Não sou Pernambucana.
Nasci em Natal, capital do Rio Grande do Norte.
Mas moro em Pesqueira-PE, desde dezembro de 2001.
Sou casada com um pernambucano de Olinda, e tenho dois filhos caruaruenses.
Parece que minha pernambucanidade começou a chegar quando vim morar em Pesqueira.
Antes era tudo estranho, eu que sempre fui tão metropolitana, morando numa pequena cidade de interior.
O clima de Pesqueira logo me chamou atenção, como é que pode fazer tanto frio no inverno, numa cidade do agreste pernambucano?
Confesso que quase congelei nos primeiros anos, mas hoje não consigo mais viver longe de tão agradável clima, que beira os 10º no ápice do inverno.
De cara, aprendi logo a preparar o delicioso chocolate quente da cidade.
Também amei o tal de xerém com galinha, que hoje é um dos meus pratos preferidos.
Meus filhos nasceram em época de plena festividade junina, em Caruaru, a capital do forró e terra do Mestre Vitalino.
Por acaso, estive na folclórica cidade, no mesmo tempo em que aconteciam os festejos juninos, desde 2002, até hoje.
Mesmo com o frio que engloba a cidade, o calor humano, simpatia e aconchego dos caruaruenses deixa o nosso coração bem quentinho.
«A Feira de Caruaru, faz gosto a gente vê ...»,
música de Luiz Gonzaga, fala da famosa feira que virou Patrimônio Cultural Brasileiro.
Eita, cidade linda!
Amo a cidade em que nasci -- Natal, de todo o coração, sinto saudades da brisa do mar, do Forte dos Reis Magos, da Praia de Ponta Negra.
Que bela cidade é Natal!
Porém, aprendi a amar Pernambuco, virei uma pessoa do interior, com todo orgulho!
Em Pesqueira, a terra do doce e da renda, conheci a esplendorosa renda renascença, técnica que surgiu na Itália, no século XVI, e foi trazida para Pesqueira por freiras missionárias.
Um bordado delicado e finíssimo, tradição que passa de mãe para filha.
A o entardecer, é possível ver as rendeiras, sentadas na beira da calçada de suas casas, com a obra de arte nas mãos.
Não dá para deixar de falar do famoso doce de Pesqueira.
A cidade abrigou as extintas Fábricas Peixe e Rosa.
O local onde era a primeira, hoje mantém a feira livre, já a segunda, é atualmente o Centro Integrado de Comércio Regional -- Cicre, pólo de venda da renda renascença e museu do doce.
O doce mais famoso de Pesqueira e região, certamente é o Doce Pesqueira, produzido por Sr. Geraldo e esposa, que são os donos do negócio e trabalham eles mesmos, na fabricação de tal maravilha, de domingo a domingo, de sol a sol.
Ah, alguém pode querer saber o porquê do nome Pesqueira.
A cidade teve origem numa fazenda que tinha o nome de Poço Pesqueiro.
Lá pescavam os índios Xukuru, os primeiros moradores do local, que hoje residem na verde e oponente Serra do Ororubá, coladinha com Pesqueira.
Sim, Pernambuco tem índios, pra quem não sabe.
São oito etnias -- Pankararú, Xukuru, Kambiwá, Kapinawá, Atikum, Fulni-ô, Truká, Pipipãs e Tuxá.
E não pense que não são índios de verdade, como os da região amazônica.
Eles preservam a cultura e religião, e estão cada vez mais politizados, conhecendo e reinvindicando os seus direitos de cidadão e índio brasileiro.
Não vou mais escrever nada, quem quiser também ser contagiado por a pernambucanidade, venha para Pernambuco e descubra os seus encantos!
Número de frases: 34
Estávamos em plena segunda guerra mundial.
Convocado, como milhares de outros jovens, eu fui integrante da Força Expedicionária Braslieira -- FEB na Itália.
Fiz parte do penúltimo contingente de tropas brasileiras enviado àquele país, em 23/11/1944, a bordo do navio «General Meigs».
Formávamos o 4º Escalão, que, sob o comando do Coronel Mário Travassos, iríamos ser incorporados ao 4º corpo do 5º Exército americano.
Nossa nobre missão era combater os grandes opressores:
os nazi-facistas, que, como Alexandre e Napoleão, alimentavam o grande sonho de dominar o mundo e, assim, subjugavam, com violência e humilhação, os povos vencidos, espalhando o terror por a Europa, Ásia e África.
Era a chamada a Aliança do Eixo, formada por a Alemanha, Itália e Japão.
Quando chegamos, os italianos já haviam se rendido, desde 08/09/1943.
O «Dute», Benito Mussolini, havia sido deposto e preso em 25/07/1943, e, posteriormente, libertado por os alemães.
Seu paradeiro era ignorado.
Havia ainda alguns rebeldes italianos, como os componentes da Divisão Barsagliari, que se juntaram aos nazistas e prosseguiam a guerra no norte da Itália.
Em a verdade, não combatíamos a Itália, mas sim os alemães e um pequeno grupo de carcamanos.
Os alemães estavam posicionados em pontos estratégicos, como os montes Belvedere, Gorgolesco, Mazzancana, La Torrachia, De ela Croce, Torre de Nerone, Soprassasso e, entre outros mais, o diabólico Monte Castelo, uma fortaleza natural inexpugnável.
Essas defesas formavam a chamada «Linha Gótica», que ia desde Spezia, no mar Ligúrico, até Rimini, no mar Adriático, cortando o país de oeste a leste.
O Brasil somente declarou guerra à Aliança do eixo, após muita pressão do governo americano.
Por outro lado, diversos navios mercantes brasileiros tinham sido afundados por a marinha alemã, se não os foram por os próprios americanos, como se suspeita, para conquistar a opinião pública do Brasil e, assim, sem saída, Getúlio viesse a reforçar as tropas aliadas, que eram lideradas por a Inglaterra, Rússia e Estados Unidos.
Assim foi que o governo brasileiro declarou guerra ao Eixo, em 31/08/1942, através do decreto nº 10.358.
Mas esta declaração, apenas colocava o Brasil em estado de guerra, sem nenhum comprometimento no envio de tropas, o que a tornava numa mera peça de retórica.
Entretanto, em 31/12/1942, Getúlio Vargas anunciou à nação que o país iria fornecer tropas suficientes para marcar presença nas batalhas que se travavam do outro lado do Atlântico.
É de se esclarecer, que a Inglaterra, por o apoio que o Brasil prestara à Alemanha, não dera o seu total aval, olhando com desconfiança a participação do Brasil.
Mas os ingleses tiveram que morder a própria língua, pois os brasileiros conseguiram um desempenho acima do esperado, com seus soldados mostrando bravura e sempre destemidos em cada batalha em que participaram.
Haja vista a tomada de diversas posições importantes, como Lama de Soto, Monte San Quirico e Somocolonia e, posteriormente, a mais difícil batalha, o Monte Castelo, após quatro tentativas.
Logo em seguida, caíram Castelnuovo e, numa das mais sangrentas batalhas depois de Monte Castelo, conquistávamos Montese e Sorreto.
Conquistas que nos valeram muitos elogios do alto comando americano.
Em o princípio de 1945, mais precisamente, em 15 de janeiro, ano em que a guerra finalmente chegou ao fim, saímos numa missão de patrulha, cujo propósito era fazer uma sondagem da área e marcar no mapa da região, possíveis movimentações das tropas inimigas.
Éramos ajudados por os Guerrilheiros da Resistência Italiana, que conheciam, mais que qualquer outro, a área que iríamos explorar.
O nosso pelotão, composto de 21 homens, quase na sua totalidade, inclusive eu, não tinha nenhuma experiência em guerrear.
Eu nunca havia matado alguém e essa possibilidade me aterrorizava.
Fomos acordados por o toque do clarim às 3 horas da manhã e, após um lanche rápido, iniciamos a caminhada para nosso destino, para o bem ou para o mal.
Nunca se sabia antecipadamente para onde iríamos.
Também pouco interessava, pois se havíamos de morrer fosse onde fosse seria um lugar como outro qualquer.
Nosso treinamento foi conduzido por um sargento brasileiro da linha dura e supervisionado por outro sargento, de nacionalidade americana, igualmente durão.
Ensinaram-nos que todos os alemães e italianos deveriam ser incondicionalmente mortos, pois eram inimigos e inimigo bom, era inimigo morto.
O que me causava insônia e muita ansiedade, além daquelas geradas por a própria guerra, aliadas ao medo da morte, era o fato de termos recebido instruções de não fazermos nenhum prisioneiro naquela missão.
Isso valia, mesmo, até para os casos de rendição.
Deveríamos executá-los sumariamente, pois o Comando Geral não possuía espaço, nem prisões suficientes para mantê-los e alimentá-los.
Era inverno e dos mais rigorosos.
Tudo estava coberto por a neve.
A nossa caminhada era muito dificultada por a lama que se fazia por a passagem de veículos e grupos de soldados pisoteando a neve mais rala, muitas vezes tornando-se tão escorregadia, que era como se estivéssemos caminhando sobre graxa, ou óleo.
Tínhamos caminhado, mais ou menos uns 50 kms para o norte, já em território inimigo, quando fomos surpreendidos por uma tropa alemã e iniciamos um tiroteio tão intenso, que, ainda hoje, sou capaz de ouvir o som das carabinas, metralhadoras e granadas que explodiam seguidamente.
Ouvia-se também a voz estridente e imperativa de nosso comandante, o tenente Souza, gritando que todos deveriam se deitar e se protegerem da maneira que pudessem e atirássemos contra os nossos inimigos, que eram mais numerosos que nós.
Talvez três vezes superiores em números, armas e munições.
Mate-os sem piedade, gritava desesperado o tenente, prometendo uma caixa de cerveja por cada alemão morto, como, se isso fosse o grande incentivo, que precisávamos naquele momento.
E ainda enfatizava:
«se for um oficial duas caixas»!
Nossos companheiros iam caindo um a um e eu fiquei paralisado por o medo e o terror de toda aquela violência, quando, de repente, ouvi uma voz que dizia, calmamente:
-- Porra, queria morrer como o meu pai e estou eu aqui neste inferno che.
Tanta tranqüilidade naquela voz me fez virar a cabeça e, do meu lado direito, estava um rapaz claro, de olhos azuis, com um cigarro na boca.
E eu perguntei --
Como morreu o seu pai?
E ele me respondeu com a maior tranqüilidade:
-- Dormindo che!
O único inconveniente -- continuou -- é que não sei dizer, se incomodou ele a gritaria do pessoal do hotel onde ele morreu.
Intrigado eu lhe perguntei:
-- Por que estavam gritando?
Ele sorriu e disse:
-- Porque estavam morrendo queimados, por causa do incêndio que meu pai causou -- tornou a sorrir e continuou-estava fumando quando adormeceu com o cigarro aceso e morreu tostadinho, que nem churrasco queimado.
Ele estava bêbado!
Eu não pude resistir e tive que rir.
Depois senti-me mal, pois nossos companheiros morrendo e nós ali contando piada e rindo.
Era desumano, mas me tranqüilizou um pouco.
Então ele me tocou o ombro e falou baixo, com a voz grave:
-- Tu tá vendo esse colega morto ai do teu lado guri?
-- Sim, respondi meio confuso.
-- Olhe para o pescoço do cara Che, tu tá vendo?
Ele tinha um ferimento no pescoço e sua artéria havia sido perfurada e o sangue jorrava com um cano furado.
Senti-me mau com aquela visão.
Fechei os olhos, abaixei a cabeça e tive a sensação de que iria desmaiar.
Foi quando o gaúcho me sacudiu e perguntou:
-- Vais desistir agora guri?
Depois dessa batalha toda?
-- O que quer que eu faça?
Não temos como enfrentá-los.
Que tal nos entregarmos?
Propus-lhe no desespero.
E ele ainda na sua calma contestou:
-- Nem pensar che.
Sabe o que farão com nós se a gente se entregar?
Vão nos matar!
-- O que vamos fazer então?
Perguntei sem esperança.
-- Pegue teu capacete e consiga a maior quantidade de sangue que puder desse amigo ai, que te mostrei e depois joga no teu peito simulando um ferimento e põe o capacete para o sangue se espalhar por a tua cabeça e rosto.
Depois arraste o corpo e coloque ele atravessado sobre o teu e fique quietinho como se estivesse morto.
Se possível nem respire.
Se dermos sorte, vamos sobreviver.
Haha! Sou foda meu guri.
Irei fazer o mesmo com aquele outro amigo ali.
Boa sorte!
Fiz o que o gaúcho sugeriu, com muita repulsa.
Mas tínhamos que tentar alguma coisa.
Um dos alemães, saqueador filho da puta, chegou até onde eu estava, tirou-mo relógio do pulso e espetou a baioneta no corpo do soldado que estava sobre mim.
Meu coração batia tão forte que fiquei com medo que o alemão pudesse ouvi-lo.
Mas deu tudo certo.
Eles foram embora e nos deixaram ali.
E foi assim, que sobrevivi àquela minha primeira experiência num campo de batalha.
Sei que não fui digno de uma medalha, nem, talvez merecesse estar vivo.
Mas estava e, para mim, isto bastava.
Estava com tanto medo, que só pude respirar direito, quando o gaúcho me sacudiu dizendo que já estávamos fora de perigo.
Olhamos os nossos companheiros e estavam todos mortos.
Éramos os únicos sobreviventes daquele embate terrível.
Eu estava chocado e sentei-me numa pedra e fiquei ali observando aqueles corpos e pensando que há bem pouco tempo todos estavam vivos, andando, falando, fumando, enfim vivos ...
e, agora, somente aqueles corpos inertes.
Foi quando o gaúcho me cutucou e perguntou:
-- Vais ficar ai o dia inteiro guri?
Temos que ir.
Vamos tentar voltar para o quartel general.
Só que não iremos mais por a estrada, vamos por o mato, com muito cuidado, sem fazer barulho.
Sei que lá a neve é mais densa, mas é por onde poderemos caminhar com mais segurança, pois assim não ficaremos expostos.
Já havíamos caminhado bastante e eu estava deveras fatigado e esfomeado para continuar.
Disse ao gaúcho que me deixasse pra trás, porque não tinha mais forças para continuar.
Ele passando a mão por o queixo ficou me olhando e disse:
-- Ainda dizem que todo gaúcho é frouxo, che!
E tu ai mortinho.
Pensou um pouco e complementou -- vê se consegue andar mais um pouco, temos que sair dessa clareira e acharmos um local melhor para passarmos a noite.
E depois vê se conseguimos alguma coisa pra comer.
Já estou faminto ...
Consenti com a cabeça, levantei-me e, com um esforço sobre humano, consegui me mover e fomos em busca de nosso «esconderijo prometido».
E o gaúcho me incentivando, dizia:
-- Muito bem guri.
Tu tá indo bem.
Só um pouco mais e vamos nos aquecer.
Andamos mais uns cem metros e avistamos uma caverna pequena.
Bem apropriada, pois poderíamos nos esquentar.
Já era noite cerrada, bem escura, e o frio aumentara muito.
Com o vento a sensação térmica era de muitos graus abaixo de zero.
Não sabia precisar quanto, mas o vento gelado feria como uma navalha cortando o meu rosto.
Eu, carioca, acostumado a uma temperatura média anual de uns vinte e oito graus positivos, estava ali exposto àquele, que, reputo, ter sido o maior frio que já passei na vida.
O gaúcho me pediu que conseguisse alguns galhos para servirem de lenha.
Apesar de estarem todos molhados, úmidos, ele disse que eu conseguiria fazer fogo assim mesmo e deu-me seu isqueiro.
Peguei tantos galhos quantos julguei suficientes para durarem a noite inteira e retornei à caverna.
Olhei em todas as direções e não vi o gaúcho.
Pensei: onde se meteu esse cara, será que me abandonou, eu o estava atrasando.
Este pensamento me aterrorizava.
Ele parecia ter experiência e tranqüilidade para sairmos de ali e, se ele tivesse ido, eu estaria perdido.
De repente ele apareceu apressado e ofegante e, jogando gelo sobre a fogueira que, com tanta dificuldade, consegui aceder.
Ai eu lhe perguntei:
tá louco cara.
Você apagou o fogo ...
e ele com o indicador nos lábios, emitia um siiiiiiiiiiiii, num pedido de silêncio e me confidenciou balbuciando, que ele havia saído para tentar caçar algum animal para comermos e viu uma tropa alemã.
Mas que eu ficasse quieto, porque estavam indo em outra direção e a claridade da fogueira podia atrai-los e, ai seríamos mortos, fatalmente.
Como vamos sobreviver esta noite com tanto frio e sem a fogueira?
O gaúcho me olhou e disse:
-- Porra, não sou viado não, viu?
mas acho melhor ficarmos abraçados, pois a temperatura de nossos corpos irá nos aquecer.
Pensei um pouco e achei razoável e disse-lhe de gozação:
-- Só não vale é beijo na boca, ok?
-- Ok guri.
Respondeu sorrindo.
Abraçados, numa situação constrangedora, nossos rostos colados e eu sentindo sua respiração, fiquei bastante preocupado com o que aquele cara pudesse aprontar, enquanto eu dormia.
Mas enfim tínhamos de nos aquecermos.
Aquele foi o momento em que nos apresentamos, ele me perguntou:
-- Guri, tu não me disseste o teu nome.
O meu é Marcelo, sou de Passo Fundo, Rio Grande do Sul.
E tu?
-- Meu nome é Ricardo, sou carioca da gema -- respondi-lhe --
Tua mão ta quentinha?
Quis saber o gaúcho.
-- Por que?
Perguntei-lhe curioso.
e ele disse:
-- porque tô com vontade de fazer xixi e minha mão ta tão gelada, que o meu pinto vai encolher tanto que não vai sair nada.
Além disso corro o risco do xixi congelar.--
explicou-me --
Nem pensar numa coisa dessas seu puto.
Já está se revelando porra.
Acha que vou segurar seu pinto, cara.
Tá fudido se depender disso.--
fui enfático com ele.
-- Tá legal guri, vou segurar o possante com a ponta do casaco.
Não sou o que você está pensando não, heim?
Resmungou um pouco chateado.
-- Daqui a pouco vai pedir para a eu limpar o seu rabo também.--
falei de gozação!
-- Isso tu iria querer não é?
Porra agora que tocou nesse assunto me deu vontade de cagar.
Como vou fazer com esse frio ...
falou colocando a mão na barriga e contraindo o rosto em sinal de dor.
-- Segura ai cara ...
deixa para a manhã quando o sol nascer fica mais fácil.--
Ri da desgraça do meu amigo que ajudou a salvar-ma vida.
Em este momento ele começa a soltar gases tão fedorentos que, sinceramente, tive vontade me entregar aos alemães.
O sono estava difícil, não achava uma posição confortável para descansar o corpo, que estava tão moído como se tivesse sido atropelado por um tanque.
Além do mais, toda vez que fechava os olhos me vinha à mente toda aquela carnificina.
Meus colegas tombando mortos isso não me permitia dormir.
O gaúcho, percebeu a minha inquietação e me gozou dizendo:
-- Porra, estava pensando em minha guria e você ai se mexendo desse jeito vai me deixar todo excitado.
Hahahaha.
-- Não fode gaúcho -- respondi um pouco chateado.
O gaúcho quis saber sobre minha vida antes da guerra e sobre a minha família.
-- Bem, eu me formei no final do ano passado.
Estava trabalhando com o meu pai.
Ele tem um armazém de secos e molhados.
Sou o caçula de uma família pequena.
Somos três filhos somente, eu e duas irmãs.
Minha mãe faleceu quando eu ainda era jovem, tinha 14 anos.
Ela teve uma embolia.
Meu pai nunca mais se casou.--
contei-lhe.
-- A minha família che, é bem grande.
Somos em dez.
Também sou o caçula.
Acho que só chamaram os caçulas.
Os nossos colegas mortos, eu conhecia muitos de eles, já estivemos juntos em outras batalhas, muitos eram caçulas também.
Tenho visto muita gente passando dessa para a melhor -- disse com ar sério -- e ainda, se o Criador permitir irei ver muitos.
Não que eu queira isso, mas é inevitável, não achas guri?
-- Sim -- respondi com uma certa tristeza -- não sei por quanto tempo irei suportar essa guerra.
-- Esta á sua primeira batalha não é?
Notei, pois você ficou como eu fiquei nas primeiras vezes em que estive nessa situação, no meio de um tiroteio.--
falou com o olhar fixo no nada.
-- Então não é porque eu sou covarde, não é?--
demonstrei a minha preocupação.
-- Claro que não guri -- respondeu amenizando minha tensão.
Contamos casos e piadas por a noite a dentro.
Hoje me sinto culpado, pois o mundo estava se esfacelando por toda Europa e a gente rindo.
Mas valeu pra descontrair.
O gaúcho era uma pessoa muito engraçada.
Alguns casos, passados na roça, eu nunca mais me esqueci.
Contou-me que ao seu irmão mais velho, Cláudio, que à época era ainda uma criança, coube a missão de levar uma cabra de raça, que pertencia ao seu pai, para cruzar com o bode, da mesma raça, de propriedade de um vizinho, a alguns poucos quilômetros de ali.
Seu pai preocupado com o que o garoto iria assistir, ligou para o seu amigo e pediu-lhe, para evitar que seu filho perdesse a inocência, que confirmasse o que ele havia dito ao garoto, que o bode e a cabra iriam apenas conversar.
Assim, Cláudio levou a cabra e, quando retornou ao sítio, seu pai curioso para saber se houve o cruzamento, perguntou ao garoto:
-- Então filho, o bode conversou legal com a cabra?
E o garoto respondeu de pronto:
-- Olha pai, conversar eles não conversaram não, porque o bode andou falando algumas coisas com a cabra e, como ela não entendeu, ele deu uns espirros, pegou um lápis vermelho e escreveu tudo na bunda de ela ...
Não consegui me conter ...
rimos demais.
Sabia que era invenção daquele gaúcho, mas naquele momento foi muito engraçado.
E, assim, conversamos a noite inteira e ele me contou quase toda a sua vida, a maioria passada no sítio da família.
Ele havia estudado até o 2º ano de odontologia.
Era o seu sonho interrompido.
Quanto aos meus sonhos lhe contei que, minha grande ambição, seria entrar na faculdade federal de medicina.
E, já muito cansados, conseguimos dar uma cochilada.
Bem o dia raiou e eu ainda estava sonolento, quando o gaúcho me acordou, dizendo:
-- Oi guri tu não via dormir o dia todo não é?
Temos que partir.
-- É verdade, mas estava muito cansado, ou melhor, ainda estou e o frio não me anima a sair desta toca.--
disse brincando.
Espreguicei-me e fui logo me levantando, dei uns pulos para aquecer-me um pouco, mas de nada adiantou.
Entretanto, o que mais me perturbava era a fome que sentia.
Vi um coelho a uma certa distância e mirei minha carabina, quando, de repente, uma mão segurou o cano e me repreendeu de forma veemente:
-- Estais louco guri.
Queres chamar a atenção dos inimigos?
Eles podem estar bem aqui perto.
-- Mas, então como vamos nos alimentar?--
questionei chateado, pois havia perdido a minha caça.
-- Calma, não te apresses guri, vamos achar alguma coisa pra comer -- tentou confortar-me.
-- Ok -- consenti um pouco desolado.
Reiniciamos nossa caminhada com destino ao Quartel General.
O gaúcho havia pegado a bússola do tenente Souza e nos guiávamos por ela.
Depois de umas duas horas de caminhada, chegamos a uma clareira, próximo a um rio congelado, onde avistamos uns cadáveres, possivelmente de italianos da resistência, pois não estavam uniformizados.
Meu amigo gaúcho olhou para os cadáveres, pensou um pouco e perguntou-me:
-- Ainda estás com fome, che?
-- Sim estou faminto e fraco para agüentar a caminhada neste ritmo que você me impõe.--
respondi num tom de reclamação.
Então ele tirou a faca da cintura e disse-me:
-- Vamos nos alimentar agora.--
e tirando as calças do italiano, foi cortando a sua coxa e colocando a carne dentro do seu capacete.
Eu fiquei ali estático, horrorizado com aquilo que eu estava prestes a observar.
Depois de tirar, praticamente, toda a carne das coxas do cadáver, ele sentou-se confortavelmente e começou a saborear aquela iguaria feita de carne humana.
Em esse momento eu, em tom de revolta, lhe disse:
-- Você agora enlouqueceu de vez?
Como pode comer carne humana?
Isso é canibalismo, coisa de selvagem.
E, além disso, é nojento.
Você comendo defunto.
Eu não vou fazer isso de maneiras nenhuma.
É asqueroso este seu gesto-gritei num tom de revolta.
Então o gaúcho, que ficou com a carne na boca me ouvindo, começou a ter ânsia de vômitos e seu estômago devolveu toda aquela carne mastigada, que ele aparou com o seu capacete.
Depois de alguns minutos ele colocou o dedo dentro do capacete, naquela sopa nojenta, repulsiva e exclamou:
-- Porra guri, agora está quentinha!
E a comeu numa voracidade de uma hiena.
Agora era a minha vez de passar mal.
Vomitei bastante e ai disse para aquele gaúcho sem escrúpulos:
-- Come o meu vômito também, seu puto, porco nojento.
E ele com aquela sua calma de sempre, me respondeu:
-- De jeito nenhum, guri.
Tu não comeste nada desde ontem pela manhã, então teu vômito não tem nenhuma sustância, não vai me valer de nada, prefiro o cadáver daquele carcamano.
Depois disso fiquei mais fraco, mas criei uma força indescritível, pois mesmo, muitas vezes, cambaleante, consegui chegar ao Quartel General e me alimentei devidamente.
Mas toda hora me vinha aquela visão e tinha ânsia de vômitos.
Esta passagem eu nunca mais me esqueci.
Ficou gravada para sempre.
Eu e o Gaúcho ficamos muito amigos, mas eu fui ferido numa nova patrulha e foi recomendado por os médicos aos meus superiores a minha dispensa da guerra, pois a minha recuperação seria lenta.
Teria que fazer inúmeras seções de fisioterapia, para recuperar a minha perna.
O gaúcho me visitou algumas vezes no hospital.
Assim ferido, retornei ao Brasil e fiquei livre do pesadelo.
Ou melhor da guerra, não do pesadelo.
Sobre o meu amigo gaúcho, soube que lutou a grande batalha da conquista do Morro Castelo, em 21/02/1945 e recebeu a comenda de herói.
Depois disso, nunca mais tive notícias de ele.
Os outros amigos que perdi, hoje seus nomes figuram no Monumento aos Pracinhas, no Rio e, sempre que posso, dou uma passada lá e rezo por eles.
Em as minhas orações sempre incluo o gaúcho, por via das dúvidas!
rs, rs ...
Número de frases: 290
Foram quarenta e cinco minutos de percurso na pista molhada da cidade satélite do Gama até o novo local marcado para acontecer o sarau.
O tráfego era intenso no sentido contrário ao trajeto que eu fazia em virtude de ser horário de rush.
Apesar da chuva, atravessei rapidamente todo o Eixão Sul (entrada sul de Brasília até a Rodoviária).
Atravessando a passagem subterrânea por baixo da Rodoviária, saí no Eixão Norte e desviando à direita, peguei o Eixinho.
Em a primeira quadra da Asa Norte, às margens do Eixinho, fica o comércio local das quadras 201/202 (um de frente ao outro).
Procurei local para estacionar.
Apesar de ser terça-feira, estava bem movimentada aquela quadra.
Em fila dupla, veículos esperavam uma vaga.
A chuva continuava a cair miúda.
Estacionei o carro e olhei os letreiros.
Divisei sem dificuldade o Balaio Café.
Eram, exatamente 19:30 horas.
As mesas na calçada estavam quase todas ocupadas.
Em a esquina, encontrei meu genro e minhas duas filhas que foram direto do trabalho para lá.
Entramos juntos no aconchegante estabelecimento.
Pedi informações e fomos conduzidos por o garçom, a um espaço ali mesmo no térreo.
Era uma espécie de galeria que dava acesso ao outro lado do Café.
Lá estava Ana Cullen a colar papeis nos vidros e paredes, indicando estar aquele local reservado às pessoas do overmundo.
Não nos conhecíamos.
Feito as apresentações, ela explicou que em cima da hora, o pessoal lá da Quadra 116 Norte, comunicou a impossibilidade de ser lá nosso encontro.
Ela achou melhor conservar a data e mudar apenas o local.
Mesmo assim deixou na 116 aviso onde estaríamos reunidos, na mesma data e horário.
Disse estar sentindo fortes dores nas costas.
Contou que mesmo ali, no Balaio Café, ela teve de alterar o plano divulgado.
O primeiro andar tinha sido pedido para comemoração de um aniversário.
Ficamos, assim, sem palco, sem microfone e sem possibilidade de fazer acontecer o sarau.
Como eu disse no relato anterior, nossa turma foi chegando aos poucos.
Chegou o Jorge Verlindo e sua turma, o Rafael, o Horegano e depois a Francinne Amarante e família.
Durante os papos, ficamos sabendo da idéia muito interessante de formarmos uma equipe para fazer acontecer eventos culturais em Brasília, com grupos de samba, forró, folclore, chorinho etc..
A idéia ficou de ser melhor explorado no próximo encontro.
Quanto ao sarau, propriamente dito, a Ana Cullen levou uma coletânea de publicações das pessoas que haviam confirmado presença e a idéia era montar uma pauta para apresentação musical e recitações.
Eu, mesmo não havendo participado antes de eventos como o que estava previsto, levei um folder contendo algumas poesias inéditas minhas e em separado aquelas publicadas no Banco de Cultura.
Mas, tal como aconteceu com o violão do Jorge Verlindo, não foi preciso utilizar.
Distribuí meus papéis aos presentes e conversamos animadamente sobre outros assuntos.
Ficou no ar a data para em breve realizarmos o sarau desejado.
Quando saí de lá às 22:00 horas, ainda não tinha rolado a idéia da fotografia.
Mas carinhosamente a Francinne Amarante mandou para meu e-mail a foto tirada da turma, lá no Balaio Café.
Número de frases: 37
E é isso, pessoal, quando acontecer de verdade nosso sarau, vocês saberão tudo por a pena de alguém mais tarimbado a fazer relatos.
Acabo de receber um embrulho importante:
«Valeu, Lobão!
Qualquer coisa, estamos aí.
Continuo no aguardo do groove!
Grande abraço».
Aaaaaaa, não!
Não pode haver deslizes.
Quanto a este embrulho, o que devo fazer é avisar a polícia.
Afinal, os olhos só vêem o que o coração pressente, e a polícia me ajudará.
Corta! (Estará fraquejando o meu controle agradável e tranqüilo sobre a realidade?)
Ah ... Que alívio!
Acabou o sufoco!
Acabo de saber que o embrulho pode ser (e realmente é!)
o novo álbum do Rogério Skylab.
Que simpático!
Ah! Ah!
Ah! Vou agora me atirar no sofá, acender um cigarro bem firme, e zombar do mundo!
Ah! Sim, aprender a rir novamente, e a zombar do mundo, como eu nunca deveria deixar de fazer.
Ah ah!
Ah ah!
Ah ah!
Pois bem, público literário, estou ciente de que o meu compromisso, aqui nesta coluna, seria escrever um breve e lúcido artigo sobre o Mario Quintana, ou mesmo sobre o Paulo Seben, mas devo confessar que este novíssimo disco do Skylab, «Skylab VI», fez-me perceber que, de fato, não precisamos ir tão longe em busca da poesia.
Como disse o meu amigo e gonzojornalista «Cardoso,» hoje em dia, a vida cotidiana burguesa tornou-se muito mais excitante e surpreendente do que quaisquer teorias da contra-vanguarda».
Olé! E a verdade, senhores, é que, sinceramente, considero um absurdo que vocês qualifiquem o Skylab como um louco.
Logo ele, poxa, que é a pessoa mais santa e idealista deste mundo desvairado.
Não, isso não é nada é justo.
Portanto, causa-me estratégica revolta que vocês, apreciadores do Daniel Galera, considerem lunáticos os verdadeiramente santos, uma vez que, na realidade, vocês é que são os lunáticos!
Logo o Skylab, caralho, que é um filósofo, logo ele, que renunciou ao mal, que não usa drogas, que não é comunista, logo ele, que perdoa os nazistas e que trabalha há décadas no Banco do Brasil, puta que pariu, logo ele, logo o Skylab, que, enfim, não pode ser acusado de dadaísta!
E o Rogério Duarte, e o Antonin Artaud, e o Carl Solomon, porra?
Quem são vocês, bando de canalhas nojentos com sua falsa respeitabilidade!
Seus babacas vestidos de polícia, vocês e seus cus paranóicos.
Perdão.
É que há muito eu aguardava ansioso por mais um disco do senhor Skylab, e acabei ficando um pouco introspectivo com este embrulho nas mãos.
«Edite, bebite, post mortem nulla voluptas».
E digo isso porque dentro do panorama da Música Popular Brasileira, Rogério Skylab ocupa uma posição singular e original:
é o primeiro entre os compositores de destaque em toda a história do cancioneiro mundial a proclamar, de forma sistemática, que o âmago do mundo é irracional, fundamentalmente oposto à inteligência e à razão.
Além disso, Skylab foi o primeiro filósofo brasileiro a tratar do tema amoroso sob o ponto de vista metafísico:
«A o abrir lentamente a maçaneta, encontrei-a ali dormindo:
minha empregada.
Vê-la naquela posição, barriga para a cima, fez-me entrar em conjecturações infinitas», argumenta o profeta.
Trata-se, portanto, do que Arthur Shopenhauer chamou de «certeza amedrontadora da imortalidade», ou, nas palavras do próprio compositor,» quanto pior melhor».
Pois bem, o que eu devo dizer é que «Skylab VI» retoma o clima do seu terceiro disco, «Skylab III», e acena novamente na direção do experimentalismo.
Sexo, violência, freak rock e momentos de pura vulgaridade, seguidos por outros da mais pura transcendência:
Tati Quebra Barraco & John Cage;
Frank Zappa & Tiririca. Com efeito, realmente é muito difícil explicar para os egoístas e narcisistas que Skylab não é um egoísta e narcisista.
Em a verdade, Skylab é um «artista coletivista em aberto», como definiu Frank Fanfio, isto é, um anti-artista.
De essa forma, eu diria que o seu «Skylab VI» funciona como uma espécie de adeus fundamental à picaretagem cultural e ao supermercado de ilusões perdidas da intelectualiudade brasileira.
«Trinta em Transe».
Enfim, Skylab é um cara que está do lado dos poetas.
Ademais, a terra rola, os astros rolam, e os homens que, marcados com o selo da superioridade brilhante, constituem o verdadeiro mundo, trágico e cínico, permanecem presos à imagem do «um», do» único um ":
Rogério Skylab. Mas, afinal, quem é Skylab?
«Um delicioso suco de bosta no liquidificador», responderia alguém.
«Um menino muito sensível, de alma nobre e delicada», diriam outros.
Para mim, Skylab é um amálgama pop-poético que reúne o conservadorismo de Churchil e a inteligência de John Nash, com algumas pitadas, é claro, da arrogância de Bob Fields, da lábia de Dominique Villepin, da ironia de Paulo Francis e também da coerência de Tony Blair.
Tudo isso, vejam bem, articulado de forma a superar a lamentação da queda, reconhecendo alegremente a perda como condição para a liberdade:
«O pior inimigo da arte é o gosto», disse Marcel Duchamp.
Mas eu quero terminar este ensaio paracrítico falando de literatura.
Devo dizer, portanto, que, de fato, Rogério Skylab é um poeta profundamente insólito.
Insólito não para meramente confundir, mas porque essa é sua maneira autêntica e vertical de experimentar o misterioso estar das coisas.
«Cu e boca é tudo a mesma coisa», diz ele numa de suas canções.
De essa forma, cada dia fica mais claro para mim, principalmente depois de fruir «Skylab VI», que a condição necessária do seu ativismo poético é, necessariamente, o hermetismo inexorável de seus olhos de hiena, que quase tocam nos objetos para poder insinuá-los, já que não é mais possível dizê-los com os esforços da complacência.
«Quê que eu tô fazendo aqui?
Eu vim mijar e acabei cagando!»,
brada o filósofo em outra passagem.
Para concluir, Skylab é o grande exemplo tropicalista do que Pablo Neruda definiu como «surrealista concreto», ou seja,» aquela coisa toda», como ele mesmo explica.
É isso aí, e beijo nas meninas!
(Post Script: Alô alô Rogério!
Estou no aguardo de um exemplar do seu «Debaixo das rodas do automóvel».
Número de frases: 69
Carinhos e abraços, Gilberto Gil.)
Hoje em dia há um novo tipo de música brasileira em voga no mundo.
Aquela que não é feita por gente daqui, ou aqui.
Isso mesmo, ao contrário do que acontecia há 20 anos atrás, hoje em dia são as bandas estrangeiras que produzem material inspirado em nossa sonoridade.
Aquela batucada e violada mesmo, que muita gente nunca deu muito valor.
Não que a babação de ovo que críticos estrangeiros estão dando a nós seja a coisa mais fantástica da história da MPB, o negócio é que faz um tempo que observo nossas influências lá fora.
Até onde eu sei nosso som foi para a vitrine quando Carmen Miranda seguiu pra viver em Hollywood e gravou diversos sambas brasileiros em formato pasteurizado.
Ela influenciou o maior cantor americano das décadas de 1930 e 1940, Bing Crosby, a gravar Em a Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso (obviamente a versão era cantada em inglês).
Depois, já na década de1960, Tom Jobim ladeou Frank Sinatra por uma turnê em que o cantor do século cantou sucessos bossanovísticos, resultando num álbum de grande sucesso, Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim.
Durantes as décadas de 1960 e 1970 o registro mais evidente que eu tenho de outros povos bebendo na nossa fonte é através do multifacetado artista francês Serge Gainsbourg, numa exaltação ao maior poeta maldito de seu povo, em Baudelaire.
Já nos fins do século XX, a engajada banda de ragga Fabulous Troubadors, também vinda da terra de Asterix apareceu com o CD On The Linha Imaginot, citando Maria Bonita e fazendo dueto com um coro nordestino no improvável forragga Cançon de la Prima.
Porém, ao citar estes galícios engajados, não poderia esquecer do grande Massilia Sound System, uma das mais tradicionais bandas de raggamufin de seu país.
Em 2002, quando estavam pesquisando a origem dos trovadores franceses e seu legado, descobriram no nordeste brasileiro os últimos herdeiros dos bardos medievais -- os repentistas -- resultando no magistral album Occitanista, que conta com a participação de Lenine e Nação Zumbi.
Mas de todos esses franceses que fizeram música brasileira de alguma maneira, aqui, o mais famoso de eles, sem dúvida, é Manu Chão, que em certo momento de sua vida, chegou a viver em algumas cidades brasileiras.
Um de seus maiores sucessos é cantado em português, e já foi até gravada por o mundo livre s / a, a descolada Minha Galera.
Engraçado que hoje em dia, até brasileiro que vai morar na Gringolândia vira gringo.
Como assim?
Este é o caso dos imigrantes brasucas radicados em Nova Iorque e seu guitarrista ianque, membros do Forró in the Dark, que após fazerem sucesso sem querer na Big Apple, foram apadrinhados por um dos primeiros famosos ianques a apostar nos sons do Brasil, o ex-Talking Head David Byrne, que cantou duas músicas no álbum de eles.
A ex-integrante da banda Cibo Matto, Miho Hatari, também participa numa versão em japonês do clássico de Gonzagão, Paraíba.
Lembrei quando em mil novecentos e noventa e poucos, o Paul Simon apresentou o Olodum para o mundo (isso passou até no Cansástico) num videoclip gravado no Pelourinho, como se a música brasileira fosse a salvação do mundo.
Hoje em dia a cada piscada, aparece mais uma dessas bandas de world music gringas, que chegam aqui e saem recrutando percussionista brasileiro pra dar uma sonoridade ' tropical ' ao seu som.
Isso é bom?
Só sei que quem recrutou o mesmo Olodum como decoração e veio aqui pra aproveitar de nossa imagem foi o Michael Jackson, que subiu o morro do Santa Marta na gravação de seu videolip-denúncia social (hahaha) e ainda conseguiu fazer o Marcinho Vp ficar famoso.
Já Mike Patton, conheceu a glória quando cantava com o Faith no More aqui por nossas plagas antes mesmo de eles serem famosos em sua própria terra, o que pode ter influenciado-os a gravar em seu penúltimo disco a bossanova com refrão em ' portosquês ', Caralho Voador.
Depois houveram flertes dos outros projetos do senhor 10.000 vozes com nossa sonoridade, desde a balada-tosca Desastre Natural, do Tomahawk, ao trip-bossa Caipirinha, em que faz dueto com a onipresente Bebel Gilberto no recente Peeping Tom.
De esse tipo de parceria de nomes estabelecidos do hemisfério norte com brasileiros, não poderia deixar de lembrar do Asian Dub Foundation, que após passarem numa ótima turnê por o Brasil em 2001, firmaram parceria com Edy Rock, dos Racionais MC's e fizeram um som tipicamente de eles em 19 Rebellions, com letra denunciando o massacre dos 111 presos executados no Carandiru, escrita por o rapper Gog.
Nem mesmo o movimento pernambucano Manguebeat deixou de ter seus seguidores por os mares do mundo, como é o caso dos escoceses não bem-sucedido do Bloco Vomit, que homenageiam o ídolo Chico Science e tocam canções notórias do punk rock em ritmo de maracatu e até de axé, como é o caso de Shoul I Stay or Should I Go, do The Clash.
Já o Nation Beat, era uma banda maracatu de Nova Iorque que veio para o Brasil e gravou um disco com misturas de country, jazz, côco e música regional recheado de convidados pernambucanos.
Como estava falando dos covers maracapunks meio de mau gosto, agora, digo dos covers de bom gosto dos franceses Nouvelle Vague, releituras de clássicos rockeiros dos anos 1970/80 em ritmo de bossa nova.
(Continua, em mais duas partes ...
Número de frases: 30
Faltou falar de rap, jazz, outras bandas européias e mais qualquer coisa que vocês podem sugerir).
«URBANO POPULAR CONTEMPORÂNEO» é o tema trazido por a 8º edição do Festival de Artes de Goiás que acontece dos dias 08 a 11 de novembro, na cidade de Goiânia.
O evento nasceu a partir de um projeto político pedagógico da coordenação de Artes do Centro Federal de Educação Tecnológica de Goiás (CEFET-GO) e propõe contribuir com as transformações no ensino e na prática das artes em Goiás.
Segundo a coordenadora do Festival de Artes, Rita de Cássia Mendonça, os principais objetivos do evento são levar os participantes a apreciarem a arte e a refletirem sobre o papel de ela na sociedade contemporânea, bem como levá-los a produzirem conhecimentos -- acadêmicos ou não -- em arte, como meio de construção de novas formas de pensar o mundo.
«O Festival busca promover o debate de opiniões e convicções estéticas acerca dessas diferentes produções artísticas, bem como, busca incentivar a produção acadêmica, aproximando-a da realidade do artista com seu universo de elaboração e de realização, tornando-se um pólo aglutinador de referências culturais», diz a coordenadora do Festival, Rita Mendonça.
A programação para essa edição apresenta uma multiplicidade de atividades relacionadas à arte, como espetáculos, palestras, mesas redondas, debates e oficinas abordando as mais diversificadas linguagens artísticas:
dança, artes plásticas, literatura, arte da palavra, teatro, entre outras.
Juntamente ao 8º Festival de Artes, acontece o 1º Encontro de Filosofia e o 7º Seminário de Educação Estética, com uma programação específica voltada para professores de arte.
Estima-se que 5.000 pessoas passem por o evento durante os quatro dias de atividade.
História
De o Festival
A Cidade de Goiás foi cenário do Festival de Artes de Goiás, até a sua sexta edição A cidade foi escolhida no intuito de resgatar a história do próprio CEFET -- que surgiu no local em 1909, como Escola de Aprendizes Artífices -- e celebrar um dos principais sítios históricos e culturais do estado, reconhecido, atualmente por a Unesco, como Patrimônio Histórico da Humanidade.
As seis primeiras edições do Festival-de 1998 a 2003-ocorreram na antiga capital do Estado.
No entanto, em 2004, o evento foi transferido para Goiânia.
Segundo a coordenadora do Festival, a transferência se deu com objetivo de envolver efetivamente a comunidade do Cefet-GO, situado na capital, nas atividades oferecidas durante os dias do evento.
«Por o alto custo, por a falta de incentivo da prefeitura local, por o distanciamento do evento da comunidade do Cefet-GO, por a ausência de traços de mudanças ou interferência na produção artística e educação em Arte na cidade e, finalmente, por o despropósito de utilizar a cidade como mero cartão postal para a realização do evento, o Festival foi transferido para Goiânia», afirma Rita Mendonça.
Contato:
Cefet-go
(62) 3212-5050 -- Ramal 214
Coordenadora: Rita de Cássia Mendonça
E-mail: festivaldeartesdegoias@hotmail.com
Número de frases: 21
www.cefetgo.br/fartes O teatro de rua passa por um momento de baixa produção.
Conhecendo essa realidade, a 8ª edição do Festival Internacional de Teatro, ou FIT / BH, Palco e Rua, chega a Belo Horizonte para refletir sobre os editais de co-produ ção a fim de incentivar o teatro de rua em diversos âmbitos.
Detectando a dificuldade dessas produções serem encontradas na cidade, a organização do evento recupera o projeto «Micropeças e Intervenções Cênicas» e promove um espaço para produção, formação e reflexão sobre o universo «teatro de rua».
O evento que dá continuidade ao projeto FIT / BH Rua, iniciado em 2002 foi criado com o objetivo de discutir e estimular a produção de espetáculos para a rua, que, segundo o curador de espetáculos, Rodrigo Robleño, é negligenciada por as iniciativas públicas e privadas.
Para ele, essas políticas não possuem o devido interesse com o fazer teatral nessas condições.
«Um patrocinador prefere um espetáculo num espaço fechado, com venda e distribuição de ingressos», reclama ele.
Mesmo que as regras de mercado não o vejam com bons olhos, o teatro de rua merece respeito e deve ter o seu espaço garantido num festival como o FIT / BH que se propõe a ser democrático.
Diferentemente das edições anteriores, o projeto «Micropeças e Intervenções Cênicas» deste ano foi dividido em duas etapas como forma de aperfeiçoar o processo.
Em a primeira etapa ocorrida no durante os meses de março e abril foi realizada uma pré-seleção para a escolha de seis peças de entre 27 inscritas.
A organização do evento ofereceu ainda suporte para a produção dos trabalhos.
Em a primeira semana do mês de maio, entre os dias 4 e 7 de maio foi realizada uma segunda etapa, na qual as seis peças selecionadas se apresentaram para o público e para a comissão julgadora.
O público pôde assistir às montagens para conferir sua qualidade, se respeitavam o tempo de duração exigido e se funcionavam junto a ele.
Durante essa etapa foi montado também o Ateliê de Produções onde os integrantes das micropeças e intervenções participaram de diversas oficinas com uma carga horária de oito horas de duração.
Sob a coordenação do ator Tião Vieira, o Ateliê ofereceu suporte técnico e apoio na execução de cenários, figurinos, adereços, estilismo, maquiagem, corte e costura.
Cada projeto recebeu ajuda de custo para a produção, no valor de mil reais.
Para o diretor geral do FIT / BH 2006, Carlos Rocha, o projeto dividido em dois processos seleciona melhor as peças a se apresentarem no grande evento no final no mês de julho.
«Durante o festival, o público verá micropeças e intervenções à altura do restante da programação», justifica ele.
Caminhando numa direção cada vez maior de diálogo com o público e o artista local, o FIT / BH 2006 aposta nas intervenções cênicas para invadir o cotidiano dos moradores de Belo Horizonte.
Essas intervenções não têm data marcada para acontecer, acontecerão de repente, sem qualquer aviso prévio.
Rodrigo justifica que essa proposta é interessante, pois possibilita «mostrar as diferentes formas que o teatro tem de se relacionar com o público».
A programação de rua do evento é bastante extensa e não resume apenas as micropeças e intervenções cênicas.
Entre os dias 27 de julho e 6 de agosto acontecerão também espetáculos internacionais, com linguagem diversificada e produções com características bem diferentes.
Segundo Rodrigo, isso estimulará o público.
O «Ponto de Encontro» voltado para o Parque Municipal terá uma programação específica permitindo o contato com diferentes linguagens cênicas;
Número de frases: 24
música, teatro e dança.
Fui a uma gráfica com amigos que estavam produzindo um show.
Entre negociações de preço dos cartazes, Jaime, o dono da gráfica, falou que tinha sido convidado para um rally numa praia fora da cidade.
Perguntei se era um daqueles eventos organizados por uma dessas marcas de pick-ups importadas.
«Pick-up? Que nada!
Esses loucos vão caminhando», respondeu.
Fiquei curioso.
«Quem organiza essa caminhadas?».
«São os caras lá da Neblina, eles montam grupos pra fazer caminhadas.
Os caras já vieram de Pipa até João Pessoa», afirma.
Pipa, para quem não conhece e devia conhecer, é uma praia paradisíaca que fica a 200 km de João Pessoa.
«Tem o telefone de eles?»,
perguntei.
Neblina Adventure Center
Liguei para o Edmilson Montenegro, 31, um dos sócios do Neblina Adventure Center.
Para minha surpresa, o Neblina está completando 10 anos de existência.
Já tinha visto a loja de equipamentos, onde é vendido todo o material para prática dos esportes de aventura.
Mas, não sei bem porquê, pensava que se tratava de um franchising desses de marcas estrangeiras para esportes de aventura.
Ledo engano:
os caras têm um histórico muito interessante.
Construíram a primeira parede de Escalada «Indoor» da Paraíba;
conquistaram a primeira via de escalada em rocha do Estado;
participaram do Eco-Challenge no Marrocos em 98;
também em 98 chegaram ao cume do Mont Blanc (4.807m) na França, fato inédito no Alpinismo Paraibano;
foram os únicos do Nordeste a participar da primeira corrida de Aventura do Brasil, a Ema (Expedição Mata Atlântica);
introduziram no Nordeste as Corridas de Aventura, com a realização do Desafio Costa do Sol no litoral Sul da Paraíba.
A história de eles começa quando quatro amigos -- o próprio Edmilson, seu sócio, Eduardo Souto, Marcos Prado e Igor Piquet -- resolvem fazer um curso de escalada em São Paulo, compram todo o equipamento lá e retornam a João Pessoa e resolvem criar uma parede de escalada para praticar e ensinar técnicas de alpinismo aos interessados.
O mercado estava aberto para receber investimentos e a Paraíba oferece condições naturais muito favoráveis.
Espírito aventureiro não faltava e Edmilson e Eduardo criaram o conceito do Neblina Adventure Center focado na segurança, estrutura adequada e qualidade dos equipamentos utilizados nos esportes de aventura, algo que ainda engatinhava na Paraíba.
Isso os tornou pioneiros.
«Nossa meta sempre foi fazer bem feito.
Trabalhar com equipamentos seguros, qualidade acima de tudo -- afinal estamos trabalhando com esportes de risco», argumenta Edmilson.
Perfil
Edmilson diz que do público que procura esse tipo de esporte, 75 % pratica como um paliativo para o cotidiano, alívio do stress e busca de qualidade de vida.
O perfil dos praticantes está entre 18 e 48 anos e, em sua maioria, é formado por estudantes e profissionais liberais.
Pergunto se a prática desse tipo de esporte é cara.
«Depende! Se compararmos com futebol ou vôlei, que não necessitam de investimento, obviamente, se torna cara.
Mas comparado ao windsurf e ao kitesurf, é até barato», argumenta.
«Hoje existe até um fluxo de estrangeiros nos procurando.
Em a verdade, não trabalhamos diretamente na formação de grupos, geralmente eles vêm através de agências de turismo de aventura», afirma.
Caminhos da Paraíba
Esse pioneirismo na Paraíba rendeu a eles uma parceria com o SEBRAE e com algumas prefeituras do estado, com as quais são firmados convênios onde os rapazes avaliam o local para verificar as perspectivas de aproveitamento do local para prática de esportes de aventura.
Isso tem conseguido aumentar o fluxo de interessados nesse tipo de esporte ao interior do estado.
Seria uma redescoberta dos caminhos da Paraíba?
Que seja -- parece uma maneira bem agradável.
Contatos:
www.neblinaonline.com.br
e-mail: edmilson@nebllinaonline.com.br;
Número de frases: 48
neblinacenter@hotmail.com [Continuação da entrevista -- Grande conversa (sobre) crítica -- 1ª parte]:
Você também tem receio das possibilidades do mundo digital?
Compartilha da idéia de «favelização digital», ou» limbo virtual», termos que alguns cineastas e críticos usam para afirmar o que vem acontecendo com o audiovisual em sites como o YouTube, por exemplo?
Todo diagnóstico sobre uma coisa que acabou de aparecer é muito duvidoso.
E todo prognóstico é mais duvidoso ainda.
O que vai acontecer com a imagem na era digital é uma coisa que ninguém ainda entendeu de todo.
Por definição, na minha vida mesmo, eu sou contra que você brigue com o mundo.
O mundo está mudando, o mundo tem coisas novas e você é contra só porque toda coisa nova impõe um desafio para a pessoa.
Nada é bom ou ruim por definição, depende do uso que você faz de cada coisa.
O YouTube pode ser muito interessante, pode ser que muita coisa aconteça.
A Internet não é o melhor lugar para passar filmes.
Filmes, eu digo, em relação àqueles que são feitos até hoje para passar em cinema.
É uma questão de desacordo entre a linguagem com a qual a coisa foi produzida, pensada para determinada difusão, e a forma com a qual ela está sendo difundida.
A pessoa sentada em frente ao computador vendo um filme não tem a mesma experiência que teria no cinema.
Isso não quer dizer que você não pode ter idéias muito interessantes para divulgar coisas nesse meio.
Os meus filmes não foram feitos para serem vistos no YouTube.
Mas se mais gente vir, ótimo ...
Agora, claramente não é o meio em que eu prefiro que as pessoas vejam.
Mas eu acho bobagem eu negar essa possibilidade.
Você vê alguma mudança concreta relacionada ao audiovisual na Internet?
Acho que a Internet serve a fins muito interessantes.
O YouTube tem funcionado como um museu online muito interessante.
Muitas coisas que a gente não tinha mais acesso estão voltando à vida no YouTube, programas de TV dos anos 70, anos 80, em pequenos trechos, o replay da televisão.
Tinha um certo mito de coisas que poucos tinham visto na TV e todo mundo perguntava e comentava.
Agora isso se perpetua.
O YouTube mudou o estatuto da televisão, porque uma das coisas que o estatuto da televisão tratava era questão do fugaz, era a coisa que estava acontecendo naquele segundo e logo depois não iria acontecer de novo.
Era o imediatismo meio fugaz.
E o YouTube faz o contrário, está servindo para a perpetuação das imagens da televisão.
E em termos de linguagem, já há alguma novidade?
Já há um jogo com a questão do clichê da imagem, o clichê da imagem caseira.
O Tapa na pantera foi muito interessante, os Chinese Backstreet Boys também.
Eu acho fantástico.
O YouTube foi muito usado num primeiro momento para dividir imagens caseiras.
A maioria das coisas ainda é deste tipo.
E a imagem caseira tem uma série de clichês.
O Tapa na pantera se disseminou muito rapidamente porque ele fingia ser uma imagem documental sobre um determinado tema, igual às várias que circularam na Internet.
Muita gente achou que as imagens do filme eram reais, mas, na verdade, as imagens faziam parte de uma obra de ficção, era uma atriz interpretando um texto.
Ele até foi exibido no cinema, mas eu acho que ficava meio fora d' água.
O que você está querendo dizer é que existe um conteúdo sendo produzido diretamente para a Internet, se valendo da Internet como linguagem?
Você deposita o sucesso do Tapa na pantera, por exemplo, a essa dicotomia que ainda existe entre o filme caseiro «real» e o filme caseiro de «ficção» na grande rede?
Sim.
Mas acho, não tenho certeza, que isso ainda tem sido feito de modo não proposital.
Em breve, as pessoas podem começar a produzir o audiovisual de elas lidando com essa linguagem.
É fazer todo esse pensamento que eu fiz aqui, mas pensando nisso tudo antes.
Voltando para a questão da crítica:
uma das grandes marcas de pensamento de cinema dos projetos que você já participou é não dissociar o filme de arte do filme popular.
É reconhecer que um filme feito em Hollywood pode ter o mesmo valor de um filme da Nouvelle Vague.
Para a Cinética, o pensamento continua sendo o mesmo?
Claro.
Tem uma pergunta que sempre fazem pra crítico que diz assim, «às vezes ter um olhar crítico não é chato, porque se acaba perdendo um pouco a graça, você não consegue mergulhar no filme, fica pensando apenas como o filme é feito, isso não acaba tornado a pessoa uma pessoa fria?» ...
É um preconceito curioso esse, mas bastante difundido recentemente na sociedade de espetáculo do entretenimento, que é a idéia de que pensar não é divertido, ligam a idéia de reflexão a chato e de que se divertir não é pensar.
Pra mim, pensar é muito divertido e se divertir me faz pensar muito e vice-versa.
Em esse sentido, as fronteiras entre entretenimento e reflexão, cinema popular e cinema cabeça são altamente desimportantes.
Há algum responsável por esse tipo de pensamento?
Grande parte dessa culpa, especialmente na crítica de cinema, eu coloco nas mãos dos intelectuais e críticos ou supostos grandes críticos de cinema de algum tempo que se consideram uma grande elite que não podem se rebaixar pra gostar dos filmes comerciais.
Eles acabam se afastando das pessoas, com razão, porque tudo quanto é filme divertido ele já diz que é ruim.
É uma divisão que não se justifica, na prática.
Se um crítico de cinema, como alguns acham, diz que só deve falar de filmes de arte porque o resto não interessa a ele, é uma das primeiras coisas para a eu virar as costas e dizer «legal, o que você fala não interessa em nada».
Assim como, se numa crítica, o cara falar que não gostou de certo filme porque ele é cabeça, eu também não vou me interessar.
Mas embora você prefira não dividir os filmes entre aqueles «cabeça» e aqueles «pipoca», parece haver uma cisão clara no que diz respeito ao termo» filme brasileiro».
Por que existe essa necessidade de dividir o cinema nacional das demais produções?
Cinema brasileiro existe porque existe Brasil, porque existe eu brasileiro.
Dentro do cinema brasileiro existem vários formatos, é claro.
Agora, existe uma diferença na relação da crítica que eu escrevo, já que ela não vai ser lida por o público e realizadores americanos, e sim o brasileiro.
Eu escrevo em português pra um público brasileiro ler.
Cinema brasileiro não é só os filmes brasileiros, mas o espectador brasileiro.
Estou inserido no meio produtivo de forma geral do cinema brasileiro.
Então não é uma questão de qualificação, é uma questão de inserção, de onde eu faço parte.
Então eu preciso ter uma atenção muito especial com esse meio.
Escrever sobre um cineasta americano, francês, ou russo, que eu sei que a priori não vão ler o que eu escrevi, é diferente de escrever sobre um diretor de um filme brasileiro.
A minha impressão sobre o filme não precisa mudar, mas a maneira como eu escrevo necessariamente tem que ser direcionada por isso.
Eu quero dialogar com aquele cara.
Se eu acredito que a crítica tem influência na forma de produção de cinema de um determinado tempo e de um determinado lugar, esse lugar é o Brasil, então eu quero que esse cara leia e dialogue com a minha crítica como eu dialoguei com o filme de ele ao assistir.
Em relação aos diretores de outros países, o que me interessa é que o público brasileiro dialogue com eles através do que eu escrevi.
Número de frases: 74
* * * * * * * * * * * * * O Festival do Rio começou esse fim de semana e a dica de hoje e sempre é acompanhar, tanto na Cinética quanto na Contracampo, a extensa cobertura crítica do evento.
Lark é um ser, uma energia, ligado às artes, em especial à música, porque é a língua das Musas, o idioma dos deuses, perceptível até aos graus mais rasos de evolução, até por os animais irracionais.
Sua origem não se sabe, parece que acompanhou o êxodo de Capella.
Lark é adimensional e portanto sua presença se faz sentir através de compositores, músicos e intérpretes espalhados por o universo.
De todos os lugares ...
aos milhares, já dizia o rei.
Sua comunicação é sutíl o que dificulta muitas vezes identificar a origem do material recebido.
Em este momento vários artistas estão recebendo a missão de manisfestar a arte musical de Lark, cósmica e libertadora.
A única intenção de Lark Wiskey é divulgar o Amor.
A verdadeira essência do Kósmos, e preparar a humanidade para a nova consciência, espiritual.
Para entender mais ouçam:
Rain e Aya
Número de frases: 12
www.larkwiskey.com Quem eram os povos que habitaram o território correspondente a Mato Grosso do Sul no período da conquista?
Como viveram e se relacionaram?
Foram todos iguais ou sustentaram culturas e sociedades diferenciadas?
O que os teria levado ao desaparecimento e à transfiguração compulsória que deu origem à figura do elemento humano a quem chamamos índio?
Entre as regiões noroeste e sudoeste do Estado de Mato Grosso do Sul, sudoeste do antigo Estado de Mato Grosso, estende-se o Pantanal sul-matogrossense, formado por campos baixos e alagadiços que os rios inundam todo o ano.
Em esse cenário marcado por a exuberância dos carandás, paratudos e buritis, movimentando-se em busca da sobrevivência viviam tribos de línguas e costumes diferentes, muitas das quais, embora apresentassem variações etno-culturais, tinham em comum a orientação por o ciclo das águas.
Entre essas tribos estavam os canoeiros Payaguá e Guató, povos que tinham no rio Paraguai sua principal fonte de subsistência, de ele se afastando apenas quando seu curso inundava os campos.
Outros grupos sedentários, como os Guaná, de língua Aruak, preferiam os terrenos abrigados e mais propícios ao cultivo, caracterizando-se como tribos de lavradores, produtores de mantimentos e tecidos.
Nem sedentários, nem completamente nômades, outras tribos, como a dos Guaicuru, também seguiam o fluxo das águas acompanhando a caça que deslocava-se no movimento das enchentes e vazantes.
Viventes em terra, esses seminômades caçadores e coletores constituiam-se em bandos de ferozes guerreiros que causavam apreensão entre os demais grupos nativos da região, a quem faziam cativos.
Em esse ir e vir no compasso das águas, enquanto milhares de nativos viviam em diferentes configurações socioculturais, os espanhóis penetravam o interior do Continente utilizando a foz do Rio da Prata, firmando seu principal núcleo de ocupação em Assunpción, no Paraguai.
Por os afluentes do rio Paraguai chegaram à bacia do Amazonas, donde partiram para a conquista dos altiplanos da América Central.
Uma vez instalados, possuindo tecnologia superior, os conquistadores implantaram o colonialismo de exploração, apossando-se das novas terras, saqueando suas riquezas e remodelando seus habitantes como escravos coloniais, atuando através da «erradicação da antiga classe dominante local, da concessão de terras como propriedade latifundiária aos conquistadores, da adoção de formas escravistas de conscrição de mão-de-obra e da implantação de patriciados burocráticos, representantes do poder real, como exatores de impostos» (Ribeiro, 1978).
A partir de então, sob pressão escravista, os povos nativos sofreram grande ruptura em seu processo evolutivo natural, sendo remodelados através da destribalização e da deculturação compulsória, perdendo a maior parte de seu patrimônio cultural e só podendo criar novos hábitos quando estes não colidissem com sua função produtiva dentro do sistema colonial (Idem).
Encerradas em territórios cada vez menores ou absorvidas por o processo civilizatório, as etnias nativas foram conduzidas a transfiguração étnica-cultural ou a completa extinção.
Os canoeiros Guató, por exemplo, foram dominados ainda no período colonial.
Mais tarde, por ocasião da Guerra do Paraguai, lutaram e sofreram ataques de ambos os lados, sendo dizimados nos anos seguintes por epidemias de varíola e outras doenças.
Os poucos remanescentes continuaram a viver como pescadores nas lagoas e furos do alto Paraguai (Ribeiro, 1996).
Os Guaná também foram rapidamente dispersados.
Segundo notícias da primeira metade do século XIX, uma parte foi aldeada junto ao Paraguai;
outra parte, mais a leste, no rio Miranda, teve suas aldeias invadidas em conflitos entre brasileiros e paraguaios.
Com o tempo, os remanescentes dispersos tentaram voltar aos locais de origem, passando a viver em competição com criadores de gado que ocupavam a região (Idem).
Os Kinikinawa e os Layana, por exemplo, foram compelidos a trabalhar para aqueles que tomaram suas terras.
Os Terena, que tiveram suas aldeias dominadas por comerciantes de aguardente, acabaram transformando-se em sertanejos ou sendo obrigados a afastarem-se das terras férteis do Miranda, refugiando-se em terrenos impróprios para a agricultura e para sua condição de lavradores.
De maneira generalizada, todas as tribos nativas que habitavam a região foram extintas ou transfiguradas por a pressão de um modelo colonizador despótico e intolerante, expresso, «tanto por sua projeção geográfica sobre a terra inteira quanto na sua capacidade de estancar o desenvolvimento paralelo de outros processos civilizatórios» (Ribeiro, 1978).
Em este cenário conflitante houve, porém, uma exceção.
Um determinado grupo étnico se fortaleceu após o contato com os colonizadores.
Para isso, saquearam os bens culturais de seus adversários, adotando o cavalo, a lança e outras armas para utilizá-las no uso da caça e da guerra, aprimorando sua própria estrutura sociocultural e se transformando numa das tribos nativas mais resistentes de toda América do Sul.
Em o século XVI, ainda no início da ocupação espanhola, os nativos de quem falamos assaltaram as pequenas vilas que se formaram, as estâncias crioulas e a cidade de Assunção, guerreando ferozmente, fazendo cativos e contra-atacando às tentativas de extermínio e redução empreendidas por os invasores.
Suas correrias expandiram-se a territórios cada vez mais amplos, aumentando sua fama de guerreiros invencíveis.
Desde " Cuiabá, em Mato Grosso, às proximidades de Assunção, no Paraguai, e das aldeias Chiriguano nas encostas andinas, no Chaco, até as tribos Guarani, das matas que margeiam o Paraná.
Em toda essa região atacavam e saqueavam não somente grupos indígenas, mas também povoados espanhóis e portugueses, fazendo cativos em todos eles.
Chegaram, deste modo, a constituir o principal obstáculo que os colonizadores tiveram de enfrentar no centro da América do Sul e motivo constante de suas preocupações.
Bem aparelhadas expedições militares foram armadas por portugueses e espanhóis para combatê-los sem jamais lograr êxito completo contra esses índios cavaleiros, que conheciam profundamente seu território e sabiam fugir a todo encontro que lhes pudesse ser desfavorável " (Ribeiro, 1996).
Aliados aos canoeiros Payaguá, empreenderam ataques fulminantes por terra e água, como os realizados contra as monções paulistas que rumavam ao ouro de Matto Grosso, causando a elas mais prejuízo que todas as demais tribos guerreiras reunidas.
Repeliram ainda o assédio ideológico dos espanhóis, principais interessados em sua domesticidade, saqueando e destruindo reduções e aldeamentos missionários;
negando-se à conversão salvacionista e dificultando a catequização de outras tribos.
Impediram a utilização de caminhos mais curtos entre Assunção e o Peru, obrigando os viajantes a desviarem o curso de suas jornadas por caminhos tortuosos, causando atraso e prejuízo ao empreendimento colonizador.
Sentiam desprezo por o raça européia e orgulhavam-se de serem superiores, retribuindo à civilização o mesmo tratamento etnocêntrico e intolerante dispensados aos povos nativos.
Sobre esse assunto, Félix Azara, citado por Baldus, escreveu o seguinte:
«se creen la nación más noble del mundo, la más generosa, la más formal en el cumplimiento de su palabra con toda lealtad y la más valiente.
Como su talla, la belleza y elegancia de sus formas, así como sus fuerzas, son bastante superiores a las de los españoles, ellos consideran a la raza europea como muy inferior a la suya " (Boggiani, 1945).
A eles atribuem-se também importantes participações em episódios da História brasileira, como " o não estabelecimento dos paraguaios acima do rio Apa, numa época em que, primeiro aos portugueses, depois aos brasileiros, era materialmente impossível impedi-lo.
Em o curso da guerra do Paraguai lutaram ativamente ao lado das tropas brasileiras, mas sempre independentes, como uma força à parte, movida por motivações próprias e exercendo a guerra a seu modo " (Ribeiro, 1996).
Em sua trajetória histórica, resistiram com grande poder de adaptação, chegando até à segunda metade do século XIX com força para impor temor aos inimigos.
Atravessaram o século XX mantendo fortes traços culturais conseguindo chegar ao século XXI conservando certo grau de independência e a posse de uma reserva territorial cuja área encontra-se dentro do Município de Porto Murtinho (MS).
Hoje, estão representados por os Kadiwéu, remanescentes da divisão de antigas tribos Mbayá-Guaicuru.
Sobreviventes que, mais uma vez, tentam adaptar-se ao processo civilizatório que continua a pressioná-los com intolerância e etnocentrismo, resistindo ao assédio da sociedade envolvente que ainda pretende conquistar-lha alma e tomar-lhas terras.
Símbolo de resistência contra a deculturação compulsória, os Kadiwéu têm uma História que o povo brasileiro deveria conhecer melhor, não apenas por a ferocidade com a qual foram julgados bárbaros e cruéis no passado -- traço que a civilização experimentou muitas vezes -- mas por a capacidade de lutar e se adaptar sem perder a própria identidade.
Referências:
BOGGIANI, Guido.
Os Caduveo.
Introdução de Herbert Baldus. Prefácio de G. A. COLINI.
São Paulo: Livraria Martins, 1945.
Ribeiro, Darcy.
Os índios e a civilização:
a integração das populações indígenas no Brasil moderno.
1. Reimpressão -- Paulo:
Companhia das Letras, 1996.
Ribeiro, Darcy.
O Processo Civilizatório:
estudos de antropologia da civilização;
etapas da evolução sócio-cultural.
4. Ed.-- Petrópolis:
Vozes, 1978.
Pesquisa e texto:
Número de frases: 66
«Marcos Paulo Carlito
«E você?
Tem o costume de freqüentar galerias de arte da nossa cidade?».
Jornalista e entrevistada inverteram os papéis, e tudo o que consegui responder foi um " erm ...
não muito», engasgado e sem graça.
A artista plástica Cláudia Renault foi a responsável por o questionamento, em relação ao qual eu não pude fazer nada, senão me incluir numa geração que simplesmente não visita as diversas galerias existentes por as capitais desse país.
Gustavo Maia e Ronaldo Garcia bem que têm idade para fazer parte dessa geração.
Só que o contato acontece, naturalmente, por meio da profissão que escolheram:
artistas plásticos.
Os dois trabalham juntos numa casa grande e antiga, com um jardim enorme na entrada.
O bairro é um dos mais tranquilos de Belo Horizonte, o Santa Tereza.
A idéia de montar um ateliê coletivo surgiu já nos primeiros anos na Escola Guignard.
A função desse projeto (o qual leva o nome de " Mamacadela ") não se limita à produção dos integrantes do coletivo, mas também tem o objetivo de fomentar o circuito artístico da cidade.
«A idéia era criar esse espaço para que continuasse havendo uma troca de informações e experiências pós-faculdade.
Um aspecto importante na sua concepção é de que o local funcionasse também como uma canal alternativo de arte.
E em apenas alguns meses de atividade já organizamos quatro exposições aqui», explica Gustavo.
Não tardou para que o coletivo crescesse.
Logo após a primeira exposição, um novo artista, Ramón Martins, foi convidado a formar o trio que atualmente coordena as atividades no ateliê.
Para atrair um público desacostumado a freqüentar as galerias tradicionais, eles organizam festas nas inaugurações de exposições, buscando sempre manter um diálogo com profissionais e produtores de diferentes áreas.
De acordo com os idealizadores, a idéia tem funcionado.
«Comprovamos algo que já imaginávamos:
a produção artística na cidade é grande, mas ela, muitas vezes, não alcança os meios tradicionais.
Em cada festa que realizamos aqui, descobrimos que cada um tem um pouco de produtor e artista, pois várias pessoas nos procuram com trabalhos e idéias para realizar na casa», afirma Ronaldo.
Se o interesse do público existe, e os espaços também, agora falta criar o hábito de freqüentar, de sair da nossa casa.
«Iniciativas como a do Mamacadela deveriam ser permanentes.
Não é só necessário como recomendável não ficarmos presos aos espaços existentes.
Os novos artistas devem ocupar esse novos espaços, ver o que tá acontecendo na cidade, trocar informações, ampliar os horizontes», ensina a também professora " Claúdia Renault.
«Meia-dúzia que produz para meia-dúzia consumir "
As galerias de arte se tornaram com o tempo ambientes não muito receptivos.
Elas acabaram por criar um vínculo forte com o comércio.
As portas parecem fechadas para quem não pode ou não tem interesse em comprar as obras que elas oferecem.
Logo, o público que não compra se torna praticamente invisível.
Existe uma meia-dúzia que consome o que uma outra meia-dúzia produz.
De acordo com Gustavo e Ronaldo, isso só ajudou a criar e fortalecer um circuito fechado e elitizado de artes plásticas.
«Não existe muito essa cultura disseminada no Brasil de freqüentar galerias, as quais sempre foram associadas a uma elite que pode comprar.
Isso acabou criando a idéia de que ela é apenas uma loja.
Nós queremos sim vender nossos trabalhos, precisamos disso para continuar, mas de forma alguma queremos que o público fique restrito aos compradores», afirmam.
O Mamacadela não pretende fechar as suas portas agora para aquela mesma meia-dúzia.
Embora o objetivo seja atrair um público novo, nesse não estão os principais compradores, por isso a necessidade de manter o contato com os dois «mundos», ou misturá-los.
Quanto ao trabalho individual de cada um, ambos defendem a idéia de que só tendem a crescer.
Número de frases: 40
Trabalhar em coletivo é trabalhar por afinidade, por objetivo comuns, mantendo constantemente uma troca de informações.
A os 77 anos, Augusto Boal não esconde o orgulho de estar entre os 197 candidatos ao Prêmio Nobel da Paz 2008.
O nome do vencedor será anunciado em outubro.
«Evidentemente, há pessoas de influência muito grande.
Não tenho nenhuma expectativa de ganhar, mas estou extremamente feliz porque, entre os que apoiaram a minha nomeação, estão pessoas dos cincos continentes.
Isso é extraordinário.
É o reconhecimento da importância do Teatro do Oprimido», comemora.
A indicação de Augusto Boal pode ser entendida por sua frase, escrita em 1973 no livro Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas:
«Tenho sincero respeito por aqueles artistas que dedicam suas vidas exclusivamente à arte -- é seu direito ou condição!,
mas prefiro aqueles que dedicam sua arte à vida."
A dimensão cosmopolita do teatro de Augusto Boal já data dos quinze anos, entre 1971 e 1986, em que esteve no exílio político.
Em esta fase, Boal desenvolveu as experiências teatrais que lhe renderiam o reconhecimento internacional do público, da crítica, dos estudiosos e do meio teatral.
«Augusto Boal reinventou o Teatro Político e é uma figura internacional tão importante quanto Brecht e Stanislawsky», afirma o The Guardian
«Boal conseguiu fazer aquilo com que Brecht apenas sonhou e escreveu:
um teatro alegre e instrutivo.
Uma forma de terapia social.
Mais do que qualquer outro homem de teatro vivo, Boal está tendo um enorme impacto mundial», escreveu Richard Schechner, diretor de The Drama Review
Há muitos anos as proposituras do Teatro do Oprimido são objetos de teses de mestrados e doutorados e de cursos em diversas universidades por o mundo.
Boal é autor, entre outros, dos livros:
Teatro como Arte Marcial;
Jogos para atores e não atores;
e sua autobiografia Hamlet e o filho do padeiro.
«Hoje já existem pelo menos 29 livros publicados no mundo inteiro sobre mim ou sobre o Teatro do Oprimido, em línguas que vão desde o inglês, italiano, alemão, até o hindi indiano e o urdu do Paquistão», afirma Boal.
Suas idéias inspiraram os pontos de cultura de Gilberto Gil.
Atualmente, numa parceria entre o Centro de Teatro do Oprimido e o programa Cultura viva do Ministério da Cultura, o projeto Teatro do Oprimido de Ponto a Ponto proporciona cursos de multiplicadores do Teatro do Oprimido, no Brasil e na África.
Número de frases: 25
O dia começa com mais um atraso, dessa vez por pura falta de organização própria.
O que me leva a perder o início de Nanking -- Unibanco Arteplex 13:30
Mas isso não me causa danos, chego pouco antes da queda de Pequim, neste documentário americano sobre o massacre de Naking durante a segunda guerra.
Considerando que o último filme de ontem (Lust, Caution) se passa na China já ocupada mostrando seu movimento de resistência, esse torna-se um ótimo fechamanto para o assunto, colocando o tenebroso pano de fundo para o cenário histórico.
Em o ano passado assisti «A Última Bomba Atômica», documentário sobre os sobreviventes de Hiroshima, e agora vejo outros efeitos devastadores da guerra, como os japoneses como agressores.
Assim como o de Hiroshima, um dos melhores da minha Mostra, com nota 4.
Longe De ela -- Unibanco Arteplex 15:10
Sendo o filme na mesma sala, eu poderia ter ficado por lá mesmo e garantir um lugar melhor.
Mas as necessidades básicas da vida me forçaram a deixá-la e enfrentar a fila novamente com alguns amigos e conhecidos -- enquanto esperávamos para entrar fico sabendo que a cópia de «Glória ao Cineasta» ficou presa na alfândega e não chegou à tempo da seção de hoje, e comecei a temer por minha primeira seção de amanhã.
Um filme sóbrio e complexo, mais parado, mas de excelente qualidade, da estreante como diretora Sarah Polley (também conhecida como a menininha das «Aventuras do Barão de Munchausen» -- de Terry Gilliam), também nota 4.
Pintora aos 4 Anos -- Unibanco Arteplex 17:00
Mesmo lugar outra sala.
Um documentário sobre uma pintora prodígio que fascinou o mundo da arte até ser teoricamente desmascarada por uma reportagem televisiva.
Além da garota e sua família em si, o filme discute também os conceitos de arte, a fascinação das pessoas por crianças prodígio e seu próprio papel como registro fiel da realidade.
O filme envolve, tanto que a platéia reagia vividamente aos acontecimentos;
mas pessoalmente gostaria de ver mais sobre os assuntos ligados aos acontecimentos.
Ainda sim muito bom, nota 4 também.
Assim como ontem, hoje incidentalmente criei um padrão:
Frei Caneca.
O que tem sua forte dose de praticidade, já que não preciso ficar me deslocando.
Antes de encerrar as atividades dei um pulo na Central da Mostra para pegar os ingressos de Quinta e investigar os rumores sobre " Glória ..." --
não eram infundados, mas na hora que perguntei o filme já havia chegado, um alívio.
Número de frases: 22
Quinta-feira também será um dia Frei Caneca, veremos como se porta.
Aldeia de todas as tribos
Existe uma polêmica bizantina no âmbito da musicologia acadêmica que divide, de um lado os ' Tonalistas ` (os que afirmam que existe um sistema musical moderno e avançado, criado por sumidades burguesas européias, entre os séculos 17 e 19, supostamente, superior à uma música ' primitiva ` praticada por o resto do mundo) e, de outro lado, os ' Modalistas ', aqueles que acreditam que a música, surgindo de um fenômeno físico elementar, está subordinada apenas à determinadas leis da natureza, condição a qual estão expostos todos os seres humanos, sem qualquer distinção.
Realmente, se na natureza nada se cria, tudo se transforma, enquadrando a musica neste contexto, poderíamos compreendê-la sim, como um fenômeno caracterizado por a relatividade, num âmbito onde, a rigor, não existiria qualquer possibilidade de haver modernidade, primitivismo, ou qualquer outra instância de temporalidade, nenhum certificado de superioridade para quem (ou para o que) quer que seja.
Como música é também sinônimo de ritmo, movimento (tudo que ouvimos se move e nos move), obviamente, o mesmo raciocínio poderia ser utilizado para se definir Dança.
Música e Dança, seriam assim, fenômenos circulares, como galáxias, nas quais tudo circularia em torno de um eixo (elemento que os tonalistas odeiam de paixão) no caso, uma freqüência, uma nota (ou um gesto) agregadora de outras, como um sol agregando planetas, numa lógica sistêmica, quântica, harmônica enfim.
Toda esta conversa fiada -- e, aparentemente, maniqueísta -- é apenas para introduzir o tema que o blogueiro e Dj Lucio K, chamou de Ritmos de Periferia, Kuduro, Kwaito, Grime, e outras elétricas bossas afro-pops, hoje muito recorrentes e prestes a se tornar fenômenos universais.
Estamos propondo também, neste mesmo sentido, que o tema Kuduro e afins, seja discutido aqui, despido de todas as suas máscaras modernistas ou do esperto -- com o perdão do trocadilho -- bunda-molismo fashion daqueles argutos formadores de opinião, que ficam esperando de plantão, alguma nova onda surgir, para de ela se tornarem os pais descobridores.
Em terra de cego ...
O vírus na maçã.
A chamada Cultura Pop sempre foi gerada no caldeirão fervente das periferias.
Obvio ululante.
Mesmo a cultura HipHop, este emaranhado de atitudes sócio culturais atribuído à juventude desvalida das grandes metrópoles norte americanas, pode ser descrita, coerentemente, como o ôvo do futuro, gerado no mais remoto e desprezado dos passados.
Pura relatividade, portanto.
Sejamos francos:
Não há ' modernidade ', ' novidade ' possível (pelo menos em se tratando de música e dança populares) fora do contexto efervescente das periferias.
Fora dos guetos e favelas nada se cria.
Tudo se copia.
Sempre foi assim e, talvez, sempre será.
O eixo irradiador de toda esta fervura é o mesmo eixo de um centro econômico de cada época, cada ocasião, no caso, em nossos dias, Nova York, onde vicejaram o Rap, o Street Dance, o Grafitti, manifestações criadas nas periferias da grande maçã podre, a Big Apple sem Beatles, sem MacIntosh, sem nada.
Cultura popular orgânica, com potência de vírus (benigno?),
estas manifestações são, em ultima análise, o antídoto humanizador para o veneno intrínseco a um sistema arcaico e carcomido (pelo menos do ponto de vista cultural), totalmente ' out ` e ' nada a ver '.
Se duvidam, experimentem traçar uma linha de tempo e enxerguem (em preto & branco, é claro), lá longe, nos idos dos anos 50, um grupo de negros marcando o tempo com o estalar dos dedos, criando vocais em contraponto, nas esquinas de conjuntos habitacionais infectos ou cantos de quadras de basqueteball suburbanas.
Soul e Funk básicos (e ainda o velho Rock and Roll), rolando já ali naquelas manifestações atávicas, quase ancestrais.
Firmem a vista e vejam o que se dança nestas esquinas.
Andem para trás, um pouco mais, e vejam o som das plaquetas metálicas do sapateado ecoando no paralelepípedos das ruas.
Isto mesmo!
É aquele mesmo sapateado do Gregory Heynes, do Sammy Davis Junior, antes mal assimilado por os Fred Astaires de ocasião, usufruidores dos lucros do mainstream, este ambiente insípido, onde tudo que uns criam os outros copiam.
Saiam da Broadway, rápido, e vejam mais longe ainda o som vibrante do bate-enxadas e do baticum ritmado das botas dos trabalhadores das estradas de ferro que cruzaram os States de leste á oeste, unificando as distancias, antes, sofridamente, percorridas à cavalo ou por as empoeiradas diligências que conhecemos nos filmes de Far West (e bota Far nisto).
Escutem o que eles cantam.
Há work songs, Gospels, Spirituals, Rhytm ' n ' Blues, Soul e Funk ainda rolando por ali.
Querem regredir um pouco mais?
Não? Ok.
Já sabemos muito bem onde isto vai dar.
Mas, vejam bem, são cruzamentos entre vias as mais diversas, os mais inusitados caminhos.
Não importa muito se são negros ou brancos os criadores dos elementos básicos desta cultura urbanopop, que nos apaixona a todos.
Afinal, são meros seres humanos os criadores desta força emocional que nos mantém, a todos, unidos, vivos e felizes.
Os criadores são o que são -- ocorre que, no caso deste nosso estranho mundo ' moderno ', eles têm sido negros (ou não brancos, tanto faz) desde há muito tempo -- é que o universo capitalista é mesmo este insano criador de periferias, pústulas urbanas, lixo debaixo do tapete, encruzilhadas e guerras.
Mundo extremista, cruel, que ainda morre disto um dia.
Mas, e o Kuduro?
Brasileiros que somos, se focarmos mais ainda a nossa lente, vamos encontrar no Kuduro, a mais pura essência (os tonalistas também odeiam este conceito) de nossa tão ambígua e fugidia brasilidade.
Duvidam?
Saudades da Ala dos Malandrinhos
Em minha já quase remota adolescência, ali por volta de 1960, exposto como todo mundo de meu bairro, à arte de nossa escola de Samba, me vi, certa feita, irremediavelmente, tomado por o prazer de assistir a um ensaio de um grupo de jovens passistas, homens e mulheres, a maioria meus amigos de rua ou de esquina.
Por sermos pobres, mesmo sendo sábado, nos vestíamos, modestamente, com roupas de domingo.
Aquele ensaio era muito especial.
Eles, os amigos, haviam me dito que no dia do desfile arrasariam, vestindo calças e sapatos brancos, camisetas listadas e chapéus duros, de palhinha, evocando malandros de antigamente.
Me contaram tudo em detalhes porque queriam que eu também fizesse parte do novo grupo que, a exemplo do que ocorria em outras escolas de Samba da região (Portela, Império Serrano e Mocidade Independente de Padre Miguel) se transformava num grande fenômeno suburbano, atendendo por o curioso nome de Ala dos Malandrinhos.
Não tive jamais coragem de entrar naquela dança, deste rito de passagem eu sobrei (até hoje não consigo dançar melhor do que um ganso manco).
O fato é que as Alas dos Malandrinhos, eram uma coisa realmente inusitada no âmbito tradicionalista das escolas de Samba e, por isto mesmo atraíam a parcela da juventude tida como a mais ' moderninha ' do bairro.
Em as Alas dos malandrinhos não se dançava, convencionalmente, como nosso pais e avós dançavam.
Ali, podíamos inventar intrincados passos, um pouco parecidos com passos de Samba, tirados, sabe-se lá de onde, de que memória ancestral.
Ali se dançava, simplesmente, em conjunto, como um grupo de bailarinos disciplinados que, vez por outra partiam para solos endiabrados, como se dizia na época: '
Ditos no pé '.
Os mais velhos torciam o nariz enojados, chamando aquilo, depreciativamente, de ' coreografia ', acusando-nos de reles imitadores de crioulos americanos (não sabia como eles conseguiam enxergar influência estrangeira naquele samba estilizado que meus amigos faziam).
Mas hoje vejo que era mesmo Funk e Soul, Blackdance em suma, o que vasava daquela complexa fraseologia de passos ' marcados ', que rolava ali na quadra, que fazia as vezes de uma esquina de um Harlen desconhecido e improvável.
Agora mesmo diria mais:
Era a África possível pulsando no corpo da gente.
Atavismo na medida certa para a nossa desmedida juventude.
Ontem assisti à dezenas de vídeos de jovens angolanos dançando o Kuduro.
A grande coqueluche das periferias africanas, sobretudo os mussekes de Luanda, Angola, onde dizem, o Kuduro começou.
A seção de vídeos me paralizou.
Me chamou, particularmente a atenção, o trio de meninos que se intitulam ' os Pupilos do Kuduro Incrível»!
Minha memória se acendeu, imediatamente, iluminando tudo.
O Kuduro e nós.
Teria mesmo algo a ver?
Ku, palavra e não palavrão, parece vir do mais puro vernáculo do Kimbundo (MataKu = nádegas, assento plural de ritaku), principal língua falada em Luanda, Angola (da qual falamos centenas de vocábulos, sem saber -- inclusive Ku, certo?)
O sentido figurado da palavra é, exatamente, o mesmo que usamos no Brasil:
Bunda (palavra aliás, oriunda também do mesmo Kimbundo), literalmente traduzida para o portugês também como nádegas.
O sentido da expressão Kuduro poderá ser melhor explicado por um Angolano, mas, ao que tudo indica, significa o que parece:
Kuduro = Bunda imóvel, sem rebolar, o que, considerando-se que um dos movimentos fundamentais da dança angolana é o sofisticado rebolado (dos homens inclusive), é muito significativo.
Algo como uma dança diferente, supostamente ' moderna ', no âmbito das danças tradicionais que, como já disse são, extremamente, rebolativas.
Contudo, dança livre que é, no Kuduro também se pode rebolar, é claro, basta querer.
Dito isto, o Kuduro, inserido no âmbito da cultura Hip Hop, é uma dança de rua (ou uma street dance, para quem gosta americanismos) Como todos os outros gêneros assemelhados, o Funk carioca e o Kwaito (da África do Sul) é a resposta africana avassaladora influência da indústria cultural de massa capitalista, cujo eixo como se sabe, localiza-se, desde o fim da segunda guerra mundial, na América do Norte.
Mas o Kuduro também é um símbolo dos mais fortes, neste momento, da enorme capacidade da resistência cultural das populações não-brancas, do outrora chamado Terceiro Mundo, diante da pressão globalizante, sinônimo evidente de aculturação.
Kuduro Checkup
Em o Kuduro angolano -- e vejam vocês mesmos que coisa curiosa!--
os passos do mix, da fusão com o break, são o mais puro e carioca dos Sambas.
Incrível!
Acreditem, mas, os Pupilos do Kuduro, e outros kuduristas, quando em conjunto, dançam, quase exatamente, o que a nossa Ala dos Malandrinhos dançava lá naqueles bem passados anos 60.
Os braços e as mãos dançam break, mas, da cintura para baixo, bundas e pernas dançam o mais desbragado dos Sambas.
Pode?
Teria sido aquela minha saudosa rapaziada de Padre Miguel a inventora do Kuduro?
Alguns pesquisadores tentam explicar a estrutura da base rítmica, da batida (beat) do Kuduro por meio de teorias moderninhas ou simplificações que insistem em preconizar a importância, ao nosso ver, exagerada, das tecnologias na criação e na evolução destas danças e gêneros musicais.
Os reis da parada seriam portanto os equipamentos eletrônicos (como o já velho Sampler, por exemplo).
Apenas uma opinião, mas, é preciso cuidado porque assim, por extensão, o papel do Mocinho poderia ser atribuído a sociedade neoliberal globalizada, ao Capitalismo em suma, e ao estupendo grau de desenvolvimento tecnológico que ele propicia.
Besteira.
Baita injustiça, sobretudo.
Não há nada de novo nesta praia deserta, neste giro do prato de velha vitrola hi fi.
O Sampler e sucedâneos são, neste contexto, apenas instrumentos musicais, meios, facilitadores de registro, meros suportes.
Se disponíveis estiverem, ferramentas de cultura serão.
Se não estiverem, outras ferramentas se inventarão.
Aliás, o que um Sampler faz mesmo?
Não muda nada.
Copia. E haja periferia e miséria para samplear.
A grande sacação (e isto vem desde que o mundo é mundo) é, portanto, a capacidade do homem de tirar leite das pedras, resistir sem esmorecer jamais, reinventando linguagens, recriando sempre a partir de dados do cotidiano, subvertendo referências e sentidos comunicativos, extraídos de seu passado mais remoto, cimentando os degraus do presente, sem ilusões de modernidades vãs ou de futuro radiante.
Vírus no sistema.
O Mocinho verdadeiro desta história-Y o anti herói -- não é a sociedade, mas sim o homem.
Inside the Kuduro (
em português não ficaria melhor não)
Senão vejamos:
Em todos os gêneros citados (entre outros), a alma do negócio é um som de caixa e contratempo.
É esta a célula rítmica base, a matriz, o DNA, sobre o qual se criará os sons que bem entendermos.
Poderia ser um humano baterista lá no fundo, marcando a batida, mas, fica bem mais econômico usar um som gravado.
No caso do Kuduro clássico (como ocorre com toda coqueluche pop, as distorções e deformações aparecem rapidamente), a batida copiada (sampleada) parece ser o que se chamava nos anos 70, 80 de Kabetula, um ritmo muito popular em Luanda, semelhante ao Semba, do qual talvez seja uma variação (uma outra corrente afirma, contudo, que o Kuduro é uma variação do Kuzukuta, ritmo popular do carnaval angolano).
Ficou tudo em casa, no entanto, porque ambos os ritmos (como a maior parte das danças de negro do Brasil, desde, pelo menos, o século 19), tipicamente urbanos que são, vieram, provavelmente, do Kaduke, espécie de Kuduro surgido na cidade de Ambaça (Mbaka), grande centro urbano e comercial (!)
lá por os idos de 1880 (veja Capello e Ivens), no tempo da colonização portuguesa em Angola
Este Kaduke, talvez tenha gerado, a partir do mesmo processo, no Brasil colonial, o Kalundu que, mesclado à danças européias como a Polka e a Mazurka (espécies de danças de periferia brancas, populares na Europa central), deram numa dança popularíssima na Corte brasileira (um Kuduro colonial) chamada de Lundu.
Pois não é que o Kaduke, o Kalundu e talvez até mesmo o Jongo formaram talvez, a base principal -- coreográfica e musical-de o que conhecemos vulgarmente hoje no Brasil como Samba?
Viram só?
Kuduro e Samba:
Tudo a ver.
Fenômeno recorrente, efetivamente, existem manifestações como o Kuduro em todas as periferias do mundo.
Decupando a estrutura de todas elas, especialmente no que diz respeito à coreografia, encontraremos, quase que invariavelmente, a seguinte composição:
Passos e gestos de Break Dance, fundidos a movimentos de uma ou mais danças tradicionais, tribais mesmo em muitos casos, existentes na cultura local.
Alguém já parou para pensar que na violenta e exuberante expressão coreográfica de uma multidão de jovens favelados do Rio, muitos de eles portando fuzis automáticos como se fossem lanças, existem passos completamente estranhos ao novaiorquino repertório de movimentos de break original, de, entre outros, James Brown e Michael Jackson?
Há break sim, mas, um pouquinho só.
Há desconjuntamento de braços e punhos, movimentos robóticos, como imagens de luz negra intermitente, mas, o que será que significam os outros passos?
Ora, é evidente que, olhando detidamente os movimentos de dança deste Funk Carioca, iremos encontrar a mesma filosofia coreográfica do Kuduro, em nosso caso, representada por passos de umbanda e candomblé (ritmos aliás, hoje banidos de algumas favelas cariocas, dominadas por a cultura ditatorial-evangélica das milícias).
Assim como na África e no Brasil, na Índia, no Afeganistão, na Indonésia, a fórmula beat futurista somado à tradição, se repetirá.
Uma lógica planetária, uma espécie de cultura global periférica se estabelecerá.
Para nós brasileiros, por exemplo, o Kuduro pode vir a representar a feliz descoberta de que, embora alguns anseiem, desesperadamente, por o nosso ingresso no clube dos brancos países desenvolvidos, fazemos parte sim -- e disto muito devemos nos orgulhar-de o universo paralelo da mais complexa, viva, diversificada e pujante Periferia.
Como, facilmente, se pode notar, o mundo roda enquanto a cultura das periferias gira, circula, como um bambolê.
Somos do Overmundo, o pá!
O Bicho, o vírus da maçã.
Y love you Angola!
(Em tempo: Em terra de cego, quem tem um olho, infelizmente é ...
caolho.) Spirito Santo
Número de frases: 128
«Outubro 2007 «Depois de ver Braakland, não devíamos ver outra peça no mesmo dia, porque nenhuma chegará aos pés de ela», comenta o crítico de um grande órgão de comunicação no ônibus escolar para imprensa, depois de assistir um outro espetáculo pobre (o adjetivo subjetivo foi usado apenas para não humilhar essa produção que não será resenhada).
Uma das peças mais comentadas este ano no FIT, Festival Internacional de Teatro de Rio Preto, Braakland utiliza recursos opostos aos preceitos do teatro convencional para transmitir sua mensagem.
Ela abusa de amplo espaço cênico, longas distâncias entre o público os atores, ausência de ação expressiva e brincadeiras com o tempo.
Em este parágrafo, em que normalmente escreveria a história encenada, apenas especularei um dos sentidos da peça, já que ela pode gerar diversas interpretações.
Oito personagens vivem numa espécie de comunidade isolada, indiferentes aos juízos de valor convencionalmente ligados à morte e à violência.
Quando um de eles morre, apenas tratam de tirar a roupa do cadáver, e achar uma utilidade para elas.
Se não são úteis, são descartadas.
Esses personagens vivem desprovidos de sentimentos -- seja amor, raiva, compaixão ou tristeza.
Apenas executam suas tarefas corriqueiras, como carregar um balde de água ou cavar, sem nenhuma emoção.
Comportam-se instintivamente, como os animais:
quando dá vontade de transar, vão atrás de uma fêmea e simplesmente a estupram, mas sem a conotação que a palavra propõe, porque a mulher em questão não se incomoda com a atitude -- violenta para a nossa sociedade.
Quando têm vontade de matar, matam, sem dor na consciência.
Em dado momento chega um personagem externo, uma mulher, que carrega ainda os valores de outro tipo de civilização.
O espetáculo mudo foi encenado no «lugar desconhecido» -- a forma como a organização do evento chamou o matagal onde a encenação acontece, lugar em que o público chega de ônibus, diretamente do Teatro Municipal da cidade.
O espectador precisa andar dois quilômetros do ônibus até as arquibancadas, onde assistirá à peça a céu aberto.
Algumas pessoas do público se divertiram bastante zoando uns aos outros, por andar em cima de estrume, mas a caminhada é fundamental para compor o clima.
Como a platéia observa as pessoas em cena a no mínimo 50 metros de distância, não nos aproximamos dos personagens e nem criamos nenhum vínculo emotivo com eles, assim como nenhum de eles possui esses laços emocionais.
Desta forma participamos da não-ação do espetáculo.
Os espectadores também acabam exercendo uma função de voyeur, já que tudo parece acontecer em tempo real.
Em uma das cenas, um dos personagens corre de uma extremidade do espaço cênico para a outra, e isso leva um bom tempo para acontecer.
Praticamente observam o cotidiano daqueles personagens até dado momento, quando a sociedade começa a se auto destruir, assim como a nossa mesmo se auto consome.
O trabalho foi desenvolvido por a Compagnie Dakar, da Holanda, e rompe com a maioria das convenções vistas normalmente no teatro.
E sobretudo, propõe uma reflexão.
O caminho de volta até o ônibus, por a mata, com o pôr do sol de paisagem, realmente não é visto da mesma forma como na chegada.
Número de frases: 24
Mudamos o jeito de olhar.
Em meio à apatia generalizada, metástase da impassibilidade em que se encontrava o Recife pós-golpe militar, quando pouco ou nada de novo conseguia emergir de seus becos, um grupo de amigos, liderados por os músicos Chico Science e Fred Zero Quatro, reuniu-se, no início da década de 90, denunciando a estagnação, o vazio criativo e o depressivo quadro social em que viviam seus habitantes.
Suas idéias foram reunidas num tipo de manifesto, intitulado «Caranguejos com cérebro», no qual clamavam:
«Um choque rápido ou o Recife morre de infarto», por a obstrução de suas artérias, a matança de seus rios e o aterramento de seus estuários.
O texto falava do conceito de mangue, de sua importância para o equilíbrio ambiental e da cena musical que na cidade despontava, à qual eles deram o nome de manguebeat, ao mesmo tempo em que propunha uma saída, «para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos», através de uma mudança de atitude urgente:
«Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade?
Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.».
Chico Science criou a banda Nação Zumbi e Fred Zero Quatro, a Mundo Livre S/A. Após alguns shows em bares do Recife, ambos lançaram seus primeiros discos, «De a lama ao caos e» «Samba esquema noise», respectivamente, em 1994.
Após se apresentarem na primeira edição do festival «Abril para o rock», que surgiu na mesma época, dividindo o palco com Gilberto Gil na canção» Macô», Chico Science e Nação Zumbi despertaram a atenção dos críticos para sua música.
A mistura de sons da banda adveio, de forma natural, da formação musical de seus componentes, vindos parte de um grupo de rock, o Loustal (entre eles, o próprio Chico e o guitarrista Lúcio Maia), parte de um grupo de samba-reggae e outros ritmos afros, o Lamento Negro.
Em 1996, lançaram o segundo disco, «Afrociberdelia».
A simbologia do mangue reproduzia bem as características do movimento, com sua diversidade de espécies representando a variedade de estilos, sua localização, entre o rio e o mar, entre a água doce e a salgada, equivalendo à mistura de ritmos e sua destruição representando o esvaziamento da alma da cidade.
Seguindo o ímpeto tropicalista de misturar, o manguebeat tinha como imagem símbolo uma antena parabólica enfiada na lama do mangue.
«Pernambuco debaixo dos pés e a mente na imensidão».
Em as letras, referências a revoltas e líderes populares, à concentração de riquezas, à discriminação, à fome e seus males, com citações à revolução praieira, a Antônio Conselheiro, Zumbi e Josué de Castro, este último espécie de ícone do manguebeat, com suas alusões ao «estranho mimetismo entre homens e caranguejos», tão bem representado por Chico Science nas canções e também no palco, em sua admirável e singular performance.
O fim do segundo milênio começava a despontar e uma pesquisa feita por um instituto da cidade de Washington -- Eua, apontava o Recife como a quarta pior cidade do mundo para se viver, fato descrito por Chico Science numa de suas canções.
A cidade crescera rápida e desordenadamente.
«A cidade não pára, a cidade só cresce.
O de cima sobe e o de baixo desce».
A exposição desses contrastes sociais e da dura realidade de uma «situação sempre mais ou menos, sempre uns com mais e outros com menos», contribuiu para que o manguebeat fosse bem melhor aceito na periferia, seu berço e fonte de inspiração.
A forte vibração vinda do mangue abalou um pouco as sólidas estruturas da sociedade conservadora recifense.
Os respingos da lama nas varandas de seus apartamentos de luxo, qual «a chuva que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma», desagradaram aos assustados e aflitos burgueses, protegidos em suas casas fortes, os quais, diferentemente das populações ribeirinhas, que (sobre) vivem em» mocambos entulhados à beira do Capibaribe», sempre apreciaram o mangue à distância, do alto dessas varandas, com vista para o rio.
O duro retrato de uma manguetown miserável (" Tô enfiado na lama / é um bairro sujo / onde os urubus têm casas / e eu não tenho asas ") não caiu nas graças dos mais abastados que, embora na mesma cidade, viviam em outro mundo, tampouco lhes cheirou bem (" ninguém foge ao cheiro sujo da lama da manguetown ").
A modernização da sonoridade, por sua vez, aproximou o movimento dos mais jovens, deixando os mais velhos bem reticentes, quando não exclamativos, à teoria de que «modernizar o passado é uma evolução musical».
Concordando ou não com essa teoria, temos que reconhecer o papel fundamental de Chico Science na revalorização da tradicional cultura popular do estado, na revitalização do carnaval do Recife e de ritmos como o coco e o maracatu.
Pernambuco sempre se fechou um pouco em sua forte tradição de cultura popular, regional e, talvez por isso, tenha tido, nas últimas décadas, pouco acesso à mídia, infelizmente cada vez mais globalizada (Alceu Valença, um dos que primeiro praticaram, no estado, a mistura de rock com ritmos locais, foi uma das raras exceções).
Chico Science e Nação Zumbi quebraram um pouco essa separação, modernizando a música regional, aproximando-a dos mais jovens e abrindo as portas para que outros músicos e grupos, que vieram em seus rastros, conseguissem mais espaço, quer seguindo a mistura e diversidade de estilos do manguebeat, quer não.
Nomes como Otto, ex-Mundo Livre S / A;
Siba Veloso, ex-Mestre Ambrósio;
Silvério Pessoa, ex-Cascabulho;
as bandas Devotos e Faces do Subúrbio e, mais recentemente, Cordel do Fogo Encantado e Mombojó.
Chico Science faleceu precocemente, aos trinta anos, num acidente de carro, num domingo, dia 2 de fevereiro de 1997, dia de Iemanjá, entre o mangue e a praia, entre a lama e o caos, entre o rio e o mar, entre Recife e Olinda, entre rios, pontes e overdrives.
Há dez anos.
Seus preceitos de liberação da mente, expansão da consciência e tudo o mais que faça alguém ficar pensando melhor, continuam bem vivos e em sintonia com os anseios de quem está sempre à busca de romper as fronteiras dos jardins da razão.
Número de frases: 34
Sexta-feira, semana foi carregadíssima, muito trabalho, mas o dia ensolarado, claro, dá ânimo pra qualquer um.
Sabe aquelas dias em que o despertador não é seu primeiro aborrecimento?
Pois bem, meu dia começou assim.
Mas apenas começou.
Quando estava, depois do café da manhã, apreciando o nada, olhando a grama do quintal, olhando o céu claro sem sinal de chuva, vejo a droga de um panfleto de propaganda sendo jogado do lado de fora do muro e caindo no chão.
Apanhei e amassei no mesmo instante e fui rapidamente abrir a porta pra ver se encontrava o desgraçado que fez isso.
Tinha sido uma mulher, com farda da sua digníssima empresa, esta distinta senhora ainda teve a ousadia de perguntar se eu tinha visto o panfleto, foi então que reparou que o mesmo estava completamente amassado na minha mão.
Não lembro da última vez que vi um sorriso tão amarelo e sem graça, mas não durou muito, ela deu bom dia e saiu rapidamente, sem sequer esperar umas verdades.
Isso me dá tanta raiva.
Essa falta de ética na publicidade é um absurdo.
Chegar ao ponto de poluir o quintal das pessoas logo cedo, de invadir as casas das pessoas sem ter noção se aquele anúncio é relevante, se aquela pessoa se interessa por determinado produto ou serviço.
Infelizmente é o que vemos em todas as esquinas das grandes cidades.
Pessoas nos empurrando panfletos, outros gritando em megafones, carros de som, sons na porta das lojas, outdoors etc..
Somos invadidos violentamente por publicidade anética.
Será que é difícil perceber que isso é negativo para estas empresas, que quase ninguém vai ler, prestar atenção nesse tipo de propaganda e que ainda vai se aborrecer?
Eu não sou ranzinza, pelo contrário, sou apreciador de propagandas.
É o que ainda vejo de interessante na TV -- propagandas.
Claro, não todas.
Mas detesto com todas as forças essa falta de respeito, essa falta de dignidade com as quais somos tratados.
Somos vistos como números, como fator determinante de impressão de panfletos, como alvo.
Alvo.
Interessante esta nosso posição, não é?
Mas alvo nunca se dá bem;
sempre é flechado, perfurado, estourado, bombardeado.
Isso não é bom.
Número de frases: 25
Não mesmo.
O Rio de Janeiro, pra quem mora fora, é sinônimo de violência.
Para os turistas é o «el dorado» de um país cuja capital é ...
Buenos Aires? Entre os cariocas, o Rio é muita coisa.
Para os que trabalham no centro da cidade -- entre os quais me incluo -- o Rio é caos e multidão com o Pão-de-Açúcar ao fundo.
É acordar de manhã e tomar café lendo no jornal as notícias sobre a última invasão do BOPE no Complexo do Alemão, o último acidente na Avenida Brasil ou a última do persistente prefeito lelé da cuca.
Dia desses, enquanto conversava com uma velha amiga de Minas Gerais, disse que compreendia quando ela afirmou categoricamente:
«Só caio aí depois do carnaval.
Essa época o Rio é puro assalto e confusão».
Amante de cada palmo dessa cidade, cada vez que escuto esses pormenores da mente medrosa de fora me pergunto se moro nesse mesmo Rio de Janeiro, tão famoso por suas facetas sombrias, típicas de qualquer metrópole.
E o carnaval ...
O pingo do «i» da palavra «carioca», diminuído a uma» época de puro assalto e confusão»?
Que fazer com isso?
Poucas horas depois me veio a resposta.
Por e-mail veio o registro do Lucas, feito num celular (salve a tecnologia!),
de uma pérola dos festejos de Momo.
O fato não é novidade.
Acontece todo ano:
no meio de seu trajeto, o bloco Gigantes da Lira, cheio de bebês de colo, crianças e adultos brincando de palhaço nas ruas de Laranjeiras, pára na frente do prédio de Dona Elizabeth.
Ela, foliona de velhos carnavais, não tem mais o pique necessário para ir até o bloco.
Ele, então, vai até ela.
Ali, na frente da janela de Elizabeth, que já é conhecida e reconhecida como a «Musa do Gigantes», as centenas de foliões matinais lhe oferecem uma serenata.
Ano passado, guardando luto de seu esposo que se foi depois de décadas de casamento, dona Elizabeth deu um susto no bloco.
Esse ano, porém, a tradição foi retomada.
Com a chegada da banda, cabeleira branca, olhos marejados, ela afastou a cortina, acenado para o povo.
De o coro, recebeu Carinhoso, de Pixinguinha.
Centenas ... Todos voltados para a janela de ela:
uma anônima para a maioria.
Aquela gente cantava para ela, por o Rio e por o carnaval.
Singelo e desprendido, o gesto é, no fim das contas, uma afirmação de até onde se pode ir, espontaneamente, na afirmação da alma dessa cidade.
Em um fim de semana tipicamente carioca, com Simpatia é Quase Amor em Ipanema, Mangueira em Copacabana, Beija-Flor na Sapucaí e goleada do Flamengo no Maracanã, a serenata da «vovó Elizabeth» pontuou de forma emocionante o «esquenta» de 2008, perpetuou o sorriso de carnaval dos filhos do Rio.
Isso é carnaval.
Isso é Rio de Janeiro.
Você aí de fora pode não acreditar, eu sei ...
Ah, se tu soubesses ...
Número de frases: 35
Texto:
Luiza Delamare e Giselle Godoi
Com uma arara repleta de exuberantes roupas vermelhas, além do sofá com estampa de oncinha, a sala do apartamento de Walério Araújo contrasta com o cinza dos 400 quilos de concreto por metro cúbico que formam o edifício Copan, localizado no centro de São Paulo.
Particularidades como o apartamento do estilista pernambucano de 35 anos podem ser encontradas antes mesmo que se suba no edifício.
Já na galeria, em frente ao tradicional Café Floresta, que acompanha boa parte da história do Copan, todas as noites um grupo de moradores se reúne para conversar e relembrar histórias e lendas do edifício.
Um dos moradores do bloco F, Gaspar de Castro, conhecido como Copan News, costuma contar a história de uma moradora do bloco E, que, depois de dizer que Nossa Senhora tinha aparecido em seu apartamento, passou a sair por os corredores e por a galeria vestida de branco com um megafone, espalhando o fato e pregando a palavra de Deus.
São comuns também histórias de brigas em que eletrodomésticos são atirados por as janelas do edifício.
«Já vi fogão, geladeira e até botijão de gás caindo.
Ainda bem que ninguém se machucou com isso ', conta Gaspar.
Outra história bem conhecida do Copan é contada por o síndico, Affonso Celso Prazeres de Oliveira.
Ele diz que um fantasma ronda a casa de máquinas do edifício e faz a bomba de água funcionar às três ou quatro da madrugada.
«Esse mesmo fantasma costuma me visitar também na administração.
Todo dia, no fim do expediente, ele passa e dá tchauzinho ', diz Afonso.
Em o edifício há aproximadamente 5 mil moradores e circulam no local em torno de 6.500 pessoas por dia.
A diversidade não se restringe às histórias narradas, elas estão presentes na diferente identidade das pessoas que compõem o Copan.
às vezes o elevador desce com drag queen, gay, senhora de idade, criança ...
E não há nenhum problema ', revela João Signhoini, que mora no bloco B há um ano.
Essas diferenças alcançam as classes sociais, como ressalta o síndico:
«Aqui tem de analfabeto a PHD.
Em a nossa garagem você encontra de mercedes a fusca».
Isso se explica porque o tamanho dos apartamentos muda conforme o bloco, que varia de 29 m2 (nesse caso, são 20 apartamentos por andar) a 214 m2.
Os moradores dos andares mais altos, onde nenhum prédio atrapalha a bela imagem, conseguem ver São Paulo como em poucos pontos da cidade.
às vezes, eles são surpreendidos por morcegos em seus apartamentos, ou até mesmo por urubus, que pousam na janela.
«Quando isso acontece, eu chamo o porteiro, que já está acostumado a essa coisa de espantar morcegos e outros bichos que aparecem por aqui», conta Marcelo Adriano Amarro, que mora no 28° andar do bloco B. Os prédios ficam pequeninos lá de cima, e isso liberta a imaginação.
«É como se de minha janela eu pudesse ver o futuro e imaginá-lo como no desenho dos Jetsons:
a cidade lá em baixo e os carros voando bem em frente ao meu apartamento.
Talvez até enfrentando certo trânsito aqui em cima», diz Marcelo Adriano ao se deslumbrar com a vista de seu apartamento.
Se de cima o cenário permite que a imaginação remeta ao futuro;
de baixo, do exterior do prédio, o passado pode ser relembrado.
O nova-iorquino Kevin, que mora no Copan há apenas seis meses, diz que o edifício lembra a época de sua infância, década de 60, quando eram predominantes o otimismo e o sonho de manter uma comunidade que vivesse em harmonia numa única estrutura.
Algo que, arquitetonicamente, ele identifica com o edifício Copan.
Hoje, o edifício tem normas de conduta rígidas.
São as chamadas Leis do Copan, que apresentam algumas curiosidades, como proibir a limpeza das janelas do lado de fora.
Mesmo assim, não faltam elogios.
«Hoje o Copan é um edifício padrão», diz Willian Cardoso Espósito, porteiro do bloco B. A liberdade de antes dava espaço aos pontos-de-venda de drogas.
Havia também casos de garotas de programas que traziam o seu trabalho para dentro do edifício.
Mas tudo isso mudou com a entrada do atual síndico e a eficácia de suas regras.
A mudança já está tão consolidada que os antigos moradores quase não se lembram deste passado do Copan.
Carla, 70 anos, que mora no bloco C há 31 anos, ao ser questionada sobre esse passado do edifício, diz que, graças ao síndico, tudo está mudado e ele só merece elogios.
«Não saio daqui por nada.
Minha história está aqui.
A única coisa ruim que posso citar é que uma vez fiquei presa no elevador.
Não me lembro de mais que não goste», comenta a moradora.
De qualquer maneira, uma única visita ao edifício basta para encontrar cenas e histórias que permitem que o Copan seja entendido como uma vitrine paulistana.
Logo de manhã, o pequeno tumulto das pessoas que estão no hall do bloco B ilustra isso:
um rapaz traz em seu ombro um papagaio, um homem de terno e maleta espera o elevador, uma moça com um cachorro conversa com o porteiro, enquanto uma senhora chega da feira com suas compras.
Mais uma vez as cores do Copan e suas histórias impregnam o cinza de sua fachada.
Número de frases: 47
Maria Augusta Ramos, se vocês não tão lembradas, dá licença de contar.
É uma senhora indignada com injustiça onde ela exista.
Por isso documenta sessões nada especiais de justiça, por o que já ganhou prêmios até internacionais: '
Grand Prix ` no Festival Visions du Reel, Nyon, Suiça e o'Grand Prize ' no Festival Internacional de Documentário de Taiwan ( ...
-- Ih!
E agora que a oposição ganhou lá, divindades das moedas universais ...
-- Tá, tá, isso é outro assunto eu sei, nem é da cultura, é da política, mas política é cultura, --
mas não é do Brasil nem de brasilero fora daqui ...
-- mas é do Planeta ...
-- Chega de encher linguiça!
-- Tá, tá ...
deixa assim, tá!
...) Maria Augusta é autora de um documentário, que chamou extamente de Justiça.
Trágico, dramático, sofrido.
Um retrato da humilhação das pessoas pobres às barras de tribunais nossos, essa vetusta instituição, como diz minha avó.
Diz mais do trabalho de Maria Augusta a professora Glória Reis, que também prova o amargo remédio da coisa medonha essa por denunciar condições desumanas em cárceres da cidade de ela e do país:
-- ... uma das cenas mais tristes e revoltantes no documentário Justiça, de Maria Augusta Ramos, que recebeu inúmeros prêmios em festivais internacionais, desde 2004, quando foi lançado.
Alan ...
é asmático e pesa 38 quilos.
É acusado de tráfico de drogas.
A o se sentar diante do juiz para ser interrogado, coloca as mãos para baixo.
«As mãos têm de estar em cima da mesa.»,
diz o juiz.
Inacreditável que eles tenham regras até para a posição das mãos e que o juiz se incomode com as mãos do menino magérrimo, mas não diz nada quando os réus interrogados, durante o documentário, relatam que foram espancados por a polícia no ato da prisão.
Em um outro interrogatório, o réu está numa cadeira de rodas, as pernas são atrofiadas.
Acusação: ter pulado o muro para cometer um crime qualquer.
O juiz não dá a mínima atenção quando o réu diz «como é possível eu ter pulado o muro na minha condição?».
-- Você já estava assim quando a polícia te prendeu?,
pergunta o juiz.
O pobre infeliz responde que sim e pede ao juiz que o transfira para um lugar compatível com a sua deficiência física.
É inacreditável, mas o juiz responde:
-- Eu preciso que um médico dê um atestado, procure um médico.
Eu não posso fazer nada.
Ah!
Número de frases: 34
Onde estais deusas minhas, onde estais que não acodem?
O que pode se passar na mente de alguém que não conhece suas raízes?
A pergunta quem sou eu?
deve incomodar, e este é o questionamento vivo em muitos indígenas e descendentes na região amazônica do Alto Rio Negro que têm perseguido suas respostas motivados por uma recente corrida promovida por comunitários e impulsionada por ações de organizações indígenas visando o auto-resgate cultural.
Mas antes de embarcar na causa de um grupo étnico específico entre os 23 da região, a busca é pessoal para quem os próprios descaminhos da vida rompeu os laços.
A vida de Jorge Pereira dos Santos segue esta trajetória rumo ao seu encontro com ele mesmo.
A trajetória familiar evidência onde sua busca teve início.
«Meu pai era um órfão quando foi entregue ainda criança aos cuidados de um comerciante conhecido chamado Joaquim Sena, grande fazendeiro cearense morador de Barcelos;
já minha mãe era de uma comunidade indígena do igarapé Ticandira, no rio Içana», explica Jorge.
Morando numa comunidade dentro da fazenda Juraci, os trabalhadores produziam palas de látex, balata e artesanato em borracha, num ciclo de trabalho que reproduzia a realidade amazônica na década de 1940.
«O fazendeiro empregava sua ' freguesia ', já que os criados não ganhavam nada e já chegavam para trabalhar devendo a passagem e o que precisavam consumir», revela.
Mesmo imerso nesta realidade, seu pai, Ângelo dos Santos, conseguiu se casar e sair para uma comunidade do paraná do Anam onde Jorge nasceu (paraná é um pequeno rio).
Por falta de alternativas, seu pai colocou-o para trabalhar na dura realidade dos piaçabais da região do rio Preto, vastos locais de cultivo da palmeira regional até hoje usada na fabricação de vassouras, e onde o regime de trabalho não diferia muito do vivido por o pai.
«Lá também tinha extração de cipó, seringa e castanha, mas era o mesmo sistema de escravidão», lamenta.
Considerando a forte carga negativa das lembranças do lugar, Jorge se reserva ao direito de não entrar em detalhes.
«Não gosto muito de falar da minha infância;
desses lugares muita gente nunca chegou a sair, morreu onde passou uma vida inteira somente trabalhando sem nunca ter conhecido outro lugar», enfatiza Jorge, que somente aos quinze anos conseguiu fugir escondido no barco do patrão.
«Entrei escondido, me enfiei no porão do barco e voltei para a comunidade ainda analfabeto».
Chegando em casa, Jorge teve o primeiro choque como conseqüência do isolamento imposto por o sistema do piaçabal.
«Meu pai havia morrido e eu não sabia», revela.
Sem muitas perspectivas, Jorge conta que pediu à mãe para ser levado ao colégio em Barcelos;
foi atendido, mas como não tinha como se manter, precisou trabalhar na escola nos horários em que não estudava.
«Fiquei por cinco anos cursando até a sétima série e me formando num curso rápido de Meteorologia».
Em 1975 foi para Manaus por conta própria, passando por mais um período de necessidade que culminou com sua morada ocupando um batelão (barco) abandonado.
«Fiz todo tipo de trabalho braçal inclusive no Porto, mas consegui terminar o segundo grau no colégio Benjamim Constant me formando como Técnico de Edificações», comenta, ao mesmo tempo em que outro tipo de inquietação começava a aumentar.
Cobrança externa
Mesmo com seus traços evidenciando sua ascendência, Jorge não reconhecia seus pais como indígenas e muito menos ele mesmo.
«Nasci e fui criado achando não era indígena, mas quem olhava para mim sempre perguntava que índio eu era».
De a dura vida nos piaçabais, dos sacrifícios em trabalhos braçais em Manaus à vaga de guia de selva num hotel, de tão freqüente, a pergunta foi aos poucos incorporando em Jorge a certeza de que precisava reencontrar suas origens.
«Comecei a me perceber como indígena e como me perguntavam demais que índio eu era, o fato de não ter como responder começou a me chocar», revela.
Ainda em Manaus, casou-se com a cearense Maria de Lourdes que o acompanhou quando decidiu ser a hora de subir o rio Negro para tirar todas as suas dúvidas.
«Todas as pessoas têm uma origem, eu acho fundamental procurar saber o que fez você existir e foi muito importante minha esposa estar ao meu lado».
Em 1986, conta que chegou à comunidade Pari-Cachoeira seguindo as poucas pistas guardadas na memória vindas de conversas com pai e mãe ainda na sua infância.
«Minha mãe era Baniwa, mas tanto ela como meu pai deixaram suas línguas originais e falavam apenas nheengatu», conta Jorge, relatando a permanência da língua criada por os jesuítas como um dos reflexos ainda recentes da forte atuação da igreja sobre indígenas destribalizados e desterritorializados na região.
Reencontrando a própria história
Um relato emocionado, que considera a parte final de sua busca, apresenta componentes daqueles encontros registrados nas melhores passagens literárias.
Em Pari-Cachoeira foi reconhecido por um amigo de seu pai -- este, além de reconhecê-lo por a semelhança com o velho amigo, fez questão de levá-lo à comunidade nativa do pai de Jorge.
«Chegando na comunidade fui apresentado ao tuxaua, Henrique Castro, que primeiro nos perguntou se o ouro tinha nos levado para lá», afirma, explicando uma preocupação natural na época por conta das constantes tentativas de exploração clandestina de garimpos ilegais na região.
O amigo de seu pai respondeu apresentando-o.
«Não tuxaua, o Jorge é um parente nosso daqui e é filho de um grande amigo».
A o mirar novamente o rosto do visitante, Jorge conta que o tuxaua depois de fitá-lo com os olhos, balançou a cabeça positivamente mostrando tê-lo reconhecido e passou a falar como se estivesse em frente ao seu pai.
«Ângelo, até que enfim você apareceu.
O que você queria nas terras do branco?
Fique aqui com a gente, essa é a nossa terra».
A busca de Jorge chegava ao fim neste reencontro em que considera uma das maiores emoções de sua vida.
Algumas horas de conversa depois revelaram ainda a etnia de sua mãe Baniwa.
Em a cabeça de Jorge sedimentava-se a resposta para a mesma pergunta reincidente e acumulada durante boa parte de sua vida.
De ali para frente poderia responder a todos que lhe perguntassem e, principalmente, a si mesmo:
Sou índio Tukano.
Continuidade da vida
Após decisão compartilhada por a esposa de morar em São Gabriel da Cachoeira, as respostas encontradas por Jorge dos Santos se mostram vivas principalmente na vida da filha de 21 anos.
Sabrina Santos se orgulha da ascendência Tukano, e é sobre estas raízes que busca construir uma carreira musical.
«Sou Tukana e tenho muito orgulho», afirma a cantora, que aproveita para desenvolver um trabalho entre a temática do resgate cultural e o clamor por respeito baseando-se em pesquisas e conversas com anciãos.
Ainda no ensino fundamental, o caçula Jorge Luiz diz que apesar de recorrer esporadicamente aos livros disponíveis sobre os povos indígenas do alto Rio Nego, sempre vai procurar aprender com seus referenciais.
«Quando dá eu sempre leio alguma coisa», responde.
Quanto à vida em harmonia com a esposa nordestina, Jorge faz uma comparação com o desentendimento silencioso entre raças no Brasil.
«Estamos juntos há tempos e nunca criamos nenhum tipo de conflito na educação dos nossos filhos», conta, sem esconder o que considera seu motivo de maior orgulho.
Número de frases: 57
«Melhor do que ter o conhecimento da minha identidade, é a alegria de saber que meus genes são 100 % puros, e como indígena, isso me faz sentir um brasileiro legítimo».
Exposição realizada por a Casa Menina Mulher fica em cartaz até o dia 08 de janeiro
Aproveitando a época natalina e a correria das compras, as jovens participantes do Projeto «Criando e Fazendo Arte -- Uma porta para o Futuro», uma iniciativa da ONG Casa Menina Mulher, aceleraram a produção das peças em pintura artesanal e lançam, no dia 21 de dezembro, a exposição» Criando Arte», que fica em cartaz no Restaurante Artes y Tacos até o dia 08 de janeiro.
A exposição estará aberta ao público durante o horário de funcionamento do Restaurante (de terça a domingo, a partir das 18h).
Durante a exposição, os visitantes poderão conferir camisas, painéis, bolsas, jogos americanos, toalhas, artesanatos, tudo confeccionado por as garotas da ONG.
«Aliando a proposta social de geração de renda ao talento já inerente às adolescentes participantes, conseguimos realizar um trabalho belíssimo e que já possui uma identidade própria.
A mistura de cores e os traços fortes já se tornaram características de toda a nossa produção», conta Maria de Lourdes, diretora geral da ONG e coordenadora do Projeto.
«A exposição chega em boa hora.
Em uma época em que presentear quem se gosta e ao mesmo tempo realizar um gesto de solidariedade se torna uma proposta no mínimo interessante para a realidade social em que vivemos», comenta Gustavo Soto, proprietário do Restaurante Artes y Tacos, que convidou a ONG para expor na Adega do Restaurante, espaço bem privilegiado, que conta com ar-condicionado e som ambiente com direito a jukebox.
«Comprar produtos confeccionados por projetos culturais de cunho social, além de contribuir para a melhoria da qualidade de vida de pessoas de baixa renda, ainda figura como uma opção mais barata e criativa nessa época em que as listas de presentes só tendem a aumentar», completa Maria de Lourdes.
O Projeto -- O Projeto «Criando e Fazendo Arte» é uma proposta empreendedora na área de pintura artesanal, encabeçada por a ONG Casa Menina Mulher com o apoio do Instituto Wal Mart, que atende anualmente 120 jovens de baixa renda, proporcionando conhecimentos na área de empreendedorismo, associativismo e comércio solidário.
O Projeto tem como finalidade potencializar as oportunidades de exposição e comercialização dos produtos confeccionados, para contribuir assim com o aumento da renda familiar dessas jovens.
Serviço:
Exposição Criando Arte
Local: Restaurante Artes y Tacos
Data: 21 de dezembro a 08 de janeiro
Endereço: Rua Rio Azul, 363, Setúbal, Recife-PE
Número de frases: 17
Fone: (81) 3341-7306.
«Grupos jovens, dispostos a escrever o próprio texto, ao se perguntarem sobre o que querem falar, em geral apresentam respostas bastante similares.
Todos querem falar do amor, do medo, da violência.
Querem falar de perdas, de morte, de solidão e de sonho.
Falar do que se passa dentro de eles e no entorno», Adélia Nicolete, dramaturga e professora.
Você compra o ingresso e aguarda na fila.
Conversa ou fica em silêncio e ouve a conversa dos outros.
É um dia comum, uma noite como as outras.
A vida segue o script e você é o ator, por mais que não goste do ofício.
A porta do teatro se abre, a fila começa a andar.
Você entra, procura um lugar confortável e espera o início da peça.
Toca a campainha, as luzes se apagam:
breve silêncio.
As luzes voltam, a peça tem início e alguém está no palco.
Esse alguém é você.
É impossível assistir a uma apresentação do grupo Espanca!
sem se reconhecer nas falas dos personagens.
Beira o incômodo a sensação causada ao se ver no palco, apresentando uma peça, falando para toda aquela platéia sobre a sua vida:
as suas relações, os seus medos, os sentimentos humanos em último estágio.
Não é exatamente você que está ali no palco, mas, ao mesmo tempo, é.
O jovem grupo belorizontino representa com facilidade um teatro que, se foge do rótulo de ser chamado de «mineiro», é conhecido por a característica desse povo:
a simplicidade.
Peças com pouco cenário, figurino prático, para platéias menores que ficam próximas a um palco não muito grande.
Surgido no Festival de Cenas Curtas, realizado por o Grupo Galpão com o intuito de revelar novas criações locais e pensar o teatro em voz alta, com menos de dois anos de vida, o grupo teatral Espanca!
já deu o que falar no cenário das artes cênicas do Brasil.
Todo o reconhecimento do prêmio Shell e da Associação Paulista de Críticos de Arte é bem-vindo, mas com ele vem a responsabilidade dos próximos trabalhos.
«As pessoas têm a expectativa que no próximo haja uma superação criativa da linguagem criada.
É alguém ' esperando ' por você e isso é bom para a existência das coisas, para a existência, no caso, de um grupo.
Quer dizer que existimos.
Quer dizer que nosso trabalho existe», explica Grace Passô, atriz e dramaturga, que forma o Espanca!
junto com Gustavo Bones, Marcelo Castro, Paulo Azevedo e Samira Ávila.
Grace escreveu, dirigiu e atuou em «Por Elise», a peça que rendeu os prêmios ao grupo mineiro e que pode virar filme.
Em o trabalho mais recente, «Amores Surdos» (que estreou em maio desse ano), o Espanca!
abriu mão da direção de Grace e convidou Rita Clemente para realizar a tarefa.
A idéia era trazer um olhar externo para dentro do grupo.
Tanto «Por Elise» quanto «Amores Surdos» trazem duas histórias com personagens extremamente cotidianos e ordinários (no melhor sentido do termo), cada um carregando sua vida comum com prazeres e desprazeres, com seus «quentes» e «frios».
E não é essa a vida de cada um de nós?
Talvez seja a prova de que o que fazemos da hora em que acordamos até a hora que dormimos dá um bom roteiro para um filme ou uma peça de teatro.
Para transformar o cotidiano em espetáculo basta apenas ter a capacidade de se inspirar com ele.
E é isso que Grace mostra:
«Meus primeiros impulsos para criar são sempre baseados na coisa mais pragmática que existe:
a sensação que determinada coisa me causa.
Vou dar um exemplo:
no texto de ' Por Elise ' há um personagem que é um lixeiro.
Os lixeiros, no dia a dia, inspiram uma espécie de alegria e leveza.
E olha como essa é uma sensação deslocada da realidade trabalhosa que exige esse ofício."
Em a sua opinião, esse tipo de teatro ainda se restringe muito a um público específico.
Para ela, as pessoas que freqüentam fazem parte de uma camada específica, e já estão acostumadas com esse tipo de trabalho.
Número de frases: 48
Quando pergunto para quem então ela gostaria de apresentar suas peças, Grace responde na impossibilidade " queria apresentar para mim mesma."
Acho de uma ignorância e de uma desinformação fora do normal quando as televisões e o cinema, em suas novelas, séries ou filmes, confundem (ou não se dão ao trabalho de pesquisar) os sotaques ou o jeito de falar das pessoas espalhadas por esses 8,5 milhões de km2 de um Brasil muito grande, principalmente quando tipos nordestinos são apresentados.
Cansei de ver atores e atrizes representando pernambucanos com um sotaque não-sei-de-onde (baiano?).
Aqui se fala «oxenti», e não» oxentche», como no Recôncavo ou no Sul da Bahia.
E nós temos um inconfundível «visse», que os baianos não falam e por aí vai.
Não sei o que pensam os filólogos, mas já andei todo esse Nordeste e posso garantir que o jeito de falar do baiano do sertão é diferente do baiano do Recôncavo e do baiano do Planalto, que é diferente do sergipano e do pernambucano do interior, que se assemelha ao alagoano e ao paraibano, que difere dos habitantes da região do Araripe, que lembra o piauiense, que é diferente do maranhense (esses têm a fama de falar o português mais correto do país), que não tem nada a ver com o cearense, que tem um certo parentesco com o potiguar, que recebeu muita influência pernambucana.
Segundo os lingüistas, a região do Recife (aqui é «Ricife», nunca» Récife», que é baiano, nem «Rêcife», como no Sul e Sudeste) tem um falar muito particular, no qual as pessoas às vezes falam com um» s " chiado, semelhante aos cariocas.
Acho que os brasileiros das mais diferentes regiões podem sim ser identificados por o seu dialeto ou sotaque, sem falar que são tantos vocábulos, expressões da língua local e diferenças lexicais usadas que já deram origem até a dicionários de «baianês»,» pernambuquês», «cearês» e «nordestinês».
É para prestar atenção!
O fato é que com essa dimensão continental fica até difícil um gaúcho da Campanha entender um nordestino do Cariri, todos brasileiros.
E viva a pluralidade dos sotaques, dialetos e regionalismos que são partes da identidade cultural dos povos!
Abaixo a dominação dos jeitos carioca e paulista de falar (nada contra os queridos nascidos no Rio e em São Paulo, pelo amor de Deus!)
Número de frases: 12
implantado por a televisão!
Em reunião no Palácio do Setentrião iniciou o processo de negociação para os projetos de cultura que são estruturados por a Gestão Estratégica Orientada para Resultados (GEOR).
O Projeto de Cultura do Sebrae está estruturando três segmentos:
empreendedorismo cultural em música, artes cênicas e artes visuais.
Os projetos estão concluídos, faltando definir a responsabilidade financeira de cada parceiro.
A reunião está acontecendo nesta quarta-feira, 19, no Palácio do Setentrião, às 16 horas.
Segundo a gerente da Unidade de Desenvolvimento Multisetorial do Sebrae, Lindeti Góes, a negociação está sendo feita com a representação artística amapaense, Sebrae, Governo do Estado (Fundecap) e foram convidados os prefeitos de Macapá e " Santana.
«Após esta fase, faremos a cerimônia para a contratualização dos parceiros comprometidos com a cultura do Estado», disse a gerente, Lindeti Góes.
O gestor do Projeto Empreendedorismo Cultural do Sebrae, Maikon Richardson, faz a apresentação dos projetos em síntese, as ações que serão executadas e quanto custa as ações para que cada parceiro se manifeste, assumindo a contrapartida financeira.
De acordo com a gerente, Lindeti Góes, a contratualização do projeto será para quatro anos, de 2006 a 2009.
«Formatado por o público-alvo, envolveu 60 artistas cênicos, 30 de artes visuais e 30 músicos que serão capacitados para gerenciamento, tecnologia, participação em feiras e acesso a mercados», declarou a gerente, informando que esse processo vem sendo consolidado desde abril.
Estiveram presentes os diretores do Sebrae, Reinaldo Gonçalves e João Alvarenga.
Serviço:
Sebrae no Amapá:
Projeto Empreendedorismo Cultural:
(96) 3214-1423 Por.:
Denise Quintas Fonte:
http://www.sebraeamapa.com.br/noticias detalhes.
Número de frases: 18
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«A obra de arte como espaço de reflexão e não como retrato
de um gueto, isolado, à parte do contexto geral da sociedade."
Com a citação dessa frase de Jessé Oliveira, Fabio Gomes iniciou matéria de cobertura do 2º Encontro de Arte de Matriz Africana, realizado de 12 a 16 de dezembro de 2007 no Teatro de Arena em Porto Alegre.
Bem baixinho, só aqui pra nós do Overmundo, a cobertura é um espetáculo a mais, embora não fizesse parte da programação.
Um estouro, como diz vovó Marinalva.
Fabio (ele não acentua o nome e que eu vou fazer com a proparoxítona relativa, a quebra de ditongo, o escambáu), pois o homem diz que Jessé Oliveira escreveu a frase " a propósito de justificar a escolha do texto Transegun, de Cuti, como primeira peça montada por o grupo CaixaPreta, criado em 2002 a partir da reunião de artistas negros atuantes em Porto Alegre.
Aí eu me derreti toda, por que tenho paixnão por o Cuti desde que sentei no colo de ele.
Calma pessoal, calminha aí.
Eu tinha dois aninhos de idade, quando ele participou num encontro em Porto, na Câmara de Vereadores, e Papá estava lá com mim e eu só queria saber do colo do moço lindão, conforme a resenha da época.
Não vamos desviar do assunto que quer tratar é da presença nossa, humana, nos palcos da vida.
É disso mesmo, de diálogo e reflexão que se falou um tantão da abertura ao encerramento do encontro.
Fabio diz que foi assim no monólogo Madrugada, me Proteja, também de Cuti, interpretado no sábado, 15, por o ator Sílvio Ramão;
na única atração musical do Encontro, o show Epahei!,
da cantora e compositora Karine Cunha, na quinta, 13, de quem nem vou falar muito porque vira prosa de fã e não tô aqui pra torrar vocês com meu gostinho particular e sim pra reportar as coisas como foram vistas por o Fabio, né?
Diz ele:
Em Madrugada ...,
Sílvio vive um negro de alta classe média que, julgando-se inalcançável por a insegurança que (infelizmente) tem sido a marca das noites nas grandes cidades, é humilhado durante um assalto.
Já o show de Karine se apoiou nas canções em homenagem a diversos orixás que estruturam seu segundo CD, Epahei!,
lançado em agosto. (
Palhinha de ela no linque, di grátis)
O Fabio contou que um destaque do Encontro foi a apresentação na sexta, 14, da peça Taba-Taba, texto do francês Bernard Koltès, que marca a estréia da atriz Renata de Lélis na direção.
Teve também Sortilégio Negro, de Abdias do Nascimento, fundador do Teatro Experimental do Negro (TEN), referência histórica assumida por o CaixaPreta já na época do lançamento de Transegun.
E recital de poemas de Oliveira Silveira que já nos foi muito bem apresentado aqui nas nossas overmundanas paragens por o meu poeta querido dos mais.
Aquela história da presença nossa nos palcos, nós na cena, nós brilhando, nós dirigindo, nós na fita foi assunto a partir da trajetória de Abdias e do TEN, temas abordados na única palestra do Encontro, feita por a atriz Vera Lopes.
Uma das fundadoras do CaixaPreta, Vera falou, segundo Fabio, que não consegue entender porque alguns consideram a arte européia como superior, dando como exemplo que o teatro grego surgiu a partir de ritos -- em que animais sacrificados eram oferecidos Dionísio -- muito semelhantes às oferendas dos cultos afro-brasileiros para os orixás.
Vera Lopes deixou o povo presente acabrunhado quando protestou firme porque não consta imagem alguma do teatro africano num dos raros livros brasileiros que falam do assunto -- História do Teatro (1978), de Nélson Araújo.
Eu, meio miolo mole até nem sei porque um estudo sério, em profundidade sobre a questão esqueceu esse detalhezinho.
Vai ver que ...
Ah! Não pode ser por ...
Será?
Deixemos esse outro assunto sério para lá, amizades.
O final do 2º Encontro de Arte de Matriz Africana teve a apresentação de Hamlet Sincrético.
Golaço da produção, conforme Fábio Gomes.
Para ele a peça dirigida por Jessé Oliveira é " primorosa;
a montagem relê o clássico a partir de uma estética negra, com elementos da cultura afro-brasileira ajudando a contar a história imortalizada por William Shakespeare.
É notável o equilíbrio que Jessé conseguiu ao mesclar todos estes elementos».
E segue:
-- Cada personagem encarna um tipo ou um mito da cultura negra, em especial das religiões afro-brasileiras:
Hamlet é Xangô;
o rei Cláudio, Zé Pelintra;
e Polônio, um ex-babalorixá que se tornou pastor evangélico.
A música ao vivo (o próprio elenco manda ver em cânticos de umbanda, sambas, hip-hop, ladainhas de capoeira e até cantos evangélicos), além de ajudar a contar a história, torna o nível de comunicação do espetáculo com a platéia algo digno de nota.
Fiquei sabendo, também por a matéria do Fabio, de duas boas notícias.
A primeira:
o CaixaPreta estréia em maio de 2008 sua terceira montagem, Antígona.
Br. A segunda:
o 2º Encontro de Arte de Matriz Africana continua.
Até o final de fevereiro a exposição Artistas Negros de Porto Alegre, do fotógrafo Bruno Gomes, ficou na administração do Teatro de Arena.
Visitação nas tardes dos famigerados dias úteis da semana (menos segundas-feiras).
Diony Maria tem uma excelente entrevista com Jessé Oliveira, mais de 30 espetáculos em 17 anos de teatro e 37 anos de idade.
Neto e filho de militares.
Filho de mãe cantora premiada como melhor intérprete em vários festivais de música.
Nascido numa família pobre, em Porto Alegre, no bairro Partenon, morador do bairro Restinga, dos 12 aos 20 anos.
Estudante interno do Colégio Militar, da quinta-série do fundamental ao segundo ano do ensino médio. (
De os 11 aos 17, ele só voltava para casa nos finais de semana.)
Ariano com ascendente em aquário, torcedor do Sport Club Internacional.
Solteiro, pai-presente de Guilherme Gravina Oliveira, três anos.
E por aí vai e é cumprida feita a esperança nossa que somos pobres, que não quer dizer que não seja tão boa como nós somos.
Eu gostei.
Tão convidados, apresentados.
Bom proveito!
Ficha Técnica
Hamlet Sincrético (indicado na categoria de melhor espetáculo) *
Texto: Criação coletiva *
Direção e roteiro:
Jessé Oliveira (indicado na categoria de melhor diretor) *
Elenco: Vera Lopes, Marcelo de Paula, Sílvio Ramão (indicado na categoria de melhor ator coadjuvante), Juliano Barros, Adriana Rodrigues, Leandro Daitx, Kdoo Guerreiro, Eder Santos, Glau Barros (indicada na categoria de melhor atriz coadjuvante), Vagner Santos, Rodrigo Oná Abadiaxé, Flávio Oyá Tundê *
Direção musical:
Luiz André (indicado na categoria de melhor trilha sonora original) *
Figurinos: Adriana Rodrigues e Gil Collares (indicados na categoria de melhor figurino) *
Execução de Axós: Clecí Oxalá Temi Layó, Rosângela Ogun Pelê, Adriana Rodrigues *
Ambientação cenográfica:
Jessé Oliveira * Iluminação:
Miguel Tamarajó * Coreografias:
Adriana Rodrigues *
Fotografia e Criação Gráfica:
Irene Santos * Produção Geral:
Jessé Oliveira.
Número de frases: 79
Esse pequeno texto foi postado na coluna «Biblioteca Básica», da Folha de São Paulo.
Trata-se de um comentário de Carlos Rennó a um livro de Augusto de Campos;
transcrevo e faço um comentário em seguida:
São Paulo, domingo, 07 de agosto de 2005 Biblioteca básica
«Mais Provençais "
Carlos Rennó
Especial Para " A Folha
«Sou um leitor sobretudo de livros de ou sobre poesia.
Além disso, escrevo letras de música, ofício que conjuga as artes das palavras e dos sons.
Por isso, a obra do maior poeta brasileiro vivo, e o mais músico de nossos poetas, Augusto de Campos, teve um papel exponencial na minha formação.
Por isso, um de seus livros de tradução, «Mais Provençais», destacando as 18 canções do trovador Arnaut Daniel, tem um lugar especial para mim.
«Ainda hoje me emociona a primeira publicação, artesanal, da obra, em folhas soltas, feita por um pequeno editor catarinense (Cleber Teixeira).
Que poesia!
Uma poesia libertária e transgressora, que colocava a mulher lá no alto, quando a regra era rebaixá-la.
E que tradução!
Tão brilhante que nos faz pensar que, para traduzir grande poesia, talvez só mesmo grandes poetas.
«Grandes poetas escreveram a maioria dos livros mais importantes da minha vida:
Pessoa (" Mensagem "), Drummond (" Reunião "), Cabral (" Obra " Completa "), Haroldo (" Galáxias "), o próprio Augusto (" Poesia "), entre outros.
Aqui eu destaco «Mais Provençais» por apresentar peças modelares de uma arte que combinou poesia e música de modo sublime, indelével.
Arte de autores que, como sugeriu Augusto, acabaram tendo nos Porters, Dylans, Caetanos, Chicos e Princes os seus legítimos sucessores no tempo."
Carlos Rennó é letrista, produtor, organizador de «Gilberto Gil -- Todas as Letras» (Cia.) e autor de «Cole Porter -- Canções», Versões (Paulicéia).
A obra «Mais Provençais», de Augusto de Campos, 160 págs.,
Companhia das Letras (esgotado).
O texto é simples, breve, e fala de uma tradição medieval de união entre palavra e música, que no Brasil parece ter atingido seu ápice e talvez seu limite.
O lançamento do CD «Carioca», de Chico Buarque, pode servir como mote para uma pequena reflexão.
É cada vez mais normal que um disco novo de Chico não desperte grande euforia, a despeito da divulgação maciça e sincronizada em jornais do Brasil inteiro.
Como ele mesmo afirmou, o público não se interessa tanto por o que ele tem feito recentemente, preferem as canções antigas e as caixas com a «obra completa».
Trata-se, por um lado, de uma confirmação de algumas conclusões de uma linhagem de estudos adornianos que acreditam numa progressiva regressão da capacidade auditiva do gosto do público, mas, ao mesmo tempo, é também uma negação do pensamento estético-musical de Adorno.
Não há como imaginar Adorno diferenciando música popular e música popular ligeira.
Essa separação é bem brasileira.
Villa-Lobos e Cartola, Pixinguinha e Tom Jobim fazem parte de uma história única onde o erudito e o popular não possuem contornos nítidos.
Isso não é novidade.
Mas, quando pensamos em música popular, então é preciso situar a canção brasileira como uma alta expressão da cultura e os produtos musicais pensados para imediata venda e esquecimento previsto em contrato como o outro lado de uma música que não é uniforme em todas as suas expressões.
Não é muito fácil distingui-los e o risco de cairmos numa divisão maniqueísta entre bom e ruim é sempre iminente.
Chico é um representante vivo daquela herança medieval que liga poesia e música.
Poucos negam que sua obra atingiu um acabamento formal que beira a perfeição, ainda que possa existir em ele um traço conservador natural, de certo modo responsável por esse acabamento e unidade.
Isso é debate inútil.
Temos então essa outra música, cuja função é bem diferente de uma busca de acabamento, de refinamento;
nem toda música quer ou deve ser feita com a intenção de atingir o estatuto de poesia cantada, ou mesmo de MPB no sentido já ultrapassado de estilo musical.
Situar esse estatuto da canção é difícil, mas talvez o próprio Chico tenha feito sua genealogia, na letra de " Paratodos ":
O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro
Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas
Em essas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro
Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho
Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto
Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens à vista
O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro.
Bem notado, a lista -- incompletíssima -- contém esse Brasil musical invocado aqui.
Claro que Chico deve ter padecido pra compor a canção incluindo e excluindo tanta gente, mas o nordeste de Gonzaga e Caymmi já são por si dois universos, que juntos são fonte de pelo menos algumas centenas de criadores, que vão de João Gilberto e Caetano, a Lenine e Marcelo Camelo.
Quando escrevo aqui no blog tensionando a respeito da música comercial atual, não se trata nunca de confrontar a síntese contida em «Paratodos» com essa música popular ligeira, hoje quase hegemônica nas rádios e TVs país afora -- e que logo será esquecida, na verdade, essas duas vertentes são parentes que não se vêem há muito tempo, e que mal se reconhecem.
Para acabar, vamos lembrar da polêmica e já famosa frase de Chico sobre o possível fim da canção e imaginar possível cercá-lo com as suas próprias armas;
Número de frases: 85
afinal mestre «Buarque»,» Evoé, jovens à vista " não tem nada de pessimista, antes pelo contrário, parece conter seu próprio desejo de ver os novos compositores que, afinal, vão levar adiante o ímpeto de sua obra e que fazem da canção, como você fez e faz, uma via de acesso insubstituível ao sentimento do povo do Brasil.
Retornai, desgraças,
à buceta de Pandora!
E que ela se foda!
[ ...] Waldo Motta
Você fala palavrão?
Há quem acredite que o palavrão, ou o uso de ele, é algo que nos liberta, em meio a tanta repressão hipócrita que ainda há aqui e ali, em nossas instituições.
Não se sabe, ao certo, como surgiu o palavrão.
Para o dicionário eletrônico Houaiss, a palavra data de meados do século 19.
Mas, desde quando esse vocábulo adquiriu o caráter semântico que conhecemos atualmente?
Não encontrei nenhum estudo lingüístico aprofundado acerca de sua origem.
Em os dicionários de língua portuguesa consultados, o conceito comum a palavrão é que se trata de uma " palavra grande e de pronúncia difícil;
expressão pomposa e empolada;
palavra grosseira e / ou obscena " (Houaiss).
Imagino que o palavrão -- no sentido de palavra obscena --, assim como outras palavras existentes na língua, ganhou vida com o advento do preconceito lingüístico sobre alguns vocábulos e expressões, cujas cargas semânticas causavam constrangimento e, por isso, passaram a ocupar um espaço restrito e marginal no léxico.
Há muito, poemas e outros escritos que continham vocábulos obscenos eram mantidos sob sigilo e poucos leitores tinham acesso a eles.
O professor de Literatura Paulo Roberto Sodré, da Universidade Federal do Espírito Santo, durante o segundo congresso da Abeh (Associação Brasileira de Estudos da Homocultura), expôs seu ensaio Os homens entre si:
os fodidos e seus maridos nas cantigas de Pero da Ponte, séc..
XIII, sobre vinte e nove poemas portugueses, datados do século 13, que ficaram recolhidos devido ao seu teor erótico e às ocorrências de termos chulos.
Ainda na poesia portuguesa, Manuel Maria Barbosa du Bocage foi um dos mais polêmicos poetas do início do século 18.
O verbo «foder», um dos mais representativos palavrões da língua portuguesa, é muito recorrente em sua poesia:
«De Vênus não desfrutas o prazer:
Que esse monstro, que alojas nos calções,
É porra de mostrar, não de foder».
O que nos leva a pensar que a idéia de proibição e constrangimento sempre esteviveram associadas ao palavrão.
Em a crônica Foda-se, de Millôr Fernandes, o autor diz que " os palavrões não nasceram por acaso.
São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos.
É o povo fazendo sua língua».
É bem verdade que o palavrão ocupa o lugar do desprestígio da língua, reflexo do preconceito lingüístico e social.
Talvez, antes social que lingüístico, uma vez que um vocábulo pode assumir uma carga semântica no contexto social que pode distar de seu valor etimológico.
O preconceito varia de acordo com a formalidade estabelecida em cada situação.
Em ambientes em que se exige certa formalidade, como em instituições governamentais, empresariais, escolas, templos religiosos, os palavrões, geralmente, não são bem aceitos;
o que não significa que não sejam proferidos, até por que eles parecem circundar a retórica de todos e, basta um momento de euforia ou de afronta pessoal, para se desfazerem as formalidades e lançarem verbalmente os «malditos» palavrões.
Já em ambientes menos formais, onde permeia a descontração -- entre amigos, por exemplo, é comum se «rasgar o verbo» e lançar mão dos descontraídos e, muitas vezes, irônicos palavrões.
Para muitos, é inadmissível romper com o preconceito e, mesmo numa conversa informal, valer-se de palavrões para elaborar seu discurso.
Mas, para outros -- escritores, humoristas, falantes de diversos grupos sociais --, o palavrão pode representar um rompimento com condutas formais, lingüísticas e sociais -- há muito cristalizadas-, ou, até mesmo, uma simples terapia verbal, um extravaso.
A repressão e a censura a essas palavras as tornam excelentes recursos, freqüentemente usados como instrumentos de subversão.
O poeta Waldo Motta -- citado no início do texto-lança mão de muitos palavrões em sua poética.
Seus versos são embebidos por uma linguagem despudorada, com vocábulos chulos que se enlaçam a outros dotados de erudição;
ambos, porém, figuram com semelhante valor lingüístico, sem privilégios de uso, o que torna sua poesia um lugar em que o preconceito lingüístico é desafiado.
A palavra «céu», no poema» C é U», de sua autoria, não se sobrepõe à palavra «cu».
Os dois elementos, céu e cu, convivem harmonicamente, e, por a via do constrangimento, podem provocar reflexões em seu leitor.
A maioria dos palavrões está associada à sexualidade, ou a órgãos excretores, como os equivalentes a pênis, vagina, ânus, fezes, e ao próprio ato sexual ou escatológico, como «foder»,» tomar no cu», «cagar», etc..
O palavrão ocupa o lugar do indizível, do proibido, por não ser comum a todo ato lingüístico e por representar sentidos sobre os quais recaem conotações sexuais ou excretais.
Sendo assim, a repressão ao palavrão parece estar diretamente relacionada à repressão sexual, ao «conjunto de normas estabelecidas no correr da História para controlar o exercício da sexualidade», que surge com o advento da moral instaurada por as instituições -- família, escola, religião, meios de comunicação, interiorizando em cada indivíduo o que é proibido.
Filho da puta!
Muitos palavrões da língua portuguesa só são considerados como tais se usados sob a metáfora da sexualidade.
É o caso de «pau ', por exemplo, que, quando designa» madeira», não é alvo de repressão.
Semelhante relação ocorre com «pinto»,» mastro», «vara»,» peru», que só têm status de palavrão se compuserem o campo semântico relativo a pênis.
Com a popularidade do uso, alguns palavrões, em determinadas situações, distanciam-se de seu contexto original e tomam outro sentido.
«Filho da puta», por exemplo, nem sempre significa um tratamento agressivo à mãe de alguém, mas a uma referência direta à pessoa xingada.
Ou, mesmo em sentido contrário, quando nos referimos a alguém de maneira íntima e amigável.
Em este caso, não há nenhuma intenção difamatória à figura da mãe, contida na expressão de origem, nem à figura do filho que, no exemplo anterior, era o objeto da ofensa.
Ao que parece, a arte -- transgressora por si só, não poupa seus receptores e -- principalmente após o Modernismo -- tem mostrado que qualquer palavra, palavrinha ou palavrão, é passível de ser incorporada a sua estrutura.
A música Tudo vira bosta, de Moacyr Franco e Rita Lee, é um reflexo dessa tendência.
Segundo matéria de Leandro Fortino, da Folha de São Paulo, em agosto de 2004, com o lançamento de Geni e o Zepelin, de Chico Buarque, o uso de palavrões na música brasileira se popularizou.
Essas ocorrências na música e em outras linguagens, como a televisiva, a cinematográfica, a radiofônica, e a das artes em geral, tendem a ganhar espaço na língua, uma vez que o dinamismo lingüístico admite apropriações e evoluções constantes, para assim satisfazer seu maior condutor, que não é o purista, não é o gramático, não é o jurista, mas -- como já dizia Oswald de Andrade, em «Pronominais» -- " o bom negro e o bom branco ":
o falante da língua portuguesa.
Em a crônica de Millôr Fernandes, anteriormente citada, ele arrisca:
«Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia».
Será preciso viver, e falar, para crer.
Número de frases: 61
O Dance of Days faz parte de um grupo de bandas que produz um efeito peculiar:
a sua música provoca culto.
As pessoas nascem e morrem entre o início e o fim de um show.
Não é (ou era, pelo menos, nos tempos em que eram a cereja do bolo) incomum ver uns que choram, meninos ou meninas, e todos gritam os versos com tanta ou maior força do que o vocalista Fábio Altro, ou Nenê Altro, como apelidado;
cantam como se a música fosse mesmo vida, a de eles, fielmente traduzida.
As melhores letras do com freqüência limitado rock nacional são de eles.
O Dance of Days apresenta um repertório enorme de referências mitológicas, históricas, culturais;
recria metáforas e traz imagens novas.
Em a produção brasileira, não há muitas bandas tão abrangentes.
São quatro álbuns principais, fora o primeiro lançamento, com seis músicas em inglês quase sempre fora do repertório:
A História Não Tem Fim (2001), Coração de Tróia (2002), A Valsa das Águas Vivas (2004) e Lírios aos Anjos (2005).
Mas, irredutíveis a fórmulas, se você ouvir apenas um desses, terá uma visão errada do conjunto.
Dentro de um mesmo álbum, se calhar de ouvir as três mais cheias de ódio, vai criar uma imagem que não seria de longe compatível com outras três, leves e líricas.
Talvez por isso, tanto choro e tanta identificação -- ouvir Dance of Days é uma espécie de relacionamento.
No decorrer dos cds, as letras mudam, os temas são tratados de outra forma, a sonoridade se transforma.
Multifacetado, portanto.
Ou se ama ou se odeia.
Em o primeiro álbum:
traição, ateísmo (na verdade, uma fé ao inverso), amor cor-de-rosa e choro sentido, que pede atenção.
A batida e as melodias que levam a dançar lembram um pouco o The Smiths, em Hathful of Hollow.
Em o segundo álbum, as letras se tornam únicas.
A começar por o nome, cheio de significado -- Coração de Tróia, como cavalo de Tróia -- cada uma das composições vai tecendo intertexto com tantas outras obras.
Prova disso, o próprio tracklist:
Pregos, Cruzes e um Saco de Moedas, Tijolos Amarelos, Nos Olhos da Guernica (um curto verão em La Mancha) -- só essas três relembram Jesus, O Mágico de Oz, um quadro de Picasso e Don Quixote.
E essa é apenas a superfície.
A intertextualidade não causa problemas de entendimento.
Nenê Altro se apropria bem das referências que toma, ao contrário de outros letristas brasileiros, que, sem posse real das idéias, só repetem alguma frase, apenas dão melodia a filosofices.
Os Titãs, recente, fizeram do «o inferno são os outros», de Sartre, um verso.
Pitty canta aquele «o homem é o lobo do homem», de Hobbes.
Ecoam idéias;
o Dance of Days as usa.
As citações são renovadas, existem por si só na música, contam a história que precisam contar.
Assim, personagens da guerra de Tróia, Joana d'Arc, o traidor de César Brutus, todos, são só instrumentos de um maestro maior.
De o segundo álbum ao terceiro, a diferença é de temas.
«Coração de Tróia» ignora amor que seja belo;
há ódio, despeito e mágoa.
Desesperança. Isto tudo no pessoal e no que é de todos.
São músicas políticas.
Mas não são um outro Dead Fish, gritando pra sempre contra o sistema.
Falam do vazio dos rebeldes.
De a revolução que não dá em nada.
É um caminho para «A Valsa das Águas Vivas» -- que aborda a política como reconciliação, os revolucionários como quem perdeu o foco.
O dragão nos sorri, mas não sabemos o que queremos, diz Cem Mil Bolas de Neve (letra).
É um comentário único sobre ideologias.
E é a última palavra sobre elas.
Um ponto importante sobre o Dance of Days é que não se sabe bem o que virá a seguir.
A banda é orgânica e mutante.
O estilo se define cada vez mais, e a temática se afunila.
Abandonam a política e o sofrimento.
«Lírios aos Anjos» é puro carpe diem.
Diz: esse mundo não merece nossa tristeza.
Recentemente, lançaram um dvd que faz um panorama de como são no palco e de como foi a trajetória.
Chama-se «Metrópole em Chamas».
A dança dos dias teve a luta e compreensão final.
De as cinzas da cidade, o que virá?
Não se sabe, como eu disse, nunca se sabe.
-- -- \> veja todas as letras da banda, no Terra.
-- \> ouça todas as músicas, no Trama Virtual.
-- \> veja o fotolog oficial.
-- \> veja outros vídeos no You Tube:
Correção
Adeus, Sofia
Quem vai Limpar o Quarto de Gregor Samsa?
Número de frases: 63
É Só o Inferno e Mais Nada Mesmo com o fim do regime escravista determinado por a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, ainda há trabalho escravo no Brasil.
Para denunciar este crime, em 2001, um grupo de jornalistas de São Paulo começou a fazer reportagens para alguns veículos de comunicação e criaram o site Repórter Brasil, onde duplicavam a publicação das matérias.
O trabalho de denúncia estimulou os líderes da iniciativa a criar uma Organização Não-Governamental (ONG), extrapolando os limites das atividades jornalísticas e atuando em áreas de formação e de comunicação comunitária.
Negócios abertos, mesmo sem intenção de business
A cobertura cresceu e ganhou vida própria, prescindindo de outros veículos e tornando-se uma agência de notícias.
Hoje, a Agência Repórter Brasil é sustentável economicamente e os demais projetos do Repórter Brasil caminham no mesmo sentido.
O projeto jornalístico é anterior à criação da ONG, mas «desde o início, se amparou em patrocínios, e não em anúncios», explica Leonardo Sakamoto, um dos fundadores do projeto.
Entre os principais parceiros estão empresas privadas, o Governo Federal e Organizações Internacionais, que financiam projetos, incluindo a agência.
O que se oferece em troca?
Os resultados previstos no planejamento dos próprios projetos e, eventualmente, a exposição de banners de alguns dos patrocinadores em seu site.
Todo o conteúdo gerado por o site, por a Agência de Notícias e divulgado nas e-newsletters, está em copyleft * e, segundo o site, «a reprodução dos textos é livre, desde que citada a fonte e o autor».
O conteúdo aberto, aliado à sustentabilidade econômica, é o que faz do Repórter Brasil um negócio aberto.
Embora, para os fundadores da ONG, a idéia não seja exatamente criar um negócio, mas, sim, manter a iniciativa sustentável.
Sakamoto explica que os produtos do Repórter Brasil não geram dinheiro, mas valor.
E é em torno desse valor social que eles conseguem financiamentos e patrocínios que garantem a sustentabilidade e expansão da iniciativa.
Outro fator que contribui para conquistarem espaço neste «mercado» é o caráter singular do serviço e a consolidação de substancial know-how na área, já que gozam de credibilidade e tratam o tema com profundidade rara de se ver na mídia.
Portanto, a sustentabilidade está ancorada em diversas atividades, como prestação de serviços, aplicação de projetos, desenvolvimento de pesquisas, formulação e realização de cursos, mas nunca na venda do conteúdo que produzem.
Mudanças estruturais, objetivos perenes
Como o Repórter Brasil já atravessou diversas fases, Leonardo Sakamoto avalia a influência dos diferentes modelos sobre os resultados dos projetos:
«já fizemos matérias em parceria com outros veículos de comunicação para financiar as reportagens, mas esse modelo tem limitações do ponto de vista do crescimento institucional.
O crescimento natural dos projetos e da ONG levou à independência».
Apesar disso, eles mantêm ainda parceria com a «Problemas Brasileiros», revista do SESC, mais por opção do que por necessidade.
A expressiva maioria das reportagens é feita por o corpo fixo de funcionários da Repórter Brasil e eles têm trabalhado para tornar a área de jornalismo inteiramente independente de outros projetos.
Os principais eixos de cobertura são meio ambiente, trabalho (principalmente escravo, mas também exploração do trabalho e trabalho infantil) e a questão agrária.
Sakamoto é diretor da ONG e, portanto, o único que não recebe remuneração, por determinação do estatuto social.
O Repórter Brasil conta com uma equipe fixa e remunerada de sete pessoas, que vão cotidianamente ao escritório, e diversos colaboradores.
A Agência de Notícias conta com 4 profissionais, o projeto Trabalho Escravo Nem Pensar, com 12 e o de Comunicação Comunitária tem 5 pessoas envolvidas, considerando intersecções das equipes.
Todos os profissionais são remunerados e os que freqüentam diariamente o local de trabalho têm sua renda mensal garantida por o Repórter Brasil.
Paralelamente ao crescimento da ONG, o público-alvo foi se modificando ao longo dos anos.
Em o início, era composto por jornalistas e formadores de opinião.
Hoje, os projetos da Repórter Brasil alcançam estudantes, professores, trabalhadores, sociedade civil organizada e opinião pública de um modo geral.
O público hoje é tão variado, que eles resolveram diversificar as atividades e fazem, por exemplo, um boletim especialmente destinado aos trabalhadores rurais.
Produtos e serviços
Em o rol dos produtos estão as notícias, boletins (incluindo um informativo semanal), vídeos, programas de rádio, destinados a rádios comunitárias de todo o Brasil, material didático, pesquisas, grandes reportagens, análises e bancos de dados acessíveis ao público.
As atividades da área jornalística atualmente representam cerca de um terço das ações da ONG.
Os dois terços restantes são referentes ao combate ao trabalho escravo (com o projeto ' Escravo Nem Pensar '), a capacitação de «lideranças» para a multiplicação do monitoramento e da denúncia por o Brasil afora (mais de mil pessoas foram capacitadas nos últimos três anos), ações de comunicação, como campanha e capacitação de jornalistas, além do desenvolvimento e aplicação de pesquisas.
Em esta área, destaca-se o estudo desenvolvido por a Repórter Brasil, a pedido do Governo Federal e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), sobre a cadeia produtiva do trabalho escravo.
Lançado por a OIT, o estudo aponta produtos fabricados com a utilização de trabalho escravo.
Nenhum desses serviços relacionados acima é comercializado.
Comunicação Comunitária é o único eixo que não conta com um engajamento fixo e diário.
É desenvolvido de acordo com as oportunidades e a demanda -- atualmente, portanto, não há uma equipe permanentemente remunerada, embora já tenha havido.
No entanto, eles estão buscando desenvolver projetos perenes que contem com financiamento, para o qual aplicarão tempo e recursos constantemente.
O Repórter Brasil elabora seus projetos e busca seus financiamentos de acordo com a política editorial planejada e só aceitam trabalhos sob demanda quando as propostas convergem com os projetos planejados, como foi o caso das pesquisas encomendadas por a OIT.
Embora sediado em São Paulo, o projeto tem abrangência nacional.
Não apenas por ser um site, e, portanto, extrapolar os limites territoriais físicos, como também devido ao fato de que diversas das atividades desenvolvidas se dão em regiões onde o trabalho escravo é mais recorrente, onde o problema ganha dimensões mais críticas.
Por exemplo, eles realizam um trabalho de comunicação comunitária, com projetos de capacitação de comunicadores por o país, no Sul do Maranhão, por meio de uma parceria com a ONG Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia.
O preço da informação e o preço do trabalho
A conquista de credibilidade e de alcance territorial está intimamente ligada à iniciativa de criar um canal de comunicação permanente e confiável com o público.
O site tem sido a permanente vitrine do projeto e o que confere a ele a capacidade de atingir e influenciar pessoas e organizações.
Sendo necessário apenas um investimento mínimo, a Internet permitiu ao projeto colocar na rede notícias, denúncias, bancos de dados e análises, constituindo espaço de referência e de fluxo de informações.
A decisão por liberar o conteúdo se deve principalmente à importância que dão à democratização do conhecimento.
Para Sakamoto, a população não precisa de " grandes líderes ";
«ela é capaz de ser protagonista de seu destino social e, para isso, precisa de informação».
Ele, que não crê na existência de jornalismo imparcial, busca ser «honesto».
«Não é porque somos parceiros do Governo que não o criticamos.
Somos críticos e apartidários».
Sakamoto considera o tema trabalho escravo metonímico, pois congrega outras áreas como o direito a terra, direitos trabalhistas, entre tantos outros.
A o focar este assunto, o Repórter Brasil consegue abordar dezenas de questões que atentam contra a dignidade humana.
Estudar, investigar, analisar e denunciar são tarefas a que se propõe a equipe, que pretende com isso contribuir para a erradicação não apenas do trabalho escravo, mas também da miséria, da desigualdade social e outros males do país.
O objetivo de eles é, segundo Sakamoto, " fomentar a reflexão e ação sobre as diversas situações de injustiça que se fazem presentes em nossa sociedade, tanto nos casos de flagrante desrespeito aos direitos humanos, como nos casos de condições sociais subumanas.
Em esse ponto, toma uma clara e inequívoca opção por os empobrecidos e marginalizados, no que se refere à realidade política, econômica, social, cultural e ambiental do país».
Atualmente, é uma fonte para ações da administração pública e da sociedade civil, além de referência para pesquisas acadêmicas e escolares sobre a realidade brasileira.
O conteúdo só não é livre quando fazem alguma reportagem em parceria com revistas que ainda publicam sob a licença copyright.
Mas, hoje, 99 % do material produzido são próprios da agência de notícias e encontram-se disponíveis como copyleft.
O que se quer mesmo é ver o conteúdo circulando livremente e acessível ao maior número de pessoas possível.
Enquanto a ONG não aplica preços à informação que produz, com a força de trabalho atuam diferentemente.
Por convicção e para manter a coerência com a missão da iniciativa, para Leonardo Sakamoto, o cuidado com a relação e condições de trabalho e a remuneração são fundamentais.
«Trabalho é trabalho, mesmo quando não gera mais valia para um capitalista».
Portanto, ainda que os funcionários reconheçam a importância do combate ao trabalho escravo, o trabalho da ONG «não é militância, ele ocorre independentemente da causa» e, portanto, precisa ser valorizado e remunerado dignamente.
O trabalho do ser humano, este sim, tem preço.
A informação não.
* «Copyleft é um método legal de tornar um programa em software livre e exigir que todas as versões modificadas e extendidas do programa também sejam software livre».
O conceito foi criado por Richard Stallman no âmbito do projeto Gnu.
Número de frases: 73
No entanto, o conceito foi ampliado para a reprodução de textos, imagens, vídeos e outras formas de manifestação intelectual ou artística, desde que citados a fonte e o autor.
colaborou: Bruno Dias
Tudo começou há apenas 4 anos, quando Hélio Flanders gravou no seu quarto uma fita caseira de qualidade precária, usando um velho violão e exalando sentimento em canções de amor cantadas num inglês impecável.
Isso era por volta de 2002, Flanders havia voltado há pouco tempo de uma temporada de «auto-conhecimento» que fez por a Bolívia, imaginem só, aos 16/17 anos.
Precoce o garoto, não!?
Nascia ali, naquele quarto de Cuiabá, a Vanguart.
A primeira gravação, que se chamava «Ready To ...», teve boa aceitação da gurizada que curtia um som alternativo, com aquela fusão de folk e brit rock, Hélio angariou alguns fãs e amigos, lançou depois uma nova gravação caseira» The Noon Moon (2003) «que seria o embrião de seus futuros trabalhos, essa demo trazia pela primeira vez as excelentes composições» Blood Talkin´», «Rainy Day Song»,» Dolores " etc.
Depois dessas duas demos e do embrião do projeto do Espaço Cubo (que funciona em Cuiabá e incentiva os novos artistas, bem como futuros jornalistas, escritores, cineastas, artistas plásticos e outras atividades que o Espaço apóia e fazendo germinar informação na mente da juventude cuiabana) começar a funcionar, com os shows na cidade, festivais de respeito como o Calango (já na quarta edição) e o Grito Rock (tbm na quarta edição), que serviram para consolidar a cena e ações estratégicas como a do Circuito Fora do Eixo e a criação da ABRAFIN (Associação Brasileira de Festivais Independentes), a Vanguart ganhou força e começou a rodar o Brasil em diversos festivais independentes, aparecendo de uma vez por todas no cenário do rock nacional e conquistado um séquito fiel de fãs por todos os cantos alternativos desse imenso país.
Em essa época a Vanguart já não era mais só o Hélio Flanders, havia uma banda formada com outros músicos que aderiram a idéia de fazer folk rock numa cidade como Cuiabá, afinal todos eles gostavam de Beatles e eram muito amigos, havia algo em comum entre Douglas Godoy, Reginaldo Lyncoln, David Dafré, Luiz Lazzaroto e Julio Nha Nha -- que depois deixou a banda para seguir seus estudos, mas é um Vang honorário!--
havia a Vanguart.
Durante essas diversas viagens e festivais, a Vanguart ainda encontrou tempo para entrar em estúdio de novo e gravar seu primeiro ep «Before Vallegrand (2005)».
«Before» fala de lugares imaginários, de uma certa dor inexistente, de um sentimento confuso, lacônico.
É um grande trabalho, com ótimas composições e que elevou a Vanguart à categoria de banda revelação dos últimos anos.
A música do Vanguart conquista logo de cara, mas uma coisa é preciso ser dita.
Há uma grande diferença entre as gravações que a banda fez até agora e suas performances ao vivo.
É ao vivo que você percebe a verdadeira força e a fúria desse folk rock envenenado por o calor de Cuiabá.
Depois de uma série de shows por o Brasil, tocando em São Paulo, Campo Grande, Rio Branco, Brasília, Goiânia, Porto Velho, Uberlândia e Belo Horizonte.
Em 2006, a banda lança um single virtual da música Semáforo, faz shows em Cuiabá no Sesc Arsenal e no Grito Rock Festival, já se preparando para rodar boa parte do Brasil.
A banda toca em Belo Horizonte, Rio de Janeiro -- no Ruído Festival, em São Paulo e participa do programa «Banda Antes Rock» Estrada da MTV, que percorreu várias capitais do Nordeste, com um ônibus e mais cinco bandas que se destacaram no cenário independente em 2005, essa tour passou por Aracaju, João Pessoa, Natal, Maceió, Garanhuns, Recife e outras.
A data de estréia do programa já é certa, acontece dia 31 de outubro, na MTV.
Antes disso, eles apostam no final da turnê «Cachaça Tour» 2006», que já passou por o Centro-Oeste (Cuiabá, Brasília, Goiânia), Sudeste (Janeiro, Belo Horizonte, Paulo, Bragança, Mogi das Cruzes), Sul (Curitiba, Balneário Camboriú, Florianópolis), Nordeste (Aracaju, Conquista / BA, Recife, Pessoa, Natal, Garanhuns / PE e Maceió) e Norte (Belém).
Em outubro volta a São Paulo, interior paulista e outras cidades para celebrar a indicação do clip «Cachaça» na categoria melhor clip independente do VMB 06, o final das gravações do primeiro cd da banda, além apresentar um novo show -- com músicas novas e arranjos novos.
2006 tem sido um ano de grandes realizações na carreira da banda:
a primeira tour oficial da Vanguart já passou por mais de 20 cidades e 14 capitais, celebrando o melhor da música folk universal com canções de amor inspiradas, a banda conta com um hit instantâneo que é cantada nos shows «Semáforo», suas apresentações ao vivo são fortes e emocionantes, mostrando uma maturidade extra para esses» garotos», em média com 23 anos.
E muitos apostam no Vanguart como uma das grandes promessas para 2006/07.
E você, querido leitor, já ouviu ou conheceu a banda?
Abaixo a letra de «Cachaça», sucesso etílico-apaixonado da VANGUART que concorre ao VMB 06 na categoria melhor clip independente:
Cachaça
Vanguart Composição:
Helio Flanders E só me vem quando não há certeza
Me desconjuros pra apagar a beleza
De a incertidumbre das mesmas mãos que as suas
E me atinge da melhor maneira
Como cânhamo ou cachaça certeira
Pra antecipar a quarta-feira
Eu vou sair,
Talvez te encontrar
São cinco e meia da manhã
E cadê?
Você sorri movendo quase nada
E antecipa a velha longa estrada
E os teus galhos vão me arborizando nu Ainda teimo que não sou pra isso
Mas seus olhos gostam de correr o risco
E quero estar só, com mim
Eu vou sair,
Talvez te encontrar
São cinco e meia da manhã
Eu vou sair,
Pra não te encontrar
São cinco e meia da manhã.
Aproveite e confira a agenda da Vanguart:
27/09 -- São Paulo -- Funhouse -- com Allface (RN)
05/10 -- São Paulo -- Vegas Club
06/10 -- Niterói / RJ -- Colorbar -- com Hitlist (RJ) e Somos (SP)
07/10 -- Rio de Janeiro / RJ -- Empório bar -- com KyF (RJ) e Somos (SP)
11/10 -- Rio Preto / SP -- Vila Dionisio
12/10 -- São Carlos / SP -- Satori bar
13/10 -- Sorocaba / SP -- Black Sheep -- com Volpina (SP) e The Fortunetellers (SP)
14/10 -- São Paulo -- CB -- com Garotas Suecas (SP)
20/10 -- Curitiba / PR -- Porão Rock Club -- com Charme Chulo (PR) e Superlego (PR)
21/10 -- São Paulo -- Outs -- com Charme Chulo (PR)
29/10 -- São Paulo -- Festa lançamento Rock Tour Independente
acesse: vanguart.
Número de frases: 63
net (para mais info)
Por indicação de um amigo, conheci hoje o site Cultura E Mercado, muito interessante.
Encontrei, lendo a coluna CADERNO 2.
0, entre os destaques, referência a um texto que tem a colaboradora do Overmundo Oona Castro como co-autora.
Foi publicado originalmente no Observatório da Imprensa.
Já que o artigo trata de um tema muito atual, com abordagem inteligente, e tem além disso a reprodução liberada, achei interessante tê-lo publicado também no Overmundo, considerando que por conta própria não escreveria tão bem sobre essa questão específica, que teve desenrolar tão peculiar (como toda a implantação do sistema digital de televisão no Brasil).
Além disso descobri outros textos singulares, da maneira que se chega às coisas na internet:
pulando de link em link.
Ainda lembro, há três ou quatro anos, do ministro das comunicações da época alardeando a pesquisa conjunta de universidades brasileiras para o desenvolvimento de um padrão nacional.
Agora, por o jeito, além de engolir o japonês (que costuma ser um bom cardápio em restaurantes), também ganhamos como brinde a iminência de uma trava a mais.
A TV digital e os mecanismos anticópia
Por Diogo Moyses e Oona Castro em 18/9/2007
O Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD) foi -- e continua sendo -- alvo de inúmeras polêmicas.
Antes mesmo da publicação do Decreto Presidencial 5.820/06, diversos setores da sociedade debruçaram-se sobre os aspectos relativos à implantação da TV digital, com destaque para a escolha do padrão de modulação, a incorporação de tecnologias desenvolvidas no país, o modelo de serviços e as regras para a transição para os atuais concessionários.
A bola da vez é a possível adoção do sistema anticópia conhecido como DRM (digital rights management).
Circulam nos meios de comunicações diferentes pontos de vista sobre o assunto, com as empresas concessionárias de radiodifusão defendendo a adoção de mecanismos que impeçam os usuários de gravar os conteúdos transmitidos por a televisão, alegando que somente esse dispositivo evitaria a pirataria.
E, uma vez mais, o Ministério das Comunicações alinha-se à posição dos radiodifusores.
Caso venha a fazer parte das normas técnicas do SBTVD, o DRM impedirá o espectador de gravar qualquer programa televisivo.
Os conteúdos somente poderão ser armazenados no set top box, aparelho conversor por o qual vai passar o sinal digital para que o usuário possa assisti-lo em sua atual televisão.
O professor que deseja gravar programas de TV para posterior exibição em sala de aula (para ilustrar algum conteúdo disciplinar, por exemplo), ou mesmo o telespectador que habitualmente grava conteúdos ficcionais (novelas, por exemplo), ou jornalísticos (como uma entrevista importante) para depois assisti-los em qualquer outro lugar, não poderá mais fazê-lo, já que a armazenagem no set top box não permite que o conteúdo seja transmitido a outra mídia e, portanto, assistido em qualquer outro lugar -- nem na casa dos amigos, nem na escola, nem no trabalho.
Oferta livre de conteúdos
O espectro de freqüências por onde trafegam os sinais de rádio e TV é um bem público, sendo a exploração dos canais de televisão feita, portanto, a partir de concessões públicas.
Trata-se de um «espaço» de propriedade do conjunto dos brasileiros, administrado por a União, embora o serviço seja ofertado por empresas privadas como as que conhecemos (Rede Globo, Record Bandeirantes, SBT etc.).
Tais concessões são renovadas a cada 15 anos e devem seguir determinadas regras para que a exploração esteja de acordo com os princípios previstos na Constituição Federal.
Por se tratar de um serviço público, os sinais de televisão devem ser livres e gratuitos (Constituição Federal, artigo 155).
Em a mesma direção, o já citado Decreto Presidencial 5.820/06 estabelece que «o acesso ao SBTVD-T será assegurado, ao público em geral, de forma livre e gratuita, a fim de garantir o adequado cumprimento das condições de exploração objeto das outorgas».
É notório que a instituição da TV digital traz modificações na forma de transmissão e recepção da televisão (de analógico para digital), mas nada, em hipótese alguma, modifica o compromisso público que a televisão deve fazer prevalecer, entre elas, a oferta livre dos conteúdos.
E, se hoje o espectador pode decidir o que fazer com o conteúdo que recebe por o sinal da TV analógica, com o DRM não mais poderá fazê-lo.
Afirmações sem fundamento
Segundo os defensores do DRM, tais medidas de proteção tecnológica têm por objetivo impedir ou limitar a utilização de conteúdos digitais, sendo um instrumento para combater a cópia ilegal de filmes, CDs, softwares e outros tipos de conteúdo.
A justificativa é compreensível, mas os efeitos da opção serão negativos, em todos os sentidos.
A legislação brasileira (Lei 9.610/98) dá ao detentor do direito autoral a prerrogativa de decidir o que se pode fazer com sua obra.
