigador é medida pela quantidade de publicações, e essas publicações são qualificadas pelo facto de ser uma empresa que faz dinheiro com elas...

Senão vejamos:

1. Quem define o que é qualidade?

Para que as publicações contem para o SINTEF ganhar algum crédito (monetário) com isso, têm de ser publicadas por uma editora de nível 1: ou seja, é preciso pagar a uma editora para que contem. A editora é garante da qualidade? Não -- a editora requer apenas que os investigadores tenham feito revisão por outros investigadores, o chamado "peer review". Ou seja, os investigadores fazem tudo, e pagam, para a editora pôr o selo de qualidade...

(Isto não é uma particularidade norueguesa, muito pelo contrário, é algo em que os países escandinavos são líderes, e que estão a exportar para o resto do mundo, ou seja, a manutenção de um arquivo nacional sobre canais de publicação com três níveis, e uma pontuação/financiamento das unidades de investigação correspondente. Veja-se a tradução para inglês desse documento.)

2. Os investigadores e a sua própria produção

Argui recentemente uma tese de doutoramento, em que o candidato tinha na sua lista bibliográfica listado os seus trabalhos entre capítulos de livros, artigos em revistas etc... e outros. Até aqui, tudo bem... embora o formato não devesse ser indicador de qualidade. O problema, e grande, é que encontrei na categoria "Outros", para meu espanto, capítulos de livros que eu própria tinha editado, e sobre cuja qualidade respondo com o nome de editora. Porque é que esses trabalhos não mereciam a designação "capítulos de livros"? Qual a diferença? Esses livros tinham: revisão cruzada, qualidade de edição, qualidade de escrita. Mas: tinham sido publicados na rede, e impressos através de uma gráfica (não através de uma editora comercial). Daí, não contavam como livros! Ou seja: tinham sido relegados para a mesma categoria que textos que se põem na rede sem passar por qualquer controle de qualidade externo ao autor.

3. Que tal dar um jeitinho na quantidade?

Vejo também com espanto a moda de "republicar" duas e três vezes o mesmo artigo (ou uma versão polida/melhorada) -- primeiro numa conferência, depois num livro com textos escolhidos, depois ainda num livro mais exclusivo... e pergunto-me: isto é para garantir que o artigo seja (mais) lido? Ou é para multiplicar-lhe o seu valor quantitativo (de 1 para 3)? Certamente não será para confundir o leitor (espera-se). Da mesma forma: versões diferentes pululam, porque há a pré-publicação, há a publicação, e há a pós-publicação. Isto é certamente uma mina de ouro para os estudiosos da (teoria e prática da) publicação, mas devia ser um aviso para que as agências de financiamento não se baseiem cegamente em números e citações.

4. Citações "internacionais" -- ou fraudulentas?

Outra questão que me apavora é a a medição das citações através do ISI: alguém sabe o que é o ISI? É uma empresa comercial americana que faz dinheiro com o cálculo de citações. Qual a avaliação de qualidade do ISI? Alguém fez? E contudo, os variados governos de países independentes dos EUA (como Portugal) consideram esse um indicador indesmentível e indiscutível sobre a qualidade dos investigadores portugueses.

("Provas" desta informação em relação a Portugal são, por exemplo, os seguintes documentos: FCT: Modelo de financiamento e avaliação (os centros são medidos pelas publicações internacionais), FCT: Informação Estatística - Publicações (fonte: ISI), FCT: Despacho Estímulo à excelência (os investigadores são medidos pelo ISI))

5. O que é internacional é bom -- ou mais um tiro no pé?

E isso leva-nos à questão da publicação internacional (ou seja, em inglês) como melhor ou de mais qualidade que a no país , o que logo à partida está demasiado errado: é um tiro no pé. Como, se se define que a publicação lá fora é melhor que a cá dentro, se pretende desenvolver e melhorar a dita? A fazer discriminação, deveria ser a contrária: insistir/exigir mesmo para que os investigadores responsáveis promovessem e criassem textos, artigos e livros na sua própria língua. Claramente, em nenhum outra língua poderão escrever textos de melhor qualidade! Disso, até aí, penso que ninguém discorda. Mas é tão importante receber a bênção internacional -- como se um punhado de pessoas de vários países grantisse mais qualidade do que a mesma quantidade de pessoas de um mesmo país -- que tudo se faz para publicar (mesmo nacionalmente) tudo em inglês.

Quanto mais passos na direcção da modernidade e da descaracterização total do sistema científico e educativo do país se dão, mais me parece que o país e a nossa língua ficam prejudicados. Não penso, contudo que nem a ciência nem a comunidade internacional saiam favorecidas por mais uma horda de textos de má qualidade em inglês... pelo contrário, acho que este é um sistema que, a médio e longo prazo, pode ser caracterizado pela expressão inglesa "lose-lose"... ou seja, perdemos todos!

Referências

A Bibliometric Model for Performance-based Budgeting of Research Institutions, Recommendation from the committee appointed by the Norwegian Association of Higher Education Institutions on assignment from the Ministry of Education and Research, available from http://www.uhr.no/documents/Rapport_fra_UHR_prosjektet_4_11_engCJS_endelig_versjon_av_hele_oversettelsen.pdf

Para os poucos que também lêem norueguês, aqui vai uma selecção de outros doscumentos ou críticas relevantes:


Data de criação da presente página: 6 de Março de 2009.
Última alteração: 24 de Junho de 2009.
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