A mesma legislação, no entanto, estabelece limitações e exceções a esse direito, visando a garantir o interesse público.
Com isso, algumas modalidades de uso são autorizadas sem a necessidade de autorização do autor (como o uso de trechos de obras para fins educativos, jornalísticos, de crítica etc.).
Além disso, há obras sobre as quais não se aplicam restrições de cópias, como aquelas de domínio público.
Filmes como O Garoto, de Charles Chaplin, O Gabinete do Dr. Caligari ou O Último Homem na Terra, de notória relevância, estão em domínio público.
Qualquer cidadão tem o direito de copiar, utilizar e distribuir tais obras.
Com o DRM, tal direito será tolhido.
De a mesma forma, filmes como Cafuné, licenciado em Creative Commons, cuja distribuição sem fins comerciais está autorizada por o autor, não poderá ser copiado.
Em resumo, caso adote o DRM, o Estado brasileiro vai retirar do cidadão o que lhe é um direito, fazendo com que um dispositivo técnico se sobreponha à lei.
Em nome de um direito (o autoral), violará-se-outro igualmente importante (o de acesso às obras).
Para que o leitor não seja enganado por afirmações sem fundamento, é preciso lembrar que a TV por assinatura já possui sinal digital e a comercialização de DVDs ilegais não se deve à gravação da programação exibida por cabo ou satélite.
Não se vendem DVDs copiados de forma caseirae da Fox, Telecine e outras, até porque os filmes são exibidos muito antes nas salas de cinema.
Somos mais piratas do que eles?
O sistema anticópia defendido para o SBTVD, o High-bandwith Digital Copy Protection (HDCP), é proprietário, ou seja, uma empresa privada detém os direitos sobre a tecnologia.
Sua inclusão na fabricação dos conversores da TV digital, se imposta à indústria por o Executivo, imputará o pagamento de royalties, encarecendo ainda mais um produto que, indicam os fabricantes, já não será acessível ao conjunto da população.
Entretanto, há quem esteja disposto a cobrir este custo.
Recentemente, a MPAA (Motion Picture Association of America), representante dos estúdios de Hollywood, esteve em Brasília, acompanhada de representantes das emissoras nacionais, para oferecer ao governo brasileiro subsídios para a inclusão do DRM nos conversores.
Curiosamente, foi após esta reunião que o ministro das Comunicações declarou que, ao contrário do que havia anunciado anteriormente, o SBTVD adotaria, sim, o uso de sistema anticópia.
Com isso, além da evasão de capital nacional para o exterior e o encarecimento do set top box, compromete-se a livre concorrência, na medida em que a empresa detentora da tecnologia monopolizará sua produção, impedindo a inovação e a fabricação de dispositivos compatíveis com o SBTVD.
A campanha contra a pirataria, uma vez mais, é a fachada para defender a inclusão do dispositivo na TV digital.
Mas vale a pergunta:
quando um CD da Marisa Monte, lançado com DRM, apareceu nas barracas de camelô, quem foi o responsável por a quebra do sistema?
Um usuário médio, padrão, fã da cantora?
Ou um especialista capaz de quebrar tantos outros sistemas anticópia?
E quem será o responsável por a distribuição ilegal?
O mesmo usuário padrão e seu fã?
Ou seja, o DRM é, inclusive, ineficiente e facilmente violável por especialistas.
Prejudicará somente o telespectador, não trazendo benefícios nem à grande indústria, que tanto o defende.
A indústria do entretenimento e da comunicação tem praticado um poderoso lobby a favor de uma tecnologia que não interessa ao cidadão.
Ao contrário, é prejudicial ao desenvolvimento tecnológico, ao acesso ao conhecimento, à produção e circulação de informação, à economia e à educação.
Mas não custa perguntar:
se o DRM é algo positivo e eficaz, por que os Estados Unidos e a Europa não o adotaram?
Somos mais piratas do que eles?
Coerentemente, nos Termos de Uso do site Observatório da Imprensa, está escrito:
«É permitida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização prévia dos editores, com a condição de ser mencionada a fonte -- Observatório da Imprensa --, o endereço www.observatoriodaimprensa.com.br e, quando for o caso, a fonte mencionada por o OI ..."
Aqui, no Overmundo, é interessante ler A Televisão não será Revolucionada, de Ronaldo Lemos
Os resultados da busca por a tag tv-digital também são interessantes.
Outros links:
Intervozes
Número de frases: 70
«Observatório do Direito à Comunicação» Bruno era um desses garotos elétricos.
Bastou que JR dissesse que aquela era a casa e ele saiu disparado por a porta adentro.
Sua irmã Lia ficou mais uma vez preocupada.
A casa não parecia muito segura com sua porta emperrada e os degraus caindo aos pedaços ( ...)
Isso dava um ar ainda mais misterioso e assustador à descoberta de JR.
Um dia desses, percorrendo as ruas do bairro, ele encontrara o casarão e o estranho objeto, escondido num armário embaixo da escada." (
Gian Danton, Mundo Dragão).
Assim começa a narrativa que nos envolve no imaginário infantil através das crianças Bruno, JR e Lia.
Eles encontram, no casarão, um prato de porcelana muito antigo que quando tocado por os três os transporta para uma nova realidade, um outro mundo.
Lá se deparam com seres estranhos como moluscos e árvores gigantes, lagartos com asas, e aprendem sobre os três reinos da natureza e seus dragões.
Cada reino tem um dragão responsável em manter o equilíbrio.
Entretanto, o equilíbrio foi quebrado com o surgimento de um novo ser que não era nem animal, nem vegetal, nem mineral.
Era um ser artificial, um robô que ninguém sabe ao certo como apareceu.
Sabe-se que o tal robô arrebatou uma multidão de súditos, que alimentam sua fome de informação sobre o Mundo Dragão.
De essa forma, detendo conhecimentos sobre os reinos, começou a atacá-los e nenhum guerreiro conseguia combatê-lo.
O robô dominou a todos que se lançaram contra ele e fez de eles seus escravos, mas segundo uma antiga profecia, havia uma esperança:
os reinos seriam salvos de um grande perigo por três crianças, que viriam de longe, de um lugar fora do Mundo Dragão.
A série Mundo Dragão já está em seu décimo segundo capítulo.
A ficção insere o leitor numa trama enigmática, cheia de aventuras e repleta de referências.
O autor é Gian Danton, pseudônimo do jornalista, professor, roteirista e escritor Ivan Carlo de Andrade, que tem como poucos a habilidade de possibilitar aos leitores acesso a temas difíceis de maneira fácil, instigante e lúdica.
Habilidade esta indispensável para uma série infantil que tem em seu enredo símbolos da cibernética e das teorias da comunicação.
Ele é autor de outros trabalhos, entre eles livros.
O mais recente é Watchmen e a teoria do caos, da editora Marca de Fantasia.
O último número de Mundo Dragão traz um convidado especial nas ilustrações:
o quadrinista cearense JJ Marreiro.
Além de JJ Marreiro, a série já teve ilustrações de diversos outros bons desenhistas nacionais, como Antonio Eder, José Aguiar, Falex, Jean Okada, Elza Keiko e outros.
Toda série está disponível no site da Virtual Books.
Como disse o escritor brasiliense Alexandre Lobão, se tivesse uma editora de visão e com o marketing adequado este material poderia vender que nem o Harry Potter.
Número de frases: 28
Gian Danton assina o blog Idéias de Jeca-tatu Em o último dia do mês de outubro recebi na minha Caixa Postal e-mail de um José Antônio Santos cujo assunto era:
«Sobrevivente da Marambaia».
Por conta do Projeto Reminiscências de Escola, em 17 do mesmo mês, postara no Overmundo matéria sobre meus tempos de colégio interno na Ilha da Marambaia, onde cursei o ginásio na segunda metade dos anos 60.
A exemplo da mítica Pandora, hesitei diante da caixa cuja mensagem, uma vez aberta, liberaria não os males do mundo, mas lembranças de um tempo que eu vivera naquela ilha do Atlântico, 43 anos atrás, e que subitamente retornariam do limbo, como fantasmas redivivos.
Por segundos, essa epifania quase proustiana me atirou num vórtice de sentimentos, que iam do medo à euforia, e me lembrei de uma frase de Walter Benjamin que dizia:
«O passado só se deixa fixar como imagem que relampeja irreversivelmente no momento em que é reconhecido."
E abri o e-mail.
Em a mensagem, Arroz -- que era como chamávamos Antônio na escola -- explicava que há muitos anos tentava encontrar alguém que tivesse vivido a mesma história que ele, sem sucesso, e confessava a angústia que o perseguia há anos de pensar que era o único sobrevivente daquele tempo que ele definia como «fantástico», quase» um sonho», e cujo cenário -- relembrava -- lhe parecia " fantasmagórico ":
«Aquela ilha cercada de matas exuberantes e sinistras ao mesmo tempo, aquele cemitério lá em cima do morro com visão para a Escola, aquela praia que significava uma hora de pessoa normal -- pelo menos até a hora do apito, a ' Divisão ', como era denominado o casario onde existiam as salas de aula ..."
E concluía perplexo:
«Sabe o que mais me impressiona?!
É vivermos atualmente na era da comunicação, internet e tudo o mais, e ninguém lá daquele tempo ler sobre isso para pesquisar ou entrar em contato com você."
Aquelas palavras promoveram uma arqueologia no meu imaginário e me trouxeram à tona vestígios de um tempo fantástico em que tínhamos uma existência mágica -- mais afeita ao universo de Cem Anos de Solidão do que a essa vida frugal que o futuro nos reservou.
Recordar o passado foi como percorrer um labirinto de emoções, um território híbrido de memórias e sentimentos que eu desconhecia.
Lembrei-me do que Proust escreveu sobre a formação do eu:
«O nosso eu é edificado por a superposição de estados sucessivos.
Mas essa superposição não é imutável, como a estratificação de uma montanha.
Levantamentos contínuos fazem aflorar à superfície camadas antigas."
De fato, foi como se o e-mail deflagrasse um sismo na minha alma e trouxesse à superfície de mim mesmo fragmentos da memória que eu esquecera em algum lugar do passado e nunca mais atinara.
«O nome do Jáder era Jáder Bruno e ele era um ' teso ` [ríspido, rigoroso] nas aulas, flamenguista, de vez em quando cismava que ia ' dar um zero em todo mundo! '
O senhor da lavanderia que você não lembrou «-- explicava --» era o Seu Mathias!
E as Irmãs da enfermaria ...
davam até medo, ninguém queria passar mal e ter que dormir lá."
Por fim, ele desfiava um rosário de nomes que há muito eu esquecera:
«Erasmino, Ademir, Canguru, Alaor, Gercino, Nagiba, Zé Carioca, Davi, Jumentinho, Alteredo, Gilberto, Jessé, Almerindo, Pp, Pompílio, Vovó, Pingo, Luciano, Filé, Walace ...»,
todos habitantes de uma Macondo particular cujo mapa de acesso eu perdera no tempo.
Outros sobreviventes.
Em os dias que se seguiram àquele, muitos outros amigos da época entraram em contato com mim, revelando não só a capacidade de mobilização da internet, como a força aglutinadora do Overmundo.
Essas mensagens -- tais como os pergaminhos de Melquíades na obra de García Marques -- acabaram por reunir destinos que jamais teriam uma segunda chance para isso não fosse o Projeto Reminiscências de Escola.
Adiante reproduzo resumos de e-mails que recebi para que vocês tenham idéia do que estou falando.
Se quiserem ler todas as mensagens, cliquem aqui e, depois, no documento em Word.
Essa troca de e-mails também está disponível na página do grupo do livro colaborativo «Reminiscências de Escola», aqui.
E-mail de Carlos Alberto -- Amigo Nivaldo, fiquei muito feliz também com o que li do meu também amigo José Antonio dos Santos, o «Arroz».
Em a época da escola, andávamos juntos.
Ele morava em Copacabana e adorava nadar e, com ele, várias vezes «escamei» (lembra dessa expressão? [
«escamar» significava fugir]) nadando até o Cais, para mergulharmos do Guindaste da ponte!
Bons tempos aqueles!
Tenho que falar, fiquei frustrado por você não ter me enviado o e-mail do «Arroz», preciso entrar em contato com ele também e relatar que tinha o mesmo anseio de ele, ou seja, de encontrar ex-alunos da Marambaia.
Só que eu tive êxito, pois, em 2002, conseguimos organizar, com a grande colaboração do Arnaldo Schunk, três encontros.
Abaixo, colei uma página do Orkut ( ...).
Lá encontrarás vários depoimentos de ex-alunos, alguns do nosso tempo.
Envie também para o «Arroz».
Um fraternal abraço, Carlos Alberto.
E-mail de Arnaldo Schunk -- Caro Nivaldo, recebi o e-mail do Carlos Alberto sobre o seu trabalho.
Antes de começar a lê-lo, resolvi te dar um alô.
Um grande abraço para você, meu colega de colégio."
E completava num segundo e-mail, horas depois:
«Fiquei até arrepiado de encontrar mais um amigo da Marambaia.
Fizemos, há uns quatro anos, um encontro de ex-marambaienses, na Cidade dos Meninos.
Foi um show, com a presença de bastantes colegas, incluindo Adaury, Leonel (faleceu este ano), os moradores de Paraty como Walmir, Gagary, Calango, Carlos Alberto e tantos outros que não me lembro agora.
Trabalho aqui na Petrobras há 31 anos, estou com 54, moro em Copa e tenho o meu André, com 28 anos, e o meu Leonardo, com 26 anos, que são meus grandes amigos.
Excepcionalmente, hoje estou saindo mais tarde, pois só tive reuniões cabeludas.
Vamos marcar um tempo para um bom papo.
Um forte abraço, Arnaldo Schunk.
E-mail de Gilberto Pintinho -- Caro Nivaldo, gostei muito de saber que muitos colegas se lembram do nosso tempo de Marambaia.
Não sei se você lembra de mim, mas eu sou o Gilberto Ribeiro de Almeida, mais conhecido como «Pintinho» (magrinho e loirinho que, quando tomava chuva, parecia um pintinho molhado).
Entrei na escola em 1966 e saí em 1969, acho que fui da última turma a se formar.
Nossa formatura foi em Itacuruçá.
Até acho que na foto do time do Estrela (uniforme azul), sou em quem está agachado.
Em o ano de 2000, tive a oportunidade de voltar à Ilha junto com alguns colegas, de entre eles o Carlos Alberto (Negão).
Gostaria muito de rever os companheiros e também os professores de quem me lembro muito bem.
Gostaria também de ter uma memória privilegiada quanto a do José Antonio (Arroz) que conseguiu relembrar antigos companheiros nossos.
Qualquer notícia, pode entrar em contato com mim ou através do Shunck, que tem meus telefones.
Um abraço pra todos da Marambaia.
José Carlos Cavalcanti -- Nivaldo, o meu amigo Schunk me informou que no site overmundo.
com. br encontraria algo relativo à Marambaia escrito por você.
Então comecei minha viagem Overmundo afora e te confesso que, ao ler seus relatos, retroagi aos meus 13 anos, quando comecei a estudar na Marambaia, em 1965.
Em a época, morava em Paraty e, como os meus pais não tinham como pagar meus estudos, deliberadamente decidi partir para essa doce aventura.
Ou seja: doce aventura a partir do segundo ano em que lá estudei, porque no primeiro foi muito difícil para mim, uma vez que ficar longe dos pais, dos irmãos e amigos não foi nada fácil.
Mas, a partir do segundo ano, as coisas começaram a melhorar, por ter conseguido aceitar ficar longe, principalmente dos meus pais e dos meus irmãos, o que, hoje afirmo com absoluta certeza, foi a decisão mais importante e corajosa que tomei na minha vida, e a ela devo o que sou hoje.
Trabalho há 31 anos na Petrobras com os meus colegas Arnaldo Schunk e Hildebrando:
não sei se tem outros ex-alunos trabalhando na empresa.
Estou curioso em saber o que você, além de poeta, está fazendo.
Estudávamos na mesma turma.
Veja se você se recorda:
na primeira foto de Aventura de dois coroinhas no colégio interno, eu sou o quarto em pé, da esqueda para a direita;
na foto do time, sou o penúltimo agachado, da esquerda para direita e, na foto do desfile, sou o oitavo da fila da direita.
Um grande abraço, estou torcendo por você.
Aqui te escreve o 140.
O mais incrível aconteceu, na quarta-feira, 14 de novembro.
Recebi mensagem emocionada de alguém que, explicava, morava há muitos anos na Argentina.
Em o assunto, apenas o intertítulo acima, o que me fez concluir tratar-se de outro amigo do colégio interno, onde todos tínhamos um número de identificação (o meu era 51, que à época não era uma boa idéia).
O remetente era Pedro Fernandez, que na escola chamávamos de Pedrinho e que, como eu e meu irmão, também fora coroinha do Padre Gerardo.
Em uma mistura de português e espanhol, ele reafirmava o sentimento de saudade comum a todos em relação à escola e se confessava emocionado com este reencontro virtual, deixando-me também com um nó na garganta ao recordar de nossa viagem a Jaguanum.
Leiam vocês mesmos.
Bom-dia, Nivaldo.
Gostei muito do que você escreveu.
Fiquei muito emocionado e cheio de lembranças daquela época.
Nós ajudamos missa juntos mais de uma vez, até na Ilha de Jaguanum, com o Frei Gerardo, no ano de 66 ou 67. Você se formou em 1968 e eu no ano de 1969.
Eu sou o Pedrinho, morava em Mangaratiba e agora, faz muitos anos, moro na Argentina.
Gostaria de escreverme com você e, se possível, com o'Arroz ' também, que me lembro era de Teresópolis e do tempo da Fundação.
Eu era Azul, entrei no 66 e me formei no 69. Sim que foram anos difíceis e de Ditadura.
O professor Adaury chegou a dizer que eu era subversivo e eu hoje acho tudo aquilo engraçado, apesar da dureza.
Também me lembro da primeira noite naquela ilha, depois de chegar de Mangaratiba de noite con sudoeste no Tintorero.
Pra mim, hoje eu penso que aquilo foi uma aventura, mas, na minha vida, certamente inesquecível.
Como eu gostava das aulas do professor Cyro y lembro bem do professor Ademir com a sua calça LEE, uma revolução para a época.
Em primeiro lugar peço desculpa do meu Português ruim, aqui na minha PC, que faz pouco tempo a tenho e não sei muito, não tenho til, nem cecidillha, nem acento circunflexo;
e está em Espanhol, por favor, desculpa [nota:
coloquei acentos e cedilhas para facilitar a leitura].
Estou escrevendo neste endereço porque não pude entrar na página do Overmundo pra felicitar a sua narração, que fazia tempo estava buscando meus colegas do Darcy Vargas, da Marambaia, e me encontrei com um poeta e uma memória escrita de maneira maravillosa.
Você tem que seguir escrevendo da ilha, eu coincido com os que te escreverom no Overmundo.
Se você puder, espero a tua resposta pra matar as saudades.
Um abrazo para você e teu irmão.
Pedrinho.
Desde então temos mantido intensa correspondência.
Estamos inclusive aventando a possibilidade de realizar um churrasco no Planeta Sonho, sítio de meu irmão, para comemorarmos este reencontro quatro décadas depois e acertarmos uma volta à Ilha da Marambaia.
Por o passado comum e a maneira com que todos vivenciamos essa memorabilia, torna-se quase inevitável uma analogia com o universo imaginado por o autor de Em Busca do Tempo Perdido, de quem tomo novamente emprestado a frase com que encerro esta suíte de Dores e alegrias de uma escola à beira-mar:
Número de frases: 107
«Os verdadeiros paraísos são os paraísos que se perderam."
Saí de casa no sábado às 18:30 com duas missões:
1 -- Superar a última Virada 2 -- Registrar em vídeo e foto o máximo possível.
Para tal uniu-se a mim um amigo e partimos para desbravar o centro de São Paulo.
Claro que o centro;
apesar da Virada ter alastrado-se por todo o estado, o coração de ela ainda está no coração da cidade.
Virada sem centro é como pastel sem garapa:
não tem o mesmo gosto.
A primeira missão foi rapidamente cumprida.
Logo de cara a apresentação do Ares Ateliê de Arte e Performance no Shopping Light valeu o esforço.
Pendurados por cabos, realizaram uma dança de rapel misturando influências clássicas e contemporâneas, vestidos de gala se intercalaram com sobretudos azuis dignos de super-heróis.
Já o Palco Boulevard São João estava disputadíssimo, ao menos durante a apresentação do Teatro Mágico, foi impossível assistir.
Havia vários conhecidos no lugar durante a apresentação e fui incapaz de encontrar qualquer um de eles.
Em a Barão de Itapetininga, chegamos cedo para o show de Serguei, e previmos que ele iria esvaziar o local com sua estranhice.
Ledo engano, logo que o show começou o local foi ficando cada vez mais populoso, imagino que todos tão curiosos quanto eu de ver essa bizarra e folclórica figura.
Com a curiosidade saciada, não ficamos até o final e decidimos comer um clássico pernil com queijo no Estadão e encontrar alguns amigos antes de partirmos para a nossa atração principal da noite.
Em a Praça da República diversas pessoas estavam espalhadas, algumas sentadas na grama, outras olhando os chafarizes nas pontes sobre o lago artificial.
Como no caso do Teatro Mágico, assistir à apresentação do grupo Teatral A Fornalha estava impossível, o palco era minúsculo e totalmente cercado por o público.
Por sorte o entretenimento na praça foi garantido por artistas itinerantes.
Pouco antes da uma da manhã nos dirigimos à Vieira de Carvalho testemunhar outra figura folclórica da música nacional.
Os arredores do palco eram servidos de mesas e cadeiras para o público alvo, ilustres senhoras, sentarem-se e apreciaram a música;
além disso uma pista de dança munida de luzes coloridas e um globo de espelho convidava os espectadores a formarem pares e criarem ali mesmo um baile.
A apresentação sequer havia começado e o público já se deliciava com um show, ou melhor, Wilson Danilo Show;
um simpaticíssimo senhor parte da organização que mantinha o ânimo dos presentes dublando boleros e outras músicas antigas enquanto fazia comentários espirituosos, como o sensacional:
«Hoje estou arquimilionário de alegria na cidade de São Paulo."
Um grande mestre de cerimônias que foi aplaudido e ovacionado.
Eis então que surge o imbatível Cauby Peixoto com sua capa preta, paletó cintilante e uma voz tamanha.
Fisicamente debilitado, realizou o show sentado.
Mas não perdeu o fôlego uma só vez, elogiou a performance musical do público, mandou beijos e ainda convidou Ângela Maria ao palco para um dueto -- que se tornou um trieto já que Agnaldo Timóteo se intrometeu (e posteriormente foi vaiado num show solo não programado antes de Fernando Ferrer).
Em seguida realizamos uma perambulação por as ruas do centro atrás de imagens interessantes, sem compromisso com qualquer evento.
Durante toda a noite cruzamos com diversas atrações:
Psytrance, Tecno, Piano na Praça, Palco de Dança, intervenções ou itinerantes, tudo valia ser visto e registrado.
A idéia era aproveitar ao máximo o evento como um todo.
Quase tudo que se fala da Virada é sobre a confusão do show dos Racionais.
O que é uma desgraça.
Não só o acontecimento, mas o puro interesse em ele.
Confesso que depois do incidente (e da polícia quase levar minha câmera embora por eu estar filmando uma aglomeração de eles no Anhangabaú), apesar da vontade de ver os shows de punk na Barão, o evento meio que acabou para mim e voltei para a casa por volta das sete da manhã -- a questão aqui é que quando se está numa confusão desse tipo você não entende bem o que está acontecendo, e a impressão que tive é que o caos tinha se espalhado por o centro inteiro e acabado com a festa de maneira geral.
A boa surpresa é que eu estava errado e ela terminou como programado.
O mérito da Virada é mostrar que em tempos de ataques do PCC o povo da cidade ainda tem a vontade e alguma disposição de clamar as ruas para si.
Em a classe média paulistana existe um grande medo do centro e das coisas horríveis que podem acontecer por lá, mas em todas as minhas incursões eu pessoalmente jamais tive problemas.
Durante o evento conversei com estranhos dos mais diferentes bairros, com diferentes gostos e classes sociais e cada um fazia sua programação.
Mesmo antes do confronto, tive a sensação de que o policiamento estava escasso, e a quantidade de gente era enorme, eu havia ficado impressionado durante a Virada anterior, mas essa passou longe.
É um paradoxo:
o pontapé inicial foi do governo, mas o sentimento que permitiu cada indivíduo se sentir seguro para lançar-se às ruas da cidade durante a madrugada é de autoria do povo em si.
Esse tipo de acontecimento me deixa impressionado e orgulhoso.
Número de frases: 45
Parabéns aos paulistanos.
Recentemente, um conhecido comerciante da tricentenária Vila Rica -- Preto, se preferir -- pendurou na fachada do seu estabelecimento um cartaz com pelo menos uma dúzia de fotografias onde pontua seu descontentamento com o que chama de «favelização» do patrimônio mundial.
Costumo dizer que até a apresentação das provas o postulante tem metade da verdade e 50 % de razão.
Em esse caso específico, eu diria 75, uma vez que os comerciantes têm a sua parcela de responsabilidade.
Não desmerecendo a iniciativa, pelo contrário, penso que tal discussão requer melhor amplitude e desdobramentos.
Concordo com o comerciante indignado que a inércia do poder público -- Prefeitura, Estado, IPHAN, etc.-- contribui para que as «anomalias» registradas em sua objetiva maltratem a imagem da cidade, descaracterizem o conjunto arquitetônico e subtraiam da paisagem a sua beleza natural e particular.
Não é novidade o discurso e a denúncia do desmazelo.
Trata-se de um desabafo, muito oportuno por sinal.
Entretanto -- e esta é a contribuição do protesto, cada fotografia traz em si diversas perspectivas e oportunidades de melhorias que podem contribuir para a qualidade de vida das pessoas que vivem nesta cidade, reconhecido berço da história de Minas Gerais, patrimônio cultural da humanidade.
Antes de entrar no mérito da questão é útil e conveniente esclarecer aos leitores do Overmundo que não se trata de um problema doméstico, tem a ver com a preservação de nossas tradições e nossos sentimentos por este pedaço de chão.
Cada caso deve ser tratado em sua especificidade, e como demonstra o mostruário de situações nas imagens expostas, a coisa vai de mal a pior.
Eu destaco e classifico os problemas denunciados por ordem de urgência e importância, a saber: (
1) o «inchamento» da cidade por ocasião das festas tradicionais; (
2) o processo de «descaracterização» da cidade; (
3) a preservação do patrimônio histórico; (
4) a preservação do patrimônio natural;
e (5) a falta de perspectivas para o futuro.
Minha contribuição para isto é esclarecer ao público, particularmente para os deslumbrados turistas e admiradores desinformados do maior conjunto arquitetônico barroco do Brasil que o buraco é mais embaixo.
Para os políticos, assim é se lhe parece.
E não é.
É impossível expor a quantidade de problemas denunciados por as tais fotografias em poucas palavras, de sorte que estarei enviando notícias e opiniões nos próximos encontros com o Overmundo, esperando que as colaborações e comentários possam ser úteis no futuro para nossos representantes políticos.
Não creio que leiam o Overmundo (ou queiram ler ou saibam ler), mas a esperança não morre fácil assim.
O Inchamento
Algumas das fotos chamam a atenção para o «inchamento» de Ouro Preto por ocasião do carnaval, particularmente.
Em o último carnaval, por exemplo, a população da cidade aumentou cerca de quatro vezes a sua capacidade, as repúblicas, os hotéis, as pousadas e mesmo casas de famílias ouropretanas receberam um número exorbitante de turistas.
Instalou-se o caos nesta cidade, relativamente calma e ordeira.
As imagens do citado comerciante destacam a sujeira e os descalabros dos foliões que fazem de Ouro Preto uma imensa latrina, um depósito de suas incontinências esfincterinas e perversões sexuais.
Parece exagero reacionário, e não é.
Reacionário seria aceitar este estado de coisas, não querer mudanças.
Pior é a informação incompleta e parcial dos meios de comunicação que cobriram a festa, os olhos e ouvidos de mercador das instituições e organizações políticas, do poder público, o silêncio das autoridades desta cidade.
Por o número de elogios ao «melhor» carnaval de Minas, o número de comunidades e sites que destacaram a folia em 2007 na velha Vila Rica, faz-nos crer que a festa é organizada, limpa, sem violência, que tudo correu na mais perfeita normalidade, etc..
Este discurso sim, é reacionário.
Interessante notar o noticiário das oito, as intervenções e coberturas da mídia em rede nacional para os cordões, os blocos carnavalescos, a alegria incontida dos foliões, um jornalismo pasteurizado e sem conteúdo crítico, um verdadeiro show de desinformação.
Isto é reacionário.
Prefiro -- neste caso -- as tais fotografias, que retratam melhor a realidade vivida.
Para que o leitor do Overmundo tenha idéia do meu reacionarismo:
imagine um sujeito cagando e mijando na porta da sua casa, sem o mínimo pudor, sem a mínima decência, em plena luz do dia.
Para ficar por aqui, afinal coisas piores atravessam os olhos do cidadão e de sua família, quando não das crianças.
Exagero?
Visitem Ouro Preto na quarta-feira de cinzas por ocasião da limpeza das ladeiras por os caminhões pipas da Prefeitura.
Recomendo ingerir comprimidos de anti-nauseante, uma caixa de eles, um litro se for líquido.
Este é o nosso carnaval, ou o que sobrou de ele.
Penso que nas cidades mais liberais e tolerantes do planeta estas práticas não encontram proteção da lei e descaso das autoridades.
Certo é que o cidadão ouropretano, cumpridor de seus deveres e verdadeiro apaixonado por esta terra não concordará jamais com as notícias do Jornal Nacional, somos inconfidentes e cultivamos nossa alma revolucionária.
Aqui no Overmundo, espero esclarecer algumas incongruências e trazer a informação que não foi publicada como deveria.
Sou mineiro e bastante reacionário, se assim lhe parece.
Se você ouviu ou leu alguma informação sobre a Folia em Ouro Preto, peço comentar e emitir sua opinião a respeito.
Em a próxima postagem O Verdadeiro Carnaval de Vila Rica.
Aguardem!
Número de frases: 49
Aproveito e aumento o zoom, ok Quem tem medo de jiló?
Talvez exista uma cultura comum entre os diversos botecos da cidade.
E talvez o jiló tenha algo a ver com isso.
Jiló não é legume, pra começar a conversa.
É um fruto, mas esse não é o motivo de tanta discriminação por a qual ele tem sofrido ao longo dos anos.
Tudo bem, não se trata aqui de escrever um libelo em defesa desse injustiçado.
Mas me chamou a atenção o fato de que o recém-lançado (novembro foi outro dia) guia Rio Botequim, em sua 7ª e especialíssima edição, dedicada à famosa e suculenta comida de botequim, não se refere a nenhum -- nenhum -- petisco que leve esse malfadado fruto em consideração.
É verdade que o Jiló, bar localizado no Leblon (mas ao qual ainda não fui devidamente apresentado) lá estava.
Mas nenhuma referência ao dito cujo.
Nem em meio a alguma salada (é verdade, também são vendidas saladas em botequins!),
ou escondido de entre outros petiscos, como na mistura que envolve jiló, salsichinhas e cebolinhas do Real Chopp, outro que ficou de fora dessa edição apesar do maravilhoso e único pastel de carne seca.
Ou alguém mais já conheceu algum pastel de carne seca molhado?
Molhado?!? Ao menos, o Real Chopp já figurou em outras edições do guia.
O jiló, coitado, jamais passou por suas páginas.
Tá bom, tá bom, talvez eu esteja forçando a barra um pouco.
Afinal, gosto é gosto.
Ninguém é obrigado a gostar de jiló tanto quanto eu (acho que tenho um pouco de passarinho em vidas passadas, vai saber), tanto quanto é verdade que garçons de boteco não precisam ser bem humorados (quem já foi -- e continuou indo depois disso -- ao Bip Bip, de entre outros, sabe do que estou falando).
Vida que segue.
A questão é que a presença do jiló no cardápio (ou fora de ele, mas ao menos exposto no balcão) é um dos itens que caracterizam um verdadeiro boteco.
Junto com outras duas perguntas -- de onde viemos?
Para onde vamos?--
uma terceira atormenta a vida de boêmios:
o que faz de um boteco?
O que lhe garante poder ostentar esse nome?
Essa pergunta não faria sentido anos atrás, quando os lugares para comer e beber eram divididos entre botecos e restaurantes, basicamente.
Não havia nenhum dilema, era escolher entre beber com os amigos (ou sozinho) ou levar a família.
Algo do tipo «mulher para comer» e «mulher para casar» (poucas frases são tão machistas quanto essa ...
mas tinha a ver com o contexto, então ...).
Bastava escolher o que se desejava no momento.
Eis que essa paz foi interrompida com o advento das " novas tradições ":
velhos bares que mudaram seus ares (como o Belmonte, por exemplo), ou novos estabelecimentos e redes de bares, pipocando por toda a Cidade Maravilhosa.
E o título de «boteco» colado a muitos desses novos nomes.
Antes de continuar devo dizer que nada tenho contra esses novos bares, ou essas " novas tradições ":
pelo contrário, a princípio, são bem-vindo.
Boa comida, boa bebida, bom ambiente e bom preço (para o bolso dos proprietários, claro ...)
fazem parte do cardápio.
O problema é que talvez estejamos concordando com a concessão de um título que talvez não seja devido, não seja merecido.
É como a escolha de um novo Barão, um novo Conde:
deve ter algum motivo muito claro para a pessoa receber esse título.
O que nos traz de volta à velha pergunta:
afinal, o que faz de um boteco?
Talvez exista uma cultura comum entre os diversos botecos da cidade, que o caracterizam como tal.
E talvez o jiló tenha algo a ver com isso.
São essas perguntas, caro (a) s leitore (a) s, que pretendo desvendar nessas mal traçadas linhas.
E desconfio que o jiló seja a chave ...
Ou parte de ela.
O seu sumiço das prateleiras e do cardápio, comida de macho (e de " macha "), de quem sabe apreciar um legume (fruto!
fruto!) de sabor bem forte e que combina divinamente bem com cerveja, pode querer nos dizer alguma coisa.
Sinal dos novos tempos?
Onde ainda se pode encontrar o bom e velho jiló, bem temperado?
Quem tem medo de jiló?
Perguntas, perguntas, perguntas.
E talvez descobrindo isso, descobrimos afinal o que faz de um boteco.
Em tempo:
no Belmonte «original» (na Praia do Flamengo, realmente não vi nos demais), lá está ele, impávido colosso:
os balcões estampam bem temperados jilós.
Vida longa ao Belmonte!
Ic!
Número de frases: 58
Meu nome é André Lucena, tenho 19 anos e sou um dos produtores do 17º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo.
Desde os 14 anos trabalho com cinema e venho aqui para contar a minha breve história dentro do audiovisual.
O primeiro passo da minha experiência profissional começou quando, na escola em que eu estudava, surgiu, através de uma Ong, uma série de oficinas de realização como percussão, hip-hop, cinema, entre outras.
Decidi entrar para a oficina de cinema, pois era um universo que eu jamais conhecera.
Eu, muito entusiasmado com a oficina, escrevi um roteiro de ficção, misturando comédia com dramas reais, que foi o escolhido para filmar entre os oito roteiros do grupo.
O filme foi rodado em 16mm e sua primeira exibição foi na primeira edição da seção Formação do Olhar em 2002.
A platéia veio abaixo com o filme e altas gargalhadas soaram na sala, além de ser amplamente aplaudido, para nossa felicidade.
O filme teve grande repercussão, foi amplamente exibido, inclusive no exterior, e nós demos entrevistas para jornais e tvs.
A convite da minha professora da oficina de cinema, trabalhei como estagiário de direção em alguns curtas, e dias depois comecei a trabalhar com ela numa produtora de publicidade, sendo efetivado logo no primeiro mês de trabalho.
Passados alguns meses virei produtor, e produzi durante dois anos, vídeos institucionais, programas e comerciais para a tv.
Paralelamente ao trabalho, realizei dois curtas por as Oficinas Kinoforum de Realização Audiovisual.
Sai da produtora e entrei como assistente de produção para o Festival Latino Americano de Toronto/Canadá.
Logo em seguida, trabalhei um ano com produção de mostras, festivais, filmes e eventos numa produtora de cinema.
Trabalhei ainda, como produtor de peças de teatro e shows com intérpretes da música popular brasileira.
Agora, há quatro anos trabalhando com audiovisual, sou o produtor da seção Kinoforum Formação do Olhar do 17º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, a mesma seção em que foi exibido pela primeira vez o meu filme «Alma do Pai».
A seção é dedicada à exibição de filmes e vídeos realizados em iniciativas que utilizam o audiovisual como instrumento de inserção social e conta hoje com a coordenação da minha primeira professora de cinema, Moira Toledo, pessoa fundamental para a minha formação audiovisual.
Caso você queira trocar experiências pessoais e / ou profissionais, escreva para o meu e-mail, andrelucenamagro@hotmail.com. E se você realizou algum vídeo dentro de uma oficina audiovisual em alguma ong, projeto ou núcleo, peça para o coordenador da oficina inscrever seu vídeo na seção Kinoforum Formação do Olhar através do e-mail olhar@kinoforum.org.
Quem sabe o seu vídeo seja apenas o começo de uma grande história dentro do audiovisual.
Acredito que, para construibuir para a construção de um audiovisual democrático, precisamos cada vez mais trocar informações, divulgar e exibir essas iniciativas de inclusão social.
Recomendo alguns sites de iniciativas que realizam oficinas audiovisuais, parecidas com aquela que possibilitou a realização do meu primeiro filme:
www.nosdocinema.org.br/mambo
www.videonasaldeias.org.br www.kinoforum.org
www.institutocriar.org www.cinemaneiro.com.br
Forte abraço.
Número de frases: 24
André Lucena
Durante cinco dias, debates entre escritores e leitores -- além de uma vasta programação paralela com cursos, exposições, conferências, espetáculos teatrais, shows, concertos e uma mostra de filmes -- celebrarão a leitura como prática dinâmica, capaz de englobar várias manifestações artísticas.
Entre os convidados estão o historiador e antropólogo italiano Carlo Ginzburg, o poeta francês Henri Deluy, o pesquisador e roteirista de quadrinhos Gerard Jones, o poeta e dramaturgo cubano Reinaldo Montero, o romancista polonês Miroslaw Bujko, e os brasileiros Affonso Romano de Sant'Anna, Ferréz, José Roberto Torero, Lya Luft, Luiz Ruffato, Mariana Ianelli, Marina Colasanti, Milton Hatoum, Nelson Motta, Ziraldo e Marcos Vilaça.
Faltam pouco mais de 40 dias para a abertura da 12ª Jornada Nacional de Literatura, que vai agitar Passo Fundo de 27 a 31 de agosto.
«Leitura da Arte & Arte da Leitura», o tema deste ano, resume à perfeição o objetivo da Jornada, que desde 1981 trabalha «um conceito amplo de leitura, formando leitores de textos impressos, de textos apresentados em diferentes suportes, de textos literários e constituídos por as linguagens das diferentes manifestações artísticas», segundo Tania Rösing, coordenadora geral.
A Jornada é uma realização da Universidade de Passo Fundo (UPF) e da Prefeitura Municipal de Passo Fundo.
Patrocínio cultural:
Petrobras, Banrisul, Caixa RS, Eletrobrás, RGE, Coca-Cola, Fonte Ijuí e Grazziotin.
Durante cinco dias, escritores, artistas e leitores discutirão a leitura num paradigma amplo, procurando incorporar as várias manifestações artísticas, percebendo o sujeito leitor como um artífice atuante de múltiplas interpretações diante dos produtos da cultura.
De entre os convidados deste ano estão o historiador e antropólogo italiano Carlo Ginzburg, o poeta francês Henri Deluy, o poeta e dramaturgo cubano Reinaldo Montero, o pesquisador e roteirista e quadrinhos norte-americano Gerard Jones, o romancista polonês Miroslaw Bujko, e os brasileiros Affonso Romano de Sant'Anna, Ferréz, José Roberto Torero, Lya Luft, Luiz Ruffato, Mariana Ianelli, Marina Colasanti, Milton Hatoum, Nelson Motta, Ziraldo e Marcos Vilaça, presidente da Academia Brasileira de Letras.
A coordenação dos debates é de Alcione Araújo, Ignácio de Loyola Brandão e Júlio Diniz.
A grande originalidade da Jornada é sua peculiar metodologia, com a leitura prévia das obras dos autores convidados e debates sobre as mesmas.
«Os professores propõem práticas leitoras multimidiais a partir do texto literário e esse é o nosso diferencial.
Nosso trabalho é contínuo, permanente e envolve diretamente as escolas, através de seus professores, alunos e responsáveis por bibliotecas», comenta " Tania Rösing.
Em os últimos 26 anos, a Universidade de Passo Fundo dedicou-se a uma movimentação cultural cujos resultados educativos, culturais e sociais são imensuráveis por a magnitude de seu objetivo, que é formar leitores críticos, entendedores das mais distintas linguagens, no contexto de um país cuja necessidade cultural se constitui na sua maior riqueza», afirma Rui Getúlio Soares, reitor da Universidade de Passo Fundo.
A Jornada Nacional de Literatura prestará uma homenagem a Rui de Oliveira, artista plástico carioca reconhecido como um dos mais importantes ilustradores brasileiros.
Oliveira ilustrou 120 livros e fez cerca de 400 capas para as principais editoras de literatura infanto-juvenil do país, além de filmes de animação, cartazes e programação visual para cinema.
A exposição «Rui de Oliveira -- 30 anos de ilustração de livros» oferece uma visão retrospectiva de sua produção por meio de 150 trabalhos originais.
Durante a Jornada, o artista fará quatro palestras:
duas sobre cartazes e duas sobre ilustração de livros.
Muitos livros serão lançados durante o evento.
Já estão confirmados Trem de ouro, de Miroslaw Bujko;
A fenda, de Alfredo Aquino;
Almádena, de Mariana Ianelli, e A infância de Ziraldo, de Audálio Dantas, entre outros.
A programação inclui ainda a 4ª Jornadinha Nacional de Literatura, dedicada a alunos do ensino fundamental e médio, que terá encontros entre autores e estudantes;
shows e espetáculos de teatro;
o 6° Seminário Internacional de Pesquisa em Leitura e Patrimônio Cultural;
o 2º Encontro da Academia Brasileira de Letras -- Revisitando os Clássicos II, e uma novidade, o Encontro Estadual de Escritores, que vai debater a criação literária gaúcha -- com a participação de autores como Moacyr Scliar, Letícia Wierzchowski, Fabrício Carpinejar, Daniel Galera, Alfredo Aquino e Paulo Ribeiro --, além de uma intensa programação paralela composta por cursos, exposições, conferências, espetáculos teatrais, shows, concertos e uma mostra de filmes.
Quem não for a Passo Fundo não perderá a Jornada.
Os debates e entrevistas com os autores convidados serão transmitidos ao vivo por a internet, uma inovação que estará disponível no site www.jornadadeliteratura.upf.br.
Durante a sessão solene de abertura da Jornada, no dia 27 de agosto, às 19h30, no Circo da Cultura, em Passo Fundo, serão anunciados os vencedores do 5º Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura e do 10º Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães.
Com dotação de R$ 100 mil, o Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon recompensa o autor do melhor romance escrito em língua portuguesa publicado entre junho de 2005 e 30 de maio de 2007.
O vencedor da quarta edição foi Chico Buarque de Holanda, com o romance Budapeste.
O Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães homenageia o jornalista e escritor gaúcho que estimulou a criação e expansão da Jornada de Passo Fundo.
O primeiro colocado receberá R$ 5 mil, o Troféu Vasco Prado e uma viagem de dez dias a Santiago de Compostela, na Espanha, com passagem (saída de São Paulo) e hospedagem gratuitas.
O segundo colocado receberá R$ 3 mil.
Os contos premiados serão editados em antologia organizada por o Instituto Estadual do Livro, a ser publicada em co-edição com a Fundação Universidade de Passo Fundo e com a Prefeitura Municipal de Passo Fundo.
Número de frases: 37
Mais informações com Ivani Cardoso/Alexandre Agabiti (Lu Fernandes Escritório de Comunicação) por o telefone (11) 3814-4600
Egberto Gismonti anda sumido do cenário musical brasileiro.
Por o que aferi da conversa recente que tive com ele por telefone, por ocasião de um show aberto num shopping de Goiânia, parece um sumiço voluntário.
Ao menos do Brasil, já que ele mantém uma agenda requisitada no exterior.
Achei-o meio amargurado, fruto provavelmente de um descaso do complexo em que pese ele dizer fugir disso como o demo da cruz hoje em dia.
Deve ser a mesma amargura que acometeu Tom Jobim no fim da vida, de resto bem compreensível.
Em outros momentos, Gismonti me pareceu até meio xiita, já que tem se recusado a ter os discos de ele e do selo de ele, a Carmo Discos, distribuídos no Brasil.
Mas é sempre interessante ouvir um cara como ele.
Leiam e tirem suas conclusões:
Em os anos 70 e 80 você teve uma produção intensa no Brasil.
Isso continua?
Como está a sua carreira em termos de produção de show, de música etc?
Em a realidade, você está falando uma coisa que provavelmente chegou a você.
É o seguinte:
nos anos 70, 80 e 90, ou seja, praticamente nessas três décadas aí, eu fiz 60 discos.
Quem faz 60 discos, tem de parar para pensar e não fazer bobagem daí para a frente.
Sessenta discos já é coisa demais!
É número de disco para três ou quatro pessoas.
Então, o que aconteceu nos últimos quatro anos é que não saiu disco meu.
O último foi aquele com Charlie Haden?
Não.
Esse foi lançado porque esse show de Montreal em 2001 foi muito bonito e tal.
Aí lançaram.
O último que por coincidência também é um show de Montreal, mas foi com Zeca Assumpção e Nando Carneiro, que até passou na tevê fechada, volta e meia eles reprisam.
Isso foi em que ano?
Isso foi há três ou quatro anos.
Foi o último a ser lançado.
Só que nesse período de espera eu estou gravando muitas apresentações sozinho, com orquestras, para poder fazer um lançamento mais interessante.
Você está falando de DVD?
Não, não.
DVD não.
Em isso eu não tenho o menor interesse por enquanto.
Também não tenho interesse só em fazer disco mais.
Tenho interesse nesse lançamento próximo, que vai ser uma caixa com quatro ou cinco discos, não é só ter uma caixa e não é só compilação.
Compilação eu tive várias.
Mas não é isso.
Agora posso me dar ao luxo de ser o co-produtor de uma caixa de quatro ou cinco discos com a ECM Records.
Por que eu quero ser co-produtor?
Porque eu vou realizar um sonho de quatro, cinco ou seis anos, que é fazer uma caixa com discos e vendê-los baratésimo para pessoas que na realidade construíram a minha vida profissional.
Não é barato de custar R$ 20, é barato para custar R$ 7 ou R$ 8 cada disco.
A minha intenção é essa, porque passados todos esses anos, depois de fazer tantos discos, o meu objetivo não é mais fazer discos simplesmente.
Eu tenho discos demais, tenho filmes demais, trilhas demais, o que me interessa agora é mexer com outros departamentos relacionados à música.
Como em anos passados eu mexi com as questões dos direitos dos fonogramas.
Você fala da recuperação dos direitos da sua obra e a parceria com a ECM Records?
Sim, consegui muita da coisa da EMI e outras gravadoras.
E isso já abriu possibilidades de uma outra história.
E agora eu quero abrir um troço que está me custando muita discussão nos últimos tempos.
Porque as companhias por o mundo afora, os editores, não aceitam que o disco seja vendido tão barato.
Então, para conseguir que o disco custe muito barato, eu tenho de ser o co-produtor disso, porque não é justo eu pedir ao outro que gaste dinheiro e não ganhe dinheiro.
Então, eu tenho que ser o co-produtor para fazer com que o disco caia de preço.
Meu próximo passo é esse.
E não estou fazendo isso daí para ser bonzinho com ninguém, é porque quem faz uma carreira durante trinta e tantos anos como eu estou fazendo, com tantos discos, tantas coisas, é porque teve apoio de gente pra diabo.
É uma maneira de agradecer às pessoas.
Se eu pudesse dar de graça, eu faria.
Vai ser o primeiro passo bacana da Carmo como parceira da ECM, porque antes a Carmo produzia os discos e a ECM distribuía.
Agora não.
Agora é uma produção ECM-Carmo, as duas empresas juntas.
Muitos falam no preço como um dos fatores do cataclismo da indústria do disco, será?
Não sei, mas de graça eu não posso dar, porque eu não tenho fábrica de discos.
Não sou fonógrafo.
Eu preciso ter o mínimo.
Eu não sei se você sabe, mas existe um negócio chamado preço de venda.
A fábrica vende para os lojistas por um preço «x».
O lojista cobra 100 %, 150 % em cim ado preço.
Se o disco custa R$ 30, R$ 35 na loja, é porque custou R$ 15 para o lojista.
Aí, depois de fazer todos os cálculos, eu concluí que o disco hoje, pagando direito a todo mundo, mas não tendo tal lucro-vendas, pode ser vendido nessa faixa de preço.
Porque eu não quero deixar de pagar direito a ninguém, do compositor, do fotógrafo, músico etc, mas acho que o disco pode custar uns R$ 8 ou R$ 9 que paga todo mundo.
E o que será o repertório dessa caixa?
Tem muita coisa nova;
tem um disco que fiz de piano-solo no Teatro Cólon, na Argentina, que ficou uma beleza;
tem dois discos gravados em Cuba, orquestra não sei de quê;
tem disco de dueto com meu filho tocando dois violões, enfim.
A mudança de ambiente tecnológico, a era do MP3, interferiu na sua produção musical?
Não, em nada.
Tem um disco meu gravado no início da década de 80, final de 70 para 80, um disco chamado Alma, que dentro do disco vieram as partituras todas impressas em computador.
Quer dizer, eu já uso computador há 20, 30 anos.
E-mail para mim é um negócio que tem quinze anos de idade.
Como eu trabalho com a ECM Records, que é uma companhia que tem muita ligação com a tecnologia, talvez você se lembre que eu fiz um disco chamado Trem Caipira, que vinha um carimbo na capa dizendo assim, «Primeira Gravação em PCM Digital».
Quer dizer, o MP3, eu sei disso há dez anos.
Hoje em dia você compra o MP3 por dez merrecas, em qualquer esquina.
Mas eu já conheço isso há muito.
E para mim não passa de mais um instrumento que a tecnologia disponibilizou para facilitar a vida das pessoas.
Mas hoje o tráfego digital das músicas é mais intenso e livre
A única coisa que eu diria é que se faça uma compressão de melhor qualidade.
Faça uma compressão de 128 kbps e não de 60, porque estão desrespeitando até a qualidade da música.
Se você comprime para 60, 70 kbps, você perde toda a câmara de harmônicos e aí não adiantou nada o cara gravar bem.
Quer piratear, pirateie, mas faça direito (risos).
A este respeito, há estudiosos que afirmam que para a música de concerto, o MP3 é uma tragédia.
Concorda?
Não concordo.
Há diferentes níveis de compressão em MP3, eu não sei que tipo de computador as pessoas usam, mas se você usa um computador melhorzinho um pouco, você tem a opção do nível de compressão.
O nível de compressão é que determina a qualidade final de audição.
Eles falam exatamente isso:
do que jeito que se comprime hoje é prejudicial para a qualidade do que se ouve
É porque a maioria das pessoas usa uma conecção lenta, aí não convém ficar mandando coisas com mais de 700, 800 kbps.
Uma coisa bacana, um disco bem comprimido, vai ter cerca de 15 a 18 megas.
Isso daí, o nego não pode ficar enviando e baixando.
Quando você entra na iTunes, por exemplo, no negócio da Apple, você baixa, paga, e vem com 256 kbps, que é o dobro do necessário para você converter isso em 40 mil hertz e colocar num CD, é muito bom.
Ai você pode avaliar melhor o que está gravado, qualquer tipo de música.
O que eu acho de piano digital?
Piano digital está ótimo se o piano for bom.
Tem piano digital que você dá para criança e tem piano digital que o nego pode carregar para onde quiser e tocar bem.
O que é o violão?
Violão, se você tiver um violão mais ou menos, está ótimo.
Se você tiver um violão melhor amplia seu alcance sonoro, claro.
É igual a qualquer outro objeto utilitário para nossas atividades profissionais.
O que você acha de um carro faltando três rodas?
Está ótimo?
Só que é um carro que não vai andar.
Eu não sou contra nada não, eu tenho é contra coisa ruim.
O cara comprime muito mal.
eu de vez em quando me dou ao luxo de entrar nesses lugares para dar uma olhada.
às vezes eu olho, digo «cassete, os caras estão comprimindo a 60, 70 kpps, que porcaria de qualidade».
Mata a música.
É nessas horas que penso, pôxa para quê que levei essa orquestra desse tamanho para gravar?
Por que a gente ensaiou tanto dentro de casa para ouvir essa porcaria de som aí?
O problema é só esse.
Você acha que a mídia CD vai morrer?
Eu não sei.
Acho que nisso aí tem muita previsão fácil.
É chutódromo puro, porque quem pode saber?
Acho que a pergunta melhor seria assim, " vai existir música?" (
risos). Porque na levada que está aí, o cara que quiser tocar um piano, um violão, vai estar dentro da sala de um museu.
Você se destacou inicialmente como pianista e depois foi para o violão.
Como foi essa passagem?
Eu não sei.
De fato, o violão apareceu profissionalmente para mim mais tarde.
Acho que uma explicação possível é familiar.
O meu pai era um árabe que chegou de Beirute junto com a família de ele ao Brasil;
e minha mãe é italiana.
Quando eu comecei a estudar música, meu pai fez questão que eu estudasse piano, porque Beirute naquela época era um lugar aristocrático, aí tinha que estudar piano.
E a minha mãe, mais para a frente, como italiana típica que era, dizia " piano está muito bem, mas cadê a guitarra para a serenata?"
Ela falava guitarra se referindo ao violão.
Aí eu comecei a mexer.
E você sabe que o negócio é se você pega uma criança de 6, 7 anos de idade e começa a falar três línguas com ele, quando ele tiver 10, fala as três línguas e não sabe que tem diferença de uma para outra.
Música para mim foi assim.
Comecei a estudar e a tocar dois instrumentos ao mesmo tempo.
Hoje em dia eu tenho consciência de que violão não tem nada a ver com piano e vice-versa.
São instrumentos que têm linguagens próprias.
Até para criar ...
Sim, é o que eu estou comentando.
Como esse troço me foi mostrado muito cedo, sem preconceito, ficou muito assim «toque piano, que é o melhor instrumento que há no mundo» e minha mãe veio e falou «não é nada, toca violão, porque é o melhor».
Aí eu toquei os dois.
As poucas vezes que você cantou sua música não ficou ruim, por que não explorou mais esse lado na carreira?
Você é que está falando que ficou legal, agradeço, mas eu não achei não.
É que eu não queria entrar num departamento em que não me sinto à vontade.
às vezes as pessoas comentam com mim assim ' ah, mas até o fulano tá cantando agora ', se referindo a algum músico não acostumado com o canto.
Mas aí eu respondo que quando eu toco violão, não se diz que ' até eu estou tocando violão '.
Eu não faço quando eu não dou conta direito.
Eu quis experimentar e experimentei algumas vezes.
Achava que estava bom, mas quando passavam seis meses, um ano, eu dizia ' opa, esse troço tá muito ruim '.
Volta e meia eu encontro uns malandros por aí que dizem ' pôxa, era tão ótimo '.
Eu respondo ' então, tá bom.
Você achou, mas eu não achei não '.
Era um negócio que quando eu ia gravar um disco instrumental, eu gravava em três, quatro dias.
Já para botar voz eu levava 20 mil vezes a mais.
Aí eu concluí ' não, esse negócio tá errado '.
Quando você começou, a música instrumental no Brasil tinha um espaço que acabou.
No entanto, há uma produção independente hoje que tem facilitado a produção desse tipo de música.
Como avalia isso?
Para quem produziu a quantidade de coisas que produzi, sem a própria gravadora, sem a própria editora, e vive muito bem obrigado, não está melhor nem pior.
Está a mesma coisa.
O que eu acho e falo sempre para os meus filhos é que hoje, para se começar uma carreira, é muito mais difícil do que há trinta anos, não tenha dúvida.
Em a realidade, a facilidade de antes é porque os chamados produtores, as gravadoras, estavam se instalando no Brasil e precisavam correr atrás dos artistas.
Então você encontra na década de 70 uma turma da minha geração que estava começando nessa época.
Vamos pegar aí João Bosco, Milton Nascimento, eu, todo mundo que começou nesse período, e se você espremer, vai ver que todos nós começamos gravando três, quatro, cinco discos, que não venderam nem 15 cópias, nem para nossas famílias vendíamos (risos).
As companhias faziam contrato para fazer quatro, cinco discos.
Elas precisavam arriscar.
E estavámos despontando numa época em que música popular era cantada por Elis Regina, composta por Tom Jobim, uma outra época de música.
Hoje em dia mudou muito o conceito da coisa e aumentou muito a produção, é verdade.
Mas significa que quem vendia um número muito pequeno de disco, continua proporcionalmente vendendo o mesmo tanto, só que mais espalhado e pode significar até um aumento em alguns casos.
A turma que gosta da música mais sofisticada continua gostando e ajuda a disseminá-la aos poucos.
Casaram, tiveram filhos e vai por aí.
Falo isso porque a música que faço pode ser definida naquele dito popular de grão em grão a galinha enche o papo.
Eu gravo um disco hoje, ele sai em 40 países.
Não vende muito não, mas vede 300 mil cópias.
Ou seja, está dentro daquela margem que você produzia antes para um país só.
A nova geração de músicos do gênero instrumental tem um ambiente melhor para produzir?
Olha, não sei.
Recebo muito disco, muito demo por aí e poderia responder que o que está acontecendo na música é algo que está acontecendo de maneira geral na cultura.
Todo mundo tem um acesso imenso à informação, mas o que está sendo esquecido é que informação sozinha não quer dizer nada.
A única coisa que tem sentido é quando a informação é sedimentada dentro de cada um e se transforma na própria cultura de cada um.
Não adianta nada você ter acesso a todas as livrarias do mundo por meio de um navegador qualquer, porque as informações vão continuar lá.
Quando se tinha pouca facilidade para chegar à informação, valorizava-se muito mais isso.
Eu me lembro que na minha época eu custei a tocar profissionalmente.
Quando eu queria uma partitura de algum músico, eu corria atrás e copiava.
Para copiar você precisava saber escrever música.
Hoje você baixa não sei de quê, faz um xerox aqui, usa um scanner ali.
Então, hoje a facilidade é grande demais, mas as pessoas não sabem o que fazer com ela.
Evidentemente tem exceção, mas boa parte do material que recebo, me parece um mergulho muito rasinho ainda.
Não tem como aproveitar.
Então é o velho problema da formação?
Pode ser.
Eu sei que na época em que eu tinha 20 anos, que é a idade da moçada que está me mandando material, a gente tinha como referência Tom Jobim, João Gilberto, Pixinguinha, Villa-Lobos etc..
A referência era essa.
E a hora que queria aprender uma música, tinha de correr atrás da partitura, aprender a tocar música tinha que ir para o show porque não tinha esse negócio de gravador para ficar gravando, muito menos pendrive para carregar daqui pra lá e assim por diante.
Mas, de novo, acho que o problema é mais amplo.
Esse negócio da facilitação pode ser comparável a qualquer coisa.
Antigamente, tinha-se muito menos acidente de carro, claro, pois tinha menos carros, mas eles não corriam tanto.
Eu ouvi uma notícia ontem dizendo que em São Paulo morre um motoboy por dia.
Um motoboy por dia!
Aí pensei ' pô, mas que coisa horrorosa! '.
Depois meditei assim ' mas como criticar o motoboy se nós todos queremos que o serviço chegue rápido? '.
Quer dizer, nós estamos numa sociedade muito contraditória, muito maluca.
E o mesmo se presta para música, literatura.
Entre meus amigos escritores o comentário geral é que está todo mundo tendo idéias ótimas, mas neguinho não está sabendo escrever.
Você vai ler os blogs é uma brincadeira.
Nem corretor gramatical neguinho está usando.
Eu acho que o que acontece na escrita, está acontecendo em toda forma de expressão artística, seja música, seja pintura etc.
Você tem revelado novos músicos por o seu selo.
Quais são os últimos e com que tiragem?
Os discos da Carmo saem em cerca de 30 países, distribuídos por a ECM Records.
Não temos a pretensão de grandes tiragens, nunca tivemos, então temos uma cota mínima.
E eu sei que um disco da Carmo, quando o artista é totalmente desconhecido, vai poder atingir essa cota.
A Carmo já passou a ter um significado, mesmo que pequeno, dentro do mercado europeu, por exemplo.
Essa cota significa oito, nove mil discos.
Então a gente prensa sete, oito mil discos, distribui e vê a reação nos primeiros seis meses.
Se for muito boa, manda fazer mais cinco mil e por aí vai.
Nossos últimos lançamentos são a Silvia Iriondo, uma cantora argentina excepcional.
Tem um músico francês, que se chama Bernard Bernard Wystraëte, que tem um disco de flautas, instrumental;
tem o disco de um dueto australiano, de violão e flauta doce, que é um absurdo, eu nunca vi ninguém tanto como esses dois aí.
É violão popular e flauta, só que usa flauta doce.
É um negócio danado de interessante.
E temos também o brasileiro Quaternália (quarteto de violões).
Você é tímido na sua divulgação ou preferiu se voltar ao mercado externo?
Nem uma coisa, nem outra.
O fato é que eu não tenho o menor interesse, nunca tive, em participar de mídia nenhuma.
Não tenho interesse.
Qual é a razão?
É simplesmente por não ter, não é porque eu acho que a mídia é isso ou aquilo.
Você poderia perguntar, 60 discos e por que não tem um DVD?
Eu podia ter 10, mas não tenho nenhum porque eu não gosto de DVD também.
Tenho várias fitas de vídeo gravada na década de 80, de shows, que os caras me aporrinharam tanto que foram lançadas algumas.
Agora querem transformar em DVD e eu não concordo.
Não estou a fim.
Tem algumas coisas suas no Youtube
Eu sei, tem um monte de elas.
Toda hora me avisam e eu vou lá.
Tem um troço, inclusive, que tá dando uma briga danada, que é um show junto com Charlie Haden que colocaram lá uns 45 minutos de ele, quase todo o show.
Tem um monte de coisas assim, mas eu não tenho timidez nenhuma.
O que me interessa está voltado para outras coisas.
Eu comprei os direitos de comercialização de todos os meus fonogramas.
Só que para fazer isso, eu tive de estudar direito autoral durante dois anos e meio.
Então, eu gastei dois anos e meio, quinzenalmente, tomando aulas com dois advogados.
Depois fui para o Xingu, passar três dias dentro de floresta para ter contato com os pajés e saber um pouco sobre esse lado brasileiro.
Esse é o meu interesse.
Por exemplo, qualquer pessoa que faça cinema e tivesse feito filmes com a participação de Marlon Brando, Al Pacini teria soltado foguete.
Eu não soltei foguete nenhum.
Qualquer pessoa que ganhasse um Grammy por disco, teria soltado foguete, eu não soltei.
Estou falando de coisas que tem 15 anos.
Não tenho o menor interesse.
Em o Brasil, já ganhei seis vezes melhor trilha de cinema.
Ninguém sabe disso, porque eu não tenho o menor interesse que saibam.
Eu já estou satisfeito.
Não gosto de ficar nessa badalação.
Tem recebido novos pedidos para trilhas?
Não param de fazer.
Os últimos filmes que fiz foram Estorvo e Gaigin 2.
Tinha recebido também O Redentor, mas aí só sugeri a música do Carlos Gomes e acabei não fazendo porque não teve trilha original.
E continuo fazendo, mas sem nenhum alarde.
Aliás, não tem timidez.
Ninguém que faz 60 discos, 30 filmes, 27 trilhas de cinema etc tem timidez.
E só não gosta de ficar convivendo com a chamada mídia.
Quero que entendam isso.
Mas você nem seu selo têm sites, por que?
Porque não gosto disso.
Não tenho e não quero.
E a Carmo não tem distribuição no Brasil ...
Não, não quero também.
Em o Brasil está dando muita confusão, tem muita safadeza com esse negócio de disco e eu não quero me aborrecer.
Eu quero viver feliz.
É só isso que eu quero agora.
Depois de gravar tanto, de viajar tanto, só me interessa ficar feliz.
Seus shows no exeterior continuam frequentes?
Reduziu porque eu não preciso mais passar um mês fora do Brasil em cada viagem, eu passo dez dias, faço praticamente as mesmas coisas que eu faria antes e pronto.
Vou me divertindo da maneira que tenho vontade.
Obrigado por a entrevista.
Número de frases: 277
Esmeraldo Marques é um músico travestido de pesquisador.
Mas isso vem desde os tempos em que morava em Juazeiro, depois aportou em Aracaju e finalmente enraizou-se em João Pessoa.
Não restam dúvidas de que todo seu «background nordestino» sonoro foi agregado, com propriedade, nessas andanças."
curioso saber que o jovem artista enveredou por o rock pesado antes de descobrir a sua face pop.
Seu conhecimento musical aliado a sua idiossincrática abordagem musical forjada no experimentalismo, eletronices e folk regional, acabou resultando no «combo orgânico» chamado Chico Correa & Eletronic Band.
Finalmente depois de tantos estudos e experimentos lança seu primeiro disco oficial no formato tradicional;
mas não antes de proporcionar, sob licença, todo seu conteúdo para qualquer ser que tenha acesso à grande rede.
Tirando os campinenses do Cabruêra, hoje é o grupo pop paraibano de maior projeção nacional e de grande perspectiva internacional.
Chico Correa funde da melhor maneira o moderno com o tradicional, o cosmopolita com o regional, tudo com naturalidade e harmonia.
Grande estréia em disco!
Gostei da capinha
Foi Lanusse (designer e artista plástico paraibano) que fez.
Você pode tecer um comentário sobre o disco?
O que achou da produção, por exemplo, comparado a outras produções.
Pó, eu sou suspeito.
Foi primeira experiência junto com os sons da Paraíba.
Apanhei muito, por isso demorou.
Podemos considerar com o primeiro disco oficial?
Sim
Em os shows a banda sempre mostra um amadurecimento sonoro, como estivesse à procura do som definitivo.
Em o estúdio você tenta aplicar a mesma fórmula do palco?
Mas a banda não tem som definitivo.
Nós percebemos isso depois do processo do estúdio.
Como era tudo muito free, isso deu trabalho pra definir.
Em o estúdio usei todas as ferramentas que pude de edição, algumas faixas deixei mais orgânica, com som do baterista, sem loops, outras totalmente manipuladas.
O ao vivo não tem obrigação de ser idêntico ao CD, mas mantemos a idéia principal.
Depende do show e onde, se for necessário e possível, uma música pode desencadear uma jam o que temos trabalhado agora é pra organizar mais, desenvolver o repertório mais próximo do CD, mas novas idéias surgem sempre e acrescentam os arranjos.
Agora que o Edy saiu, entrou o Orlando, que é outra pegada no baixo, isso já muda os arranjos.
Você sendo um mero observador, o que mais atrai na banda, causando interesse de público de outros estados, por exemplo?
Não sei, acho que tem um misto de som pop, regional, acaba dosando bem.
Não pega um público especifico.
Não é tão segmentado como música instrumental, por exemplo.
O lance da cantora da um caráter pop, o sax ...
O show é dançante se a gente quiser direcionar, também pode ser mais viajado.
Por exemplo, em Brasília fizemos dois shows num dia, um na FNAC, outro no Rolla Pedra.
Em a FNAC foi mais instrumental, cheio de improvisos, sem zabumba, pandeiro e derbak ao invés da bateria, tinham pessoas sentadas, numa livraria, etc..
Em o Rolla Pedra foi mais dançante e instigado.
Não seria também modernização da música pop brasileira, ou nordestina, mais especificamente, multiplicidade de referências e influências.
Acho que sim, afinal estamos fazendo música popular nordestina com novas roupagens.
Você já viu um índio guarani usando um violão?!
É do jeito de eles.
Então é por ai ...
Como você vê isso hoje no Brasil?
A música pop.
Tem tanta coisa fabricada que voce vê que é para o momento, pra tentar engrenar ...
Querem fazer ídolos pra vender, acho isso engraçado.
Não tenho ouvido muita coisa, acho que o tipo de som que tenho procurado não é necessariamente pop.
Mas temos coisas boas, né?
Cidadão Instigado, Mundo Livre.
Acho que permeiam o pop, mas tem aquele que de under, ainda lá em Brasília tem umas bandas legais:
Piramidi, Em o Beko, que passeiam por o eletrônico, mas são bem mais world music.
Tem muita coisa legal, mas não estão no mercado pop como Cachorros das Cachorras, Radical Sem Dó, ninguém ouve falar por aqui.
Hoje estamos num mercado caótico, meio anárquico por causa da pirataria e avanço tecnológico (internet), dando o tom de uma nova realidade.
Você acha que o mercado pode ser mais democrático em função disso?
Onde vamos parar?
A coisa ta mudando faz tempo, novas mídias e formas de distribuir, CD já não vende tanto.
A Internet ajuda muitos projetos indies, a gente fez esse disco antes de chegar o CD, colocamos tudo na internet, ainda assim mesmo tem quem queira comprar o disco.
Já fechei um net label na Alemanha;
fomos destaque no MP3 Magazine isso na parte não comercial.
Mais promocional e divulgação ...
Porque tem o lance de comércio de mp3, estamos fechando com o Itunes, Napster, Yahoo, MSN Music, então uma coisa ajuda outra, traz show, outras oportunidades forma publico.
Qual o nome do disco?
O mesmo nome da banda, primeiro oficial, né?
Tem tudo no http://cceb.multiply.com.
Pode divulgar.
Tá o disco completo?
Sim e encarte, então pus antes de chegar o CD físico inteiro sob do CC Commons License
Tô dizendo!
E tem mais loops para remix ...
E pode ser manipulada?
A idéia é essa:
a pessoa pega a voz separada, guitarra, batida e faz sua versão.
A única coisa é que mande pra nós uma copia mixada pra por no site e esta sob licença do CC Commons, pode mexer, mas uso comercial só sob consulta, se for o caso.
Número de frases: 73
A filha de um vizinho aqui do prédio veio pedir-me umas aulas sobre colocação dos pronomes oblíquos átonos.
Despachei-a para a ex-mulher, mais atualizada com o assunto.
Próclise, mesóclise e ênclise são coisas que me ocorrem ao sabor da escrita, praticamente de ouvido, e não saberia preparar ninguém para uma prova ou concurso público.
Eu mesmo entrei na onda e juntei-me à garota de treze anos para aprender mais um pouco.
Em o intuito de criar um certo clima, Betinha começou sua explicação narrando a curiosa tragédia do Sr. Ataliba.
Quem, entre os mais velhos, não se recorda desse saboroso relato de antologia escolar do antigo ginásio?
A história de um setuagenário vaidoso de sua longa barba à D. Pedro II, cheio de saúde, que toda noite, antes de voltar para casa, compartilhava uma cerveja preta com seus parceiros de copo e sueca num barzinho de esquina.
Viúvo sem preocupações, com uma vida exemplar em sua pequena cidade natal, onde era conhecido de todos e nunca fora visto doente nem desprovido daquele farto bom humor que era a sua marca registrada.
Uma noite, porém, um dos colegas do boteco, olhando com curiosidade para ele, fez a pergunta que mudaria para sempre o dia-a-dia desse homem tranqüilo como um boi sem febre aftosa:
«Ataliba, na hora de dormir você coloca a barba por dentro ou por fora da coberta?"
Rindo muito, o simpático viúvo pensou um pouco e respondeu que nunca tinha reparado naquilo, mas que no dia seguinte lhe daria a resposta.
A o deitar-se, naquela noite, o Sr. Ataliba lembrou-se da conversa no bar e, sem dar chance ao bichinho da dúvida, colocou a barba por dentro da coberta.
Achou esquisito e experimentou-a por fora.
Percebeu que não se sentia muito à vontade assim e tornou a enfiar a barba embaixo da coberta, para logo em seguida retirá-la de novo.
Sem decidir-se por a melhor posição, passou sua primeira noite em claro, depois de toda uma existência de sono conciliado nas horas certas.
E assim ocorreu nas noites seguintes.
O pobre homem já não dormia à noite e passava o dia neurastênico e desatento, cochilando onde quer que se encostasse.
Tornou-se um velho mal-humorado, de mal com a cidade, e especialmente com esse pilantra sem alma que tornara a sua vida um inferno.
Lembrei a Betinha que tinha sido assim minha primeira aula no ginásio sobre colocação dos pronomes átonos, e que o destino do infeliz Ataliba deixara-me apavorado.
Diria-se-(e aqui pisquei um olho para a ex-mulher) que colocação dos pronomes átonos é um verdadeiro caso de saúde pública.
A filha do meu vizinho é que não achou muita graça em tudo isso, limitando-se a perguntar:
Número de frases: 21
«Por que esse babaca não raspou logo a barba?"
Qual é o tamanho do seu mundo interior?
Qual é o som que ele tem?
Cada pessoa é um mundo e, a artista plástica Kiki Jaguaribe resolveu colecionar «os mares individuais» juntar tudo e fazer um oceano.
É um projeto de arte colaborativa no qual qualquer pessoa pode participar gravando e enviando à autora a frase:
«Existe um mar dentro de mim».
Tais palavras, ditas por diversas pessoas, de diversos lugares, em diferentes línguas, são as ondas que formarão um oceano de vozes.
A instalação, batizada de sea.
sound, será montada num ambiente fechado por onde circulará o público.
Sua movimentação, captada por sensores, determinará a disposição das ondas.
São vários mundos que juntos formarão um oceano que se movimenta conforme a participação dos visitantes.
A idéia é que se torne itinerante, viaje o mundo e, por onde passar, outros artistas mudem o formato de cada apresentação com novas intervenções.
A diversidade de universos individuais somados em harmonia toma a exata medida da idéia de «mar» -- a metáfora perfeita pra tudo que sugere imensidão, profundidade e densidade.
Ela ouviu essa frase pela primeira vez numa rave, o projeto começou assim, despretensioso, como a famosa idéia que vem a cabeça.
Há dois anos ela começou a pedir para que as pessoas lhe mandassem a frase «Existe um mar dentro de mim» gravada, por e-mail.
Em essa mesma época foi convidada a apresentar o projeto na Expo Fau, mas foi realmente em 2006 que a idéia tomou corpo e ganhou adeptos.
«Agora eu tenho um celular que grava mp3 e eu mesma saio por aí gravando as frases das pessoas», conta Kiki que tem frases captadas em favelas, venissages, festas ...
Atualmente o projeto está em fase de captação de grana para a montagem.
Existe um «mar» aí dentro de você?
Então grave o seu em formato wav file e mande para o e-mail sea.Sound@gmail.com
Todo mundo que participar terá crédito no projeto então mande também o seu nome e a cidade em que nasceu.
Outros sons ou imagens que transmitam a idéia de mar interior, também são bem vindos e podem ser enviados para o mesmo e-mail.
Ah!
a idéia é que o projeto se espalhe por o planeta, e que cada um grave sua frase na sua língua mãe.
Para quem não sabe como gravar:
de som clique em rec salve o arquivo.
para saber mais:
http://seasound.multiply.com/
Número de frases: 28
http://blog.myspace.com/kiki ekman
Eis o grande dilema:
produzir cultura neste país.
De um ponto de vista técnico, ou melhor dizendo, que atenda às necessidades do mercado artístico brasileiro.
Amar a Arte e sobreviver de ela significa atirar-se ao mar, sem a certeza da ilha portuária mais próxima.
Significa dizer que os ventos elísios que sopram do Atlântico Sul resolvam não cooperar com o marujo.
Seu destino pode ser outro -- e todo marítimo, por mais experiente que seja, não gostaria de encontrar por a frente uma tormenta oceânica ou recifes traiçoeiros.
«Existem muitos talentos que são vencidos por a exaustão», diria o teatrólogo Sábato Magaldi.
Só a vocação não basta, precisamos perceber isso com muita rapidez se não quisermos afundar como tantas outras fragatas portuguesas.
Sabemos que no Brasil a maré nunca esteve boa e o mar favorável aos peixes.
Quando muitos artistas no Brasil conseguem comer três vezes ao dia, pode ter certeza de que isso está sendo feito a duras penas.
Quem não for bissexto não sobreviverá.
Tirar vantagens das circunstâncias e agarrar oportunidades, estão validadas por a Lei de Gerson:
tirar proveito de tudo.
Pense você que já vivi situações difícieis, porque nosso mercado é informal o suficiente para permitir as maiores explorações possíveis.
Temos alguma lei federal que nos garanta pelo menos uma previdência social?
Não. De qualquer modo, somos responsáveis por uma parcela significativa do PIB (Produto Interno Bruto) nacional.
Geramos emprego, desenvolvemos ações estratégicas, suportamos longas datas sem políticas culturais, fomentos minguados e muita especulação, ou seja, fala-se muito em dinheiro, mas ninguém sabe onde e como consegui-lo.
Não funcionamos como uma empresa social no sistema de contribuições da União, embora repassamos impostos a rodo quando precisamos analisar as cifras de um orçamento ou organograma de ações de um projeto.
Afinal, elaborar projetos culturais no Brasil é desvendar o mapa da mina.
E como essas minas andam concorridas ...
Garimpar parece difícil nos extremos rincões do Brasil.
A Lei Rouanet (8.313/91) é a única garantia de que os empresários terão retorno financeiro considerável em seus negócios.
Em as esferas Municipal e Estadual, se você não está apoiado numa lei específica (seja de subvenção ou dedução de impostos), a coisa se complica.
A maior preocupação das empresas é saber se de fato, tal investimento vale a pena.
Por a orientação do inciso II, na redação da mesma lei, projetos culturais que não se enquadram como projetos especiais (artigo 476) não conseguem deduzir integralmente o valor desembolsado (artigo 475, parágrafo 1º).
Há uma contrapartida entre 30 % e 50 % do valor investido.
A análise dos benefícios de marketing cultural é que determinam a utilização destes projetos.
Esta é a Lei Rouanet convencional.
Por outro lado, a «setorização» do mercado cultural dificulta a grande maioria das propostas ao Ministério da Cultura.
Obviamente que muitas barreiras do establishment das artes vem sendo quebradas, mas a passos lentos.
O Seminário Nacional de Culturas Populares, promovido por o Governo Federal no início do ano, fortaleceu de modo articulado o Terceiro Setor (ONG's e Movimentos Sociais) e táticas novas ganham terreno no país, explorando potencial criativo nos chamados projetos sociais, em voga no mercado.
Se cultura neste país tivesse um caráter menos burocrático no sentido sociológico, seria mais simples imaginar, por exemplo, como aproveitar melhor os espaços cênicos de um espetáculo musical ou teatral, transpondo necessidades técnicas a novos experimentos de encenação.
Os custos de manutenção de uma casa de espetáculos prejudica os lucros do artistas, não podendo ganhar seu suado pão como deveria.
Isso, claro, é uma opinião pessoal, mas não duvido que produtores culturais refliam sobre tal situação.
Existem poucos superlotados teatros no Brasil, atendendo demandas de alto custo com platéias escassas.
O que percebo é a Arte Contemporânea no Brasil não ter alinhado seus objetivos centrais aos trópicos.
Se crises políticas e econômicas não deixarem de existir, essa contrapartida precisa abandonar o convencionalismo e propor aquilo que melhor permita sua sustentação.
Estamos falando de dinheiro.
Chega um momento em que os artistas não querem mais passar o chapéu.
Artistas não podem permitir a esmola.
Eu sei que muitos profissionais vivem de ela, mas não dá para manter essa tradição.
Muitas Cias e grupos preferem conquistar a ferro e fogo grandes empresas (estatais, mistas e privadas) na articulação de seus projetos à longo prazo.
Uma alternativa viável -- até mais «sociável» economicamente aos grandes monopólios empresariais -- para evitar que um produto cultural tenha vida curta.
Quem se destaca atualmente no ramo são as majors da telefonia privatizada (Brasil Telecom, Embratel e Interlig) que, vez ou outra, lançam editais de apoio a propostas nas áreas de Artes Cênicas, Música e Cinema -- pelo menos as mais requisitadas.
Com lucros exorbitantes, apoiadas por a Lei Rouanet, sua dedução de impostos baseada no recolhimento do ICMS (Imposto de Circulação sobre Mercadorias e Serviços) mantêm um faturamento altíssimo de seus concessionários, se compararmos os valores absurdos para possuir uma linha de telefone fixo residencial.
Ou seja, estão ganhando muito dinheiro às nossas custas e ainda investem milhões em publicidade, coisa que fica relegada aos «patrocinados» fazer, faturando cada vez mais.
Só que pra eles.
O grande problema disso tudo é a responsabilização que o Governo Federal joga para a iniciativa privada.
Mesmo não analisando essa estratégia econômica das majors -- que ainda remetem todos os seus lucros para o exterior -- sob um aspecto de representação física dos meios de promoção e existência dos produtos culturais, as Cias e grupos continuam menos importantes no panorama geral.
Desenvolver uma pesquisa, manter um elenco coeso, investir em estudos custear despesas de manutenção parece ser uma irrelevância grosseira.
Promover o crescimento e a profissionalização de mão-de-obra -- independentemente de estilo, ideologia e formas de trabalho -- é a única alternativa para nichos de cultura duradouros.
Em o Brasil, o problema do teatro é especificamente esse.
Ou pelo menos, o maior de eles.
O mercado artístico não pode ser uma máscara de gesso, exuberante e sensível.
Qualquer movimento ou toque brusco pode quebrá-la.
Se possuir exuberância, precisa de resistência.
Só assim suportaria longas temporadas de chuva.
Nossos grupos precisam existir, é necessário desenvolver uma política de apoio emergencial por parte do governo.
Criar mecanismos de fomento direto para montagem e capacitação de atores como uma das metas principais.
Facilitar a inclusão macro-estratégica de regiões fora do eixo Rio-São Paulo, levando em conta suas variedades culturais e econômicas.
Incentivar novos métodos de patrocínio via projetos sociais de natureza filantrópica, submeter novas pastas governamentais e ministérios a redistribuir recursos que possam ser aproveitáveis culturalmente no mercado.
Chega de tanta diplomacia para inglês ver, voltemos o olhar para o Real.
Ninguém produz Arte sem dinheiro neste país.
Número de frases: 64
Em uma época onde as tradições se perdem e a natureza é depredada, um grupo musical tem a proposta de resgate dos valores culturais do cerrado, recuperando as manifestações folclóricas através da música.
É um trabalho que faz o mapeamento do panorama cultural do cerrado, coletando os sons entre as comunidades locais e realizando uma reeleitura de músicas e composições regionais, como Marimbondo Amarelo registrando tudo em DVD.
Por o interior da Bahia (Correntina) Goiás (Uruaçu, Jataí) e povos indígenas eles buscam as manifestações já quase perdidas, que são apresentadas com técnica, arranjos e instrumentações em linguagem moderna.
Segundo o professor Altair Sales Barbosa da UCG, também autor de algumas letras cantadas por o grupo, como Cantiga para Maria Balão, o trabalho de pesquisa musical tem resgatado manifestações inéditas, conseguindo guardar a memória cultural de regiões isoladas no interior da Bahia e muitos outros locais.
É um trabalho que revela a vivência dos povos do cerrado a respeito de seu ambiente, suas crenças, seus costumes, e os costumes dos bichos e das raízes de cantarem o seu lugar.
As músicas são em sua maioria, de domínio público e ainda com trechos originais de grupos folclóricos.
As manifestações culturais como congada, catira, folias, sussia, chimite e outros servem de inspiração para o grupo, cujo trabalho já se destaca no cenário nacional.
São reinterpretações que levam o ouvinte a um mundo mágico, misturando tradição, técnica e talento.
Exemplo da música «Aboio».
Andréa Luiza Teixeira, componente do grupo, diz:
-- Nossa intenção é produzir Cds e Dvds mapeando o panorama cultural de diversas regiões.
Já fizemos nove volumes com esses sons coletados e adaptações da produção cultural de composições oriundas do cerrado.
O cd Alumeia, lançado recentemente, contou com a participação dos músicos Zeca Baleiro, Carlos Malta e Larissa Malty, que interpretando a Velha do Cerrado utiliza a arte como forma de sensibilizar e promover a educação ambiental.
Brevemente postarei uma matéria especialmente sobre a Velha do Cerrado.
Selecionado para o Projeto Pixinguinha, o grupo Sons do Cerrado vai integrar a quarta caravana de artistas e vai se apresentar durante este mês de novembro, em diversas capitais do Nordeste acompanhado do violonista Yamandu Costa.
A turnê será encerrada dia 21 no Rio de Janeiro, com a gravação de um DVD.
Essa participação do grupo no Projeto Pixinguinha representa a valorização de um trabalho sério realizado por a Universidade Católica de Goiás, através do Instituto Tropico Subúmido (ITS).
Músicos renomados como Djavan, Zé Ramalho, Zeca Pagodinho, Zélia Duncan e tantos outros se tornaram conhecidos através do Projeto Pixinguinha, e assim espero que seja com meus amigos goianos do grupo Sons do Cerrado.
São eles:
Alba Franco (cantora);
Andréa Luísa Teixeira (Flauta);
Verônica Aldé (Flautas) e Vagner Rosafá (piano e percussão);
por os instrumentistas Diego Amaral, Tio Quincas e S.Evaristo nas percussões, Gilvan Sem Doce na Sanfona e Ney Couteiro nos violões e viola;
e com a direção musical do maestro e arranjador Jarbas Cavendish.
Parabéns ao grupo, que agora poderá mostrar ao Brasil essa musicalidade, divulgando com muita competência o som do interior, dos bichos, das árvores, dos velhos, das lavadeiras, das benzedeiras e especialmente do cerrado brasileiro.
Contato com o grupo:
sonsdocerrado@gmail.com
Telefone -- (62) 39461708 / fax. (62) 39461711
Número de frases: 28
Celulares -- (62) 81474501 / (62) 99250209
A peça coreográfica que mais me impressiona é o duo «Adeus deus, de Sandro Borelli».
Interpretada por um casal de intérpretes do Balé da Cidade (SP), esta coreografia foi apresentada no Teatro do SESI;
não me lembro ao certo quando foi que assisti.
Os corpos dos dois dançarinos estão sempre ligados por um fio invisível que é desenhado na continuidade dos movimentos, que extendem um corpo sobre o outro, numa confusão entre os limites da individualidade corporal de cada um.
A sequência de «fusões» físicas é de tirar o fôlego.
A transferência de pesos e pontos de apoios que baseia a coreografia é genialmente traçada por Borelli.
Mas me lembrei de «Adeus deus» porque hoje é o dia dos namorados.
E nada me remete tanto ao sufoco da relação a dois quanto esta peça.
Peça esta que tematiza o suicídio, este ato radical do ser humano de desprendimento ao que lhe pertence por legitimidade.
O corpo pertence ao Estado.
A mente sofre a ascendência de um milhão de autores.
Mas a vida é nossa propriedade.
E viver com o Outro é de certa forma viver sem si mesmo, no escuro que é estar em Outro.
É uma forma autêntica de suicídio.
Crime consentido contra nossa própria individualidade, e o extremo disto é a paixão.
Amantes não são quem são, não são quem parecem ser.
Amantes são a sombra mortal do seu Outro, aquele Outro sempre confundido com o que sou, aquele que se intromete no que não sou.
O Outro é um vasculhar de gavetas, um abrir álbuns de fotos de família, um entrar no banheiro nas horas menos propícias.
E o Outro é sempre alguém que eu queria de algum modo ser, ter, entrar, escancarar.
Mas ele é alguém que não está sozinho.
Ele está atado ao seu Outro. (
Então, mesmo quando em casal, somos um triângulo amoroso:
eu, o Outro, e o Outro do Outro.
às vezes a terceira e a primeira pessoa deste triângulo coincidem.)
Em «Adeus deus» os parceiros se amarram por pedaços de roupa, se entrelaçam por membros, respiram o mesmo ar.
Estão unidos por uma força em estado bruto que ora impulsiona um ora impulsiona o outro em direção ao seu par, para quase atravessar a pele de seu par.
Dança suicida, que ritualiza uma partida em direção aonde nenhum deus nos governa, em direção à paixão, no Outro que nem sempre está a nossa espera.
E então, morremos no coração de alguém que nos comporta.
Alguém que suporta o quão pesados somos, e o quão leves poderíamos ser.
Número de frases: 30
Imaginar o rock de garagem na cena imperatrizense é complicado, pois que a tradição da cultura musical maranhense propalada é o das toadas do bumba-meu-boi, do reggae, da música de raiz (sic), do tambor de crioula, do cacuriá.
Essa impressão torna-se verdadeira na medida em que optamos por cegar os olhos para a diversidade, sendo massa que eleva a caravana dos televisivos, ou o dos que copiam e colam numa homogeneidade sem igual, discriminando o fazer artístico, o fazer musical.
O Maranhão, então, é tudo aquilo que seu povo queira ser.
Há um espaço para ser expressado, ser conquistado, principalmente quando nos percebemos amparados por a constituição federativa do Brasil.
Entrevistar Bruno Aguiar -- organizador de shows na cidade e baterista da banda Mortos, no estilo Death Metal, é perceber que há uma movimentação da cena musical, que precisa ser vista, valorizada, discutida e partícipe na democratização das discussões de políticas públicas para a área de cultura, independente da esfera.
A entrevista
Pergunta: Tenho em minha memória, um agrupamento de pessoas, todas de preto, batendo cabeça, numa praça, isso quando cheguei a Imperatriz e militava no movimento estudantil.
Desde aquela época, ficava pensando como vocês conseguiam articular uma «ruma» de gente para assistir aos shows, gratuitos, e como conseguiam «grana» para colocar som, palco ...
Como se processava, e como se processa hoje, a divulgação para atividades que envolvam música de boa qualidade, como o rock em Imperatriz?
Bruno:
Antigamente, as bandas se articulavam de uma forma que todos nós participávamos, simultaneamente, da organização de show de rock em Imperatriz.
Isso acontecia em forma de cooperativa undergroud, em que cada um ficava responsável por alguma coisa, som (que na maioria das vezes não supria as necessidades mínimas que uma banda pode exigir), palco (que por muitas vezes nem existia) e um lugar qualquer.
A divulgação era feita boca-a-boca, pois o movimento «metálico» de Imperatriz era muito restrito e as notícias corriam rápido quando tinha alguma correria desse tipo.
Hoje, em Imperatriz, contamos com uma organização melhor do que antigamente, que funciona da seguinte forma:
depois de uma escassez de shows e bandas de rock da nossa região, e com a vontade de algumas pessoas de mostrar seu trabalho e o fazer de uma forma mais profissional, a banda Mortos teve a idéia de fazer um festival anual sempre contando com bandas locais e bandas de outras cidades, fazendo um intercambio musical.
Foi feito um projeto e, mãos à obra, saímos com esse projeto debaixo do braço atrás de futuros parceiros que poderiam estar ajudando a concretizar esse objetivo.
Com o sucesso do Metal Chaos que contou sempre com um público que superou as expectativas da região, não promovemos mais um show por ano, e sim de 8 a 11 shows.
Em a verdade todas essas palavras se resumem numa frase, que é e sempre foi a grande vontade de tocar, mostrar seu trabalho e sempre estar trabalhando em prol do metal.
Pergunta:
Como viver de música?
Pensar em melhorar leis, buscar articular-se com o próprio movimento cultural da cidade?
Há preconceito dos músicos, tidos como «de raiz», para com o rock?
O rock é passadista?
Bruno:
Viver de música ...
Tenho certeza que isso passa o tempo todo na cabeça de todo mundo que ama esse estilo de vida, que pra mim a musica é um estilo de vida, principalmente quando se fala na musica rock ' n ' roll.
Talvez seja mais uma conseqüência do que um planejamento em si.
Tocar algo por gostar e o maior pagamento é o reconhecimento e a própria satisfação de fazer musica.
Em relação a buscar apoio ao próprio movimento cultural da nossa cidade, já foram feitas várias e várias tentativas em relação a isso, mas nunca aconteceu, pois, há um preconceito em relação ao rock e um, digamos, favorecimento próprio da parte dos que lá estão [ele fala da Fundação Cultural do Município de Imperatriz].
E por estarmos num centro que não apóia e nem tem a cultura do rock sempre aparecerão passadistas, mas o rock ' n ' roll não é e nunca vai ser um estilo passadista, como podemos ver na história desse movimento grandioso mundial.
Pergunta:
Fale um pouco da proposta de abrir a Usina [uma espécie de danceteria existente na cidade] de quando em quando para ouvir música e encontrar os amigos.
Ainda está rolando?
Tem uma periodização?
Bruno:
A Usina é um espaço muito importante nessa transição e fortalecimento da cena imperatrizense, com a sua frete a grande figura que atende por o nome de Galego, que sempre está disposta a ajudar-nos a concretizar idéias em relação ao rock.
99 % dos shows, que são realizados em Imperatriz, acontecem na Usina, pois está se tornando um espaço já conhecido da «galera».
Com shows e mais shows rolando na cidade fomos observando sempre novas caras e a vontade de estarmos nos unindo cada vez mais às pessoas que participam desse movimento que surgiu a proposta de abrir a Usina com uma periodicidade de 15 em 15 dias.
Em o começo estava dando tudo certo, um telão rolando com o melhor do rock ' n ' roll, muita gente e descontração no lugar.
Mas, como sabemos que as coisas não dependem só da vontade de fazer e boas idéias, talvez faltou coragem da parte do dono da Usina ou mesmo vontade.
Portanto, já há algum tempo que não temos esse espaço periódico de onde poderia sair muitos frutos.
Pergunta:
Parece-me que nas bandas de garagem / porão, a música corre nas veias, diferentemente dos demais ritmos / estilos.
Isso é verdade ou estou viajando?
Bruno:
Com certeza, você não esta viajando;
de forma alguma.
Bandas de garagem, ou bandas undergroud fazem música porque gostam, não por dinheiro ou algo parecido;
diferentemente de muitas tribos ou pessoas que se infiltram nas mesmas para serem beneficiados financeiramente com isso
Pergunta: Quais as bandas de rock, com qualidade musical, existentes hoje na cidade, e que ainda ensaiam, se apresentam?
Bruno:
As bandas de rock que existem na cidade, que tocam e propõem ao publico uma proposta, com qualidade musical, são as bandas Pure Evil, Unborn, Mortos, Narcan, Bloody Sabbath e Systematic Chaos.
Pergunta:
E Fundação Cultural de Imperatriz?
E o Governo do Estado?
E as leis federais?
Vocês sabem os caminhos das pedras?
Já encaminharam algum projeto ao BNB, Petrobras, Votorantim?
Bruno:
Ter conhecimento das leis federais, ou seja, o caminho das pedras nós temos.
Mas, sabemos, também, como funciona a máquina corrupta do nosso pais e o favorecimento que acontece a poucos «gatos pingados» que existem.
A Fundação Cultural de Imperatriz com seu representante Erasmo Dibael não dá apoio à cena, pois que por muitas vezes foi procurado e fez pouco caso com o assunto a ser tratado.
Então quando mudar toda a coordenação da Fundação Cultural, podemos novamente tentar apresentar uma proposta aos mesmos, e quem sabe podemos firmar uma parceria com a Fundação!
Mesmo sem o apoio que por lei deveríamos ter, mantemos um movimento que está crescendo e se solidificando a cada dia que passa não só em Imperatriz, mas como em muitas cidades da região sul-maranhense.
Número de frases: 64
Levar cultura e música para o interior.
Este é o objetivo do Rock Sertão, que tem o apoio do Governo do Estado.
Em sua sexta edição, o evento musical vai ser realizado nos dias 23 e 24 de maio, em Nossa Senhora da Glória, e vai contar com atrações nacionais, como Zeca Baleiro, bandas conhecidas do cenário sergipano, como Maria Scombona, Naurêa, Alapada e Snooze, e grupos do interior de Sergipe.
Uma chance única de troca de experiências musicais e de cultura para os músicos e para o público.
De acordo com a secretária de Estado da Comunicação Social, Eloísa Galdino, a intenção do Governo ao apoiar o projeto é promover a interiorização da cultura e valorizar os artistas locais.
«Apoiar o Rock Sertão é empreender mais um esforço para marcar a presença do Governo de Sergipe no interior do Estado.
É um evento que promove um encontro da juventude de todos os cantos do nosso Sergipe, celebrando a música e a cultura.
Quando recebemos o projeto, logo percebemos sua força aglutinadora, sobretudo por envolver várias bandas sergipanas e a possibilidade do intercâmbio.
Redimensionamos o evento com um patrocínio que garantirá uma melhor estrutura de palco, luz e som, além do investimento na contratação do show de Zeca Baleiro», afirma Eloísa Galdino.
A Secretaria de Estado da Comunicação Social também está ajudando na divulgação do evento.
Integração e cultura
Segundo o vocalista da Maria Scombona, Henrique Teles, o Rock Sertão tem um potencial muito grande de fomentar a cultura local.
«Os grupos investem em trabalhos autorais.
O festival tem um caráter de revelação das bandas, de mostrar o trabalho que é feito em várias regiões do interior», diz ele.
Esta vai ser a terceira participação da Maria Scombona no Rock Sertão.
A banda, que vai apresentar músicas do CD ' Mais um de nós ` e novos trabalhos, iniciou o projeto ' Mundo Rock Interior ' depois da primeira participação no " Rock Sertão.
«Vem o Zeca Baleiro, o que dá uma dimensão maior, mas mesmo com ele, o festival oferece a oportunidade de troca de informação entre as bandas e com o público.
Vai ser uma noite bacana», aposta Henrique Teles.
Estreante no Rock Sertão, a Snooze vai levar para Glória o repertório de seu último CD, lançado no ano passado.
Segundo o baterista Rafael Jr., o festival é importante como forma de trocar experiências e conhecer novos trabalhos.
«Apesar da Snooze ter 14 anos, muita gente nunca viu um show nosso.
Então, é uma chance para mostrarmos o nosso trabalho e interagirmos com outras bandas.
Aracaju não tem um festival como esse e é muito legal que ele aconteça no interior», afirma.
Programação
Dia 23 de maio -- sexta-feira --
Rotten Horror -- The Baggios (São Cristóvão) --
The End (Poço Redondo) --
Justiça Cega -- Naurêa --
Alapada -- Tchandala --
Unicampestre (Lagarto) --
Anjos Inocentes (Propriá)
Dia 24 de maio -- sábado --
Dark Visions (Tobias Barreto) --
Bago de Bruxa (Estância) --
Snooze -- Fator Rh (Nossa Senhora da Glória) --
Zeca Baleiro -- Maria Scombona --
Número de frases: 36
Scarlet Peace -- Forte Paradoxo
Comunidade das Quadras, rua da Alegria, sede da Central Única de Favelas (Cufa) e do Movimento Cultura de Rua.
Um duplex que abriga no segundo andar além de dois computadores que servem para os projetos da Cufa, um estúdio, meio apertado num cômodo.
Ali, Cristiano da Silva (29), Dj Doido do grupo de rap Comunidade da Rima produz as bases que Preto Zezé (30), Ligado (29) e Wman (31) vão rimar em cima.
Ali também, eu sento com o CDR, na ausência de Zezé em Brasília, para uma conversa sobre Hip Hop, rap, identidade cultural, criminalidade ...
As palavras são articuladas, a fala é precisa, o pensamento crítico e a experiência de 10 anos de grupo servem de base para essa conversa em que a pergunta é só o ponta-pé inicial para um encadear da história e da reflexão de um grupo que já foi bater em Estocolmo, na Suécia.
Recebeu o Prêmio Hutúz de Destaque Norte / Nordeste, no maior festival de Hip Hop do Brasil.
Mas finca alicerce em Fortaleza, ali mesmo nas Quadras, onde tem projeto de um casa que abrigue Grafite, Rap, Break e até um Centro Afro para que as mulheres cuidem de sua beleza.
Estão rumando para o segundo cd, que numa ouvida rápida das bases produzidas por Dj Doido, ainda sem as letras, vem com uma qualidade impressionante, misturando desde Manassés (grande violonista cearense), até Cordel do Fogo Encantando.
O primeiro lançado em 2004 está na ponta da língua da galera e mostra que a distribuição alternativa no boca a boca, com a pirataria, ou seja lá de que outra forma, tem sua própria lógica de desenvolvimento.
Como é que foi a formação do grupo?
Ligado:
Eu já tocava com o [Preto] Zezé, já fazia um certo tempo.
A gente tocava no Contrabando da Lei, isso meados de 90, ai a gente já participava das atividades do Hip Hop, aí depois formamos o Ataque Frontal, sempre eu e Zezé em parceria com alguns outros cara.
Depois dessas experiências a gente decidiu montar o Comunidade da Rima, foi a época em que o Wman tava saindo do grupo que ele fazia parte que era o Realidade em Cadeia.
A gente uniu e ficamos nós três, ai na seqüência do trabalho chegou o Cristiano, que começou a trabalhar com nós desde as rodas de break da [praça] José de Alencar.
Wman:
Tudo isso que o Ligado falou foi mais ou menos na década de 90, 96, 97, a gente fazia parte de outras organizações do Hip Hop no início de 90.
Eu comecei no Hip Hop em 88, mais ou menos isso, eu já fazia umas festas com os bboys [dançarinos de break].
A grande verdade em Fortaleza é que o Hip Hop começou com a grande onda da dança do break.
O break veio primeiro de uma forma mais pesada, mais que o rap e até mesmo o grafite.
Em aquela época, 87, 85, quando se falava de Hip Hop, primeiro se pensava no break.
Antes disso, quando a gente trabalhava em grupos diferentes, a gente se dava muito bem a nível musical tanto que a gente fazia participação, um cantava no grupo do outro.
Quando tinha show algum evento e tal, eu cantava musica do Ligado, do Zezé, eles cantavam música da gente.
Cristiano:
O primeiro contato foi nos campeonatos de skate que eu fazia lá no Montese.
Eu me juntei com o Darjan, um cara que eu andava de skate e a gente metia nome lá no Montese, ai a gente começou a ir lá no Conjunto Ceará, ai ele me apresentou o Zezé: '
aquele cara ali é o Zezé, que articula tudo aqui ', na época.
Zezé andava com uma camisa dos Racionais antiga pra caralho.
A gente queria entrar no MH2O e era muito fechado, tinha umas regras que eles tinham lá que era foda, ai eu e o Darjan sentou e eu disse.
«Porra tu tem o som, tem a estrutura, eu conheço uma rapaziada, vamos fazer os campeonatos de skate».
Foi mais fácil a gente fazer o trabalho nos bairros e o MH2O vir atrás da gente.
Foi uma equipe do MH2O de grafiteiro e o grupo de rap que era o Zezé que cantava um som no junto com uma galera.
O Zezé viu a estrutura toda e disse «Carai de quem é isso aqui?».
Em esse tempo eu trabalhava numa metalúrgica, ai eu comecei a fazer os obstáculo de skate, comprava os ferros, tinha a máquina de solda, tinha tudo.
A gente começou a montar tudo, fazer a coisa acontecer.
Ai Zezé pegou meu contato, a gente trocou umas idéias e tal.
Com uns quinze dias depois o telefone toca, era o Zezé pedindo para a gente fazer uma visita no Pólo Central da Febence ali pertin da Catedral.
Ai já é 98.
Eu fui lá no pólo e o Zezé falou.
«Ó, tem que montar um som aqui para a gente fazer um documentário com a juventude aqui da Febence que a gente vai lançar isso no show dos Racionais.
Zezé já tinha saído do MH2O, com uma idéia de montar o movimento.
Ele perguntou:
«Dá pra tu colar nas rodas de break e tal?"
Dá. Em o dia na hora e no local eu tava lá com o som, tudo ligado, fazendo a roda, e comecei a levar todo final de semana.
«Vamos fazer lá no Jereissate».
Botava o som dentro do carro.
Tinha uma kombi véia branca eu e o meu parceiro, ai a gente ia para os bairro.
Ai um dia a gente foi pra um bar numa esquina, ai o Zezé olhou e perguntou para o Wman:
«O que que tu acha do Cristiano ser Dj?».
O Wman:
«Meu irmão, o cara já mexe com som, já tá fazendo, bota ele».
Ai eu fui e caí pra dentro.
Como é o processo de criação dentro do grupo?
Wman:
Não tem um cara «ah, eu sou o letrista, eu sou o escritor».
Ligado tá com uma música, aí ele pega e canta a música pra mim.
Aí a idéia que ele vem pra mim já é uma coisa, aí eu digo:
«Pô Ligado, porque não faz assim.
Vamos fazer assim '.
Não tem essa coisa formal, é tipo uma família mesmo.
Tem uma coisa que os Racionais falam:
«Tá dando certo ..."
Ligado: Em o processo de elaboração a galera tem essa preocupação com o que que vai ser transmitido, com qual produção nós vamos usar.
É um conceito amplo que tem preocupação maior é como que a galera vai receber esse som, porque você analisar o rap em si mano, tem várias músicas que por o amor de deus, não dá mais -- pelo menos na proposta que a gente trampa, não dá mais pra estar com certos caras.
Cristiano:
e a dinâmica fica louca, porque o Ligado vem com uma letra falando de um assunto e a gente vai conversar, ai o Wman faz uma parada que ele tem uma levada e um timbre de voz diferente, só que quando junta os dois, ou os três pra cantar, fica uma coisa doida, que dá uma harmonia, porque você não vê a mesmice.
Como é que vocês vêem em Fortaleza a relação do rap com o crime?
Em São Paulo o negócio degringolou não foi ...
Cristiano:
Cara, eu como vou fazer 7 anos que eu tô rodando nisso.
A grande diferença é que aqui em Fortaleza a gente ainda trabalha com movimento, e a gente trabalha os quatro elementos do Hip Hop, a gente tenta levar os quatro elementos do Hip Hop.
A diferença de São Paulo pra cá foi a seguinte:
lá os linhas de frente não trabalham com o movimento.
Descontrolou total.
Então lá eles levam o grupo de rap pra fazer o show na quebrada, então vai o status muito grande, é o grupo de rap, é o cara que tá indo, não é o movimento.
Aqui já é diferente, vai o movimento, tem o debate, tem a palestra, tem a discussão que tem que ser aberta, a música que vai cantar, a estrutura que vai ser montada, então a gente tem um respeito muito grande com isso, pra que o cara que esteja vendo isso tenha também o respeito e queira sair do mundo que está vivendo.
Ligado:
Hoje a gente vai cantar nas periferias que os caras do crime que fazem a parada de eles, os caras é o maior respeito.
Não intervém nada.
Vê a idéias.
Wman:
A única relação do rap hoje com o crime aqui é essa relação, é a de resgate dos caras em si, porque se você vê o cara que tá lá no crime, ele quer auto-estima e status, e ele consegue isso arranhando um disco, fazendo umas rimas que a própria galera de ele curte.
Qual o resultado que você vê no pessoal que ouve?
Vocês têm exemplos?
Cristiano.
Aqui nas quadras tem muito e tem muitos que devido à dicção, à letra, o jeito de falar, de cantar, a gíria que a gente tem aqui, tá tudo dentro da música.
O público alvo da gente é aqui no Ceará, muita gente entende o que tá sendo falado.
O grande problema hoje do rap de fora, de São Paulo pra cá, é que tem muita gente que não sabe interpretar certo tipo de palavra, não sabe interpretar a letra, não sabe entender o que o cara tá falando.
Eu já cheguei em comunidade e tem cara escutando O homem na estrada [música dos Racionais Mc ´ s], que a gente considera um hino praticamente do rap, e o homi tá fumando um baseado, vai botar um revólver na cintura e vai para a rua roubar escutando O homem na estrada que diz «que recomeça sua vida, sua finalidade que foi perdida e subtraída, quer mostrar a si mesmo que realmente mudou, se recuperou e quer viver em paz».
E o cara escuta isso e não entendi isso, interpreta de uma maneira como se aquilo ali fosse viagem.
Wman:
Como é isso?
O rap tem hoje o poder de mudança?
Tem. Mas há um tempo atrás ele tinha mais.
Hoje em dia o poder de mudança do Hip Hop com o povo eu acredito que não deve ser só na música, a grande qualidade é que os caras do rap tem que tá lá dentro.
Os caras que escutam a musica do Comunidade da Rima respeitam a gente.
A gente serve de espelho pra eles, porque a gente tá lá dentro com ele.
Só a música não vai ter a mesma força, ela tem uma força determinadora.
A gente vê muitas pessoas que tão mais na moral, porque já andou muito com o Wman ou do lado ligado, Cristiano, Zezé, ou com outros irmãos que faz Hip Hop da mesma forma.
Tá me entendendo?
Ligado:
A gente tem experiências que maluco começa a chorar no meio do show e a gente não entende nada.
Questão da identidade com o barato, porque para a gente a questão do rap vai além só da base e da música.
Cristiano:
Tem tanto exemplo doido.
Teve um último agora que foi o seguinte.
Eu tava aqui no estúdio e o meu telefone toca e um dos alunos ligou pra mim chorando.
Eu fiz um curso agora com 120 alunos de liberdade assistida, dando discotecagem, teve break e grafite.
Aí a mensagem que o Zezé deixou na entidade que chamou a gente era a seguinte:
«É difícil resgatar o cara que tá nesse mundão doido, porque a gente fala 300 palavras que te incentivam contra sistema, conta mercado, contra capitalismo, contra tudo.
Quando o cara chega em casa, ele vê a televisão, o carro importado, um cara com nike.. É um bormbardeio muito grande na cabeça de ele.
Aí a gente sabe que o cara não lê, que o cara não tem cultura de entender de interpretar ...
Ai o cara ligou pra mim chorando:
«Porra Dj, tá foda, tem uma confusão dentro de mim agora.
Tem certas coisas que eu falo e os malucos ficam me tirando de tempo, ficam dizendo que eu sou o sabidão, que eu sei demais das coisas, que eu vi você falando, que eu vi o Davi falando, vi o Deo falando.
Eu assimilei.
Aí eu tô na esquina, eu sei que não posso tar de bobera, porque os homi vêm e me levam.
Eu sei que hoje não posso tar de bobeira sem meus documentos.
Coisa que tu falou que a gente não sabe nem nosso RG de com o e fica dando uma de malandrão demais, ai quando tu falou isso eu pensei, porque nem meu RG eu saiba, nem o nome completo da minha mãe eu sabia.
Hoje eu sei o nome da minha mãe, sei falar nome do meu pai.
Se um policial me perguntar eu tenho aquela tranqüilidade que você disse que o malandro tem que ter na hora da abordagem, de responder tudo no nível que o policial tá perguntando.
Quando eu vou trocar essa idéia na esquina com os maluco, os maluco fica dizendo que eu sou sabidão demais, só que os maluco não sabe que eu sou o malandro agora, que o vacilão é eles.
Aquele negócio que tu falou de se valorizar, tomar um banho, cortar o cabelo, de andar bem arrumado, de paquerar, de se sentir bem, aquilo ali eu assimilei e hoje eu tô me gostando».
Hoje o maluco trabalha com a gente, se sente bem, tá se valorizando.
Aí a gente começa a ver o que eu consegui fazer de aproveitamento do curso.
Ele não aprende a ser dj, a fazer produção musical, mas ele assimilou a idéias da autovalorização, de se gostar.
Esse foi o grande superávit.
Não foi um Dj formado, não foi um produtor musical, e sim a autovalorização.
O rap é poesia direcionada?
Vocês falam para o branco que tem dinheiro?
Eu queria saber se na hora da letra vocês pensam nisso?
Ligado:
Cara, tem uns trechos das músicas que falam assim:
«playboy na quebra é só lombra e pedágio para a galera».
E outro que diz assim «os boy quer ser os favela e os favela quer ser boy».
Tá ligado?
Porque eu quando faço um som não é limitado, quanto mais proporção ele tomar ele vai ser útil, não só para o grupo, como para as próprias pessoas que estão ouvindo.
Eu tenho amigos, caras da classe média ...
Porra, você olha assim para o cara, puta que pariu, às vezes colocando até o próprio discurso dos caras «Porra Ligado, eu não tenho culpa de ter nascido com dinheiro e tal».
E você pega caras da quebrada aqui brother, que tem atitudes que deus do céu, porra, você olha assim:
«Pô, nojento, imagine se esse Zé Mané tivesse nascido com um qualquer no bolso».
Eu tenho muito claro na minha cabeça que as atitudes do cara é que falam.
W-man:
Não se iluda.
É direcionado, porque a vida da galera é direcionado pra isso.
É pra essa rapaziada?
É. As letras de rap não foram feitas só pra ganhar ibope, é porque é a real mesmo.
Cristiano:
O desespero que tem hoje na favela, certamente eles tiveram que levantar o muro e botar a cerca, mas esse ódio que gerou dentro da favela, eles ajudaram a crescer esse ódio.
O discurso hoje que a gente fala pra caralho é que isso tem que ser dividido, ou vocês dividem ou a raiva do povo vai ficar pior.
Quando o Ligado fala assim:
«playboy aqui é só pedágio para a galera», é porque tem uns boys aqui que sai de lá porque é monótono, não tem nada pra fazer e vem pra cá.
Aí a galerinha vê e quando é pedágio o cara tem que pagar.
às vezes o cara nem pede:
«aí maluco vou botar ai uma cerva pra você».
O cara é tão malandro que fala «vou botar um».
às vezes o cara diz:
«Ó maluco você quer conhecer outra realidade?».
Tem uns e outros daqui de dentro que vão com os caras.
Vai lá, vê qual que é.
Ai chega lá, " massa ..."
e fica encabulado, «mas eu sou mais lá, não tô me sentindo bem aqui não».
Ai chega aqui, a tiazinha fala com o boy, todo mundo fala com o boy.
Ligado:
Mas sem negar.
É luta de classe mesmo, mas às vezes é meio sem lógica.
Tem boy que pira quando ouve e diz:
«Meu irmão, vocês estão certo mesmo».
Como é que se dá no Comunidade da Rima a mistura cultural?
Cristiano:
Em a realidade quando a gente começou a andar nos bairros.
Quando a gente começou a fazer curso de formação política, porque até então era um bando de cara que escutava só o rap, quando a gente viu que tinha que respeitar o movimento e trabalhar com o movimento para que isso seja coletivizado para a maioria, de uma maneira, numa linguagem que a rapaziada entenda.
Então quando a gente foi fazer isso para a comunidade toda, a gente viu que o Hip Hop aqui em Fortaleza, é uma pedrinha de areia no meio de uma arte de cultura que existe há muitos anos, que é uma coisa que tá sendo esquecida.
Tá certo que tem o Hip Hop, mas tem os pandeirista que são os caras que fazem a embolada, os caras que tocam viola, tem o boi, tem várias culturas que não podem ser esquecidas.
A gente não pode passar por cima disso.
A gente podia pegar uma geração todinha e tacar rap na cabeça de ele.
Aconteceu isso em São Paulo e tá lá a maior putaria.
A gente usa timbre, sample, usa Patativa, trabalha junto com o pessoal da cultura, pra quem a gente, através da música e do Hip Hop, resgate um pouco da cultura que uma geração todinha perdeu.
Tem música nossa que tem um sample do Altemar Dutra.
Ai eu fui botar lá na casa da minha mãe para a ela escutar, aí ela:
«olha, Altemar Dutra».
Aí um maluco chega aqui, eu faço uma instrumental fudida, aí o maluco:
«Porra, do caralho."
Isso aqui é «Agnaldo Timóteo».
«Agnaldo Timóteo?" Eu mostro a música, o sample, a harmônia, a melodia e o estilo do negão.
Olha só [pegando a capa de um LP de 78 de Agnaldo Timóteo]:
camisa volta ao mundo, boca de sino, olha o cabelo, black.
Quem anda desse jeito hoje, quem tem esse cabelo aqui quer esticar a força, quem tem esse cabelo aqui não quer ser mais preto.
Qual foi o reconhecimento que você conquistaram até agora?
Cristano:
Cara, teve dois reconhecimentos da gente que foi fudido.
O primeiro foi ser reconhecido lá em Estocolmo, na Suécia, e receber e-mail hoje dizendo que tem gente lá pedindo a volta.
Isso é bom para a gente porque a gente foi até outro país e fez a diferença.
E o grande reconhecimento aqui no Brasil foi o prêmio Hutús [de Destaque Norte / Nordeste] e a experiência que gente teve quando uma pessoa chorou quando entregou o prêmio para a gente e reconheceu a dificuldade de ser aqui do Nordeste e ganhar um prêmio lá.
A Elba Ramalho chorou.
Ela falou:
«Eu sei como é difícil entrar e ganhar um prêmio no Rio de Janeiro e erm São Paulo».
Mas tem também a gente fazer um show na Parangaba e ter duas mil pessoas cantando a música da gente.
Teve um cara que chegou para o Ligado e disse:
Meu irmão, eu moro lá em Cascavel ó, eu fiz trinta disco de vocês e vendeu bem rapidim».
O cara piratiou 30 discos nossos e ainda vem dizer (risos).
Wman:
Em o bom sucesso, tem uma churrascaria do lado onde eu moro e eu vou pra lá.
Ai chega uma Hilux prata e bota Sabadão pra tocar ...
Cristiano:
Chegar em Caucaia e estar andando lá, de repente tá lá o negócio «Aqui só sobrevivente ...».
Caramba! O cara tá escutando Selva de Pedra do Comunidade da Rima.
Tem umas coisas que bate e o coração acelera.
Cufa Ceará *
Número de frases: 210
entrevista publicada no jornal O Povo Em o memorável filme Cidade de Deus, do diretor Fernando Meireles, um dos personagens centrais da trama -- Buscapé, após ter relações sexuais com uma jornalista saiu com a seguinte pérola:
«Jornalista não sabe trepar».
Com esta frase o personagem aspirante à fotografo ofendeu a uma classe ampla de mulheres intelectualizadas e em defesa das jornalistas, logo, «puxando a sardinha para o meu lado» -- eu acuso que as jornalistas sabem trepar sim!
E muito bem!
As jornalistas são as super-mulheres do século XXI, isto se deve às suas inteligências natas e sua capacidade de operar em todos os âmbitos da vida com sucesso e glamour.
As jornalistas são, sobretudo mulheres que jamais fingirão orgasmo, pois o seu compromisso é com a ética e principalmente com a verdade -- com um alto teor de consciência as jornalistas tendem a entender dos mecanismos masculinos e / ou femininos de forma a levar o seu parceiro (a) à loucura.
Pode se avaliar a sexualidade das jornalistas por uma simetria bilateral, ou seja, por dois ângulos -- o primeiro relativo ao erotismo feminino e outro a relativo a racionalidade da mulheres intelectuais.
O erotismo feminino é tátil ligado assim aos odores, a pele e ao contato -- tal qual uma matéria escrita por uma mulher.
Perceba, neste sentido, a diferença, no exemplo a seguir onde um jornalista e uma jornalista escrevem sobre o mesmo assunto:
«A adolescente F. tem 15 anos e nasceu em Jaguaquara, sudoeste do Estado.
I., também de 15, nasceu em Salvador.
Em comum, ambas são submetidas à exploração sexual desde os 12 anos e nesta segunda-feira (14), pela manhã, foram encontradas nuas na casa de um porteiro do Hotel Xamêgo -- localizado na Calçada -- em cujo estabelecimento elas eram levadas por adultos, até mesmo em grupos, para abusos diversos." (
Lide masculino)
«A coordenação do Programa de Ação Integrado para o Combate ao Tráfico e Exploração Sexual e Comercial de Crianças e Adolescentes na Cidade de Manaus (AM) está programando para esta sexta-feira (19) uma manifestação na Praça da Polícia, centro de Manaus, que deverá envolver diversas entidades diretamente ligadas ao enfrentamento da exploração e turismo sexual.
A manifestação funcionará como um pedido de esclarecimentos da sociedade às autoridades locais sobre o andamento do caso Amazonas." (
Lide feminino)
Através destes lides é possível traçar uma analogia que permitirá entendermos disparidade do erotismo dos jornalistas, isso relacionado às questões sexuais.
Em o lide masculino perceba que existe um viés sensual embutido, perceba também que é uma matéria mais visual -- onde você imagina as duas meninas sem roupa na casa porteiro, isso leva a nossa imaginação para um local de orgia, de luxúria, de prazer, mesmo que o assunto abordado seja de uma grave lacuna social.
Enfim, o primeiro lide designa a naturalidade do erotismo masculino e sua imaginação que almeja a satisfação instantânea, com ejaculações fantásticas e mulheres sedentas por pênis.
* Isto também pode ser percebido com o tipo de linguagem utilizada -- invés do jornalista escrever Nuas ele poderia escrever sem roupas, linguagem até muito mais simples e amena, forma, aliás, que certamente se fosse uma jornalista escreveria, ainda que sem nenhuma visível propensão ao pudor."
válido ressaltar que a palavra nua tem uma imensa conotação sensacionalista -- O sensacionalismo aparece nos meios de comunicação como uma espécie de balança, oscilando em determinado momento para a punição e, em outro, para a transgressão.
O veículo, que envereda por o caminho sensacionalista, chama a atenção para si por meio desses dois fatores:
a punição e a transgressão.
Não se trata de um fenômeno novo.
É talvez a mais antiga ferramenta para aumentar as vendas de produtos de comunicação e implica numa opção editorial.
O produto sensacionalista baseia-se numa linguagem específica, que será chamada aqui de «clichê».
As jornalistas inverteriam os termos por uma questão muito simples, o erotismo feminino é diferente do erotismo masculino como já foi supracitado.
A mulher tem um senso sexual voltado para a verdade, ou melhor, diferindo-se do homem ela não é ligada em imagens -- ela ao escrever uma notícia que envolvesse algum «gostosão» ou dois homens sem roupa -- ela não se imaginaria estando lá com eles ou ele e mesmo que fosse lésbica ela não se imaginaria vivenciando algo com elas.
Isto é possível por que a mulher por a colonização cultural que se inveterou na sociedade, onde as mulheres não devem pensar em sexo, estas aprenderam a controlar sua sensibilidade para com os desejos.
Já as jornalistas por serem mulheres «incomuns», anti-funcionalistas, alternativas e bem informadas tiram de letra as questões referentes a sexualidade -- isso por que certamente elas não possuem tantos tabus como as demais mulheres -- trocando em miúdos -- ela vai se entregar na cama e não se espante se ela tomar as iniciativas, pois como uma mulher interada ela sabe dos seus direitos e não irá fazer corpo mole quando o assunto é orgasmo.A
jornalista sabe o que é saber sentir prazer e mais que isso contra a submissão feminina ela dificilmente se renderá aos clichês, quase dogmáticos dos homens.
Por fim, ela é racional e objetiva quando o assunto é o seu trabalho, mas o quando o assunto é sexo ela prefere ser -- entre quatro paredes diga-se de passagem -- «DOG mática».
Mas voltando ao lide, perceba no segundo lide a destreza de detalhes, a linguagem um pouco mais rebuscada, a sutileza do interpor das palavras, a jornalista ela ao escrever um lide ela não vai ser sucinta, vai ser objetiva dependendo do veículo de comunicação em que trabalhe, mas o seu lide sempre vai ser exagerado -- por isso no simulacro universitário os professores (homens) deveriam entender o por que daqueles lides imensos (com 12 ou 13 linhas).
Observe as expressões:
Enfretamento da exploração, esclarecimento, etc.-- veja que as expressões que designam ideologia, ela quer concertar o que ta errado e realmente está errado -- só que por ser mulher a jornalista entende o que é uma violência sexual, o que faz parte da essência feminina, assim como os extintos fazem parte da natureza masculina.
De acordo com uma pesquisa feita com colegas de profissão 80 % das jornalistas afirmam que entre quatro paredes vale tudo.
Além disso, as jornalistas afirmaram que de entre todas as carícias, sendo unanimidade a que não pode faltar na hora «H», que deveria ser» M», são as famosas mordidas no pescoço.
Outro fato que chamou bastante atenção foi que as jornalistas entrevistadas, afirmaram ser dadas a experimentações sexuais pouco covencionais, como:
transar numa cachoeira, com dois parceiros e até mesmo confessaram gostar da prática ao ar livre (no parquinho, numa viela, na praia).
Apesar de possuírem fantasias tão exóticas todas que responderam ao questionaram deram um banho de conhecimento quando o assunto era ética.
Para muitos leigos é de total desconhecimento que o atual estágio da ética jornalística oscila entre -- «a imagem romântica de árbitro social e porta-voz da» opinião pública «e a de empresa comercial sem escrúpulos que recorre a qualquer meio para chamar a atenção e multiplicar suas vendas, sobretudo com a intromissão em vidas privadas e a dimensão exagerada concedida a notícias escandalosas e policiais».
Correlacionando este aspecto com os aspectos da ética sexual, hoje, segundo o professor Katsuhiro Kohara da Universidade Doshisha, Kyoto, Japão, influenciada por questões eclesiásticas, chega-se a conclusão que no universo sexual das mulheres que fazem jornalismo a ética restringe-se ao campo de trabalho, visto que o sentido unilateral da ética pressupõe limite e em linhas gerais não são concebidos na cama, limites para 80 % das entrevistadas.
Por outro lado, também existem lacunas na ética sexual das jornalistas que vivem entre o idílio da conduta séria que o jornalismo prescreve e a sensualidade feminina que sugere certa paixão humana afastando assim a racionalidade.
A o afastar a racionalidade de suas relações a jornalista deixa de ser uma amante perfeita.
De acordo com determinada corrente filosófica a mulher deixa de ser uma super-amante por que ela se apaixona.
Talvez por ser Jornalista e possuir em seu ideário princípios de humanidade, ela se apaixone duas vezes mais rápido que uma mulher «normal».
O problema da paixão no sexo é que o parceiro, sobretudo, a mulher, deixa de conceber o seu parceiro como objeto sexual, ou melhor, objeto de prazer e passa a desejá-lo como algo que esteja sob o seu poder.
A busca deixa de ser por o prazer e passa a existir por o deleite de amor.
Em este âmbito é possível chegar a conclusão que o autor do filme ao citar a frase -- Jornalista não sabe trepar-estava querendo dizer que as jornalistas se apaixonam mais facilmente e por isso no lugar do sexo feroz como os das cenas globais exibidas em horário nobre, elas se entregavam com delicadeza à um amor instantâneo, ou seja, as jornalistas são capazes de viver um amor eterno em apenas algumas transas.
Número de frases: 49
Sergipe.
Ela tem hoje 309 anos de muita história, principalmente de muitas lutas para contar, mas que ao longo do tempo os governantes fizeram questão de tentar apagar do povo Brotense todas as suas características de um grande passado de luta e principalmente de conquistas.
Sem contar no meio cultural que foi completamente deixado de lado, sem ter a algum tempo absolutamente nada que pudesse fortalecer a cultura local.
Mas graças ao esforço da comunidade, e sem nenhuma participação do governo local, foi conseguido a liberação de uma rádio comunitária, que é a esperança de dias melhores para a cidade no âmbito artístico, histórico e cultural.
Se vocês tiverem a oportunidade de conhecer Santo Amaro das Brotas sintam-se à-vontade, vocês irão conhecer a segunda cidade mais antiga de Sergipe, e que tem muita história para contar.
Número de frases: 5
«Isso não é música»!,
pragueja quem vê ou ouve Geladeira Metal.
Quem não diz nada, nem precisa.
Basta olhar para a expressão do rosto:
varia entre indignação, riso, pasmaceira, nojo ...
Se em algum lugar a Geladeira goza de boa reputação, é porque ainda não tocou lá.
O «dado concreto» é que ela geralmente não pisa duas vezes no mesmo local.
E isso não é música mesmo.
É quase tortura.
A dupla formada por os artistas multimídia low-profile Grilo e Paulinho do Amparo é muito mais performática do que musical, no sentido de que, no que eles compõem, não existe o mínimo de decência em termos de harmonia, melodia ou ritmo.
São urros guturais, grunhidos, notas desconexas no teclado e contrabaixo tocados como ou como se fosse heavy metal, ou delicadamente fazendo climas para as letras, estas variando entre cartas de apoio ao programa nuclear da Coréia do Norte, protestos contra a companhia de eletricidade e declarações de amor à Lili, a cachorra de estimação.
As reações são adversas.
Por exemplo, durante um programa de TV ao vivo, Grilo botou um sonrisal na boca e simulou um ataque epilético, gerando revolta numa entrevistada politicamente correta.
Pra quem perdeu, o tape foi parar no You Tube, entre alguns outros momentos especiais gravados em DV.
Em um show mais recente, que ainda não chegou ao popular site de vídeos, Paulinho fez um despacho com um pacote de Elma Chips e uma garrafa de Coca-cola no lugar da galinha preta.
Praticamente ignorados por a imprensa musical (são simplesmente citados quando tocam em alguma festa), o Geladeira Metal continua a tocar seu auto intitulado «jazzy core, ou noise infantil», com inspiração dadaísta em artistas como o japonês Yamatsuka Eye e o saxofonista americano John Zorn.
Seu mais novo projeto se chama Abaixo o Carnaval de Olinda, um CD-movimento social disseminado por email, onde uma das músicas e capa estão disponíveis lá em cima.
Para saber mais sobre o movimento, assim como o projeto «Afunda, Meu Recife», clique aqui.
Número de frases: 18
O nome um tanto singelo -- Casa A Eléctrica -- escorava aquela que, na verdade, era uma saga ambiciosa:
uma fábrica de discos planos, feitos de cera, instalada na Porto Alegre de 1913, e que chegou a registrar não apenas a música feita no Rio Grande do Sul, mas também artistas de São Paulo, de Montevidéu e de Buenos Aires.
Foi de um pioneirismo indiscutível:
na época, era a segunda indústria do ramo na América do Sul, a quarta no mundo.
A outra fábrica sul-americano ficava no Rio de Janeiro.
Havia ainda uma na Alemanha e outra nos Estados Unidos:
eis aí o quarteto fundador da fabricação de discos planos na história.
A maior parte dos nomes que formaram o elenco da gravadora perderam-se no pó dos tempos, embora fossem notáveis em sua época.
Alguns, porém, vinham do exterior e hoje fazem parte da história dos grandes da música popular, como Francisco Canaro e a dupla Razzano e Gardel.
A Eléctrica registrou pelo menos 4.500 gravações, em que as estrelas da época interpretavam valsas, habaneras, polcas, modinhas, fados, tangos -- além de hinos nacionais e, singularidades únicas, também ficaram gravados alguns discursos de grandes políticos daqueles tempos.
Temos, agora, além de um livro que conta a história das gravações musicais no sul do país, três CDs, com registros raros e únicos.
Assim, nos traz uma história de fundadores, de pioneiros -- e que está diretamente ligada à memória da nossa música.
Número de frases: 12
Este projeto conta com o apoio da Petrobras, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Duas realidades.
Uma no miolo, outra na beirada do espaço urbanos.
O grupo TR.E.M.A. foi buscar a experiência numa das tribos da comunidade indígena Tapeba, em Caucaia, região Metropolitana de Fortaleza.
Visitas semanais realizadas por Angélica Feitosa e Raquel Gonçaves, do grupo, transformaram-se em capítulos na busca de transmitir um pouco a história, os anseios, os desejos dessas mulheres.
De as impressões primeiras ...
estranhamento e curiosidade.
Constatações: miséria e perrengue.
Mulheres que antes tinham a sustentabilidade do mangue e viviam somente da mariscagem, hoje se mostram desapontadas com o rendimento da atividade.
Elas buscam alternativas e encontram várias formas de ir tocando o barco.
De a Maria Castoré, que abandonou a atividade por problemas no joelho, à «Maicon», filho de quatro meses da adolescente / mulher Neguinha, 16 anos, o mangue vive em todos que por ele passam, partilhando sonhos e dores nesse espaço ambíguo de (des) harmonia.
Capítulo 1: Entre lama, mariscos e conversas.
Ao longo do caminho, na estrada, o feminino prevalece.
Cada uma com suas cordas cheias com o crustáceo vivo, cinzento, se mexendo.
Em uma mão.
Em a outra, pelo menos um menino se agarra.
A cada carro que passa, elas estendem a mão.
Não gritam, não falam, simplesmente oferecem.
Poucos param.
Seguindo a estrada, logo se avista a placa imponentemente erguida com o nome da tribo, os Tapeba, e a inscrição do Governo do Estado.
Mais à frente, surge o Centro Cultural, todo de palha e madeira, imitando uma oca.
Tudo muito bonito e organizado.
«São artigos produzidos por os próprios índios», alguém avisa.
Os artigos são diversos:
colares, cocás, saias de palha.
Ao lado da grande oca, uma pequena cerca guarda as plantas medicinais, também cultivadas por os índios.
A vista do Centro Cultural causa uma ilusão.
Quando se avista a oca, acredita-se o que vai se encontrar são os estereótipos indígenas:
pessoas nuas ou pouco vestidas, de cocá, arco e flecha em suas casas de palha onde vivem várias famílias, vivendo em comunidade, onde tudo é de todos.
O de todos para os índios, em Caucaia, município da Região Metropolitana de Fortaleza, é, na verdade, muito pouco.
O extrativismo permanece, mas o arco e a flecha, que talvez nunca tenha existido nessa região, dão lugar ao fojo e a rede.
As casas de tijolo cru, doadas por o antigo prefeito, o Domingão, logo frustram quem esperava encontrar atrações exóticas.
São iguais às de muitas famílias «brancas».
Não têm saneamento e os «gatos» levam luz.
«A gente já chamou a Coelce, ninguém vem, o jeito que a gente encontrou foi esse», explica Raimunda Teixeira, índia de 62 anos, oito filhos, 30 netos e 20 bisnetos.
A simpática senhora hoje é funcionária pública no Posto de Saúde Vítor Tapeba, que atende à comunidade indígena às quartas-feiras.
Mas até bem pouco tempo Raimunda era marisqueira.
Gosta tanto da antiga profissão que de vez em quando ainda vai ao mangue colher seus mariscos.
«Mas vocês procuram uma que ainda cata o caranguejo, né?
Está aí a minha neta, Maria do Carmo».
A timidez não permite que Maria do Carmo, 17 anos, olhe nos olhos.
Em o diálogo inicial, a menina é monossilábica.
Frases completas saem apenas quando vai brincar com o filho Ivo, de quatro meses.
«O pai não é Tapeba não», avisa.
Também não namora mais ele.
«Mas ele ajuda», ameniza.
Ivo não mama, por isso quando De o Carmo vai pescar, o menino fica com a mãe, ou com as irmãs.
Quando não pesca, a garota confecciona colares, para vender em Fortaleza, principalmente no Mercado Central, na Jurema, bairro de Caucaia, na rua (Centro) também.
Menos no Centro Cultural Tapeba.
Aliás, a fonte de renda da maioria do povo da comunidade é a pesca e a confecção de colares.
Todo mundo faz e se aprende de pequeno.
«A gente pode ir pescar com você?
Mas não é só para tomar banho de rio não.
A gente quer pescar mesmo», nos oferecemos.
«Podemos marcar qualquer dia?».
«Uhum. Vocês ligam antes, não é?».
A conversa é interrompida por a irmã da " Maria do Carmo.
«Você ganhou no bingo».
Bingo? É, todas as tardes é o bingo que movimenta a aldeia.
«Você aposta 25 centavos e pode ganhar até cinco reais», explica a vencedora.
«Meu lazer é jogar bingo aqui mesmo, é como eu me divirto por aqui."
Em o dia que chega, Maria do Carmo nos recebe em sua casa.
O shortinho curto, a blusa nadador e o balde com as armadilhas para pesca.
Os fojos são umas armadilhas feitas com uma lata de óleo e um pedacinho de pau, amarrados com um cordão de borracha.
Como isca, uma folhinha de qualquer árvore do mangue.
Tanta folha fora, porque o caranguejo entra na lata?
«Ele é curioso», explica Neguinha.
Cada fojo pega um caranguejo.
Maria do Carmo leva uns 50 toda vida que vai pescar, o que dá para cinco cordas, vendidas cada uma a R$ 2,00.
Tem também o gereré que é específico para pegar siri.
Acompanham-nos até o mangue Neguinha, Francisca de Batismo, de 17 anos, índia de pele morena marcada por os traços Tapeba, olhos cor de mel e cabelos assanhados.
Em os braços, o filho Michael (lê-se Maicon) um mês mais jovem que o Ivo.
Irmã e sobrinho de De o Carmo.
«Eu queria que o nome de ele fosse um nome indígena, mas a minha sogra jogou uma praga.
Disse que se o nome de ele não fosse Maicon, ele ia morrer.
Maicon quer dizer Michael», conta a mãe orgulhosa.
Sempre que pesca, Neguinha carrega o Michael.
Não o deixa com outros em casa de jeito nenhum!
Nem com a mãe, nem com a sogra.
às vezes com o marido.
Para onde vai leva o menino gordinho e corado, tudo por o leite materno.
Mas não é por ciúmes do filho que Neguinha não o larga.
Ela, na verdade, teme que a Caipora leve o menino.
Isso mesmo, o ser folclórico fumante e de assobio alto e fino.
Neguinha jura que, quando a mãe estava grávida de ela, a caipora deu-lhe uma carreira e só escapou porque entrou em casa.
«Ela quer levar embora menino dentro e fora da barriga».
A conversa se desenrola na uma hora de caminhada até o outro lado da margem do rio, onde De o Carmo considera o melhor para a pesca.
Em o caminho, o cheiro forte do mangue vai se intensificando à medida que se adentra.
A lama cobre toda a canela, se entranha nas unhas.
Maria do Carmo, à frente, mostra toda a intimidade com o lugar.
Sigo devagar, com receio do cheiro forte, os pedaços de pau que ferem o pé, dos respingos do barro gerado sobre as cochas e os braços.
Uma infinidade de mariscos cruza o caminho.
São siris, caranguejos e o curioso mão-em o olho, que parece com o caranguejo, embora menor, e tem uma enorme pata que cobre metade do que seria o rosto.
Tivemos uma verdadeira aula da céu aberto.
«Tá vendo esse bicho aí?
É a Maria Farofa, se você comer você fica bebinha», explica De o Carmo.
A matéria-prima para a feitoria do artesanato estava ali, por toda parte:
sementes, folhas, palha.
É com essa planta aqui que a gente faz o cocar e a saia do índio, ela chama ' Ôi de Paia ', continua Neguinha.
Atoleiro na lama do mangue, água na metade da canela, espaços vazios, sem vegetação por a antiga salina, escombros de velhas casas Tapeba.
«Te a vendo esse descampado aqui?
às vezes a nossa tribo vem dançar o Toré aqui, bem próximo da natureza.
Eu adoro», conta De o Carmo.
Finalmente o rio.
De longe, a vegetação do mangue, com suas plantas tortas, raízes à mostra.
De perto, a imundície.
Uma grande quantidade de lixo se amontoa na margem.
Uma espécie de cemitério de chinelos, claro, sem os pares.
Sacos plásticos, garrafas, roupas velhas e tudo mais que se possa imaginar.
Para nossa surpresa, um copo do Mac Donald's.
Reflexo da ação de vários anos, da própria comunidade.
O lixo, às vezes os índios queimam, às vezes jogam no rio.
Em a chegada, Maria do Carmo arruma cuidadosamente as armadilhas.
Um pouco distante de nós.
Os caranguejos se assustam com os homens.
O próximo passo é catar as pixuletas.
Hein? Mariscos compridos, acinzentados, com duas conchas que protegem o animal dentro.
Com a ajuda de uma canoa se chega à croa, banco de areia, seco por o esvaziar do rio.
As pixuletas são rápidas.
Maria do Carmo tem agilidade, com uma pá corta a terra até ver os buraquinhos feitas por o caminho dos mariscos.
Enfia a mão e puxa o bicho gosmento, que rapidamente entra na sua proteção.
As duas aprenderam a pescar com a mãe, Neide, filha da índia " Raimunda.
«Minha mãe trazia a gente pequenininha pra ensinar a catar o caranguejo», conta De o Carmo.
O pai?
Morreu de cirrose.
A rotina de ela inclui, além da pesca e da feitura dos colares, as aulas do supletivo do primeiro grau, na escola da comunidade.
«Eu gosto de ser tapeba.
Mesmo que pudesse, não sairia daqui não».
A intimidade de elas com o lugar nos dá inveja.
Elas permanecem no trabalho e continuam cuidadosamente a zelar por o que já foi pescado.
Alguns Aratus já passeiam no fundo do balde perdidos entre nossas peças de roupas que ocupavam o mesmo espaço dos crustáceos ainda vivos.
Como num desabafar De o Carmo diz " Por mim eu morava aqui, no meio dos matos.
Sozinha eu não tinha coragem não, mas assim ...
Se viessem umas três casinhas eu tinha.
Lá onde moro (Vila da Ponte) é muita zoada, fica perto da pista e as vezes tem muita briga por lá».
Uma faculdade?
«Pode ser, a que estudasse a pesca».
Enquanto pesca no rio, De o Carmo sonha com o mar.
«Nunca fui à praia, já vi o mar de dentro do rio das Barra, quando vou pescar de barco, mas a praia mesmo, não sei nem como é».
Um estalo.
«Eita, o fojo bateu!»,
avisa De o Carmo.
A zoada do pau batendo na lata confirma que algum ser caiu na arapulca.
E pode ser qualquer coisa, não é só caranguejo não.
Até rato Maria do Carmo já pegou.
Neguinha me espera no caminho de volta.
O lameiro, o cheiro forte.
A conversa se desenrola ao som do rinchado de catarro de Michael e dos galhos quebrados por os pés que insistem em passar por ali.
Neguinha confessa que sua condição indígena não traz tanto orgulho assim.
«As pessoas ficam fazendo hora, chamando nós de índio, perguntando por o arco e flecha ou então gritam assim:
cuidado com as fechas.
Eu não gosto.
Quando me perguntam se eu sou Tapeba, eu minto, digo que não sou».
«Ela já furou o marido com uma faca», cochicha De o Carmo.
O motivo?
Ele não quer que Neguinha saia de casa, quando ela sai, a briga está feita.
«Ele quis me bater e eu meti faca em ele, confirma corajosamente.
Quando o assunto é namorados, a agora falante De o Carmo desconversa.
Volta a ser monossilábica.
Quem sabe na próxima visita.
Número de frases: 160
Artistas independentes sempre tentam achar uma saída para concorrer com os grandes investimentos das gravadoras.
Em a minha busca, eu achei uma saída.
Além disso, criei algo novo:
um prêmio virtual que valoriza toda essa gente, chamado ' Mouse de Ouro '.
O DVD à Luz de Velas é o primeiro trabalho disponibilizado inteiramente para download grátis na internet.
Em o site www.nanji.com.br podem ser baixados todos os arquivos para a confecção de um DVD, VCD ou CD, com todas as capas inclusive.
Pela primeira vez, um artista disponibiliza todo o conteúdo de seu trabalho em DVD na internet e de forma legal, amparado por uma licença Creative Commons.
Como não quero apenas reproduzir o press release, deixo a palavra para algumas pessoas que já tiveram contato com a obra:
Maurício Ricardo do site Charges.
com:
«Quem disse que entrar pra uma gravadora garante acesso à mídia e às lojas?
Outra alternativa é disponiblizar o download grátis na Internet ou vender no site do próprio artista.
Nanji, colocou não só o áudio, mas um DVD de seu show pra download grátis na rede e ainda criou o «Mouse de Ouro», versão web do» Disco de Ouro " das gravadoras."
Bianca Aguiar, artista de São Paulo:
«Adorei a idéia e apóio 100 %.
Gostei tanto que vou emprestá-la para o meu trabalho também.
Nós, artistas independentes, temos que nos unir e fazer a diferença."
Lygia Calil do Jornal " Correio de Uberlândia/MG:
«Isso representa uma revolução que coloca em xeque a indústria fonográfica tal como ela é hoje, pois permite ao artista um contato direto com público.
Ele não precisa ser intermediado por gravadoras e distribuidoras e apesar de não contar com todo o aparato de marketing que essas empresas oferecem, atinge o ouvinte, pois tem este acesso livre."
Adreana Oliveira do Jornal " Correio de Uberlândia/MG:
«Moderno, como tudo ligado ao «copy left», que já foi usado por artistas como Tom Zé, todo mundo pode ter o material, de qualidade incontestável, no seu computador, gravar em CD, DVD, ou simplesmente assistir.
Se imprimir a capa e contracapa, comprar o
Box, prontinho, pouco mais de R$ 1 é tudo seu.
Em tempos em que nada se cria, tudo se copia, Nanji conseguiu achar uma fresta e aproveitou bem.
Já foram feitos downloads até no Japão.
E se vierem convites para shows e turnês, serão bem vindos, é assim que a máquina trabalha."
Essa iniciativa coloca mais lenha na discussão sobre pirataria e o atual cenário musical com o advento da internet.
Acredito que se todo artista tivesse seu trabalho disponível na internet de forma oficial, a pirataria perderia o sentido.
As pessoas poderiam baixar os discos, ou copiar dos amigos.
Em termos de lucros, o artista continuaria ganhando com os shows, sua principal fonte de renda.
Vender discos está cada vez mais difícil.
O artista que coloca sua música de graça na internet acaba com qualquer intermediário entre sua música e seu público.
Acredito que mais pessoas terão acesso às músicas e o artista fará mais shows.
Isso já está acontecendo com mim.
O " Mouse de Ouro "
O'Mouse de Ouro ' é uma crítica bem humorada ao «Disco de Ouro» dado por as gravadoras aos artistas que alcançam uma determinada quantidade de cópias vendidas.
Em o site www.nanji.com.br, os visitantes que estão fazendo downloads são contabilizados até atingir o número de 25.000 pessoas, o mesmo que premia um DVD no mundo real.
O prêmio tem um valor simbólico que valoriza a obra, assim como a versão das gravadoras.
É uma forma de mostrar que o artista pode atingir o mesmo público, sem precisar do investimento e do poder de marketing das gravadoras.
O «Mouse de Ouro» despertou o interesse de artistas em todo o Brasil e logo a idéia se estenderá a um portal, para que todos artistas possam usar o contador para valorizar suas obras.
Número de frases: 41
O Portal Mouse de Ouro é a extensão da idéia iniciada no site www.nanji.com.br, será controlado por a equipe de criação do site e não terá caráter comercial.
Overmundo Em os Cafundós do Brasil
Tudo começou quando escrevi sobre seu Caxá no Overblog.
Ele foi o primeiro a querer que eu lesse em voz alta o texto publicado na internet.
Ficou tão concentrado que não mudou de posição até que terminei a leitura e a apresentação das fotos.
Deu grandes risadas, se sentiu muito importante.
Em o outro dia veio com mais dois amigos, tive que repetir:
voltei a tela do micro para eles, para que admirassem a foto do amigo na rede.
Atentos ouviram toda a leitura.
Em o final, Caxá é parabenizado por os amigos, são muitos comentários.
O Geraldo é o primeiro a puxar conversa:
Posso prigunta uma coisa?
E com uma risadona continua:
-- E ocê num vai se importá né;
mas cumo bobagi num dá ni pau, só no home mermo, eu vou priguntá:
Tem jeito de pô eu tocano minha viola e cantano ai dentro?
Empolgada me voltei para eles:
-- Claro Geraldo, ainda mais com a voz maravilhosa que você tem, vai fazer sucesso!
Ele olha um tempão para o amigo, e tira o chapéu da cabeça para dizer:
-- Óia esse mundão tá muito importante, que dia que um cabra à toa que nem eu, pudia aparecê assim, era só para os grande!
Seu Caxá complementa:
-- E ocê sabe que até o Lula pode vê a gente lá tombém?
-- Divera Caxá, num é pussível.
Os comentários, as risadas se estendem;
fazem planos, cada um tem algo para mostrar, são todos artistas!
Em o outro dia chega seu Ciriaco.
Encosta a bicicleta desconfiado e muito respeitoso tira o chapéu, limpa a garganta e diz:
-- D. Sinvaline eu vim aqui, porque fiquei sabeno que a sra arrumou aí um jeito de mostrá nosso trabáio.
Fiquei muito interessado e queria que a sra me explicasse direito.
Sabe cumo é importante mostrá o que nois sabe fazê.
-- Sim, Seu Ciriaco, entre por favor.
Aí faço um relato sobre a proposta do Overmundo para com a cultura em todo o Brasil.
Ele ouve quase sem respirar, agradece e vai.
De aí alguns dias me liga para ir à sua casa, tem um surpresa.
Chegando lá uma recepção com muitos foliões, todos vestidos a rigor, a bandeira do Divino Pai Eterno exposta, os violeiros, sanfoneiros, pandeiristas, um grande espetáculo.
Fiquei muito feliz.
Eles se reuniram para mostrar o que sabem fazer e queriam que eu fosse a intermediária em mostrar esse trabalho para o mundo.
Emocionei-me às lágrimas e agora comecei a montar os textos, as filmagens, as fotos que pouco a pouco vou postando no Overblog.
São os artistas desconhecidos mostrando sua arte para o mundo.
De 22 a 25 de Outubro de 2007 estou na aldeia krahô para a 7ª. Feira da Semente.
Índios reunidos de várias partes do Brasil:
tribo Makusi, Boa Vista -- Roraima;
tribo Dessana -- Manaus -- Amazonas;
Carajás de Xambioá -- Tocantins;
Kaiowá -- Dourados -- Mato Grosso do Sul e os da casa -- os Krahôs.
Conversando com cada um fui passando o link com o texto sobre os índios krahôs no Overmundo, eles ouviam atenciosos, anotavam tudo.
Os que não têm acesso à internet iam pedir alguém para lhes mostrar, foi um interesse geral.
Expliquei que podiam agora mostrar sua cultura para o mundo.
O Mário Kamu de Boa Vista, um moço de 20 anos mais ou menos, lidera uma comunidade jovem em sua tribo, fala com muita segurança, será mais um colaborador para o Overmundo.
Assim também as professoras das aldeias krahôs ficaram satisfeitas, vão montar textos sobre a escola indígena das aldeias.
O índio Roberto krahô que é o coordenador da escola foi o mais interessado, agora mesmo já recebi e-mail de ele pedindo orientações para se cadastrar no Overmundo.
O cacique Zé Miguel me perguntou se o ministro da cultura lia os textos, eu respondi que possivelmente sim, ficou muito empolgado.
Está escrevendo no caderno, depois vai me passar para publicar.
É impossível saber as pautas que surgirão, mas acredito que vamos ter muita surpresa por o interesse que vi no olhar de cada um.
Esse texto é uma forma de parabenizar o Overmundo, uma forma de agradecer por a oportunidade de mostrar a riqueza cultural escondida por esse Brasil imenso.
Agradecer por a felicidade, auto estima proporcionada a cada um destes que agora se sentem importantes em ver seu trabalho, seu modo de viver reconhecidos.
Número de frases: 56
Não acho que a riqueza seja um pecado, desde que obviamente conquistada por meios lícitos e justos.
Mas, talvez por séculos de cultura católica pregando a beleza da miséria, ou talvez por pura e simples culpa, há muitos playboys se engajando em causas bacanas.
Em princípio, dá muita raiva, porque sabemos que alguns de eles são grandes salafras.
Mas, pensando pragmaticamente, não deixa de ser interessante, porque pelo menos fazem algo útil, em vez de somente torrar a grana com futilidades.
De todo modo, não dá para fugir da piada.
Há muito humor e caricatura por trás disso tudo, então vamos explorá-los.
Depois de muita pesquisa, usando métodos científicos do Animal Planet (e das revistas de fofoca, of course), cataloguei alguns espécimes.
A ver:
O Progressista da Ôngue
Ele se cansou das desigualdades do planeta e resolveu ' fazer sua parte '.
Assim, tratou de criar uma Organização Não Governamental a fim de ocupar algum espaço que se transformou em lacuna diante da omissão ou da incapacidade do Estado.
Bonito, né?
Mas a teoria na prática é outra.
Afinal, ele é uma espécie de ' diretor vitalício ` da própria ONG, ganhando salário altíssimo e fazendo aquela ' cara de preocupado com a conjuntura ', sempre que perguntam alguma coisa sobre a realidade do país.
E agora a moda é ter uma OSCIP, pois com ela é possível manter contratos com o Poder Público sem as chatices das licitações.
O Comunista Abastado
Esse é um grande clássico.
Assim como existem os pobretões que defendem idéias de direita, há também os ricaços que se dizem socialistas.
Em um país em que a prostituta goza e o traficante cheira, esse tipo de contradição não espanta ninguém.
Embora seja dono de propriedades milionárias e realize viagens internacionais de altíssimo padrão, esse camarada realmente acredita na revolução socialista.
O Anarquista Sistemático
Em tese, os anarquistas deveriam odiar o sistema.
Mas não os brasileiros, quanto ao que devemos sempre nos lembrar de nossas impressionantes contradições.
Há muita gente descolada que se diz ' anarquista ', mas ao mesmo tempo abre empresas muito lucrativas (em geral ' de cultura ') ou então ganham uma grana como empregados de grandes corporações (quase sempre ' de mídia ').
É moleza ser anarquista desse jeito, né?
O Ecologista de Jetski
Ele defende a fauna, a flora, os minerais e até os protozoários, mas não abre mão de passear com seu jetski.
Nem todos sabem disso:
tal veículo comete verdadeiras chacinas de plânctons.
As microscópicas criaturinhas morrem por causa do escapamento.
Mas o que os olhos não vêem o coração não sente, e o playboy ecologista não se abala.
Esse tipinho, obviamente, nem sempre usa jetski.
Alguns preferem aqueles automóveis (blindados, claro) que gastam mais gasolina do que um Maveco ou um Dodjão.
O Artista Classe A
Seu talento nunca foi reconhecido, mas esse detalhe é de somenos importância.
Em primeiro lugar, porque isso nunca foi um requisito no meio artístico brasileiro.
Mas o mais importante é que ele tem muita grana, e assim pode financiar as próprias empreitadas.
Não são poucos os ricaços que se metem a escrever livros, montar peças teatrais, produzir filmes ou coisas do gênero.
O curioso é que em muitos casos eles fazem ataques virulentos à política e à sociedade.
Não por auto-crítica ou ' mea culpa ', mas curiosamente por não se considerar ' parte do sistema '.
O Conservadorzinho Na-Cara-Dura
De todos, é o mais sincero.
Ele é rico e assume ser ' de direita '.
Mais ainda:
diz com todas as letras que é um conservador.
A sinceridade merece aplausos, mas convém agir com moderação.
Isso porque essa ' neodireita ' faz, hoje, o que a esquerda fazia antigamente:
um discurso de ruptura, repleto de rebeldia, atacando inclusive os meios de comunicação.
Alguns adotam esse perfil para ganhar alguma eleiçãozinha, buscando votos nos nichos conservadores.
Mas há também os que simplesmente pregam esse discurso para tapar o sol com a peneira, em busca de algum consolo teórico para o fato de que são mini-opressores que nunca deram bola para o povão.
Não é Ruim
É claro que muita gente fica irritada com os Playboys Engajados, porque em muitos casos há muita hipocrisia nisso.
Mas, pensando de forma pragmática, não podemos simplesmente condenar.
Deixemos que os playbas se divirtam com seus brinquedinhos sociais e politicamente-corretos.
Melhor assim do que a infrutífera futilidade.
Faço minha parte segurando a raiva e circunscrevendo minhas observações ao universo do humor.
Número de frases: 56
Faça também a sua!
O Bazar Pamplona é uma banda paulistana formada por não paulistanos.
É uma banda alternativa que fala sobre coisas nada alternativas.
É uma banda honesta que pretende antes de mais nada ser fiel aos seus próprios princípios, mesmo que eles mesmos digam que são mentirosos.
Essa sinceridade da música e das letras transparece na conversa que tivemos com o baixista Rafael Batata e com o guitarrista e vocalista Estêvão (os dois acentos não são erros de digitação).
Em esta entrevista com o produtor Tiago Barizon eles falam um pouco da banda, de experiências e de como foi o trabalho com o produtor João Erbetta, o Paco Garcia da banda Los Pirata, que resultou no EP Músicas Que Caem em Pé e Correm Deitadas.
Barizon:
O que é o Bazar Pamplona e como ele surgiu?
Estêvão:
Bazar Pamplona é uma banda.
Pelo menos é essa a intenção.
Surgiu numa república de estudantes, na Avenida Paulista, em 2004, onde eu e o João Victor (guitarra), morávamos.
Em a verdade, não foi a banda que se formou ali;
tínhamos apenas uma idéia do que fazer.
E algumas músicas.
Fechamos a formação mesmo em 2005, com o Rafael Batata (baixo) e o Rodrigo Caldas (bateria).
Consideramos esse o ano da fundação da banda.
Bazar Pamplona: se estrepando desde 2005.
Deu uma trabalheira danada até encontrarmos as pessoas certas.
Barizon:
Algumas influências são bem explícitas nas composições, Beatles e a Tropicália para citar dois exemplos.
Isso é fato?
Quais outras bandas influenciam a banda e seus componentes?
Estêvão:
Sim, é fato.
Tudo o que tenha a assinatura Lennon / McCartney nos influencia.
Ouvimos muito Mutantes também que, por sua vez, se entupiram de Beatles.
Os primeiros discos do Caetano são fantásticos, assim como os da Gal.
Tom Zé também é um cara que a gente escuta muito.
Temos muita influência desse pessoal.
E acho que a preocupação com as letras vem daí também.
Mas não ouvimos só isso.
Todos nós gostamos de Wilco, Radiohead, Strokes, Devendra Banhart, entre outros.
Barizon:
A banda se formou em São Paulo, apesar de nenhum dos integrantes ser da capital.
A cidade, suas características, suas complexidades, de alguma forma se envolvem no processo de composição?
Batata:
Com certeza.
Somos três do interior do estado e um de Belém do Pará mas todos fomos adotados por São Paulo.
Nos conhecemos aqui, ensaiamos aqui, gravamos aqui, nunca tocamos fora daqui.
O Bazar é uma banda totalmente paulistana apesar da ascendência caipira.
A cidade, seus arranha-céus e avenidas são citadas explicitamente nas letras.
O próprio nome da banda chama a cidade.
Barizon:
As letras e a forma como são cantadas são em sua maioria, se não bem humoradas, curiosas e instigantes.
Elas parecem passar da auto-express ão para uma atitude que chega próxima de uma persona.
Isso é proposital ou é inerente ao processo de composição?
Como é que as letras são escritas?
Estêvão:
Em as músicas do Bazar Pamplona, acredito que a palavra venha em primeiro lugar.
Acaba instigando, mas não existe uma preocupação em fazer isso.
Já disseram que as letras são espirituosas.
Uma amiga me disse uma vez:
«Parece que vocês pegavam uma coisinha qualquer que acontecia no dia, sentava com um violão e ficava compondo».
É bem isso mesmo;
é tudo muito simples.
Não tem segredo.
Acho que as pessoas gostam porque faz parte da realidade de elas, como pedir de volta um CD que você emprestou.
Temos uma música sobre isso.
É uma coisa banal, mas de tão banal, ninguém nunca fala.
Barizon:
Como foi a experiência de trabalhar com João Erbetta?
Alguma previsão para o lançamento de um álbum?
Batata:
Foi fantástico.
Nós descaradamente mandamos um email para ele, nos encontramos para alguns cafés e logo começamos a trabalhar.
O cara é genial, sem ele nós teríamos feito metade no dobro do tempo.
Sobre o disco, ainda não temos previsão, mas o João já está nos enviando alguns aperitivos via internet lá de Washington.
Gravamos 18 músicas ao todo e lançamos 7 num EP chamado «Músicas que Caem em Pé e Correm Deitadas» que está disponível lá no Trama Virtual (http://www.tramavirtual.com.br/bazar pamplona).
Agora estamos à procura de um selo para distribuir o disco completo, ainda sem título.
Barizon:
Em a opinião de vocês, o que falta no cenário musical nacional?
Quais as dificuldades de uma banda de rock que quer conquistar com um trabalho próprio e original?
Batata:
Falta atenção para o cenário independente.
Se você passar cinco minutos navegando no Trama Virtual vai achar pelo menos uma banda muito melhor que qualquer uma que estiver tocando quando você ligar o rádio.
Se freqüentar o meio então, nunca mais vai ligar o rádio.
A Brasil 2000 era um oásis no deserto, e agora não é mais nada.
Até a 89 que, apesar de não tão ousada quanto a Brasil 2000, tinha uma boa programação, cedeu e hoje está impossível de se escutar.
Se você acha a música Brasileira atual ruim, tente dar cinco minutos para o Hurtmold, Cidadão Instigado, Vanguart, isso sendo breve.
As casas de show fazem um trabalho aceitável, mas a grande mão na massa vem das próprias bandas que precisam gastar fortunas em instrumentos, ensaios, gravações e outras coisas caríssimas.
Muitas vezes, precisa-se pagar para tocar numa casa, mesmo levando público e equipamento, e a banda não recebe nem uma ajuda de custos.
Barizon:
O que o futuro reserva para o Bazar Pamplona?
Quais os planos?
Estêvão:
Não sabemos sobre o futuro.
Mas vemos a banda como algo que evolui.
Não é uma coisa estática.
Exemplo clássico:
os Beatles.
Eram uma banda diferente a cada ano.
Estamos no nosso começo, nosso som vai mudar, nossas idéias serão outras.
Pretendemos gravar nosso Sgt.
Pepper's um dia.
Barizon:
Vocês contam com um séqüito de fãs que muitas vezes cantam suas músicas durante os shows, isso somente com uma presença forte em shows e nem mesmo com um álbum lançado comercialmente.
A o que vocês devem essa relação com o público?
Batata:
Ao menos para mim as músicas são fáceis de serem assimiladas, sem serem óbvias.
As letras do Estêvão são ótimas e eu mesmo fico com elas na cabeça por dias quando as ouço pela primeira vez, antes mesmo de tentarmos tocá-las com a banda.
Lembro bem quando ele me mostrou o esqueleto de «Pequeno manual do corpo humano», eu fiquei com aquele refrão tocando na minha cabeça por dias.
E foi o mesmo com outras músicas.
Acredito que o público tenha essa mesma identificação.
Barizon:
Se não fosse por a música, o que cada um de vocês faria da vida que os deixariam igualmente satisfeitos?
Batata:
Em a verdade todos nós temos outras atividades, mas damos o sangue por a banda e amamos a música.
Creio que posso falar por os outros se disser que nada no mundo nos daria igual satisfação.
Links:
http://www.tramavirtual.com.br/bazar pamplona
Número de frases: 111
http://www.bazarpamplona.blogspot.com/ http://www.fotolog.net/bazar pamplona A cena rocker de João Pessoa tem seus altos e baixos, mas isso é fato comum em qualquer capital do país.
Parece que uma momentânea entressafra mórbida foi para o espaço.
Felizmente estamos vivendo um bom tempo com o surgimento de bandas e alguns lançamentos com produções mais trabalhadas e abordagens diversificadas.
O trio Motherhell acabou de lançar seu primeiro trabalho demonstrativo no formato EP, contendo cinco músicas e não apela muito não:
é pau puro!
O grupo é formado por o vocalista e baixista Marcelo de Barros, por o baterista Clécio e o guitarrista José Coloral, que abrem a guarda para seu speed rock com musicas de curta duração, sem firulas.
Alias, é cacete do começo ao fim, tendo como maior fonte de inspiração o lendário grupo inglês Motorhead;
um pequeno cacoete metálico que lembra do Battleaxe e por fim uma boa dose de punk 77.
Para dar vida ao grupo, Marcelo de Barros teve que rodar meio mundo para batizar a criatura, que já se chamou de Motohell, Motor Hell;
trocou de formação várias vezes e o escambau até acertar o line up no final do ano passado.
Praticam um rock primitivo, urgente, veloz e consistente.
Em o finalzinho de 2005 lançaram sua primeira gravação com o EP de sugestivo titulo «Rock and Hell» (Independente) contendo cinco insanas faixas, cantadas em inglês mesmo.
«Hyena» abre o disco com um pé no proto-punk e outro no pré-metal (!!),
caracterizada por a divisória entre os estilos;
mas as melhores ficam por conta da rápida e literalmente certeria «I Am Killing Me» e o virulento rock ´ n ´ roll de «I Walk Forward», a preferida aqui de casa.
Em suma, se você gosta e quer ouvir speed rock, eis um nome.
A banda declara que esse é apenas um disco de demonstração que não tem uma produção muito apurada, mas nem precisa tanto, o som é «banger» mesmo!
Ao vivo é uma das mais interessantes para curtir.
Contato:
Número de frases: 19
zecoloral@hotmail.com Me bateu, numa noite de sábado, uma vontade danada de viver!
Sair, dançar, ver gente.
Ver teatro, ver cinema, ou sei lá o que ...
«Mas, duro, como é que morde?"
O jeito era procurar um programa «de grátis».
Peguei o meu velho carrinho 83 e saí rodando por a cidade do mestre João.
Um olho nas possibilidades e o outro no ponteiro da gasolina.
Sabe como é, né?
Vi que o Centro de Cultura João Gilberto estava aberto.
Aleluia! Parei e fui ver qual era.
Ia rolar um show com uma cantora que eu, na minha santa ignorância, não conhecia.
E de graça?!
Beleza! Resolvi arriscar, claro.
Eram mais ou menos oito e meia da noite.
Em a porta principal tinha um cartaz informando que o show começaria as oito.
Não gosto de chegar atrasado.
Acho falta de respeito.
Em a maioria dos teatros desse mundão de meu Deus, os espetáculo começam no horário marcado e as portas são fechadas.
E eu estava em busca da civilização!
Entrei e encontrei o público esperando no salão.
Um funcionário do centro de cultura me informou que o show iniciaria às dez.
Algumas pessoas realmente chegaram crentes que o horário seria esse.
Dançaram. Mais ou menos 9 horas nos mandaram entrar no teatro e nos deram de «presente» o «espetáculo» do acerto do som:
Alô som!
testando! alô, alô!
tsssss! sommmm!
Alô, alô som!!!
Será que não poderiam ter equalizado o som antes da platéia entrar no teatro?
Os velhinhos estavam lá em baixo, em pé, esperando.
É bem melhor esperar sentado.
Disse uma dedicada funcionária.
Certo.
Mas precisava o barulho do teste do som atormentando os nossos ouvidos?!
E os Velhinhos?!
Perguntei admirado!
Me chamou atenção porque eles eram a grande maioria da minúscula platéia.
é um grupo da «Terceira Idade» que foi recrutado após uma missa numa igreja próxima para compor a platéia.
Ótimo!
Que venham mais e mais.
Eles bem merecem.
Nós devemos isso a eles e muito mais.
Devemos carinho, cuidado, respeito, atenção ...
Mas, aonde está a juventude que também é carente de diversão e arte?
O show foi bancado por a Fundação Cultural do Estado.
Por que os jovens e adolescentes carentes de recursos e entretenimento não foram convidados?
Garanto que eles teriam adorado o excelente show e gerado a energia que faltou para completar a magia da noite.
Qual a desculpa que se tem para as quase duzentas cadeiras vazias num show da mais alta qualidade, gratuito, numa noite de sábado sem outras opções na cidade?
A cantora desconhecida?
Mariella Santiago: uma garça cheia de graça e talento.
Voltei para casa triste.
Isso não se faz.
Nos perdoe, Mariella.
Ah, Juazeiro!!!
http://www.youtube.com/watch?
Número de frases: 54
v = a2 B3Kh3 B6yA
Não obstante o dinheiro seja íntimo das pessoas por constituir-se no instrumento de troca propiciador das relações mercantilistas do mundo moderno, muita gente não convive bem com o mesmo.
Basta ver o alto índice de cheques devolvidos no país, ou ainda a quantidade de pessoas com nome inscrito no SPC e na SERASA.
Em o cenário dos distúrbios em relação ' a moeda, encontra-se uma série de tipos humanos:
o pão-duro, o mão-aberta e o desligado.
Recorrendo aos programas veiculados na televisão brasileira, eis que encontramos a arte imitando a vida, estando lá representados alguns tipos de pessoas conforme a relação que estabelecem com o dinheiro.
Nonô Corrêa, personagem da novela «Amor com amor se paga de 1984», é exemplo clássico de pão-duro.
Apesar de possuir diversos imóveis alugados, que lhe geravam uma renda com a qual poderia viver tranqüilamente, jamais se convenceu de que poderia fazê-lo.
Era um sujeito que até colocava cadeado na geladeira para que ninguém de sua família comecesse nada sem o consentimento de ele ...
tudo para reduzir os gastos!
Esse tipo é representado, portanto, por aquele sujeito em desarmonia com o futuro.
Ele «morre» de medo das incertezas que o futuro nos reserva e, daí, não se permite usufruir saudavelmente dos bens materiais.
Exemplo de mão-aberta também estão nos folhetins.
Pessoas que perderam dinheiro constantemente surgem nas novelas, querendo manter um padrão de vida que não condiz com a atual realidade financeira em que vivem.
Então, gastam o quê têm e ainda o quê não têm;
como se só existisse um problema apenas no dia de hoje, sendo esse de fácil resolução.
O futuro?!
O futuro á algo que não existe ...
daí não há porque se preocupar em manter a dispensa abastecida até o fim do mês, furtando-se ao prazer de comprar caviar, salmão, champagne, ...
Esse tipo, por sua vez, busca atingir uma satisfação presente e intensa através do dinheiro.
Todavia, o gasto pode ser incomensurável e eterno porque dinheiro algum pode comprar uma satisfação que não existe por motivação interna.
O externo não é capaz de gerar o quê não existe internamente ...
Um terceiro tipo é representado por aquele sujeito que prefere não tomar conhecimento de sua situação financeira.
Quem o cerca que se preocupe com esses «detalhes capitalistas» ...
Todavia, como nem tudo é problema, eis que surge também um quarto tipo:
o equilibrado.
Esse surge dando o exemplo de situação saudável.
Ele não se relaciona com o dinheiro através de sentimentos de medo, raiva ou apatia.
Sabe o quanto gasta e o faz para bem viver, consegue manter as contas sob controle e ainda guardar algum dinheiro para uma futura emergência ou para a realização de algum sonho.
Sabe-se que o homem é produto do meio em que vive.
Logo, uma geração influência as gerações subseqüentes e nem sempre na medida exata do que foi a primeira geração.
Há casos em que o filho de um «pão-duro» desenvolve um mecanismo de raiva contra as situações a que foi submetido por o pai.
Surge, pois, um «gastador».
Resta, pois, educar o homem porque a consciência já é o primeiro passo para a resolução dos problemas humanos tanto presentes quanto futuros.
Número de frases: 34
Futuros na medida em que, segundo estudos psicológicos, uma geração é capaz de influenciar a longo prazo ao longo do processo sucessório das gerações.
Tudo pronto para a 17º edição do Festival de Teatro de Curitiba
Diversas ligações e recados foram feitos para achar uma brecha na agenda movimentada do diretor geral Leandro Knopfholz para falar sobre a manifestação artística que vai invadir a capital paranaense.
Em este mês de março, mais precisamente entre os dias 20 e 30, vai acontecer o 17º Festival de Teatro de Curitiba.
Diversos atores, vindo de outros estados e até mesmo de fora do país, pedem licença ao público para representar seus papéis em diversos espaços espalhados por a cidade.
E as expectativas são as melhores, já que este evento se consagrou como uma importante manifestação cultural em Curitiba.
«Tudo o que queremos é reunir o maior número de pessoas que possam prestigiar a arte cênica que acontece por aqui», comenta o diretor.
Os «tropeços» para fazer um evento deste porte, Leandro não pensa muito, a reposta está na ponta da língua.
«O difícil é dar continuidade no evento que há tantos anos está ativo na cidade.
Sem contar patrocínio, sincronizar toda uma equipe e etc».
Com o esforço de pessoas que trabalham em sintonia para que nestes dez dias de espetáculos tudo aconteça de maneira planejada, um fator tem chamado a atenção destes profissionais envolvidos:
o público está mais atento ao que acontece em cima dos palcos e até mesmo nas ruas de Curitiba.
«A cada ano percebemos que mais pessoas estão indo assistir as peças.
Está ampliando e isso é ótimo», revela Leandro.
Tanto é que tem espetáculos que já estão com ingressos esgotados antes mesmo do festival começar.
E por falar em peças teatrais, o público pode escolher a vontade qual que mais lhe agrada:
tem drama, comédia, musical, suspense, romance divididos na «Mostra de Teatro Contemporâneo» (grandes produções) e o «Fringe» (pequenas produções).
É a efervescência cultural pra ninguém deixar de assistir a um desses espetáculos.
Desde 1992 fazendo arte em Curitiba, o festival se espalha por a cidade através de salas de teatro, ruas, parques e onde tiver um espaço para os atores encontrar o público que prestigia as peças quando as cortinas se abrirem.
Mas para você, caro leitor, que acha que quando chegar dia 31 de março as atividades vão acabar para Leandro e sua equipe, você está redondamente enganado.
«Termina um festival e já estamos pensando no próximo», revela o diretor.
Algumas dicas de peças:
Para quem quer dar muita risada, o grupo Antropofocus é diversão garantida:
«Pequenas Caquinhas «e» Amores e Sacanagens Urbanas» são exemplos para boas gargalhadas que tem como inspiração a vida corriqueira de todos nós.
Já «Noël» é um musical inspirado na obra de Noel Rosa.
Mais informações e roteiro de peças de teatro você encontra no site:
www.festivaldecuritiba.com.br * crédito da foto:
Número de frases: 27
Milena Miziara Desde a invenção da contra-cultura, o chamado espírito jovem é um dos principais combustíveis que movimentam o motor de cada uma das suas diferentes manifestações.
Este sentimento abstrato, porém de fácil entendimento, esteve presente entre os Beatniks, os Hippies e os Punks.
Ora inflamado por a negação de valores que identificavam uma classe média em ascendência, ora questionando e tentando subverter o cotidiano da classe proletária.
Cada movimento contra-cultural apresenta propostas de novas práticas e comportamentos que, num primeiro momento, circulam entre o grupo restrito e gradualmente invadem o corpo social como um todo.
Essas práticas, que em algum momento estiveram relacionadas a pura subversão, acabam fundando novas tradições.
Não existe um controle formal sobre os rumos destas idéias.
Elas circulam livremente, arrebatando corações e mentes por o mundo afora.
Quem poderia imaginar que o Punk inglês atravessaria o Atlântico e iria encontrar terreno fértil em São Paulo?
Pois é, desde o início dos anos oitenta existe uma cena Punk / Hard core por lá.
Essa cultura acabou se desenvolvendo, se fragmentando, se realimentando e, nesse processo, criando diferentes sub-produtos.
Um destes filhotes do Punk é o Straight-edge, e foi a partir da organização da cena Straight-edge de São Paulo que nasceu a Verdurada.
Faça você mesmo!
Quem chega ao galpão do Jabaquara, bairro da Zona Sul de São Paulo, num domingo de Verdurada talvez nem tenha idéia de como toda essa história começou.
A imagem atual do evento é a de um galpão lotado, com centenas de pessoas espremidas próximas a um palco baixo.
Diferentes bandas, a grande maioria de Hard core, fazem suas apresentações enquanto a molecada desafia a própria elasticidade e a resistência dos corpos alheios.
É uma cena forte, que aos desavisados pode remeter á idéia de barbárie e violência, mas que não passa de um tipo de dança coletiva.
Uma confraternização que teve início a mais de uma década, quando nascia a idéia da Verdurada.
Em aquela época os amigos se reuniam na Casinha, literalmente uma casa, espaço próximo ao galpão onde o evento acontece atualmente.
A coisa toda era bem diferente, como me explicou André Mesquita, membro do coletivo desde 99: " Essa historia começou em 1993, 94, quando rolava Verdurada na casa do Kalota e de outras pessoas.
Era show para um público de 20, 30 pessoas.
Outra época, outro «clima» também.
Mas acho que hoje é melhor, não sou saudosista».
Melhor ou não, o fato é que a Verdurada realmente mudou bastante.
A organização do coletivo fez com que esse monstro crescesse bastante e alcançasse hoje o patamar de maior evento Faça você mesmo do Brasil.
Esse crescimento aconteu de maneira gradual, mas foi percebido especialmente em 2001: " quando teve o show do MDC no galpão do Jabaquara.
Como não tinha a facilidade da internet a gente fazia muita divulgação por a rua, com cartaz».
Mais do que um show independente ou alternativo, a Verdurada se concretiza como um evento calcado na postura do Faça você mesmo!
O festival não é organizado por uma produtora, mas sim por um coletivo que é dinâmico e não visa lucro.
André me contou sua visão particular sobre esse processo:
«A Verdurada existe pra afirmar que é possível fazer um show 100 % DIY (De o it Yourself -- Faça você mesmo) e também pra criar um espaço de discussão de assuntos que o coletivo acha relevante.
E não são apenas causas ligadas ao veganismo.
Mas refletimos sobre questões como presos políticos, homofobia, copyleft».
Punks vegetarianos que dizem não as drogas
Não é por acaso que o festival tem o nome de Verdurada.
A idéia inicial era a de realizar uma festa com shows de Hard core para, entre outros aspectos, difundir a cultura do veganismo (prática alimentar relacionada ao vegetarianismo).
Todas estas idéias giravam em torno da cultura Punk e, principalmente, de um estilo de vida conhecido como Straight-edge (o termo também é encontrado como a sigla SXE).
O SXE nasceu quando alguns membros de bandas Punks decidiram não usar mais nenhum tipo de drogas, licitas ou ilícitas.
Tudo aconteceu muito por acaso.
Em a época, os bares de Washington, cidade com efervescente cena Hard core, marcavam as mãos dos menores de idade com um X.
O código permitia que os menores entrassem nas casas e evitava que eles consumissem bebidas alcoólicas.
Os Punk maiores de idade que não bebiam decidiram adotar o X como símbolo de sua postura, ironizando com toda a situação.
Uma destas bandas, o Minor Threat, compôs uma música chamada Straight-edge.
Em a letra o autor cantava versos que diziam:
«Eu sou uma pessoa como você / Mas tenho coisas melhores para fazer / Do que ficar sentado e fumar maconha / Porque sei que posso lidar com a vida / Rio de pensar em tomar tranqüilizantes / Rio de pensar em cheirar cola / Eu tenho o Straight-edge!».
Nascia assim esse novo estilo de vida que, com o tempo, se transformaria no SXE.
Com a popularização o SXE passou a ser apropriado e repensado de acordo com a realidade de cada local.
Uma das transformações mais significativas diz respeito ao vegetarianismo.
O não uso de drogas e o cuidado com o corpo alcançou também os aspectos da alimentação.
Em este ponto a influência aconteceu a partir de bandas como o Shelter, que alcançou grande popularidade mesmo fora do Hard core, e tinha membros ligados à espiritualidade Hare-Krishna.
Além disso, a luta por os direitos dos animais (a chamada Libertação Animal) ganhou muita força dentro do SXE.
A mistura de todo esse caldo cultural é o fermento que fez crescer o bolo da Verdurada.
Além da dinâmica comum dos shows o evento propõe novas formas de socialização que nasceram a partir de demandas dos próprios SXE, a explicação de André nos ajuda a entender:
«Você tem uma banda e quer um espaço pra tocar.
Em Sampa as bandas tocam nesses lugares, tipo os que tem na Augusta, o show começa meia noite, 1h da manhã.
Antigamente ninguém tinha carro, acabava o show e você tinha que esperar o buzão.
Fora isso a banda não ganha cachê e você volta para a casa fedendo a cigarro».
Foi pensando nesses problemas que o coletivo instituiu o horário dos shows para que todos pudessem se servir do transporte público.
Houve uma época em que chegar no evento de bicicleta garantia o desconto de R$ 1 no ingresso.
Além disso, o coletivo pede para que não se consuma álcool ou cigarros no interior do galpão:
«Já teve gente que quis entrar bebendo só pra arrumar confusão, mas isso aconteceu poucas vezes.
Quando é cigarro, alguém do coletivo sempre pede para a pessoa fumar lá fora».
Será que essas restrições não acabam afastando o público?
«Algumas pessoas reclamam, dizem que não é uma coisa «democrática», mas isso é besteira.
Primeiro, o show é independente e a censura é livre.
Pra vender bebida você precisa de um alvará e só deve vender pra maiores de 18.
Segundo, fumar num galpão fechado, com 800 pessoas.
Isso que não me parece muito democrático».
Essas questões indicam que o público da Verdurada não se resume ao SXE.
Apesar da trilha-sonora ser preferencialmente hard core, grupos de outros estilos são convidados para se apresentar no evento: "
É bom chamar bandas de hip-hop, thrash, grupos como Hurtmold.
Essa relação é bem positiva, eu queria que rolasse mais isso.
Se forem só bandas de Hard core acaba ficando chato.
É uma coisa que o coletivo sempre discute:
tem que variar».
Trocando uma idéia de barriga cheia
Muito mais que um simples show de música, a Verdurada é um momento de catarse de idéias.
A percepção mais óbvia deste caos é expressa por as performances das bandas, incluindo aqui a participação do público.
Em a dinâmica destes shows o mosh-pit, o espaço utilizado para a dança, é fundamental para a proposta de interação entre os músicos e a platéia.
Este vídeo do D.E.R ajuda a entender do que eu estou falando.
Além de dançar, a rapaziada que vai ao galpão do Jabaquara também fica de olhos e ouvidos atentos nos vídeos que são exibidos e nas palestras apresentadas no festival.
O coletivo entende a palestra como um dos diferenciais do evento, André explica:
«Confesso que a parte musical é a que menos me interessa, eu gosto de pensar no evento como um espaço de discussão e de encontro.
Geralmente alguém chega com algum tema, daí a gente pensa a palestra».
Chega a ser curioso o momento que aquela molecada do mosh-pit para, senta, assiste ao vídeo e troca uma idéia no debate.
André completa:
«shows de Punk e Hard core já existem por aí.
Cada um do seu jeito, uns mais outros menos independentes.
Onde a Verdurada pode fazer algo diferente e interessante nesse sentido?
As palestras podem ajudar nisso.
Em a edição mais recente da Verdurada a palestra foi sobre aborto, com a exibição do vídeo Clandestinas -- O Aborto no Brasil (direção de Ana Carolina Fareleiros Camargo Moreno).
O debate ficou por conta de duas meninas da organização Marcha Mundial de Mulheres.
Geralmente as palestras acontecem lá por as 20h, antes dos dois shows que fecham a noite.
Quando a última banda insinua o final da apresentação, o público se apressa e forma uma fila gigantesca.
É hora da distribuição do jantar.
A fila se auto-organiza democraticamente.
Gente do coletivo, músicos que tocaram na noite, público, todo mundo respeita a ordem da fila.
O jantar é um dos momentos mais concorridos do evento.
Também pudera, a comida é muito bem temperada, preparada por o Lila (que faz parte do grupo Alimentos para vida com a ajuda de voluntários.
Se grande parte do público não é SXE, a maioria também não é de vegetarianos.
Uma das conquistas da Verdurada é conseguir colocar o vegetarianismo como tema presente no universo do Punk / Hard core.
Entre uma garfada e outra um Punk, completo desconhecido, aparentando ter mais de quarenta anos comentou com mim:
«Mas não é que essa comida dos caras é boa mesmo?».
De dentro pra fora do SXE a Verdurada se afirma como parte da história recente da contra-cultura no Brasil.
É um evento com propósito bem definido, mas que, vez por outra, expande sua abrangência, conquista novos espaços e promove encontros inusitados.
A manutenção de bons shows, sempre de casa cheia, chama atenção e gera a questão:
qual é o segredo da Verdurada?
André conclui:
«Em a verdade é simples.
Cobramos um preço justo no show (R$ 7), oferecemos o rango vegetariano, a palestra.
A gente criou um outro circuito.
É uma outra proposta».
Agradecimentos a:
Número de frases: 112
André (os dois), Dani, Juninho e Daigo.
A corda [sempre] arrebenta do lado mais fraco.
Moradores das proximidades do local, onde caiu o avião da Bahia Táxi Aéreo, contendo mais de R$ 5 milhões, estão sofrendo as conseqüências da infeliz sorte.
Não bastassem os supostos policiais que tiraram uma parte do dinheiro das mãos de alguns [conforme relatou um rapaz na TV], agora, temem a chegada de grupos armados em busca de uma «ponta».
Uma fazenda foi invadida e assaltada.
Os bandidos levaram a televisão, jóias, o rádio e até uma espingarda, conforme matéria do A Tarde On-line, neste sábado.
O dinheirão motiva diversos debates nas rodas de amigos, no trabalho e na rua.
O dialogo é mais ou menos assim.
-- E aí, o que você faria se estivesse próximo ao local do acidente?
-- Oxi, pegaria logo um bolinho daquele pra mim.
Ou então:
-- Rapaz, você viu o bolão de dinheiro?
-- e não vi não foi.
-- Os caras estão devolvendo o que pegaram.
Devem estar com medo de represálias.
-- Que porra nenhuma, eles são é burros.
Aaah eu lá, queria ver eu devolver.
Entocava logo um bolo daqueles.
Um bolo daqueles ...
um só meu deus.
Outras formas de relatar o assunto aparecem, mudam-se as palavras, permanece o teor.
Ninguém sequer lembra que morreram três pessoas.
Talvez, apenas os familiares.
Em o BUZÚ, Sábado à Tarde.
O ônibus é da empresa Dois de Julho.
A linha:
Terminal da França -- Vila de Abrantes [número 047].
Sentido Abrantes, por volta das 17h.
Estava com a minha meninota.
Íamos devolver uns filmes alugados no Shopping Estrada do Côco.
Ela pediu para mudarmos para a cadeira alta, com braço.
Antes de alcançarmos a cadeira, outra menina apressadamente sentou.
Resolvi sentar no penúltimo banco, lá atrás.
Acredito que o rapaz tinha descido a pouco, no primeiro ponto da Avenida Dorival Caymmi.
Quando vi o dinheiro, junto com a ' pata-pata ' [aquele pente para cabelo crespo], não havia como devolvê-lo.
Devia ter mais de R$ 50, não contei.
Uma nota de vinte, algumas de dez e uma de cinco.
Senti um frio na barriga.
Antes que qualquer pensamento maligno aparecesse em minha cabeça, levantei-me e entreguei tudo ao cobrador. [
Algum passageiro deixou cair isso aqui].
Troquei de lugar, sentei atrás do vidro, de frente para o lado da cadeira de ele.
Percebi quando ele -- cabelos pretos e óculos arredondados -- colocou o dinheiro na sacola.
Muitos vão me condenar por não ter ficado com a grana.
No entanto, prefiro os poucos que entenderão minha atitude.
Esse dinheiro não me deixaria mais rico, não pagaria minhas dívidas, não me traria felicidade.
Já perdi dinheiro [muito mais do que tinha ali], sei como é ruim, doloroso, angustiante.
Sei que não vou mudar o mundo [sou apenas um beija-flor apagando incêndios com gotículas de água], mas, não quero me render a ele.
Não quero ser cúmplice desse mundo, dessa humanidade perdida, desse sistema escroto.
Quero viver fazendo o bem.
Quero ir melhorando a cada instante, corrigindo minhas imperfeições.
Quero me livrar dessa materialidade doentia.
Número de frases: 51
Preciso da sua ajuda.
Está por aí, nas ruas de Porto Alegre.
Em postes, muros, tapumes.
Os lugares variam, mas a marca deixada é a mesma:
Upgrade do Macaco, um coletivo que vem tornando o espaço urbano da capital bem mais artístico.
Formado no final de 2002 por o Emerson Pingarilho e por o Guilherme Pilla, não chega a ser um grupo fechado, variando de acordo com as pessoas que participam dos projetos.
Como na descrição do Pingarilho escrita no site de eles, «não se trata de um organismo, grupo ou instituição, trata-se de um coletivo, pessoas que possuem afinidades intensas».
E essas afinidades levaram o coletivo a, além das ruas, mostrar o trabalho também em vários espaços culturais da cidade.
Em estes quase três anos de atividades, muita coisa legal já foi feita.
Vejamos.
Em a rua
Passar por alguns viadutos em Porto Alegre significa cruzar com intervenções do Upgrade do Macaco.
É comum o encontro com desenhos e pinturas, principalmente nas zonas mais centrais.
Gente como a Carla Barth, o Emerson Pingarilho, o Ednilson Rosa (Tinico), o Luis Flávio (Trampo), o Guilherme Pilla, o Geraldo Tavares e o Bruno 9 li já deixaram -- e deixam -- marcas por a cidade.
Assim a arte faz um caminho ao encontro da população, que não precisa se deslocar até galerias (espaços que muitos nunca entraram) pra conhecer as manifestações do coletivo.
Ou mesmo interferir.
Muitas das intervenções feitas em muros aparecem com pichações, por exemplo.
Mas esse é o preço de uma arte pensada pra espaços públicos.
«Assim que terminamos uma colagem ou uma pintura na rua não pensamos em quanto tempo vai durar ou se daqui a alguns dias alguém pode cobrir essa informação com tinta ou outro cartaz», diz o Bruno 9 li.
«Simplesmente praticamos nosso trabalho no ardor do momento e damos as costas pra ele, pra que ele cumpra a sua função de existir, se transformar e acabar».
Ou seja, o trabalho deixa de pertencer aos criadores.
E segue o Bruno:
«Vendo desse ponto de vista, podemos entender o nosso papel como uma espécie de xamãs da sociedade hipermoderna e o fato de que essas ações contribuem para o combate à opressão social fica evidente».
Entre paredes
Mas não é só na rua que o Upgrade do Macaco ataca.
Vários integrantes já mostraram os seus trabalhos em galerias e outros espaços do gênero, como o Museu do Trabalho, que abrigou uma exposição individual de pinturas do Guilherme Pilla, A Nave Nouveau, e o Espaço Mojo, com a exibição de pinturas e vídeo do Bruno 9 li, intitulada Sobre Porcos, Macacos e Astronautas.
Em o Instituto Goethe, a experiência foi bem curiosa:
os artistas fizeram um work in progress chamado Desconstruindo Gigantes, com a montagem da exposição sendo feita ao mesmo tempo em que ela era exibida ao público.
Além disso, na última Feira do Livro de Porto Alegre, em 2005, o coletivo foi convidado a pintar um painel para a sala Casa do Pensamento, no Cais do Porto.
A pintura coletiva foi feita em três dias, durante as tardes.
Um trabalho envolvendo a criação de cenário pra teatro também foi realizado por o grupo.
É a obra Medusa de Rayban, feita para a peça homônima, escrita por o Mário Bortolotto e dirigida por o Roberto Oliveira.
Por a rede
Outra forma de expressão do Upgrade do Macaco aparece através da revista Busca, uma ' publicação-arte ' focada em imagens e pioneira em street art.
Em a primeira edição o tema foi basicamente a própria street art.
Já no segundo número a proposta foi unwearable art, quando artistas não ligados à moda criaram peças de roupas que não pudessem ser usadas.
A primeira edição foi impressa, mas depois a Busca virou uma revista digital na web, e pode ser vista nesse endereço.
Lá dá pra folhear as páginas da terceira edição, que tem uma entrevista interessante com o pensador francês Gilles Lipovetsky.
Os números anteriores também podem ser lidos na página, pois como o próprio site da revista diz, «a Busca se encaminha um passo adiante -- rumo ao inconsciente coletivo digital».
Um espaço que permite tantas possibilidades de intervenção como a internet só podia mesmo ser uma alternativa pra dar segmento ao trabalho urgente do coletivo.
E essa urgência fica ainda mais clara nas palavras do Bruno:
«Para os integrantes do coletivo, arte é igual a tempo.
Com isso, estamos considerando que, no nosso dia-a-dia do vai-e-vem urbano, se conseguirmos compreender nossa existência como uma passagem divina por esse planeta, conseguimos vivenciar nossos dias de uma forma mais leve e menos dolorida.
Número de frases: 43
Compreendemos a efemeridade das coisas morrendo para o passado e vivendo cada segundo, porque a vida é agora».
São Paulo é uma cidade muito feia.
Dizem. Quem liga para isso?
Quem liga para as calçadas esburacadas, os lixos escancarados, obras horrendamente inacabadas, tapumes descascados?
Quem liga para os acampamentos provisórios, para a gatolândia de fios, para os canteiros favelizados?
Ninguém está nem aí porque é provisório, «em construção».
São Paulo é assim, nunca acaba.
E o paulistano parece não se incomodar com esse «deixa pra depois», para o próximo infeliz que se incomodar.
Mas claro, depois reclamam que é feia a cidade.
Reclamam do Minhocão, do Borba Gato, do neoclassicismo burguês, do foguete rosa da Pedroso de Morais, da melancia da Avenida Brigadeiro Luis Antonio, do abrigo da Patriarca.
Mas o que é precisamente horrendo é o inacabado ou mal-acabado.
Porque até o fora de moda, o cafona, o desproporcional, o chupado, o sem noção, é melhor do que o acampamento no qual vivemos.
Um dia o teatro Municipal foi démodé;
hoje é ícone.
O Pacaembu foi arquitetura fascista;
hoje é sobriamente belo.
Os casarões da avenida Brasil foram novo-riquismo;
hoje são nossa avenue Foch.
E nessa Dresden pós bombardeio, respiramos em ilhas de tranqüilidade:
nos Jardins, na Aclimação, no Alto da Boa Vista, na Vila Nova Conceição.
Não tem nada de genuinamente belo -- se é que esse conceito existe -- nesses oásis.
O que existe sim é organização, esmero, carinho.
O que falta aqui é uma lei de zoneamento do temporário.
Uma lei de manutenção e limpeza.
Uma lei do acabamento.
E para disfarçar a falta de vergonha, vem essa polêmica discussão sobre a proibição radical de qualquer mídia exterior na cidade.
De um lado os probos e conscientes administradores públicos a empunhar argumentos demagógicos.
De outro os empresários desse negócio a defender hipócritos argumentos.
Tenho dó de imaginar São Paulo sem o disfarce da mídia exterior.
Até prefiro uma empena gigante de uma morenaça de biquíni a um muro descascado.
Prefiro um tapume de aparelho celular a um gradil caindo aos pedaços.
Prefiro uma série de outdoor a uma medonha obra inacabada.
Pelo menos disfarça a lepra e o descaso.
Número de frases: 33
Apesar de termos notícias de japoneses habitando o Brasil antes de 1908, foi a chegada do navio japonês Kasato Maru ao porto de Santos que marcou o início da imigração japonesa ao Brasil.
A abolição da escravatura, levou a um período de necessidade de mão-de-obra barata nas lavouras brasileiras.
Já o Japão passava por uma intensa crise econômica causada por o alto investimento militar para garantir as mudanças impostas por o imperador Meiji.
Era, portanto, um país com abundância de trabalho e escassez de mão-de-obra e outro à beira do colapso e com excedente populacional.
Sendo assim, os acordos entre os dois países começaram a ser discutidos ainda no final do século XIX e em 1892 já era permitida a entrada de japoneses no país.
Porém, foram mais de 15 anos para que a primeira leva chegasse trazendo lavradores das regiões mais empobrecidas do Japão que vinham em busca de trabalho temporário com o qual pudessem juntar algum dinheiro e retornar para os seus lares.
Historiadores costumam dividir a imigração japonesa para o Brasil em quatro grandes períodos:
1908 -- 1923, quando a grande massa de trabalhadores foi suprir de mão-de-obra as grandes lavouras cafeeiras, principalmente de São Paulo;
1924 -- 1941, período no qual os trabalhadores começaram a fazer parte de projetos de colonização, em especial do noroeste do estado de São Paulo e do norte do Paraná;
1941 -- 1950, época em que os japoneses já eram numerosos, inclusive em áreas urbanas, e sofreram as consequências da participação do Japão na Segunda Guerra Mundial;
e, finalmente, o período de 1951 até os dias atuais, que se caracteriza por a assimilação dos imigrantes na sociedade brasileira e por a formação de colônias em áreas de fronteira agrícola como a Amazônia.
Alguns estudiosos ainda destacam como um período independente o chamado movimento dekassegui, que teve seu início no limiar dos anos 90, quando os primeiros brasileiros naturalizados (issei) e descendentes de primeira geração (nissei) partiram para o Japão em busca de trabalho nas indústrias e fugindo da crise econômica brasileira.
Triagem e escravidão por dívida
Em o primeiro período, os grupos vinham do Japão por o porto de Kobe e desembarcavam em Santos.
Em ambas as cidades, haviam centros de triagem de migrantes.
Em Kobe, era o Kobe Ijuu Center (Centro de Imigração de Kobe) e em Santos, a Hospedaria dos Imigrantes.
Ambos os prédios são considerados atualmente de alto valor histórico.
Candidatos vinham de várias áreas do Japão, em especial de províncias menos desenvolvidas.
Chegando no Kobe Ijuu Center, eles eram examinados e aqueles considerados aptos recebiam instruções básicas e autorização para a viagem.
Já no Brasil, após a triagem na Hospedaria dos Imigrantes, os grupos eram enviados para as fazendas de café.
Quanto à viagem, o governo do Estado de São Paulo arcava com 50 % das despesas.
A parte restante era financiada por os proprietários de terra que deduziam o valor do salário dos trabalhadores.
De acordo com os relatos, a grande maioria dos imigrantes sofriam escravidão por dívida, ou seja, o valor da passagem e de outras despesas era superfaturado de modo que era quase impossível de ser pago.
Como faziam os escravos, muitos decidiam fugir das fazendas.
A situação se tornou desconfortável ao ponto do governo japonês apelar junto ao brasileiro por condições mais humanas de trabalho.
Os registros apontam que 32.266 japoneses chegaram no Brasil até 1923.
Campeões de produtividade
Em o segundo período, com o suporte do governo federal e de alguns governos provinciais do Japão, foram montadas companhias colonizadoras que compravam terras e as revendiam para os imigrantes japoneses.
Foi o início da pequena produção familiar que levou os japoneses e seus descendentes ao posto de responsáveis por a produção de alimentos no Brasil.
Em 1935, o governo brasileiro declarou que os japoneses eram responsáveis por 70 % da produção agrícola do país.
Em essa época, também, ganharam impulso os movimentos anti-nipônicos no país.
A Constituição de 1934 já apontava para o estabelecimento de cotas limitando a entrada de asiáticos no Brasil.
O debate sobre o tema foi acirrado.
Os contrários à presença de japoneses no país, usavam como argumentos o imperialismo do Japão (que em 1931, invadira a Manchúria e dava início a uma série de atitudes belicistas) e a «não-assimila ção» de seus nacionais por a sociedade brasileira.
Havia, ainda, grupos que diziam que os japoneses roubavam o trabalho dos brasileiros, devido à sua imensa capacidade de trabalhar.
Aqueles que eram a favor argumentavam que a agricultura brasileira era, naquele momento, totalmente dependente do trabalho destes imigrantes e, portanto, bani-los seria, também, por fim à produção de alimentos para o mercado interno.
Lealdade ao imperador ou morte
Em 1938, o governo Vargas iniciou uma série de políticas que atingiram em cheio os imigrantes, em especial, os oriundos do Japão e da Alemanha, países tornados inimigos quando o Brasil pendeu para o lado dos Estados Unidos na guerra.
Escolas japonesas foram fechadas, jornais e livros japoneses deixaram de circular.
Por razões óbvias, cidadãos dos dois países foram proibidos de entrar no Brasil.
A reação também não tardou.
Uma das mais fortes veio da organização Shindo Renmei, que declarava lealdade ao imperador japonês.
Formado em 1944, o grupo acreditava que as notícias que levavam a crer que o Japão seria derrotado não passavam de propaganda.
A o final da guerra, a comunidade nipônica no Brasil estava dividida em dois grupos:
o makegumi ou derrotistas e o kachigumi ou vitoristas.
A Shindo Renmei organizou vários atentados contra o grupo rival e, no período entre fevereiro de 1946 e janeiro de 1947, 23 pessoas foram mortas e 126 feridas por acreditarem no fim da guerra e na rendição do Japão.
A retomada
A partir do ano de 1950, a imigração de japoneses ao Brasil foi retomada.
Novas áreas começaram a receber japoneses, entre elas a Amazônia.
Foi, também, a partir deste período, que os descendentes começaram a ser assimilados na sociedade brasileira.
Até então, a resistência vinha de ambos lados.
Os considerados «típicos» brasileiros não reconheciam os descendentes nipônicos no mito das três raças fundadoras do país.
Os japoneses, por sua vez, ainda cultivavam o sonho de retorno e procuravam manter seu próprio mito de identidade monoética.
Porém, com o fim da segregação provocada por a guerra, a prosperidade atingida não somente na lavoura, mas em negócios étnicos e o sucesso acadêmico de seus descendentes, os japoneses passaram a ser vistos como uma minoria positiva.
O número de casamentos interétnicos também cresceu, a despeito dos que ainda consideravam a necessidade da manutenção da unidade racial da colônia.
O preconceito contra os ainoko (" filhos do amor «ou, em bom português,» filhos da carne», nome que era dado aos mestiços) de algum modo perdurava, mas foi lentamente diminuindo com as gerações.
Um balanço final
Segundo o consulado japonês no Rio de Janeiro, cerca de 200 mil japoneses aportaram em terras brasileiras.
Eles e seus descendentes somam, atualmente, mais de 1.500.000 brasileiros que vivem em várias regiões do país e constituem a maior comunidade nipônica fora do Japão.
Estima-se que, deste grupo, cerca de 300 mil vivam atualmente na terra de seus antepassados ou em movimentos pendulares entre os dois países.
É o chamado «movimento dekassegui», fruto da crise econômica e social brasileira e da falta de mão-de-obra que afeta o Japão.
Hoje, os nikkei (descendentes de japoneses) sofrem no país de seus ancestrais o mesmo que estes viveram quando chegaram ao Brasil.
Mas, esse é assunto para uma outra colaboração.
Número de frases: 63
Se algum dia pretende visitar o futurístico Epcot Center, faça uma parada no Projeto Vênus.
Em um brejo próximo à cidade de mesmo nome está o protótipo da sociedade do amanhã, ao menos como enxerga Jacque Fresco, idealista, futurólogo, engenheiro, cientista social, autor, cientista, designer, entre outras atividades, fundador da Future By Design.
Para variar, entrei na sala de cinema esperando uma coisa e acabei vendo outra.
Imaginei que o documentário seria um apanhado do trabalho e propostas de designers, quando na verdade é a proposta de um única e definitivo designer.
Como um estudante dessa disciplina sempre a entendi como um apanhado de várias bases de conhecimento, uma metodologia para harmonizar diversos aspectos e atingir uma forma final ideal.
E resumindo é exatamente o que Fresco realiza, mas em escala global.
Fresco vai além da produção de banheiros e carros, ele enxerga cada peça que produz como parte de um quebra cabeças cujo propósito é remodelar nossa sociedade para que a humanidade possa entrar em harmonia com si mesma e com o planeta inteiro.
William Gazecki nos leva por uma passeio na espécie de comuna high-tech em que Fresco vive.
O filme resume-se em basicamente relatar alguns pontos da trajetória do designer, e apresentar suas propostas de um futuro melhor para a humanidade.
Simples, o filme é bem acabado, com animações de alguns projetos e material de arquivo para ilustrar momentos históricos importantes.
A parte que deixa muito a desejar é a trilha sonora, que parece saída de vídeos institucionais de projetos imobiliários estilo Alphaville.
Fresco apresenta-se como uma figura simpática, definitivamente sonhadora, mas com uma incrível clareza de visão e muitas propostas sérias e concretas, mesmo que muito improváveis de ser realizadas.
Com 90 anos e produzindo desde os 14, o momento de maior arrogância que ele demonstra é quando parece dizer que Einstein pensava pequeno, enquanto relata sua conversa com o mesmo aos 16 anos.
Número de frases: 13
Mundão
VÉIO Sem Porteira
Xenofobia e sexo dos anjos» ...
obviamente o Overmundo não advoga um nacionalismo retrógrado e isolacionista, nem é contra -- por exemplo -- debates mais estritamente políticos ou sobre a produção cultural internacional "
Hermano Vianna-Observatório do Overmundo -- 4/2/2007 18:49
Começou assim, com esta defesa algo enfática no Overmundo diante de alguma inusitada acusação de xenofobia.
A conversa no Observatório do site, ainda restrita a alguns poucos adeptos da discussão, escorregou naturalmente para temas afins entre os quais, a esta altura de uma conversa que promete ser longa, dois se destacam:
A já mui citada Xenofobia e o que poderíamos chamar de Xenomania, palavra improvisada para um tema que não ousa dizer seu nome, evitado como uma espécie de tabu e que aparece ainda cifrado na maioria das conversas sobre cultura brasileira:
A aculturação.
A conversa no fórum anda bem, mas há sempre o risco de se mergulhar naquela velha discussão de 1922: Tupi or not Tupi?
Seria o velho maniqueísmo simplista de sempre, querendo dar as caras?
Estaríamos mesmo divididos entre os que são, de um lado, supostamente ingênuos defensores da pureza imaculada do folklore nacional e, de outro, aqueles moderninhos que consideram tudo na cultura brasileira lixo subdesenvolvido, que o Brasil precisa mesmo é de um up grade, um bom banho de civilização primeiro mundista?
Menos! Menos!
É preciso urgentemente relativizar, rapaziada!
É para ajudar a desarmar esta triste arapuca que mando este meu franco e emocionado post.
Posso começar dizendo que aquele papo antigo de ' união entre três raças tristes ', sugerido num dos comentários do fórum, precisa ser definitivamente superado.
O que ocorreu aqui, no Brasil, não foi exatamente um congraçamento harmônico e feliz entre índios, africanos, europeus, árabes e outras galeras.
Temos agora mesmo no Rio de Janeiro, comunidades inteiras sendo enclausuradas em guetos urbanos, dominados por ' milícias '.
Houve na nossa história a submissão por a força bruta e o seqüestro de populações inteiras, massacres bárbaros;
houve o exílio de muitos dos que vieram para cá em fuga de conflitos externos, do mesmo modo bárbaros (vieram também uns em maior número do que outros, o que é um fator crucial para se configurar a Cultura de um lugar).
De esquisito mesmo só o fato deste caldeirão fervente, esta quizumba sem tamanho, ter dado num país tão culturalmente integrado quanto é o Brasil.
Seriam os bons frutos da diversidade?
..." É um país onde as crianças gostam de anime e jogam Playstation, ouvem samba e música eletrônica, comem mandioca e sushi no mesmo dia, e assistem programas estadunidenses na TV a cabo "
Polemizando com o mesmo comentário do observatório (citado acima), enfatizo que, infelizmente, esta é a realidade de uma ínfima minoria de nossas crianças (aliás, o comentário toca num ponto crucial à nossa discussão quando define o perfil do que seria a criança padrão do Brasil: aquelas que comem sushi e tem TV à cabo).
Mesmo que não tenha sido exatamente isto o que se tenha querido dizer, acho que faria muito bem ao Overmundo manter este aspecto do papo na roda, sem omiti-lo (como seria de melhor tom à proverbial cordialidade aparente de nossas relações sociais).
Por que não?
Se bem lembrarmos, plena de hipocrisia, a prática da Xenofobia sempre serviu mesmo foi como pretexto para justificar insidiosas manobras anti-democráticas.
Remember a função espúria desta prática no contexto do Nacional Socialismo alemão da década de 40, do Estado Novo Getulista, da Revolução Cultural de Mao Tse Tung e por aí vai.
Mas não se esqueçam porém de buscar a mesma hipocrisia -- mais contida e melhor camuflada mas, também ali, presente -- por exemplo, na intensa campanha feita por o congresso norte americano nesta mesma década de 40 (pré segunda guerra mundial) quando, apavorados com a suposta influência das idéias alemãs sobre o governo Getúlio Vargas, os congressistas ' yanques ` instituíram a chamada ' Política de boa vizinhança ', caracterizada, no campo da cultura, por o envio de missões culturais ao Brasil e por a arregimentação de intelectuais brasileiros como adeptos, eventualmente interessados em difundir os ideais do ' American Way of live ' por estas bandas.
Mui amigos.
Não seriam Ary Barroso, Carmem Miranda (disseram na época que ela voltou americanizada), Zé Carioca, e outros bambas, de algum modo, signos desta suposta Xenomania insuflada por interesses geopolíticos na alma de tantos artistas destes nossos Estados Unidos do Brasil?
Mas precisamos sempre relativizar porque foram muitas as vantagens que obtivemos desta troca de interesses.
Sem muito esforço poderíamos citar por exemplo, as jóias da pesquisa etnomusicológica que nos legaram esta ' política da boa vizinhança '.
Já se falou aqui neste Overmundo:
Luiz Heitor Correa de Azevedo, nosso grande etnólogo realizou com apoio norte-americano um inestimável registro da música do Brasil mais profundo.
Em o mesmo âmbito diplomático a época é também da viagem do maestro Leopold Stokowski (autor das trilhas sonoras para Walt Disney, pai do Zé Carioca) que, auxiliado por Villa Lobos e Ernesto dos Santos, o nosso Donga, fez exatamente em 1940, um antológico registro da obra de Pixinguinha, do mesmo Donga, de Cartola e outros, no navio-estúdio U.S. Uruguay, ancorado no porto do Rio (o disco é o'Native Dance'da Colúmbia records e a história pode ser lida por inteiro em http://daniv.blogspot.com).
E o que dizer da suposta e propalada adesão do mesmo Heitor Villa Lobos aos ideais pró nazistas do Estado Novo?
Xenomaníaco entreguista?
Xenófobo nacionalista?
Ah ... qual o quê.
Por tudo isto, acho que definir a cultura característica de um país não é uma tarefa tão difícil assim, mesmo com a velocidade absurda das mídias de hoje (um pretexto tipicamente ' xenomaníaco ').
Os processos são, limitadamente, humanos e logo, muito recorrentes.
O Espaço, o âmbito das trocas culturais é sempre este nosso velho e alquebrado mundo.
O que muda é o Tempo.
Agora é a internet, os quase instantâneos downloads de arquivos MP3, antes eram os livros e as partituras chegadas, meses e meses depois de enviadas, num navio.
O fato é que, de um modo ou de outro, inevitavelmente, a ' Polska ` e o'Shotisches ' (como o Funk, como Drum ' n bass e sabe-se lá o que mais) chegariam ao Brasil.
De um modo ou de outro, a classe musical local predominante (naquela época músicos negros, com fortes ' vícios ` e maneirismos étnicos fruto de sua origem africana) chamariam a coisa de ' Polka ` e a tocariam um pouco diferente do que as partituras indicavam, acabando por criar (meio ' sem querer querendo ') esta coisa tão brasileira que a gente chama hoje de Chorinho.
O'Mundão véio sem porteira ' era e talvez seja -- queira Deus -- sempre assim.
Agora, de uma coisa acho que não é bom a gente fugir:
estes processos culturais são muito interativos.
Não são espontâneos, automáticos, harmônicos.
Fazer cultura estrangeira no Brasil é uma coisa.
Fazer cultura brasileira a partir das influências externas que nos cheguem, seja lá de onde for, é outra coisa bem diferente (esta foi meio Mariodeandradiana, sacaram?).
Cultura nacional sem xenofobia pode ter a ver com Personalidade, Orgulho, Identidade, sem ignorância.
Além disso, Cultura é um produto de muito valor financeiro no mercado mundial.
Significando (como disse aqui outro dia a nossa Ilhandarilha) divisas, grana, distribuição de renda, emprego, além da felicidade geral da nação.
Definitivamente, não seria inteligente portanto entregar o ouro assim, de mão beijada, para o'bandido '.
Controlemos, batalhemos por regras e leis, coloquemos rédeas nesta coisa.
No entanto, se recomenda cuidado.
O melhor de nossa cultura pode acabar mesmo é sendo escrito por linhas tortas.
Para finalizar, e enfatizando a proposta de Diversidade no Overmundo, considero que estas questões estão ligadas sim, diretamente, à liberdade de expressão, ao acesso à informação, ao direito de difundi-la, transformá-la, ao fim de certo tempo, numa coisa de algum modo parecida com a matriz que nos chegou um dia no interior de um navio ou de uma navegada na internet, mas como coisa nossa -- do maior número de pessoas possível -- na mais completa acepção da palavra.
Número de frases: 61
Quanto mais amplamente forem garantidos estes direitos, mais bacana, original e brasileiro -- e universal -- será este nosso Overmundo, não acham?
O germe artístico de Baldinir Bezerra na expressão tridimensional surgiu em 1985, ano que conquistou um espaço na Mostra do Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande, com a obra «A mãe da fome».
Depois deste súbito reconhecimento, o escultor só voltou a produzir em 1999, quando precisou encontrar uma maneira de garantir seu sustento.
O talento falou mais alto, e Baldinir Bezerra consagrou-se escultor no Rio de Janeiro, local em que executou uma de suas obras mais importantes:
a imagem de Nossa Senhora de Belém, abrigada na Capela Mayrink do Parque Nacional da Tijuca.
A obra pertence ao acervo do parque desde 2000 e está exposta ao lado do painel de Nossa Senhora do Carmo, pintado por Cândido Portinari.
Em uma produção incessante, o artista foi inspirado por por o pintor colombiano Fernando Botero, com seu estilo naif e obras que destacam figuras rotundas.
Assim como o colombiano, Baldinir buscou o equilíbrio entre o humor e a crítica social.
Suas mulheres rechonchudas compuseram a paródia feita por o escultor com as imagens de ícones feminos como Marlyn Monroe, a personagem Gabriela de Sônia Braga, e Vênus, retratada por o pintor renascentista Sandro Botticelli.
De esta maneira Baldinir Bezerra conquistou o público carioca, e recebeu o convite para participar de várias exposições coletivas no Rio de Janeiro.
Em este mês, Baldinir passa a ministrar a Oficina Permanente de Expressão em 3D no Museu de Arte Contemporânea (Marco).
O curso vai acontecer às terças, quartas e quintas-feiras, das 14h às 17h horas.
O material de base que será utilizado é a argila.
Acompanhe a entrevista exclusiva com o escultor:
Como começou seu interesse por a escultura?
Baldinir -- É interessante a possibilidade de representar a realidade em três dimensões.
Eu sempre tive uma certa habilidade com as mãos.
Sempre tive facilidade com trabalhos manuais.
Em 1985, me lembro de ter tido minha primeira experiência na modelagem com a argila.
Foi uma peça que chegou a ser classificada para o Salão do Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande.
O título da peça era A mãe da Fome.
Era a representação de uma mulher muito esquálida, num estado de gravidez absurda, com uma barriga gigantesca, muito desproporcional com o resto do corpo.
Eu a fiz deitada, com as pernas encolhidas, uma mão cobrindo o rosto e a outra sobre o ventre, denotando sentir toda dor do mundo.
É uma peça bastante forte.
Como na época eu não sabia trabalhar com cerâmica, eu usei a argila encobrindo uma estrutura de arame.
É lógico que em pouco tempo o barro estourou, e a peça por inteiro ficou craquelada como o chão do nordeste em época de seca.
Eu acho que foi essa aparência, esse layout que garantiu a entrada de ela no salão do museu.
Ficou interessante, contemporânea (risos).
Só bem mais tarde eu aprendi a usar o barro para fazer cerâmica corretamente.
Como os temas te seduzem na escultura?
Baldinir -- No caso que citei anteriormente, o tema retrata as diferenças sociais gritantes que existem em nossas sociedades.
Foi uma regurgitada geral.
Tema pesado.
Depois disso, comecei a viajar por outras veredas, e passando a considerar mais a perspectiva do humor no meu trabalho.
Mas quais foram os temas que você começou a trabalhar lá no Rio de Janeiro?
Baldinir -- A época em que eu comecei a fazer esculturas no Rio, em meados de 1999, coincidiu com as comemorações do aniversário de morte da cantora Carmem Miranda.
Fiz uma série de Carmens, que fizeram bastante sucesso.
Logo depois, ocorreu a vinda de uma grande exposição do pintor Fernando Botero no Palácio das Belas Artes.
Eu fiquei muito impressionado com o trabalho de ele.
A argila pede volume, diferentemente de uma peça de metal, por exemplo, que pode ser bastante estreita.
E eu queria trabalhar com o figurativo, com formas humanas.
Acabei meio que seguindo um pouco a linha do Botero.
Passei a trabalhar com a representação de figuras obesas.
Fiz uma série somente com ícones femininos da história, começando por Vênus, passando por Marilyn Monroe, até Sônia Braga, em sua personagem Gabriela.
Todas mulheres ficaram obesas nas minhas mãos, mas apesar do excesso de adiposidade aparente, todas mantinham a mesma elegância, o mesmo glamour e sensualidade que as consagraram como unanimidades.
E como foi esse retorno à escutura em cerâmica?
Baldinir -- Eu já morava no Rio de Janeiro, em1999, e pra defender o sustento do dia-a-dia, num momento complicado chamado «desemprego», acreditei no projeto, comecei a levar a sério, e fui fazendo uma peça atrás da outra.
Comprei um livro, de um grande ceramista italiano radicado nos Estados Unidos que é mestre na escultura, o Bruno Luchesi.
Este livro foi meu verdadeiro professor, me deu todas as dicas, abriu o jogo e mostrou as técnicas de uma forma bastante didática.
Então você é um autodidata ...
Baldinir -- Em princípio sim.
Anos atrás, a Maria Helena Belalian, minha grande amiga, havia me dado as primeiras noções da cerâmica em seu atelier aqui em Campo Grande.
Eu ia sempre ao atelier, mas só a passeio.
E ficava observando, e fazendo perguntas.
Em o Rio de Janeiro segui esta atividade sozinho.
Mas trabalhar com barro não é uma coisa muito simples.
Por exemplo: eu morava na entrada da Barra da Tijuca e levava as peças para queimar numa caixa de papelão lá na Urca.
Cerca de 2 horas de ônibus atravessando a cidade.
Era o único lugar mais próximo que tinha para queimar as peças.
E a cerâmica, no chamado «ponto de couro» -- quando está bem seca, fica muito frágil.
Então, as peças nem sempre chegavam inteiras.
Essa atividade requer uma infra-estrutura básica para que aconteça.
Um forno, em especial, é indispensável.
Os índios faziam um buraco no chão e colocavam a cerâmica lá dentro, metiam galhos secos por cima e botavam fogo.
Uma maravilha!
O trabalho das populações indígenas daqui de a nossa região é conhecido e é lindo.
Então, o negócio é criar as tais condições, e produzir.
E como foi que surgiu o projeto de confecção da sua peça pública, a imagem da Nossa Senhora de Belém?
Baldinir -- Eu era um freqüentador assíduo do Parque Nacional da Tijuca, considerada a maior floresta urbana do mundo.
Lá dentro existe uma capela que foi construída no século XVIII.
Em a época, a área do parque era dividida em fazendas, e o primeiro fazendeiro construiu essa capela em louvor à Nossa Senhora de Belém.
Belém de Portugal. Belém de onde saíam as embarcações para as grandes descobertas.
Esta era a santa padroeira dos navegantes.
A tal fazenda foi sendo vendida no decorrer do tempo.
Mudaram os donos e mudaram as padroeiras.
A Capela, atualmente chamada de capela Mairynk, teve três padroeiras.
A Nossa Senhora de Belém, a Nossa Senhora Imaculada Conceição e a Nossa Senhora do Carmo.
Mas o acervo da capela não tinha a imagem da primeira padroeira.
Somente das duas últimas, sendo que o acervo possui um painel famosíssimo de Nossa Senhora do Carmo pintado por Portinari.
Essa obra havia sido roubada anos atrás, e foi recuperada a pouco tempo.
Em um projeto de restauração do acervo total do parque, fui convidado por a direção para confeccionar a imagem da primeira padroeira.
A museóloga Ana Cristina Vieira, responsável por a difusão cultural do parque, já havia comprado uma peça minha, um cavalo alado feito por encomenda.
Gostou tanto que me convidou para apresentar um projeto.
Minha proposta foi aceita, e eu tive a oportunidade de fazer essa obra.
Qual das suas peças você mais gostou de fazer?
Baldinir -- Foi justamente o cavalo alado que a Ana Cristina me encomendou.
Deu um trabalho danado, pois ele foi feito para ficar como se estivesse voando mesmo.
Gostei muito do resultado.
A cliente também (risos).
Qual foi a peça que mais chamou a atenção do público?
Baldinir -- Com certeza, a que se tornou eminentemente pública:
a imagem de Nossa Senhora de Belém.
Eu fui muito feliz quando a fiz, apesar de não ser uma criação original minha.
A peça foi feita a partir da imagem de uma pintura.
Transformá-la numa figura tridimensional foi um desafio bastante interessante.
Mas parece que eu consegui.
Quem quiser, pode conferir isso, quando visitar o Rio de Janeiro.
Como foi a receptividade do público à suas obras no encontro de ceramistas que aconteceu no Rio em 1999?
Baldinir -- Foi muito legal, porque eu não tinha a experiência de esculpir ao vivo.
Foi uma coletiva de ceramistas na praça da Urca, onde fui convidado para expor o meu trabalho mas também executá-lo ao vivo.
Eu fiquei uma manhã inteira construindo uma peça, e o legal foi que eu tinha que ser didático com as pessoas que passavam por ali:
crianças e adultos demonstraram o maior interesse no que eu estava fazendo ali.
Qual é a metodologia que você usa no curso de expressão em 3 D?
Baldinir -- Como disse antes, não me considero um especialista em cerâmica.
Eu trabalho com formas, e acho que uso a argila para desenhar.
Eu me considero um escultor.
Para chegar a ser um ceramista ainda vai uma longa distância.
Aqui em Campo Grande existem grandes ceramistas, como Maria Helena Belalian, Neide Ono, Mauro Ianase, Indiana, Irani Brum Bucker, e outros.
Em este momento, estou me colocando como um facilitador numa oficina que propõe que as pessoas exercitem a expressão no ato de criar objetos tridimensionais.
A base, inicialmente é a argila, já que é o material com que tenho maior intimidade.
Eu sou um fazedor de esculturas, e é essa a proposta no momento:
Número de frases: 111
esculturas. A idéia é criar um espaço para o livre exercício da criatividade em três dimensões.
Eu confesso que sempre fui mais de ler do que de escrever.
E pra falar a verdade, se me perguntarem porque, acho que nem vou saber responder.
Pelo menos de primeira.
Sempre tive fascínio por leitura, e de uns tempos pra cá, venho dedicando uns minutinhos diários às palavras de pessoas amigas.
Sem falsa modéstia, eu tenho uma «renca» de amigos que pelamordedeeeeus, sabem colocar muito bem as palavras ...
E esse eu não poderia deixar de citar ...
Pedrinho Fonseca (www.linguadop.com.br).
Gênio.
Mas então.
Há poucos minutos estava eu aqui, sentada na frente do computador, pensando em como fazer meu horário de almoço ser, de alguma forma, produtivo.
Fui checar os e-mails pessoais e me deparei com o convite da Ana Murta pra visitar o Overmundo.
Lindo! E, de repente, me veio a vontade fazer parte desse universo.
E de começar a escreverescreverescrever seja lá o que for, simplesmente por o simples fato de ...
escrever.
E cá entre nós, sem nenhuma modéstia, esse texto ficou muito do sem graça.
Nada com nada.
Categoria? Vixi ...
Tô quase deletando.
nãosimnãosimnãosim
Não.
F ...
Pode ser um começo.
Quem sabe.
Número de frases: 24
MAKING Of -- O Homem Que Engarrafava Nuvens, documentário sobre a vida do compositor cearense Humberto Teixeira, tem suas imagens gravadas por o Ceará desde a última quinta, 7. Entre a capital, Centro-Sul e Cariri, as locações sublinham as origens do grande parceiro de Luiz Gonzaga
Apesar de tratar da vida de um dos membros da «corte» histórica do baião -- ritmo nordestino que alicerçou a MPB -- o projeto do documentário O Homem Que Engarrafava Nuvens, sobre o compositor cearense Humberto Teixeira, demorou a vingar.
Foram cinco anos de maturação da idéia.
Mais um tanto de esforço por a credibilidade da iniciativa.
Enfim, a fase de apostas passou.
Lírio Ferreira (cineasta), Walter Carvalho (fotografia), Denise Dummont (produtora e filha do homem) e equipe agora estão aqui.
Por o Ceará.
Desde a última quinta, 7.
Até o fim desta semana.
«Em a verdade, em agosto de 2002, houve um show-tributo no Teatro Rival (RJ), e daí tivemos a idéia.
Fizemos entrevistas pingadas (com o cineasta Anselmo Duarte, entre elas), amadurecemos o projeto.
Agora, enfim, começou a filmagem oficial, quase diária, há um mês», conta Lírio (O Baile Perfumado), o diretor, em pausa rápida durante a manhã do segundo dia das filmagens em Fortaleza.
A produção trabalha em marcha-ré.
Parte da consagração às origens.
Ou seja, o caminho inverso do compositor que, ao lado de Gonzagão, fez favor de criar Asa Branca, Qui Nem Jiló e Juazeiro -- para não dizer mais um monte de canções -- hoje tombadas por a história da MPB.
«Começamos a filmar em Nova Iorque (Eua), onde o baião tem expansão por meio de David Byrne e outros músicos.
Fomos depois para o Rio de Janeiro.
Lá, fizemos a contextualização:
o encontro de ele com Luiz Gonzaga.
Era a capital federal até então, centro cultural do País.
Em o Ceará, voltamos às origens.
Ele começa a estudar música em Iguatu (onde nasceu) e depois vai a Fortaleza.
Aqui é a contemplação do baião.
De aqui, passamos por Choró, Quixadá, Quixeramobim, até Iguatu.
Depois, temos o Cariri -- área onde as raízes do baião estão bem impregnadas», explica Lírio.
O segundo batente na capital acontece no Cantinho do Faustino.
Restaurante ali na Varjota, onde o próprio chef de cozinha, o Faustino, ensina a receita do baião-de-dois.
«O baião é slow food, não fast food.
Comer algo de qualidade com tranqüilidade», explica o chef, às câmeras.
Ele tem mesmo esse perfil:
óculos de grau, fala cadenciada, uma lerdeza sadia que revela sobriedade.
São vários takes (tomadas) rápidos.
Lírio fala entre um e outro.
Dedicado à trilha sonora desde seus primeiros filmes, o diretor diz que, neste projeto, a obra do homenageado basta.
Não à toa, ele garante que o documentário não quer corrigir nenhuma injustiça -- em alusão ao fato de Humberto não ser reconhecido como Luiz Gonzaga.
E sim pontuar a relevância do iguatuense.
«Ele nunca se preocupou com isso, e dizia isso para o próprio Nirez (pesquisador cearense).
Diz que se ele tivesse que cantar, o baião não tinha chegado onde chegou», lembra o diretor.
A cada take, o baião de Faustino cheira mais forte.
Um cheiro absurdamente bom, espalhado por todo o restaurante.
Se no fogo já era bom, pronto aquele prato deve ter sido melhor ainda:
a equipe traçou uma bandeja farta que levava queijo, cuentro e banana por cima.
«Quem come isso, faz filho de seis em seis meses.
É afrodisíaco», dizia Denise, chamando atenção para as coordenadas do chef.
Número de frases: 44
Matéria publicada anteriormente no jornal O Povo A ausência de uma competição oficial de longa-metragem é fator crucial para se conhecer a personalidade de um festival de cinema.
Por o 14º ano consecutivo, o Vitória Cine Vídeo teve como estrela maior os curtas-metragens.
Entre 12 e 17 de novembro, qualquer discussão sobre falta de espaço para os filmes de menor duração no circuito exibidor nacional poderia soar rabugenta.
Afinal, quem brilhou nos luxuosos hotéis e restaurantes sedes do evento -- desfrutando dos melhores serviços capixabas -- não foi um Karim Aïnouz, um Jorge Furtado, um Cláudio Assis;
o time de realizadores, de formação e opção estética tão díspares quanto as dos consagrados cineastas nacionais, contou com a escalação de alguns dos mais premiados curtas-metragistas do ano:
não era difícil esbarrar, por exemplo, com os festejados Vitor-Hugo Borges (Icarus), Ian SBF (O lobinho nunca mente) e Kleber Mendonça Filho (Noite de sexta manhã de sábado) assistindo às exibições.
Além disso, o Festival propôs uma extensa mostra de vídeo, exibiu filmes infantis, longas-metragens fora de competição, promoveu debates e oficinas, entre as outras tantas atividades que circundam um evento cinematográfico.
Impossível acompanhar tudo.
Durante a semana em Vitória, privilegiei as exibições de filmes à noite, no Cine Teatro Glória, e os debates com os realizadores pela manhã, no hotel.
Abaixo, o meu diário de bordo (meio fluxo de consciência) desses dias.
Há de tudo:
comentários sobre os curtas, os debates, o público, breves interrupções para mini-críticas dos filmes que chamaram mais atenção e por aí vai.
* * * Início.
Cine Teatro Glória lotado.
De fato, a turma de Vitória abraçou o festival (sob o incentivo sempre amigo da entrada gratuita).
Discurso do prefeito e da secretária de cultura.
Apresentação dos filmes e dos respectivos diretores -- prática seguida até o último dia do evento -- e, finalmente, as projeções.
Em a segunda-feira, Pixinguinha e a velha guarda do samba (Thomas Farkas e Ricardo Dias) alegrou e decepcionou ao mesmo tempo.
Em 1954, Farkas, fotógrafo absolutamente apaixonado por o ofício, filmou uma apresentação de Pixinguinha no IV Centenário de São Paulo.
Os negativos foram encontrados e, com ajuda de pesquisa e restauração do Instituto Moreira Salles, as imagens viraram filme.
Para complementar o curta, uma entrevista com o próprio Farkas, falando do dia da captação daquelas imagens e também da sua vida.
É inegável a importância do registro que se tem ali.
O compositor em movimento, dançando feliz da vida com a sua turma.
Nunca se viu um Pixinguinha tão à vontade, fato que sugere, inclusive, uma leitura mais cuidadosa de suas canções.
Farkas também nunca foi tão doce, muito porque -- sabe-se lá o irônico motivo -- ninguém ainda tinha se preocupado em filmar o fotógrafo.
No entanto, algo no dispositivo do filme deu errado, e Farkas e Pixinguinha, fotógrafo e objeto, não se fundiram numa única narrativa.
Imagem, música e depoimento se descolam, afastados uns dos outros por uma montagem truncada.
A câmera (logo ela!)
capturou Farkas à distância, num primeiro movimento de apresentação preocupado acima de tudo em «fazer bonito» diante do mestre.
Duas impressões no final da projeção, corroboradas por alguns realizadores no dia seguinte:
ver Pixinguinha em movimento é coisa rara, momento único;
porém, e talvez tão importante quanto, ainda se faz urgente a produção de um filme que ouça o que Farkas tem para contar.
Em o mesmo dia, Icarus, «uma animação infantil para adultos», segundo o próprio diretor Victor-Hugo Borges, emocionou.
O diretor, do premiadíssimo Historietas assombradas (para crianças malcriadas), acertou novamente, dessa vez misturando ainda mais o mundo «lúdico infantil» com o mundo «real adulto».
A história do garoto que espera todos os dias o sinal de que o pai, piloto de avião, chegou bem serve como alegoria para uma reflexão maior sobre a separação de dois mundos que, muitas vezes, são um só.
(De aqui a alguns dias, publico uma pequena entrevista que fiz com Victor-Hugo Borges, um dos nomes que despontam na animação brasileira atual).
Ainda na movimentada primeira noite do festival, outro filme mexeu com o público (e com mim).
Para falar de ele, é necessário um destaque maior.
O Lobinho nunca mente, de Ian SBF. (
Veja no Porta Curtas)
A premissa é a seguinte.
Jovem tentou pendurar pôster de mulher pelada na parede.
Caiu no chão e agora está paralisado.
Não mexe mais parte alguma do corpo, apenas os olhos.
Já se passaram três dias e ele sabe que falta pouco tempo para morrer de sede.
O primeiro plano do filme enquadra justamente os olhos.
Um plano fechado indicando, logo nos frames iniciais, que a história que vamos acompanhar será contada sob o ponto de vista do sujeito estatelado no chão.
Começa uma narração em off do próprio para justificar o que já se imaginava.
O plano abre e vemos que, além da visão do narrador, também temos imagens mais gerais do apartamento, feitas por uma câmera que passeia tanto por o corpo caído do rapaz quanto por os cômodos que ainda guardam as marcas pré-tombo:
televisão ligada, pratos espalhados, coisas a fazer.
O sujeito se distrai como pode na sua condição.
Conta o número de toques do telefone, decora a programação dos canais na TV, observa uma maçã apodrecendo no chão.
A maçã, no caso, é analogia clara do seu estado.
O que poderia ser um exercício interessantíssimo de mis-en-scène e de cortes (quase que literalmente) na direção do olhar perde-se num filme de moralismo sem fim, em que todo o jogo de câmera e o off engraçadinho servem tão somente a um desfecho altamente punitivo.
São dois os movimentos aqui:
primeiro temos, sob os dois olhares (dentro / olho;
fora / imagens do apartamento), a revelação completa da condição que ali se apresenta.
O cara está ferrado.
Depois, para suportamos essa condição até o fim do curta, apresenta-se o tal off, sempre sob medida para tornar tudo mais brando.
O filme não assume a armadilha que criou para o seu personagem.
O final explica por quê.
O interesse maior nunca foi mergulhar nas questões do personagem, nas suas reflexões diante da iminência da morte.
Até mesmo a decupagem da fita, elogiada por tantos, tem como força maior preparar o terreno para a «virada» da história, em que o rapaz admite que talvez mereça aquele fim trágico.
«A pior morte», segundo o narrador, justifica-se por o seguinte:
ele matou insetos sem perna, passou direto por pessoas com fome na rua, não ligou para a avó milhares de vezes, bebeu várias coca-colas, foi hipócrita, egocêntrico, desperdiçou várias chances, fingiu não poder fazer nada ao ver que outra pessoa estava sendo assaltada, subornou policiais para não perder a carteira de motorista, deixou a cadela morrer sem necessidade e atropelou, sem prestar socorro, um homem.
Natural que, sob a moral punitiva apresentada, o final não seja outro senão a morte qual uma maçã apodrecida.
Filme de visão unilateral, que parece abandonar o personagem desde o primeiro plano.
Não muito diferente do que faz um Darren Aronofsky (Pi / Réquiem para um sonho) em todos os seus filmes, não muito diferente de um Jogos mortais.
Debates
Os debates ocorreram na manhã seguinte às exibições dos filmes.
O bate-papo seria a chance dos cineastas discutirem as obras abertamente com o público.
Em a prática, o que se viu foi uma roda repleta de curtas-metragistas e ausente de espectadores.
Ainda assim, muita conversa bacana saiu de lá.
Ian SBF, diretor de O Lobinho nunca mente, pôde, por exemplo, reafirmar sua posição diante do questionamento sobre o caráter punitivo de seu filme.
«Lobinho não é punitivo, é redentor, é a aceitação da morte», disse.
Sobre o humor que permeia parte do off, ele também marca posição.
«O off é a consciência de ele.
De repente, a consciência de ele é engraçada».
Talvez a parte mais legal desses debates tenha sido quando os realizadores se sentiram à vontade para falar dos momentos pré ou pós-filmagem.
Adriano Lima, diretor de Cine Zé Sozinho, derramou algumas lágrimas ao narrar sua relação com o personagem de seu curta.
A história:
José Raimundo Cavalcante é um daqueles tantos que têm como razão de vida andar por terras distantes exibindo filmes.
Bastante humilde, o homem conhecido como Zé Sozinho rodou Ceará e Pernambuco mostrando obras para quem, até outrora, nunca tinha assistido a uma projeção.
O que Adriano contou sobre o filme pareceu mais interessante do que a próprio documentário em si.
O diretor se relaciona até hoje com Zé Sozinho, ajuda-o como pode, com 200, 300 reais.
Em razão do filme e dos esforços de Adriano, Zé Sozinho atualmente tem equipamento de exibição de películas, além de gozar de outros benefícios do Estado.
Curioso um diretor assumir tão abertamente a proximidade com o objeto documentado, ignorando talvez o mote de discussões célebres e ainda atuais sobre o fazer documental (basta pesquisar por o filme Estamira no Google para ler a quantidade de artigos que tecem sobre a relação de Marcos Prado, o diretor do longa, com o seu personagem).
Sobre o seu personagem / paixão, Adriano contou outra história bastante curiosa:
durante as filmagens, Zé Sozinho propunha enquadramentos, direção de arte, cenografia.
Tentava participar do seu auto-retrato.
A ponto de, filme concluído, pedir as fitas ao diretor para montar a sua própria edição.
Todos na roda ficaram na torcida para que Adriano tenha percebido o diamante que tem em mãos.
Quinta-feira
Depois do início movimentado, o Festival esfriou.
Até quinta-feira, poucas obras -- para o bem e para o mal -- se destacaram.
A Cidade e o Poeta (Luelane Corrêa), Lúmen (Wilian Salvador) e Esconde-esconde (Alvaro Furloni) chamaram atenção positivamente, cada qual defendendo sua respectiva linguagem -- documentário, animação e ficção.
Uma vida e outra, do pernambucano Daniel Aragão, apesar do final experimental mal resolvido, também mereceu aplausos.
Sobretudo por inserir no universo jovem coisa tão comum (mas tão pouco retratada na sala escura) quanto conversas por MSN e navegação em fotologs.
Daniel usa o computador e as novas formas de se comunicar de modo raramente visto no cinema.
E o mais bacana:
o diretor já tem idéia para um próximo filme que se vale da mesma inspiração como premissa dramática.
Já era hora do universo jovem ter essa parcela da vida retratada de modo original num filme.
Afinal, quem é o jovem, com acesso ao computador, que não usa MSN?
E eis que chega quinta-feira.
Feriado da República que lotou o Cine Teatro Glória.
Grande dia para se ir ao cinema em Vitória.
Quem foi viu os dois melhores filmes do festival:
O homem-livro (Anna Azevedo) e Noite de sexta manhã de sábado (Kleber Mendonça Filho).
Embora bem rodados em festivais, os dois curtas ainda eram novidade para mim.
E foi interessante vê-los na mesma sessão, em que notadamente as obras se destacaram das demais.
Muito dessa superioridade se deve a segurança na realização que ambos os diretores passam com os seus filmes.
O homem-livro, de Anna Azevedo
Anna Azevedo apresenta um documentário sobre Evando, um pedreiro colecionador de livros.
Sua casa é uma biblioteca com poucas prateleiras.
O espaço dos livro é o chão.
E é desse espaço, tanto quanto de Evando, de que o filme trata.
Em a verdade, o filme fala sobre como Evando se coloca num espaço seu, roubado / apropriado por os livros, numa armadilha / vontade criada por ele próprio.
É impressionante como a câmera delimita os espaços por os quais ela -- a câmera -- pode andar na casa.
O filme acusa inclusive o golpe quando erra o passo, mostrando uma pequena trapalhada da equipe tropeçando na imensidão de livros.
O Homem-livro tem um personagem apenas, trata praticamente de um único objeto (o livro).
No entanto, por zelar por tudo aquilo que o espaço representa para este tipo de filme, acaba falando mais de Evando do que uma simples entrevista com o pedreiro poderia expor.
Evando é o que ele é somado ao que o espaço que os seus livros ocupam permite que ele seja.
Noite de sexta manhã de sábado, de Kleber Mendonça Filho
Hora de apresentar o filme, Kleber Mendonça Filho (Vinil Verde/Eletrodoméstica) sobe ao palco antes da projeção e fala:
«Esse filme é para quem já teve um relacionamento à distância».
Mais tarde, o diretor confessaria que aquela fala saiu meio na hora, um tanto de improviso.
Improviso ou não, o fato é que o filme fala para muitos.
Não seria exagero dizer que a fita de Kleber foi a mais comentada após as sessões do Festival, sobretudo por o público jovem, maioria no evento.
Kleber filma com uma câmera digital caseira (1 CCD) o diálogo telefônico entre um jovem na madrugada de Recife e uma jovem na manhã ensolarada de Kiev (Ucrânia).
Ou seja, o menino está na tal noite de sexta e a menina na manhã de sábado.
Assumidamente autobiográfico, o filme dá conta de tudo.
Mudando o áudio e a luz no corte de um país para o outro, Recife e Kiev diferenciam-se mais por o som e por a mudança de tom do preto-e-branco do que por a paisagem em si.
A paisagem, aliás, só é revelada quando já «entramos» na questão dos personagens, e agora é natural (e mais honesto) conhecer a real distância de ambos.
Noite de sexta manhã de sábado liga os dois personagens por o mar, por o sol e por um sentimento de ausência que fala tão alto quanto o silêncio que impera, muitas vezes, no diálogo de um casal distante.
Obra-prima.
(Em breve, posto aqui no Overmundo uma entrevista com Kleber).
Reta final
Dois últimos dias de Festival.
Uma surpresa:
o «filme de bom coração» (definição ouvida ainda nas poltronas do cinema) Táxi para devaneio (Ansgar Ahlers, Dirk Manthey e Eder Augusto).
Uma bobagem:
o pretensioso Tarantino's mind (300 ml).
Uma polêmica:
o instigante Igrrev -- Igreja Revolucionária dos Corações Amargurados (Carlos Magno).
Este último merece ser visto novamente, dada a quantidade de informações e mergulhos que o filme impõe a um já cansado olhar de final de festival.
Um fato:
Como o crítico Rodrigo de Oliveira disse durante o evento, Carlos Magno ainda não ganhou a atenção merecida, tamanha são as suas experimentações e propostas estéticas, sobretudo nas realizações dos últimos anos.
Em o sábado, último dia do evento, o cinema estava um pouco mais vazio.
Ressaca de uma semana que teve de homenagem a Dercy Golçalves a grupo de crianças tocando ao vivo durante exibição de curta de animação.
Filmes foram premiados, diretores subiram ao palco para agradecer.
Estrelas que, longe de serem famosas ou inacessíveis, estiveram ali na esquina do cinema, tomando uma cerveja, falando sobre o seu novo curta e, quem sabe, tendo idéias para o futuro longa.
Destaques do festival:
-- A obra-prima Noite de sexta manhã de sábado, de Kleber Mendonça Filho.
-- Igrrev -- Igreja Revolucionária dos Corações Amargurados, de Carlos Magno.
É preciso revê-lo já.
-- O belíssimo Cine Teatro Glória, que fora das datas do festival volta a ser apenas teatro.
-- O sol de Vitória, que deu as caras nos primeiros três dias do Festival (o que já é bom demais, visto que na maior parte do Sudeste o clima era chuvoso).
Os debates em todas as manhãs com os realizadores dos filmes da noite anterior.
O que poderia ser melhor:
-- O som do Cine Teatro Glória prejudicou a exibição de alguns curtas e, mesmo, dos longas fora da premiação oficial.
-- Saliva, de Esmir Filho.
Preocupa-se mais com o entorno do seu personagem do que com o personagem em si.
Acaba soando como propaganda de plano de saúde (com direito a cena de chuva no rosto).
-- As sessões começaram com praticamente uma hora de atraso todos os dias.
-- Não se viu uma grande preocupação com a ordem de exibição dos filmes e nem com a distribuição das obras por sessão.
Ter uma curadoria que dê total prioridade a isso (a exemplo do Festival de Tiradentes) é fundamental para o crescimento do Vitória Cine Vídeo.
Construir uma sessão de curtas que tenham ligação entre si é uma arte.
Para conhecer a lista de vencedores do 14º Vitória Cine Vídeo, clique aqui.
Número de frases: 168
«Acostuma-te à idéia de que a morte, para nós, não é nada,
visto que todo bem e todo mal residem nas sensações,
e a morte é, justamente, a privação das sensações "
Carta sobre a felicidade
Epicuro * Digamos assim:
existe a morte física, o perecimento a que é submetido todo ser vivo, animal ou planta, e a morte metafísica que só se manifesta no homem, resultado de sua consciência de que ela é inevitável.
E é justamente sobre esta «segunda» morte que se baseia toda a existência propriamente humana.
Como bem demonstrou a escritora existencialista Simone de Beauvoir, companheira de Jean Paul Sartre, nossa vida só faz sentido por a consciência que temos de que morreremos um dia.
Ela escreveu um romance intitulado «Todos os homens são mortais» em que conta a vida de um homem que se sabia imortal.
Para aquele homem nem a vida nem o tempo tinham qualquer sentido.
Tanto fazia passar um século dormindo, sem sonhos!
Ou fazer outra coisa qualquer tão chata e monótona quanto isto.
Nenhuma urgência!
Nenhum sopro vital!
às vezes, desesperado, o sujeito até que tentava ...
mas o tédio, a monotonia, logo tomavam conta.
É verdade, só a morte inevitável dá sentido à vida e direção ao tempo, e nos coloca diante do desafio de realizar coisas, da urgência em ver as coisas terminadas.
Ter planos para o futuro é só para quem reconhece limites neste futuro!
Mas, contradição demasiado humana, a mesma perspectiva que dá sentido à nossa vida é encarada, quase sempre, como fato gerador de sofrimento, medo e insegurança, fonte de melancolia e algo em que a gente evita de pensar.
Acho que o que estou dizendo pode ser muito bem ilustrado num filme de acão:
no decorrer de qualquer um de eles uma quantidade enorme de bandidos subalternos morre, sem que sua morte um mínimo nos incomode ...
mas deixa morrerem a mulher do mocinho ou o seu parceiro policial!
Quanta emoção!
Como estes bandidos são perversos!
A morte, no final, do bandidão-mor recupera nossa fé no bem e na justiça!
Já com a morte física, aquela que alimenta as estatísticas e que, se consumada com violência, ajuda na venda de certos jornais, a que ocorre nas guerras, esta está, e não poderia ser de outra maneira, sempre presente e é banalizada em nosso cotidiano.
O que não ocorre com o suicídio.
Quem abrevia a própria vida nos remete sempre à morte metafísica, aquela da qual procuramos desviar o pensamento.
às vezes penso:
será que o suicida, de uma maneira geral, apenas detesta a vida que leva?
Não tenho qualquer afinidade com o suicidio, embora não admita a manutenção da vida a qualquer custo, isto é, sou a favor da eutanasia e, inclusive, praticaria a auto-eutanasia caso sentisse que a distância que me separa da morte seja apenas uma intolerável via crucis.
O ato praticado por o suicida implica numa reflexão sobre o significado da vida, algo que transcende a morte física.
Suicídios famosos:
o de Ernest Heminguay, que se suicidou quando descobriu que estava sexualmente impotente, o de Sócrates, que tomou cicuta para cumprir uma sentença que lhe foi imposta, isto é, para submeter-se voluntariamente às instituições da polis grega, o do memorialista Pedro Nava, que se suicidou, é o que dizem, por não suportar as ameaças de um sórdido chantagista, e o mais famoso de todos, o de Jesus Cristo, que morreu na cruz para nos salvar!
Muitas pessoas deixam seus pais e irmãos em busca de oportunidades em outras terras.
Mesmo depois de 20 ou 30 anos sem se comunicarem com a família são capazes de sentir, sincera e profundamente, a morte de seus parentes!
Uma morte que, muitas vezes, ocorrera há muitos anos ...
Sentimento de perda?
Não, lembrete da sua própria morte anunciada, esta morte que nós só vivenciamos no passamento de alguns poucos parentes, amigos e pessoas, para nós, famosas.
A morte que nos diz respeito, aos vivos!
Número de frases: 40
* EPICURO (341-270 a.C.) Filósofo grego, contemporâneo de Aristóteles, nascido em Samos
Dália Negra, novela policial do escritor americano James Ellroy, adaptado para o cinema com a direção de Brian de Palma (cra-ques, manja?)
abriu o Festival de cinema de Veneza no último dia 30 de agosto.
Vale então uma bela (e ligeira) peneirada na obra do grande nome da literatura policial contemporânea, cujo grosso da obra organiza-se em séries.
Após uma interessante estréia, raymondchandleriano até o osso, com Brown's Requiem (1981, sem tradução em português), James Ellroy dispara a primeira grande série:
Sangue na Lua (1983), Por Causa da Noite (1984) e O Morro do Suicídio (1986) trouxeram ao mundo o sargento-detetive «Crazy Lloyd Hopkins», QI 170, especialista em leitura dinâmica, um come-todas de primeira linha.
Os três são livros curtos (não mais que 300 páginas), inteligentes, «de final de semana».
Eis o primeiro ponto alto da carreira do autor.
Elizabeth Short era uma jovem interiorana doida por o estrelato hollywodiano (ela e outras duzentas mil mocinhas caipiras).
Terminou com o corpo partido ao meio na horizontal, a boca rasgada de orelha a orelha, jogado num terreno baldio, em Los Angeles, 1947.
Apelidado de «O Crime da Dália Negra» -- porque Short se vestia de negro e por conta do sucesso daquele ano nos cinemas, Blue Dahlia -- o caso permanece, como disse o autor, «O maior crime não-solucionado».
Ellroy, que estudou tudo a respeito do caso, inventa no livro sua própria investigação, ficcionando, é verdade, e resolvendo o crime lá do seu jeito.
Para iniciantes na obra do autor, Dália Negra (1987) é uma beleza de largada.
Por falar em ela, o filme de De Palma estréia no País em 06 de outubro.
Filho de um contador de um estúdio de cinema nas décadas de 40-50, o autor explora o submundo dos filmes B de Hollywood em O Grande Deserto (1988).
Danny Upshaw aposta seu futuro na investigação de um assassinato com requintes de crueldade e perversão sexual.
The Big Nowhere (maravilha de título!)
é o primeiro a ter a forma de narrativa que tornou seu autor «O Cara» no ramo:
perspectivas múltiplas, um narrador onisciente e diversas histórias que, entrelaçadas, tecem um tapete gigantesco e colorido, decorado com o fino da ironia e da mais rasgada violência, e muita, mas muita sordidez mesmo.
Los Angeles Cidade Proibida (1990) -- transformado num belíssimo filme sete anos depois -- começa por o final de seu antecessor:
o ex-policial Buzz Meeks foge com quase 150 mil doletas, 13 Kg de heroína pura e uma espingarda de cano serrado, roubados durante uma «operação» entre os dois chefões (imaginários) da máfia de L.A.:
Mickey Cohen e Jack Dragna.
É só apertar o cinto e aproveitar o passeio.
Em a seqüência, fechando o La Quartet, Jazz Branco (1992), um livro difícil, porém rico no perfil psicológico de seus personagens.
Reza a lenda que a pedido de seu editor, Ellroy teve de reduzi-lo de 900 para 350 páginas.
Cortou todos os verbos, acredite ou não.
Eis que, em 1995, aquele que poderíamos chamar obra-prima.
Porque é daqueles livros para reler por as próximas duas vidas, fascinante por o edição e por a mistura (explosiva) gente de verdade + gente nem tão de verdade assim + um híbrido dos dois gêneros.
São cortes mais brutos do que uma briga de rua entre Dae-su Oh (de ' Old Boy ') contra A Noiva (de ' Kill Bill volumes 1 & 2).
Nada de amorzinho no final.
Nem choro, nem vela.
É pau, pedra, tiro, facada, cadeirada etc.
Tablóide Americano é, lido despretensiosamente, o Samba do Crioulo Doido, mas se resolve em 500 páginas, deixando o leitor com o «quero mais» gritando nas orelhas.
Pegue o clã Kennedy, Hollywood, a Máfia, Fidel Castro, a CIA, o FBI e uma dezena de personagens (reais -- Lee Oswald, Ava Gardner -- e ficcionais -- o factotum canadense Pete Bondurant e os agentes do FBI Ward J. Littel e Kemper C. Boyd) e (re) envolva-os para a reinvenção da trama para o assasinato do presidente Kennedy, na cidade de Dallas, em 1963.
Nem tente especular o final.
Aliás, final?
A continuação de Tablóide ...,
crianças, -- Seis mil em espécie (2001) -- começa no dia da morte de Kennedy e vai até 1968, seguindo os passos de Wayne Tedrow Jr., contratado para matar um desafeto dos poderosos donos de cassinos em Las Vegas -- entre eles seu próprio pai.
Duro de ser lido.
847 páginas.
Trabalho de profissional.
Em certos momentos soa experimental (" Wayne ouve.
Wayne cortas os fios.
Wayne agora está caaaaalmo ").
Generosamente hipnótico.
Procura-se diretor de cinema corajoso o suficiente para filmar tal história.
Sai em 2007 o terceiro livro desta série, começando adivinha onde?
Cobrindo o período entre 68 (Vietnam comendo solto) até às vésperas de Watergate, «chato demais», segundo o autor.
Em entrevista a um sítio de um fã seu, Ellroy disse que estava tratando um draft (rascunho) de 3000 páginas.
Só podemos concluir que vem aí chumbo grosso.
Número de frases: 50
Aguardemos.
Originalmente publicado no blog:
http://mascandocliche.zip.net O Teia, evento que reuniu em Belo Horizonte representantes dos 680 Pontos de Cultura de todo o país e centenas de interessados por o tema ' Diversidade ' (seja lá o que isso queria dizer), foi um misto de sentimentos.
Serviu de cara, ainda na Oficina de Jornalismo Cultural, uma semana antes, como descritor literal da sua proposta.
Em uma sala com mais de cem pessoas, brotaram dezenas de listas de discussões e troca de e-mail, telefones ...
talvez amanhã ninguém nunca mais se corresponda ...
Formou com isso um possível emaranhado de trocas de figurinhas e álbuns, unindo (não sei até que medida) Pernambuco com Amazonas, Belém com Rio Grande do Sul, Bahia com Rio de Janeiro e outras combinações que os 26 Estados e mais o Distrito Federal possam proporcionar.
Falei sobre misto de sentimentos porque, à vera, a programação parece mesa de servidor público em cartório:
vários calhamaços de várias pilhas de papéis.
Enquanto se escolhe uma, perde-se outra meia dúzia de possíveis boas discussões.
Aí quando a gente entra numa dessas rodas e o papo torna-se furado, o sentimento é de pura decepção e angústia.
O que fiz quando isso aconteceu?
Saí em disparada em busca de um debate interessante.
Esse pingue-pong do aprendizado acabou tornando o Teia, pra mim e por ironia da nomenclatura, no evento das falas isoladas, dos fios desconexos.
Ouvi coisas boas e soltas do Célio Turino no Grande Teatro do Palácio das Artes -- cheguei depois de passar por duas mesas de conversê cochilantes ...
do Massimo Canevacci e do Orlando Senna, no Seminário Saberes Vivos -- minha segunda tentativa daquele dia ...,
do Ariano Suassuna (na coletiva de imprensa) e do Sérgio Mamberti e só.
Ou eu não fui feliz nas minhas escolhas (e prefiro acreditar nisso) ou a Teia se rompeu justamente na busca de tecer o maior (quantitativamente) encontro cultural do país.
Em a concentração de força em opções para o público, a teia desse evento aracnídeo, que geralmente é mais forte que o aço, perdeu sua elasticidade e resistência e acabou dispersando os participantes.
pingue-pong não era somente uma diversão minha.
A platéia se transformava em questão de minutos.
Sai dois, entra três ...
sai três, entra dois ...
De tudo que rolou, valeu por a possibilidade de discussões calorosas na semana anterior quando tive a oportunidade de participar da Oficina de Jornalismo Cultural.
De tudo que rolou, valeu o que rolou primeiro, mas a primeira impressão não é a que ficou.
Número de frases: 25
Não mesmo.
Em a segunda parte da última entrevista dada ao Jornalista Bosco Martins (bonito@boscomartins.com.br), antes de morrer em 23/09/05, aos 93 anos, em seu apartamento no Rio de Janeiro, Apolônio da depoimento sobre a Guerra do Paraguai, sua infância em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, de sua amizade com o Poeta Manoel de Barros, de Luiz Carlos Prestes e da companheira Renée, entre outros assuntos.
A entrevista inédita em nivel de Brasil e exterior foi exibida com exclusividade por a Rede Pública de Televisão, através da TV Educativa Regional / MS
Os campos de concentração.
Você ficou preso?
Em fins de 1938 o Governo da República tinha tido um gesto que parecia muito humano, mas que na verdade era um gesto muito perigoso.
Nós éramos 40 mil voluntáriosinternacionais e constituímos as brigadas organizadas e o exército republicano se tinha apoiado muito nas nossas formações de brigadas, porque nós já chegamos com organização de batalhão, regimento, etc..
Acontece muito que essas forças que tinham participado das batalhas mais difíceis, eram deslocadas das frentes e enviadas para fora.
O que fez com que nós verdadeiramente tivéssemos que sair da Espanha.
Para os voluntários internacionais que vinham da Europa era uma coisa mais fácil, pois em seus países não havia ditadura militar, como para nós da América Latina.
Quando os voluntários internacionais foram chamados para sair do País, o caminho mais fácil e único era a fronteira com a França.
Atravessamos a fronteira, depusemos as nossas armas na fronteira e embora o governo francês tivesse assumido diante do governo da República Espanhola o compromisso de nos receber como refugiados políticos, fomos enviados para os campos de concentração.
Então, eu passei praticamente do Natal de 1939 até agosto de 1940, nos campos de concentração franceses.
Em esse momento eu decidi com meus companheiros, já que a França assinara o Armistício com a Alemanha, entregando a metade norte do País para a ocupação militar alemã, fugir dos campos de concentração e nos colocar a serviço dos primeiros núcleos de resistência que a França organizara no interior do país.
Como você conheceu a companheira Renée?
Tinha saído do Brasil procurando a minha noiva, tinha passado por a Espanha, Portugal e pedaço da França procurando por ela.
A o fugirmos do campo de concentração na França, um dos meus colegas diz assim:
«Acho que a noiva que você procurando está em Marsellha».
Aí eu vou conhecer a Renée.
A família da Renée é uma família de comunistas desde antes, durante e depois da ocupação alemã.
Era uma família de combatentes e de maneira que era muito fácil combinar o sentido de nossas vidas e o sentido de nossas lutas.
A partir de um momento ela deixa de ser uma ativa militante das organizações da juventude comunista para ser uma das combatentes do movimento armado da resistência.
Em o final eu saio como coronel de resistência e ela sai como tenente da resistência.
Um detalhe muito importante sobre a Renée.
A irmã Paula e a tia, em 1942, já estavam presas como comunistas.
E o detalhe é que a irmã, muito ativa, ao ser presa, foi condenada a morte.
Como tinha apenas 19 anos e era moça ainda (seria a primeira mulher a passar por a guilhotina), sua pena de morte foi comutada em prisão perpétua.
Passou alguns anos na prisão de Bomet em Marselha, depois na prisão de Hennig, quando junto com a tia foram mandadas para os campos de concentração da Alemanha e com o final da guerra, felizmente puderam voltar.
Renée, há quantos anos vocês estão juntos e como é a convivência com ele?
Estamos juntos há 61 anos e para mim não é ruim, tenho um companheiro, foi sempre muito fácil conviver com ele.
Saímos para ver filmes e programas culturais.
Não gosto de falar muito não, sempre fui assim.
Entrou no Partido Comunista desde os 15 anos?
Antes mesmo.
Sua família, seu pai e sua mãe já pertenciam ao PC francês?
Já pertenciam.
Éramos 3 irmãos -- um irmão e uma irmã.
A irmã ainda é viva e mora na França.
Bem Apolônio, você saiu de Marselha para morar com a Renée?
A partir de um determinado momento, porque eu percorria muito o sul da França nas minhas funções de oficial dos organismos de guerrilha no País.
A partir de 1944 combinamos que iríamos viver na cidade de Nimes, e nós começamos a viver juntos lá, uma antiga cidade romana.
Seria possível traçar o perfil de quem colaborou com os alemães e de quem lutou na resistência?
Não seria fácil fazer uma delimitação segura.
O grande capital ficou com os alemães, mas ficou paralisado porque a derrota militar e a derrota político-militar da França abalou profundamente a consciência da nação.
A França tinha sido educada, todas as novas gerações e um pedaço das antigas, na visão de que tinham um exército invencível.
A vitória de 1914 a 1918, da 1ª Guerra Mundial, tornou-a poderosa, com exército respeitável, com grandes generais e grandes marechais.
Acumularam essa mística, essa lenda do grande exército, das grandes forças armadas.
A França cai como um castelo de cartas, porque não é derrotada militarmente, ela é entregue aos alemães.
Antes, em 1935, 1936,1937, o movimento social e o momento político de esquerda tinham criado uma situação nova, que foi o período da vitória eleitoral das frentes populares.
A vitória dos trabalhadores, dos operários, uma parte dos camponeses, das camadas médias e uma parte dos burgueses, de figuras do capital progressista ligada ao sentimento nacional.
Não se pode achar que isso não existiu.
Tivemos então o regime das frentes populares, como conquistas sociais muito altas, com medidas muito importantes olhando para a soberania nacional, com estímulos muito maiores para a integração do povo através de suas instituições de base, do debate político e do debate do hoje e do amanha para o país.
Essa mística, essa imagem de uma França nova, guiada por os trabalhadores incluindo camadas médias e também uma parte do capital, que querem fazer um avanço, sob forma de mudanças políticas, nacionalistas, essa França nova representava para o capital uma ameaça incisiva.
O raciocínio era, se em 1939 e 1940, a França vence a Alemanha, é porque tinha condições de deter o avanço alemão.
Mas o Estado Maior Francês, ordenado por o grande capital francês, decidiu que a França não lutaria contra o exército alemão.
A França se entregou, porque preferiu o domínio da ocupação e da arrogância nazista àquela França parecida com a do Regime da Frente Popular e apoiada no povo e em coisas novas para a nação e sua gente.
Que tipo de operações vocês faziam na época, Apolônio?
Operações que tinham objetivos muito claros:
primeiro atacar as forças inimigas, que vinham desfilar nas cidades e nós tínhamos naturalmente ataques armados a esses desfiles.
Os alemães tinham também os cinemas e nós atacávamos os soldados na saída.
Os alemães roubavam o que podiam na França.
As vias férreas estavam carregadas das riquezas francesas e nós trabalhávamos para fazer o descarrilamento dos trens e ao mesmo tempo atacar as tropas alemãs.
Em o Tribunal Popular, que criamos com o movimento social e com os comitês de libertação nacional, que se recriaram em cada bairro, em cada cidade, preparamos o governo francês para a libertação que viria em 1944.
Sua readaptação ao Brasil, como foi sua chegada e a retomada de sua vida política?
Bom, foi primeiro uma grande surpresa, porque em 1946, um grande pintor brasileiro, Portinari, ele estava trabalhando em Paris para sua exposição de arte.
A o sair do Brasil, Prestes tinha dito a ele:
«O Apolônio esta em Paris.
Diga e ele pra vir logo para o Brasil».
Eu devo voltar imediatamente.
Pra mim foi um choque, porque eu estava identificado com a França, com a luta, saíamos da resistência vitoriosos.
Era a libertação nacional em 1944 e 45.
Em 1946 eu sou chamado de repente para o Brasil e ainda mais eu estou casado com uma francesa, de uma família francesa.
Eu vou voltar sozinho?
Ou volto com a minha companheira e com meu primeiro filho René?
O segundo filho já estava a caminho.
Eu gostaria de analisar com mais tempo, mas o convite do Partido Comunista não era muito parecido com coisas delicadas, eram ordens incisivas.
Eu tinha obrigatoriamente que voltar, porque nós os comunistas da época, os militantes, éramos completamente cegos, completamente submissos, diante dos arbítrios da direção.
Não tínhamos coragem de nos opor a uma decisão do Partido.
Ganhei a Renée para este objetivo, e num sacrifício ela veio com mim, agora aqui no Brasil, a acolhida brasileira, no Rio em particular, se ela é grande para os que vêm de fora, ela é maior ainda para quem vêm como esposa de brasileiro.
Renée, embora tenha sofrido muito com a distância, com a situação nova, suportou os primeiros momentos de choque dessa transformação por conta do carinho do nosso povo.
Em a sua opinião, o que se deve o fracasso dos regimes comunistas no mundo?
O que não deu certo?
Onde se errou?
Eu acho que é um pecado original, um pecado capital original.
Tentativas, tanto na União Soviética, como nos países, que formaram depois, países de democracia socialistas do Leste europeu, o pecado capital foi de tentar construir o socialismo acima do povo, e não com o povo.
Isso permitiu, naturalmente, um crescimento enorme da reação anticomunista.
Não se pode dizer que o socialismo na União Soviética foi vazio de resultado, o socialismo num país europeu antigo, e terrivelmente reacionário construído em moldes medievais, transformou a Rússia numa segunda potência mundial, mas não no domínio das liberdades, não no domínio dos direitos humanos, não no domínio dos direitos sociais que eram muito limitados, não no domínio, na presença do povo, como participante ativo da vida política do país.
Para mim aí está o pecado original, por causa do pulso forte de Lenin [Vladimir Lenin -- revolucionário russo], que era um homem muito violento, muito duro, que acabou em 1919-20 e 21, na União Soviética, pondo fora de circulação e jogando na clandestinidade partidos aliados.
Lenin era um sujeito muito duro, e o Partido Comunista que se criou, no ano 1916-17, substituindo o antigo partido socialista, que vinha do final do século anterior, esse Partido Comunista.--
Seja na antiga terceira internacional, na quarta internacional, que tem ainda várias organizações filiadas a ela -- é um partido muito autoritário e muito elitista, em que os dirigentes são donos de todos os poderes, e os militantes estão aí para cumprir as ordens, cumprir as diretivas de terceiros.
A violência o absolutismo do período Lênin foram responsáveis por a decadência do comunismo no mundo.
Apolônio, como fundador do PT, você não está decepcionado com o governo do Presidente Lula?
Acho que seria falso dizer que o governo atual só tem flores e conquistas nesses três anos passados.
Muita coisa foi prometida e não foi realizada.
Mas a verdade é a seguinte:
é que esse governo quando se instalou encontrou o Brasil numa situação extremamente deplorável.
Uma situação de quase falência, com uma dívida externa quase cinco vezes maior que antes, no período dos anos 90.
Vocês se lembram que o desemprego em 2002, quando se prepara a passagem para o novo governo, estava na base de 12 % da população economicamente ativa.
Hoje caiu para 10,8 % da população e devemos avançar mais.
Era uma situação extremamente delicada.
O país estava condição de subserviência absoluta porque necessitava de capitais de fora e ao mesmo tempo esses capitais impunham suas condições.
Se faz necessário, naturalmente, um certo tempo para preparar as condições para iniciar uma outra fase.
Uma fase nova de desenvolvimento do país.
O ano de 2004 foi um ano difícil, mas 2005, trouxe o avanço da economia, das exportações, medidas de dilatação nos prazos de pagamento da dívida externa e as primeiras respostas, ainda pontuais para com os anseios de nossa população, principalmente no caso do desemprego.
O peso das desigualdades sociais recai igualmente sobre todas as faixas populares da sociedade, o problema é a coragem necessária, a tolerância diante do ser diferente, a busca de caminhos de interesses comuns para unir essas várias faixas, para abrir caminho aquilo que seria um regime novo de democracia, viva e direta.
Diferente dessa democracia deformada que existe no nosso país, não apenas no período dos últimos oito anos recentes, em que ela esteve profundamente deformada, mas desde o princípio da República.
Uma democracia, limpa, direta e com imensa participação popular, dando forças novas à cidadania, à sociedade civil e aos dirigentes novos da nossa sociedade que passaram a ser presença ativa na marcha dos acontecimentos, como as mulheres, os jovens, os negros e os índios etc., nesses últimos quinhentos anos.
Apolônio, gostaria que você falasse um pouco de Corumbá, no velho Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul, da sua infância, das suas reminiscências, o que você guarda de elas?
Começaria já nos 11 anos.
Quer dizer, em 1923, quando comecei a fazer os meus primeiro versos, Corumbá era uma cidade cheia de poetas.
Não é sem razão, o nosso querido poeta Manoel de Barros, esteve lá numa época prospera dos anos quarenta e pouco quando eu estava na Juventude Comunista.
Nós tínhamos uma terra de poetas.
Afinal de contas, a natureza era muito rica.
Um rio largo, o Paraguai, de seiscentos metros, uma trilha de estradas por dois braços no rio, toda verde, durante o dia, mas que se tornava esbranquiçada à noite quando as garças voltavam de seus passeios por as florestas próximas.
Ao mesmo tempo uma população e um mundo acessível, ao ponto de constituir, já que Corumbá não passava de dez mil habitantes, no seu período tupã, uma espécie de família, que se conhecia de um lado a outro da cidade, tínhamos uma bela biblioteca, o ginásio corumbaense, onde reuníamos os poetas, escritores e figuras interessantes da cidade.
Era uma vida social muito intensa e uma vida esportiva também muito grande, tínhamos clubes de futebol, genuinamente corumbaenses, como o Corumbaense Futebol Clube, o meu time de preferência.
Mas tínhamos também clubes de futebol extremamente poderosos, influentes, de jogadores paraguaios, como era o Riachuelo Futebol Clube, grandes concorrentes dos campeonatos da época.
Conhecíamos algumas figuras típicas, que depois seriam figuras conhecidas em todo Estado, como o doutor João Leite de Barros, que era professor de português no nosso Ginásio.
Corumbá era algo que me acalentava e uma cidade que tinha uma capacidade muito grande de abrir caminhos para os adolescentes sonhadores.
Uma curiosidade.
Você ainda tem sua alma Guarani?
O que representou a Guerra do Paraguai pra você?
A Guerra do Paraguai foi muito antes de eu ter nascido.
Terminou em 1867.
Sobraram 33 anos, nasci em 1912.
Lia certas análises críticas do comando brasileiro.
E também, acontece o seguinte:
na minha época em Mato Grosso, nós tínhamos muita simpatia por os paraguaios e uma dose muito forte de consciência ferida por os maus tratos que o comando do Exército brasileiro, vencedor da Guerra do Paraguai, tinha imposto à população guarani.
Depois da Guerra do Paraguai, sob a pressão mais do Brasil do que da Argentina e Uruguai e que também foram grandes beneficiários nessa guerra para aferir lucros e riquezas enormes, a população paraguaia ficou profundamente maltratada e empobrecida.
Em o fim da guerra, a população paraguaia foi se constituir numa boa parte da imigração, chegando aos países vizinhos, no caso Corumbá, no Mato Grosso do Sul, na época Mato Grosso, sendo a mais numerosa, a mais poderosa, a mais valiosa que dispúnhamos no conjunto de nossa região.
Nós, jovens de Corumbá e os jovens de Campo Grande, hoje capital de Mato Grosso do Sul, como os jovens de Miranda, as cidades de Mato Grosso, na época (Cuiabá já ficava mais longe), tínhamos então muito contato com os paraguaios.
Acabaram se tornando nossos companheiros de travessuras, juvenis, infantis.
Ficávamos em contato com as paraguaias, as famílias paraguaias, que se constituiam numa parte sensível da população.
Quer dizer, havia esse espírito de irmandade?
A guerra ainda não tinha dado aquele tom de ódio?
Nós jovens não aceitávamos isso.
As espanholas eram muito bonitas!
As feições das espanholas, aquelas morenas, aquelas bugras, filhas de índios, -- os Guaranis.
Em a minha adolescência, se você quisesse fazer a corte a uma morena paraguaia poderia falar no espanhol com certa medida, teria só um pedacinho do coração de ela, mas se falasse em guarani, vencia a parada né? [
risos]. Nós todos aprendíamos a falar o guarani cedo!
Apesar de cuiabano, o poeta Manoel de Barros foi criado em Corumbá e foi quem sugeriu o nome do seu livro «Vale a pena sonhar», e conta que foi você que fez a cabeça de ele para entrar no partido.
Vocês não chegaram a conviver em Corumbá?
Não.
Eu convivi com o poeta Manoel de Barros já bem mais tarde, em 1947 porque há uma distância enorme de idade entre mim e Manoel de Barros, da nossa família ele seria o caçula.
Tive contato com ele, quando de volta da minha passagem por a Europa.
Em esse momento eu militava no Partido Comunista, era o presidente provisório da Juventude Comunista no Brasil, ele pertencia a um grupo de jovens que fez um curso com nós e nós solicitamos a sua filiação ao partido, no momento em que, com a situação nova que existia no mundo, depois da derrota do fascismo, a juventude queria participar da vida política, não é sem razão, o nosso querido poeta, esteve lá numa época prospera.
O grande poeta, um dos maiores poetas da historia do Brasil, é meu amigo Manoel de Barros.
Apolônio, agora para fechar.
Qual a receita dessa vitalidade?
Como chegar nessa idade com essa memória, com essa cabeça, com essa cultura, com esse pensamento claro e positivo que você tem?
Acho que recebo isso de vocês, dos amigos, dos companheiros, sozinho eu estaria ilhado numa melancolia fria e vazia, mas não é somente isso, há muito tempo que eu sou um otimista incorrigível.
Este é o segredo da sua longevidade.
Ser otimista?
Número de frases: 153
Acho que o otimismo é um alento, é um sopro de estímulo para gostar da vida e para viver.
Projeto Turntable-Cut
Curso Básico Curso De Performance
Curso Básico Este curso tem como objetivo levar ao aluno a dominar as técnicas básicas de mixagem, através de um programa didático elaborado, além disso terá a apresentação de equipamentos, identificar as barras de tempo, marcação de ponto e o processo de mixagem.
O aluno tera acesso ao universo que compõe a atividade de um dj, as diversas variâncias da musica.
Os participantes terão a sua disposição, equipamentos personalizados.
A o fim do curso, o aluno tera direito a gravar seu set, com suas musicas favoritas e vai entender, com certeza a diferença entre mixar e «trocar de musica».
Curso de Performance *
Pré-Requisito Iniciação e experiência prévia como DJ
ProjetoTurntable-Cut foi elaborado por * Dj Willian * *
destaque no Cenário do Hip Hop Underground Nacional.
O curso consiste em obter técnicas, habilidades e total domínio dos toca discos.
Em este curso o aluno aprenderá técnicas tais como:
* Scratch:
significa «riscar», é um estilo livre de rabiscar sobre batidas, aonde o aluno cria um desenho apartir de um efeito e se envolve no tempo e ritmo da musica chegando até tira notas musicais, usando as pick-ups como forma de instrumento musical.
Para isso existe um processo de evolução começando por o Fade, Chops & Stabs, Drag, Transformer, Chirps, Flares e Crab.
* Back Te o Back:
significa «voltar e voltar», técnica muito usada no começo do hip hop aonde os djs notaram que algumas musicas tinha um break beat então ficavam repetindo esse pedaço para que assim os mestres de cerimonia cantassem suas musicas já que não possuíam suas próprias instrumentais.
Essa técnica consiste em utilizar dois discos exatamente iguais marcados no mesmo ponto e repetir aquele ponto mostrando tempo e ritmo.
Além disso nesse item acrescentamos o Turntable Drumming técnica usada para construção de sequência de baterias (bumbo e caixa) apartir de um toca disco apenas.
* Beat Juggling:
significa «brincar com as batidas», após aprender repetir os pontos marcados nos discos, o aluno passara para o processo parecido com o» back to back».
Usando novamente dois discos iguais o aluno não apenas ira repetir o ponto mas sim recriar novas batidas e formando novos compassos.
Estas técnicas, bem executadas vão incrementar em alto grau seu set, seja você dj de house, hip hop, techno, drum ' n bass, break beat ou qualquer outro estilo.
Um dj com técnicas e habilidades não apenas mixa mas cria um diferencial que o destaca dos demais, e o que é o melhor, valoriza seu cache.
O curso tera apresentação vídeos com algumas performances de djs nacionais e internacionais e ainda traz convidados para uma sessão de workshop com alguns djs mais respeitados e considerado da cena do hip hop, contando um pouco de sua historia e experiência.
Número de frases: 26
A o fim do curso o dj tera direito a gravar sua performance, mostrando suas técnicas.
Em o Brasil, a identidade cultural, particularmente no segmento musical, é algo bastante debatido e questionado.
Em esse campo, estamos mais próximos de uma «arruaça» cultural do que propriamente de uma identificação de norte a sul.
Haja vista uma das nossas vitrines principais ter justamente como caráter intrínseco a ausência de algo que engesse, mesmo que superficialmente (como acontece em outros países), este tão importante aspecto doutrinário.
O carnaval tem, pois, como linha mestra, a miscigenação e pluralidade de ritmos, melodias e letras.
Uma espécie de caos controlado à proporção da necessidade de alheamento da população de suas próprias raízes mais remotas.
Há uma abundância de gostos, de cores, de apelos visuais, mas principalmente uma miríade quase infinita de informações mediadas por compassos e descompassos de áudio.
Ora, o nosso carnaval é uma festa tipicamente brasileira, para a qual não caberiam invasões alienígenas advindas de outras culturas.
Não obstante, o aspecto de dominação encontra-se presente e de modo relevante.
Não à toa sustenta-se tal afirmativa dentro da atual conjuntura carnavalesca pernambucana.
Parte-se da idéia de uma sujeição do nosso frevo a uma competição desigual e traiçoeira com os demais ritmos festivos.
Há prós e contras nesse impasse rítmico.
Por um lado, composições como o axé-music e o samba são produto de todo um trabalho árduo voltado para a conquista do seu público particular que, em muito pouco difere, ao menos idealmente, de outros bolsões culturais do nosso país.
A identificação do folião pernambucano com a música baiana ou carioca não deveria causar espanto, pois trata-se de uma mesma língua defendida dentro de um mesmo território e cuja posição acidental não elide fatores como educação, acesso a informação e conjuntura sócio-econômica.
Não obstante, há de ser sublinhada aqui a participação de mecanismos vis no que diz respeito a esta identificação.
O primeiro e principal instrumento de massificação musical é a mídia, cujo alcance longitudinal e concentração em mãos de poucos, acaba por nivelar a formação musical do brasileiro dentro de uma visão puramente econômica e mercantilista sem levar em consideração a contribuição para a diversidade, a originalidade e a representatividade sócio-histórica de determinada manifestação.
O estado, por seu turno, intervém através de uma regulação direta, censurando ou incentivando por meio de leis a execução deste ou daquele ritmo;
através de uma postura substitutiva, atuando ele mesmo como produtor de espetáculos, ou ainda numa regulação indireta por intermédio de subsídios, isenções ou privilégios ao setor fonográfico e artístico.
A questão primária, e extremamente complexa, determina a seguinte proposição:
será que o nosso frevo sobreviveria e se sobressairia com um aporte maior de capital particular ou com uma intervenção estatal de peso?
Em outras palavras seriam a mídia e o apoio governamental decisivos na aceitação por o público de uma melodia tão incomum quanto contagiante como o nosso frevo?
A resposta definitiva talvez nunca teremos.
Todavia, nada impede uma investigação, ainda que superficial, meramente especulativa, sobre o assunto.
O âmago do problema, ao nosso ver, encontra-se no re-ordenamento cultural em termos de aprendizado musical.
Há de se empregar uma educação, desde a mais tenra idade, voltada para o respeito às origens musicais, à sua evolução e ao seu conteúdo.
Ou seja, ensinar, a partir da infância, aos futuros cidadãos a «assoviar» ritmos da terra.
Não passar recibo para o bairrismo desenfreado contemporâneo, mas revelar, aos menores, princípios de harmonia, ritmo e composição.
Assim como estimular, já nos bancos escolares, a execução espontânea de pesquisa e criação nesta área relegada atualmente a planos inferiores.
Outro prisma a ser visto é quanto à noção estrutural de purismo na área musical.
Cabe aos educadores desmistificar esse aspecto tão arraigado no nosso frevo cuja conseqüência importante é a sua limitação.
Inovar, também no frevo, transformar e consumar uma «oxigenação» do sangue venoso da nossa cultura, proporcionando, em última análise, uma mutação, sem descuidar de seu mister emblemático.
Contudo, nada nos parece possibilitar antever o destino do nosso querido frevo.
Talvez devêssemos considerar critérios como um enraizamento, quase religioso, deste, à geografia humana pernambucana.
Talvez apenas dentro deste contexto, de província cosmopolita, ele faça sentido.
A exemplo de outras manifestações populares como a ciranda.
Quem sabe não está em Pernambuco o início, o meio e o fim deste ritmo que parece ferver a alma?
Apenas o tempo dirá.
Número de frases: 37
Sou fã da Bernadette Lyra.
E não é porque temos as mesmas origens não.
Se ela tivesse nascido no Camboja eu continuaria sendo profunda admiradora, porque acho a moça danada mesmo, obra e sujeito.
Maria Bernadette Cunha de Lyra nasceu num mês de outubro de 1938, em Conceição da Barra, uma cidade que fica no extremo norte do Espírito Santo, na foz do rio Cricaré.
Inventava histórias desde muito pequena e, aos sete anos, resolveu pôr uma dessas histórias no papel.
O destino desta primeira incursão literária foi a lata de lixo, mas quando já cursava o segundo grau começou a escrever e não parou mais.
De lá pra cá, escreveu contos, poesias, romances, novelas, e é autora de ensaios sobre o cinema de Pedro Almodóvar, Luiz Buñuel e Júlio Bressane.
Bernadette é considerada uma das grandes representantes da vertente pós-moderna da literatura brasileira.
Suas estruturas narrativas são sofisticadas, sua linguagem é concisa, sua ironia é pura e simples, e como escreveu certa vez «Francisco Aurélio Ribeiro Seu humor não se disfarça».
É uma lindeza o texto de ela.
Recomendo o romance Tormentos Ocasionais, onde um narrador que nunca adquire visibilidade nos coloca num jogo de memórias inventadas.
Paralelamente, a autora se destaca por seus trabalhos acadêmicos.
É licenciada em Letras por a Ufes, doutora em Artes / Cinema por a ECA, USP e pós-doutora por a Universidade René Descartes, Sorbonne, França.
Atualmente, Lyra dá aulas no curso de pós-gradua ção da UNIP-SP, assina uma coluna semanal no jornal A Gazeta, onde publica crônicas, e escreve um romance que envolve Luiza Grimaldi, vulgo A Capitoa, única mulher a assumir uma capitania hereditária de fato, no Brasil.
Assim como a personagem de seu novo livro, essa senhora é uma guerreira, dessas que encantam e enchem de orgulho quem tem a honra de conhecê-la.
O Departamento de Línguas e Letras da Ufes batizou com seu nome o prédio da pós-gradua ção em Estudos Literários, e ela também já foi Secretária de Cultura do Espírito.
Eu já tinha pensado em escrever sobre B. Lyra, mas é complicado falar sobre alguém que a gente admira, principalmente quando esse alguém tem tanto traquejo com as palavras.
Até que encontrei Bernadette.
Ela tinha vindo «buscar refresco no litoral capixaba».
Dois minutos de conversa, e a certeza do que melhor a fazer era compartilhar com você, leitor, as palavras desta generosa dama.
Conceição da Barra, sua cidade de origem, está sendo lentamente tomada por o mar.
E você está tomada por o quê atualmente?
-- Por a paixão.
Sou movida a paixão.
Quanto mais motivos aparecem para um desapaixonamento, mais eu me pego apaixonada:
por as criaturas, por a literatura, por o cinema, por o mundo, por o nosso Estado e, sobretudo, por a vida.
Como está o novo projeto do livro A Capitoa?
-- Todos os dias, religiosamente, escrevo um pedaço do livro.
Essa é a parte de meu exercício.
E, todos os dias, religiosamente, penso na Capitoa, essa mulher que deixou sua terra, seu modo de vida na corte, suas migalhas de conforto cotidianas e embarcou numa caravela, uma casquinha de noz armada com oito canhões, e cruzou o mar tenebroso, em companhia do marido, rumo a uma capitania coberta de aventureiros, degredados e índios ferozes.
Essa é a parte de minha imaginação.
E, assim, caminha o livro.
Como escritora, você se sente privilegiada por poder inventar e viver todas as possibilidades?
-- Escrever é respirar.
E, às vezes, é respirar sob as águas.
A gente sabe que nunca vai dar conta de tudo que desejava, que nunca vai conseguir traduzir o mundo em palavras, que nunca vai poder dominar a matéria dos sonhos e da imaginação.
A gente é insuficiente.
Mas, escreve assim mesmo.
Esse é o maior privilégio:
continuar escrevendo.
E você acha que seria um bom personagem de um livro?
-- Essa é a pergunta mais original que já recebi!
Dou-me conta de que ser personagem é a disponibilidade completa.
Você pode variar, mudar a cada página, ao gosto do escritor, que, como diria Rimbaud, sempre será «um outro».
Por favor, se alguém desejar, que me transforme em personagem.
Você considera que exista uma literatura feminina ou literatura é literatura e pronto?
-- É literatura e pronto.
As diferenças são cravadas no próprio fazer literário.
As diferenças são marcas, nunca definições.
Veja o exemplo do multiculturalismo.
As culturas se estruturam cada uma em si mesma, e, em si mesmas, merecem o respeito e a aceitação de outras culturas.
Mas, continuam culturas.
É aí que está a igualdade:
em reconhecer a diferença, sem estabelecer divisões ou fronteiras.
A verdadeira igualdade está na diferença.
E o que pensa a respeito dos concursos literários?
Acha que são um recurso válido para escritores desconhecidos e ou iniciantes?
-- A literatura se vê tão confinada a um espaço tão ralo nesta orgia de imagens que estamos vivendo que penso que qualquer coisa é válida para revitalizá-la.
O problema é que, nem sempre, os concursos burocráticos premiam os desconhecidos ou iniciantes que fazem literatura.
Muitas vezes, imperam o apadrinhamento, os conchavos, os caminhos tortuosos que deixam de fora aqueles que poderiam mesmo dar conta do recado.
Como você vê a ligação da literatura brasileira com a literatura produzida nos outros países da América Latina?
-- Em primeiro lugar, temos uma literatura vinda da portuguesa.
Em segundo, somos produto de uma mistura cultural diversa daquela que se processou na América do Sul.
Em esse sentido, o Brasil é único, no continente e em seus entornos latinos (Cuba, México etc).
Nossa literatura é, antes de tudo, uma questão de língua e cultura.
Por isso, é diferente daquelas que se formaram no amálgama da língua espanhola.
Nenhum conteúdo, ou melhor, nenhuma mensagem pode prescindir das materialidades que a formatam e estruturam.
Pra você, qual é o valor da literatura num mundo com tanta informação objetiva e instantânea?
-- A literatura também faz parte dessas informações que circulam no mundo.
Se ela abandona o patamar teórico-romântico dos altos ideais, da arte superior e do produto dos gênios, não deixa de ser literatura em seu fazer.
Você dá aulas de cinema e é uma apaixonada por a sétima arte.
Fale de alguns filmes te marcaram.
-- Eu vejo filmes desde criancinha.
Meu avô tinha uma sala de projeção, em Conceição da Barra, e para lá eu era conduzida, ainda nos joelhos de minha mãe e tias.
Talvez, por isso, eu ame tanto os filmes mudos e os filmes de aventuras fantásticas e absurdas.
Quais autores ou livros você recomenda para quem quer começar a ler?
E quais recomenda para quem não quer parar de ler?
-- Penso que as pessoas devem ler o que gostam.
Clássicos, best sellers, folhetos, poemas do melhor amigo, HQs, e tudo o mais que lhes der na telha e nos olhos.
O importante é ler criar o hábito e deliciar-se com ele.
Mas, como noblesse oblige, lá vai um pacote:
Cecília Meirelles é um bom começo, é a voz mais bela que jamais surgiu na literatura brasileira;
Machado de Assis da última fase é obrigatório, sobretudo Memórias Póstumas de Braz Cubas e Dom Casmurro;
Campos de Carvalho, um autor esquecido, mas estranho e maravilhoso;
Oswald de Andrade, e mestre de tantos contemporâneos;
o rei Reinaldo dos Santos Neves, com sua prosa seca e límpida.
De outras literaturas, imperdíveis são os livros de Vladimir Nabokov, mesmo Lolita, que é o mais famoso, ainda que não seja o melhor;
de Cortazar, tudo e sempre;
de Lewis Carroll, as duas Alice etc etc.
Seu conto O Primeiro Minotauro do livro Memória das Ruínas de Creta, começa assim:
Tu que buscas um minotauro, saberás reconhecê-lo.
Não te surpreendas.
Minotauros refletem como uma miragem.
Mais cedo ou mais tarde, verás teu próprio rosto espelhado em ele.
Você acha que as pessoas andam com dificuldade de encontrar seus minotauros --
Aí em nossa Guanaani, nossa ilha de mel, o que não faltam são os minotauros perdidos por as ruas, vielas, escadarias e becos.
A cada vez que volto a Vitória, dou de cara com meia dúzia de eles.
Eu os amo e os reconheço e eles parece que me amam, pelo menos, eles me reconhecem.
Bibliografia *
As Contas no Canto (contos) -- 1982 -- Fund.
Ceciliano Abel, Vitória, ES.
* O Jardim das Delícias (contos) -- 1983 -- Fund.
Ceciliano Abel, Vitória, ES.
* Corações de Cristal ou A Vida Secreta das Enceradeiras (contos) -- 1985 Ed. José Olimpyio, RJ.
* Aqui Começa a Dança (novela) -- 1986 -- Ed. Marco Zero, RJ.
* A Panelinha de Breu (romance) -- 1992 -- Ed. Estação Liberdade, SP.
* Memória das Ruínas de Creta (contos) -- 1998 -- Ed. A Lápis, Vitória, ES.
* Tormentos Ocasionais (romance) -- 1998 -- Ed. Companhia das Letras, SP.
Número de frases: 108
Alessandra Leão, criadora da banda Comadre Florzinha, lança «Brinquedo de Tambor», seu primeiro disco solo, e reafirma fidelidade à tradição como manancial de inspiração.
Considero Pernambuco o maior foco de resistência da cultura popular brasileira.
E fundamento a minha opinião não apenas por a quantidade de livros e discos lançados, mas por o número de eventos que freqüento cada vez que me desloco até o vizinho Estado.
Alessandra Leão é um nome emergido desse lago fértil.
Desde os tempos em que integrava o grupo Comadre Florzinha, formado apenas por mulheres, sua contribuição para os temas musicais regionais do Nordeste já a credenciava a galgar andaimes mais altos nesta rica cena cultural.
«Brinquedo de Tambor» (lançado sob patrocínio do Funcultura com apoio da Chesf) é um disco a ser observado com muita atenção e de forma detalhada.
Seja por o prazer que sua audição nos proporciona seja por a importante visita que faz ao maracatu, a ciranda e ao samba de terreiro, tratamos de uma obra madura de uma jovem consciente de sua missão na arte de seu país.
«Em o interior de Pernambuco festa é brincadeira;
música e dança são brinquedos.
Coco é um brinquedo;
Maracatu também, Cavalo-marinho, Ciranda ...
tudo é brinquedo e tudo é samba».
Com estas palavras Alessandra começa a apresentar didaticamente o contagiante «Brinquedo de Tambor», um disco de festa e, aparentemente contraditoriamente, melancólico.
O brinquedo e a festa, nestes casos, são os rituais onde se dança ao ritmo do coco, da ciranda, do maracatu e do samba de latada.
Não há mais quase dúvida de que o Samba nasceu mesmo no Nordeste, com forte foco na sementeira pernambucana.
Alessandra sempre teve ligação com a dança, por isso a facilidade de se deslumbrar com o «samba» de seus ancestrais.
Ela explica que o início de seu contato com a arte deu-se através das expressões cênicas.
«Iniciei a minha vida artística através do teatro e da dança em meados de 1995 e somente dois anos depois é que parti para a música».
Outro dado a ser levado em conta para se compreender a força rítmica tribal de seu disco solo é o fato de Alessandra ter se atraído por os instrumentos de percussão.
«O pandeiro foi o instrumento que escolhi para praticar com mais afinco», diz.
Alessandra Leão tem consciência de que não é exatamente uma cantora:
«O canto acabou vindo como conseqüência, quase uma necessidade de cantar e interpretar as canções que aprendi, principalmente com músicos tradicionais de Pernambuco, e tempos depois, de interpretar as minhas próprias composições».
As experiências de Alessandra -- além do Comadre Florzinha -- computam participações em shows de Silvério Pessoa e uma honrosa participação no espetáculo «Pernambuco Falando para o Mundo», do multifacetado» Antônio Nóbrega.
«Foram experiências que me deram ainda mais bagagem para lançar-me na carreira solo», afirma a artista.
«Hoje, depois de quase dez anos de carreira, iniciei mais uma etapa com meu primeiro disco autoral, realizado em parceria com o arranjador, violeiro, compositor e produtor Caçapa», comenda» Alessandra Leão.
«Este meu Brinquedo de Tambor reúne elementos do samba de roda do Recôncavo Baiano, do coco de roda de Pernambuco e Alagoas e da música negra contemporânea», define Alê lembrando que os arranjos do CD foram escritos em cima das melodias da voz e uma construção de contraponto para as cordas e para os instrumentos de percussão.
O mais inusitado do disco «Brinquedo de Tambor» é a sua formação instrumental.
«É uma coisa única, composta por dois Ilús (tambor utilizado nas casas de Xangô de Pernambuco) sendo um médio (rumpí) e um grave (rum), o pandeiro, caxixis (muito usados em rodas de capoeira), viola de 10 cordas (fiel acompanhante dos repentistas e utilizadas no samba de roda), violão de 7 cordas (usado demais no samba, como marcação rítmica) e guitarra semi-acústica».
Em o disco o clima de festejo é contagiante desde a primeira faixa, «Desperta!»,
que parece uma pancada de tambor para acordar todos e convidar para cair na dança.
Mas é bom que se pondere o fato da audição do «Brinquedo de Tambor» ser também um exercício dos mais agradáveis, justamente por nos remeter às nossas tradições mais arraigadas no inconsciente.
Estamos tratando de um disco que diverte e constrói a base para voltarmos no tempo e percebermos o quanto andamos afastados dos nossos folguedos e da nossa riquíssima musicalidade.
«Não Dê Desgosto «(parceria de Alessandra Leão com» Biu Roque),» Ficou mudo, Gavião?" (
de Alessandra), «Guerreia, São Jorge» (também de Alessandra) e «Olinda» (de Biu Roque) formam um bloco coeso de intento cultural, sobretudo porque o resultado musical é excelente, cuidado por quem entende do assunto.
«Brinquedo de Tambor não se propõe a ser uma releitura das raízes tradicionais do coco e nem do samba de roda, ele apenas reflete a nossa visão a partir desses gêneros, aliadas as nossas outras influências musicais».
O que Alessandra Leão quer dizer com isso é que ela não é uma autora-cantora de Coco e nem de Samba, mas uma compositora de Música Popular Brasileira e intérprete, que tem nesses elementos os ingredientes para sua inspiração.
A reverência é clara e explícita, mas os toques contemporâneos da nova leitura desses gêneros e ritmos garantem a Alessandra Leão e seu disco primogênito (na carreira individual) um status elevado em todos os conceitos.
Seja para quem perceber as sutis «adaptações» seja para quem preferir alijar-se dos rótulos.
É música para dançar e ouvir, para pensar na tradição e na evolução.
Tudo feito com amor à semente, que resulta em fruto sem fungo.
...
Texto escrito por Ricardo Anísio e publicado originalmente no jornal paraibano O Norte no dia 13 de outubro de 2006.
Ficha Técnica:
Brinquedo de Tambor -- Alessandra Leão
1 Desperta! (
Alessandra Leão) 2 Não Dê Desgosto (Biu Roque e Alessandra Leão)
3 Novelo De Lã (Alessandra Leão)
4 Ficou Mudo, Gavião? (
Alessandra Leão) 5 Guerreia, São Jorge! (
Alessandra Leão) 6 Arruda e Sossego (Alessandra Leão, Juliano Holanda e Mavi Pugliese)
7 Odete (Alessandra Leão)
8 Baladeira (Alessandra Leão e Juliano Holanda)
9 Tatuzinho (Alessandra Leão)
10 Chorei Toada (Fernando Cabedá)
11 Olinda (Biu Roque)
12 Samba Duro (Johann Brehmer e Luciana Samico)
Produção Musical: Alessandra Leão e Caçapa
Gravado e Editado nos Estúdios Mr. Mouse (Recife) e Mombitaba (Olinda)
Mixado no Estúdio Mombitaba
Número de frases: 59
Masterizado no Classic Master (Paulo) Compositor símbolo do Centro-Oeste, ele fala ' porta ' com sotaque típico, tem discurso ecológico e, com sua alma hippie, avisa:
«A arte de Campo Grande, Cuiabá e Goiânia ainda será descoberta "
Geraldo Espíndola é o compositor símbolo do Centro-Oeste brasileiro.
Ele fala ' porta ` e ' porteira ' com o sotaque típico do povo que nasceu nestas bandas do Brasil de dentro.
Não gosta de cidade grande, sustenta um afinado discurso ecológico e tem um jeito carinhoso que cativa todo mundo.
O modo geraldiano de compor, aliás, mudou o rumo da música feita nestes confins do Brasil e fundou uma linha na MPB que até hoje não foi analisada devidamente.
Geraldo prefere criar e se esquiva de uma auto-análise.
Mantém a essência hippie do paz e amor e segue firme na missão de menestrel pantaneiro.
«A arte de Campo Grande, Cuiabá e Goiânia ainda será descoberta.
Vai chegar o momento do Centro-Oeste», prevê com sua voz gravíssima.
Com centenas de composições, convive sem conflito com o fato da maioria dos artistas de fora de Mato Grosso do Sul pedir sempre a mesma música para gravar:
Vida Cigana.
Canção feita para a esposa na década de 70, Vida Cigana se transformou em sucesso de rodinhas de violão e repertório obrigatório de barzinhos antes de cair nas graças de artistas populares, como José Augusto e Gian & Giovani.
O grupo Raça Negra fez uma versão pagode para a música e vendeu um milhão de cópias.
A balada de letra romântica e harmonia simples já conta com mais de 60 regravações e não reflete a obra de Geraldo, cheia de melodias densas, harmonias sofisticadas e letras inspiradas.
«Toco quantas vezes me pedirem Vida Cigana.
Não tenho bode nenhum quanto a isso», ameniza Geraldo.
A maior intérprete do compositor campo-grandense é sem dúvida a irmã Tetê Espíndola.
Ela gravou pela primeira vez Vida Cigana em seu disco Piraritã, de 1980, e mergulhou no universo geraldiano, registrando pérolas como É Necessário, Vôos Claros, Rosa em Pedra Dura, Quyquyho, Vento da Noite, Deixei Meu Matão, Lava de Blues ...
Tetê e Geraldo foram muito influenciados por o mais velho dos irmãos Espíndola, Humberto, o artista plástico conhecido como O Pintor do Boi.
Incentivado por o irmão, de quem pegava letras para fazer as primeiras músicas, Geraldo praticamente fundou a cena roqueira de Campo Grande no final da década de 60.
Criou o histórico grupo Bizarros, Fetos e Pára-quedistas de Alfa Centauro com seu amigo Paulo Simões e outros companheiros.
Com isso, influenciou toda uma geração de músicos da pacata Campo Grande.
Geraldo também é personagem de muitas histórias.
Em a década de 70, quando morava no Rio de Janeiro e cantava no grupo Lodo, apareceu careca para a surpresa da maioria esmagadora de cabeludos.
«Comecei a minha carreira assim no Rio.
Totalmente sem cabelo e tocando craviola de 12 cordas no tempo áureo dos cabeludos e da guitarra elétrica», lembra.
Alguns anos depois, quando fundou o Lírio Selvagem com os irmãos Tetê, Alzira e Celito acabou finalmente tendo suas composições registradas em disco.
Metade do repertório do LP Tetê e O Lírio Selvagem lançado por a Philips / Polygram em 1978 é de Geraldo, que só então começou a ser divulgado nacionalmente.
Suas músicas já tinham forte apelo ecológico.
Em o clipe da música Bem-te-vi, produzido por o Fantástico, os quatro irmãos aparecem com collants imitando bichos do Pantanal, pintados por o artista plástico cuiabano João Sebastião da Costa.
Os mesmos que eles vestem na capa do disco do grupo.
A poesia de Geraldo retrata o olhar universal do homem pantaneiro, transformando a sua obra num verdadeiro manifesto pró-natureza.
Um exemplo é Pureza, a única parceria de ele com o conterrâneo e amigo Almir Sater: "
Você que já brincou numa árvore, ali nos matos, sabe que o prazer de uma fruta é um doce fato, se ligue nas crianças que tem no homem a esperança, de saber a natureza coisa real, e que nunca nos fez mal sempre ajudou, até quem só desprezou».
Justamente o teor ecológico de suas canções que acabou levando Geraldo Espíndola para a França em dezembro de 2005.
A o ser convidado para fazer um despretensioso voz e violão para abrir uma palestra sobre desenvolvimento sustentável na Universidade Católica Dom Bosco, em Campo Grande, em 2003, Geraldo carimbou seu passaporte para a Europa sem saber.
Em a platéia estava o professor de economia da cultuada universidade Sorbonne, Léo Dayan.
Diretor da ONG francesa Apreis, Dayan se encantou com Geraldo.
Resultado, após dois anos de articulação, o ecologista cumpriu a promessa de levar o músico campo-grandense à Europa.
Geraldo fez uma série de nove concertos na França:
começando por a Ile d'Oléron, passando por Fouras, Ile de Ré, Tonnay-Boutonne, Jonzac, Saint-Savinien e concluindo com dois shows em Paris, ambos no anfiteatro Richelieu, da Sorbonne.
Para Dayan, «Geraldo é uma lenda da música de Mato Grosso do Sul e de toda a região Sudoeste do Brasil».
As palavras de Dayan provavelmente passarão em branco no Brasil, afinal, a música sul-mato-grossense é desprezada e desconhecida na grande mídia, mas surtiram efeito em solo francês.
A primeira viagem de Geraldo para a Europa vai virar o DVD Um Brasileiro na França, com imagens da apresentação do compositor na Sorbonne.
A iniciativa partiu da própria universidade."
Pedi para desligar o som e toquei acústico e cantando sem microfone mesmo.
Aquele lugar é mágico e passou muita coisa na minha cabeça», conta.
A empolgação de Dayan em torno da obra de Geraldo e o apoio do Ministério da Cultura francês e da própria Sorbonne forçaram o músico a encarar a realidade da falta de incentivo para a cultura no país, ou no estado.
Para viajar, acabou tendo de contar com a ajuda financeira de amigos para comprar uma única passagem, pois foi só ele e violão para a França.
«Não tive apoio do governo nem estadual e nem federal.
Vendi alguns boizinhos dos amigos para poder viajar», relata sem constrangimento.
Com a experiência na França, Geraldo passa por um novo surto criativo.
Relembrando tudo o que viu e as pessoas que conviveu, as últimas músicas do compositor estão saindo com letras em quatro línguas.
«Estou misturando português, espanhol, francês e guarani.
As canções estão bem bonitas», anima-se o compositor de 54 anos.
Além do DVD francês, pretende lançar o CD ao vivo Intimidade Acústica, em que o próprio Geraldo gravou pela primeira vez Vida Cigana.
Mas o compositor prefere ficar longe de previsões e seguir, como gosta de dizer, o ritmo do rio.
«Vivo todo dia como se fosse o último da minha vida.
Não dá para ficar pensando no futuro», finaliza.
Confira abaixo a entrevista com Geraldo:
Como é compor centenas de canções quando a maioria dos cantores só quer gravar Vida Cigana?
Acho maravilhoso.
Toco Vida Cigana quantas vezes me pedirem e não tenho bode nenhum quanto a isso.
Adoro ouvir as pessoas gravarem porque cada um veste a música diferente e isso me encanta e me deixa apaixonado por a obra.
Vou descobrindo coisas na música que não sabia.
Fico faceiro principalmente porque é meu ganha-pão.
Vivo disso e espero continuar vivendo bem um dia só de música.
Por que suas músicas não chegam a uma Gal Costa ou Maria Bethânia?
Não sei responder.
Mas vivo correndo atrás.
Outro dia o Gian & Giovani me gravaram também com Vida Cigana.
Os sertanejos me procuram bastante.
Os que consigo ir atrás, mando material.
Tenho me organizado para atender todo mundo que me pede música.
às vezes, na minha confusão, deixo de mandar.
Mas raramente perco uma oportunidade.
Ela aparece, mergulho de cabeça.
Você morou no eixo Rio-São Paulo na década de 70.
Por que decidiu voltar de vez para o Matão?
Para mim tudo é experiência adquirida.
Em o Rio toquei no grupo de rock Lodo.
Quase que a gente explodiu.
Em a época tinha o Vimana com Lobão e Lulu.
Depois fiquei mais em Sampa com o Tetê e O Lírio Selvagem.
O problema é que não gosto de cidade muito grande.
Só com muito dinheiro.
Sem dinheiro prefiro estar no meu Mato.
E foi isso que aconteceu na verdade.
Muita fama e nenhum dinheiro.
Aí voltei à minha terrinha para refazer a vida.
Já casado e com mulher grávida.
Aquelas coisas.
E não errei porque sabia que o mundo iria passar na janela da minha casa.
Hoje falo com o mundo inteiro graças ao computador.
Em pleno reinado dos cabeludos nos anos 70 você apareceu careca cantando no Lodo.
Como foi isso?
Fui obrigado a servir o exército por três dias.
Até conseguir escapar do último exame lá dentro.
Fugia há três anos e eles me pegaram na hora em que ia viajar para o Rio.
Usava meu cabelo tipo Jimi Hendrix e fiquei puto porque me rasparam a cabeça.
Fui carregado até a barbearia e o povo ovacionando.
Eles iam me mandar para servir em Porto Murtinho.
Acabou tendo excesso de contingente e escapei.
Então fui careca para o Rio e não me adaptava.
Usei por uns três dias uma peruca enorme da Tetê de cabelo liso até formar um calo na orelha.
Aí comecei a raspar todo dia e manter a careca.
Então era todo mundo cabeludo e eu careca tocando craviola de 12.
Esse foi o começo da minha carreira no Rio.
Como você analisaria a sua obra no panorama da MPB?
Não dá tempo de perceber estas coisas porque vivo criando.
Sem parar.
Não conseguiria me definir.
Prefiro que os jornalistas façam isso.
Então em quem você se reconhece na música brasileira?
Em o pessoal de Minas, que tem uma levada em 6/8 como nós daqui também.
Em o pessoal da Bahia, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e João Gilberto.
Roberto Carlos ...
Todos me influenciaram e são meus ídolos.
Fala-se muito que Campo Grande não tem uma identidade própria ainda.
Você concorda?
Não concordo.
Acho que já tem uma identidade própria sim.
Reúna todo este povo que começou há 35 anos e teremos a prova de que já existe uma identidade de arte sul-mato-grossense.
O Humberto, o Jorapimo, o João Sebastião e outros nas artes plásticas, por exemplo.
Justamente porque estas pessoas estão vivendo e trabalhando na sua aldeia e correndo o mundo.
E eu tenho certeza de que ainda vai rolar a arte do Centro-Oeste todinho.
Aqui, em Cuiabá, Goiânia ...
Em a década de 70 você já fazia músicas em que tocava na questão da ecologia.
Você acha que as pessoas estão mais conscientes neste ponto atualmente?
Acho que o panorama melhorou muito.
Tem mais gente consciente.
Mas quero ver quem vai salvar o rio Taquari.
Em 1980 pescava dourados enormes no Taquari.
Isso não tem dinheiro no mundo que vai fazer voltar.
Então o Taquari é um exemplo de como o Pantanal pode ficar se a gente continuar acabando com tudo que existe.
E a água que está na nossa região, no Aqüífero Guarani, é o futuro de toda a Humanidade.
Não se pode se brincar com isso.
O Pantanal é Patrimônio Histórico da Humanidade e não nos pertence mais.
E traz divisas, desenvolvimento sustentável, emprego para todo mundo do Turismo e este é o caminho da salvação desta região.
Então todos nós temos a lucrar com isso.
Nossa arte pode ser bem vendida.
O mundo inteiro está passando por aqui por causa do Pantanal, um lugar maravilhoso para se passar férias.
O caminho é o turismo.
Qual a análise que você faz desta primeira ida em 2005?
Percebo que o MINC tem de ficar com os olhos mais abertos.
Eles não conhecem o Brasil.
Tem muita coisa acontecendo.
Eu me inscrevi para que eles custeassem a minha passagem, mas ninguém prestou atenção no Geraldo Espíndola.
Não queriam nem ao menos incluir meus shows no roteiro oficial do ano Brasil-França e isso só aconteceu por pressão do próprio Ministério da Cultura da França.
Devo ter errado alguma coisa naquela papelada toda.
É provável.
Você comprou a passagem do próprio bolso?
Sim.
Fui para a França com o dinheiro de amigos pessoais, que graças a Deus venderam uns boizinhos para me ajudar na passagem.
Não tive nenhum apoio da Secretaria e Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul.
Acho isso pelo menos esquisito.
Entendo que todo mundo aqui tem de apoiar todo mundo.
Mas este negócio de dividir o apoio a todo mundo é uma coisa meio esquizofrênica.
Divide, divide e acaba não saindo um único produto de altíssimo nível.
Eu não conheço.
E quando pinta um lance importante como este da França não tem gente na cultura com olho bem aberto e vivo para dizer: "
Isto é importante.
Estou dentro!».
Pelo contrário. Tem gente dormindo.
(corta!
Salto de alguns meses) ...
fiz esta matéria com o Geraldo em janeiro / fevereiro de 2006.
Nos encontramos numa ensolarada manhã e conversamos embaixo das árvores do Parque dos Poderes.
Como já fazia um bom tempo que a matéria estava na gaveta e finalmente seria postada no Overmundo, resolvi conversar novamente com Geraldo, até porque tinha que fazer a foto de ele.
Em outra manhã ensolarada, fui até a sua casa, a mesma que ele mora há 25 anos na Coophatrabalho, um bairro distante do centro de Campo Grande.
A porta estava literalmente aberta e foi só entrar.
... E o DVD que você gravou na França?
Em que pé está?
Nós já estamos em agosto e o meu DVD na França foi parar na Justiça.
Cresceu o olho da equipe francesa produziu.
Eu contratei verbalmente sem assinar nada.
Um dos sócios era brasileiro e os outros dois franceses.
A produtora chama-se L'Equipe.
Em a França, os direitos autorais são fudidos.
Os caras querem o copyright de tudo que gravei no DVD.
A o ponto de eu ter que pedir autorização para eles para eu poder vender o meu DVD e ainda dar a maior parte do dinheiro para eles.
Então estou entrando na Justiça na França, através da ong Apreis e a associação Lez ' arts dês Mondes.
Eu não vi nada ainda do material gravado, mas alguns amigos viram e disseram que está deslumbrante.
Tem umas cenas que estou andando nos corredores da Sorbonne, intercalando com Paris, os monumentos, entrevista no hotel ...
sei que está neste pé.
E veja como são as coisas!
O quê?
Nós começamos esta entrevista em janeiro e já estamos em agosto.
E eu já tive a oportunidade voltar à França outra vez num grande evento em setembro.
Mas é muito difícil conseguir a passagem de novo.
E para conseguir no Ministério da Cultura, por exemplo, é preciso de muita antecedência.
Se não eu sei que não consegue.
Porque é burocracia pura.
E eu to sem passagem de novo para ir para Paris, trabalhar uma semana só lá.
E neste período eleitoral parece que ficou mais difícil ainda.
Mas tudo bem.
Janelas e portas abertas não vão se fechar por causa de um evento perdido.
Tem outros.
O Blue Note de Paris está interessado num show em janeiro de 2007.
Fica aos pés de Montparnasse, é a coisa mais linda.
Tomei a sopa que Van Gogh e Gaughan tomaram.
Eles moravam ali nas pensões e antigos prédios, num circuito de turismo fantástico e mundial, que é o que nós podemos fazer com nosso Pantanal.
Esta situação de não ter meios de ir à França é um reflexo de algo maior?
Em estas quatro décadas da dita Moderna Música de MS não se conseguiu se fazer ainda um mercado interno nosso e que impulsionasse uma ida sua como esta para a França?
O que acontece?
O que é engraçadissimo porque o mercado da gente é fora do nosso estado.
Os estados que nos cercam gostam muito mais da nossa música moderna de MS do que o nosso povo daqui.
Isso sempre foi assim.
Talvez a resposta da pergunta esteja em algo mais profundo, antropológico mesmo, que é aquela coisa do cara vir para cá ...
porque o estado é formado basicamente de forasteiros.
Não surgiu ainda o espírito sul-mato-grossense de fato ou uma geração que se sinta realmente de MS?
Eu acho que surgiu, isso sim, o sul-mato-grossense paulistano.
É uma mentalidade bem paulista.
Prestação de serviço, grana e vamos gastar fora.
Sendo que aqui é que tem de se investir.
Começa por a educação, conservar ecologicamente o nosso Pantanal, nossas bacias hidrográficas, nossos rios ...
isso aqui é o futuro de toda a comunidade de nossa terra.
Nosso estado tem uma população pequena e ninguém dos empresários artísticos dos grandes centros se interessa.
Nossos próprios artistas que têm condições de assumirem uma bandeira maior, todos se esquivam.
Inclusive eu.
Já assumi e briguei muito no passado e to cansado.
Acho que é pra outra geração agora.
Eu to levando a minha vida, só isso.
É muito sistemático, complicado, mas muito responsável.
Campo Grande vai fazer 108 anos no próximo dia 26.
Você nasceu aqui em 1952.
Se você fosse analisar a passagem do tempo e a música, como seria?
Antes dos festivais no final da década de 60, já existia o chamamé sempre me acompanhando.
Aquela música paraguaia.
Por trás de toda a informação que vinha do Rio e Sampa, dos grandes centros, sempre tinha aquela sanfoninha do Dino Rocha ou do velho Corrêa ...
Mas mercadologicamente.
Em a década de 60 tinha a coisa mais amadora dos festivais.
Em 70 vocês foram para São Paulo.
Em os anos 80 rolava mais dinheiro na música, porque o público parece que lotava mais os shows.
Tinha mais grana sim.
E mais público também.
E tinha o governo municipal muito voltado para os artistas locais também.
Não tinha tanta divisão entre o município e estado, as duas casas andavam praticamente juntas.
Sinceramente eu não sei onde está a falha.
Acho que é uma falha coletiva, mas eu te garanto que não é só do artista.
Sinto falta de mais jornalismo, mais arquitetura, mais literatura ...
O que falta para dar o boom nesta cidade?
Estruturar, sei lá.
Conseguir formar um mercado, vender discos, divulgação com mais dignidade, mais respeito das rádios daqui principalmente.
Não tocam a gente e quando você sai da rádio os caras jogam seu CD no lixo.
Toda esta geração sua de músicos daqui, que envolve você, Almir, Paulo Simões, Roca, Tetê, Alzira ...
têm pontos de forte ligação em suas obras e poderia ter sido uma espécie de ' Clube da Esquina ' de MS.
Até a década de 80 vocês caminharam ainda bastante juntos e depois da década de 90 parece que vocês se dispersaram.
É estranho porque parece que com a vinda da novela Pantanal, na extinta Manchete, em 1990, houve uma espécie de estouro da boiada (kkkkk).
Aconteceu isso mesmo?
Muito interessante seu ponto de vista.
Eu sinto sim que houve uma dispersão total.
A gente caminhou muito junto na década de 70.
No caso de Simões, eu e Roca desde 1968.
Ainda na década de 80 e houve mesmo esta dispersão depois da novela Pantanal.
Muito gozado.
É isso mesmo.
Vamos destacar alguns momentos mais importantes da música daqui.
O momento primeiro do MS em termos de música foi quando o Tetê Espíndola & Lírio Selvagem apareceram com um clipe no Fantástico em 1978.
Foi o primeiro grupo daqui a gravar um vídeo para o Fantástico e o povo do Brasil se surpreendeu com a gente, porque pensavam que existia só índio, boi e onça.
Depois foi a Tetê Espíndola ganhando o Festival da Globo em 1985 com Escrito nas Estrelas.
Isso mesmo.
E o ponto mais alto foi com a novela Pantanal, chamando a atenção do Brasil para o MS e que resultuou na explosão do Almir Sater como ídolo nacional.
Depois disso acabou, não tivemos mais altos vôos na grande mídia.
Realmente esta onda não aconteceu de novo.
Vamos aguardar, tem muita estrada para se caminhar.
O jornalismo cultural do Brasil está muito voltado para o Rio-SP e das coisas que vem da Europa e Eua.
E eu até arrisco dizer que o máximo de interior que os jornalistas cariocas e paulistanos vêm é Minas Gerais.
O máximo do interior para o carioca é uma loja em Copacabana.
A gente que saber o que são guetos culturais no Brasil.
Por isso temos de nos unir mais e defender o que é nosso.
Precisamos nos unir mais, mas por outro fator.
Por a política da arte e não partido político.
Algo que passa de geração a geração.
Assim que eu penso.
E o Intimidade Acústica?
Você está com este disco pronto.
Quando vai lançar?
Levei para a França uma pequena tiragem e não deu para quem quis.
E agora falta o dinheiro de novo para prensar o disco.
La plata que move el mundo.
O que se faz?
Parece que todo mundo que mexe com a cultura é demais ocupado para prestar atenção na arte.
Discografia / GERALDO ESPÍNDOLA
30 Anos Em este Mato (Independente, 2004)
Produzido por Arrigo Barnabé e Mario Campos
ESPÍNDOLA Canta (LuzAzul, 2003)
Produzido por Jerry Espíndola
GERALDO ESPÍNDOLA (Independente, 1998)
Produzido por Tetê e Humberto Espíndola
Tetê E O Lírio Selvagem (Phillips, 1979)
Número de frases: 292
Produzido por Luiz Em Agosto de 2007 o Museu da Imagem e do Som do Pará aprovou no Edital da Cinemateca Brasileira o projeto de restauro das obras em branco e preto de Líbero Luxardo.
Foi o primeiro grande passo na preservação da obra do grande nome da história do cinema no Pará.
1. Descrição das Obras
O Museu da Imagem e do Som do Pará vem apresentar a esse edital a proposta de restauro dos seguintes títulos de seu acervo de películas da coleção " Líbero Luxardo:
* Homenagem Póstuma a Magalhães Barata», local e ano de produção:
Belém-PA, 1959;
cine-jornal 16 mm;
acetato; B / P;
sonoro; 20 minutos.
«GT 2B;
* «Um Dia Qualquer ...»,
local e ano de produção:
Belém-PA, 1962;
filme longa-metragem em 16 mm;
acetato; B / P;
sonoro; 100 minutos.
GT 2B, emendas em fita adesiva;
* «Marajó -- Barreira do Mar», local e ano de produção:
Belém-PA, 1964;
filme longa-metragem em 16 mm;
acetato; B / P;
sonoro; 80 minutos.
«GT 2B;
* Belém 350 anos», local e ano de produção:
Belém-PA, 1965;
cine-jornal 16 mm;
acetato; B / P;
sonoro; 10 minutos.
GT 2B;
2. Histórico das Obras
Líbero Luxardo, o cineasta da amazônia
Existe um cinema paraense?
Essa pergunta não teria resposta se feita nos dias de hoje, pois a maior parte da nossa população ignora que exista um cinema genuinamente paraense.
Talvez, se fosse feita nas décadas de 50 e 70, certamente, a resposta seria sim.
E um nome surgiria para representar essa arte:
Líbero Luxardo.
Sua determinação em realizar filmes superou todas as barreiras para imprimir na película seus ideais, sua paixão por a região amazônica, por o Estado do Pará.
Líbero Luxardo foi o pioneiro na realização de longas-metragens no Pará.
Realizou, entre as décadas de 1950 e 1970, dezenas de documentários jornalísticos (cine-jornais) e quatro longas-metragens, sendo até os dias de hoje os únicos filmes de longa duração realizados no Pará.
Esta filmografia hoje faz parte do acervo do Museu da Imagem e do Som do Pará, sendo nosso mais importante patrimônio fílmico.
Paulista de Sorocaba, nascido a 05 de novembro de 1908, aprendeu a operar a câmera com o pai e o irmão, ambos fotógrafos e pioneiros do cinema no interior paulista.
Foi assistente de câmera dos filmes que o pai fazia sobre eventos sociais e culturais de sua cidade, os quais exibia no cinema da cidade.
É o ponto de partida de uma vida inteira dedicado ao cinema.
Aventurou-se por o Mato Grosso numa expedição e lá conheceu Alexandre Wulfes, seu câmera no chamado «Ciclo Matogrossense» onde realizou filmes como «Alma do Brasil -- Retirada da Laguna» (1932), e também, já com patrocínio da «Cinédia de Adhemar Gonzaga, Caçando Feras (1936)», uma comédia musical, e» Aruanã " (1938), misto de ficção e documentário sobre uma lenda indígena, todos clássicos do obstinado cinema brasileiro dos anos 1930.
Já em meados de 1940, realizando filmes sob encomenda, desembarcou em Belém para fazer a cobertura de um evento médico.
Conheceu então personalidades do meio cultural e político da cidade, entre eles o então governador-interventor Magalhães Barata, de quem se tornou documentarista oficial.
Cine-Jornal -- Homenagem Póstuma a Magalhães Barata (1959)
Líbero cobriu a vida política de Barata por mais de 10 anos.
De o auge de sua popularidade até seus últimos dias e despedida, num grande enterro que comoveu todo o Estado.
Sua produtora a «Amazônia Filmes» registrou cerca de 10 anos de material político, que somado às comoventes imagens do funeral de Barata fez o média-metragem «Homenagem Póstuma a Magalhães Barata, em 1959».
É um dos documentos históricos mais importantes do Pará, pois retrata a vida do político mais popular de nossa história política.
Uma obra que nas entrelinhas mostra um Pará de contrastes e de uma certa inocência, devido ao tradicionalismo do caudilho.
O cineasta parte então para a execução de projetos mais ambiciosos.
Foi quando em 1962 reuniu capital utilizando de sua influência política e suas próprias reservas, elenco amador e um argumento de sua autoria pra realizar o primeiro longa-metragem de ficção da história do Pará:
Um Dia Qualquer ...
Um Dia Qualquer ... (
1962) Já no inicio da filmagens de «Um Dia Qualquer ...», em 1962, a cidade de Belém em grande expectativa.
Os críticos à principio torceram o nariz, pois um paulista chegava pra filmar Belém com a pretensão de narrar nosso cotidiano.
Líbero escalou o advogado Hélio Castro e a bela Lenira Guimarães como os protagonistas de uma história que se desdobrava em outras em apenas um dia.
Líbero conseguiu introduzir em " Um dia qualquer ..." todas as paisagens marcantes de Belém:
Ver-O-Peso, Avenida Presidente Vargas, Praças Campos, Igreja do Carmo, Maloca, entre outros.
Além também de manifestações culturais como o Círio de Nazaré, hoje uma procissão com milhões de devotos, Boi-Bumbá e um culto de Tambor de Mina.
O professor Carlos, interpretado por o advogado e ator amador Hélio Castro, perde sua esposa e passa a vagar por a cidade num dia qualquer.
Essa história principal cede espaço para outras histórias se desenrolarem, com alguma ou nenhuma ligação com a trama principal.
Uma obra com pretensões filosófico-existenciais, buscando referências diversas como o Neo-Realismo e a Nouvelle Vague, que causou furor na sociedade belenense com cenas de nudez e violência.
Todas essa tramas de alegria e tristeza são embaladas por a músicas do maestro Waldemar Henrique como «Tamba-Tajá» e «Uirapurú».
O filme teve um lançamento «hollywoodiano» no Cinema Olympia e carregado de expectativas, mas as crítica e o público não foram muito favoráveis.
O filme apresentava, segundo os críticos, um série de «defeitos», como descontinuidade em algumas cenas, ritmo irregular e diálogos que fizeram a intelectualidade paraense se manifestar indignada.
Passados mais de 40 anos de sua produção a nostalgia que o filme transmite passa por cima de tudo e faz de " Um dia qualquer ..." um marco do cinema numa região tão carente de investimentos em manifestações artísticas.
Marajó -- Barreira do Mar (1964)
Logo que chegou no estado do Pará, na década de 40, Luxardo iniciou um roteiro chamado «Amanhã nos encontraremos», do qual também fez algumas cenas na Ilha do Marajó.
O projeto foi interrompido por a 2ª Guerra Mundial, período de escassez de películas cinematográficas.
Em o ano de 1963, depois de haver realizado «Um dia qualquer..», juntando quase toda a equipe técnica e elenco deste, mais o material do projeto interrompido, realizou o filme» Marajó -- barreira do mar».
Totalmente rodado em locações na Ilha do Marajó, com algumas cenas iniciais em Belém, sem nenhuma cena em estúdio.
Todo o elenco e equipe mudou-se durante cerca de três meses para a Fazenda Livramento, típica fazenda de búfalos marajoara.
Lá desenvolveu o enredo do arqueólogo que pesquisa sítios marajoaras, e se hospeda na fazenda onde outras histórias de amor e ódio se desenrolam.
Uma espécie de faroeste amazônico numa das paisagens mais exóticas do Pará.
É um dos raros registros do dia-a-dia da ilha neste período e do funcionamento de uma típica fazenda da Ilha, com Casa Grande, vaqueiros e as grandes regiões alagadas, cercadas de mitos e lendas.
Um ponto importante a se ressaltar são os solos de violão compostos por Sebastião Tapajós, paraense e hoje um dos maiores violonistas do mundo.
«Marajó «é segundo filme do denominado» Ciclo Amazônico «de Líbero, onde ainda seriam realizados» Um Diamante e Cinco Balas em 1968 «e» Brutos Inocentes em 1973», já em película colorida de 35 mm..
«Um Diamante e Cinco Balas «foi perdido e de ele só restam o roteiro e algumas fotos de produção, e» Brutos Inocentes» está conservado na reserva do Mis-Pará em cópia restaurada nos anos 1990.
Cine-Jornal -- Belém 350 anos (1965)
Em o ano de 1965 Belém do Pará completava 350 anos, e a produtora de cine-jornais de Líbero, Amazônia Filmes, não podia deixar passar me branco.
Junto com seu cinegrafista Milton Mendonça, que mais tarde o sucederia na realização destes cine-jornais, fizeram um filme homenagem a esta «Belém» «metrópole «e seus» grandes arranha-céus «que ainda guarda suas» suntuosas construções seculares».
Praças, clubes, monumentos, tudo que Belém tinha e ainda tem de bom, nos dando a oportunidade de fazer uma viagem no tempo, percorrendo uma Belém da memória.
O próprio Líbero e a estrela de «Marajó», Lenira Guimarães, aparecem neste filme, fazendo a divulgação do filme longa-metragem do cineasta para empresários locais.
3. Acervo de películas do Mis-Pará
Todos estes títulos listados pertencentes a Coleção Líbero Luxardo estão armazenados na reserva de películas do Mis-Pará.
Estão higienizados, identificados e catalogados, depositados num espaço desumidificado e refrigerado permanentemente.
4. Considerações finais
Em 2008 será comemorado o centenário de nascimento de Líbero Luxardo e este projeto é a uma justa homenagem para este que é nosso mais importante realizador.
A aprovação no «Programa de Restauro da Cinemateca Brasileira», para obtenção de uma cópias novas dos filmes em película e em mídia digital, proporcionará a difusão desses títulos para que possamos salvaguardar os originais em película sem que a sociedade se prive de seu relevante conteúdo.
Bibliografia
Veriano, Pedro. (
Coord.) A Crítica de Cinema em Belém.
Secretaria de Cultura, Desportos e Turismo.
1983.
Veriano, Pedro.
Cinema no Tucupi.
Secult. 1999.
Veriano, Pedro.
Fazendo Fitas. EDUFPA.
2006.
Acervo da Cinemateca Brasileira
Número de frases: 104
Acerdo da Academia Paraense de Letras Sapatos
Em Guerra (
Autor: Antonio Brás Constante)
Se existe uma peça de indumentária que mereceria se revoltar contra o homem, seriam os sapatos.
Quando digo «sapatos» me refiro a todo e qualquer calçado, incluindo desde chinelos e sapatinhos de neném, até botas, sandálias e tênis.
Os calçados ficam literalmente por baixo em nossa sociedade, são os chamados eternos sofredores.
Passam a vida pisando em coisas desagradáveis, sendo largados sujos em cantos da casa.
Vivem pisoteados, carregando todo peso das pessoas nas costas.
Em os jogos são sempre os que mais sofrem e nunca são lembrados.
As camisetas que não fazem nada durante a partida são beijadas e trocadas entre os jogadores ao final do jogo.
Já os pobres sapatos, que passaram o tempo todo dando de cara na bola, ficam com o chulé do time sem a merecida importância que deveriam ter.
Afinal, se um jogador jogasse pelado calçando apenas suas chuteiras, ele conseguiria jogar sem maiores problemas (desde que evitasse o jogo de corpo), mas se usasse todo fardamento e jogasse descalço, não conseguiria correr direito e se firmar em campo.
Os sapatos são considerados muitas vezes como potros selvagens, pois em muitos casos necessitam ser «amaciados» antes de se poder usá-los com o devido conforto.
Em estes casos, o não «amaciamento» pode causar bolhas e calos nos pés.
Se um dia os calçados resolvessem se vingar e partir para o confronto, levariam vantagem, pois eles mais do que ninguém sabem enfrentar desafios, vieram de baixo e dominam a arte de chutar as dificuldades.
Possivelmente começariam lançando um ataque químico utilizando nossas próprias meias, para então nos dar uma bela rasteira, mostrando que se quiserem «fincar o pé» eles conseguem.
Caso fossem vitoriosos, reescreveriam a história da moda, tomando o lugar dos chapéus na cabeça das pessoas, passando a ver o mundo de cima.
Em este momento teríamos a certeza que o fim está próximo, pois quando os calçados alcançarem o topo, então será porque nosso mundo estará finalmente todo de cabeça para baixo.
E-mail:
abrasc@terra.com.br Sites:
www.abrasc.pop.com.br www.recantodasletras.com.br/autores/abrasc
Atenção: Divulgue este texto para seus amigos. (
Caso não tenha gostado do texto, divulgue-o então para seus inimigos).
Número de frases: 23
Hermila volta à sua terra natal com um filho e uma espera.
Enquanto aguarda a chegada de seu marido a Iguatu, reencontra
familiares e antigos amores e tenta ganhar algum dinheiro.
Ela tem a esperança daquele que se assentou, ou está prestes a.
Mas a notícia de que seu marido de fato não virá-lhe causa o choque.
Ela agora está em dupla crise, a mesma crise que muitos
migrantes vivem ao abandonar seus lares e familiares, combinada com a ânsia dos jovens de se encontrar.
Duas situações tão comuns,
mas que poucos conseguiram solucionar facilmente.
A verdade é que Hermila não abandonou seu lar, ela ainda o está buscando.
Suely é seu alter-ego e surge como parte da solução.
O céu agora é o limite.
Apesar de ela ainda ter o filho a tira colo, é difícil não pensar em Tyler Durden dizendo " é só depois que
perdemos tudo que estamos livres para fazer qualquer coisa».
O filme corre bem, mostrando-nos o cotidiano dessa personagem.
Parece algo saído do cinema verité, algo que muito me agrada, situações reais, sons reais, sem grandes truques de edição ou iluminação;
as atuações são genuínas, fica a impressão que muitos são atores de primeira viagem, fazendo papel de si mesmos (coincidências de nomes entre atores e personagens reforçam essa idéia) e em algumas cenas do filme me perguntandei se não havia de fato um grau de improviso.
Número de frases: 17
A história é um dramalhão, mas não há apelações, ou sacadas super-estilosas, apenas as sutilezas da vida.--
Jamile, vai chamá o vô!
Dona Alzira prepara café na térmica.
O calendário marca o último dia de 2003.
«O bijú já tá pronto.
Avisa ele pra mim».
A menina sobe os degraus da casa e vai até a sala.
«Vô, vem toma café.
A vó tá chamando», diz ela.
Seu Julino está na janela da casa, acompanha o movimento quase inexistente na vila.
De sua casa ele pode ver o Rio dos Patos serpenteando à direita da pequena comunidade.
As casas são construídas em madeira, em elevações sobre o mangue.
Seu Julino interrompe seus pensamentos.
-- Já vou indo.
Para se chegar de barco à vila de Rio dos Patos é preciso subir o pequeno riacho que corta o mangue.
O trecho só pode ser alcançado por embarcações maiores com maré alta, mas mesmo assim com muito cuidado para não encalhar.
Em a vazante só é possível subir o rio em canoa a remo.
Mesmo com todo esse isolamento, no último dia de 2003 o movimento na vila estava acima do normal.
Canoas sobem e descem o estreito riacho.
Em as férias, muitos aproveitam para visitar os parentes, como Jamile que vive em Guaraqueçaba e só nessa época pode passar uns dias com os avós.
Os três se sentam nos bancos baixos em volta do fogo-de-chão, quase de cócoras, bem ao modo indígena.
«Renato disse que ia trazer uns amigos para visitar a gente véio», diz Alzira a seu Julino.
Ele não dá muita atenção, mas Jamile se interessa, com a curiosidade natural dos adolescentes.
«O que eles vêm fazê aqui?».
-- Conhecê, oras.
-- Mas aqui?
-- É.
Renatinho disse para a deixa umas ostras pr ' o almoço.
O velho esconde o interesse, mas a notícia da visita é bem vinda.
Ele bem que gosta de um dedo de prosa.
Depois do café, seu Julino retorna à janela e às suas divagações.
«Ai, ai.
Vai sê bom algum movimento, só para variar ...».
E volta a sua preguiça, com o olhar perdido na paisagem.
A aparente fragilidade física não faz jus à força de vontade deste homem, que já fez de tudo nessa vida para criar os seus.
Hoje, com 78 anos de idade, seu Julino é o patriarca dos Pereira.
Todos os demais membros da família são seus filhos, sobrinhos ou netos.
Sempre alegre, o velho garante que neste mundo de Deus não há família tão bonita como a sua.
E gosta de repetir:
-- Eu sou Rei aqui do Rio dos Patos * * *
Rio dos Patos, onde vive a família Pereira, é um dos lugarejos mais isolados no interior do Parque Nacional de Superagüi.
As condições de vida são bastante semelhantes às encontradas por os primeiros imigrantes suíços, quando chegaram à região na segunda metade do século XIX.
Em o vilarejo não há luz elétrica nem saneamento básico.
As primeiras casas foram construídas no início dos anos 1930 por a família Pereira, que veio do Ariri.
A mudança, de acordo com o patriarca Julino Manoel Pereira, foi necessária.
-- Lá para a cima a terra não era boa.
Garantem que a propriedade onde agora vivem foi deixada como herança para dona Alzira Pereira Coelho por o seu avô, o coronel Virgílio Domingos Afonso, descendente dos imigrantes da então Colônia de Superagüi.
-- Aqui é tudo herança da minha mulher, por isso o Ibama não tira nóis, mas eles vive pinchando para a gente sai.
A vila não passa de um apanhado de cinco ou seis sítios.
Algumas centenas de metros mata adentro estão as ruínas da fazenda do tal coronel.
«Tem pino de tijolo lá na mata com mais de cinco metros de altura», diz Julino, com os olhos esbugalhados, como se tivesse visto assombração.
Partindo da vila por uma trilha esguia na mata encontramos alguns vestígios de pedras empilhadas.
Estão camufladas sob terra, limo e vegetação rasteira.
O vigor e a exuberância com que cresce a Mata Atlântica na Ilha de Superagüi se encarregou de apagar do mapa a maioria dos vestígios do que um dia foi a Colônia Suíça de Charles Perret-Gentil e William Michaud.
A fazenda do coronel Virgílio, segundo Alzira, chegou a ter uns duzentos escravos.
-- Em aquele tempo tinha uns negro.
Mas era um que perturbava e ele já mandava matar.
Os olhos de Alzira ficam esbugalhados, dando-lhe um ar dramático.
Ela e seu Julino acreditam piamente que estas matas que cercam a vila são povoadas por as almas daqueles negros assassinados.
-- São os Caduema.
às vezes leva uns bicho, gente até.
Pergunto como é a vida ali e ela descontrai.
«Em a época o serviço era essas coisas de mexer no mato, na terra.
Se plantava arroz, feijão, mandioca, cará.
Hoje vive tudo da pesca e ostra.
Minha nora vai no mangue e tira cinco seis caixas de ostra."
Em a verdade, até a metade da década de 1990 as famílias ainda cultivavam arroz, milho, feijão e mandioca, que era beneficiada nas casas de farinha.
Hoje a cultura está proibida, mas algumas comunidades ainda produzem mandioca e farinha à revelia dos fiscais do Ibama.
Em Rio dos Patos, porém, o movimento das rodas de farinha há tempos cessou.
Os alimentos e itens básicos são comprados de comerciantes que percorrem essas vilas de difícil acesso em pequenas embarcações.
-- Fruta vem tudo comprado.
Só banana têmo aqui, mas porque plantâmo.
Também deixaram de existir a capela e o pequeno campo de futebol que havia no centro da comunidade e era chamado por os moradores de «praça».
Lá ocorriam os campeonatos de futebol, brincadeiras e festas como a de Nossa Senhora do Carmo, Padroeira do lugar, celebrada até alguns anos atrás no dia 16 de julho.
Hoje, são poucas as famílias que residem permanentemente na comunidade de Rio dos Patos.
Quem está em idade de trabalhar vai para Guaraqueçaba ou Paranaguá em busca de trabalho, saúde e educação, nessa ordem.
Número de frases: 76
Ficam para trás apenas os idosos e algumas crianças menores.
Dizem que as idéias geniais são sempre as mais simples.
Sentado num banco de plástico no Espaço Usina, em Casa Forte, com chapéu verde e olhar concentrado, Felipe Caburé, 40 anos, percussionista, entrega que ainda não caiu a ficha do que ele acaba de inventar.
«Alguns amigos estão dizendo que eu revolucionei a maneira de tocar pandeiro», comenta.
Mas, no mesmo fôlego, completa:
«Eu acho que não».
Em a mão, o pandeiro que ele segura tem um estranho suporte de ferro, parecido com um puxador de gaveta.
É o massa.
Basta colocar o pandeiro na mão usando o massa que se entende a função de ele.
O objeto muda o centro de equilíbrio do instrumento, repousando a mão do instrumentista.
É uma sensação bem próxima a passar a vida subindo de escada e, de repente, encontrar um elevador.
O suporte foi ergonomicamente pensado para facilitar o aprendizado e, mais importante, dar fim à tendinite que acompanha a mão de nove entre cada dez pandeiristas.
«Nasceu de uma vontade de tentar vencer a dor», recorda» Caburé.
«Quando comecei a aprender a tocar, cai na ilusão que a dor me traria um ganho».
O calo que já ocupava metade do dedão de ele, no entanto, discordava da idéia.
Foi quando decidiu colocar em prática o que aprendeu sobre cinesiologia no curso de Educação Física.
O nome complicado é a ciência que estuda os movimentos do corpo.
De onde são criados novos tênis e roupas para atletas.
Quando mostrou a idéia para os amigos, a reação foi única.
«Poxa, é massa!».
O adjetivo se repetiu tanto que acabou virando o nome do suporte.
De esse primeiro susto pra cá, o massa já teve cinco versões.
«Levei para um ortopedista e depois para um engenheiro para eles sugerirem modificações», explica» Caburé.
«O engraçado é que todos ficaram espantados quando tiveram o primeiro contato com ele.
O engenheiro quase enlouquece», fala com bom humor.
Em esse segundo momento, de divulgação, o marketing fica na mão do criador.
Onde vai, Felipe carrega seu pandeiro com um massa instalado.
«Ele chegou lá em casa ainda com o protótipo, um puxador de gaveta», se recorda a multiinstrumentista Ganga, do grupo» Côco Lunar.
«Em a hora fiquei curiosa, peguei pra testar, quando vi falei logo ' pô, que massa! '».
Hoje, ela toca junto com Caburé e nas apresentações que faz com outros grupos fora do estado sempre mostra a novidade.
Custo
Como existem poucas fundições no Recife capazes de fazer o molde de ferro do massa, o preço do suporte ainda é alto.
«Eu acho ele muito caro», concorda Caburé.
Em o Recife, o massa está sendo vendido nas lojas Gramophone, Ci Eletrônica, Oficina da Música e Musitecnica.
Chega para o consumidor ao preço final de R$ 48.
Quase o mesmo preço de um pandeiro artesanal.
Felipe já tem a solução para isso:
um molde de plástico mais resistente.
Quando fizer isso, o preço cai para R$ 15.
Número de frases: 39
A única coisa que o impede de colocar essa solução em prática é o custo do molde, que sai, em média, por R$ 60 mil.
Os Ambervisions, se é que dá para falar dessa forma, é «o trem fantasma do rock catarinense».
Por isso, quem gosta de diversão garantida preste muita atenção quando eles passarem por a sua região ou por o seu Estado e não perca o baile.
Afinal de contas, esse trem fantasma apresenta algumas (quase todas) bizarrices marcantes que acompanham os melhores representantes do gênero (normalmente escondidos nos parques de diversões que, por sua vez, se escondem nos subúrbios das grandes cidades brasileiras, e que ainda fazem imenso sucesso nos interiores do Brasil).
Um rock tosco e barulhento.
Garageiros talvez seja a palavra que melhor os define.
Para contrastar com a tosqueira os mesmos se definem como a primeira e única banda representante do genuíno e autêntico «rock do PFL».
Para tanto, a apresentação é carregada de uma quantidade absurda de baixarias que se misturam a um bom bocado de humor e muito surf music com pitadas de punk rock.
Ou seria punk rock com pitadas de surf music?
Isso não importa.
Para os quatro:
«Surf Music Caveira, pra zoar a massa funkeira;
yeah. Não fechamos para o almoço."
Após o sucesso alcançado com o primeiro disco Cada dia mais a mesma coisa, o segundo disco da banda Bons momentos não morrem jamais (2004) -- lançado por a gravadora goianense Monstro Discos em parceria com o selo Migué Records -- chegou ao mercado arrebatando corações.
São quatorze faixas nas quais os quatro elementos desta banda sacaneiam quase todo mundo.
Segue aí alguns versos para vocês terem uma pequena amostra:
Eu não gosto dos besouros
Pau no cu do iêiêiê
Agora, para que todos possam entender melhor a idéia fantasmagórica que assola a banda, chamo até a passarela do Overmundo os quatro representantes desta chalaça catarinense (observação, se possível leia a apresentação individual com aquela voz de radialista de rádio AM ou de apresentador de baile de debutantes.
De preferência, não se empolgue muito para que as pessoas não tenham certeza de que estás ficando louco):
Zimmer, no vocal -- apresenta movimentos dançantes sutis (quase um balé clássico) que se amplificam em seu corpinho atlético (que ocupa quase setenta por cento do palco), sempre acompanhado por um par de maracas -- marca registrada das apresentações desde os primórdios da banda.
Amexa, na guitarra -- quase dois metros de altura contrastando com sua magreza inconfundível.
O apelido?
A o conversar com ele (por as fotos também) é possível entender sua origem.
Outra curiosidade é que, dependendo do lugar onde a banda se apresenta -- palco pequeno e teto baixo --, agita (pula) levemente curvado para não bater com a cabeça no teto e abalar as estruturas das dependências rockeiras.
Arioli, no baixo -- ocupa pouco espaço no palco e, dependendo da performance do vocalista, em alguns momentos, chega a desaparecer.
O fã-clube da banda diz que é ele (o envergonhado) que se esconde atrás do vocalista.
Em a minha modesta opinião, o fã-clube tem razão.
Cris, na bateria -- os três marmanjões colocaram a parte feminina da banda pra trabalhar e a menina não dá mole.
Mais do que isso, dá pra dizer que é ela quem sustenta toda a confusão (digamos que ela seja a mais interessada), os outros dois ajudam um pouco e o terceiro, no caso o vocalista, que reza a lenda não aparece nem nos shows quanto mais nos ensaios, é quem ganha os méritos.
No entanto, ao se referirem ao lado feminino da banda, os três marmanjões, com um leve toque de bom humor, se unem numa só voz:
«Sim, uma baterista mulher».
Feita a apresentação, dois pequenos avisos para quem está pretendendo chamar a banda para uma preformance rockeira:
O primeiro (pequeno aviso):
ao tentar contratar a banda é preciso lembrar de uma coisa consideravelmente relevante:
o vocalista da banda -- o gordinho -- nem sempre gosta de trocar a tranqüilidade de seu lar (e a geladeira sempre ao alcance *) por aventuras regadas, normalmente, a xis saladas.
Para tanto, é necessário se precaver para não ser surpreendido na hora H.
Segundo (pequeno aviso):
A banda sem o vocalista -- sonoramente -- não perde, praticamente, em nada (se as maracas me escutam!),
além disso, existe a possibilidade de economizar em xis salada e na dimensão do palco.
Por sua vez, tenho que admitir que -- esteticamente falando -- o show sem o mega-pop-star Zimmer perde um pouco o impacto, a elegância e a presença de palco (credo, ganhou os méritos de novo!).
Depois das (des) informações iniciais e dos dois pequenos avisos, provavelmente, tu estás pronto para conferir um show d' Os Ambervisions.
Fique atento para saber quando o trem fantasma vai passar por a sua cidade ou região.
Maiores informações tu encontrarás no site da banda que, mantendo-se fiel ao estilo, nem sempre se encontra atualizado.
Abraços e até a próxima.
* Por o meu porte atlético vocês hão de convir com mim que eu concordo com ele em gênero e número.
Número de frases: 46
Quem é do Recife, ou conhece a história da cidade, sabe da importância do Cinema São Luiz.
O cinema é imponente por a beleza arquitetônica e elementos decorativos, com sua fachada de vidro, de frente para o Rio Capibaribe, mármores, vitrais, lustres.
Inaugurado em 1952, o São Luiz fechou as portas em outubro de 2006.
A boa notícia é que o cinema será reaberto no início de 2009 e será o principal espaço do projeto Estação Audiovisual de Pernambuco, que visa à criação de um complexo de divulgação da produção audiovisual, por meio da recuperação estrutural e modernização de equipamentos do Cine São Luiz, Cine-Teatro Arraial e Museu da Imagem e do Som de Pernambuco (Mispe), todos localizados na Rua da Aurora.
O anúncio foi feito na noite de encerramento do 1° Festival de Cinema de Triunfo, ocorrida no último dia 16, por o governador Eduardo Campos e por a presidente da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco -- Fundarpe, Luciana Azevedo.
O imóvel será alugado ao Grupo Severiano Ribeiro por um valor mensal de R$ 20 mil e serão investidos cerca de R$ 600 mil na revitalização.
Após a conclusão dos trabalhos, o lugar passará a comportar tanto a exibição audiovisual quanto a realização de atividades de capacitação e treinamento.
Pretende-se, por exemplo, oferecer aos alunos das escolas públicas, durante o dia, oportunidades de acesso às projeções e, à noite, será a vez dos cinéfilos aproveitarem uma programação de qualidade a preços populares.
Além disso, o Governo acertou parceria com o Instituto Lula Cardoso Ayres para instalar a Cinemateca Pernambucana, a qual com contará, inicialmente, com os 3 mil títulos do acervo da entidade.
Número de frases: 9
* Com informações da Fundarpe.
Olhar-se é condição essencial para a sobrevivência da identidade frente à crise acachapante da Modernidade, a Era da promessa desfeita de que à luz da razão, o indivíduo, o Outro, seria reconhecido e respeitado.
É a partir desse ponto de vista que percebo a importância de um evento como a I Mostra Amazônica do Filme Etnográfico, que levou a telas de dois centros universitários de Manaus, obras clássicas e atuais com lentes voltadas ao universo pan-amazônico.
Realizado entre os dias 1º e 7 de dezembro, entretanto, com uma programação que incluía mini-cursos, fórum de debates, mostras competitivas e paralelas, o evento -- talvez por seu caráter pioneiro na região -- não chegou atingir a expectativa de público dos organizadores;
não obteve destaque na imprensa local;
e nem mesmo chegou a movimentar significativamente o meio acadêmico da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) ou do Centro Universitário do Norte (Uninorte), como esperava o Núcleo de Antropologia Visual (Navi) da Ufam, organizador da Mostra.
Por outro lado, é importante ressaltar que esse foi um primeiro passo de uma revolução que ainda é possível:
a do auto-conhecimento a partir da imagem;
e daí para a reflexividade de pensamento que nos tirará do atraso.
Ou pra sempre seremos vitrine em exibições mambembes do Exótico.
Abaixo, você confere um pouco do que aconteceu na Mostra nas palavras de um de seus realizadores, o professor Tom Zé, do Departamento de Comunicação Social da Ufam e membro do Navi, além de apaixonado por cinema.
(O resultado da mostra competitiva está no primeiro comentário da matéria, que postei lá embaixo).
Overmundo-Como foi a presença do público nas sessões, cursos e debates?
Tom Zé-O público que freqüentou as sessões de cinema (Mostra Competitiva, Mostra Paralela e Mostra Bodanzky) ficou bem aquém de nossas expectativas e não foi porque não divulgamos.
Em este tipo de evento, infelizmente, a imprensa local não se sente atraída e tivemos que «pressioná-la» (com releases) para ter um espaço.
No meu entender, a grande maioria do público manauara não tem interesse e nem curiosidade para saber o que se mostra na região.
Se é falso, se é preconceituoso, se é enganoso ou se é uma imagem comprometida com a visão de seu povo.
Penso até que o público deve achar muito interessante ressaltar apenas o lado exótico da Amazônia.
Infelizmente.
Apesar de termos preenchido as inscrições dos cursos e da oficina em seus limites dias antes do evento, o que percebemos é que durante a realização de eles só a metade dos inscritos compareceu, revelando -- quem sabe -- apenas a vontade de ter certificados e não apreender conhecimento.
O que é lamentável, pois tratavam-se de pessoas com cursos superiores ou ainda na graduação.
Semelhante situação se deu nas sessões do Fórum de Debates, que tiveram pouca participação da população.
Talvez o público não esteja acostumado a se fazer presente a debates por a tarde e de forma intensa, como ocorreu.
É uma avaliação.
O-E a participação de filmes amazonenses na mostra, em termos de qualidade em relação a obras de outras localidades?
TZ-Houve uma razoável presença de filmes e vídeos amazonenses inscritos na Mostra Competitiva, mas, sem dúvida, há ainda um descompasso técnico.
Isto não quer dizer que não houve trabalhos ruins de outros locais.
Houve, principalmente de outros estados amazônicos brasileiros.
Pode-se dizer que a produção local compete com Rondônia, mas perde para o Pará e Acre.
Pelo menos daqueles que vieram para a Mostra.
Mesmo com festivais de cinema (Um, Curta Quatro e Amazon Festival) falta ainda interesse das pessoas para realizar filmes que não sejam institucionais, propagandísticos e «comerciais».
Isto é, filmes cujo interesse maior seja o das populações locais de fato e de direito e não de «instituições»,» ONGs " ou estatais.
Falta mesmo é um aprofundamento maior na compreensão do que seja a Amazônia por nós, amazônidas.
O-Contrapondo os filmes clássicos aos mais atuais exibidos na mostra, o que mudou na maneira como vêem (ou como vemos) a Amazônia?
TZ-Analisando o que nos chegou na I Mostra, posso dizer que o olhar sobre a Amazônia está mudando.
De os filmes mais antigos aos atuais o que se percebe é uma mudança de enfoque, de ponto de vista.
Agora, os realizadores são os próprios habitantes.
Isto é, são indígenas, camponeses, ribeirinhos, as tribos urbanas, segmentos marginalizados da periferia que falam ou / e dirigem os filmes.
Não há mais pessoas «interpretando a fala» dessas populações, mas elas próprias atuando.
Claro, há também aqueles realizadores que se identificam com essas populações e realizam obras de extremo valor, como as do próprio Jorge Bodanzky, por exemplo.
O-O recente documentário sobre os bumbás de Manaus, produzido por o professor Sérgio Ivan, do departamento de Antropologia da Ufam, mostrou que o cinema pode ser uma boa forma de aproximar a população em geral do conhecimento produzido dentro da Universidade.
Há algum projeto do Navi nesse sentido?
Quais os planos para 2007?
TZ-Com relação ao documentário produzido por o prof. Sérgio Ivan, eu pessoalmente não o conheço, mas acho que ele perdeu uma boa oportunidade de difundi-lo ao não inscrevê-lo na I Mostra.
Aliás, aproveito para fazer uma crítica a alguns professores da Ufam e, em especial, aos antropólogos.
Eles foram os grandes ausentes.
Não participaram de nenhuma forma.
Nem com esse filme especificamente, nem com sua presença nos cursos e debates.
Parece que nem estava acontecendo nada de interesse acadêmico em Manaus nestes dias.
Parece que se algo não sai dos próprios Departamentos, esses professores ignoram os demais eventos.
A não ser, obviamente, que haja interesse pecuniário por trás ...
Mas, de um modo geral, não acredito que eventos como este possam aproximar a população do conhecimento produzido dentro da Universidade simplesmente porque quem deve produzir esse conhecimento não parece estar muito interessado numa aproximação.
É o que percebo, ao longo de mais de vinte anos de Ufam.
Quanto aos planos futuros do NAVI, está a edição de um número especial da revista Somanlu, do Mestrado Sociedade e Cultura na Amazônia, com os principais pontos levantados na I Mostra e artigos especiais de professores (de outras Universidades) que participaram de ele.
Pensa-se em produção de um filme, sim.
Mas essa é uma questão de levantar recursos financeiros e uma missão um pouco mais difícil.
O-Como estudioso do cinema, como o senhor analisa a recente produção amazonense a partir dos pequenos festivais que vêm acontecendo, como o Um Amazonas e o Curta 4?
TZ-Como disse, a recente produção local ainda é muito incipiente.
Ela carece de apoio das instituições locais do Estado, em primeiro lugar, e de instituições empresariais.
No entanto, já há uma certa produção, que, acho, está se deixando levar -- por as limitações de seu tempo, um minuto, quatro minutos -- para a experimentação.
Não que a experimentação seja algo ruim, mas, de certa forma, está «bitolando» os realizadores.
Eles não parecem avançar.
Há também uma grande ausência de criatividade de se pensar em algo mais aprofundado, que, portanto, exija mais tempo de realização.
E, note bem, não significa apenas «estender» o tempo filmado!
Significa ter conhecimento consistente sobre o que se produz e não ficar repetindo fórmulas e cair na mesmice!
Aí, sim, poderemos ver a capacidade criadora de nossos cineastas!
Não basta só produzir clip musical e sair ganhando algum tipo de prêmio!
É preciso ainda construir uma base local de apoio à esse tipo de produção audiovisual e não apenas a Film Comission para grandes empreitadas, que geralmente vêm de fora!
O-Cinema (incluindo as tecnologias digitais, obviamente) pode ser uma arte economicamente viável no Amazonas?
É possível profissionalizar-se na área?
TZ-Graças à tecnologia de hoje, é possível fazer muito mais cinema.
Mas esta máxima não se aplica ao Amazonas.
Primeiro porque aqui falta quase tudo para apoiar uma empreitada cinematográfica.
Segundo porque não há uma boa capacitação técnica para cinema.
Terceiro porque há uma falta de interesse em se produzir obras que falem realmente das coisas da Amazônia.
Não basta ter uma câmara ou uma ilha de edição se há uma crise de identidade e de criatividade.
Por tudo isto, não temos como possuir um pólo produtor de cinema aqui e nem de se ter profissionais nesta área.
Ou será que, por haver possibilidades de gravar imagens com um celular, alguém pode ser chamado de cineasta e aquela obra ser taxada de filme?
É verdade que com esses equipamentos quase domésticos, Augusto Masagão realizou uma pequena obra-prima, «Nós que aqui estamos por vós esperamos», mas aí está a diferença -- no gênio criador, na busca de originalidade.
O-Qual a contribuição de um grande evento como o Festival Internacional de Cinema, que chegou à terceira edição neste ano, para a cinematografia da região?
Filme em ponto de ônibus populariza cinema?
TZ-O Amazon Festival é mais uma obra faraônica e megalômana da gestão Robério Braga.
Só serve para massagear seu ego.
Infelizmente. É ridículo oferecer 15 mil reais para o vencedor do melhor roteiro amazonense dizendo que será usado na produção do filme e «que ele será mostrado na próxima edição do Festival» quando se sabe que o gasto com o Festival e em trazer estrelas ocultas e diretores apagados é de vários milhões de reais!
Deveria se incentivar mais a exibição de filmes em locais que nunca tiveram acesso a ele, tipo bairros, escolas, centros sociais, interior do estado (sede e periferia dos municípios), mas para isto seria necessária uma produção local que satisfizesse isto porque, se não, o que vai haver é uma enorme difusão de filmes babacas.
E isto contribui para a degeneração da cultura que a TV já faz muito bem.
Uma coisa está ligada à outra!
Se filme em ponto de ônibus populariza o cinema?
Não acredito.
Para se assistir a um filme temos que ter tempo, paciência, compenetração e estar num ambiente de casa de cinema (meio escuro), tudo o que um ponto de ônibus não oferece.
Dizer que «estamos levando cinema à população passando filmes em pontos de ônibus» é populismo e babaquice de péssimo gosto, como se a população não tivesse que ter as mesmas condições de assistir filmes que as camadas economicamente dotadas têm ao ir aos Shoppings, pois agora é lá o espaço do cinema.
Número de frases: 91
E não é à toa que estão lá.
Queridos:
M Paulo Nunes, RN Monteiro de Santana, William Palha Dias, Manfredi Cerqueira, Paulo Freitas, Nelson Nery, Fides Angélica, Herculano Morais, Hardi Filho, Alcenor Candeira, Wilson Gonçalves, Benjamim do Rego Monteiro, Ferrer Freitas, Cinéas Santos, Celso Barros, Zózimo Tavares, João Cláudio Moreno, Luciano Klaus, Diva Maria Figueiredo, Júlio Medeiros, Ana Regina Barros Rego Leal, Alcides Nascimento, Felipe Mendes, Claudete Maria Miranda Dias, Benjamim Santos, Shara Jane Costa Adad, Durvalino Couto, Aurélio Melo, Acy Campelo, Açaí Campelo, Sonia Terra, Edvar Castelo Branco.
Josevita Tapety, Pedro Costa, Natacha Maranhão, Kenard Kruel, OG Rego de Carvalho, Divaneide Maria de Carvalho, Alisson Paixão, Socorro do Vale, Stefano Ferreira, Rita Campos, Dagoberto de Carvalho Jr, Paulo Machado, Lameck Valentim, Efrém Ribeiro, Fred Maia, Miridan Brito, Isabel Cardoso, Cléa Resende, Edmo Campos, Arimateia Azevedo, Rogério Newton, Silvio Mendes, Marcos Vilhena, Roberto Sabóia, Gilberto Escórcio, Zé de Maria, Roger Jacob, Margareth Leite, Machado Jr, Vanda Queiroz, Teófilo Lima, Roraima, Fonseca Neto, Marcos Fonteles, Tânia Martins, Judson de Barros, Poliana Cavalcanti, Vavá Ribeiro.
Arimatea Carvalho, Luizão Paiva, Assis Carvalho, Renan Nunes, Antônio Neto, Dirceu Andrade, Anna Bárbara Sá, Edvaldo Nascimento, Edilson Nascimento, Cyntia Lages, Anucha Melo, Liliane Pedrosa, Luis Carlos de Oliveira, Marco Vilarinho, Oton Lustosa.
Alcide Filho, Albert Piauí, Antonia Dias, Silvio Leite, Tainah Amorim, Gutemberg Cavalcanti, Claudi Pinheiro, Anne Amorim, Renato Marques, Jota A, Amaral, Sebastião Segundo, Mariana Arraes, Tânia Sâmara Lemos, Manu Hélcias, Cristiane Seqquef, Lucia Moura, Paulo Moura, Dionísio Carvalho, João Kennedy, Rosa (Oda Mae) Magalhães, Lumena Adad, Clara Adad, Marta Tajra, Tiel Reis, Viktor, Paulo José Cunha, Patrícia Melodi, Carlos Martins, Orlando Berti, Sayonara Holanda, Euvira Raulino, William Tito, Serjão Campos, Robert Jonh, Elizabeht Sá, Domingos de Melo Filho, Marcelo Alelaf, Alda Caddah, Graziani Fonseca, Marcelo Evelin
Assim como eu, todos vocês já se solidarizaram com muitas causas humanitárias e filantrópicas durante suas vidas.
E cada um de nós, ainda que minimamente, acaba de se envolver com um processo eleitoral, todo mundo, até quem, como eu, não votou.
Ninguém ficou alheio!
Então, Atenção!
Atenção!
Atenção!
Eu tenho uma proposta para você Tânia Sâmara (srta Rasta), fazendo uso do seu nome para falar com cada um dos acima nomeados (a escolha não foi aleatória, você é linda!):
Quero convidá-la para um exercício de solidariedade.
A solidariedade de que trato não é aquela historia de passar uns trocados ou juntar roupas velhas e distribui-las, ou a sopa dos mendigos, nada contra esta, estou tratando de um outro tipo.
Falo daquela solidariedade de fazer uma coisa todos juntos, uma celebração, em que repitamos, no plano intelectual, o ato simbólico dos Campinenses abraçando a Fábrica de Laticínios dos Campos.
Quero ver o Luizão Paiva fazendo música por a restauração da fábrica, como também o Roraima e o Machado Jr (ou jingles).
Queria, mas isto é um sonho, que um fotografo de moda viesse fazer uma sessão de Fotos com modelos bem charmosas (é sonho mesmo!).
Quero ver a Cyntia Lages falando da restauração da fábrica em seu programa, a Anne Amorim criando mais algumas comunidades sobre a fábrica no orkut.
Queria, queria não, quero que vocês, William Tito e Shara Jane, empunhem, cada um, um mouse de computador e escreva no seu Blog sobre a campanha por a restauração da fábrica e que, de quebra, acha superlegal que se busque irmanar todos através de uma campanha suprapartidária.
Que vocês convençam seus amigos do quanto pode ser bom demonstrar solidariedade por uma campanha cujo objetivo é uno e incontestável:
a restauração da velha fábrica.
Que você, Zózimo, escreva três linhas na sua prestigiada coluna:
«Sou a favor da restauração da Fábrica de Laticínios dos Campos».
Não custa nada você fazer isto, ou custa?
Se cada um fizer um pouquinho seremos ouvidos!
Mas me contento se as outras pessoas enviarem
E-mails, faxes ou cartas afirmando a sua solidariedade à campanha.
A este material será data ampla publicidade seja por a mídia virtual ou impressa.
Número de frases: 29
Agora, se alguém quiser entrar de cabeça na campanha pode até publicar um livro sobre o Dr Sampaio ou fazer um documentário a respeito de toda aquela aventura
O título é bastante sugestivo, o filme fala da guerra que houve na ex-Iugoslávia, entre sérvios e bósnios, da intervenção da ONU, do papel (fomentativo) dos Eua na guerra ...
usando sempre do «bom humour» e da crítica ...
O título poderia bem se referir a esse conflito que ocorre num «ex-país» que acolhe pelo menos duas grandes etnias:
uma terra de ninguém!
Porém, o final do filme é, no mínimo, intrigante. (
Quem não viu me perdoe por contar o final!)
Imaginem vocês a cena:
um dos personagens principais (se é que se pode dizer que há personagens principais numa história assim) cai deitado de costas sobre uma mina.
O veredicto do perito em minas é categórico -- " não conheço ninguém que consiga desarmar uma mina desse tipo depois que ela foi acionada;
este homem está morto»!
Todos vão embora e o homem fica lá, sobre a mina, vivo ...
no entanto: morto ...
É possível imaginar final mais filosófico que esse?
Essa Terra de Ninguém poderia bem ser uma metáfora para a própria vida, lugar por onde passamos, Terra do não-ser, porque tudo que há perece e a constância é apenas uma palavra a mais no dicionário.
Fico pensando se não estamos todos de costas para uma mina, principalmente nesses tempos de violência.
Qualquer movimento brusco pode detona-la.
Até que ponto não somos todos vivos-mortos?!
O legal mesmo é ver o filme, pensar, sentir e tirar suas próprias conclusões.
Terra de Ninguém -- Site Oficial -- Inglês
Ficha Técnica:
Terra de Ninguém (Em o Man's Land, França / Itália / Bélgica / Reino Unido / Eslovênia, 2001)
Direção: Danis Tanovic
Roteiro: Danis Tanovic
Elenco: Branko Djuric, Rene Bitorajac, Filip Savagovic, Simon Callow e Katrin Cartlidge.
Gênero:
Drama de Guerra
Número de frases: 27
Duração: 98 minutos por ronald augusto
diz o murograma
poeta mas essa escarificação
essa pichatura (
literatura da pichação
porquanto se cunhou oratura
para literatura oral)
essa pichatura sobre o orumuro
permite também que se troveja e mire
em sua caligrafia malassignada
um M metonimizado em solita sagita
ou uma seta-T
a meio caminho
de se arrematar / desatar
em M anamorfizado e de pernas fechadas
assim pode o murograma áspero no corte (
craca nesse tipo de sistema de segurança e defesa que sobrou para o emurado
cidadão pé-de-chinelo à cata e comensal de vidro em postas
para barganhar com a vida)
encimado de duros cacos
não obstante sua rijeza monolítica lito-
gráfica pode
dizer elegendo o impreciso
a escrita defectiva de conturbado urbano
palimpsesto (folhas de rosto
discursos sobrepostos)
o seguinte
poema /
poeta um pouco tres-
loucadamente também gosto de ouver no quase-signo do caligrama indecidível
o murograma murmurando para o design
para a economia dos seus sentidos
uma sorte de key lexical emprestada de hermes
uma anagramatização in absentia
de algo que imagino assim
mensagem /
mensonge mas
ad-mire e veja na seqüência de fotogramas do cinemuro (raptografados
criptografados por o olho táctil de esse
antissonantepoeta ali de passagem em rota por a aldeota)
anima-de os significantes com vida própria
por contras-
te com a língua amortecida
da escrita cursiva dos tipos i-
móveis fontes
infantes desde
mil e
quinhentos (num diálogo com o poema «ugumleituras», de cândido rolim, 27/28 de fevereiro de 2007)
Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961.
Poeta, músico, letrista e crítico de poesia.
É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) e Confissões Aplicadas (2004).
Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature:
a special issue, vol. 18, n0 4, Baltimore:
The Johns Hopkins University Press (1995), Dichtungsring -- Zeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2006, colaborações em diversos números, poesia verbal e não-verbal) www.dichtungsring-ev.de.
Poemas publicados em Brasil / África:
como se um mar fosse mentira, São Paulo:
Ed. Unesp, Angola:
Chá de Caxinde, 2006.
Artigos e / ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura:
Babel (SC / SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA), Caderno Cultura do Diário Catarinense (SC), Suplemento Cultura do jornal Zero Hora (RS);
Revista Dimensão nº 28/29, tradução de poema de e.
cummings (MG);
Revista AT (MG);
Revista Roda Arte e Cultura do Atlântico Negro (MG);
www.slope.org; www.cronopios.com.br;
www.clareira.naselva.com, entre outros.
Assina os blogs:
www.poesia-pau.zip.net, www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com. É integrante do grupo os poETs:
Número de frases: 68
www.ospoets.com.br. A obra " Mídia, Educação e Cultura:
Múltiplos Olhares sobre a Comunicação Regional», publicada por a Editora Argos, da Unochapecó, será lançada no XI Colóquio Internacional de Comunicação para o desenvolvimento Regional -- Regiocom 2006.
O lançamento está marcado para esta segunda-feira, dia 9, em São Bernardo do Campo (SP).
Organizada por o professor Dirceu Luiz Hermes, diretor do Centro de Ciências de Comunicação e Ar-tes da Unochapecó, o livro reúne artigos apresentados no X Regiocom, realizado na Uno-chapecó em agosto do ano passado.
Segundo o organizador da obra, o livro reúne artigos que enfocam mídia, educação e cultura sob o aspecto do fortalecimento das identidades regionais.
É um resgate das identidades regionais, valoriza a história e as tradições regionais na busca de expansão geográfica, acrescenta Dirceu.
Em as suas 244 páginas, a obra tem como base estudos investigativos consolidados em áreas conexas à temática.
Assim, trata sobre o telejornalismo como possibilidade para a construção de um modelo de cultura, a mediação tecnológica representando um ambiente desafiador para interpretar demandas educacionais, a oposição entre o erudito e o popular e a discussão entre o global, o nacional e o local.
Em o formato de 16X23, a obra da editora da Unochapecó pode ser encontrada em Cha-pecó na Livraria Universitária Argos e em outras cidades do Brasil, como Curitiba, Brasí-lia, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Vitória e Recife.
Quem preferir pode adquirir o livro atra-vés do site www.unochapeco.edu.br/argos.
Extra Comunicação -- Hugo Paulo de Oliveira-Jornalista / MTbRS4296 -- Texto:
Número de frases: 11
Joane Marcon É segunda-feira de manhã e Mestre Curica parece bastante animado, andando de um lado para o outro do estúdio, fazendo graça e contando piadas sem parar.
Estamos no primeiro dia de gravação do CD Pará Planetário e até aqui o trabalho andou mais rápido do que Kassin e Carlos Eduardo Miranda, os produtores encarregados do projeto, esperavam.
A seu lado, Aldo Sena e Vieira, seus companheiros no grupo Mestres da Guitarrada, esperam pacientemente o próximo take de gravação e se divertem com as presepadas de Curica.
Um pouco tímido, Kassin ri meio sem jeito das piadas do músico, que capricha na pornografia e nas palavras de baixo calão sem ligar nem um pouco para as mulheres presentes no local.
E assim a gravação prossegue por o resto do dia:
descontraída e animada, bem de acordo com a música que Kassin e Miranda, mais a cantora Cynthia Zamorano, esperam mostrar ao mundo através do Pará Planetário.
Em uma conversa na lanchonete do estúdio com Miranda e Betty Dopazo, diretora de marketing da TV e Rádio Cultura, fico sabendo que, apesar da grandeza do projeto e das pretensões dos envolvidos (fala-se até em lançar o disco por uma gravadora internacional), o Pará Planetário nasceu de uma parceria informal entre os produtores e os responsáveis por o Festival de Verão da Rádio Cultura, realizado em 2005 no último final de semana do mês de julho na Ilha de Algodoal.
Acontece que, como é praxe nesse tipo de evento, a produção local trouxe jornalistas, produtores e músicos de fora do estado para conhecer o que a música paraense tem.
Terminado o festival, Kassin e Miranda gostaram tanto do que ouviram que resolveram ficar mais um pouco.
Já no dia seguinte estavam trancafiados no estúdio Apce, um casarão do começo do século passado localizado na parte antiga de Belém, trabalhando em parceria com a Rádio Cultura num projeto de registro da nova música paraense, batizado posteriormente de Pará Planetário, um CD duplo com versões originais e remixes das músicas de artistas como Gabi Amarantos, DJ Beto Metralha, DJ Iran, Metaleiras da Amazônia, Grupo de Carimbó Uirapuru, La Pupuña e Mestres da Guitarrada.
Não é exatamente uma coletânea pontuada por a uniformidade artística.
Em a verdade trata-se de uma compilação guiada exclusivamente por o gosto pessoal dos dois produtores.
O que Miranda e Kassin ouviram e gostaram durante sua estada no Pará entrou no CD.
Em comum talvez o fato de que todos fazem música pop.
Música com vontade de ganhar o mundo através de um tratamento eletroacústico orientado por os dois produtores em parceria com Cynthia Zamorano, o guitarrista Pio Lobato e os DJs Iran e Beto Metralha, que durante a semana de gravação do Pará Planetário trabalharam como co-produtores do disco.
São intenções que se revelam no encontro entre Miranda e Beto Metralha.
Foi uma tarde de conversas malucas sobre filmes de terror, quadrinhos, produções B e demais obscuridades, com direito à menção honrosa ao longa de animação «A Festa dos Monstrinhos Malucos», clássico da Sessão da Tarde injustamente esquecido nos dias de hoje.
Mas enquanto o La Pupuña registra a sua mistura de guitarrada com surf music e rock progressivo, na lanchonete a conversa muda de rumo quando Miranda liga o som portátil que carrega para cima e para baixo desde que eu o encontrei pela primeira vez em Belém.
Diante de um Beto bastante atento faz as conexões entre o tecnobrega produzido por ele e Iran e o som urbano global.
Visivelmente impressionado com o que ouve
e bastante interessado nas batidas cruas e no arranjo minimalista da música eletrônica contemporânea, Beto começa a entender o lugar que o tecnobrega pode vir a ocupar nesse mesmo cenário.
E melhor ainda:
parece perceber que, tecnicamente, bastam apenas alguns upgrades tecnológicos para que o estilo se torne tão popular quanto o reggaeton, o grime, o banghra, o ragga / jungle e demais mestiçagens sonoras.
Beto ouve com atenção e lamenta resignado, " tudo na música depende do grave, cara, mas com as caixinhas que eu tenho um nunca vou conseguir um grave desses.
«É, véio», completa Miranda enquanto despeja um alucinado raggamuffin em cima de mim e de Beto,» isso aqui só com máquina.
Tem que ter máquina pra fazer essas linhas de baixo.
Só software não dá».
Tudo bem.
Afinal a guitarrada e o tecnobrega são estilos eminentemente urbanos, nascidos na periferia de Belém.
A guitarrada no começo dos anos 70, via o contrabando de discos do Caribe para o porto da cidade, e o tecnobrega no alvorecer do século XXI como a recriação digital da música romântica paraense dos anos 70 e 80. Ambos são a trilha sonora do lado mais miserável da cidade, que se recria constantemente através
da tecnologia barata e da pirataria.
De um jeito ou de outro é possível estabelecer conexões entre elas já que ambas compartilham de uma mesma origem e, embora em épocas diferentes, nasceram do mesmo processo de miscigenação cultural em vigor até hoje.
Mas e o Grupo Uirapuru?
Olhando para estes senhores com idade entre 60 e 80 anos fica difícil imaginá-los como a última novidade da música pop, concorrendo lado a lado com Tego Calderón, M.I.A., Dizee Rascal ou Daddy Yankee.
Pois lá estão eles, todos de uniforme e crachá no peito esperando que Miranda e Cynthia lhes dêem o sinal para entrar em estúdio (Kassin participou apenas da gravação dos Mestres da Guitarrada, voltando ao Rio de Janeiro em seguida).
É então que eu quebro a cara e vejo aqueles senhores superarem as minhas expectativas.
Já faz mais de meia-hora que a gravação acabou e eles continuam tocando.
A essa altura a lanchonete do estúdio já se transformou num grande terreiro de carimbó.
Calibrados por doses fartas de Velho Barreiro, conhaque de alcatrão sem o qual não tocam e nem sobem ao palco, os músicos batem forte nos tambores feitos de troncos de árvore numa espécie de transe coletivo.
A batida é sincopada e firme, acompanhada de um banjo basicamente percussivo e um saxofone que sustenta as harmonias do cantador principal enquanto os outros músicos repetem os refrões.
Ninguém parece cansado nem disposto a parar de tocar.
Juntos, eles me lembram mais um live PA de psy trance do que um grupo de música folclórica.
Se música para dançar e indução ao transe é o que os produtores do CD estavam esperando, não poderia haver escolha melhor.
Sexta-feira, último dia de gravação.
Passo no hotel para pegar Miranda e levá-lo ao mercado de São Braz, onde ele pretende comprar vinis de carimbó e guitarrada.
Em o caminho vamos conversando sobre gibis e sobre porque Oliver Stone é o pior cineasta do mundo.
Para Miranda ele é tudo o que há de pior no cinema norte-americano:
brega, pomposo e egocêntrico.
Tento defender o cara dizendo que JFK é um grande filme.
Miranda não concorda e vamos discutindo até o mercado.
Nada de música.
Melhor assim, já que eu também não estou com disposição para lhe perguntar mais nada sobre o Pará Planetário.
Após uma semana de Guaraná Garoto, na ordem de litros e litros por dia, ele me confessa que já está na hora de mudar de hábito.
«Agora água mineral com gás é o que liga, véio», diz ele enquanto procura discos antigos para comprar.
Depois de um tempo, se detém numa caixa de Luiz Gonzaga em perfeito estado.
O preço é uma pechincha.
Negócio feito, é hora de retomar o trabalho.
De volta ao estúdio já não há muito mais o que fazer.
Lá dentro, Beto Metralha e Iran produzem as bases da música que Gabi irá gravar sem nem dar bola para o técnico de som contratado para auxiliá-los.
Os dois sabem muito bem o que querem e como produzir um bom tecnobrega.
Seja num estúdio de fundo de quintal ou num estúdio de última geração como o Apce.
Base pronta, Cynthia orienta Gabi nos vocais e finaliza a última etapa de gravação do projeto.
Foram cinco dias acompanhando as gravações, bebendo Guaraná Garoto e jogando conversa fora.
Mas agora tudo o que quero é ir para casa.
Enquanto me despeço de todos, lembro de uma primeira conversa que tive com Kassin e Miranda sobre as suas expectativas com relação ao projeto.
Com uma convicção impressionante, ambos me disseram estar confiantes no sucesso do CD em levar a música paraense aos quatros quantos do mundo.
Se as previsões da dupla irão se concretizar?
Impossível dizer.
Mas a idéia de ver o tecnobrega, a guitarrada e o carimbó pulsando em conjunto com o som periférico mundial me agrada bastante.
Não sob o viés reducionista da world music, mas como um segmento viável dentro da música pop urbana do século XXI.
Enquanto esse dia não chega, continuamos por aqui produzindo música original e desafiadora.
Infelizmente para consumo interno e longe dos grandes centros.
Em as festas de aparelhagem, nos estúdios de fundo de quintal e nos terreiros do interior.
Sob o calor dos trópicos, a festa nunca termina.
Número de frases: 74
Depois da cena mangue, Recife ganhou notoriedade nacional e internacional sendo referenciada como celeiro de criação e inovação musical.
O objetivo central do site é divulgar as bandas e os eventos que fazem a «Cena Blues do Recife», mostrando que nem só de tambores vive a cidade.
Além de buscar um maior espaço para a divulgação dos shows de blues, jazz, rock, música instrumental e r ' n ' b que acontecem com freqüência em Recife, o espaço servirá para entrevistas com os artistas (não só locais) e troca de informações entre os interessados.
O Recifeblues surgiu a partir de uma paixão pessoal por a música.
Breno Martins Rego, criador do projeto, viu a necessidade de tentar expandir os horizontes do Blues.
Acreditando na força da Internet como meio de comunicação, a idéia de Breno é movimentar a boa música e informar que ela está presente em nossa cidade.
Com agenda de shows, biografias, entrevistas, informações e notícias do estilo no Brasil e no mundo, Breno atualiza o site pra que os internautas estejam sempre por dentro de tudo.
As bandas podem participar ativamente do site, através de uma estrutura muito simples.
Basta entrar no site e preencher um formulário, cadastrando a banda e outro para cadastrar um evento.
A equipe do Recifeblues recebe o cadastro e publica no site.
O serviço é grátis, pois a intenção principal é difundir ao máximo a Cena Blues.
www.recifeblues.com.br
Número de frases: 12
Como pra ` mau-entendedor ´, meia palavra é bosta;
vou tentar abreviar a mente de estudantes e mesmo entusiastas da área jornalística a respeito não da tão discutida e fadada imparcialidade da notícia em si, mas de sua edição perante um todo.
Longe de querer impor um tom professoral, ou pedante, mas simplesmente observador de uma situação tão corriqueira que passa indigente na nossa frente.
Nem ao menos foi este préstimo digitador que a captou diante da enxurrada de informações que escorrem diariamente por os veículos comunicativos.
Mas seu perspicaz irmão, que nem na área trabalha, mas também atenta seus olhares para deformidades informativas.
Então elucidemos:
no dia 3 de maio de 2007, a aluna Renata Ramires, do campus da Universidade Estácio de Sá no Rio Comprido, foi atingida por uma bala perdida.
Por sorte, o tiro pegou de raspão em sua perna, ela foi medicada e teve alta no mesmo dia.
Se a clássica memória curta do brasileiro permitir lembrarmos, Luciana, há quatro anos atrás no mesmo local, sofreu e ainda sofre um distinto destino.
Por sua vez devastador.
Com a bala alojada em sua coluna, ficou tetraplégica.
O esclarecimento indicado no parágrafo lá de riba diz respeito exatamente à grosseira ironia editorial.
Não só eliminaram o ocorrido das chamadas da primeira e segunda páginas, como estrategicamente a colocaram na Última página da editoria da cidade.
Minimizando o fato da matéria nem ter sido produzida por a redação do Globo, mas reproduzida do Extra, creio que diante de um olhar agora mais atento, permitirá facilmente ao leitor perceber a tal gafe comercial através da reprodução da página em questão.
A os futuros focas e interessados, que possam achar o ensaísta aqui um tanto «forçador de barra», vale fazer uma última ressalva para destacar sem dúvidas a tosca objetividade deste jornal.
Adivinhem qual o curso que a última vítima presta na faculdade.
Exato. O mesmo que capacita profissionais hoje em dia essenciais a vida da tetraplégica vítima de outrora, e que curiosamente estampa em letras garrafais o anúncio da mesma página.
Número de frases: 17
A população do município de Paraíso do Tocantins, distante 63 quilômetros de Palmas, ganhou nesta semana uma casa de cultura e cidadania, denominada Oficina Geral.
Situada no centro de Paraíso, na rua 13 de maio, número 389, o imóvel foi cedido por a prefeitura.
A iniciativa é de um grupo de artistas locais com o objetivo de resgatar a história e preservar a cultura do município.
O projeto visa realizar oficinas de artes, cursos de cidadania, palestras, seminários, exposições, shows e projeções de filmes.
«Em o quarto da casa instalamos uma sala de aula com capacidade para 20 pessoas, que será destinada para cursos de artesanato, artes visuais (plásticas), violão, guitarra, baixo, música eletrônica (DJ), direitos do consumidor e civis em geral», explicou um dos idealizadores da casa, Joseph Silva, acrescentando que o espaço também oferecerá curso de xadrez.
As aulas de xadrez têm uma proposta além do lazer:
ajudar a melhorar o rendimento escolar dos alunos.
«O papel do jogo é implementar na educação matemática das crianças, principalmente nos alunos das escolas públicas», explica o monitor do curso, Adriano Marinho.
Além de aprender as técnicas do jogo, as crianças vão construir seus próprios tabuleiros, usando bambus ou caroços de arroz.
Serão atendidas inicialmente cerca de 50 crianças e adolescentes.
«O espaço foi criado para democratizar o acesso à produção artística da nossa gente», destacou o artista plástico e também idealizador da Oficina,» Cláudio Macagi.
«Até agora o apoio que tivemos foi da prefeitura, com o local e a boa vontade de colaboradores da própria comunidade que ajudaram a pintar e limpar o espaço», diz.
Espaços
A casa de cultura ainda abriga uma biblioteca aberta ao público e sala audiovisual.
«Como a casa é uma casa de verdade, colocamos na cozinha nossa biblioteca e nossos discos, fitas cassetes, DVDs, CDs e instrumentos musicais.
A idéia é que aqui é fabricado o alimento da cultura», conta Joseph ao lado de um antigo fogão repleto de discos e fitas cassetes.
Em a sala de estar da casa estão expostas peças dos artistas locais, como mandalas de capim dourado, bistrô de bambu, quadros e peças em argila.
«Como os artesãos têm poucos lugares para exporem suas produções, aqui na Oficina também será um ponto de comercialização para toda a classe», explicou Macagi.
Em o outro quarto da casa o espaço é destinado à inclusão digital.
«Por enquanto temos apenas um computador (o meu)», sorri Nikson Paulo, que diz ser importantíssimo este setor na Oficina.
«Vamos ensinar não só informática básica, mas, mixagem e curso para operador de áudio», disse Nikson.
A Oficina Geral também conta com espaço para os músicos regionais mostrarem seus talentos.
Em o quintal da casa está montado um palco decorado com motivos do cerrado, como capim dourado, chaleiras, vassoura de piaçava e tecidos.
«Podem se apresentar aqui desde forró ao rock pesado, a casa é para todos», disse o diretor de música, Fernando Rios.
Inscrições
As inscrições podem ser feitas na própria Oficina Geral, que está aberta em horário comercial, e passarão por uma triagem.
«Levaremos em conta a renda, faixa etária, entre outros», informou Joseph, acrescentando que enquanto não obtiverem mais patrocínios será cobrada uma pequena taxa, ainda sem valor estipulado.
Número de frases: 27
Em Cametá, Toni Soares grava na casa de Dona Yolanda, uma das últimas cantoras de samba do cacete da região do Tocantins
Músico, compositor, DJ de reggae e radialista ...
Depois de passar por os mais diversos ramos da música, Toni Soares encara agora o seu maior desafio:
o mapeamento da produção musical do Estado do Pará, que será transformado numa série de livros e CDs.
Dividido por regiões, ele pretende registrar manifestações culturais que permanecem distantes do grande público, confinadas a sua região de origem e condenadas a desaparecer à medida que os seus criadores envelhecem ou morrem.
Um projeto ambicioso, cuja origem remonta ao trabalho de Toni Soares como produtor da rádio Cultura FM.
Segundo ele, foi num especial de música junina de Belém do Pará que ele teve a idéia de estender o projetos para outros gêneros e outras regiões do estado.
«Eu comecei fazendo isso com os grupos de bois-bumbás de Belém e distritos mais próximos, para abastecer o programa Baque Solto, produzido e apresentado por mim na Cultura FM.
Esses grupos se reúnem apenas em maio para compor toadas para a quadra junina.
Com o surgimento do Baque Solto eles começaram a compor com mais freqüência porque passaram a ter onde divulgar a sua produção.
O ritmo foi ficando mais intenso e acabei chegando a conclusão que estender as gravações para o interior do estado era um passo natural», explica Toni.
Como se sabe nem sempre tudo o que é de raiz é, necessariamente, bom.
E o erro está em romantizar demais o que é produzido no Brasil Profundo.
Em meio à quantidade avassaladora de ritmos, folguedos e manifestações culturais paraenses, Toni revela que, ao escolher quem iria participar do projeto, tentou conciliar a qualidade musical com a urgência do registro de grupos em pior situação.
«Eu pesquiso quais as regiões que possuem uma maior riqueza cultural e vou até lá com um estúdio móvel.
Não penso no artista, penso no tesouro musical esquecido:
um rabequeiro, um tocador de banjo sem grupo, um tocador de bandurra que mora numa comunidade na beira do rio, penso no samba de cacete, no bangüê, naquele compositor de carimbó que já gravou vários discos e hoje está na miséria esquecido lá no meio do mato.
O meu gosto como músico e produtor não interfere em nada nesse processo de escolha de sonoridades.
A prioridade é pra quem está na ' UTI ' quase morrendo esquecido», conta.
E foi nessas andanças por o interior do estado que Toni revela ter se deparado com surpresas bastante agradáveis.
Algumas, inclusive, surgidas de sessões de gravação que, aparentemente, deram errado.
Como a orquestra de carimbó de Santarém Novo, nascida de um desentrosamento musical do grupo Trinca Ferro.
Como seus integrantes não conseguiam gravar junto com os sopros sem perder o tempo, Toni gravou o grupo sem os metais.
Em seguida, ao entrevistar os garotos da sessão de metais, pediu q tocassem junto com a base rítmica do Trinca Ferro.
Segundo o produtor, dessa experiência surgiu a idéia de se fazer uma orquestra de carimbó, que já se prepara para fazer as suas primeiras apresentações.
Além da preocupação de, como produtor, não interferir na música que está sendo gravada, «um crime», segundo Toni, ele descarta a possibilidade de trazer os grupos do interior do estado para gravar em estúdio.
Para o produtor, registrar essas manifestações em seu estado natural é uma das principais preocupações do projeto, o que torna a sua execução um pouco difícil dadas as dificuldades em se locomover por certas regiões do Pará.
Toni conta, num primeiro momento, grupos como o Bambaê do Rosário, da Vila do Juaba, no município de Cametá, chegaram a gravar em estúdio.
No entanto, foi ao registrar os músicos ao vivo durante uma festa em sua cidade natal que Toni Soares percebeu como deveria proceder durante todo o projeto.
«Imaginei que essa sonoridade na localidade de eles, que é a Vila de Juaba, poderia ser diferente da que obtivemos em estúdio.
E nisso eu acertei.
Gravamos o grupo durante uma apresentação por a comunidade.
Fomos até uma casa onde a festa estava acontecendo e penduramos microfones por todo o salão.
Como o bambaê é um grande coro popular cantado por todos da cidade, deixei um microfone para a voz do canto principal e outro para os tambores.
Essa gravação ficou muito melhor do que a feita no estúdio», afirma.
Até o momento, o projeto já registrou os grupos de boi-bumbá da região metropolitana de Belém num CD duplo com 20 artistas.
Em seguida foi a vez de Santarém Novo, com nove manifestações diferentes;
e Cametá, onde Toni gravou o samba de cacete, o bambaê e o bangüê (a música das comunidades quilombolas da região).
Depois foi a vez de Marapanim, ocasião em que o produtor explorou todas as manifestações musicais da região em busca da origem do carimbó.
Desde de fevereiro de 2006, Toni vem visitando as cidades de Ourém, Óbidos, Abaetetuba, Baião e Cametá, para então dar meia volta rumo ao sul do Pará.
Número de frases: 40
Uma jornada intensa guiada por as brincadeiras e por os folguedos que ajudaram a construir a identidade cultural do homem amazônico.
Alguns grupos tradicionais da Amazônia acreditam que certas doenças nada mais são do que distúrbios causados por atitudes que desagradam entidades do plano Espiritual.
Estas crenças recebem nomes como xamanismo e pajelança, que não devem ser confundidas com outras atividades que também fazem o uso de plantas medicinais (fitoterápicos) como a puçangaria.
A diferença é que estes não têm o cunho religioso e sim medicinal, sendo que o mesmo é baseado no conhecimento empírico.
E é sobre este que vou contar lhes uma história de um mestre no assunto.
Raimundo dos Santos Souza nasceu em 21 de agosto de 1926 aqui em Macapá -- na época a cidade ainda fazia parte do Estado do Pará.
Já na sua infância ele teve os primeiros contatos com pesquisadores estrangeiros que passavam temporadas aqui.
Sempre fazendo o trabalho auxiliar.
Também andava no mato para tirar madeira com seu pai e foi neste período que teve os primeiros contatos com as plantas.
Menino inteligente e curioso, por isso recebeu o apelido de «Sacaca», que quer dizer» um grande conhecedor da floresta».
Com o tempo seu conhecimento sobre as plantas foi aumentando.
Dotado de uma memória invejável foi construindo sua fama de forma empírica.
Nunca freqüentou uma academia ou curso superior de biologia, mas deixou três obras que falam, de A a Z a respeito das plantas que curam.
Negro, morador do Bairro do Laguinho, um dos mais tradicionais de Macapá por as suas raízes afro.
Logo ficou famoso em toda a cidade por os bons resultados alcançados através de suas ervas e garrafadas (mistura de várias plantas).
A população o procurava para a cura de diversas doenças.
Uma antiga moradora, Dona Duce Carmen, nos dá um bom exemplo disso em seu relato.
«Eu tinha uma dor nos rins que tinha anos e anos.
Procurei três doutor e os remédios que eles passavam não deram resultado.
Foi aí que a dona de uma baiúca do canto de casa disse pra mim ir lá com o Sacaca.
Cheguei lá, ele tava sentado num banco na frente da casa de ele sem camisa e brincando com uns meninos.
Eu primeiro fiquei meio assim, três doutor não deram jeito, como aquele sinhô ia dar?
Mas eu falei com ele e ele me recomendou o chá de Quebra-pedra.
Fui meio desanimada para a casa, mas comecei a tomar o chá.
Um mês depois eu já tava boa. ( ...).
Depois disso tudo o que eu tinha eu ia lá com ele e recomendava para os outros também."
Depoimentos como este podem ser encontrados aos montes na cidade.
O falecimento de Sacaca em 1999 foi motivo de luto para toda a população.
Todos os moradores o conheciam ou já ouviram falar de ele.
Seu nome se encontra registrado no «Museu Sacaca» e este acúmulo de experiências não se perdeu.
A lista de plantas que curam é enorme e foi usada não só por ele, mas por uma grande quantidade de mulheres de origem cabocla e indígena.
Veja algumas:
Alfavaca -- Banhos e combate o resfriado.
Alho -- Pressão alta, resfriado, gazes.
Amor crescido -- Tratamento de fígado e queda de cabelo.
Anador -- Qualquer tipo de dor.
Andiroba -- Massagens em lesões, combate inflamações e males na garganta.
Arruda -- Dor de cabeça e mal olhado.
Babatemão -- Estômago e inflamação uterina.
Boldo -- Derrame, fígado e estomago.
Cana-ficha -- Rins e infecção urinária.
Capim marinho -- Calmante e pressão alta.
Catuaba -- Reumatismo.
Cheiro da mulata -- Derrame e infarto no miocárdio.
Comida-de-jaboti -- Pressão alta.
Erva doce -- Fígado.
Erva sidreira -- Pressão alta e calmante.
Hortelã -- Gripe, dor de cabeça e mal estar.
Hortelãzinho -- Cólica infantil.
Manjericão -- Banhos e combate o resfriado.
Parirí -- Anemia.
Pata-de-vaca -- Diabetes.
Pião branco -- Combate a asma e sicatriza.
Pirarucu -- Desinflamatório e vesícula.
Pracaxí -- Desinflamatório.
Quebra-pedra -- Pedra nos rins.
Sacaca -- Anticoncepcional, é diurético e combate a diabetes.
Sucuúba -- Inflamação uterina e gastrite.
Trevo roxo -- Dor de ouvido.
Existem casos em que a mesma planta é usada para combater doenças de forma variada e algumas tem mais uso medicinal do que consta na lista.
Hoje, diversos governos e ONG's começam a apoiar este levantamento e incentivar a construção de postos de atendimento a população e agentes de saúde qualificados na etnobotânica e etnomedicina.
Em o Amapá, o projeto Farmácia da Terra do IEPA (Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá) nos dá um bom exemplo de interatividade entre o saber popular e o conhecimento científico.
São feito trabalhos de levantamento destes dados nas comunidades tradicionais para que os fins em que cada planta é usada sejam comprovados cientificamente.
Tudo feito no Centro de Plantas Medicinais do Instituto.
Por exemplo, a planta Pata-de-vaca é usada no combate a diabetes por muitas comunidades.
O que o IEPA faz é verificar se tal planta contém princípios ativos que realmente combatem a doença.
Esse método vem dando certo e hoje são mais de 70 produtos.
O resultado é uma série de fototerápicos em forma de xaropes, pílulas, ungüentos e chás que combatem uma grande diversidade de doenças.
Estes remédios são vendidos na farmácia do IEPA a preços simbólicos.
Algo em torno de R$ 2,00.
Existem também diversos fito cosméticos como o Shampoo de Babosa e o Sabonete de Andiroba.
Tudo feito à base de insumos naturais e com pouquíssimas contra-indica ções.
Esta é uma prova da eficácia do conhecimento das culturas tradicionais.
Número de frases: 73
Figuras como o Sacaca devem ser reconhecidas não apenas como agentes propulsores deste conhecimento, mas também como legítimos e importante colaboradores da saúde, pois os mesmos são uma ótima alternativa aos remédio alopáticos e suas contra-indica ções.
«Em Parintins todo mundo é artista».
A frase não é uma maneira de dizer que há muita gente com habilidades artesanais na cidade.
Isso quer dizer exatamente que, onde você for, ou com quem você converse, dificilmente esta pessoa não terá algum envolvimento direto com os bois Caprichoso e Garantido, ou algum outro grupo folclórico da cidade, ou ainda, que se dedique a materializar sua criatividade como mero passatempo.
Eu ainda não estava procurando artistas anônimos, mas já sabia que era fácil encontrar trabalhos surpreendentes por os bairros mais humildes da cidade.
O que aconteceu em termos de «coincidência» -- na verdade acredito em conspirações -- me convenceu a escrever esta parte inicial do texto como um relato, pois mostra exatamente o que esta frase quer dizer:
«Em Parintins todo mundo é artista».
O primeiro contato com uma destas pessoas ocorreu graças à curiosidade, foi ela quem me levou a perguntar de um senhor com o triciclo lotado de fibras e paus, para onde ele estava levando aquilo tudo.
«Eu trabalho para o galpão do Caprichoso», respondeu com um sorriso.
«Chega essa época os carretos são só assim», concluiu, referindo-se às proximidades do festival e a quantidade de carga que suas pernas estavam conduzindo.
Pedi para tirar uma foto daquela quantidade de fibra de malva, pau-de-fibra e flecha -- tipo de madeira rígida e leve própria para a confecção de flechas -- e perguntei se ele também ajudava na construção de alegorias para os bois.
«Não, no boi faço apenas carretos, as minhas coisas eu faço em casa mesmo», esclareceu, com o sorriso ainda inabalável embora destoante do sol infernal de duas da tarde que nos massacrava.
Morador do bairro Itaúna, contou que trabalhava fazendo bonecos com movimentos utilizando a madeira chamada molongó -- árvore encontrada em igapós, semelhante à cortiça e leve como isopor.
Demonstrando a inquietação de quem precisa cumprir com um compromisso e não poderia ficar conversando, ele me convidou a ir até sua casa, na manhã seguinte, onde conversaríamos com calma.
Seu nome:
Adelson, casa 3783 da Rua Chico Simões.
Adelson ou Adelto?
Em o início da manhã do dia seguinte, já estava no bairro Itaúna constatando a dificuldade em achar um endereço por a não existência de placas de identificação nas ruas.
Perguntei a uma transeunte onde era a rua Chico Simões, mas no melhor estilo parintinense ela tratou de me perguntar logo quem eu procurava.
Respondi que era o Adelson, que fazia artesanato.
Prontamente a moça me indicou uma casa próxima.
«Ah, já sei, é aquele que faz barquinho», apontou e seguiu seu caminho.
Cheguei na casa, mas não vi o triciclo, o número era 3743, diferente do 3783 que seu Adelson me indicara.
Uma mulher e dois curumins -- modo como o parintinense chama o masculino de criança -- vieram me atender, a senhora logo informou que seu marido tinha ido ao banco receber a aposentadoria.
Comentei que já desconfiava de sua ausência por não ter visto o triciclo, quando ela me disse que ele não tinha triciclo e que seu nome não era Adelson, era Adelto e fazia barcos, não animais articulados.
Depois de me impressionar com um dos barcos regionais que seu marido fazia, marquei uma entrevista para o dia seguinte e fui em busca do Adelson, dessa vez na casa certa, constatei que ele também já tinha saído e tudo ficou para o outro dia para conhecer a história de dois personagens aparentemente tão semelhantes quanto próximos.
Adelson da casa 3783 e Adelto da 3743.
Em que outro lugar isto seria possível?
Vontade de crescer
Em a manhã seguinte, Adelson Tavares Xavier -- o que trabalha no triciclo -- contou considerar-se um artista escondido, termo que explicou utilizar no sentido da falta oportunidades.
Tem 59 anos e é nascido e criado em Parintins.
«Infelizmente tenho medo de tirar finança no banco pra colocar gente para trabalhar», revela.
Exibindo alguns pequenos animais feitos de molongó, o artista que transpira humildade, evidência a qualidade do que faz em forma de pequenas canoas, tartarugas e tatus articulados, além da preferência por pássaros e pequenas ambientações criadas com fragmentos de árvores, tudo isso em contraste com a falta de informação que imprime em sua personalidade uma transparente inquietação diante de um empreendedorismo potencial.
O artesão fala ainda de alguns problemas de relacionamento causados por a sua atividade.
«Aqui em casa eu fico muito perturbado e minha mulher reclama da bagunça que fica o quintal», lamenta, encontrando motivação na admiração que os dois filhos mantêm por os brinquedos montados por ele.
Porém, nas proximidades do Festival, Adelson substitui o agrado às crianças por a perspectiva de lucros, aproveitando as poucas horas vagas para confeccionar produtos para vender.
«Ano passado criei um gavião bem grande, coloquei na porta de casa mexendo as asas quando o vento batia, o bicho chamava a atenção e um rapaz de Santarém que passava por aqui, parou e comprou na hora», orgulha-se, afirmando já ter faturado mil reais dos inúmeros visitantes que invadiram a cidade num determinado ano.
Depois de permitir que seu olhar se perdesse por alguns segundos no local onde o gavião batia suas asas, Adelson pareceu pousar na realidade atual da dificuldade que encontra em conseguir matéria-prima neste ano.
«Para conseguir molongó tem que viajar pelo menos um dia pra chegar no lugar que tem», revela, afirmando que deve confeccionar brincos feitos com miçangas para não passar a época em branco.
«O negócio é fazer porque no festival vende tudo», conclui.
Um universo paralelo
Adelto Peres Fernandes, 64, nasceu em Manaus, onde casou-se com a atual companheira parintinense.
Após a aposentadoria como conferente de uma empresa petrolífera, mudou-se para Parintins onde resolveu resgatar o conhecimento adquirido aos 16 anos de idade, quando trabalhava numa fábrica de móveis, para dedicar-se à construção de réplicas de barcos regionais.
«Não tinha o que fazer e fui fazendo», justifica com uma simplicidade que não corresponde à complexidade dos seus barcos.
«Tudo que um barco tem eu faço», avisa, mostrando a réplica que construiu imitando o barco 14 de Outubro, que faz a linha Manaus -- Parintins, e outros três totalmente compartimentalizados com os espaços de cozinha, camarotes, janelas, portas e escadas, inclusive imitando o padrão de pintura existente na região.
«Esses são trabalhados mesmo e se botar na água até flutua», brinca.
Ao contrário de seu quase-xará, Adelton mostra total desinteresse comercial sobre suas criações, escorando sua realização no orgulho da esposa e na alegria dos netos que ficam loucos para brincar especialmente com um (que ele exibe na foto).
«Este aqui é o único barco simples que fiz, eu deixo pendurado porque senão já viu, menino estraga», sorri, olhando com carinho para o barco que ostentava uma poeira, segundo ele, de pelo menos 5 anos que não era retirado de onde ficava à mostra.
Demonstrando um apego afetivo aos seus trabalhos somado ao carinho dos netos por os barcos, Adelto às vezes não resiste à insistência de quem se surpreende com seu trabalho.
«Se eu deixar à mostra, o pessoal se agrada e eu acabo vendendo, os meninos é que não gostam, mas aí eu faço outros», revela, também comentando a dificuldade em conseguir material, já que trabalha com madeiras nobres e pesadas como o cedro.
«É difícil conseguir nas serrarias, mas a gente acaba achando».
Pintando cascos de tartaruga com fins decorativos e confeccionando cestos com trançado em palha e cipós, o filho mais velho de Adelto também segue no caminho do artesanato.
Como um reflexo definitivo da inclinação do parintinense por a arte popular, que se renova e se perpetua em suas mais variadas manifestações.
Para encontrá-las chute uma pedra na rua e bata na porta da casa onde ela parar, na receptividade dos Adeltos, Adelsons, Raimundos e Marias da ilha, a possibilidade de se surpreender é grande.
Nunca é demais repetir:
Número de frases: 55
«Em Parintins todo mundo é artista».
Em documentário e livro, a presença das caixeiras nas Festas do Divino do Maranhão
São mulheres simples.
Cantam, tocam caixas, pagam as suas promessas e as de outros.
Estão presentes nas festas do Divino Espírito Santo, no Maranhão, onde a tradição familiar começou com suas bisavós, avós, passou de mãe para filha.
E assim continua.
Elas seguem com o Divino, «andando de pés» como dizem, por caminhos sem fins.
Uma trajetória de louvor e dedicação agora registrada no documentário e livro «Umas Mulheres que dão no Couro -- As Caixeiras do Divino do Maranhão», da historiadora e percussionista Marise Glória Barbosa.
Patrocinado por a Petrobras, o projeto tem como referência a dissertação de mestrado apresentado por a historiadora da PUC, de São Paulo, em 2002.
Motivada por o interesse em conhecer a presença das mulheres que tocam tambores em rituais religiosos, Marise aprofundou seus estudos, reuniu equipe e saiu nos passos das caixeiras para compor suas jornadas.
Foram mais de nove meses de trabalho, percorrendo 16 municípios do Estado do Maranhão.
Entre entrevistas, registros de imagens -- mais de 100 horas documentadas -- cantos e versos, o encontro com várias gerações de mulheres, procuradas para traduzir um ritual que permanece forte e que não perde sua delicadeza e forma de louvar aos santos para todo o sempre.
Trabalho de fôlego, um registro notável
Dirigido por a própria historiadora, o documentário possui 1h40 min de duração e foi gravado em formato Mini DV (digital).
O vídeo traz imagens de caixeiras e de festas realizadas em São Luís e em regiões dos municípios de Itapecuru Mirim, São José de Ribamar, Alcântara, Humberto de Campos, Penalva e São Simão.
Em a Capital maranhense, Marise Glória Barbosa visitou casas de culto afro que realizam a festa, como o Terreiro das Pontas Verdes, Casa de Dona Nilza, Casa das Minas, terreiro da Fé em Deus Casa de Nagô e Casa Fanti-Ashanti, entre outros locais.
A linguagem escolhida para o documentário privilegia as caixeiras como portadoras do conhecimento sobre o assunto.
São elas as especialistas.
«As caixeiras são sacerdotisas, porque conduzem o ritual cantando e tocando os tambores possuem a compreensão das simbologias associadas ao Divino Espírito Santo», completa Marise.
Vale ressaltar que os trechos dos cantos das caixeiras são legendados.
O DVD possui ainda uma versão com legendas em inglês.
O conjunto dos trabalhos (livro e DVD) será doado para bibliotecas, universidades e centros de pesquisa que trabalham com mulheres, cultura popular e religiões.
Uma pequena parcela será disponibilizada para venda.
Um ritual marcado com fé A Festa do Divino é uma manifestação popular, onde se une a espiritualidade e o folclore para agradecer ao Espírito Santo os dons e as graças recebidas durante o ano anterior.
A Festa, realizada depois de Pentecostes, 50 dias após a Páscoa, é feita com donativos e seu espírito é de promover um dia de muita fartura, de abundância, quando quem nada tem recebe de graça.
Em o Maranhão, segundo dados da Secretaria de Cultura local, mais de 150 festas, realizadas em 23 municípios, estão cadastradas, atraindo milhares de pessoas de todo o país.
A mais importante particularidade do culto realizado no Estado, aquela que distingue de todos os outros, é que ele é conduzido por mulheres tocando tambores e cantando.
São as caixeiras do Divino, as Suas Sacerdotisas.
Elas são a única experiência conhecida, uma raridade, se considerar a presença de mulheres na condução de rituais religiosos, tocando tambores.
Ficha Técnica
Livro: 220 páginas
Formato: 26cmx18cm
Papel: Couchê 115 g
Mini DV (digital)
Duração: 1h40 min
Preço (livro e DVD) -- R$ 50,00
Vendas: Empório de Produção & Comunicação
Número de frases: 37
(11) 3819 1833 emporio@dialdata.com.br
Fui conhecer o «Narrativas de Catarina» primeiramente num ensaio aberto, na Barca dos Livros, uma biblioteca na Lagoa da Conceição, em Florianópolis (SC), e depois pude ver uma segunda apresentação, dessa vez na Igrejinha da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), um espaço que abre algumas (raras) vezes para manifestações culturais.
Era domingo, com chuva, e umas 60 pessoas aguardavam o show.
Ali, tive certeza que de vez em quando a pacata cena cultural de Florianópolis pode reservar uma boa surpresa.
O Narrativas de Catarina é um projeto musical que percorreu parte do Estado, com apresentações em espaços alternativos, com intuito de trazer ao conhecimento do público catarinense o trabalho de músicos do próprio Estado, pouco conhecido até então.
Com um recital de piano e voz, Ive Luna, cantora do grupo Cravo-da-Terra, e Carla Pronsato, resgatam canções que te permitem viajar no tempo, e lembrar daquelas narrativas que existiam em disquinhos de histórias.
A Ive conta que foi buscar inspiração nas suas memórias de infância.
«Desde criança sempre gostei muito de ouvir as canções do Chico Buarque que contavam histórias, como Geni, Minha História, coisas assim.
A Nara Leão também interpretava várias, como a Estrada e o Violeiro, de Sidney Miller.
Eu adorava ficar ouvindo ...
O pessoal da minha idade cresceu ouvindo os disquinhos.
Eram o máximo, muito bem orquestrados.
A gente ainda sentava pra ouvir histórias».
Narrativas de Catarina vai bem por aí.
A Ive conta histórias (voz e flauta) junto com a Carla (piano) e você dá aquela viajada no tempo.
As músicas que compõem o show, um total de 12, foram escolhidas depois de uma vasta pesquisa entre compositores do Estado.
Ao longo dos meses, foram aparecendo músicas muito diferentes e nem todas narravam fatos, mas descreviam cenas e ações, ou representavam a fala de uma personagem.
O processo de seleção buscou uma unidade para o trabalho, que segundo ela, tinha em mente um repertório que representasse a fala de todo mundo da cidade, e não de um grupo exclusivo, ou de um grupo que faz música parecida com a que ela faz.
É claro que seria mais fácil interpretá-las se tivesse sido assim.
Mas a pesquisa perderia o sentido».
A intenção era reunir a composição de músicos contemporâneos de Florianópolis que não têm espaço na mídia radiofônica e, por isso, não têm seus trabalhos reconhecidos por o público.
«Penso sempre que precisamos dar testemunho do que vemos e ouvimos perto de nós», afirma.
A Ive entende que as narrativas representam a memória do povo, guardada nas crônicas ancestrais, nos rituais e nos contos folclóricos.
Lembra que as histórias de todas as nações que surgiram antes da escrita, se sustentaram, principalmente, por ter havido as narrativas orais.
Assim, as narrativas mantêm sua função de contar histórias de uma nação, transmitindo o legado daqueles que viveram antes.
«Cabe a nós a tarefa de continuar a tecer o fio».
Boa parte das músicas escolhidas para o projeto já existia, com algumas já tendo sido gravadas em CD de seus compositores, como Nossa Barulheira do Moriel, gravada por o Dazaranha;
O Navegador, de Márcio da Vila, gravada por o Tijuqueira;
a Festa para a Cascaes, de Denise de Castro, gravada no seu CD Espírito da Terra;
a Milonga, do Marcelo Mello, gravado por o Cravo-da-Terra e o Nascimento, de Neno Miranda, gravado por ele em seu CD demo.
No entanto, no projeto Narrativas, elas ganharam cara nova, não só por Ive e Carla, mas também por os arranjos de Luiz Gustavo Zago.
É a segunda vez que Ive e Carla trabalham juntas.
Antes do Narrativas, elas tocaram num projeto de Tânia Piassentini, da Barca dos Livros, que se chama Amantes da Leitura, um repertório com quatro poesias de Manuel Bandeira, musicadas por diversos compositores.
A Narrativas de Catarina, contudo, é o projeto de maior vulto da dupla.
Foi financiado por o governo do Estado e patrocinado por a Ambev e Cassol.
Já foram feitas apresentações em Florianópolis, Brusque, Itajaí e a mais recente foi feita num assentamento do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), em Abelardo Luz, oeste catarinense.
A de Abelardo Luz foi a última com verba do Estado, agora o projeto vai buscar parcerias para permanecer circulando.
Ive e Carla pensam em levar o Narrativas para os Açores, terra dos colonizadores da porção litorânea de SC, e têm intenção de circular por universidades do Estado que tenham curso de letras ou de música.
Abaixo, coloquei o repertório para quem tiver interesse em conhecer mais e também a letra de uma das composições que gosto mais, a Milonga.
A foto principal é do show na Igrejinha da UFSC e as imagens na lateral são de bonecos que representam personagens das músicas.
Foram criados por Etelvina dos Santos e Rita Guedes.
Também anexei um arquivo MP 3 para quem quiser ouvir Milonga.
As 12 composições
Terno de Reis -- domínio público
Disse-disse -- Sìlvio Mansani
O nascimento -- Neno Miranda
Último canto de Anita para Garibaldi -- Emílio Pagotto
Nossa Barulheira -- Gazu (Dazaranha)
Polyana -- Tony
Festa para a Cascaes -- Denise de Castro
O Navegador -- Márcio da Vila (Tijuqueira)
Martinho -- Ive Luna
A fábula e o mar -- Jefferson Bittencurt
Milonga -- Marcelo Mello
Clara Canção -- Luiz Gustavo Zago
Milonga Toda a extensão dessa areia
que outrora viu a festança
dos corpos libertos
na dança da aldeia.
Essas montanhas peladas
que outrora foram o berço
de caras pintadas
agora caladas.
Quando esse mar refletia
a lua cheia que
outrora brilhava e banhava
uma gente sadia
Eh! Daruê ...
Hoje te vejo calada,
já não há festa nem dança
somente a lembrança
da alma violada.
Essa explosão amarela
nessas montanhas que
agora contemplam
uns restos de vida singela.
Agora a terra nos chama
e a lua cheia
de tanto descaso e abandono
do alto reclama.
Eh!
Daruê ...
Número de frases: 82
Colocar em pauta a discussão sobre direitos humanos é o objetivo da primeira Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul.
Promovido por a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, o evento visa reafirmar, por meio da arte, as liberdades fundamentais do ser humano, sem distinção de raça, sexo ou religião.
Com caráter não-competitivo, a mostra ocorre entre os dias 1º e 17 de dezembro em quatro capitais:
Brasília (DF), Janeiro (RJ), Paulo (SP) e Recife (PE).
Ao todo, serão exibidos 28 filmes brasileiros e de mais nove países sul-americano -- a maior parte documentários, selecionados por o curador Amir Labaki.
O evento tem patrocínio da Petrobras, além da parceria do Ministério das Relações Exteriores, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e do Serviço Social do Comércio de São Paulo (Sesc-SP).
Os realizadores ainda estão recebendo curta-metragens para serem exibidos no início das sessões.
A primeira capital a receber a mostra será São Paulo, onde os filmes serão veiculados entre 1º e 10 de dezembro.
Em Brasília, a mostra ocorrerá entre os dias 5 e 11.
Em o Rio de Janeiro, as exibições serão de 7 a 13 de dezembro, e no Recife, de 10 a 17.
A entrada é gratuita.
Os filmes, todos inéditos comercialmente no Brasil e produzidos desde janeiro de 2003, têm como foco a questão dos direitos humanos em toda a sua abrangência.
Histórias de marginalizados, sem-terra, moradores de rua, idosos, homossexuais e desempregados, de entre outras, serão exibidas na mostra.
De entre os longa-metragens, 10 são brasileiros e tratam de temas que variam da ditadura militar à questão indígena.
A idéia do governo é fazer edições anuais da mostra.
Em a avaliação do ministro Paulo Vanucchi, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, esse tipo de evento é importante para dar visibilidade ao tema.
«Por meio do cinema, o público pode se livrar da idéia errônea de que falar em direitos humanos significa defender bandidos».
Além dos filmes, em cada uma das cidades haverá um debate com Vannuchi, autoridades e militantes da área.
«Queremos usar a cultura para promover uma ampla discussão sobre a defesa do cidadão e o combate a todos os tipos de exclusão», diz o ministro.
Em 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, está previsto um show no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro.
Comandada por o ministro da Cultura, Gilberto Gil, a apresentação contará com a participação de núcleos de rap e da Orquestra Sinfônica da Petrobras.
Em Brasília, a abertura ocorrerá numa cerimônia para convidados no Palácio do Itamaraty e coincidirá com o início da 6ª Reunião de Altas Autoridades em Direitos Humanos do Mercosul.
Em os dias 5 e 6, representantes dos países membros do bloco vão trocar experiências bem-sucedido e analisar questões relativas à promoção dos direitos humanos na região.
Em algumas sessões, haverá a distribuição prévia de ingressos para o público retratado nos filmes.
«Em São Paulo, por exemplo, ocorrerá uma exibição a meninos de rua amparados por a Pastoral dos Menores», acrescenta Marília Andrade, assessora especial da Secretaria de Direitos Humanos e coordenadora da mostra.
«Essa é uma iniciativa importante para que a mostra também chegue a essa parcela da população».
Quem perder a mostra poderá ter mais uma chance de ver os filmes.
Segundo Vannuchi, a Radiobrás se comprometeu a veicular os longa-metragens em 2007 nas televisões públicas de todo o " Brasil.
«A exibição na tevê, na verdade, só depende da vontade dos diretores de cada filme».
Mais informações sobre a seleção de filmes e a programação do evento podem ser obtidas por o site www.cinedireitoshumanos.org.br.
Confira os locais de exibição dos filmes:
São Paulo (1º a 10 de dezembro)
Sala Cinemateca Largo Senador Raul Cardoso, 207 Vila Mariana
Telefone: (11) 5084-2177 Cine Sesc
Rua Augusta, 2.075
Cerqueira César Telefone:
(11) 3082-0213 Brasília (5 a 11 de dezembro)
Cine Academia Setor de Clubes Sul, Trecho 4
Telefone: (61) 3316-6370
Rio de Janeiro (7 a 13 de dezembro)
Caixa Cultural Avenida Almirante Barroso, 25 Telefone:
(21) 2262-8152 Recife (10 a 17 de dezembro)
Fundação Joaquim Nabuco Avenida Dezessete de Agosto, 2.187
Telefone: (81) 3073-6363
Número de frases: 44
Fonte: JC Online (Cidadania) Fiquei indgnado ao ler num jornal local de Goiânia a machete «Goiás é o centro do crime virtual», onde bandidos foram intitulados como programadores de computador.
Sou programador já faz um bom tempo, e o que tenho visto é uma leva de gente mal intencionada (bandido mesmo) que compra uma revista na esquina que ensina como fazer ou baixar por a net um programinha que rouba senhas de gente que insiste em cair no sempre e mesmo golpe do achadinho.
As pessoas e principalmene as autoridades precisam aprender a separar o joio do trigo.
O perigo está no preconceito que esta insinuação gera, onde inconcientes ou conscientes fazem a comparação de que todo programador é um potencial bandido.
Que isto sirva de alerta.
Sou programador por opção, convicção e paixão.
Número de frases: 6
«Oh Karlinha pé de serra».
É dessa forma que o mestre me chama sempre quando me encontra.
Mas engana-se quem acha que esta jornalista risca o salão profissionalmente.
Insisto toda vez que o mestre me chama assim que a minha dança é como «feijão com arroz», nada de especial.
Ele ri e logo rebate:
«E tem coisa melhor do que feijão com arroz?».
Pois é, se deparar com um sujeito como Maérlio Fernandes Barbosa é um privilégio e uma honra ao mesmo tempo.
Em questão de minutos, você entende por que este homem é querido, admirado e respeitado por todos.
Com um traje e um «jeitão» bem peculiar lá de sua terra natal, o Ceará, como é conhecido, é uma figura dessas que todo mundo devia conhecer.
Sempre humilde e atencioso, tem como seu cúmplice um pandeiro que ele carrega para a cima e pra baixo, aonde quer que vá.
A música tirada desse instrumento é o que alimenta e ameniza a saudade de casa, da vida nordestina.
A os 55 anos de idade, este cara dispensa apresentações:
tem muitos amigos, gosta de uma cervejinha gelada, idolatra como ninguém as mulheres e possui as letras do bom forró pé de serra na ponta da língua para qualquer ocasião.
Todo sábado, no Calamengau, o Ceará junto com sua trupe bota o povo para riscar o salão do Vasquinho com um repertório de mais de sessenta músicas do tradicional forró.
E haja disposição para este senhor que canta, toca e saracoteia até às quatro da manhã!
Morando desde 1981 em Curitiba, ele diz que já criou raízes na capital paranaense.
«Os amigos me chamaram para morar aqui e eu vim.
Acabei me acostumando com a cidade, apesar de eu achar ela muito fria», alega o músico que já emenda que detesta o inverno e que cearense gosta mesmo é de calor.
Há 27 anos sobrevivendo de música e com dignidade -- palavras do mestre -- acha que o verdadeiro forró tem um bom espaço devido ao crescimento da capital, conseqüentemente da noite curitibana.
«Quando cheguei aqui a cidade era morta, não tinha vida noturna.
Você podia mijar na rua XV que ninguém via.
Hoje não, tem nicho para todos os estilos e o forró está no meio disso».
Mas não foi fácil o começo para um músico que tocava forró numa cidade que não tinha esta tradição.
«Houve um choque cultural.
As pessoas não entendiam o forró, havia um preconceito.
Por treze anos, toquei de graça», lembra Ceará que logo brinca.
«Já toquei em casamento, separação.
Só não toquei em enterro porque ninguém me convidou, se não, eu iria».
O músico conta que foi só na década de 90 que o forró começou a ser visto com bons olhos da sociedade curitibana.
«A profissionalização aconteceu com esta nova geração, a sua, por exemplo.
Um pessoal que gosta, vai atrás, se interessa por o verdadeiro forró».
Aliás, o forró da moda -- em alta nos últimos anos, Ceará é enfático na resposta.
«Em o forró pé de serra tem toda uma pesquisa, de raízes, origens.
Não é moda, porque moda passa.
É o querer fazer um forró que preste que eu defendo», conta Ceará já tocou com gente de gabarito como Dominguinhos e Trio Juazeiro.
Com tanto tempo de estrada, Ceará já viu cada coisa de cima do palco.
Mas um caso particular e engraçado chamou sua atenção.
«Todo sábado vinha um menino punk, vestido de preto, com aquela ruela no nariz e ficava encostado na parede fazendo pose de mal.
Com o passar do tempo, o garoto foi deixando de ser punk e começou a dançar no salão.
Teve um dia que o encontrei na rua XV e ele disse que estava curtindo o forró, que até tinha comprado discos do estilo.
Uma mudança radical», lembra o Ceará, que também recebe o carinho de famílias onde o casal se conheceu no forró, tiveram seus filhos, e que agora a nova geração está freqüentando o Calamengau.
Para quem já trabalhou de tudo um pouco nessa vida como vendas de munição, material de construção, livros, ações, foi bancário, funcionário público, professor de artes industriais, Ceará logo avisa.
«É melhor você perguntar o que eu não fiz nessa vida».
No entanto, o forró foi a resposta de um respeitável trabalho para este cara que leva a sério quando o assunto é música.
«Em o forró canto minhas alegrias, tristezas, a saudade de casa.
Construí aqui um pouco do Nordeste.
Hoje faço parte da história do forró no sul do Brasil e isso é maravilhoso.
É minha vida».
Com quase três décadas de dedicação à música, a gente agradece ao Ceará e ao seu pandeiro por a magia do verdadeiro forró pé de serra.
«Penso um dia voltar para a minha terra.
Porque quando você vai chegando perto da morte, você quer se apegar as suas raízes.
E quando eu tiver condições, vou embora».
Só espero que essa ida para sua terra natal demore muitos anos, porque a cidade ainda precisa ouvir o barulho do pandeiro e a alegria desse cearense cantarolando o verdadeiro forró para diferentes e futuras gerações até às quatro da manhã.
Forró Calamengau -- todo sábado
R. Dr. Roberto Barrozo, 1190 esquina com a R. Tapajós
Tel. (41) 3338-7766
Número de frases: 56
www.calamengau.com.br Em o Overmundo se identifica além da própria diversidade cultural, a diversidade de pessoas.
Impossível fazer de fora uma segmentação dos mais de 14 mil membros (eram 12 mil quando rascunhei esse texto!).
Mas a olho nu começam a se destacar alguns tipos.
...
O que me chama a atenção a cada dia é a possibilidade de conhecer as idéias de pessoas dos mais longínquos municípios do Brasil onde a internet já se incorporou, através de textos, poemas, desenhos, vídeos.
Ou simplesmente seus comentários sobre as colaborações dos demais membros do site colaborativo.
É claro que também ter à mão a Agenda e dicas do Guia em todo o Brasil -- principalmente aquilo que só sai na imprensa local ou nem isso, é por si só interessante.
Só isso já justificaria a existência do projeto.
Mas quem se torna membro assíduo do Overmundo termina não resistindo às discussões do Fórum, que só não se tornam mais aprofundadas porque alguns egos insistem às vezes em tentar sobrepor-se aos próprios temas.
Mas também porque a vida chama e o tempo é curto.
Em o Overmundo também se identifica além da própria diversidade cultural, a diversidade de pessoas.
Impossível fazer de fora uma segmentação dos mais de 14 mil membros (eram 12 mil quando rascunhei esse texto!).
Mas a olho nu começam a se destacar alguns tipos.
-- Há os que enviam textos detalhados, cheios de referências, links, informações trabalhadas e checadas, sempre com uma ou mais fotos.
E agradam por o trabalho que tiveram em pesquisar e fundamentar.
-- Há os que -- por pressa, falta de reflexão ou pouco tempo de Overmundo -- enviam colaborações rasas, sem profundidade, sem detalhes, como a cumprir uma tarefa imposta de publicar algo a qualquer custo.
-- Há os que tomaram para si a tarefa de edição, atividade não remunerada que procura garantir a qualidade do conteúdo do Overmundo, pelo menos do ponto de vista da correção da língua pátria, informações mais ricas ou publicação no canal correto.
O que tem de gente que publica eventos datados no Guia!
Vá na fila de edição e verá um exemplo agora mesmo.
E nem sempre é consciente.
Estes revisores de plantão eu até acho que deveriam ser conselheiros por mérito, mesmo que não por karma acumulado no período.
-- Há os que gostam de comentar as colaborações e os que apenas votam silenciosamente.
-- Há os que perseguem os overpontos, votando indiscriminadamente, não importando se gostou realmente da colaboração lida ou não.
Mas esse é um tipo que não há como comprovar.
-- Há os que você encontra em todo texto do Overblog que tenha um tema polêmico ou nos tópicos do Fórum, abrindo a discussão acirrada ou acendendo a pilha de outros.
-- Há os que são conciliadores nas polêmicas, pacientes nas explicações, conscienciosos em relação aos problemas, para o ativos nas sugestões.
-- Há os que ainda estão se sentindo perdidos, tentando entender as regras de um site participativo, onde publicar o quê, como fazer, como enviar.
-- Há os exigentes, que não perdoam veteranos ou novatos que não lêem (ou não aceitam) as sugestões de edição, que retomam polêmicas encerradas nos fóruns abertos.
-- Há os que questionam as regras e os que propõem cada vez mais regras.
-- Há os que enviam colaborações realmente inéditas ou divulgações de locais, artistas ou iniciativas às quais dificilmente teríamos acesso.
-- Há os que fazem propaganda de estabelecimentos comerciais, nem um pouco relacionados à cultura, desvirtuando totalmente a proposta do site.
Afora todos os tipos acima e muitos outros que ainda não tive a oportunidade de visualizar (no meu breve exercício antropológico), o mais importante é que acima de tudo, o Overmundo merece existir por ser um espaço aberto, democrático e estar povoado de pessoas (não importa o número, enquanto elas estiverem disponíveis) interessantes.
E interessante também é a possibilidade de travar contato com pessoas que nunca conheceríamos pessoalmente, sem o Overmundo.
Um exemplo é que eu tenho apenas dois amigos de longa data e mundo real que são do Overmundo:
Joca Oeiras, amigo querido que à distância agora no Piauí, aliás, me apresentou o Overmundo, e Gobira, amigo da época de um grupo literário a quem não vejo pessoalmente há anos.
Eu li um dia no Overmundo que algumas pessoas estão escrevendo teses ou dissertações sobre o site.
Vejam que interessante!
Com tão pouco tempo de existência, o site já se coloca como um objeto relevante de reflexão.
Graças à dica do Egeu, exemplificando as virtudes de um site colaborativo, seguem alguns links para tópicos do Fórum nos quais se fala desses trabalhos científicos.
Quem se interessar, pode ler:
Trabalhos Científicos sobre o Overmundo
http://www.overmundo.com.br/forum/trabalhos cientificos sobre o overmundo
Autora busca colaborações para " A internet e o compartilhamento da informação cultural:
um estudo de caso do portal Overmundo "
Número de frases: 44
http://www.overmundo.com.br/forum/colabora-comigo Renegado por ser anarquista, o controverso Fóscolo produziu obras brilhantes, mas indigestas para as elites alfabetizadas que tinham acesso a leitura.
Alguns exageraram nas críticas, alegando a proximidade do autor mineiro com as obras de Émile Zola, autor do célebre Germinal.
Embora quase tenha ocupado cadeira na Academia Mineira de Letras, Avelino Fóscolo, nascido em Sabará no ano de 1864, é parte de um passado engavetado que, quando aberto, surpreende os poucos que tomam conhecimento de suas obras.
Para quase todos, saber que em Minas Gerais existiu um romancista assumidamente anarquista na virada do século XIX é de torcer a pestana.
Poucos compreendem a importância, no ponto de vista histórico, das obras de um autor que não possui o olhar domesticado em ralação a sociedade, que denunciou sua própria realidade sem perder a sensibilidade de um escritor.
Fóscolo, segundo a autora de sua biografia Leticia Malard, saiu de casa ainda adolescente e logo ingressou na Mina de Morro Velho, em Nova Lima, onde trabalhou por algum tempo.
Destacou-se também como ator de circo e percorreu alguns países da América Latina, representando espetáculos de sua autoria.
Suas principais obras são O Caboclo, A Capital e Morro velho, de entre outros romances ainda quase inacessíveis, que abordavam temas como a liberdade sexual feminina no início do século e os últimos momentos da escravidão em Minas Gerais, trouxeram à tona uma narrativa atrelada ao seus princípios políticos e fez da literatura um documento social que hoje é essencial para entendermos o passado mineiro na contramão do discurso corrente.
Número de frases: 8
Leia o texto integral em O Binóculo Para quem está a par do underground paulistano dos anos 1990, o I.M.L. é um nome conhecido.
Grupo hardcore que sempre contou com bons músicos, é daquelas bandas que nasceram gauche.
O som praticado por as diferentes formações e encarnações do grupo (atenderam por as alcunhas de Intense Manner of Living, In-tense e Page 4) variou bastante, dialogando de maneira privilegiada com a cena nacional punk / hardcore.
Inicialmente mesclando hardcore, metal e grind core, logo incorporaram instrumentação tipicamente brasileira, como berimbau e percussões variadas.
Essa fase está registrada no vinil Fun, Milk & Destroy, compilação com curadoria de João Gordo.
Com o estouro de bandas (boas e ruins, diga-se de passagem) que usavam essa fórmula de fusão rock com música regional -- possível graças à ascenção internacional do tal funk ' o'metal -- o IML eliminou essa proposta e caiu de cabeça numa vocação que já despontava:
a evolução do som hardcore estadunidense proposta por o Fugazi.
Músicas baseadas em guitarras ultra-rítmicas e com melodias angulares, arquitetadas sobre uma cozinha enxuta, a exemplo do funk e do reggae.
Em esse tempo, o circuito de shows era restrito às casas noturnas ou espaços organizados por gente envolvida com suas respectivas cenas locais.
Uma realidade mais politizada, e além do enfoque e interesse das grandes gravadoras e da mídia em geral.
O I.M.L tocou e foi muito reconhecido nesse underground, mas só isso -- não conseguiram lançar o aguardado disco, que hoje seria no mínimo uma peça de resistência, preenchendo uma lacuna importante de uma história ainda não contada.
Cláudio Duarte -- baixista de formação que acumulara as funções vocais nas últimas formações do grupo -- juntou novos músicos e formou o Diagonal em 1999.
Ainda cantando em inglês, o grupo lançou dois discos independentes, Detouring Track (2001) e Model to Deceive (2002) e encerrou as atividades.
Metade do grupo, o guitarrista Sérgio e o baterista Richard (que toca também com M. Takara e Sp Underground) formou o trio Debate há um ano.
Eles seguem essa linha de rock pesado e extremamente bem tocado, com variações rítmicas constantes, sem se render às firulas e cacoetes de músicos profissionais.
O guitarrista Sérgio Ugeda é também o cantor / letrista, apresentando agora uma diferença fundamental:
canções em bom português.
Esporadicamente Cláudio resolve voltar aos palcos, e os grupos têm se apresentado como um só, denominado Debate X Diagonal.
Impossível saber se o Diagonal volta também aos estúdios.
Já o Debate acabou de lançar seu EP de estréia por o selo Amplitude Discos.
A audiência para o rock calcado no punk em São Paulo evidentemente mudou muito desde o I.M.L. / In-tense, mas como cantava Itamar Assumpção, outro gauche radicado em SP:
«Sorte não haver o que segure / Som».
Número de frases: 22
Nuvens pesavam sobre o céu da cidade quando toquei a campainha da casa de Guto Bitu.
Construção sólida, com história para contar, o portão aberto me surpreendeu.
Difícil portão aberto, assim, convidativo.
A campainha soa lá dentro.
A porta escancara e uns olhinhos por trás das lentes míopes me olham casualmente:
-- Oi!
Vai entrando.
Pé dentro de casa, logo vi os rostos pendurados.
Bocas e olhos rasgados no barro, fileira de jarrinhos plantados em forma de face humana e cabelos de plantinha.
Inusitado aquilo:
carinhas de barro, congeladas de cuca verde.
Ele me explica o novo ramo de sua arte:
«Barro é fácil de lidar e barato, só faz uma sujeira danada, tenho que trabalhar longe daqui.
A matéria-prima é fácil;
pego por aí, levo até uma olaria onde cozinham jarros, o pessoal não se importa de colocar meus trabalhos no meio».
Guto Bitu, ou mais precisamente Luiz Augusto Bitu, tem aquela idade indefinida de artista -- parece um rapaz de vinte e cinco anos, mas ele jura que tem mais -- não poupa palavras e tem um papagaio «estropiado» que achou na rua.
É formado em publicidade, mas nunca atuou firmemente no mercado.
Estagiou durante oito meses como ilustrador do Jornal O Povo em Fortaleza e confessa que por lá aprendeu muito sobre arte (novas técnicas de desenho e ilustração no computador) e até hoje lembra das amizades por lá conquistadas.
«Quando estava no meio da faculdade vi que não era a minha, disse: --
Mãe vou terminar essa faculdade, mas não é a minha».
Em a verdade, se dissessem ao Guto de quinze anos de idade que seria artista, ele próprio riria da afirmação.
A arte entranhou-se naturalmente em sua vida;
ele começou a desenhar ampliando imagens e modelando figuras em massa de modelar.
A percepção de que poderia realizar trabalhos de valor artístico veio com a premiação de uma poesia no colégio, que na verdade nem levava seu nome pois «tratava-se de um acordo entre ele e um amigo, o que foi posteriormente descoberto e revelado na sala da coordenação», diverte-se contando.
A os vinte, teve outro trabalho reconhecido -- provavelmente o que mais se orgulha -- o cordel O Romance do Sol e a Lua, tendo recebido elogios do reconhecido folclorista Elói Teles.
Guto é um multiartista:
trabalha em barro, desenha, pinta, compõe, é cordelista, poeta, produz xilogravuras e esculpe em madeira, procurando sempre utilizar-se de materiais reciclados quaisquer que sejam eles.
Em o mundo da poesia gosta de trabalhar com temas inusitados, «ficção científica, chama o público».
Já as xilogravuras nasceram desse fascínio por o cordel.
Em as barras de madeira, ele esculpe figuras esquecidas e marginalizadas da cidade, como Maria Caboré, mulher considerada louca e explorada por a elite cratense (numa epidemia de cólera, era ela quem levava os baldes de fezes para serem despejados longe dos limites da cidade, quando acabou, logicamente, morrendo de cólera).
Outra personagem sua foi a famosa Ana Triste, que ainda hoje inspira lendas de amor e garra em muitos relacionamentos.
Para Guto a maior dificuldade em se fazer arte é mesmo a falta de investimento, que leva à falta de recursos dos artistas:
«O Crato tem artistas fantásticos, que querem viver de sua arte, mas infelizmente falta apoio e sem o apoio necessário não temos condições para desenvolver nossa arte, porque não se faz arte por hobby, arte é vivência, crescemos com ela».
E acrescenta:
«Não sou artista de final-de-semana!
Tem muito artista abandonado e tem muita fogueira de vaidades."
Quando perguntei-lhe sobre a sobrevivência do artista e sua relação entre a feitura das peças de arte e a venda, ele me responde dizendo que toda arte é também um pouco «prostituída».
Inicialmente o artista sabe valorar a sua peça e não vende a qualquer preço;
porém, com o passar do tempo, as peças vão encalhando e é preciso pagar as contas.
É nessa hora que o artista, se não for muito aclamado e reconhecido por as pessoas, vende a sua peça por o melhor preço barganhado.
«Algumas peças eu não vendo por nada», diz.
«Eu sei o trabalho e o empenho que tive pra criá-las e desenvolvê-las, e se for pra vender por cinco reais, eu prefiro que fiquem aqui com mim!"
E depois complementa:
«Já troquei um dragão esculpido em madeira por esse celular aqui.
O celular um dia não vai valer mais nada, mas a peça continuará lá, do mesmo jeitinho».
Quatorze anos separam a primeira peça em madeira feita por Guto de seu atual trabalho.
«O que mudou basicamente em todo esse tempo foi a técnica.
Ainda tenho a mesma garra criativa, porque eu nunca paro de criar e nem abandono o que eu comecei, mas se não desenhar um pouco que seja, diariamente, enlouqueço».
Os desenhos de Guto contam um pouco de sua personalidade.
Diversos de eles misturam elementos clássicos e contemporâneos, o abstrato e o desenho de observação, alguns inclusive com elementos orientais aproximando-se do anime, outros com traços que fazem crer uma xilogravura.
Os quadrinhos também estão lá, relatando histórias da periferia, vários personagens com suas vidas interditadas por a pobreza e abandono.
«Comecei na oitava série para divertir meus colegas e hoje são mais de 30 personagens».
Em esses quadrinhos ele também ousa, levando às páginas, temas filosóficos e pornográficos.
«Em todo trabalho que faço, quero que minhas idéias vão o mais longe possível e se elas ajudarem a explodir idéias de outras pessoas, melhor ainda».
O que faz de alguém artista?
O que ele produz ou seriam suas idéias embutidas nas obras?,
pergunto. Muitos são os desafios que acompanham quem se dedica a dar forma à imaginação.
A insegurança quanto ao novo estilo, a falta de grana para investir na arte, a inicial ou eterna incompreensão da família, isso para ficar nos problemas mais conhecidos.
Guto faz parte de uma geração de artistas que não se insere numa corrente ou escola artística propriamente dita.
Diferente de outras épocas, onde o modernismo, cubismo, surrealismo compartimentavam hordas de artistas;
na pós-modernidade a quebra de parâmetros e paradigmas é a palavra de ordem!
Movimentar-se nesse cenário amorfo talvez seja, esse sim, o maior dos desafios.
De aí ele dizer que quando nota sua arte encharcada, a mudança de estilo faz-se obrigatoriamente necessária.
Guto Bitu teve também experiências com o biscuit e o mosaico, mas o papel machê (papier mâché) é um novo material que vem recebendo a sua atenção.
Com essa massa de papel picado, cola e gesso, ele pretende iniciar uma nova leva de esculturas, dando continuidade ao seu projeto de trabalho com materiais reciclados.
Os trabalhos estão inseridos em concepções ecologicamente corretas de reutilização de matéria.
Uma outra surpresa é a música.
Apesar de não tocar nenhum instrumento musical, Guto apronta na cabeça suas composições e músicos amigos cifram e orquestram, em parcerias que estão começando, mas que prometem muita coisa boa!
Pergunto a Guto qual o futuro de sua obra:
«Não tenho medo de morrer e nunca ser reconhecido.
Porque as idéias estão por aí, não tem dono, idéia tem raiz, quando ela sai para o mundo não é mais sua, a primeira coisa que o artista deve aprender é ter desapego com sua obra.
Isso tudo que nos cerca não é importante, importa ler o livro da vida.
Em a verdade, eu sou um velho punk."
notas:
Eloi Teles de Morais (Crato, 19 de abril de 1936 -- 2000) foi um grande radialista brasileiro.
Formado em Direito, era também funcionário do Ministério da Agricultura.
Apresentador do programa Coisas do Meu Sertão, especializado em poesia matuta e veiculado diariamente, por mais de 30 anos, na rádio Araripe e, depois, na Rádio Educadora do Cariri.
Destacou-se, também, como folclorista, sendo um dos grandes incentivadores das manifestações da cultura popular do Cariri Cearense, como as bandas cabaçais, reisados, maneiro-pau e literatura de cordel.
Foi o fundador e primeiro presidente da Academia de Cordelistas do Crato.
Ana Porcina Ferreira de Lima -- quando Tristão Gonçalves, filho de Bárbara de Alencar, acabou sendo morto em combate contra os imperialistas em 31 de outubro de 1824, em Santa Rosa do Jaguaripe (hoje Jaguaretama).
Como demonstração de tristeza com a morte de seu marido, Ana Porcina acrescentou em cartório a palavra «Triste» em seu nome, passando a ser conhecida como Ana Triste e a continuar lutando por liberdades democráticas e por a Confederação do Equador no Cariri.
Anime (Anime por vezes escrito Animé ou Animê) é o nome dado à animação japonesa.
A palavra Anime tem significados diferentes para os japoneses e para os ocidentais.
Para os japoneses, anime é tudo o que seja desenho animado, seja ele estrangeiro ou nacional.
Para os ocidentais, anime é todo o desenho animado que venha do Japão. (
fonte Wikipédia)
Receita de Papel Machê:
Meio balde de papel picado;
Água;
Bacia e balde;
Peneira ou escorredor;
Liquidificador ou pilão;
200 g de cola branca;
2 e meia colheres de sopa de gesso de secagem lenta;
1 colher de sopa de gesso comum;
2 colheres de sopa de farinha de trigo;
1 tampa de vinagre.
O papel deve ser picado e deixado de molho durante 24 horas para amolecer.
Em o dia seguinte, encher o liquidificador de água e colocar um pouco do papel, na proporção de mais ou menos três partes de água para uma parte de papel.
Bater por dez segundos, desligar, esperar um minuto e bater novamente por mais dez segundos.
Depois, despejar a massa numa peneira e espremer até sair todo o excesso de água.
Esfarelar a massa e espalhar numa bacia, misturar a cola branca, o vinagre, o gesso de secagem lenta e o gesso comum, até ficar uma massa homogênea.
Finalmente, juntar à massa duas colheres de sopa de cola de farinha de trigo, para que ela não fique partindo.
A cola de farinha é feita cozinhando numa panela, em fogo baixo, duas colheres de sopa de farinha de trigo com dois dedos de água, até engrossar como mingau.
Há algum tempo atrás assisti a 5x2 de François Ozon.
Eis um diretor que gosto muito e que me deixa de olhos vidrados com sua direção tão acertada.
Com o filme de hoje não foi diferente.
Em 5x2 se vê a reconstrução do amor, já que a história é contada de trás para a frente.
Tudo começa desgastado até voltar a magia do primeiro olhar.
Isso não nos liberta da sensação de que romances costumam ter prazo de validade.
Histórias como as dos nossos pais são cada vez mais raras.
Não que isso seja bom ou ruim, mas é tudo diferente.
Vejo meus pais, que já cogitaram a separação algumas vezes, mas preferiram o aconchego criado por tanto tempos juntos.
Sem surpresas, sem muita emoção, sem tesão ...
mas a segurança de não ficarem sozinhos.
Isso não é declarado e talvez nem seja real.
Há carinho, mas sinto que está em outra esfera.
E aí penso nos meus romances, na intensidade em que eles surgem, como se desenrolam e como seguem geralmente para o mesmo fim.
Reuno minhas histórias e busco vestígios do que poderia ter feito para que ela fosse diferente.
Não encontro.
Todas tiveram seu começo, meio e fim e não houve motivos, mesmo que ainda acreditando amar o outro, para estendê-la.
Quando é possível um revival, geralmente o que vem à tona é «somos tão diferentes».
Porque mudamos e porque quando nos reencontramos já somos outras pessoas.
às vezes, nas minhas ilusões, eu me imagino com alguém até o final dos meus dias e simplesmente vejo tais ilusões serem dissipadas por a minha própria intensidade.
Nem estou falando de paixão, pois já tive longos namoros e vivi cada estágio de uma história de amor.
De repente, o amor muda de estação.
Difícil lidar com a falta de tesão, com o sexo mecânico e a falta de criatividade que abate o casal.
Quantos anos são necessários?
Eu consegui esgotar em oito anos, não mais que isso, até porque não deu tempo.
Conheço histórias que me fazem vibrar, mas são poucas.
Talvez elas ainda não tenham tempo suficiente para eu achar que exista esse «até que a morte nos separe».
Não funcionamos assim e muitas vezes insistimos apenas para nos fazer acreditar que sim, existe amor para sempre.
Existe, mas acho que na maioria das vezes ele muda de estação.
Estou apaixonada e não fico pensando muito no amanhã, pois nem sei se de fato ele irá existir.
E sou muito inconstante, por isso sempre quero alguém criativo ao meu lado, alguém que me instigue, que me provoque, que tenha aquele «conquistar» todos os dias.
Raramente é assim.
A maioria se acomoda.
Eu também.
Claro que não há fórmula, não há ideal.
Sofro sempre com os finais, mesmo que a história tenha durado três dias.
Tento ser moderna, mas sou uma romântica desconcertada que adora sentir frio na barriga e o coração disparar.
Por isso, quando minhas histórias terminam, eu imito François Ozon:
Número de frases: 142
volto no tempo, mas ao contrário de ele que pontua toda a ironia que permeou a relação, eu busco tudo que foi bom e isso me conforta a faz eu querer uma nova história e novamente ter o «homem da minha vida» ao meu lado, afinal é muito pessimismo acreditar que há somente um.
Até onde vai a capacidade de um ser humano para realizar seus desejos?
Dois jovens de Franca (SP), a capital brasileira do calçado, conseguiram extrapolar.
O casal de noivos «Jean do Caixão» (22) e «Keren Mortícia» (19), como gostam de ser chamados, no dia 11 de novembro, dia em que ficaram noivos, decidiram roubar um caixão no Cemitério da Saudade, por o simples desejo de ter um caixão para usar como cama.
Estamos falando de dois adeptos da filosofia dos góticos, essas criaturas que estão sempre vestidos de roupas pretas e são apaixonados por a morte, crânios e coisas do tipo.
Jean afirmou que freqüentava cemitérios há nove ou dez anos.
Disse que o casal e seus amigos sempre se reuniam no cemitérios para conversar, beber vinho (utilizando crânios humanos na falta de copo), namorar (chegando a inclusive praticar sexo em cima dos túmulos).
O sonho de Jean, compartilhado por a namorada, era usar um caixão como cama.
Para dormir todas as noites, namorar e relaxar nas horas vagas.
O casal afirmou que tentaram comprar legalmente o objeto de desejo, mas as funerárias nunca aceitaram vender os caixões sem a apresentação de um atestado de óbito.
Em a noite do dia 11 de novembro, eles estavam todos reunidos celebrando o noivado do casal.
Para brindar, Jean começou a procurar um crânio para usar como copo.
Foi quando viu que poderia profanar uma das sepulturas para pegar o «cálice».
Em a hora que decidiram ir embora, o rapaz disse à sua namorada que o esperasse.
Retornou à sepultura, e começou a retirar os restos mortais de uma senhora de dentro do caixão, jogando-os de qualquer maneira no túmulo vazio.
Ele disse que seria o primeiro gótico que conhecia que teria um caixão usado em casa.
Os dois saíram do cemitério carregando o caixão.
Alguns vizinhos, não sabendo o que eles estavam carregando, chamaram a polícia.
A viatura passou por eles na Rua Capitão Zeca de Paula.
Assustados, deixaram o caixão na rua e fugiram.
Os policiais, que não os viram, encontraram abandonado o objeto roubado.
Checaram os túmulos para saber qual estava arrombado.
O crânio da senhora não foi encontrado, embora os acusados afirmem que o devolveram ao túmulo.
Segundo o próprio casal afirmou, no programa A tarde é sua, da Rede TV, foram denunciados por suas mães, e agora respondem processo por vilipêndio de cadáver.
O casal falou que não podem nem aparecer na rua mais, por medo de serem agredidos na cidade.
Jean disse ter pensado na família do defunto, e arrependeu-se.
Só disso também, das outras coisas que faziam no cemitério disse que não se importava.
Keren disse que transaria em cima do túmulo de seus pais que não se importaria nem um pouco.
Os dois disseram o tempo todo que era um desejo que eles tinham:
possuir um caixão, e que o desejo de eles era mais importante do que tudo.
Essa indiferença dos dois jovens deixou a apresentadora do programa, Sônia Abrão, extremamente revoltada.
Número de frases: 31
Revoltados também, além dos habitantes da cidade, devem estar os integrantes do movimento gótico, que viram dois membros acabarem com sua imagem nos jornais, na televisão e na internet.
«O esquema é contar a História dos que não têm História, aquela que ainda não foi contada nos livros, a que ninguém ensina na escola».
Foi assim que Gaspar começou a desenrolar a idéia que trocamos durante a rápida passagem do Z ´ Africa Brasil por o Rio de Janeiro.
O grupo de rap oriundo da Zona Sul de São Paulo deu início aos trabalhos em meados dos anos noventa e, desde então, vem explorando novas maneiras de atuar junto aos elementos clássicos da cultura hip-hop.
O registro das experiências vividas por o Z ´ Africa durante esse período pode ser consultado através da discografia do grupo, composta por três discos que apelidei de trilogia da diáspora.
De entre algumas possíveis apropriações, a palavra diáspora é utilizada para indicar grandes movimentos migratórios de populações e etnias.
Os títulos dos discos são exemplares pra introduzir um entendimento da lírica do grupo.
A trilogia é composta por dois álbuns:
Antigamente quilombos, hoje periferia (2002), Tem cor age (2007), e o EP Verdade e traumatismo (2007).
Formado por negros e filhos de imigrantes nordestinos, o Z ´ Africa Brasil traz na sua própria composição a expressão de duas das mais importantes diásporas que contribuíram de maneira direta para formação do nosso país como é hoje.
Falando em formação, a escalação do grupo é a seguinte:
na linha de frente atuam os MC ´ s Funk Buia, Pitchô e Gaspar, no fundão o DJ Tano segura as pontas nos toca-discos.
Ao vivo o Z ´ Africa se apresenta em dois diferentes formatos:
o clássico MC + DJ, e a ousada formação adicionada da banda Z ´ Africanos, com músicos pilotando instrumentos como bateria, baixo, guitarra e percussão.
O resultado sonoro produzido por a união dessa rapaziada não deixa de ser rap, mas como bem explica Gaspar, o buraco musical do Z ´ Africa vai bem mais em baixo:
«Nós estamos ligados na tradição do rap, na força do bumbo e caixa, essa é a base.
Mas o barato vai bem mais além, nosso som não tá preso ao esquema americano».
Pra quem não sabe, a raiz mais profunda do rap está fincada na Jamaica, lugar onde se deu início a prática de improvisar rimas faladas em cima de batidas eletrônicas.
Foram DJ ´ s como Kool Herc que rumaram para os Eua levando na bagagem a cultura dos sound system, estabelecendo uma ponte entre os guetos de Brixton e do Bronx.
«A gente busca as referências na onda jamaicana, na raiz do hip-hop», complementa Gaspar.
Seguindo na contramão da liturgia pregada por boa parte da atual produção do rap, o Z ´ Africa carrega sua metralhadora vocal com temáticas que não abordam a situação periférica contemporânea apenas através da dinâmica violência e miséria.
A percepção desta situação é alimentada por interpretações históricas que nos proporcionam uma leitura ampla, apresentada faixa a faixa nos discos da chamada trilogia da diáspora.
Foi com Antigamente quilombos hoje periferia que tive contato pela primeira vez com o som do grupo.
O título do disco é forte, coloca em pauta uma ponte histórica muito curiosa e corroborada por historiadores que relacionam, por exemplo, a abolição da escravatura com a formação das primeiras favelas.
A faixa homônima termina com a repetição do refrão que diz o seguinte:
«Antigamente quilombos hoje periferia
Levante as caravelas aqui não daremos tréguas não Então que venha a guerra
Zulu, Z ´ Africa, Zumbi, aqui não daremos tréguas não Então que venha a guerra "
O disco segue com Mano chega aí, a letra narra momentos de lazer que acontecem no cenário da periferia paulistana e explode com um refrão que questiona:
«Quem disse que na periferia não dá pra curtir?
Mano chega aí!
Fique na paz, procure festa e saiba como se divertir
Ai mano, vamo que vamo, diz, diz ..."
O disco funciona como um jogo de perguntas e respostas.
Apresentando, por assim dizer, mais soluções do que problemas.
O que dá ao álbum um tom positivo, distante da recorrente sombra fatalista sob a qual quilombos e periferias são retratados em obras artísticas e científico-sociais.
Afinal de contas, a periferia tem seus problemas, mas por aqui também dá pra curtir.
A música que fecha o disco, Rei Zumbi, começa com uma série de cantos tribais seguidos da saudação «Salve o Rei, salve o Rei Zumbi».
A letra constrói uma narrativa do Quilombo de Palmares focada na imagem de Zumbi, que é retratado como uma figura mítica, salvador dos negros e responsável por a libertação dos escravos.
A música varia entre a narrativa histórica, que relaciona presente e passado ao som do rap, e um tipo de canto religioso como podemos ver nesses dois trechos da letra:
«História antiga refletida nos dias de hoje
Onde o negro pobre vive num constante açoite
Domina um leão por dia e por isso assim, grito pra todo mundo ouvir:
Salve o Rei Zumbi ( ...)
Zumbi voltará para nos salvar, ele vai voltar.
O Deus negro não pode estar morto, ele é eterno.
Rezaremos por a sua salvação, por a sua ressurreição.
Ele é eterno, e para o bem da nação o Rei de Palmares irá voltar».
O grupo abriu o show aqui do Rio com os seguintes versos:
«Não tenha medo em dizer que tu é preto
Não tenha espanto em dizer que tu é branco
Não seja omisso em dizer que tu é índio
Em os toca-discos corre sangue nordestino
Brasileiros, nós todos somos brasileiros.
Sou latino-americano e brasileiro."
De fato a questão étnica é o ponto fundamental da obra do Z ´ Africa Brasil, indo além da armadilha do chamado «racismo ao contrário», o discurso não passa por a demonização de um e a vitmização de outro grupo étnico.
O trocadilho Tem cor age, que batiza o segundo álbum do grupo, enfatiza ainda mais a leitura que apresenta toda ordem de conflitos raciais que pontuam nossa história, mas a faixa de abertura, Raiz de glória, anuncia que estamos em «tempo de reparação» e aponta a visão do Z ´ Africa sobre a problemática:
«Parabenizo o bom convívio, elimina o risco
Griot traz vitórias
Raiz de glória eu canto isso porque é preciso entrar na memória "
Essa é tal proposta de intervir na história.
Se no primeiro disco eles cantaram a vida e morte de Zumbi, no segundo surge a figura de Gangazumba dando continuidade à presença de Palmares, que acaba sendo relacionada a uma série de referências que vão de Lampião, passando por Zapata e o MST.
Interessante é perceber que a referência histórica não se limita às narrativas de acontecimentos e a analises de contextos sócio-raciais.
As raízes da cultura brasileira também são evocadas para rechear o som do Z ´ Africa de um tempero muito típico, vindo, principalmente, do nordeste brasileiro:
«O que é da terra é de todos, o forró, o xaxado, de repente mistura o molho», como bem diz a letra de Zabumba de Gangazumba.
Gaspar explica:
«Existem muitas linhas poéticas de canto falado na cultura popular brasileira.
Nós estudamos essas diferentes métricas e acabamos usando isso no nosso som».
Operação que, por fim, faz do Z ´ Africa Brasil um grupo de rap que além do discurso afiado produz uma música rica e global.
Vale a pena dar uma olhada atenta na faixa que dá título ao disco.
Tem cor age é uma convocação a tomada de atitudes.
Em este som a coragem é evocada em função de " mudar o rumo da história, transformar cada dia em vitórias ( ...)
coragem pra pisar no verde e amarelo do genocídio.
Coragem pra trampar, coragem pra criar o filho ( ...)
coragem irmão, transmita seus pensamentos, interage Jão, transforme os acontecimentos».
Todo esse papo explode no refrão que diz:
«O que importa é a cor, e quem tem cor age.
Tem coragem de quebrar as algemas?
Quero ver.
A humildade traz vantagem pra viver.
Em a caminhada a fé vem fortalecer».
A coragem do Z ´ Africa propõe um modelo de «atitude» que não envolve violência, armas, dinheiro ou ostentação.
É uma postura diferenciada do rap que ocupa espaço na mídia convencional, que abre novas possibilidades para à cultura hip-hop.
Um verdadeiro pagode (não confundir com samba-rap, é pagode mesmo, partido-alto) homenageia o finado rapper Sabotage, assassinado quando vivia plena ascensão em sua carreira.
Bom malandro traz melodia e joga ainda mais tempero no caldo sonoro do Z ´ Africa.
Em Quilombo invencível, a ponte histórica é utilizada mais uma vez para ligar a favela ao quilombo, os favelados aos quilombolas:
«Presídios não, peço por educação.
Escravo não, ai é invasão no casarão.
Quilombos não acabam, favela infinita.
Maloqueiro quilombola afastando a polícia ( ...)
Terra dos homens livres a margem do centro
Pra quem tá na guerra, tá sempre pronto para o arrebento
Sabedoria dos mais velhos vencendo as armadilhas
Energia das novas linhagens e as técnicas de guerrilhas».
Mais uma referência histórica a processos de resistência popular traz à tona a figura de Lampião.
Em a música Rei do Cangaço, a exemplo da canção que conta a história de Zumbi, a figura do cangaceiro é retratada de forma mítica.
A letra canta um Lampião respeitado por o povo e temido por as elites, vangloriando sua coragem e enfatizando seu caráter marginal.
«Se é justo não temas
Em o agreste toda caatinga é um veredas da sobrevivência
Má distribuição, fogo do norte é o fim do mundo
Revolução nordestina:
Guararapes, Palmares, Canudos
A margem, o marginal julgado da sociedade
De o sertão aos centros urbanos cantando a liberdade "
A letra prossegue apresentando a transformação do pacato indivíduo Virgulino Ferreira em Lampião, assassino que amedontrava o sertão:
«Mataram sua família, desonraram seu nome
A partir daí lei não existia e nem ordem de homens
Que na ponta da caneta assinam mediocridades
Opiniões sem opinião, de quem, pra quê?
Covardes!
Coronelistas miliciais, latifundiários feudais
Homens cegos por o poder, escravistas toscos, boçais
Para ele não existia autoridade
Colarinhos branco no poder temiam suas atrocidades ( ...)
De vendedor artesão a fora da lei
Lampião, versador inimigo do cangaço Rei
Assasino ou herói?
Malandro ou homem santo?
Para a elite as faces de Lampião encarnava o demônio "
O personagem histórico é apresentado de forma dúbia:
como ameaça a ordem, e libertador do povo nordestino.
Caracterizado como:
«Revolucionário, imponente, guerreiro, resistente» que se curvou somente a Padre Cícero e acabou morto, traído por um de seus cabras.
Marcha suicida, música que abre o EP Verdade e traumatismo, segue a ligação com o Nordeste.
A música é um repente cantado por Sebastião Marinho, no toque da viola a letra fala sobre como a ambição vem destruindo os homens e a natureza.
Introdução ideal para um disco levemente mais sombrio que os dois anteriores, e que foi produzido em condições pra lá de especiais.
O EP surgiu de maneira inusitada, eles me contaram a história, que é mais ou menos assim:
em turnê por a Europa, o Z ´ Africa Brasil acabou encontrando o pessoal do grupo de rap francês Assassin, um dos mais representativos daquele país.
Os dois grupos já haviam produzido músicas juntos, quando os franceses estiveram no Brasil.
Logo, o convite para produzir alguns sons aconteceu de forma natural.
Os paulistanos chegaram em Paris com apenas duas letras previamente rascunhadas.
As outras sete foram compostas durantes as gravações do disco, que duraram apenas três dias.
Um verdadeiro recorde!
Além da velocidade, a qualidade das produções, a parte musical, e as letras impressionam.
É o registro de um Z ´ Africa Brasil amadurecido e o capítulo final ideal para fechar esta trilogia.
O conteúdo do EP é denso.
Hiphopologia alfineta uma certa escola do rap dizendo que «falta originalidade, o povo quer ouvir a verdade».
Daí em diante a letra apresenta a proposta do Z ´ Africa, e a diferência da linhagem do rap que reproduz um discurso batido e ultrapassado.
«É lógico, a nova era:
hip-hop rua
Informação, cultura.
Educação é a luta
Escuta em manifesto o verso função
Auto-valoriza ção, do caos nasce a transformação ( ...)
Em a periferia:
origem, costume e resistência
Em o dia-a-dia:
orgulho, coragem e paciência (.)
O sentido é único, comunicação ao público
Meus erros eu assumo
Eu não aturo abusos de intrusos
Evite a comparação com bico sujo
Firme e forte, eu pego meu rumo ( ...)
Aliás, quem muito fala não faz
Boca de alarme é grilado porque tem prosa demais "
E fecha a música com um refrão que serve de alerta a quem cultua a violência através do rap:
«Em a rua está a revolução, escolha o lado certo:
Quem faz caveira o seu destino é o cemitério
Eu falo sério
Hiphopologia é o privilégio
Moral, caráter na humildade é meu critério Quem
faz caveira, seu destino é o cemitério».
A luta retoma a questão racial abordando a colaboração dos negros para a formação do Brasil, e a maneira como a História retrata esse processo:
«A luta faz parte da nossa cultura
Nós assegura a arte das ruas
O que seria de tudo isso aqui se não fosse o negro para construir?
Poder é povo, quem veta a verdade tem medo de quê?
Esconde o ouro, manipula o pensamento esconde o saber "
Em a seqüência, Reparação surge como uma resposta para as questões colocadas na faixa anterior.
O favelado encarna o guerreiro quilombola, que luta através de um entendimento do passado para transformar a situação contemporânea.
Curioso é perceber que apesar do conflito não se fala em armas, mas em conhecimento.
Não se fala em destruição, mas em reestruturação.
«Guerreiro milenar, é época das colheitas
Em o tato da vida rap representa reparação
Combatendo a pobreza
Transcendendo as riquezas ( ...)
Reparação dos erros do passado que estão presentes
Cultivando tradição que é da nossa gente
Em a riqueza dos povos, registrando as memórias
Escambo periférico a base da troca
O rap orienta, o hip-hop educa
Conhecimento abre a cuca, a origem é a busca
Terra dos homens livres, guerreiros da verdade
Reestruturação cultural reconstruindo Palmares ( ...)
Favela quilombolizada, lutando por cotas
Pra que provas?
Sou a própria prova:
um quilombola
Sabemos o que foi plantado e qual é o chão
É época das colheitas irmão:
reparação!" Esta letra poderia facilmente ser utilizada em campanhas a favor das cotas raciais em universidades públicas.
Funk Buia fecha a música pedindo uma reparação que venha do coração, de uma reflexão interna, para que daí então cada um de nós possa reconhecer o mundo que vivemos.
A dificuldade do brasileiro em encarar e resolver seus problemas históricos é o tema de Verdade e traumatismo.
Em este som, assim como em Planeta Terra é meu país, podemos ouvir Buia e Gaspar dividir os vocais com Rockin'Squat e Pyroman, MC ´ s do Assassin.
Os franceses mesclam a língua pátria com português para criar uma nova ponte que pede o fim da violência contra o gueto, seja ele em São Paulo ou Paris.
Depois da audição dos três discos e de assistir ao Z ´ Africa Brasil ao vivo fica a impressão que temos aqui um material riquíssimo.
Uma música que informa e comove, que diverte e sensibiliza.
Um material que deveria ser explorado além das fronteiras da música rap e da cultura hip-hop.
Se tivesse tais poderes, além da competência que me cabe como historiador, recomendaria essa trilogia para o estudo de História do Brasil e da África.
Principalmente o segundo tema, que foi recentemente colocado como obrigatório nos programas das escolas públicas, mas que não é trabalhado devido ao despreparo dos professores.
Em tempos de intensos debates sobre o ensino da História aplicado nas escolas públicas, a discussão é inflamada por um suposto conteúdo esquerdista presente em livros didáticos.
Acredito que devemos nos voltar para uma renovação do conteúdo que trata da nossa formação cultural, a formação como povo, como Nação e, por fim, como Estado.
Depois de ouvir tanta poesia não me resta inspiração pra fechar o texto de uma forma menos clichê, dizendo que é fundamental encarar a verdade do passado para resolver o traumatismo do presente.
E aí sim, projetar um futuro cheio de batucadas e cantos que versem o que somos, sem medo de ser feliz.
Número de frases: 204
Assista também ao clipe de Eu não vi nada.
Pedi ao Google imagens de Van Gogh e me dei de cara com estes pares de sapatos.
Fiquei encantado com o que vi -- e até achava que seria fácil todas as pessoas entenderem por quê.
Para o João Cláudio Moreno, com quem conversei no MSN «Qualquer bruto se sensibiliza com estes quadros».
Fui pego de surpresa por o comentário da moça que adora ter olhos azuis, não para ver melhor mas para ser melhor admirada.
Este comentário, ouviu Letícia, adorei que tivesse feito porque me deu uma confiança que até então eu não tinha na pertinência do meu texto, achando-o desde óbvio demais até pretencioso.
Diante de platéia tão desarmada perdi estes escrupulosinhos bestas que estavam me atormentando como relatei ao humorista do Piauí (João Cláudio Moreno).
Se para admirar Van Gogh é preciso mais que olhos azuis, então este artigo pode, muito bem, abrir os olhos de outros overmanos e overmanas não tão sectários (e narcisistas) como a nossa querida Letícia.
Não, longe de mim, pretender passar por «descobridor» do talento ímpar de Van Gogh, mas falar sobre a sua obra, mesmo que em termos tão laicos, como farei a seguir, tem sentido sim É de notar que o pintor delimita de forma brilhante o seu tema:
por mais expressivos que fossem (e o são, sem dúvida) não seriam os sapatos o tema pictórico se eles estivessem calçados em alguém, mesmo que desse alguém só se visse uma parte das pernas.
Mas nem por isto os sapatos podem ser considerados «natureza morta».
Eles estão (ab) usados da vida, de kilometros e kilometros andados, suados e sofridos, eles falam da vida como se fossem fósseis.
São também o único assunto em foco, como que para que não nos percamos em detalhes outros além de todas as «pistas» deixadas no «couro» dos mesmos.
De estes dois pares de sapatos que ilustram este artigo, ignoro a existência de outros, tudo o que disse, até agora, vale para ambos.
A maneira, no entanto, como foi concebida a sua estrutura pictórica é bastante diferente, apesar do resultado final, excelente, nas duas.
Em a primeira, sob um chão / fundo em piso cerâmico (?)
foi desenhado, praticamente chapado o sapato / forma, a ponto de ele «se soltar» apenas através de um decalque (inclusive riscos negros) em seu contorno.
Já no segundo é o claro-escuro que «solta» e «levanta» as botas do chão, isto é, o fundo «dialoga» com o objeto pictórico.
Para o grande artista, qualquer tema é ocasião propícia para a realização de uma obra-prima e, goste ou não a Letícia, Van Gogh é um dos grandes genios da pintura.
Mais sobre Vincent Van Gogh
Quanto aos seus olhos azuis, Letícia, tenho certeza de que você é linda com ou sem eles!
beijos e abraços
Número de frases: 22
do Joca Oeiras, o anjo andarilho micro doc brasil
Micro doc é uma forma espontânea de documentário.
Gravado num dia incluindo a pesquisa [que já compõe o discurso do vídeo] num formato curto de 4 ou 2 minutos, micro doc Brasil se propõe apresentar sobre sua forma bruta um evento, um lugar, um personagem.
Sempre ausentes na imagem, os realizadores deixam o lugar ao assunto que se expressam livremente na frente da câmera e criam assim um campo de expressão, mas amplo, oferecendo ao espectador uma relação mais direta com o assunto filmado.
Micro doc é um olhar simples e sem julgamento, quase ' voyeur ' sobre o mundo, e suas situações à parte, únicas.
A partir dessa idéia inicial foi criado o micro doc Brasil, que é um projeto de uma série de micro documentários na qual serão usadas as técnicas de reportagem para televisão com o movimento «cinema processo», que consiste em usar a linguagem própria do objeto do trabalho [comunidades, pessoas] na elaboração do discurso audiovisual, e da» arte do acaso», pesquisa estética sobre o que não esta visto, o esquecido.
» ... brasil».
Porque a serie se propõe de trabalhar em outros paises da américa do sul e da Europa. (
já esta agendado gravações na França para o ano 2009).
Episódios da série:
10 Duração de cada episódio:
2 minutos
Roteiro de viagem
O micro doc brasil foi gravado em diversas cidades do Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste do país num período de 20 dias em 2007, quando a equipe percorreu cerca de 6.000 km através das principais rodovias nacionais.
As cidades atraversadas sao:
* Brasília / DF *
Natal / RN *
Ituiutaba / MG *
São Paulo / SP
Diretores Buca Dantas -- Jornalista e diretor de cinema.
Diretor de Viva o Cinema Brasileiro!
e de Fabião das Queimadas -- Poeta da Liberdade [DocTv / TV Cultura / Ministério da Cultura].
Consultor do Canal Futura. Desenvolveu e fez parte da equipe de direção da serie Brasil Total [Rede Globo / Fantástico].
Vencedor do II prêmio Nacional Confea de Jornalismo.
Mathieu Duvignaud -- Diretor de fotografia e artista francês.
Diretor de fotografia do filme Viva o Cinema Brasileiro!
e já expôs seus trabalhos de fotografia na França e Brasil.
Confere os Micro Docs on line.
Parte / 01, Parte / 02, Parte / 03
Número de frases: 29
http://www.overmundo.com.br/perfis/matyeu Os festejos de Monte do Carmo, localizado a 97 km de Palmas, se caracterizam por reunir três comemorações numa só, onde se homenageia o Divino Espírito do Santo, e as duas santas, a Nossa Senhora do Carmo, a padroeira da cidade, e a Nossa Senhora do Rosário.
O evento se iniciou na manhã do dia 16, por volta das 8h, quando aconteceu a missa de Solenidade de Nossa Senhora do Carmo, ministrada por o pároco Edmilson Costa, onde milhares de pessoas estiveram reunidas na Praça da Matriz, ao lado da igreja que leva o nome da padroeira da cidade, onde foi montada a estrutura de som e palco do caminhão Br Arte e Cultura, especialmente para o evento.
Para a padroeira não tem festa, como explica a Secretária Municipal de Cultura, Marilda Amaral, segundo ela, as homenagens para a Nossa Senhora do Carmo se concentra através de novenas e leilões de oferendas doados por a comunidade.
Solenidade do Divino
Logo após a missa, um grupo de mulheres, acompanhadas por alguns homens, que as seguem tocando instrumentos de folia, e um alferes -- que carrega a bandeira da misericórdia -- saíram da igreja em cortejo por a cidade, tratava-se da folia das mulheres, a única participação feminina dentro da folia e que acontece apenas nesse dia, ao contrario da folia tradicional que realiza o giro de 30 dias.
O cortejo das mulheres é o ponto inicial para a solenidade do Divino Espírito dentro dos festejos do Carmo.
As «foliãs», termo utilizado por a comunidade local, seguiram para chamada casa da festa, onde funciona a Casa de Cultura Padre Alano Soares, onde foi oferecido um café da manhã aos presentes, e logo após a folia das mulheres, que saíram por as ruas da cidade, visitando as casas, com seus cantos e ladainhas colhendo donativos para festa do Divino.
Logo em seguida a saída das mulheres da casa da festa, foi a vez da folia tradicional entrar em cena, eles realizaram o canto do imperador, e logo após os foliões também saíram por as ruas da cidade, entrando nas casas que desejam ser recebidas por a bandeira, fazendo seus cantos e as rezas, e colhendo donativos.
O giro por a cidade, tanto da folia tradicional quanto da folia das mulheres, seguiu até o final da tarde, havendo um intervalo em seguida, para organizar os últimos preparativos para a coroação do novo imperador.
Coroação do Imperador
Em a noite do mesmo dia, o Imperador a ser coroado, Willian Cândido Martins, saiu da casa da festa, sendo conduzido por os três alferes, os das bandeiras do Divino das folias de cima, a de baixo e o da Bandeira da Misericórdia, da folia das mulheres e seguiu em cortejo, acompanhados por os foliões e por pessoas da comunidade e visitantes que conduziam velas confeccionadas com cera de abelha, em direção à casa do imperador do ano passado, Daniel Carvalho dos Santos.
Juntos o Imperador do ano passado e o a ser coroado, seguem em cortejo até a Praça da matriz, onde estavam sendo aguardados por o pároco da igreja.
O padre após recebê-los transmite a coroa, o cetro e o manto, os símbolos de poder e autoridade, para o novo imperador, realizando assim a sua coroação.
Em seguida o pároco dá inicio a Santa Missa em solenidade ao Divino do Espírito do Santo.
Finalizando a Missa, o novo Imperador, juntamente com o antigo, o pároco e autoridades locais seguiram para a casa da festa onde foi oferecido um café com bolos por o novo Imperador.
Para o Prefeito Municipal, Condocert Cavalcante Filho, os festejos de Monte do Carmo é uma tradição que foi mantida ate os dias de hoje e é preciso ser preservada, ele afirma ainda, que com a participação maior da prefeitura, foi possível melhorar a estrutura para festa, e somando ao apoio da Fundação Cultural do Tocantins está sendo possível realizar um evento muito maior do que realizada nos anos interiores.
Os festejos do Carmo prosseguiram no dia 17, às 8h com a Santa Missa do Divino Espírito Santo.
Culinária Típica
Umas das principais características da festa é a fartura de comida, principalmente os bolos, ricos em diversidades.
Em o café oferecido por o imperador, foi possível ser apreciados o «amor perfeito», as pipocas (petas),» trovão», o bolo de arroz, que são preparados em formas e em palhas de bananeiras, o bolo de puba, o «dourado», o biscoito de coco, o biscoito de queijo, o» pé rachado», e o bolo de mãe, os dos mais procurados na festa, um bolo a base de polvilho, ovos, óleo quente e fermento de arroz, muito saboroso e que a maneira de seu preparo é um grande segredo mantido por as «boleiras», que a moradora, dona Umbelina Gomes afirma que apenas com amor de mãe se consegue fazer.
Nossa senhora do Rosário, a santa negra
As solenidades de Nossa Senhora do Rosário, cuja data de celebração é em outubro, tem uma importante presença nos festejos de Monte do Carmo, sempre iniciando após o encerramento da Missa do Divino Espírito Santo, que foi realizada na manha do dia 17.
O marco inicial desta festa é a caçada da rainha, que aconteceu no período da tarde do mesmo dia, que mesmo debaixo de um sol escaldante e muito calor, reuniu milhares de pessoas, que acompanharam com muita animação, cantando e dançado, no ritmo da sússia e ao som dos tambores, o cortejo da futura rainha e sua corte, rumo ao seu acampamento, chamado de «botequim», localizado na periferia da cidade.
Sobre a origem dessa caçada, muitas teorias se misturam, onde de acordo com o professor de geografia da UFT -- universidade Federal do Tocantins, Elizeu Lira, que acompanha os festejo há muitos anos, existe uma junção entre a rainha branca e a rainha negra, que segundo ele, no continente africano eram realizadas essas caçadas.
A pesquisadora Elvanir Matos Gomes, explica que a caçada pode ter como referência também a nobreza européia, que saia com sua corte, para esse tipo de evento, que era tido como diversão.
A secretária de cultura do município, Marilda Amaral, ressalta sobre mito existente na cidade, com a imagem de Nossa senhora do Rosário, de onde pode ter surgido essa tradição, onde ela explica que de acordo com a lenda, a imagem foi encontrada por escravos e trazida para a cidade, que posta na igreja, ela desaparecia no dia seguinte, e era encontrada no local onde tinha sido achada.
E esse fenômeno foi se repetindo, até que um cortejo foi realizado com muita dança e ao som dos tambores, o que encerrou a série de desaparecimentos.
A caçada terminou no fim da tarde, com o retorno da futura rainha a sua casa (Casa da Rainha).
O presidente da Fundação Cultural do Tocantins, Júlio César Machado, estava presente prestigiando a festa.
Os Caretas
Com disfarces grotescos, e satíricos para ocultar a sua identidade, os caretas são figuras marcantes durante a caçada da rainha, onde armados com seus cipós, eles aparecem fazendo a festa, assustando e divertindo as crianças e os adultos.
Onde segundo Elvanir Matos, seria uma referência aos bobos da corte, presentes na realeza européia, no entanto, Elizeu Lira, ressalta também a questão do «revide», escravos fantasiados, que aproveitava do disfarce para bater nas crianças brancas, filhas dos seus malfeitores.
Coroação
Ao cair da noite, por volta das 20h30, A futura rainha, Liduina Pereira Negry Barbosa, ao lado do Futuro rei, Héder Luiz Almeida Pereira, sai em cortejo, em direção a Igreja Nossa Senhora do Carmo, acompanhados do rei e rainha do ano passado, Joaquim Maia, e Maria Manduca Ayres leal, respectivamente.
Chegando ao local do evento, uma estrutura montada no palco do Caminhão Br -- Arte e Cultura, ao lado da igreja, o cortejo foi recebido por o padre Edmilson Costa, que realizou a coroação do novo rei e rainha, repassando a eles a coroa, o certo e o manto.
Acontecendo logo em seguida a Santa Missa, em solenidade a Nossa Senhora do Rosário, a protetora dos pobres e negros.
A o termino da Missa, a nova rainha acompanhada do novo rei saíram em cortejo de volta à casa da rainha, onde foi oferecido um café e uma grande diversidade de bolos, aos presentes.
Encerramento
Em a manhã seguinte, no dia 18, a rainha acompanhada do rei, saiu em cortejo acompanhados por os congos;
grupo folclórico que representa a guarda da rainha, e segue uma hierarquia, onde o mestre dos gongos, de vestimenta vermelha e branca e de coroa dourada, é quem dita as regras e deve ser respeitado, os demais congos estavavam usando as vestimentas azul e branca, e verde e branca;
e as taieiras, as dançarinas do rei, que com suas roupas coloridas, seguem dançando ao ritmo da sússia.
Cortejo seguiu até o palco onde foi realizada a Missa para Nossa Senhora do Rosário.
A o termino da Missão, o Cortejo seguiu de volta a casa da rainha, mas dessa vez acompanhado por os tambores, onde uma mesa farta de bolos da região esperava os festeiros, finalizando assim os festejos do Carmo de 2006.
Solidariedade
A grande marca dos festejos do Carmo e sem duvida a solidariedade e dedicação de sua comunidade para a realização da festa, há uma grande preocupação com a preservação da cultura e em repassá-la para os mais jovens.
Segundo a primeira dama do município, Rita de Cássia Marques, maior da festa é a solidariedade, a importante participação da comunidade, e a preocupação com a continuidade, um trabalho que visa preservar a cultura local.
A estudante do primeiro período de história da UFT -- Universidade Federal do Tocantins, Valdenice Salazar, que acompanhava a festa, participando de uma aula de campo da disciplina de antropologia, se mostrou surpresa com a dedicação e entrosamento do povo carmelitano, «todo mundo participando com um mesmo objetivo, é muito surpreendente a mobilização da população em volta da festa», ressalta.
Número de frases: 47
Júlio César Machado, chama a atenção para a grande participação dos jovens, o respeito que eles demonstram com a sua cultura, «isso é uma demonstração da verdadeira cultura tocantinense, que merece todo o nosso apoio» frisa.» ...
A água não olha pra trás.
Foge, corre mais longe,
Onde olhos não a verão,
A água que vaga."
Papusza Sempre percebi os ciganos com os olhares romanceados da literatura e da música.
Um povo nômade que se mantém à margem do mundo, resguardando seus costumes e tradições.
Mas a idealização começou a ser rompida logo nos primeiros capítulos do livro de Isabel Fonseca -- Enterrem-me em pé (A longa viagem dos ciganos) -- e o universo cigano se apresentou de forma muito mais profunda e instigante.
A pátria do cigano é a sua língua (romani) e seu continente a extensão da memória dos ancestrais.
A história dos ciganos é repassada por a oralidade.
A arte de contar histórias e fabular é valorizada e, muitas vezes, a narrativa assume uma versão fictícia.
A origem dos ciganos, provavelmente a Índia, não é um elemento de preocupação para os ciganos, para eles o ir e vir é a possibilidade do encontro e não importa de onde ou para onde.
O romani é uma língua falada.
Não há dicionários ou certezas quanto à grafia.
A maioria dos ciganos é analfabeta o que explica a ausência de livros literários e didáticos em romani.
A música também é transmitida por o ouvido, pois, não há a prática de notação, e influenciou compositores consagrados como Brahms e Litsz.
Contudo, encontramos Papusza, nome cigano de Bronislawa Wajs, que significa «Boneca».
Papusza era uma cigana polonesa nômade, nascida no início do século XX, que integrava uma caravana (Kumpania) de harpistas.
Ela, transgredindo as regras, aprendeu a ler e escrever escondida e, em 1949, teve seus poemas descobertos e traduzidos por o poeta Jerzy Ficowski.
Papusza escrevia e cantava sobre suas vivências.
Ela deu um testemunho imperioso sobre o porraimos (a devoração), extermínio dos ciganos nos campos de concentração nazistas, e sobre a vida escondida nas florestas durante a guerra na longa balada intitulada " Lágrimas de Sangue:
tudo o que passamos sob o domínio alemão em Volhynia nos anos 43 e 44».
Como em todas as canções ciganas, a nostalgia era um tema recorrente nos poemas de Papusza:
«Ninguém me compreende, / Só a floresta e o rio.
/ Aquilo de que falo / Passou, foi embora, / E levando junto todo o resto ...
/ E os anos de juventude."
Ficowski apoiava o assentamento dos ciganos e utilizou os poemas de Papusza como propaganda.
Papusza foi acusada, por os ciganos, de ter colaborado com um gadjo e foi julgada por Baro Shero, a mais alta autoridade dos roma.
Foi declarada mahrime (impura) e foi condenada a exclusão do grupo.
Depois de alguns meses internada num hospital psiquiátrico, ela viveu trinta e quatro anos, até a sua morte em 1987, sozinha e isolada.
Ao contrário do estereótipo romântico do espírito livre, a lei cigana é severa e proíbe a emancipação dos indivíduos em favor da preservação do grupo.
Papusza foi condenada à morte em vida sem direito a perdão.
Isabel Fonseca descobriu que a melhor forma de conseguir respostas dos ciganos é não fazer perguntas.
Como uma observadora silenciosa, vivendo entre eles, resgatou a cultura milenar, a exclusão das chamadas minorias raciais e a inserção de ciganos instruídos e sofisticados nos contextos intelectuais mundiais, lutando por o reconhecimento dos direitos humanos do povo cigano e por a valorização da sua cultura, como, por exemplo, o etnólogo Andrzej Mirga que ressuscitou Papusza num filme e numa série de concertos e o ativista Nicolae Gheorghe que trouxe a causa dos ciganos para o cenário internacional.
Ao lado do exotismo, existe a adaptação.
Hoje os poetas ciganos publicam suas obras em romani e em outras línguas.
Em a Romênia e na Macedônia existem programas de televisão em romani e há uma geração de editores de revistas e jornais.
Os nomes das famílias ciganas identificam a profissão ou a região de origem:
Kalderashi (caldeireiros), Lovara (negociantes de cavalos), Ursari (treinadores de ursos), Matchiwaia (da Iugoslávia).
A autora descreve os marcos da vida dos ciganos com os rituais:
o nascimento, o batismo, os casamentos prometidos e a morte.
Como o povo nômade, Isabel ultrapassa as fronteiras e relata a existência dos ciganos em vários países da Europa Central e Oriental.
Mostra alguns bem sucedidos, outros, nas estações européias a espera de um destino.
Poucos privilegiados, muitos marginalizados, condenados a vagar sem reconhecimento, focalizados por os ódios étnicos.
Seja na Albânia, na Romênia ou na Polônia encontramos o povo unido por a língua, por os casamentos acordados entre as famílias e por as histórias contadas por os valorizados anciões.
Alguns conceitos causam estranhamento:
a ambivalência do ato de economizar e a revelação das fortunas sem timidez:
cigano rico é o que gasta mais e não o que economiza;
a hierarquia das famílias com a inserção das noras ainda meninas «subordinadas» à sogra;
a obsessão por a limpeza interna;
a importância da sorte e do destino;
o dom das mulheres para a adivinhação do futuro;
a importância da virgindade comprovada no lençol;
o respeito às superstições;
a procriação ilimitada como um sinal de sorte;
a ausência de heróis ciganos de liberação ou fundação da nação cigana ou de mitos sobre a origem do mundo;
a inexistência de fronteiras rompendo com os mapas do imaginário coletivo;
a forte presença do sentimento de solidariedade ...
A declaração de Manush Romanov, ao final de uma visita aos ciganos em Sófia, sensibilizado com as condições do seu povo, transcrita por a autora, é significativa:
«Enterrem-me em pé.
Passei de joelhos toda a minha vida».
O livro de Isabel Fonseca, além de um elaborado resgate histórico, é uma grande homenagem ao povo transnacional e globalizado que há milênios desperta a curiosidade do mundo.
Número de frases: 62
O 7º FISL (Fórum Interncional do Software Livre), um dos maiores eventos do mundo em discussão e disseminação do software livre, que acontece em Porto Alegre do dia 19 a 22 de abril, tem um cenário predominantemente masculino.
Programadores, analistas de sistemas, engenheiros e hackers, muitos hackers:
é homem demais por aqui.
No meio de tanta testosterona, Fernanda Weiden é uma referência para o gênero feminino, representado modestamente em porcentagens no FISL, mas brilhantemente em inovação e engajamento por programadoras como ela.
A gaúcha de Porto Alegre, hoje com 24 anos, começou a desestabilizar esse clube de homens da informática livre muito cedo, aos 19 anos.
Hoje, convidada para fazer parte da equipe Google em Zurich, com passagens na IBM e Infraero, é uma das fundadoras do grupo ativista Software Livre Mulheres.
O grupo começou suas atividades em 2002, com especial atenção à inclusão feminina no mundo da programação livre.
Fernanda, você acha que a informática ainda é um terreno que precisa ser ' desbravado ' por as brasileiras?
O acesso do gênero feminino à tecnologia é realmente mais restrito, mas no Brasil existem iniciativas de inclusão de usuárias.
A Unesco, por exemplo, financia telecentros temáticos voltados a um público especial.
Existiram investimentos num telecentro «feminista» que atenderia exclusivamente o gênero no Rio Grande do Sul.
Esse projeto, se tudo der certo, vai voltar a ser desenvolvido.
Isso solucionaria parte da questão da inclusão de usuárias à tecnologia.
O grupo Software Livre Mulheres veio para atrair mulheres para a produção dessa tecnologia?
Tudo começou quando resolvemos organizar uma mesa 100 % feminina no FISL de 2001.
Desde então, nunca deixamos de estar presentes nesse evento discutindo assuntos que não se restringem ao universo dos softwares, com engajamento social nas questões do feminino no mercado de trabalho.
Resolvemos levar esse projeto a diante e criamos o site de nosso grupo.
É por isso que o Software Livre Mulheres não tem uma proposta estritamente técnica.
Estamos preocupadas principalmente em ajudar mulheres de diversas áreas a entender as diversas problemáticas envolvidas na produção e uso do software livre.
Em o site do seu grupo [http://mulheres.softwarelivre.org] além de links para sites de outros grupos de programadoras ativistas, existem links para sites de cunho essencialmente feminista.
Qual o papel do feminismo no Software Livre Mulheres?
É um papel colaborativo.
Muitas organizações feministas nunca tiveram a tecnologia como ferramenta de divulgação e documentação de seus projetos.
Nosso grupo desenvolveu sites e sistemas em software livre para algumas dessas ONGs, que com eles, poderiam criar uma espécie de liveblog durante suas reuniões e debates.
Isso possibilita uma troca de experiêncas entre as ONGs que antes era muito dificultada.
O feminismo, na outra mão, nos dá a ferramenta social para uma ação engajada.
E por que ainda se distingue programadorES de programadorAS?
Uma pesquisa norte-americano mostrou que pais investem 4 vezes mais em tecnologia na educação de seus filhos, que na educação de suas filhas.
Isso não demonstra alguma coisa?
Estamos num mundo onde ainda existem trabalhos de «homem» e trabalhos de «mulher», então é comum ouvir que as mulheres programam e desenvolvem softwares num estilo diferente do masculino.
O que eles esquecem, é que entre softwares desenvolvidos por homens também existem muitas diferenças.
Parece que ainda existe um desequilíbrio grande de direitos e deveres, entre homens e mulheres.
Vivian Caccuri do FISL, Alegre.
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Número de frases: 34
Rodrigo Melo «Para ser um bom ator, é preciso ler tudo sobre teatro, assistir ao maior número possível de peças e filmes, conversar com atores profissionais, mas -- sobretudo -- conhecer-se, para buscar e encontrar sua singularidade como artista».
A dica acima foi dada por o ator cearense Emiliano Queiroz, em resposta a pergunta elaborada por alguém da platéia, durante a mais recente edição do programa de debates Nomes do Nordeste, realizada no último dia 30, no cineteatro do Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza.
Em o programa, Emiliano Queiroz narrou sua história de vida e trajetória artística, em entrevista aberta ao público concedida ao ator, dramaturgo e diretor teatral cearense Ricardo Guilherme.
A entrevista pública do ator foi a principal atração da semana de encerramento do I Festival BNB das Artes Cênicas.
Atuação incansável em cinema, teatro e tv Nascido em Aracati, em 1º de janeiro de 1936, Emiliano Queiroz tem atuado incansavelmente em inúmeras telenovelas, minisséries, filmes e peças de teatro.
Em a TV, já fez mais de 40 personagens em novelas da Globo, rede cujo elenco artístico integra desde 1965, e onde consagrou-se nacionalmente por a interpretação de personagens marcantes como «Dirceu Borboleta (Bem Amado, 1973 ") e» Juca Cipó (Irmãos Coragem, 1970 "), entre outros.
Durante a entrevista, foram ressaltados fatos importantes de sua trajetória, como:
a contribuição para criar o Teatro Experimental de Arte (TEA), em Fortaleza, na década de 1950;
o trabalho como radioator, num tempo em que o radioteatro tinha maciça audiência nas emissoras cearenses;
e sua partida de caminhão pau-de-arara para São Paulo, a fim de estudar arte dramática naquela metrópole.
O ator também reviveu seu retorno a Fortaleza, no início da década de 1960, para ajudar a fundar a TV Ceará, fazendo teledramaturgia ao vivo:
«o advento da televisão em Fortaleza provocou uma mudança de hábitos profunda;
era uma cidade pacata, à noitinha as pessoas colocavam cadeiras nas calçadas para conversar, e com a chegada da TV, a maioria se recolheu para dentro de suas casas a fim de acompanhar as novelas locais».
De volta a São Paulo, Emiliano realiza suas primeiras incursões no cinema, atuando ao lado de comediantes consagrados como Mazzaropi (" O Lamparina, 1964 ") e Oscarito (" Jovens para a frente», 1968).
Em 1969, trabalha na novela «A Ponte dos Suspiros», de autoria de uma certa Stella Calderón (na verdade, um pseudônimo adotado por o dramaturgo baiano Dias Gomes, para driblar a censura imposta por o regime militar).
Ladrão de emoções rouba cena todo dia
Com humor, relembra quando atuou na peça «Viagem ao centro da terra», de Júlio Verne, dirigida por a brasileira Bia Lessa, que levou o espetáculo para a Alemanha em 1996.
«Eu fazia um personagem germânico, e ainda falando em Alemão;
ao encontrar um casal cearense no hotel, os dois comentaram: '
Emiliano, você é muito abusado mesmo!
Sair do Ceará para interpretar um alemão, falando a língua de eles, na própria terra de eles ... '»,
ri-se.
Em o teatro, interpretou o travesti Geni, na primeira temporada da peça musical «Ópera do Malandro, de Chico Buarque, em 1978».
O personagem também ganhou uma canção do dublê de dramaturgo e compositor, intitulada «Geni e o Zepelim», com letra de 98 versos, tão quilométrica quanto inspirada.
«De tudo que é nego torto / do mangue e do cais do porto / ela já foi namorada», assim iniciava a canção estruturada em redondilhas maiores, que se tornou bastante popular no período de abertura política vigente no Brasil, no final da década de 1970.
A o cantar a canção-tema do seu personagem, Emiliano Queiroz -- qual um ladrão de emoções -- roubava a cena diariamente.
Em o teatro do Centro Cultural, ao reviver trecho de «Geni», ele recaiu nessa prática surpreendente de arrastão coletivo, extasiando a todos.
OBS.:
Matéria originalmente publicada no jornal Notícias do BNB, edição nº 16, de 9 de abril de 2007, na página 3.
O Notícias do BNB é o boletim institucional do Banco do Nordeste do Brasil, com periodicidade semanal e tiragem de 7 mil exemplares.
Número de frases: 30
Pode ser lido no Portal do BNB.
Texto publicado na Japan Total, revista editada no Japão.
Em o dia 26 de agosto uma multidão estimada em 500 mil pessoas se espremeu ao longo da Kaminarimon-dori, uma das principais avenidas do distrito de Asakusa, em Tóquio, para assistir ao desfile de 25 escolas de samba na 26a.
edição do Asakusa Samba Carnival, o maior carnaval do mundo fora do Brasil.
Quem esteve presente não precisou fazer muita força para adivinhar qual escola levaria o troféu quando a G.R.E.S." Bárbaros «" taxiou» até a cabeceira da avenida para a sua 16a.
vitória, fechando o dia também com o prêmio de melhor alegoria.
A escola, que optou por o tema «Jogos», ao mesmo tempo original e fácil de ser assimilado por o público nipônico, passou por momentos de apreensão:
as fantasias confeccionadas no Brasil que vestiram seus cerca de 80 membros da bateria e 150 dançarinos chegaram somente na véspera do desfile.
O carnaval de Asakusa começou oficialmente em 1981 e cada desfile representa uma grande vitória para os dirigentes e membros das escolas de samba japonesas que, depois de anos trabalhando muito, hoje conseguem apresentar um espetáculo admirável e emocionante, além de cumprir com o objetivo inicial, que é atrair mais atenção ao distrito, antigamente um dos mais badalados de Tóquio.
Talvez a peculiaridade desse evento resida justamente aí -- nesse canto da cidade onde é normal deparar-se com sumotoris e gueixas por as ruas, antigos moradores ficam chocados ao presenciarem um acontecimento «estrangeiro» de tamanho impacto visual e auditivo.
Em a avenida, carros alegóricos, dançarinos, malabaristas, músicos e, principalmente, as belas passistas provocaram mais uma vez uma grande aglomeração de fotógrafos de plantão ao longo de todo o percurso.
O que os cariocas achariam de tudo isso?
Roberto Maxwell, de 31 anos e estudante da universidade de Shizuoka, já participou três vezes dos desfiles do Rio de Janeiro e disse ter ficado emocionado ao presenciar o esforço das escolas, " Vi vários elementos autênticos, como as cores e a batida funk na parada de algumas baterias.
Não é simplesmente um show «para inglês ver "».
O toque especial é dado por a presença de vários brasileiros, principalmente em lugares de destaque como nos carros alegóricos e entre os puxadores de samba.
Sabrina Hellmeister, por exemplo, veio da MPB para estrear cantando o enredo da Império do Samba sob a maestria do Mestre Damião.
Em esse dia, a noite chegou nas ruas de Asakusa de uma forma que só acontece uma vez ao ano.
Em os bares e restaurantes, mesas colocadas do lado de fora sustentavam copos de cerveja e cadernos recheados com partituras de predominância tonal maior, que são as do samba.
Sob as lanternas vermelhas, japoneses expressavam sua brasilidade nos cavaquinhos e pandeiros.
Número de frases: 19
De aquela velha história de que um homem precisa plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, resolvi começar por o fim.
Pois que depois de algum tempo, de várias tentativas frustradas e desistências consecutivas, Falações, meu primeiro livro, será realmente publicado.
É sobre isso -- y otras cositas más -- que falarei a seguir.
Sobre escrever o livro
Quando as pessoas que já sabem perguntam sobre o que será o livro -- isso quando não emendam a pergunta com " sobre a história da tua vida?" --
eu desconverso e explico:
é um livro de poemas ...
de mau gosto.
Claro que não.
É um livro de poemas, ora!
Mas quem sabe o que é isso, um livro de poemas?
Então pra não falar de contemporaneidade, experimentalismo, psicanálise e tragicomédia, simplesmente digo que são poemas de mau gosto, mas mau gosto mesmo, onde se pode ler sobre incesto, estupro, falência múltipla dos órgãos.
Pelamordedeus, que não quero afastar os leitores, mas levando em conta o tanto que se tem publicado e lido de material poético ginasiano (amor e dor, amor e flor), prefiro não decepcionar as pessoas.
Falações surgiu há uns três, quatro anos.
Em a época, pensava em inscrevê-lo como projeto do Fundo Municipal de Cultura de Blumenau.
Passou o primeiro edital, passou o segundo e foi a vez de, no terceiro ano do Fundo, levar a sério o projeto do que viria a ser meu primeiro livro.
É bem verdade que o conteúdo foi alterado, reformulado, reinventado com o passar do tempo.
Hoje, parece estar tudo bem.
Pelo menos, olhando-o chego a pensar que «taí, a hora era essa mesmo!».
E não se tem mais muito a dizer a respeito disso:
é um livro de poemas e pronto.
Poemas meus que dialogam com sabe-lá-o-quê, com narradores que captam vozes sabe-lá-de-quem ou de-onde.
E poesia não é isso mesmo?
Montando o projeto
Pois que este é o terceiro ano do Fundo Municipal de Cultura de Blumenau.
Eu, que jovem sou, descubro que é uma reivindicação de muitos e muitos anos da classe artística blumenauense.
De os iniciais 200, passou a 250 e chegou, em 2008, a trezentos mil reais, financiando projetos de onze áreas diferentes.
Era de se saber, portanto, como escrever um projeto de literatura.
Em uma iniciativa bela e econômica (bela por o altruísmo, econômica por não ter de repetir dezenas de vezes as mesmas coisas), a Fundação Cultural de Blumenau ofereceu, durante cinco dias, oficinas para auxiliar na composição dos projetos.
Casa cheia, por ali se encontravam produtores culturais, músicos, artistas plásticos e escritores.
Por mais que rondasse o ar o espírito competitivo de cada um, podia-se perceber o propósito comum de aprender.
Em as cinco noites, falou-se de contrapartida social, função social das artes e da cultura, de legislação, de prestação de contas.
Enfim, praticamente tudo que se precisa, de forma geral, para concorrer a um edital público de financiamento cultural.
Tópicos anotados, surge a pergunta:
e agora, o que eu faço com isso?
Pois bem. Durante um mês, pelo menos, deu tempo de pensar em como o projeto poderia ser útil não só a mim, mas à sociedade.
Foi dessa indagação que surgiram dois eventos-chave do Projeto Falações:
uma oficina sobre poesia blumenauense, contando a sua história e investigando as suas teorias e uma mesa-redonda entre poetas que fizeram e ainda fazem a história dessa literatura.
Uma boa oportunidade para dizer à academia e ao público leitor que sim, existe uma literatura oriunda de Blumenau que possui um valor teórico, que possui características populares, que o que se escreve está ligado, direta ou indiretamente à cultura da cidade, do estado, do país.
Esperando os resultados
O sofrimento começou quando um grande amigo, Pedro Dieter, que mora em Vitória-ES, com todo o carinho disponível decidiu montar a capa de Falações.
Pedro acabava de chegar de Atlanta, nos Estados Unidos, com um monte de idéias novas para pôr em prática.
Ótimas idéias mesmo!
A melhor de elas foi fazer a arte da capa utilizando a obra de um artista norte-americano que trabalha com grafite.
Bom, muito bom mesmo, mas como contatar o artista?
Pedro escreveu a Justin Kauffman dizendo tratar-se eu de um amigo, jovem poeta etc. que queria publicar seu primeiro livro.
Disse ter montado a capa utilizando um recorte da peça So What, que havia ficado tudo muito bonito, muito charmoso, se ele autorizava, essas coisas.
Justin, muito atencioso, disse que sim, claro, como não (tudo isso em inglês) e autorizou a utilização da obra.
Acontece que, ao participar de um edital, não interessa quem disse ou quem deixou de dizer:
são necessários documentos comprobatórios.
E é aí que entra o sofrimento.
Faltando duas semanas para protocolar o projeto, entrei em contato com Justin, explicando que precisava de um documento passado em cartório.
De a mesma forma, Pedro ficara de enviar a sua própria autorização, afinal a arte gráfica era de ele.
Em o fim, quase morrendo de ansiedade, recebi as duas cartas juntas no penúltimo dia de prazo.
Só não entendi como uma carta de Vitória, ali no Espírito Santo, pode demorar tanto quanto uma carta enviada de um país estrangeiro tão longe.
Mas enfim.
Imaginar que seu primeiro livro pode ser publicado não é fácil.
Moacyr Scliar, no texto «21 coisas que aprendi como escritor», diz que frio na barriga e pêlos do braço arrepiando são sinais de quem um livro está pra chegar.
Mas, e se não fosse?
E se todo o trabalho, todos os contatos e todos os votos de confiança tivessem sido em vão?
E as noites sem dormir, pensando em algo que tivesse ficado pra trás?
Os sintomas eu já tinha -- e já tinha também a fé dos perdidos, do tipo «claro que vai, não tem como não, a gente se vê no lançamento».
Poderia ser tudo mentira.
Mas não foi.
Então, até o lançamento
Se fosse assim tão simples, o texto terminava aqui.
Acontece que mesmo tendo mostrado o livro a editores, não era certo que o livro seria aceito por alguma editora séria.
E o que eu faria com centenas de exemplares em casa?
A idéia era justamente encontrar uma rede de distribuição (que em Santa Catarina não há) que levasse Falações para outras regiões.
Que as pessoas que quisessem lê-lo no Rio Grande do Sul, no Paraná, em São Paulo, no Rio pudessem encontrá-lo, verificá-lo, lê-lo e até mesmo comprá-lo.
A resposta da editora, exatamente a que eu esperava, chegou outro dia.
Fiquei feliz, claro.
Era o último degrau de uma escada que eu havia começado a subir ainda no ano passado.
Se eu liguei pra quem podia?
Claro. Se eu escrevi para quem devia saber?
Óbvio. Mas o resultado de tanta euforia foi mesmo um dia de cama, triste, amuado, choroso.
O que havia de errado?
É estranho.
De repente, quando vi, estava escrevendo mais do que devia, lendo sempre o mesmo tanto (minha mãe ainda diz que ler demais enlouquece as pessoas), estudando o quanto podia.
Mas a poesia, em que canto deixei?
Sinceramente, depois de ter entregado o projeto, de ele ter sido aprovado e da editora ter aceitado publicá-lo, o que eu mais queria era vê-lo longe o mais possível.
Parecia que, ganho o jogo, não era mais hora de me preocupar com isso ou aquilo, mas a preocupação veio mesmo assim:
e agora, o que as pessoas vão pensar?
Dizer que se trata de um livro de poemas de mau gosto coube em certo momento -- e ainda cabe, porque repito todos os dias a ladainha -- mas agora o meu teto será de vidro.
Aquele cara que diz «olha, poesia é uma coisa bacana e isso aqui é exatamente o contrário» agora vai expor a cara à tapa.
Mas faz parte do processo e, de qualquer forma, uma vez lido o livro deixará de ser meu, escrito por mim, viabilizado etc..
Acontecerá, então, de eu encontrar um exemplar de Falações na estante e querer lê-lo como se estivesse lendo um outro livro de poemas de um outro autor.
E quem sabe eu goste!
Quem sabe vocês gostem!
Portanto, até o lançamento!
Número de frases: 90
Walter Salles já participou.
Bertolucci os homenageou em Os sonhadores.
João Batista de Andrade os utilizou como forma de divulgação para seu documentário Greve!
e o premiado O Homem que virou suco.
Bom, a pretensão dos garotos e garotas de Maceió não chega a tanto, mas é bem verdade que, desde a criação do cineclube Antes Arte do que Tarde, há dois anos, depois de décadas sem uma entidade do gênero na cidade, eles já aprenderam bem mais sobre como destrinchar um filme, analisar seu roteiro, direção de arte e fotografia ...--
o que pode contribuir para o fomento da produção da sétima arte em Alagoas.
Tudo começou com uma Oficina de Iniciação Cineclubista, durante o III Festival Universitário de Cultura e Arte (Fuca), na Universidade Federal de Alagoas, em novembro de 2003.
A atividade foi coordenada por o cineasta e atual diretor de Relações Institucionais da Associação dos Documentaristas Brasileiros (ABD), Hermano Figueredo.
Em aquela ocasião, a paixão por o cinema e a desconstrução da linguagem cinematográfica foram os pontos de partida para a participação.
Mas, conhecendo melhor o movimento cineclubista, os envolvidos se depararam com questões maiores, como a inacessibilidade da maioria da população ao cinema e o pouco espaço que lhe é dado enquanto arte e reflexão social.
Embora permaneçam um pouco incertos quanto ao papel que devem cumprir (formação de público crítico?),
deram um passo adiante na busca por a democratização do cinema e na utilização de filmes como ferramenta de debates.
Atualmente, o grupo está mudando de local de exibição:
deixa o Espaço Cultural da Ufal, no Centro de Maceió, e passa para o Campus A.C Simões, no Tabuleiro dos Martins que, como toda universidade construída durante a ditadura, fica na saída da cidade.
«Buscamos ainda firmar uma parceria com a reitoria para que o projeto atinja os estudantes universitários», explica Ivan Freitas, estudante de letras e um dos fundadores do cineclube.
Em fevereiro, exibiram no auditório da instituição algumas produções do polêmico Dogma 95, assinado por Lars Von Trier e Thomas Vintenberg, mas esbarraram na burocracia para agendar o ciclo do Expressionismo Alemão para março.
É que a Pró-Reitoria de Extensão indicou que a marcação do auditório deveria ser feita mensalmente.
Quando voltaram lá, outro grupo (só que político) havia conseguido agendar, por três meses (!)
a exibição de filmes no mesmo horário e local onde os garotos haviam planejado (e divulgado).
Algo um tanto estranho de se entender, mas não tanto se somarmos a conjuntura política complicada de uma eleição de DCE e o fato de que o público universitário vinha crescendo no espaço recém-direcionado.
O acontecimento, claro, deixou-os meio abalados e em fase de rediscussão das metas e estratégias.
Mas voltemos ao histórico:
os contatos com outros cineclubes -- especialmente o pernambucano Barravento e o cearense Casa Amarela -- também são mais uma forma de ir articulando o movimento no país, e pode ajudar a construir um circuito alternativo exibidor.
Mas, para isso, o cineclube alagoano vai ter que concluir seu processo de registro, que anda emperrado desde sua criação.
Outra novidade é a parceria com o Sesc, em finalização.
Enquanto na Ufal, a proposta é realizar debates -- característica essencial de um cineclube -- lá a idéia é centrar fogo nas produções brasileiras, especialmente curtas e documentários.
Ou seja, é ampliar o público que vê na arte cinematográfica algo mais que efeitos especiais.
«Em a Ufal, realizamos ciclos de diretores, o que ajuda a compreender melhor sua obra.
Já no Sesc, a proposta é também divulgar o que se produz local e nacionalmente», conta Bruno Jaborandy Maya, estudante de jornalismo e também fundador do cineclube.
Nunca é tarde para a arte
O nome surgiu por acaso.
Em um momento de articulação do movimento cineclubista, em Rio Claro-SP, um dos apaixonados por cinema leu seu texto, que terminava com a frase que batizou o grupo alagoano.
E a idéia é bem essa:
um filme nunca se encerra quando acaba, assim como não começa quando se exibe.
É preciso estar atento às elipses, decifrar as metáforas, conhecer a história do diretor, construir referências.
Entrar e sair da história permite aos participantes, de certa forma, se sentir embebido por ela.
E, mergulhado na trama das cenas, recontar o roteiro usando como pano de fundo um outro cenário, o da realidade.
Afinal, a trajetória histórica dos cineclubes os apresenta como espaço de contestação, seja ela social, política ou artística.
Tanto é verdade que, durante a ditadura brasileira, muitos cineclubes tiveram suas sedes invadidas.
Segundo Hermano Figueredo, o grande número de cineclubes no País nas décadas passadas foi responsável por um movimento de contestação e resistência ao regime militar.
Embora num período próximo à anistia, o filme Greve!,
de João Batista de Andrade, foi lançado por o movimento cineclubista, ainda durante a greve dos metalúrgicos (1979).
O filme, que retratava os acontecimentos da greve do Abc, cujas imagens a imprensa estava proibida de veicular, teve várias cópias apreendidas e seu autor ganhou um processo, desativado logo após a abertura política.
Agora, após um período de refluxo e desativação de diversos cineclubes, o movimento volta a se reorganizar;
e as entidades, a se expandir.
Aqui em Alagoas, além do Antes Arte do que Tarde, outros grupos também manifestam intenção em criar cineclubes.
Entretanto, apesar do movimento cineclubista não ter sido atuante aqui no Estado, algumas experiências nesse sentido foram realizadas nas décadas de 50 e 60, quando alunos da antiga Faculdade de Filosofia se reuniam na sede da antiga União Estadual dos Estudantes (Uesa), no Centro de Maceió.
Segundo o crítico de cinema Elinaldo Barros, ele mesmo fez parte de um cineclube, juntamente com figuras como o ex-deputado, já falecido, José Bernardes, o crítico de artes Imanoel Caldas, o crítico de cinema e hoje professor da USP, Gildo Marçal e o professor da Ufal, Radjalma Cavalcante, de entre outros.
Programação
Os filmes que exibidos por o cineclube Antes Arte do que Tarde são decididos por os próprios membros, e vão desde clássicos do cinema, como O Encouraçado Potekim, de Sergei Eisenstein, até produções mais recentes, como o polêmico Nove canções, de Michael Winterbotton.
Por lá também passaram os cineastas alagoanos, como Hermano e o seu Mirante-mercado.
A dinâmica de exibição é simples:
são definidos ciclos, que podem ser de diretores, temas, países, épocas ou escolas cinematográficas.
A sessão é aberta ao público, e após a exibição, o grupo discute as impressões de cada um sobre o que foi visto.
Como cada pessoa assiste e absorve a mensagem de um filme a partir de suas próprias referências, a visão do outro acaba enriquecendo a discussão e lançando um outro olhar sobre a obra.
Ou seja, é um aprendizado coletivo.
O processo de organização também não é nem um pouco complexo.
«Uma pessoa fica responsável por a locação ou empréstimo do filme, assim como a reprodução de material escrito sobre ele, como ficha técnica, sinopse, prêmios e crítica», explica Felipe Abreu Machado, estudante universitário e também membro do Cineclube.
O material é distribuído para os espectadores e comentado ao final da película.
Segundo Ivan Freitas, o universo abordado vai muito além do que é colocado no papel entregue ao público participante;
discute-se o roteiro, contexto, a conjuntura na qual o filme se insere, além das questões técnicas, a cena que mais marcou e por quê.
Se o ciclo for sobre um diretor, falamos sobre sua filmografia e fazemos paralelos entre o que foi exibido.
«O que impera, em Alagoas e em todo o País, é a exibição em salas localizadas nos Shopping Centers, com o valor do ingresso acima do poder aquisitivo da grande parte do povo e apresentando filmes de apelo comercial», lamenta Bruno.
Participando do cineclube desde sua primeira exibição, com o filme O cangaceiro, dirigido e roteirizado por Lima Barreto, com diálogos de Raquel de Queiroz, Bruno Maya acredita nos cineclubes como forma de democratizar a cultura e formar um público crítico.
Não é um projeto ousado, nem ambicioso.
É apenas o embrião de algo que pode ser bem maior do que se pretende.
Porque a arte vem antes.
E nunca é tarde para perceber isso.
Número de frases: 68
Não estou querendo dizer que são ruins, até porque eu sou a primeira a dizer que adoro um monte de elas.
Mas por algum motivo que eu desconheço, elas não conseguem fazer sucesso.
Vocês podem me dizer o porquê disso??????
As mais antigas, tipo Replicantes, Engenheiros, Wander Wildner (só), até conseguiram se firmar.
As novas, coitadas, nenhuma conseguiu ser o estopor da febre do rato;
e isso me intriga.
Depois de gastar considerável tempo da minha vida refletindo a respeito desse assunto, resolvi trazê-lo para cá, pois já que aqui Só tem gente esclarecida (hehe, humor), me digam:
Por que bandas do Rio Grande do Sul não emplacam???
Se vierem me dizer que é porque a mídia não as apóia, terão que ter argumentos muuuuito convincentes, porque sempre que eu tou fuçando sobre música por a internet e outras mídias especializadas nesse assunto aparece um alôzinho pra alguma coisa do RS.
Exemplo mór é a insistência dos jornalistas em tentar fazer da Cachorro Grande o super sucesso gaúcho.
Qüên.. Qüên.
Ok, e foi ela mesma que me fez ter alguma idéia pra justificar essa situação.
Eu explico:
não sei se vocês sabem, mas também no RS tem um conjunto de rock chamado Tequila Baby, que é realmente Muito Bom (segundo meu gosto, e do Marky ...
Ramone). Enfim, em 2007 ele vieram tocar aqui em Recife no Abril para o Rock e eu, é claro, não apenas fui, como carreguei meia dúzia de colegas pra conhecer.
O comentário geral depois do show: '
bicho, como é que cachorro grande faz sucesso e tequila baby não??? '.
Aí eu me lembrei das três milhões de janelinhas, abinhas, materiazinhas, mancheteszonas e afins falando da ' super ` banda cachorro grande.
Pensei: ' deve ser isso, deve ser que nem acontece com Mombojó por aqui, eles têm repercussão porque a mídia quer que eles tenham, chega a forçar isso '.
E nesse pensamento eu me apoiei.
Não sei se é verdade, mas eu não consigo pensar em mais nada.
Deu pra entender o que eu quis dizer?????
Trocentas bandas gaúchas, por melhores que sejam, não têm conseguido se firmar no cenário musical brasileiro, Fato.
Pode reparar;
pode testar.
Coloca Pública tocando num extremo da tua rua, coloca Vanguart tocando no outro;
vai Encher Vanguart.
Coloca os dois tocando no mesmo extremo, na hora de Vanguart lota, na de Pública não.
Eu gosto das duas.
Mas pública (talvez devido à visibilidade que tem com o público (hehehe), não vai encher).
Parem para refletir, pensem nas últimas bandas riograndenses do sul que tiveram mais repercussão;
vamos lá ...
Bidê ou Balde, Cachorro Grande, Ultramen, Pulldown, Pública, Pata de Elefante ...
comecei a esquecer.
Fui no Popular site Wikipedia pedir ajuda, achei Superguidis.
Entrei na subcategoria de Porto Alegre:
Acústicos e Valvulados, Cascavelletes, Chimarruts e Cidadão Quem.
Excetuando as já citadas e ' uma que vou falar jajá ' *, as demais são desconhecidas por mim e por o meu colega (com o qual eu conversava no msn tentando lembrar de algumas).
* ' Uma que eu vou falar jajá ':
Depois da única Super Banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, nos últimos quatro anos FRESNO tem sido O Sucesso Gaúcho, gostem ou não.
Sabem, tem muita coisa boa por lá;
e eu só queria saber porque eles não conseguem fazer sucesso.
Até mais perto da grande metrópole brasileira (São Paulo) elas estão.
Até as passagens são mais baratas ...
Por Que????????
Número de frases: 45
HÃÃÃN???? HEINNNN????
A arte sempre foi uma dos grandes instrumentos da propaganda e publicidade.
Desde o pôster «Belle Époque» anunciando um show num cabaré local, passando por o novo jingle do banco transmitido por o rádio até a produção cinematográfica recheada de efeitos especiais para a nova propaganda de refrigerantes na TV.
Como ferramenta a arte às vezes se confunde com a propaganda, mas raramente ela é o diferencial em foco ou a verdadeira motivação por trás de uma campanha.
Curiosamente, com o passar do tempo ficou claro para todos que a arte e a propaganda sempre andavam de mãos dadas de maneira direta e objetiva:
a arte tornava a propaganda agradável (e portanto mais funcional) e a propaganda impulsiona a popularidade daquela peça, forma ou estilo de arte.
Obviamente as forças de mercado afetaram essa simbiose provocando uma espécie de ciclo envolvendo o uso de uma arte (ou artista) mais popular para impulsionar a popularização do produto ou serviço vendido, tornando o artista ainda mais famoso e o produto idem.
Esse é um padrão que tem se repetido ao extremo por dezenas de anos e ainda funciona, mas não é necessário.
Uma boa marca que procura um posicionamento diferenciado de seus concorrentes provavelmente tomará uma direção diferente e talvez até oposta.
É um risco para varias companhias, mas também pode ser a solução para um destaque triunfal de uma marca para qualquer público alvo em qualquer lugar do mundo.
Quando a Absolut Vodka resolve repetir no Brasil uma campanha focada nas artes plásticas, ela claramente mostra que resolveu (e com sucesso) diferenciar-se entre seus concorrentes por apostar num segmento indiferente às celebridades do momento que transbordam repetidamente dos meios de comunicação de massa.
Sua arte está nos museus, exposições e centros culturais.
A Absolut Brasil voltou com a idéia do modelo mais antigo e recria uma simbiose entre arte e publicidade muito mais rica, muito mais proveitosa tanto para a empresa, quanto para nós e os artistas.
O carioca Daniel Senise e o paulista Nelson Leirner serão os primeiros artistas brasileiros que terão sua arte como o principal diferencial na valorização do produto, seguidos de nomes como:
Nando Costa, Adhemas, Abiuro, Glauco Diogenes, Gui Borchert, Marconi, Nitrocorpz, Colletivo, Rubens Lp e Mooz, que estão sendo apresentados ao grande público por meio de interpretações virtuais disponíveis no site da marca.
Projetos assim são um exemplo de como a arte pode representar o diferencial na escolha da compra de um produto, como o artista pode se beneficiar com a exposição de sua arte e como o consumidor obtém ainda seu prazer estético.
É uma simbiose onde todos ganham e uma mostra inspiradora para outras empresas por o mundo.
Número de frases: 17
Uma peça sobre como a liberdade pode dar tontura e caganeira
Ok. A música de referência pode ser clichê, reproduzidíssima, pouco original, blablabla, mas a montagem de Abre as Asas sobre Nós, de Sérgio Roveri, em cartaz no Espaço Parlapatões, não é isso.
Aliás, passa longe disso.
Sim, a peça que rendeu ao dramaturgo de Jundiaí o Prêmio Shell fala de asas, de nós, dos outros, de liberdade, mas, com todos estes subtemas, fala muito é da doidera que é este mundo em que a gente vive.
E é nesse ponto que é diferente, que se torna mais poética e cheia de significados.
Falo aqui da doidera dos criadores de passarinhos, dos que gostam de chuva de cocô do teto, dos travestis e dos seus cafetões, dos cheiradores de cocaína (ou de rapé), mas falo também de uma loucura individual, uma loucurinha só nossa, que a gente nem sempre conhece.
Uma das grandes sacadas é o retrato de um universo tão próximo e ao mesmo tempo tão distante, tão humano e ao mesmo tempo tão selvagem, no que pode haver de mais violento no termo.
A o mexer com a realidade dos travestis, com ou sem pipi, mas sempre muito bonitos, elegantes e altos (seja este um atributo oferecido por a genética ou por aqueles saltos malucos com que meus pés feitos pra andar descalços não podem nem sonhar), a obra nos joga na cara temas por os quais estamos acostumados a passar todos os dias e, simplesmente, acostumados a não notar, mesmo quando os atropelamos ou quando eles fazem parte da vista da nossa janela.
Temas sobre os quais a montagem lança um olhar com poucos preconceitos e bastante crueldade.
O aspecto cruel da prostituição, inclusive, é muito bem retratado por outra peça, Abajur Lilás, de Plínio Marcos, já resenhada na Bacante e em cartaz no TUSP, que, por sua vez, aborda a questão por um viés feminino mais colorido, mas não menos podre.
Em a verdade, mais podre.
O que faz o espetáculo em cartaz no Espaço Parlapatões incomparável não é talento individual dos atores, nem tampouco direção espetacular.
Não é, para simplificar, nenhum elemento isolado.
O quê especial da obra está nas lindas metáforas construídas por a composição texto + cenário + dinâmica de cena.
Tal combinação é auxiliada, ainda, por uma trilha que te desespera e te envolve, alternadamente, e que preenche todos os vazios de um cenário que permite vigiar e ser vigiado, inclusive como parte da extinta penitenciária Carandiru.
Relegada ao horário bendito da meia noite, Abre as Asas é resultado da criação artística com base num texto que nos coloca, de maneira muito sutil, diante do nosso medo da liberdade e da nossa necessidade de aprisionar os outros.
Número de frases: 16
Sobretudo, expõe a imensa curiosidade que pessoas têm por pessoas, em qualquer universo.
De meados da década de 90 para cá, o hip hop se consolidou em Cuiabá.
As pessoas que militam nesse movimento passaram a atuar de forma mais organizada e planejada.
São várias ações dirigidas para um público de alto risco social, para aqueles que estão do lado de fora, nos bairros mais distantes do chamado centro, as ditas periferias.
A questão, centro e periferia, mostra que as cidades não são formadas aleatoriamente.
Todo o seu traçado, a sua organização no espaço, se dá de acordo com critérios pré-estabelecidos.
É onde se define o lugar de cada um, a sua posição social, o seu status quo.
O centro é, assim, o lugar onde as decisões políticas acontecem.
A Cufa -- Cuiabá é a organização que realiza o Festival Consciência Hip Hop e que vem somando muito para o fortalecimento desse segmento por aqui.
Eles têm muita consciência de que precisam ocupar seu lugar no centro das decisões e atuam nessa direção.
Conversamos com o rapper Linha Dura, um dos coordenadores da Cufa-Cuiabá, sobre a cena hip hop em Mato Grosso:
um trabalho que vem sendo realizado com muita garra e competência!
Você poderia se apresentar?
Meu nome é Paulo, mais conhecido como Linha Dura.
Sou rapper e milito no hip hop há, mais ou menos, onze anos, cantando rap, organizando eventos, produzindo oficinas ...
mais ou menos isso aí ...
Você representa a CUFA aqui também.
Como começou esse trabalho?
É ...
então, essa é uma palavra que a gente não costuma usar, representar ...
Sou um participante ou membro, como qualquer outro dentro da Central Única das Favelas.
As pessoas falam, porque acabam me identificando assim e é até normal, é natural essa palavra.
Me chamam de presidente, representante, e eu não sou muito fã disso.
Mas isso não é só pudor com a palavra, uma coisa politicamente correta?
Não, é mais no sentido de descentralizar, não vir em cima de hierarquia, é uma nova forma de visão mesmo, porque tem aquela coisa de dizer:
Ah! o cara é presidente, eu sou aquilo, tenho que respeitar o cara.
Acho que dentro de uma organização é legal que todos se sintam importantes dentro do processo e cada um tem seu valor ali.
Então eu acho que é mais pra quebrar isso, essa coisa padrão que até em outras ONG's existe e tem muito aquela postura arrogante, acaba até sendo «umbiguista».
O cara chega e diz:
«eu sou presidente e tudo e tal», mas às vezes não representa nada.
É muito complicado isso, ainda mais no rap que os caras falam «eu represento a minha quebrada» quando tá cantando, mas quando você chega na quebrada do cara ninguém conhece o cara, às vezes nem o vizinho de ele sabe que ele canta rap, então é muito complicada essa coisa de representação.
Essa participação se dá como?
Começou quando?
Isso aí começou com o nome da CUFA em 2004, quando o Mv Bill veio, achou interessante aqui e a gente conversou.
Acabou falando da CUFA.
Surgiu naturalmente, só que é importante saber que, antes disso, a gente já tentava se organizar, a gente já vinha de um processo de discussão, apesar que, de 2001 pra trás, nós não conseguíamos ter uma organização, era muito bate-boca.
De 2001 pra frente a gente começou a participar das discussões do Cubo Mágico, atual Espaço Cubo, falando sobre associação, falando de música, de organização.
Foi onde a gente começou a ter uma visão do que seria a própria política mesmo, de discussão, de debate, e isso foi fortalecendo a gente.
Então eu acho que o Espaço Cubo foi uma força ali também.
Em o sentido da gente poder ter uma direção de discussão, porque ali na periferia é foda, às vezes o cara não entende que você não é contra o cara, que você é contra as idéias de ele, às vezes isso aí acaba gerando briga, de contato físico mesmo.
Você tá levando para o centro de novo, e aí?
A periferia no centro, então no centro começa o nível de organização, faz sentido?
Isso é interessante na CUFA!
Ela vem para o centro em busca da informação, que é onde tem mesmo e tenta espalhar o máximo na periferia.
É um lance que, às vezes, os modelos de organizações, quando falam assim:
«É a gente por a gente e não vamos conversar com esses playboys, com esse cara e tal».
A gente não pensa assim, a gente quer dialogar com a classe média, com a alta, as elites, enfim, com quem quiser dialogar, para que a gente aprenda também esse outro universo, para que a gente possa aplicar dentro da periferia.
Só que, numa coisa a gente é chato:
nesses resultados, nessas participações, que nós da periferia sejamos os próprios protagonistas.
Então, a questão de vir no centro é importante, porque muitas discussões estão no centro mesmo.
E como é que está o trabalho aqui em Cuiabá, a expansão de ele, vamos dizer agora geograficamente, na geografia da cidade, os bairros, onde estão os maiores focos do movimento?
Jd.
Vitória, Alvorada, que a gente começou agora, apesar de eu ser do Alvorada, mas acabou que não focalizou muito lá.
Mas, Alvorada agora, Praieirinho desde o começo, Osmar Cabral ...
Esses são os bairros que a gente tem projeto, tinha em Várzea Grande também.
Mas são esses bairros fortes que a gente trabalhou e tem vários bairros em que a gente atua e que é mais eventual, não tem nada fixo de base ainda.
E a interiorização desse trabalho no Mato Grosso?
Então, no estado ...
a gente está em processo de montar núcleos da CUFA.
É natural, a gente não corre atrás, não, a gente vai trabalhando ...
Estamos indo com calma, é muita coisa, e às vezes não é legal a pessoa se perder.
E o Festival Consciência Hip Hop?
Qual é a do Festival?
É o segundo ano que a gente faz.
É um festival que tem uma circulação grande e a gente tá tentando levar o hip hop para o interior, para que o interior venha aqui para a capital participar e conhecer, ter oportunidade de ver shows diferentes, pessoas com um pouco mais de experiência.
Estamos levando as oficinas para o interior por que lá é mais difícil o acesso, por exemplo, graffite, DJ, são coisas que não chegam lá.
O interior é muito forte no break.
Então a gente está levando essas outras oficinas, é legal que estamos fazendo o próprio mapeamento.
Estão surgindo grupos no interior que a gente não sabia, pessoas boas que cantam rap também.
Primavera do Leste tem dois grupos bons que eu nunca ouvi falar que vão se apresentar no Festival agora.
O fato da gente estar indo para o interior conhecer está legal pra caramba, nesse sentido, a gente acaba mapeando.
Esse é um tema que a moçada da cultura está louca pra discutir, pra fazer acontecer rápido.
Vocês já têm um planejamento para a distribuição de conteúdo, para a distribuição das obras produzidas?
Não, a gente não tem isso, até porque não tem conteúdo.
Tem pouca produção ...
Por exemplo, na área da música, CD, nenhum grupo de rap do Mato Grosso gravou ainda.
Linha Dura e DJ Taba estão gravando agora.
Estamos entrando no estúdio, vai sair lá por fevereiro, janeiro ...
Voltando ao festival, como é que ele está sendo produzido, quem faz, quem organiza e quem está bancando?
A produção é da CUFA.
Os recursos vêm por a Lei do Incentivo Estadual, da Prefeitura de Cuiabá através da Secretaria de Cultura e da SEJUSP, que é a Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública.
Basicamente o Festival está sendo construído através desses três parceiros e no interior as próprias prefeituras estão investindo.
Isso que é legal, essa mobilização que a gente tem ...
Vocês conseguiram construir uma situação interessante e trazer o poder público para dentro do movimento e o movimento também vai lá e passa a participar da gestão municipal ...
Sobre esse lance do movimento entrar e participar, isso é importante porque eu vejo até a auto-gestão do processo, por exemplo, todo esse recurso da Secretaria, Lei do Incentivo, SEJUSP, Prefeitura de Cuiabá são recursos para Cuiabá, o festival está aqui em Cuiabá.
Esse recurso não está indo para o interior, lá são outros multiplicadores que estão articulando, e sempre pautados naquilo:
a gente tem que estar participando da discussão, nós temos que estar na frente, até porque a gente entende que o poder público só atende os desejos da sociedade quando ela se organiza e participa.
Só que ele não é protagonista daquela ação, assim é a nossa compreensão.
Então nós acabamos nos fortalecendo com isso, apesar de ter muito cara que não compreende nem o processo de produção, que é até normal dentro da periferia em si e a gente luta um pouco ainda com a falta de informação também.
Enfim, o Festival está sendo algo novo para a gente, pra Mato Grosso está sendo algo novo com uma produção que a gente nunca fez também, está acima do nosso conhecimento.
A gente está aprendendo, um pouco na prática, como é que faz um festival com um investimento aí, em torno de, setenta mil, oitenta mil reais.
E a tecnologia?
Como vocês interagem?
Isso foi uma coisa importantíssima para a gente, eu mesmo conheci a internet em 2004, depois de 2004 o nível foi louco ...
E hoje a gente vê vários casos na periferia em que os caras já têm uma noção.
Isso facilita porque a gente acaba tendo conhecimento muito rápido das coisas que estão acontecendo.
Aqui na CUFA a gente utiliza legal cara, é aquilo que eu falei, a gente vai para as discussões e a gente aprende muita coisa.
Hoje sem a tecnologia a gente não consegue produzir.
Por exemplo, hoje a gente tem um estúdio de gravação aí, é a tecnologia, é máquina, é produção independente nossa, não precisa mais de outro estúdio.
Como é que vocês se sustentam na CUFA?
Em essas parcerias nós vamos basicamente com a formação.
Então a gente vai com as oficinas na base e temos um modelo de oficina que são para seis meses, e dentro desses seis meses a gente fecha com um parceiro, aí o parceiro paga todos os profissionais.
A gente vai trabalhando nesse sentido, e tem as manobras que a gente faz:
um profissional que ganha seiscentos reais racha ali com outro, que não está no projeto, mas está fazendo outra função, e a gente se multiplica.
Cada um tira mais que um salário mínimo.
Hoje são, mais ou menos, treze pessoas empregadas diretamente.
A gente tá vivendo disso.
Fora os shows, às vezes, Linha Dura e DJ Taba fazem shows e é quinhentos de cachê, é mil, e a gente joga pra dentro, distribui ali pra outras pessoas que estão trabalhando mas não recebem, não tem um dinheiro fixo.
Mas tem uma coisa que a gente prioriza, até porque não tem como não priorizar:
a pessoa que está trabalhando tem que receber.
Nós não vamos conseguir fazer com que a gurizada venha trabalhar totalmente de graça, porque precisa levar arroz e feijão para a casa de ele.
Então, é diferente da pequena burguesia.
Por exemplo, o Espaço Cubo, os caras já têm uma estrutura, nós já não temos estrutura.
Se a gente não leva arroz e feijão a gente vai ter que ir trabalhar de pedreiro, vai ter que fazer bico, aí a CUFA acaba não crescendo, então a gente tem que batalhar sobre isso aí.
E o CD que você está gravando?
O CD é o seguinte, ele está sendo estudado muito em cima do processo local com o universal, que é o siriri e cururu com o Rap.
Cara vai ser um CD interessante, vai ser bacana porque vai ser diferente.
Vai ser uma produção que a galera não está acostumada a ouvir, até porque o siriri é bem regional, né?
A gente tá colocando viola de cocho, o ganzá, os refrões, as músicas cantadas e a batida do Rap.
Já tem uma experiência, a galera aceitou legal e o disco tá praticamente em cima disso.
São onze anos escrevendo as letras do disco, é um disco que tem sentimento mesmo, não é aquela coisa, produto em si.
A gente tá levando alma, tá levando sentimento, tá levando todas as nossas ideologias, tudo o que a gente pensa de verdade tá ali naquele disco e muita gente vai se assustar, até os próprios investidores.
Quem está investindo?
A Lei de Incentivo à Cultura, cara.
Aqui em MT, parece que o Fundo Estadual de Cultura, a nossa Lei do Incentivo, é mais fundamental ainda.
Por que acontece isso?
Não tem mercado ainda?
O que você acha?
Olha só ...
É uma coisa que o artista ao longo do tempo deve se desvencilhar, ou você acha que o estado tem que bancar?
Não, eu acho que o estado tem que dar um pontapé inicial, saca?
Não deve ser o protagonista daquilo.
A Lei do Incentivo tá aí, é a primeira vez que a música rap pega um incentivo dessa lei, é a primeira experiência e eu acho que ano que vem, com certeza, nós não vamos pegar.
Vamos criar outras maneiras e que outras pessoas que nunca gravaram possam pegar.
A gente construiu um estúdio agora e ele vai tá também propondo gerar essa produção e quem sabe a gente não entra para a prensagem ...
Mas, na verdade, a gente tem que esquecer um pouco mesmo o Estado e buscar outros setores, outras alternativas, porque o Estado não é tudo né, cara!
Não pode ser, mesmo!
Se for, vai ser um desastre.
Em o trabalho de vocês existe essa preocupação de realmente propiciar o espaço pra novos protagonistas?
Esse é um trabalho fundamental, é o primordial na CUFA, a inclusão.
Nós, da CUFA, todos fomos incluídos.
A gente acordava de manhã, trabalhava, tinha um sonho disso.
A CUFA trabalha muito com esse lance do sonho da pessoa:
«Ah, você quer ser o quê?"
Tem um camarada agora aí:
matou cinco caras, tem uma vida desestruturada mesmo, a gente começou a incentivar, estamos trabalhando pra que o cara daqui a um ano seja o responsável do núcleo de áudio-visual da CUFA.
O cara tá lá, ganhou uma bolsa pra um curso de pós-gradua ção de cinema, tá ali trocando experiência.
Por isso que eu falo da importância de ir para o centro nas discussões, lá estão as pessoas que têm capacidade de passar uma informação diferente.
Se a gente ficar só lá no bairro, na comunidade ...
Cara, é o que a minha vida foi na comunidade, vendi-maçã e laranja na rua, a noite ia jogar sinuca com a gurizada, bebia num boteco e tal, fumava maconha e por aí vai.
Então, hoje o que acontece, eu tenho um diálogo com o prefeito, tenho diálogo com os secretários municipais, tenho diálogo com várias pessoas da sociedade que respeitam nosso trabalho, então eu sou incluído também, sabe?
Hoje, dessas, mais ou menos, quarenta pessoas que trabalham na CUFA, todos vieram desse patamar mesmo.
Claro que têm pessoas mais capacitadas, porque às vezes teve uma base familiar melhor, estudou um pouquinho mais, aí já sabe dialogar um pouquinho melhor.
Hoje, a gente senta com várias pessoas e consegue conversar.
Depende muito do esforço de cada um ...
É, depende do esforço, mas, mais ainda da oportunidade.
Tem esperança ...
Tem, tem sim!
Vai uma palhinha do rapper Linha Dura?
Deixa eu ver aqui ...
«às vezes eu me sinto uma pessoa tão inútil / Acabo acreditando que tudo que faço não passa de uma coisa fútil / Eu me deparo com um grande muro em minha frente, mas eu não desisto pois estou na linha de frente / Agora é a hora, a hora é agora, de enfrentarmos essa batalha, mas com informação, educação e sem arma / O hip hop é a família organizada, R.A.P. Revolução Através das Palavras que bem rimadas, vidas resgata ..."
É por aí.
Número de frases: 162
Em junho do ano passado, a cidade de Porto Velho ganhava sua primeira rádio voltada diretamente para Cultura.
E o nome não poderia ter sido outro:
Rádio Cultura FM.
Em a freqüência 105,9, diariamente, músicas clássicas, poesias que compõe o cenário regional e o contexto de tudo que está relacionado a arte fazem deste projeto, que ainda ' está em processo de amadurecimento ', ' um salto no que diz respeito a valorização de acontecimentos culturais ', diz o idealizador e empresário, Fernando Prado.
Visando uma programação também educacional, os acadêmicos do curso de Jornalismo da Uniron começam, pela primeira vez, a participar, na prática, daquilo que aprenderam em sala de aula.
Prado afirma que este pode ser um processo até de escolha própria, ou seja, futuros jornalistas podem se identificar com o rádio.
«O rádiojornalismo está de portas abertas», diz.
Fernando Prado acredita que no próximo ano, com a aproximação ainda mais dos acadêmicos na Rádio Cultura FM, a programação tende, também, a se identificar com os movimentos culturais que acontecem por aqui.
«Alguns alunos que já fazem parte desses movimentos terão espaço:
trabalhando e divulgando cultura», explica.
Número de frases: 10
De repente, mais precisamente às 21h50 de ontem, os acessos simultaneos ao meu blog, via google, aumentam vertiginosamente.
Procuro o termo responsavel e está-la:
«Fausto Wolff».
Em este momento um frio percorre a minha espinha e penso:
«morreu o velho lobo».
Acesso o sítio do JB e esta lá ...
estampada a notícia.
A os 68 anos, morre Fausto Wolff.
Fausto foi dos melhores jornalistas e escritores do Brasil.
Mas esta parte objetiva de quem ele foi deixo para o links no final da postagem.
Amigos e amigas que de vez em quando frequentam o Propalando sabem o quanto já falei do velho lobo.
Primeiro com seus artigos em «O Pasquim21» e depois com seus livros, o Fausto foi muito importante na minha formação política e como ser humano.
Em certa época, chegamos a trocar alguns emails.
Em a minha ida ao Rio de Janeiro em janeiro de 2007, acertamos (eu, Fernando Feio e Fausto Wolff) de tomar um chopp em Ipanema.
Terminou não rolando.
A forma como ele mesclava uma eterna indignação perante as injustiças (até de forma agressiva, em alguns momentos) com um forte sentimento de solidariedade para com o próximo tornava os seus textos impressionantemente humanos.
Sem esquecer do humor e da ironia.
Há algumas semanas terminei de ler seu último livro:
A milésima segunda noite.
Muito bom.
Talvez não melhor que «A mão esquerda».
Felizmente Fausto deixa uma obra importante.
Não deixou mais, certamente, por falta de espaço.
Em a política sempre foi brizolista de carteirinha.
Apesar da sempre constante desconfiança do que seria o PT, escreve um belíssimo texto quando da vitória de Lula.
Mas precisou de pouco para perceber realmente do que se tratava o governo e o Partido dos Trabalhadores.
Queria muito ter neste momento o dom da escrita para expressar melhor quem foi o Wolff!
Como diria Natanael Jebão, descansa agora aquele que além de jogador, era comunista e alcoóltra.
Número de frases: 28
em http://propalando.blogspot.com Estou de luto por o cinema em Niterói.
Primeiro, foi o cinema do shopping Trade Center, depois o Estação Icarai e agora o Cinema Icarai também está com seus dias contados.
É uma pena, pois um pedaço da história de Niterói vai ser apagada para que mais um paredão de prédio seja levantada.
Temos muitos prédios, academias, farmácias ...
mas e os cinemas?
Estão sumindo do bairro de Icaraí em Niterói.
Antes existia um clima de agradável de sair andando por as ruas para ver que filmes estão passando ...
sem pegar um ônibus ou carro para isso.
Agora, o único cinema que resta é o Cine Arte Uff, que passa excelentes filmes, mas está precisando de reformas nas aparelhagens de projeção e principalmente de som.
Gostaria de abrir uma discussão nesse site, pois não estou vendo uma mobilização da parte da população contra isso ...
o espaço do cinema que eu saiba era tombado ...
mas agora foi aprovada um destombamento (não sei se é isso ao certo).
uma pena.
Mais triste ainda é ler nos jornais do bairro colunistas falando que «É Niterói» crescendo «e» Niterói não precisa mais de centros culturais do que já tem».
Número de frases: 14
Abrem-se as portas amazônicas para o cinema que raramente chega por aqui.
E não estou falando só de Alta Floresta não, sala de cinema é coisa rara em Mato Grosso:
dos 148 municípios existentes, apenas 4, eu disse quatro, têm salas para exibição de filmes.
A produção audiovisual brasileira morre nas prateleiras do descaso.
É sério, muito sério:
não existem salas para a exibição de filmes no Brasil (apenas 7 % dos municípios).
Dura realidade.
Realidade de concreto vedando nossos olhares.
Vedando a perspectiva mágica de compartilhar uma sessão de filmes numa sala de cinema.
Rir e chorar juntos, se emocionar ao lado de nossos pares, participar da catarse coletiva que emana da telona.
Muito legal a iniciativa de tentar impulsionar o audiovisual em Alta Floresta, município que fica a 860 km de Cuiabá.
O núcleo Teatro Experimental de Alta Floresta, em parceria com a Cia D' Artes, comandado por o produtor cultural, ator e diretor Agostinho Bizinoto, que está há 19 anos promovendo ações culturais na cidade ao lado de sua companheira Elisa (que inclusive, por conta desse trabalho, por a dimensão do que foi realizado nesses anos, ocupa o cargo de vereadora), organizou e produziu um evento simples e totalmente eficiente, sem falso glamour, sem pompas nem circunstâncias, tudo muito bem feito e certeiro.
Foi importante também o apoio de núcleos atuantes de Cuiabá, como o Museu da Imagem e do Som de Cuiabá, coletivo A Fábrika e Espaço Cubo, através do movimento audiovisual Próxima Cena.
Estou falando do 1º Festival Cinema na Floresta.
O charme ficou por conta da sala de exibição improvisada no teatro da cidade (Teatro Experimental de Alta Floresta), com equipamento de projeção digital acompanhado de um bom som, sessões lotadas no espaço com capacidade para 210 pessoas, com direito a presença agendada para alunos de várias escolas em sessões matutinas (formação de público), uma sala com cadeiras comuns, dessas de plástico, de mesa de bar (cansa um pouco, mas não prejudicou em nada o brilho do evento).
Fiquei matutando, se é barato o sistema digital, está mais que na hora de sair por aí por os interiores do Brasil projetando filmes em formato dvd (preço irrisório diante da realidade da película), reunindo pessoas para essa comunhão maravilhosa que rola no espaço de exibição pública.
Parece que rola um certo preconceito com o sistema digital.
O cineasta e ator Amauri Tangará e a produtora cultural Tati Mendes, da Cia D' Artes, outros dois batalhadores incansáveis por o desenvolvimento de uma cultura audiovisual nesse Matão, foram os responsáveis por a pesquisa e seleção dos filmes, além da contribuição na concepção do festival.
Brinquei com o Agostinho no início de uma sessão com cerca de 80 % da capacidade da sala ocupada:
Agostinho, o duro agora será tirar o cinema do povo, as pessoas estão gostando e vão cobrar a continuidade ...
problema dos bons, não é?
Estou convencido de que salas de cinema com projeção digital podem revolucionar o cinema brasileiro gerando espaços para a circulação da produção brasileira, não só de longas-metragens, mas de curtas, médias, vídeos, enfim, pode ser o início de uma transformação que só será possível quando tivermos audiência e isso não se produz da noite para o dia.
Demanda tempo, demanda ações como essas, no meio do matão, na floresta (o que resta de floresta!),
nas pequenas cidades espalhadas por o território brasileiro;
o interessante é produzir as condições para que as pessoas possam assistir aos filmes produzidos no país.
Todos sabem dos problemas de distribuição que emperram o desenvolvimento de uma indústria audiovisual forte no Brasil.
São controladas por grupos que preferem o lucro fácil e não têm nenhum compromisso com o desenvolvimento de uma indústria nacional autônoma.
A lógica é muito simples:
se temos uma audiência em potencial de milhões de habitantes torna-se possível atingir essas pessoas com uma programação popular e de qualidade, que seja o retrato da nossa diversidade cultural, que seja a nossa cara.
Existe uma enorme receptividade para isso e a nossa produção vem melhorando muito nos últimos tempos.
Além das sessões infantis e mostras competitivas, a organização do festival promoveu um ciclo de palestras e debates dirigidos para impulsionar ou estimular a produção audiovisual local e também para inserir importantes reflexões como o da distribuição de conteúdo criativo e cultural na web -- tendo o site Overmundo como foco;
discussão para a formação de um cineclube em Alta Floresta e também sobre as perspectivas da produção independente no país.
Aconteceu uma oficina de produção de vídeo, dirigida por Amauri Tangará, em que foram realizados dois vídeos, com direito a exibição no último dia do festival.
Foi uma semana agitada em Alta Floresta.
Pude sentir o entusiasmo das pessoas e a vontade de agitar o audiovisual na cidade.
Empresários, políticos e artistas de vários segmentos prestigiaram o evento.
O impacto na mídia foi outro ponto muito positivo, repercutiu bastante na capital do estado ocupando os principais cadernos de cultura dos jornais de maior circulação de Mato Grosso.
Um comentário que ouvi, em tom de chacota, que reflete a mais pura realidade:
«Finalmente Alta Floresta foi alvo de reportagens e artigos fora das páginas policiais».
Isso era muito comum no tempo em que a economia do município era dominada por o garimpo.
Com uma programação simples e adequada a um público que não está habituado a frequentar salas de cinema, as reações foram de aprovação, de entusiasmo, de prazer.
Aliás salas de cinema são sempre interessantes pois as emoções acontecem em cadeia o que torna o espaço de exibição um lugar de celebração, catártico, onde os sujeitos podem vivenciar coletivamente a diversidade da experiência humana.
Amauri Tangará selecionou os filmes por um viés didático, procurando mostrar as várias faces / fases da produção audiovisual brasileira, passando por o Cinema Novo (Capovilla), documentários, produção matogrossense, etc.
O vídeo, que Joel Sagardia e eu fizemos, uma adaptação curtíssima da novela homônima «eunóia», foi exibido na primeira noite competitiva e confesso que fiquei um tanto acanhado, esperando reações adversas de pessoas mais conservadoras que estavam ali.
Fiquei meio cabreiro, sei lá ...
bobagem minha, preconceito bobo.
Rolou tudo bem.
Tati Mendes, ao convidar o vídeo para o Festival, justificou dizendo que queriam um pouco de transgressão e que nosso trabalho dava esse tom.
Achei ótimo.
Não pude ficar em Alta Floresta durante toda a semana, apesar das insistências da organização que nos recebeu muito bem.
A palestra que fiz sobre novas mídias e conhecimento colaborativo foi excelente:
quanta receptividade, quanto interesse, quanto terreno para fertilizar, quanta gente aberta para coisas novas, fiquei realmente encantado com tamanha animação.
Muita gente ali já tinha acessado o Overmundo, fiquei feliz de ver que o site está entrando firmemente por os nossos interiores geográficos.
Não há limites, Overmundo está na floresta!
Prêmio Capivara.
Melhor longa:
«Narradores de Javé, de Eliane Caffé "; melhor curta:
«Comprometendo a atuação, de Bruno Bini "; e melhor vídeo:
«Vanguarda Hip Hop» do coletivo Próxima Cena.
Desce o pano.
Recolhe a telona.
Até o próximo festival.
Cinema na Floresta veio para ficar.
Número de frases: 63
O Autobahn toca com urgência.
Esta frase, do Rafael Martins (Wandula, Constanza, Excelsior, etc ...)
foi, para mim, a melhor explicação do que era e como se comportava o Autobahn, não apenas nos shows, mas nos ensaios e na gravação do CD.
Formado por Cristian Dieterich (letras, voz e guitarra), Claudinha Bukowski (bateria e voz), Luli Franco (guitarra e baixo) e por mim, Bertrand Morane (baixo e teclado), o Autobahn praticamente começou com um fim determinado:
não se sabia quando, mas o Cristian em algum momento iria sair de Curitiba.
Começa aí, na minha opinião, o princípio de urgência.
Urgência nos ensaios.
A cada dia surgiam novas músicas.
Era preciso tê-las para, aí sim, existir um show completo.
Urgência na gravação do CD:
dois dias no James gravando os instrumentos por 18 horas seguidas, mais dois ou três dias para a voz, e pronto para a masterização!
Um CD gravado com urgência, mas com preocupação quanto à sonoridade.
O primeiro show do Autobahn definiu o idioma oficial da banda:
com poucas músicas, tínhamos letras em inglês e em alemão.
A resposta para as músicas na língua germânica pareceu muito mais forte, então optamos por fazer todas as letras em alemão.
Aliás, um motivo de orgulho era notar que, a cada show, mais pessoas cantavam coisas do tipo «kenne ich!»,
«lass mich», «nein», além do clássico» Hey!»,
mesmo com a barreira do idioma.
Aprenda alemão cantando.
O CD já está pronto, falta apenas a finalização da arte para a capa e para o encarte.
São oito músicas marcadas por linhas de baixo e bateria densas e usualmente dançantes;
duas guitarras criativas, letras cantadas em alemão e estruturas rítmicas secas, com muita quebra e variação de velocidade.
O Autobahn é uma banda que gera estranheza no primeiro momento em que se escuta, isso provavelmente não mudará nas vezes seguintes, mas sempre faz querer escutar mais.
O lançamento do CD será no James (Curitiba), com data a definir.
www.myspace.com/autobahnmusicspace
Número de frases: 25
e-mail: autobahnmusic@gmail.com Uma, duas, três, quatro ...
3.000 pessoas.
Shiva baixou em Sampa e mandou todo mundo ficar em fila indiana.
Retirantes famintos de tecnologia e conhecimento, clamando por inclusão, viciados em velocidade, estiram suas barracas.
Escutaram o chamado de todos os cantos do país:
São Paulo, Ceará, Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia.
Em os pavilhões muitas cores:
negros, amarelos, vermelhos e brancos.
Rios de bits, bytes, fights, games, luzes.
Robôs que sorriem, pensam e interagem.
É a cybercultura da cultura e eu estou no Matrix.
O analógico lá está representado por a raça humana que desconstrói e constrói o digital, o novo, o inédito, o inaudito.
Música. Jogos.
Sons. Luzes.
Todos os sentidos em estado de alerta, hipnotizados, encantados por a serpente, não por seu encantador.
Cruzei com nerds, geeks, hackers:
punks e gladiadores digitais na arena de mesas.
Uma peruca multicolorida espalha-se como tapete entre roupas, farfalhos e sorrisos.
São fios dourados, repicados, loiros, tingidos, pinks, descoloridos, falsos, verdadeiros, compridos e curtos.
Medusas que nos matam com seu olhar.
Entre toda a raça humana também vislumbrei a marcha dos pingüins, vi plantações de maças mordidas, entreabri janelas:
Linux, Apple, Microsoft.
Oh! Meu Deus!
Somos apenas seres liliputianos encarando Gulliver!
Terra de gigantes e suas adagas!
Em o ringue, Bruce Lee e George Bush tomam surras de pequeninos.
Deus salve a América ...
De o Norte, claro.
Porque nós já fomos remidos por os profetas e Antonios Conselheiros que invadiram a cidade.
Os gurus falam e transmitem sua sapiência milenar aos sedentos que ali estão.
Reprise do Mestre do Kung Fu. Praga de «gafanhotos», pequenos David Carradine admirados com tanto saber.
E chuva.
Chuva para lavar, refrescar e para que os deuses do Olimpo Digital nos abençoem:
«Benditos sejam os que têm fome e sede de saber tecnológico porque serão saciados."
Número de frases: 34
Amém!!! Dia desses estava conversando eu com o Adailton Neto, um dos responsáveis por a célula de Comunicação Fora do Eixo no Acre, falávamos sobre a importância do circuito e as vantagens de se apostar em formas cooperativas de organização para impulsionar as cadeias produtivas do cenário independente de cada estado, onde a descentralização somada à integração em rede evidenciam a prática de jargões como o comumente usado em tempos de globalização, o «pensando local e agindo global».
Neto, que além de assessor de imprensa, tem conhecimentos técnicos de design e programação, tem uma leitura clara sobre o sistema de crédito " Cubo Card.
«O lance do Cubo Card «promete», entusiasma-se, teorizando que o Circuito Fora do Eixo inaugurará um novo ramo do mercado econômico cultural, um ramo marcado por a economia solidária, onde no campo da literatura, por exemplo,» pessoas vão poder lançar livros sem necessidade de ter que se vender a uma editora, tendo a mesma qualidade que uma editora pode oferecer».
E é pra elucidar sua leitura sobre o movimento, entre outras formas de organização do cenário da música independente no Brasil, que Neto abre o verbo e fala a todos em entrevista.
Marielle Ramires -- Primeiro queria que você falasse um pouco de ti.
Quem é Adailton Neto?
Neto -- Adaildo Neto é estudante de Artes Visuais, mas já iniciou os cursos de Ciências da Computação e Direito, pretende trabalhar com produção cultural, e hoje está envolvido com a cena cultural alternativa através da assessoria de comunicação da banda Camundogs, e auxiliando o selo Catraia Records (AC) em algumas iniciativas.
Marielle Ramires -- Como começou a sua relação com o Camundogs e a Catraia?
Neto -- Em a assessoria da Camundogs iniciei logo depois do Festival Varadouro 2006, onde comecei a participar mais ativamente da cena cultural alternativa do estado.
Pedi para o Aarão Prado (vocalista) se eu podia fazer o site da banda, ele aceitou de cara, mas não sabia como poderia me pagar.
Pois bem, como tinha conhecido o macaco Ney Hugo na produção de conteúdo do Varadouro, foi quando ele veio com a idéia da troca de força de trabalho.
Ele disse:
«Faz o site dos caras, depois bota a banda de eles pra tocar pra ti».
Pensando nisso fiz o site dos caras e organizei um mini-festival para a banda «O Camundogs apresenta».
Fizemos um show em dezembro onde foi apresentado o site oficial e a banda Marlton.
A próxima festa será uma apresentação de um artista plástico Ueliton Santana, estudo com o cara, é fenomenal.
Marielle Ramires:
E sua inserção mais diretamente no circuito?
Neto -- Tive o prazer de participar de alguns debates envolvendo Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes) e Fora do Eixo, e posso dizer que concordei e discordei de muitas coisas, daí passei a tomar algumas coisas como base pra minha produção.
Marielle Ramires -- Que pontos concordaste e quais discordaste?
Neto -- É assim, dentro da cena cultural é melhor você fazer o seu e aproveitar as parcerias, precisamos multiplicar e não sair aglomerando, por isso me aproximei de uma banda e não do selo Catraia, e dentro da banda procurei realizar algumas atividades que descaracterizassem a figura de um empresário e passei a ser parceiro de eles (assessor).
Marielle Ramires -- Explique isso melhor ...
Neto -- O selo aglomera produtos culturais, certo?
Marielle Ramires -- Você está se referindo a uma relação meio peer-to peer
Neto -- Essa é a sacada.
Marielle Ramires -- Mas em que ponto especifico está a discordância quanto a Abrafin ou ao Circuito?
Neto -- A meu ver a Abrafin é elitista, os festivais precisam atender uma série de requisitos para poder está dentro e eles não são capazes de identificar um meio de produção cultural, sem o circuito fora do eixo.
Marielle Ramires -- Mas não é necessário estabelecer critérios de algum modo?
Neto -- Mas a partir daí você não pode dizer que é associação dos festivais independentes.
Como é que Abrafin teria Ciência do Festival Varadouro, sem o circuito fora do eixo?
Pra mim a relação abrafin tem um lance mais esquisito, a iniciativa dos cara pode até ser interessante, mas não acho que seja tão clara assim ...
Identifico-me mais com o circuito devido à liberdade que você tem pra entrar e pra sair.
Marielle Ramires -- Mas quais critérios você acha que deveriam ser adotados?
Neto -- Veja bem, quando você diz que vai representar uma série de eventos para fazer frente ao governo federal, você não pode excluir o menor festival sequer.
Afinal, todos devem ser beneficiados.
Porque ela não tem representação em todos os estados.
Sendo mais objetivo, não entendo pra que existe a Abrafin se tem o circuito coordenando tudo isso.
A Abrafin existe há um tempo e não vejo quais são os benefícios em ser associado da abrafin.
Marielle Ramires -- Mas o circuito Fora do Eixo é um movimento social e a Abrafin uma associação de festivais, inclusive com personalidade jurídica.
Acabam sendo coisas distintas..
Neto -- correto.
Abrafin deveria ir além disso.
Marielle Ramires -- Como:
Que papel ela deveria desempenhar?
Neto -- Deveria promover integração e trocas de experiência entre os produtores, e o festival que é associado à Abrafin ele agrega que tipos de valores??
Marielle Ramires -- Então a seu ver isso não seria problema de gestão?
Neto -- Isso!
Marielle Ramires -- Então a crítica seria para a gestão não para a exisência da entidade?
Neto -- Qualquer associação por menor que seja promove integração, agregação de valores ...
de entre outras coisas.
Mas não tem como diferenciar muito tudo isso, a entidade é aquilo o que os gestores desejam que ela seja.
Marielle Ramires -- E o circuito, como você sintetiza a movimentação fora do eixo?
Neto -- A movimentação fora do eixo é como uma grande contaminação de idéias, ou você multiplica o que é repassado pra ti ou você logo se sente excluído do movimento.
Mais ou menos assim, pra participar do fora do eixo você precisa está preparado pra tudo e não ter medo de desafios, não pode compartilhar de uma visão protecionista nem nada.
A experiência maior é a troca de experiência, os contatos, o poder da descentralização, ver como a sociedade pode funcionar num estado de autogestão cultural, vejo que essa vai ser a concretização do movimento fora do eixo.
Marielle Ramires -- Os produtores de conteúdo fora do eixo começaram as discussões sobre a rede de trabalhos no dia 15, num primeira reunião online ...
Qual foi sua avaliação sobre o encontro:
e como você está pensando o portal?
Neto -- O portal tem que ser o como circuito fora do eixo.
Ele tem que ser fora eixo literalmente e promover uma administração em conjunto, adotar políticas «creative commons» e «open source».
Marielle Ramires -- A que os produtores que estão nos primórdios desse processo organizacional deveriam se ater?
Além do portal, claro ...
Neto -- Os produtores devem proliferar as idéias fora do eixo dentro do seu estado, município, bairro ou condomínio.
Devem realizar parcerias com a cena local.
E principalmente preocupado em estabelecer mais alternativas de evento, realize um evento.
Não fique apenas sentado no computador falando sobre bandas, vá além.
Fale sobre teatro, escreva sobre a cena alternativa como ela realmente é.
Marielle Ramires -- Como está a cena do Acre, especialmente as articulações que tangem ao circuito?
Neto -- Hoje no Acre as articulações estão conseguindo uma maior integração com empresas privadas.
E isso é um grande passo.
Marielle Ramires -- Algum projeto em andamento, além do festival?
Neto -- Sim, algumas possibilidades, de um festival de artes plásticas e agora dia 20 um município Quinary vai dar as caras no circuito fora do eixo com um festival de 20 bandas, mostrando que no interior também tem banda de rock, são apenas duas, mas os caras tão com uma vibe bem bacana.
O resto é de Rio Branco (capital) mesmo.
Marielle Ramires -- Tem algo mais que gostarias de colocar?
Neto -- Sim ...
Com toda essa movimentação agora no final de janeiro vamos criar um grupo de apoio ao Catraia que irá promover a produção de conteúdo, eu, Milena Quiroga, Walquiria Raizer, Thays França, Thalyta França, Gisele Lucena e Santiago Queiroz ...
Não temos um nome definido, mas provavelmente irá se chamar «Seringal das idéias».
Marielle Ramires -- Pensam em lançar um veículo dai?
Neto -- Exato, um site ou um blog com as notícias daqui de a cena e também trabalhando na produção cultural, estabelecer parcerias é multiplicar o fora do eixo.
Por isso estarem dentro do catraia apoiando mas também gerando outros produtos culturais.
O grupo de apoio já está trabalhando no Grito Rock.
Número de frases: 81
Queridos Amigos:
Alguns de vocês já tiveram oportunidade de ler diversos artigos que escrevi, aqui mesmo no overmundo, sobre a incrível «Fábrica de Laticínios dos Campos», hoje localizada no município de Campinas do Piauí, obra do visionário cientista Antônio José de Sampaio que foi ajudado, nesta empreitada, por o engenheiro alemão Alfredo Modrach.
Pois bem: ao ensejo de alvissareiras notícias sinto-me na prazerosa obrigação moral de dividir com vocês, a alegria propiciada por elas.
Depois daquele abraço!
Oeiras, 15 de julho de 2008 «Servimo-nos do presente para informar que há interessa da Petrobras na contratação de patrocínio ao projeto ' Restauração da Fábrica de Laticínios '».
Foi dessa forma, simples e direta, que a Gerente de Patrocínios da Petrobras, Sra, Eliane Costa, em ofício datado de 25 de junho de 2008, tomou a iniciativa de informar à presidente da Fundac, Sra..
Sonia Terra, que o tão acalentado Sonho de ver restaurada a Fábrica de Laticínios dos Campos está em vias de tornar-se realidade.
Abraçada como foi, há exatos dois anos, por os campinenses -- que, naquele mesmo dia 15 de julho de 2006, diante de um incêndio irrompido numa das laterais do prédio, chegaram a temer por o seu perecimento -- a Fábrica de Sonhos, energizada por aquele gesto de grande simbolismo e alto espírito de civilidade, veio, de lá para cá, ocupando, mais e mais, os corações e as mentes de personalidades as mais diversas O engenheiro aposentado Paulo de Sá Campos, morador de Olinda-PE, aderiu, de corpo e alma, à Campanha capitaneada por a Fundação Nogueira Tapety-FNT, passando a investigar, por sua própria conta e risco, pistas a respeito do paradeiro do cientista Antonio José de Sampaio tendo promovido pesquisas até na Alemanha e encontrado indícios de que a esposa do cientista sobreviveu muitos anos a ele sendo, inclusive, autora de livros o ultimo de eles publicado em 1963.
Em novembro de 2006, o professor Marcos Vilhena publicou «Vôo de Ícaro, tensões e drama de um industrial no Sertão» sua dissertação de mestrado transmigrada em empolgante livro onde o autor esmiúça a relação conflituosa entre a modernidade, representada por o cientista Antonio José de Sampaio, e o pensamento patriarcal e oligárquico hegemônico no Piauí de antanho, o que, segundo ele, explica a derrocada do empreendimento de Sampaio.
O livro de Vilhena chegou às mãos do Deputado Nazareno Fonteles que, da Tribuna da Câmara Federal, pronunciou, em 12 de dezembro de 2006 discurso enfatizando a importância do livro e a relevância da luta por a restauração daquele monumento.
O mesmo Deputado, dias mais tarde, enviou um documento ao IPHAN ratificando, em todos os seus termos a nossa proposta de tombamento da Fábrica.
Em 24 de janeiro de 2007, uma caravana de intelectuais, organizada por a FNT, e capitaneada por os professores Cineas Santos e Fonseca Neto veio a Campinas do Piauí para conhecer «in loco» as ruínas da Fábrica.
Ainda no primeiro trimestre de 2007, o IPHAN produziu, em parceria com a Associação Brasileira dos Documentaristas, seção do Piauí ABD-PI um documentário intitulado «Fábrica de Manteiga e Queijo das Fazendas Nacionais do Piauí, uma história contada por seus trabalhadores», roteirizado e dirigido por o historiador da instituição, Ricardo Augusto Pereira.
Em 9 de abril de 2007 a FNT, o IPHAN e a Fundac organizaram, em Campinas do Piauí, as comemorações por os 110 anos decorridos desde a inauguração da Fábrica e os 150 anos do nascimento do cientista-empresário Antonio José Sampaio.
Em este mesmo dia, na tribuna do Senado Federal, em Brasília, o Senador João Vicente Claudino pronunciou um discurso em favor da restauração da Fábrica de Laticínios dos Campos.
Dias antes, em 29 de março de 2007, o Senador já havia enviado ofícios à Petrobras, Fundação Banco do Brasil, Fundação Roberto Marinho e Companhia Vale do Rio Doce, solicitando a estas empresas e fundações a alocação de recursos para a restauração da onírica Fábrica.
Teria ainda muita coisa para contar, não tenham dúvidas!
Foi uma intensa Campanha.
Envolveu pessoas, como o fotógrafo André Pessoa, que apenas por amizade e solidariedade para com nosso entusiasmo, se dispôs a realizar um ensaio fotográfico cujo resultado ficou tão belo plasticamente que até nos faz esquecer que aquele é um edifício em ruínas.
Não se trata aqui, no entanto, de fazer um relatório circunstanciado.
Essas lembranças, esse olhar para trás serve para nos fazer enxergar o caminho até aqui, pois este é um momento especial, particularmente gratificante para quem, como nós, palmilhou cada centímetro do percurso.
Hoje ficamos sabendo que há uma instituição, a Petrobras, disposta a bancar a restauração da Fábrica de Sonhos, isto é, ficamos sabendo que tem realidade o sonho acalentado por nós, e nos lembramos da carta-dossi ê redigida por o presidente da FNT Carlos Rubem Campos Reis que foi enviada, em 12 de março de 2007, à arquiteta Jurema Machado, consultora da Unesco e membro do Conselho permanente da programa Petrobras Cultural.
Em esta carta, falando em nome da entidade, Carlos Rubem afiançava que o que pretendíamos era dar «uma mostra da importância desse verdadeiro ícone sertanejo, não apenas para a população local, mas para o Estado do Piauí e para a Nação Brasileira e, ao mesmo tempo, demonstrar o esforço que temos feito para convencer a todos do quanto é importante a sua restauração».
Lembramos, também, que, na época, ficamos pesarosos por o fato de não termos recebido uma resposta.
A resposta da Petrobras, seja a esta carta à sua Conselheira Permanente, seja ao ofício enviado, como já relatamos, por o Senador João Vicente Claudino em 29 daquele mesmo mês de março de 2007, veio agora em forma das claras e objetivas palavras que foram transcritas no início desse artigo.
O dia 15 de julho de 2006, data em que o povo de Campinas do Piauí organizou-se para debelar o fogo que ameaçava se alastrar por todo o prédio e para reafirmar, com um tão carinhoso gesto, sua vontade de ver restaurado o prédio que abrigou a célula-mater do município, deve permanecer na memória dos campinenses como um divisor de águas:
a historia da cidade pode, muito bem, ser contada antes e ...
Depois De aquele Abraço.
Complemento 1
Fábrica De Laticínios DOS Campos:
110 Anos
02/052007 Em o dia 9 de abril último, a cidade de Campinas do Piauí viveu um dia diferenciado:
é que, para comemorar os 110 anos da inauguração da «Fábrica de Laticínios dos Campos» e os 150 anos do nascimento de seu idealizador, o Dr. Antonio José de Sampaio, encontraram-se na cidade delegações da Fundação Cultural do Piauí -- FUNDAC, do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional -- IPHAN, e uma plêiade de conselheiros e convidados da Fundação Nogueira Tapety -- FNT e a população citadina.
A FUNDAC e o IPHAN vieram exibir, na cidade, o documentário " Fábrica de Manteiga e queijo ..." produzido por o IPHAN em parceria com a Associação Brasileira de Documentaristas -- ABD-PI.
à tarde, em várias escolas e, à noite, num telão defronte à Fábrica.
O documentário foi bastante aplaudido por todos.
A FNT, além de participar da exibição do documentário, organizou uma festa comemorativa das efemérides (com direito a bolo e discurso).
Até o Hino Nacional foi entoado por os presentes.
As datas, no entanto, não foram comemoradas apenas em Campinas do Piauí.
Em discurso da tribuna, o senador João Vicente Claudino, lembrou a data e declarou-se aderente à causa da restauração da «Fábrica de Laticínios dos Campos».
O professor Fonseca Neto utilizou-se de sua coluna semanal no «Diário do Povo» para escrever sobre o significado da comemoração dos 150 anos do nascimento de Antonio José de Sampaio.
Comentando o livro do professor Marcos Vilhena, «Vôo de Ícaro -- tensões e drama de um industrial no sertão», lembrou o quanto ainda é necessário resgatar a memória do visionário cientista.
Campanha
Fábrica De Sonhos
Todas essas manifestações representam o coroamento de uma campanha promovida, desde junho último, por a Fundação Nogueira Tapety -- FNT, visando a restauração da «Fábrica de Laticínios dos Campos».
O principal instrumento inicial da campanha foi uma «Carta Aberta ao Governador do Piauí» quando foram colhidas cerca de mil assinaturas protocoladas devidamente na Secretaria de Estado de Governo.
Em dinâmica própria, o eixo inicial da campanha mudou, deixando de ser um incentivo à busca de um Mecenas, via Lei Rouanet -- evidentemente inexistente -- para tornar-se uma luta por o tombamento, em nível federal, do supracitado edifício como estratégia para obter a almejada restauração do prédio.
Não por acaso, a proposta de tombamento, formalizada por a FNT junto ao IPHAN, foi protocolada no dia de Santa Luzia, 13 de dezembro de 2006, apenas alguns dias após o aparecimento de dois livros, o já aqui citado «Vôo de Ícaro -- tensões e drama de um industrial no sertão», do historiador Marcos Vilhena, lançado em Teresina na Oficina da Palavra, no dia 19 de novembro de 2006 e o outro» Os 500», de João Castanho Dias, livro que, ricamente ilustrado, demonstra o pioneirismo da iniciativa do Dr Sampaio ao construir a segunda mais antiga Fábrica de Laticínios do Brasil.
Outra adesão importante à campanha se daria através da repercussão do livro do historiador que mereceu rasgados elogios -- o livro, seu autor, e o programa de pós-graduação da UFPI -- em discurso pronunciado no dia 12 de dezembro de 2006 na tribuna da Câmara Federal por o deputado Nazareno Fonteles, vice-líder do PT naquela casa legislativa.
Encantado com o tema, Fonteles decidiu ratificar, através de ofício enviado ao presidente do IPHAN em todos os seus termos a proposta de tombamento apresentada por a FNT.
O Bispo da Diocese Oeiras-Floriano, Dom Augusto Rocha, em ofício protocolado no IPHAN, manifestou seu apoio incondicional à proposta de tombamento apresentada por a FNT, lembrando os tempos em que o prédio abrigou sacerdotes que por ali passavam em desobriga.
Por solicitação da Câmara Municipal de Campinas do Piauí, a Assembléia Legislativa do Piauí -- ALEPI, enviou ao presidente do IPHAN, Luiz Fernando Almeida, em Brasília, uma Moção de Apelo solicitando seu especial empenho na tramitação e final aprovação da proposta de tombamento da Fábrica.
Convém lembrar que, anteriormente, pedidos nos arquivos do IPHAN, já havia dois outros iguais pedidos:
o primeiro, apresentado em 1977, por o então Procurador Geral do Estado, Dr. José Eduardo Pereira e o outro, um abaixo assinado, constante de quase 400 signatários campinenses, formalizado em 2000, por ofício da então Secretária Municipal de Educação, Professora Maria do Socorro Alves Moura, que suplica «por tudo o quanto é sagrado» a restauração de aludido prédio.
Um outro inesquecível marco da campanha foi, sem sombra de dúvidas, a «Visita dos Intelectuais à Fábrica de Sonhos, organizada por a FNT, realizada no dia 24 de janeiro de 2007» (Dia da Adesão do Piauí ao Grito do Ipiranga) e capitaneada por os professores Cineas Santos e Fonseca Neto, visita que contou com o decisivo apoio da reitoria da UFPI que disponibilizou o transporte dos intelectuais saindo de Teresina e passando por Oeiras até Campinas do Piauí.
Em os jornais teresinenses, a visita rendeu a primeira reportagem de capa (na edição dominical do Diário do Povo do Piauí, 30 de janeiro de 2007) sobre a Fábrica de Laticínios de que se tem notícia.
A adesão de tantos políticos, líderes religiosos, intelectuais e participação engajada da comunidade local ilustra uma campanha vitoriosa, e o encaminhamento dado por o IPHAN no sentido da aceleração dos estudos técnicos também denota isto.
A campanha, no entanto, foi bem mais longe!
Milhares de e-mails recebidos e enviados;
a troca de ofícios com órgãos públicos e privados;
a publicidade dada no «Portal do Sertão» (www.fnt.org.br), sítio virtual da FNT, para a " Fábrica de Sonhos ";
dezenas de artigos publicados em portais tanto de Teresina como em nível nacional;
enfim, uma profusão de comunicações pontuais e difusas que, reunidas, formariam um livro.
Fábrica
De Sonhos em Chamas
Se perguntarem a qualquer um dos mentores do movimento patrimonial qual o dia mais importante da campanha eles não terão nenhuma dúvida em responder:
15 de julho de 2006!
Em esta data, às 5:30h da manhã, o presidente da FNT, Carlos Rubem, recebeu o telefonema de uma campinense que, aflitíssima, lhe comunicou o incêndio que irrompera há poucas horas.
Meio transtornado, sem ter a dimensão exata do sinistro, Carlos Rubem temia por o objeto da campanha, há pouco mais de quinze dias, lançada por a FNT.
Convocado por Bill (Carlos Rubem), Joca Oeiras procurou enviar a notícia do incêndio à imprensa teresinense sendo que um dos portais contatados a única coisa que perguntou foi sobre a existência ou não de vítimas fatais ...
Telefonemas foram dados a autoridades e ao Corpo de Bombeiros.
A o chegarem em Campinas do Piauí, foram tranqüilizados por a visão da imponente chaminé do velho prédio que se mantinha intacta.
O incêndio se localizava apenas numa ala lateral.
Segundo «Joca Oeiras,» quando ali chegamos ainda havia grandes focos do sinistro e para logo a população, mobilizada, enfrentou as chamas com o aproveitamento da rede de água pública».
Em este ínterim, eis que surge a figura de um herói doméstico, Flávio Borges (leia entrevista), que, intrepidamente, subiu no telhado e conseguiu debelar, no final da tarde, os últimos resquícios do incêndio.
Enquanto isto ocorria, o povo mais e mais se mobilizava em torno da Fábrica assinando manifesto, protestando e muitos até chorando como se a fábrica estivesse em pleno funcionamento.
«Por proposta nossa, o povo, numa patente manifestação da importância que atribui aquele ícone sertanejo, promoveu um «Abraço à Fábrica de Sonhos», de extrema simbologia», ressalta Rubem.
Outro instrumento da campanha estará sendo lançado em breve.
Trata-se de um cartaz que traz fotografia da Fábrica (a estampada na capa deste jornal) assinada por André Pessoa e por o design Edmo Campos.
A causa preservacionista é de todos!
Número de frases: 80
O impacto foi incrível e a poeira levantou do chão em segundos.
A o entrar no Parque da Água Branca, localizado na zona oeste de São Paulo, nas duas primeiras semanas do mês de setembro, o público paulistano presente no XI Festival da Cultura Paulista Tradicional, encantou-se em cada apresentação do evento.
Mais conhecido como -- Revelando São Paulo, a festa faz parte do calendário cultural da capital paulistana e traz em suas apresentações culturais, uma São Paulo ' desconhecida ' para muitos de seus residentes.
«É tudo tão lindo e já acontece a onze anos, se eu soubesse teria vindo bem antes» -- comenta a vizinha do parque, Dona Elvira, 62.
O projeto, que resgata os valores culturais do Folclore Paulista, trouxe várias cidades para se apresentar de forma festiva e incentivadora, convidando os visitantes para conhecer mais a tradição e expressão popular de sua cidade.
A edição paulistana aconteceu das 09 às 22h e foi a terceira etapa, antes teve o -- Revelando São Paulo Vale do Ribeira (em Iguape), no mês de junho e o Revelando São Paulo Vale do Paraíba (em São José dos Campos), em julho.
Em a última etapa do projeto, cerca de 180 municípios fizeram ás apresentações muito bem produzidas.
«Treinamos durante dois meses intensamente, perdemos vários finais de semana seguido para poder trazer aqui para a capital uma boa apresentação, pois este público é merecedor» -- diz um dos componentes do Grupo Folia de Reis Estrela da Manhã, da cidade de Bom Jesus dos Perdões, que participou do IX Reiada -- Encontro de Folia de Reis.
Ao redor do palco central havia 140 estandes de artesanato, 70 estandes de culinária, 170 animais -- entre tropas de mulas, cavalos, touros e búfalos, 12 carros de bois, 30 grupos do Festival da Amizade, 18 Orquestras de violas, 50 duplas de Violeiros, 15 grupos de Catira, 15 grupos de dança de São Gonçalo e Santa Cruz, e 40 Folia de Reis.
A cada dia se tinha uma pitada de todas essas apresentações.
O desfile das tropas de mulas, carros de bois, carreiros e tropeiros dão ao festival ares interioranos.
O som da sanfona, a afinação das cordas das violas, os batuques dos tamborins, os pandeiros e os aclamados bonecões, acabavam arrancando aplausos, lágrimas e sorrisos dos mais velhos.
«Essa cultura e resgate que estamos observando hoje é tudo da minha infância, eu adorava tudo isso.
Espero que meus netos possam cultivar toda nossa tradição popular e não deixar que essa lindeza acabe " -- Dona Alba com lágrimas nos olhos comentando ao final da apresentação do Encontro de Quadrilhas.
Além dos 180 municípios participantes da festa, também houve uma confraternização das comunidades de outros paises que contribuíram muito para um desenvolvimento da cultura e da integração da miscigenação na capital paulistana.
Esse encontro faz parte do Festival da Amizade, que é parte integrante ao Revelando São Paulo.
Os paises participantes foram:
Alemanha (Grupo Guaricana Tanzgruppe), Árabes (Grupo Souhan de Dança do Ventre e Folclórica Árabes), Bolívia (" Grupo Folclórico Cultural Kantuta Bolívia "), Grécia (Neolea), fora outros paises como:
Portugal, índia, Hungria, Itália, Lituânia, Egito e alguns Indígenas da cultura Guarani do Coral Tenondei, composto por Crianças, que cantam louvores a Nhanderú (O grande Pai).
Os olhares ...
São Paulo, para muitos é uma cidade que tem um conceito diferenciado de cultura, gastronomia e economicamente tratando-a também é sinal de prosperidade.
Uma miscigenação de sotaques dentro da mesma cidade compõe o cenário também da festa.
O parque nas duas semanas que se passou, traduziu-se num resgate movido por ideais em comum, a cada apresentação, a cada olhar diferenciado, um compromisso da realização de poder contribuir com a cultura da sua cidade.
Todos os interesses das cidades participantes eram por fazer o melhor em todas apresentações, e sem dúvida fizeram.
E que degustação ...
A culinária trata-se de um assunto a parte, pois os petiscos e iguarias, tais como;
Feijão Tropeiro Caipira, Vaca Atolada, Galinhada, Virado a Paulista, Polenta, foras ás outras comidas eram todos deliciosos.
Todos os estandes traziam um gosto e um paladar irreconhecível para maioria do público presente, onde foi acostumada a ter sua alimentação desprovida e corriqueira.
As crianças se esbaldavam com tantas brincadeiras e guloseimas.
Montagem de Cavalo, cabo de guerra, corridas.
As senhoras de idade eram puro saudosismo das alegrias do passado, e todos valores da culinária paulista exposta lhes traziam a saudade dos tempos de criança.
Um incentivo Materno ...
As crianças além de freqüentar o passeio, também eram parte integrante da festa.
Os pais não só levaram, mas também lhes mostravam todo acervo inesgotável de cultura que eles devem aprender a valorizar.
Ora, participando do concerto de violas como era visível em grande parte dos grupos, e também participando da Folia de Reis.
Alguns pais através do incentivo das cidades conseguem ainda cativar estes preciosos pequeninos, para manter os valores culturais e divulgar a cultura de sua cidade.
Toda cordialidade possível ...
O clima era propício para fazer amizade.
As caravanas vindas de todo canto do Estado de São Paulo, com os componentes do festival eram pura alegria.
Tudo é festa, com uma simpatia no atendimento e nas dúvidas presente.
A cordialidade tomava conta daquele local.
«Mesmo trabalhando o tempo todo na festa num calor escaldante, a gente tenta dar um atendimento diferenciado para todos que vieram nos prestigiar» -- comenta um dos monitores do parque.
Esse clima de cordialidade se mantém por a simplicidade das pessoas do interior, onde sua vida não é regada por a influência do trabalho à exaustão e nem a toda correria das grandes capitais.
Por duas semanas o Parque da Água Branca os visitantes puderam se apoderar da simpatia e lealdade, das pessoas, que prezam por a amizade e simplicidade e que infelizmente não mais acontece tanto no dia-a-dia da maior metrópole do país.
Número de frases: 44
Em o último final de semana, por conta do «Dia das Mães», estive na cidade de Indiaporã que deve ter, sendo muito generoso, uns cinco mil habitantes e fica localizada no interior paulista há uns 600 kilômetros da capital.
Lá, o «dia das mães» coincide com o aniversário da cidade.
Então, a cada ano as mães estão acostumadas a ver, na cidade, uma movimentação de certa forma ausente nos demais dias do ano.
Acordar cedo no domingo não é a coisa mais animada do mundo, mas valeu a pena ver o desfile organizado por a prefeitura da cidade.
Em este, desfilaram os membros do grupo da «terceira idade» que, além de disporem de uma boa assistência médica municipal contam também com um clube onde fazem ginástica três vezes por semana.
Convenhamos: nem nós, «jovens» internautas, temos uma prática saudável assim ...
:) O grupo da terceira idade, que aumenta a cada ano e corresponde a um expressivo percentual da cidade, também organiza bailes e viagens turísticas com valor mais que acessíveis.
Mas, não vou me prender a esse detalhe até mesmo porque, por trás desse zelo com essa faixa etária da população, há um cenário típico de horizontes incertos para a população jovem que vêem na migração a única saída para um futuro melhor.
Tornemos, então, ao que movimentou a cidade neste último final de semana:
a parada de aniversário da cidade ou, enfim, do dia das mães.
Um desfile razoavelmente simples onde modestos carros alegóricos abriam alas para o desfile dos diferentes segmentos da comunidade local.
Assim foi que se viu desfilar as meninas que fazem balet, os jovens que lutam capoeira, os estudantes da escolinha de futebol e, como não poderia faltar, os integrantes do grupo da terceira idade.
Como disse, nada excepcional, senão o tamanho do desfile onde muitos dos seus habitantes tomaram parte.
E agora digam-me se isto não tem lá sua relevância para a criação de um sentimento de pertencimento a uma cidade que, se não tem as promessas de futuro da capital, tem, ao que parece, um presente vez em quando interessante.
Encerrando, gostaria de fazer um último comentário sobre o senhor da foto empinando seu belo corcel negro.
Em meio a um grande grupo de cavaleiros, ele desfilou com seu belíssimo cavalo trotador.
E, ao chegar em frente ao palanque do prefeito, ofereceu à cidade uma medalha que havia ganho em Brasília por destaque como cavaleiro.
Depois, antes de empinar o cavalo para esta foto, deu a oportunidade para inúmeras pessoas tirarem foto com seu belo cavalo.
E apesar da sua paciência e boa vontade, não cobrou nada de ninguém e possivelmente também não recebeu nada por desfilar.
Mais que isso, a medalha que havia ganho a ofereceu a cidade!
Enfim, há algo no interior que, vez em quando, mexe com algo dentro de nós ...
Número de frases: 21
Ser músico é maravilhoso, mas viver da profissão de músico é muito difícil.
Até aí nenhuma novidade.
Agora, pior ainda é ter optado por um estilo pouco apreciado, como Jazz e Bossa Nova, e chegar a uma certa idade ...
Aí é que a porca torce o rabo.
Pra vocês terem uma idéia, toco trombone e violão, canto e componho.
Ultimamente, estou desempregado como jornalista e não desenvolvi o «know-how» para trabalhar como advogado, apesar de ter a carteira da OAB.
Então, a música, como sempre, serve para manter minha auto-estima e me dar um troco.
Bem, há alguns meses eu, mestre Assis (sax) e o Fransuá (teclado), trio especializado em música instrumental de «standards» do Jazz e da Bossa Nova, fomos sumariamente demitidos do Restaurante Indez depois de nos termos apresentado lá mais de um ano quintas à noite.
O motivo dado por o dono do restaurante é que ele se enjoara da música.
Só que ele colocou em nosso lugar um único violonista / cantor.
Sabe quanto que ele pagava para nós três?
Durante muito tempo, 50 reais.
Quando o pressionamos para nos pagar 75, ele aceitou e, em seguida, nos demitiu.
Passei a tocar com outra formação no Bar e Shopperia Pueblos e, depois de meses de atuação às sextas e aos sábados, eu e meus companheiros perdemos primeiro o sábado e finalmente, avisados um dia antes, também a sexta.
O motivo alegado para a «demissão» foi que um quarteto é muito caro (ao preço de 85 reais por cabeça).
Agora, não sei o que vai acontecer, onde ou se vou tocar.
A única certeza é de que, nas noites de quarta-feira, vou quebrar tudo no trombone no Sarau do Zé Geral.
Número de frases: 17
A Amazônia é um lugar que a maior parte dos brasileiros só conhece no mapa:
aquela imensidão monocromática, em geral verde, cortada por muitos traços azuis, que ocupa todo o Norte do país.
Para muitos, há muito tempo, ela é associada ao vazio demográfico, à natureza selvagem.
Inferno ou paraíso verdes:
o sinal das classificações oscila entre o extremamente positivo ou negativo, mas a imagem de natureza selvagem, sem gente, pouco muda.
O nome Amazônia é conhecido no mundo inteiro, virou marca de uso comercial e político.
Mas a realidade da região, de fato, ainda é bastante ignorada por a dita sociedade globalizada e globalizante, que cada vez mais se preocupa (ou diz se preocupar) com o meio ambiente.
Quem conhece bem a Amazônia é, paradoxalmente, pouco conhecido.
São povos e comunidades tradicionais que lutam contra um processo de invisibilidade social ao qual, historicamente, foram condenados.
Por meio de eles, com o apoio do projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, o verdadeiro mapa da maior floresta tropical do planeta está sendo desenhado.
Mulheres quebradeiras de coco babaçu do Piauí, Quilombolas da ilha do Marajó, Ribeirinhos da região do Zé Açu, no Amazonas, e Homossexuais na cidade de Belém.
Estes são exemplos dos títulos dos 50 fascículos que o projeto já lançou, nos últimos dois anos e meio, desde que seu coordenador, o antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida, mudou-se para Manaus, como professor visitante do Programa de Pós-gradua ção em Sociedade e Cultura da Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
Em o início, em 2005, o projeto tinha o nome de Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil e realizava trabalhos em todo território nacional.
Em a renovação do contrato de financiamento com a Fundação Ford, ele restringiu seu foco de atuação e foi rebatizado.
Os fascículos são resultado de oficinas de mapeamento participativo, nas quais as fronteiras entre os sujeitos e os objetos de pesquisa se dissolvem.
Professores e alunos de graduação e de pós-gradua ção apóiam o processo no qual membros de um determinado grupo registram quem são, onde e como vivem.
«As identidades são produtos de classificações.
É preciso se perguntar sempre quem classifica», era o conselho que ouvia do professor Alfredo, quando fui sua aluna, em 2006.
Não por acaso, portanto, os textos dessas publicações são construídos quase que exclusivamente com os depoimentos das pessoas que participam da oficina.
«Os fascículos têm sido usados como instrumento de luta.
Eles alcançam grande circulação e fortalecem essas comunidades no encaminhamento de reivindicações», contou o pesquisador Emmanuel de Almeida Jr. O coordenador da Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, funcionário do Ministério do Desenvolvimento Social, Aderval Costa, parece concordar.
«Com o trabalho do Nova Cartografia ganha força, dentro do Estado brasileiro, o reconhecimento de que um quarto do território nacional é legitimamente ocupado por cinco milhões de famílias representantes de povos e comunidades tradicionais.
Esse número tem gerado protesto dos ruralistas, que já se articularam para pedir a revisão dos decretos de regularização fundiária de quilombos e de territórios indígenas», alertou Aderval na 5ª reunião ordinária da Comissão, durante o II Encontro Nacional dos Povos das Florestas, em Brasília, em setembro do ano passado.
O tuxaua da aldeia Beija Flor, Fausto de Andrade Costa, espera com ansiedade que o fascículo produzido com a comunidade fique pronto.
Ele e mais 231 indígenas de novo povos (Tukano, Sateré Maué, Tuyuca, Marubo, Maioruna, Dessana, Arara, Apurinã e Baniwa) vivem num terreno de 42 hectares, na área urbana de Rio Preto da Eva, pequeno município vizinho a Manaus (AM).
Lá, a oficina de mapeamento participativo aconteceu em outubro de 2007, durante três dias, com cerca de 30 indígenas e cinco pesquisadores externos.
«A gente não consegue aprovar projetos nem trazer uma escola indígena para cá, porque nossa área não está demarcada», lamentou o tuxaua.
«Com o Nova Cartografia, a gente não vai mais só pedir de boca, vai ter documentos para levar ao Ministério Público Federal, à Funai», comemorou o líder indígena.
A aldeia Beija Flor nasceu em 1991, quando o norte-americano Richard Melnik, suposto dono da área, convidou alguns artesãos indígenas a mudarem para lá.
Ele revendia aos turistas, em Manaus, os artesanatos produzidos em Rio Preto da Eva.
Dez anos depois, quando o «benfeitor» morreu sem deixar herdeiros, seu procurador legal, Tadeu Drummnond Geraldo, que mora em Minas Gerais, passou a reivindicar a propriedade do terreno.
Desde então, os indígenas têm sofrido ameaças de expulsão, visíveis nas marcas de bala deixadas por pistoleiros nas placas na entrada e ao redor da aldeia.
A violência que deveria silenciar esses povos tradicionais da Amazônia, entretanto, tem servido como estímulo à mobilização.
O nome do futuro fascículo produzindo na aldeia Beija Flor foi escolhido por os participantes da oficina e reflete esse espírito de auto-afirma ção da identidade étnica:
Indígenas em Rio Preto da Eva.
No meio da publicação, seguindo o modelo dos outros fascículos, haverá um mapa da comunidade, com coordenadas geográficas marcadas por os próprios indígenas (durante a oficina, eles aprenderam a manusear o GPS).
à exatidão da latitude e longitude medidas com cuidado, soma-se a poesia das legendas:
cada marcação cartográfica (a localização de uma casa, de um roçado ou de um malocão, por exemplo) é representada por desenhos das crianças da aldeia.
A expressão «tão pequeno que nem aparece no mapa», na Amazônia, aos poucos, vai deixando de existir.
Como adquirir os fascículos
O site do projeto Nova Cartografia Social da Amazônia ainda está em construção.
Enquanto os fascículos não são disponibilizados eletronicamente, a distribuição (gratuita) é feita diretamente por os grupos «mapeados» ou por o escritório central do projeto:
Endereço:
Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia
Rua José Paranaguá, 200 -- Centro, Manaus / AM
CEP: 69005-130
Correio eletrônico:
pncsa.Ufam@yahoo.com.br
Telefone:
Número de frases: 49
(92) 3232-8423
espancamento de mulheres e fuzilamento de negros e homossexuais e incêndio de índios e se vivemos uma democracia racial e os marcianos chegaram no debate das cotas para a Federal do Rio Grande do Sul e a hipocrisia se revelou nítida e não há desculpa outra para ser contra cotas e quem é a favor já se está mexendo desde já contatando as tribos todas para unidas e com as armas do amor e mais todas as bandeiras do bem chegar cedo no dia 29 muito antes das oito da manhã para tornar concreta e enorme e pública a nossa vontade e minúsculo como o cérebro dos marcianos o local em que querem quebrar os nossos sonhos de igualdade de direitos e começar na Ufrgs a procrastinada e historicamente devida reparação que as pessoas do bem e para o bem e anti-marcianas farão acontecer e quem não sabia porque e não queriam as cotas sendo do Planeta Terra saberá o que fazer diante da demonstração dos marcianos racistas que mais uma vez querem os lugares fofinhos e bem bons pagos por os terráqueos só para si contra a diversidade que é a mais linda das características humanas.
Viva a diferença!
Humanas é que sois, pessoas!
Número de frases: 4
(pichações aparecidas hoje nas cercanias do Campus da Federal) Metrô de Madrid.
Espanha. Estação La Latina, novembro de 2007.
Quando se está em outro país, muitos detalhes chamam atenção, principalmente aqueles que contrastam com nosso país de origem.
Um congresso internacional sobre mulheres e arte (uma das áreas de meu interesse e pesquisa) me levou alguns dias às terras espanholas.
Em os trens de metrô chama a atenção o quanto as pessoas lêem e, mais ainda, o quê as pessoas lêem.
Os títulos são os mais diversos e invariavelmente muito bons -- literatura, filosofia, arte.
Dava para ficar imaginando que vidas levavam aquelas pessoas absortas numa leitura tão profunda entre uma estação e outra.
Nunca mais as veria, resta só imaginar.
Chamou-me atenção, e muito, o quanto as questões sobre violência de gênero estão em destaque na Espanha, especialmente em Madrid.
A mídia ocupa-se do tema com reportagens na TV e nos jornais, principalmente em relação ao alto índice de mulheres (de todas as classes sociais) assassinadas por os seus ex-companheiros ou maridos.
Dia 25 de novembro, é o dia internacional de eliminação da violência contra as mulheres, alguém ouviu falar?
Em Madrid, outdoors de vários formatos nos faziam lembrar a todo instante.
Eu via aqueles outdoors e lembrava da Lei Maria da Penha no Brasil e o quanto é difícil obter destaque na mídia sobre essas questões por aqui.
Com certeza, os índices de violência no Brasil não deixam nada a desejar aos índices espanhóis.
Basta ler mais atentamente as páginas policiais dos jornais brasileiros e conferir.
Quem se importa?
Há muitas formas de exercer violência de gênero, e a arte pode ser uma de elas.
Quando se exclui a possibilidade das mulheres serem consideradas grandes artistas, quando os julgamentos estéticos mudam conforme o sexo do / da artista, quando as representações femininas (produzidas tanto por homens como mulheres) reforçam determinados estereótipos de passividade e fragilidade e ...
a conversa é longa.
A foto.
Aquele dia era justamente 25 de novembro.
Estação do metrô.
E lá estava o anúncio em grande destaque.
A espera do próximo trem me fazia prestar mais atenção nos detalhes.
A mulher carregando flores passa na frente do anúncio, e pára.
O que pensaria?
Eu, com a máquina fotográfica.
Zoom.
Click.
Nunca mais a veria.
Número de frases: 30
Luciana
A banda Los Porongas, o artista plástico Gesileu Salvatore e a Associação Vertente foram os ganhadores do Prêmio Chico Mendes de Florestania (2005).
Os dois primeiros foram indicados por iniciativa de origem estadual e urbana, e o terceiro por iniciativa estadual e florestal.
A entrega dos prêmios aconteceu no último dia 22, no Palácio Rio Branco.
A banda Los Porongas é composta por Diogo Soares (vocal), João Eduardo (guitarra), Jorge Anzol (bateria) e Márcio Magrão (contrabaixo).
Formada em maio de 2003, o próprio nome da banda faz alusão a um instrumento conhecido por os seringueiros, a poronga.
Além de incentivar a valorização da produção musical autoral, o grupo desenvolve um resgate cultural das origens do povo acreano, a partir do ponto de vista de quem vive numa cidade fincada no meio da floresta.
Tudo isso, com a linguagem universal do rock.
Eles possibilitam que mais jovens e adultos conheçam a imagem, os ideais e boa parte do legado de Chico Mendes, divulgando também sua imagem nos shows.
Vale lembrar que este ano foi lançado através do selo fonográfico Catraia Records, o CD Enquanto uns Dormem onde pode ser encontrada uma das músicas mais conhecidas da banda, intitulada Zumbi e Chico, conhecida também como Lhé.
Os meninos do Los Porongas se destacam por inserir a música independente, no cenário nacional.
Participaram de vários programas transmitidos para todo Brasil, sempre valorizando a cultura cabocla, indígena, ribeirinha, seringueira, nordestina,?
paulista?, sírio-libanesa, européia e acreana.
Promoveram festivais com bandas e de outros Estados.
O mais recente foi o Festival Varadouro, que reuniu aproximadamente 1 mil 300 pessoas no espaço Mamão Café, em novembro deste ano, num único dia.
O Acre é um dos fundadores da Associação Brasileira de Festivais Independentes, por conta de sua participação nas discussões musicais em todo país.
O escultor da floresta
Gesileu Salvatore, o Escultor da Floresta, divide a premiação com a banda Los Porongas.
Ambos trabalham artisticamente, na intenção de difundir a cultura da florestania no Estado do Acre.
Nascido no Seringal Tupá, em Xapuri, Gesileu, busca aliar homem e natureza em seus trabalhos.
Em suas oficinas, ministradas em todo o estado, o artista cria formas imaginadas a partir dos galhos, cipós, troncos e outros elementos, transmitindo aos alunos o cuidado que deve existir com o meio ambiente.
Sempre usa a floresta de maneira sustentável e responsável.
Faz exposições desde 1988, e seus trabalhos já passaram por São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Distrito Federal e Madre de Dios no Peru.
Sempre alertando para a preservação da Floresta Amazônica.
Trabalha com material ecologicamente correto, em contraponto à depredação da floresta.
Em 2005, foi realizado um vídeo sobre a obra e o cotidiano do artista, enfocando a prática de coleta dos materiais da floresta e dos rios, trabalhos no ateliê e montagem de exposições.
Produzido e dirigido por o artista plástico Danilo de S'Acre, o material foi exibido no museu do folclore do Rio de Janeiro em ocasião da exposição de Gesileu, intitulada Sem Limites, e do lançamento de um catálogo com fotos e sua história, na Sala do Artista Popular, numa parceria com o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular.
Iniciativa estadual e florestal
A Associação Vertente foi premiada por promover ações junto à população de Rio Branco, que propõe inserção das pessoas na discussão ambiental, com objetivo fundado nos princípios de Educação Ambiental, através da sensibilização e integração, garantindo espaço para que o sentimento de cidadão da floresta possa ser despertado na busca da identidade acreana.
A Organização Não Governamental aposta na discussão de que Chico vive e revive através da conscientização e da responsabilidade de defender este bioma florestal.
Suas atividades expressam o compromisso de atuação, envolvimento e cumplicidade da comunidade nos projetos propostos.
Um de seus projetos é a Oficina Som da Floresta, destinada à faixa etária de 5 a 14 anos, onde se trabalha com percussão, através de instrumentos construídos com ouriço de castanha, sementes, bambus e outros materiais, todos construídos por as crianças.
Número de frases: 32
Os produtos já foram comercializados para São Paulo.
Chegada Com a mudança do verde para o vermelho no cruzamento entre as ruas Tenente Jurandir Alencar e Pe.
Pedro de Alencar, no centro de Messejana, ele caminha rumo à feira.
Em um pedaço de papel amassado e enfiado no bolso da camisa, a recomendação escrita em letras garrafais:
«Não esquece:
só se for de Cascavel».
Um pouco adiante, ao lado da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, reinaugurada em 2001, toma a primeira de uma série de notas escritas apressadamente no bloco:
«cruzamento dos Alencar.
Em Messejana, quase todo mundo pertence à família».
Em a face direita, 6h40;
na esquerda, 8h35.
Em o centro, nem uma coisa nem outra.
Afinal, nenhum dos três relógios afixados na torre do campanário da igreja diziam a verdade.
Debaixo do calor das 10h25, o miolo da praça da matriz estava vazio.
O vendedor de CDs e DVDs piratas escarafunchava as unhas à sombra de uma mangueira.
Em o horizonte de expectativas, embora o dia fosse de agitação, nenhum cliente.
O engraxate, sem mais que fazer, abancara-se num dos quatro ou cinco quiosques erguidos na praça.
Os demais protegiam-se como podiam, ora abanando-se com papelão, ora enfurnando-se numa das muitas lojas de variedades que apenas muito recentemente haviam tomado o bairro de assalto.
Em situação privilegiada, apenas Iracema, naquele seu banho de cuia sem fim.
Diferente dos outros dias da semana, sábado e domingo não têm feira.
Apenas no nome, porque, em Fortaleza, de segunda a segunda, das cinco da manhã, quando vão chegando os primeiros vendedores, até as três da tarde (mais demorada, a feira de Parangaba encerra as suas atividades exatamente às 15 horas), todo dia é dia de feira.
Pois era domingo de feira.
E, engrandecendo-o, também era dia de final no campeonato cearense de futebol.
Em essas condições, percorrer a feira de Messejana à procura de histórias e, en passant, da famosa goma para tapioca (" só se for de Cascavel ") conferia um tom diverso ao arremate da semana.
Em a lembrança, perdida entre recordações do seu primeiro peixe de briga, a feira de Paraganba.
Forte cheiro de murici, empurrões e comida gordurosa.
Pastel e caldo de cana.
Tudo em companhia do tio, fanático torcedor do Ceará.
Dimensões da Feira
Um breve exercício mental.
Tentem imaginar a feira de Messejana, uma das maiores e mais movimentadas de Fortaleza, vista do alto.
Uma agência bancária aqui, um barbeiro ali -- sim, lá, no centro, ainda existem barbeiros.
Esgoto correndo a céu aberto acolá -- não, o bairro não tem saneamento.
A um domingo do dia das mães, uma infinidade de lojas apinhadas atira seus televisores com tela plana e aparelhos de som em quem passe muito perto.
Exercício findo, joguem fora o precário esboço da feira rabiscado no papel:
ele não se parece em nada com a realidade.
Também tratem de rejeitar qualquer idéia que se aproxime disto:
«a feira é um chafurdo só».
Pelo contrário: muito organizada, dividida em seções conforme o tipo de produto a ser exposto, constitui um polígono regular.
Mais exatamente, um quadrângulo.
Com algumas arestas, é verdade.
A principal de elas:
o cabeleireiro (cadeira armada na calçada, uma tesoura e um pente) fica próximo à seção de carnes.
Simplificando o esquema de organização da feira.
Em os extremos:
carne, peixe e frango de um lado e confecções, calçados e eletrônicos do outro.
Entre os dois antípodas, tomates, capas para celular, pomada de Copaíba, sela e arreios para cavalos;
biscoitos, bolachas e iogurtes aparentemente vencidos.
Eis a feira.
Claro, mais tudo que ele -- ora cego em procura da goma de Cascavel, ora vexado com tanta gritaria ou perdido no meio do colorido e cheiros vários -- deixou de ver e ouvir.
PARANGABA-MESSEJANA
às 3h30 da manhã, ele ainda estava dormindo.
Em o mesmo horário, ela, dona Jaira, boceja e pensa duas vezes antes de dar o passo definitivo para despertar de vez:
acender a luz o quarto.
Se ela toma café?
Apenas café.
Em seguida, enfia numa grande sacola de pano algumas dúzias de calções e camisas.
Em o pequeno cômodo, os dois filhos -- um homem e uma mulher -- ronronam feito gatos.
O mais velho é lutador.
Dona Jaira também luta, sim.
Entre os modos de lutar dos dois, mãe e filho, pouca coisa em comum.
Apenas certo grau de violência.
Ele pratica vale-tudo.
Em a feira de Messejana, aos domingos, e em outras no restante da semana, dona Jaira garante que às vezes também «vale tudo».
«Aqui a prefeitura não olha para a gente.
Tá vendo ali?»,
pergunta apontando para um muro caiado junto ao qual há uma pequena montanha de lixo.
«Aquilo ali a gente tem que pagar pra alguém tirar», diz dona Jaira que, além do lixo, também custeia, juntamente com outros feirantes, os quatro seguranças que fazem a ronda, que não é a do quarteirão.
«Em o final da feira, cada um paga o que pode e eles ficam satisfeitos».
Antes de chegar até a barraca de dona Jaira, ele percorre alguns corredores estreitos da feira.
Está na seção de confecção.
Aqui e ali, bate com a cabeça na armação das pequenas habitações cobertas com plástico preto ou amarelo.
O movimento é de shopping center nos finais de semana que antecedem a uma grande data.
Em o caso, o festivo e passional segundo domingo de maio.
Para alguém passar, ele tem de se recostar à lateral de alguma barraca.
Ali, sente o cheiro forte da tintura nos tecidos e fica tonto.
Pensa na goma e segue em frente.
Dona Jaira negociava quando ele se aproximou.
«Se levar os dois, faço por seis cada», lançava a isca.
Eles, os clientes, a morderam direitinho.
Cada calção custava separadamente R$ 8.
Pensando tratar-se de mais um cliente, ela vai atendê-lo.
Ele pergunta por a seção de comidas.
Dona Jaira responde que fica do outro lado da feira.
«Bem do outro lado», enfatiza.
Ele fala dos corredores estreitos.
Ela diz qualquer coisa sobre necessidade e oportunidades para todos.
Ele vai jogando mais iscas.
Ela morde.
«Gosto de ser feirante, mas não quero isso aqui para os meus filhos», dona Jaira lança a sentença que, na prática, tem o valor de um cartão de visitas.
De aí até entrarem na rotina propriamente dita da feirante e em sua vida pessoal é um pulo.
Em resumo, ela percorre, de domingo a domingo, feiras itinerantes nos mais diferentes e distantes bairros de Fortaleza:
Aerolândia, Antônio Bezerra e Messejana são apenas alguns de eles.
«Claro, esta é a mais famosa.
É pra onde gosto de vir.
Por quê?! Porque tem mais clientes e é onde ficam os meus fornecedores».
Dona Jaira pede um minuto para atender a dois jovens.
Eles viram e reviram dois bermudões folgados o suficiente para serem transformados em dois cada.
Repete-se o mesmo jogo de gato e rato visto durante a negociação anterior.
Vendedora habilidosa, vence novamente.
«Precisa de mais alguma coisa?»,
volta-se novamente para ele.
Dona Jaira não espera resposta:
«Olha, outra coisa.
A associação daqui nunca saiu do papel.
A gente tentou criar uma, mas aconteceram uns problemas e acabou.
Não tem mais», explica.
Ele se despede perguntando o seu sobrenome:
Número de frases: 108
«Alves». Grupo de artistas baianos participa de intercâmbio cultural na Europa, cenário de belas paisagens, museus, catedrais, monumentos, pontos turísticos e locais históricos.
A convite do presidente do Instituto Cultural Brasil Itália Europa (ICBIE), jornalista Pietro Gallina, um grupo de baianos formado por grafiteiros e pessoas ligadas à arte de rua, retornou recentemente da Europa, trazendo na bagagem novidades, conhecimentos e muita experiência.
O roteiro incluiu uma agenda de encontros, palestras e realização de pinturas (grafites) em Paris e Marseille (França), Linburg e Frankfurt (Alemanha), Barcelona (Espanha) e Roma (Itália).
O intercâmbio serviu também para divulgação do Projeto Grafita, da Prefeitura Municipal do Salvador, considerado pioneiro no Brasil.
Participaram da visita à Europa, a convite do ICBIE, o coordenador do Projeto Grafita e superintendente de Parques e Jardins da PMS, Edvandro Castro Pinto (Tucunaré), os grafiteiros Lee 27 (Josenildo Silva), Pinel (Jackson Barbosa), o artista plástico e grafiteiro Júlio Costa e o fotógrafo, relações públicas e pesquisador da arte de rua, José Paranaguá.
Emoção contagiante
Durante a viagem, alguns momentos foram marcantes, como o encontro com grafiteiros da M.A.C. Crew, na pintura de um painel na localidade de Bagnolet, em Paris.
«Pintar ao lado dos grafiteiros Kongo, Lazoo 1, Juan, Gilbert, Merri, da velha escola européia, contagiou a todos nós, revelou Pinel.
Para Lee 27, «foi um momento inesquecível».
Em Frankfurt (Alemanha), os artistas baianos também tiveram a oportunidade de pintar no «Hall of Fame», com os grafiteiros alemães Senkone e Imezone.
«É muito importante para nós ver o nosso trabalho compondo esse cenário com famosos grafiteiros de várias partes do mundo», disse o artista Júlio Costa.
Em o Centre the Comunication / Graphical Design School de Paris, o grupo falou para uma turma de estudantes de publicidade sobre suas experiências com a arte de rua e com o Salvador Grafita, fazendo a divulgação do catálogo do projeto.
Já em Marselle, a turma manteve contato com brasileiros ligados à arte de rua.
Em Linburg, Alemanha, a professora e artista plástica, Renate Kuby, presidente da Lahn Artirts, organizou uma performance na sala de aula com os artistas baianos.
Depois grafitaram uma van de propriedade de um dos membros da associação.
Em Barcelona, foram feitas duas pinturas no Live Paiting do Centro Cultural Hospel Art Shaping Your Ideas, sendo uma com a participação do grafiteiro espanhol Shan.
Em a itália, os grafites foram pintados em tapumes de compensado, com interação de alunos da American School of Rome.
Número de frases: 17
Foi numa comunidade rural do Rio de Janeiro, na década de 70, que nasceu o embrião do Filhos da Lua.
Em o começo não era ainda era um grupo profissional de teatro, mas algumas pessoas que traziam na alma o apego à arte de fazer e dar vida a bonecos, que se juntaram para dar uma animada artística, digamos assim, nas redondezas de onde viviam.
Renato Perré, hoje presidente Associação Brasileira de Teatro de Bonecos, era uma dessas pessoas e foi ele que transformou, ao chegar em Curitiba, já no primeiro ano da década de 80, o grupo familiar na companhia profissional Teatro Filhos da Lua.
Com a firme intenção de unir a linguagem dos títeres ao teatro tradicional, adicionando deliciosas pitadas de cultura popular à essência.
Ele veio com esposa e filha para a ainda pacata Curitiba -- que já se insinuava rumo à fama de capital brasileira de primeiro mundo -- e aqui encontrou a mãe, Dona Maria Teresa, uma bonequeira já popular na cidade.
«Casei com uma curitibana e quando cheguei aqui nasceu o grupo junto, também, com meu irmão, o músico Rogério Carvalho.
Era um grupo de família», conta.
E lá se vai um quarto de século, tempo em que nada menos que 25 montagens, ganhadoras de vários prêmios, ajudaram a construir essa história de amor às artes, em especial às cênicas -- e mais perto ainda dos bonecos.
Os espetáculos alçaram Perré e seus Filhos da Lua para um posto de destaque no teatro paranaense e brasileiro.
Ele cria, encena, escreve, dirige.
Só é incapaz de escolher seu lugar preferido nesse processo lúdico.
«Faço um teatro que é de autor, tem um repertório.
Em o mais recente espetáculo fiz uma colagem dessa história, a minha homenagem à arte».
E Perré também mantém um jeito simples, de gente chegada do interior, que é encantador -- e não rima com falta de firmeza, pois a persistência é uma constante na vida desse homem que nunca arredou o pé de sua disposição inicial de integrar os títeres a outras formas de arte.
De o começo no Rio de Janeiro -- onde ele e sua trupe não paravam de inventar atividades para inspirar os moradores do lugar que carecia de um tipo de alegria e sabedoria que só arte pode trazer para o coração da gente -- eles vieram para os Circos da Cidade.
Os circos eram espaços culturais da Fundação Cultural de Curitiba instalado nos bairros que fizeram história -- é só caminhar por determinadas regiões da cidade e conversar com moradores mais antigos, para ouvir alguma queixa do fim desse projeto.
Lá embaixo das lonas, eram muitas as atividades artísticas e as tardes ou manhãs, depois ou antes da escola, passavam num sopro de tão rápido para as crianças e adolescentes que participavam das brincadeiras.
«Começamos já interagindo com o público que não era das salas oficiais.
Temos essa raiz de buscar pessoas que normalmente não têm acesso aos espaços convencionais.
E assim fomos evoluindo artisticamente, fazendo oficinas com outras pessoas e conhecendo gente importante que nos influenciou muito», conta Perré, citando nomes que esta repórter não conhecia, como Ilo Kruegli e " Hector Grilo.
«É porque são pessoas que não estão na mídia.
O Hector é da Argentina e está lá produzindo», diz, simpático, o bonqueiro, citando outro nome importante, este mais conhecido, Osvaldo Gabrieli, hoje do XPTO.
«E, claro, o Manoel Kobatchuk (N.R. Outro nome referência que atua em Curitiba).
Enfim, havia uma interação muito legal, fui até para a França fazer estágio no Instituto Internacional de Marionetes».
As viagens e trocas culturais foram essenciais para que ele também fosse criando um núcleo de pessoas que se relacionam artisticamente.
«O Rogério Gulin, hoje no Viola Quebrada (N.R: Grupo musical curitibano que faz estudos que trazem de volta a música caipira em seus discos).
Ele começou a tocar com a gente na pesquisa do fandango e da cultura popular.
E também o Jorge Vigário, outro bom trabalhador de teatro, ator e bonequeiro», cita Perré.
às próprias custas
Em aquela época não tinha leis de incentivo, mas não é a primeira vez que ouço alguém do meio dizer que os artistas do teatro eram mais independentes.
«Nós fazíamos tudo.
Não é que a gente não tivesse apoio.
A classe tinha uma capacidade de mobilização muito grande, fazíamos muitos trabalhos em co-produ ção com o Teatro Guaíra -- é, o Guaíra era uma casa de produção!
Isso até os anos 90.
A partir de ali entraram as leis e o Estado começou a diminuir suas responsabilidades na questão produtiva.
Mas, a gente percebe que não é possível que o Estado faça isso, ele tem que continuar sendo parceiro», diz.
Perré lembra também as fecundas parceiras com a Funarte e o " Serviço Nacional de Teatro.
«Os grupos sempre tiveram algum apoio oficial, mas também, sempre se viraram com suas próprias pernas.
E a gente sempre fez um teatro pobre nesse sentido de não precisar de grande cenografia, sempre optamos por trabalhos mais centrados na figura do ator, na força da música, do boneco, da dramaturgia».
Política Cultural
Assim foi tudo se estruturando, com a arte educação andando lado a lado, como deve ser, com a produção artística.
Em esse tempo o jeito de fazer arte mudou e ficou mais dependente e individualista.
«Houve uma mudança de mentalidade com entrada desse neo-liberalismo, as pessoas tiveram de se isolar um pouco, ficaram muito individuais nessa luta.
Antes era mais fácil estar junto, não é que não se queira mais isso hoje.
Mas a corrida competitiva dificulta essa capacidade de articulação coletiva.
Antigamente havia uma cultura de estar junto, até como resistência», lembra o diretor, e logo emenda que, no entanto, barreiras estão sendo vencidas.
Não podemos abandonar as conquistas, prossegue.
«Essa articulação para implantação de um sistema nacional de cultura, que esta sendo discutida, e estou participando, por exemplo.
Isso é para dar ao Governo um sistema que funcione independente de quem está no comando, como o sistema de saúde e educação.
Estou otimista porque este governo, pelo menos, se preocupou em conversar com a gente para criar diretrizes de trabalho.
Estamos batalhando também para garantir a sustentabilidade dos bonecos como arte popular e erudita que é.
Queremos escolas básicas de teatro de bonecos», defende.
De o Governo Estadual ele diz que falta exatamente o que o Federal deu.
«Temos que refletir sobre o governo Requião, porque é preciso assegurar que a classe tenha espaço para conversar mais, isso que está faltando», observa.
Em sua vida profissional, Perré nota que o grupo está fechando um ciclo e, de certa maneira, voltando ao começo.
«Estamos de novo trabalhando com a comunidade, numa perspectiva de educação ambiental.
A arte é grande parceira nesse momento em que o ambiente está necessitando de transformação e cidade não dá mais conta do que ela criou em termos de ocupação urbana», diz.
Ele voltou a trabalhar com moradores da zona rural, agora em Bocaiúva do Sul, cidade vizinha de Curitiba, no projeto Terrinha Cultural, ainda sem apoios.
«A idéia é trabalhar arte ciência e educação ambiental.
Mas vamos recorrer às leis sim, só queremos antes engrenar o trabalho, fazer uma ONG», conta, dando outra lição para os que estão acostumados a esperar.
Comemoração
Enquanto isso, ele aproveita para celebrar os 25 anos de atuação com uma mostra de algumas peças e uma exposição.
Entre os espetáculos, escolheu quatro.
Três de eles integram a série dedicada às cantigas de roda;
Terezinha, História de Amor e Perigo (contemplado em 1997 com o prêmio Gralha Azul de melhor texto para criança e juventude, e realizado por a Lei Municipal de Incentivo a Cultura);
O Gato e Dona Chica, uma das montagens mais antiga da série, apresentado com técnicas tradicionais e populares de bonecos de vara e luva;
e O Anjo do Bosque, co-produ ção do Teatro Guaira, inspirada na cantiga «Se essa rua fosse minha».
Outro espetáculo a ser apresentado é Urucum e o Fogo, inspirado na cultura indígena.
Em a exposição está o material cênico usado nessas produções nesse tempo todo.
Tanto as peças como a exposição estão em cartaz no Teatro José Maria Santos, o simpático Teatro da Classe, um dos charmosos endereços do teatro em Curitiba.
As exposição fica em cartaz até o final de outubro.
A mostra das peças encerram a primeira temporada no final de semana:
14/10 -- Urucum e o Fogo
15/10 -- O Anjo do Bosque
Ambas às 16 horas, com ingressos a R$ 8.
O Teatro José Maria Santos fica na Rua:
Treze de Maio, 655.
Número de frases: 77
Em o último domingo estava na Av..
Paulista com uns amigos depois de sair do cinema.
Para comer sugeri que fôssemos ao Burdog, uma excelente e tradicional lanchonete paulistana, como tantas espalhadas por a cidade.
Desmotivados por a minha sugestão, tentamos mais dois lugares para variar um pouco, um de eles era inexistente e o outro (a padaria Bella Paulista) estava com uma fila quilométrica.
Resolvemos então acatar a sugestão de um dos membros do grupo e conhecer a Lanchonete da Cidade, supostamente o melhor hambúrguer da cidade (embora não tenha encontrado essa referência).
Fiquei confuso, já que minha sugestão do Burdog não foi acatada, e o esforço logo se mostrou equivocado pois tivemos que entrar numa fila de espera e num evento raro meu estômago estava dando nó de tanta fome.
A o entrar, o choque:
O chão era de cacos de ladrilho, daqueles que você coloca nos fundos da sua casa quando o dinheiro acabou;
como luminárias, copos furados;
o balcão e as mesas eram de madeira com acabamento em esmalte branco;
e as cadeiras de ferro e madeira com acolchoamento vagabundo revestidos de plástico imitando couro.
Em as paredes fotos de São Paulo no que parece um misto das décadas de 60 e 70 (incluindo a famosa foto da Rua Augusta coberta de carpete).
Olhando o cardápio, logo notei que é impossível alimentar-se por menos de 14 reais.
Pedi um sanduíche intitulado Paulistinha, de fato saboroso, mas a carne não estava no ponto que eu pedi;
a porção de batatas fritas (que me neguei a comer devido ao preço abusivo) era previsivelmente pequena;
já o serviço, bem, esse era demoradíssimo.
Comi e quis dar logo o fora de ali.
Há algum tempo a quantidade de «casas de hambúrguer» (o que aconteceu com a palavra lanchonete?)
em SP aumenta assustadoramente, chuto grossamente que dois terços de elas tenham uma temática anos 50.
Que aliás não correspondem aos anos 50 brasileiros.
Enquanto isso, o hype anos 80, que há muito já rendeu o que tinha, não acaba:
tá certo, eu tenho muitas saudades da minha infância, adorava e adoro muitos dos brinquedos e programas dá época, mas tem uma hora que chega.
A tal Lanchonete da Cidade chega agora para cimentar essa onda de retrô eterno que tomou conta da cidade.
Finalmente caiu minha ficha, e fiquei realmente perplexo com o quanto as pessoas são trouxas;
me desculpem, mas não consigo encontrar outra palavra para descrever-nos, a Lanchonete da Cidade é o ápice.
Há diversos locais legitimamente congelados na década de 60, 70 e 80 espalhados por a cidade, vários botecos e lanchonetes, mas garanto que o público do Cidade não tem coragem nem de passar perto.
Para que a experiência real se podemos ter a versão limpinha?
Não somos apenas trouxas, somos covardes.
Queremos viver algo mas não temos coragem de ter a experiência real, então buscamos o simulacro, é como um vídeo-game cultural.
Colocamos a culpa num fator externo qualquer, como a falta de tempo ou segurança, e corremos para experimentar o máximo da versão plastificada daquilo que falsamente desejamos, e no fim não compreendemos nada.
Estando na tal lanchonete me recordei da cena do filme Ghost World em que as duas personagens principais vão à «mais uma dessas lanchonetes anos 50» e debocham da autenticidade.
Sempre que adentro um local estilo anos 50 por aqui me lembro da cena;
mas ver aquela mesa vagabunda mais barata que meu sanduíche finalmente me fez compreender a sensação.
Claro que não sou um Indiana Jones culinário / cultural que desbrava qualquer boteco de esquina e encaro um churrasco grego na cara e na coragem.
Mas também não me sinto bem brincando de estar em algo que sei ser uma imitação paspalha.
É como o bar Favela em Moema, cuja idéia eu considero um insulto.
Eis uma das frases feitas mais chatas do universo, mas que no caso é verdade:
«nada se cria, tudo se copia."
É por aí mesmo, vivemos numa situação em que tudo é cercado por marketeiros de todos os lados, cheios de idéias roubadas de outro lugar;
e quando um consegue emplacar algo, todos vão atrás.
A idéia de fazer algo retrô já não é original por princípio, e os imitadores logo a multiplicam ao insuportável.
Estamos numa constante fase de transição:
quando o último termina de copiar a idéia, e todas as opções que temos são iguais, alguém começa algo de sucesso que irá puxar um novo ciclo xerox.
O verdadeiro mérito dos anos 80 e das décadas anteriores (mesmo as mais débeis) foram sua originalidade.
Já década 00 ainda há de provar seu mérito em termos de um estilo reconhecível;
várias modinhas já passaram e a única que persiste é a do retrô.
De aqui a vinte anos, numa «festa anos 00» teremos músicas do Blitz tocando num bar estilo anos 50 com garçons fantasiados de Ronnie Von, por enquanto esse é nosso legado.
Número de frases: 47
Tem pirarucu de todo jeito:
Pizza de Pirarucu (Casa da Pizza), Pirarucu Ribeirinho com farinha de mandioca (do Café Aymoré), Hot Holl (enrolado de pirarucu do Tchoy Restaurante Oriental), Pirarucu com Frutos Exóticos da Floresta (do restaurante Flora, com castanha do Brasil, tapioca e açai), Pirarucu Região do Lagos (à milanesa com castanha picada, do Cantinho Baiano) e ainda o Pirarucu ao Molho de Açaí, do Sapucaia -- Ceta Ecotel.
Tem também Filhote ao Molho de Tucupi (Estaleiro), Pizza de Frango com Molho de Milho (Pizzaria Estrela de Davi), Filhote Tropical ao Molho de Murici (Trapiche Restaurante) e o Delícia da Amazônia, feito de filhote com camarão rosa (Divina Arte).
É uma farra para os apreciadores da boa culinária e do pirarucu!
De o 17 de março a 23 de abril, dez restaurantes amapaenses estarão servindo receitas inéditas, criadas para participar do festival de gastronomia, Brasil Sabor, que envolve simultaneamente 24 estados e tem como objetivo divulgar o sabor e a criatividade da gastronomia brasileira.
Graças a uma coincidência, a versão «tucuju» do evento (tucuju é um adjetivo dado para aquilo que é original do Amapá) poderia ser chamado de ' Festival do Pirarucu '.
Elisângela Ramos, gestora do projeto Gastronomia no Meio do Mundo, do Sebrae / Amapá, é a facilitadora do evento no estado, e explica que a única exigência era de que os chefes de cozinha utilizassem matéria-prima regional para suas receitas.
Mas a tendência, quase unânime, foi a escolha do peixe que é considerado o'Bacalhau da Amazônia '.
Em o período do Brasil Sabor, os clientes que visitarem os restaurantes e pizzarias citados receberão junto com o cardápio um encarte com informações sobre o prato preparado para evento.
Os preços serão promocionais e a cada prato vendido será doado R$ 1 (um real) para o projeto de construção de cisternas, integrante do Programa Fome Zero.
Apoiado por o Ministério do Turismo, o Brasil Sabor aposta na gastronomia como base para o desenvolvimento do setor turístico, mobilizando mais de 1.000 restaurantes filiados à Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), em mais de 40 diferentes destinos turísticos brasileiros.
A Abrasel pretende que o evento entre para o Guinness Book como o maior festival gastronômico já realizado no planeta.
Entre dez candidatas do Amapá, duas receitas serão selecionadas para participar na Mostra Gastronômica do II Salão de Turismo, em São Paulo, no período de 2 a 6 de junho, e farão parte também da 2ª edição do livro de receitas oficial do evento.
Em outubro do ano passado, no Festival Gastronomia no Meio do Mundo, era o cliente quem escolhia o vencedor da disputa.
Eram seis restaurantes, que formavam o circuito gastronômico.
O cliente que provasse os seis pratos podia retornar para comer o seu preferido de graça.
Mas a seleção dos pratos que vão para a Mostra do Salão e Turismo não será realizada por os consumidores, e sim por uma comissão julgadora.
Os ingredientes da culinária tipicamente brasileira e características regionais serão considerados na seleção, que apresentará cinco finalistas em cada estado.
Elisêngela avisa que em setembro tem mais, no I Festival Gastronômico Amapaense.
Quem quiser informações, sobre os estabelecimentos que estão participando do festival, pode entrar em contato com o Sebrae Amapá por o telefone (96) 32141423, e falar com a Elisângela.
Número de frases: 20
Queridonas,
Aqui vai, como combinado, o relato minucioso do programa.
Foi tudo de bom!
Sabia que podia esperar coisa animada do baile charme, já tinha entrado no do Bola Preta uma vez, mas acabei saindo cedo, certamente antes da festa esquentar.
Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite, ok, mas neste caso a expectativa não causou decepção, como acontece de vez em quando.
Muita coisa me surpreendeu!
Engraçado imaginar as pessoas se arrumando pra ir prum programa embaixo de um viaduto, em Madureira ou em qualquer lugar (aliás, era um visual muito do interessante).
Mas como disse o meu amigo, «aqui [ali] não tem ninguém que não tenha perdido alguns minutos na frente do espelho».
Gabi, minha primeira reação foi lembrar daquela nossa conversa sobre essas pessoas que mantêm o hábito bem canastra de perguntar sobre qualquer evento:
«Tinha gente bonita?».
como se a condição para qualquer diversão ou bom resultado de uma noite fosse essa (aliás, deve querer dizer que o sujeito se inclui no restrito clube dos belos!
Quanta modéstia!).
Pois bem, se me perguntassem, eu responderia:
há muito tempo não via tanta beleza reunida num só lugar.
Uma coooisa!
Claro que vocês podem concluir que meus trajes destoavam um tanto ...
Além de sermos quase zero quilômetro nos passinhos, eu e meu all-star encardido estávamos muito deslocados naquele mar de plataformas 15 cm.
O uniforme feminino ali era calça muuuuuito justa, saia mínima e salto mais alto do que a soma de todos os centímetros que já tentei usar entre o chão e o calcanhar -- em toda a minha vida!
Mas não pensem que era todo mundo igual.
Longe disso.
Cada um no seu estilo, cabelos de todas as formas:
os alisados, os black power com os cortes mais loucos e acessórios mil ...
De encher os olhos. Ah, Anna e Lu, também não remetam essa descrição àqueles clipes que compõem 80 % da programação das MTV da vida que a gente comentava, com os caras marrentos, as mulheres meio vulgares e aquele discurso-padrão do tipo «agora que tenho um carrão, você quer me dar».
Ok, muitas das meninas ali podem sonhar em ser a Beyoncé, mas a coisa é muito mais low-profile.
Idem para os homens, que abusavam das correntes de prata, blusas de jogador de basquete e das boinas -- o verdadeiro must da noite.
Algumas mulheres tinham elegância de passista (e deviam ser mesmo).
Fiquei imaginando que se desse a louca no DJ e ele botasse um samba-enredo o povo todo ia começar no miudinho sem pestanejar.
A galera parecia dançar bem qquer coisa!
Mas as surpresas foram muito além do look.
Em relação à trilha sonora, por exemplo.
Sei lá, esperava alguma etapa mais retrô.
Mas se rolou foi depois de eu ir embora.
Ana Fla e Gon, vocês iam gostar:
o hip hop é o dono do pedaço!!
Em este dia o que rolou a maior parte do tempo foi o gringo (vocês iam gostar meeeesmo), com alguma coisa brasileira nos poucos momentos de show.
Em o começo, quando ainda tava meio vazio, ficamos impressionados com a garotada mais nova em pé, imóvel, na frente do telão onde passavam aquelas competições americanas de break.
Todos pareciam tentar aprender só por o olho a fazer aqueles malabarismos impossíveis.
Eram poucas as pessoas com mais de 40 anos no recinto, o que definitivamente não queria dizer que não fossem animadas.
Muito legal de ver.
Quando os grupos de passinho começaram a proliferar por o salão, fiquei choquê!
Dançam muito!
Tinha a doce ilusão de chegar lá e conseguir acompanhar, aprender na hora.
Impossível! Talvez Paulinha, talvez Angela conseguissem, com suas desenvolturas de gogo girls (hehe).
Mas a iniciante aqui não quis nem tentar arriscar o mico.
Só com aulas de street-dance e / ou muita, mas muuuuita cerveja na cachola.
Por falar em birita, a coisa é bem servida por lá.
Latinha a dois «real», barraquinhas de batida e caipirinha espalhadas.
Em o começo da festa o sono resolveu querer enfeitiçar e então apelamos.
Pedimos red bull com vodka (em homenagem a vocês, hahaha).
Pra quê ...
-- Como é nome dessa vodka, moço?
-- Zvonka.
-- ...
Dúvida cruel, vcs podem imaginar ...
Vocês já ouviram falar??
Eu nunca.
Mas encarei, torcendo para a ressaca não lembrar de mim no dia seguinte.
E não fui muito além disso.
Deu para reparar que em volta pouquíssima gente bebia.
Talvez por grana escassa além da entrada (preço honestíssimo de R$ 5 para a ômi e R$ 2 para a mulé), talvez por vontade de só dançar e fazer social mesmo.
E por lá a animação não dependia definitivamente do teor alcóolico da galera.
Não sei se vocês concordam, mas acho que tá cada vez mais difícil ver gente se divertindo assim «a seco» na noite.
Ou será que a gente anda freqüentando os lugares errados?
:) A próxima parada foi na barraca de CDs.
-- Quanto é o disco?
-- Depende.
Os originais são mais caros ...
Claro, pq os «genéricos» eram a maioria.
Fiquei particularmente curiosa com a coleção Madureira Hip Hop, que já tá no volume 8.--
Essa sou eu que faço.
Vejo o que tá tocando de novo no baile e junto tudo no disco.
Yeah.
A essa altura, o baile já tava enchendo.
O termômetro era o banheiro feminino, onde a fila não era para entrar nem para fazer o que se faz por lá.
A mulherada era capaz de esperar uns 10 minutos para dar aquela longa conferida no espelho de corpo inteiro, com direito àquela olhada final para ver se estava tudo ok no «back».
Em a pista, já dava para eleger o glamouroso rei da noite, carinhosamente apelidado de Michael por nós.
Ele até destoava no style, não tava com roupa de jogador de basquete nem tinha porte de segurança.
Mas qdo começava a dançar logo vinha o povo atrás imitando os passinhos.
No decorrer da noite, vimos Michael comandando grupos de 5, 10, 50 pessoas.
The king.
Mas nem todo mundo ficava refém dos passinhos.
Tinha uma galera mais perto do palco que era o glamoooooooour, como você gosta de dizer, Ana Fla.
Além de estonteantes, dançavam muito.
A impressão que dava é que em cada rodinha tinha um dançarino nato, que às vezes começava a performance sozinho mesmo, enquanto os outros continuavam no papo.
Lá para as 4 da manhã, com a festa realmente pegando fogo, resolvemos partir.
De a próxima vez, já sabemos:
a boa é chegar mais tarde e ficar até o dia clarear.
Em o carro (contei, né, que filei a carona de um amigo repórter), contávamos nossas impressões para o motorista do jornal, que é O local dos bailes.
Ele só sorria e dizia:
«Gostaram? Então vocês têm que ver como fica a rua do Teatro Rival na última sexta-feira do mês.
Vocês iam ficar loucos no Bola Preta também.
Quem vem aqui, vai lá."
Agora eu pergunto:
por que afinal de contas Nunca fomos nesses lugares?
Anna, já planejamos tanto ...
Em esses casos não tem a desculpa de ser longe, sempre falamos disso e acabamos adiando! ...
Então esse longo email foi para isso:
para dar água na boca e funcionar como intimação.
Pra-SEMANA, Tirem A Poeira De aquele Sapato De Salto Que Vocês Não Usam Desde O Último Casamento E Pronto:
Todo Mundo Em o Bola Preta!!!
Beijocas animadas em todas!!!!
Número de frases: 101
Helena
Os anjos da belle époque ganham sexo, expressam a idade, brincam como crianças, refletem juventude, mas também sabem assumir ( ...)
atitudes mais teatrais e melancólicas». (
Valladares, 1972, p. 589).
Não foi por acaso que o fotógrafo Célio Dutra (que aqui no Overmundo é Celim) escolheu essa citação para iniciar o catálogo de sua exposição fotográfica «Cemitério».
Em o conjunto de 13 fotografias que apresenta, Celim mostra como esculturas congeladas no tempo podem ter expressões das mais diferentes, dependendo apenas do olhar que se coloca sobre elas.
Contando apenas com uma câmera digital «das mais comuns», Célio registrou imagens do Cemitério do Araçá em 2005 e manipulou -- ou como prefere dizer, fez uma série de» brincadeiras " com elas para exibir outras possibilidades de constituição do olhar.
O resultado é que em «Cemitério» encontramos mensageiros de todos os tipos:
o Anjo da Ressureição (Morte 1) que abre a exposição apontando para o céu com cores e recortes de pop art;
a dupla de Anjos da Morte (Morte 2 e 3) que, em seus opostos, fazem meditar se são de luz ou de trevas;
nos Anjos da Saudade (Morte 9, 11 e 12), o azul constante é a única coisa acima dos altivos anjos;
e uma figura extremamente sensual se mostra na Morte 12, mesmo cheia de sombras.
Mas essa não é uma exposição só de fotos penduradas na parede.
Instaladas no salão principal da Cemig, as fotos estão cercadas, mas não completamente:
um muro branco delimita a área da exposição, mas deixa frestas abertas por sua extensão, relembrando o olhar cotidiano de relance que dedicamos a cemitérios e exposições de fotografia.
Serviço
Exposição: Cemitério
Galeria de Artes CEMIG
Av.. Barbacena, 1200 / Foyer / Santo Agostinho
Até o dia 8 de agosto
Número de frases: 20
De 9h a 19h Sou fã de carteirinha, primeira fila e gargarejo da Elinka Matusiak.
Quando a moça canta, encanta e, se fechas os olhos, viajas ainda mais nos variados, agradáveis e supreendentes timbres que conquista a cada arranjo.
Usa para isso peculiar formação musical, em que é até regente de corais, o domínio de um bom número de instrumentos, e as parcerias de alta qualidade que escolhe para se fazer acompanhar.
Elinka tem um que a mais, que é raro de encontrar em qualquer em cantores em geral.
Se põe no meios dos músicos, tem uma certa desnecessidade de estar à frente do palco, quer a voz como um instrumento a mais para dar espaço cênico também a toda interpretação.
Ela é aplaudida e aplaude o público e seus acompanhantes.
Ela é beijada e abraçada por o público e é a primeira a chamar os artistas que a acompanham para fazer as fotos juntos.
Os recados pessoais que manda para divulgar suas programações são um primor de simplicidade, sinceridade e humanismo.
Alegres, felizes, divertidos, fazem o ambiente antes de você sair de casa para gostar de ela, ouvi-la e aplaudi-la.
Um de eles é esse aqui:
Queridos amigos!
Venho trazer-lhos convites para os projetos que estive gestando nos últimos meses!
Confio que esse «jejum» tenha valido a pena ... (
desde maio / junho vocês não recebem convites meus, né?)
De esse modo convidado, não ir já é uma desfeita com tanta delicadeza da cantante, um rigoroso ultraje à amiga.
Elinka Fontanari Matusiaki está nos proporcionando em setembro e outubro quatro projetos distintos:
Dois que idealizou e têm as pré-estréias patrocinadas por o SESC-Porto Alegre:
«Meio Século de Bossa Nova «e» Quando as Rosas Falam» (por a passagem do centenário de Cartola).
E ainda o espetáculo BerimBaden -- um tributo a Baden Powell, idealizado por o violonista Turíbio Santos, que será o primeiro trabalho da diva no Rio dejaneiro e em São Paulo, que também vai ser gravado em CD.
Também, mais e ainda, enlouquecedoramente, o mais recente:
outro espetáculo que também celebra os 50 anos da Bossa Nova protagonizado por as Meninas Cantoras de Nova Petrópolis, para o qual foi convidada e que já teve pré-estréia em 2 de setembro na cidade serrana e vem descendo devagarzinho a lomba até Porto alegre.
Um espetáculo de entrada grátis abriu estas especiais comemorações do cinquentenário da Bossa Nova no Café Concerto do SESC, em clima intimista, quase de boa vizinhança, convidados especialíssimos da Elinka e dos músicos -- o excelente trio Terça Maior, uma grata surpresa aos freqüentadores do Café Concerto.
(Bem baixinho aqui, só entre nós: os preços não encarecem por causa dos excelentes programas culturais ...
mantém-se os de tabela, honestos e acessíveis).
Em o recado de convite, a Elinka me disse que haveria cantação de música e contação de histórias sobre a bossa nova, parte que ficou no encrgo, bem resolvido dos amigos professor Luís Augusto fischer e do músicista, também regente, Leandro Maia.
Ela ainda escreveu que tinha uma coisa mais a dizer-me, embora se considerasse «meio suspeita pra falar».
Mas falou, quase segredando em sí bemol:
-- A programação é I-M-P-E-R-D-í-V-E-L!!!!!!
São quatro excelentes aulas sobre Bossa Nova, um mergulho delicioso na história do Brasil e da MPB, ilustradas com apresentação musical ao vivo!
Tudo de graça!
Encerrando poeticamente o convite com abraços e beijinhos, toma Vinícius de Moraes mais uma vez emprestado e repete:
«Não quero mais esse negócio de vocês longe de mim.
Chega de saudade!"
Eu não precisaria perguntar, mas se tu recebe um convite assim, dá pra não ir?
Eu fui, aplaudi, fechei os olhos, viajei no tempo, na sonoridade emlodiosa e harmônica de voz, baixo, piano e bateria até com vassourinhas, cantei, adorei, mas sou suspeito.
Já sou fã da Elinka desde que a jovem cantante era criancinha.
O programa formal veio assim:
Arte SESC apresenta:
C @ NTAÇÃO De Bossa
Programação especial por os 50 anos da Bossa Nova
Café Concerto SESC / RS (Alberto Bins, 665/ 2° andar)
4, 11, 18 e 25 de setembro de 2008 (quintas-feiras)
19 horas
entrada franca
A identidade e a história da Bossa Nova contada e cantada por diferentes personalidades da cena musical e literária de Porto Alegre.
Em um clima de «festa de sol», coloridos timbres celebram as Bodas de Ouro da Bossa Nova com muita música e bate-papo.
Entre uma canção e outra, interpretadas por talentos locais, a palavra de mestres, doutores e críticos nas áreas de música, literatura e história versa sobre as peculiaridades da Bossa Nova enquanto gênero musical e movimento cultural.
Dia 04 -- O universo poético-musical da Bossa Nova
Grupo Terça Maior -- Alexandre Fritzen (piano), Elinka Matusiak (voz), Felipe Koetz (bateria) e Everton Velasquez (baixo)
Palestrantes: Luis Augusto Fischer -- escritor, professor doutor em Literatura Brasileira e coord.
do Núcleo de Estudos da Canção (UFRGS) e Leandro Maia -- musicista e educador musical, mestre em Letras (UFRGS)
Dia 11 -- As mulheres e o Brasil Bossa Nova
Rô Bjerk (voz) e Ricardo Fragoso (violão)
Palestrante: Marçal de Menezes Paredes -- professor doutor em História (UFRGS)
Dia 18 -- A Bossa Nova como gênero musical
Gisele de Santi (voz) e Fabrício Gambogi (violão)
Palestrante: Fernando Mattos -- compositor e professor doutor em Música (UFRGS)
Dia 25 -- A Bossa Nova em Porto Alegre
Grupo Bossa 50 -- Mateus Mapa (flauta), Chico Paixão (voz e violão), Leonardo Boff (teclado), Everton Velasques (baixo) e Paulinho McLaren (bateria)
Palestrante: Juarez Fonseca -- jornalista e crítico musical
Mais Informações:
Número de frases: 61
www.elinkabrasil.blogspot.com Em os últimos anos, a musica Global é uma das tendências mais em alta da Dance Music na Europa e Estados Unidos.
De Nova Iorque à Berlim e de Tóquio à Londres, as noites mais badaladas do hemisfério norte foram inundadas por festas de música «orgânica» de referências africana, latina, afro-brasileira e gypsy-balcânica, mixadas com beats irresistíveis, que fazem qualquer um dançar.
Acompanhando essa tendência de música global que tem conquistado o 1º mundo recentemente, o DJ e produtor Patricktor4, numa iniciativa junto à rádio Aperipê FM, de Aracaju (Sergipe), bolou o projeto Babeleska, que pretende levar ao público brasileiro a música dançante do Brasil e de outras partes do mundo, criando uma cena sem fronteiras.
Patricktor4 tem mais do que autoridade para encabeçar esse movimento:
além de ser baiano de nascimento, sergipano por opção e diretor da rádio Aperipê FM, é um nome emergente no cenário musical brasileiro na divulgação da música dançante não-eletr ônica.
Para juntar-se a Patricktor4 nessa ' cruzada ' por uma cena musical sem fronteiras, chega ao Brasil no mês de março ninguém menos que Kosta Kostov -- produtor e DJ residente da balkanXpress, festa realizada em Colônia com edições em diversos países da Europa.
De origem búlgara e atualmente residente na Alemanha, Kostov, carta-chave da cena gypsy / balkan que, assim como o DJ e produtor alemão Shantel tem sacudido a Europa nos últimos anos, chega em terras tupiniquins para uma turnê de norte à sul do país, dando sua contribuição balcânica à cena Global Beats brasileira.
Para iniciar sua turnê por o Brasil, nada melhor do que a cidade de Belém do Pará, que vem fervilhando com o estabelecimento de uma forte cena local independente da grande mídia nacional.
Em o dia 02 de março, o DJ búlgaro irá tocar seus beats do leste ao lado do La Pupunã.
De Belém, Kosta Kostov segue para Sergipe, que promete ser um dos pontos altos de sua turnê.
Em o dia 03 de março a cidade de Aracajú vai servir de palco para a 3ª edição da Babeleska (antiga Global Mix), onde se poderá ouvir músicas dos mais variados estilos e etnias.
Comandada por Patricktor4, além de Kosta Kostov, a Babeleska contará com outros grandes convidados, como o DJ Dolores e a violinista romena Ana Dumitrescu.
Seguindo para Brasília, no dia 05 de março Kostov irá apresentar-se na Criolina, uma das mais importantes festas da capital do país, ao lado dos DJs Pezão e Barata.
A Criolina é uma festa voltada para música negra nacional e internacional, que também recebe DJs da cena eletrônica e instrumentistas de diversas partes do Brasil.
Indo para sul do país, a 4ª parada de Kostov será em Florianópolis.
A capital catarinense recebe o DJ búlgaro no dia 07 de março (quarta feira), na festa do projeto Nação Balanço, ao lado dos DJs locais Pimenta e Zé Pereira e da banda de funk 70' «Gubas e os Possíveis Budas».
Seguindo então para Porto Alegre no dia 09 de março, a cidade -- que é reconhecida em todo o Brasil por sua forte cena musical independente -- verá o DJ Kosta Kostov tocar com Bustus Beethoven no Bar Ocidente, referência na noite alternativa da cidade e palco de diversos tipos de eventos ao longo de mais de duas décadas de existência.
Como não poderia deixar de ser, o encerramento da turnê brasileira de Kostov acontece no Rio de Janeiro.
Em a Cidade Maravilhosa, no dia 14 de março, Kosta é convidado especial da festa DigitalDubs, que rola quinzenalmente na Casa da Matriz.
A DigitalDubs Sound System é a primeira equipe de som no Rio de Janeiro especializada em dub, reggae e dancehall, e há cinco anos vem promovendo festas em diversos espaços culturais da cidade, bem como em São Paulo, Belo Horizonte e Brasília.
Não há desculpas para o público brasileiro deixar de conferir o som de Kosta Kostov:
são 6 oportunidades (pelo menos uma em cada região do país) para se deixar envolver por essa «música tradicional aditivada», que rompe fronteiras políticas e culturais, globalizando o mundo de uma forma diferente e deliciosamente dançante.
www.myspace.com/djpatricktor4
www.myspace.com/balkanxpress www.nacaobalanco.com.br
Número de frases: 24
www.myspace.com/digitaldubssound Sentada na porta da sua casa, Dona Angelina Gonçalves sente a dor da idade chegar.
Os 75 anos a impedem de sair de casa constantemente.
«Tem dia que a coluna dói tanto que não consigo me levantar», confessa enquanto observa sua neta Jéssica, 11, chegar acompanhada da vizinha Ana Carla, 11. Assim como Angelina, as duas também nunca foram ao cinema.
Dona Angelina estava disposta a ficar em casa naquela noite de domingo, dia 27 de maio.
Não iria à missa, pois as pernas doíam.
Moradora do Morro do Querosene, em São Roque do Canaã, norte do Espírito Santo, a aposentada queria mesmo «é ficar em casa vendo o SBT».
Após saber que veria pela primeira vez um filme em tela grande, por conta da passagem do caminhão itinerante do Revelando os Brasis por a sua cidade, escolheu a melhor roupa, foi à missa e esperou começar a sessão sentada na escadaria da igreja.
A mesma realidade bateu à porta de Letícia Cássia Brawn de Oliveira, 16, e Marciana Rodrigues, 18, que também nunca tinham ido ao cinema.
Moradoras deste que é um dos principais bairros populares de São Roque do Canaã, município que teve o vídeo «O Último Tocador», de Valbert Vago, selecionado na primeira edição do Revelando, as duas trabalham para ajudar a sustentar a família e se divertem na pracinha do lugarejo quando encontram tempo.
Em esta mesma pracinha, onde também se localiza a Igreja Matriz da cidade, cujo padre parece mandar mais do que o prefeito, o motorista e também projecionista Aécio Lino Guerra, 30, e o ajudante Ivonildo Bispo de Miranda, 22, montaram o telão do projeto.
«O padre queria que fosse atrás da igreja, mas lá não cabe.
Temos de fechar a rua e fazer aqui na frente mesmo», explicou Aécio.
Já com a praça lotada, os moradores de São Roque do Canaã acompanharam o senhor Jepim Penitente a tocar sua concertina na frente da tela.
O músico e agricultor, que mora na zona rural da cidade, é tema do documentário que Vago gravou ali na cidade mesmo, dentro da idéia central do projeto, que é transformar em vídeo histórias contadas em cidades brasileiras de até 20 mil habitantes, numa parceria do Ministério da Cultura com o Instituto Marlin Azul (ES).
«Eu cresci aqui em São Roque admirando a figura de ele.
Depois, passei a admirar enquanto músico, principalmente por ele ser o último tocador de concertina da região», afirma o diretor Vago.
Sobre a própria história, Jepim relembra o início.
«Comecei a tocar aos sete anos escondido do meu pai.
Um belo dia toquei e as pessoas diziam:
cadê o sanfoneiro?
Eu estava atrás de ela de tão pequeno que era».
Questionado se o filme que Vago realizou e que já foi exibido em diversos festivais e cidades do Brasil provocou alguma alteração em sua vida, Jepim foi certeiro:
«o vídeo tirou minha vergonha de tocar concertina».
Indagada se o cinema poderia trazer benefícios à sua vivência, a cansada Dona Angelina completou:
«é sempre bom ver coisa boa e bonita.
Eu gosto.
Vou me entrar para tomar banho», finalizou.
Sob um frio que cortava a cidade, os moradores de São Roque do Canaã sentiram de perto o resgate da própria cultura por meio de uma tela de cinema instalada entre a igreja e a praça, as duas principais ocupações para aqueles cidadãos fora do horário de trabalho.
Número de frases: 28
S. Lobo e Renato Lima se conheceram na 1ª Bienal Internacional de Quadrinhos do Rio, em 1991.
Lobo estava encarregado de receber os originais que participavam do concurso da bienal e Renato chegou com o seu fanzine.
A amizade frutificou e, mais de dez anos depois, a parceria se mostrou ao Brasil por meio da MOSH!,
revista que combina rock e quadrinhos e que, se é pequena no tamanho, é enorme entre seus entusiastas (que não são poucos e estão tanto do lado da música como do de as HQs).
Entre a idéia e a chegada da gráfica, os dois perderam apenas um mês, pois muitos dos colaboradores, como Mitchell e Fábio Lyra, já trabalhavam com este universo mesclado.
Lançada em 2003 no 2º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte -- evento que é herdeiro direto da antiga bienal carioca, foi um fiasco de vendas.
Mas, como tudo que é bom na vida e surge fora do mainstream, caiu no boca-a-boca por a qualidade e, hoje, a publicação já chegou ao décimo número e abocanhou dois prêmios HQ Mix, o Oscar dos quadrinhos nacionais.
O gaúcho Lobo também criou o conceito e a viabilidade da revista F., publicação de humor que reúne grandes nomes novos dos quadrinhos nacionais -- entre eles, talvez o mais badalado seja Allan Sieber -- e que, em breve, será distribuída nacionalmente, graças a uma parceria com a editora paulista Conrad.
Em entrevista ao Overmundo, ele fala sobre o «efeito tostines» da revista, os seus rumos e perspectivas e, claro, sobre HQ e rock.
A MOSH!
é uma revista em quadrinhos pra quem curte rock ou uma revista de rock pra quem curte HQ?
Era pra ser uma revista de quadrinhos pra quem curte rock, mas fomos pegos por o ' efeito tostines '.
A prova disso foi que ganhamos dois prêmios HQ Mix, tem muita gente que curte quadrinhos lendo a nossa revista de rock.
Após dez números, o que mudou na proposta da revista?
Acho que estamos cada vez mais comprometidos com nossa proposta inicial, fazer histórias sobre rock.
Mas, a cada dia, estamos editando, escrevendo e desenhando.
Qual o grande momento até agora?
Putz, tem tantos!
Ler a primeira matéria impressa no jornal falando da gente é muito bom, dá aquela sensação de ' estamos vivos e fazemos parte do mundo '.
O primeiro lançamento que a gente fez foi na LOUD!,
com show do Cachorro Grande e um público de 1.500 pessoas.
Mas esse ano promete ser grande, já lançamos uma coleção de bottons e camisetas.
Vem por ai um CD coletânea em parceria com a LOUD e a Rastropop, com muitas das bandas que circulam por a revista e por os nossos eventos.
O encarte vai ser todo em quadrinhos, claro.
Qual o alcance da MOSH!,
vocês têm essa noção?
Embora tenhamos a tiragem pequena, 3 mil exemplares, circulamos num público alvo muito bem definido e não é difícil atingi-los.
Muitas bandas carregam a MOSH!
nos shows que fazem por aí, levando a revista até público.
O resultado disso são e-mails de gente, que mora em cidades como Manaus, falando que curte a revista.
A internet também vem ampliando o nosso alcance, vendemos revistas por a 2 AB (uma editora de livros de design) e por o Submarino.
Para uma revista independente temos uma boa distribuição.
Chegamos as principais capitais do país através da Comix, que distribui a MOSH!
nas gibiterias.
A ACQ nos coloca em importantes pontos na Cidade de São Paulo.
A gente mesmo distribui no Rio de Janeiro.
Acabamos de fechar uma distribuição em 30 pontos de Porto Alegre.
Como os quadrinistas participam da MOSH!?
Vocês os escolhem ou eles escolhem vocês?
De os dois jeitos.
Quando a gente descobre um desenhista com traço que tem a ver para a MOSH!
a gente convida o cara.
Mas recebemos muito material bom dos caras que nos descobrem.
A MOSH!
pretende continuar neste formato indefinidamente ou há outros planos?
A MOSH!
é uma revista feita pra circular em festas e show, por isso é de bolso.
Crescer só no número de páginas.
Os álbuns de personagens e edições especiais virão em outros formatos.
Qual história é a menina dos olhos da revista?
Ehehehehe!
A gente é como pai, é difícil escolher uma específica, pois cada uma cumpre sua funça na revista.
Mas o público se identifica muito com a Menina infinito, do Fábio Lyra.
O Super rock ghost, do Fábio Monstro, também faz um sucesso danado com os roqueiros com pé no punk.
A Old muse, de Odyr Bernardi, representa o nosso lado blues com atitude rock e agora o Rocker, do Erik Judson, chegou fazendo uma pequena legião de fãs.
Mas temos também o Mitchell que não investe em personagens fixos, mas está escrevendo histórias cada dia melhor.
O Danilo traz para a gente um pouco da cultura hip hop e grafite.
Como você considera que a MOSH!
se encaixa neste novo boom de HQs no Brasil?
Eu não tenho distanciamento necessário pra responder essa.
Gostaria de saber como vc acha que a gente se encaixa nesse boom.
E como é a recepção da MOSH!
no meio musical?
A melhor possível, as bandas curtem a revista e se amarram em tocar nos nossos eventos.
Acabamos criando vículos de amizade com muitas de elas.
A gente anda tanto com músicos que as vezes chego a pensar que temos uma banda, não uma revista.
Defina, o mais concisamente possível, o que é a MOSH!
para vocês.
Número de frases: 68
Só quadrinhos roquenrol.
no inicio de 2000, fui colaborador do site Manuscrito do UOL.
na area de graffiti, abaixo segue um texto que foi muito lido, comentado e usado em teses por o mundo.
apesar dos anos, ainda continua bem atual, acho que mudou pouca coisa, na cena de rua hhihihihihihihihihihih.
infelizmente por ser writer, deixando a lingua portuguesa por terceiro plano, e usando um teclado mal configurado, voces acompanharão varios erros, hehehehehe.
mas, mesmo assim estou aqui contribuindo de alguma forma.
Mantendo a minha a alma transgressora e contestadora, relembro algumas palavras de um dos maiores poetas das favelas brasilieras
Solano Trindade senhora gramática
perdoai meus erros gramaticais
se não perdoardes
eu errarei Mais.
O que é graffiti?
De onde surgiu?
Graffiti e pichação são iguais?
Essas perguntas não podem ser respondidas com exatidão, o que se tem são épocas, fatos, personagens, mídia e boatos, muitos boatos.
Juntando todos esses ingredientes, e outros que não mencionei, podemos traçar um pouco do caminho do graffiti na história do mundo.
Os mais antigos exemplos de graffiti vêm da pré-história e sem dúvida, o graffiti acompanha o homem desde seus primeiros passos.
As pinturas rupestres representavam animais sendo caçados, deuses, sua rotina diária e um sem número de motivos para escrever nas paredes das cavernas.
Hoje em dia existem teorias que tentam explicar o motivo por o qual o homem registrava todas essas imagens, uma de elas é a de que os moradores eram nômades e registravam o cotidiano daquela região para se comunicarem com os próximos moradores que passassem por o local.
Levando em conta todos esses fatos das primeiras experiências, podemos dizer que graffiti é todo risco, rabisco, traço (ordenados ou não), linhas, formas feitas em qualquer suporte que dê características de inscrição urbana.
De acordo com alguns estudos o nome graffiti é o plural de «graffito», de origem italiana, no inglês foi adotado» graffiti», sem distinções.
Em o português adotou-se «grafito», e no plural, grafitos (o dicionário Aurélio a partir de 1988 registra o graffiti como inscrição urbana).
Outro registro de inscrições urbanas vem de «Pompéia», cidade engolida por um vulcão, que preservou registros de que a forma de expressão que vemos hoje nas ruas já era utilizada das mais variadas maneiras:
escreviam desde palavrões até propagandas políticas, aí você me diz:
«Ah! Então não era graffiti, era pichação!».
De acordo com o raciocínio anterior graffiti são traços, rabiscos que quando organizados tomam forma de imagens que irão compor um mesmo espaço urbano.
«Estas imagens não poderiam ser letras?"
Sim! E a união de letras forma palavras, que por sua vez, formam mensagens, e então voltamos para o fato dos homens das cavernas passarem mensagens para os novos moradores.
Em a verdade o graffiti pode ser usado para reivindicar direitos, para dizer o que se pensa, para se expressar artisticamente, mostrar o que outros meios de comunicação não mostram, denunciar questões sociais, propaganda de vários tipos, ou simplesmente riscar seu nome num local para registrar que você esteve ali.
Seguindo esse pensamento, há vestígios de que graffiti e pichação são a mesma unidade ou que o graffiti é uma linguagem única e a pichação é a ação de grafitar qualquer coisa que não agrade o receptor, principalmente se ele não conseguir entender essa escrita ou achar que se deve fazer um trabalho de acordo com seus gostos ou costumes.
Quem nunca leu mensagens escritas nas portas de banheiros públicos ou botecos?
Todos acham legal, menos o faxineiro ou o dono do estabelecimento, e assim tudo o que a sociedade acha que é «ruim», que não combina com a estética da sociedade falsamente chamada de ideal, acabam chamando de pichação, que de entre outros significados também se resume em» falar mal de alguém «e vem da idade média, quando padres escreviam mensagens recheadas de palavrões nas paredes das igrejas de religião contrária, usando um líquido betuminoso chamado» piche " (que também era usado para queimar pessoas acusadas de bruxaria).
Em se tratando de registros, existe um documento de 1932 que relata a escrita nas ruas, até 1968.
Essa linha permanecia com poucas mudanças, mas nessa época ou alguns anos antes, os E.U.A. já estavam fazendo uma nova linha de escrita, seus objetivos eram marcar seus territórios com codinomes e no maior número de lugares possíveis.
As gangues viviam em constante disputa com seus inimigos e tudo era " marcado ":
trem, muro, telefone, cesta de lixo ...
Após ser «descoberta» por o jornal «New York Times», a cultura do graffiti desenvolveu-se mais ainda devido as grandes disputas entre os escritores, já fazendo parte da recém criada cultura Hip-Hop, que já se espalhava por o mundo.
Em o Brasil, o graffiti existia em forma de protestos e propagandas, até que em 1978 foi registrado o primeiro graffiti, já indo para uma linha mais artística, trazida da França.
Em o início dos anos 80, começa aparecer a mesma linha de graffiti que se originou nos E.U.A., mas com as disputas, em pouco tempo os «escritores» criaram um novo tipo de letra, com traços retos e diferente dos americanos, que faziam a assinatura mais arredondada.
Infelizmente logo foi apelidado por a mídia de «pichação», e como tal, devia ser repreendida.
Em a mesma época que surgiu essa nova escrita, aqui no Brasil já estava germinada a cultura Hip-Hop (vindo através de filmes e música).
Assim a cidade era dividida entre os escritores que faziam só letras retas, os artistas plásticos que pintavam à mão-livre, os adeptos da «stencil art» e os que faziam todos estilos dentro do «graffti hip-hop».
Hoje existe uma verdadeira miscelânea, e todos os dias nascem novos artistas das mais variadas influências e opiniões.
A escrita reta está sendo apreciada e estudada por diversos estudiosos do Brasil e de outros países.
Os próprios escritores de graffiti estão fazendo revistas, vídeos, zines e estão indo para as galerias de arte, e de uma coisa pode-se ter certeza:
o graffiti nunca irá morrer.
Sugestões para leitura:
Subway art-/ Henry Chalfant
New, use & improved art for the 80's -- Peter Frank/M.Mackenzie
A poesia do acaso (na transversal da cidade) -- Cristina Fonseca
Spray can art -- James Pigroff/Henry Chalfant
revista Arte nas Ruas & 1 2001 -- By GEJO
Número de frases: 52
para saber mais do autor -- www.flickr.com/photos/gejo
O futebol é mesmo uma paixão nacional e Deus é brasileiro.
Quem de vocês amigos leitores, vai duvidar de tais afirmativas?
E não adianta retrucar dizendo que não gosta de futebol porque não entende patavina nenhuma.
Quando começa a Copa todo o Brasil, incluindo ai os que não entendem, se mobiliza em torno da Seleção Brasileira.
Certamente, isso não acontece só porque a grande mídia joga uma saraivada de notícias a cada minuto sobre o assunto.
É que o sentimento de brasilidade, de patriotismo, nato do brasileiro, impera.
E o brasileiro é, acima de tudo, um apaixonado por o seu país e, por conseguinte, por o futebol.
Mas, vamos ao que nos trouxe aqui.
Escrever um artigo sobre a estréia do Brasil na Copa da Alemanha contra a Croácia.
Como disse há pouco, todo brasileiro é um apaixonado por futebol.
Talvez seja porque ele seja o mais democrático dos esportes, congregando na mesma equipe negros, brancos, amarelos, mestiços e, seja lá que outra designação de raça exista.
Por esse motivo, resolvi ver este primeiro jogo do lado daqueles que aparecem menos entre as quatro linhas (a exceção de alguns países latino-americanos):
os índios.
Através do colega jornalista André Vasconcelos, assessor de Imprensa do CIR (Conselho Indigenista de Roraima), consegui um ' passe ' para assistir à estréia da Seleção junto com esses brasileiros que, a exemplo do resto do país, também amam esse esporte bretão.
Cheguei uns 15 minutos antes de começar a partida para ir sentindo o clima.
Após uma rápida apresentação, já fui convidado a entrar para o recinto onde seria exibido o jogo e me sentei confortavelmente numa cadeira, de onde podia observar todos os movimentos da torcida.
Logo de início pude constatar algo interessante.
Se o amigo leitor pensa que índio só quer apito ' está muito enganado.
O local da exibição, um amplo salão de cerca de 100 metros quadrados, estava muito bem equipado com um telão 2 x 2 metros, com projeção de um data-show e caixa de som amplificada.
Coisa para inglês ver.
Apenas o público era pequeno ali:
cerca de 20 pessoas, entre adultos e crianças das etnias Macuxi (a maioria) e Wapichana.
E começa o jogo.
Uma das lideranças do CIR, o macuxi Marinaldo Justino era um dos mais animados e logo mandou comprar refrigerantes.
Outro trouxe fogos de artifício e uma mulher preparava pipoca para os curumins e cunhatãs.
A narração enjoenta de Galvão Bueno não desanimava o grupo.
Dava para perceber a tensão nos olhos de cada um a cada investida croata.
Mas também dava para ver a euforia toda vez que o Brasil subia ao ataque.
O primeiro ' huuuuuuuuu ' da torcida veio quando Roberto Carlos chutou de fora da área e quase pega o goleiro croata desprevenido.
O jogo continuou meio apático por alguns minutos e a torcida começou a reclamar.
Houve até quem criticasse o'fenômeno ` Ronaldo e o chamasse de ' gordo ' (tomara que ele não leia esse artigo, pois depois do que ele disse do presidente da República, sabe Deus o que poderá falar de mim, um pobre mortal).
Por alguns minutos reinou um silêncio meio que sepulcral entre os ' parentes ', que permaneciam vidrados no telão.
Silêncio quebrado apenas por mais uma crítica a Ronaldo, por a sua ineficiência em campo, quando a TV mostrou um close do atleta, após mais uma jogada mal sucedida.
«A culpa é desse gordo», bradou um de eles.
O gol de Kaká aos 44 minutos foi o estopim para a festa da torcida.
Marinaldo, aos pulos, correu logo para soltar fogos e buscar refrigerante para ' animar ` a torcida.
E o celular de Marinaldo não parava de tocar.
Devia ser um ' parente ' querendo saber como tava o clima da festa por ali.
Termina o primeiro tempo.
Então, aproveito para conversar com eles e saber qual seria o prognóstico para o segundo tempo.
A expectativa positiva é total. '
Seu ` Inácio Brito, um dos mais velhos do grupo, arriscou logo um 3 x 1." O Brasil vai ganhar, sempre ganhou e vai ganhar mais.
O time tá jogando bem.
Agora, o Ronaldo tá meio fraco, tá muito gordo (para vocês verem que não é só o Lula que tá achando isso)». '
Seu ` Elias Souza e o jovem Fábio corroboraram do pensamento de Inácio, inclusive no placar.
O jovem Hudson estava mais convicto na vitória e arriscou um 3 x 0 para o Brasil, placar seguido por o ' seu ' Tomaz da Silva.
O segundo tempo começa cheio de esperanças de que a Seleção aumentasse o placar e chegasse à previsão da torcida por aqui.
Mas quem começa melhor é a Croácia.
O'fenômeno ' só consegue aparecer aos 11 minutos após bela jogada de Kaká (o craque do jogo para a torcida), mas ainda desperdiça e joga a bola por cima da trave do goleiro croata.
Enfim, para euforia da torcida, Parreira tira Ronaldo aos 23 minutos e coloca Robinho, dando mais movimentação ao time.
Não vou escrever de novo o que os ' parentes ' disseram sobre Ronaldo, senão vocês podem achar que eu estou perseguindo o rapaz.
A entrada de Robinho, com seu futebol rápido, animou também a torcida, que ficou na expectativa de mais um golzinho, que acabou não vindo.
Por fim, o único momento de euforia dos ' parentes ' foi quando o torcedor croata invadiu o gramado e passou mais de um minuto acenando para o público sem que ninguém fizesse nada, causando gargalhadas entre a torcida.
Antes do juiz soar o apito final, encerrando a partida, ainda tive tempo de observar mais um detalhe no local onde assistia à partida.
Já estava quase por perguntar:
será que ninguém bebe por aqui, nem que seja caxiri (bebida fermentada à base de mandioca, feita por os índios)?
Foi quando vi um aviso na parede alertando que era terminantemente proibida a entrada e permanência de pessoas embriagadas no recinto (isso faz parte de uma campanha do CIR para diminuir o índice de alcoolismo entre os índios).
E vejam só amigos leitores.
Passei o primeiro jogo do Brasil na Copa em seco.
Espero que gostem do artigo, pelo menos.
O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo.
A proposta é construir um panorama da estréia do Brasil na Copa da Alemanha, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país.
Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag Especial Copa, no sistema de busca do Overmundo.
Número de frases: 64
O Mito da baianidade do Samba (
De a série ' Crioulo doido revisitado ")
«O que?!
Este jurado de bateria, filho de uma égua deu nota 9,5 para à Mangueira? ...
Tá comprado!
Te A vendido!
Pra qual escola este filho da mãe torce?
Mocidade? Ah ...
Logo vi ...
O que? ...
Não acredito!
O maluco deu 9,5 para à Mocidade também?"
Jurado? Bateria?
Você sabe o que é uma bateria de Escola de Samba, claro, mas, conhece as mumunhas, os critérios usados para se julgar estas coisas?
Não? Pois é bom saber.
Vamos a eles então:
Para começar, saibam vocês que as ruidosas baterias de hoje em dia não nasceram com as Escolas de Samba.
Não. Em a verdade elas são um fenômeno até novo nos desfiles (talvez seja mesmo a última novidade a ser incorporada a este hoje gigantesco espetáculo, que começa a acontecer, com este nome, ali por o início dos anos 30).
É que das Escolas eram acompanhadas, no início, por pequenos conjuntos de choro.
Isto mesmo:
Bucólicas flautas transversas, violões, cavaquinhos, tendo bem ao fundo uma modesta ' cozinha ' formada por um pandeiro, um tamborim e, talvez, um discreto chocalho.
Tudo isto, junto com o cantor do Samba e seu coro de " pastoras ' (guardem bem este nome), cobertos por um pálio, espécie de barraca móvel, toda enfeitada, carregada, placidamente, por quatro homens suados, mas felizes.
Só por esta imagem já dá para a gente considerar então que, ali por volta de 1915/20, o que, mais tarde, se chamaria de Samba, como gênero musical, não estava nem firmado ainda (até porque como tal, nem mesmo existia).
A bossa nova da época, depois de ter sido o Lundu, era agora o Maxixe, ambas exóticas danças de escravos, trazidas da roça, adaptadas e adotadas por a elite mundana da ex-corte imperial e quase espécies de Funks pesadões ou Danças-do-Créu da Belle Èpoque, que, transbordantes de sensualidade (pelo menos aos olhos do puritanismo cínico daquela elite branca azeda) incendiavam os salões.
Em as ruas, onde o Carnaval também pegava fogo, a onda era outra:
O dolente Rancho carnavalesco, trazido para cá por uma grossa leva de gente, chegada da Bahia no fim do século 19.
É este, portanto, o contexto da nossa conversa, na qual tentaremos responder à seguinte -- e capciosa -- pergunta:
Afinal, em relação ao Samba e ao nosso Carnaval, honras e glórias de nosso orgulho carioca, o que é mesmo que a Bahia -- ou a bahiana -- tem?
O ano era 1997.
O cenário a Av..
Marquês de Sapucaí, a afamada Passarela do Samba.
O Jurado, vilipendiado, amaldiçoado (até mesmo por o revoltado dirigente da Liga Independente das Escolas de Samba)?
Este criado que vos fala, o filho da mãe assumido e confesso que, por via das dúvidas, assinalou na súmula, os argumentos (óbvios e quase irrefutáveis) de sua decisão que foram, mais ou menos, os seguintes:
O break e o Funk do Jorjão
Que parada é esta mermão?
A bem da verdade, dizia-se à boca pequena que alguns jurados mais ... '
pragmáticos ', costumavam lavar as mãos, dando notas 10 para todas as grandes escolas e pronto, mas, esta prática escapista, ' brasileira ' e malandra a mais não poder, já estava começando a dar na vista.
Excelentes baterias de pequenas Escolas, há muitos carnavais, estavam sendo injustamente penalizadas por este ' jeitinho ' impune de ser, dos jurados.
Considerei, portanto -- e, devo confessar, ingenuamente -- que, por o fato das baterias de Samba estarem passando por uma fase de indigência criativa assim tão flagrante (naquela época em especial) premiar o conjunto mais ousado artisticamente, talvez fosse uma forma de estimular um aumento da qualidade geral do espetáculo.
A mais bem sucedida bateria daquele desfile havia sido, sem dúvida, a Unidos do Viradouro, conduzida por um excelente mestre que, entre outros ' grooves ' ou levadas e traquinagens eletrizantes, realizou, de forma rigorosamente precisa, uma arrepiante " paradinha ` Funk.
O nome de ele era Mestre Jorjão, grande artista, discípulo dileto do decano e guru de todos os mestres de bateria do Brasil:
Mestre André, exatamente, o inventor da ' paradinha ', lá em Padre Miguel (é claro) ali por o início da década de 1970.
(É por estas e outras que o livro que fiz inspirado por esta, entre outras, história se chama, exatamente, " O Samba e o Funk do Jorjão ').
A primeira destas, também ótimas, baterias, agraciadas por mim com o segundo lugar, havia realizado um desfile embora sem erros, apenas burocrático.
Como Mocidade Independente era o seu nome, dolorosamente, dei a minha nota (9,5) considerando que, pelo menos, no que diz respeito ao meu comportamento ético, a história me redimiria.
A outra bateria ficou sendo o monstro sagrado Estação Primeira de Mangueira, por conta, além de ter apelado para o mesmo burocratismo do chamado ' desfile técnico ', ter incorrido, mais um vez, num erro clássico, em seu caso, uma armadilha congênita, contida talvez no seio de suas próprias ' raizes '.
Mas, Deus do céu!
Como é mesmo esta história de ' raízes '?
Como é que uma bateria de Samba, poderia incorrer no erro crasso de não tocar ...
Samba? E espera aí ...
como isto poderia se dar, exatamente, por culpa de suas próprias origens?
Se estas baterias são conjuntos de percussão especializadíssimos neste ritmo, tão característico da mais profunda ' raça ' afro-brasileira, como poderia se dar este paradoxo?
O crioulo teria endoidado de vez?
Calma, gente!
Posso explicar.
Reparem bem:
Para início de conversa, não ousei afirmar que a bateria da Mangueira fora ruim, ou mesmo inferior à maioria dos conjuntos.
Afirmava apenas que havia um algo menos na evolução de sua rítmica, " uma qualquer coisa estranha ' -- como diria o Mário de Andrade -- que, por força talvez de ardilosas pressões comerciais ocorridas ao longo do tempo, no desenrolar de vários Carnavais, com a aceleração absurda do andamento, da cadência dos desfiles, fazia a Mangueira -- mais do que das outras -- abrir mão de todas as características rítmicas mais elementares, do que se costumava chamar de Samba.
Em se mantendo as características do seu estilo -- as tais ' raízes -- só reduzindo o andamento da bateria nos desfiles, a Mangueira conseguiria voltar a tocar, exatamente, Samba.
Ou seja, para mim a bateria da Mangueira andava, já há algum tempo, tocando ...
Marcha.
Uma ' levada ` portuguesa com certeza, com certeza uma ' levada ' portuguesa.
Não toque em velhas chagas
Ou o triste fim de um jurado 40 dias antes da quaresma.
Chagas?
Tabus? Mitos?
Aquilo me subiu à cabeça.
como se já não bastasse a nossa proverbial falta de ética na política, a corrupção da ' coisa pública ' carcomendo as nossas instituições, quer dizer que era assim que se desenvolviam os juízos de valor, às vezes, tão determinantes à evolução, à preservação, de uma manifestação cultural popular, tão tradicional e importante à afirmação de nossa (vá lá que seja ...)
nacionalidade, como são as Escolas de Samba do Rio de Janeiro?
Foi aí que eu, como um Policarpo Quaresma tardio, mais realista que o rei, bati o pé, dei mole para os fanáticos de plantão e ... '
sambei '.
O fato é que nunca se soube exatamente as alegações que justificaram o meu afastamento sumário do júri da Liga Especial de Escolas de Samba do Rio de Janeiro naquele mesmo ano.
A carta lacônica que comunicava o meu desligamento vinha assinada por o novo presidente da instituição:
Ele era, como de praxe, o presidente de uma das grandes escolas, uma mui tradicional ...
Sabem qual?
Isto mesmo:
A GRES Estação Primeira da Mangueira.
Ai Jesus!
Minha família quase me linchou e não era para menos:
Perdemos o direito a assistir, todo ano, de camarote, com mordomias quase nababescas, ao maior espetáculo da terra.
E eu ainda era remunerado por aquilo!
Meus já um tanto distantes amigos de Padre Miguel, no afã de apagar o gosto amargo da afronta imperdoável que eu lhes infringira, me riscaram dos seus caderninhos, com rabiscos raivosos.
Por o sim por o não, para mim o que ficou mesmo foi a forte sensação de ter cometido mesmo alguma indiscrição imperdoável naquela súmula.
Teria eu ' sambado ' do júri por ter esbarrado -- e assinando em baixo -- em mais um mito-tabu de nossa vã etnologia?
Como o pessoal da Mocidade, além de me xingar, protocolarmente, de nada mais se queixou, não duvido nem um pouco que, mais do que ter tido a petulância de dar uma nota menor que 10 àquelas duas baterias, naquele inesquecível desfile, a razão por trás de tão radical decisão, foi mesmo o fato de eu ter citado na súmula -- fazer o que?
as tais ' raízes históricas ' lusitanas da Mangueira.
... Ou, o que é pior (ou melhor, sei lá):
Raízes luso-bahi anas.
E que misteriosas e indiscretas origens seriam estas?
Estão afim de saber o enredo deste samba?
Então vamos lá:
Simbora gente!
Lá em cima tem um tiru liru ...
... mas, lá em baixo tem um tiru liru lá.
Em a verdade, se a gente fosse mesmo levar este questionamento, como seria justo, ao pé da letra, deveríamos colocar pingos nos is também (e digo isto protegendo a cabeça das inevitáveis pedradas que virão) na própria existência de uma negritude transcendental na gênese das primeiras Escolas de Samba (as que chamei aqui de " matrizes ').
Falo de uma forte e legítima influência de uma inefável branquitude lusitana, tão, parodoxalmente, negada ou omitida por mitômanos de todas as castas e raças, em nome de um purismo pra lá de suspeito, que se utiliza de forma, como sempre, oportunista, aquela máxima que diz:
' Em terra de cego, quem tem um olho é rei».
Poderia até ser considerado da minha parte, um comportamento «traíra ', meio» pai joão ', assim como um requentado ' elogio à mestiçagem ' (ao que, em se tratando deste seu criado, alguns mal avisados poderiam dizer: " Ora, ora ... quem
diria!") Afinal, os tempos são os das justas ações afirmativas e reivindicações por cotas de acesso para negros nas universidades -- e na sociedade brasileira em geral -- tempos de afirmação do conteúdo acentuadamente africano de nossa cultura, sacramentado até numa lei, a 10.639, que rege a obrigatoriedade do ensino da cultura negra em nossas escolas, etc. e tal, pois então?
(Viu, pessoal?
Não é bem aquilo lá em cima não).
É que nada pode ser mais edificante -- e pertinente -- na afirmação da cultura de um povo, do que ele reconhecer e se orgulhar de suas origens, das matrizes que forjaram a sua personalidade " assim-assim ', aquela sua cara de povo original, bendito fruto, entre todos os outros frutos culturais deste nosso pequeno planeta, sejam lá quais forem estes frutos-matrizes.
Deve ser esta a jurisprudência criada, o espírito intrínseco da tal bendita lei.
E é legítimo que assim seja, não é não?
Aliás, nunca é demais lembrar, sempre que nos referimos à cultura lusitana, que o fazemos ressaltando a sua, não menos indefectível, herança árabe-muçulmana, africana portanto, ou seja, existe também uma inefável e indelével, negritude lusitana, ora pois, pois.
Alhos combinados com bugalhos sim, ô pá!
Avancemos para além das aparências, por favor!
Em se tratando de Samba, portanto, matrizes são aquelas escolas surgidas na área da «Pequena África», em período próximo aos anos 30;
nascidas sob a influência das casas de macumba e candomblé de um lado e, de outro, por o contato com a cultura da baixa classe média do Rio de Janeiro da época, cujas referências musicais principais eram, além dos grupos de Lapinha e Ranchos Carnavalescos citados, o Lundu, o chamado Tango brasileiro e o Maxixe.
Ou seja, o must para todo mundo -- inclusive a negrada -- durante o Carnaval, era o Rancho, filho dileto dos Pastoris, das festas de Reis ou Reisados, herdeiras legítimas das Lapinhas ` trazidas por os bahianos que, por sua vez, as herdaram de nossos bigodudos ' patrícios ' de trás-os-montes ', ô pá!
Que se toquem então -- os que ainda não se tocaram -- que foi do Rancho Carnavalesco, esta pitoresca manifestação cultural, tipicamente, ibérica -- ou européia -- que as nossas Escolas de Samba herdaram quase tudo, inclusive, a própria estrutura organizacional dos desfiles e a maioria dos personagens, como é o caso evidente do Mestre Sala e da Porta Ba ndeira, do hoje extinto ... (
lembram-se do nome que pedi para guardar) ... '
Coro de Pastoras ' (antes chamadas, lusitanamente, de " Saloias '), das alegorias de mão (os carros alegóricos vieram das Grandes Sociedades '), etc. e tal ...
... Além do indefectível e mouro pandeiro, é claro que, todo enfeitadinho de fitas, estava sempre a chacoalhar nas mãos de uma saloia ou de uma Diana destas de a vida, desde lá da santa terrinha, ora, pois, pois.
Ah ...
e isto sem esquecer de revelar que as cores verde e rosa da Mangueira, não são, exatamente, como muitos pensam por aí, fruto de alguma misteriosa visão poético-filosófica de um inspirado sambista.
Verde e Rosa eram as cores de um dos Ranchos Carnavalescos mais famosos da Mangueira, ali por volta de 1910: o «Príncipe da Floresta», paixão adolescente de Carlos Cachaça, talvez de Cartola e de muitos dos integrantes do seminal» Bloco dos Arengueiros ', embrião da futura grande Escola de Samba.
Está certo, mas, e daí?
O que é mesmo que a bahiana tem?
(Continua um dia destes no post & 2)
Número de frases: 120
Spírito Santo Junho, 2008 (E assim, com este ' postão ' dividido em dois, iremos fechando a tampa da eletrizante série " Crioulo Doido revisitado ")
Desde pequeno, quando volto para Porto Alegre, depois de alguns dias fora, sinto-me estar entrando numa cidade desconhecida.
Quando retornava da 12ª Jornada de Passo Fundo, semana passada, não foi diferente, porém desta vez a cidade realmente havia sofrido uma mudança significativa.
Para felicidades dos apreciadores da boa arte, primeiro de setembro, marcou o início da 6ª Bienal do Mercosul, evento que se estende até 18 de novembro.
Entre um trabalho e outro, consegui um tempinho para visitar a exposição do argentino Jorge Macchi, no Santander Cultural.
Não conhecia o artista e, tão pouco, entendo grande coisa de artes plásticas, mas fiquei impressionado.
Utilizando elementos do cotidiano como jornais, caixas de fósforos e bacias, o Hermano segue oposto à Pop Arte, que explora o esvaziamento dos ícones.
Em a arte de Macchi, tudo é sentimento e música.
Logo na entrada da exposição, há uma gigante tela passando créditos de um filme.
A trilha que embala as letrinhas é executada por a orquestrada de Porto Alegre numa televisão de plasma ao lado.
Com esse casamento, percebi claramente a intenção do artista em dar sentindo aos coadjuvantes do nosso dia-a-dia, como a trilha, sempre em segundo plano.
Outro exemplo dessa transferência de atenção é a obra «Monoblock», que transforma cabeçalhos de obituários de jornal, apenas com cruzes e estrelas de Davi, num prédio cheio de sentidos.
Simples, imprevisível e genial são algumas palavras que posso atribuir ao que vi na exposição.
Textos de jornais expostos em linhas contínuas são unidos apenas por as frases de comum ocorrência como «cuerpos sin vida» e «Un charco de sangre».
Carros atravessando estradas coordenam notas de violinos.
Pregos pontuam partituras.
Somando o trivial ao essencial Macchi compõem sua linguagem.
Estou curioso para descobrir outras surpresas que a 6ª Bienal salpica por toda Porto Alegre.
Deixo aos conterrâneos, essa dica, e aos «estrangeiros» o convite para conhecer este belo evento da Capital Gaúcha.
Saiba mais sobre Jorge Macchi e sua obra no site oficial do artista.
Número de frases: 20
Receita rápida para fazer fotos espetaculares:
deixe sua câmera digital de molho por alguns segundos num recipiente com água.
Que é isso, maluquice?
Pois, acredite, foi assim que o engenheiro aposentado Farrell Eaves, 71 anos, saiu do anonimato para chegar à fama.
O episódio tem jeito de conto de fadas.
A Nikon CoolPix de Farrel era uma câmera comum, até que, por acidente, caiu no leito de um rio.
Farrell passou semanas tentando secá-la totalmente, mas foi inútil.
Então, ele decidiu ver o que ocorreria se a usasse assim mesmo.
Surpresa! A Nikon transformara-se num instrumento fabuloso.
A cada clique, produzia revelações com auras fluorescentes, belíssimos arco-íris, paisagens fascinantes -- verdadeiros óleos sobre tela.
Uma de elas, intitulada Cabin, lembra uma pintura de Van Gogh.
Obviamente, um webdesigner habilidoso pode conseguir resultados idênticos, se usar um bom software como o Photoshop.
Mas a Nikon mágica de Farrell é muito mais criativa.
«Tudo acontece entre o momento em que eu pego o foco e pressiono o disparador.
Nunca sei o que virá a partir daí e sempre fico admirado com os resultados», ele diz.
A experiência inusitada deu um novo alento à vida de Farrell.
Suas fotos são exibidas em galerias de arte do estado do Tennessee, onde ele nasceu, e estão à venda em versão para papel.
Farrell viaja por todo os Estados Unidos e para o exterior fazendo palestras em famosos clubes de fotografia.
O que causa espanto é que das oito mil fotos que ele fez desde então, não há uma igual à outra.
Segundo Larry Andell, da Cohen Cameras, de Nova York, o engenheiro consegue efeitos que não são aleatórios, mas se ajustam perfeitamente ao contexto de cada imagem.
«Imagino que a câmera ficou sensível a densidades particulares de cor e captura as coisas de uma forma totalmente nova», diz Andell, tentando explicar o fenômeno.
Por sinal, ninguém conseguiu desvendar o mistério que cerca a Nikon feiticeira.
Presume-se que a umidade tenha formado minúsculos cristais que influem tecnicamente nas fotos.
Bruce Dale, que por trinta anos trabalhou na National Geographic, celeiro dos melhores retratistas do mundo, comenta, perplexo, a obra de Farrel:
«As fotos são de fato impressionantes.
Elas têm me inspirado e são de fazer inveja a qualquer profissional».
Farrel não é um novato na arte de fotografar.
Ele já foi fotógrafo da Marinha norte-americano e participou de vários workshops de fotografia.
Por sinal, foi no workshop de Bruce Dale, em Pecos River, Novo México, em agosto de 2001, que se deu o milagre.
Atribuído a Dale.
«A história virou piada só porque eu disse que iria comemorar o final do workshop dando um banho em Farrell, um de meus melhores alunos», brinca Dale.
O que realmente sucedeu foi que, ao fim dos trabalhos, Farrell e seus colegas de classe decidiram fazer tomadas do rio Pecos, que atravessa os contrafortes das montanhas conhecidas como Sangre de Cristo, no Novo México.
Farrel montou sua câmera num tripé e esbarrou em ele, sem querer.
Sua Nikon foi parar na água.
Ele mergulhou rapidamente e recuperou-a, mas era tarde:
as lentes, o painel de controle e o monitor estavam totalmente molhados.
O resto da história tem seu ponto culminante quando Farrell, pela primeira vez, voltou a usá-la.
«A imagem que surgiu no monitor era diferente de tudo o que tinha visto antes.
Não era distorcida nem deformada.
Ao contrário, mostrava cores e padrões inacreditáveis», ele conta.
Foi uma alegria só.
Ou como dizem os jovens -- pura adrenalina.
Em a verdade, Farrell pressentiu que tinha em mãos uma nova forma de apresentar a fotografia.
«Senti-me como uma criança que vê o céu pela primeira vez», ele recorda.
Farrell Eaves é daqueles norte-americano simpáticos, que tiveram uma vida bastante agitada e que, agora, aposentados, divertem-se com uma boa pescaria à beira de um lago, com montanhas ao fundo.
Ele vive com a esposa Fern, com quem é casado há 45 anos, em Walden, cidadezinha do estado do Tennessee, a poucos quilômetros de Chattanooga -- famosa porque foi sucesso musical de Glenn Miller (Chattanooga Choo Choo, lembra?).
Farrel tem um hobby que lhe garante uma boa renda extra:
constrói móveis e seu estilo favorito é o chippendale.
Formado em engenharia mecânica, sempre teve uma queda por a fotografia.
A serviço da Marinha dos Estados Unidos, ele gravou cenas dramáticas da Guerra da Coréia.
Mas jamais pensou que um dia, por mero acaso (ou teria sido a mão do destino?),
se transformaria numa celebridade do clique.
Avô coruja de uma menina e cinco garotos, ele percorre os Estados Unidos, de ponta a ponta, contando para membros de clubes de fotografia, a história fantástica da câmera que caiu na água e, que, a partir daí, começou a exibir imagens que mais parecem obras de clássicos da pintura.
Por e-mail, concedeu-me este depoimento:
«Fotografar é uma coisa de que gosto muito e levo muito a sério.
Comecei a fazê-lo quando ainda estava no colegial.
Meu serviço militar foi como fotógrafo da Marinha, durante a Guerra da Coréia.
Depois, continuei trabalhando como tal até me formar em Engenharia Mecânica.
Com certeza, os dias de hoje são os mais felizes de minha vida.
O que aconteceu com minha câmera foi uma coisa maravilhosa.
Sempre me recordarei da primeira imagem, quando a Nikon secou o suficiente para que eu pudesse ver através de sua lente -- foi uma cadeira típica de Pecos River.
De aí por diante não parei de fotografar e a cada clique minha pequena câmera respondia com uma qualidade fantástica.
Senti-me profundamente grato porque parecia que eu estava tendo uma oportunidade única de compartilhar com o mundo alguma coisa realmente inusitada.
As imagens que consegui não puderam ser reproduzidas por qualquer programa eletrônico.
Algumas vezes eu as cortava, mas quase sempre as registrava, pacientemente, na extensão em que o foco permitia.
Posso dizer que tenho agora uma ferramenta sem similar em todo o planeta.
Tudo o que aprendi em muitos anos estudando fotografia, trabalhando com fotografia, parece estar dentro de minha Nikon.
E olha que ela é limitada.
E tem suas manias.
Por exemplo, não suporta flash.
Se ele estiver ligado, ela se recusa a funcionar.
A única área em que minha câmera é igual às outras é a da composição de uma imagem.
E esta é a parte que mais me fascina.
Compor está no coração -- é a alma do fotógrafo.
Devo o reconhecimento que tenho atualmente a muitas pessoas, em especial a Bruce Dale, ex-fotógrafo da National Geographic.
Ele é um amigo excepcional.
Mas tem ainda os jornalistas da API, da Wired Magazine e do Herald Times, de Melbourne, na Austrália.
Esse pessoal me incentivou muito.
Mas devo ter tido também ajuda dos céus, não sei se de extraterrestres (é brincadeira!).
A verdade é que tenho tido muitas alegrias.
E quem sabe um dia, alguém me diga: ´
Farrell Eaves? Sim, eu soube daquele velhinho que fazia fotos com uma câmera que caiu num rio. ´
Legal!».
Número de frases: 83
Samuca é um senhor negro de aparência cansada e um olhar orbitando entre o nada e o lugar nenhum, que jamais foi visto sem um paletó puído, sempre transitando por as vielas de Ondina, no máximo andando até a Barra.
Samuca não mais se comunica por os métodos tradicionais, parece ter desistido de falar.
Não se sabe sobre a origem e o passado de ele.
Sem nome nem sobrenome, Samuca é um fantasma a quem se referem com certo carinho e um pouco de compaixão, do mesmo jeito que Gasparzinho também é um etéreo camarada.
Samuca perambula envergando seu paletó esfarrapado que algum dia foi bege.
Sempre desconfiado, não aceita a aproximação despretensiosa de ninguém, mas também não costuma reclamar com palavras.
Simplesmente, muda de local, sai do ponto demonstrando uma insatisfação por ser seguido.
Está quase sempre fumando um cigarro que alguém lhe deu no outro turno, ou que ele mesmo comprou com algumas moedas dadas em gratidão.
De manhã bem cedo, ele bate ponto numa delicatessen da Avenida Ademar de Barros para tomar café.
à noite, ele volta e os funcionários já sabem que ele quer um pão e uma xícara de café quente.
Muitas vezes, alguém oferece um sanduíche e ele recusa.
Outras vezes, apenas aquiesce com a cabeça e emite um grunhido para dizer que aceita o favor.
O leitor mais atento vai sentir falta das aspas com declarações de Samuca, tudo reflexo da mudez irredutível de nosso personagem.
Falar é até desnecessário com tanto recado que ele consegue dar em seu idioma peculiar de escapista.
Em mais de 40 anos a girar na mesma região, Samuca é um espectro de boatos.
Uns juram que já foi muito rico e se revoltou com a vida burguesa, outros garantem que ele era um dedicado estudante de medicina que perdeu o equilíbrio de tanto decorar anatomia e diagnósticos de doenças.
Samuca não dá respostas, apenas continua andando.
Sem dono
Errante mas disciplinado, ele anda muito e sempre.
E quando não está caminhando, fica agachado, recolhido numa introspecção muda.
São inúmeras as lendas urbanas que rodeiam essa entidade.
«Cada um conta sua própria história», confirma Andréia Araújo dos Santos, caixa há um ano e três meses num dos estabelecimentos em que ele dá o ar da graça.
Alguns afirmam existir parentes seus em São Lázaro, outros dizem ter visto familiares de ele na Boca do Rio.
Um vendedor de caldo de cana divulga que ele viu a mãe sendo estuprada e ficou traumatizado.
Já Álvaro Barbosa, o dono de um carrinho de cachorro-quente, garante que ele era um secundarista aplicado que chegava da escola por volta do meio-dia, quando testemunhou o assassinato dos pais por um carro em alta velocidade.
De aquele dia, virou um nômade na paisagem.
É o esmolé que tem o orgulho para rejeitar caridade.
«Se ele já estiver com uma carteira de cigarro e alguém oferecer mais um, nega na mesma hora», jura Álvaro Barbosa, 54 anos.
Só que às vezes tem uma necessidade orgânica que o impede de manter a fleuma.
«Se ele estiver sem nada, aceita até a guimba do cigarro», completa Carmelito Souza, 50 anos, dono da banca de revistas onde o surrado Samuca às vezes chega com duas ou três moedas para trocar por algo para fumar.
Passeio
A vida de Samuca é também um passeio por Ondina, bairro residencial com o fluxo contínuo de estudantes.
Acompanhar seus descaminhos é uma descoberta da geografia do bairro.
É invadir a Rua Baependi e depois trilhar por a orla dos hotéis de luxo, passando por restaurantes e agências bancárias.
É ficar tranqüilo sob uma árvore na Rua Macapá, ouvindo os pneus de carros chacoalhando no calçamento de pedra.
A Avenida Ademar de Barros é seu lar e uma amendoeira é seu teto.
Em outros momentos, prefere dormir na Sabino Silva, não se sabe o que o faz mudar de um dia para o outro.
É capaz de ficar uma hora fitando o movimento de veículos no rush do fim de tarde.
Samuca caminha vagaroso, a passos de quem não tem destino.
O paletó de ombreiras largas dá ao corpo a geometria de um quadrilátero.
Recorta uma caixa de papelão e recolhe um papel laminado do prato de marmita sujo.
Com aquele, vai fazer um colchão fino e inútil.
Com este, produz uma espécie de relógio sem ponteiros mas brilhante, ou uma coroa.
Por essas e outras, já foi eleito por alguns fãs como pioneiro na reciclagem.
Fãs virtuais
Em o site de relacionamentos Orkut, a comunidade Todo Mundo Conhece Samuca contava com 960 usuários na última semana de abril, todos fãs do «mendigo mais chique do Brasil», alguns com oito anos de idade, outros com mais de 50.
Os tópicos são diversos como A idade de Samuca, Onde Samuca passa o Carnaval, Quase atropelei Samuca, Samuca campeão corredor.
Só que o mais comentado, com quase 80 opiniões, é O passado de Samuca.
Cada um consegue uma interpretação mais incrementada para essa incógnita que se revela tão incômoda como o assassinato de John Kennedy.
O estudante Eduardo Pontes, 19 anos, criador da comunidade:
«Eu sei que cada prédio tem sua teoria do passado de Samuca que é passada para frente por os moradores mais antigos, ou por os porteiros e zeladores.
A mais famosa do meu prédio conta que Samuca era um garoto rico que deu uma festa enquanto os seus pais viajavam.
Após fazer o uso de drogas nessa festa, ficou totalmente sem noção e acabou indo para as ruas, mais tarde ficando maluco."
Lá na frente, outro diz que ele era excelente professor de matemática que ficou maluco depois de corrigir tanta prova.
Um mais ufanista garante que ele foi combatente na Guerra do Vietnã e que não agüentou ver tanta carnificina.
O universitário Marcelo Kubli Vieira, 21 anos:
«O motorista da minha vó disse que conhece Samuca faz anos.
A história que ele me contou é que Samuca trabalhava como cobrador de ônibus e era um homem direito e trabalhador.
Mas aí ele teve um caso com a mulher do chefe de ele, que resolveu espancar o pobre Samuca até ele ficar doidão do jeito que ele é."
Cada qual faz a aposta mais absurda para o evento que transformou para sempre a vida deste anônimo num passado de sombras e um presente de migalhas.
Funcionário-padrão
Seu Ângelo, um espanhol que era o antigo dono da delicatessen, uma das pessoas mais próximas a Samuca, certa vez contou para uma funcionária que ele era caixa de uma padaria no Chame-Chame.
O estabelecimento faliu e «de uma hora para a outra, ele fundiu a cabeça».
Já dona Maria José, que está pagando o pacote de pães cacetinhos, discorda.
Ela ouviu dizer que o problema de ele foi de uma paixão fulminante por uma antiga moradora da região.
Como não foi correspondido, resolveu largar os parâmetros de vida comum para algo sem juízo e sem razão.
O porteiro Manuel Borges dos Santos trabalha há 18 anos no mesmo local, tempo suficiente para ter a convicção de que estamos falando de gênio incompreendido.
Argumenta que ele é bom de cálculo e tem a noção exata dos dias da semana, dos feriados, principalmente.
«Se você perguntar o que significa o dia de hoje (21 de abril), ele te dá uma aula sobre Tiradentes», garante Manuel, na certa esquecendo que Samuca dificilmente articula um diálogo.
A empregada doméstica Nuzinéia Santos há 16 anos serve um café para Samuca, a pedido da patroa, que mora no Condomínio Costa Cavalcanti.
De ele, nada ouve, mas também não diz nada.
Um tempo atrás, segundo os poucos que ainda se interessam por o enigma que é a vida de Samuca, ele foi atropelado.
Ficou quase dois anos em tratamento no Hospital Juliano Moreira.
Quando se recuperou, indicou como endereço para o motorista da kombi a rua onde sempre fica, hóspede do relento.
O carro parou ali, em frente da padaria, Samuca saltou sem dizer adeus e lá ficou.
A versão para essa história muda de acordo com o narrador.
Para uns, não foi o Juliano Moreira, mas sim o HGE.
Para outros, não foram dois anos, mas alguns meses.
Por fim, tem aqueles que dizem que Samuca nunca foi atropelado, apenas é recolhido de tempos em tempos para uma assepsia geral.
«Em essas horas, ele volta novinho, com aparência boa e cheiroso», jura Fernando Silva, gerente da delicatessen onde ele é assíduo beneficiário.
A enfermeira Moni Melo deu o depoimento mais lúcido da comunidade do orkut.
Ela garante que conhece Samuca desde 1970, quando começou a estudar no Instituto Social da Bahia, ainda criança, e via sempre aquele senhor de cara amarrada, mas vestido numa elegância de dar gosto.
Quando ela começou a fazer estágio no antigo Hospital Geral, no Canela, terminou atendendo aquele que sempre foi tema de suas especulações juvenis.
«Ele sofre de esquizofrenia, doença que afeta as funções cerebrais e desconecta o paciente da realidade.
Ele ia sempre para o HGE por conta de bronquite, piorada por o cigarro.
Nunca deu trabalho para as equipes médicas ou de enfermagem quando ficava internado.
E como sempre, de repente, ele sumia ...»,
narra.
Sem passado e sem futuro, seu perímetro é um território onde os estudantes passam fazendo chacota.
Várias gerações se acostumaram a fazer de ele o alvo preferencial de sua falta de limites:
Samuuuuuca, gritam.
Enfezado, ele reage com algum palavrão, num dos poucos episódios em que é capaz de falar.
Um balconista confirma que ele nada diz, nada esclarece.
A esse incomum personagem juntou-se um estudante universitário que, semanalmente, aparece com uma máquina digital para, também solitário, registrar fotografias do indigente, sem que ele perceba.
Samuca está ali na frente do mercadinho, sentado e roto, como se fosse um vira-latas sempre acuado.
Dona Fifi passa por ele e cumprimenta:
«Samuca, meu amigo, boa noite».
Ele não responde, parece não ligar.
Número de frases: 98
Continua a mexer num pedaço de papel velho, como se sua vida dependesse exclusivamente do fato de ficar despercebido aos olhos do mundo.
Eles voltaram.
E em grande estilo.
Os mineiros do Skank, uma das principais bandas do pop nacional desde o princípio dos anos 90, voltam à ativa lançando seu sétimo disco de inéditas -- «Carrossel» -- três anos após «Cosmotron», álbum conceitual na carreira do grupo que, desde» Maquinarama " (2000), vem focando sua sonoridade em influências no rock britânico e no experimentalismo.
A grosso modo, o Skank dos dias atuais lembra uma mistura dos anos 60 dos Beatles, aliado ao rock Madchester do Stone Roses e com uma pitada do som alternativo de bandas ' novas ' como o Travis ou Wilco:
guitarras suaves, teclados viajantes e letras muito bem elaboradas, bem diferente do pop blasé que botava numa só panela o dancehall e o reggae no início da carreira.
Uma das chaves dessa mudança se dá ao fato do grupo ter gravado justamente seus três últimos álbuns no estúdio próprio da banda, em Belo Horizonte, um espaço independente onde a banda pôde desenvolver, mais do que nunca, todas as suas influências, aspirações e inspirações.
Essa ' independência ' do Skank reflete não só na sonoridade do grupo, que completa 15 anos de estrada, mas faz também com que a banda mineira consiga percorrer no limiar do mainstream e do alternativo com segurança e propriedade.
Apesar de «Carrossel» (que chegou às lojas neste mês de setembro) se apresentar, na grande maioria de suas 15 faixas, como um álbum cheio de experimentações sonoras, o primeiro single -- «Uma canção é pra isso» -- já toca no rádio a cerca de um mês, e a receptividade do público foi instantânea.
Não é arriscado dizer que «Uma canção é pra isso» é a faixa que destoa um pouco em relação às outras 14. É a de pegada mais pop, de letra mais simples e de sonoridade mais direta.
Mesmo assim, não foge à identidade do disco.
É a porta do álbum que tem condições de cair no gosto popular.
É uma música sofisticada e simples, com uma assinatura do Skank, ou melhor, com a assinatura de Samuel Rosa e o eterno parceiro " Chico Amaral.
«Pra consertar, pra defender a cidadela;
pra celebrar, pra reunir o bairro e favela», é o que diz um trecho crucial da música ' carro chefe ', como diz o próprio co-autor.
Mas se uma canção é pra reunir bairro e favela, um álbum é pra reunir os riscos e as pretensões de uma banda.
«Carrossel» fecha uma trilogia de um Skank lúdico, amadurecido e libertino.
Mesmo com o hiato de três anos sem lançar um álbum de inéditas, a banda continuou tendo forte foco na mídia e atraindo novos fãs.
Um álbum é pra isso:
sonoridade vigorosa, sem medo de ser feliz.
É este «Carrossel», álbum que definitivamente faz com que o Skank finque sua bandeira dentro do cenário musical no Brasil.
Se na ' primeira fase ` da banda (1991-2000), a crítica torcia o nariz para o trabalho dos mineiros (que alheios a isso eram sucesso de mercado), hoje em dia a banda pode se vangloriar por ser bem aceita não só por o público, mas também por boa parte da ' classe letrada musical '.
Fruto de um trabalho friamente calculado ao longo dos anos, fato que tornou a banda ainda mais homogênea.
«Carrossel» explicita isso em forma de canções.
O disco começa com «Eu e a felicidade», parceria de Samuel e Nando Reis.
Levada pop, com grande incidência de teclados que culmina com um solo de guitarra curto e ...
stonner." E eu não passo de um brinquedo desmontável;
ela não passa de um desejo inflamável», canta o vocalista.
A faixa seguinte, «Uma canção é pra isso», já foi falada aqui, você viu.
«Carrossel» segue com uma trinca beatle.
«Até o amor virar poeira «é a banda de Liverpool na fase» Rubber Soul».
«O som da sua voz» tem potencial pra tocar no rádio, uma boa aposta para um futuro single.
«Cara Nua» é psicodelia ao extremo e mais uma letra viajada:
«Eu saí de casa, a rua colorida;
fantasias, foliões conseguem me mostrar;
que um rosto sem máscara esconde mais com a cara nua».
A faixa 6, «Mil Acasos», é no estilo de» Vou Deixar».
Em o começo é legal, mas depois enjoa.
Ficou meio perdida em meio à trinca de sons que a precede e às quatro seguintes que estão por vir ...
As faixas 7 até 10 resumem a riqueza do álbum e o tal amadurecimento do Skank.
«Lugar «é a sucessora do hit» Resposta».
«Notícia» entraria fácil em Cosmotron.
«Garrafas», a única das 15 canções que não tem a assinatura de Samuel (é escrita por Lelo e Chico Amaral), é Mutantes botando o pé nos anos 70.
«Panorâmica», pra resumir, é linda e é a melhor do disco:
«E no lago azul da noite imensa meu corpo segue vertical, pensando em você».
A reta final do álbum apresenta «Balada pra João e Joana», daquelas canções que só o Skank sabe fazer.
«Trancoso» é mais Stone Roses do que nunca.
«Antitelejornal», uma música meio ...
Lenine." Seus Passos», balada bem britpop.
O encerramento fica por conta de «Um Homem Solitário», outra balada;
lembra o lendário Pulp do'Deus'Jarvis.
Com honestidade ao som do Skank, fecha «Carrossel» e faz deste provável melhor álbum do ano do pop nacional.
Número de frases: 52
Existem pessoas que sempre respondem a mesma coisa quando você fala que algo na atualidade está uma merda:
«Sempre foi uma merda!»,
é o que dizem.
Sem dúvida essa é uma boa forma de negar que a situação esteja piorando.
Eu verdadeiramente queria ver o mundo assim, mas infelizmente tenho que participar de pilantragens como a que vou lhes contar logo adiante.
Atualmente é impossível ser honesto e seguir leis no Brasil, mas sobre isso daria pra se pensar também que não é nada novo:
esse país da esculhambação se rege por a lei do mais forte e do mais esperto desde que se iniciou a pilhagem colonial.
Os mais fortes (mais bem armados e mais convincentes) pilhavam, e os mais espertos conseguiam não sucumbir à pilhagem.
Isso em parte é verdade.
Mas até poucas décadas o país não tinha uma gama tão completa de leis, regulamentando até como as pessoas devem se cumprimentar na rua, como tem hoje.
E a maioria das pessoas, que não eram nem demasiadamente pilhadoras nem demasiadamente espertas, apenas faziam o que consideravam «certo» de acordo com sua herança tradicional, vinda da criação familiar e comunitária, que trazia resquícios de sociedades menos destrutivas que a atual (como africanas, indígenas, até mesmo a cristã européia).
Atualmente, essas heranças morais tradicionais praticamente desapareceram, e o Brasil tornou-se uma imitação barata de países regidos por leis e valores morais mercantis utilitaristas.
E aqui está a grande piora das últimas décadas, do período pós-televis ão, pós-publicidade, pós-faveliza ção ...
Atualmente, ou um país se rege por leis ou não há mais tradicionalismos que segurem o caos.
E o Brasil não tem como ser regido por leis, pois ninguém consegue se sujeitar a elas.
Logo ...
Eu, Tomázio, este medíocre covarde que não se manda desta zona por apegos pessoais, e por já ter concluído que a diferença entre o Brasil e o resto do mundo é só uma questão de tempo (apenas tentarei ir embora quando o caos ameaçar minha sobrevivência nesta merda), já concluí que não é possível viver o dia-a-dia nesta zona se apegando a leis nem ao que restou em mim de honestidade.
Sendo médico de uma grande empresa privada, multinacional, esta semana ficou mais claro que sou um médico realmente corrompido -- o que antes eu tentava ver somente nos meus amigos que ganham mais dinheiro do que eu.
Como eu sou contratado para trabalhar 30 horas semanais fazendo perícias trabalhistas e atendendo os chiliques, as gripes e as enxaquecas dos demais trabalhadores da empresa, bem como para fazer o tradicional teatrinho médico a respeito destes «grandes flagelos da humanidade» (mas com esta desonestidade inerente à profissão eu já estava acostumado), sempre cheguei atrasado e sai mais cedo do que meu horário supõe.
E isso não por ser vítima do tão afamado e falso " espírito brasileiro de jaca-tatu.
Não. Mas somente para conseguir chegar ao meu outro emprego com folga, sem alucinar no trânsito, e para ter tempo de almoçar com alguma tranqüilidade, ou para chegar em casa, ao final do dia, sem estar demasiadamente destruído para o restante da vida.
Em a semana passada, entretanto, a empresa substituiu a chefia do meu setor, e a nova chefe resolveu que os funcionários passariam a bater ponto na entrada e saída de seus expedientes.
O meu pensamento e o de todos os outros profissionais «liberais» da empresa (assessores de imprensa, advogados e outros profissionais de saúde) foi certamente o mesmo:
«Nos fodemos!"
A merda dessa empresa multinacional paga mal e não nos dá muita garantia de estabilidade, mas, como é uma empresa muito grande e muito confusa em sua aparente funcionalidade, sempre contamos com sua desordem -- inerente à sua pilhagem gerida a grande distância -- como forma de ficarmos ali na manha, trabalhando pouco, tomando muito cafezinho e saindo e chegando a hora que bem quiséssemos.
Todos sempre soubemos silenciosamente de nossa desonestidade e ilicitude.
Porém nada comparado à desonestidade e ilicitude desta grande empresa muito festejada no país, que sempre nos pressionava discretamente para não relacionarmos os poucos problemas reais que vemos nos trabalhadores (em especial os " psiquicos ") ao trabalho exploratório a que eles se submetiam servilmente (quer dizer, assalariadamente).
Dá tranquilamente para lembrar dos idos coloniais, da terra sem lei sendo pilhada, só que agora é a multinacional quem pilha, enquanto a massa trabalhadora sucumbi (pressionada por o excesso de trabalho, por o salário miserável e por a ameaça de desemprego) e os espertos (no caso nós, os profissionais liberais, que ajudamos a alienar e manter a massa pilhada sob controle) tentamos nos safar.
Sob pressão, durante dois dias desta semana eu cheguei e saí bem mais próximo de meu horário oficial, empurrando assim o problema da impossibilidade de conciliar meus horários para o «emprego» seguinte e para o mau humor ao chegar em casa um tanto quanto cansado e indisposto para tudo.
Bom, mas não estamos em época de terra sem lei sendo pilhada.
Não oficialmente.
Hoje existem leis para tudo, até mesmo leis que legalizam a pilhagem que uma multinacional faz.
Seguindo este princípio civilizador, e como fiquei mais tempo no trabalho, aproveitei meus resquícios de honestidade para fazer umas duas ou três avaliações médicas com maior dedicação, e conclusivamente relacionei os sintomas dos funcionários com a fadiga por o trabalho excessivo;
e os afastei da empresa por 15 dias.
Agi, portanto, honesta, ética e licitamente para com esses três felizardos.
Logo, consequentemente, a minha nova chefia adentrou muito constrangida em minha sala, vindo acompanhada, e claramente muito pressionada, por sua própria chefia:
um gordo barbudo, com cara de sindicalista dos anos 80, que cuspia sua raiva na cara de minha chefe.
Este, o chefe da minha chefe, sem rodeios, pegou os três laudos e os abriu em minha mesa, questionando meus diagnósticos.
Felizmente, na sala ao lado, um advogado meu amigo ouviu o que o cara estava dizendo e entrou também em minha sala, trazendo com si a assessora de imprensa, que, além de trabalhar naquele bacanal, também trabalhava em outros, fazendo bicos para jornalecos.
O advogado rapidamente se inteirou da conversa e falou em assédio moral e interferência do empregador na análise médica de um empregado.
Já a jornalista fez apenas um único comentário:
«Nossa, esse tipo de coisa dá até escândalo! ..."
Minha chefe, que realmente parecia apenas estar querendo colocar honestidade e legalidade em nosso setor, quase desapareceu de tão pálida diante da vermelhidão furiosa de seu chefe.
Fazendo grande esforço para se controlar, porém, ele pediu para minha chefe, para mim e para a jornalista sairmos.
E ficou a sós com o advogado por alguns minutos, antes de sair da sala sem nem nos olhar -- parecia já não conviver bem com esse negócio de olho-em o olho.
Não sei detalhar o que rolou nesse papo, apenas sei que hoje é sábado e estou momentaneamente bem tranqüilo em minha casa:
já tive a notícia de que segunda-feira teremos nova chefe e meu horário estará de novo flexibilizado.
E tenho certeza que daqui em diante minha ex-nova chefe não tentará colocar mais nada dentro da lei.
Se não ela começará a ter sérias dificuldades para sobreviver neste caos, como eu já tive quando tentei ser um pouco menos moralmente corrompido do que sou hoje.
As leis no Brasil foram feitas para corrigir o caos previamente instalado por a pilhagem colonial;
pilhagem, no entanto, que hoje se mantém por novos meios, quase todos legais.
Uma após a outra, algumas leis brasileiras foram tentando, copiando leis de países não tão pilhados como Brasil, colocar o caos sobre ordem, porém sem nunca interromper as vias da pilhagem.
O resultado deste acúmulo de camadas de leis feitas caoticamente em conchavos entre cínicos e iludidos, foi que para sobreviver neste caos (inclusive para não sucumbir à pilhagem, legalizada) é preciso ir contra as leis.
E somente se ater a elas quando for em favor próprio (no máximo, e às vezes, de sua família, de sua corporação ou empresa), e também saber usá-las contra as outras pessoas que tentam ir contra você em algum momento.
Esses novos valores morais que andam norteando implicitamente a vida cotidiana brasileira, e que não aparecem em leis, obviamente, têm levado em consideração que a essência cultural da massa humana brasileira é ser pilhada, e que para uma vida possível nesta zona só existem três escolhas (e isso pra os poucos que alcançam alguma possibilidade de escolha):
ser humanamente honesto com seus valores tradicionais e passar para o campo dos explorados que sucumbem à pilhagem, como a minha ex-nova chefe;
tentar se transformar num pilhador (o que dependerá da necessidade do pilhador em te ter como aliado), como deve ter acontecido com o chefe de minha chefe, o que tem cara de sindicalista;
ou ser esperto (" malandro ") e tentar viver o aqui-agora no limite de contato entre a pilhagem e a massa explorada, sem pertencer verdadeiramente a nenhum dos lados, mas indo de um lado a outro de acordo com a conveniência de momento;
mas sem poder contar com grandes perspectivas de futuro (a malandragem sempre gera grande incerteza para o dia seguinte).
Número de frases: 59
Um arranjo um tanto quanto instável, mas sendo o máximo que há para os ratos que ainda não conseguiram abandonar esse barco que afunda.
Sei que é em 20 de novembro e que ainda estamos em maio, porém, ando um tanto inquieto com o comportamento de nossa sociedade e, perante a data que comemora o dia da consciência negra, sobretudo por a relevância deste mesmo coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, eu ressalvo:
a cada celebração desta, possuímos cada vez menos, motivos para celebrar.
Sei que pareço radical, mas precisamos refletir melhor sobre a miscigenação no Brasil através das noções de raça e região, para incitarmos uma consciência maior sobre a realidade cultural e social de nosso país.
Enuncio neste momento, uma abordagem à construção simbólica da identidade nacional proclamada por a subserviência de uma nação, que por sua vez tornou-se vulnerável ao rompimento de sua originalidade para a interferência do etnocentrismo estrangeiro.
Contudo, começaremos com uma pequena alusão a história da pátria amada que:
através da invasão dos europeus, cujo se intitulavam povo de raça superior, os índios que aqui habitavam, pacificamente, tornaram-se vulneráveis à perda de sua originalidade racial e cultural.
Pois os invasores chegavam carentes de contatos humanos, absolutamente armados e, de maneira tirana, começavam a se reproduzirem com as índias e depois com as negras escravas.
Em um processo de antagonismo brancos, índios e negros se misturavam no interior da casa grande e alteravam as relações sociais e culturais, criando o novo modo de vida daquela época.
As relações de poder, a vida doméstica e sexual, os negócios e a religiosidade formavam no dia-a-dia a base da sociedade brasileira.
Agora, observando as teses nacionalistas, encaradas sob um anglo de visão mais amplo das discussões baseadas no atraso e subdesenvolvimento, percebemos os dogmas de duas atitudes aparentemente opostas e igualmente equivocadas, que costumam marcar as reflexões dos intelectuais brasileiros (ou das demais elites pensantes dos países colonizados) em despeito a má interpretação de um povo, através de sua visão global limitada, que por sua vez suscita a dependência cultural e estagna sua projeção por meio de preconceitos diversos.
Referenciando o livro «Literatura e subdesenvolvimento» do sociólogo Antônio Candido, obteremos então duas tendências, baseadas em suas análises, que se traduzem respectivamente nas noções de cópia e rejeição:
no primeiro caso, postula-se uma subordinação total e declarada aos padrões da cultura estrangeira, logo, pressupõe-se, acriticamente, uma aceitação indiscriminada do que existe de bom e de ruim na matriz cultural que se toma como modelo, afirmando uma dependência servil à cultura das metrópoles de Europa e Estados Unidos.
Em o segundo caso, a idéia de rejeição aponta para uma recusa intransigente de todo e qualquer contributivo que vem de fora, buscando a todo preço por uma originalidade ilusória.
Em este sentido, o que a primeira vista poderia parecer uma afirmação de «Identidade Nacional» termina por revelar-se uma forma de acentuar a «dependência na independência».
Desta forma, além de nos tornarmos um grande exemplo de atraso, somos obrigados, também, a conviver com a rudimentar concepção de uma massa popular que troca artistas por celebridades, temos que concordar, superficialmente ou não, com pessoas de pele branca ou amarela chamando moreno de preto apenas para mantermos a tão importante diplomacia brasileira.
E, como mais agravante, vemos os negros se ofendendo por assim serem chamados e afirmando para os próprios, enganosamente, serem morenos.
Ainda em tempo de não esquecermos:
providos também somos de sulistas e sudestinos que julgam o QI dos nordestinos como inferior.
Para os índios, um dos comentários:
«são a desgraça do mundo».
Quanta lástima!
Como somos tão soberbos em falar que Deus é brasileiro e que este é o melhor país para viver?!
Se Júpiter for brasileiro, imagina Lúcifer onde nascera.
Alguém faz idéia?
A atual população brasileira precisa compreender os efeitos da miscigenação.
A grande parte da população brasileira é miscigenada e esta característica tornou-se tão vasta que a população miscigenada do Brasil já ultrapassa a não miscigenada.
Podemos constatar esse fato através dos traços
antropologicamente estéticos.
Ou seja, traços mutáveis que constituem a natureza miscigenada dos brasileiros.
Encontra-se esse caráter também na cultura nacional, nas artes e na culinária.
Portanto, já é hora dos brasileiros tomarem a consciência de suas origens raciais, pois todos nós somos frutos da carne daqueles negros e índios.
Como descendentes de escravos e de senhores, seremos sempre marcados por o exercício da brutalidade sobre aqueles homens, mulheres e crianças.
O Brasil é um país composto, em sua maioria, por arianos, hipócritas, inescrupulosos, atrozes e, se necessário for, também impelidores de barbáries.
Devido a posturas como essas, seremos eternamente mal educados e submissos à hierarquia dos que melhor desenvolvidos tornaram-se.
Pois somos incapazes de superar a fantasia que aqui foi estabelecida como nossas vivencias e, com tamanha ineficiência nos programas políticos, teremos que nos contentar com o apelo midiático que justapõe o sinônimo de progresso ao Big Brother e as peneiras dos clubes de futebol.
Logo, veremos os negros trabalhando eternamente em subempregos e os índios serem tratados como animais selvagens.
Esse é nosso documento de apresentação, nossa identidade e, se assim perdurar, será também nosso estigma.
Apenas os tolos possuem o orgulho de serem brasileiros!
Pensem em nossa economia, que por exemplo:
cresceu 2 % em quatro anos e vimos os argentinos se reabilitarem de uma crise crescendo, mesmo desorganizadamente, três vezes mais num mesmo período.
Tudo bem, eles possuem um território menor, uma população orientada e politizada, assim fica mais fácil e essa não é uma desculpa nossa!
Certo, podemos acreditar nisso, mas, e a Índia?!
E a China?!
São pequenas?!
Não, estou certo que não.
Sendo esta última, gigantesca.
O que eles possuem de semelhante com a política Argentina?
Um trabalho pertinete através de educação e cultura.
Ok, esses ainda não são paises modelos para o que anseamos alcançar, mas, ja estão evoluindo.
Nós, habitantes da terra da alegria, onde para os turistas europeus e americanos tudo podem fazer, não somos tão nobres para isso.
Se assim também fizessemos, não apenas cresceriamos economicamente, mas saberiamos nos portarmos mais conscienciosos, pois estariamos mais vulneráveis a indagações de uma sociedade transgressora e saberiamos o real valor de uma informação ou conhecimento.
Não resolveriamos o problema do racismo, mas equilibrariamos essas diferenças de maneira plausível, nos impondo mais verazes diante dos fatos aqui superficializados.
Em contrapartida, teriamos que abdicar de nossa cultura leviana e soberba.
Como seria possível nos colocar superiores diante de nós mesmos se não pudessemos esnobar dos negros, índios, pobres ou nordestinos?!
De essa «virtude» meus caros cúmplices, não poderemos abrir mãos, pois sucumbiriamos perante a nosso verdadeiro caráter.
Fomos tão desorganizadamente colonizados que esta estabeleceu nossa real cultura.
Somos ávidos por subauternos.
Seja esse a nossa empregada doméstica ou o vizinho que possui uma mulher normal e um automóvel inferior.
Lúcido, confuso, fatalista, pessimista;
pensem o que quiserem.
Entretanto, se preferirem enxergar e optarem por com mim refletir, grato ficarei por meu compreendimento.
Farei agora uma referência ao filósofo francês, Pascal, pois, após tamanha complexidade qui exposta, reafirmo:
só nos resta a certeza da incerteza de nossos passos, diante da imensidão do absurdo que neste país vivemos.
Número de frases: 64
Tito Oliveira -- Artista Plástico
A os bons amigos que comentáram meu pequeno texto-provoca ção respondo que com todo prazer vou falar mais sobre o Marabaixo.
Aos poucos vou postando mais dados, vivências, belezas sobre a cultura do Amapá.
Obrigado minha cara Helena, Lailton, Egeu (se despertei seu interesse, estou alegre!),
Saramar. Agradecido.
Participar desses diálogos mais que pertinentes sobre nossa rica cultura brasileira é um grande presente.
Continuemos nossas conversas.
Em breve envio mais textos.
Estarei coletando material cultural numa viagem a Mato Grosso.
Em uma semana envio noticias.
Mas, somente de aperitivo:
A Gengibirra é uma bebida feita por as mulheres, tem um gosto forte já que a presença da cachaça dá a tônica.
O bairro do Laguinho aqui em Macapá é um desses cantos representativos da cidade onde vivem familias afrodescendentes, digamos, é uma mancha (para usar uma categoria de Magnani) da negritude, onde despontam nas épocas de ciclo do Marabaixo, festejos em várias casas, nas ruas da cidade, compondo trajetos e tudo mais ...
Tentarei apresentar fotos, e quem sabe até gravações sonoras sobre as ladainhas.
Interessante relacionar a obra de João Ubaldo Ribeiro tendo em vista que precisamos aprender a apreciar nossas identidades como meio de conhecermos aquilo que Darcy Ribeiro aponta como sendo um povo misturado que somos nós.
Até logo, caros overmundanos, Oxalá,
Número de frases: 16
Luc Araújo. Maju Duarte
Os dizeres de «Guimarães Rosa, Minas há por os menos várias», servem como bússola para os visitantes brasilienses.
Logo na entrada da galeria Acervo da Caixa, a imagem de uma mulher muito simples, ao lado de um forno à lenha, vendo a chaleira fumegando, convida o público a entrar na exposição para «tomar um cafezinho» e prosear sobre arte.
A foto é de Rui Faquini, novo diretor do Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul).
O nome da foto «Grandes Sertões» Veredas, uma homenagem àquele que ciceroneou o visitante nas primeiras frases do texto.
Sobre a feitura das obras, que vão desde pinturas sacras ao modernismo de artistas mineiros residentes em Brasília, a exposição «Uai», em cartaz desde o dia 14 de março, tem como fio condutor a paixão por Minas, independentemente da temática escolhida por o artista.
Para o curador Nando Cosac, goiano na certidão de nascimento e mineiro de coração, a primeira resposta à diretora cultural da Caixa, Sônia Schuitek, sobre o convite para a curadoria foi:
«Ô trem bão, uai».
O tempo foi curto, apenas 20 dias, para organizar a exposição, selecionar obras de artistas contemporâneos e outras do próprio acervo da Caixa que pudessem levar o público a compreender a arte mineira.
A proposta é oferecer um passeio por temas como:
Inconfidência Mineira, Casa Mineira, Arte Moderna, Arte Sacra e Popular, e os Modernos, parte que cabe aos artistas mineiros convidados para expor seus trabalhos mais recentes.
São telas, instalações, esculturas, gravuras, desenhos, peças de arte popular, objetos, painéis fotográficos, imagens sacras e vídeos que retratam a cultura do " Estado das Artes.
«Tentei fazer com que cada um (dos temas) falasse com o outro dentro da linguagem das artes plásticas», explica Cosac.
Alberto Guingard, Carlos Scliar, Yara Tupinambá, Aldemir Martins, Di Cavalcanti, Farnese de Andrade, Inimá de Paula, Said Santiago, Amilcar de Castro, Valeria Penna Costa, entre outros artistas, têm suas obras expostas em «Uai».
Um dos destaques da exposição é o vídeo «Ataíde, Sua Obra, Seu Tempo», de Maria Coelli Almeida, sobre o artista do século 18, que imprimiu sua marca na arte barroca de Minas e ficou conhecido como o pintor das obras de Aleijadinho.
Além da arte barroca, outra inspiração para os artistas convidados é a curva acentuada das montanhas que marcam a paisagem de Minas.
Darlan Rosa, artista mineiro de Coromandéu, explica que sua obra, uma esfera de alumínio, em que curvas e distorções se encontram iluminadas por uma luz azul, poderia representar as montanhas de Minas.
Outro artista mineiro que adotou Brasília como segundo lar, Omar Franco, também atribui a suas instalações uma forte referência à topografia do estado de Minas.
Suas peças compõem o acervo da Caixa e podem ser vistas flutuando no espelho d' água que circunda o edifício sede, além de outras que podem ser vistas no jardim do Espaço Cultural do mesmo.
Há 36 anos em Brasília, Omar Franco é um dos artistas que mais possui obras espalhadas por a cidade:
40 no total.
«Minas está presente na carteira de identidade, mas faço uma leitura com minha cidade que é Brasília.
A arquitetura de Brasília, oposta ao barroco, é limpa.
Por isso, presto uma homenagem à capital que é curva, plana e delicada ao mesmo tempo, sem esquecer da influência que tenho de Minas, especialmente Ouro Preto», assim descreve seu trabalho.
Em a galeria do Acervo ou no jardim de esculturas da Caixa, outro trabalho que chama atenção do público tem assinatura do artista plástico e estudioso da arte Musiva no país, Gougon.
O mosaico feito por o artista homenageia Israel Pinheiro, 1º presidente da Novacap, convidado por JK para construção da capital, é também um dos pioneiros da indústria siderúrgica do país.
Gougon explica que «não fosse a vontade de ferro deste homem, a construção de Brasília provavelmente seria adiada».
Com a inauguração da nova capital do país, em 21 de abril de 1960, Israel Pinheiro foi nomeado prefeito da cidade de Brasília, cargo que exerceu até 31 de janeiro de 1961.
Em 1965, foi eleito governador de Minas Gerais, encerrando seu mandato em 1971.
Considerado por o povo mineiro um grande feitor, a obra dedicada a esse engenheiro mineiro de Caeté vigia com olhos de pedra, em busto envolto por minérios de ferro em hematita boleada e especularita, a riqueza da arte mineira.
«Mineiro não dá ponto sem nó.
Não conversa, confabula.
Não combina, conspira.
Não se vinga ...
Ser mineiro é dizer Uai, é ser diferente, e ter marca registrada, é ter história " (Fernando Sabino).
A exposição fica em cartaz até 10 de junho, de terça a domingo, das 9 às 21 horas, no Espaço Cultural da Caixa (Setor Bancário Sul).
Entrada franca.
Número de frases: 37
Fundação Catarinense de Cultura (FCC) promove Oficina de Integrações Plásticas.
O projeto conta com a participação de 32 artistas plásticos e arte-educadores oriundos de 14 cidades do interior do estado.
O evento que acontece os dias 28 de julho a 01 de agosto, já foi realizado na ordem inversa, quando os professores iam até os artistas.
Com oficinas de pintura, desenho, gravura, serigrafia, papel artesanal e filosofia, o encontro oferece, além da troca de conhecimentos, a difusão de novas técnicas e metodologias de ensino que serão aplicadas ao longo do curso.
As aulas de filosofia encerram as atividades diárias e irão propor uma discussão sobre os trabalhos aplicados.
Segundo Mary Garcia, coordenadora geral do projeto, as oficinas ensinam através da prática de exercícios, a produção e a reflexão de obras plásticas com espírito cooperativo, integrando prática e teoria.
«A troca de conhecimento dá uma nova oportunidade e acesso a novas formas e processos artísticos», comenta.
Para o professor de pintura Jayro Schmidt, o foco central das suas aulas está em fazer com que cada artista possa se expressar e expor aquilo que melhor tem dentro de si.
«Deixo o processo criativo aparecer para depois trabalhar a técnica.
Procuro esvaziar as pessoas que normalmente estão muito condicionadas, depois aplico exercícios e soluções."
Artista Plástico e arte-educador, Celso Piarelli veio do município de Paulo Lopes para participar do evento.
Ele dá aulas de arte e matemática em escolas públicas da região e vê a importância do novo aprendizado.
«Se lançar no novo e ter a chance de trilhar caminhos diferentes é muito importante.
Poder levar isso adiante, justifica a proposta entre arte e educação."
Todos os ciclos serão intermediados por diálogos teóricos para maior esclarecimento e reflexão em cima de cada conceito abordado.
Com conversas mediadas por o professor de filosofia Jason de Lima e Silva, as discussões estão voltadas no pensar e na narrativa de uma imagem a partir de mitos, fatos históricos e acontecimentos diários através de casos fantásticos como as gravuras de Goya e Franklin Cascaes.
Mesmo num breve período o efeito desta metodologia é eficaz.
A rotatividade contínua obtida dentro do curso vai de encontro às trajetórias práticas e teóricas propostas.
Serão divididos em quatro grupos com oito pessoas e irão passar alternadamente por os tópicos ' linha ', ' cor ', ' volume ` e ' gravura '.
Os artistas vieram das cidades:
Rio do Sul, Itajaí, Ibirama, Balneário Camboriú, Joaçaba, Joinville, Blumenau, São José, Rio Negrinho, São Bento do Sul, Campo Alegre, Erechim, Pomerode e Capinzal.
A o final do projeto todos os trabalhos estarão expostos no espaço Oficina de Artes, no CIC.
O projeto é uma iniciativa da Fundação Catarinense de Cultura, realizado por a Diretoria de Difusão Artística, com as Oficinas de Arte no Centro Integrado de Cultura -- CIC.
Número de frases: 23
O projeto foi aprovado por a Lei de Incentivo a Cultura -- FUNCULTURAL e Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e " Esporte
«Em certos momentos da nossa vida, nada parece estar acontecendo, nada de bom, nada de mau, simplesmente nada.
A gente se agita freneticamente, confundindo movimento com ação e quanto mais nos agitamos, menos acontece "
Foi com esta sensação que David Miller resolveu abandonar sua terra natal, a Irlanda do Sul, e cruzar o Atlântico de navio, rumo ao Canadá.
Era jovem, recém-casado, e a vida era pouco promissora para um aventureiro nato, com formação em Contabilidade e Auditoria.
Verdade que a carreira foi escolhida por sugestão de seu pai e rapidamente percebida como um equivoco.
Sem dinheiro e sem esperança, encarou a amarga experiência de emigrar, deixando para trás seu lar e sua familia.
Dez anos se passaram e a inquietação ainda o rondava.
Seu casamento acabou e, com sua nova companheira, uma argentina, resolveu tentar a vida no Brasil.
Os costumes estranhos, o povo muito extrovertido e um pouco indolente, cidades sem planejamento urbano, a violência, nada disso o intimidou.
Foi arrebatado por a luz, por o calor, por a beleza das mulheres e principalmente, por a exuberância da natureza.
A cidade que escolheu para viver foi o Rio de Janeiro.
Apaixonou-se por a cidade e, indignado com o descaso das autoridades com a preservação da Mata Atlântica, iniciou um projeto de vida voltado para a conservação da natureza.
Foi num dia escaldante de verão que David conheceu a Região Serrana do Rio.
As encostas montanhosas, a temperatura amena e a Mata Atlântica nativa, foram o suficiente para convencer que sua missão era salvar aquele pedaço de paraíso.
Comprou mil hectares de terra no meio da floresta, na Serra dos Órgãos e hoje mora dentro do recém-tombado Parque Estadual dos Três Picos, em Macaé de Cima, município de Nova Friburgo.
Uma reserva ambiental onde as portas estão abertas para cientistas, pesquisadores, amantes de orquídeas e da biodiversidade da floresta tropical.
Izabel, sua atual mulher, uma brasileira de Alagoas, uniu-se a ele no projeto de fotografar e catalogar as mais de mil espécies de orquídeas da região.
Um trabalho primoroso, de quase duas décadas.
Hoje, Bel e David recebem turistas de todo mundo, interessados na trilha das orquídeas.
Uma aventura no meio de picadas abertas na mata, onde encontramos essas flores delicadas e raras, vivendo em seu habitat natural.
Dependendo da espécie, florescem apenas uma vez na vida.
Existem orquídeas que, de tão pequenas, só podem ser vistas com lupa.
Sem televisão, sem Internet, cercado de livros, flores e beija-flores, seu patrimônio, agora, pertence a Humanidade.
Publicou um livro sobre as Orquídeas, reconhecido no meio cientifico, e outro, sobre suas aventuras de «gringo» no Brasil.
Izabel, sua parceira e companheira de vida, orgulha-se de ter transformado o «intruso» em membro pleno da «tribus paradise».
Diante de seu sonho, entre uma caipirinha e outra, ele afirma, sem qualquer pretensão, que bastou ter fé para realizá-lo.
A natureza, exultante, agradece.
Número de frases: 28
Desamarrando os nós do Caxambu
Você já ouviu, pelo menos por alto, falar em Jongo, certo?
Pois este será o longo papo do enredo & 02 da série «Crioulo doido revisitado».
A nos motivar o fato de, a começar por o nome, Jongo ser um tema controverso, misterioso, sobre o qual pairam algumas sombras, um prato cheio, portanto, para os fazedores de mitos, diligentes construtores de engodos e mistificações.
Se você não sabe tudo sobre o assunto vamos ver se eu acerto, pelo menos, o que você, já sabe.
Depois a gente vai em frente.
Conceito e Charada
Abrindo a roda do Jongo
Jongo é uma dança de negros, correto?
Certo, mas convenhamos, saber disso não é lá saber muita coisa.
Afinal, contam-se às dezenas, talvez centenas, os tipos de dança de ' negros ' neste país.
Jongos, Catupés, Ticumbis, Congadas, Samba de roda, Samba disso, Samba daquilo, Afoxé, Baião, Maculelê, Lundu, Capoeira, mais todos os eteceteras possíveis e imagináveis, para ficar só naquelas danças mais antigas, manjadas.
Isto sem falar que este papo de dança de negros não é lá muito politicamente correto.
Danças Afro-brasileiras cairiam bem?
Danças ' afro-descendentes '?
Talvez fosse até melhor.
Não sabe?
Muito menos eu.
(Enigmas são sempre tabus cabeludos.
Difícil ser politicamente correto nestas horas).
Ademais, Jongo não é só uma dança.
É muito mais ...
O que? ...
Ah, claro, você se lembrou agora que sabe um pouco mais sobre Jongo.
Oh, que legal!
Quer dizer que, aqui mesmo neste site, você aprendeu que o Jongo não só é uma dança de negros como é praticada no sudeste do Brasil, e cuja principal característica é ser uma dança de umbigada, ou seja, as pessoas, enquanto dançam, chamam umas às outras, para a contradança, com um toque de corpo, geralmente encostando uma a barriga na outra?
Boa esta descrição, mas, ela satisfaz ao que você sabe sobre o assunto?
Não? Sabe mais um pouquinho ainda? ...
Ah, sim!
Você até já assistiu a uma apresentação deste tal de Jongo, num palco.
Caraca!
Jongo num palco?!
É mesmo?
Esta eu preciso ver.
Descreva você mesmo então.
Como? Se quero que conte ... '
antropologicamente '? Não ...
pode ser do seu jeito mesmo:
Um grupo racialmente misto, de jovens;
as mulheres, invariavelmente, com saiões estampados e homens também jovens, com calças brancas, ' por as canelas ' (' calças de escravos ` como se diz), saracoteando e dando estas umbigadas, ao som de cantigas muito curtas e características, acompanhadas por dois ou três tambores, semelhantes aos de ' macumba '.
Como um admirador do gênero, você reparou que havia uma estranha diferença, além dos tambores, no ritmo, no modo de dançar e nas roupas dos grupos mais humildes (aqueles mais da roça, que tinham maior número de pessoas velhas e muita gente pobre e preta) e os demais grupos (aqueles nos quais rodopiavam faceiras, as tais meninas de saião e os rapazes de calças ' pescando siri ').
Com este reparo aliás (longe está você de criticar qualquer coisa), a sua impressão sobre este aspecto do evento, foi até bastante positiva.
Aposto, contudo, que você ficou intrigado com o fato das jovens moçoilas usarem sempre -- que diabo!--
aquele mesmo saião estampado, exatamente o mesmo que usam outras jovens moçoilas nos novos grupos de Maracatu, Caixeras do Divino, Boi Bumbá e tantas outras danças tradicionais ' urbanizadas ' que pululam hoje em dia nas grandes cidades do Brasil.
Não ficou intrigado?
Mas notou, com certeza, que no grupo dos ' véios ` não tinha nada disto não.
Deve até ter se perguntado, ingenuamente, porque não se usa no Jongo (como acontece com os indefectíveis saiões) aquelas impressionantes alfaias ' tradicionais ` usadas em todos os outros gêneros deste ' neo-folklore '.
Quer saber o que quer dizer ' Alfaia '?
Tá, eu explico:
Se for para ser tradicional mesmo, alfaia não teria mesmo nada a ver com Jongo.
Alfaia é de Maracatu, menino.
É tambor nordestino, ibérico, árabe, e só nestas ' praias ` lá ' de riba ` poderia ser considerado ' tradicional '.
-- Tradicional!
Tradicional! Puff!
Não gosta deste papo de tradicional?
Pois quer saber?
Honestamente? Nem eu.
É por isto que eu fico batendo nesta tecla.
Jongo fashion night
Brincando com o fogo
Uma coisa no entanto, é certa (se é que você ainda está ligado no assunto).
Já observou que o MinC atual tem dado muita atenção a esta manifestação (o Jongo) e existe até um movimento junto ao IPHAN no sentido de transformar a dança em patrimônio imaterial da humanidade.
Até mesmo eu já comentei sobre este assunto aqui neste sítio.
Está claro e sabido para você que, sendo uma dança hoje assim, tão reconhecidamente ligada às nossas raízes africanas (e, providencialmente, agora tão prestigiada por nossos órgãos de defesa e fomento da cultura nacional), o Jongo tende a ser objeto de muitos projetos de preservação e divulgação, tendência esta que, também se pode deduzir facilmente, pode ser o que estimula a existência hoje de tantos grupos de Jongo, organizados até, num enorme coletivo de ' Jongueiros ' que se reúne todos os anos, num concorrido encontro financiado por a Petrobrás.
Bem, como não poderia deixar de ser, você chegou a notar também que já há uma curiosa ' mistura social ` vislumbrada na, digamos assim, composição social destes grupos ' neo-tradicionais ', certo?
As tais moças e os tais moços muito jovens, aparentemente são de extrato social bem diverso daquele de o qual são oriundas as ' véias ` e os ' véios ` jongueiros da roça, negros em sua esmagadora maioria, tipos bem característicos dos grupos de Jongo antigos, jongueiros ' autênticos ', como dizíamos antes deste boom do Jongo ' contemporâneo ' dar as suas caras.
Seria resultado dos bons ventos da democratização do país?
Se você se enquadra no perfil do meu imaginário interlocutor, prepare-se para se surpreender com o que saberá a seguir.
Se souber um pouco mais que eu, não se avexe não, contribua com a evolução da brasilidade latente de nossa galera e não nos esconda nada.
Por enquanto, sobre Jongo (como diria o Caetano Veloso, enquanto era vaiado naquele festival dos anos 60) vamos fingir que ...:
Vocês não sabem de nada!
O Jongo e o mito na Wikipédia
Em a Wikipédia?
Oh God!
Mon Dieu!
Conheço, não exatamente por acaso, o autor do verbete da Wikipédia para ' Jongo ' (que poucas alterações recebeu até hoje, quando lá fui para reler e conferir).
Como ainda não é crime revelar o autor de uma colaboração voluntária numa enciclopédia da internet (além de ser tachado de cabotino, é claro) confesso:
Fui mesmo o autor da maior parte do verbete, ora vigente na Wikipédia sobre «Jongo».
Porque confesso?
É que acabo de descobrir, algo indignado, que o tema de nossa conversa desta série de posts -- Mitos e mistificações no estudo da Cultura negra do Brasil -- está sendo perpetrado, imaginem só, agora mesmo lá, naquela internacional, glamourizada e globalizada ' enciclopédia ' on line, bem nas nossas barbas.
(Havia um outro verbete sobre Jongo lá, antes do meu, mas achei ele tão equivocado e desprovido de consistência e, aparentemente, tão atrelado aos interesses de um certo grupo de neo-jongueiros, que, me animei em ir lá escrever o que escrevi.)
Dureza. Missão quase impossível.
Saibam que a maioria dos administradores ' especialistas ' da Wikipédia lusófona (gente boa, que aceita debater francamente), aparentemente, se encaixa no seguinte perfil:
Jovens de Lisboa (desconfio que acadêmicos, recém graduados em Coimbra ou no Porto) com pouco ou nenhum conhecimento sobre cultura brasileira (o que é natural), porém, em relação a nós, brasileiros, cada um se achando mais saramago que o outro.
O problema poderia ser facilmente solucionado, pelo menos em parte, com o apoio dos poucos coordenadores ' especialistas ' brasileiros que por lá existem (eu sei, não seria lá estas coisas, mas, vá lá que seja), havia, no caso do verbete do Jongo, contudo, um problema bem mais especializado e complicado:
Além de se tratar de cultura negra (um problema para intelectuais tupiniquins em geral, como se está concluindo aqui) tratava-se de -- oh deus!--
cultura angolana no Brasil.
Ora, Angola, além do trauma da escravidão, é um problema quase psicopatológico para lusitanos mais nacionalistas.
Para eles Angola é uma terra de perdas de dimensões marítimas, camonianas, diante da qual, por razões compreensíveis até, os portugueses têm ressentimentos profundos, por conta de graves seqüelas sentimentais deixadas por a derrota do exército dos ' Putos ', dos ' Tugas ' naquela sangrenta guerra colonial terminada na recente década de 1970.
Como já dizia o bardo de eles: '
Navegar -- e esquecer -- é, cada vez mais, preciso '.
Acossado portanto por este tipo de ' especialista ` ressentido, arrogante e presunçoso, tive que duelar semanas à fio (em embates intelectuais homéricos, às vezes) para conseguir implantar, ás custas de muita verve, argumentos ' irrefutáveis ' e caudalosas referências bibliográficas, os meus modestos verbetes de negão (um dos quais -- este sobre o Jongo -- é o objeto deste nosso post)
Em estes casos, sobra, naturalmente, a alternativa de voltar a encarar as turras homéricas com os ' especialistas ' luso-brasileiro e corrigir o verbete, mas, isto, convenhamos, é coisa de quem não o tem mais que fazer.
Parei com eles por causa disso.
Vamos fazer então aqui e agora a autópsia do verbete enxovalhado.
Teórico de conspirações que, assumidamente, sou, me arrisco a supor que o conteúdo do verbete foi adulterado para atender a interesses ligados a desqualificação do fator tradicionalidade da manifestação (do Jongo, no caso) aqueles elementos e evidências que, se constassem do laudo do IPHAN, desautorizariam certos grupos ' neo-tradicionais ' de se auto-intitularem representantes legítimos do Jongo ...
tradicional.
(Tradição sendo, neste caso, igual a requisito para o tombamento de um bem cultural da humanidade classificado como imaterial.
Bem tombado sendo igual à habilitação para reivindicar recursos de patrocínio público e privado.
Sacaram a malandragem?)
Vejam vocês -- e deduzam por si mesmos -- as entranhas de uma mistificação sendo urdida agora mesmo.
E que Nzambi, Alá, Jeovah e os outros deuses todos me lancem no limbo mais escuro se eu não tiver razão.
(Os conceitos contidos no verbete, servirão para embasar o nosso debate, exceto as tais intervenções marotas que algum misterioso colaborador inseriu ali, com as intenções que apenas insinuo aqui, as quais, obviamente, estarão abaixo, devidamente, assinaladas em negrito):
Jongo (in Wikipédia)
O contexto (
atenção para as armadilhas conceituais em negrito que, por pura ' maldade ', inseri no texto do verbete originalmente publicado)
«Jongo é uma manifestação cultural essencialmente rural diretamente associada à cultura africana no Brasil e que influiu poderosamente na formação do Samba carioca, em especial, e da cultura popular brasileira como um todo.
Inserindo-se no âmbito das chamadas ' danças de umbigada ` (sendo portanto aparentada com o'Semba ` ou ' Masemba'de Angola), o Jongo foi trazido para o Brasil por negros bantu, seqüestrados nos antigos reinos de Angola e do Congo, na região compreendida hoje por boa parte do território da República de Angola.
..." Dançado e cantado outrora com o acompanhamento de urucungo (arco musical bantu, que originou o atual berimbau), viola e pandeiro, além de três tambores consagrados, utilizados até os nossos dias, chamados de Tambu ou ' Caxambu ', o maior -- que dá nome a manifestação em algumas regiões -- ' Candongueiro ', o menor e o tambor de fricção ' Ngoma-puíta ' (uma espécie de cuíca muito grande), o Jongo é ainda hoje bastante praticado em diversas cidades de sua região original:
o Vale do Paraíba na Região Sudeste do Brasil, ao sul do estado do Rio de Janeiro e ao norte do estado de São Paulo» ...
Jongo (in Wikipédia)
O Conceito ...
«Composto por música e dança características, animadas por poetas (inserção de algum colaborador misterioso e mais ` lúdico ' (menos lúcido, talvez) do que eu que, no original, havia grafado ' cantadores ') que se desafiam por meio da improvisação, ali, no momento, com cantigas ou pontos enigmáticos (' amarrados '), o Jongo tem, provavelmente, como uma de suas origens mais remotas (pelo menos no que diz respeito á estrutura dos pontos cantados) o tradicional jogo de adivinhas angolano, denominado Jinongonongo ...
«Este fator relaciona-se a normas éticas e sociais bastante comuns em diversas outras sociedades tradicionais -- como as indígenas americanas -- baseadas no respeito e obediência a um conselho de indivíduos ' mais velhos ` e no ' culto aos ancestrais».
Pesquisas históricas indicam que o Jongo possui, na sua origem, relações com o hábito recorrente das culturas africanas de expressão bantu, durante o período colonial, de criar diversas comunidades, semelhantes a sociedades secretas e seitas político-religiosas especializadas, de entre as quais podemos citar até mesmo irmandades católicas, como a Congada.
Estas fraternidades tiveram importante papel na resistência à escravidão, como modo de comunicação e organização, e até mesmo comprando e alforriando escravos» ...
(Esta tese do Jinongonongo, que eu tirei de Ladislau Batalha, aguarda debatedores para ser ou não legitimada.
Veja mais abaixo parte da minha argumentação:)
Jongo (in Wikipédia)
O Conceito fraudado
Aqui, no seguimento do verbete logo abaixo -- muita atenção leitores!--
no longo trecho em negrito, há uma curiosa inserção, proposta -- e aceita por a Wikipédia -- por algum misterioso colaborador que, ao que parece distorce, intencionalmente, um conceito fundamental da manifestação (Jongo) que é o caráter seletivo dos participantes logo abaixo, por a minha proposta, explicitado.
Se liguem nos detalhes (as inserções espúrias), em negrito portanto:
«Uma característica essencial da linguagem do Jongo é a utilização de símbolos que, além de manter o sentido cifrado, possuem função supostamente (sic) mágica, provocando, supostamente (sic), fenômenos paranormais.
De entre os mais evidentes pode-se citar o fogo (?),
com o qual são afinados os instrumentos;
os tambores, que são consagrados e considerados como ancestrais da comunidade (?);
a dança em círculos com um casal ao centro, que remete à fertilidade (?);
sem esquecer, é claro, as ricas metáforas utilizadas por os jongueiros para compor seus «pontos» e cujo sentido é inacessível para os não-iniciados.. (!)».
..." Hoje em dia podem participar do Jongo homens e mulheres mas esta participação, em sua forma original era rigorosamente restrita aos iniciados ou mais experientes da comunidade ..." (
Um primor de incongruência esta oposição criada por os adulteradores do verbete entre ' homens e mulheres ` e ' iniciados / ' mais experientes ', querendo significar é claro, embora canhestramente, que hoje já não seria mais necessário ser ' iniciado ` ou ' mais experiente ' para participar do Jongo, abolindo um aspecto crucial à tradicionalidade da manifestação:
a condição de participante dos grupos efetivamente tradicionais.
Vejam no original:
..." De a manifestação do Jongo podem participar homens e mulheres, mas esta participação, em sua forma original, sempre esteve, rigorosamente, restrita aos iniciados ou mais experientes da comunidade ..."
A o que tudo indica, desprovidas de fundamento que são, as distorções, claramente, visam autorizar a inclusão de certos grupos ' neo-tradicionais ` dentro do conceito de ' tradicionalidade ' que antes, no verbete original era afirmado como sendo restrito e determinado, ou seja:
De o Jongo tradicional, não deveriam participar indivíduos não iniciados.
Jongo seria uma manifestação de ' mais-velhos ' (um conceito ainda usado em Angola e no Brasil).
Estariam aptos a ser objeto de tombamento, apenas grupos, efetivamente, tradicionais (segundo os critérios de tradicionalidade -- Conceito e Contexto -- determinados) que, são, exatamente, aqueles grupos descritos como sendo ' da roça ', integrados por os ' véios ' e véias ' (as que não usam aqueles saiões estampados).
São inseridos também no verbete, aleatoriamente, uma lista de símbolos substitutos daqueles, originalmente, descritos no verbete original, símbolos estes, que possuem relação com antecedentes angolanos, entre os quais os mais conhecidos são a bananeira e a fogueira (e não exatamente o fogo) além de outras práticas ancestrais, que remontam ao passado africano da manifestação, plenamente identificáveis por observadores mais especializados no assunto aqui e na África)
Jongo (ainda in Wikipédia)
O Jongo se urbaniza (e agoniza) numa boa
A seguir, o verbete original (em sua parte preservada), relata o surgimento de recriações de Jongo, posteriormente, realizadas, por descendentes de escravos do Vale do Paraíba do Sul, que migraram para o Rio de Janeiro após a abolição, frisando de modo enfático, o surgimento desta linha que seria o final de um caminho evolutivo que, do modo como foi descrita a manifestação no contexto de suas finalidades históricas e sociais mais importantes, representaria o ponto de extinção (naquele novo contexto) daquela vertente.
..." A cidade do Rio de Janeiro, na região compreendida por os bairros de Madureira e Oswaldo Cruz, já nos anos imediatamente posteriores à abolição da escravatura, centralizou durante muito tempo a prática desta manifestação na zona rural da antiga Corte Imperial, atraindo um grande número de migrantes ex-escravos, oriundos das fazendas de café.
Entre os precursores da implantação do Jongo nesta área se destacaram a ex-escrava Maria Teresa dos Santos muitos de seus parentes ou aparentados além de diversos vizinhos da comunidade, entre os quais Mano Elói (Eloy Anthero Dias), Sebastião Mulequinho e Tia Eulália, todos eles intimamente ligados a fundação da «Escola de Samba Império Serrano» ...
..." A partir de meados da década 70, no mesmo Morro da Serrinha, o músico percussionista Darcy Monteiro'do Império ' (mais tarde conhecido como Mestre Darcy), a partir dos conhecimentos assimilados com sua mãe, a rezadeira Maria Joana Monteiro (discípula de Vó Teresa), passou a se dedicar á difusão e a recriação da dança em palcos, centros culturais e universidades estimulando por meio de oficinas e workshops, a formação de grupos de admiradores do Jongo que, embora praticando apenas aqueles aspectos mais superficiais da dança, deslocando-a de seu âmbito social e seu contexto tradicional original, dão hoje a ela alguma projeção nacional» ...
Pois é, exatamente, desta ' vertente final ', surgida da mística criada em torno do nome do Morro da Serrinha, que surgem as distorções enumeradas acima.
E o que são estas novas manifestações jongueiras?
Jongo requentado, para ' inglês ' ver ou Jongo evoluído, modernizado, adaptado ao século 21?
E o tal do Jongo das ' véias ` e ' véios ', vivíssimo ainda na Roça, aquele Jongo efetivamente tradicional, que não se adaptando aos ' novos ' tempos, será atropelado por os ambígüos laudos do IPHAN, o que será de ele?
Agüentará o tranco?
Jongo à vera
Fechando a roda por hora
Além do que já se disse, o que viria a ser o Jongo afinal?
A palavra ' Nongo ' em Kimbundo significa, exatamente, enigma, adivinhação, (Ji-nongonongo = jogo de adivinhas, de charadas) segundo o etnolingüista suíço Hèli Chatelain que escreveu em Angola, ali por volta de 1887, sobre a língua e os costumes angolanos, compatíveis com a época da vinda de escravos desta região para as fazendas de café do vale do Paraíba do Sul (citadas no verbete).
«Nongo (no plural = ji-nongo), nongo-nongo (plural = ji-nongonongo).
Jogo de adivinhas, de caráter talvez sócio-educativo, praticado por os ' mais velhos ' (sociedades secretas) de uma comunidade, com finalidades outras, de caráter ainda indefinido, porém, talvez insinuado nos elementos sobreviventes no Jongo do interior (Jongo tradicional).
Ji-Nongo = J ' nongo = J ' ongo, como dedução lógica.
Logo, sendo Jongo uma manifestação muito antiga, de caráter transnacional, bem mais complexa do que imaginávamos, podemos concluir também que a dança devia ter importância apenas acessória nos eventos (talvez até, meramente eventual) no âmbito de um atividade social, francamente, africana, muito ocorrente no Vale do Rio Paraíba do Sul, de meados do século 19 até hoje.
Muita coisa ainda para se descobrir e estudar sobre o assunto, portanto.
(Esta dança -- chamada de Jongo, por extensão ao nome da manifestação, caracterizadamente uma dança de umbigada -- um tipo de «ma-Semba» -- é um caso a parte que pretendemos abordar no post seguinte.)
Dizem que o Jongo, tendo uma suposta ligação com o Semba angolano, teria sido uma espécie de ancestral direto de nossa dança preferência nacional:
o Samba velho de guerra.
Ancestral direto?
Seria este um conceito válido em Cultura, esta coisa tão dinâmica?
Semba e Samba.
Algo a ver?
Sei não.
Fique amarrado nesta história.
Número de frases: 168
Spirito Santo
Foi por iniciativa de Hilda Hilst (1930 2004) que Zeca Baleiro se tornou parceiro da poeta paulista.
A o receber uma cópia do primeiro disco do compositor maranhense, Por Onde Andará Stephen Fry? (
1997), enviada por o próprio artista, Hilst ligou, propôs a parceria e mandou um disquete com sua obra poética.
Foi no disquete que Baleiro descobriu o livro Júbilo Memória Noviciado da Paixão -- escrito por a Hilda quando estava apaixonada platonicamente por o Júlio de Mesquita Neto (vide as iniciais) -- e decidiu musicar os versos do capítulo que dá título ao disco.
Depois de dois anos de trabalho, a gravadora de Zeca Baleiro, Saravá Disco, lançou o CD Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé -- De Ariana para Dionísio -- com poemas de Hilda Hilst musicados por o artista maranhense.
O disco, segundo Zeca Baleiro, começou a ser gravado em abril de 2003 e teve aval da escritora e a colaboração do violonista Swami Jr. nos arranjos de base.
Para musicar os dez poemas, Baleiro buscou uma sonoridade que se encaixasse nos poemas já em essência muito musicais de Hilst.
Instrumentos como harpa, oboé e fagote ajudaram a criar o clima.
Para dar mais charme ainda ao disco, Baleiro contou com a adesão de dez cantoras para interpretar as canções.
Por a ordem de entrada no CD, o time é formado por Rita Ribeiro, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Ângela Ro Ro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Olívia Byington, Mônica Salmaso e Ângela Maria.
As intérpretes estão à vontade no despudorado universo poético de Hilst.
O único deslize é de Ângela Maria, que, por conta de seu estilo naturalmente empostado, ficou meio deslocada.
Mas no todo, o trabalho tem bom acabamento melódico, garantido por o repertório de tom linear que assegura a uniformidade das canções ao mesmo tempo em que conta a história do amor impossível de Ariana e Dionísio.
Um dos melhores momentos do disco é a Canção V, interpretada por Angela Ro Ro.
Em a época do lançamento do disco, no ano passado, conversei com Zeca Baleiro sobre o trabalho.
Confira a entrevista abaixo.
Título:
Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé -- De Ariana para Dionísio
Artista: Vários
Gravadora: Saravá Discos
Preço médio:
30 reais
Entrevista com " Zeca Baleiro
Gosto do lugar onde estou " Como foi a sua aproximação com Hilda Hilst?
Quando lancei meu primeiro disco, enviei um exemplar a Hilda.
Semanas depois ela me ligou e me convidou a compor com ela, foi surpreendente.
Claro que topei.
Quando ela me ligou, ela leu um poema curto, de três versos, e pediu para a eu musicar já, ali mesmo.
Depois mandou um disquete com toda a sua produção poética e disse:
«faça o que você quiser».
Então eu tive o insight de fazer o disco.
Você é um compositor que transita com desenvoltura por diversos gêneros e estilos musicais.
Qual foi a maior dificuldade de musicar os poemas?
O trabalho foi difícil porque os poemas não tinham uma métrica de canção, versos ritmados.
São versos muito livres e muito densos, não poderia musicar como canções pop, iria ficar inadequado.
Tinha que achar um caminho que fosse coerente, por isso embarquei no clima medieval dos poemas, enaltecendo o lirismo dos poemas e a interpretação das cantoras.
Você disse que recebeu um disquete com toda a obra poética de Hilda.
Por que escolheu justamente Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé, do livro Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão?
Não sei se escolhi ou se fui escolhido.
Quando me dei conta, já estava musicando esses poemas.
É curioso, mas não foi uma escolha racional de fato.
Então ela chegou a conhecer essas canções?
Sim, ouviu, aprovou, corrigiu a métrica de uns dois versos lá.
Ela gostava de cantarolar a Canção X, dizia ser a sua preferida.
Tinha alguma canção sua que ela gostava especialmente?
Ela dizia adorar Bandeira e Heavy Metal do Senhor.
Quando ela ouviu as canções pensou em alguma cantora para interpretá-las?
Sugeriu algum nome?
Sugeriu Bethânia e Gal.
Bethânia gravou, mas a Gal estava em Nova York nessa altura, envolvida com outros projetos, e não pôde participar.
Parece que sua decisão de fazer Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé reforça a afirmação de que você é um poeta pós-moderno, multifacetado, difícil de ser rotulado ou definido por uma das infindáveis prateleiras nas lojas de CDs.
O que pensa de tudo isso?
Bom, estaria mentindo se dissesse que não fico envaidecido com isso, que considero o maior elogio que um artista possa receber -- «difícil de ser rotulado».
Já disse alguém que «se você não pode esclarecer, então confunda!».
O disco tem uma sonoridade medieval, com instrumentos como harpa, oboé e fagote ajudando a criar o clima que lembra o trabalho de grandes trovadores.
Qual sua aposta na obra, falando do ponto de vista comercial?
Não tenho expectativas comerciais com o disco, falando muito francamente.
Sei o lugar de cada coisa, e este trabalho não aspira a êxitos comerciais.
Mas, por a recepção da crítica, e do público especialmente, ele já é um sucesso.
Um dos grandes chamarizes do disco é o fato de você contar com a adesão de grandes nomes da música nacional.
Como foi o convite para essas estrelas gravarem os poemas de Hilda?
Fui chamando conforme a canção me sugeria determinado timbre ou jeito de cantar.
Acho que fui feliz nas escolhas.
E todas se mostraram bem contentes por participar do projeto.
Em esses anos todos de carreira, você sempre se envolveu em projetos paralelos, como a produção dos primeiros discos de Rita Ribeiro e Ceumar, além de ter lançado o primeiro CD do maranhense Antonio Vieira, aos 82 anos.
E acabou lançando o selo Saravá.
Como você analisa a música independente feita no Brasil?
Acho que tudo nos aponta o caminho da independência, é uma produção que só cresce e ganha adesões.
É o futuro.
Depois de cinco CDs, qual avaliação que você pode fazer sobre sua carreira?
Gosto do lugar onde estou.
Como você vê o nível dos artistas que estão surgindo?
Há alguém que você admire mais?
Admiro o trabalho de alguns novos artistas sim -- Wado, Kléber Albuquerque e Totonho e os Cabra, entre eles.
De que maneira a perplexidade das pessoas em relação ao futuro político do Brasil pode refletir na produção cultural do País e, principalmente, na sua?
Tudo que acontece ao redor reflete na produção artística contemporânea, a não ser que o sujeito passe uma temporada em Marte.
Não sei como essa perplexidade se manifestará, talvez surjam algumas canções perplexas por aí.
Ser popular sem soar popularesco parece mover muito da sua composição.
Mas, ao mesmo tempo, suas canções não são muito populares no mainstream.
Isso o preocupa de alguma maneira?
Nem um pouco.
Não faço músicas nem para o mainstream nem para o underground, faço para o mundo, para quem queira ouvir.
Para alguns sou cult, para outros sou pop.
Estou no meio de um caminho que me é muito confortável.
Quero ser tudo e nada.
Apenas isso.
Número de frases: 87
«( ...) Com os docemente dos nanquins mais melancólicos
Brasil Como será o Brasil?
Mário De Andrade."
A minha primeira vez com Mário de Andrade tinha um Manuel no meio.
Um Manuel que seria de uma vida inteira.
E Mário me veio como um sentimento poético, uma fineza de sensações, um quase de palavras dizendo muito além daquilo que eu poderia compreender naquele momento.
Mário me tocou nas palavras de Manuel.
E seguiu com mim, silenciosamente, profunda e amorosamente esquecido.
E naquele tempo ainda não havia para mim Macunaíma, Carlos, Fräulein, o narrador freudiano, Malazarte, a escrava poesia despida por Rimbaud, Anita, as paranóias e (des) mistificações de Lobato que achou feio o que não era espelho, Portinari, Tarsila, Oswald, música do Brasil de dentro, mitos do Brasil das matas, nem a minha paixão por palavras.
A minha segunda e definitiva vez com Mário de Andrade também tinha o mesmo Manuel no meio, abrindo o caminho das pedras.
E que pedras encontrei nessa trilha nada batida!
Voyeuse, segui a voz.
Melhor dizendo, as vozes de Mário e Manu, o lanterninha tinhoso no escurinho do Coração Perdido de Mário de Andrade.
Mas o que conta agora, nesta história, é o Manuel da minha primeira vez com Mário, todo poesia.
Não o Manuel todo prosa das cartas pensamenteadas de Mário de Andrade, uma outra história, que já contei um pouco aqui.
Profundamente, Mário de Andrade, o gigante serelepe da cultura nacional, o que se desdobrava em trezentos, trezentos e cinqüenta, em mil, morou com mim no encantamento primeiro das palavras pintadas, palavras de quase música de Manuel Bandeira.
De as variações do nome que é uma tradução gigante de Brasil à ausência (res) sentida do amigo essencial, Mário de Andrade na eternidade da poesia de Manuel Bandeira.
E de tão lindo, profundo, dá vontade de chorar.
Aliás, já lembrando uma das lições de Mário: "
Versos não se escrevem para leitura de olhos mudos.
Versos cantam-se, urram-se, choram-se».
E correndo por dentro dos versos de Bandeira a gente sente uma saudade quase íntima de Mário de Andrade.
Uma saudade quase.
Esta foi a sensação provocada em mim por o poema Variações sobre o nome de Mário de Andrade, de Manuel Bandeira (Mafuá do Malungo, em Estrela da Vida Inteira), que reli recentemente.
E em especial por a imagem dos docemente dos nanquins mais melancólicos, o que valeu uma das minhas costumeiras anotações a lápis na borda do livro registrando a emoção da leitura.
E essa imagem grudou em mim.
Ou melhor, já estava grudada, em camadas profundas, como um pentimento.
Outro poema do Bandeira que se incorporou definitivamente à minha alma é A Mário de Andrade Ausente (Belo Belo, em Estrela da " Vida Inteira):
«Anunciaram que você morreu / Meus olhos, meus ouvidos testemunham:
/ A alma profunda, não / Por isso não sinto agora a sua falta».
De este poema, desde a primeira vez que o li, há muitos anos, fiquei com uma frase rondando a minha cabeça como um mantra:
pensando em Mário de Andrade, profundamente.
As sensações deste poema me seqüestraram (eis aí uma expressão típica de Mário de Andrade, o ser seqüestrado por um sentimento, uma beleza, uma sensação, uma obra de arte ...).
E nos dois tempos desta leitura, o de muito antes e o de agora, Mário de Andrade me seqüestra alma, coração e razão.
E ando por aí, nas linhas tortas dos aflitos becos que se perdem dentro de mim;
dos becos sem saída que me ensinam a voar, a criar e recriar espaços mágicos para a existência;
pronta para os esbarrões, numa esquina qualquer do Brasil que é Mário, possibilidades de mundos.
Enfim, com esse esbarrão-clarão no chão duro do Brasil sigo pensando em Mário de Andrade, profundamente.
E mais profundamente ainda tocando e sendo tocada por suas palavras, por essa fome animicamente macunaímica que me deixa pra lá de inquieta, eloqüente e atrevida.
Profundamente, voltemos aos poemas do Manu.
Penso que nada mais apropriado para começar uma conversa sobre Mário de Andrade do que percorrer a trilha calorosa da amizade que o uniu a Manuel Bandeira.
Assim como Bandeira, eu me flagro pensando em Mário de Andrade, Profundamente, e em toda a inquietação que ele me faz mergulhar justamente nesse momento quando tudo parece à flor da pele, buscando materialidade e expressão, de um jeito meio dantesco ...
No meio do caminho desta vida descubro Mário de Andrade e corro atrás de sua pedra fundamental.
Talvez esse Profundamente Mário de Andrade em Manuel Bandeira tenha me levado a comprar, há muito tempo, dois livros que devorei (e tenho devorado tantos outros!)
após anos de esquecimento na estante:
Cartas a Manuel Bandeira, com prefácio e notas de Bandeira (Ediouro), e Portinari, Amico Mio, organização, introdução e notas de Annateresa Fabris (Editora Autores Associados).
Estes livros nunca mais voltarão para o fundo confuso da minha estante.
E para resolvermos de vez a questão do profundamente que me seqüestrou no poema do Bandeira, justamente no ponto em que ele fala da falta de Mário que não sentia no momento: " ( ...)
Sei bem que ela virá / Por a força persuasiva do tempo / Virá súbito um dia, / Inadvertida para os demais.
Por exemplo assim:
/ à mesa conversarão de uma coisa e outra.
/ Uma palavra lançada à toa / Baterá na franja dos lutos de sangue, / alguém perguntará em que estou pensando, / Sorrirei sem dizer que em você / Profundamente ( ...)».
Talvez, ainda na trilha de Bandeira, eu esteja tateando: " ( ...)
nas sombras mais fundas ficaram os docemente dos nanquins mais melancólicos ( ...)».
Os traços, a tinta, o que vai amarelando por dentro, os docemente melancólicos da gente virando memória lírica, afetiva, enfim, os nossos lutos de sangue, saudade.
Talvez no tempo daquela leitura eu já intuísse esse profundamente sem solução de pensar as pessoas que nos tocam e vão passando, da mesma maneira como passaremos um dia por outras.
Mas essa não é uma saudade qualquer.
É a falta que nos move no xadrez da vida e que vamos eternizando com tinta, barro, pedra, madeira, palavras, sons, imagens, os elementos que instigam à materialidade e expressão dessas funduras e desses profundamente numa tentativa de ordenamento estético, arte -- a suprema delícia do sofrimento da beleza.
E Manuel Bandeira via em Mário de Andrade uma tradução de Brasil.
Um Brasil ávido de expressão de sua brasilidade, das suas profundezas.
Em Mário de Andrade o caldo de todas as inquietações estéticas na busca de um espelho nas artes que refletisse a diversidade, profundidade e originalidade do Brasil, que desaguou como um rio impetuoso na Semana de Arte Moderna, dando início ao Movimento Modernista, do qual Mário é mais do que um ícone.
Ele era a luz e o escuro;
o que mergulhou fundo no poço de suas buscas e experiências estéticas, o que ouviu profundamente o Brasil e sua língua, e trouxe essa audição para o cerne de sua obra (até certo ponto subvertendo-a e eivando-a com os excessos de suas crenças) como uma ponte para o futuro -- se alguém meter o dedo nesse caldeirão saberá que Mário de Andrade esteve fundo ali, antes de qualquer outro falar de reforma da Língua Portuguesa e de seu abrasileiramento;
Mário, o que incomodou a todos, principalmente os amigos, o que não se conformou com a própria obra.
Escreveu Macunaíma em seis dias, mas a gestação do herói sem nenhum caráter foi um processo custoso, fruto de anos de pesquisa, cabeçadas na parede da incompreensão e uma teimosia que explica e confirma a verdade singular do escritor (o criador) -- e não apenas do incentivador cultural --, o que abriu a machado a própria trilha e em ela sulcou os seus passos como o visionário da terra nova e fértil, onde jorrava o leite e o mel do nosso espelho mais genuíno, aquele que aspira ao universal.
E a trilha de Mário de Andrade é libertadora.
Ele se mostra por inteiro, não apenas na obra pronta e acabada, madura (Paulicéia Desvairada, Macunaíma, Remate de Males ...),
mas também na generosidade de nos legar o caminho do aprendiz Mário de Andrade, ao não condenar por completo a produção de gaveta que não resistiria a muitas leituras.
E com o aval da sua própria crítica (que é bem ácida) brinda a posteridade com os frutos de sua inquietação de juventude.
E esta inquietação transformada em ponte, em comunicação além do seu tempo, é o que me coloca aqui, lápis afiado, a devorar a sua Obra Imatura:
Há uma gôta de sangue em cada poema (poesia), Primeiro Andar (contos selecionados), A Escrava que não é Isaura (poética / ensaio).
Esta Obra Imatura é o rótulo crítico de Mário de Andrade.
É o começo da trilha.
Já passei por Há uma gota de sangue em cada poema, obra considerada inexpressiva, mas já com o prenúncio da desconcertante estética marioandradiana, um grito poético pacifista do escritor horrorizado com a I Guerra Mundial.
O meu lápis maluquinho sublinhou construções interessantes: " ( ...)
Onde as aldeias de sonoras ruas?
/ Onde os caminhos com arvoredos e framboe z as?
Tudo mudou! ( ...)».
E do mesmo poema (Exaltação da paz: " ( ...)
honrar, com outros novos, / os monumentos velhos e grisalhos ... ( ...)».
E ainda: " ( ...)
por lhe à janela as flores caprichosas ( ...)».
E já que Manuel Bandeira foi o grande anfitrião desse meu encontro com Mário de Andrade, abrindo portas invisíveis e encantadas, quero o prosaico, a gostosura do pensamento marioandradiano.
Em a trilha da correspondência entre Mário de Andrade e Manuel Bandeira, que começou em 1922 e se manteve ininterruptamente até a morte do autor de Macunaíma em 1945, sigo o itinerário da minha emoção e do meu lápis, o que me «seqüestrou» e encantou em Mário, o escritor serelepe (" escritor mais serelepe que eu nunca vi "), o esgrimista intelectual, o ouvinte paciente, o crítico ácido e apaixonado (devotou em grau máximo essa paixão, sem poupá-los da crítica, a Manuel Bandeira e Candido Portinari -- e neste reconhecia a expressão criadora que materializava o seu pensamento e crença do que seria uma arte universalmente brasileira).
As cartas a Manuel Bandeira são um documentário precioso das inquietações que fundamentaram a obra e a vida de Mário de Andrade, revelando nuanças do movimento modernista por o filtro de um dos seus maiores esteios.
Em a correspondência ele também vai traduzindo e recriando um pouco desse Brasil profundo, emergindo na arte.
E a sensibilidade de Manuel foi extrema ao optar por deixar as cartas nuas e cruas, da forma como saíram da caneta e da máquina de escrever de Mário, comprada à prestação e carinhosamente batizada de Manuela, uma homenagem ao amigo poeta.
Senti falta do retorno, as cartas do Manuel para Mário, o que não compromete em nada o entendimento deste retrato em branco e preto, claro e escuro, de Mário de Andrade.
O contraponto está nas notas de Manuel (210 objetivas e curtas notas explicativas).
Fica evidente que Manuel funcionou como alter ego de Mário, que se considerava um psicólogo e se gabava de conhecer Freud.
Ele enveredava por a análise psicanalítica principalmente na crítica literária e de artes plásticas.
Acreditava que a função do crítico era a de um descobridor.
Chega a ser impiedoso ao traçar na intimidade de seu diálogo escrito com Manuel o perfil de Lasar Segall, que de pintor número um na preferência de Mário perdeu o posto depois do encantamento exercido por Portinari -- amizade que teve lá a sua pitadinha de desencanto, não em relação ao artista, gênio criador, mas ao homem atrás dos pincéis.
Mário costumava dizer que não tinha crítico para a sua obra.
A crítica era feita na base do «não gostei», reclamava.
Dizia também que gostava muito quando algum crítico, por mais equivocado que estivesse na percepção de Mário de Andrade, lhe revelava alguma coisa nova.
Em as cartas, difícil distinguir os «erros conscientes» dos «erros de ignorância», a menos que iluminados por o próprio Mário, que se delegou a missão de tentar sistematizar o português do Brasil.
«Eu escrevo brasileiro».
Exageros à parte, ali encontramos um Mário divertido até mesmo com os seus erros de português.
E aprendemos lições preciosas:
os diminutivos brasileiros são mais carinhosos e agradáveis ao ouvido do que os lusitanos.
Concordo, Mário:
o bodinho tupiniquim é muito mais bonito que o bodezinho lusitano.
E depois de você me sinto livre para nadar em riachinho ...
E nado em busca do rio grande e das vertentes de sua obra, embalada por esses sons de nossa brasilidade mais funda, os rincões desencontrados do meu sertão-Brasil interiorzinho de mim;
essas vastidões amazônicas das vitórias-régias da minha emoção percorrendo becos sedutores de sua escrita.
E vou dobrando esquinas de desvairadas paulicéias.
E vou por dentro, no mais fundo da voz, no mais verdadeiro tom da voz, no mais virgem dos matos, no mais mítico dos barros, no poço fundo e escuro de onde emergiu endiabrado Macunaíma, um clarão no meu espelho.
E por esses dias fecundos, marioandradianamente fecundos, com os docemente dos nanquins mais melancólicos da poesia de Bandeira, o Manu de todas as deliciosas horas, sigo pensando profundamente em Mário de Andrade, uma tradução gigante de Brasil.
Número de frases: 109
O assassinato barbaro e cruel do jovem Rafael Dubeux em Recife nos deixou explícita a faceta do preconceito social que se tornou coisa comum no Brasil.
Diariamente, temos um jornal chamado Folha de Pernambuco que nos brinda com o sagrado show de horror, mostrando os mais aterrorizantes e bizarros casos de morte no Estado.
São foiçadas na cabeça, penis decepado e colocado na boca do defunto, criança esquartejada e outras coisas do além.
Pronto.
Passa-se uma semana e estas aberrações são colocadas no canto do esquecimento, onde as favelas e os subúrbios sombrios continuam a produzir cada vez mais o horror do mundo moderno.
Mas em contrapartida, se a cena de violência acontece nas familias dos mais abastados, logo surge uma «comoçao» geral da sociedade.
Meus Deus!
Em que mundo vivemos!
A polícia é incompetente!
Onde é que vamos parar!!
Essas são as frases que jorram em choros certos e tristezas mais certas ainda, porém, isso é algo que so se vangloria as vias do preconceito e por o distanciamento mentiroso que separa os ricos dos pobres.
Pintando assim esse quadro de horror, os cadáveres se multiplicam indiferentemente nas favelas, e, nos altos predios da capital, o horror vem como uma cena nova, a qual todos abominam e so reconhecem quando toca o céu de suas proprias realidades.
E amanhã no jornal mais tantos cadáveres continuam o antiespetaculo.
Amém!
Número de frases: 14
«20/11/2006 -- 15:24 -- Campanha garante paternidade a 1.650 pessoas
Em a semana da Campanha Ele é meu Pai, promovida por a Corregedoria Geral da Justiça de Pernambuco e Associação dos Notários e Registradores do Brasil/PE, cerca de 1.650 reconhecimentos paternos foram feitos no Fórum Thomaz de Aquino, no Recife.
Os pais compareceram ao Fórum com a certidão de nascimento dos filhos e puderam registrá-los gratuitamente.
Assim, não foi preciso pagar as taxas e emolumentos do registro, que somam " R$ 108,00.
«A Campanha registrou um alto índice de comparecimento.
Essa ação favorece a população e evita, além do prejuízo financeiro da família, problemas emocionais na criança», comemora o juiz corregedor-auxiliar e coordenador da campanha, Alexandre Assunção.
Participaram da ação 15 cartórios de registros civis do Recife, um de Olinda e três de Jaboatão dos Guararapes.
(Cicília Pereira) "
Número de frases: 8
Fonte: Tribunal de Justiça de Pernambuco Em este ano, as tradicionais marchinhas carnavalescas darão lugar aos riffs das guitarras do Oiapoque ao Chuí entre os dias 17 e 21 de fevereiro de 2007 A cultura urbana se manifesta de múltiplas formas e em variadas ocasiões.
De o rock ao rap, das intervenções de stencil ao graffiti, do skate ao basquete de rua.
Muitas são as manifestações que evidenciam a dinâmica cultural estabelecida na contemporaneidade, seja nos festivais independentes ou mesmos em festividades populares tão tradicionais neste país de dimensões continentais como as comemorações do Carnaval.
Em este ano, as tradicionais marchinhas carnavalescas darão lugar aos riffs das guitarras do Oiapoque ao Chuí.
O evento será o Grito Rock Festival, que acontecerá do dia 17 a 21 de fevereiro de 2007 em doze estados brasileiros, que simultaneamente, promoverão a comemoração da cultura urbana durante cinco dias de muito rock ' n roll, fazendo circular mais de cem bandas em todo o país.
Estima-se que as treze produções a serem realizadas em Belém-PA, Cuiabá-MT, Goiânia-GO, Jaú-SP, Vilhena (RO), Londrina-PR, Macapá (AP), Mogi das Cruzes-SP, Natal-RN, Palmas-TO, Porto Velho-RO, Rio Branco (AC) e Uberlândia-MG, reunirão um público de pelo menos vinte e cinco mil pessoas.
Conforme o coordenador de planejamento do Espaço Cubo Pablo Capilé, um dos articuladores da iniciativa, a ação integrada é um marco na cena independente nacional por o nível de profissionalismo, organização e articulação dos produtores do Circuito Fora do Eixo.
«Um festival que antes era realizado exclusivamente em Cuiabá, em 2007 será uma ação simultânea que integrará cidades de diferentes estados, e que promoverá a troca de know-how e o fortalecimento desta rede de trabalho que se mostra cada vez mais consistente», avaliou.
Para o jornalista e produtor Vinicius Lemos, da Fan Rock Rondônia, a ação integrada mostra uma realidade ou o tamanho dessa movimentação, seus acertos e suas vitórias.
«Em um movimento que tem como marca a não institucionalização, essa ação integrada fará com que o Brasil veja de uma vez, em várias cidades e cenas diferentes e distantes, uma paixão em comum e diversos produtores lutando por ela», defende.
De Belém (PA), Bernie Walberny, produtor independente, destaca que essa é uma das coisas mais «rock ' n roll» que já viu acontecer no cenário independente nacional.
«Fazer uma ação, acontecendo ao mesmo tempo em 10 lugares, é lindo.
Estimula a produção, faz com que as pessoas conheçam mais ainda o que acontece fora do eixo, gera expectativa, chama atenção».
Já para o jornalista Lúcio Ribeiro, o sentido rebelde do rock ajuda a quebrar o monopólio sonoro de samba e axé que toma conta do país nos primeiros meses do ano.
«Nada contra o samba ou o axé, mas tudo a favor do rock», finaliza.
Número de frases: 15
Pedro MILITÃO E A Memória das Sesmarias no Rio Grande De o Norte
As sesmarias eram as terras doadas, por a Coroa Portuguesa, a particulares, notadamente pessoas consideradas detentoras de merecimento, com o fim de promover a apropriação do território colonial, estimular a produção e trazer retorno financeiro para os cofres do reino.
Embora estivesse em declínio na Europa, esse sistema medieval foi transplantado para o Brasil a partir do início efetivo da ocupação do solo brasileiro em 1530 e perdurou até a independência do país em 1822.
Utilizado de forma desordenada, gerou concentração de terras nas mãos de poucos proprietários, possibilitando à consolidação da plantation, sistema agrícola baseado na monocultura, que se utiliza de grandes áreas rurais e mão-de-obra escrava.
Os latifúndios, que ainda hoje existem no Brasil, tiveram origem nessa forma de destinação do espaço físico.
A posse da terra era garantida por as cartas de sesmarias, devendo o beneficiário ocupar e cultivar a terra em determinado período de tempo, sob pena de perder a concessão.
Para tanto, deveria, por sua conta e risco, enfrentar os índios, obter a força de trabalho necessária, preparar o terreno, organizar as atividades produtivas, erguer construções, garantir a ordem.
Caso obtivesse êxito, poderia ter o domínio definitivo.
Os sesmeiros, aqueles que recebiam as doações, eram assim chamados por o dever de pagar o equivalente a um sexto do que produzissem.
Em o Rio Grande do Norte, as primeiras sesmarias datam de 1600 e os documentos compõem o acervo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte -- IHGRN.
Em a década de 1920, o então Governador do RN, Juvenal Lamartine, incumbiu o jornalista e empresário Pedro Militão Soares de Lucena para fazer cópias de todas as cartas de sesmarias do estado.
As cópias foram manuscritas e o trabalho durou mais de um ano.
Sesmarias do Rio Grande do Norte, da Coleção Mossoroense, lançada por o IHGRN no ano de 2000, em parceria com a Fundação Vingt-Un Rosado, utilizou o texto das transcrições feitas por Pedro Militão, devido a parte das cartas originais apresentarem processo avançado de deterioração, totalizando 2.674 páginas, divididas em cinco volumes.
A tiragem modesta de 200 exemplares foi destinada integralmente a instituições culturais congêneres.
Pedro MILITÃO -- Pedro Militão Soares de Lucena (Caicó -- RN, 10 de março de 1900 -- Caicó -- RN, 14 de setembro de 1968).
Foi contramestre da banda de música Recreio Caicoense, oficial da Guarda Nacional, advogado provisionado, promotor público, político, maçon, rotariano.
Contudo, foi principalmente jornalista e empresário.
Fundou, em Caicó, os jornais O Seridoense (1909-1915), O Jornal do Seridó (1928) e, em Natal, O Estado (1928-1930).
Este último foi fechado e teve apreendida suas máquinas por ocasião da Revolução de 30 (de 3 de outubro de 1930), que levou Getúlio Vargas ao poder.
Após isso, instalou a fábrica de sabão Santa Rita, o Curtume Santa Rita e primeira indústria de extração de óleo de algodão da região.
Fontes de consulta:
-- Jornal Diário de Natal -- edições de 04/09/1979 e de 25/07/2000.
-- Wikipedia
Nota: Pedro Militão é meu avô paterno.
Quando morei em Natal, entre 2000 a 2002, fui ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e procurei ter acesso aos volumes manuscrstos das cartas de sesmarias elaborados por ele.
Recebi um não evasivo.
Pouco depois, fiquei sabendo por a imprensa que o IHGRN lançaria 5 volumes com a reprodução do texto das cartas.
Número de frases: 27
Coisas do Brasil! No meio do caminho tinha uma árvore e alguns manifestantes
Gurucaia era apenas o nome de uma das ruas da cidade de Maringá, no Paraná (420 km de Curitiba).
Uma rua que ligava o centro à Vila Bosque e ao Jardim Aclimação.
Em a região, nada muito pomposo, apenas algumas pequenas chácaras e modestas casas ofereciam aos bairros citados a tranqüilidade de uma vida pacata num canto da cidade.
Em meados dos anos 90, instalou-se ali por perto uma faculdade particular que não tardou muito em crescer, transformando-se assim, numa imensa universidade.
mais de dez anos depois, a Rua Gurucaia começou a sentir o peso do sucesso, pois era através de ela que milhares de carros transportando estudantes eufóricos passavam dia e noite, cinco dias por semana.
Foi então que a prefeitura, em parceria com o magnífico reitor, resolveu duplicar a pobre rua, que a essa altura do campeonato já não agüentava mais o nobre cargo de escoar todo o trânsito do centro da cidade para a academia, promovendo-a à alcunha de Avenida.
Todos ficaram felizes com o projeto, mas ainda existia um porém:
enquanto rua, a Gurucaia oferecia aos habitantes uma visão da natureza exemplar, com alguns pinheiros e um senhor cedro de cerca de cinqüenta anos de idade a compor a geografia do lugar.
E, conforme o planejamento da Secretaria de Obras Públicas do município, o tal do cedro ficava bem no meio da pista.
Certo dia, um jornal publicou a manchete de que a árvore seria derrubada.
Foi o estopim para que boa parte da população protestasse contra a obra, pois Maringá é conhecida como uma das cidades mais arborizadas do país, sendo assim, não queria deixar que o título de Cidade-Verde desaparecesse junto com o cedro.
A semana que se seguiu à idéia da derrubada foi um festival de expectativas, fofocas e conclusões.
Uns defendendo a derrubada de uma árvore «velha, feia e podre», outros defendendo a sua integridade, tendo até a presença de um manifestante solitário que ameaçou se amarrar ao cedro, caso o trator aparecesse.
O trator não veio e ele foi embora.
Tinha gente que torcia para que um raio caísse no lugar, assim, tudo estaria resolvido e ninguém precisaria culpar ninguém.
Em a segunda-feira, o secretário de obras resolveu agradar a gregos e troianos mudando o trajeto da avenida, simplesmente fazendo-a seguir o contorno do cedro.
Todos ficaram felizes e o manifestante não precisou mais esperar a chegada do trator.
Em o dia 20 de fevereiro de 2004, o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Condema) baixou uma resolução declarando o cedro como patrimônio público, conforme artigo 7º da Lei 4.771/1995 do Código Florestal Brasileiro, fazendo assim, com que o cedro seja imune a corte.
Até o ano passado, a população que se manifesta a favor das árvores pôde respirar mais sossegada, até que a prefeitura causou rebuliço novamente:
uma canafístula, de aproximadamente 30 metros de altura, estava nos planos de derrubada para a construção do prolongamento de uma outra avenida da cidade.
A árvore, de 120 anos, começou a ser preservada por o primeiro prefeito da cidade, Inocente Villanova Júnior, em 1945, e estava resistindo a toda sorte de intempéries da cidade.
Em o dia programado para a sua derrubada, o presidente da ONG Instituto Memória Paraná passou três horas sobre a árvore centenária, em sinal de protesto.
Depois de policiais afirmarem que o prefeito Silvio Barros II não tinha autorização do IAP (Instituto Ambiental do Paraná) para o corte, ele desceu.
Mas a canafístula não teve a mesma sorte que o cedro.
Número de frases: 25
Uma hora depois, ela já estava caída.
Debaixo das Rodas De Um Automóvel, é o primeiro livro de Rogerio Skylab, lançado por o editora Rocco.
É inevitável o susto de um fã do compositor, deparando-se com os sonetos que preenchem a totalidade do livro.
Onde está o músico perverso, desbocado, irônico?
Mas não será delírio se, apesar da docilidade de alguns versos, você se sentir frente à frente com Skylab.
Não me parece que seja a sua intenção criar personas diferentes, heterônimos.
A o completar a leitura dos 84 sonetos, e isso você o faz com uma certa rapidez, você sente que de fato esteve ao lado de Rogerio Skylab.
como se os sonetos fossem uma tradução das músicas, assim como os contos, que estão por vir, também o são.
O prefácio do músico Lobão já anuncia que diante dos poemas, nos encontramos num território delirante e quase sempre condescendente, compreensivo de suas vivências.
E chega mesmo a sublinhar a «candura» de SKYLAB.
Ora, aparentemente, isso chega a se chocar com a imagem que guardamos do compositor.
De qualquer maneira, devemos sempre guardar cautela.
Parafraseando o próprio SKYLAB no poema Caldo De Carne, a meu ver um dos mais significativos, o efeito retardado dos poemas trai a nossa primeira impressão.
Se pensarmos numa regra formadora do gênero soneto, praticado por Petrarca, Camões, chegamos então a conclusão que diante dos sonetos de SKYLAB, estamos diante de uma forma falsa.
É uma falsificação propositada.
Mas não fica aí a prestidigitação.
São várias as sugestões do modo como muitos dos seus poemas foram construídos:
«Escrevo como quem rouba / Sem chamar a atenção / Como quem fabrica uma bomba» (Radinho de Pilha).
Mas é nos espaços vazios, entre uma estação e outra do metrô, ou mesmo durante o expediente de trabalho, que muitos desse poemas surgirão, roubando inclusive o tempo do trabalho.
É reconhecido o hábito de Carlos Drummond de Andrade, em construir os seus poemas cotidianamente, todas às tardes, em seu escritório.
Ou então, no caso de João Cabral, de permanecer 15 anos construindo um poema.
Se pensarmos em Guimarães Rosa e no seu artesanato, ou então em James Joyce, não há dúvida, que estamos diante de uma noção de tempo específica, ao qual não se alinha os poemas de SKYLAB.
Estes nascerão no tempo vazio, no coração do instante, emergenciais, assim como um leitor num metrô.
Acho que podemos pensar num processo de resistência diante da ausência do tempo.
Estamos novamente diante de um caso de dissimulação.
O próprio SKYLAB nos dá a deixa, quando em Caldo De Carne, ele nos indica a receita de seus poemas, em contraposição à João Cabral: "
Já que existe a poesia de João Cabral de Melo Neto / estranha pedra bruta / que machuca os dentes-/ quero que também exista / a poesia-água -- aquela que desce / por a garganta e não arranha / não cheira e não tem cor».
É como se o autor, ao contrário de toda vanguarda artística do passado, quisesse desaparecer, tornar-se invisível.
Em esse sentido é que os poemas do Sr. Rogerio Skylab, parecem mais prosa do que verso, mais fluido do que sólido, mais clichê do que qualquer outra coisa.
O útimo poema do livro, dando um desfecho a esses intrincados poemas, aparentemente tão simples, nos dá conta de sua ambição:
«Então tá é tudo que se quis:
/ mera locução, pura linguagem ...
/ Uma sombra?
Então tá».
Como poderíamos interpretar esse desejo de invisibilidade?
Nada me parece fortuito.
O grande esforço consiste em desaparecer e essa é uma idéia fixa do primeiro ao último poema.
Mas retomando a expressão que Lobão, no prefácio, cunhou, ao referir-se aos poemas de SKYLAB, «a candura de um poeta ou de um anjo», talvez pudéssemos substitui-la pela palavra» insensibilidade».
Tudo que neste livro se diz, das coisas mais simples às mais atrozes, são ditas por o freio da insensibilidade.
Os olhares de dois passantes num shopping center não provocam mais crispação nenhuma, diferentemente dos passantes de Baudelaire.
Tudo é possível e tudo é dizível.
A os fatos, ou às estórias que possam ser contadas, vai se preferir a linguagem, quase que descolada do que acontece.
como se o acontecimento tivesse justamente essa função:
fazer aparecer a linguagem, através da qual, o próprio acontecimento desaparecerá.
O poema Era Uma Vez tenta a todo custo contar algo e não consegue.
Se, portanto, as experiências de vanguarda quiseram priorizar a linguagem em detrimento ao referente, não me parece que seja outra a intenção do músico e poeta Rogerio Skylab, só que, desta vez, trazendo de volta a linguagem sem os auspícios do sujeito.
Ainda que haja um processo de escolha de sua linguagem, e, malgrado todas as tentativas de Cage, não me parece que seja possível eliminar tal processo de escolha, ainda assim, há um movimento livre da linguagem entregue a todos os acidentes e acasos.
E é justamente esse movimento livre da linguagem, a obsessão de SKYLAB, fazendo uso de clichês e dando a seus poemas a sensação de fluidez.
Número de frases: 48
Perfil
Tocantinense Em uma entrevista descontraída, Glês Nascimento, jornalista, conversou com mim através do MSN Messenger por vários minutos.
Foram momentos preciosos nos quais apreendi muita informação preciosa.
Afinal, o prazer em ser jornalista está presente em todas as palavras desta jovem profissional.
Um bom exemplo para quem almeja esta tão sonhada profissão dos deuses.
Bruna Célia -- Por que escolheu cursar jornalismo?
Glês Nascimento -- Difícil responder essa pergunta.
É como se você me perguntasse por que gosto de homens (sou hetero desde que nasci).
Assim funciona com o Jornalismo para mim.
Já era jornalista antes, mas não sabia.
Não escolhi esta profissão, ela me escolheu.
Não seria outra coisa na vida, se bem que tentei.
Até os 15 anos eu queria ser médica.
Depois fiz teatro, mas é no Jornalismo que me encontro.
Bruna Célia -- Como foi estudar na Unitins (hoje UFT)?
Quando se formou e desde quando trabalha na área?
Glês Nascimento -- Como foi estudar na Unitintas?
Entramos ainda pagando mensalidade.
Acho que vivi um dos momentos mais importantes para a Unitins / UFT.
Era um processo de transição e que só aconteceu graças à nossa mobilização.
Fiz parte do S.O..
S Unitins não como cabeça, mas estava engajada no movimento.
Aquele período foi muito interessante do ponto de vista político, social e econômico.
Os estudantes conquistaram a UFT e o direito de não pagar mais.
Formei-me em 2002, lá se vão quatro anos, e estou na área desde o segundo período de Comunicação.
Ou seja, mais ou menos sete anos.
Bruna Célia -- Qual sua experiência com jornalismo desde então?
GLês Nascimente -- Nossa.
Vamos lá:
comecei sendo estagiária de produção na TV Anhangüera no segundo período de faculdade, creio que foi no segundo semestre de 1998.
Trabalhei lá por dois anos e meio, entre reportagem e produção, depois sai em fiz a campanha do Marcelo Miranda como produtora, por três meses.
Em novembro de 2002 comecei a trabalhar no Jornal do Tocantins.
Lá fui secretária executiva de redação -- espécie de coordenadora, editora de Brasil Mundo, Economia até chegar em Arte e Vida.
Fiz reportagens e editei o caderno de cultura por cerca de um ano.
Sai de lá há nove meses e estou na Secretaria da Comunicação por este tempo.
Quando entrei na Secom -- Secretaria de Comunicação do Estado -- como repórter logo viajei para Paris, para cobrir o Ano do Brasil na França.
Lá produzi documentário, matérias para TV e ainda gravei áudio para rádios daqui e reportagens para o site da Secom e jornais impressos.
Bruna Célia -- Onde faz pós-gradua ção?
Em qual área deseja se especializar?
GLês Nascimento -- Faço na Unitins em Educação, Comunicação e Novas Tecnologias.
Ainda não sei.
Sinceramente, desejo ser uma jornalista completa:
que saiba TV, rádio, impresso, Internet e ainda arranhe um violão (risos).
Projeto minha carreira para ser uma multi-profissional.
Não penso especificamente qual seria minha especialidade, penso em ser completa.
Mesmo sem fazer planos, creio que aos 40 anos estarei dando aulas, na UFT ou em outra universidade, quero concluir minha carreira dando aulas, produzindo e escrevendo artigos e textos leves.
Bruna Célia -- Como é ser jornalista no Tocantins?
O que lhe atrai nessa profissão?
Glês Nascimento -- Tenho uma visão muito particular a respeito desse assunto.
Penso que o Tocantins é um local de oportunidades para a nossa profissão.
Aqui, por falta de profissionais, há mais chances de crescimento.
Mas é preciso saber aproveitá-la (a chance).
Eu mesma tive muitas oportunidades, em outro local jamais seria coordenadora de Jornalismo de uma Secretaria de Comunicação do Governo aos 25 anos, como sou hoje.
Mas o profissional de comunicação precisa ter os pés no chão e entender que o fato de ser indicado a um cargo não significa que ele seja totalmente competente para tal.
Muitas vezes somos indicados e assumimos uma função porque não há mais ninguém para fazê-lo.
Discordo que o ambiente de trabalho aqui seja hostil.
Vejo que na época da faculdade muitos comentam (mal) dos veículos, órgãos e outros meios de comunicação do Tocantins.
Penso que fora daqui há ainda mais competitividade e meios escusos de se obter informação.
Muitos colegas saíram e não quiseram permanecer em mercados maiores.
Ainda não temos tantos vícios por aqui, temos limitações, é claro.
Mas minha visão é bem otimista desse mercado.
O que me atrai?
Absolutamente tudo:
o fato de saber das coisas antes de todos;
o fato de poder contar histórias;
o fato de fazer parte da história enquanto relato-a.
O Jornalismo é encantador.
* Bruna Célia -- Quais são suas expectativas quanto ao seu futuro profissional?
Glês Nascimento -- Quero continuar produzindo, trabalhando com o Jornalismo sempre.
A vida é uma incógnita.
Prefiro não fazer planos.
Quero apenas escrever e viver bem.
Mas penso que o jornalismo de redação funciona até os 40 anos, se não obtiver sucesso serei mais leve, darei aulas e fugirei um pouco das tensões cotidianas de uma redação.
Bruna Célia -- E a censura quanto ao que vai ser publicado?
Você acha que aqui no Tocantins é mais forte do que em outros Estados?
Você já teve algo de sua autoria censurado?
Glês Nascimento -- Não acho que seja mais forte.
Acho que é uma coisa de linha editorial.
Você está num veículo e sabe que a linha é X, isso precisa ficar claro para o profissional, para evitar transtornos.
Todos os veículos, em qualquer parte do país, possuem suas linhas e delimitam o que sai e o que não sai a partir disso e também a partir de conveniências, não é privilégio do Tocantins esse tipo de ação.
É sim, uma prática comum nas redações e empresas.
Já tive sim, algo que fiz e que não saiu.
Bruna Célia -- Como é trabalhar com comunicação num órgão público?
Glês Nascimento -- É diferente.
Não fazemos jornalismo e sim assessoria de imprensa, o que muda bastante o modo de interpretarmos as situações e a forma que vamos relatá-las.
Mas é um trabalho interessante do ponto de vista de crescimento profissional.
Cresci muito a partir do momento que estou vendo o outro lado da notícia, sentindo de perto como se processam algumas informações oficiais.
Bruna Célia -- O que acha da discussão que visa exigir o diploma de jornalista aos profissionais que atuam na área?
Glês Nascimento -- Sou a favor do diploma.
Não penso que um pedaço de papel vá certificar que é um bom profissional, competente e etc.;
também penso que nossa profissão é plural e não se restringe a quatro anos de universidade.
Mas é preciso respeito aos que fizeram faculdade.
É preciso respeito ao que se determinou na década de 50 quando se criou o curso de Comunicação Social.
É preciso saber que, como do Direito, a Medicina, o Jornalismo pode destruir a vida de uma pessoa e é preciso se regulamentar essa profissão.
O diploma é o começo.
Bruna Célia -- O que você indicaria aos futuros profissionais que querem trabalhar com jornalismo aqui no Tocantins?
Como conseguir um bom emprego e por onde começar?
Glês Nascimento -- O começo é gostar de ler.
Sem ler não se escreve bem.
É preciso ter sensibilidade, apesar de que acho que não sou uma super star para aqui ficar dando dicas.
Criar um blog, um fanzine pode ser uma alternativa.
Penso que nós temos que procurar alternativas para o mercado.
Quem foi que disse que temos que trabalhar em redações?
A Internet é um grande caminho que está sendo desvendado.
É preciso criar.
Buscar novos caminhos, produzir o que se gosta e fazer bem feito.
Mas para quem quer trabalhar em redação, comece assinando os jornais.
Conheça o que é produzido aqui e proponha mudanças, melhorias, crie!
O estudante pode colaborar com artigos, crônicas e textos, mas usa pouco essa possibilidade.
Não é preciso esperar se formar para atuar.
Basta ter iniciativa.
É preciso se mexer.
Como diria Maiakovisky:
«O tempo é escasso, mãos à obra:
primeiro é preciso transformar a vida para cantá-la em seguida».
Bruna Célia -- E como foi trazer o Sarau Moderno -- Overmundo aqui para Palmas?
GLês Nascimento -- Foi uma experiência fantástica.
Pensei que não teríamos tanto público, mas é possível ver que o Tocantins é sedento de arte.
O melhor foi saber que não tínhamos atrações nacionais e colocamos gente no espaço.
As pessoas gostaram e a repercussão foi positiva, estamos planejando um evento para o ano que vem e, quem sabe, manteremos o Overmundo no calendário palmense?
É uma idéia.
Os projetos começam assim:
com idéias.
Bruna Célia -- Quer ser jornalista para sempre?
Glês Nascimento -- O que você acha?
Pensa que eu seria outra coisa na vida?
Número de frases: 126
Jamais! Nasci jornalista e morrerei como tal.
Foram mais ou menos quatro anos de aguardo por o novo disco do Wado e como era de se esperar, o artista consegue novamente se reinventar, sem deixar cair um pinguinho só da qualidade do som e de suas letras e melhor que isso, sem perder suas características e influências principais.
Oswaldo Schlickmann, o catarinense radicado em Alagoas, depois de quase dois anos e meio tocando «sambas estranhos» com a banda Realismo Fantástico por o eixo Rio-Sampa, festivais nacionais aclamados e dois países da Europa, resolve voltar ao seu berço musical, para compor um disco ainda mais periférico, como quem fecha uma trilogia e parte para uma nova, reinventando a própria história, como numa saga cinematográfica.
Terceiro Mundo Festivo é o nome da bolacha que dá força e uma nova roupagem aos sons periféricos como o funk carioca ou os afoxés baianos, passeando por o reggaeton, por o disco e por o eletrônico com cara de Pau-Brasil.
O samba continua lá, contido, escondidinho no meio dos outros ritmos.
Até a concepção gráfica do disco mudou, mas ainda mostra outras belezas periféricas.
Este novo universo é fruto litorâneo da parceria de seus novos aliados, todos eles da própria cena alagoana:
Tup (que também faz as programações do Vitor Pirralho), Dinho Zampier (também tecladista da Mopho), Rodrigo Peixinho (que tocava bateria na Ball, banda que o Wado tocava nos anos 90) e Bruno Cavalcanti (que também toca baixo na Mr. Freeze).
É claro que a melhor forma de assimilar tudo isso é vendo e ouvindo.
Os que já tiveram o prazer de dançar nos shows da nova trupe em Maceió, por o ano de 2007, deve saber bem do que estou falando, já os que não tiveram a oportunidade, pode baixar o álbum inteiro no site do Wado, está tudo lá:
mp3s, vídeos, trechos do DVD Demo, concepção visual, histórico, o que é o Terceiro Mundo Festivo e até os discos anteriores ...
tudo de graça!
O link para o site é www.uol.com.br/wado
Em o mais ...
Número de frases: 14
Que a Força esteja com você.
Pela primeira vez tantas entidades culturais se reúnem com o objetivo de divulgar a cultura sergipana.
Foi lançada no dia 23 de agosto o Ponto de Cultura -- Rede Sergipe de Cultura que tem o patrocínio do Ministério da Cultura, através do programa Cultura Viva e da Petrobrás.
São parceiros a Universidade Federal de Sergipe, a Infonet, a Fapese, o Sebrae, o Sesc, a Funcaju, a Sociedade Semear e a Ecos -- Entidades Culturais Organizadas de Sergipe.
A Rede Sergipe de Cultura é uma entidade sem fins lucrativos que surge para apoiar e ser mais um meio de divulgação dos trabalhos dos agentes e promotores culturais, abrindo as portas dos mercados regional, nacional e internacional para a arte sergipana.
Através de seu site www.redesergipedecultura.com.br, é um instrumento fundamental para a conquista desses mercados e vai favorecer a formação de circuitos permanentes de intercâmbio de informações da produção cultural dos 75 municípios sergipanos.
«Vamos também divulgar os produtos dos nossos artistas, a programação cultural dos municípios, dar dicas sobre legislação e informações sobre todos os espaços culturais, além de abrir espaço para a divulgação de artigos e pesquisas culturais», garante João Paulo Neto, Diretor Executivo da Rede.
A Rede Sergipe de Cultura também atua de forma presencial com a promoção de seminários, fóruns, cursos, oficinas e eventos culturais.
A primeira ação começou no dia do lançamento.
O Curso De Gestão Cultural, que tem 04 módulos e 120 horas para gestores culturais de Sergipe.
mais de 150 pessoas estão inscritas no curso que, nesse primeiro módulo, é ministrado por a pesquisadora Isaura Botelho do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, com sede em São Paulo.
O tema abordado é Cultura e Política Cultural que traça um panorama do estado atual da implantação de políticas por o Governo Federal com foco especial nas ações integradas de políticas nos níveis municipal, estadual e federal, além de contextualizar as ações do Estado no campo da cultura e alguns modelos internacionais.
Número de frases: 12
Queridos Amigos:
Três meses atrás escrevi, aqui mesmo no overmundo, o texto intitulado:
«Livro Colaborativo: Balanço e Perspectivas» ocasião em que descrevia os progressos do nosso projeto e dizia da minha satisfação com o que vinha ocorrendo menos de um mês depois de lançada a idéia do livro.
Dez dias atrás, o texto «Reminiscências da Escola, Balanço» final " fechava os resultados de três meses e meio de intensa atividade com vistas à elaboração do livro, marcando o início de uma nova etapa, mais, digamos, extra overmundana, do projeto.
Anteontem, no entanto, me ocorreu uma idéia:
da maneira como foi realizada a divulgação dos resultados obtidos por o projeto, se, dê um lado, é a fotografia do evidente sucesso final da empreitada, de outro, ignora o fato de que, para chegar aos números aferidos, toda uma outra leva de overmanos mobilizou-se, agitou-se, participou, votando e comentando os postados das Reminiscências e contribuindo, assim, decisivamente eu diria, para o resultado obtido.
Aliás, a ilustração que escolhi para o post «Livro Colaborativo, balanço e perspectivas», -- o comentário do Hermano Vianna dando força à iniciativa -- é emblemático do que eu estou querendo dizer.
Por isso -- para tentar descrever, com, ainda maior, fidelidade, o fenômeno «Reminiscências da Escola» no Overmundo -- pedi a ajuda da Crispinga e da Apple para fazermos um levantamento numérico e individuado dos comentadores dos posts da «Reminiscências» bem como separar e republicar os comentários mais significativos relacionados ao projeto como um todo.
Quando o livro for publicado, todos estes comentadores irão figurar na página de agradecimentos, exatamente como estou fazendo agora, aqui no overmundo.
Beijos e abraços a todos e sinceros agradecimentos a:
Mestre Jeronimo -- JC * Maceió (AL) *
Pepê Mattos * Macapá (AP)
Ilze Soares * Salvador (BA)
Maniefurt * Salvador (BA) *
Paulo Esdras * Salvador (BA)
Reticências ... * Salvador (BA)
tinah * Cruz das Almas (BA) *
Adriana Costa * Fortaleza (CE) *
ana isabelle * Fortaleza (CE
Candice Gonçalves * Crato (CE)
Kaika Luiz * Crato (CE) *
Atila Naddeo * Brasília (DF) *
carol de trancinhas * Brasília (DF) *
Fê Pavanello * Brasília (DF
Humberto Firmo * Brasília (DF)
Jazahu * Brasília (DF) *
Jornalista81 * Brasília (DF) *
Mariângela Oliveira * Brasília (DF) *
mmateus * Brasília (DF) *
Cicero de Bethân * Vitória (ES) *
Claudia Puget * Muqui (ES) *
Ilhandarilha * Vitória (ES) *
Lobodomar * Guarapari (ES) *
Ronni Garcia * Serra (ES) *
Sinvaline * Uruaçu (GO) *
Tacilda Aquino * Goiânia (GO) *
apple * Juiz de Fora (MG) *
drigo * Belo Horizonte (MG) *
fernando ciscozappa * Belo Horizonte (MG) *
Gustavo Eleutério * Belo Horizonte (MG
José Telmo * Belo Horizonte (MG) *
JuKaJu * Belo Horizonte (MG) *
Mario C. * Belo Horizonte (MG) *
nadiacy * Belo Horizonte (MG) *
Psychojoanes * São Domingos do Prata (MG)
Sérgio Franck * Belo Horizonte (MG) *
Tati MOTTA * Belo Horizonte (MG) *
Tom Zine * Frei Gaspar (MG) *
victorvapf * Belo Horizonte (MG) *
Walesson Gomes * Belo Horizonte (MG) *
acgt * Campo Grande (MS) *
arlindo fernandez * Campo Grande (MS) *
Cecilia de Paiva * Campo Grande (MS) *
clara longhi * Campo Grande (MS) *
Grupo Teatral Minas da Imaginação * Campo Grande (MS) *
Profeta Teatro * Campo Grande (MS) *
Rangel Castilho * Anastácio (MS)
Rubenio Marcelo * Campo Grande (MS) *
Benny Franklin * Belém (PA) *
Lígia Saavedra * Ananindeua (PA) *
Noelio Mello * Belém (PA) *
Renato Torres * Belém (PA) *
Betha * Carnaíba (PE) *
Dora Nascimento * Olinda (PE) *
ktarrock * Recife (PE) *
Marcos André Carvalho Lins * Recife (PE) *
Marluce Freire Nascasbez * Carnaíba (PE) *
Osvaldo * Olinda (PE) *
André Gonçalves * Teresina (PI) *
Natacha Maranhão * Teresina (PI) *
Rodrigo Gerolineto Fonseca * Picos (PI) *
Rosa Magalhães * Teresina (PI) *
AZnº 666 * Rio de Janeiro (RJ) *
Carol Kalil * Janeiro (RJ) *
Carlos Bruce Batista * Janeiro (RJ) *
Carlos magno * Rio de Janeiro (RJ) *
Dil-Jr. * Rio de Janeiro (RJ) *
dudavalle * Rio de Janeiro (RJ) *
Edna Queiroz * Janeiro (RJ) *
Graça Pecly * Cordeiro (RJ) *
Helena Aragão (RJ) *
Hermano Vianna * Janeiro (RJ) *
Inês Nin * Janeiro (RJ) *
Isabel Seixas * Janeiro (RJ) *
jobsant * Santo Antônio de Pádua (RJ) *
lemos * Rio de Janeiro (RJ) *
lgbayão * Rio de Janeiro (RJ) *
Lili Beth * *
Rio de Janeiro (RJ) *
Luciana Maia * Janeiro (RJ) *
Maíra Fernandes de Melo * Janeiro (RJ) *
Mansur * Rio de Janeiro (RJ) *
Marcato Pereira * Janeiro (RJ) *
marcio rufino * Belford Roxo (RJ) *
Matheus Muzy * Cordeiro (RJ) *
Nely * Rio de Janeiro (RJ) *
Rita Costa * Janeiro (RJ) *
sandra vi * Petrópolis (RJ) *
Spírito Santo * Janeiro (RJ) *
Schunk * Rio de Janeiro (RJ) *
Tetê Oliveira * Nova Iguaçu (RJ) *
W @ nder * Rio de Janeiro (RJ) *
Elizete Vasconcelos Arantes Filha * Natal (RN) *
Yasmine Lemos * Natal (RN) *
Alê Barreto * Alegre (RS) *
Filósofo * Sapucaia do Sul (RS) *
Indio. ubirajara * Bento Gonçalves (RS) *
Juliaura * Porto Alegre (RS) *
Kais Ismail * Alegre (RS) *
Levi Orlando * Alegre (RS) *
Labes, Marcelo * Blumenau (SC) *
Peirrofxz * Lages (SC) *
cassiopeiaadg * Neópolis (SE) *
Paloma Naziazeno * Aracaju (SE) *
alcanu * São Paulo (SP) *
azuirfilho * Campinas (SP) *
Branca Pires * Bauru (SP) *
capileh charbel * São Paulo (SP)
Chrispettita * São Paulo (SP) *
Cintia Thome * Paulo (SP) *
Higor Assis * Paulo (SP) *
Indira Pessego * Paulo (SP) *
j. alves * São Paulo (SP) *
Joyce Ferreira * São Bernardo do Campo (SP) *
Lailton Araújo * Paulo (SP)
Lais Espanca * São Paulo (SP) *
Laudo * São Paulo (SP) *
Pree Power * Paulo (SP) *
Rynaldo Papoy * Guarulhos (SP) *
Senhorita Miller * Paulo (SP) *
Verdes Trigos * Presidente Prudente (SP)
jjLeandro * Araguaína (Te o)
Osmar Casagrande * Palmas (Te o) *
Oriundos de 49 cidades brasileiras:
Ananindeua (PA) -- Anastácio (MS) -- Aracaju (SE) -- Araguaína (Te o) -- Bauru (SP) -- Belém (PA) -- Belford Roxo (RJ) -- Belo Horizonte (MG) -- Bento Gonçalves (RS) -- Blumenau (SC) -- Brasília (DF) -- Campinas (SP)
Campo Grande (MS) -- Carnaíba (PE) -- Cordeiro (RJ) -- Crato (CE) -- Cruz das Almas (BA) -- Fortaleza (CE) -- Frei Gaspar (MG) -- Guarapari (ES) -- Guarulhos (SP) -- Goiânia (GO) -- Juiz de Fora (MG) -- Lajes (SC)
Macapá (AP) -- Maceió (AL) -- Muqui (ES) -- Natal (RN) -- Neópolis (SE) -- Nova Iguaçu (RJ) -- Olinda (PE) -- Palmas (TO) -- Petrópolis (RJ) -- Picos (PI) -- Alegre (RS) -- Velho (RO) -- Pres. Prudente (SP) -- Recife (PE) -- Janeiro (RJ) -- Salvador-(BA) -- Sto Antônio de Pádua (RJ) -- S. B.
Número de frases: 137
doCampo (SP) -- S. Domingos do Prata (MG) -- São Paulo (SP) -- Sapucaia do Sul (RS) -- Serra (ES) -- Teresina (PI) -- Vitória (ES) -- Uruaçu (GO)
Recebo semanalmente o Boletim PNL (Plano Nacional do Livro e Literatura) e, como em todo boletim, tem lá um monte de assunto desinteressante aos comuns mortais, informações muito específicas, numa linguagem sem sal nem açafrão, pílulas de notícias do setor literário.
Em geral, faço uma leitura em diagonal, em busca de algum concurso.
Mas essa semana me surpreendi.
Não é que o boletim me fisgou?
Além de me apresentar o Livroclip, um site com videozinhos de obras literárias (que eu não vou comentar agora porque o assunto dá pano para a manga), me levar até o youtube para conhecer o vídeo brasileiro que venceu um concurso de bibliotecas em Portugal, o Boletim PNL me assustou!
A o ler que uma empresa espanhola está fabricando papel higiênico com obras literárias impressas, meu queixo caiu tanto que chegou a fazer barulho em cima da mesa:
Plaft!
Tive que conferir, obviamente.
Como seria, por exemplo, o espaçamento entre as linhas?
Que corpo utilizariam?
Tamanho da fonte, cor ...
Tudo isso foi passando por a minha cabeça enquanto a página se abria.
A pergunta fundamental:
que obras seriam essas?
A resposta surgiu em poucos segundos:
Clássicos, Recentes, Livros Sagrados.
O slogan da empresa:
La literatura se recicla en las mentes no en las estanterías (Rúben).
Não tenho nada contra campanhas a favor da leitura.
Mas não posso esconder meu espanto com esse tipo de iniciativa.
Fui às raias da loucura ...
Tenho uma cabeça criativa, há um tique-taque insistente que me leva a imaginar situações quase 24 horas por dia.
Bom ...
Depois de ver uma das fotos no site (uma mulher sentada no vaso sanitário com a cabeça envolta em papel higiênico literário), me perguntei:
E como será ter de abandonar um banheiro público com um livro, digamos, na metade?
O ocupante seguinte vai identificar a história?
A pessoa que sai vai pedir a ele que não use o papel para que ela não fique sem o final?
Rolos de papel higiênico serão roubados!
Sim, a constatação inevitável.
Em o Brasil -- só posso falar por meu país (e olhe lá!),
os rolos seriam levados embora.
Já o fazem normalmente, imagine com o apelo de um Kafka-barata:
Tire-me daqui, tire-me daqui!
E foi assim, dando voltas dentro da cabeça, que cheguei à conclusão final:
Veja como aumentar instantaneamente a venda de papel higiênico, com o lastro de «boa iniciativa cultural».
Número de frases: 36
Em a minha casa, não entra.
Cinema, Meio Ambiente e Comunicação têm Encontro Marcado no Texas Brasileiro
Esse texto fala do Encontro Humano Mar, evento que vai acontecer nos próximos dias 15, 16 e 17 de agosto, em São João da Barra, Estado do Rio de Janeiro, e que é parte do Projeto de Educação Ambiental do Campo de Polvo, ação que promoveu oficinas de cinema ambiental em 10 cidades da Região dos Lagos e Norte Fluminense, no ano de 2007.
Mas antes, uma palhinha para contextualizar essa história que envolve Cinema, Meio Ambiente e Comunicação na região que já é conhecida como o «Texas brasileiro».
Teve impacto?
Dá licença!
Os recentes noticiários envolvendo as polêmicas obras do PAC têm feito com que a questão do licenciamento ambiental entrasse de vez na pauta do país.
Obras como as hidrelétricas do Rio Madeira e a transposição do rio São Francisco estão mostrando que a sociedade ainda não possui a compreensão plena da necessidade de programas de compensação e mitigação de impactos causados por grandes empreendimentos.
Em relação ao petróleo o caso é sintomático:
só a partir de 1997 é que surgiu uma legislação específica que propõe regras para o licenciamento, prevendo projetos de Comunicação Social, Monitoramento Ambiental, Controle de Poluição e de Educação Ambiental, entre outros.
Em a Bacia de Campos, por exemplo, o petróleo vem há décadas encharcado cofres públicos com dinheiro de royalties, mas as contrapartidas da indústria petroleira e seus deveres não eram claros há até pouco tempo.
Recentemente, o IBAMA, através do CGPEG (Coordenação Geral de Petróleo e Gás), tem intensificado a pressão para que as empresas implementem projetos ambientais consistentes na região, incluindo os de Educação Ambiental, historicamente relegados à última prioridade.
Por isso é bom que fique o mais claro possível:
por as leis brasileiras, todo o empreendimento que gera impacto ambiental é obrigado, entre outras coisas, a realizar projetos de educação ambiental.
E isso a partir de diretrizes claras:
o projeto inicialmente tem que produzir Diagnósticos Participativos, em que a própria comunidade avalia e aponta quais são as questões ambientais que precisam ser resolvidas.
O Cinema como arma
Em este contexto, o Projeto de Educação Ambiental do Campo de Polvo promoveu uma experiência significativa para a região, com resultados consolidados e a ponto de ter conquistado o Prêmio Brasil Ambiental 2008 por sua abordagem inovadora.
Criado a partir das diretrizes do IBAMA, o Projeto faz parte do processo de licenciamento ambiental da produção de petróleo no Campo de Polvo da Devon Energy do Brasil.
Através da Oficina de Cinema Ambiental Humano Mar, a Abaeté Estudos Socioambientais desenvolveu uma metodologia que usa as ferramentas do Audiovisual e da Antropologia para se chegar a estes diagnósticos participativos.
O resultado do trabalho em 2007 foram 30 filmes de curta-metragem realizados nas cidades de Cabo Frio, Arraial do Cabo, São Pedro da Aldeia, Araruama, Armação dos Búzios, Ilha da Conceição, em Niterói, Rio das Ostras, Macaé, Barra do Itabapoana, em São Francisco de Itabapoana e Atafona, em São João da Barra.
Os filmes foram todos sugeridos, roteirizados e filmados por os alunos, e apresenta um rico e amplo painel sobre as questões ambientais da região da Bacia de Campos.
Posteriormente, os filmes foram lançados e discutidos em praça pública durante os Fóruns Ambientais do Campo de Polvo.
Usando a metodologia da Câmera Aberta, a la TV Maxambomba, a população pôde se manifestar sobre os filmes e as falas destes debates viraram Agendas Ambientais Audiovisuais, contendo uma sistematização dos temas abordados.
A segunda fase do Projeto de Educação Ambiental do Campo de Polvo começa agora, a partir do Encontro Humano Mar, que vai reunir todos os alunos das 10 cidades, no Sesc Mineiro, em Grussaí, São João da Barra.
Qual a idéia?
O Encontro Humano Mar vai marcar o lançamento do Observatório Ambiental Humano Mar, que será um organismo capacitado a monitorar as questões socioambientais locais, usando ferramentas do Cinema, da Antropologia e da Comunicação.
Formado inicialmente por os alunos das Oficinas de Cinema da primeira fase do Projeto, a intenção é que a sociedade civil abrace e utilize o Observatório como um aliado nas causas ambientais das cidades abrangidas, principalmente levando em conta as especificidades da Bacia de Campos, onde os impactos da indústria do petróleo são cada vez mais perceptíveis.
Além de oficinas de aprofundamento em roteiro, equipamento, linguagem cinematográfica, pesquisa social e meio ambiente, o Observatório contará com um portal colaborativo onde os monitores locais poderão postar todo o conteúdo apurado e produzido em suas cidades, funcionando como um repositório de informações garimpadas por quem está próximo aos problemas.
São muitos os desafios, mas a repercussão tem sido muito boa, mesmo com alguns filmes colocando dedos em feridas sensíveis na região.
Talvez valesse um texto só sobre o processo de produção dos documentários da Oficina;
vamos ver.
A própria disponibilização dos filmes na Internet tem sido motivo de discussões significativas por conta de direitos autorais de algumas músicas e isso será um dos assuntos quentes do Encontro.
Por fim, algumas considerações:
já fiz uma propaganda da Oficina quando aconteceu na Ilha da Conceição, em Niterói;
e nosso amigo João Xavi fez uma matéria muito boa sobre o Fórum Ambiental Audiovisual, em Macaé.
O programa do Encontro será em forma de zine e disponibilizo aqui um dos textos que dá bem uma mostra do que se pretende fazer e provocar ...
E, acreditem, essa galera ainda vai dar o que falar ...:
D Vê o blog lá:
www.humanomar.com.br/blog Cultura Digital -- Indo Além do Big Brother
Dia desses, a jovem cantora Pitty comentou numa entrevista que as pessoas quando pensam na Bahia, lembram logo de axé music e esquecem que há milhares de pessoas com outros gostos musicais morando por lá ...
Agora ligue o canal da imaginação e tente pensar o que deve sentir um roqueiro baiano ou um vegetariano gaúcho;
ou um piauiense que é tratado genericamente de «paraíba».
E já reparou que até bem pouco tempo a televisão só tinha apresentadoras de programa infantil louras?
Já reparou que todo oriental nas propagandas tem jeito de abobalhado?
Todo motorista de carrão é branco?
Todo nordestino é engraçado?
Todo carioca mora em frente à praia ...
É isso mesmo?
Além disso, indo mais fundo:
quando a mídia fala da sua cidade você já teve a sensação de que «não é bem assim»?
Todas essas perguntas e situações têm a ver com a forma com que a comunicação de massa funcionou durante a maior parte do século passado (principalmente a televisão).
Além das notícias serem quase sempre das capitais (de algumas capitais), toda vez que se falava de alguma cidade, sempre soava estranho, com um olhar totalmente de fora.
Quando se falava do interior, então, sempre se reforçava o lado pitoresco, folclórico, estereotipado ...
E isso padronizava tudo:
os pontos de vista, os pontos turísticos, os sotaques, os «tipos» de pessoas ...
Mas a cultura digital aos pouquinhos tem conseguido sacudir esse modelo antigo e pesado.
Principalmente com a popularização da Internet, cada vez mais nós conseguimos informações sobre os lugares vindo de pessoas De aqueles Lugares.
Com os recursos ficando mais acessíveis, outras vozes estão conseguindo espaço para divulgar suas idéias, conceitos, produtos, pontos de vista.
E com o advento da web 2.0, as redes sociais e os sites colaborativos estão surgindo novos comunicadores, que vêm mostrando que a periferia e o centro estão cada vez mais embolados no meio campo.
Através de um blog, alguma merreca numa lan house e uma idéia na cabeça, uma pessoa pode hoje levar para o mundo a sua visão sobre sua cidade, seu gosto musical, sua tribo, suas propostas de crescimento.
Um filme feito em casa pode virar uma sensação no Youtube e ampliar a rede de contatos de um morador de Barra do Itabapoana.
Se antes havia uma tentativa de entrar na mídia, hoje você pode Ser A Mídia!
Tá bom, tá bom, as grandes TVs ainda são grandes e poderosas, mas acredite:
as coisas estão mudando -- e rápido!
Formiguinhas Mudando O Mundo ...
O Observatório Ambiental Humano Mar é um convite para a criação de uma mídia livre.
Ninguém pode acompanhar melhor uma questão sobre São João da Barra do que alguém que está ali, no dia-a-dia, e conhece aquela realidade nas suas sutilezas.
Quando o portal do Observatório estiver funcionando, em meados de novembro, você poderá acompanhar continuamente a sua cidade, produzir matérias, filmar problemas, entrevistar pessoas e depois colocar isso tudo no ar para o mundo.
Produção e difusão, as duas pontas vitais para a uma nova mídia.
Por fim, umas palavrinhas sobre duas coisas fundamentais:
alfabetização audiovisual e inclusão digital.
Entender como funcionam os códigos da linguagem audiovisual faz com a gente entenda melhor como o mundo anda, vamos dizer assim, funcionando.
E, como disse o Renato Russo, o mundo anda tão complicado ...
Por isso é preciso que programas de inclusão digital comecem a ser popularizados em todos os cantos do Estado, para que os computadores sejam aliados das mudanças necessárias no país.
Pra terminar, vale dar uns toques legais.
Essas novas formas de produzir, divulgar e distribuir informação e produtos culturais estão criando redes cada vez mais sofisticadas -- e muito maneiras.
Experiências como a FEPA, Fórum de Experiências Populares em Audiovisual, e o Kinoforum têm conseguido juntar vários núcleos que tomaram o audiovisual para a si, pondo fim a uma época em que só fazia cinema quem tinha grana.
Quem passou por a Oficina Humano Mar já está super indicado pra entrar nessa onda!
Outra coisa são os cineclubes, que também têm mostrado grande força no quesito exibição, mostrando que há vida inteligente além dos filmes hollywoodianos.
E que tem gente querendo assistir filmes juntinhos, sem ser necessariamente em shoppings, trocando idéias e provocando em mais pessoas essa vontade de fazer cinema.
A ASCINE-RJ é a associação de cineclubes do Estado do Rio -- entre em contato que apoio não há de faltar.
E aproveite que o formato curta-metragem está bombando!!:
D É isso, então.
O portal do Observatório vem aí com tudo, mas enquanto isso, que tal começar a experimentar esse mundo novo?
Uma boa experiência é visitar a Wikipédia ou o Overmundo e procurar ver o que tem lá sobre a sua cidade.
Você concorda com o que tem lá?
Ué, não tem nada?!
Aproveite então e escreva!
Fale do seu grupo, da cultura, de um artista local, mande fotos, vídeos, entrevistas ...
Coloque sua cidade pra aparecer!:
D Seja a mídia que você quer ver no mundo!
Número de frases: 92
hehehe " Quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a.
Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la.
Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem.
Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos anos, estes ainda reservam prazeres."
A frase de Séneca foi a última a preencher as impressões que absorvi durante a produção deste texto, e não menos reveladora.
Acredito, agora, que o segredo para a boa velhice está no contato físico e em tudo o que isso implica.
Explico.
A curiosidade bateu na primeira vez que passei por aquela esquina e a música antiga, das serestas que meu avô ouvia -- Orlando Silva, Francisco Alves, Nelson Gonçalves -- tocava, ao vivo!
Parei para entender.
O lugar estava lotado.
Muitos, como eu, ficavam ali somente para observar.
Acomodei-me na beirada de um canteiro onde tinha uma vista privilegiada para o espaço à frente da banda Raízes da Terra, que embala o povo mais animado com seus forrós, sambas-canções, boleros, chorinhos ...
Para chegar até a área de dança é preciso subir a rampa que tem em seu final uma placa com os dizeres:
«Tribuna popular e democrática.
Quando o povo fala, ou foi, ou é, ou será».
Bem verdade que lá se fala, e muito.
De o político que irritou vários com o discurso de hoje na Assembléia Legislativa do Acre;
do que estão tratando na Câmara dos Vereadores;
daquele camarada que diz ter matado meia dúzia na juventude e agora está dançando com a mais cobiçada, e quem tem coragem de tirar a dama do tal mentiroso?
Mas o que fazem mesmo por lá, nas manhãs de quartas e sextas-feiras, é dançar.
Assim é o Senadinho.
Um pequeno espaço separado para os idosos que gostam de dar seus passos cadenciados e desfilar preciosas lembranças enquanto os mais jovens trabalham.
De tão alegres, contagiam.
Eu observo como são econômicos com certas coisas que eu não seria:
aproximam-se com passadas muito pequenas, os gestos e o modo de mover a cabeça também são diminutos, falam sem pressa, esperam a música começar enquanto conversam com largos sorrisos.
Parece que para eles é o melhor do dia.
Em dois minutos, eu já estava inquieta.
-- A moça está bem?
A pergunta veio de um senhor simpático de uns 70, acho.
Não notei que balançava a perna insistentemente.
-- Estou.
A que horas começam a tocar?
-- Depende de quem vem pra dançar.
Dança com mim?
Tá precisando dançar pra acalmar as pernas.
-- Desculpe, só vim pra olhar mesmo.
E eu não danço.
-- Ih, não namora, também, né?
-- Como?
-- Mulher que não sabe dançar demora pra namorar, moça.
Os homens num olham ...
A velhice deve trazer, sim, alguma sabedoria, pensei.
-- Te a bom, quando a música começar eu danço com o senhor.
Conhece o Panelada?
-- Ele acabou de passar, mas é o que dança mais ruim aqui!
Só vem por causa das mulheres.
O Sr. Sandoval Vasconcelos, o velho galante, parecia enciumado.
Eu procurava o Panelada porque é personagem do pequeno documentário que vou disponibilizar em breve aqui no Overmundo.
Wander Silva, aluno do Curso de Cinema da Usina de Artes e um dos responsáveis por o curta, conta que trabalhava em outro documentário quando esteve no Senadinho para pedir informações e descobriu ali um excelente tema.
Conversou duas vezes com Panelada e decidiu que seria ele.
Nordestino, aventureiro, dono de algumas frases dignas de serem roubadas, Panelada é figura cativa no Senadinho.
Dizem que fica furioso quando tentam atrapalhar as horas de lazer com campanhas ou movimentos trabalhistas por ali.
Conhece o momento exato de tirar a dama para dançar:
Quando ela começa a mexer o pé!
Diz isso o tempo todo, alguém tem que aprender ...
Não é o que a Sra..
Áurea Rabelo, 63, acha.
«Chego aqui com vontade de dançar e eu mesma chamo quem eu acho que vai me levar direito.
Se balanço o pé sozinha, é porque não encontrei ninguém ainda.
Mas se me tiram pra dançar, eu não rejeito.
Não se faz uma desfeita dessas."
Há oito anos, a Fundação Estadual de Cultura começou a pagar uma banda para divertir os idosos que faziam de ali um lugar de reencontro com o passado.
Além de comentarem as fofocas da cidade, relembravam também os antigos «assaltos», festas preparadas para surpreenderem os amigos no dia de seus aniversários.
Em essas festas, geralmente ao ar livre, tiravam senhoras e meninas para dançar até terem coragem de convidar as moças.
Muitos romances nasceram assim.
Enquanto ouço suas lembranças, quase consigo cantar «Pedacinho do céu»,» Eu sonhei que tu estavas tão linda», «Carinhoso».
Mas eles não admitem que a saudade do que passou supere o que vivem hoje.
E assim volto a falar da falta de pressa.
De o momento em que chegam até a música começar leva um bom tempo;
dos passos sozinhos até dançarem acompanhados foram longos minutos de conversa, dos sorrisos lagos aos intervalos para os comentários sobre parlamentares que também matam ali a vontade de dançar (seria só isso?)
pode-se creditar vários encontros.
Coisas assim, pequeninas.
Alunos de uma universidade distribuem uma camisa branca da campanha de violência contra idosos.
De essa vez, Panelada não se aborreceu.
«Você será um idoso um dia», era mais ou menos o que vinha escrito.
A maioria vestiu com boa vontade e continuou o que estava fazendo.
Em os rostos dos jovens senhores do Senadinho há marcas do tempo, mas não há cansaço.
Eles se cumprimentam e continuam a conversa de onde pararam, abraçam seus pares e dançam sem conversar, trocam a música, muda o dia, sempre som seus passinhos pequenos e fala lenta que fazem as duas horas de encontro parecerem quatro muito bem aproveitadas.
Número de frases: 78
«V ixe, como tem Zé / Zé de baixo e Zé de riba / Esconjuro com tanto Zé / Como tem Zé lá na Paraíba».
Assim diz o contagiante refrão de um dos maiores sucessos de forró de todos os tempos (Como tem Zé na Paraíba) gravado por um dos maiores cantores e ritmistas que o Brasil conheceu:
um certo Zé, nascido José Gomes Filho.
Filho genuíno da arte, o paraibano José Gomes (que nos deixou, no ano de 1982, com 62 de idade) ficaria mundialmente conhecido e imortalizado como «Jackson do Pandeiro».
O forró é um ritmo tipicamente nordestino.
Este gênero musical foi difundido -- a partir do final da década de quarenta, em todo o país e exterior -- principalmente por Jackson do Pandeiro e por o cantor / compositor e sanfoneiro pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento (o Gonzagão -- Rei do Baião), que fez marcante parceria, em boa parte da sua obra, com um conterrâneo seu de nome Zé:
José de Souza Dantas Filho, o Zé Dantas, co-autor de centenas de sucessos como «A Volta da Asa Branca», Riacho do Navio» e «O Xote das Meninas».
Atualmente, o forró faz parte das programações de FM's e dos repertórios de festas de todo o Brasil, conquistando a admiração de um imenso público de diversas faixas etárias e de todas as classes sociais.
Nos nossos dias, um dos grandes mestres deste estilo musical original é um outro Zé:
José Domingos de Morais -- o Dominguinhos -- de Garanhuns / PE, e que no início da carreira foi apadrinhado por Luiz Gonzaga.
Mas será que somente os nordestinenses (os nascidos e vividos naquelas paragens forrozeiras) estão compondo e / ou executando o forró autêntico do nosso país?
Será que apenas os artistas daquela importantíssima região possuem no sangue a pulsação especial e o suingue característico do forró pé de serra, do xote, rojão, xaxado, coco ou baião?
Será que sim ou será que não?
Pois é ...
Quem pensar que sim, estará redondamente enganado.
Quem assim pensar, precisará urgentemente rever os seus conceitos.
E para não haver banzé, bem como para provar o que estamos a afirmar, temos que trazer à baila mais um Zé.
Ou melhor:
um Zezinho.
Não um simples Zezinho, mas simplesmente Zezinho do Forró:
José Barbosa dos Santos, um músico / cantor e compositor talentoso, nascido -- há quarenta e poucos anos -- aqui neste torrão guaicuru (mais precisamente, na cidade de Deodápolis).
Artista nascitur, vindo ao mundo sob a influência de outras vertentes rítmicas e culturais, Zezinho poderia ter implementado sua carreira interagindo e trabalhando com os estilos musicais tradicionais da região que lhe serviu de berço (belíssimos também, diga-se de passagem).
Entretanto, quiseram as musas do Parnaso que este proficiente cantador viesse -- por opção e por vocação -- contrair identidade natural com o Forró:
o ritmo nordestino que, aliás, embalou seus ancestrais.
Residente em Campo Grande e referência de forró no Estado do Mato Grosso do Sul, Zezinho já está na estrada musical há mais de vinte anos.
Já deu à luz cerca de 150 composições e possui um CD gravado (" Rapadura, Forró e Coco», lançado em 2002).
Faz shows, em eventos locais e em outras regiões, tocando e cantando suas músicas e também sucessos dos grandes nomes nacionais.
Estudioso e colecionador da riquíssima literatura de cordel (arte popular que teve Zé Limeira como seu maior mito), o nosso Zezinho -- a exemplo de outro Zé (o Ramalho, da Paraíba) -- aborda também, com maestria, os matizes desta centenária expressão cultural em grande parte da sua produção.
Sim, o Mato Grosso do Sul tem forró!
Sim, o MS tem Zezinho!
Zezinho do Forró. Um cantador sul-mato-grossense nascido Zé, que -- numa integração isomórfica e absoluta -- incorporou ao seu estilo de vida uma identificação espontânea e, assim, tornou-se especial, haja vista a sua presença e atuação através das sendas originais da envolvente arte nordestina que imortalizou Gonzagão e aquele outro Zé apelidado Jackson.
* * * -- Ouça um pouco de Zezinho do Forró, nosso querido amigo e parceiro, neste link = \> * * --
Em o mesmo site, pode-se ouvir também algumas composições de Rubenio Marcelo.
Veja o link = \> ®
Número de frases: 34
Rubenio Marcelo Você já imaginou encontrar uma carruagem puxada por cavalos sem cabeça, de onde sai uma mulher vestida de preto, oferecendo uma vela acesa?
Seria assustador, não?
Pois se trata de uma das mais famosas lendas da história social de São Luís, atribuída a uma poderosa mulher chamada Ana Jansen.
Figura real, Ana Jansen Pereira Leite, a Donana, como era mais conhecida, viveu de 1787 a 1869.
Durante aquele período foi a pessoa mais rica do Maranhão, o que incomodou e despertou o preconceito de muitas personalidades, especialmente homens influentes da sociedade maranhense, que não aceitavam uma mulher possuir tanto poder.
Por isso, levou fama de má e de impiedosa.
Agora, a lenda da carruagem e de algumas das histórias que circundaram a vida de Donana foram traduzidas para a linguagem dos quadrinhos, por as mãos do desenhista e arte-educador maranhense Beto Nicácio, 35, que lançou recentemente a revista «A Lenda da Carruagem Encantada de Ana Jansen».
A publicação da obra foi aprovada por o programa BNB de Cultura, edição 2006, sendo um dos poucos projetos de São Luís da categoria literatura.
Beto Nicácio explica que publicar a lenda da carruagem de Ana Jansen em formato de quadrinhos é um sonho antigo, resultado da pesquisa monográfica para a graduação do curso de Educação Artística, da Universidade Federal do Maranhão, em 2003.
«O tema sempre me interessou.
De aí, durante a graduação, os professores me sugeriram um trabalho sobre Donana».
Antes de realizar «A Lenda da Carruagem Encantada de Ana Jansen», o quadrinista já tinha abordado o assunto, tendo feito as ilustrações do livro infantil» Quem Tem Medo de Ana Jansen», obra lançada em 2002, do escritor maranhense Wilson Marques.
Para realizar o trabalho recém-lançado, Beto Nicácio pesquisou basicamente livros de história do Maranhão e obras que tratam da aplicação educacional dos quadrinhos.
Aliás, «A Lenda da Carruagem Encantada de Ana Jansen» tem caráter pedagógico.
Toda a tiragem já foi distribuída para escolas públicas municipais de São Luís.
Além disso, a publicação vem com um caderno de atividades para os alunos responderem.
Ele acrescenta que a revista contribui para o conhecimento da cultura da região.
Além disso, os quadrinhos auxiliam e estimulam o aprendizado.
«Apresentar estas lendas de Ana Jansen como proposta pedagógica nas escolas partiu da necessidade de despertar o interesse dos alunos por a cultura local e por a riqueza imaginativa dos contos e lendas.
A linguagem dos quadrinhos possibilita este acesso de forma divertida e atraente», completa.
As Histórias
Em «A Lenda da Carruagem Encantada de Ana Jansen», ele aborda além da lenda do título, que costumava assustar os moradores do Centro Histórico, de São Luís, a história sobre o rico e influente comerciante Antônio Meireles, que para desmoralizar Ana Jansen, mandou fazer centenas de penicos na Inglaterra, com a imagem de Donana estampada no fundo do objeto, sendo carregada por escravos.
Os penicos foram todos vendidos, mas quem os comprou foi Ana Jansen, através de intermediários.
Um dia, ela mandou os escravos quebrarem os objetos lotados de cocô, na porta da casa do comerciante.
«Se hoje uma mulher com domínio político ainda incomoda, imagine no começo do século XIX?
Pois a revista questiona justamente isso.
Em a realidade, Donana tinha uma postura de vanguarda.
Era independente, muito rica e mãe solteira, o que causou o ciúme de muitos políticos, comerciantes, jornalistas e fazendeiros locais», afirma Beto Nicácio.
Outra lenda importante tratada na obra é a história sobre a sabotagem realizada no deposito de água da companhia que realizava o abastecimento de São Luís.
Consta que antes da instalação da empresa na capital do Maranhão, que trouxe água encanada para a cidade, quem vendia água de porta em porta, em carroças pipas, era Ana Jansen.
Assim, depois de perder o mercado, ela resolveu jogar gatos mortos nos depósitos da companhia concorrente, para contaminar a água.
Sem citar o nome de Donana, a história de fato está registrada nos documentos oficiais da Companhia de Águas e Esgotos do Maranhão, Caema.
Por último, há o episódio da compra da alforria de uma escrava.
Isso, para amenizar a fama de má de Donana, que já estava espalhada por a capital.
O Autor
Beto Nicácio é bastante conhecido dos amantes da nona arte no Maranhão.
Já publicou em várias revistas nacionais e com o grupo SingularPlural produziu as revistas Fúria e Fusão.
Ganhador de vários prêmios regionais e nacionais em cartuns e charges, ele também foi indicado na categoria de melhor desenhista revelação para o Prêmio HQMix 2007, considerado o Oscar dos quadrinhos brasileiros.
Quem folhear a HQ vai poder voltar ao tempo e conhecer um pouco mais da situação política, econômica e social de São Luís em meados do século XIX.
Aqueles que quiserem saber mais sobre como o artista produziu a revista, pode acessar o blog www.carruagemencantadanaescola.blogspot.com. Lá, o internauta vai conferir várias etapas da criação da história em quadrinhos, desde o rascunho, até a publicação.
Número de frases: 40
Campo Grande (MS) -- Foi uma grande festa a abertura da 1ª Feira Junina de Artesanato de MS, que aconteceu no último dia 3 de junho no Mezanino do Memorial da Cultura e da Cidadania, em Campo Grande, ao som da dupla Tostão & Guarany.
Esta é mais uma iniciativa inovadora da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) para promover a divulgação e comercialização do trabalho dos artesãos do Estado que utilizam como matéria-prima a cerâmica, fibras, couro, madeira, osso, tecidos, entre outros materiais.
As peças presentes na exposição dão um panorama do artesanato do Estado para quem procura objetos para deixar sua casa mais aconchegante e com um toque da identidade cultural sul-mato-grossense.
Móveis rústicos como bancos, mesas, cadeiras, produzidos em grande parte com madeira de demolição, também compõem a belíssima exposição, que mostra que a simplicidade também tem seu charme.
«Este evento tem a intenção de ligar duas manifestações populares:
a festa junina e o artesanato, que é uma arte que emana do povo e é parte da raiz da cultura brasileira.
Estamos agregando valor para ambos e contribuindo para a geração de renda dos profissionais que se dedicam a esse trabalho», explicou o idealizador do projeto, Américo Calheiros, diretor-presidente da FCMS.
Ainda segundo ele, a 1ª Feira Junina de Artesanato de MS serve como vitrine para mostrar a potencialidade do artesanato sul-mato-grossense.
«Todos os espaços que servirem para dar visibilidade ao artesanato são importantes.
Além disso, nos últimos 15 anos a qualidade do artesanato sul-mato-grossense melhorou muito.
Esta exposição a partir deste ano fará parte do calendário cultural do Estado no mês de junho», afirmou.
O evento conta com a participação da Associação de Artesãos de MS (Artems), Federação dos Artesãos de MS (Fenarte-MS), Sindicato dos Artesãos de MS (Sinart-MS) e União dos Artesãos (Uniart-MS).
A exposição vai até dia 30 de junho, e estará aberta de segunda a sábado, das 10 às 17h30.
A entrada é franca.
«Estamos muito felizes em ter nosso trabalho reconhecido por a Fundação de Cultura, órgão que tem apoiado muito a divulgação da nossa produção.
Espaços como este são importantes para nós», comemorou a artesã Indiana Marques, do Sindicato dos Artesãos de MS.
Em a festa de abertura da feira também não faltaram as comidas e bebidas típicas das festas juninas sul-mato-grossenses.
E a dança também não poderia ficar de fora:
foi representada por o balé da Colônia Paraguaia de Campo Grande.
O Memorial da Cultura fica na avenida Fernando Correa da Costa, 559 (antigo Fórum).
Mais informações sobre a Feira Junina na Gerência de Atividades Artesanais da FCMS, por os telefones 3316-9107 e 3316-9333.
Número de frases: 21
Mais informações sobre o artesanato de Mato Grosso do Sul pode ser encontrado em matéria publicada aqui no overmundo.
Diamantina. Patrimônio Cultural da Humanidade.
Bem no meio do cartão postal, na rua da Glória, emergem manifestações culturais da periferia negra da cidade.
É o «Ponto de Cultura nas Trilhas da» Cidadania Cultural».
«às vezes acho que não é nem trilha é pique, porque é muito difícil abrir clareiras por aqui», conta Márcia Betânia, gestora e uma das idealizadoras do projeto.
Era preciso dar espaço para as novas linguagens e novas formas de expressão que surgiam na cidade.
Grupos de hip hop, capoeira, percussão, funk, grafitti, entre outros.
Márcia teve a percepção de que havia redes sociais emergindo «ainda que num primeiro momento de forma desarticulada» nos diversos bairros da periferia.
Os grupos foram convidados a participar da construção, manutenção e autonomia do Ponto de Cultura.
Os Pontos de Cultura, instituições responsáveis por fomentar a cultura local, foram selecionados a partir de 2004 por meio do edital público Cultura Viva do Ministério da Cultura (MinC).
Há hoje mais de quinhentas instituições conveniadas, em todas as regiões do país, que recebem verbas de até 150 mil reais com o objetivo de produzir e documentar manifestações culturais populares.
A expectativa, de acordo com o MinC, é que até o final do segundo mandato do governo Lula, o número de Pontos de Cultura chegue a cinco mil.
Porém, até o momento não há edital aberto para novos projetos.
Em maio deste ano o Ponto de Cultura de Diamantina completou um ano de abertura e continuou desafiando o status quo -- ou seja inovou tanto por trabalhar com a cultura negra (pq isso é uma inovação?
E a Tainã?
E o Mhhob?
É uma inovação em Minas, é isso?)
como por tentar gerar renda e autosustentabilidade para as pessoas atuantes no Ponto de Cultura ao promover oficinas e atividades pagas, com vistas a gerar renda para os participantes do espaço.
A cidade, localizada no norte do estado de Minas Gerais, possui grande importância histórica, seja por sua arquitetura barroca, por sua por a riqueza gerada com a extração de diamantes, seja ou por a presença de figuras lendárias como «Chica da Silva» a escrava que virou rainha».
O diamante foi descoberto na região por os portugueses em 1714 e a partir de então se iniciou-se uma colonização extrativista, ou seja, a região foi povoada para a retirada da pedra preciosa e não para o cultivo de cana de açúcar ou café, como em outras capitanias brasileiras da época.
Este traço histórico ainda gera impacto na cultura local.
«Ainda hoje há essa mentalidade, que não cultiva, que não planta e que não investe, só quer sugar o que já tem pronto» reclama Márcia.
As igrejas e a arquitetura barroca atraem muitos turistas à região, o que torna o turismo uma das poucas fontes de renda da população.
«E o que minha família que mora fora do centro pode conseguir de oportunidade com isso?
Minha mãe chega, no máximo, a ser camareira de uma pousada qualquer», salienta indignado o cantor, compositor e jardineiro Boca.
Pese ao valor histórico de Diamantina e patrimônio que possui, a falta de trabalho e geração de renda na cidade faz com que o sonho de boa parte da juventude seja tentar a sorte em outras paragens.
«Quero ir para a Europa ficar um tempo lá e depois voltar pra ajudar minha família que ficou aqui», sonha Zumbi, que trabalha no Ponto de Cultura.
Nasce deste contexto, a importância do projeto «Em as Trilhas da Cidadania Cultural».
A possibilidade de acesso ao conhecimento, produção audiovisual e auto-sustentabilidade por meio de oficinas artísticas geram esperanças nos jovens da cidade e aponta para um novo caminho rumo a um futuro mais promissor.
Cultura Negra e Patrimônio
Um aspecto interessante do Ponto de Cultura Em as trilhas da Cidadania Cultural é o trabalho com a cultura negra no contexto histórico social de Diamantina, cidade que foi uma das últimas a abolir a escravidão e que possui uma periferia secular.
«Diamantina é negra, acredito que de maioria negra, mas que não se diz negra, construída por esta historia da escravidão, erguida com muito suor, expropriação e exclusão», ressalta Márcia Betânia.
A opressão que data da colonização portuguesa não é menor nos dias atuais.
«Diamantina ainda vive na escravidão, não apanhamos mais no chicote mais apanhamos na cara», denuncia Zumbi.
Entretanto nos dias de hoje estes negros da periferia encontram na cultura uma saída que trabalha com sua auto-estima, lhes dá prazer e vontade de vencer.
Os negros, por séculos excluídos na periferia, reposicionam-se bem no meio do centro histórico da cidade -- trabalhando com uma cultura não estabelecida -- ainda que não se identifiquem muito com aquele patrimônio.
«Essa juventude não tem noção da história de quem construiu este patrimônio, as custas de quem e de quanto esforço e quanta expropriação», questiona Márcia ao mesmo tempo em que Zumbi e boca cantam no refrão de uma de suas músicas que «patrimônio cultural é o iscambau!».
Em 1999, o Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco nomeou o centro histórico de Diamantina como " Patrimônio Cultural da Humanidade.
«O problema é que por causa disso não se pode construir fábricas que seriam uma alternativa de renda para a gente», explica Boca, «tudo por conta do patrimônio».
Uma das regras para a manutenção do status de Patrimônio Histórico da Humanidade é a preservação da arquitectura, «com isso nem lixeiras podem existir no centro histórico», contesta» Zumbi, «para não descaracterizar», explica.
Sendo assim, desde que foi tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade as alternativas de geração de renda e emprego limitam-se à exploração do turismo ainda que uma das reinvindicações sociais da população seja a construção de fábricas e indústrias, fundamentais para geração de emprego e renda e, conseqüentemente, melhor qualidade de vida.
A beleza arquitetônica da cidade é inegável, por outro lado «sabe-se que no âmbito da cultura imaterial» -- aquela cultura intangível das histórias e manifestações culturais populares -- «muita coisa, como os caboclos, marujada, congado, perdeu-se, exatamente por esta política de estado que acabou formando o patrimônio como se fosse somente essa coisa dos bens imóveis e arquitetura», contesta Márcia.
Ou seja, a importância dada a preservação do patrimônio físico, relegou ao esquecimento diversas manifestações culturais populares.
O trabalho com a cultura negra numa cidade que privilegia uma cultura tradicional de igreja e européia é um desafio.
«A grande dificuldade hoje é bater de frente com o sistema», esclarece Zumbi.
Um exemplo é o grafitti «uma expressão artística contemporânea dentro de um processo da história da arte», explica Márcia.
Entretanto, a visão de grafitti como pichação ainda prevalece na cidade.
«Não podemos fazer uma obra nas pedras da Serra do Galheiro», montanha que fica diante da cidade, diz Boca.
«Dentro do Centro Histórico só mesmo na sede do Ponto de Cultura.
Além disso, só temos espaço mesmo nos bairros " complementa Boca.
A falta de compreensão sobre o grafitti como pintura leva Márcia à uma interessante reflexão.
«Tem alguma coisa dentro dessa cidade, deste patrimônio barroco é um gancho para a gente refletir o que partiu da onde até pra chegar nesse grafitti» pensa alto.
Justamente por isso existe um distanciamento da elite da cidade com relação ao que é feito no Ponto de Cultura.
«Poucas pessoas na cidade compreendem a dimensão política da proposta, que vai além da formação audiovisual do ponto de vista técnico, mas quer ampliar e construir essa idéia da cidadania cultural», desabafa Márcia.
Aos poucos esta cultura não legitimada se estabelece na cidade.
Um exemplo foi a realização de um evento público no Dia da Consciência Negra que reuniu cerca de seis mil pessoas na praça, sem brigas nem tumultos.
«Antes do ponto de cultura existir, com exceção da percussão, estes outros coletivos de hip hop, capoeira, não eram incluídos m evento», mas atualmente «de vez em quando eles estão na rádio, às vezes sai uma matéria de jornal», comemora Márcia, ainda que pondere que» ao mesmo tempo acho que existe uma tentativa de não dar visibilidade, por isso temos feito alguns ruídos também».
O simples fato de existir uma freqüência maior de pessoas da periferia no Ponto de Cultura, que fica na rua da Glória já causa certo impacto visual.
«Chamo essa rua da Glória «-- um dos cartões postais da cidade e onde está localizado o prédio do Ponto de Cultura -- como corredor de juventude», diz Márcia que explica que» a partir de ela você faz uma leitura muito rápida acerca do funcionamento da cidade».
Com duas faculdades em menos de cem metros de distância «dá pra se contar nos dedos quantos alunos negros existem» critica Márcia.
O Ponto de Cultura funciona diante de uma escola de arte, «que trabalha exatamente com a classe alta da cidade e com as linguagens que são tidas como legítimas dessa elite dominante daqui que é flautinha doce, a seresta o piano», exemplifica Márcia.
Ao mesmo tempo «estamos aqui com o rap, funk, percussão, hip hop», complementa» Zumbi.
«Em esse momento acho que somos uma pulguinha num elefante, sabe como?
Ela não faz o elefante sair em carreira, mas pelo menos ele já sente um pouquinho de incômodo», faz a metáfora Márcia Betânia para explicar que a existência do Ponto de Cultura nas Trilhas da Cidadania Cultural abala de forma positiva as estruturas da cidade de Diamantina.
Número de frases: 64
O Ponto de Cultura é «um espaço de fronteira, mas não entendendo fronteira como o lugar onde terminam as coisas, mas o lugar onde começam as coisas», diz Márcia que finaliza seu depoimento afirmando que o» desafio é ver como é que a gente se mistura tudo», uma vez que já convivem, mesmo que em lados opostos da rua, a flauta doce e o batuque do tambor.
Levar o maior número de pessoas ao Salão de Humor do Piauí/Brasil, que acontece há 23 anos em Teresina, sempre foi o grande objetivo do cartunista Albert Piauí, uma espécie de Dom Quixote piauiense que se entregou de corpo e alma ao evento e à Fundação Nacional do Humor.
A paixão de Albert por o Salão é tanta que eles já se tornaram indissociáveis.
à frente da FNH ele toca o sino, reza a missa e acompanha a procissão:
corre atrás de patrocínios, faz contatos com artistas de todo o mundo, ajuda a montar cavaletes, organiza as exposições, cobra do poder público o que foi prometido e ainda arruma tempo para ter boas idéias.
Entre elas está a mudança fundamental do Salão, que o diferenciou definitivamente dos outros eventos do gênero:
há dois anos, o evento acontece na rua.
Várias exposições são montadas em diferentes pontos da cidade, o que faz com que um número muito maior de pessoas tenha a chance de ver os trabalhos expostos.
Albert se emociona ao falar sobre imagens que presenciou (e registrou) no Salão de 2005.
«É gratificante ver o homem do carrinho de picolé e os operários da construção civil montados em suas bicicletas parando para ver os desenhos, rindo de eles.
Sem falar nas centenas de estudantes que passavam por os corredores todos os dias.
Isso é a prova de que estamos no caminho certo, que tirar o Salão de Humor de dentro das galerias serviu realmente para torná-lo mais próximo do povo», diz.
As exposições do ano passado foram montadas no Theatro 4 de Setembro, Clube dos Diários, Praça, Central de Artesanato Mestre Dezinho, Avenida Antonino Freire, Palácio de Karnak, Agência Central dos Correios, Praça da Liberdade, Praça São Benedito, Biblioteca Pública Cromwell de Carvalho, Rua Climatizada, Avenida Frei Serafim, Aeroporto Petrônio Portela, Terminal Rodoviário Lucídio Portella, Universidade Estadual do Piauí, Centro Federal de Educação Tecnológica, Faculdade Novafapi e Faculdade Santo Agostinho.
O tema escolhido em 2005 foi o futebol.
Para 2006, o assunto a ser «ilustrado» é delicado e exige muita sensibilidade.
«Nós vamos falar de diversidade sexual.
Escolhemos este tema porque queremos mostrar, através do desenho, que existem formas de humor que também lutam para eliminar preconceitos e idéias erradas sobre a sexualidade», explica o organizador.
O Salão de Humor do Piauí/Brasil 2006 vai acontecer em novembro.
Praça do Humor deve ficar pronta este ano
A Fundação Nacional do Humor existe desde 1987 e nasceu, como outras tantas grandes idéias, numa mesa de bar.
Reunidos em torno do Salão de Humor, que ainda não era internacional, nomes como Jaguar, Glauco, Millôr Fernandes, Paulo Caruso, Ziraldo e o próprio Albert, discutiam sobre o crescimento do evento e a necessidade de criar uma entidade que o gerenciasse.
Conversa vai, conversa vem, os artistas chegaram à conclusão de que uma fundação seria o ideal.
Apesar de ser uma boa idéia, ainda levou quatro anos para ser oficializada.
Uma das grandes conquistas foi o prédio da sede, uma casa grande e praticamente abandonada que nos tempos áureos das décadas de 60 e 70 funcionava como sede campestre do Clube dos Diários -- o point de Teresina no passado, cuja sede oficial funciona hoje, depois de uma revitalização, como galeria e espaço cultural.
A reforma do prédio da FNH é um grande sonho de Albert.
A idéia de ver cheias de gente, livros, desenhos, gibis, vídeos e arte em geral as salas amplas e arejadas da casa, que fica no meio da praça Ocílio Lago, poeticamente plantada entre árvores, faz brilhar os olhos de quem acredita na instituição como forma de valorizar os artistas do humor gráfico.
«O projeto da reforma, idealizado por o arquiteto Júlio Medeiros, prevê que toda a praça seja transformada num pólo cultural, que ela vire a Praça do Humor.
Queremos implantar uma biblioteca especializada, uma sala de cinema e uma escola de arte, para levar crianças e jovens para lá», revela.
O Orçamento Geral da União prevê a liberação de recursos para a obra este ano.
«E o governo do Estado também se comprometeu a ajudar no que fosse necessário quando a reforma estiver acontecendo».
A Fundação Nacional do Humor é parte do projeto Agenda 2015 de Teresina, um plano de desenvolvimento sustentável da capital.
Salão valoriza os novos talentos
Albert Piauí comenta que o Salão de Humor funciona como vitrine para os novos talentos da área.
«É impressionante como o tempo inteiro estão aparecendo novos cartunistas, chargistas, caricaturistas.
É um orgulho ver que gente que começou no Salão, como o Aerlon Charles, o Jônatas, o Nilton, o Izânio, entre tantos outros, hoje são vencedores em outros salões de humor por o Brasil afora."
Entre os artistas piauienses do desenho de humor, um dos maiores destaques é Jota A, que com seu traço inconfundível e seu humor ácido arranca boas risadas de quem observa seus desenhos.
Jota é chargista do jornal O Dia e já publicou dois livros:
Humor todo dia, uma seleção divertidíssima de seus desenhos, e Cara e Coroa, que tem prefácio do mestre Ziraldo.
O chargista Moisés dos Martírios é outro grande talento do humor gráfico.
Diariamente, suas tiradas são publicadas no Jornal Meio Norte.
De a velha guarda, um dos nomes mais lembrados por os piauienses é de Amaral, que revolucionou o mundo das HQs com sua Hipocampo, lançada na década de 80.
Albert afirma que a área do desenho que mais cresce no Piauí é a de histórias em quadrinhos.
«O pessoal do HQ é bem organizado, eles produzem muito, participam das oficinas, são interessados».
Existe um núcleo da FNH que é dedicado aos quadrinhos, coordenado por o desenhista Bernardo Aurélio.
Interior sai na frente em projeto ousado
O município de Água Branca, a 90 km de Teresina, está implantando este ano um projeto que vai mudar a vida de suas crianças e adolescentes.
O Humor na Escola, idealizado por a FNH, recebeu total apoio da prefeitura local.
De acordo com o presidente da Fundação, a educação e a arte têm que andar de mãos dadas, porque juntas operam milagres na cabeça das crianças e dos jovens.
«Separando a educação da arte e da cultura, forma-se homens capazes tecnicamente, mas sem a sensibilidade que só a cultura pode dar ...
A sensibilidade é que faz toda a diferença.
O prefeito Zito mostrou-se sensível e certamente vai servir de exemplo».
O projeto prevê que arte-educadores se integrem ao cotidiano da escola e assim trabalhem nos estudantes o interesse por a arte, incentivando suas criações, observando quem tem bom traço, quem é melhor de argumentação;
plantando uma semente de cultura.
Água Branca é uma cidade pequena, tem cerca de 16 mil habitantes e já realizou dois festivais de humor, com participação maciça da população e exposição de trabalhos de artistas de todo o país.
É o único evento do gênero no interior do Piauí.
Número de frases: 55
Alegorias, exposição composta por uma série de trabalhos recentes de Jorge Duarte;
reafirma a trama de interesses que constituem seu universo artístico.
O sofisticado princípio da alegoria -- representação de uma coisa através da imagem de outra, a fim de por a correspondência tornar palpável um conceito abstrato -- tão caro à história da arte desde sempre encontra seu contrapeso na entusiasmada ironia e humor de um vocabulário que se apropria de uma cultura visual, mais que urbana, fundamentalmente suburbana.
São pinturas e objetos que partem das margens para incidir no seu núcleo interpretativo (que tais como em pinturas antigas tiram proveito da decodificação de um ou outro elemento-chave para a leitura do todo), uma visualidade a um só tempo periférica, acidental, mas também explícita do mapeamento de espaços que separam o belo mundo do mundo ordinário.
Em as suas obras, contudo, esta heterogeneidade fundamental opta por um amálgama fluído e contínuo, como nos constantes deslocamentos e ocupações dos milhares de pessoas que cruzam ambos os espaços.
No seu caso, estas transposições logram superar os abismos que ainda separam estes dois mundos justamente na dissolução da hierarquia visual que os segmenta.
O que são estas alegorias?
Em princípio, o fato de um mesmo trabalho evocar diversas hipóteses de ligação entre a coisa e seu suposto significado é elucidativo, pois nunca se decifra irrefutavelmente algo.
Cada obra é antes um compósito de imagens, que se espraiam tanto por sugestivos títulos quanto por as suas peculiares equivalências visuais.
As duas gigantescas caixas de fósforo que ele cria traduzem-no bem:
vão desde os lemas publicitários à homenagem a um time de futebol e seu ídolo maior (Garrincha), sem poupar um jogo de palavras que beira o humor pornográfico.
Em uma de elas, inclusive, tudo gira em torno deste trocadilho e transita em todos os elementos do trabalho:
o fósforo maior do que a caixa, um novo jogo de palavras com o palito e de ele novamente para o protagonista do objeto ou entre seu antigo clube e um estado de excitação.
Não convergiriam aí uma refinada percepção duchampiana, com a irreverência cotidiana das ruas?
Tal questão desdobra-se na própria formalização dos trabalhos, ao incorporarem a plasticidade inusitada dos letreiros de out-doors de beira de estrada ou do comércio popular (com suas cores fortes simultâneas ao emprego de letras berrantes e, eventualmente, de frases insólitas) e sua relação entre texto e imagem, que muitas vezes concilia o exagero a uma espécie de decantação de uma «sabedoria» popular (como na epígrafe dúplice que sublinha o olho grande / grande olho de outra caixa).
Em outro patamar, a alegoria aparece por uma segunda via, aquela do permanente jogo na arte entre o real e a simulação, ou seja, as coisas são ditas a partir daquilo que as escapa enquanto tal.
Dito de outro modo trata-se da escolha precisa de redundâncias espirituosas que explicitando o senso comum, inquirem sobre nossa capacidade em dirimir voluntariamente o verdadeiro do falso:
nas chupetas de duplo bico -- que de imediato nos aturdem com a incerteza de para quê elas serviriam, posto serem de madeira, ferro, pedra ou ouro (sugestão dos diversos berços de ouro, madeira, papelão, etc, onde cada um nasce, da famosa colher de prata que alimenta alguns de nós na primeira infância?) --,
mas fundamentalmente na condição de parecer e não ser, dito de outro modo, a versão corriqueira do simulacro.
Todas as texturas ali são simuladas, ao ponto de, mesmo na chupeta de madeira, ela ser recoberta com uma pintura de arte simulando os seus veios.
As coisas não suscitam apenas esta relação entre os limites do real e do falso, mas igualmente apresentam-se como metáfora da noção de arte que habita o senso comum e habitualmente se trai, isto é, a verossimilhança que só existe ao negar sua hipotética condição integralmente real.
Ser e não ser, como um eventual itinerário no mundo atual.
Guilherme Bueno, março 2008.
texto de apresentação da exposição Alegorias de Jorge Duarte, Galeria Anna Maria Niemeyer-abril / 2008.
Número de frases: 24
Pequena estória de um cavaleiro gaúcho em terras potiguares
Por " Alexandro Gurgel *
«O tempo é sempre o mesmo, mas sua resposta é diferente em cada folha.
Somente a árvore seca fica imóvel entre borboletas e pássaros!" (
Cecília Meireles) Em uma dessas noites chuvosas de inverno, quando a insônia resolveu chegar sem avisar, meu coração esbravejou de saudades de vários bons amigos que tive ao longo da vida.
Gente que o impiedoso tempo se encarregou de nos separar por as mais diversas razões.
Rememorei algumas histórias de um velho amigo, cujo jeito de fidalgo lembrava um cavaleiro andante em busca de aventuras.
Uma figura alegre, sempre de bom humor, que gostava de receber os amigos em sua casa para saraus e noites de tertúlias.
Tudo regado com um bom vinho seco do Rio Grande e carne assada no ponto certo.
Seus cabelos brancos denunciavam sua longa sabedoria de vida.
Os óculos de grau escondiam um par de olhos azuis, que fitavam as pessoas buscando a compreensão da conversa e a cumplicidade da amizade.
Magro, alto, bem falante, tinha no nome algo um tanto quanto quixotesco:
Dom Veleda de Los Pampas.
Apesar dos rumores afirmando que o amigo não tinha o juízo no lugar, escolhera por profissão estudar embriões dos mais variados bichos da terra.
Dizem a boca miúda, que o cavaleiro Dom Veleda, profundo conhecedor da alquimia e medicina moderna, já fez inseminação artificial, com a maior naturalidade, em formigas saúvas e tanajuras pretas.
Quando o conheci, através de amigos comuns, o nobre gaúcho já era protagonista de diversos roteiros aventureiros em terras cascudianas e, ao longo do tempo, suas estórias têm sido contadas até no Beco da Lama e adjacências.
Como bom notívago, ao som do mais puro forró pé-de-serra, ficava horas escutando o relato das suas pelejas, que pareciam ter saído das páginas de um romance empenado de um escritor nordestino, cheios de maledicências, capaz de criar auroras multicores e plantar feijão no pó.
Apreciando uma aguardente de cana Papary com tira-gosto de churrasco à moda gaúcha na varanda da sua casa, no Alto do Tirol, vendo os ipês-roxos florir entre a imensa vegetação de Mata Atlântica, ouvi sobre a primeira viagem que Dom Veleda fez ao país de São Saruê, terra louvada em prosa por o romancista Nei Leandro de Castro e cantada em versos por o poeta norte-riograndense, Luis Carlos Guimarães.
Entre goles de cachaça e conversas sem fim, os detalhes de algumas façanhas do cavaleiro viajante vão sendo contados para os presentes, extasiados com as proezas do aventureiro, ávidos por as suas estórias maravilhosas.
A o chegar a São Saruê, acompanhado por o valente caboco Ojuara, o cavaleiro gaúcho de Los Pampas viu grandes paredes de cor estranha e cheiro adocicado.
Lambeu a rocha.
Era rapadura japecanga da melhor qualidade.
Ojuara deu uma colher para que o fidalgo gaúcho tirasse da rocha um pedaço grande.
Comeram de enjoar, eram doidos por rapadura.
Meia légua adiante, quando a rapadura começou a dar sede, foram em direção de um barulho d' água.
Esbarraram na beira de um riacho que corria e se perdia numa curva entre rochas de rapadura.
Só depois de acostumar as vistas, perceberam que o riacho era do mais puro mel de engenho.
Em o sertão encantado do Seridó, participou de um festival gastronômico de fazer inveja aos mais sofisticados restaurantes do mundo.
Em menos de uma semana em Caicó, se empanturrou das diversas iguarias que a cozinha nordestina pode oferecer:
carne de sol assada, mel de abelha, coalhada, macaxeira com manteiga de garrafa, queijo de coalho, panelada, buchada, rabada, galinha de cabidela, guiné torrado, sarapatel, lingüiça do sertão, paçoca, coxão de porco, tripa assada, farofa de bolão, baião-de-dois, cabeça de bode, costela de carneiro, sopa de traíra, ova de curimatã, agulha frita, ginga no dendê, titela de nambu, arribaçã na brasa, cuscuz, tapioca, bolo preto, bolo-da-moça, doce de jerimum com leite, arroz-doce, doce de mamão verde, ostra no coco, pamonha, canjica, elém de licores de jenipapo, de pitanga e de jabuticaba.
Grande apreciador de livros, o nobre cavaleiro costumava visitar os sebos do Grande Ponto procurando obras raras e edições esgotadas que contasse suas andanças por o mundo.
Leitor assíduo da literatura nordestina, Dom Veleda fez intercâmbios culturais, por dias a fio, com Ariano Suassuna, um dos maiores mestres literário de Pernambuco, quando discorreu sobre as tradições gaúchas e lhe foi mostrado toda a beleza poética do Movimento Armorial.
Em Natal, teve enorme afinidade com o alfarrabista e editor do Sebo Vermelho, Abimael Silva, que lhe presenteou a obra do Mestre «Câmara Cascudo, História do Rio Grande do Norte».
Conheceu de perto o poema em processo do poeta semiótico Falves Silva, além de ter adquirido várias obras de arte de alguns artistas plásticos natalenses.
Sua vida intelectual era recheada de metáforas nas confrarias boêmias natalenses.
Nosso herói gaúcho começou a se sentir cansado de tantas desventuras no sertão e litoral potiguar.
Achava injusto ter que voltar à sua tranqüilidade nos pampas gaúchos sem levar com si a formosa esposa nordestina Ariane de Toboso para se dedicar somente a libertar os oprimidos, salvar princesas em torres de castelos e derrubar gigantes para a honra e glória de sua nobre dama.
E embora lhe fosse difícil resistir às lágrimas e pedidos de todos os amigos para que ficasse em Natal, Dom Veleda de Los Pampas resolveu partir, numa tarde de um sábado tristonho, para se aquietar na sua aldeia e no seio da família no sul do país.
* Alexandro Gurgel é jornalista em Natal-RN e já foi um dos mais fieis escudeiros do mui famoso cavaleiro gaúcho Dom Veleda de Los Pampas.
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Motorista, dá pra ir por o mar que a paisagem aqui ficou dura demais para os meus cachos dourados de parafina?
O Fato Literário é uma premiação anual que ocorre no período da tradicional Feira do Livro de Porto Alegre, premiando instituições, projetos e personalidades que se destacam por a sua atuação no mundo das letras, no incentivo da leitura, na facilitação do acesso aos livros.
O anúncio da premiação de 2007 foi feito no último 11 de novembro, no fechamento de mais uma edição da longeva (e esperamos eterna) Feira do Livro da capital gaúcha.
Vencedor do Prêmio Fato Literário 2007 na categoria «projeto» por a votação do júri oficial, o Projeto Literatura Infantil e Medicina Pediátrica:
uma aproximação de integração humana (PLIMP) consiste numa iniciativa das faculdades de Letras e Medicina da PUCRS, que tem por objetivo levar a magia dos livros às crianças internadas por o Sus no Setor de Pediatria do Hospital São Lucas da universidade, através da narração de histórias realizada por alunas do curso de Letras.
As crianças internadas encontram-se forçosamente afastadas de sua normal rotina escolar, de seus amigos e professores, de seus jogos e dos livros.
O projeto, assim, do qual tive a felicidade de participar durante o ano de 2002 (embora não fosse aluna da Letras, mas uma «estrangeira» vinda do Direito), busca atuar no sentido de mitigar os efeitos do afastamento provocado por a internação, possibilitando às crianças ouvir histórias fabulosas, imaginar mundos diferentes, soltar sua fantasia, entrar na atmosfera mágica (e curativa) dos contos de fadas.
A merecida premiação chega no ano em que o PLIMP comemora 10 anos de existência, graças à idealização e coordenação da Profa..
Dra. Solange Medina Ketzer, bem como graças ao trabalho contínuo, feito com amor e convicção, por a Profa..
Dra. Maria Tereza Amodeo, que atua diretamente ao grupo de «contadoras de histórias», partilhando não apenas de suas alegrias, dos momentos belos e gratificantes, como também dos momentos de dúvida, impasse e tristeza que inevitavelmente surgem quando se atua num ambiente delicado como aquele hospitalar e pediátrico.
E, sobretudo, guiando um trabalho que, longe de efetivar-se apenas nas periódicas sessões de narração no hospital, exige preparação e envolvimento (profissional e afetivo) muito mais amplos.
O Prêmio Fato Literário 2007 ainda premiou, na votação por o júri oficial na categoria «personalidade», o excelente escritor e contista gaúcho Sérgio Faraco;
e na votação por o júri popular, o Projeto Ler em Casa, bela iniciativa da Prefeitura de Picada Café que faz circular sacolas repletas de livros por todas as residências do município.
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A ação é resultado de negociações iniciadas em fevereiro na Feira de Música do Brasil que aconteceu em Recife.
Músicos amapaenses agora têm espaço na maior empresa de comercialização e distribuição de música digital e via celular da America Latina, trata-se do site imusica.
A ação é resultado de negociações iniciadas na Feira de Música do Brasil em Recife, articuladas por o Sebrae em parceria com Ministério da Cultura, na qual artistas locais estiveram participando da Rodada de Negócios Internacionais com várias empresas do segmento.
A parceria se consolidou em julho, e algumas músicas amapaenses já podem ser encontradas no site.
A princípio os artistas Marcelo Dias, Natal Vilar, Osmar Junior e Delso Moreira, são alguns dos artistas que já estão com contratos fechados no site.
A imusica é uma empresa brasileira líder em serviços business-to business para distribuição, promoção e venda de música digital.
Em a América Latina, é pioneira na distribuição de mídia digital e na venda de download legalizado de música e vídeo por a internet.
Com 500 mil músicas licenciadas para venda, possui contratos de licenciamento com todas as gravadoras majors, com 300 gravadoras independentes e mais de quatro mil editoras no Brasil.
A imusica é o canal de exportação do conteúdo das gravadoras brasileiras independentes para as principais music stores internacionais como iTunes, Napster, MSN Music, Yahoo!
Music, Rhapsody, FNAC e VirginMega.
Em o Brasil, é o provedor de conteúdo e a plataforma white label de música para sites de e-commerce, portais de conteúdo, empresas de bens de consumo e de entretenimento, operadoras e fabricantes de celular e canais varejistas.
A empresa imusica utiliza a tecnologia Windows Media DRM para distribuição, promoção e venda de música digital.
Este padrão é aprovado por as grandes gravadoras, empresas e estúdios de cinema, que inibi a pirataria, impedindo que a música venha ser copiada várias vezes.
Segundo o Gestor do Projeto Núcleo de Economia da Cultura, do Sebrae, «Maikon Richardson,» Hoje a imusica tem centenas de lojas vinculadas a empresa que comercializam músicas no Brasil e exterior, a mais recente é o lançamento da nova loja da Transamérica, a www.mercadodamusica.com.br, diante disto podemos comemorar, pois por meio desta parceria, a música amapaense está ganhando novos espaços no Brasil e no mundo», destaca.
As músicas dos artistas amapaenses estão disponíveis nos sites:
www.imusica.com.br ou www.imusica.com.br/ Estilo.
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Serviço:
Sebrae no Amapá
Número de frases: 19
Assessoria de Comunicação: (96) 3312-2832
Escolha uma tarde qualquer de qualquer dia do mês.
Fins de semana, dias úteis, não importa.
Indo ao município de Marechal Deodoro, a primeira capital alagoana, localizada a 21 km de Maceió, a cena vai ser a mesma:
nas portas de casas antigas e nas praças, mulheres de todas as idades tecem seu filé, um bordado típico do Estado, cujo ponto é inspirado e feito nas redes de pesca.
O material produzido é muito mais do que uma tradição que passa de mãe para filha a cada geração:
é o complemento da renda familiar dos moradores que sobrevivem muitas vezes da pesca realizada na Lagoa Manguaba.
É uma arte que atravessa a vontade, que se sobrepõe ao talento.
É uma multiplicação das possibilidades, em meio à poluição que vai matando os peixes e à economia que vai sufocando o dia a dia.
E o ofício, cujo resultado é bonito de se ver e de se vestir, também tempera de cores uma cidade que ainda mantém as características de interior, com crianças brincando nas ruas com soldados de papel.
O filé não é uma exclusividade de Marechal.
É encontrado em todas as feiras da cidade, em formas de saias, chalés, blusas, vestidos, saídas de praia, faixas de cabelo e cintos.
Entretanto, o município é um dos principais pólos produtores e exportadores de Alagoas.
A cidade, aliás, tem no turismo sua principal fonte de renda.
Não tanto por ser um ponto histórico -- foi fundada em 1636 -- mas principalmente por abrigar alguns dos lugares mais bonitos de Alagoas, como a Praia do Francês, e possuir um atrativo de dar água na boca, o pólo gastronômico da Massagueira, antiga vila de pescadores.
Além disso, é um pólo cultural:
é lá que vive o Seu Nelson da Rabeca, 74 anos, instrumentista auto-didata que se encantou com um violino na TV, aos 53 anos, e decidiu fabricar rabecas em casa.
É considerado um patrimônio vivo da cultura alagoana e, por isso mesmo, ganhou uma estátua numa das entradas do município.
Mas voltando às filezeiras:
como não é o espontaneismo que garante a sobrevivência e a vida de ninguém, garantir o ganha-pão das famílias passa também por uma questão de incentivo.
E foi a partir dessa idéia que os fios do filé foram se fortalecendo entre as moradoras, independente da idade.
Um incentivo que muitas vezes não vem de fora, mas de dentro.
Surge como necessidade num lugar onde a economia acaba que direcionando a escolha.
Nada muito diferente de outros espaços.
Tecendo as malhas
O filé tem uma simbologia muito forte:
suas cores, para as artesãs, representam a expressividade da cultura alagoana.
As formas que encantam os visitantes da pequena cidade lagunar também são importante fonte de renda para as famílias de pescadores.
A maioria de elas sobrevive da pesca, fazendo valer o ditado popular que diz que onde há rede, há renda.
As artesãs vão compondo as peças com desenhos próprios.
Primeiro elas trabalham a «malha» trançada com fio de algodão cru ou linha.
Logo em seguida, é colocada numa grade para ser preenchida com os desenhos.
Elizângela Sampaio tem 27 anos e mora em Pueira, um bairro de pescadores em Marechal Deodoro.
O ofício de filezeira, como ela denomina, exerce desde criança.
A os sete anos foi tomar aulas com D. Zezé, a principal instrutora da cidade e mestra de grande parte das artesãs de Marechal, hoje falecida.
Em a família de Elizângela, também a mãe e a irmã desempenham o mesmo trabalho.
O jeito com o material ela já tem desde de pequena.
«Acho que herdei de minha mãe, que é costureira», acredita a artesã.
E já está transmitindo para a próxima geração da família.
A filha de Elizângela de 4 anos, Alexia, está começando na arte.
E basta andar mais um pouco por as ruas antigas da cidade que outras discípulas de D. Zezé começam a surgir.
Fátima dos Santos, 26 anos é uma de elas.
Prevendo um futuro como artesã, ela se inscreveu ainda adolescente no curso oferecido por a prefeitura da cidade e ministrado por D. Zezé.
O local era a Igreja de São José, situada numa simpática pracinha de mesmo nome.
E assim foram sendo formadas gerações de filezeiras.
Valderez dos Santos tem 29 anos.
Diferentes de suas vizinhas, ela aprendeu o bordado em família, com uma prima artesã.
Divide seus dias entre os afazeres como atendente da lanchonete da prefeitura, na Praça São José, e com as malhas do filé.
«Em as horas mais calmas eu faço filé no batente da lanchonete.
É bom para distrair e acalmar.
Mas dói demais a coluna», reclama a artesã.
Por ali, nem dá para perceber que no relógio correm as horas, que o bordado é um trabalho e que, muitas vezes, vai garantir o sustento da família.
Não há patrão para exigir.
Mas isso não significa um lucro bruto.
Suas peças geralmente são vendidas e revendidas por um valor bem inferior daquele pago por o consumidor final, se este resolver que o shopping é a melhor opção de compras.
A renda é a fonte de renda
O filé movimenta a economia da cidade.
Cada peça produzida é vendida por as artesãs a 10 reais.
Já nas lojas de artesanato, o preço final pode chegar a até 50 reais.
A especulação e a apropriação do trabalho das filezeiras afastam qualquer pretensão de aumento da renda.
Se pelo menos a metade do preço final dos comerciantes ficasse nas mãos daquelas que produzem, talvez as condições de vida da população fossem mais dignas.
As peças fabricadas nas praças e ruas de Marechal Deodoro ganham outros estados e até o mundo, geralmente por as mãos de estilistas que apostam na arte do filé para compor suas peças.
É fácil encontrar blusas fabricadas por as filezeiras de Marechal nas praias de Boa Viagem, em Recife, ou em shopping centers de diversas capitais nordestinas.
Provavelmente, se fossem adquirir as peças que elas mesmas fabricaram nesses lugares, não teriam como pagar por elas.
E assim as malhas do filé trazem renda para as famílias lagunares e impulsionam a vida da histórica Marechal Deodoro.
E nós, fiéis admiradores das mãos que tecem o destino, seguimos torcendo para que o colorido dessa arte não se perca nos caminhos escuros da especulação.
Número de frases: 66
Há uma falsa percepção sobre o Piauí por o Brasil afora.
E não apenas sobre o meu Estado, mas sobre todo o Nordeste.
Por desconhecimento, a maioria das pessoas imagina a região como um bloco homogêneo.
Erro total.
Há muitos nordestes, com seus sotaques, suas danças, artesanato, coberturas vegetais, cozinhas.
E quando se fala em cozinhas, as diferenças se acentuam, a não ser por o traço comum do gosto por temperos fortes e um pouco mais de sal que o restante do Brasil.
Muitos imaginam que no Piauí se come muito caprino, aqui entre nós o velho e bom bode.
Um erro.
Não chegamos ainda a este nível de sofisticação.
O bode entre nós somente agora está ganhando seu merecido espaço gastronômico, inclusive com festas municipais e um festival organizado em Teresina por o Sebrae.
Come-se muito mais picanha na capital do Piauí que um ensopado de bode ou um arroz com bode -- uma espécie de risoto crioulo, pouco molhado, preparado com a carne caprina seca, temperos que lhe conferem um perfume forte e um sabor de guardar por muito tempo na memória.
Em o Piauí, acredito, existe um traço gastronômico incomum:
o capote.
Para os que desconhecem o termo ou o confudem com vestimenta ou com Truman Capote, esclareço logo:
trata-se de uma ave, também conhecida como galinha d' angola ou guiné, como se diz no Maranhão.
Antonio Houaiss, em seu Dicionário, definiu como prato da cozinha piauiense que mistura galinha-d' angola com arroz e arremata o tempero com pimenta-de-cheiro.
Aqui, como em nenhum outro canto do Brasil, aprecia-se essa ave de origem africana, que em Angola, seu habitat, é chamada de galinha do mato.
Portanto, lá como cá, o capote não foi totalmente domesticado.
Seguramente está nessa característica selvagem seu sabor especial, que não é acentuado, mas que deixa no chinelo outra iguaria muito apreciada em nossa terra, a galinha caipira -- galinha de capoeira para os pernambucanos, sergipanos, alagoanos e paraibanos.
O consumo de capote no Piauí é hábito tão comum que o Estado seguramente é o único no Brasil onde existem restaurantes especializados no preparo da ave.
Em Teresina, há o Capote com C Maior e o Capote da Dalva.
Em Campo Maior -- 70 quilômetros de Teresina -- há pelo menos cinco restaurantes especializados.
Em a capital, o capote faz parte do cardápio de um grande número de restaurantes.
Basicamente, come-se capote ao molho (pardo, leite de coco ou molho comum, com urucum), frito e misturado com arroz.
Em qualquer uma das versões, uma festa para papilas gustativas, que se aguçam ainda mais com o toque da pimenta de cheiro que acompanha ou com o pegado, que consiste no arroz queimadinho do fundo da panela em que se prepara o capote.
O capote ou galinha d' angola ou guiné é, verdadeiramente, pelo menos para mim, o mais legítimo representante da culinária do Piauí.
É claro que não rouba o lugar da maria-isabel, que está também presente em qualquer restaurante ou do doce de limão, essa raridade muito piauiense.
Ocorre é que se come compata de limão em Goiás e existe maria-isabel até em Mato Grosso.
Porém, duvido que naqueles dois Estados haja consumo tão amiúde de galinha d' angola como aqui entre nós.
Número de frases: 29
Foi dessa forma, meu caro leitor, que encontrei um título que pudesse chamar a sua atenção.
Em meio a tantas notícias nada agradáveis, o humor ainda é a melhor pedida para este caos todo que estamos vivendo.
E os culpados de tudo isso atendem por o nome de Antropofocus™.
O grupo de teatro de Curitiba está em cartaz neste último final de semana em dose tripla para fazer você cair na gargalhada.
Pequenas Caquinhas, Amores e Sacanagens Urbanas e Esteriotipacionices são as três peças de sucesso escolhidas por quem mais quer rir -- e muito -- de novo:
o público.
Este feedback apresentado no Teatro Regina Vogue mostra que o Antropofocus™, há quase oito anos se dedica as peripécias no palco, se consolidou de vez entre os grandes grupos humorísticos e espetáculos da cidade.
«A resposta veio do público.
A idéia de fazer estas peças alternando os dias acaba trazendo mais gente», conta o diretor Andrei Moscheto que completa:
«Estamos avisando que em agosto temos peça nova, e as pessoas logo perguntam: '
E quando vocês vão apresentar de novo? '»,
revela o ator referindo-se os espetáculos citados no texto acima em cartaz.
Andrei diz que o Antropofocus™ surgiu na Faculdade de Artes do Paraná, quando quatro dos seus atuais integrantes estavam insatisfeitos com as comédias feitas na cidade:
«A gente pensou em fazer coisas diferentes das comédias apelativas que estavam sendo apresentadas ao público, e fizemos».
Ao todo o grupo tem sete espetáculos no currículo e os atores que dão vida aos hilariantes personagens são Andrei Moscheto, Anne Celi, Anri Aider, Célio Savi, Danilo Correia, Hélcio Pimental, Jairo Bankhardt, Leo Oda, Marcelo Rodrigues e Vitor Hugo.
Um detalhe que merece destaque é o processo de criação feito desde o início do grupo, que se deve ao esforço e ao trabalho coletivo, e não apenas de um ator.
O improviso dos comediantes em cena também é outro diferencial, sem contar da divertida interação com a platéia.
«As pessoas se empolgam bastante para participar.
Em o começo quando pedimos a colaboração, muitas ficam tímidas.
Mas depois de um tempo, todo mundo se solta, berra o assunto para a gente encenar no palco», revela Andrei.
Fazer os outros darem risadas é um trabalho difícil para um ator, tem que ser no tempo certo para conseguir arrancar gargalhadas da platéia.
Mas será que tem alguém que não ri do que o grupo faz no palco?
«Ás vezes têm pessoas que não gostam, ficam emburradas e daí a gente age: '
Vamos atrás desse sujeito que não deu risada '.
Mas sempre temos o cuidado de ter uma válvula de escape.
Se erramos o tempo da piada ou deu outro problema, a cena seguinte tem que compensar, amarrar a platéia para que todos achem graça».
Mas teve um caso que Andrei faz questão de contar:
«Uma vez fomos ao Festival de Teatro de Sertãozinho e na platéia tinha um médico que era a cara do ex-jurado do programa de calouros do Silvio Santos, o Décio Pitinini.
Pronto, pegamos no pé de ele a peça inteira! (
risos). Só a esposa de ele que não gostou, mas o Décio levou na esportiva», se diverte Andrei.
Esta algazarra toda pôde ser conferida também no Festival de Teatro de Curitiba que aconteceu em março deste ano na cidade.
Para se ter uma idéia, a «briga» foi grande para conseguir um ingresso.
«As pessoas ainda lembram das peças, do nome do grupo.
O festival acaba dando essa oportunidade de encontrar o público», conta o ator que esses tempos recebeu um comentário no site do Antropofocus™:
«Recebi um email de uma garota dizendo que viu catorze vezes a nossa peça e eu respondi: '
Desculpa! ' (risos)», lembra o diretor que sempre pergunta quem veio pela primeira vez assistir ao espetáculo.
«Posso te afirmar que 80 % da platéia são virgens do nosso trabalho, e isso é muito legal».
Por ser um grupo independente que nunca teve um projeto de lei, Andrei alega que pode sim viver só de comédia, mas que por enquanto ainda não é possível.
«O grupo não tem um lucro exorbitante, por isso temos que ter outras profissões, mas acredito que um dia possa viver de teatro», revela o diretor que apenas dois atores do grupo vivem da arte cênica.
Andrei já avisa que em agosto tem comédia nova do grupo:
Contos Proibidos de Antropofocus™ vem com altas doses de humor para fazer o público dar muita risada.
Quem ficou curioso para ver e cair na gargalhada do início ao fim dos espetáculos, que trate de assistir as três peças diferentes a cada noite no Teatro Regina Vogue, para depois não dizer que não foi avisado.
Teatro Regina Vogue -- Estação Shopping
Rua: Sete de Setembro, 2775
Tel.: (41) 2101-8292
Sexta-feira: Pequenas Caquinhas -- 21h
Sábado: Amores e Sacanagens Urbanas -- 21h
Domingo: Esteriotipacionices -- 21h
Ingresso: R$ 20 (ou R$ 10 para estudantes, para quem doar um agasalho ou ir com a camiseta do grupo).
Quem quiser conhecer um pouco mais sobre o trabalho do grupo e acompanhar a agenda de espetáculos, pode acessar o site:
Número de frases: 50
www.antropofocus.com.br Em o início do século XX, precisamente no ano de 1910, durante alguns dias, mais de dois mil marujos movimentaram a Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro, ao tomarem posse de navios de guerra para exigir o fim dos castigos corporais na Marinha do Brasil.
Mas, qual a relação do termo chibatada com um movimento realizado por integrantes da Marinha brasileira?
Por incrível que pareça, nessa época a Marinha do Brasil era uma das maiores potências mundiais, pois, comprou três couraçados (navios blindados de guerra), três cruzadores, seis caças-torpedeiros, seis torpedeiros, três submarinos e um transporte, para reaparelhar a nossa Marinha de Guerra (plano de compra aprovado no Congresso Nacional em 14 de novembro de 1904), assim, o Brasil passou a ter a terceira esquadra militar do mundo.
Entretanto, dos três navios blindados, apenas dois foram realmente adquiridos:
o «Minas Gerais» e o «São Paulo».
Em abril de 1910, o «Minas Gerais» chegou à Baia da Guanabara, era o navio mais bem equipado do mundo, mas, as questões de regime de trabalho, o recrutamento dos marujos, as normas disciplinares e a alimentação deixavam a desejar.
O retardamento das reformas nessas áreas fazia lembrar os anos dos navios negreiros.
Tudo na Marinha, Código Disciplinar e recrutamento, principalmente, ainda eram iguais ao da monarquia.
Homens de bem, criminosos, marginais eram juntamente recrutados para servirem obrigatoriamente durante 10 a 15 anos e, a desobediência ao regulamento tinha a punição de chibatadas e outros castigos conforme nos relata Marília Trindade Barbosa, 1999 (fonte de pesquisa).
Mas, em 16 de novembro de 1889, Deodoro da Fonseca, através do Decreto nº 3 -- um dia depois da Proclamação da República -- acabou com os castigos corporais na Marinha do Brasil mas, um ano depois tornou a legalizá-los:
«Para as faltas leves, prisão e ferro na solitária, a pão e água;
faltas leves repetidas, idem por seis dias;
faltas graves 25 chibatadas».
Os marujos não aceitaram e começaram a conspirar, principalmente alguns que estiveram na Inglaterra e viram a diferença de tratamento dos que lá eram recrutados.
Além disso, corria notícia no mundo da revolta do encouraçado Potemkim.
Em novembro de 1910 o marinheiro Marcelo Rodrigues foi punido com 250 chibatadas deixando evidente o sistema escravocrata ainda no país, ou seja, as duras punições impostas aos escravos antes da Lei Áurea em 1888.
Sendo assim, em 22 de novembro de 1910, comandado por João Cândido Felisberto, a Revolta da Chibata eclodiu:
«O comitê geral resolveu, por unanimidade, deflagrar o movimento no dia 22.
Em aquela noite o clarim não pediria silêncio e sim combate.
Cada um assumiu o seu posto e os oficiais de há muito já estavam presos em seus camarotes.
Não houve afobação.
Cada canhão ficou guarnecido por cinco marujos, com ordem de atirar para matar contra todo aquele que tentasse impedir o levante.
às 22:50, quando cessou a luta nos convés, mandei disparar um tiro de canhão, sinal combinado para chamar à fala os navios comprometidos.
Quem primeiro respondeu foi o'São Paulo ', seguido do ' Bahia '.
O'Deodoro ', a princípio, ficou mudo.
Ordenei que todos os holofotes iluminassem o Arsenal da Marinha, as praias e as fortalezas.
Expedi um rádio para Catete, informando que a Esquadra estava levantada para acabar com os castigos corporais.
Os mortos na luta foram guardados numa improvisada câmara mortuária e, no outro dia, manhã cedo, enviei os cadáveres para a terra.
O resto foi rotina de um navio em guerra». (
Marília Trindade Barboza, João Cândido, o almirante negro, Rio de Janeiro:
Gryphus / Museu da Imagem e do Som, 1999).
Em esse ínterim, João Cândido assumiu a esquadra de «Minas Gerais».
Em o combate morreram o Comandante Batista das Neves, alguns oficiais e muitos marinheiros.
Conforme relato anterior, foram tomados também os navios «São Paulo», o» Bahia «e o» Teodoro», sendo colocados em pontos estratégicos da cidade da Guanabara, logo em seguida foi enviado um comunicado ao Presidente da República solicitando a revogação do Código Disciplinar, o fim das chibatadas e «bolos» e outros castigos, o aumento dos soldos e a preparação e educação dos marinheiros.
Como não tinha outro jeito a dar -- eram 2.379 rebeldes -- e estavam com as mais modernas armas que existiam na época, o Marechal Hermes da Costa e o parlamento cederam às exigências, aprovaram um projeto idealizado por Rui Barbosa -- que tinha apoiado o retorno dos castigos anteriormente -- pondo fim aos castigos e concedendo anistia aos revoltosos.
Portanto, com esse ato, termina vitoriosa a revolta, cuja duração foi de cinco dias.
Finalmente é colocado um ponto final na punição escravocrata disciplinar na Marinha de Guerra do Brasil.
A Revolta da Chibata não pode ser esquecida, a lembrança de João Cândido, o «Almirante Negro» deve perpetuar por toda história.
Esse marinheiro gaúcho, nascido em 24 de janeiro de 1880, demonstrou mais uma vez a coragem herdada dos seus descendentes negros.
Morreu aos 89 anos mas, deixou um legado de luta como exemplo para todos os negros e afros-decendentes do Brasil.
Eis mais um testemunho de sangue derramado, por um ideal de transformação.
Continuemos na luta!
Número de frases: 42
Carreiras, o último filme do dramaturgo Domingos de Oliveira, estreou antes na telinha (Canal Brasil), numa estratégia similar a Dias Melhores Virão, de 1990, de Cacá Diegues.
Baseado numa peça de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha (criador de A Grande Família), o longa, produzido em vídeo digital durante 8 noites, mostra uma noite na vida de uma âncora de telejornal, Ana Laura (a ótima Priscila Rozenbaum), que descobre que perdeu o emprego para uma mulher mais jovem.
Transtornada, cheira muito (daí deriva o título), bebe, fuma, briga com o noivo e telefona.
E como telefona.
Para seus superiores, para sua mentora, entre outros.
De um monólogo (tem coisa mais básica que isso?),
Oliveira fez um filme igualmente simples, que custou alegados R$ 35 mil e inaugura um «novo» movimento cinematográfico, o BOAA (Baixo orçamento e alto astral).
Número de frases: 7
Não curto muito o marquetchim da mendicância, foram distribuídos emails-manifesto assinados por o próprio diretor como meio de promoção do filme, mas no presente caso a gente até releva por se tratar de um filme regular, nada mais que isso, que foge do binômio Nordeste-Favela que tanto assola a cinematografia verde-amarela contemporânea, e que merece uma conferida.
GEJO: como é bem dificil sair coisa corretas nas materias de jornais e televisão, pois distorcem a fala do entrevistado, vou aqui postar uma entrevista das que mais fui respeitado e livre para falar de tudo.
no site bocada forte.
exemplo a ser seguido.
Por:
Gil De todos os elementos do Hip-Hop, o Graffiti sempre foi o mais marginalizado, considerado crime, em alguns países sujeito a penas severas por parte da lei.
Podemos dizer que é arte das ruas mais mal compreendida e sempre confundida com vandalismo.
Vale lembrar que se expressar através de desenhos é uma das formas de comunicação mais antiga entre os seres humanos, data da pré-história esse tipo de manifestação.
Os séculos se passaram e nas ruas de Nova Iorque essa manifestação artística ganhou letras e desenhos estilizados feitos com latas de spray.
Os «marginais», que na escuridão da noite pintavam os trens da cidade, viraram lendas nas ruas de todo o mundo.
O documentário «Style Wars» e o filme «Wild Style» ajudaram a espalhar por o mundo o que era feito nos trens de Nova Iorque e como era feito.
Em o Brasil tudo isso foi muito bem recebido, o Graffiti ligado à Cultura Hip-Hop encontrou aqui um terreno fértil, revelou talentos, grandes artistas das ruas, que hoje expõem seus trabalhos por o mundo, em grandes galerias.
Em a zona oeste de São Paulo temos um grande representante da verdadeira arte das ruas.
Gejo, envolvido com a Cultura Hip-Hop desde 1986, pode ser chamado de «ativista do Hip-Hop», um verdadeiro militante em prol da Cultura e das suas manifestações artísticas.
Além de ser Grafiteiro, ele tem uma marca chamada 9370, apóia e organiza eventos de Hip-Hop, dá oficinas e está, desde o dia 24 de março, realizando a sua primeira exposição, com o nome «Relações Humanas».
Em a exposição, muitos quadros, colagens, obras interativas e uma poesia do Poeta Sérgio Vaz ilustrando a entrada da galeria.
Leia mais sobre a exposição e a história desse guerreiro da Cultura Hip-Hop na entrevista abaixo.
Bocada-Forte:
Comece falando sobre a sua história no Hip-Hop, como e quando começou o seu envolvimento com a Cultura?
Gejo:
O primeiro contato veio em 86 através da moda do Breaking, que por causa do boom as escolas organizavam batalhas de dança (estilo moonwalker e robozinho), mas muita gente chamava de Break.
Arrisquei dançar por algum tempo, incentivado por o meu irmão e outro colega de escola.
Depois veio o Graffiti Hip-Hop, em 88 (baseado em letras), 1 ano depois eu mesmo já arriscava nas ruas.
Nesse meio tempo também atacava de DJ em festas de amigos e quermesses de escola, até que em 92 fiquei só mesmo na pichação, que desde 89 já estava bem quente a cena.
Parei de pichae em 93, mas o sangue pedia mais, então resolvi mudar as regras para arrebanhar mais admiradores.
Freqüentei galerias, centros culturais e até que em 96 fiz um curso de Stencil Art, que já admirava desde 89, por os seus super-heróis e efeitos espetaculares (pelo menos na época).
Depois que sai da oficina, já coloquei na cabeça de lançar uma revista de Graffiti, que só consegui em 2001 e no intervalo criei um fanzine chamado «Luta», que tratava do Hip-Hop e política, arte e questões de cidadania.
Como a revista foi distribuída em vários países, tive que aumentar a gama de produtos para todo Hip-Hop e não mais só o Graffiti, coisa que já fazia desde 98. Assim fui ajudando o Hip-Hop a ficar mais forte, organizando e apoiando festas de Breaking e Rap, onde também sempre tinha os outros elementos.
Também fiquei por um tempo sendo Editor de Graffiti do jornal Estação Hip-Hop e do site Manuscrito.
Até hoje estou envolvido com organizações e todos os elementos do Hip-Hop, não só do Hip-Hop, mas com outros tipos de organizações simpatizantes do Hip-Hop.
B.F:
Em todos esses anos, em quantas cidades você já fez Graffiti?
Gejo:
Em a verdade não tive tantas oportunidades de sair de São Paulo, mas como são Paulo é muito grande já pintei em centenas de municípios, além de Bahia e Distrito Fderal.
B.F:
Você faz ou já fez parte de alguma crew?
Gejo:
Em 89 criei a CDN (Caveiras da Noite), em 92 criei a X-Mens Graffiti, em 96 a X-Graffiti, em 98 a União Graffiti e por fim, em 2000 a 9370 (Nove Três Setenta), que alem de tudo também é uma marca de Hip-Hop nacional.
B.F:
Atualmente como está a marca e você ainda continua vendendo os produtos?
Gejo:
A nossa loja 9370-OSA, ficava em Osasco.
Agora só estamos por a internet, mas estamos para inaugurar as lojas do Espírito Santo e da Bahia.
Em breve também estaremos em Sorocaba, sendo representados por um dos maiores B.
boys do Brasil (Duda -- Suburban Breakers) e se tudo der certo a festa de inauguração será dentro da super festa «King Of Circle», que ele organiza todo ano.
É assim que nos enxergamos, uma verdadeira marca de Hip-Hop, feita por nós mesmos e por quem entende, sofre, sua a camisa para fazer Hip-Hop no Brasil.
Outra coisa legal é que estamos estruturando o lado social da marca, ou seja, organizar festas, oficinas e projetos voltados para o jovem.
Precisamos de dinheiro, toda marca precisa, mas vamos fazer do jeito certo, sem precisar rebolar e sem arrancar todo dinheiro dos manos, como fazem várias marcas «pseudo Hip-Hoper».
Além de sermos pioneiros, podemos nos considerar a primeira loja verdadeiramente Hip-Hop do Brasil, não somos loja de cds, nem de vinil, nem de roupas, nem de Graffiti, somos de todos os elementos, atendemos a DJs, B.
boys, MCs e Writers, além de vários outros como skatistas, pichadores e tudo mais.
Chupa essa manga! (
risos).
B.F:
Hoje em dia o Graffiti está muito presente em grandes galerias, que antes viravam as costas para essa arte.
Você também tem exposto os seus trabalhos em galerias, o que achou dessa mudança por parte das grandes galerias e também dos Grafiteiros, que antes só queriam as ruas?
Gejo:
Em a verdade acho que eu e todos que conheço queriam expor em galerias, muitos só falavam que não, mas na hora que aparece eles vão lá e expõem e isso é normal.
Eu esperei a hora certa, apesar de expor desde 2002 em lugares fechados, só esse ano consegui minha primeira exposição individual.
Até 99 eu não pensava em expor, sempre me preocupei com o lugar onde meus trampos apareciam e queria que as galerias se fodessem, nem pensava nisso.
Hoje já fiz muita coisa e só estou tentando viver de arte ou vamos comer baldes de tinta.
Além de arrebanhar novos admiradores e tentar o meu objetivo, que é comunicar com o máximo de pessoas possível, de classes sociais e bagagem diferentes.
É óbvio que os sites, revistas e net também contribuem bastante, mas as galerias continuam na mesma, só estão por um tempo trazendo alguns artistas para expor, em breve esta novidade vai para a puta que pariu e todos voltam a atenção para novos artistas de novo.
Uma coisa é certa também, elas contribuíram para a diminuir o preconceito artístico em relação a arte do Graffiti.
B.F:
Quais as suas referências e influências?
Gejo:
Basicamente trabalho com sonhos, que vou tendo ao longo do tempo.
Minha linha de trabalho iniciou-se com diversos sonhos, que fui obrigado a interpretar para criar um universo paralelo ao nosso (que no futuro tentarei descrever em livro ou filme).
Misturo isso a algumas filosofias artísticas, de alguns artistas como Basquiat, Haring, Jasper Johns, Andy Warhol, De ali, Granato, Siron Franco, Tunga e depois adapto a vida do povo (peoples).
Uso desde o stencil, como letras de pixação, Hip-Hop, colagens e qualquer suporte que ache legal.
Meu trabalho é mais de intenção do que de decoração.
Não me preocupo com traços, regras, se escorre, se sujou ...
Foda-se!
Só me preocupo com a história que está sendo contada em imagens.
Tento fazer da maneira mais simples, para mostrar para as pessoas que Graffiti é muito mais do que decorar muros e que qualquer pessoa pode fazer, é a arte mais democrática do mundo.
B.F:
Os B.
boys são muito próximos do Graffiti, alguns até pintam e alguns Grafiteiros também dançam.
Já os grupos de Rap, na sua maioria, não são muito próximos do Graffiti, porque você acha que isso acontece?
Gejo:
Até um tempo atrás tinha uma divisão, Writer não ia em festa de Rap, rapper não ia em festas de writers e vice-versa com os B.
boys também.
Graças a várias festas que foram sendo organizadas, como Master Crews, B.
boys e Cia, Batalha Final e outras, muito preconceito diminuiu e vários caras se ligaram que Hip-Hop não era só um elemento.
Hoje já é mais unido, mas ainda precisa mais.
Por exemplo -- vai na casa de algum rapper e vê se o cara tem algum trampo de writer de rua?
Eu nunca vi, nem de camaradas.
Porra, tá sem dinheiro, eu faço mais barato (risos).
Isso não é desculpa para não apoiar um artista da mesma cultura ou querem que só os playboys tenham trampos nossos em casa.
Não estou generalizando, mas não acho certo que só nós, writers, tenhamos que comprar o cd ou a revista que tem o mano cantor ou dançarino, e na hora de apoiar, adquirindo nosso trampos, não tenha uma reciprocidade, ou mudam essa cabeça ou teremos mesmo que só vender para playboys.
E outra, coloquem mais desenhos de writers nos CDs, de 10 cds de Rap, 1 é de writer.
Não peço nada de mais, só que sejam mais unidos e apóiem seus semelhantes da cultura.
B.F:
Em o Rap existe uma divisão entre o «underground» e o «mainstream».
Existe alguma divisão como essa no Graffiti?
Se existe, de que lado você está?
Gejo:
Com certeza no lado underground, fiz tudo que quis até agora, sem grana.
Sempre fui de dar o exemplo, criando coisas originais sem grana e por outro lado, vários caras cheios de grana e incentivo fazem um monte de merda e pagam de «reis do Hip-Hop».
Como já falei antes, preciso de dinheiro, mas não vou rebolar, se aparecer grana estarei lá para pegar, mas sempre com o olho aberto estilo Lampião, o único gangsta brasileiro.
Não vou criticar quem prefere o outro lado, pois não sou eu que os sustento, então não tenho moral para falar dos outros manos.
Só sei o que é bom para mim, tento servir de exemplo, não quer seguir, então foda-se!
B.F:
Sua exposição está em andamento, fale sobre ela.
Qual o tema, que tipo e quais os trabalhos que serão expostos?
Gejo:
A expo chama-se «Relações Humanas» e com ela quero mostrar as relações que as pessoas tem com seus semelhantes -- político / lavadeira / crianças /governantes/policia/ ladrão e outros, suas relações e conseqüências.
Serão apresentados bonecos de pano, recortes em madeiras, telas, papel e esculturas.
Muito humor negro nas situações cotidianas, como a obra «Coletivo 18 hs» e o «Sistema de Castas Brasileiro».
Tem uma obra de arte grátis, na entrada da galeria, se chama «Álbum de Figurinhas», onde apresento um desenho feito em papel de fotografias usadas, aonde cada visitante vai retirando uma e no final forma o mesmo desenho em madeira.
Cada visitante leva para casa um original da obra numerado e datado atrás, mas corram, pois só tem 36 partes.
Até dia 20 de abril estará por lá, no Collégio das Artes, das 15 às 20 horas, de segunda a sexta.
B.F:
O Bocada-Forte firmou um convênio com a SEPPIR (Secretária Especial Para a Promoção da Igualdade Racial).
Como você analisa a importância do Graffiti em particular e do Hip-Hop em geral na luta por a Igualdade Racial?
Gejo:
Acho que o Hip-Hop é a cultura que mais incentiva o Movimento Negro e suas lutas, pois os artistas do Hip-Hop sempre estão na televisão, lançando revistas, jornais, cds, roupas, pintando muros (eu mesmo já fiz várias pinturas, para várias ongs deste segmento), então tudo isso é uma vitória para ajudar a pregar a igualdade racial.
B.F:
Pra finalizar, deixe suas considerações finais e os contatos.
Gejo:
Eu quero agradecer ao Bocada por este espaço, pois muitas mídias não dão liberdade da gente falar a verdade, cortam e editam, mudam a matéria fingindo uma liberdade que não existe.
Agradecer os parceiros que ajudaram na expo:
Isabel, Salleti, Artful, Hulk, Gisele (braço direito), Sérgio Vaz, Manda Adesivos, Irineu (assistente de produção), Maria (costureira) e Antônio (marceneiro), Érica e Marta (montagem da expo) e todos que indiretamente ajudaram para que se realizasse.
Número de frases: 123
www.flickr.com/gejo A interação que a Internet nos proporciona permite que façamos algumas simulações da vida real.
Claro que este é um posicionamento perfeitamente discutível, mas não se trata de questionar visões que negam a existência de sociedades superiores ou inferiores e usam apenas a divisão de sociedades mais complexas ou menos complexas.
De aí podemos afirmar que quanto mais complexa é a sociedade mais ela precisa de conhecimentos dentro da área digital que inclui o uso da Internet e que as menos complexas podem chegar a níveis em que elementos dos «avanços tecnológicos» trazem contribuições quase inexistentes.
Este texto se propõe a tratar de um elemento de uma sociedade inserida dentro do que poderíamos chamar de uma sociedade proporcionalmente complexa no Estado do Amapá, que é a Cidade de Macapá e discorrerá em cima de um pequeno assunto inserido no universo virtual, os blogs.
As diversas formas de interação via Internet se dão, principalmente, entre indivíduos que não se limitam apenas a olhar um site ou abrir seu e-mail.
As pessoas que usam a Internet como meio de comunicação ativa também formam grupos bem definidos em diversos âmbitos.
É o caso dos grupos de discussão por e -- mail, e as de bate-papo por diversão e / ou trabalho como o Mirc, MSN, Skype, e também programas mais específicos como o Orkut que tem suas comunidades temáticas.
Em o Estado do Amapá começa-se a criar-se um novo nicho, o de blogueiros.
Um blog é uma ferramenta alternativa de comunicação em que, geralmente, uma pessoa (blogueiro) acaba assumindo a manutenção do mesmo que consiste, via de regra, em publicar textos inéditos e / ou de relevância num determinado momento, mas este critério é bem mais amplo, pois se acredita que fixar critérios para blogs só contribuiria para o empobrecimento dos mesmos assim como, apesar de existirem, não se perceber critérios para fanzines.
Existem blogs de todas as linhas de pensamento e com características bem peculiares.
Uns falam de sua vida particular, outros juntam tudo, fazem poesia e etc, outros tem linha jornalística sendo este o tipo mais comum, mas existem muitos outros.
Em as grandes cidades existe um tipo de sub divisão destes blogs, já que a linha de cada blogueiro varia bastante.
Este é fator determinante para que existam visitantes de blogs que fazem resenhas de livros, por exemplo.
Aqui no Amapá, devido ao fato deste ser uma prática não muito acentuada, estes nichos acabam não existindo ou sendo quase imperceptíveis.
Seguindo exemplos de outros lugares, aqui existem blogs com características diferentes, mas não são suficientes para que estes blogueiros formem um grupo coerente que realize as interações referentes a práticas mais fechadas em si como comentários, socialização de informação, links.
Por isso é possível se conhecer todos os blogs de Macapá num único dia.
Mas o fato de existir poucos endereços alternativos não é elemento determinante para que a qualidade da produção amapaense nesta área seja pouco satisfatória, pois não se deve negar a importância da existência de mecanismos alternativos de discussão.
Não se trata de afirmar que isso não exista ou possa existir neste micro universo (alguns tem até censura).
Existem muitas pessoas independentes que procuram exatamente o contrário:
publicar novas informações ou até mesmo dentro de suas idéias momentâneas, por mais que sejam absurdas elas sempre geram uma boa discussão.
No entanto, ainda não vejo os blogs como um instrumento totalmente democratizado já que, como já foi dito, a própria Internet está longe de ser essencial ou economicamente viável para alguns, restando assim poucos usuários que não fazem parte da massa dos chamados excluídos digitais.
Esse debate em torno das características blogueiras particulares de Macapá se faz necessário a partir do momento em que percebemos maior interesse por parte de novos visitantes e blogueiros neste micro mundo, principalmente neste ano de 2006 e servirá para que, futuramente, alcancemos boas referências de informações e idéias alternativas.
Eis alguns endereços:
Alcinéa Cavalcante -- Um dos mais famosos blogs jornalísticos da cidade.
O Jornaleiro -- Figura misteriosa na esfera bloguística amapaense, sua identidade é secreta.
É conhecido por fazer críticas toscas a respeito de notícias publicadas em jornais de circulação local.
O Contador de Histórias -- Este é meu blog que avalio como um reflexo de minhas vontades.
Escrevo o que estou a fim.
Número de frases: 28
Faço resenhas de livros, Cd ´ s, divulgação de eventos alternativos e histórias afins.
Quando ouvi a canção Nanananana pela primeira vez num dos episódios da série para a internet Mina & Lisa, fiquei impressionado com a melodia e a voz da cantora.
Não tinha sido eu o único, me contaria o diretor Hélio Ishii que, distraído, não me disse o nome da artista.
Porém, um belo dia, numa dessas malas-diretas para jornalistas, me chegou a tão desejada resposta.
Seu nome é Haikaa.
A moça nasceu no Brasil e passou a vida cruzando fronteiras.
Hoje, como cantora e compositora, junta essa bagagem cultural num projeto que ela chama de Cross Culture Music.
Se o título soa um pouco ingênuo num momento em que a arte vive um processo mais intenso de miscigenação, revela, porém, a intenção de fazer mais que um mix de influências e estilos mas, sim, algo que represente essa geração cada vez mais globalizada.
Por a internet, conversei com Haikaa e divido com vocês um pedaço desse papo.
Roberto Maxwell:
Queria que você falasse um pouco do seu background pessoal.
Você nasceu no Brasil e é nikkei (descendente de japoneses), viveu no Japão e nos Estados Unidos.
Como isso formou a pessoa e a cantora Haikaa?
Haikaa:
Eu fico muito feliz por ter tido a oportunidade de crescer num ambiente multicultural.
O mais importante dessa experiência é poder enxergar a vida de uma maneira mais aberta.
Afinal, o que é certo num lugar pode ser errado em outro e vice e versa.
Eu percebi que o importante é olhar para dentro e sentir, antes de aceitar ou julgar.
Isso determina a maneira como eu vivo e com certeza a maneira como eu faço música.
RM:
A sua música tem influências desses países por onde você passou.
Fala um pouco dessa mistura, das influências, do que você ouvia quando era pequena, adolescente e de como isso entrou no seu trabalho atual:
H:
Eu adoro música desde que sou pequena.
Quando eu era criança, ouvia músicas da jovem guarda, enka, música clássica e principalmente musicais como A Noviça Rebelde.
A música sempre teve o poder de me levar para «um outro lugar».
Eu não sei se as influências na minha música podem ser definidas culturalmente, a não ser por a escolha do idioma.
O mais importante para mim é poder me expressar de uma maneira livre e verdadeira.
RM:
Você canta em japonês, português, inglês ...
Isso não é exatamente um tipo de projeto que costuma interessar às grandes gravadoras.
Por outro lado, a maioria dos artistas está fora desse esquema e, diferente do passado, prefere estar assim.
Você jå teve oportunidade de estar dentro da indústria quando gravou aqui no Japão com o Girls Club.
Como você se posiciona hoje dentro desse mercado?
H:
Por um lado, estar numa gravadora poderia limitar um pouco a minha criatividade já que é preciso se encaixar em algum rótulo para facilitar o trabalho de comercialização.
Por outro lado, ter recursos para divulgar o trabalho e ser ouvida por milhões de pessoas é algo que eu tenho como objetivo e que pode ser alcançado através de uma gravadora.
Estou aberta para diversas possibilidades de viabilização do meu trabalho.
RM:
Fala um pouco do processo de composição das músicas e da gravação de elas.
Como você compõe?
H:
Compor é uma benção, acho que é a maior benção de um artista.
É poder ser um alquimista da vida e transformar tudo em ouro.
Ou seja, você pega a tristeza, a dúvida, o medo e transforma numa bela canção.
Você pega a alegria, o amor, a felicidade e transforma essas emoções numa música que é eterna.
O meu processo de composição é muito flexível.
Eu estou numa fase de compor em parcerias.
Eu tenho dois parceiros com quem eu compus muitas músicas recentemente, o Mercuri e o Braga.
Quando eles me trazem as melodias, eu faço as letras.
Outras vezes, eu componho a música e eles tem a idéia da letra.
RM:
A música Nananananana acabou virando um dos destaques da série Mina e Lisa criadas por o Núcleo Virgulino e dirigida por o Hélio Ishii.
Como ela foi parar no episódio?
Como está sendo a repercussão de ela depois de aparecer por lá?
O Hélio me falou sobre o projeto e me perguntou se eu teria interesse em participar.
Eu achei que uma maneira legal para contribuir seria, claro, através da trilha.
Eu mostrei algumas músicas para ele que eu achava que tinham a ver com a temática e Nanananana acabou sendo a escolhida.
Fiquei muito feliz.
Ouças as canções de Haikaa em http://www.nj.com.br/ 5.h aikaa / index.
Número de frases: 60
php Publicada originalmente em Alternativa.
A infância é uma construção histórica.
O mundo da criança nem sempre existiu, afirma Dias Pereira numa sua publicação no sítio de resumos shvoong.
Por muito tempo não houve separação entre o mundo infantil e o mundo adulto, estes se resumiam em apenas um.
Desta forma a criança não era detentora de direitos específicos as suas individualidades. (
Não confundir sentimento da infância com o amor e carinho dos pais para com os filhos.)
Em o período Renascentista «nasce» o sentimento da infância, porém este sentimento não era uniforme e homogêneo.
Salienta-se que, na maioria das vezes, o sentimento da infância estava «reservado» às elites, que dispunham dos meios necessários para garantir tratamento diferenciado com saúde, educação e cuidados para com os seus filhos.
A classe pobre não podia gozar deste sentimento, haja vista que necessitava que seus filhos, tão logo conseguissem se mover sozinhos, os ajudassem nas tarefas e no trabalho.
Kramer (1995) nos aponta que a inserção social diversa da criança impõe diferentes concepções de infância.
Assim, é impossível universalizar este conceito.
«Sendo essa inserção social diversa, é impróprio ou inadequado supor a existência de uma população infantil homogênea, ao invés de se perceber diferentes populações infantis com processos desiguais de socialização."
Em o Brasil também havia um paradoxo entre a infância dos filhos das elites e a infância da criança pobre.
Em este trabalho abordo especificamente o paradoxo entre a criança branca e a criança negra.
A criança negra sofreu as mais duras penas impostas por o sistema escravista.
Ela não era sujeito de direitos e, por vezes, nem mesmo de piedade.
Eram vítimas da mortalidade infantil devido às precárias condições a que eram submetidas por os seus donos.
Tinham o seu «direito» de amamentar cerceado, pois, em muitos casos, suas mães eram alugadas ou cedidas para servirem de ama-de-leite para crianças brancas.
Tão logo se tornassem «úteis» eram obrigadas a começar efetivamente o trabalho compulsório.
As negrinhas e os negrinhos eram brinquedinhos para as crianças brancas e até mesmo para o adulto.
A situação mudou quase nada com a promulgação da Lei do Ventre Livre, que estabelecia que seriam livres os filhos dos trabalhadores escravizados nascidos no Brasil a partir da data de sua promulgação.
Art. 1 o:
Os filhos da mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei, serão considerados de condição livre.
§ 1 o:
Os ditos filhos menores ficarão em poder e sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais terão obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de oito anos completos.
...
Porém esses cuidados não existiam, a criança continuava acorrentada ao sistema escravista, pois não há como ser livre com pais escravizados.
Ainda por cima, a criança livre tinha que trabalhar para o senhor até os 21 anos, para pagar a sua libertação.
Esta lei também era responsável por a desestruturação da família negra, pois quando as mães eram vendidas somente os filhos «beneficiários» desta lei podiam acompanhá-la.
...
A abolição oficial da escravatura pouco, ou quase nada, mudou na vida das meninas e meninos negros.
Estes continuaram sendo os parias da sociedade, «cidadãos» sem voz, impedidos de usufruir a infância.
Número de frases: 32
A crônica machadiana e a especulação bursátil
Os recentes acontecimentos turbulentos, envolvendo bolsas de valores em boa parte do mundo, além de induzir a necessárias reflexões, remetem-nos a ninguém menos que Machado de Assis e seu olhar oblíquo e crítico sobre o mundo das finanças durante um período crucial da história brasileira.
Inovador na ficção, como contista e romancista -- está na história da literatura brasileira a magistral inflexão estilística, temática e de linguagem por ele executada no final da década de 1870, que abalou e mudou os rumos da narrativa literária -- cronista que fez da crônica muito mais do que um registro pontual do cotidiano, transformando-a num verdadeiro gênero literário, Machado de Assis tratou da especulação financeira e das ' bolhas ' de expansão monetária como nenhum outro em sua época.
Muitos de seus escritos no período 1892-96, publicados na Gazeta de Notícias [um dos principais jornais da capital nessa ocasião, ao lado do Jornal do Commercio, O Paiz, Jornal do Brasil, Diário de Notícias, A Cidade do Rio, Rio-News], cujo fundador e proprietário, Ferreira de Araújo, era amigo pessoal de Machado], mostram como o notável escritor, cronista, autor e criador debruçou-se com seu olhar acurado, lúcido, crítico, irônico, satírico -- por vezes claro, nítido e direto, por vezes obliquo, dissimulado, sutil -- sobre as mazelas provocadas e advindas dos tempos novos da República de uma ciranda financeira e sua plêiade de emissões, crédito luxuriante, jogatina, falências em cadeia.
Não sem antes ter passado por o machadiano crivo, aguçado e satírico, quebras de bancos -- a «quebra do Souto», alusão à falência da Casa (bancária) A.
F. Souto & Cia, em 1864 -- o «estouro» da bolsa de valores em 1867, a crise financeira inerente à guerra do Paraguai (1865-70), os problemas da conjuntura econômica envolvendo companhias, bancos e entidades nos anos finais do Império.
Convém notar que a crônica machadiana, desde sempre -- apesar de suas primordiais características de leveza de tom e teor, fluência textual e estilística (muito próxima da oralidade), ironia satírica e sarcasmo -- foi, ao longo do tempo, em maior ou menor grau, de um lado influenciada e de outro refletora do fluxo da história brasileira do século XIX.
Destacada a presença marcante também nas crônicas como ocorre em sua obra ficcional, dos conhecidos e admiráveis elementos machadianos do disfarce, da dissimulação, do subterfúgio, da sutileza, dos significados ocultos postos como desafios ao leitor, por meio de outras de suas peculiaridades, o uso do anonimato e do pseudônimo, de que ele foi um dos mais profícuos usuários, e em especial a «arte das transições» -- levada a extremos no unir tópicos aparentemente distintos, um parecendo não ter nada a ver com outro, mas que justapostos oferecem um resultado surpreendente, cujo trajeto Machado ' ameniza ` para os leitor, primeiro desviando-o do tema principal, depois retornando e reintegrando-o, numa espiral de circularidade muitas vezes nem percebida de todo.
Mestre do subterfúgio, da dissimulação, da sutileza, Machado esconde ou disfarça uma parte da verdade e desafia o leitor a descobri-la e fazê-la emergir;
utiliza à exaustão a ' estratégia da negação / (que é uma afirmação ', as armadilhas estéticas típicas da ficção machadiana executadas também na crônica: quando diz que «política não é o assunto da crônica», pode-se ter certeza que efetivamente o é, e ao sentenciar que» não sei finanças «(que se tornou mais comum, em suas crônicas a partir de 1893, do que a repetida expressão de antes» não entendo de política "), vale observar o quanto contundentemente comenta os fatos da área financeira, e o quanto as valoriza, a ponto de repetir «finanças e semana são a mesma coisa».
Justamente por o uso do subterfúgio, da dissimulação, da sutileza, do disfarce e do enigma, Machado de Assis recebeu, indevidamente, a pecha de «despolitizado»,» alienado».
Ledo e puro engano.
Foi ele um crítico contundente da sociedade e das instituições brasileiras, e escreveu -- ou a elas se referiu -- em crônicas e artigos, mesmo em contos e romances e até na poesia sobre política e, para surpresa de alguns, sobre economia.
Assim como para os assuntos da política, Machado não era um «alienado» na visão e discernimento para as coisas da economia.
Aqueles que a ele dedicaram, ou dedicam, a pecha de «alheio às questões de seu tempo» (inclusive, e principalmente -- alegam seus detratores -- à escravidão) é recomendável, para não passarem esses críticos isto sim por alienados, conhecer as instigantes crônicas machadianas inerentes a essas duas searas, escritas durante mais de quatro décadas em diversas publicações.
Machado de Assis tinha opiniões políticas -- era um monarquista liberal, não apoiava a República, repudiava Floriano Peixoto (que, apoiado em golpe de Estado em 1891, governava com poderes autoritários, levando o País à ditadura, à censura e à guerra civil) -- e por meio de sua obra é possível observar a política brasileira de sua época através do olhar literário.
Raymundo Faoro (em A pirâmide e o trapézio) sentenciou que pode-se vislumbrar toda a sociedade brasileira do século XIX na obra de Machado:
tanto na não-ficção quanto na ficção, arrancou da História a própria substância de suas narrativas e textos, utilizando uma série de categorias políticas -- escravidão, liberdade, golpe de Estado, censura, aparelho policial, autocracia absolutista, totalitarismo, etc -- na elaboração, em sua escritura literária, de uma crítica da ideologia brasileira e de uma teoria política avançada, que no campo dos estudos literários não foi adequadamente percebida por os especialistas.
Há de se enfatizar ainda que, a par de outros aspectos, uma das grandes preocupações de Machado, uma espécie de linha-mestra, fulcro e fio condutores e leitmotiv de sua produção não-ficcional centrava-se na questão da identidade nacional -- preocupação expressa claramente nos ensaios «O passado, o presente e o futuro da literatura (o primeiro, ainda em 1858)», e» Nova geração (1879) " e na essência de seus artigos e crônicas -- e os textos tratando de política e economia são justamente aqueles que registram opiniões nunca expressadas por ele com tanta clareza e coerência.
Machado criou crônicas, nos mais diversos veículos, séries, formatos e disfarces, desde 1858, em O Paraíba (de Petrópolis), seguindo-se colaborações para o Correio Mercantil (1859-1864), e paralelamente para O Espelho (1859-60);
para o Diário do Rio de Janeiro (1860-63: " Comentários da Semana ";
1864-67: «A o Acaso "), O Futuro (1862-63), A Semana Ilustrada (1865-75:» Crônicas do Dr." Semana, «" Correio da Semana»,» Novidades da Semana», «Pontos e Vírgulas»,» Badaladas "), Ilustração Brasileira (1876-78: «Histórias de 15 dias»,» Histórias de 30 dias "), O Cruzeiro (1878: «Notas Semanais "), Revista Brasileira (1879), Gazeta de Notícias (1881-1900:» Balas de Estalo», Gazeta de Holanda [conjunto de 48 crônicas publicada de 1 novembro 1886 a 24 fevereiro 1888 «em versos, os» versiprosa», uma manifestação de prodigiosa inventiva temática, estrutural e formal, inspirada, a par de evocações do passado, em comentários dos fatos da semana, focalizados por urn viés exclusivamente satírico, cômico, sarcástico], «Bons Dias! e» " A Semana ") e paralelamente para a Imprensa Acadêmica (1888) -- com uma produção de mais de 600 artigos.
A par da quantidade, a explícita e intrínseca qualidade textual fizeram da crônica machadiana primeiro um referencial para os praticantes do gênero nos anos finais do século XIX e início do século XX -- e que somente encontraria um diferencial em Lima Barreto, na década de 1910, criador este de uma novíssima linguagem na não-ficção e na ficção, numa crucial e histórica inflexão a moldar a própria linguagem literária ficcional brasileira por todo o século XX até os dias de hoje.
Machado fez da crônica mais do que simples jornalismo, superior ao comum do gênero -- haja visto o que Artur Azevedo sentenciou em artigo em O Álbum, janeiro 1893: " ( ...)
Atualmente escreve Machado de Assis, todos os domingos, na Gazeta de Notícias, uns artigos intitulados A Semana que em outro país mais literário que o nosso teriam produzido grande sensação artística», a atestar o quanto de sua incomparável capacidade dotou a crônica dos elementos de verdadeira literatura.
Inclusive sob um processo evolutivo, passando da volubilidade e digressividade das primeiras (" Histórias de 15 dias «e» Notas Semanais ") para a maior ' consistência ` e contundência de «Bons Dias!" e» A Semana», tendo «Balas de Estalo» como elemento de transição e «A + B» e «Gazeta de Holanda» como elementos de ' distração ' -- exatamente como, de resto, se deu na esfera ficcional.
Em esse particular, é possível a construção de uma equação especulativa / interpretativa sobre a correspondência do estilo e enfoque machadianos postos na crônica com estilos, formas e temas postos por ele na ficção e no conjunto de sua obra -- em especial o momento da inflexão, por volta do final da década de 1870 cujas causas e motivos tanto intriga os analistas e estudiosos de Machado.
Em essência e matéria, a mesmíssima ' reformulação ` de enfoque, forma e estilo imprimida por Machado de Assis em sua criação ficcional -- transpondo o romantismo dos primeiros três romances (Ressureição, A mão e a luva, Helena) e a ' ideologia ` presente nos contos iniciais (abrigados nas coletâneas Contos fluminenses e Histórias da meia-noite), incorrente no processo de transição no final da década de 1870 (representado por Iaiá Garcia) e anunciador da inovação / ' revolução ` sintetizada no ' shandiano ` Memórias póstumas de Brás Cubas, numa estância seqüencial no aprofundamento e sedimentação do realismo [Machado, aliás, foi o único dos grandes autores a atravessar, em vida e em obra, o romantismo e o realismo literários brasileiros], mas ' subvertendo ` e renovando esse realismo (em Papéis avulsos, consolidado em Quincas Borba, na grandiosa Dom Casmurro, depois em Esaú e Jacó e no definitivo Memorial de Aires), sobretudo solapando-o com a estratégia do ' realismo enganoso ` de que fala John Gledson -- a mesma reformulação, diziamos, deu-se da mesma forma, sob o mesmo diapasão, com a mesma ' latitude ' literária, na mesma época, também na produção das crônicas publicadas na imprensa.
Machado, como ninguém, anteviu que a própria evolução da sociedade nacional, o processo transformador que o País atravessava -- de resto, sintonizado com o mundo industrializado, capitalista e socialmente ' darwinista ` -- impunha mudanças, de toda ordem, também em sua criação literária:
daí, a significativa ' guinada ', para ao mesmo tempo expor e contrapor, adotar e minar, revelar as contradições:
esta a razão primordial da inflexão machadiana que tanto estimula e insufla a historiografia e o pensamento crítico literários -- a par de considerações de outra ordem como, p. ex., a de que " Machado teria uma primeira fase de ' ascensão social e profissional ', quando incorporou em sua literatura os valores do dominado, identificando-se com as pessoas (personagens) comuns, os empregados, os / as agregados, os humildes, os populares, substituída essa fase por a ' consolidação social, profissional e artística ', de identificação com o dominador, por meio de personagens, ambiências e situações da classe social ascendente;
e mesmo a par da equivocada interpretação de uma «crise dos 40 anos».
Mister enfatizar que a drástica mudança temática, estilística e de linguagem realizadas por Machado no final da década de 1870/ início da década de 1880 -- concretizando o grande salto literário de sua obra e criando uma linguagem, ficcional e não-ficcional (se é que se pode definir como não-ficcional sua crônica) diferenciada, mescla do humor e da seriedade, da galhofa e da crítica social e política, do riso e do tédio -- teve como instrumento e ferramental a forma shandiana e o shandismo [cf..
«Wbster's International Dictionary», «shandean»,» aquele que tem o espírito de» Tristan Shandy ";
«shandysm», «a filosofia de Tristan Shandy» em referência à obra A vida e as opiniões de Tristam Shandy, um cavalheiro, de Laurence Sterne], para se utilizar da expressão magistralmente criada por Sergio Paulo Rouanet, inerente tanto ao romance e a contos como a crônicas.
A expressão, hoje comum e consensual no meio da machadologia (e da machadofilia), define uma forma literária, que vindo de Sterne, de Maistre, Garret e Diderot, adquire em Machado sua substância mais consistente, simbiótica e conclusiva, inclusive dando a essa forma literária seus contornos e conteúdo definitivos:
a forma shandiana, sedimentada por Machado e subsidiante da compreensão crítica dos autores seus modelos, é caracterizada, segundo Rouanet, por a) atuação intensa e imprescindível do narrador, mais do que nunca e mais do que em outro tipo de narrativa uma persona do autor;
b) fragmentação, temporal e espacial, da narrativa, esta extremamente não-linear, dotada de circularidade;
c) digressividade, seja extratextual seja intratextual;
d) alta rotatividade de pontos de vista narrativos e acentuada volubilidade no tratamento dado ao leitor, ora arrogante e presunçoso ora gentil e deferente.
à forma shandiana estão associadas -- não de modo genérico e onipresente, porquanto válido em algumas obras e autores, em outros não -- a sátira menipéia e a tradição luciânica, originadas de uma tradição grega, dos diálogos socráticos, que mesclam temas especificamente filosóficos com assuntos de retórica e dialética, eivados de hilaridade, comicidade e ironia:
na duplicidade sério-cômico, abriga o popular, o erudito, o burlesco, tornando-se p. ex. um dos elementos basilares da carnavalização conceituada por Mikhail Bakhtin.
Em a obra machadiana a partir da década de 1880 denota-se a presença marcante de manifestações da sátira menipéia, como a paródia, o subterfúgio, a profanação, o disfarce e, em especial, a ' desconstrução ' de formas literárias.
As crônicas de Machado de Assis, mormente as das séries «Bons Dias!" e» A Semana «-- ambas de peculiaridades que as distinguem, p. ex., de» Notas Semanais», de «Histórias de quinze dias», de» Balas de Estalo " -- possuem, em si, estrutura, forma e encadeamentos consistentes e complexos, além de plena relação / interação com os contextos histórico, político, econômico, social, cultural, urbano sob os quais foram elaboradas:
revelam cadeias de pensamento e reflexão (machadianos) em muitos aspectos, passagens e nuances intertextualizados, ou que viriam a se intertextualizar com elementos, ambiências e situações de romances e contos.
A o olhar machadiano nada escapou dos fatos e assuntos políticos, econômicos e financeiros de seu tempo -- uma época sob todos os aspectos ebulitiva, tumultuada e marcante para a história brasileira, a partir da Abolição, seguida por o advento da República e as novas formas e manifestações de um capitalismo emergente.
O complexo cenário de reformas, transições e transformações foi registrado, comentado e dissecado por ele notoriamente nas séries «Bons Dias!" e» A Semana», mas também em «Notas Semanais»,» Histórias de 15 dias», «Balas de Estalo e Gazeta de Holanda», todas para a Gazeta de Notícias.
E no enfoque da sociedade de seu tempo e da história brasileira das décadas finais do século XIX, Machado utilizou-se de todo seu instrumental crítico, desfilou argutas e demolidoras observações, destilou a mais ácida ironia -- com a marca machadiana da dissimulação, da sutileza, da ambigüidade, do subterfúgio, da dissimulação, da sutileza.
A economia o obcecou em «A Semana», conjunto seqüencial de crônicas escritas ininterruptamente de 1892 a 1900 na Gazeta de Notícias -- embora, como reiteramos, já escrevesse sobre questões econômicas desde 1859, assim como no decorrer das décadas de 1860,1870 e 1880.
Foi crítico ' sofrido e perplexo ` do Encilhamento -- denominação dada à «bolha» especulativa na bolsa de valores do Rio de Janeiro, iniciada no final do Império, impulsionada com a reforma monetária feita por Ruy Barbosa, e que tem sua decadência ' dolorosa ' no anos posteriores à crise econômico-financeira de 1891 -- que o chocou profundamente, fazendo-o sentir-se desalentado, tedioso, desgostoso, diante do vale-tudo do dinheiro por o dinheiro, das fortunas feitas ou desfeitas da noite para o dia e da orgia financeira que se multiplicava a partir do que ele denominava «ano terrível (1890-91)».
Tanto foi seu desalento que nesse biênio sua produção não-ficcional paralisou-se na verdade, um interregno que vinha desde 1889, uma das duas interrupções na produção contínua para a Gazeta de Notícias entre 1883 e 1900 -- explicável de um lado por a elaboração, em fase final, do romance Quincas Borba, publicado em fascículos em A estação entre 1888 e 1890 e em livro em 1891, obra à qual Machado dedicou muitos anos e muito esforço de criação e execução (é este seu romance de maior complexidade e textura tramática e dramatúrgica), sobrevindo mesmo um processo de crise criativa, em Machado, no decorrer de sua gestação -- tendo até interrompido a publicação em folhetins entre maio e outubro de 1888 e julho e novembro de 1889 por causa de dúvidas «cruciais» (sic) sobre como continuar, e de outro lado, por uma razão de ordem política aliada à natureza de Machado, extremamente cauteloso diante de um período conturbado, de alta tensão, com golpes e contragolpes de Estado (o «golpe da bolsa» de Deodoro da Fonseca em 3 novembro 1891, e a substituição de Deodoro por Floriano Peixoto em 23 novembro desse ano), além de seu estado da mais completa desilusão com os rumos da República e seu profundo desgosto com relação ao Encilhamento;
a segunda interrupção deu-se entre 1897 e 1900, quando já se denotava no conjunto das crônicas machadianas certo sinais de esgotamento temático:
afinal, havia um enredo, ou um leitmotiv pautando esta série, pois Machado a iniciara com um determinado estado de tensão proveniente do Encilhamento e suas decorrências e efeitos, os quais ainda se manifestariam -- nos fatos e nos comentários do cronista -- até 1895;
passados, ou cauterizados, a tensão embora algo diluída focou-se preponderantemente nas endêmicas manifestações de um cenário de corrupção, aos olhos e na pena de Machado inerente ao próprio regime republicano e seus projetos ' modernizadores ', aparecendo e exteriorizando-se, enfaticamente, um tom amargo de desalento que afeta até mesmo a regularidade, ímpar em sua antecessora «Bons Dias!», regularidade que começa a falhar e cessa por completo ainda no ano de 1897, quando a última crônica é datada de 28 de fevereiro e só retomada nas duas únicas crônicas de 1900, a 4 e 11 de novembro:
causas, motivos e explicações podem ser procurados, dificilmente encontrados de modo claro, embora, há de se observar e atentar, se mantivesse ele ativo na criação ficcional, haja visto ser esse o período de construção de nada menos que Dom Casmurro.
Em a seara econômica, no entanto, Machado não ficou só no repúdio ao Encilhamento:
destilou sua ácida ironia crítica ao câmbio, aos juros, à dívida pública, aos bancos, à política financeira, aos impostos, às subvenções do Estado, às crises de abastecimento.
Como poucos literatos de seu tempo, via e antevia os primeiros passos do nascente capitalismo brasileiro, mediado por o Estado, como propulsor não de um processo de desenvolvimento econômico mas de endividamento generalizado.
As crônicas de Machado que tratam de finanças e economia formam um elenco bastante significativo de sua produção não-ficcional:
são 79 textos escritas sob o clamor crítico-satírico do olhar machadiano feito testemunho incomparável sobre a vida econômica e financeira brasileira nas quatro últimas décadas do século XIX
Mauro Rosso, professor e pesquisador de literatura brasileira, ensaísta e escritor, autor de São Paulo:
a cidade literária:
Os contos argelinos:
Lima Barreto e o patrimonialismo;
«Queda que as mulheres têm para os tolos ":
Machado de Assis, o subterfúgio, o feminino, a transcendência literária \ organiza com Gustavo Franco a coletânea «O olhar oblíquo do acionista» (Rio Bravo-editora Reler), abrigando as crônicas machadianas sobre finanças;
prepara coletânea machadiana sobre política.
Número de frases: 67
Contam que duas velhinhas moravam juntas.
O povo não sabia se eram parentes ou possuíam qualquer outro tipo de relação, o que se tinha certeza é que elas moravam juntas e sozinhas.
Uma chamava-se Dolores e era conhecida como Dores.
Em algum momento de sua vida alguém suprimiu a sílaba do meio de seu nome e desde então ninguém mais a conhecia por outro nome, somente por Dores.
Era aposentada do INSS e recebia um salário mínimo por mês, o que quer dizer, uma miséria.
Também, é bem verdade, não tinha muito com o que gastar.
Sessenta por cento do que recebia era gasto com remédios.
Eram comprimidos, xaropes, gotas.
O idoso precisa viver sem ter o que fazer, pois grande parte de seu tempo é gasto controlando a hora, esperando o momento certo de tomar seus remédios.
Poderia até ser cômico se não fosse uma realidade cruel.
Os quarenta por cento restantes da miserável aposentadoria eram gastos com alimentação sua e de sua companheira.
Chamava-se Ruana, apesar de nunca ninguém a chamar assim.
Ana era o nome por o qual respondia quando a chamavam.
Ana tinha problemas mentais.
Era inquieta e acometida, de vez em quando, por crises.
Essas a faziam gritar e rolar por o chão.
Não existiam remédios para a sua enfermidade diziam os médicos.
Por isso, não lhe ministravam qualquer medicamento.
Entretanto, quando não estava em crise Ana era uma pessoa quase normal.
Trabalhadeira, ajudava Dores nas tarefas domésticas.
Era comum passarem por a porta da casa de elas e ver Ana a limpar, varrer, lavar.
Dolores, por força de seus problemas de saúde, vivia exaurida, sem disposição para quase nada.
Sua tarefa diária era preparar a comida das duas e avisar Ana do horário de almoçarem.
O restante do tempo passava em sua rede, armada na sala da pequena casa onde moravam.
Quando escurecia, Dores levantava-se e, aproveitando o que sobrou do almoço, servia o jantar para as duas.
Feito isso, voltava para a rede.
Dormiam cedo.
Quando ia deitar-se Ana, respeitosamente, avisava Dolores que, gemendo, levantava-se da rede e pessoalmente verificava as trancas das portas e janelas.
Certo dia, ao passarem em frente à casa das duas, avistaram Ana lavando as portas e janelas.
Fato visto como normal, pois Ana vivia a limpar, varrer, lavar.
Em o dia seguinte, foi vista por alguns lavando as paredes da casa.
Jogava grandes baldes de água nas paredes e esfregava-as com uma vassoura de piaçava.
Em o terceiro dia os vizinhos alardearam que Ana havia colocado todos os poucos móveis da casa para fora e lavava um a um com água e sabão.
A essa altura a notícia dos últimos feitos da Ana já havia se espalhado e uma pequena multidão formou-se ao longe para observá-la e tecer comentários.--
seria uma nova forma de crise?
Perguntavam alguns -- é doidera mesmo, afirmavam outros.
Em o quarto dia consecutivo, antes do sol raiar, Ana, com o auxilio de uma escada já havia subido no telhado e, equilibrando-se, lavava uma a uma as telhas.
O alvoroço foi geral.
Pessoas que moravam a mais de um quilômetro de distância da casa das duas vieram para ver com os próprios olhos o que tinham ouvido falar.
Era verdade, Ana estava cada vez mais doida.
Decidiram ir até lá e pedir a ela para descer e desistir de lavar o telhado.
Poderia cair, se machucar.
Ela não lhes deu ouvido.
Limitou-se a dizer que tinha que lavar para tirar o cheiro ruim, o fedô.
As pessoas não entendiam o que Ana repetia.
Tirar o fedô?
Que fedô?
Aglomeram-se em volta da casa procurando frestas que permita ver o interior.
Alguém pergunta por dona Dolores.
Ana não responde, continua repetindo, já quase balbuciando, tirar o fedô, tirar o fedô.
Empurram a porta da casa que se encontrava somente encostada.
O mau cheiro é insuportável.
Alguns, tapando o nariz, adentram na casa e encontram dona Dolores estirada na rede, morta.
A julgar por o estado de putrefação deveria estar ali a pelo menos uns dez dias.
Número de frases: 54
Passo por uma banca de jornais e vejo um milhão de sorrisos descontraídos, de pares de peitos incríveis, de bundas perfeitas empinadas e penso:
«se eu fosse homem eu tava brocha!"
Tanta mulher gostosa de graça, em todos os ângulos, que sinceramente, sei que soa careta, mas acho que é por isso que os caras de 30 anos andam indo aos consultórios tratar de impotência.
Tédio é o nome do negócio.
Estímulo externo demais com pouco estofo interno dá nisso:
tédio. Tédio brocha.
Eu sou cantora, há mais de vinte anos que subo em palco pra cantar.
Vi platéias de todos os tipos, no Rio e fora do Rio e do Brasil.
Vi platéia encantada, vi platéia blasé, vi gente adorando e achando um saco.
Isso é normal, esse é o jogo.
Hoje fiz um show num local público, de graça.
Nunca na vida eu vi um público com olhos tão vazios, com um desinteresse tão grave, com uma ausência tão absoluta.
Vocês vão pensar, claro:
«ah, o show devia estar horrível!».
Não estava.
Essa não é a questão.
Meia dúzia de gatos pingados estavam atentos, amando tudo, compraram o CD, pediram autógrafos.
Normal. Mas a apatia da maioria me apavorou.
A cara de desinteresse de quem passava e nem olhava, nem se coçava, como se nada estivesse acontecendo.
como se três pessoas não estivessem ali tocando lindos instrumentos e cantando lindas músicas.
como se aquilo não fosse nada.
Será que a gratuidade do ingresso desvaloriza o show?
É um ponto-de-vista, que não me basta.
E o que a mulher pelada tem a ver com os olhos vazios da platéia?
Tudo a ver.
Tédio é a palavra.
A mídia, ops, com o perdão da má palavra, esqueceu de avisar que para desfrutar de um mundo de informações, imagens, sons, cores, cheiros e variedades é necessário usar os sentidos, é necessário ter vida interior, é necessário estar vivo.
Hoje eu vi um bando de mortos-vivos.
Eles podem não ter gostado do show.
Eu não gostei foi da platéia.
Número de frases: 30
Entrevista publicada no jornal O Tempo e no Mascando Clichê
Ele é baixo, cabelo grisalho, voz grossa, bigode de sargento e, se não fosse por a camiseta de malha e a calça jeans, poderia ser facilmente confundido com um coronel nordestino.
Mas da brabeza e do autoritarismo dos mandas-chuvas sertanejos, Dori Caymmi tem muito pouco.
Ao contrário, filho de um dos mais importantes compositores da música brasileira é calmo, paciente e brincalhão.
«Uma época eu tava precisando de uma grana e pensei em montar uma dupla com meu irmão Danilo.
Que tal:
Chitanilo e Dorinó?"
Mas não é possível se ter uma conclusão assim de Dori Caymmi em poucas horas.
De passagem por Minas Gerais, onde ministrou, na cidade de Barbacena, uma oficina de música durante uma semana, foi possível perceber as características das quais são formados os homens musicais.
Dori já nasceu numa época e num lugar musicalmente opulentos (início dos anos 40, no Rio de Janeiro) e ainda teve o privilégio de ser um dos três filhos (ele e seus irmãos: Nana e Danilo) que cresceu aprendendo com as canções praeiras e os sambas geniais do pai, Dorival Caymmi, que morreu no último dia 16 e, ouvindo a graciosa voz da mãe, Stella Maris, que também faleceu no dia 27.
Certamente se precisa de uma tremenda força de caráter para sobreviver a um nome tão poderoso:
Caymmi. E mais que se manter vivo, Dori nunca desejou, aparentemente, tornar-se aquilo que seu nascimento lhe ofereceu.
Não aspira a fama, menos ainda o estrelato.
A o completar 65 anos, dia 26 de agosto, o compositor de músicas como «Saveiros»,» Desenredo «e» O Cantador», fala na entrevista a seguir, sobre as dificuldades de ser filho de Dorival, das suas parcerias e lembranças da sua trajetória musical.
Dori concedeu a entrevista antes do falecimento dos pais, mas em ela recorda histórias da família.
Dori, quando se pensa em família Caymmi, se pensa logo num ambiente muito musical.
Gostaria que você falasse um pouco das suas lembranças da infância, da adolescência, do contato com a música ...
Família é um troço muito engraçado.
Lá em casa, os domingo sempre foram dias de grandes comidas.
Como não tínhamos aula, então nosso programa era aproveitar um pouco da mistura de comida baiana e mineira.
Era muito bom!
Comer e ouvir música e música de todos os tipos.
Papai sempre ouviu de tudo e a gente acabava ouvindo também.
É possível lembrar quais estilos?
Claro.
Esses domingos têm uma influência muito grande na minha vida, não dá pra esquecer.
Lembro de Jacó do Bandolim, Frank Sinatra, Elizeth Cardoso, Ary Barroso, Noel Rosa.
A gente ficava louco porque era tanta música de tantos estilos diferentes.
Ainda tinha meu pai, com seus sambas e essa coisa que gosto muito em ele que é a canção do mar, a temática do pescador, da praia.
Tudo isso tinha em mim, enquanto criança, uma coisa muito forte.
Existe uma música que marca este período?
Ah!
É doce morrer no mar.
Lembro bem do papai cantando com aquela voz mais trombone que a minha.
E essa música ainda tem a letra do Jorge Amado, que é uma pessoa tão querida e, na minha opinião, o homem que ensinou o Brasil a ler, como disse certa vez o Paulo César Pinheiro.
Foi difícil ser filho do Dorival Caymmi?
As pessoas tinham uma mania, na minha época de menino, de dizer que filho de peixe, peixinho é.
Em o fundo, eles estavam querendo que eu quebrasse a cara, porque é muito difícil você ser filho do Dorival ...
ele não é famoso não, mas é um artista muito respeitado.
Lembro que quando a Nana [Caymmi] cantou ' Saveiros ' muita gente disse que foi papai que fez a música, depois me acusaram de roubar uma música inglesa.
Eles fizeram tudo para torturar, a imprensa principalmente.
Enfim, era difícil ser filho de Dorival Caymmi.
Você fala que sua vida musical se divide entre seu pai e o Tom Jobim.
Por quê?
Meu pai sempre ficou muito surpreso e não gostava muito da idéia dos filhos todos serem músicos.
Pra ele foi muito difícil também que todo mundo caísse na carreira musical.
E, no meu caso, Tom Jobim foi que me socorreu (risos).
Me colocou debaixo da asa.
Ele dizia ' esse menino toca bem violão.
Dorival, você tem que tratar esse menino melhor, ele tem futuro '.
Ele ficou me incentivando o tempo todo.
E putz, incentivo do Tom Jobim?
Já viu!
Aí eu passei a ser violonista de ele.
Gravei várias coisas com o Tom e fui aprendendo porque ele é um grande mestre.
Ele era muito exigente?
Era não, ele é.
Por que até hoje Tom Jobim ensina.
Ele sempre foi muito centrado em ele mesmo.
Essa coisa que falo sempre da fama.
Aprendi muito isso com o Tom.
Ele era generoso e cauteloso.
Lembro que uma vez fiz um arranjo que ele gostou muito, aí ele me chamou na casa de ele e ficou umas duas horas conversando com mim, comemos e bebemos e ele não conseguiu dizer que tinha gostado do arranjo.
Aí quando eu já estava indo embora, entrando no carro, ele gritou da janela: '
oh! Gostei muito ' (risos).
Mas com um sacrifício.
Pra ele foi difícil dizer isso (risos).
Sem o apoio do Tom você poderia não ter seguido a carreira musical?
A carreira musical eu iria seguir de qualquer modo, não sei se minha cabeça seria a mesma que é hoje.
Porque é muito difícil essa coisa de filho do artista e a cobrança que isso gera.
Eu lembro que tinha medo de cantar, por exemplo.
Talvez eu tenha até hoje, eu só canto quando me sinto muito tranqüilo e as pessoas são muito amistosas e isso acontece principalmente com os que pagam pouco.
Pagam pouco?
Por quê?
É.
Porque quem paga R$ 170 para ver um show, no fundo não quer ver show, quer aparecer na Revista Caras (risos).
Eu procuro trabalhar numa média de público que possa pagar o suficiente para curtir e isso me dá a certeza que se trata de pessoas amistosas e musicais.
Isso é muito bom!
Meu pai ensinou a família toda a não ter essa ambição de ficarmos milionários com casas, ilhas, helicópteros, essas coisas todas.
Como foi seu começo profissional?
Quem te influenciou além do Tom e do seu pai?
Foi na TV Tupi.
Eu entrei meio por a janela porque a Nana tinha ganhado um programa semanal chamado ' Canção de Nana ' e eu comecei acompanhando ela.
Em essa época eu já tinha forte influência do João Gilberto, do Baden Powell e também do Radamés [Gnattali].
Lembro do Radamés falando:
harmonia, harmonia.
E também o Luiz Eça, do Tamba Trio ...
Esse foi o cara que me ensinou a escrever música.
Era uma época em que as pessoas eram menos egoístas e não existia essa história de ficar rico.
Hoje é que com essa coisa de trio elétrico e não sei mais o quê, está todo mundo querendo ficar rico, ter helicópteros, ilhas ...
E aparecer na Caras.
Isso.
Principalmente, aparecer na Caras (risos).
Queria que você falasse das parcerias.
Paulo César Pinheiro, Nelson Motta, e por aí vai.
O Nelson Motta foi o primeiro.
Fizemos muitas coisas bacanas, como ' Saveiros ', ' O Cantador '.
Aí foi quando eu comecei com o Paulinho.
Era uma época interessante porque estava vindo da leitura do Jorge Amado e estava justamente passando para o Guimarães.
Aí pronto!
Peguei as veredas do Guimarães e não deu outra.
Acabou que minha música passou a ficar um pouco mineira.
Você segue o método de composição por telefone do Paulo César?
Por tudo (risos).
Telefone, fax, nós ainda operamos em K7.
Eu não tenho essas máquinas de copiar CD, essas coisas não.
Eu acho que essa tecnologia, inclusive, inventou a pirataria e, portanto eu não uso.
Não uso e não sei usar e não quero aprender.
Sequer eu tenho estúdio.
Tenho um teclado, tenho meus discos e os violões, só.
A principal música seria ' Saudade de amor '?
Não.
Você sabe que não tem uma principal, mas se eu fosse escolher seria a ' Desenredo ` que eu fiz para Minas Gerais.
Foi uma época que operei a perna e tava meio na bronca com a vida, sem tocar nada e um dia colocaram um violão perto de mim e eu ficava lendo Guimarães e o violão do lado.
Lembro que essa época estava lendo ' Tutaméia ', aí peguei o violão e comecei " Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou ..."
De aí para a frente eu fiz a música e o Paulinho fez um poema, uma letra lindíssima.
Já que estamos falando de lembranças, queria que comentasse um pouco sobre o DVD da família Caymmi ...
(risos) O Danilo falava: '
isso não vai dar certo '.
Não foi fácil.
Nós tínhamos que homenagear o velho e era difícil escolher repertório e também lhe dar com a Nana.
A Nana cria caso.
Primeiro ela chuta sua canela, emburra e não quer fazer e depois, aos poucos ela vem chegando e acaba sempre fazendo brilhantemente.
Lembro que ela disse: '
fiz aqui uma lista das músicas e só canto elas ' (risos).
Mas aí quando ela entrou no espírito, ela começou a curtir.
Foi ótimo!
Quando a gente fez uma mostra, eu levei pra papai e ele ficou emocionado, cheio de lágrima nos olhos.
Em o final, todo mundo adorou.
Nós somos muito unidos, embora lá em casa todo mundo é muito bravo.
Foi o melhor presente que a gente e ele, é claro, poderia ganhar.
Um pouco de opiniões agora.
A música brasileira é a melhor música do mundo.
Você concorda?
Concordo!
Agora precisamos separar.
Não concordo se o sentido for a nova música brasileira.
Eu acho que a música brasileira como um todo é melhor que a americana, melhor que a européia.
O que viria a ser essa nova música brasileira?
É essa história dos bregas, das bandas caipiras, do romântico que deturpa o sentido do sertanejo.
Eu tenho falado que o rock não é uma coisa nacional.
E essa coisa nova do axé na Bahia que estragou com aquela terra.
Tem muita gente de talento escondida por lá por conta dessa força comercial.
A Bahia descobriu essa indústria e pronto.
Se eu pudesse, puxava a tomada do trio elétrico e desligava tudo.
O que você acha do Ministério da Cultura?
O Ministério da Cultura do Brasil está no Sesc.
Eu tenho visto o trabalho de eles e é a salvação da lavoura do Brasil, em especial, para a música.
Essa coisa da separação do Ministério da Cultura nunca deu certo.
Era melhor o MEC.
O que você acha das leis de incentivo?
Eu acho uma dependência.
Eu achava que não precisava tudo isso, mas infelizmente tem sido a salvação de muito artista novo.
Não gosto dessa Lei Rouanet.
Não gosto de uma lei em que você tem que submeter seu projeto a um ministério que vai achar se vale a pena ou não.
Quem são esses caras para achar se vale a pena ou não?
Que autoridade eles têm para achar isso?
Eu acho que o Rouanet, coitado, foi até bonzinho, mas o fato de você ser submetido a uma comissão, é ruim.
Número de frases: 158
Por:
Luciane Glaeser *, colaboradora da Revista Sintética.
20 de abril de 2007 Há algumas semanas, quando a cantora pop-em-decad ência Britney Spears apareceu careca, houve o que poderíamos chamar de uma «verdadeira comoção» por parte de público e imprensa.
Sem dúvida, a moça explorou o conceito extravagância.
Contudo, o que inquieta diante do susto é porque, de entre as tantas que aprontou, foi justamente o excesso do não-cabelo que trouxe, de vez, Britney de volta às manchetes do mundo todo.
É claro, estávamos acostumados às oscilações de persona da loira.
Presenciamos sua transformação de na Até aí, nada além do esperado, sem sobressaltos.
Os cabelos, enfim, continuavam onde deviam estar.
Mas, após rebentos, drogas e separação, eis que aparece esta nova versão, difícil de rotular.
A ausência das habituais madeixas trouxe um engasgar da fala, uma interrogação compartilhada por críticos mordazes e fãs incondicionais.
Afinal, a nova Britney é, ainda, a Britney?
Sobre cabelos e a falta de Os cabelos revelam muitas facetas da pessoa.
Principalmente quando a dita é do sexo feminino.
Cores e cortes facilitam a leitura do ser, assim como as roupas emolduram o corpo, enunciando significados.
A omissão destes artifícios implica na obstrução do ver, inibindo juízos diante dos mistérios que a revelação esconde.
Cabelos são ramificações do «eu» que se derramam no exterior a partir da parte mais sensível do corpo.
De os cinco sentidos de que dispomos para experimentar o mundo, quatro restringem-se à cabeça.
E o sexto deve andar por lá também.
Apenas o tato é comum a toda pele.
Provenientes de local tão visado, os dizeres que melenas ostentam são variados e complexos.
Podem comunicar virilidade e força, como no clássico exemplo do personagem bíblico Sansão.
Como sabemos, o pobre é vítima da ardilosa Dalila, que surrupia seus poderes quando tosa-lhos cachos.
Várias são as crenças que associam o estado monástico com cortes de cabelo.
Em estes casos, podem representar uma ruptura com as percepções antigas, auto-imola ção [sacrifício de iniciação] ou mesmo o desprendimento no tocante às vaidades.
Raspar a cabeleira também pode atender a alguma necessidade higiênica.
Interessantes opiniões skinheads têm a oferecer neste sentido.
Seguindo a linha, podemos mencionar o episódio ocorrido no início do século XIX, envolvendo D. João VI e sua esposa, Carlota Joaquina, quando empreendiam fuga de Portugal rumo às paisagens brasileiras.
De acordo com relatos da época, o navio que os transportava viu-se assolado por uma praga de piolhos.
Sendo obrigada a raspar a cabeça para conter a propagação dos inconvenientes parasitas, Dona Carlota esconde a careca com lenços e lança moda em Terra Brasilis.
Mas Carlota não foi exatamente uma pioneira.
Já no Egito antigo a nobreza muitas vezes optava por raspar todo o cabelo e utilizar perucas em seu lugar.
E se o assunto é peruca, a monarquia absolutista sabe muito bem como não ficar para trás.
O século XVII adornou muitas cabeças masculinas com perucas brancas e volumosas, enquanto no século seguinte chegou a vez das mulheres extrapolarem:
os fios ganharam o complemento de passarinhos empalhados, miniaturas de caravelas e outros tantos, compondo verdadeiras obras arquitetônicas que poderiam chegar a um metro de altura.
Perucas são identidades cambiantes, por isso -- em nosso imaginário -- muitas vezes vêem-se atreladas à idéia da farsa, do personagem travestido.
É complemento artificial [como se os outros não fossem ...],
o que leva o homem que, de repente, se descobre seduzido por um punhado de cabelos descompromissados a sentir-se ultrajado.
Isto porque cabelos femininos representam, em grande medida, sedução.
Pode um homem sentir-se atraído por o exótico brilho ruivo de misteriosa mulher ou adoecer de amores por nuances castanhas ...
O preto intenso pode hipnotizar seus sentidos e o loiro ...
ah, o loiro ...
Mas deve ser um tanto quanto desestabilizador perceber que o objeto de encanto e conquista não passa de ...
enfim, mero objeto.
Tamanho é o poder de sedução desta inigualável penugem humana que a história não cansou de passar tesouras a fim de punir prostitutas e adúlteras, além de fragilizar acusadas de bruxaria, como no famoso caso de Joana D ´ Arc [a donzela francesa, canonizada cinco séculos após tostar na fogueira].
Isto sem mencionar muçulmanos e judeus mais conservadores, que preferem escapar das tentações recomendando o uso de véus.
A História atribuiu aos cabelos o poder feminino de levar tantos homens a perderem o juízo.
Em esta lógica, escondê-los é adequado, mas é preciso derrotá-los quando indômitos.
Extrai-los equivale à violência de arrancar as presas de um leão.
Jogar às ruas mulheres carecas equivale a expor-las à humilhação pública, frisando a verdadeira identidade que supostamente vê-se descoberta.
Mulheres e seus cabelos muitas vezes contam histórias de mal e perdição.
Que o diga Medusa, a ninfa que a todos enfeitiçava com seus doces cachos loiros.
A bela pagou caro por se meter com quem não devia.
Segundo as más línguas, foi a deusa Atena, enciumada, quem transformou a poderosa numa megera de cabelo rebelde.
Em o lugar dos fios, multiplicaram-se cobrinhas nada simpáticas que petrificavam quem as fitasse.
Isto sim é que é um estrago.
Perto de Medusa, uma cabeça raspada é até consolo.
Voltando ao caso Loira como a personagem mitológica, Britney Spears bancou a própria algoz.
A o abandonar o visual que seduziu multidões, despiu-se de si.
Em algum momento, frente ao espelho, encarou sua máscara midiática e desabou.
Quando um ídolo tomba, inevitavelmente com ele arrasta quem o acompanha.
A imagem de seu fracasso multiplica-se em milhares de estilhaços, cada qual minúsculo espelho de um seguidor consternado.
Afinal, se o ídolo é infeliz e erra, o que cabe, então, a quem lhe admira?
Sua crise de identidade alastrou-se ao seu séqüito, que na ausência do cabelo encontrou eco para o estado de abandono vivenciado.
A «careca» da cantora configurou-se símbolo de um percurso de extremos:
do assimilável ao susto;
da elaborada embalagem ao placebo.
De a beleza confortável à aparência incógnita.
Britney rebelou-se contra si própria, maculando a imagem loira domesticada.
Seu comportamento anterior ao ato já revelava problemas.
Mas continuava se tratando de uma loirinha frívola que havia tomado umas a mais ...
Raspar o cabelo foi seu grito certeiro.
Tornou-se outra.
Pela primeira vez, está realmente dizendo alguma coisa.
Que ela ainda não saiba exatamente o quê, apenas confirma a teoria.
Carecas bem resolvidas:
Sinéad O'Connor, a controvertida cantora que fez sucesso com o hit «Nothing Compares 2 U», desejava salientar o conteúdo de seu trabalho e não seu aspecto físico.
Aboliu madeixas e encantou o mundo com sua aparência.
É possível que, cabeluda, não chamasse tanto a atenção.
Natalie Portman, em momento decisivo de sua personagem Evey, no filme «V, de Vingança», despede-se das delicadas mechas.
Ao contrário de Britney Spears, ficou linda com o novo look.
Demi Moore, também em nome da sétima arte, aderiu ao visual.
Em o filme «Até o Limite da Honra», a atriz passa a máquina sem dó nem piedade, deixando a cabeça nua.
Seu gesto impetuoso impressiona os demais personagens, que passam a respeitá-la a partir desta ruptura de imagem.
Em tempo:
Demi interpreta uma tenente, única mulher entre um grupo da Marinha Americana.
Durante o treinamento, o cabelão atrapalhava um pouco ...
Histórias que as melenas contam:
& Como primatas são predominantemente visuais, características como cabelos diferenciados auxiliam na identificação de membros da espécie ou clã, mesmo a longa distância.
& A média de fios que preenchem a cabeça de uma loira fica por volta dos 140 mil.
São mais finos do que os cabelos das morenas que contam com cerca de 108 mil, enquanto as ruivas, de cabelo ainda mais espesso, ficam na casa dos 90 mil fios.
& Em geral, um fio de cabelo pode crescer durante de seis anos.
A cada ano, pode chegar a aumentar 18 centímetros.
& Em a Antiguidade, as romanas apreciavam o uso de perucas.
Estabeleceram, contudo, um diferencial:
os fios que compunham o acessório deveriam ser provenientes das cabeças de mulheres dos povos inimigos, conquistados durante as batalhas.
& Também na Antiguidade, os fenícios estabeleceram o hábito de raspar os cabelos em sinal de luto.
A mulher que se negasse ao procedimento era oferecida como prostituta.
& Cabelos loiros [naturais] são mais finos e leves que os de outras nuances.
Assim, evocam maior feminilidade, uma vez que o contato proporciona sensação de maciez superior.
A o descolorir os cabelos, loiras artificiais conquistam o efeito por associação, uma vez que a espessura e aspereza não se alteram.
& Para os egípcios, cabelos ruivos eram sinal de mau-agouro.
Queimavam vivas as pessoas que nasciam com esta estranha pigmentação.
* Luciane Glaeser é historiadora [Unisinos / RS], especialista em Moda e Comunicação [Universidade Anhembi Morumbi] e em Literatura [Unisinos / RS].
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Atua como professora de História da Moda na Unesc / SC.
O artigo instigante postado aqui por o H. Vianna acerca da maneira como nós brasileiros vimos transando nossa latinidade com outros países vizinhos me fez pensar acerca do assunto refletidamente.
E óbvio que me fez voltar para o interior da questão desejando ir mais pro-fundo, o que literalmente me trouxe para avaliar a nossa própria situação enquanto nação de gigantescas proporções, seja em tamanho geográfico ou em diversidade cultural.
Claro que estamos tratando de um ponto que vai desatando discussões.
Trouxe de novo à luz o tema justamente para poder vermos ainda com maior perspicácia o comportamento de nossa política cultural internamente, repassando as páginas de uma história recente que nos faz perguntar se a aproximação que se deu entre alguns artistas nacionais e outros latinos se deveu muito mais a uma afinidade de propostas estéticas e / ou ideológicas do que em função de um esforço conjunto de setores envolvidos e relevantemente importantes nessa estratégia, como seriam no caso a área cultural do estado e da própria iniciativa privada, leia-se gravadoras.
Que fatores propiciaram o encontro entre Chico Buarque e Pablo Milanés, por exemplo?
Ou o de Fagner com a Mercedes Sosa?
Cito os dois casos, embora um pouco distantes no tempo, para salientar parcerias que de fato marcaram o alinhamento de artistas brasileiros com outros vizinhos, e de forma consistente.
Mesmo mais recentemente o namoro desatado entre o Paralamas e o Fito.
Outros momentos emblemáticos se deram, como foi o da invasão dos Menudos em meados dos anos 80.
Naturalmente pus tudo num parágrafo só para ilustrar o argumento, mas cada uma das referências apresentadas envolvem circunstâncias e posturas diferenciadas, tanto na sua gênese quanto nos seus resultados e importância.
A o meu ver o que veio acontecendo nesse período remonta a antigos estigmas de nosso passado pesado, pois fomos todos vitimados por uma colonização que beirou a barbárie, onde extirparam-nos os bens e a estima.
O talento não.
Mas ficou inscrito no nosso perfil um certo desencorajamento para nos afirmarmos enquanto povo que constrói sua altivez a partir do que produz.
Até hoje ainda encontramos com relativa facilidade o tipo que exalta as qualidades apregoadas por os modismos, sem um grau de discernimento que possibilite uma mínima leitura atenta de tudo que somos induzidos a consumir.
Dá nisso!
Mas estamos mudando.
Até porque há, mesmo de forma fragmentada, uma abertura maior para a apreciação dos nossos valores hoje em dia.
Os paulistas e os cariocas, berço do alastramento dessa cultura que vangloriou o europeísmo, e mais tarde o estilo dos ianques, estão se dando conta do equívoco que cometeram, principalmente nesses tempos em que é cada vez mais fácil constatar o erro da adoção de padrões tão toscos e esvaziantes.
Sem contar que é ainda desses dois principais centros brasileiros que irradia grande parte do que absorvem a imensa maioria das cidades brasileiras.
Dá nisso!
Gente que carrega impresso no peito frases que nem sabem como traduzir.
Dá dó.
«Caboclos querendo ser ingleses», cantou Cazuza.
Menosprezo por o que temos de bacana, mas que repelimos para posar como marionetes de um cirquinho viciante que esconde nossa autenticidade.
Lastimável demais para os que amamos o Brasil.
E ...
se nem conseguimos nos apreciar, como vamos fazer isso aos outros espontaneamente?
Mas estamos mudando isso.
Só que leva um tempo danado.
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Fiz comentários no Observatório sobre o processo de edição e votação no site, que para mim é falho.
O assunto está em debate desde o dia 18, a partir da publicação OVERPONTOS E Edição, de Helena Aragão.
Em os comentários, denuncio a existência de OVERPANELINHAS.
Considero inaceitável que siglas (fantasmas?)
e até crianças tenham peso de voto por conta do Karma elevado.
Ao que parece, tem gente de conteúdo duvidoso pondo no chinelo gente estradeira, como jornalistas, escritores e educadores, entre outros colaboradores sérios cadastrados.
Nem imagino quem vai vestir carapuça, se recolher num canto ou até mesmo se juntar a quem propõe um tratamento de choque contra isso.
Quem ousa pôr o dedo na ferida?
Ela tem casca grossa?
Eu ponho!
Vamos acabar com as OVERPANELINHAS?!
Como?!
Número de frases: 12
O ator Bruno Azevedo em entrevista exclusiva, conta sobre o lançamento do filme Bezerra de Menezes e também, a respeito da sua trajetória de cineasta.
Há quanto tempo você trabalha com cinema?
Em a verdade, comecei aos 17 anos.
Mas profissionalmente só aos 22 anos.
Iniciei a trabalhar em produtoras e logo já abri a minha.
A Mirage Filmes do Brasil, que na época era miragem ...
Heheheheheh. Comecei com um filme chamado «Uma história de emoção», o roteiro era meu e a direção, também era eu quem fazia, além de atuar.
Levei vários amigos que faziam teatro, para participarem.
A idéia era de colocá-lo em festivais e buscar incentivo para um dia produzir um filme ideal.
Hoje, quase dez anos depois, tenho minha produtora e estrutura para viabilizar este projeto.
Porém, outros trabalhos surgiram ...
Mas certamente, ainda farei esse filme.
Agora, eu penso no «Bezerra de Menezes» que é um longa metragem da Trio Filmes, no qual o lançaremos como co-produtores.
Temos Carlos Vereza no papel principal e, participações de Caio Blat, Paulo Goulart Filho, Nanda Costa, Lucio Mauro entre outros ...
Trata-se da história do médico espírita Doutor Bezerra de Menezes.
O responsável por difundir o espiritismo no Brasil.
O próximo trabalho será «Meu vício .... åMeu hospício!», iniciamos as filmagens em novembro, no Rio de Janeiro.
Teremos no elenco:
Carlos Vereza (novamente), Nelson Freitas, Nelson Xavier, Aílton Graça, Fabiana Karla, Marinna Lopes, Rosane Gofman, Stepan Nercessian, Julio Braga, Marcos Wainberg, Bruno Fagundes, Helô Tavares, Larissa Vereza, e participações de Alcione, Beth Carvalho, Martinho da Villa, Velha Guarda da Mangueira, Lima Duarte, Antonio Fagundes e, mais alguns que convidaremos.
A comédia é o gênero deste filme, com um pouco de aventura e ação.
A trama é envolvente e com certeza vai cair na graça do público.
Não usamos cenas de violência, sexo ou qualquer alusão à pornografia.
É um trabalho que mostra uma identidade diferente sobre nosso país.
Em julho de 2008 estaremos acompanhando junto " Meu vício ... meu hospício!" Em todos os cinemas.
Qual a opinião que vc tem sobre o cinema nacional, hoje?
Bem, o cinema nacional cresce visivelmente.
A cada nova produção, porém, vejo um problema muito sério com a identidade cultural que nos é passada.
Infelizmente, o cinema feito hoje no Brasil, ainda mostra a realidade do nosso país.
Retratada em estórias ilustradas à tela grande.
Eu particularmente acho que deveríamos criar situações novas.
Dar uma nova cara.
Não abolir as produções que estão sendo feitas.
Mas, a grande maioria dos filmes que são feitos aqui, se passa em favelas, no sertão ou falam de violência.
Eu penso que o público em nosso país, não assiste filmes nacionais com tanta freqüência.
Eles sabem o que vão encontrar e, para verem cenas de violência, pobreza, corrupção, não precisam pagar ingresso.
É só verem de graça, os telejornais.
Acredito que falta mais ousadia nos roteiros, já que temos profissionais qualificados para isso.
Não tenho intenção de americanizar o cinema nacional, mas por que, não dar ao público o que eles querem ver?
O cinema brasileiro retratou a ditadura e a cultura política, muito bem.
Citarei cinco filmes de épocas diferentes e gostaria que vc comentasse, OK?
Vou começar por o clássico de " Glauber Rocha.
Terra em Transe de Glauber Rocha com os excelentes Jardel Filho e Paulo Gracindo de 1967».
Bem, Terra em transe é um dos filmes onde o Glauber realmente mostra que na época, cinema se fazia com uma câmera no ombro e uma idéia na cabeça.
Tratava-se de um triângulo amoroso entre um homem e duas mulheres, em meio à ditadura militar do Brasil, problemas sociais, corrupção etc..
Além de Jardel Filho e Paulo Gracindo ainda contamos com a brilhante interpretação de Paulo Autran, Mario Lago e outros nomes conhecidos ainda hoje.
«Pra frente Brasil de Roberto Farias, de 1983».
Este filme conta uma história que se puxarmos na memória saberemos o porquê deste filme.
Vocês se lembram que até dias atrás o governo finalmente quebrou o sigilo sobre tal lista com nomes de ex-militares e ativistas que foram presos, torturados e mortos nas décadas de 70 e 80?
Pois bem, este filme mostra um cidadão comum que é confundido com um ativista na década de 70 quando o Brasil acabara de ser campeão mundial por a copa do mundo e é preso e torturado por agentes federais.
Um drama escrito por o ator Reginaldo Farias e seu irmão Roberto Farias que dirigiu o filme.
Contaram com Antonio Fagundes, Natalia do Valle, Elizabeth Savalla além do próprio Reginaldo Farias e um grande elenco.
«O que é Isso, Companheiro» de Bruno Barreto, de 1997.
«O que é isso, companheiro» é um filme que eu particularmente gostei.
Um bando de rebeldes ativistas que se colocam contra a ditadura militar seqüestra o Cônsul dos Estados Unidos.
Estes rebeldes participam da chamada «luta armada», movimento que realmente aconteceu no Brasil contra o militarismo.
O filme se não me engano foi baseado no livro do Fernando Gabeira, que é inclusive o personagem do Pedro Cardoso e que participou de verdade deste seqüestro.
O filme fez um sucesso muito bacana lá fora e foi até indicado ao Oscar como melhor filme estrangeiro.
«Cabra-cega», de Toni Venturini de 2005.
Este filme não foge muito dos gêneros dos demais citados acima.
É basicamente a mesma coisa, dois jovens também militantes da luta armada que sonham com uma revolução social no Brasil.
Um de eles é ferido por uma emboscada da polícia e tem que se esconder e se tratar dos ferimentos e para isso fica escondido na casa de um amigo simpatizante da causa.
Porém, depois de um tempo ele muda seu comportamento e começam a desconfiar se ele não seria um traidor se passando por vítima.
É um drama que conta com a participação do Walter Breda.
E por último: "
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias " de Cao Hamburger, de 2006.
Bem, este filme é praticamente uma extensão do para a frente Brasil», é realmente quase a continuação da mesma história.
Assim como no outro filme, todos acompanhavam o desempenho do Brasil na Copa do Mundo, de repente os pais do menino Mauro simplesmente «saem de férias», na verdade eles são obrigados a fugir devido ao fato de serem ativistas de esquerda e estarem sendo perseguidos por a ditadura.
Em este filme é só tristeza, os únicos momentos de alegria retratados no filme são os momentos vividos por a euforia causada por as vitórias da Seleção Brasileira na Copa de 70.
O jovem Mauro sofre muito com o fato dos pais terem que fugir e acaba ficando com um vizinho judeu, onde passa o filme todo praticamente esperando um telefonema dos pais.
Houve o cinema novo, a pornochanchada, a Vera Cruz.
O que tem a dizer disso?
O cinema novo na verdade não era tão diferente assim do que vem sendo feito ainda hoje.
Em a verdade o que acontece é que hoje a publicidade, a questão de Ter que ir ao cinema assistir filmes nacionais para prestigiarmos o produto nacional deu uma motivada nas produções brasileiras partindo principalmente das leis de incentivo do governo para produções nacionais.
A diferença é que hoje as produções aumentaram em «números», a qualidade» técnica " também aumentou consideravelmente, porém, ainda não houve um filme no Brasil que despertasse tanto à vontade do público nacional a saírem de suas casas para assistir um filme do nosso país como desperta nos fãs de Ar Peter, O Homem Aranha, Guerra nas estrelas, Matrix, O senhor dos anéis, X-Men etc..
Não temos um público fiel, não temos produto pra isso ainda.
Não temos «fãs» do nosso cinema em grande escala ainda mesmo com o cinema novo que introduz temas e linguagens nacionais.
Como eu havia dito na pergunta anterior, estes temas e esta linguagem nacional, não tem que ser necessariamente a pobreza real do país, a violência ou a corrupção e impunidade transformada em piadas.
Os conflitos sociais e políticos retratados no cinema novo.
Hoje em dia não dá pra se fazer um filme com apenas «uma câmera no ombro e uma idéia na cabeça» como dizia Glauber Rocha, naquela época sim, tudo era novidade, tudo era válido, dar uma tapinha na cara do governo ou uma simples «cutucada» era o máximo, hoje o público não quer mais isso.
Poderíamos criar um «novo» cinema novo, dando uma nova identidade cultural para o nosso cinema e principalmente para o nosso país.
O Brasil não é só violência, carnaval, futebol, sexo, mulher gostosa, ladroagem e corrupção, não que isso não seja parte de nossa realidade, mas será que temos que mostrar só isso nos cinemas, ou será que este tipo de coisa tem que estar presente em tudo o que se faça para o cinema?
O Brasil tem muito mais para mostrar e oferecer para o nosso público do que é mostrado hoje.
Já a pornochanchada foi uma receita que deu muito certo na década de 70 onde a censura era muito forte e através destes filmes, eram mostradas cenas de erotismo e nudez, e apesar de ser comparado com filmes pornôs não tinham de fato cenas de sexo explícito, porém, comercialmente falando isso tudo era muito válido.
Ao contrário do que a grande maioria das pessoas pensa, este tipo de produção cinematográfica não era patrocinado por a Embrafilmes, e sim por produtores independentes e patrocínios de comerciantes, empresários e pessoas de poder aquisitivo favorecido que acreditavam nos projetos e investiam pesado uma vez que era um negócio lucrativo, assim, como hoje o mercado cinematográfico pornô é também um sucesso.
A Vera Cruz, ou a «fábrica dos sonhos» foi fundada em 1949 e fechou as portas cinco anos depois devido ao fato de ter sido um fracasso a idéia de criar uma indústria cinematográfica no Brasil.
Como em São Paulo, tudo estava crescendo ainda na época, a burguesia industrial paulista junto dos intelectuais de elite, decidiram construir a modernidade paulista com instituições culturais como o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), o MAM (Museu de Arte Moderna), e a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, que por sua vez proporcionaria uma grande mudança no cinema nacional, obedecendo à lógica da indústria cinematográfica hollywoodiana, exprimindo através da qualidade técnica de seus filmes a prosperidade das novas tecnologias de lazer, propiciando assim, o abandono do atraso tecnológico e artístico que marcava até então as produções nacionais e inaugurando uma nova fase na produção cinematográfica, seria mais ou menos assim;
«A coisa deixaria de ser feita nas coxas e passaria a ser séria!».
Porém, infelizmente a Cia caiu nas mãos do governo sofrendo uma quebra comercial vindo assim a fechar as portas.
Cerca de cinqüenta por cento de tudo o que produziam era dividido entre os exibidores, e aproximadamente mais quinze por cento entre os distribuidores dos filmes da época, que assim como o exibidor não havia feito nenhum investimento para a produção dos mesmos, com isso o que sobrava para a Vera Cruz, era apenas o que havia gastado para produzir os filmes, ou seja, não havia lucros.
Você já utilizou os estúdios da Vera Cruz,?
Não, mas gostaria muito de reativar tudo e dar seguimento à «fábrica de sonhos» de uma maneira a realizar estes sonhos que começaram a mais de meio século atrás.
Porque ninguém usa?
Não saberia dizer o porquê ninguém usa, porém se eu tivesse uma oportunidade eu usaria sim.
Quais são seus projetos cinematográficos?
Temos quatro projetos até o ano de 2010.
Hoje a Mirage Filmes do Brasil está trabalha na pré-produ ção do filme «Meu vício .... åMeu hospício!».
Roteiro de Deise Batista e direção de Bruno Azevedo.
Este longa-metragem é uma comédia e, as filmagens terão início em novembro deste ano.
Deve ser lançado nos cinemas em julho de 2008.
Terminando este filme, vamos começar a produzir outro:
«Derrama», roteiro de Carlos Vereza.
Trata-se da história de Tiradentes, mostrada após seu enforcamento.
O que aconteceu depois da morte do mártir da inconfidência mineira.
Este deve ser lançado no final de 2008.
Em o início de 2009 devemos rodar em São Paulo um de suspense, trata-se do filme «Eu volto para te buscar!», o roteiro é meu.
Ele fala de espíritos possessores que voltam para vingar sua morte e por não aceitá-la.
Este filme deve ficar pronto para lançamento no final do ano de 2009 e em 2010, começaremos a filmar o que chamo de minha obra-prima.
É outro roteiro meu, que meu xodó:
P.A.T.C.C.O. (Policiais Altamente Treinados Contra o Crime Organizado).
É uma comédia policial do tipo Bad-Boys, à hora do Rush, Máquina Mortífera.
Eu sempre desejei fazer este filme, mais do que «Uma história de emoção!».
P.AT.C.C.O. é uma obra de arte para meus olhos.
É um filme totalmente comercial do tipo que se faz brinquedos, adesivos, camisetas e jogos de videogame etc.
Você também distribui filmes?
A Mirage Filmes do Brasil é uma produtora que tem no seu campo de atuação a condição de distribuir filmes além de produzi-los e finalizá-los, porém a distribuição ainda não foi praticada.
O novo filme:
Tropa de Elite não é parecido com o piloto que vc fez para televisão e que depois se transformou num projeto de um longa?
Veja a sinopse:
Tropa de Elite retrata o dia-a-dia do grupo de policiais e de um capitão do BOPE no ano de 1997 que está querendo sair da corporação e tentará encontrar um substituto para seu posto, paralelo a isso tem a história de dois amigos de infância que se tornam policiais e que se destacam por a honestidade e honra de serem policiais, e se indignam com a corrupção no batalhão em que atuam ...
Sim, totalmente, este é o P.A.T.C.C.O., na verdade no início até me preocupei um pouco quando soube deste filme, falei pra mim mesmo;
«Poxa, será que vão fazer algo parecido com o que eu quero antes de mim?»,
mas depois descobri que não é a mesma coisa, e sinceramente, não querendo ser antiético, mas não existe ainda no Brasil nada parecido com o que quero fazer com P.A.T.C.C.O.
O que você acha dessa propagação de vídeos digitais na internet, em sites como Youtube?
Eu acho que por um lado é maravilhoso, abre um leque maior de abrangência a algumas pessoas de forma a dar mais acesso e conhecimento.
Quanto a alguns projetos, por outro lado, à pirataria hoje em dia, principalmente a «pirataria virtual» prejudica o profissional da área do audiovisual.
Infelizmente também não concordo com a questão «preço», uma vez que com a quantidade e valor dos impostos pagos ao governo, somos impossibilitados de manter um preço razoável na venda dos filmes em DVD e até no valor dos ingressos, que estes sim por um lado tem suas facilidades como a» meia-entrada.
Já na compra de filmes em DVD ou ainda em VHS, infelizmente não podemos optar por pagar metade do preço usando as «carteirinhas de estudantes» (risos), se os impostos fossem baixados, se os preços dos filmes e até CDs de músicas baixassem, acredito que a pirataria perderia um pouco sua força no Brasil.
Se os impostos destes produtos que são totalmente ligados à cultura fossem reduzidos, os preços destes produtos também seriam baixados e o consumidor poderia assim comprar produtos originais e não cópias falsificadas ou mesmo ficar horas com um computador ligado para baixar um filme por a Internet.
É a mesma história dos cigarros, o governo eleva os impostos de tal maneira que estes valores precisam ser repassados para o consumidor, como os preços são muito elevados, o consumidor passa a deixar de comprar aquele produto e passa a comprar cigarros do Paraguai, aqueles que custam um real (risos).
Não adianta o governo pensar que o povo vai parar de fumar, eles simplesmente vão passar a consumir o de fora que é mais barato, apesar de não ser um produto de uma mesma qualidade.
É como os filmes piratas.
A chave disso tudo está no governo, é só ele querer!
Como vc vê os filmes brasileiros no mercado mundial?
Vejo que a péssima identidade cultural que é passada para o nosso público hoje, é também passada lá fora.
Em alguns lugares fora do Brasil, ainda existem pessoas que acreditam que nosso país é habitado noventa por cento por índios, ou por mulatas dançarinas de samba, traficantes e o sexo no Brasil são liberados como tomar sorvete na praça pública (risos).
Acredito que através do que é mostrado, a impressão que eles têm é que o Brasil ainda não sabe fazer cinema.
Obs.. É claro que não podemos deixar de lembrar que existem bons filmes e produções que chegaram lá fora, com todos os méritos do mundo.
Representaram-nos como um país que chegará lá.
Filmes como:
«O Quatrilho», «Central do Brasil», e» Cidade de Deus» receberam indicações ao Oscar, sem contar as outras premiações por o mundo, porém, ainda não marcamos nossa presença.
Apenas aparecemos por lá e demos um «tchauzinho», ainda falta chegar e cravar a bandeira brasileira de forma definitiva no ranking do cinema mundial.
Por que os filmes espanhóis e mexicanos conquistaram o mercado americano?
E por que o brasileiro não?
Bom, em minha opinião, o cinema espanhol é envolvente, a influência latina até no México passa mais sedução e alegria de forma a despertar sentimentos que naturalmente o americano não pratica.
O povo americano é um pouco frio em relação a expressar sentimentos, e o povo latino não tem este problema.
Sem contar o lado sedutor e envolvente que naturalmente desperta a atenção para filmes assim.
Até os filmes de ação, ficção tem uma identidade de produção diferente dos americanos.
Porém, acho importante lembrar que antes de querermos conquistar o mercado americano, o que sinceramente não almejo, devemos conquistar o nosso mercado e fazer com que, o público nacional prestigie e valorize mais os nossos produtos.
Quem é o Bruno Azevedo?
O Bruno Azevedo é um homem de bem, um sonhador revolucionário, alguém que não espera nada acontecer.
Mas, Faz o que pode para que o melhor, aconteça.
Sou uma pessoa batalhadora, alguém que acredita em sonhos, que acredita no que nada é impossível e que podemos fazer tudo.
Podemos mudar e melhorar tudo.
Número de frases: 153
Há focos na fotografia alagoana revelando nítidos registros de boas travessuras, quando os enquadramentos da onda se repetem nas representações estáticas e superficiais dos flashs publicitários, da moda e das baladas noturnas.
Assim, a garota travessa Renata Voss monta seus Lugares Comuns ou Vazios Encenados num coletivo fotográfico que traz reflexões desconstrucionistas sobre o universo representativo, plástico e espaço-temporal da fotografia, além de unir tecnologia artesanal e digital, interatividade, e uma narrativa bem humorada ora pop e colorida, ora vaga e obscura;
suave e despretensiosa, mas também sarcástica e provocante, como a fábula da foto pode ser.
Imagens reveladas em processos alternativos como os do cianótipo e o marrom van dyck;
técnicas de iluminação de estúdio que dão às imagens maior riqueza de detalhes;
visualizações tridimensionais e fotomontagens digitais com base em fragmentos de película cinematográfica compõem os efeitos da triagem fotográfica desta exposição, onde a percepção do olhar é levada à profundidade do processo técnico e criativo de cada seqüência de imagens.
«O fio condutor de Lugares Comuns ou Vazios Encenados é a questão da fotografia como representação, como possibilidade de construção de realidades», explica a artista.
Em a primeira etapa da exposição, Renata desloca imagens fragmentadas de espaços e matérias diferentes, mas com referências em comum como salas, quartos, depósitos, pisos, azulejos, portas e janelas, e remonta-os em simulacros, formando novas composições de espaços e matérias sem descaracterizá-los de suas impressões anteriores.
«Uma imagem fotográfica de um local só se realiza quando alguém diz que local é esse.
Se ninguém diz, a imagem e o local serão apenas mais uma imagem no mundo», reflete.
O segundo espaço coloca em posição crítica o lado plástico e técnico do fazer fotográfico.
Renata Voss utiliza-se de bonecas Barbie como modelos de fotografias tridimensionais -- o público da exposição visualiza as imagens por meio de óculos estereoscópicos -- além de bichos de pelúcia lendo livros teóricos de fotografia para tratar de técnica e objeto, volume e essência, forma e transparência, teoria e subjetividade, subentendendo a indagação:
«A fotografia é um produto apenas da técnica?».
O último momento traz uma sátira à experiência estética da fotografia em seu papel manipulador de aparências, compositor de seres, coisas e situações perfeitas, fabricante do olhar que superlativa o fetiche e o consumo.
Renata preparou fotomontagens digitais com recortes de rostos e pedaços dos corpos de amigos artistas em ações encenadas no seu estúdio, apropriando-se também de imagens pornográficas em película de cinema, que a artista garimpou numa busca em meio aos achados e perdidos das antigas instalações do Cine Plaza, que funcionou durante as décadas de 1950 e 1960 no bairro do Poço, em Maceió.
Em este espaço, a artista levanta «questões como a curiosidade acerca da vida dos outros, a exposição na mídia e como através desses fatos as pessoas deixam de agir naturalmente, transformando a própria vida numa eterna cena, num eterno e ridículo jogo de aparências», argumenta e enfatiza ainda que os retratos das pessoas tirados em seu estúdio foram feitos sem qualquer intenção de serem sobrepostos às películas.
Publicitária por formação, aos 25 anos Renata Voss dá aulas de fotografia a diversos cursos de comunicação, empresta sua astúcia e saudável inquietação à imagem da moda e da publicidade, e desponta na cidade por sua ousadia em promover acontecimentos provocadores e subversores no cotidiano alagoano, permitindo ainda o encontro da fotografia com outras modalidades artísticas como o design gráfico, a vídeoarte, as artes plásticas, cênicas e performáticas.
Entre os seus trabalhos artísticos anteriores destacam-se a intervenção urbana «Pormenores de uma Carroça e Aboio», apresentados também nas capitais da Bahia e de São Paulo.
Lugares Comuns ou Vazios Encenados foi selecionado em edital por a Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas, e estréia no dia 30 de julho, permanecendo aberto ao público até o dia 12 de setembro, no Espaço Cultural Universitário Salomão de Barros Lima, na Praça Sinimbú, no Centro da Cidade.
Serviço:
Exposição fotográfica Lugares Comuns ou Vazios Encenados
Artista: Renata Voss
Quando: de 30 de julho a 12 de setembro
Onde: Espaço Cultural Universitário Salomão de Barros Lima -- Praça, 206 -- Centro. (
Maceió-AL) De segunda a sexta, das 8h:30 às 12h, e das 14h às 18h
Entrada franca.
Informações:
Número de frases: 27
3221.7230 LUFT, Celso Pedro.
Língua e Liberdade.
Paulo: Ática.
6ª edição.
1998.
Celso
Pedro LUFT (1921-1995), professor de Língua Portuguesa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi também autor de gramáticas e manuais de ortografia e dicionarista.
De entre suas obras, poderíamos citar:
Moderna Gramática Brasileira, Dicionário Prático de Regência Verbal e Decifrando a crase.
Luft, já na apresentação de seu Língua e Liberdade, reconhece que poderia parecer estranho que um estudioso da gramática seja contra o ensino de Gramática na sala de aula.
Ele esclarece, no entanto, que o que chamamos «gramáticas» não passa de uma tentativa de sistematização de alguns aspectos daquilo que a Gramática verdadeira -- um conjunto de regras que sustentam o sistema de qualquer língua -- contém.
O estudo da língua, portanto, não se limita unicamente ao estudo dos livros de Gramática.
A língua é um meio de comunicação, é viva e atual e muda sempre para adaptar-se à realidade de seus usuários, que está em constante mudança.
Luft deixa claro que a sua preocupação é com a maneira de ensinar a língua materna -- as falsas noções de língua e gramática, a obsessão gramaticalista e a visão destorcida de todo esse processo.
O livro está dividido em seis capítulos e tem um estilo que privilegia uma linguagem simples e extremamente acessível.
Luft nos apresenta sua visão, muito esclarecedora, sobre a dicotomia língua versus linguagem.
Assunto que, como todos sabemos, é motivo de grande polêmica e é o principal foco da antiga e ainda atual disputa entre gramáticos e lingüistas.
O Capítulo 1 -- Subversão Lingüística?--
é basicamente sobre gramática e comunicação.
A partir da crônica «O gigolô das Palavras» de Luís Fernando Veríssimo, Luft faz uma reflexão sobre a linguagem como meio de comunicação.
Percebe-se uma crítica rigorosa feita por Luft à escola tradicional, na sua prática equivocada do ensino de línguas.
De acordo com o autor, um ensino gramaticalista poda os talentos naturais, desenvolve a insegurança na linguagem, gerando aversão ao estudo do idioma e o horror à expressão livre e autêntica dos alunos.
A conclusão do Capítulo 1 é de que a verdadeira gramática é algo vivo e natural, portanto independe de ensino, aceita variações lingüísticas e pressupõe a evolução e a mudança das línguas.
Em esta visão, teríamos o ensino da língua materna que iria formar falantes, leitores e escritores muito mais competentes.
O autor defende o ensino natural da Gramática na escola, como uma imitação do processo de aquisição da língua que ocorre com as crianças aprendendo a falar.
Em o Capítulo 2 -- A Teoria da Linguagem -- o autor fala sobre a dicotomia fundamental entre competência / desempenho, de Chomsky.
Competência em linguagem é a capacidade das pessoas de se comunicarem por meio de sistemas de sinais vocais, e desempenho é o comportamento lingüístico, os usos que se faz da língua.
Para Luft, a verdadeira gramática da língua é o sistema de regras interiorizadas por os falantes desde a infância -- é ela a gramática legítima e autêntica.
O autor também comenta as conseqüências maléficas do ensino gramaticalista, que impõe uma sobrecarga de inutilidades ao estudante.
Em vista disso, podemos nos perguntar:
quantos jovens terminam o segundo grau e conseguem achar uma utilidade para todas essas regras que lhes foram ensinadas e que eles, muitas vezes, apenas decoravam sem entender?
Mais uma vez, o autor explicita que é necessário repensar o ensino da língua materna para acabar com esse ensino que inibe os alunos, deixando-os inseguros e com a sensação de " não saber a língua."
Capítulo 3 -- Nascemos Programados Para Falar -- Luft inicia este capítulo falando que o professor de língua precisa ter noções corretas sobre linguagem, língua e fala e de elas fazer a base de suas atividades.
O autor aborda a tese do inatismo de Chomsky, lembrando que ninguém nasce com a gramática de uma língua específica, todavia nasce com uma estrutura lingüística genérica -- a base para a apreensão das estruturas específicas de qualquer língua.
Precocemente, diz Luft, as crianças nos surpreendem se expressando usando estruturas e um vocabulário que superam muito as frases e até mesmo o léxico que ouviu dos adultos.
Elas não reproduzem simplesmente o que lhes foi dito, mas criam inúmeras frases com bases nas regras depreendidas daquilo que ouviram e fazem isso sem a ajuda dos gramáticos ou de seus livros.
Aprendem naturalmente a língua e a respectiva gramática a que são expostas.
Capítulo 4 -- Teoria Gramatical:
Implícita e Explícita -- Falando que a tradição escolar, distante da realidade e que sempre privilegiou o teórico e não o prático, o normativo e não o descritivo, Luft aponta para a complexidade da teoria da língua que a criança constrói em sua mente:
com aspectos da semântica, morfologia, sintaxe, fonologia e fonética.
Mesmo crianças de meios sociais mais pobres e menos estimuladas, conseguem apreender e interiorizar a teoria subjacente a sua língua materna (gramática implícita).
O autor, partindo dos pressupostos da Lingüística Gerativa de Chomsky, nos diz que a gramática implícita é a predisposição inata da criança para criar uma teoria para organizar as informações (dados da fala) que lhe são apresentados pelo meio onde vive.
Em este capítulo, o autor faz uma clara distinção entre a teoria gramatical implícita e explícita.
Finalizando-o, Luft faz um adendo para discutir a questão da gramaticalidade e da comunicabilidade por considerar um tema imprescindível.
Para ele, a gramática plena, verdadeira é a que está na mente dos falantes.
Segundo ele, os livros de gramática mutilam a língua natural e apresentam enormes falhas e lacunas.
Em o Capítulo 5 -- Sobre a Inutilidade e Nocividade da Teoria Gramatical no Ensino da «Língua Materna --» A verdadeira gramática é um pré-requisito da fala», diz Luft ao iniciá-lo.
O autor analisa os prejuízos do ensino gramaticalista, fazendo a seguinte pergunta: "
Não seria mais racional usar esse saber prévio para exercitar e aperfeiçoar a capacidade comunicativa?"
Em a opinião de Luft, a verdadeira teoria gramatical começa e acaba nos fatos da língua, a criança não tem consciência do que ocorre quando aprende a comer, a nadar e a andar.
Para executar estas atividades, não é necessário que a mãe incentive a criança ou lhes dê informações de como os músculos funcionam ou como ocorre a digestão.
A aquisição da língua e a competência lingüística ocorrem de maneira semelhante.
Para Luft, portanto, a teoria gramatical é nociva nesta fase inicial dos estudos sistemáticos da língua / linguagem.
Em a conclusão do capítulo, Luft questiona se há salvação para a Gramática Tradicional e lamenta ter de dizer que a sua resposta é negativa.
Nenhuma crise de ensino pode ser superada apenas por a troca de uma teoria por outra.
Citando Georges Mounin (1979), o autor termina o capítulo, dizendo que o professor é quem precisa saber Lingüística e Gramática para fazer bem o seu trabalho e não o aluno, menos ainda a criança.
Capítulo 6 -- Língua e Liberdade -- Em este último capítulo, o ensino e a educação ideais, voltados para a liberdade é o assunto que encerra essa importante reflexão de Luft.
O aluno não precisa «aprender» a língua das regrinhas da Gramática, ele necessita sim de um reforço para o seu saber, para a sua gramática implícita, expandindo assim o seu conhecimento ao incorporar elementos do padrão culto e aprendendo a escrever bem.
Precisa da oportunidade de ler bons textos e descobrir os recursos expressionais de sua língua e o poder da boa e expressiva comunicação, tal como prega Maurício Gnerre, em seu livro Linguagem e Poder, já que a linguagem sempre foi usada como instrumento de dominação e poder.
Apreciação: --
Passados tantos anos desde a primeira edição desse livro de Luft, ele ainda é uma referência indispensável quando se discute a questão do ensino da língua materna e mesmo de línguas estrangeiras.
Sem dúvida, Língua & Liberdade é uma excelente reflexão para os professores e estudantes dos cursos de Letras e de Pedagogia.
Aliás, para mim, é fundamental uma parceria entre os pedagogos e os professores de língua, que precisam aprender e usar a mesma linguagem quando tratam desse assunto.
Muitas vezes, no cotidiano das escolas, observamos estes dois profissionais numa verdadeira guerra de egos e teorias, o que tem causado um enorme prejuízo aos estudantes.
Aliás, o momento atual tem nos mostrado o quanto o trabalho multidisciplinar e interdisciplinar elimina os vácuos teóricos das disciplinas e possibilita uma prática mais coerente com a nossa realidade.
A leitura do livro é bastante agradável e muito provocadora.
Ninguém consegue terminá-la sem se incomodar, sem mudar ou reforçar seus pontos de vista sobre o tema:
«um ensino com o mínimo de Gramática e o máximo de prática, um ensino libertador», que liberte o cidadão através do melhor domínio e de maior segurança no uso da sua palavra, finalmente liberta.
Número de frases: 68
Um jornalzinho produzido na escola que ajude no ensino de português ou história, um programa de rádio produzido por garotos da periferia que os ajude a descobrir suas próprias vozes, um fanzine que auxilie na descoberta da identidade de uma comunidade.
Essas são apenas algumas ações que podem ser incluídas no conceito de educomunicação.
A convergência entre educação, comunicação e outras ciências sociais surgiu a partir de realidades que se configuraram no pós-Segunda Guerra.
A necessidade de se construir uma sociedade mais justa e igualitária propiciou a construção de um movimento social em torno da cidadania.
Em esse esforço, juntaram-se metodologias de várias áreas das ciências humanas em prol da democratização da comunicação.
A educomunicação, porém, não foi inventada dentro dos espaços acadêmicos, surgiu das práticas cidadãs.
«A educomunicação tem tentado quebrar o conceito de que a Comunicação só pode ser feita por profissionais.
É discutir o processo comunicativo da base, ou seja, mostrar para as pessoas ' não-especialistas ' que elas são comunicadoras», afirma Kadydja Albuquerque, jornalista e educomunicadora.
Além desse objetivo citado por ela, destaca-se também a vontade de promover o acesso democrático dos cidadãos à produção e difusão da informação;
identificar como o mundo é editado nos meios;
facilitar o processo ensino-aprendizado através do uso criativo dos meios de comunicação;
e, promover a expressão comunicativa dos membros da comunidade educativa.
«A intenção é fazer os alunos verem que a comunicação está em todo lugar.
Além de trabalhar conteúdos comunicativos, abordar temas como cidadania, protagonismo juvenil, gênero, relações sociais, meio ambiente», explica André Souza, educomunicador da Ong Missão Criança Aracaju.
Experiência -- A educomunicação pode acontecer de duas formas diferentes.
Uma, através da utilização das tecnologias da informação em sala de aula;
e a outra, instando crianças e adolescentes ao pensamento crítico acerca do impacto da mídia em suas vidas.
Uma terceira forma, ainda, pode englobar as duas ações.
«É preciso que os professores trabalhem a comunicação e suas novas tecnologias com os seus alunos, não só através de produtos de mídia alternativa como também com disciplinas que estimulem a leitura crítica da mídia», acredita Kadydja.
Essa foi a estratégia, por exemplo, da Ong Missão Criança Aracaju ao iniciar oficinas de comunicação para os adolescentes beneficiados por o Recriando Caminhos, projeto executado por a Ong com o patrocínio da Petrobras.
Até agora duas oficinas já foram feitas, com quinze adolescentes cada.
A primeira teve como resultado um fanzine, e a segunda, um programa de rádio.
Uma terceira oficina de rádio se inicia hoje, dia 21.
A o chegarem às oficinas esses meninos e meninas -- moradores dos bairros Santa Maria e Cidade Nova -- tinham visões muito negativas de suas comunidades.
Concepções que foram construídas a partir também das imagens veiculadas por os meios de comunicação.
«As crianças não conseguem se ver nos meios de comunicação», constata André.
Contudo, ao fazerem a crítica dos produtos midáticos, eles conseguem perceber as razões dessas visões, e observar as comunidades por outros ângulos.
Em essas oficinas, os adolescentes passam por aulas teóricas, que abordam temas de cidadania, e aulas práticas que resultam num produto midiático.
Os educomunicadores pedem aos meninos e meninas que falem sobre sua comunidade nesses produtos, os aspectos bons e os ruins.
«Eles passam a decodificar (à maneira de eles) como é o processo de construção da comunicação.
E isso influenciou até na comunicação pessoal, o processo de construção e articulação do discurso», conta André.
Os resultados são claros entre eles, desde a melhoria de tratamento entre si até uma maior facilidade em comunicar-se.
«Os resultados foram além do esperado porque conseguimos trabalhar os temas transversais aliados aos conceitos de comunicação alternativa.
E o melhor, eles entenderam a linguagem e participaram espontaneamente do processo», explica Kadydja.
Preconceitos -- Apesar desses bons resultados, a educomunicação ainda sofre preconceitos tanto das escolas quanto dos próprios comunicadores.
Normalmente, os espaços de educação formal a encaram como uma ameaça a sua ortodoxia.
Já os comunicadores a vêem como uma produção pobre e sem valor.
Fato é que a presença da comunicação no ambiente escolar provoca uma discussão sobre o «ecossistema comunicativo» em que estão inseridos.
E a própria Lei de Diretrizes e Bases (LDB) abre espaço importante para a educação para a comunicação dentro da própria escola.
Os Parâmetros Curriculares para o ensino fundamental, trazidos por a LDB, deixaram evidente a necessidade de uma aproximação ao universo da comunicação.
Número de frases: 40
E as normas para a reforma do ensino médio estabelecem que praticamente um terço do conteúdo dos currículos que vierem a ser elaborados levem em conta a presença das tecnologias e dos meios de comunicação na sociedade e na educação.--
Uma história de extermínio
Serra da Matança. Não é apenas coincidência.
Em essa serra no final do século XIX aconteceu de fato uma carnificina.
Ela fica a 5 km de Babaçulândia, cidade às margens do rio Tocantins, aqui no Tocantins.
Esse acontecimento é hoje conhecido por pouca gente e vai aos poucos perdendo a referência histórica e ficando apenas o topônimo.
Pesquisando para a composição de um livro sobre a cidade, descobri a história do lugar e a maneira como os pecuaristas se apropriavam então das terras pertencentes aos índios.
Em o livro Índios e Criadores, o professor Júlio Cezar Melatti trata de como os índios Krahô chegaram a essa região.
Vieram expulsos por os pecuaristas que avançaram no início do século XIX da Bahia para o Piauí e entraram no Maranhão por o vale do rio Balsas.
Aí encontraram os Krahô.
Em uma ação que era irreprimível por a força devastadora que impunha a qualquer obstáculo encontrado, restou aos índios decidirem por uma das duas opções:
ficar, enfrentar o usurpador e ser exterminado ou fugir em busca de outras paragens para procrastinar o extermínio.
Escolheram a segunda opção.
Cruzaram o rio Tocantins para a então província de Goyaz entre as barras dos rios Farinha e Manoel Alves Grande.
Atravessaram justamente sobre Babaçulândia, que nessa época ainda não existia.
Tudo aqui era um imenso deserto verde.
Os pecuaristas chegaram em seguida sequiosos de mais terras, uma vez mais para desalojar os índios e estabelecer fazendas para a criação de gado.
Os índios, encurralados, subiram à serra e lá habitaram para resistir.
àquela época, sem proteção, eram presas fáceis.
Foram exterminados no topo da serra.
Em muitas oportunidades os pecuaristas, em toda a frente ampla que avançava por essa região do Nordeste Ocidental, iludiam-lhes com propostas que não cumpririam.
Quando os índios aquiesciam e deixavam suas trincheiras, eram chacinados e os sobreviventes vendidos como escravos para as fazendas de algodão e arroz do litoral maranhense.
Amansação
Era uma prática corriqueira nessa região adotada por os pecuaristas do século XIX para ocupar e apropriar-se das terras para a criação de gado.
Em a verdade, um eufemismo para nomear a ação de extermínio indígena.
Quando os índios demonstravam a firme intenção de não abandonar o lugar e resistir, homens eram contratados para a «limpeza da área».
O resultado era o genocídio sem qualquer condescendência.
Quando a terra era liberada, estava pronta para o estabelecimento do novo proprietário e sua equipe de trabalho.
Casas eram erguidas e a fazenda começava a produzir com tranquilidade.
Babaçulândia começou a existir como centro urbano no início do século XX, com a presença de habitantes remanescentes dessas fazendas.
Em 1926, outras famílias se estabeleceram às margens do rio Tocantins e o pequeno povoado recebeu o nome de Nova Aurora do Coco.
Em meados da década de 1950, alcançou a emancipação e o município recebeu o nome atual.
A Serra da Matança está a apenas 5 km do centro da cidade.
Por a importância que teve na história da recente ocupação humana na região, é hoje sítio arqueológico sob proteção da Universidade Federal do Tocantins.
Há na encosta da serra uma caverna, refúgio dos índios Krahô daqueles tempos.
Inscrições no arenito das paredes contam a sua saga e o seu sofrimento histórico.
Número de frases: 36
Já a alguns anos o ensino superior vem ganhando a forma da educação a distância.
Pois bem, facilita e muito a vida social do aluno.
Este passa a ter mais tempo livre ...
Tempo livre para que?!
Para trabalhar mais, produzir mais, viver mais tempo com a família;
passear mais.
Estas foram algumas das respostas de meus alunos.
O que me preocupou muito, entre as respostas, foi que hora nenhuma;
nenhum aluno falou que sobraria tempo para estudar em casa, fazer pesquisas, consultar bibliografias.
O ensino superior a distância, sem dúvida é privilegio para muitos além de ser uma forma de ensino que exige muito do aluno.
Porém, percebo uma imaturidade ainda muito grande por parte de alguns alunos.
Estes, enxergam a modalidade de ensino de uma forma leviana.
O que me preocupa, é que nesta modalidade forma-se muitos profissionais do ensino, professores dos anos iniciais.
Como será o aluno deste meu aluno, sem compromisso?
Número de frases: 14
Premiações existem em toda parte, a maioria decidida por jurados ou mesmo por o organizador.
Bem, com o Troféu Jupará é diferente.
Criado por a rádio Morena FM 98.
7, de Itabuna (BA), em 1993 dentro do Projeto Jupará de Valorização da Cultura Grapiuna já nasceu com votação direta do público.
Em a época os artistas grapiunas (do sul da Bahia) não tinham mercado de trabalho, status ou reconhecimento.
Para valorizar seu trabalho foi criado o Troféu Jupará, que hoje é votado em computadores instalados nas praças de Itabuna e Ilhéus.
Em o dia 16 de maio acontece a festa de premiação deste ano, quando os vencedores são, finalmente, conhecidos num evento regado a ansiedade (dos concorrentes) e apresentações de artistas locais.
Além da rádio, o troféu é organizado por a Fundação Jupará de Cultura e Ecologia e premia 16 categorias de música, teatro, dança e artes plásticas.
Com 13 anos de sucesso, lotando a AABB na premiação, dono de uma credibilidade rara no setor, o cobiçado Troféu Jupará vai fazendo sua parte num mundo onde nem sempre a cultura tem vez e lugar.
Número de frases: 9
O site oficial do evento é www.trofeujupara.com.br
São «eles» que decidem, mas o que você acha?
«Quer morrer?
Em a hora do pipoco quem vai levar tiro da polícia é você».
Não. Isso não é um jargão extraído de algum seriado de tv.
A fala acima é da Juíza Luciana Fiala e está no documentário Juízo, da diretora Maria Augusta Ramos.
O filme aborda o julgamento de adolescentes que cometeram infrações e propõe reflexões relacionadas a dificuldades atuais que impedem o cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Juízo ganhou o status de hors concours * 1 no Festival do Rio em outubro de 2007, foi premiado em diversos festivais, exibido durante o Human Rights Watch Internacional Film que aconteceu no mês de junho em Nova York e já está disponível em algumas locadoras.
O ECA não permite que adolescentes em situação de conflito com a lei sejam identificados, por isso a diretora convidou jovens em situação de risco para atuar no lugar dos adolescentes que foram julgados nas audiências gravadas para a construção do filme.
Os outros personagens são familiares dos adolescentes e profissionais reais no exercício de suas atividades:
juízes, promotores, defensores e agentes do DEGASE (Departamento Geral de Ações Sócio-Educativas), órgão ligado a Secretária de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro.
A os telespectadores mais indignados é possível sugerir, além da pipoca, papel, caneta, um olho na tela e outro no ECA.
O trailer disponível na internet contém cenas explícitas de violação da Lei, na íntegra do documentário não é diferente.
Em o transcorrer de 90 minutos de vídeo, as cenas são marcadas quase que quadro a quadro por a desconsideração dos direitos de adolescentes.
De entre os artigos violados destacam-se:
o direito ao respeito e à dignidade (Art 15, 16, 17, 18);
o artigo 178 que determina que " o adolescente a quem se atribua autoria de ato infracional não poderá ser conduzido ou transportado em compartimento fechado de veículo policial, em condições atentatórias à sua dignidade, ou que impliquem risco à sua integridade física ou mental, sob pena de responsabilidade ";
o direito de ser ouvido e ter pleno e formal conhecimento da sua situação perante a Justiça (Art 110).
Em o documentário os adolescentes em regime de privação de liberdade são retratados dentro de uma Entidade de Atendimento que não apresenta condições mínimas de higiene e salubridade (Art 124) e onde -- pelo menos em nenhum momento do documentário -- não acontecem atividades pedagógicas (Art123).
O ECA poderia representar um salto quântico desde o Código de Menores, implementado no regime militar, fundamentado na Doutrina da Situação Irregular.
O Código foi planejado para ser posto em prática só a partir do momento em que o «menor» viesse a cometer alguma infração ou apresentasse «conduta ou exposição a situações irregulares», termos que não eram apresentados ou definidos de maneira clara.
Possuía graves limitações, favorecendo violações de direitos por o próprio Estado e centralizando os poderes no Judiciário.
Juízo chama a atenção aos perigos de um judiciário despreparado que demonstra negligência na percepção de complexos contextos reais que nos desafiam a implementar políticas inter-setoriais e que, ao invés de garantir direitos previstos na legislação, acaba por decretar decisões que prejudicam ainda mais a preservação da integridade dos jovens.
A juíza Luciana Fiala, que protagoniza o documentário realizando uma série de audiências com adolescentes infratores, diz a um dos garotos:
«fico espantada porque é um menino com saúde graças a deus, dois braços, duas pernas ...
podia estar fazendo uma coisa lícita, podia tá lavando um carro, vendendo uma bala, mas não!
Te a roubando os outros».
como se o trabalho no mercado informal devesse ser considerado como uma alternativa adequada aos jovens que não têm garantidas as condições básicas para sua sobrevivência, desenvolvimento e formação profissional.
Repete o tom da fala utilizada para a abertura desse texto, como se devêssemos considerar como natural a possibilidade de um adolescente vir a ser baleado por a polícia.
Fiala parece não dar muita importância ao fato do texto legal defender que «submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento» (Art232) é crime -- bem como parece se esquecer que é dever do Estado zelar por a integridade física e mental dos internos, cabendo-lhe adotar as medidas adequadas de contenção e segurança. (
Art 125).
Há dezoito anos, com o nascimento do Estatuto, a Doutrina da Situação Irregular prevista por o antigo Código, foi substituída por a Doutrina da Proteção Integral, afirmando crianças e adolescente como sujeitos de direitos.
Acompanhando a mudança de foco, passam a ser cidadãos com prioridade na elaboração de políticas públicas capazes de fortalecer sistemas e redes de garantia, proteção e promoção de direitos para o efetivo atendimento de suas necessidades.
Sobrevivência, desenvolvimento e integridade são questões ligadas fortemente a ações e estratégias de advocacia, pedagogia e mobilização social.
Depois de vinte e três anos do suposto fim da Ditadura, vale lembrar o Art 223 do ECA que foi revogado por a Lei 9.455, de 7/04/1997, definindo como crime de tortura, com pena de reclusão de dois a oito anos (Art I, inciso II):
«submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou medida de caráter preventivo».
O documentário serve como combustível pra incendiar ainda mais o debate.
São «eles» que decidem, mas o que você acha?
* 1 hors concours -- fora de competição, fora do concurso.
Por tamanha singularidade e / ou tamanha qualidade e relevância.
Posição de destaque, de grande mérito.
Saiba mais:
http://www.juizoofilme.com.br
http://www.juizoofilme.com.br/php/imprensa release.
php? lang = pt
http://www.planalto.gov.br/ccivil 03/ Leis / L 8069.h tm
http://www.omelete.com.br/cine/ 100008825/ Juizo.
aspx http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx
http://www.criticos.com.br/new/artigos/ critica interna.
Número de frases: 49
asp? artigo = 1322 «É essa saudade que invadiu meu peito, e não tem jeito mais».
A música do Casca Verde serve bem para ilustrar a história do Adriano de Araújo, cidadão pedrossegundense que deixou a terrinha aos 18 anos para ir, como milhares vão todos os anos, em busca de emprego, dinheiro e vida nova em São Paulo.
O emprego ele arrumou, como porteiro num prédio que define como «chiquezão».
O dinheiro, porém, era minguado e com isso a vida nova foi ficando cada vez mais difícil.
E a vida velha, a que ficou no interior do Piauí, começou a virar saudade no coração do rapaz.
Ele diz que doía.
E doeu tanto que se materializou.
As cenas da vida no sertão, de tão fortes na memória de Adriano, foram tomando forma em pedaços de madeira e papelão.
Viraram maquetes cheias de detalhes:
o jumento amarrado na cerca, o moço de peito cabeludo com a camisa aberta e o facão na mão, as fogueiras, o chão ressecado, as casas de palha, as varandas onde o povo senta nos tamboretes para prosear ...
Com vontade de rever tudo ao vivo, ele um dia resolveu voltar.
Quando chegou, teve uma surpresa.
«Quando eu cheguei encontrei um cenário de interior muito diferente do que eu tinha deixado, do que estava vivo em minha mente.
Tudo estava muito mudado, as casas, as pessoas, o cotidiano.
Foi aí que eu pensei em começar a montar as cenas que eu via antes, para que elas não se perdessem nem fossem esquecidas por todo mundo.
As crianças de hoje, que não conheceram o sertão do jeito que eu conheci, acham bonito o que eu faço», conta, orgulhoso.
Uma das maquetes preferidas de Adriano é Cantoria, que mostra uma autêntica festa no interior, com roda de viola, cantadores, os burrinhos amarrados nas cercas.
«Hoje quase não se vê mais os burrinhos, só tem motos.
Todo mundo comprou moto no interior, o que vai ser dos burrinhos?
Tem gente que deixa os coitados soltos no meio do mato, eles vão parar nas estradas e acabam morrendo atropelados», comenta o artesão.
Outra cena tipicamente nordestina retratada por Adriano é a Farinhada, um evento que é a cara do interior do Nordeste.
Está tudo detalhado no mini cenário:
a alegria e a união das famílias, a mandioca, a farinha, o beiju, a tapioca.
«A farinhada que eu me lembro é a que era feita nos anos 70, quando eu ainda não tinha viajado pra São Paulo, tudo era manual, todo mundo trabalhava junto.
A casa de farinhada, se a gente for pensar bem, é a primeira microempresa do sertão, um grupo pequeno se junta, produz uma coisa e todo mundo divide o que apurar», lembra.
O prédio onde trabalhou quando morava em São Paulo também virou maquete, com a figura do porteiro sentada na frente.
Adriano quer que as crianças de Pedro II conheçam um pouco da realidade de uma cidade grande, por isso montou o edifício em miniatura.
É também uma homenagem ao nordestino que vai tentar melhorar de vida em São Paulo», esclarece.
O Mini-Museu
As maquetes feitas por Adriano não estão à venda, foram feitas para o acervo do Mini Museu que ele criou em Pedro II.
«Em a verdade, minha idéia era fazer um museu grande com as miniaturas do sertão, mas só consegui alugar esse pontinho aqui, aí virou o Mini Museu, porque tudo é pequeno, até o espaço», brinca.
O artesão usa talos de buriti, madeira, palha, papelão, miçangas e uma mistura de barro com cola para confeccionar seus pequenos cenários.
Ele faz souvenirs para vender e espera assim ampliar o museu um dia.
Aceita encomendas de maquetes e as faz com o mesmo cuidado e prazer com que faz as de sua exposição.
Adriano revela que pretende montar uma escolinha para ensinar sua arte às crianças, ele já tem dois aprendizes.
«São dois meninos que me ajudam, eles já estão começando a fazer as peças, são muito interessados», diz.
O Mini Museu fica na rua Tertuliano Filho, 259, no Centro de Pedro II.
Número de frases: 37
O telefone de contato é (86) 3217-2331.
Viva A Alegria!!!!!!!!!!!!!!!!!
Eddwin de Olinda
Número de frases: 3
Percussionista Eddwin de Olinda, na Facha com os amigos Charles e sua banda ao fundo diretor cultural Heleno, e a nossa produtora Antonieta!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Brasil x Argentina, além da rivalidade.
Para nós brasileiros, a Argentina se resume na rivalidade dos jogos de futebol e nas relações econômicas entre os dois países.
Mas, na realidade, há muito mais em comum entre Brasil e Argentina que o Mercosul e uma ou outra partida de futebol.
Para começar podemos citar as diferenças regionais.
Para se falar de Brasil é preciso entender os distintos «Brasis», na Argentina não é diferente, cada região tem sua História e estórias, seu sotaque, sua gente.
Em o Norte, assim como no Norte do Brasil, prevalece a influência dos povos indígenas, na província de Buenos Aires, há a influência de espanhóis e italianos, em Misiones, a de alemães, no Sul, a de ingleses e nos campos, dos gaúchos.
É, gaúchos!
Para nós brasileiros, gaúcho é aquele nascido no Estado do Rio Grande do Sul, mas na verdade, os gaúchos não se resumem num Estado, esse é o nome usado para designar todo camponês, criador de gado, que viveu nos séculos XVIII e XIX na região dos pampas da Argentina, Uruguai e Rio Grande do Sul.
Por isso mesmo é que os sulistas brasileiros se assemelham tanto com os Argentinos, chimarrão -- ou apenas mate, como se diz na Argentina -- bombachas, o uso das palavras ou semi-palavras «Che» e ba não é apenas coisa da região sul do Brasil, no país da região de la plata também são muito utilizadas.
E mais, assistir a uma apresentação de dança folclórica no país dos «hermanos» ou no Rio Grande do Sul não é muito diferente.
Em as academias uma das modalidades mais procurada é o «Brasileño».
O que seria o Axé para nós.
Fui um dia assistir a uma dessas aulas, na sala não havia apenas jovens, mas também crianças e senhoras de meia idade.
Trajavam calças brancas, parecidas com o abada da capoeira, estampadas na parte inferior com a bandeira do Brasil, o que dava um movimento gracioso no contexto coreográfico da dança.
O interessante era ver uma menina de nove anos dançando tão bem quanto, e com a mesma energia de uma bahianinha da mesma idade, vendo-a dançar sentia-me em casa, mesmo não gostando muito desse estilo de música.
Em as festas de casamento há um momento muito esperado:
o carnaval carioca, onde são tocadas músicas antigas de axé, como a «Dança do Vampiro» da banda Asa de Águia, e ainda marchinhas de carnaval.
Além disso, há uma rádio que só toca música brasileira, destaque para a MPB e a Bossa Nova.
A dança típica da Argentina todos nós conhecemos:
Tango. O que há de comum entre o Tango e as manifestações culturais brasileiras?
A resposta está na origem.
Assim como o Samba, o Frevo e o Maracatu, a origem da mais difundida dança argentina teve influência africana.
Em a Argentina também houve escravidão e o Tango inicia-se nos bailes negros, primeiramente era uma dança mal vista, ao poucos foi se tornando uma dança elitizada.
As tanguerias cobram caro por a entrada, ainda bem que podemos assisti-lo fora de elas, nas ruas, em finais de semana, é possível ver casais dançando em alguns pontos turísticos.
Além do Tango, existe também a Milonga e o Chamamé, muito conhecidas na região, mas pouco difundidas no mundo, um leigo confundi fácil a Milonga com o Tango.
Mas e para onde foram os negros argentinos?
Imigraram, muitos para o Brasil, não suportaram o frio que faz no inverno.
Em a política o cenário não é diferente, corrupção e mais corrupção, mentiras e desilusão, com o agravante da economia mais uma vez em crise, dessa vez é o monstro da inflação que bate à porta.
Em as campanhas de eleição descobrimos mais uma coisa em comum:
Muitos políticos argentinos contratam publicitários de campanhas políticas brasileiras para fazer sua propaganda.
Por último, a língua.
Devido ao investimento e expansão de muitas empresas brasileiras na argentina, «os hermanos» têm grande interesse em aprender «a língua portuguesa brasileira», em algumas escolas particulares já lecionam nossa língua, em certas universidades também, além de empresas diversas.
O ideal seria que nós brasileiros aprendêssemos o espanhol nas escolas para nos inteirarmos mais com restante da América do Sul já que a língua é um unificador de povos.
Infelizmente, o Brasil fica um pouco por fora da ligação e unidade existente entre as nacionalidades latino-americanas de língua espanhola.
Mas ainda bem que existe o famoso «jeitinho brasileiro», que faz com que nós quebremos qualquer barreira de língua ou costume.
Afinal de contas, é colocando mais «água no feijão» que abrimos nosso coração para a infinidade de povos existentes em nosso próprio país e para os inúmeros turistas que nos visitam, e assim fazemos as diferenças, como a do feijão e arroz, caberem no mesmo prato e se transformarem numa combinação perfeita.
Gabriela Chaves.
Número de frases: 38
Eram dezenas de pessoas.
Repórteres, cinegrafistas, fotógrafos e curiosos se amontoavam para acompanhar o que estava acontecendo.
O «espetáculo» era visto também, ao vivo, em todo o país, graças às lentes e aos microfones lá colocados.
Até as imagens das câmeras de monitoramento da Central de Trânsito foram utilizadas na tevê.
Tudo foi devidamente mostrado.
Todos os ângulos, gestos, palavras e atitudes, assim como num filme.
Como num bom filme, havia um bandido.
Este, aos seis anos de idade, filho de pai desconhecido, viu a mãe ser degolada.
Foi morar na rua.
Quando adolescente, sobreviveu à chacina da igreja da Candelária, no Rio de Janeiro.
Chegou a ser preso por várias vezes, mas sempre fugia.
Ele era conhecido por uma característica que marcava sua face:
Mancha.
Para completar o roteiro do filme, um ônibus com trabalhadores e estudantes foi seqüestrado e a polícia parecia incapaz de lidar com uma situação até então incomum:
um seqüestro com reféns transmitido ao vivo.
Quem assistiu ao filme «O quarto poder», com John Travolta, pode pensar que a história acima se trata de um plágio.
Alguma vez você já ouviu a frase:
«a vida imita a arte»?
Ônibus 174 é exatamente isto.
O documentário relata o incidente de 12 de junho de 2000 no Rio de Janeiro que cuminou com a morte do seqüestrador Sandro do Nascimento e de uma das reféns, Geisa Gonçalves, com tiros disparados por o bandido e por a polícia.
Com imagens das emissoras de televisões e gravações próprias, o diretor José Padilha constrói uma narrativa dupla que mostra o desenrolar do seqüestro e a trajetória pessoal de Sandro intercalados com depoimentos.
A família, a tia e alguns amigos são entrevistados, além de policiais que participaram da operação (um com o rosto coberto devido à proibição de dar entrevistas por parte do batalhão), alguns reféns, o viúvo da vítima e, até, um assaltante «profissional».
O filme é um soco no estômago, pois mostra uma realidade de sofrimento e violência que beira o surreal.
Em a ocasião do lançamento do filme, um repórter da Folha de S. Paulo resumiu o sentimento do filme:
«Não há roteirista, por mais delirante que seja, capaz de imaginar uma história tão absurda, cruel, dolorosa e tragicamente humana.
Número de frases: 25
Mais uma vez a realidade superou de longe a ficção."
Para um debate entre candidatos a prefeito (ou a qualquer outro cargo político) eu proponho o seguinte:
que seja dado um cd-rom com o jogo SimCity a cada um.
Em esse ' game ' (perdoe-mo estrangeirismo, mas o jogo é inteiro em inglês), o jogador é o prefeito de uma cidade virtual.
Você (o jogador) é quem constrói ruas, praças, redes de água, prédios públicos, enfim, toda a cidade.
Você determina qual será o zoneamento nas diversas regiões.
Por exemplo, indústrias de alta densidade não devem ficar perto de residências pois poluem muito e, conseqüentemente, afetam a qualidade de vida da vizinhança.
Antes de instalar estas áreas industriais, veja o impacto ambiental que causarão.
Esteja preparado para ouvir críticas -- muitas vezes duras -- de seus secretários à sua forma de atuação.
Cada um de eles (finanças, educação, saúde, energia, segurança, meio ambiente etc.) tem algo a lhe dizer sobre sua administração.
Para saber a situação da cidade, você pode lançar mão de mapas que indicam todos os problemas da cidade.
Quais são as áreas mais violentas, as ruas mais congestionadas, locais onde falta água, onde a poluição do ar é preocupante.
A responsabilidade sobre como gastar os impostos é inteiramente sua. (
Talvez os políticos estranhem, mas no SimCity não há como fazer caixa 2, desvio de verbas e outras práticas ilícitas) Você decide quais serão os setores que receberão mais verbas, quais serão as obras prioritárias e quais serão as políticas públicas adotadas -- desde o incentivo de jovens ao esporte à conscientização para que se reduzam agentes poluentes.
O prefeito também definirá o sistema viário.
Se não houver um sistema de transporte coletivo razoável (com ônibus, trem, metrô), as ruas ficarão congestionadas e terão de ser alargadas ou avenidas terão de ser construídas.
Se há poucas escolas, os cidadãos reclamam.
Poucas áreas verdes, idem.
Você pode saber direto do habitante o que ele espera do seu governo.
Em o SimCity não há Câmara de Vereadores e o Poder Judiciário é fraco.
Quem manda, de verdade, é o Executivo.
Se sua administração não for boa, os moradores abandonarão a cidade até que não reste mais ninguém. (
Em o SimCity não há impechment.
Mesmo que seu governo seja péssimo, você vai até o fim -- não do mandato, mas da cidade.)
A o fim desse teste, as cidades virtuais serão analisadas.
Se elas prosperarem, os aspirantes a prefeito poderão começar suas campanhas.
Se as cidades não progredirem, o candidato nem deverá perder tempo e dinheiro numa campanha.
Pensando bem, isso não daria certo porque:
ou alguns candidatos perguntariam:
«o que é cd-rom?"
ou aquela molecada de 10 anos, viciada em computador, se julgaria capaz de ser prefeito de verdade.
Eu, sinceramente, fico com o moleque de 10 anos.
Número de frases: 32
«Pergunta difícil essa, porque eu tento fazer da vida minha arte, e da arte minha vida.
Eu me vejo no caminho certo, mas no tempo e lugar errado ...
Eu gosto de uma escola de arte, aonde o cara tem o oficio, como qualquer outro profissional!
E não como uma celebridade."
Em constante transformação e recriação de si mesmo.
Rico Oliveira, 38 anos -- Artista visual, nascido e residente em Salvador -- Bahia, amplia em muito as fronteiras conscientes de sua condição de ser humano e de artista!
De um trabalho concebido sem compromissos com escolas e correntes visuais quaisquer, Rico Oliveira consegue fazer de sua arte um show multicor exuberante.
Sua obra por si mesma é única, e de uma expressividade marcante, nada em seu trabalho passa despercebido!
A dimensão do seu olhar em relação às artes é notadamente crítica e própria.
Exigente com sua própria condição e papel como artista e cidadão.
Eis a riqueza de " Rico Oliveira!
«E então, a partir daí, passei a rever o que eu estava me propondo como artista." --
O que você chama de «ecologicamente correto» ...
Foi algo que surgiu, quando eu fui comprar uma tela e perguntei para o vendedor: --
De onde vem essa madeira???
Ele me respondeu: --
De o norte.
E me perguntei, será que vale a pena eu pintar o que eu acho «belo», sendo que essa madeira seja de extração ilegal, ou mão de obra escrava?
Porque é incoerente, você pintar telas com pássaros e frutas ...
E as arvores sendo cortadas, para você dar vida ao que chamamos de natureza morta.
-- O trabalho digital, tem sido um laboratório, onde eu experimento coisas novas para trazer para o papel ou tela.
Sobretudo tento levar o meu traço histórico para o futuro.
É o momento aonde eu posso ser universal, sem gerar resíduos.
Deixa-me ser mais claro, por meio da internet, eu tenho levado meu trabalho há um público que desconheço, e fazendo uma arte limpa.
Porém, Patrícia, o trabalho que faço e posto aqui atualmente, não têm nada que seja como eu realmente gostaria, mas é o desafio diário de criar em cima da imagem postada que me anima.
-- Chego a fazer cinco desenhos todos os dias, em tempo curtíssimo ...
E tento criar uma solução, para o problema proposto anteriormente.
É como um origami, você tem uma folha, e deve dobrá-la até chegar a forma que você quer.
Com esse trabalho funciona mais ou menos assim.
Não existe papel, nem material para riscar.
Minha tela é o Photoshop que não domino, mas que criei um mecanismo para executar meus trabalhos.
E em paralelo, eu passo o dia na prancheta desenhando, cortando, colando e montando uma espécie de diário que vai nortear minhas futuras obras.
«O processo tem sido assim: --
Eu não parto de uma idéia definida, a idéia é o que o rabisco sugere " --
Não há mais!
O que acontece, é que de tanto me refazer, me copiar, eu criei um universo grande de imagens dentro das minhas limitações e domínios de forma ...
Quase que como logomarcas ...
Surgem mulheres, cabeças, casais, músicos, capoeiristas, sereias, animais, figuras míticas ...
etc. Eu utilizo notas fiscais, papel de correspondência, panfletos ...
Qualquer coisa que tenha uma superfície branca «riscável» e começo a visualizar formas, e vou refazendo até chegar num formato agradável.
-- Bom ...
A idéia é colocar em suportes diversos ...
Já pus em telas, camisetas, e muros ...
Ano que vem eu decido, aonde devo inserir meus novos trabalhos.
Ando meio metódico no fazer.
Os que estão no papel, no papel ficarão, talvez eu até morra e eles não sejam vistos por o publico, mas com certeza, alguém tendo acesso, compreenderá a minha criação.
-- Penso que o desenho é o norte de tudo, não dá para pensar em arte sem desenho, sem esboço, sem croqui ...
A tela em branco não me intimida, mas se você parte com algo definido, a possibilidade de acerto aumenta muito.
Tento adequar a temática as minhas necessidades.
Em as virtuais, por exemplo, tento explorar todas as possibilidades cromáticas.
«De o mercado ou das tendências?
Nenhuma. Nem de mercado de arte, nem de supermercado e nem de moda " --
Não sigo nenhum tipo de tendência artística.
Denomino com um só nome.
Porque eu tenho coisas bacanas que nem sei dizer de que estilo é, e quando me perguntam qual é o meu estilo digo: --
Ricooliverista ou Ricooliverismo.
Mas claro que alguém com um olhar mais apurado, vai ver arte africana, cubismo, naif, art brut, pop art, impressionismo ...
HQ ... E assim por diante.
Eu vou absorvendo, mas procuro não sair da minha linha, você pode encontrar fusões de Miró com Mondrian no meu -- fotolog -- mas encontrar naif com arte latina na minha pintura ...
Figuras de perfil como as egípcias e elementos da xilogravura e do cordel.
Tem uma fase dos meus grafittis que é bem pop art ...
Mas existem momentos onde eu misturo cubismo com arte brut.
«É uma história longa, que eu mesmo fui rememorando ..." --
Eu tinha uma vizinha que pintou duas telas naif, era uma pintura bem primitivista.
E uma tia que fazia umas paralelas e uns losangos e me dava para pintar ...
Acho que começou por aí ...
Depois tive passagens interessantes, do desenho geométrico na ETFBa, até chegar no grafitti com moldes vazados, que hoje chamam de stencil.
E daí parti definitivamente para a pintura, para largar o estigma de «pichador», que se denominava no passado.
Por isso digo que estou no caminho certo, mas fora do tempo ...
Era para fazer hoje, o que fazia em 1986.
-- A escola de belas artes só me deu parâmetro.
Para eu compreender em que ponto eu estava.
Ali já notava que eu poderia ser um bom artista ...
Mas só aprendi isso, alguns anos depois de ter abandonado a escola.
«Não ...
Eu estou sintetizando tudo que faço ...
Almejo que tudo no meu fim de vida caiba numa mala!" --
Minha meta é vender toda a minha obra, e não ter acúmulo de nada que não seja capital para comer, e me deslocar para aonde deseje.
Acho que eu jamais faria o que faço hoje, se eu me prendesse ao academicismo.
-- A academia é boa para você ter um diploma, mas eu não aprendi nada na escola de arte, porque eu não quis me enquadrar, eu não me adaptei as disciplinas.
Achava tudo muito chato, isso me custou muito caro ...
Mas estou feliz com a minha criação.
Acabei por terminar em paralelo o curso de Licenciatura em Artes Plásticas, e também nunca dei aula, fora o estágio.
Era outro engodo.
Não é bem assim, de um modo geral Patrícia, eu não condeno aquele artista que tem seu atelier e recebe seus pupilos, seus ajudantes e a estes passa o seu conhecimento;
a minha critica é você ensinar a pessoas que muitas vezes não tem inclinação para arte, e que pode vir a ser alguém que vai disputar mercado com você.
Mesmo que muitos digam que não ensinam «o pulo do gato» mas eu não vendo meu conhecimento, se quiser aprender, tem que vir como ajudante.
«Eu estou arrumando outro espaço na net, mais liberal para expor um trabalho diferenciado que venho fazendo voltado a arte erótica» --
Não necessariamente!
Eu elegi esse tema, para começar um fotolog erótico ...
Depois de um tempo retiraram do ar ...
Acho que uma pessoa denunciou, mas é um tema que eu gosto muito, e estou voltando a trabalhar virtualmente.
-- Eu manipulo fotografias, as que eu recebo, ou que capturo na net ...
E de acordo com o que a foto pede, eu ponho o efeito necessário.
Normalmente gosto de trabalhar em cima de fotos feitas com aquelas maquinas vagabundas que vende na TV e eu deixo com um ar mais clássico ...
Algumas são coloridas e feias, então mexo na luz, tiro a cor, dou meus toques e aparece uma foto artística ...
«Então, você procura o meu nome net e se bate com um mundo colorido ...
E daí, entra o papo, para chegar a uma negociação." --
É. Não deixa de ser.
Funciona assim ...
Meu nome está em evidência no que há de mais importante no mundo que é a Net, tudo de bom ou de ruim aqui está.
Facilita um pouco as coisas na hora de uma negociação de um trabalho meu.
-- Eu acredito que vernissage é você ter um gasto, que não lhe fará vender necessariamente, claro que é bom para curriculum;
mas a minha idéia de exposição, é uma espécie de «exposição para sempre».
Você chega no meu atelier, e está tudo exposto.
Nada de ficar contando com galerista -- Para quê?
Para quê marchand?
«Os salões?
São os mesmos de sempre ...
Julgados por aqueles que não conseguiram se firmar como artistas e viraram críticos." --
Eu queria saber como vive quem faz instalações, porque você não compra aquilo para por na tua casa.
Resta, a foto ou o vídeo, e sou favorável ao fim de salões mistos.
Tem que existir salões de arte específicos.
Não é justo que um cara que faz um trabalho de bico de pena por um mês tenha que expor ao lado de alguém que filmou por 1 minuto num celular.
Se a idéia é julgar e premiar ...
Tem que colocar pessoas da mesma técnica para disputar o premio.
Salão de desenho, de pintura, de escultura, vídeo.
Assim, um artista que trabalha com várias mídias, pode estar expondo em mais salões.
-- Olha, eu nunca entrei num salão grande, tentei duas vezes e desacreditei.
Mas quando você fala em governo ...
Me vem logo a mente uma coisa ...
Se é governo «soy contra», sou um cara que toda vida teve nojo do governo, artista não tem que estar nem para a direita, nem para a esquerda.. Tem que ser politizado, mas não tem que ser partidário de nada.
Partidário só da liberdade, coerência, da vida mesmo ...
«Nem é no mundo das artes ...
É a falta de sensibilidade das pessoas ..." --
Porque, Patrícia, gostar de arte é uma coisa, entender é outra, e fazer é outra completamente diferente ...
Mas lembrei-me de uma coisa que é corriqueira no mundo das artes, mas não me deixa puto ...
Talvez deixe aos que jogam a toalha.
Você já ouviu as pessoas falarem que eram artistas, mas largaram a arte " Por a questão da sobrevivência?
Pois é, sobreviver a gente vai sobreviver de qualquer forma.
E se você é artista e se diz criativo, aí é que você mostra o que é sobreviver ...
Não é largando a arte, seja ela qual for, para trabalhar numa coisa que não tem nada a ver com você.
Porque, por exemplo, tem muito artista popular no meio do sertão, no «cu do mundo» isolado e fazendo uma arte rica, que muito arquitetozinho de merda vai lá é explorar o coitado ...
Não ganha dinheiro e insiste!
E os urbanos, antenados, acadêmicos, moderninhos e coisa e tal desistem?
Quem é que está deixando de sobreviver de arte?
E quem é que está fazendo a verdadeira arte?
-- Não ...
Não sei o que isso é, o que eu acho que pode acontecer é que para o artista que não se contaminou com esses ambientes de exposição, ele vai pondo um tijolinho por vez, mas quando você passa a freqüentar certos lugares, você passa a ambicionar coisas, que só com grana para ter, e a arte pode até lhe dar, mas não a curto prazo ...
A menos que você tenha o famoso " nome da família."
«Conseqüência do que eu faço hoje?
Como artista, não tenho a menor idéia, como homem sim."
Entrevista, Rico Oliveira -- Salvador -- BA -- 01.09.2007 / A Arte de Rico Oliveira -- OVERMUNDO / Por Patrícia Moreira -- Vitória da Conquista-BA.
Outras Riquezas
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Espaço Rico Galeria do Rico
Portal Rio Vermelho com Rico
Número de frases: 147
Blog do Rico Perfil do Rico
Não há como não comparar as mudanças no festival musical da Motorola com relação à última edição.
São brutais.
Para começar, enquanto que ano passado ele era espalhado por vários dias e lugares de São Paulo, sendo que apenas um de eles era gratuito e no Parque do Ibirapuera;
este ano a empresa resolveu apostar todas as suas fichas num único evento.
Além disso, a cobertura da imprensa foi bem mais presente, com diversos veículos disputando espaço na sala de imprensa e no fosso.
Aliás, a evolução da própria sala de imprensa reflete isso, agora devidamente equipada com computadores, conexão, comes e bebes e alguns telefones MotoROKR para a imprensa avaliar.
Infelizmente não cheguei a tempo da primeira banda.
Assim será impossível avaliar a qualidade da apresentação do Venus Volts.
Já Stop Play Moon brindou o público, ainda relativamente pequeno e espalhado, com simpatia e competência.
O histórico ligado ao mundo da moda pode passar a falsa impressão de esnobismo e excesso de pose, mas não é isso que vemos no palco.
O setlist foi excelente e Geanine Marques sabe se conectar com o público melhor do que muitas atrações internacionais.
Até os mendigos tiveram sua vez (lembranças do show de Miele na Virada Cultural).
Entre as atrações, o espaço era preenchido por a excelente discotecagem de Killer on the Dance Floor.
A terceira banda, definida como um «Ludov do cerrado» por um espectador não-identificado, Nancy é o oposto de SPM.
Conseguiu colocar para baixo até Edgar, o mestre de cerimônias, que ao final da apresentação resumiu:
«Legal, né?"
Não é uma questão da música ou da banda serem ruins, o EP que avaliei é bom, Keep Cooler é excelente.
Mas no palco a banda trava, não há conexão com o público, Camila Zamith pode ser a vocalista, mas não é líder de nada.
Não há sequer aquela simpatia desengonçada de bandas cheias de vergonha.
Nem a própria banda compreendeu o comentário de Camila sobre o Sol.
A única energia da banda vinha de Praxis, que precisa fechar a boca, e Dreaduardo, que fica preso atrás da bateria.
A impressão que ficou é de que tocam pois é o que sabem, não o que amam.
Simpatia desengonçada é justamente o que trouxe a primeira atração internacional, Fujiya & Miyagi.
Com cara de suecos, a banda inglesa segurou o público que se multiplicava ao entardecer até a chegada da banda mais empolgante do planeta, The Go!
Team. Mesmo há 48 horas sem dormir, a banda não parou quieta um minuto no palco.
Apesar de ingleses, uma mistura praticamente brasileira de pessoas e duas baterias, cheia de energia e simpatia.
Fechando o dia, que já virara noite há muito tempo, Metric começou acanhado com uma dança robótica sensacional de Emily Haines, mas logo o gelo cool se partiu e ao final foi a única banda que rendeu biz.
Extremamente pontual e organizado, o festival foi um sucesso.
O line-up poderia ter sido organizado melhor, já que por exemplo Metric e SPMoon pareciam mãe e filha.
Considerando que o público aumentou vertiginosamente quando começaram as atrações internacionais, seria interessante alternar e realmente projetar os artistas novos.
Além disso, Go!
Team é um dilema, por um lado seriam ótimos para fechar, por outro, seria bom vê-los num show menos lotado durante a tarde, com o público pulando e brincando, tal qual a banda.
A concentração de tudo num único evento é uma faca de dois gumes, pois tirou o aspecto único do Motomix, e o show no parque perdeu aquele clima descontraído presente na edição do ano passado, mas também criou um dia memorável.
E as supostas interações com Bluetooth (estampadas em adesivos) não aconteceram com mim.
Além das músicas também havia o visual com projeções dos trabalhos enviados ao festival e a presença das caçambas com intervenções.
Resumindo, Motomix 2008 foi um festival de primeira linha a ser usado como referência.
Número de frases: 37
Além da qualidade, era de graça, vai ser difícil ganhar disso.
«Concessões Públicas de Rádio e TV no Espírito Santo:
A barbárie que não está na TV, no rádio e nos jornais capixabas " *
Flávio Gonçalves Em o dia 05 de outubro venceram as concessões públicas de diversas emissoras de televisão do país.
Esta foi a data escolhida para o lançamento da Campanha por Democracia e Transparência nas Concessões de Rádio e TV, que aconteceu em 16 capitais brasileiras.
Em o Espírito Santo, um ato em frente à TV Gazeta de Linhares, que está na lista das centenas de emissoras com a concessão vencida, foi um marco na relação entre a sociedade capixaba e as empresas de comunicação do Estado.
Para obter o direito de transmitir sinais de TV e rádio é preciso que um grupo empresarial receba uma concessão pública.
Cabe portanto ao Estado conceder, por um determinado tempo, o direito de utilização de um bem que é público, ou seja, pertencente ao conjunto dos cidadãos deste país.
Contraditoriamente, essa informação não é de conhecimento geral da população brasileira.
Qual emissora de TV ou de rádio tem como hábito transmitir essa informação à população?
Esta omissão deliberada ajuda a construir a imagem de que não cabe ao Estado e a sociedade construirem um processo de avaliação da programação das concessões públicas de rádio e TV e de se posicionarem quando do momento de sua renovação.
As concessões comerciais de rádio têm duração de 10 anos, enquanto na TV o prazo é de 15 anos.
Após este período as concessões podem ou não ser renovadas.
Infelizmente, historicamente o processo de renovação destas concessões é automático e sem qualquer debate público e fiscalização por parte do Estado e da sociedade.
Sabe-se que jamais na história deste país uma concessão pública de rádio e TV não foi renovada.
E pior, centenas de emissoras de rádio e TV estão com suas concessões vencidas há anos.
Em o Espírito Santo o quadro, sem qualquer visibilidade pública, é de total descontrole.
De as 14 concessões de TV em funcionamento no Estado, três (21,4 %) estão vencidas:
TV Gazeta (2005), TV Gazeta Linhares (maio de 2007), e TVE (1991).
Entre as emissoras de rádio FM, das 54 outorgadas existem 24 vencidas (44,4 %).
Já entre as 23 rádios AM existem 16 vencidas (69,5 %).
Através das chamadas «autorizações precárias» estas emissoras continuam a operar normalmente.
Em muitos casos o processo de renovação pode ter duração de até sete anos.
Ou seja, ao longo deste período, que legalmente deveria ser de poucos meses, a emissora continua operando com uma concessão pública vencida e nada acontece.
Nunca houve um processo amplo, transparente e democrático de debate na sociedade sobre o papel desempenhado por uma emissora ao longo do tempo em que esta deteve a concessão pública.
Audiências públicas para que o cidadão possa emitir sua opinião sobre a programação não são realizadas.
As emissoras comerciais não promovem programas que tratem deste assunto.
As mesmas emissoras não realizam ao longo dos anos seminários para que a sociedade possa constantemente avaliá-las.
Como no Brasil, diferentemente de outros países, um mesmo grupo comercial pode controlar TV's, rádios, jornais e Internet, há um silêncio autoritário sobre o tema.
É importante destacar que a Constituição Brasileira estabelece que as emissoras de TV e rádio atenderão aos seguintes princípios:
preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;
promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;
regionalização da produção cultural, artística e jornalística;
respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.
Quem liga a TV e o rádio no Brasil percebe que muitas vezes estes princípios não são cumpridos por conta de interesses comerciais.
Inúmeras outras irregularidades acontecem em detrimento do interesse público.
A Constituição estabelece que nenhum parlamentar pode ter relação direta com qualquer empresa concessionária pública.
Entretanto, um em cada três senadores é concessionário de rádio e TV.
Em a Câmara dos Deputados 15 % dos parlamentares são radiodifusores.
Em a Assembléia Legislativa do Espírito Santo existem pelo menos três deputados (10 %) que mantêm relação com emissoras de rádio:
Guerino Zanon (PMDB), Luciano Pereira (PSB) e Giuliano dos Anjos (DEM).
Esta relação histórica entre as emissoras de rádio e TV e parlamentares contribui decisivamente para a falta de transparência e fiscalização no setor além de possibilitar a utilização de concessões públicas para fins políticos partidários.
No que diz respeito às rádios comunitárias capixabas esta relação é muito semelhante.
Um estudo realizado por os pesquisadores Venício Lima e Cristiano Lopes apontou que entre as 35 autorizações concedidas por o Ministro das Comunicações entre 1999 e 2004, 22 (63 %) mantêm vínculo com políticos e duas (6 %) com entidades religiosas.
Um caso de conhecimento público na capital capixaba é a presença do vereador licenciado José Carlos Lyrio Rocha (PSDB) no controle da Rádio Comunitária da Praia do Canto.
Foram essas e outras irregularidades no processo de autorização, renovação e utilização das concessões públicas de rádio e TV que motivaram o Intervozes -- Coletivo Brasil de Comunicação Social, a Central Única dos Trabalhadores (Cut) e a União Nacional dos Estudantes (Une) a protocolarem no Ministério das Comunicações, no último dia 05, um pedido de informação sobre as centenas de concessões públicas vencidas em todo país, incluindo as emissoras capixabas.
Outras ações judiciais serão utilizadas para que a barbárie no setor não permaneça.
Silêncio na mídia capixaba.
Em o último dia 05, cerca de 300 pessoas da Via Campesina e da Rede Alerta contra o Deserto Verde realizaram em frente à TV Gazeta em Linhares um júri popular durante o qual a emissora foi acusada de criminalizar os movimentos sociais, principalmente as comunidades indígenas de Aracruz e as comunidades quilombolas do Sapê do Norte que lutam por a retomada de suas terras.
Por a decisão popular do júri, a Rede Globo e a Rede Gazeta foram condenadas a não terem suas concessões renovadas.
A Campanha Nacional por Democracia e Transparência nas Concessões Públicas de Rádio e TV reivindica ainda a convocação de uma Conferência Nacional de Comunicação ampla e democrática para a construção de políticas públicas e de um novo marco regulatório para as comunicações (www.proconferencia.com.br).
Outra exigência é a instalação de comissões de acompanhamento da programação das concessionárias, com participação efetiva da sociedade civil, para avaliação e elaboração de pareceres que subsidiem a renovação ou não das concessões.
Em os últimos meses os mais diversos setores e grupos sociais vêm construindo um processo contínuo e muito bem qualificado de questionamento ao oligopólio da comunicação no país.
Pesquisas apontam a perda de credibilidade e audiência das grandes redes de comunicação.
A crítica à mídia está na ordem do dia para aqueles e aquelas que não vêem o pluralismo presente na sociedade brasileira representado nos meios, e para os que compreendem que para uma efetiva transformação da realidade social, política e econômica brasileira é preciso que haja uma profunda democratização da comunicação neste país.
Em o Espírito Santo, os desafios são os mesmos.
Por isso precisamos do envolvimento de todos e todas neste processo para que possamos romper o silêncio e construirmos juntos mecanismos de avaliação e acompanhamento das concessões públicas de Rádio e TV do Estado.
Links
Site da Campanha: www.quemmandaevoce.org.br
Observatório do Direito à Comunicação: www.direitoacomunicacao.org.br *
Flávio Gonçalves é jornalista e militante do Intervozes -- Coletivo Brasil de Comunicação
Número de frases: 61
email: flasg@ig.com.br
O Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (NEAB/UFS), com a Organização Cupim estão promovendo o Fórum das Comunidades Quilombolas de Sergipe, a se realizar no dia 12 de outubro, no Centro de Cultura e Arte da UFS (Cultart), localizado na Avenida Ivo do Prado, em Aracaju.
Estarão presentes representantes das «Comunidades Remanescentes de Quilombos» no estado, reconhecidas por a Fundação Palmares.
Os participantes estarão expondo suas realidades locais, discutindo questões coletivas e elaborando proposituras.
Convidamos os interessados no assunto a participarem do evento, que pretende apresentar um panorama da questão quilombola no estado, bem como ressaltar a importância dos debates acerca do tema em Sergipe.
Programação -- Manhã
9h -- Abertura
9h30 -- Palestra do Reitor da UFS, Dr. Josué Modesto dos Passos Subrinho.
10h -- " Mesa Redonda:
«A questão Quilombola e as contribuições do olhar Antropológico», com a participação dos pesquisadores Dr. José Maurício Arruti, Dr. José Augusto Sampaio e Dra.
Julie Cavignac.
-- Lançamento do livro Mocambo:
Antropologia e História do Processo de Formação, do Dr. José Maurício Arruti.
Programação -- Tarde --
«Mesa Redonda: Quilombolas de Sergipe», com os representantes das Comunidades Quilombolas do estado.
-- Deliberações do Fórum.
-- Programação cultural.
Número de frases: 17
Os povos indígenas de Manaus na última quarta-feira, dia 14 de março em seminário promovido por a Secretaria de Cultura, solicitado por a Upim União dos Povos Indígenas de Manaus, conseguiram finalmente depois de muitos anos de luta um espaço onde funcionará o «Centro Cultural dos Povos Indíegenas de Manaus».
O mesmo funcionará de forma permanente e todos os povos indígenas de Manaus terão acesso e participarão de uma intensa programação cultual que está sendo estruturada por a coordenação da Upim e brevemente divulgaremos mais detalhes.
A propósito: pretendemos inaugurá-lo já neste mês de Abril, preferencialmentae no dia 19, que logicamente será uma grande festa por mais esta grande conquista.
Parabéns ao poder público por a inciativa, via Prefeitura Municipal de Manaus, que sai na frente, uma vez que nem mesmo o nosso órgão oficial ateam definido um politica para nós que estamos nos centros urbanos fora de nossas aldeias.
Acredito que essa discussão que está sendo promovida por o deputado Couto em relação ao nosso estatuto, deveria ter a maciça participação de lideranças indígenas que estão nesta situação e a Upim se coloca à disposição para quaisquer discussão sobre este tema.
Em o mais espero que na inauguração do nosso centro possamos ter bastante liderança indígeana de todo Brasil para comemorar com nós.
Aldenor Silva -- Tikuna
Número de frases: 7
Presidente da Upim A os 94 anos (92 declarados), José Clementino Bispo dos Santos, o Jamelão, continua ativo como sempre esteve na Estação Primeira de Mangueira.
A prova inconteste pode ser tirada às quartas-feiras, no Bar Brahma, no centro de São Paulo.
Desde novembro do ano passado, o maior intérprete do carnaval carioca vem se apresentando toda semana com lotação máxima.
Em a platéia, bambas do samba como Luiz Ayrão e Leci Brandão se comportam como tietes adolescentes perto do grande mestre.
«Impressionante, aos 94 anos ainda cantando.
Nem Frank Sinatra conseguiu isto», empolgava-se Ayrão, sentado na primeira cadeira em frente ao palco para não perder nada.
Leci Brandão, mais atrás, também se derretia em elogios.
Em os Estados Unidos, Jamelão seria milionário."
A reverência ao mestre, como todos o chamam à medida que ele caminha por entre as mesas em direção ao palco, é compartilhada por o público.
Todos silenciam quando ele finalmente se acomoda no banquinho.
De terno marrom, blusa preta de gola alta para proteger do frio da noite paulistana, bengala de madeira em punho, chapéu e sapatos que testemunharam boa parte de sua septuagenária carreira, Jamelão começa a conversar com a platéia.
«Deixa eu pensar bem no que eu vou falar, porque quem fala demais às vezes queima a língua», vaticinava, enquanto fazia gestos com as mãos, sempre amarradas por elásticos comuns, desses de escritório, por razões não reveladas.
«O elástico é coisa de ele.
Não pode colocar o motivo na reportagem», avisava a assessora Beth Dutra.
Enquanto isto, o velho intérprete começa a improvisar um discurso sobre sua idade.
«Sou um coroa que ainda não recebeu ordens de subir."
Já se preparava para prosseguir quando viu Luiz Ayrão em pé, tentando tirar uma foto com seu celular.
«Quer tirar fotografia, tira.
Pensam que sou grande coisa, mas não sou.
Olha aí ...
Luiz Ayrão ... virou fotógrafo!»,
disse, quase sorrindo, contrariando a fama de mal-humorado.
E começou o show cantando Boa Noite, uma música de sua autoria (Boa noite / Você por aqui é novidade / Louvado seja Deus nosso senhor / Quem lhe trouxe aqui foi a saudade / De a recordação do nosso amor).
Em a segunda canção, esquece a letra.
Mas segue improvisando versos feitos na hora e é aplaudidíssimo.
Termina a música, olha para a platéia em busca de alguém até que encontra.
É o doutor Fábio Rossi, cardiologista do Hospital Dante Pazanezzi, que foi acompanhar a apresentação do paciente.
«Estou sob as ordens do doutor Fábio.
Vou tomar só uma, só uma ...»,
justificou-se, misturando um pouco de água tônica ao copo de uísque equilibrado perto do microfone.
A reportagem se espanta e pergunta ao " doutor Fábio:
«Ele está tomando uísque?"
«Está."» E pode?" A o que o médico responde apenas com uma careta de:
«E quem sou eu para proibir?"
Talvez para não preocupar o médico e a platéia, Jamelão conta a história do compositor Lúcio Cardim, que foi seu amigo.
«Aqui em São Paulo havia um dos maiores letristas que já conheci, mas não era muito boêmio.
Bebia café, água mineral, outras perfumarias.
De não beber, morreu de cirrose.
Este é o meu catecismo:
quem bebe morre, quem não bebe morre também.
Por isso de vez em quando dou um tapa no beiço."
Em homenagem ao parceiro de música, canta Matriz e Filial, composição de Cardim.
Sem parar, preenche o Bar Brahma com sua voz.
«Olha aquela menina novinha ali cantando», interrompia Ayrão, apontando para uma jovem que sabia todas as músicas de cor.
Perto de ali, na mesa ao lado, Marta Mendonça, mulher de Altemar Dutra e assídua freqüentadora, assistia a tudo emocionada, de lenço na mão.
Cheio de energia, pede para todo mundo cantar os primeiros versos do samba-enredo da Mangueira de 1986, aquele do " xinxim e acarajé / tamborim e samba no pé."
Mas Jamelão não se poupa.
A cada hora chegam cada vez mais pedidos de músicas, sempre escritos em guardanapos.
Ele pega um por um, ajeita os óculos para ler e diz se pode ou não atender o pedido.
Quando pode, puxa uma pasta velha ao seu lado, e tira de lá papéis envelhecidos, com as bordas gastas, com as letras.
Depois de 17 músicas, o copo de uísque ao seu lado já está vazio.
Jamelão se prepara para encerrar o show.
Só por galhofa, cantarola:
«O papai já vai embora."
A platéia devolve um sonoro " Nãooo."
Então é a vez de cantar o hino da Mangueira.
O cenário é uma beleza.
Jamelão parece que ainda está no começo de sua apresentação.
Quando termina, solta um lacônico " acabou.
É só».
Se retira aplaudido de pé.
Agradece a todos.
Vai devagarinho, se apoiando na bengala, para o tranqüilo bar que fica na parte de trás do Brahma.
A reportagem vai junto, advertida de que Chico Pinheiro, apresentador do SPTV, foi xingado por o cantor dias atrás (" mas acabaram virando amigos», ressalva Álvaro Aoas, proprietário do Bar Brahma).
Pergunta se pensa em se aposentar.
«Você já viu alguém se aposentar da música?
Número de frases: 66
Enquanto alguém quiser me ouvir, vou cantar."
Segundo mais antigo festival de cinema com temática ambiental do mundo, o Fica de Goiás chega a oitava edição na terça-feira (6) e suscita a discussão sobre seu futuro e sua linguagem
O Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica) começa na próxima terça-feira, 6 de junho, na oitava edição, na Cidade de Goiás.
O evento coincide com os anos de mandato do ex-governador Marconi Perillo (PSDB -- agora candidato ao Senado), idealizador e promotor do festival.
Com a proximidade da troca de comando no Executivo estadual e os oito anos de realização ininterruptos, duas questões têm ocupado o meio cultural goiano quanto ao festival.
A primeira, mais imediata, é sobre futuro do evento com a troca de comando e a outra é sobre a linguagem propriamente cinematográfica do tema.
Afinal, dá para falar em cinema ambiental?
Nasr Chaul, o presidente da Agência Goiana de Cultura (Agepel), diz sim para a primeira questão, por motivos óbvios, pois a agência (na prática, a Secretaria Estadual de Cultura) é a idealizadora e promotora do Fica.
A maioria das pessoas diretamente ligadas ao evento (membros de júri, consultores, videomakers e produtores culturais) acredita que o festival ganhou uma projeção difícil de ser estancada.
«A gente tem uma cultura política de não continuar projetos de governos anteriores, isso pode pesar, mas de repente o próximo governante resolva apenas fazer alterações cosméticas mas manter o festival, não sei, não se sabe, essas coisas ficam no plano do imponderável da política», resumiu Lisa França, professora da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da Universidade Federal de Goiás (UFG) e presidente do júri de pré-seleção do festival há quatro anos.
Em a solenidade em que anunciou os 27 filmes selecionados da mostra competitiva deste ano (veja a relação de filmes abaixo), Chaul comemorou o que ele chamou de «consolidação do festival».
Referiu-se ao «número recorde» de inscritos, mesmo com a mudança do critério de ano da produção (só puderam se inscrever produções de 2005) e o aperto do júri para selecionar filmes e vídeos com foco exclusivo na temática ambiental.
«Acho que vale a pena manter a temática porque é o grande diferencial.
Festivais de cinema existem em todo o país, mas ambiental é só esse de Goiás.
Somos o segundo mais antigo do mundo, atrás apenas do de Portugal, realizado há 11 onze anos», disse Lisa França.
Além dos filmes da mostra competitiva, o festival contempla uma série de atividades paralelas como mostra de curtas, oficinas, debates e palestras.
Estarão de volta ao evento, por exemplo, críticos de renome como Inácio Araújo e Ismail Xavier.
O deputado Fernando Gabeira, criador do Partido Verde, também está previsto como palestrante.
Sempre tem um músico ou banda de renome para fechar, e este ano será com os Titãs.
Troféus, menções honrosas e R$ 240 mil serão distribuídos aos sete primeiros colocados.
Em esta edição, foram selecionados 15 filmes estrangeiros e 12 brasileiros (sendo seis goianos, que se valem mais da animação gráfica).
Uma novidade da programação será o lançamento do Festival dos Festivais, uma mostra competitiva paralela e voltada exclusivamente para os países que realizam festivais do gênero.
A disputa por os R$ 30 mil em prêmios ficará entre o Brasil, Itália, Portugal, Espanha e Grécia.
Se a continuidade do evento depois da mudança de governo é uma incógnita, a discussão conceitual em torno do cinema ambiental acalentada desde o início do festival na histórica Vila Boa (antigo nome da Cidade de Goiás, primeira capital do estado) é mais tangenciável.
Poucos são os críticos mais incisivos da linguagem ambiental como possibilidade estética de cinematografia, como Eládio Garcia Sá Teles.
Presidente da Associação Goiana de Cinema e Vídeo (AGCV), Teles acha que o recorte ambiental limita a produção artística.
«Para ter filme no Fica, precisa ser ambiental.
E quem faz filme ambiental é ambientalista, não é cineasta», afirmou Teles ao semanário Tribuna do Planalto.
Teles diz ainda que o Fica está mais no plano de um grande evento do que de incentivador de uma produção cinematagráfica própria.
«Já se gastou R$ 19 milhões para produzir o evento nas sete edições do festival.
E não investiu nem R$ 800 mil em produção efetiva.
Então acaba o Fica e fica o desejo de produção.
O Fica abre horizontes, estabelece intercâmbios, mas não propicia que Goiás produza um longa», disse Teles na mesma entrevista.
Em a opinião de Lisandro Nogueira, professor do curso de Comunicação da UFG e consultor do Fica, a idéia de um gênero que pode vir a ser chamado «cinema ambiental» é algo em construção e os festivais do gênero podem contribuir nesse esforço.
«Não se cria um conceito de uma hora para outra.
O Fica tem fundamental importância nesse processo.
O cinema contribui decisivamente para a confecção de gêneros.
É possivel que estejamos criando o conceito de «Cinema Ambiental».
Mas ainda é cedo para isso», sustenta.
Diferente de Eládio Garcia Sá Teles, no entanto, Lisandro Nogueira acha que a temática ambiental não limita a arte."
O fato de abrigar os documentários não significa limite à arte.
Em os documentários criativos há sim muito da habilidade artística.
E o festival nunca se fechou a propostas da «videoarte».
Por o contrário», disse abordando a questão dos documentários dominarem os filmes inscritos e selecionados no festival.
Para o consultor de cinema do Fica, os filmes buscam abordar um tema de difícil definição até entre ambientalistas, o que redunda em dois problemas conceituais, quais sejam o de saber se documetário também é cinema e se o meio ambiente se restringe ou não à fauna e flora.
«Desta forma, estamos diante de dois problemas conceituais complexos:
o de cinema documentário e o de meio ambiente.
Por enquanto, podemos falar de um festival de cinema que tem a temática ambiental como foco principal», afirmou Nogueira.
O olhar do participante «estrangeiro», tanto do público quanto de críticos e estudiosos de fora de Goiás que já passaram por o Fica, tem uma visão diferente sobre a concepção verde-cinematográfica reunida anualmente em Goiás Velho.
Professor da USP e crítico de cinema, Ismail Xavier, que volta este ano como palestrante, acredita que ainda não é possível falar estritamente em cinema ambiental.
Por isso, na opinião de ele, é preciso que os critérios sejam mais «flexíveis» na hora de avaliar se um filme tem cunho ambiental ou se entraria ou não numa mostra sobre filme ambiental.
«Há duas maneiras de um filme ter definido esse caráter de denúncia ou mesmo de mostrar as complexas variáveis que envolvem uma questão ambiental:
ou ele se assume como denunciante, por meio do documentário, ou ele trata problemas ambientais como pano de fundo, como fez Antonioni [Michelangelo, diretor italiano] no filme O Deserto Vermelho, de 1964», exemplificou.
O longa de Michelangelo retrata o drama de personagens envolvidos num ambiente destruído por a construção de uma usina hidrelétrica na Costa italiana.
«O problema em si da usina não é discutido por os personagens, mas é colocado de tal forma que serve como elemento fundamental para delinear a crise de elas, enfatiza o professor, dizendo que, como este, vários outros filmes de ficção poderiam ser considerados de cunho ambiental.
José Luiz Penna, cineasta, compositor e dirigente nacional do Partido Verde (PV), concorda com Xavier e acha que a «ficção ambiental» virá com o tempo.
«Acho que o documentário ainda cumpre uma função importante, que é a da denúncia, ainda estamos no ciclo da denúncia.
à medida que esse debate sobre o futuro do planeta avançar na sociedade, a filmografia vai expandir sua abordagem, inclusive de linguagem», avaliou o também compositor Penna (letrista de uma famosa música de Belchior -- Comentário a Respeito de John).
Jornalista e crítico de cinema, Sérgio Rizzo não tem dúvidas de que a produção da filmografia voltada a questões ambientais é crescente, principalmente de filmes e mini-documentários para televisão.
Ele, no entanto, não crê na existência de uma linguagem própria de cinema ambiental.
«Não acho que há um jeito particular de fazer filme ambiental, os filmes de não-ficção sobre temas ambientais se beneficiam das mesmas ferramentas narrativas da produção documental como um todo.
Não me parece que um filme, só porque trata do Cerrado, por exemplo, vá ser construído narrativamente de modo diferente de filmes como Ônibus 174 [sobre caso de seqüestro num ônibus no centro do Rio de Janeiro] ou Edifício Master [sobre moradores de um prédio antigo do Rio]», teorizou.
Rizzo, que ministrou oficina de cinema na sexta edição do Fica, apontou um outro dado sobre o fato dessa produção de filmes ambientais ser basicamente documental.
«O que eu me pergunto é por que o cinema de ficção no Brasil se preocupa tão pouco com questões ambientais.
Você já teve aí a adaptação do episódio do Césio [Césio 137 -- O Pesadelo de Goiânia, de Roberto Pires], os filmes ligados à cultura indígena, como Tainá, mas são pouquíssimos se comparados com a produção total», diz, para depois arriscar uma explicação:
«Talvez isso se deva por o fato de que a produção de cinema brasileiro esteja ainda muito concentrada no eixo Rio-SP e, no máximo, Porto Alegre.
E aí esses temas, apesar de alguns serem muito atraentes para a ficção, não são eleitos por os diretores».
Sérgio Rizzo finaliza dizendo que a pouca produção cinematográfica brasileira voltada a temas ambientais reflete o tamanho do debate do tema no país.
«Essa discussão ainda é feita apenas por uma parcela pequena da população, são engajados, entidades organizadas preocupadas com o tema.
Logo, essas informações não circulam e não atraem produtores de cinema», avalia.
Situação que, segundo ele, está num outro patamar em outros países, principalmente os europeus.
Para o crítico, jornalista e professor, isso só mudará quando o debate aumentar.
«E a questão estética desse cinema viria junto», arrematou Rizzo.
A discussão por certo tomará de novo as ruas e bares da cidade histórica de Goiás que ficam lotados a cada primeira quinzena de junho.
Talvez este ano, os moradores buscarão respostas muito mais para primeira questão do que para a segunda, mais afeita aos cinéfilos.
O que importará para os moradores de Vila Boa será saber, afinal, como fica o Fica a partir do ano que vem?
Os Selecionados
O júri da pré-seleção do 8º Fica escolheu 27 filmes entre 347 inscritos de 150 países.
Oito são de longa-metragem, cinco de média-metragem e 12 são curtas.
Também participam da disputa duas séries televisivas.
O documentário reina quase absoluto, seguindo uma tendência das últimas edições do festival.
Confira:
Longa-metragem
Plagues and Pleasures on the Salton Sea (Eua, 2005).
Direção: Chris
Metzier e Jeff Springer.
Documentário. 70 min..
Vídeo. Sinopse:
Desastre ecológico e prejuízos sociais e econômicos em lago artificial na Califórnia.
Conflict Tiger (Rússia, 2005) Direção:
Sasha Snow. Documentário.
61 min..
Vídeo. Sinopse:
Conflito entre tigres numa comunidade na Sibéria.
O Profeta das Águas (Brasil, 2005) Direção:
Leopoldo Nunes. Documentário.
85 min..
Vídeo. Sinopse:
Cinebiografia de Aparecido Galdino Jacintho, líder espiritual
perseguido por seu ativismo ambiental durante a ditadura militar.
The Real Dirt on Farmer John (Eua, 2005) Direção:
Documentário. 82 mim.
Vídeo. Sinopse:
Fazendeiro no Meio-Oeste americano se converte à agricultura orgânica depois de sofrer perseguições em sua comunidade por seu comportamento não-convencional.
Muitchareia (Brasil / Goiás, 2006).
Direção: Uliana Duarte.
Documentário. 69 min..
Vídeo. Sinopse:
O Rio São Francisco, suas populações ribeirinhas e ameaças ambientais.
Ovas de Oro (Chile, 2005).
Direção: Manuel Gonzáles e Anahi Johnsen.
Documentário. 63 min..
Vídeo. Sinopse:
A produção industrial de salmão no Chile e suas conseqüências ambientais e sociais.
The Last Atomic Bomb (Eua, 2005).
Direção: Robert Richter.
Documentário. 92 min..
Vídeo.
Sinopse:
Sobreviventes da bomba atômica de Nagasaki relembram a tragédia para que as novas gerações não se esqueçam dos riscos da opção nuclear.
Zdroj (República Checa, 2005).
Direção: Martin Merecek.
Documentário. 75 min..
Vídeo. Sinopse:
Conseqüências ambientais, sociais autoritarismo e corrupção na exploração de petróleo no Azerbaidjão.
média-metragem
Pontal do Paranapanema (Brasil, 2005).
Direção: Francisco Guariba.
Documentário. 52 min..
Vídeo. Sinopse:
Conflitos agrários e meio ambiente no Pontal do Paranapanema, Paulo.
Dhobigat (Suíça, 2005).
Direção: Giorgio Garini.
Documentário. 48 min..
Vídeo. Sinopse:
Os homens lavadores de roupa em Mumbai, Índia, enfrentando a escassez de água e de moradia.
O Amendoim da Cutia (Brasil / Mato Grosso, 2005).
Direção: Komoi Panará e Paturi Panará.
Documentário. 51 min..
Vídeo. Sinopse:
Autocrítica bem-humorado dos índios panarás sobre a decadência de suas próprias tradições.
Gottes Plan und Menschen Hand (Alemanha, 2005).
Direção: Dominik Wessely.
Documentário. 52 min..
Vídeo.
Sinopse:
Princípios insuspeitados de planejamento urbano numa cidade medieval.
Climate in Crisis:
Part 2, The Destruction Beggins (Japão, 2006).
Direção: Masahiro Fujikawa.
Documentário. 52 min..
Vídeo. Sinopse:
Um alerta sobre o impacto das mudanças climáticas provocadas por o aquecimento global.
Curta-Metragem
O Peixe Frito (Brasil / Goiás, 2005) Direção:
Ricardo George de Podestá.
Animação. 19 min. 35 mm.
Sinopse: Neto adverte seu avô, velho pescador, sobre os males da pesca predatória no Rio Araguaia.
I Promise África (Eua, 2005).
Direção: Jerry A. Henry.
Documentário. 3 min..
Vídeo. Sinopse:
Vídeo poético sobre órfãos de vítimas da Aids no continente africano.
The True Cost of Cotton (Unido, 2005).
Direção: Giliian Hazel.
Documentário. 8 min..
Vídeo. Sinopse:
Impactos ambientais e sociais da produção de algodão no Uzbequistão.
A Roaring Trade (Unido, 2005).
Direção: Steve Trent.
Documentário. 25 min..
Vídeo. Sinopse:
A ameaça de extinção de sete espécies em função de seu uso na medicina tradicional e na culinária chinesas.
Metro Creciente (Espanha, 2005).
Direção: Ignácio Sanchez Bravo.
Documentário. 1 min..
Vídeo. Sinopse:
Especulação e exploração da terra na Europa.
La Tête dans les Étoiles (França, 2005).
Direção: Sylvain Vincendeau.
Animação. 9 min. 35 mm.
Sinopse: O brilho das luzes da cidade impede que um jovem contemple as estrelas.
É da Raiz (Brasil / Goiás, 2006).
Direção: Ângelo Lima.
Documentário. 12 min..
Vídeo. Sinopse:
O hábito de tomar cachaça com raízes medicinais para a cura de males diversos.
Bartô (Brasil / Goiás, 2006) Direção:
Luiz Botosso e Thiago Veiga.
Animação. 6 min..
Vídeo. Sinopse:
Disputa entre um lenhador e um bode para salvar uma árvore.
Zôo (Brasil / Goiás, 2006).
Direção: Daniel Lima.
Animação. 5 min..
Vídeo. Sinopse:
O desabafo dos animais presos no zoológico.
Jin Riki Shaw (Alemanha, 2005).
Direção: Dirk Schreier.
Documentário. 13 min..
Vídeo. Sinopse:
Conflito entre riquixás e tráfego urbano em Calcutá, Índia.
Qual é o Meu Lugar? (
Brasil / Goiás, 2006).
Direção: Alex Jean Alves da Paixão.
Animação. 1 min..
Vídeo. Sinopse:
Um pássaro busca lugar para pousar em área desmatada.
Sobrevivências (Brasil / RS, 2005).
Direção: Ana Brenner e Gisleine Guerra.
Documentário. 12 min..
Vídeo.
Sinopse:
As condições de vida dos moradores de Vila Chocolatão, na periferia de Porto Alegre.
Séries de TV
Saudades do Brasil (Brasil / DF, 2005).
Direção: Maria Maia.
Série de televisão.
Dois episódios.
Duração total:
112 min..
Vídeo. Sinopse:
A vida do antropólogo Claude Lévi-Strauss no Brasil.
Europe (Áustria, 2005).
Direção: Klaus Feichtenberger, Mary Colwell, Pip Lawson e Ian McCarthy.
Série de televisão.
Capítulo 1: Gênesis.
Capítulo 3: Taming the Wild.
Duração total:
98 min..
Vídeo. Sinopse:
A formação do continente europeu e suas transformações com a civilização.
Número de frases: 232
O Projeto
addd é um projeto audiovisual composto por 3 nity (Tadeus Mucelli) e Vj 1m par (Henrique Roscoe).
Sua proposta é integrar, da forma mais harmônica e completa possível, som e imagem.
Cada elemento tem sua representação no áudio e no vídeo, seja por a sua forma /cor/tamanho ou por a nota / duração / volume.
Baseado em estruturas básicas, tanto a música quanto as imagens vão se formando e se interagindo através de fórmulas matemáticas, transmissões midi e sínteses, que geram novos elementos a cada segundo.
O projeto surgiu a partir do interesse dos dois integrantes em criar experiências unificadas para o público.
Em desenvolver uma relação complementar entre os sentidos, construindo cada elemento a partir de um tema proposto.
O projeto, fundado em 2005, apresenta-se em sua primeira face (0.1).
Um trabalho voltado para o universalismo contemporâneo.
Seja este presente em festivais de mídia avançada ou clubes noturnos que são objetivos deste material.
A segunda faceta do projeto (0.2):
o Experimentalismo unido à intervenção do público através de instalações está em fase de implementação e será apresentado no futuro.
Produção
3 NITY desenvolve os seu loops a partir de um programa «Host de produção» musical (Cubase) que possui uma infinidade de instrumentos VST ´ s de onde são elaborados a maioria das músicas.
Entre os mais usados estão os efeitos (vários vst), Battery (vst) e o Reaktor (vst).
Este último é um dos programas que mais exige do produtor, devido à linguagem tão específica e singular.
É necessário uma especialização e dedicação integral.
Em as apresentações, o uso deste VST é o diferencial, sendo um dos poucos a fazer o seu uso ao vivo devido à sua complexidade.
3 NITY não usa loops ou «samples» de terceiros, tudo é criado e produzido do ponto zero (ondas sonoras e sinais eletrônicos digitais).
Em a parte visual, as formas geométricas e não figurativas compõem estruturas gráficas que nascem e se movem de acordo com o som.
Inspirado em movimentos astísticos como Suprematismo, Construtivismo Russo, Expressionismo abstrato e Neo-plasticismo, as formas e cores mostram todo o seu poder intrínseco, transmitindo, como na música, sensações através de elementos abstratos.
A improvisação também é um conceito importante no addd.
Ao invés da rigidez das estruturas fechadas, a dupla faz, ao vivo, apresentações únicas, nas quais sons e imagens são geradas instantaneamente, e mudam de rota de acordo com o ambiente, com o público, com a inspiração.
A interferência de um elemento no outro depende do contexto.
A música constrói a imagem e vice-versa.
A dupla faz trabalhos essencialmente digitais nos quais softwares geram sons e imagens que se complementam e interferem uns nos outros através de ligações midi.
Número de frases: 26
O aleatório dá um toque a mais nas composições, fazendo com que as apresentações sejam sempre únicas e diferentes entre si.
Atendendo uma solicitação de informações acerca de minha atuação perante ao PAC (Programa de Ação Cultural) de Paula Fernanda do Valle -- ECA -- USP -- Especialização em Gestão de Projetos Culturais, fiz um relato do que poderíamos chamar de uma Fabrica De Projetos Culturais.
A CCB (Cooperativa Cultural Brasileira) é uma cooperativa que nasceu atendendo a certa demanda do mercado de músicos (tendo por nome inicial CROPROMU, Cooperativa dos Profissionais da Musica) e rapidamente começou a prestar serviços para o Projeto Guri (fornecimento de oficineiros e técnicos que atendem diversas áreas do projeto Guri), paulatinamente foi crescendo e passou a tender outras demandas culturais como a ASSAOC, Corredor Cultural de Mairinque, SESC.
Decorrente de tal diversificação de sua proposta de origem em 2006 assumiu o nome de CCB.
A CCB contando com um quadro atual de cerca de 4500 cooperados, notou um nicho de mercado aberto por a CPT (Cooperativa Paulista de Teatro) que é a concorrência por as verbas publicas dos editais e fomento a Cultura.
A CPT voltada por suas premissas inicialmente somente a atores com DRT deixava uma lacuna no mercado cooperativo e a CCB decidiu me contratar interinamente para desenvolver o Departamento Cultural, do qual me tornei o responsável com um cargo equivalente a Diretor do Departamento Cultural.
Com a ocorrência dos editais do PAC Fundo fiz o encaminhamento das documentações necessárias para tornar a CCB apta a ser proponente de projetos e começamos um trabalho de captação de pré-projetos.
Inicialmente focamos o PAC edital 24 de 2006 que é um fundo que fornece recursos diretos sem a necessidade de captação de Recursos;
no caso especifico doedidal 24 que era voltado para a área musical.
Há a existência do Pac ICM no qual apos a inscrição de projetos, estes entram numa lista que esta disponível para potenciais patrocinadores cadastrados em outra instancia que podem escolher no leque de projetos aprovados quais desejam patrocinar com uma parcela do ICM devido.
Ou seja, no PAC teoricamente não há a necessidade de captadores de recursos.
Claro que operações casadas, nas quais de um lado produtores culturais fazem projetos que se adequam às necessidades especificas de uma empresa podem ocorrer mas por hora ainda não foram detectados por os olhares críticos.
Captamos dentro do universo de cooperados 30 pré-projetos, eu atuava como equivalente ao cargo Diretor do Departamento Cultural (tal equivalência ocorreu por não haver no regimento interno a formalização de tal cargo) e atuei supervisionando, elaborando e enquadramento os projetos às necessidades do edital.
Em parceria com artistas, técnicos, produtores culturais, etc..
Elaboramos e enquadramos 30 projetos voltados a serem inscritos no PAC Fundo no edital de nº 24.
De estes 30 projetos inscritos, 19 foram aprovados e cada um recebeu do fundo o ICM uma quantia financeira variável, sem a necessidade de captação alguma.
Outras cooperativas atuaram nos editais dos PAC Edital e PAC ICMS, mas nestas cada grupo fez independentemente seu próprio projeto.
O prazo para a elaboração destes 30 projetos foi de 45 dias contando com a atuação de duas pessoas, eu mesmo é uma consultora externa contratada para me auxiliar no processo.
Por o exíguo do tempo e ao lidarmos com mais de 600 artistas, técnicos e fornecedores posso lhe garantir que foram 45 dias muito laboriosos ...
Dentro do departamento Cultural da CCB optei por criar uma linha de montagem de projetos culturais fornecendo consultoria e assessoria aos artistas e grupos.
Em esta experiência posso ressaltar que o desconhecimento mediano dos artistas acerca dos meios por os quais fomentos e leis de incentivo podem ser usadas é algo assustador.
Uma outra opção que implementei nos projetos foi o fato que todos os profissionais envolvidos devessem ser cooperados.
Tal aspecto dentro da CCB era viável, pois é uma das poucas cooperativas aptas a atender todas as áreas de serviços dentro da produção de projetos culturais e artísticos (o único outro exemplo que conheço é a Cooperativa de Culturas Populares, que pode atender todos os aspectos de serviços culturais, possuindo a variação de poder articular a venda de produtos culturais e artísticos, fator este que a CCB, por o que é de meu conhecimento, ainda não esta apta a fazer legalmente).
O processo após o projeto aprovado passa por a assinatura do contrato entre Secretaria de Cultura e a empresa proponente ou com a pessoa física proponente (cada edital tem sua natureza e é voltado a pessoas físicas ou jurídicas, em alguns ocorre ambas as possibilidades de proponência).
Após a aprovação dos projetos por o PAC abre-se uma conta bancaria veiculada e liberam-se os recursos para as necessidades do projeto tendo-se a guardar as notas e recibos para a devida prestação de contas.
Em a prestação de contas além do aspecto financeiro há a necessidade de apresentar comprovações do projeto ter sido executado como planejado.
Optei por incluir dentro de cada projeto verbas para a divulgação, filmagem, fotografias comprobatórias documentalmente quanto à devida execução contratualmente estipulada.
Optou-se que 18 dos projetos seriam articulados nos Ceus, levando desde opera da melhor qualidade, a viola caipira de um modo completamente gratuito para uma população que é carente por ações culturais de tal qualidade artística.
O 19º projeto foi articulado numa cdade do interior paulista e é composto por um coral de crianças resgatadas de áreas de risco social.
Todos os 30 projetos foram, também, encaminhados para possíveis parcerias ou clientes como:
Sesc, Virada Cultural, Um Centro Cultural Particular, etc..
Ampliando as possibilidades de atuação dos artistas, técnicos e empresas envolvidas dentro e fora do PAC.
A Fase de produção dos 19 projetos depois de aprovados não ficou sob minha responsabilidade e optei por sair do trabalho interno da CCB ... (
depois daqueles 45 dias precisei de umas boas e longas férias).
As vantagens para a CCB em implementar tais projetos foram múltiplas:
Vantagens culturais ao incorporar em seu currículo institucional ações culturais de elevada qualidade e a aval da Comissão que julgou os projetos do PAC.
Vantagens financeiras:
uma porcentagem do valor de cada projeto a cunho de taxa administrativa, assim como, a taxa administrativa dos valores recebidos por os cooperados que prestarem serviços perante os projetos ou perante prestações de serviços para outros clientes.
Ampliação de seus quadros de cooperados.
Projetos
Aprovados 1.
Programa De Ação Cultural De Secretaria De Estado E Ecultura De São Paulo " Projeto Valor
Fossari Group " " R$ 14000,00 "
«Dilei» " R$ 14000,00
Foia verde " " R$ 14000,00
«Agnus -- Itinerante de Cordas»,» R$ 13000,00
Paulo Esemble " R$ 13000,00 "
«Conclave» " R$ 13000,00
A história do soldado " " R$ 20000,00
Didático Camerata de ópera " R$ 20000,00 "
O sentido da trans modernidade na música para piano de Gilberto Mendes -- Recital & Master Class " " R$ 20000,00
Pedro e o lobo " " R$ 20000,00
«Concerto -- Música Eletrônica Mista» R$ 20000,00
Concerto didático na escola " R$ 30000,00 "
Ciclos Brasileiros -- 100 anos Camargo Guarnieri V " " R$ 13000,00
Zarzuelas Españolas " " R$ 13000,00
Vocal ULM " " R$ 13000,00
«Música à la carte» " R$ 13000,00
«Serenata a três» " R$ 13000,00
Os amores do poeta " " R$ 20000,00
Canções Sacras " R$ 20000,00
Reproduzo a parte de meu currículo acerca de minha atuação perante a CCB / PAC --
Cooperativa Cultural Brasileira 2006/2007 --
Acessória de Projetos Culturais e Relações Publicas (2006).
-- Instauração do Departamento Cultural.
-- Chefia do Departamento Cultural.
-- Implantação da política de Parcerias Culturais.
-- Implantação da Política de Apoio a Projetos Culturais.
-- Elaboração de projetos culturais para o PAC (Programa de ação Cultural da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo).
-- Aprovação de 19 projetos para o " PAC Edital.
«Fossari Group ";
«Dilei ";» Foia verde ";
«Agnus -- Itinerante de Cordas "; "
Paulo Esemble;
«Conclave ";» A história do soldado ";
Didático Camerata de ópera "; " O sentido da trans modernidade na música para piano de Gilberto Mendes -- Recital & Master CLass ";
«Pedro e o lobo "; «Concerto --» Música Eletrônica Mista;
«Concerto didático na escola "; "
Ciclos Brasileiros -- 100 anos " Camargo Guarnieri V ";
«Zarzuelas Españolas ";» Vocal ULM ";
«Música à la carte ";
«Serenata a três ";» Os amores do poeta ";
Canções Sacras " -- Organização do 1º Sarauarte.
-- Organização da Assembléia de Cooperados.
Esta foi a historia de uma Fabrica de Projetos Culturais, na qual em 45 dias montou, formatou e enquadrou 30 projetos culturais, conseguindo obter a aprovação de 19 projetos que propiciaram recursos financeiros para cerca de 350 artistas e técnicos.
Em a Chefia do Departamento Cultural da CCB obtive muitas vantagens para os cooperados, parcerias inestimáveis e o apoio para muitos projetos culturais nas áreas de teatro, artes plásticas, dança, cinema, etc..
Este foi um trabalho do qual me orgulhei de estar envolvido.
Em a Atualidade não mais trabalho internamente na CCB, mas continuo como cooperado.
Vivenciei boas férias, mas é a hora de voltar a trabalhar em algum espaço onde haja a possibilidade de ver a cultura brasileira nascer, crescer e evoluir.
OBS.:
Não Confundir o PAC (Programa de Ação Cultural) ligado a Secretaria Estadual de Cultura de SÂO Paulo, com programa de mesmo nome articulado na esfera federal.
Número de frases: 91
Wellington R Costa
Parece que o skate é um esporte feito para romper todas as barreiras geográficas.
Aqui no Amapá os irmãos que o praticam não escolhem obstáculos para as suas manobras.
Eles marcam presença na cidade e mostram que não estão pra brincar de andar de Skate.
Existem pessoas que também curtem o esporte, mas preferem ficar protegidas das quedas.
Caso de Toninho Junior, editor e diretor, que está com um projeto de produção de um documentário da prática aqui no Amapá.
É ele quem nos conta um pouco de como iniciou o movimento por aqui.
Afirma que há cinco anos figuras conhecidíssimas como o Castanhal, Vampiro e Marlon já eram carimbadas.
Antes mesmo do Vampiro virar Técnico em Turismo, o Castanhal abrir seu negócio com confecção de material alternativo e o Marlon montar sua banda, " Mesopotâmia Canabis.
«O Cooki também é dessa época, mas ele não mudou quase nada» -- dizem.
Eles faziam Street por o Município de Santana, e que foi por lá que o movimento começou e não por a capital, Macapá.
Cooki também diz que o movimento meio que circulou por a área do Santa Rita, depois por o aeroporto, por as praças até chegar na frente da cidade.
Em Macapá, normalmente em finais de semana, era praticado no estacionamento da Beira Rio.
Onde hoje é a praça do Forte.
«Tem uma galera de aposentados que hoje só anda de sapato social, eles começaram a andar há uns 22 anos, mas acho que foi logo após os primeiros ribeirinhos deixarem suas canoas e passarem a viver mais tempo em terra firme» -- brinca.
O cenário ainda é palco para os mais radicais, que disputam campeonatos e simples aquecimentos.
O espaço onde eles se reúnem hoje, estrutura de todo o movimento skatista que se preze, fica no Bairro Santa Inês e tem como cenário o Rio Amazonas.
Um belo lugar para se tirar manobras ou até mesmo cair com dignidade, mas, como todos sabem, skatista gosta de aventura.
Saem por a cidade tirando acrobacias e saltos de lugares menos prováveis como o corrimão da entrada das Secretarias do Governo ou as escadarias do Teatro das Bacabeiras.
Havia também um espaço no Poeirão, mas os obstáculos foram feitos de forma nada profissional.
Não tem como fazer manobras, pois a rampa é muito inclinada e o cimento é muito cru.
A galera sente falta de um apoio maior."
Deveria ter mais campeonatos com outros Estados.
Era só trazer mais pessoas da Guiana Francesa e de Belém que tava na mão " afirma Sydney, conhecido como Castanhal.
Toninho Junior também é membro do Coletivo Palafita, afirma que a pista existente no Santa Inês é muito pequena."
Em Manaus existe uma das maiores pistas de Skate do Brasil.
A daqui é uma estrutura que só serve pra iniciantes».
E continua falando da falta de apoio dizendo que «já teve gente fera daqui que ' saiu fora ' atrás de patrocínio».
Casos como o de Izaías, que foi pra São Paulo.
Toninho Junior está trabalhando num projeto chamado «Skate Street Amapá», afirma que» é para os próprios empresários saberem que aqui tem Skate».
O vídeo é uma apresentação do processo de gravação de um documentário sobre o movimento aqui do Estado.
Ele espera conseguir, através das imagens, uma maior mobilização dos agentes culturais e projetos sociais de iniciativas publica e privada no sentido de patrocínios para atletas e para programações ligadas a esta galera.
O vídeo nos dá uma boa idéia do que significa andar de Skate em Macapá.
Número de frases: 33
Foi um trabalho Editado e Dirigido por Toninho Junior e as imagens são de Marcos Ramon e Denner Negreiros, ex-skatistas.
Indo para o
Festival Calango A viagem já iniciou como uma viagem.
Saí de Macapá deixado no aeroporto por alguns amigos.
Depois dormi no aeroporto de Belém até amanhecer porque o táxi de lá até a rodoviária é muito caro e eu sempre viajo com pouca grana.
Amanheceu e tomei um bonde até a rodoviária (rs), foi lá que descobri que só ia sair para a Goiânia às 22:30 hs..
Fui para a net pra ver se encontrava algum conhecido onde eu pudesse ficar, não é difícil, Belém é como se fosse uma Macapá grande.
Culturalmente temos muitas semelhanças e é comum encontrar pessoas de Macapá que vão para lá estudar.
Falei com uma amiga e ela disse que podia ficar na casa de outro amigo.
Ufa!
à noite peguei o ônibus e rumei para a Goiânia, o ônibus estava quase vazio.
Tinha no máximo cinco passageiros, mas foi legal.
Não interagi com ninguém, mas fiquei olhando a paisagem, dormindo e olhando as estrelas nestas 32 horas de estrada.
Tive alguns sonhos e pesadelos que eu não lembro, mas o pesadelo foi falta de oxigenação na parte esquerda inferior do cérebro (sabiam que pesadelo é falta de oxigenação no cérebro?
rs). Em as paradas eu tirava um tempinho pra dar uma volta sozinho porque ninguém é de ferro e eu queria olhar melhor a paisagem.
Cheguei na rodoviária às seis da manhã e esperei até as nove para rumar para Cuiabá.
O trecho foi tranqüilo, afinal de contas 15 horas não é nada para quem rodou 32. O bonde também estava meio vazio, só um pouco mais cheio e eu continuei ocupando duas cadeiras (rs).
A diferença é que a paisagem mudou:
ao invés de florestas vi latifúndios que pareciam não ter mais fim, passava horas olhando latifúndio até dormir, depois de acordar olhava para a janela e via mais latifúndio.
Em Cuiabá.
Cheguei em Cuiabá por volta das duas da madruga e perdi a maioria das bandas do primeiro dia (18).
Foi uma pena não ter visto Johnny Suxxx ' n the Fucking boys (GO), Rockassetes (SE), Sinestesia (Te o) e Enne (MG).
Em a verdade assisti só à Subtera (PR).
Peso nervoso e deu pra ver que eles vão votar nulo.
Acho que foi a única parte que deu pra entender do vocalista estilo Death Metal.
Mas a recepção foi boa e a recepcionista também (rs).
Logo de cara descobrimos que a lendária Cerveja Crystal era grátis (essa deu história rs).
Como esperado, a galera dos bastidores e do hotel são super gente fina.
Conviver com o povo que só curte Rock é muito melhor.
Em a rodoviária, enquanto esperava o carro que vinha me buscar, conheci a galera da banda Pelebroi Não Sei (PR).
Os caras são gente boa e me deram um CD, o terceiro, intitulado A os Farsantes com carinho.
Avistei o pessoal do Madame Saatan (PA) e do Ludovic (SP), que esperava muito conhecer.
Em a verdade me interessei por eles quando li uma matéria aqui no Overmundo descrevendo um show da banda, acompanhe em O Espaço do Baixo e Vil.
Logo de cara pude ver que a qualidade do festival estava muito boa.
A galera do cenário do rock Nacional tanto das bandas como da produção e comunicação está marcando presença.
Acredito que a maioria levou material.
Sábado (19)
à tarde, rolou um churrasco underground no hotel.
A coleta foi de R$ 5,00, mas valeu a pena.
Organização duríssima da figura mais conhecida como «Professor».
Foi tudo muito regado com gentis doses de originalidade e gente boa, só figura.
Tive a oportunidade de bater um papo com o pessoal do Ludovic (é, eu curto mesmo!).
Os caras são tão massa quanto o som de eles e o baterista é uma figura elétrica que não pára nunca rs.
Pena que no final da tarde tive que ir para o Calango na Mesa.
Um grupo de discussão importantíssimo que visa a parte séria da coisa.
A idéia é criar um portal integrado que mapeie a produção das regiões Fora do Eixo Rio-São Paulo para que essa produção escoe em festivais e por a internet.
Engraçado porque foi a primeira vez que falei com o Pablo Capilé, ele viu que estava meio enrolado na estrada e pensava que estava perdido até aquela hora em algum lugar do Brasil rs.
à noite, a arena onde as bandas se apresentaram bombou.
A banda Mezatrio (AM) fez uma apresentação empolgante.
É incrível ver a evolução do rock na Amazônia.
E por falar em rock na Amazônia, não poderia deixar de destacar Los Porongas (AC).
O som de eles é muito louco.
É uma banda de qualidade e as letras são muito boas.
Chegam a ser emocionantes.
Aplauso para os caras que vieram do Acre e arrebentaram e a banda de eles tá virando.
Tive o maior prazer de ir lá bater um papo com eles e falar que é isso mesmo que temos que fazer:
mandar ver no nosso som sem se preocupar com a distância do Eixo.
O legal é que eles também sabem disso.
Meus amigos da banda Pelebroi Não Sei (PR) mostraram que não são apenas figuras legais.
Eles tocam muito e são muito performáticos no palco.
Um punk rock muito firme.
Em seguida teve a apresentação de Macaco Bong (MT), uma ótima banda.
É instrumental que tem o baixista (Ney), o guitarrista (kayapy) e o bateirista (Ynaiã) arrebentando.
Os caras não brincam de tocar não, ou tocam tanto que parecem brincadeira (rs).
Depois de eles foi a apresentação de Ludovic (SP).
Putz, pirei.
A banda tocou algumas músicas do novo disco que acabou de ser rodado.
Ele se chama Idioma Morto e, segundo o vocalista Jair Neves, é melhor do que o primeiro disco, Servil.
Ainda bem que ele não quebrou nada no palco, mas fez uma lambança infernal que assustou a todos.
O Beto da Revista Decibélica não acreditou que aquele jovem pacato do hotel era o mesmo que estava virando bicho no palco.
A performance de Vanguart (MT) foi firme.
Mostrou ter muito talento e personalidade.
Gostei muito e o público mato-grossense deu um toque especial para os jovens que ainda vão longe.
A noite foi fechada com estilo.
Pernambuco mostrou que continua produzindo música de qualidade.
A banda Astronautas mandou um som de responsa e mereceu todos os aplausos possíveis.
Os caras estavam vestidos de astronautas enquanto cantam «eu posso apagar a bomba atômica com meu controle remoto», empolgante e a proposta é muito interessante.
Os efeitos não negam uma tendência nacional que é de se aproximar mais dos sintetizadores e distorções.
A noite de sábado foi muito gratificante.
Comecei a constatar que estava valendo a pena ter viajado tanto.
Fiz alguns contatos importantes para a cena nacional de rock fora do eixo.
Em todos os lugares a galera comentava sobre as bandas como Madame Saatan, que também arrebentou no primeiro dia.
Domingo (20)
Em o domingo também foi duro de sair da cama, mas meio-dia já estava em movimento para não perder o esperado almoço (rs).
De lá fomos pra o Museu da Imagem e do Som de Cuiabá para conversar-mos sobre o Circuito Fora do Eixo, discussão essa que se mostrou muito produtiva, pois pude trocar idéia e contatos com a galera do Norte, tipo o pessoal da Banda Los Porongas (AC) que também é da organização do Festival Varadouros.
Falei com o pessoal da Banda Coveiros (RO), que se apresentou no primeiro dia e com várias figuras pontuais das cenas regional e nacional.
Acredito que esta construção da cena alternativa não deve, de forma alguma, se centrar em regiões, mas vejo o fortalecimento da interação de estados próximos como um passo a ser dado rumo a uma melhor integração nacional.
De aí a minha preocupação em trocar idéia com os amigos da região.
Maiores informações podem ser adquiridas com o pessoal do Espaço Cubo.
A discussão durou um pouco mais tarde do que deveria, isso fez com que eu chegasse na hora de ver Unknown Project (SP), banda que também explora bem o vocal e as dirtorções.
Depois veio Lucy and the Popsonics (DF), que mostraram um estilo de rock que eu chamaria de Circus Music por o performance de palco bastante envolvente.
Esses têm futuro e a Fernanda é uma gracinha.
Um dos pontos fortes da noite veio do Paraná.
Trilobita mandou ver.
Realmente não dá pra não se empolgar com a mistura eletrônica regida ao som de Guitarra Synth (Mizão) e do curioso instrumento Theremim operado por Dino, que também faz o som programado.
Obrigado por terem criado mais uma banda legal galera.
Uma apresentação que esperava muito era a da banda Caximir (MT), pois já tinha boas referências de ela.
Tive a oportunidade de escutar o vol. 2 e gostei bastante.
Eles mostraram que tem um publico fiel em Mato Grosso e a performance de palco é muito interessante.
Outra banda do Norte que mandou muito foi La Pupuña (PA), todo mundo se impressionou.
O som de eles recebe misturas da região e algum peso na batida, mas isso não cobre o espaço dos tradicionais solos de carimbó que realmente ficaram muito bons.
Escutei algumas pessoas dizendo que foi e melhor apresentação do festival.
A noite e o Festival foram fechados com grande estilo, Graforréia Xilarmônica (RS) é uma banda que é um marco para a geração independente atual.
O Joca da Pelebroi Não Sei (PR) me falou logo quando chegamos que aquele era um momento muito especial, pois o trabalho da banda de eles era inspiradíssimo no da lendária Graforréia.
Percebi na hora da apresentação, que foi foda, os olhares e entusiasmos do público e de boa parte das bandas que tocaram no festival.
Parecia mesmo uma classe com professores falando na frente.
Frank Jorge (Baixo) também trabalhou junto com Flavio Basso (Júpiter Maçã) nos anos 80 em projetos como Cascavelletes.
Ao todo são mais de vinte anos de estrada independente, é mole?
Retorno
Depois de tudo voltamos para o hotel num ônibus onde pude constatar que o batera do Ludovic realmente não é normal (existe algum normal na banda?
rs). O cara não se aquieta.
Acordei em minha cama, conversei com os amigos tão ou mais ressacados que eu.
Uma cena que não me esqueço foi a que o Victor da Revista Decibélica com uma Marmiterx na hora do almoço da segunda feira.
Ele comia e reclamava " ai meu Deus, já tô ficando preocupado.
Essa marmita já tá na metade e a fome não passa!"
hauhauha.
Me despedi da galera e parti na jornada de retorno às três da tarde juntamente com o pessoal do Madame Saatan, chegando na rodoviária de Goiânia pudemos contar com a ótima hopitalidade da galera da Revista Decibélica.
Descobri por que o Victor é tão louco por comida:
o pai de ele tem um restaurante lá que serve um ótimo rango (o piquí não falta, é claro).
A oferta da casa foi boa.
Eu ia ficar lá por mais tempo pra jogar RPG e vídeo-game e conhecer um pouco mais da cidade, mas não deu.
Em a verdade, o Beto já estava começando a perder feio de mim no KOF (que vergonha rs).
Fica para a próxima.
O importante é que abrimos contato e conhecemos o Estúdio da Monstro, que, a exemplo da cena alternativa em Goiânia, vem crescendo de forma muito empolgante fora do Eixo.
Exemplo disso é o Festival Goiânia Noise.
A Celulose fez sucesso hein Gustavo?
Cheguei em Belém junto com o pessoal do Madame.
Foi muito produtivo mantermos a relação de horas de ônibus (Transbrasiliana hauhauha) e pude confirmar, apesar de ter perdido o show de eles em Cuiabá, que eles são uma banda foda e que já tem ótimas referências nacionais.
Material de qualidade para qualquer estúdio.
Já andaram tocando aqui em Macapá, mas não deu para assistir.
Por fim descansei mais uns dias em Belém, peguei o vôo para a Macapá e socializei o material com o pessoal daqui.
A jornada foi grande, e eu não podia deixar de dar um retorno para a cena na minha cidade.
Acredito que o advento da internet e iniciativas como a Tramavirtual e o Overmundo encurtam as nossas distâncias e fazem com que nossas diferenças culturais sejam menos impactantes.
Espero que em breve possamos fazer um sistema de festivais que aglutine bandas de todos os Estados do Brasil para que a cena não gire em torno apenas dos lugares onde existe um mercado mais acentuado e sim que se considere a qualidade de cada produção e as características culturais do rock em cada Estado.
Também é importante aos festivais que já têm alguma estrutura a preocupação com os espaços onde os mesmos não são tão bem estruturados.
A organização do Calango está de parabéns por ter tido a iniciativa de me convidar, apesar de não fazer parte de banda e sim atuar como jornalista e militante por a cena alternativa onde o isolamento é mais evidente.
Esta cultura tem que ser mantida para que o convite não se estenda apenas a jornalistas que já estão dentro dos eixos e que trabalham em grandes veículos de comunicação.
É claro que é importante que os organizadores se preocupem com a divulgação de «seus» festivais, mas a preocupação por o fomento e a retirada de preconceitos deve ser uma constante para o fortalecimento de nossa cena alternativa regional e nacional.
Número de frases: 138
Também para que não sigam exemplos de atividades de Estados vizinhos que não têm essa visão, apesar de terem seus méritos e também passarem por etapas iniciais onde a experiência ainda está sendo adquirida.
Para comemorar 10 anos de formação, o grupo de rock de maior sucesso de Roraima, a banda Garden, lança o primeiro CD da carreira, que a cada dia que passa deslancha mais no cenário local e regional.
O CD «Garden», como foi batizado, já terminou toda a parte de gravação e agora está em fase de masterização numa empresa de Manaus (AM) para definir o volume do áudio.
Concluída esta parte, o material vai para uma gravadora, que ainda está sendo definida, para a etapa de remasterização e prensagem.
A criação do CD de dez anos do grupo partiu da fusão de idéias de seus quatro integrantes, Siddhartha Brasil (vocal), Rodrigo Baraúna (guitarra), Neto Baraúna (baixo) e Nequinho Amaro (bateria).
Além disso, eles também contaram com a especial ajuda dos amigos, que procuram contribuir sempre com o sucesso da Garden, e deram altos toques para este CD.
Para Rodrigo Baraúna, esse trabalho significa ao mesmo tempo o amadurecimento do grupo e uma inovação, pois durante toda a carreira da banda as apresentações foram apenas voltadas para couvers de bandas nacional e internacionalmente conhecidas.
Ele acredita que esses 10 anos vão refletir hoje na apresentação de um trabalho mais bem apurado e de maior qualidade de produção, já que hoje o grupo tem uma noção bem maior e melhor do que quer e do que gosta.
«Acho que se tivéssemos gravado um CD no início da nossa trajetória, esse trabalho não teria saído com a qualidade de produção que está sendo elaborado.
Teríamos dificuldades de composição, arranjo e outras coisas.
Hoje, não.
Nós estamos muito mais críticos e maduros, podendo colocar para o público, músicas que realmente têm a ver com o que gostamos e queremos», destacou.
Rodrigo vê esse trabalho como um divisor de águas da trajetória da banda que vai, além de apresentar a verdadeira essência do grupo, mostrar para toda a região norte um pouco de Roraima, que também tem rock destacado em sua cultura.
«Muita gente tinha curiosidade de conhecer o que pensamos musicalmente.
E agora esse CD vai mostrar nossa essência».
Trabalho --
Segundo Siddhartha Brasil, a Garden apresentará neste primeiro trabalho 10 faixas inéditas no estilo pop / rock de autoria dos integrantes da banda e uma faixa bônus a pedido do público com a música «Cruviana», de Neuber Uchoa, uma das influencias locais da banda.
A música tão conhecida no Estado e uma das mais tocadas por o grupo, ganha no CD uma nova roupagem.
Entretanto, de entre as inéditas, o CD trará uma música que já bastante conhecida do público local «Pronto pra viver», que nunca foi gravada, mas costumeiramente é apresentada nos shows do grupo.
Siddhartha fala que as músicas abordam o cotidiano das pessoas.
«As letras falam de tudo, desde amores, ilusões e desilusões, conflitos pessoais e muito mais», comentou.
A principal música do CD é «Ainda ontem», que fala dos conflitos que as pessoas têm com si mesmas.
«É para refletir», destacou Siddhartha, contando que duas mil cópias serão colocadas á venda assim que o processo de remasterização e prensagem termine.
A segunda música de trabalho é «Olhos rasos», que fala de solidão e tristeza.
O vocalista destacou ainda que CD terá um pouco de pop / reggae com «Aquele horizonte», Fosco como as pedras» e «Fechado».
Até o lançamento, que está previsto para julho, a banda, que sempre está de agenda lotada, inclusive com shows programados em Manaus, apresentará sempre as duas músicas principais de trabalho do CD nos diversos eventos que marcam presença e colocará aos poucos outras músicas que fazem parte do trabalho para o público apreciar.
Número de frases: 26
O maior evento literário do Estado, a Feira de Livros do Sesc, chega à sua XVII edição.
Com o tema «De Fio a Pavio -- Histórias do Brasil», o Sesc Roraima vai contar as muitas histórias na nossa literatura, fazendo uma viagem por todas as regiões do país, expondo as proximidades entre a história e a literatura.
Em esta edição, a Feira de Livros do Sesc lança mão de um questionamento que busca estabelecer algumas obras literárias como documentos históricos.
«A produção literária brasileira retrata a própria história do país, bem como a história de nossa literatura.
Seja através das crônicas de viagens do Brasil Colônia-Império, dos versos abolicionistas de Castro Alves, dos retratos da vida do Rio de Janeiro, narrados por Machado de Assis, das denúncias dos abusos na Revolta de Canudos, descritas por Euclides da Cunha, entre tantos outros exemplos que poderíamos lançar mão», explica Rosana dos Santos, coordenadora da Feira.
Essa viagem, de acordo com Rosana, será trabalhada através de histórias contadas e dramatizadas, oficinas literárias, música, recitais, exposições, concursos, ambientação do espaço de realização da Feira e, até mesmo na indumentária dos monitores que trabalharão no evento.
Um dos principais destaques da Feira será a participação pela primeira vez em Roraima do escritor indígena Daniel Munduruku, que nascido em Belém, no Pará, é um legítimo representante do povo Munduruku naquele Estado.
Daniel é coordenador da coleção memórias Ancestrais, com ilustrações das crianças da aldeia Katõ e autor de diversos títulos da literatura infanto-juvenil.
Em sua participação na Feira, ele terá um encontro com educadores para falar sobre «Conversa ao Pé da Fogueira Sobre o Ato de Educar (se)».
O encontro acontece no sábado 29 e as inscrições estão abertas, com vagas limitadas.
Outro escritor de renome que participa desta edição da Feira é Elias José, que tem contos e poemas traduzidos e publicados em revistas literárias e antológicas de autores brasileiros em vários países.
«Em 16 anos, a Feira se tornou um dos principais responsáveis por o crescimento da literatura no Estado, por meio da divulgação de livros de qualidade como poderoso instrumento no processo de produção do conhecimento, por possibilitar o contato do leitor com diferentes formas de vivenciar e compreender o mundo», festeja Rosana.
Teatro e lançamento de livros
Além da programação literária, a XVII Feira de Livros do Sesc também traz para o publico boa-vistense uma série de espetáculos culturais, com artistas locais, nacionais e internacionais.
Um dos destaques é a apresentação do espetáculo «Quem tem, tem medo!»,
que conta de uma forma diferente a história de Chapeuzinho Vermelho.
Em uma produção luso-brasileiro dos grupos Entretanto Teatro, de Valongo, Portugal, e a Remo Produções, de Recife-PE, o espetáculo faz parte do projeto Palco Giratório e será encenado na sexta-feira 28, às 20h30, e no sábado 29, às 19h30.
O projeto original dessa co-produ ção é resultado de um apanhado de diversas versões de milhares de crianças entre 03 e 13 anos, de escolas públicas dos dois países, que foram incentivadas a produzir desenhos, cada uma à sua visão e imaginação, sobre a história de Chapeuzinho Vermelho.
Como não dispõe de diálogos entre as personagens, o espetáculo na versão brasileira, é calcado em coreografias baseadas em manifestações artísticas populares como o pastoril, o maracatu, o xaxado, a ciranda, o caboclinho e o frevo.
Em um esquema cênico inspirado na Commedia Dell'Arte, o espetáculo procura a imagem do teatro ambulante, onde três bicicletas desempenham o papel de carroças e apresentam as várias personagens do conto Chapeuzinho Vermelho.
O grupo Locômbia Teatro de Andanzas, de Barranquilla, na Colômbia, também está na programação da Feira e vai apresentar dois espetáculos:
«Maha Baraha», na sexta-feira 28, às 10h;
e «Compassos em Silêncio», no domingo 30, às 20h30.
Também como destaque da Feira, enfocando o fomento á produção literária no estado, acontece o lançamento de dois livros voltados para o público infanto-juvenil.
O primeiro de eles, " Coisinha assim!--
Um livro sobre coisinhas, bichinhos e pessoinhas», de Ayrton Vieira, será lançado no sábado 29, às 20h30.
«É um livro de poesias infantis musicadas, que tem na criança seu enfoque e personagens principais.
Seus poemas além de originais, trazem, em sua maioria, ilustrações de crianças, que também são destaque no CD que integra o livro, através das declamações e canções», explica Airton.
O livro conta ainda com participações de pessoas e artistas locais, tanto nas músicas como nos poemas e traz um trabalho de diagramação criativo, levando a criança (e o adulto!)
a se divertir com o manuseio.
Após o lançamento em Boa Vista, Airton viaja para o Rio de Janeiro e Belo Horizonte, locais onde já estão sendo agendados os próximos lançamentos de seu livro.
O outro livro a ser lançado é «Um amor de boneca», da escritora Simone Coelho, traz ilustrações de Amorim Coelho, e será lançado no domingo 30, às 20h.
A inspiração da autora veio de lembranças de sua infância, da época em que sua mãe fazia bonecas de pano.
Foram meses montando a história.
Depois de concluído o livro, uma nova fase, talvez a mais difícil, segundo Simone, foi iniciada:
a busca por pessoas que acreditassem nesse sonho.
«Minha família foi a primeira a acreditar no meu sonho.
Meu irmão, Amorim Coelho, deu vida e desenhou a boneca do livro, que ilustra a capa.
Minha irmã Janaína, criou uma poesia, que faz parte do encarte.
Minha mãe, Maria de Nazaré, confeccionou 50 bonecas de pano que serão vendidas junto com o livro no dia de seu lançamento.
E meu marido, Lenon Lira, deu apoio moral e financeiro», conta.
Confira a programação completa
Terça-feira -- 25.04 --
Abertura com o espetáculo De Fio A Pavio " Histórias do Brasil ";
11h e 15h -- Encontro marcado com o escritor Elias José;
16h -- Espetáculo:
De " Fio A Pavio Histórias do Brasil ";
Quarta-feira -- 26.04
10h e 16h -- Apresentação teatral com o grupo Tempestade (RR).
Quinta-feira -- 27.04
10h e 15h -- Apresentação teatral com o grupo Criart (RR);
16h -- Premiação do VIII Concurso Sesc de Literatura Infanto-Juvenil;
18h30 -- Teatro Infantil:
II Vencedor do Concurso Visconde de Sabugosa (Biblioteca Estadual);
19h -- Bate papo com os escritores Ayrton Vieira e «Simone Coelho A Gostosura de Ser Criança» com a exibição do filme A Fantástica Fábrica de Chocolate.
Sexta-feira -- 28.04
10h -- «Apresentação Teatral Maha Baraha» com o Grupo Locômbia Teatro de Andanzas -- Colômbia;
18h30 -- Teatro Infantil:
I Vencedor do Concurso Visconde de Sabugosa (Biblioteca Estadual);
18h30 -- Pensamentos Giratórios com o Grupo Entretanto Teatro, de Recife-PE;
19h -- Inauguração da Editora Universitária da UFRR;
19h30 -- Atividade Literária (Faculdade Cathedral);
20h -- Apresentação Coral Infanto Juvenil do Sesc;
20h30 -- " Palco Giratório Espetáculo Quem Tem, Tem Medo!"
com o grupo Entretanto Teatro, de Recife (PE).
Sábado -- 29.04
18h -- Hora do Canto/Oficinas Literárias / Mesa de Jogo RPG «Literatura e RPG» Grupo:
Cúpula RPG;
18h30 -- Encontro com Educadores «Conversa ao Pé da Fogueira Sobre o Ato de Educar (Se)» com o Escritor Daniel Munduruku;
18h30 -- Apresentação do Projeto de Pesquisa Literatura roraimense com escritores locais (UFRR);
19h -- Escola de Dança Cristina Rocha;
19h10 -- Atividade Literária (Faculdade Cathedral);
19h30 -- " Palco Giratório Espetáculo Quem Tem, Tem Medo!"
com o grupo Entretanto Teatro, de Recife (PE);
20h30 -- Apresentação musical e lançamento do livro " Coisinha assim!--
Um livro sobre coisinhas, bichinhos e pessoinhas», de Ayrton Vieira;
21h30 -- Apresentação Musical:
Banda Echoes.
Domingo -- 30.04
18h -- Hora do Canto/Oficinas Literárias / Mesa de Jogo RPG:
«Literatura e RPG ":
Grupo Cúpula RPG;
18h30 -- Espetáculo:
Espetáculo De Fio A Pavio " Histórias do Brasil ";
18h40 -- Por que ler?
Sem leitura não há salvação.
Encontro literário com Dr. Rui Guilherme (Biblioteca do Sesc);
19h -- Encontro Marcado com o Escritor Daniel Munduruku;
19h30 -- Apresentação da Orquestra Infanto Juvenil do Sesc;
20h -- Lançamento do livro «Um amor de boneca», da escritora Simone Coelho com Ilustrações de Amorim Coelho;
20h10 -- Atividade Literária (Faculdade Cathedral);
20h30 -- «Apresentação Teatral Compassos em Silêncio» com o Grupo Locômbia Teatro de Andanzas -- Colômbia;
21h30 -- Apresentação Musical:
Número de frases: 93
Banda Garden.
GERALDO AMÂNCIO -- O maior cantador-repentista da atualidade (um dos mais respeitados ícones da nossa Cultura Popular Brasileira) --
Bom dia, meu caro Geraldo Amâncio.
Gostaria, inicialmente, que você informasse o seu nome completo, o local e data do seu nascimento.
GERALDO AMÂNCIO -- Bom dia, meu parceiro Rubenio Marcelo.
O meu nome completo é Geraldo Amâncio Pereira.
Nasci numa região rural, num sítio, de nome Malhada de Areia, num cantinho do município de Cedro, Ceará, em 29 de abril de 1946.
Lá eu passei a minha infância, adolescência e juventude, junto com meus pais e os meus quatro avós.
-- Geraldo, qual o seu endereço atual?
GERALDO AMÂNCIO -- Moro em Fortaleza;
na Avenida Expedicionários, número 5635 -- Bairro Vila União.
-- Você acredita em Deus?
Pertence a alguma religião?
-- Eu tenho uma religiosidade mais ou menos sólida.
Sou católico praticante.
Quando as pessoas me dizem que são católicas mas não praticantes, eu respondo-lhes que era melhor dizerem que não têm religião.
Eu sou rezador mesmo;
ando com o terço;
leio a Bíblia todos os dias e sou -- acima de tudo -- muito feliz, graças a Deus.
RUBENIO MARCELO -- Há quanto tempo você exerce a verve divina da cantoria de viola e do repente?
GERALDO AMÂNCIO -- Eu sou um decano da cantoria.
Algos em torno de 40 anos de cantoria.
E tenho muito orgulho disto.
RUBENIO MARCELO -- Quais os estudos que você realizou?
GERALDO AMÂNCIO -- Eu venho de uma época e de uma região em que o estudo não era muito fácil;
principalmente para as pessoas humildes.
Em a época em que eu nasci, por exemplo, havia apenas um grupo escolar, onde estudei apenas dois anos.
Depois completei o 2º Grau através do Supletivo.
O que eu tenho feito muito é pesquisado.
Sou autodidata, com muita honra.
RUBENIO MARCELO -- Quantas profissões você exerceu?
GERALDO AMÂNCIO -- Fora a cantoria, nenhuma outra.
Fui sanfoneiro, ainda muito jovem:
tocador de forró, mas nunca profissionalmente.
Apenas a viola.
Inclusive aconselho a muitos que não façam o que eu fiz.
Eu levei uma sorte muito grande, mas é algo meio inseguro viver exclusivamente da cantoria de viola.
Quando eu não puder cantar mais, vou escrever, falar, divulgar isto, que é o que mais gosto de fazer na vida.
-- Geraldo, você apresenta atualmente algum programa de rádio ou televisão?
GERALDO AMÂNCIO -- Durante dez anos, veiculei por a TV jangadeiro, que é um canal televisivo de Fortaleza, um programa chamado Repente e Cantoria.
Hoje possuo um programa chamado «A Sanfona e a Viola», aos domingos, na TV Diário de Fortaleza, que chega a todo o Brasil, via satélite.
Um trabalho interessante, pois a viola nunca teve muito espaço.
As janelas da mídia nunca se abriram muito para a ela.
RUBENIO MARCELO -- Quantos livros ou cordéis você escreveu?
Quantos publicados?
GERALDO AMÂNCIO -- Cordéis, eu possuo uns 20 escritos, mas nem todos estão em meu arquivo.
Quanto a livros propriamente ditos, possuo publicados:
«De Repente Cantoria», uma espécie de antologia em parceria com o jornalista e poeta Vanderley Pereira;
e, também com a mesma parceria, um trabalho mais estilista no livro chamado «Cantigas Que Vêm da Terra».
Já possuo outro no disquete, chamado «Gênios da Cantoria», o qual é um livro do porte do» De Repente Cantoria».
Além também de vários CD's.
RUBENIO MARCELO -- Você é membro de alguma entidade cultural?
-- Sim, sou da Academia Brasileira do Cordel.
Sou membro também da «Casa do Cantador», em Fortaleza, que possui mais de 50 anos de existência.
RUBENIO MARCELO -- Como e quando surgiu o pendor para a cantoria de viola e o repente?
Quais suas influências literárias e artísticas?
Escritores prediletos ...
Quais livros fizeram e fazem parte de sua formação cultural?
-- Em o meu caso, isto é hereditário.
Meu avô paterno, Manoel Amâncio, foi cantador.
Um tio, também.
Amadores, ambos.
Tudo veio daí.
A influência também é de eles.
Embora eu tenha começado ouvindo um programa que era veiculado na Rádio Clube de Pernambuco, um programa de cantoria que era feito por Otacílio Batista e Zé Alves Sobrinho.
Eu digo sempre que o homem ou o artista é um produto do meio.
Se nós cantadores tivéssemos nascido num centro como Rio de Janeiro ou São Paulo, por exemplo:
seríamos compositores;
se os grandes compositores tivessem nascido onde nascemos, seriam eles os cantadores.
Quanto aos escritores que mais pesquiso, estão Castro Alves, por quem tenho uma admiração enorme;
Euclides da Cunha; Rogaciano Leite, jornalista, poeta e dramaturgo;
e tantos outros ...
RUBENIO MARCELO -- Como se dá o seu processo criativo?
Em que circunstâncias você cria o seu trabalho?
-- Esta é uma pergunta interessante!
A «alquimia» de escrever, acontece mais quando estou viajando.
A gente se desprende das preocupações do dia-a-dia.
E a escrita vai fluindo normalmente.
Quanto ao improviso, o som da viola tem uma influência muito grande no nosso processo de criação.
RUBENIO MARCELO -- Quanto ao tema, no que você se baseia para desenvolver a sua Arte?
-- A minha grande preocupação é o povo.
O lado social;
a própria natureza;
o amor;
o sertão;
o torrão natal.
São os temas universais.
RUBENIO MARCELO -- Quando se trata do repente de um desafio engenhoso, malicioso, no bom sentindo, as idéias nascem no vulcão da inteligência «sem papas nos neurônios»?
É algo direto ou pré-estabelecido?
-- Em o desafio propriamente dito, isto depende muito da parceria.
Quando o seu parceiro é «agressivo», é criador, você também se multiplica;
a sua idéia agiganta-se;
vai num crescente espantoso, que há momento que você se pergunta: --
Meu Deus, como é que estou produzindo isto!?
Outro dia eu terminei uma cantoria e falei para o público:
A cantoria é um espetáculo tão interessante que até nós, os cantadores -- nós que veiculamos o improviso -- admiramos o que é produzido no momento.
Então eu repito:
no auge do desafio, esta sublime criatividade é algo divino.
A cantoria realmente vem de Deus.
-- Geraldo, como materializar a sua obra para a posteridade?
-- Rubenio, nisto os cantadores são meio descuidados, você sabe.
Por exemplo, este livro «De Repente Cantoria» vem mais da memória do povo.
Quer dizer, o cantador produziu, não gravou, não escreveu.
Isto fica 1 %, se ficar.
Alguém vai recitando para alguém e depois os que interessam, os próprios escritores vão materializando esses versos que ficaram soltos aí por as noites da vida.
A própria tradição vai se incumbir de levar isto à posteridade.
RUBENIO MARCELO -- Há alguma influência psicológica quando você escreve ou arquiteta os versos da cantoria?
-- Com certeza!
Eu já lhe provei que sou um chorão.
A criatividade depende muito da emoção;
da sensibilidade;
da alma.
-- Você, que é também um exímio sonetista -- haja vista os belíssimos «Reencontro» e «Romaria», do livro» Cantigas que Vêm da Terra " -- como consegue fazer isto, ir de uma ponta a outra de uma arte assim;
sair de uma cantoria, de uma expressão artística regional e ir a uma arte clássica, universal?
-- Primeiro quero dizer que eu sou é um grande admirador dos bons sonetistas, do seu tipo, do tipo do Geraldo Ramon, do Vanderley Pereira e tantos outros.
Isto, no meu caso, é mais um atrevimento.
Não é meu campo.
É como se eu estivesse jogando em campo alheio.
E por a admiração que tenho, fiz uns cinco, seis sonetos.
Mas respeito muito a métrica, eis que o soneto exige muito isto.
Uma métrica castiça, que não sei se domino bem.
Sempre que construo um soneto eu vou consultar um mestre do assunto pra ver se tudo está certo (risos ...).
-- Para muitos, o soneto é uma camisa de força da arte poética, por causa da métrica, rima, enfim, a forma tradicional de tecê-lo.
O que mais lhe fascina no soneto, e qual a sua opinião sobre a poesia moderna nacional?
-- Inclusive os críticos dizem que a grandeza do soneto está realmente no desfecho, isto é: ...
na «cauda do escorpião».
É, como eu disse, não domino bem, mas tenho uma admiração por esta forma fixa da poesia.
Há esta outra poesia, que não sei se chamo concretista, moderna.
Eu não critico, porque não conheço bem;
e não conhecendo, não tenho uma admiração à altura dos grandes poetas, pesquisadores.
Voltando ao soneto, como muitas vezes ele é decassilábico, sendo muito familiarizado com o nosso martelo de cantoria, ele conta com nossa admiração maior.
-- Geraldo, como você lida com os versos livres (os comumente usados por alguns poetas)?
-- Respeito quem os faz bem.
Mas no meu caso, falta uma força interior, porque eu conheço pouco, leio pouco Drummond, por exemplo, e outros.
Porque o nosso trabalho é algo tradicional.
Nós, cantadores, ouvíamos quem na nossa infância?--
Os cantadores, os repentistas que não faziam versos brancos;
faziam todos rimados, metrificados.
Inclusive, a maior admiração que temos por o repentista é a métrica;
é um dom maior que o da rima.
Já vem com a própria cadência.
-- Dizem que a literatura não tem alto valor comercial, mesmo assim são tantos artistas das palavras que se dedicam a ela.
Por quê?
-- O autêntico artista da palavra, o poeta em si, trabalha por amor.
Outro dia, fazíamos uma apresentação na cidade de Mossoró, ocasião em que fiquei muito feliz quando um rapaz se aproximou e nos disse:
«Se todos os jovens do nosso país gostassem de literatura e de cantoria, a história do Brasil seria outra».
E com a experiência que tenho, sei que as pessoas, que acompanham um trabalho como esse, sempre são de boa índole.
-- Quais são as suas características positivas?
E as negativas?
-- A positiva é a sinceridade.
do que eu gosto, gosto mesmo, respeito;
do que não gosto, isolo.
Negativa: Muitas vezes não tenho a paciência que deveria ter com as situações.
-- Em um mundo tão conturbado, pode a literatura, a arte cumprir um papel de ajuda para a redenção da humanidade?
-- É o caminho, depois do amor ao próximo, a Deus.
Eu não tenho dúvidas disto.
-- Qual a colaboração do artista para a sociedade?
-- Levar o amor, a arte, a poesia.
A formação e a conscientização cultural e educacional, tão importantes.
-- De os seus parceiros de arte, qual aquele que você se identificou mais?
-- Isto é algo periódico.
Por exemplo, no começo tive os mestres, a quem devo tanto.
Fiz trabalhos com muita gente famosa.
Tive a bênção poética do Patativa do Assaré, a quem acompanhei muito.
-- nos seus vários desafios e pelejas de cantorias por este Brasil afora, qual o cantador que você se lembra ter sido o «osso mais duro de roer»?
-- Ah, eu diria que ...
bem ... (risos) ...
Inclusive com este cantador, a gente fez parceria por dez anos, e o próprio povo criou uma rivalidade.
Periodicamente, nos tornamos «antagonistas», que é uma coisa que não gosto.
Ele é famosíssimo.
Chama-se Ivanildo Vilanova, autor do «Nordeste Independente», que a Elba Ramalho gravou.
Grande nome da nossa Cultura.
-- Você que reside atualmente na atlântica Fortaleza, seria o galope à beira mar o estilo de cantoria que você mais gosta de cantar?
-- Sim.
Inclusive, é este um estilo muito difícil, muito complicado para quem -- por acaso -- não dominar bem a linguagem da cantoria.
Você sabe disso ...
Cada verso é formado por onze sílabas poéticas.
É uma criação de um poeta cearense de Morada Nova, chamado Zé Pretinho.
Gênero melodioso, cantante;
cadenciado e belíssimo.
-- Você que participou do disco / homenagem aos 85 anos do nosso saudoso amigo Patativa do Assaré, descreva qual foi a emoção e o que significou para você este acontecimento ...
-- ... Falar de Patativa, você sabe, é sempre uma emoção constante.
Patativa fazia um programa numa Rádio de Juazeiro do Norte, onde morei 20 anos.
Então, toda quinta-feira, ele gravava um programa nesta emissora e nós tínhamos a alegria de sempre, neste dia, almoçar juntos.
E Patativa fez com que os meus filhos o chamassem de vovô Patativa.
Minha filha, inclusive, na morte de ele, acho que chorou mais do que todos os filhos, filhas, netos e netas de ele ...
Foi preciso que eu «gritasse» para ela parar, pois a família de ele já havia parado de chorar.
Foi sempre uma emoção constante viajar, trabalhar com ele ...
E esta noite do lançamento do disco foi memorável.
O evento ocorreu no Teatro José de Alencar, em Fortaleza, com a presença do Presidente Fernando Henrique Cardoso, que havia assumido recentemente os destinos da Nação.
o Tasso Jereissati também esteve presente.
Interessante é que, na programação do evento, o Patativa -- que era muito autêntico -- recitou, até «coisas» de protesto contra o próprio governo, entretanto o próprio Presidente aplaudiu, sorrindo.
Tivemos também a presença do Fagner.
Foi uma noite memorável, repito.
-- Geraldo, você hoje é tido como um dos mais famosos cantadores do Brasil.
Isto lhe conforta ou aumenta a sua responsabilidade?
Ou as duas coisas?
-- Isto é uma coisa interessante ...
Os cantadores famosos sempre vieram da Paraíba, de Pernambuco.
Depois dessa geração nossa, de cearenses:
o Zé Maria, Eu, Antônio Jocélio, o próprio Zé Gonçalves, a gente fez com que o Ceará aparecesse mais no cenário nacional da cantoria.
Só para se ter uma idéia, nestes festivais competitivos nós já trouxemos mais de 150 lugares para o Ceará, uma coisa que não é fácil, pois nós disputamos com as maiores «feras» do improviso.
A nossa responsabilidade continua cada vez maior.
Eu não sei quanto tempo cantarei daqui para frente.
Depende de Deus;
depende da aceitação do público.
Mas a responsabilidade é tão grande que gostaria que, mesmo sem cantar, pudesse continuar apresentando, escrevendo, fazendo este programa de televisão e me esforçando para levar e elevar a cantoria aos páramos mais gloriosos.
-- Zé Limeira, o Poeta do Absurdo, existiu mesmo ou foi invenção?
-- Eu conheço o Orlando Tejo, que é meu amigo, escritor, poeta, jornalista, figura finíssima, a quem quero muito bem.
Conheço «Zé Limeira, o Poeta do Absurdo», que é um livro escrito por Orlando Tejo.
Acontece o seguinte:
o poeta Zé Limeira existiu;
a poesia absurda é que não existiu.
Explico: isto foi uma criação jocosa do poeta / cantador Otacílio Batista, que partiu há pouco tempo, e do poeta José Mota Pinheiro.
Então Orlando Tejo, como bom pesquisador, como exímio jornalista, foi achando aquilo engraçado (aquelas estórias, versos e palavreados esdrúxulos) e aí compendiou nas páginas do seu livro.
E este livro ficou famosíssimo.
Portanto, Zé Limeira existiu;
a cantoria absurda desse cantador é que não existiu.
-- Você já esteve na Europa cantando a nossa Cultura Popular.
Como é a aceitação da nossa cantoria no exterior?
-- Nós nos apresentamos no Museu de Etnologia, onde estavam presentes vários poetas dos Açores, poetas repentistas, assim como nós, só que eles cantam em estilos diferentes e acompanhados com violões e guitarras portuguesas.
Foi talvez o momento mais marcante, desde quando eu canto:
há quarenta anos.
Primeiro por a surpresa, por a aceitação, por os aplausos.
Só para se ter uma idéia, nós fomos fazer uma apresentação, e acabamos fazendo oito.
Cantamos em Lisboa, inclusive para o presidente português;
cantamos na entrega de uma comenda ao construtor de Brasília, o famoso brasileiro Oscar Niemayer;
cantamos na casa do embaixador do Brasil, José Aparecido;
também para os acadêmicos lisboetas de Letras, que foi, assim, uma coisa fantástica:
eles, com aqueles fardões tradicionais, terminaram dizendo que acadêmicos não eram eles, e sim nós, cantadores brasileiros.
Apenas relembrando uma passagem destas apresentações, na ocasião da cerimônia, na Câmara Municipal de Lisboa, em homenagem a Oscar Niemayer, eu iniciei improvisando a seguinte sextilha:
«Niemayer não é Deus, / Mas seu trabalho é fecundo;
/ Eu admiro o primeiro / E tenho fé no segundo;
/ Um construtor de Brasília, / Outro construtor do mundo».
-- Você tem uma noção média de quantos cantadores de viola profissionais existem atualmente no nosso país?
-- Há um poeta chamado José Alves Sobrinho, um dos pioneiros do rádio, o qual fez um apanhado neste sentido, há uns 20 anos, e chegou a uma conclusão em torno de 7 a oito mil cantadores.
Sendo que a maioria absoluta reside no Nordeste.
-- Você já tinha vindo cantar neste Estado do Mato Grosso do Sul?
-- Não!
Havia apenas passado rapidamente.
Eu fazia umas campanhas políticas no Acre e alguns vôos passaram por aqui.
-- O que você está achando do lugar?
Qual a sua impressão?
-- Olha, conterrâneo e amigo Rubenio, agradeço primeiro a Deus, e depois a todos vocês, por a receptividade ímpar que tive aqui no Mato Grosso do Sul.
Um pessoal carismático e maravilhoso;
e uma bela capital, esta Campo Grande:
Cidade Morena, que eu já conhecia através dos seus belos versos e poemas, meu caro Rubenio Marcelo.
Esta nossa vinda pra cá, também proporcionou conhecermos a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.
É maravilhoso, a cultura, a amizade sincera, a lealdade.
É tudo muito gratificante.
Não tenho como agradecer.
-- Geraldo Amâncio, agora faço-lhe uma das perguntas do nosso companheiro José de Sousa Dantas, nobre poeta e ativista cultural paraibano:
«Todo tema solicitado o poeta tem força para cantar?" --
Ah ... O Dantas!? ...
que bom!
Grande poeta e companheiro o José Dantas, conterrâneo do Leandro Gomes de Barros.
Meu forte abraço ao Dantas.
Bom ... Com relação a esta «força», a minha grande preocupação é o público;
ele é a marca maior do nosso trabalho.
O rendimento da nossa performance depende da receptividade;
é aquela coisa da ação e reação.
Se mandamos uma estrofe que consideramos bela e não recebemos aplauso, a gente se frustra um pouco;
na próxima, a gente já fica na dúvida se vai agradar ou não.
Por outro lado, se soltamos uma estrofe que até achamos não boa quanto a outra (não merecedora de muito aplauso), e, no entanto, esse aplauso acontece, aí a produção tende a crescer.
Portanto, a força é coisa divina, permanente, sobrenatural, o que depende é a intensidade de ela.
Isto o público é quem direciona.
-- Geraldo, nas suas andanças nas asas da cantoria, qual o estado brasileiro que se identifica mais com você, quando você está cantando?
-- Pernambuco tem o hábito maior da cantoria.
Acontece lá, todo ano, um festival, que é o maior do Nordeste, no Marco Zero, no centro de Recife.
Houve uma vez que, durante a apresentação, caiu uma copiosa chuva;
e havia em torno de 20 mil pessoas e ninguém saiu.
Parecia que nem estava caindo uma gota d' água.
Quem não tinha guarda-chuva, pôs uma cadeira na cabeça ...
-- Fora o Nordeste, evidentemente, quais regiões do Brasil onde se valoriza mais a cantoria?
-- Um belo mercado é São Paulo.
Porque São Paulo é a maior cidade nordestina do mundo.
Troca-se apenas a região, mas o público é o mesmo.
-- Em que fase da idade um repentista deve começar a desenvolver o seu talento?
E quanto tempo leva para ficar famoso?
-- A maioria absoluta começa aos 18 anos.
É claro que temos exceções.
Um dos maiores repentistas que tivemos, o paraibano Severino Lourenço da Silva Pinto, mais conhecido por Pinto do Monteiro, começou com 26 anos.
Há também exceções:
os que começam com 10, 12 anos, no caso, Sebastião da Silva, Severino Ferreira;
mas a idade própria é 17, 18 anos, que já passou a voz da adolescência, a voz já chegou no seu lugar determinado, na afinação certa.
Quanto à fama, é em torno de 10 anos.
É algo demorado, porque vem a experiência, a pesquisa.
Isto também depende muito de parceria.
Você fica famoso através da interação de outro parceiro famoso.
Ninguém cresce sozinho -- a verdade é esta.
O que sou hoje, devo muito aos bons cantadores, e bons parceiros.
RUBENIO MARCELO -- Obrigado, amigo Geraldo Amâncio.
Número de frases: 292
E sucesso!
A praça dos Girassóis, um dos pontos de maior visitação da capital do Tocantins, Palmas, que já serviu de palco para grandes shows populares e popularescos, cedeu seu espaço ao melhor da música erudita, na noite do último sábado.
Em o local, foi estacionado o caminhão-teatro do pianista Arthur Moreira Lima, que vem percorrendo o Brasil, com o intuito de apresentar a música clássica ao grande público.
E mais de 2,5 mil pessoas foram à praça, para apreciar o concerto do pianista, considerado o mais popular e versátil dos intérpretes clássicos brasileiros.
Para começar, Moreira Lima, em seu piano-de-cauda com verniz já desgastado por a viagem a 177 cidades brasileiras, tocou clássicos de Bach, Beethoven e Chopin, priorizando os temas já assimilados por o grande público, como «Serenata ao Luar» (Beethoven) e «Jesus, alegria dos homens» (Bach).
A o apresentar Frédéric Chopin como o compositor que levou nacionalidade à música clássica, por introduzir elementos da cultura polonesa à sua obra, Arthur Moreira Lima abria espaço no repertório de seu concerto para o brasileiro Villa Lobos.
Seguidor de Chopin, Villa Lobos inseriu ritmos folclóricos na música erudita.
De ele, foi executada a composição mais popular:
«Trenzinho caipira».
Daí em diante, a apresentação de Moreira Lima se abrasileirou, em ritmo de choro e baião, nas composições de Radamés Gnatalli, Ernesto Nazareth e Luiz Gonzaga.
A sisudez dos primeiros momentos estava quebrada.
Um cheirinho de pipoca estava no ar, atiçando ainda mais as diversas crianças que caminhavam entre os corredores de cadeiras.
Algumas autoridades nas primeiras filas até arriscavam um grito de «bravo» entre as músicas e já ficavam de pé, em reverência ao pianista.
Para concluir, foi apresentado o Hino Nacional Brasileiro, acompanhado de pé, por o público.
Em esta posição, ao final todos saudaram Arthur Moreira Lima com visível entusiasmo.
Era a música clássica, pela primeira vez, vestida de fraque na grande praça pública.
Se a massa popular não foi atraída ao concerto, estava lá parte de uma classe média que raríssimas vezes tem acesso a apresentações artísticas nacionais, em Palmas, a capital de menor população do Brasil.
Em o Tocantins, a apresentação de Moreira Lima já passou por as cidades de Gurupi e Porto Nacional.
Em os próximos dias, será a vez do público de Colinas, Araguaína e Araguatins conferir a apresentação.
Louvável a iniciativa do músico, que se ausenta por um tempo do requinte dos palcos internacionais para percorrer os rincões do Brasil.
Quem dera outros artistas fizessem o mesmo, saindo dos salões nobres, das casas de show aristocráticas, para mostrar ao grande público que ainda se produz arte de qualidade neste País e para levar um pouco mais de beleza às suas vidas.
A grande vitrine está fechada aos bons, mas esta é a prova de que podem-se abrir espaços.
Se o erudito consegue isto, imagina outras manifestações artísticas, mais populares por sua própria natureza.
O pianista
Virtuoso, Arthur Moreira Lima começou a estudar piano aos seis anos de idade.
A os nove, já interpretava peças inteiras de Mozart.
Um ícone da música clássica brasileira e considerado um grande intérprete do repertório romântico, ele venceu concursos internacionais em Varsóvia, Moscou e Inglaterra e se apresentou como solista em diversas orquestras do mundo.
O projeto
O projeto «Um piano na estrada» está em seu 5º ano e já percorreu 19 estados brasileiros, levando música clássica aos mais diferentes públicos.
O projeto foi idealizado por o próprio Arthur Moreira Lima, que criou o caminhão-teatro adaptado a um caminhão Scania.
A carroceria do caminhão se transforma em palco em apenas uma hora, e conta com 45 m² de área de cena.
Antes do próprio pianista, é priorizado que se apresentem músicos locais.
Número de frases: 32
Eu adoro assistir a filmes nacionais antigos.
Cada década tem seu encanto ...
e em cada uma conhecer o trabalho de atores comentados que nunca vimos atuar, observar os costumes.
Ah, conhecer os anos 30, 40, 50, imaginar minha mãe, meu pai, ouvindo aquelas músicas.
Em os filmes dos anos 60, 70 e 80 divirto-me com as gírias, as roupas, os penteados, os atores que eram tão jovens.
Em os filmes dos anos 90, 2000, ver o bom trabalho de atores que a tv subestima nas novelinhas.
A cada sessão no Canal Brasil um aprendizado, até nas pornochanchadas da década de 70: ver Carlo Mossy, Monique Lafond e Sandra Barsotti lindas, Lúcia Veríssimo jovenzinha, Jorge Dória sempre Jorge Dória.
Daisy Lúcidi, que agora ficou conhecida do público jovem como a síndica do Copamar na novela das oito (Páginas da Vida), fazia o papel da típica dona de casa da classe média, esposa do personagem de Jorge Dória, antes de concentrar-se na carreira de radialista e deputada.
Aqui ela era mãe do Marcos Paulo, o galã antes de virar diretor de novela.
E ainda tinha Darlene Glória, o saudoso Sady Cabral, Fernando Torres e até Abel Pêra, tio de Marília Pêra.
O filme era «Eu transo ...».
Já assisti a esse filme umas 3 vezes, mas na última de novo não resisti.
O enredo eu sabia de cor, mas a trilha sonora era tão legal ...
Sabe de quem?
Carlos Lyra.
Essa semana vi -- finalmente do começo ao fim-A Cor do Seu Destino, filme de 1986.
Todo mundo era jovenzinho:
Guilherme Fontes, Júlia Lemmertz, Andréia Beltrão, Chico Díaz, Marcos Palmeira, Anderson Müller.
E eu consegui algo que adoro fazer:
reconheci o Paulinho Moska fazendo o papel de um amigo do Marcos Palmeira.
Os créditos no final confirmaram meu palpite de boa fisionomista.
Por o que vi na internet depois, parece que foi seu único trabalho como ator.
Agora, vamos aproveitando sua boa música.
Mas esse não foi meu único feito.
Um dia eu cismei que um figurante jovem e barbudo era o Jayme Monjardim.
E era!
Em os créditos apareceu como Jayme Matarazzo.
Ai se o canal não passa os créditos ou se passam na frente da TV nessa hora!
Eu morro!
Se você também gosta de cinema, algumas fontes para antes e depois do filme são:
http://estranhoencontro.blogspot.com/
Número de frases: 31
http://www.adorocinemabrasileiro.com.br http://www.imdb.com A vida de Oswaldo Campos Junior (1966) daria uma excelente História em Quadrinhos, dessas de super-herói que de dia é uma pessoa comum como milhões, mas à noite bota uma capa, assume seus superpoderes e sai em busca de deixar sua marca, como pouquíssimos.
No caso de Oswaldo, muitos anos atrás, esse momento de «transformação» acontecia quando ele deixava o trabalho mortal de auxiliar de escritório e assumia a persona de Juneca, o pichador.
Em uma cidade gigante como São Paulo, são poucos tais «super-heróis» que criam uma marca visível -- e os que fazem sua marca sobreviver ao tempo são tão raros que mais parecem ficcionais.
Por isso mesmo Juneca, parece até não existir de verdade.
Em mais de duas décadas, criou uma linguagem visual própria onde não havia nada além de concreto;
mais do que isso, como precursor do grafite, reinventou a relação das pessoas com o ambiente urbano.
Juneca abriu os olhos de milhares de pessoas, -- em especial, jovens -- para uma idéia tão óbvia que permanecia desconhecida:
não é porque São Paulo sofre com a poluição que deve abdicar das cores.
E assim, «desde 1981», como ele nos conta, São Paulo passou a ser uma cidade mais colorida, mais viva.
Sua arte pode ser tomada como uma interpretação paulistana da pop art, conceito criado por Andy Warhol na metade do século passado.
Uma arte de caráter urbano, feita por e para jovens, lançando mão de combinações alegres de tons, referências a ícones da cultura (personagens de histórias em quadrinhos, rock stars, figuras do noticiário).
Traços simples, mas capazes de transmitir, em segundos, emoção, mensagem e até mesmo um certo aconchego:
a profusão de cores humaniza o cinza presente nas paredes e espaços públicos.
É claro que, como em qualquer trajetória urbana, Juneca, o Oswaldo de Campos Júnior quando não está com a «capa» de herói, conheceu uma série de obstáculos antes de realizar sua «ficção».
Apesar de toda a imponência e papel na vida cultural do país, mesmo uma cidade como São Paulo, no começo da década de 1980, não tinha espaço para a cultura urbana, e os conceitos de «arte» eram restritos a galerias, museus e outros espaços fechados.
Mas nosso personagem não se deu por vencido e abriu seu trabalho com as armas que tinha:
talento, ousadia e muito, muito spray.
Armas essas que provocavam amor e ódio, como o do ex-prefeito Jânio Quadros, que em sua última administração (1985 -- 1988), chegou a publicar na capa do «Diário Oficial do Município» a frase «JUNECA VAI PICHAR A CADEIA».
Tal frase, como tantas outras proferidas por políticos brasileiros, jamais chegou a se concretizar.
Ao contrário.
Juneca foi o primeiro pichador a ser identificado e reconhecido como tal.
Mais tarde, abandonou a pichação e se tornou grafiteiro, vivendo exclusivamente de sua arte e tirando de ela o necessário para seu sustento.
Virou o primeiro artista urbano a manter vínculos com a Prefeitura e o governo estadual, levando seus trabalhos a espaços mantidos por a administração pública.
Ou seja, de inimigo público se transformou em herói urbano:
o mesmo poder público que o abominava em seus tempos de pichador agora curvava-se frente a seu trabalho.
Nada mau para quem começou ainda adolescente pichando seu nome para aguçar a curiosidade das pessoas, e que logo se tornou o anônimo mais conhecido de São Paulo, o pichador misterioso.
«Quem é Juneca?»,
ou mais, " O que é Juneca?"
foi durante muito tempo nos anos 80 a maior lenda urbana de São Paulo.
Em seus tempos de pichador, embora todos já tivessem visto seu nome em algum ponto da cidade, poucos conheciam Juneca de fato.
Mesmo o artista surpreendia-se com a fama e a repercussão alcançadas:
havia quem achasse que tratava-se de um casal de namorados, tinha o que desconfiasse de marketing para o lançamento de um novo produto, havia quem jurasse ser um político em campanha.
A curiosidade chegou à TV e vários programas -- inclusive o da apresentadora Hebe Camargo -- sempre especulavam sobre a identidade do misterioso pichador.
Mas sua fama logo haveria de aparecer, e assim aconteceu:
depois de deixar sua marca por todos os bairros e regiões da capital paulistana e por cidades como São Tomé das Letras, Campos do Jordão, Porto Alegre e Florianópolis, Juneca abandonou as pichações e passou a receber uma infinidade de convites para mostrar sua arte.
Levou seu trabalho das ruas para milhares de lares do Brasil, como cenógrafo de novelas e programas de TV, foi o autor do projeto gráfico de festas, campanhas publicitárias, construções particulares e até de um disco da cantora Rita Lee.
Seu trabalho é conhecido e admirado por personalidades e anônimos, na capital paulista, no interior, em outros estados e mesmo em outros países:
já expôs seus trabalhos na França e na Espanha, bem como no sisudo MASP, em São Paulo.
De entre tantos serviços à arte, dois tiveram gostos especiais para Juneca:
num, ao lado de outros artistas de diversas partes do mundo, ele pintou uma grande lona exposta na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a ECO 92, no Rio de Janeiro.
O trabalho, elogiado por nomes como o futuro ministro da Cultura, Gilberto Gil, ajudou-lha compreender a dimensão do que fazia, além de ter-lhe proporcionado o convívio com outros nomes do grafite.
Posteriormente, Juneca participou de um festival de hip-hop e grafite em Marselha, França, onde fez uma retrospectiva de seus trabalhos no Brasil e ainda integrou, ao lado de outros grafiteiros, uma performance ao ar livre.
É bem verdade que, como qualquer artista, pode-se gostar ou não de seu trabalho, que, depois de 25 anos, transformou-se num portifólio sólido e eclético.
Tal trabalho mostra bem como foi que aquele garoto que pintava mobiletes no começo da década de 1980 virou um artista com tráfego livre por ruas e corredores universitários (Juneca é formado em artes plásticas), e ganhou o respeito e a admiração da população e de seus pares.
Pares, Juneca tem os seus.
Desde Pessoinha, companheiro na primeira pichação, até nomes como Alex Vallauri e Maurício Villaça, que ajudaram a consolidar o grafite como arte urbana, afastando-o da identificação com o vandalismo.
Mas talvez seja melhor dizer que existem dez mil «pares» de Juneca por São Paulo, hoje em dia.
O artista estima que exista, na cidade, esse exército de pichadores, além de cerca de mil grafiteiros, que hoje lhe prestam reverência e pedem autógrafos.
Uma espécie de culto, como o que o meio acadêmico lhe fez há duas décadas, identificando-o como artista transgressor e valorizando seu trabalho.
Um outro herói urbano, Peter Parker, o Homem-Aranha, certa vez ouviu de seu tio uma frase que mudaria sua vida:
«Um grande poder vem acompanhado de uma grande responsabilidade».
Com Juneca, não é diferente.
O artista rapidamente ganhou consciência da repercussão que seu trabalho poderia alcançar.
E em ele procurou embutir o que sentia e o que tinha a dizer.
Protestou por as «Diretas já», pichando na cúpula do Congresso Nacional, em Brasília, o slogan do movimento por a redemocratização nacional -- e isso em plena ditadura militar;
grafitou o repúdio ao massacre dos presidiários do Carandiru, em 1992, nos muros da casa de detenção;
participa com freqüência de trabalhos sociais em escolas e centros culturais da periferia paulistana, além de já ter realizado palestras em lugares tão díspares quanto a Febem e empresas multinacionais, além de escolas e faculdades.
E o exemplo não parou por aí:
em 2001, Juneca apresentou à Prefeitura paulistana um projeto com a intenção de levar cidadania e arte à população carente.
Participou, ainda, do projeto Belezura, que arregimentou jovens, funcionários da administração pública e voluntários e fez limpezas simbólicas em lugares como o estádio do Pacaembu.
Parente próximo do movimento hip-hop, o grafite de Juneca, mesmo sem o artista saber, caminhou junto com a explosão de outras vertentes da cultura de rua, como o rap e o break.
Apesar de não ter feito essa distinção de imediato, Juneca sempre enxergou sua arte como um elemento usado como fonte de informação para a periferia, um veículo através da qual ela podia dizer o que pensa e o que sente.
Entretanto, numa cidade que viu florescer a cultura urbana toda de uma vez, como São Paulo, torna-se difícil ignorar o paralelo cultural havido entre todas as manifestações que ganharam as ruas.
Nomes como Rappin'Hood e Mano Brown (Racionais MCs) não escondem sua admiração por Juneca, citado até mesmo por Afrika Bambaataa, papa do hip-hop mundial.
Heróis e personagens de ficção têm sentimentos, mas nosso artista, ou nosso herói, enfim, é gente de verdade, com um «superpoder» espontâneo, natural.
E de onde ele acha que veio essa vontade de pichar?
A espontaneidade de Juneca fala por ele:
«A primeira coisa que se aprende na escola é a escrever seu nome.
Todo mundo se sente à vontade para escrever o próprio nome e aprende a gostar disso.
Aí, quando você cresce e se vê um jovem de periferia, a luta para escrever seu nome em algum lugar se potencializa por a falta de oportunidade."
E o grafite foi a oportunidade que Juneca viu para escrever seu nome.
E seu nome, então, estará para sempre escrito.
Por um spray.
Por Alexandre Youssef e «Lucio Ribeiro Qual a importância da construção do pensamento?»,
«Por que vivemos em sociedade?», «As informações que aprendo na sala de aula, me servirão para quê?».
Estes são alguns dos questionamentos que persistem na cabeça dos estudantes, colocando-os em constantes dúvidas.
Mas, segundo especialistas, essa agonia poderá ser minimizada com a introdução das disciplinas de Filosofia e Sociologia no ensino médio.
Historicamente, ambas as têm sido defendidas por educadores como fundamentais na construção da cidadania dos indivíduos.
No entanto, durante a década de 80 -- sob a repressão da ditadura militar -- esta possibilidade foi suprimida dos currículos escolares brasileiros, com o objetivo de padronizar o pensamento da sociedade em favor dos ideias governistas.
Em a opinião de educadores, o adulto de hoje, que formou a juventude daquela época, é o principal prejudicado por tal ausência, tendo privado muitos da capacidade de questionamento sócio-cultural da sociedade e do pensamento de liberdade.
Em a intenção de resgatar esta possibilidade, as novas diretrizes do Conselho Nacional de Educação (CNE) definem a obrigatoriedade da adoção das disciplinas no ensino médio.
Em entrevista conjunta, as professoras Selma Assis Andrade, mestranda em Filosofia na Educação, e Karen Sasaki, graduada em Sociologia e doutoranda em Desenvolvimento Regional e Urbano, falam sobre a importância de cada disciplina poder ser discutidas entre os jovens nas escolas.
JURACY DOS Anjos -- Em a sua avaliação, como a Filosofia / Sociologia se estabelecem hoje enquanto ciência?
Selma Assis (Filosofia) -- Acredito que a filosofia se constitui enquanto uma reflexão sobre os procedimentos da própria ciência, embora os procedimentos de investigação utilizados por as ciências sejam de pressupostos filosóficos.
Ela está presente em toda a esfera do saber, através da reflexão crítica, rigorosa e profunda do pensamento.
Em a filosofia, aprendemos a analisar os elementos que compõem a existência do ser-em o mundo.
Portanto, ela é um pensar reflexivo, com o qual o ser humano aprende a saber, a partir da reflexão e do discernimento, que é o verdadeiro caminho para o conhecimento.
Karen Sasaki (Sociologia) -- Em os eventos realizados na área, sejam nacionais ou internacionais, identifica-se a emergência de questionamentos sobre a carência de modelos capazes de explicar os mecanismos que buscam organizar a vida dos seres humanos em sociedade.
Portanto, se verifica a existência de «sociologias» particulares que atendem a questões de pesquisa restritas a cada dimensão do conhecimento Por exemplo:
sociologia da educação, sociologia rural, sociologia das organizações, sociologia do trabalho, entre outras.
Isso é importante para aprofundarmos o pensamento em determinados assuntos.
No entanto, o que precisa ficar claro é que a Sociologia permite ao ser humano conscientizar-se de seu papel enquanto agente transformador da realidade.
Qual a importância da Filosofia / Sociologia para os estudantes do Ensino Médio?
Selma Assis (Filosofia) -- A educação sempre foi e por muito tempo será objeto de preocupação das pessoas e, principalmente, dos órgãos educacionais.
O ensino médio envolve a fase de intermediação do futuro profissional.
Mas, os estudantes sequer têm a consciência de qual opção seria a certa.
São feitos vestibulares para Medicina, Economia e Pedagogia, porém, os candidatos não têm -- na maioria das vezes -- sequer a compreensão sobre aquele curso escolhido.
Ora, nossas buscas são mais eficazes quando sabemos o que procuramos, portanto, a educação deve, também, instrumentalizar o ser humano, buscando auxiliá-lo quanto à sua capacidade de agir e interagir no mundo e, ao mesmo tempo, compreender a ação exercida.
A disciplina filosofia trata também de temas como a cidadania, política, ideologia, ética, liberdade, responsabilidade, etc..
Desta forma, a educação sem a Filosofia é praticamente inconcebível.
Karen Sasaki (Sociologia) -- Há algumas gerações, a juventude estabeleceu um sério compromisso com a necessidade de ser livre o que, em alguma medida, se perdeu ao longo dos tempos.
Não apenas com a liberdade exterior, como também a liberdade de ousar, de pensar, de refletir.
Tendo consciência disso, nosso compromisso enquanto sociólogos e educadores é resgatar esse desejo nos jovens de voltarem a querer ser livres, para refletir profundamente sobre a vida, seu papel na sociedade e sobre suas relações enquanto indivíduos.
Enfim, devemos formá-los enquanto seres conscientes de que seus interesses particulares devem ceder espaço aos interesses sociais.
Pensar, refletir e construir são os pilares básicos de ambas as ciências.
Como desenvolver o pensamento, construir e (re) significar as relações sociais com as singularidades desta juventude contemporânea?
Selma Assis -- Com a dimensão filosófica, acredito que isso seja possível através de diálogos, investigando-se temáticas implicadas no exercício da cidadania;
através de atividades que promovam o uso da argumentação, da competência de colocar-se no lugar do outro;
da habilidade de solucionar problemas, capazes de articular sua própria visão de mundo enquanto sujeito coletivo.
Pois o que se observa hoje na nossa sociedade são as pessoas, na maioria das vezes, sobrepondo o «ter» em detrimento do «ser».
Há uma predominância da individualidade, esquecendo que a sua vida e a sua liberdade, passa necessariamente por o outro.
Portanto a questão da liberdade deve ser trabalhada de modo que o jovem possa entendê-la como sendo o equilíbrio entre o direito e o dever, pois já é sabido que direitos sem deveres é loucura e deveres sem direitos é servidão.
Karen Sasaki -- Falar em sociologia é falar dos reflexos das relações sociais, sejam através dos seus valores, necessidades, normas e / ou regras.
O que precisa ficar claro é que o educador precisa despertar no aluno que a sociologia não se resume numa coletânea de teorias, mas num esforço coletivo de reflexão que busca promover o bem-estar individual e social.
Para isso, ele pode trazer a realidade de cada aluno à discussão:
com suas preferências musicais, religiosas, situação social envolvendo-o como responsável por a vida social que tem, bem como esclarecendo as causas e conseqüências de suas relações.
Enfim, transformando-o num agente transformador da sociedade.
De que forma cada disciplina pode interferir diretamente no desenvolvimento acadêmico e social dos estudantes?
Selma Assis -- A Filosofia oferece ao ser humano o diálogo e a investigação, fazendo com que, por exemplo, professores e alunos possam conversar, ler juntos, apropriar-se das idéias em conjunto, construir a partir das idéias de outras pessoas e pensar independentemente, explorando, cada vez mais suas hipóteses.
Conseqüentemente, isso traz para suas vidas uma nova percepção do que é descobrir, inventar, decodificar e criticar.
Ensinar a pensar é tarefa de vital importância atribuída à Filosofia.
Karen Sadaki -- Eu sustento a idéia de que todo ser humano comprometido com a educação deve, em primeiro lugar, conscientizar-se de que a primeira manifestação da educação é por o exemplo.
Que sua conduta é denunciada no dia-a-dia.
Em esse sentido, se o educador tiver em mente, no mínimo, a noção exata de que os interesses pessoais devem render-se aos interesses gerais, o aluno passa a compreender, valorizar e exercitar noções de ética, democracia e solidariedade muito mais cedo.
Portanto, quando na juventude se tem a sabedoria da velhice, menos problemas se tem.
Quais contribuições / obstáculos os ideais desta juventude podem trazer para o ensino / aprendizagem destas disciplinas nas escolas?
Selma Assis -- Hoje, na nossa sociedade, o processo de aprender escapa dos muros da escola para realizar-se nas variadas possibilidades de acesso ao conhecimento.
A construção de conhecimentos, competências e habilidades na escola implicam em recorrer a situações que tenham significado para o aluno e que possam mobilizá-lo a aprender.
Este que tem que ser um processo ativo, em que ele seja o protagonista e não mero coadjuvante.
Em um mundo pragmático, voltado para as soluções imediatas, a filosofia corre o risco de encontrar alguns obstáculos, de perder o espaço reservado ao conceito e à reflexão.
É um desafio para nós, professores, atrair os jovens para exercitar um olhar sobre o mundo e sobre si mesmo, e o sistema educacional tem sido extremamente lento para responder às necessidades exigidas por esta nova forma de educar.
Os obstáculos também acontecem no âmbito da falta de escolarização da maioria dos estudantes brasileiros, da perda da capacidade de expressão, bem como do enfraquecimento de sua visão crítica do mundo.
Há também a falta de conteúdos interessantes, inteligentes e instigantes que os levem à reflexão.
Karen Sasaki -- Inicialmente, é válido esclarecer que juventude nada tem a ver com inocência ou ingenuidade.
Alguns pesquisadores afirmam que a juventude atual perdeu seus ideais e não é ativa «como antigamente».
Não é bem assim.
Os movimentos sociais sempre existiram e não vão deixar de existir, pois o indivíduo sempre mudou a sociedade, na medida que necessitou.
Em a educação, eu entendo, que o educador / sociólogo tem o compromisso de trazer o mundo «fora da escola» para dentro da sala de aula.
É analisar e, também, criar projetos de inclusão, onde o jovem sinta-se representado, pois o que ele precisa identificar é que ele tem voz e vez no discurso social, não precisando manifestar sua presença na sociedade através da violência, corrupção ou volúpia.
Muitos educadores ressaltam que vivemos num mundo fragmentado, onde cada vez mais as crianças e adolescentes possuem dificuldades de compreensão da realidade.
Como os estudos sociológicos e filosóficos podem interferir nesta realidade?
Selma Assis -- Os estudos filosóficos podem contribuir de maneira significativa na vida do individuo, já que demanda a formação integral do ser humano.
É a filosofia que reúne o pensamento fragmentado por as ciências e as outras formas do conhecer.
Busca resgatar a integração que se localiza no sentido humano do sentir, do pensar e do agir.
A filosofia dá ao ser humano a oportunidade de desenvolver as competências necessárias para o seu pensar autônomo, indagando sobre as coisas.
É uma disciplina de caráter interdisciplinar, pois é capaz de estabelecer um elo entre todos os saberes.
Karen Sadaki -- O que importa afirmar é que há uma coletiva perda de sentido de vida, e isso se expressa desde os jovens até os adultos.
Por isso, o desafio do educador é apresentá-los a uma sociologia que forneça novas expectativas, e que alimenta o jovem da sua importância enquanto agente social, que é seu verdadeiro papel.
Não podemos responsabilizar a implantação da disciplina como a «solucionadora» de todos os problemas da sociedade, mas como uma tentativa lúcida de refletir sobre ela.
A Sociologia, bem como A Filosofia são algumas das ciências que englobam a construção do saber e das relações sociais entre os indivíduos, como já foi posto.
Em este sentido, como as disciplinas poderão interferir na relação atualmente fragmentada, como sinalizam especialistas?
Selma Assis -- A filosofia tem a capacidade de ocupar espaços cada vez mais importantes dentro e fora da escola.
Ela impede a fragmentação e a estagnação, resultantes do não questionamento.
Ela não está alheia às questões sociais.
Sua função não se restringe apenas ao exercício intelectual, pois tem a competência de aproximar, cada vez mais, os alunos, professores e a comunidade da compreensão de como é complexa a sociedade.
Como se alcança isso?
Tratando de questões como cidadania, ética, diversidade cultural, de entre outros assuntos que estão presente no ambiente social.
Karen Sasaki -- Em a escola, a sociologia deve atuar de forma interdisciplinar.
Já no âmbito social, ela deve trazer a realidade brasileira e mundial à análise crítica, questionando, em nível macro, por exemplo, o porquê de guerras religiosas, políticas e econômicas e indagando os motivos de compactuarmos com a banalização da injustiça social.
Além disso é papel desta ciência fomentar a crítica quanto à tendência de alguns à falta de ética, bom senso e boa intenção nas ações do dia-a-dia.
Em nível micro, ela deve atuar como a arte ou a música característica do bairro, por exemplo, pode servir de instrumento para que ele possa ter voz na sociedade.
Afinal, o exercício da sociologia é um exercício do pensar de forma inteligente, ou seja, de um pensar que se integre ao modo de agir do ser humano.
Que dificuldades podem surgir no trabalho acadêmico de professores em sala de aula?
Selma Assis -- O aluno chega à escola marcado por a diversidade, por visões de mundo, de valores, sentimentos, desejos e projetos, evidentemente, desiguais.
Há um acúmulo de experiências vivenciadas em múltiplos espaços de nossas mentes.
A mente humana tende a rejeitar qualquer fato que contrarie seu conhecimento já existente.
A mesma se agarra a opiniões prontas e definidas, contrariando assim a função da filosofia.
Outro fato importante é a dificuldade que os estudantes têm para refletir e, conseqüentemente, acabam vendo a filosofia como algo muito difícil e sem utilidade na vida prática.
Portanto, é preciso mostrar aos jovens que a filosofia é algo que tem sentido, que é algo gostoso de se praticar e estudar.
Karen Sasaki -- A primeira dificuldade é o que fazem com a sociologia, ensinando-a como uma disciplina de teorias que o aluno precisa decorar quem foi Marx, Durkheim ou Weber, por exemplo.
É necessário desmistificar para o aluno a idéia de que sociologia é só teoria.
Ela é uma disciplina que representa o esforço por a tomada de consciência, por cada indivíduo, de aspectos importantes da ação humana e da realidade que se manifesta.
Vivemos hoje na era da comunicação, cujas informações são colocadas de forma instantânea, dificultando a compreensão e reflexão sobre as mesmas.
Que interferência a Filosofia e a Sociologia podem ter no desenvolvimento da capacidade crítica destes jovens?
Selma Assis -- A era da comunicação solicita dos professores um olhar mais abrangente, envolvendo novas formas de ensinar e de aprender.
Elas devem estar combinadas com o paradigma da sociedade do conhecimento, o qual se caracteriza por os princípios da diversidade, integração e da complexidade.
A disciplina filosofia pode e deve servir de bússola para guiar o jovem de maneira critica-reflexiva e numa postura ética, superando a visão utilitarista que nos marca cotidianamente.
Isso exige do educador a (re) criação de estratégias de aprendizagem que sejam significativas para o educando.
Entretanto, não se pode perder de vista a questão ética que precisa permear todo o processo e ambiente educacional.
Assim, cabe ao professor trabalhar com as mais diferenciadas formas de ensino, relacionando com o que o aluno tem vivenciado.
Karen Sasaki -- A principal contribuição é no despertar da consciência, não só quanto à postura cidadã, como no auto-conhecimento.
Portanto, nos diferentes campos do comportamento humano, o conhecimento sociológico pode trazer maior comprometimento e responsabilidade para com a sociedade na qual se vive.
Existe um argumento de que a implantação das disciplinas pode garantir uma requalificação do ensino médio, que perdeu muito na área de humanas, segundo especialistas.
Qual a sua avaliação quanto a esta realidade nas escolas públicas?
Selma Assis -- De fato fica difícil trabalhar a área de humanas quando a sociologia e a filosofia sofrem retaliações.
Inclusive sendo deslocadas do currículo, passando a merecer uma descaracterização do seu real valor para a formação do estudante do ensino médio.
Nota-se que, em algumas regiões do país, as direções das escolas contratam professores sem formação filosófica para atuarem no ensino desta disciplina.
Karen Sasaki -- Já sabemos que o mundo é causal, ou seja, é regulado por causas e efeitos.
Por isso, se conseguirmos exercitar o pensar inteligente, conseguiremos integração na sociedade, e por conseqüência, na educação, seja ela familiar, pública ou privada.
Conseguindo integração, conseguimos ética, cidadania e, sobretudo, consciência.
Mas isso precisa ser um esforço coletivo de transformação de uma educação que, há mais de 500 anos, não vem sido privilegiado em detrimento de interesses particulares.
Um dos argumentos utilizados por o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para vetar a proposta de implantação das disciplinas no ensino médio, em 1996, foi a falta de profissionais para o exercício da profissão.
Em sua avaliação, este argumento se justifica hoje em dia?
Selma Assis -- Acredito que não, uma vez que muitos educadores com formação filosófica estão sendo desviados das salas de aula por não terem tido a oportunidade de ministrar a disciplina filosofia, ou até mesmo estão exercendo outras atividades de trabalho por falta de oportunidade de atuarem enquanto educadores.
Karen Sasaki -- Se tomarmos a Bahia como base de análise, identifica-se que existe apenas um curso de graduação em Ciências Sociais, oferecido por a Universidade Federal da Bahia (Ufba), com 100 vagas semestrais e com a concorrência caindo de 7,59 (2004) para 6,4 (2006), no campus em Salvador.
Isso não significa que todos esses alunos concluem o curso.
Segundo dados da Secretaria Estadual de Educação da Bahia, nosso estado possuía, até 2004, 834 escolas de ensino médio estaduais e 13 federais.
Partindo desses dados, é possível questionar em que medida esses profissionais conseguiriam atender a todas as unidades espalhadas por o interior, pois isso demandaria formação em licenciatura e interesse só por o ensino.
Acredito, no entanto, que serão necessários profissionais de outras áreas, como por exemplo, História e Geografia, para completar esse quadro profissional.
Por outro lado, essa medida governamental será boa para estimular a formação na Bahia, como é o nosso caso, de novos sociólogos e filósofos, a fim de equalizar esse déficit.
Número de frases: 200
Quem foi ao Gonzagão na noite do sábado, 28 de setembro, teve uma grande surpresa com a beleza da diversidade da produção cultural da nossa juventude.
Por o palco principal, tablado da pista de dança e palco do espaço Gonzaguinha desfilaram cantores, grupos musicais, grupos de dança, teatro de bonecos e quadrilhas juninas:
Grupo Musical Luzeiro do Orerê, Companhia de Dança Rick di Karllo, Teatro de Bonecos, Projeto Arte Cênica na Escola, Grupo de Dança Balangudango, Grupo Popular de Dança Asa Branca, Samba Inocente, Quadrilha Junina Asa Branca, Quadrilha Junina Luiz Gonzaga, Forró Só Mais Eu, Galera do Ghetto, Grupo Break Boys, Minho San Liver, Ilânio Oliveira e Forró Pé de Serra, além de artesãos que expuseram os seus produtos numa área reservada para esse fim.
Os artistas / educadores da Caravana Internacional Arcoiris por La Paz, atualmente hospedados no espaço, coordenaram um ritual de abertura saudando a diversidade cultural dos povos que habitam o planeta, acompanhado de um canto indígena que celebra os quatro elementos que nos proporcionam viver como ser vivo:
O ar, a terra, o fogo e o ar, além da bela projeção de algumas imagens coletadas por a Caravana em diversos lugares, em sintonia com movimentos de expressão corporal das bailarinas do grupo Balangudango e o fundo musical, composto por as músicas pacifistas do grupo musical Luzeiro do Orerê.
De entre os aspectos que mais chamaram a atenção, destacamos o fato de uma parcela expressiva dos artistas e grupos terem pouco tempo de organização e de ensaios e alguns, mesmos os mais antigos, terem tido poucas oportunidades para se apresentar em espaços com a qualidade da estrutura oferecida por o Gonzagão.
E a maior surpresa foi exatamente essa:
a excelente performance da maioria dos novatos.
E um dos maiores motivos de grande satisfação foi exatamente o entusiasmo e vibração do público, algo em torno de 600 pessoas, na hora da apresentação de diversos grupos, em especial o Samba Inocente, o qual mobilizou um grande número de admiradores oriundos do bairro Santa Maria, local onde mora a maioria dos seus integrantes.
Outra marca importante do evento foi a organização coletiva através do Consórcio Cultural do Conjunto Augusto Franco e Adjacências que reuniu representantes de diversos grupos que, em alguns casos além do envolvimento como artistas, participaram também como produtores.
Esse modelo de gestão garantiu o comprometimento de agentes culturais da comunidade, repercutindo na divisão e aprendizado das tarefas e rotinas de serviço, observado de forma positiva por um especialista em políticas públicas para inclusão, o que além do sucesso atual, conseqüentemente garantirá a possibilidade da realização de outras ações culturais, independente do humor dos gestores públicos de plantão.
Agindo dessa forma acreditamos que será evitado o que aconteceu em anos recentes, quando a comunidade ficou culturalmente debilitada por causa da falta de vontade política do poder público em promover e / ou incentivar a realização de eventos semelhantes à III Mostra Cultural, o qual já tinha sido realizado através da iniciativa de artistas e grupos culturais da comunidade em anos anteriores, utilizando as estruturas da Igreja Católica como apoio.
E foi exatamente por isso que o formato da noite cultural foi escolhido para darmos início ao processo de visibilidade das ações de parceria público-comunidade, que é uma das diretrizes programáticas do planejamento das ações da Secretaria de Estado da Cultura, capitaneada por o Professor Luiz Alberto.
Em termos conclusivos vale a pena registrar as palavras da coordenação da Quadrilha Junina Asa Branca, que deu uma expressiva contribuição para o êxito da III Noite Cultural.
Em uma das reuniões preparatórias, afirmou:
«A data de realização da noite cultural é uma data para nos encontrar, comemorar sempre e deixar registrado em mossa memória como a noite da integração cultural do Conjunto Augusto Franco e Adjacências».
E foi isso mesmo, confirmando as palavras do poeta " Fernando Pessoa:
«Deus sonha, o homem quer, a obra nasce».
Número de frases: 18
há menos de um ano, não sabia o que era Creative Commons.
Também não sabia quem era o tal de Larry Lessig.
Quatro dias atrás:
meu conhecimento ainda não é dos maiores.
Sei um pouco mais, é verdade, fruto de algumas leituras aqui, ali e acolá.
Mas é só.
No máximo, posso ser visto como um conhecedor médio do movimento que é contrário à secular frase «todos os direitos reservados».
Para a turma do iCommons, o acesso à cultura deve ser democrático e, por isso, alguns dogmas sobre a propriedade intelectual precisam ser revistos.
E foi na sexta-feira, 23 de julho, 9h, em Copacabana, Rio de Janeiro, que centenas de pessoas do mundo todo, entre as quais artistas, ativistas, ministros e advogados, reuniram-se para debater a questão, rever o que já foi conquistado até agora e traçar novas diretrizes.
Um pouco antes, às 8:30h do mesmo dia, eu adentrava o hall do hotel e descia uma escada que me levava ao andar onde o evento iria ocorrer.
Pronto. Daí em diante, o Brasil em que a maioria fala português não existia mais.
Uma porção de vozes podia ser ouvida e poucas, bem poucas, dirigiam-se a mim com um " bom dia, você é da imprensa?"
a comunicação por lá era mesmo no «good morning, are you journalist?».
Bom, são 9h lá no Marriot e finalmente já é tempo de explicar o meu título aí acima.
Isso porque o Gil acaba de passar por mim e já vai fazer o discurso que vai clarear, e muito, minha visão sobre o movimento iCommons.
Gil se senta à mesa principal, participantes e jornalistas acomodam-se em seus lugares.
Ao lado do ministro da cultura estão:
Ronaldo Lemos (representante do Creative Commons no Brasil), Joi Ito (membro do conselho do Creative Commons), Larry Lessig (sim, eu já sei quem é, ok?--
o criador do Creative Commons) e Paulina Urrutia (ministra do Chile).
Depois das muito simpáticas boas-vindas de Heather Ford, diretora executiva do iCommons, a bola vai para Ronaldo, que, para quebrar o gelo, faz logo uma piadinha sobre futebol e Copa do Mundo.
Antecipa também algumas das famosas celebrações noturnas pós-evento e pede, por favor, para que o pessoal não reclame porque se tem uma coisa que brasileiro sabe organizar é festa. (
É verdade, Ronaldo tinha razão, como eu e o Larry pudemos comprovar no domingo.
Mas isso eu conto mais tarde).
Antes de passar o microfone, Ronaldo avisa:
«tudo isso, todo esse evento é sobre tropicalismo».
E o microfone vai.
Pulo aqui as palavras da ministra do Chile (mas voltarei a comentá-las rapidamente) e as de Larry (ele falou basicamente do crescimento em progressão mais que geométrica das obras licenciadas em Creative Commons).
Vou logo às impressões sobre o discurso do Gil, que é o que realmente me importa nesta colaboração que escrevo.
O texto que o ministro lê é um discurso antigo e é, também e principalmente, o primeiro documento do Microsoft Office licenciado em Creative Commons.
Explico: a empresa de Bill Gates criou um plugin que permite anexar o símbolo CC a qualquer criação dentro do seu pacote de ferramentas.
É importante dizer:
o Isummit serviu também como apresentação pública deste add-on por parte da Microsoft.
Mas voltemos a Gil, que já começa a ler o texto ao seu estilo único de inglês e de interpretação cantada das passagens com trechos de música.
A turma acostumada ri.
A turma gringa que não conhecia Gil também.
Ainda bem que Ronaldo, logo de início, tinha avisado que tudo ali seria sobre tropicalismo, do contrário, correria o risco de eu não entender direito o porquê do ministro começar a abertura do iSummit falando sobre um disco próprio cuja capa traz sua filha carregando um cesto em forma de antena parabólica.
Em esses 15 minutos de discurso, Gil conta bastante sobre a sua vida.
Discorre sobre o seu passado à beira-mar, sobre a sua vontade de conhecer o horizonte e de olhar para trás, para o interior, e anuncia, para a minha sorte, algumas passagens que, qual desenho animado, fizeram acender uma lâmpada acima da minha cabeça:
[ ...] quero encarar de frente o desafio que a indústria cultural global nos propõe, tanto que até hoje também trabalhei dentro dessa indústria, tentando usar seu poder para meus objetivos artísticos.
Não sei se consegui criar o meu espaço dentro de suas leis.
Mesmo assim continuo cultivando esse estranho e provocador gosto de juntar conceitos que pareciam estar destinados ficarem eternamente separados.
Como parabólica e camará.
Gosto de ver o mundo ecoando como uma cabaça de berimbau.
Gosto de juntar diferenças.
[ ...] Quando era bem jovem, nos anos 60, e estava me tornando conhecido no Brasil, fui vaiado por uma platéia de estudantes universitários por ter me apresentando acompanhado de um grupo de rock.
Esses estudantes achavam que as guitarras elétricas poderiam destruir a autêntica cultura brasileira.
Mas sempre pensei cultura como uma obra aberta, como um software de código aberto.
As trocas com o que é dos outros, a antropofagia cultural constante, fazem parte das vitalidades das culturas, e a possibilidades de trocas livres devem ser preservadas contra qualquer tentativa de imposição.
[ ...] Como artista e cidadão do mundo, vejo na cultura o espaço para o encontro de países, credos, etnias, sexualidades e valores, na cacofonia de suas diferenças, no antagonismo de suas incompatibilidades, na generosidade de um lugar comum, algo que nunca existiu, mas sempre foi sonhado por aqueles que deixam seu olhar se perder no horizonte.
* * * Gil acaba o discurso.
O microfone volta a Ronaldo, que se diz um pouco perdido após a leitura do ministro.
Eu também estou.
A conclusão a que cheguei nem passava na minha cabeça antes de começar o evento:
o Creative Commons é um movimento tropicalista.
Tudo à minha volta ali é tropicalista.
É ambíguo como o tropicalismo.
De o evento de cultura livre que só permite falar em inglês (senão é motivo de risinhos, feito o italiano que reclama ao amigo da coitada da ministra do Chile que fala em castelhano) à apresentação de um plugin da Microsoft -- a vilã do mundo virtual -- em pleno evento da turma que defende o software livre.
É.
O plugin da Microsoft.
Voltemos a ele, agora com uma nova leitura, pós-discurso do Gil.
Tem uma moça da Microsoft, a Martha Nalebuff, que, durante a divulgação dos workshops que vão acontecer na parte da tarde, fala um pouco deste tal plugin e dos objetivos da empresa em se tornar uma parceira Creative Commons.
Exatamente no momento em que ela começa a falar, a turma do Estúdio Livre, o único representante brasileiro dos workshops, começa a distribuir nariz de palhaço entre as pessoas da sala e entrega um especialmente para Martha.
Isso tudo documentado por um de eles, que tem em mãos uma câmera mini-DV.
Ouvindo os brados de «liberdade antes que tardia», Martha parece não entender direito do que se trata o nariz, chegando a colocá-lo, para logo depois pedir para tirar, pois» é muito dífícil falar deste jeito».
O que poderia ser apenas uma brincadeira «leve» soa realmente como protesto quando o símbolo universal do «não te quero aqui» aparece:
uma agressiva bolinha de papel é jogada na representante da Microsoft.
O caso é mais sutil do que parece, porque o Estúdio Livre tem, entre alguns de seus parceiros, o MinC de Gil, o mesmo Gil que cedeu o discurso de abertura para a Microsoft aplicar o seu novo plugin Creative Commons.
Entendeu o imbróglio?
De certo modo, de algum modo, aquela bolinha de papel se dirigiu ao Gil também, um dos que mais apóiam o pessoal do Estúdio Livre, não só no projeto do site, mas também na iniciativa dos Pontos de Cultura.
Mais ambigüidade que isso só a turma do Gil misturando guitarra com ritmo brasileiro no fim da década de 60.
Hora do almoço.
Várias opções para comer, mas eu não nego nunca o meu arrozinho com feijão e farofa, que também estava ali, no meio de uma variedade de queijos, batatas e carnes ao molho de vinho.
Uma beleza!
Eu, que nunca sei se lé combina com cré, como arroz, feijão, salmão e farofa.
Depois acabo sabendo que não era bem essa a combinação adequada.
Tudo bem, se não fosse por a minha mistura de chiclete com banana, a Grace, uma representante CC do Estados Unidos, não sentaria ao meu lado e, num português bastante compreensível, diria:
«ai, eu odeio isso, essa mandioca».
Eu rio, converso um pouco com ela, sobre as nossas diferenças e gostos, e continuo pensando que não preciso de muito mais esforço para comparar o iSummit ao tropicalismo:
a ambigüidade do evento está no meu prato de salmão com farofa;
está na constatação do cara no banheiro, que reclama da ostentação do mármore e da pia em conflito com a democracia que se discute naquele dia e naquele lugar;
está na comparação do sujeito cheio de fios e câmeras e laptops em volta de ele (que mais parece que vai levantar vôo) em relação a mim, que me orgulho lá em casa de conseguir programar o videocassete;
e está, também, na festa de encerramento do iSummit no domingo, dia 25, no Teatro Odisséia.
E é de ela que vou falar agora. (
Assim como o Gil no discurso, peço perdão se estou sendo repetitivo, mas acho que faz parte do raciocínio).
* * * Em a festa conheço o Caetano Veloso.
Que ironia tropicalista!
Quando avisado por o mediador da conversa que eu, Thiago, estou começando a descobrir melhor suas canções, ele solta:
«olha, se descobrir alguma coisa boa minha, me conta rapaz».
Bom, podia ter respondido:
«toda essa festa, todo esse evento, tudo isso aqui é baseado no movimento que você ajudou a criar».
Ainda bem que não disse, acho que seria demais.
Reecontrei também na festa o Henrik Moltke (esse cara loiro aí da foto e deste vídeo, ao lado do Gil).
Já tínhamos batido um papo no evento, na sexta-feira.
Ele é da Dinamarca e administra dois projetos em Creative Commons:
a Free Beer (essa que o Gil está tomando na foto) e o Guaraná Power.
Sim, é isso mesmo:
são bebidas com receita aberta.
E sim, é isso mesmo, é sobre o guaraná, aquela plantinha amazônica, que estou falando.
A cerveja começa a ser vendida mês que vem na Dinamarca, já o refrigerante é sucesso há algum tempo no país, podendo ser comprado a 1,50 nas principais casas de festa de lá.
Vendo assim, parece mesmo que Henrik entendeu já antes do discurso do Gil o tal do antropofagismo resgatado por os tropicalistas direto do modernismo de Mário de Andrade.
Em essas festas de bebida liberada, às vezes o melhor a fazer é ficar no seu canto, não demora muito e alguma coisa acontece.
É o que eu faço.
Em princípio, nada mais acontece, exceto o show do BNegão.
Aliás, um show muito bacana.
E não só sou eu que acho, o Larry Lessig também acha.
A julgar, ao menos, por a dança louca de ele com um chopp na mão.
Boa visão do cara que dizem ser um dos mais austeros do mundo.
Bom, entendendo que a ambigüidade está ali dançando na minha frente, eu, ao final do show, parto para casa acreditando que, dificilmente, veria cena melhor.
E acho mesmo que não veria, porque os passos de dança do Larry Lessig, meio perdidão num show de hip hop no Brasil, embalam o compasso de pessoas de diversas culturas, que moram no mundo todo, que falam diversas línguas, que assim, ao primeiro olhar, pouco parecem entre si, mas que compartilham um desejo comum:
o de, como diz Gil no final de seu discurso tropicalista, ser igual entre imensas diferenças.
Número de frases: 110
Rodas abertas à visitação para quem quiser conhecer a tradição e filosofia da capoeira angola
O núcleo brasiliense do grupo N ´ Zambi de Capoeira Angola tem rodas abertas à visitação do público nas sextas-feiras e domingos, alternadamente, o espaço é disponível para quem quiser conhecer e entender este estilo de capoeira pouco difundida no Distrito Federal, com filosofia e tradição diferentes da capoeira regional.
O grupo N ´ Zambi nasceu e ainda tem sua sede principal em Porto Alegre (RS), foi fundado por a maranhense Elma Silva Weba, o núcleo Brasiliense já tem 5 anos de plena atividade no Distrito Federal.
Uma característica da capoeira angola é a busca da preservação das tradições que remetem à época em que era jogada por escravos como forma de libertação e proteção.
A separação dos estilos entre angola e regional ocorreu na Bahia quando o Mestre Bimba (1899-1974) incorporou movimentos de outras lutas à capoeira e criou um método de ensino.
O mestre Pastinha (1889-1981), considerado o pai da capoeira angola, e não só um praticante, mas um pensador do esporte, criou a capoeira angola para preservar o jogo tradicional.
Elma Weba, fundadora do N ´ Zambi, tornou-se mestra angoleira sob tutoria do mestre Patinho, de São Luís (MA), da linhagem do mestre Canjiquinha.
Foi a primeira e única mulher Maranhense a se tornar mestra e uma das poucas brasileiras de posto tão elevado dentro da capoeira.
A trajetória da mestra Elma, para adquirir tanto renome no esporte, sustenta a política do grupo N ´ Zambi, de defender a igualdade social entre os gêneros feminino e masculino.
Para Luana Reis dos Santos, uma das responsáveis por a coordenação do Núcleo Brasiliense do grupo, " a mulher está conquistando seu espaço na capoeira angola, assim como na sociedade.
Não queremos pegar o espaço de ninguém, mas como mulher, eu não quero uma separação entre o masculino e o feminino».
Luana treina capoeira há 4 anos e meio.
Começou quando foi chamada por Guilherme Salviano (Sal), que também é responsável por o núcleo brasiliense do N ´ Zinga.
«Em a minha visão», diz Luane,» a capoeira angola é muito completa e não é combativa como a capoeira regional.
Buscamos o jogo, a teatralidade, a música, a brincadeira, a mandinga e a malandragem de fazer o outro angoleiro errar e vencê-lo em cima de seu próprio erro.
Jogando capoeira eu estou inserida na cultura popular e num grupo, trabalho meu corpo e minha espiritualidade».
O grupo N ´ Zambi desenvolve uma série de projetos sociais no Distrito Federal e no entorno.
O cine Zambi acontece uma vez por mês, é uma mostra de vídeos de cultura popular, capoeira entre outros assuntos;
após a exibição dos vídeos são realizados debates.
Outra atividade social é o grupo Fuxicaria, uma iniciativa do N ´ Zambi, criado em 2005, sob atual coordenação e assessoria da artista plástica Mariana Venturim, neste projeto um grupo de artesãs do P. Norte trabalham com o fuxico (trabalho feito com retalhos de tecido), crochê e costura.
De acordo com Mariana " é um trabalho que serve para a realização das mulheres, divulga a criatividade da arte brasileira e contribui para a renda dessas mulheres.
Os trabalhos são vendidos no Balaio Café e são aceitas encomendas».
«O bom da capoeira é que ela pode gerar uma série de outras coisas, é um meio de inserção de pessoas», diz Luane.
O espírito e a tradição da capoeira são mantidos graças ao legado e tradição preservados por o Mestre Pastinha, que diria, " capoeira é muito mais do que uma luta, capoeira é ritmo, é música, é malandragem, é poesia, é um jogo, é religião. ( ...)
A capoeira é tudo que a boca come».
Número de frases: 25
Pesqueira, cidade de clima serrano, localizada no agreste pernambucano, está em festa, comemorando a 8ª Festa da Renascença, encerrando o Festival Pernambuco Nação Cultural.
De 7 a 10 de agosto, os pesqueirenses desfrutarão de arte e cultura de boa qualidade.
Realização da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), Secretaria de Educação e Governo de Pernambuco.
Ontem estive numa das programações -- o Círculo de Leitura, sob o tema Jornalismo e Literatura, com o dramaturgo e escritor Ronaldo Correia de Brito, e Samarone Lima, jornalista e escritor.
Me esbaldei em tamanho elogio à leitura.
Ambos escritores falaram sobre a solidão da escrita, em comparação com as mídias barulhentas.
«O desejo de ficar só é a base da escrita», disse Samarone.
«Ler implica em estar só, é um ato de recolhimento», frisou Ronaldo Correia.
Apesar de todas as tecnologias vigentes, felizmente o livro ainda não morreu, e espero que isto nunca aconteça.
Ainda existem frequentadores de bibliotecas.
Ainda há pessoas que têm os seus livros de cabeceira.
Em a palestra que assiti ontem, acabei chegando à conclusão de que ler é hereditário.
«Se perguntarem porque eu gosto de ler, eu responderia:
eu gosto de ler porque o meu pai lia», disse Ronaldo Correia, onde, em sua casa, na infância, eram obrigatórias sessões de leitura.
Eu também gosto de ler porque o meu pai lia, afinal de contas, são ossos do ofício, porque ele também é jornalista.
Desde à minha tenra idade, me vi rodeada de jornais, livros e revistas.
Meu pai, Sr. Rômulo, assinava revista para me presentear, me dava livros.
Acho que também nasci leitora, e depois jornalista.
Leio até bula de remédio!
O meu livro dos livros é a Bíblia, que leio todos os dias como meu alimento espiritual, e nunca vi livo mais completo e atual.
O restante são livros de todas as espécies e qualidades, contos, jornalismo, história, cultura ...
e o que vier por a frente.
Também estou ensinando aos meus filhos a serem leitores.
Que bom seria que os pais continuassem com o velho hábito de ler histórias para os seus filhos, antes de dormir.
Com certeza, mais tarde, muitos entrariam no fantástico e alucinante mundo da leitura.
Termino com um triste exemplo citado por Ronaldo Correia.
Ele possui uma grande biblioteca em sua casa, com uma razoável quantidade de funcionários que fazem a manutenção da mesma.
Um dia ele perguntou para eles porque eles não pegavam um exemplar para ler, e todos eles responderam:
Número de frases: 28
«Deus me livre!». Deus nos livre, também, de tamanha ignorância!
É difícil conseguir sentar para conversar com o cineasta piauiense Douglas Machado.
Simplesmente porque o homem não pára.
E quando pára e senta, é na frente do computador para trabalhar mais.
Ele pensa, cria e produz de forma continuada, incansável.
Mal termina de realizar um projeto, por mais difícil que tenha sido, e já tem outro engatilhado e ainda uma nova idéia na cabeça.
E assim o cinema piauiense vai andando.
Ainda devagar, mas tem andado;
e qualquer pessoa que fale sobre isso, para ser justa, tem que citar o trabalho do Douglas, que tem servido de inspiração para mais gente encarar o lado de trás das câmeras com paixão, com seriedade e com entusiasmo.
Em os últimos meses, ele e a equipe da Trinca Filmes têm passado muito tempo na estrada, viajando por o interior do Piauí colhendo imagens e histórias para transformar em filmes.
O tema são as festas do sertão.
Não só aquelas conhecidas, como as grandes festas juninas ou os grandes eventos do bumba-meu-boi.
O dia de reisado também é dia de festa, que exige produção antecipada e muita dedicação de quem participa e de quem organiza.
O dia de «incelência» -- incelências são orações rezadas normalmente por mulheres para proteger a alma do morto durante a passagem daqui para o outro mundo -- também é considerado um evento, como o dia «do Divino».
Douglas revela a nova idéia.
«Estamos realizando uma nova série com o Instituto Dom Barreto.
Chama-se «Hoje é dia ...».
O primeiro filme é sobre a festa de reisado, o segundo, já em fase de pré-produ ção, é sobre os cânticos de incelência.
Esperamos fazer sobre outras festas brasileiras e tradições da nossa cultura, por isso pensamos neste título, já que por aqui sempre se diz «hoje é dia de boi»,» hoje é dia de Divino», «hoje é dia de reisado "».
Além deste projeto, a parceria com o IDB tem outros frutos.
A série sobre grandes escritores brasileiros vivos já está no terceiro documentário.
O quarto e o quinto já fervilham nas cabeças pensantes da Trinca.
Coincidentemente, os três primeiros autores documentados são nordestinos:
o primeiro foi o piauiense H. Dobal (H. Dobal -- Um homem particular), em seguida foi a vez de Ariano Suassuna (O sertãomundo de Ariano Suassuna) e agora foi finalizado o documentário sobre o pernambucano Marcos Vilaça (Vilaça).
Douglas Machado diz que a escolha destes nomes não teve como critério o fato dos três serem nordestinos.
«Definimos os autores a partir de um olhar contemporâneo sobre este país-continente, a idéia é buscar os representantes «não-oficiais» da literatura brasileira.
A literatura é uma proposta de vida no meu trabalho.
Para esta série de documentários nós nem estipulamos uma quantidade, porque a idéia é continuar fazendo enquanto nós e o IDB estivermos ativos».
O próximo a ser documentado é o gaúcho Luiz Antônio de Assis Brasil, autor de A margem imóvel do rio e Perversas famílias.
«Encontro em ele uma literatura de valor inestimável», diz o cineasta.
O quinto escritor escolhido é o piauiense Alberto da Costa e Silva, poeta e africanista.
Apesar de já ter sido exibido no último mês de novembro na 51ª Feira do Livro de Porto Alegre e em dezembro na Oficina da Palavra em Teresina, o lançamento oficial do documentário Vilaça ainda não aconteceu.
Está agendado para o próximo mês de abril na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro;
depois o filme viaja por todo o país.
«Quero exibi-lo novamente em Teresina, quero aproximar esse trabalho do público."
Os filmes de Douglas Machado estão disponíveis em algumas locadoras de Teresina, como a Televídeo, a Posto 6, a Galeria e a Anfitrio.
Segundo ele, não há estatísticas sobre as locações, mas os filmes são continuamente alugados.
A Trinca Filmes existe há cerca de oito anos.
Além de Douglas, a empresa conta com as produtoras Cássia Moura e Gardênia Cury.
Ele conta que a idéia de abrir a empresa surgiu com a vontade de produzir filmes profissionalmente.
«Não conseguiríamos entrar no mercado brasileiro como pessoa física».
A equipe procura subjugar com trabalho as dificuldades de fazer cinema no Piauí, que são muitas.
«Eu procuro não pensar nas dificuldades por estar morando em Teresina porque trabalho aqui com a mesma postura ética e devoção que tive em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Recife, em Estocolmo, Madrid ou San Salvador.
Aqui estamos geograficamente distantes e ainda carregamos a logomarca da região mais pobre do Brasil.
Por isso mesmo é que eu sempre digo que nós piauienses temos que ter um cuidado, uma responsabilidade maior no nosso trabalho porque sabemos que pode haver uma leitura equivocada do nosso Estado e do Nordeste», comenta, acrescentando que acredita que quem produz cultura deve ter consciência e esmero para poder ter boas respostas, primeiro da própria aldeia, depois do mundo.
«Dificuldades existem em todos os cantos do mundo, tenho um amigo que diz que ' o problema do sertão não é a escassez de água e sim a fartura de sol sem proveito '.
Número de frases: 46
Acho isso muito bonito e costumo usar essa reflexão como paralelo em várias situações, inclusive nessa de dificuldades».
O acesso às produções cinematográficas brasileiras é incompatível com as condições materiais da população, nos convocando a refletir sobre a necessidade de uma política pública e social que permita através de ações efetivas socializa-las com o povo brasileiro.
Não necessitamos de incentivos do governo para produções de filmes com o intuito de participarmos do Oscar, necessitamos de incentivos para produções que sejam socializadas com o povo brasileiro.
Segundo a Constituição Federal, destacam-se no patrimônio cultural brasileiro " as formas de expressão, os modos de criar, fazer e viver;
as criações científicas, artísticas e tecnológicas, as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais, os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico».
Ora, sendo as criações artísticas, patrimônio cultural brasileiro, é inconcebível que o povo não tenha acesso, ou melhor, só tenha acesso que tem condições financeiras para tal.
A Constituição Federal em seu art. 5º diz:
«aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros por o tempo que a lei fixar».
As normas constitucionais reconhecem o direito de propriedade intelectual em caráter vitalício, compreendendo direitos morais e patrimoniais.
Em a Lei 9.610 que trata dos direitos autorais, consta que as obras audiovisuais, sonorizadas ou não, inclusive as cinematográficas são obras intelectuais protegidas.
Consta na referida Lei que, depende de autorização prévia e expressa do autor a utilização da obra, a exibição audiovisual, cinematográfica ou por processo assemelhado.
E esse é o ponto principal que quero abordar quando falo de políticas públicas para exibição do audiovisual.
É inadmissível que filmes produzidos com verbas públicas apresentem:
«O titular de direito autoral da obra audiovisual incluindo sua trilha sonora, somente autoriza seu uso privado e doméstico.
Estão proibidas quaisquer outras formas de utilização, tais como:
copiar, editar, adicionar, reduzir, exibir ou difundir publicamente, transmitir por radiofusão, cabo ou qualquer outro meio, bem como trocar, emprestar ou praticar qualquer ato de comercialização.
A violação de qualquer destes direitos exclusivos do titular, acarretará em sanções previstas nos artigos 184 e 186 do Código Penal».
Não se trata de proibir ou discutir o direito do autor, se trata de ações do governo e de empresas estatais que, quando concedem apoio financeiro a tais obras, exijam condições, como:
a obra financiada com dinheiro público pode ser exibida e difundida publicamente, desde que sem fins lucrativos após o período em que a obra sair de cartaz dos cinemas.
O titular do direito autoral da obra se compromete a comercializar edições populares da obra.
Exemplo: comercialização de DVDs com encartes simples, como aqueles distribuídos por provedoras de internet.
Assim a própria pirataria seria combatida, o detentor dos direitos receberia por a sua obra, e a obra ficaria mais acessível à população.
A cultura influência na constituição de identidades, interfere na formação do indivíduo e contribui como espaço produtor de sociabilidade, mas para isso, é necessário políticas publicas que incentivem não só a produção, mas principalmente a socialização da cultura.
Número de frases: 23
Lô Borges lança em breve por a Som Livre, o primeiro DVD de sua carreira.
De as músicas que vão estar presentes no projeto, Intimidade, metade são do repertório dos seus mais recentes trabalhos -- Feira Moderna, Um dia e Meio e BHanda -- e a outra é recheada de clássicos do início de sua carreira.
Vários artistas foram convidados por a Som Livre a participarem do projeto com a proposta de fazer um trabalho que resuma uma carreira.
Se for olhar no caso específico de Lô Borges, é muita história para contar e diversos clássicos para saborear.
Lô escreveu sozinho ou em parceria canções fundamentais (sendo o mais freqüente o irmão Márcio Borges) para quem quiser saber do que é feita a música brasileira.
E estamos falando aqui de Para Lennon e McCartney, O Trem Azul, Paisagem na Janela, Tudo Que Você Podia Ser e mais dezenas de outras fantásticas.
São poesias que dizem o seguinte:
«porque se chamavam homens / também se chamavam sonhos / e sonhos não envelhecem / em meio de tantos gases lacrimogêneos / ficam calmos, calmos ...»,
de Clube da Esquina n°2.
O DVD foi gravado em quatro dias e para Lô foi uma «pauleira» só.
«Foi um processo industrial e nunca tinha feito nada parecido.
Normalmente trabalho bastante e faço muitos shows.
Mas teve um dia nas gravações que precisei cantar 40 músicas.
Eu me senti num trio elétrico fazendo shows seguidos.
E realmente foi assim, porque num dia a gente fez um show a tarde sem público e outro a noite com público.
E tive de gravar making of também.
Então essa foi a dinâmica e pra mim foi uma maratona».
Lô ainda disse que outra problemática da gravação é que os músicos da banda que o acompanha desde a turnê do disco Um Dia e Meio trabalham em outras áreas e os ensaios ficam comprometidos.
Essa foi uma das razões da única participação especial no DVD ser de " Samuel Rosa.
«O baterista e o tecladista são publicitários, o guitarrista é professor universitário de Direito Constitucional, o contrabaixista tem uma clínica veterinária.
Para você ver que a banda não tem muito tempo para ensaios.
A Som Livre inclusive sugeriu outras participações e eu falei que o Samuel Rosa para mim era o suficiente».
Lô Borges classificou a presença de Samuel Rosa como «muito importante» e não esconde a admiração que tem por o amigo.
E o integrante do Skank tem mesmo moral e história que justifique ser a única participação especial no DVD.
Samuel é fã declarado de Lô e de toda geração que integrou o movimento informal Clube da Esquina em Belo Horizonte nos anos 70.
Também é um grande conhecedor da música da época, e já escreveu, inclusive, artigo sobre o assunto em revistas.
Samuel faz show em parceria com Lô Borges desde 1999, e a parceria dos dois rendeu o hit Dois Rios (também com Nando Reis), sucesso com o Skank, além da canção " A Última Guerra.
«O Samuel é um cara que tem admiração por mim desde garoto e eu aprendi a gostar das músicas de ele.
Em o DVD ele canta Um Girassol da Cor do Seu Cabelo, mas eu acho emblemático mesmo é vê-lo cantando Clube da Esquina n°2.
É uma música muito importante ao longo da minha carreira e que se transformou numa espécie de hino.
E o Samuel Rosa se adequou de uma forma tão intensa a essa música, que ela passa a ser uma síntese para o pessoal entender a importância da participação de ele.
Confira agora o restante da entrevista de Lô Borges cedida ao zine Elefante Bu.
Elefante Bu -- Com tantos anos de estrada, por que só agora você vai lançar um DVD?
Lô Borges -- Acho legal ter esse DVD, ainda mais saindo por a Som Livre, que é uma gravadora que tem uma distribuição bacana e forte.
E o pessoal ficava perguntando cadê o meu DVD e na verdade eu já tinha feito um especial da Directv que era mais que um DVD de tão bem produzido.
Em a verdade era até para ser um, mas ele está até disponível no Youtube para todo mundo.
E lá nesse site é legal porque eu posso pegar um momento da minha carreira tocando com uma banda paulistana em São Paulo quando morei lá nos anos 80 e que nem lembrava desse fato.
Lá tem tudo!
Se você quiser ver o Lô Borges ao vivo é só entrar lá.
É por isso que nunca tive muita preocupação em ter um DVD formal.
Elebu -- O que você acha dessa última geração mineira dos anos 90 e que teve repercussão nacional, como o Pato Fu, Jota Quest e o próprio Skank -- só para citar os três maiores?
Lô -- É, o pessoal de Minas de uma boa circulada na cena brasileira e conseguiu mesmo um bom destaque.
Eu, como artista mineiro que começou nos anos 70 com o Clube da Esquina com toda essa história bacana, fico muito feliz em ver o pessoal fazer hoje uma coisa de maneira nacional e com muita rapidez.
Realmente eles mostram a boa produção que Minas tem.
Elebu -- Como é a sua relação com todo esse pessoal?
Lô -- Totalmente excelente.
Teve uma vez que fui até São Paulo participar de um projeto numa casa de shows para cantar com o Wilson Sideral.
Ele me convidou e a gente ensaiou por telefone.
Depois fui lá cantar, para você ver como é a facilidade de relacionamento.
Com Samuel Rosa, a gente se encontrou em 99 e fizemos um show com 25 músicas.
E a banda que acompanhava a gente não era nem o Skank e nem a minha, era uma terceira coisa.
O único músico que pertencia a minha banda era o baterista Mário Carpela.
O Samuel Rosa era um fã de ele há muitos anos e o conhecia da noite, quando era considerado o melhor baterista de levada.
Inclusive quando ele faleceu, a gente deu uma parada em nossos shows.
Ele era o cara que fazia o ele entre o Lô e o Samuel.
Elebu -- Falando um pouco do Clube da Esquina, na época que o pessoal se reunia na sua casa.
Existe essa analogia que a casa dos Borges foi o apartamento da Nara Leão para a música mineira.
A coisa era mesmo por aí?
Lô -- Teve um momento que foi assim mesmo.
A casa dos Borges vivia cheia.
O meu irmão mais velho tocava numa banda e ia ensaiar por lá porque a minha casa era a única que tinha piano.
Não era toda que tinha um e nem era algo tão fácil.
Era novo na época, mas lembro muito bem dessas coisas, dos vários encontros musicais que tinha na minha casa.
Depois o Bituca (Milton Nascimento) foi chegando e também o Wagner Tiso, Fernando Brant, Naná Vasconcelos, Ronaldo Bastos, foi chegando um pessoal do Rio e de BH também.
Em esse momento, a minha casa foi o apartamento da Nara Leão.
Eu lembro que o Milton ficava num quarto fazendo uma música, e eu no piano fazendo outra.
Era uma oficina maluca de construção musical com todo mundo etilicamente bem temperado.
Você sabe que mineiro gosta bastante de bebida e naquela época todo mundo tinha idade que permitia essas coisas.
Hoje, nenhum de nós gostamos mais, mas naquela época a gente aproveitou bastante.
Elebu -- E como é essa história que a sua maior contribuição no Clube da Esquina foi ter apresentado a palheta para os músicos que acompanhavam o Milton Nascimento?
Lô -- Ah, essa história tem haver com o Samuel também.
Começou com um jornalista que fez essa pergunta e eu respondi isso daí.
O Samuel falou que eu era muito modesto.
Mas é porque, naquela época, da turma que tocava com o Milton eu realmente era o único cara que usava palheta no violão.
O Milton, o Toninho Horta, todos tocavam se palheta, assim como vários guitarristas ...
o Chico Braga também tocava sem.
E como eu era um cara que curtia a beatlemania, gostava de tocar com a palheta.
Em a verdade tocava misturado até porque isso faz parte da minha origem.
Comecei tocando bossa-nova, que é cheio de acordes dissonantes.
Tive uma banda com meus irmãos e o Beto Guedes quando tinha uns 12 anos chamada The Beavers.
Mas o único que tocava violão era o Beto porque estava mais acostumado com a pestana.
Depois dessa fase da bossa-nova, parti direto para a palheta.
Mas acho que o forte dessa história veio mesmo quando fiz Para Lennon e McCartney.
Essa foi a primeira música mais forte que fiz e que realmente levou a palheta para o clube da esquina.
Ela diz o seguinte:
«eu sou da América do Sul / eu sei vocês não vão saber / mas agora sou cowboy / sou do ouro, eu sou vocês / sou do mundo, sou Minas Gerais».
Essa é a segunda música mais lembrada por os mineiros segunda uma pesquisa da TV Globo.
Só perde para «Oh! Minas Gerais».
Você pode reparar como a gravação do Milton é forte.
É completamente diferente das coisas que ele tinha feito até então.
Deu um sotaque rock.
Nunca tinha colocado as coisas dessa maneira antes, mas acho que a contribuição da palheta foi justamente aí:
no sotaque rock.
E depois, tocar rock só serve se for com palheta.
Número de frases: 94
Esta matéria foi originalmente publicada no fanzine Elefante Bu.
João Bosco, aclamado como um dos maiores violonistas do Brasil, mostrou, em noite de encanto para a música em Brasília, que também é exímio contador de histórias.
O show realizado semana passada mostrou a excelência de um músico e compositor que, mesmo com problemas (e sérios) de qualidade de som, fez de seu bom humor e carisma tempero adicional ao evento, contando causos entre um chiado e outro, vindos das entranhas obscuras das caixas de som.
Fruto de seu último trabalho (e primeiro gravado em DVD), o espetáculo de apresentação única em Brasília começou reverberando mal no amplo espaço do teatro nacional.
Os engenheiros e técnicos de som eram os únicos ali que destoavam da apresentação.
Ora faziam sumir a voz de João Bosco.
Ora aumentavam o volume da guitarra a níveis tamanhos que os cães dos arredores responderam com uivos de agonia.
E em meio a tamanha falta de zelo com nossos sensíveis ouvidos, doía mais a mordida em nossos bolsos, devido aos salgados 40 mangos (meia entrada) investidos.
Os Astros no céu e no palco
Entretanto, é sabido que melhor remédio não há que rir da própria desgraça.
João Bosco, inicialmente constrangido com a falta aparente (ou evidente) de profissionalismo, logo observou o motivo daquilo tudo.
«Gente, é a vingança de Plutão», disse sob risadas gerais.
Aliás, o astro rebaixado foi alvo constante das zombarias do excepcional músico.
«Que ele deixasse de ser planeta tudo bem, agora, rebaixá-lo a planeta-anão é sacanagem», arrematou.
Mas os astros (se não Plutão, todos os outros) riram para a platéia que, embalada por as brincadeiras, pode ver a execução magistral de clássicos do próprio Bosco, como outros tantos da MPB.
E como se não bastasse a maestria do violonista, cada um dos integrantes (baixo, bateria, percussão, guitarra e três metais) tocou irrepreensivelmente.
Espetáculos aparte.
Destaque para o percussionista-dançarino que bailava ao som de «flores do mar, festa sol ...».
Sem contar que o baterista só não fazia chover no Teatro Nacional.
Em uma noite cheia de magia e encanto, cheguei a pensar que as baquetas eram divididas em pelo menos quatro mãos.
O guitarrista dedilhava ora com a doçura de quem toca a mulher amada, ora com a ferocidade que se dispensa à quem bole com ela.
O conjunto de sopro, aleluia, apresentou um verdadeiro vendaval, varrendo pra lá a má impressão do início do espetáculo.
Xô urucubaca!
De o Jazz ao Candomblé
Que João Bosco tem «um pé no terreiro» ninguém há de duvidar.
A freqüência com que evoca os orixás do Candomblé nas letras de suas canções é um bálsamo para a alma de quem muito simpatiza com a cosmogonia iorubá.
Claro que a referência ao batuque das noites de magia está presente nas composições de seus ritmos e melodias.
Atabaques pra que te quero, o percussionista sentou a mão no couro!
Uma aproximação que enriquece, «num crescendo», (adoro esta expressão) na medida em que chega à MPB o virtuosismo e experimentação do Jazz (" djés» não, caro leitor, é «jás» mesmo, assim o prefere João), muito presente nas «vassouradas» do baterista, e nos arranjos dos metais.
A o final do show, estando já distantes as agruras do som, pensei no quanto devemos à musicalidade da África (ou das muitas Áfricas).
Seja do Jazz de Nova Orleans, seja dos batuques de Salvador, no final das contas, é tudo " música de preto ":
enérgica, maravilhosa e cheia de mistérios.
Número de frases: 32
«Gosto tanto de ela assim».
Tudo começa com uma idéia:
permitir que qualquer morador de uma cidade com menos de 20 mil habitantes produza um filme.
As páginas viram, o enredo continua.
Logo, 40 pessoas já foram selecionadas.
Estão fazendo cinema.
menos de um ano depois, essas mesmas 40 pessoas recebem de volta, agora em suas pequenas cidades, um caminhão / tela que exibe o fruto dos seus trabalhos.
Os locais nos dias de exibição têm contorno de festa, é o dia de ver projetado aquele universo de todo o sempre -- quem olha já sabe que os filmes foram produzidos na região.
E quem tiver curiosidade de perguntar logo vai descobrir que aqueles caminhões estão numa caravana de mais 3 meses, percorrendo 25 mil quilômetros de país.
O projeto é o Revelando os Brasis, que o Overmundo acompanhou por 21 cidades, sempre relatando sob forma e estilo dos mais variados como foi a exibição local.
Quem vem acompanhando a série de textos (por aqui) pôde conhecer dezenas de histórias e personagens de algumas cidades que muitos de nós não sabiam da existência.
Aliás, o que não faltaram foram histórias:
Helena Aragão, Vitor Lopes, Thiago Camelo, Rinaldo Teixeira, Delfin, Carolina Morena Vilar, Thiago Paulino, Andre Stangl, Roberta Lira, Carol Andreis, Marcelo Cabral, Rodrigo Teixeira, Marcos Paulo, Henrique Araújo e Natacha Maranhão foram os colaboradores do Overmudo que narraram com os seus pontos de vista o dia das exibições.
É muita gente falando de muita coisa, é muito filme sendo rodado, é muita idéia que já rodou no ar.
Aqui, porém, parece justo chamar mais gente para conversar, alguém que viajou por o país e pôde enxergar de forma coletiva aquilo que foi narrado por um viés individual.
O que essa pessoa pode agora revelar sobre o projeto?
Afinal, como diz o começo do texto, tudo começa com uma idéia.
Eis a dona da idéia.
* * * Beatriz Lindenberg, 39 anos, é uma das criadoras do Instituto Marlin Azul, responsável por o projeto junto ao Ministério da Cultura e à Petrobras.
Ela esteve com a caravana do Revelando os Brasis em cidades do interior do Espírito Santo, Alagoas, Sergipe, Ceará e Piauí.
Ou seja, foi para São Roque do Canaã, Piaçabuçu, Carnaubeira da Penha e por aí vai.
Nomes poucos familiares para muitos, inclusive para ela, que confessa nunca ter ouvido falar -- antes da empreitada -- da grande maioria dos lugares que visitou.
Como era de se esperar, Beatriz carrega com si a certeza de que um novo país se fez diante dos seus olhos, que, depois de toda essa viagem, o Brasil não é mais o Brasil de antes.
Mas também é de fazer pensar o fato de Beatriz não ter feito uma viagem qualquer.
Mesmo levando um tempo de turista japonês, aquele que faz viagem de uma cidade por dia e é criticado por ver muito e não conhecer de fato nada, ela não precisa ter vergonha e pode se orgulhar das histórias que têm para contar.
Porque diferente do estereótipo do nipônico que chega com uma máquina fotográfica no peito e vê menos do que enxerga, Beatriz pôs os pés nas cidades que visitou por apenas 24 horas carregando um cinema num caminhão -- e isso faz toda a diferença na hora de enxergar aquilo que se vê.
E como reflexo de quem enxergou muito, como um cineasta amador que esperou a vida toda para contar sua fábula, ou um jornalista animado para escrever sobre uma pequena cidade em que nunca imaginou estar, ela, depois do «oi», engrena a falar, entremeada no máximo por incentivos de um» e aí?"
ou um " mas por quê?":
A gente mantém comunicação com esse grupo, que agora é de 80 pessoas.
A gente tem muita informação, muito retorno de eles.
Tínhamos já muita informação do grupo, o que as pessoas já tinham feito, o que eles vão fazer, quem está organizando agora cineclube, quem usou os filmes em sala de aula.
Agora a gente está coletando isso de modo mais formal.
O Brilhantino tinha a imagem de velho do saco na cidade.
Era uma coisa meio mendigo, meio ermitão.
A partir da exposição no filme outras pessoas passaram a se interessar por o Brilhantino, falar com outro interesse.
Porque Muqui já teve cinema, agora não tem mais.
E a cidade no dia da exibição ficou linda.
O motivo daquilo tudo foi o Brilhantino.
Estamos terminando um DVD com os filmes do Ano I.
Em o início do projeto, muita gente criticava.
Alguns diziam «Isso aí vai virar videocassetada, uma pessoa não vai aprender a filmar em menos de duas semanas»,» ' O projeto não vai ter continuidade», «É uma política barata».
E com menos de 20 minutos de conversa um tanto de assuntos já havia se aberto:
a) como anda o contato com o grupo de 80 pessoas (referentes às 40 do Revelando os Brasis do Ano I e às outras 40 do Ano II).
b) o que cada pessoa desse grupo está fazendo atualmente.
c) quais são as histórias de bastidores das exibições e dos personagens retratados nos filmes.
d) como será o futuro do projeto.
e) como foi o início do projeto.
f) como lidar com as críticas realizadas à iniciativa.
* * * O grupo de 80 pessoas vai bem, obrigado.
Já há por parte do Instituto Marlin Azul a tentativa de dar liga a essas pessoas, organizar o que um está fazendo com o que o outro está fazendo, enfim, juntar lé com cré.
Para ajudar na tarefa, está sendo organizada uma grande lista com as atividades que os cineastas do Ano I vêm exercendo atualmente (questão " a ").
O mote, claro, é descobrir se um dos objetivos do projeto deu luz e se de fato os «revelandos» foram apresentados a contento a tecnologias audiovisuais e conseguiram seguir adiante, usando as próprias pernas (questão " b ").
Uma olhada nesta lista (ainda parcial) impressiona.
Mesmo faltando na pesquisa alguns nomes entre os 40 do Ano I, é possível contar ao menos 19 participantes tocando projetos relacionados ao audiovisual, sendo alguns já bem adiantados.
Um dos casos é de Ériton Berçaco, diretor de Brilhantino (Espírito Santo / Muqui), que recebeu propostas para roteirizar e dirigir dois documentários.
Ivy Goulart, diretor de Edilamar (Urussanga / Santa Catarina), também segue com empreitadas cinematográficas, tendo realizado inclusive um documentário de 20 minutos chamado Em a rota do Comboio Cultural.
Há também aqueles que não se prenderam apenas à opção de dirigir ou escrever filmes, e foram adiante na missão audiovisual:
Lidiane Lima, autora de Corguinho e seus Ets (Corguinho / Mato Grosso do Sul), resolveu abrir uma produtora em sua cidade, a Tomada Filmes, onde trabalha com vídeos comerciais e também com fotos.
E como eles há a Luciana de Resende Barros, o Gilmar Wendel, o Manoel Dourado Marques, o Luiz Antonio Cavalheiro;
todos trabalhando no meio e aproveitando o conhecimento adquirido com o Revelando os Brasis.
Começo
Dando uma rebobinada no tempo, qual cinema num flashback, estamos no Rio de Janeiro, é 2004.
Todos os escolhidos do Ano I desembarcam de avião (transporte em que a grande maioria de eles nunca tinha entrado) para fazer um curso de oito dias e aprender o básico da realização de um filme.
Dois andares num hotel no Centro da Cidade são reservados para hospedagem e para servir também como local de aula.
Os cursos seguem manhã e tarde adentro.
à noite é hora de passeio cultural, hora de acompanhar uma exibição dupla raríssima no Cinema Odeon de Entreatos e Peões -- com direito a palestra dos respectivos diretores João Moreira Salles e Eduardo Coutinho -- (a lembrar: nenhuma das cidades premiadas por o projeto tem cinema), de conhecer os museus, símbolos, ruas e praias cariocas.
Juntar essa turma foi o passo inicial de um projeto que previa, no começo, as aulas, a produção e a entrega dos filmes.
Ninguém ainda imaginava cruzar o país em duas caravanas, uma subindo, outra descendo, tendo como ponto de partida o Espírito Santo.
A idéia ocorreu depois que os filmes começaram a chegar prontos ou ainda em material bruto ao Instituto Marlin Azul:
aquilo que se via na tela tinha de ser exibido por direito adquirido aos habitantes daquelas pequenas cidades.
Afinal, todo aquele universo, toda mão-de-obra (do martelo à atuação) tinham sido cedidos para os filmes.
Reavaliando o processo, Beatriz confessa e, de certa forma, acaba de responder também a questão " e ":
-- O começo do projeto era o de formar pessoas de cidades pequenas, permitir que essas pessoas pudessem contar suas histórias e ter acesso à tecnologia audiovisual.
Além disso, tínhamos uma idéia de ' revelar talentos ', que logo foi deixada em segundo plano.
Só depois vi que não, que era algo maior, que tinha também a ver com afirmação, orgulho, autoconfiança.
Por tudo isso, por esses novos fatores que apareceram no decorrer das etapas, achamos que a exibição nas cidades serviu para fechar um ciclo.
Bastidores
Mas é difícil se furtar a perguntar logo de cara sobre a questão " c ":
com tantos quilômetros rodados de Brasil e tantas exibições assistidas, o que não devem faltar são histórias interesssantes para contar.
Não faltam.
E são várias.
Duas chamam atenção, principalmente por serem «causos» de naturezas distintas.
O primeiro reza por a graça e singeleza da cena em si, fácil e divertida de imaginar.
Aconteceu em Muqui, durante a captação de imagem do filme de Ériton Berçaco, Brilhantino.
Brilhantino é um senhor que mora numa caverna na cidade (vale ler aqui para saber mais).
Velhinho e já muito corcunda, ele não se via num espelho há muito tempo.
à época das filmagens, a equipe toda estava num hotel de Muqui, inclusive Brilhantino.
Pois é que o senhor entra no quarto do diretor e de sua equipe bem no momento em que eles estão revendo as imagens do dia.
Brilhantino olha aquelas imagens e chega a duas constatações -- 1º Como ele está envelhecido;
2º Como ele está se movendo rápido, agitado.
Precisa se acalmar.
Um pequeno (mas fundamental) detalhe:
a equipe estava assistindo às imagens em fast forward (avançando-as).
Mais imagética ainda é a próxima história.
E justamente por ser mais imagética é que ela traz em si a força da presença de quem esteve diante de ela.
Beatriz esteve e conta com aquele «só entende quem estava lá» o que viu.
Era a exibição de O último tocador (São Roque do Canaã/Espírito Santo), de Valbert Júnior Vago.
O filme narra a história de Jepim Penitente, descendente de italianos e único tocador de concertina na cidade.
Durante a exibição do documentário, obviamente muito musical, um garoto se levanta à frente da tela, se destaca entre sombra e imagem do projetor, e começa a reger a platéia presente.
Rege durante algum tempo, em cima das imagens e das notas que saem do filme.
Cena para se guardar, difícil de imaginar o sentimento.
Mas que justifica uma constatação de Beatriz:
-- Uma coisa que me chamou atenção e que eu não racionalizei, eu senti, foi o fato de que os vídeos quando exibidos na cidade de origem ganham um sentido novo.
Havia alguns vídeos que eu não tinha uma atração em si, mas depois da exibição nas cidades eu pude ver como eles têm potência.
Futuro
Agora, em agosto, acabou.
Pôs-se fim ao périplo de exibições por o Brasil.
Todas as expectativas de produção foram alcançadas e, de certo modo, superadas.
Mas ainda há planos para serem feitos com os filmes do Ano I (questão " d "), como se eles fossem obras abertas, sempre livres a mais uma releitura ou novo uso.
Primeiro passo:
finalizar o DVD (quase pronto) sobre o projeto.
Será uma caixa com seis discos.
A idéia é passá-los em pontos de cultura, cineclubes e lugares sem fins lucrativos que tenham a ver com os preceitos do Revelando os Brasis.
Os DVDs contarão com cenas dos cursos, bastidores de filmagens, depoimentos dos participantes e, também, parte das exibições nas cidades, uma vez que todo trajeto da caravana foi registrado num making of..
Beatriz anima-se com a possibilidade de poder mostrar no DVD aquilo que conseguiu observar na prática:
-- Antes do curso tínhamos a curiosidade de saber o que aconteceria colocando numa sala de aula gente de experiências tão diferentes entre si, experiências tanto de vida como também no audiovisual.
Agora, isso poderá ser visto no DVD.
Outras datas para o produto «Revelando» também já estão semiconfirmadas.
A caravana para o Ano II, marcada para o final de 2007, foi adiada para o primeiro semestre do ano que vem.
O objetivo maior agora é respirar um pouco e avaliar a pesquisa feita em todas as cidades por as quais o caminhão passou, a fim de descobrir como melhorar o projeto.
Já o começo das oficinas para o Ano III, a serem realizadas novamente no Rio de Janeiro, está marcado ainda para 2007.
Negocia-se agora a exibição dos programas veiculados no Canal Futura (O Futura exibiu entrevistas com os realizadores e os filmes do Revelando os Brasis do Ano I e II) em TVs universitárias e públicas.
Por enquanto, as obras podem ser assistidas em 138 ônibus paulistanos com a tecnologia BUSTV.
-- As pessoas têm gostado muito de ver os filmes dentro do ônibus.
Eles são legendados, porque às vezes não dá para escutar direito.
O pessoal gosta bastante dos filmes nordestinos, talvez por a quantidade de pessoas da região morando em São Paulo e pegando ônibus.
Críticas
Lidar com incentivo fiscal não deve ser fácil no Brasil (questão " f ").
Ainda mais no mercado audiovisual, em que um diretor reclama por não ter tido seu projeto contemplado por o governo dizendo-se o cineasta mais visto desde a retomada.
-- Em a época, senti que parecia que nós estávamos tirando uma fatia de um orçamento que não era nosso -- diz Beatriz.
Esse sentimento tomou ainda mais forma quando ela começou a escutar por aqui e ali gente criticando a intenção de entregar na mão de pessoas que nunca tinham ido ao cinema -- cujas únicas coisas que precisaram responder foram:
«qual é seu nome «/» conte sua história» -- a possibilidade de se produzir um filme.
O que era para ser, na palavra de muitos, «uma videocassetada», acabou dando certo, mesmo com mais escolhas polêmicas.
-- Sei que o projeto é controverso.
A intenção era abrir mesmo para qualquer pessoa, desestruturar qualquer idéia de cinema como uma coisa de referência formal, erudita.
Fizemos opções importantes.
Uma de elas muita gente ainda faz ressalvas.
Decidimos não estabelecer uma quantia exata para cada filme.
Para isso, demos aulas de orçamento para os «revelandos», o próprio diretor cuidou do valor que precisava.
Analisamos com cuidado os pedidos, é claro.
Fomos muito sensíveis e criteriosos.
Tivemos que ser.
Havia, no entanto, um teto para cada filme:
R$ 10 mil. Não é coincidência que esse valor seja o mesmo que Jorge Furtado usou no filme Saneamento básico, onde habitantes de uma cidade de menos de 20 mil pessoas usam a verba disponível à produção de um filme para construir um sistema de esgoto.
O cineasta gaúcho foi assumidamente influenciado por o projeto, a ponto de ter ido a Cordeiro entrevistar o diretor do filme local Luiz Antonio Cavalheiro para o Fantástico.
Em um dos questionamentos que não foram ao ar, Jorge pergunta a Luiz Antonio se cidades sem condição de saneamento têm necessidade de pensar em arte.
Questão que também foi posta na mesa a Beatriz:
-- Infelizmente, a resposta de Luiz Antonio não passou na TV.
Mas ele foi perfeito e eu concordo plenamente com o que ele disse.
As políticas deveriam dar conta de todas as situações.
Quem foi que disse que arte é menos importante que saneamento?
São duas coisas diferentes, e a população precisa tanto de uma quanto de outra.
* * * As fotos que ilustram este texto foram feitas por Ratão Diniz.
Ele é um dos dois fotógrafos da oscip carioca Observatório de favelas que viajaram para registrar a caravana.
Uma boa parte das fotos pode ser vista no blog da viagem.
Em conversa com Ratão por telefone, ele me contou como foi a experiência de ter acompanhado os caminhões e, entre tantas histórias de descobertas, acabou relatando como conseguiu fotografar, em Água Fria (Bahia), uma senhora de mais de 100 anos que havia participado do documentário local.
Segue, nas palavras do rapaz de 23 anos, a revelação:
Queria fotografar a Dona Mocinha.
Todo mundo disse que ela não ia querer, que está bem velhinha.
Rodando a cidade, encontrei uma mulher que eu já tinha fotografado mais cedo numa igreja.
De o lado de ela, tinha uma outra mulher numa casa com varanda.
Fui tentar fotografar esta outra mulher.
Ela não quis e disse, «fotografa a ' véia ', a ' véia ' está aqui dentro».
Eu entrei e dei de cara com a Dona Mocinha no sofá.
Uma expressão muito forte.
Fui lá, pedi para fotografá-la, ela não quis.
Eu expliquei o projeto, ela não quis.
A filha insistiu.
Ela perguntou:
-- O que é foto?
A filha:
-- É retrato.
-- Retrato eu já tenho ali, não preciso não.
-- Queria ser o autor de uma fotografia da senhora -- eu disse.
Ela não quis, tomei café.
Ela falou:
-- Eu não tenho dinheiro para pagar.
-- Poxa, não cobro, não preciso de dinheiro.
Não é minha proposta cobrar.
A senhora é um personagem do filme.
Em essa hora, lembrei que eu estava com a minha câmera digital e comecei a mostrar as imagens das fotos que já tinha tirado para ela.
Ela se encantou com as crianças, com a igreja, com os santos que eu fotografei.
Tentei de novo:
-- E aí, posso tirar uma foto da senhora?
Ela deixou, se arrumou e eu bati.
Por mais que não seja uma foto fantástica, é uma grande foto.
Em o final, Ratão completa:
-- E tem história por trás de ela.
Número de frases: 188
«Citação:
leve um homem e um boi para o matadouro.
O que berrar primeiro é o homem,
mesmo que seja o boi."
Torquato Neto: Pessoal Intransferível
Em a vida da gente existem sempre, a cada minuto, dois momentos cruciais:
o aqui e agora e a hora da nossa morte, amém!
Alguns de nossos amigos e todos os nossos antepassados tiveram, ou melhor, «vivenciaram» uma única vez estes dois momentos ao mesmo tempo.
Este futuro momento nos espera!
Acho, acho não, tenho certeza, que o que a humanidade tem de melhor e, ao mesmo tempo, a sua maior tragédia, é a consciência que todos nós temos da Morte Certa.
Para mim é esta a essência do ser humano adulto, seja ele um feitor de guerras ou um convicto pacifista, um sádico ou um humanista, um serial killer ou um defensor intransigente da vida em todas as suas formas, uma pessoa profundamente religiosa ou um ateu convicto, moralmente desmoralizada (mendigo, drogado, parricida, e por aí afora) ou alguém que se atribui um alto valor moral, esteja ele em Wall Street ou em Ruanda, formado na Sorbonne ou nas ruas de Hong Kong, goste, não goste ou nunca tenha ouvido sequer falar a respeito dos Beatles.
Desde a mais sublime poeta ao mais abjeto criminoso, do mais generoso altruísta ao mais cínico egoísta, do mais devasso ao mais santo dos monges, do mais místico ao mais descrente dos homens, da virgem recatada até a mais promíscua prostituta, cada um de nós age na vida em função das conseqüências que deduz da certeza da morte, da sua postura diante de ela.
A própria religião, Deus não faria nenhum sentido, nem teria qualquer utilidade sem a promessa da vida (" eterna ") depois da morte!
Claro que eu falo do ser humano adulto, mas não se trata, no caso, de um fenômeno físico.
Acho que uma pessoa se torna adulta quando toma consciência da inevitabilidade da morte.
E a ingenuidade celebrada nas crianças para mim não tem caráter sexual:
não se trata do fato que elas ignoram como nascemos mas sim, que ainda não sabem como, inevitavelmente, termina esta nossa «experiência terrena».
Já pensei, várias vezes, em escrever um livro totalmente dedicado à morte dos únicos seres na terra que realmente morrem:
os homens.
Porque a morte não é «propriedade de quem morre» mas, também ela, e principalmente ela, propriedade social!
Quem morre, morre:
serão os vivos que sentirão a minha morte, como eu senti a morte dos meus pais, do meu irmão e de tantos amigos!
Para além da perda destes meus entes queridos eu vivenciei, na morte de eles, a minha, anunciada.
E até humanizamos o passamento de nossos animais de estimação, sofrendo a sua perda como se, de fato, morressem!
Um religioso diria que a diferença entre os animais e os seres humanos é que aqueles não tem uma alma a ser salva.
Eu afirmo que a diferença reside no fato de que eles não tem consciência da morte!
Via de regra, a morte de uma pessoa qualquer só afeta um círculo muito restrito de familiares e amigos e as estatísticas demográficas.
A exceção são os famosos Outro dia, aqui mesmo no overmundo, alguém se dizia inconformado com a comoção popular causada por a morte do ACM Ditadores sanguinários como Hitler e Stalin, ainda hoje, são lembrados.
A busca da fama tem muito disto:
morrer mas ser lembrado.
O fascínio e a luta por o poder também se revestem, pelo menos em alguma medida, deste caráter.
A maior aspiração do artista é que sua obra permaneça.
Os membros das Academias de Letras são, ainda que por decreto, imortais!
Existiu um grego que tocou fogo, se não me engano, no oráculo de Delfos declaradamente só para ser lembrado por a história.
Parece que o assassino de John Lenon (me recuso a guardar seu nome) desejava o mesmo.
Bilhões e bilhões de pessoas já morreram.
Pouquíssimas permanecem nos anais da história!
Cada um sabe de si!
De minha parte tudo o que eu faço é em função de ser lembrado por muito mais tempo (de preferência séculos) e por muito mais gente após a minha morte!
Mas não quero ser lembrado apenas por os textos que escrevi ou os desenhos que fiz, mas também como uma pessoa boa, doce, sensível, amável, por ser «dengoso» como dizia minha avó!
Quero, também, por ter abraçado, com o melhor do meu ser, o Piauí, o Estado mais charmoso do Brasil, e por tudo o que esta atitude tem de poética.
É este o meu projeto mais, digamos, estratégico.
Número de frases: 42
O Professor Henrique Magalhães é Doutor em Comunicação e um dos maiores especialistas no país e no mundo em Fanzines e Quadrinhos.
Esse discreto paraibano de estatura baixa, de falar manso e pausado é o fundador e editor da Marca de Fantasia e desde seu começo em 1995 vem publicando livros abordando esse universo.
É autor de livros conhecidos como «O que é Fanzine» (1993) e o «Rebuliço Apaixonante dos Fanzines (2003)» e das clássicas tiras «Maria» publicadas em jornal, além de ser o criador da Gibiteca Henfil na cidade de João Pessoa.
Ano passado durante o Festival Internacional de Quadrinhos-FIG, realizado em Belo Horizonte (MG), foi chamado de herói por o roteirista e editor Wellington Srbek.
O feliz substantivo cai bem em Henrique por sua dedicação e experiência ao tema.
Embora seja de uma modéstia ímpar, seu trabalho proporciona expansão da comunicação, no imprimir razão nessas modernas artes / veículos e de academicamente orientar novas mentes nesse meio.
Conversamos com o professor Henrique Magalhães que nos conta com exclusividade sobre suas atividades.
Primeiro de tudo, o que levou o Senhor a ter interesse e a estudar sobre os Fanzines e Quadrinhos?
O que lhe moveu a isso?
Decidi estudar os fanzines no final de minha graduação em Jornalismo na UFPB, em 1983.
Em aquele momento havia uma ascensão da produção de fanzines no país e percebi que o tema era interessante como objeto de estudo.
Por outro lado, eu mesmo estava envolvido com a produção independente, editando minhas próprias revistas com a personagem de quadrinhos Maria.
Por conta disso, eu tinha contato com vários editores e produtores de fanzines, o que me facilitou a pesquisa.
Os quadrinhos são uma paixão de infância e que permanece até hoje.
Com minha coleção criei a Gibiteca Henfil, que funciona desde 1990, a qual cresceu enormemente graças às doações de leitores e amigos.
Em os quadrinhos encontrei minha maior força de expressão, revelando-me ao mundo e refletindo sobre os conflitos quotidianos.
Como o Senhor avalia o mercado de Quadrinhos em nosso país?
Temos grandes autores e muitas novas promessas que infelizmente não podem se desenvolver por causa da mesquinhez do mercado.
Nosso mercado editorial no campo dos quadrinhos é medíocre e oportunista, investe só no que já foi consagrado fora, o que não quer dizer que investa em qualidade.
Com exceção de Maurício de Sousa, nenhum autor brasileiro consegue se firmar por falta de uma política editorial conseqüente.
Os editores preferem repetir as fórmulas manjadas de super-heróis e agora de mangás, dando as costas à originalidade dos autores nacionais.
Isto por causa do lucro fácil e garantido.
Sem risco não há inovação.
O Senhor poderia fazer um breviário sobre a importância dos Fanzines e Quadrinhos para a Cultura de um modo geral?
Os Quadrinhos são hoje, merecidamente, considerados uma arte.
Eles possuem linguagem própria, além de ser um excepcional meio de comunicação.
Cada vez mais se estuda os Quadrinhos nas universidades, abordando seus múltiplos aspectos criativos e lingüísticos.
Apesar da predominância cada vez maior dos meios eletrônicos, a produção de quadrinhos não pára de se renovar e atrair novos públicos.
Os fanzines são a resistência e o campo de experimentação de qualquer linguagem artística.
São particularmente utilizados por os autores de quadrinhos, pois, como estes, se tratam de artes gráficas.
Os fanzines representam o espaço ideal para se mostrar o trabalho frente à inacessibilidade do mercado.
Podem servir como veículo circunstancial, mas, e principalmente, servem como objeto em si, como exercício e laboratório, além de promover o intercâmbio de idéias.
A cultura de Quadrinhos e Fanzines é bastante representativa em paises como Estados Unidos, França e Espanha por exemplo, cada qual com suas peculiaridades.
Como é que nosso país se situa entre esse meio internacional?
Para Philippe Morin, editor do PLG, o mais representativo fanzine francês de quadrinhos, o Brasil é um grande celeiro dessas produções.
Em toda parte os fanzines são um complemento ou uma resistência ao cerceamento do mercado.
Em o Brasil é a única maneira de se mostrar, de tornar público o trabalho.
Talvez, por isso, nós tenhamos uma enorme produção de fanzines.
Ao mesmo tempo eles são uma força produtora e um reflexo da pequenez do mercado.
É sabido que temos poucos estudiosos e pouca literatura à respeito do assunto em nosso país.
Por que isso acontece?
Esse é outro aspecto do mercado editorial que é preciso registrar.
Não é só na edição de quadrinhos que temos deficiência.
O mercado livresco de modo geral também é muito restritivo aos autores nacionais.
A produção editorial de literatura especializada, então, dá pouco espaço aos quadrinhos e quase nenhum aos estudos sobre fanzines.
Ainda há preconceito e falta de visão sobre a importância dos trabalhos acadêmicos sobre esses temas, que, paradoxalmente, só crescem na produção acadêmica.
O Senhor criou a editora Marca de Fantasia, que já tem mais de dez anos publicando obras importantes e é resultado de muito esforço pessoal.
Fale-nos o que significa a editora para o Senhor e sobre as atividades da editora.
A editora é, para mim, um grande exercício.
Com ela faço fanzines, revistas, livros e álbuns de quadrinhos, editando tudo o que acho interessante e que, de outra forma, certamente não viria a público.
Não criei a editora apenas para editar meus trabalhos.
Isso eu já fazia desde que comecei a publicar quadrinhos nos jornais.
Pretendo com ela dar visibilidade aos novos autores, estudar e resgatar a obra dos mestres, refletir sobre a linguagem dos quadrinhos.
Embora seja uma editora independente, de curto alcance, por se dirigir a um público especializado ela tem alcançado grande repercussão, em particular no meio acadêmico.
Quais os planos da Marca de Fantasia ao longo deste ano?
Tenho uma quantidade enorme de originais a editar e não param de chegar novas propostas e projetos de parcerias.
Quero manter o ritmo que venho dando à editora de publicar pelo menos um título por mês, que é facilmente ultrapassado, e profissionalizar cada vez mais a produção para que ela atinja um público cada vez maior.
Marca de Fantasia
Número de frases: 58
entrevista publicada originalmente no site Ladonorte O Portal Bocada Forte, desde a sua criação em 1999, até os seus oito anos, completados em maio de 2007, teve seu layout e sistematização atualizados por três vezes.
Todas as atualizações foram focadas em aumentar a interatividade entre seus administradores e os usuários, estreitando ainda mais a relação entre eles e fazendo dos Internautas parte ativa do conteúdo do Portal.
A nova versão que hoje está no ar, foi resultado de um convênio entre o Portal Bocada Forte e a SEPPIR (Secretaria Especial de Políticas para Promoção da Igualdade Racial).
O projeto de reformulação exigiu de todos os profissionais envolvidos no Projeto quatro meses de intenso trabalho, até que toda estrutura e design ficassem completamente adequadas.
Novas cores, novo layout, nova plataforma (o site que era em linguagem ASP, agora será em PHP).
Tudo novo!
A versão 2007 traz, como maior novidade, o cadastramento de usuários.
Algo único no que diz respeito ao Hip-Hop na internet.
Os usuários terão seu perfil sempre identificado e cada informação inserida será assinada em todas as seções interativas.
Isso nos traz credibilidade e confiança quanto às informações e o conteúdo gerado por os visitantes do Portal.
Além disso, a partir de agora, todos os comentários feitos por os usuários sobre nossas matérias, resenhas, notícias, músicas, vídeos e em todo conteúdo interativo ficarão totalmente visíveis, de forma que todo visitante poderá acessá-las.
Apenas usuários cadastrados poderão inserir comentários e / ou informações.
Com o novo Portal, mantemos as características de alta concentração de informação e conteúdo e agregamos a potencialidade de interação que a tecnologia mais atual nos permite.
O impacto nos usuários será certamente muito positivo, pois todas as seções do website poderão receber dados praticamente em tempo real.
Veja a seguir os detalhes sobre cada seção e as novidades:
O Portal Bocada Forte está dividido em quatro partes, cada uma de elas com sub-seções, são elas:
? Informação
Biblioteca Colunas
Matérias Últimas Notícias Aqui, como comentado anteriormente, a maior novidade é a visualização dos comentários feitos por os visitantes.
Apenas usuários cadastrados poderão inserir suas críticas e opiniões.
Em?
Biblioteca?, serão disponibilizados trabalhos acadêmicos (teses de mestrado, trabalhos, monografias, etc.) que possuem como foco a cultura Hip-Hop ou assuntos relacionados.
Outra novidade é referente à busca por informações.
Ela ficou muito mais fácil, pois pode ser feita por data (mês / ano) de publicação e também na?
Busca? digitando palavras relacionadas ao conteúdo que o usuário deseja pesquisar.
? Interatividade
Bate-papo Gírias
Links Ponto de Vista
Rimando Ponto forte do Portal desde o início, as informações inseridas nessas seções passarão a ter muito mais credibilidade, pois poderão ser inseridas apenas por usuários devidamente cadastrados?
com perfil registrado e identificado.
Apenas o Bate-papo continuará sendo?
aberto? para todos.
As vantagens em relação à antiga versão, é que em?
Gírias? passaremos a identificar de onde vem os termos inseridos -- cidade, estado, região, etc..
Isso será possível devido justamente ao perfil cadastrado por o usuário.
Em? Links?
abrimos espaço para novas categorias devido às mudanças que aconteceram no mundo virtual, com You Tube, My Space, Orkut, Blog, Flogs, etc..
Todos os links relacionados a algum desses sites estarão separados.
? Multimídia
Áudio Vídeo
Galeria de Fotos
Essa é uma das áreas mais acessadas do Portal e mereceu da equipe de planejamento uma atenção especial.
Em? Áudio?
serão encontradas, músicas em mp3, mix tapes, programas de rádio e todas as entrevistas realizadas via áudio por o Portal Bocada Forte.
Em essa seção, os usuários cadastrados também poderão deixar comentários, que ficarão visíveis para todos.
Em a seção de?
Vídeo? o usuário poderá visualizar vídeos-clipe, documentários, comerciais, matérias e entrevistas.
Já nossas?
Galerias de Fotos?
passarão a ser melhor visualizadas, com suas imagens ampliadas e legendadas.
? Institucional
Fale Com nós
Cadastro Menu Institucional
Esse é o canal direto entre o público e os Administradores do Portal.
Além de poder entrar em contato direto com nós, todos os visitantes terão acesso às informações referentes ao Portal Bocada Forte:
sua história, sua equipe de trabalho e colaboradores, políticas de conteúdo, privacidade e segurança.
Tudo de maneira muito organizada e, principalmente, simplificada.
Assim, toda a nossa equipe de desenvolvimento, equipe de trabalho e os criadores do Portal têm a certeza de estar disponibilizando para a web, com esses e outros melhoramentos que ainda serão implementados?
o melhor Portal especializado em cultura Hip-Hop da América Latina, com o maior e mais completo conteúdo.
E o melhor:
tudo isso com a contribuição direta do próprio usuário.
Por:
Número de frases: 62
Bocada Forte
Em o dia 28 de setembro, uma sexta-feira ensolarada qualquer na cidade de Natal, liguei para a minha prima Isabelle Mamede (formada em Turismo por a UFRN) e perguntei a ela o que tinha de bom pra fazer no fim de semana que chegava."
Preciso tirar umas fotos pra minha especialização.
Não tá a fim de tirar essas fotos pra mim não?" --
Ela perguntou na maior cara de pau.
E eu, como sempre, altruísta, disse, «Tiro sim.».
Antes de dizer que ajudaria, eu deveria ter perguntado «quando», pois a resposta teria sido» domingo de manhãzinha».
Ai meu Deus!
Domingo de manhã!
PQP! Enfim ...
Eu disse que ia.
Tinha que cumprir a palavra.
Ah! Esqueci de explicar o trabalho da minha prima.
A ' tarefa ' consistia em fazer um levantamento dos prédios históricos do bairro da Cidade Alta, região central de Natal.
Saímos eu, minha prima e o seu namorado, o biólogo Gustavo Soares, munidos de uma câmara digital e com a incumbência de percorrer o bairro da Cidade Alta visitando, um por um, tudo o quanto fosse localidade que abrigasse algum passado histórico relevante para o futuro da humanidade.
De a humanidade talvez seja um pouco demais.
Enfim ... Vocês já entenderam o espírito da coisa, não é mesmo?
Pois bem. A primeira parada foi no Memorial Câmara Cascudo, cujo prédio foi restaurado por a Fundação José Augusto em convênio com a antiga SPHAN e o Governo do Estado, em 1982 e, considerado Patrimônio Histórico estadual, desde 24 de agosto de 1989.
Memorial Câmara Cascudo
Construído para abrigar a Tesouraria de Fazenda no ano de 1875, em 1922, no local passou a funcionar a Delegacia Fiscal.
Em 1946, cogitou-se a hipótese de demolição do prédio.
Em a ocasião, Luís da Câmara Cascudo ergueu a sua voz em defesa do velho edifício, e propôs a construção de uma nova edificação para a Delegacia Fiscal, na esplanada Silva Jardim, bairro da Ribeira.
Com aquela atitude, o saudoso mestre induziu os governantes a duas importantes decisões:
a construção de um prédio novo, amplo e confortável, que abriga satisfatoriamente até os dias atuais todas as seções da Delegacia Fiscal (local onde atualmente sou estagiário de comunicação);
e a manutenção do velho prédio da Tesouraria de Fazenda, testemunha de importantes acontecimentos ocorridos na Província e exemplo vivo das construções do passado.
Em 1955, a Delegacia Fiscal foi transferida para a sua nova sede na esplanada Silva Jardim, passando o antigo prédio da Tesouraria de Fazenda a ser ocupado por o Quartel General da 7ª R.M. do Exército, onde funcionou até 1977.
Dez anos mais tarde, em 1987, com o falecimento do mestre Cascudo, o prédio passou a funcionar como Memorial Câmara Cascudo, abrigando fotos, livros, depoimentos e reportagens sobre o ilustre pesquisador Luís da Câmara Cascudo, que soube tão bem defender e divulgar o nosso Patrimônio Cultural.
Igreja-Matriz da Nossa Senhora da Apresentação
A poucos metros do Memorial Câmara Cascudo, encontramos a igreja-matriz da cidade de Natal.
Construída na Rua Grande, atual Praça André de Albuquerque, no mesmo local onde existiu a primitiva capelinha de barro socado, edificada nos primeiros anos da colonização do Rio Grande do Norte, a igreja é constituída por uma capela-mor e capelas laterais, nave principal e lateral, galerias superiores, coro, torre e sacristia.
A primeira igreja de Natal foi construída no início do século XVII.
Estava concluída em 1619 e de ela não ficaram vestígios, tendo sido destruída por os «heréticos» invasores holandeses.
A atual Matriz não lembra, sequer, a suposta capelinha de taipa coberta de palha, do passado longínquo.
A igreja passou por dezenas de modificações, não só na estrutura física, mas até mesmo no tipo de culto que ali professavam.
Com a invasão e domínio dos holandeses, em 1633, a igreja construída por os fervorosos católicos portugueses transformou-se num templo calvinista, situação que perdurou até fevereiro de 1654, quando ocorreu a expulsão dos flamengos da Capitania do Rio Grande.
Em o mesmo local há mais de três séculos, a igreja foi tombada em nível estadual no dia 30 de julho de 1992.
Ali no pé do altar, dormem anônimos, na terra sagrada, milhares de seres que fizeram a cidade nos seu primeiros anos de história.
O sobradinho de Café Filho
O Rio Grande do Norte é considerado pobre em arquitetura colonial.
Mas um exemplo típico desse tipo de estilo é o Sobradinho da Rua da Conceição.
Típica residência da classe abastada do início do século passado, foi construída a mando do capitão-mor, José Alexandre Gomes de Melo, antigo comandante das Milícias e, depois, Coronel da Guarda Nacional, -- como registra o mestre Câmara Cascudo.
Construída entre os anos de 1816 e 1820, foi a primeira residência assobradada construída em Natal, e é um dos poucos edifícios de arquitetura colonial existentes no perímetro da cidade, fato que por si só justificaria o interesse que existe em assegurar seu tombamento.
Como o Sobradinho apresenta parte do telhado descendo em declive acentuado, desde a cumeeira até a parte inferior, fazendo lembrar a curva sinuosa de um véu nupcial, por essa particularidade, a tradicional mansão ficou conhecida por o povo de Natal como «A Noiva».
Entre 1925 e 1927, esteve alojado no edifício, o Sindicato Geral dos Trabalhadores, dirigido por o então jornalista Café Filho, que mais tarde viria a ser Presidente da República.
Em 1927, por motivos políticos, o Sindicato foi destruído.
Durante um século a edificação teve função unicamente residencial, passando depois a sediar atividades comerciais e industriais, até ser adquirido por o Governo do Estado em 1962, para em ele instalar o Museu de Arte e História do Rio Grande do Norte.
Em 12 de março de 1979 foi inaugurada na casa o Museu Café Filho, homenagem prestada ao único norte-rio-grandense a ocupar a Presidência da República.
O prédio permanece com a mesma destinação até os dias atuais.
Abriga mobiliário, fotos, pertences, depoimentos, documentos e condecorações do ilustre filho potiguar.
O Palacete da Viúva Machado
Construído em 1910, para em ele residir o comerciante Jorge Barreto Albuquerque Maranhão, irmão do então governador Alberto Maranhão, dez anos depois o palacete foi comprado por o comerciante português Manuel Machado.
Localizado na praça D. Vital, nº.
504, bairro da Cidade Alta, o casarão ficou conhecido como a «Casa da Viúva Machado», por ter servido de moradia, durante mais de 60 anos, à Sra..
Amélia Duarte Machado.
O palacete da praça D. Vital é atualmente habitado por a família da Sra..
Joana D ´ Arc Cabral Micucci, viúva do Sr. Humberto Micucci, afilhado e filho adotivo de D. Amélia.
A casa da viúva Machado conserva até hoje a mesma feição original.
Trata-se de uma edificação de relevante valor arquitetônico, afastada do alinhamento da rua, protegida do exterior por sólidas grades e portões de ferro, artisticamente trabalhados.
Desenvolve-se em dois pavimentos, com cobertura de telhas francesas, em quatro águas.
O palacete foi elaborado com o máximo de requinte técnico.
Em a sua edificação foi utilizado o que havia de melhor em materiais de construção e acabamento, em sua maioria importados da Europa, tais como grades e colunas de ferro, ferragens das portas e janelas, maçanetas, pias, banheiros, móveis, cristais e porcelanas.
Foram também utilizadas peças artísticas, de bronze, especialmente encomendadas em Paris para ornamentação do casarão, como é o caso de duas estatuetas de crianças colocadas no jardim e que simbolizam o Verão e a Primavera.
Também, um chafariz que, a exemplo das duas estatuetas de crianças, foi fundido na «Fonderies Du Val D ´ Osne-Voltaire Paris».
A casa conserva ainda toda a mobília, confeccionada no início do século, composta de armários de cedro e de pinho-de-riga, além de peças de jacarandá-da-baía.
Em a parte posterior da residência foi construído um salão elevado, de madeira, totalmente pré-fabricado no Pará, conhecido como o «Clube de Veneza».
Sua montagem ocorreu no próprio local, onde se encontra até os dias atuais.
Pode-se afirmar que aquele casarão, do início do século, dispunha de recursos de conforto semelhantes aos das residências européias de sua época.
O valor da casa não está restrito apenas aos seus traços arquitetônicos.
É também relevante o seu passado histórico.
A casa hospedou engenheiros franceses, vindos a Natal para construir o campo de pouso da Cidade.
E ainda, lá jantaram Saint-Exupèri e o grande aviador franco-argentino Jean Mermoz.
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos ...
Era, antes de tudo, a igreja dos pretos, dos pobres, dos escravos.
Ali vinham cantar com capelas, batuques e gaitas, louvores inacabáveis.
Nossa Senhora do Rosário, madrinha dos escravos, era a única alegria, oficialmente consentida e legalmente proclamada.
Também naquele solo bendito, sepultavam o corpo abandonado dos que tinham sofrido a pena de morte.
O alicerce dessa igreja é feito de esqueletos de escravos que só se libertaram no céu.
Também era o local sagrado dos casamentos, dos batizados, das festas dos que nada possuíam.
Abençoava o amor que a «cupidez criminoso dos amos» enxergava apenas como um elemento na multiplicação do rebanho servil.
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos foi o segundo templo católico construído em Natal, sendo o mais antigo depois da Igreja-Matriz.
Sua localização é privilegiada.
Acha-se ela implantada num platô, de onde se descortina toda a paisagem do estuário do Rio Potengi.
A igreja conserva ainda, em seu pátio externo, o mesmo pavimento do tipo pé-de-moleque, confeccionado em pedra tosca e preta, conhecida como «pedra de maré».
A torre levantada na Igreja do Rosário é diferenciada do corpo principal da igreja, o que comprova a inexistência daquela torre na fábrica original da edificação.
Provavelmente, a ala lateral foi construída simultaneamente com a torre, pois existe uma grande arcada interligando-as.
Seria pouco provável que tal arcada estabelecesse a ligação da torre com o exterior, caso não existisse aquela ala lateral.
Tombada a nível estadual em 30 de novembro de 1987.
A igreja foi restaurada por a Fundação José Augusto e a Prefeitura Municipal do Natal.
Foi reinaugurada solenemente em 19 de dezembro de 1988, com uma apresentação da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte.
Número de frases: 89
Texto de Tatiana Fagundes (
tatifagu@hotmail.com) Em o meu pequeno vocabulário extremamente familiar, sempre achei que «caralho» fosse um dos mais tremendos e horrendos de todos os palavrões de nossa bela e culta língua portuguesa.
Mas de uns tempos para cá escutei esse nome com tanta naturalidade e, então, decidi que era melhor refletir mais sobre o assunto e, também, resolvi repensar o meu conceito referente a tal palavra, antes tida pra mim como um pecado estrondoso em pronunciá-la.
A o pesquisar a fundo a questão recorri ao dicionário, o famoso pai dos burros e S.O.S de loiras curiosas como eu.
Cheguei a pensar que seria impossível um livro tão importante trazer o significado de uma palavra proibida em ambientes onde impera a boa educação.
Para minha surpresa encontrei, em instantes, a grande busca por a definição correta de caralho.
É, realmente, o dicionário traz o termo grifado com todas as letras e diz que:
caralho nada mais é que uma exclamação de desgosto ou raiva.
O pai dos burros afirma ainda que caralho é o nome ou apelido dado ao órgão genital masculino, no qual eu particularmente prefiro chamar de pênis. (
Acho que soa melhor).
Apesar dessa notável definição do dicionário, eu defendo a tese de que «caralho», dependendo do contexto da frase, pode ser utilizado e interpretado de diferentes formas, além de apenas ser uma exclamação de desgosto ou raiva.
Em a minha visão, caralho pode expressar maneiras até mesmo contraditórias, seja de algo bom ou ruim.
Isso mesmo!
Incrível, mas para mim «caralho» é mesmo uma palavra digamos «um pouco complexa».
Vejamos alguns exemplos:
Imagine que depois de uma noite " daquelas você escuta a seguinte frase:
«Nossa! Foi bom pra caralho!" Uma pronuncia completamente orgástica, concorda?
E, com toda certeza e sem sobra de dúvidas, é melhor do que ouvir «Puta merda! Foi ruim pra caralho!" Aqui nesse caso utilizado para expressar uma sensação bem desagradável que, convenhamos, deve ser terrível de se ouvir e até mesmo porque não dizer» broxante».
Mas tenho que concordar com o dicionário quando define caralho como uma exclamação.
Também acho que o termo pode ser utilizado como ponto de exclamação do tipo quando usamos logo após recebemos uma notícia surpresa, estranha, totalmente inesperada.
A reação imediata de muitos nessas situações é:
Ca-ra-lhe&lhes o! (
Aqui ele é utilizado num sentido de espanto, bem exclamativo mesmo!).
Caralho também pode ser usado de forma ofensiva.
Ato de xingar alguém como:
«Ah vá para o caralho que o parta!».
Bem nesse caso, não sei ao certo onde fica esse caralho, mas acredito que essa seja uma expressão sinônima daquela «Vá tomar naquele lugar!». (
Bom, daí é melhor nem descobrir onde fica o caralho em questão).
Continuando com as diversas formas de utilização de tal palavra, outro exemplo que cito é chamar alguém de «Seu caralho!" De esse jeito entendemos que a pessoa é um» merda».
Mas também dependendo da pronuncia pode até considerar o indivíduo bacana se for dito assim:
«Tu és do Caralho», aqui no sentido de explicar que a pessoa é gente boa.
Finalizando essa minha ingênua reflexão, acredito que não importa se seja usado no contexto positivo ou negativo, mas sim que falar e ouvir «caralho», de uma forma bem natural, é algo interessante e extremamente divertido, principalmente se você estiver com alguém que é verdadeiramente» De o caralho». (
Em o bom e melhor sentido é claro)
Obs.. Nunca escrevi e pronunciei tanto caralho como ao redigir esse texto.
Acho que finalmente venci o preconceito de dizer, sem dor na consciência, essa palavra «Caralho».
Número de frases: 35
Em novembro de 2004 no Rio de Janeiro, Gilmar Rogério Wendel era o mais calado da turma de 40 pessoas da oficina de produção de vídeo digital do projeto Revelando os Brasis, promovido por o Ministério da Cultura, Instituto Marlin e Petrobras.
Já na tarde fria, quase zero grau, do domingo, 24 de junho, passeava falante cumprimentando a todos por a quadra ao lado da Praça de Arroio do Tigre.
Apesar do nome e do tigre de pedra embaixo da placa de boas-vindas da cidade, Arroio do Tigre não é um parque temático.
A cidade de 12.214 habitantes a 4 horas de carro de Porto Alegre ganhou esse nome quando os primeiros imigrantes alemães chegaram por volta de 1900 e abateram uma onça, que chamaram erroneamente de tigre, na beira do arroio.
Seu dia de entretenimento na praça foi resultado da exibição do filme do agricultor e agora diretor Rogério, 33 anos, um dos vencedores do projeto Revelando os Brasis, um documentário histórico sobre a revolta conhecida como O Grito de Bamo, ocorrida na região na década de 30.
Duzentas e cinqüenta pessoas estavam ali pra assistir ao filme, em sua maioria famílias com crianças, e outras duzentos e cinqüenta colaboraram na produção e elenco do filme.
Todas da comunidade.
Uma produtora de Santa Cruz do Sul foi responsável por a parte técnica e alguns lojistas apoiaram o vídeo financeiramente.
O Grito do Bamo foi um movimento camponês com fundo místico que uniu os agricultores e por isso, foi destruído a tiros.
Seu líder, no vídeo interpretado por o próprio Rogério, foi preso, morto e exibido por a cidade como troféu da polícia.
Em a vida real, o agricultor também é ligado a movimentos da terra, ele é ativo no movimento dos pequenos agricultores da região.
Em o filme, as cenas histórias são reproduzidas intercalando-se com o depoimento de um estudioso do assunto, professor da UNIJUÍ, também de Arroio do Tigre.
Mas Rogério ficou sabendo da história por o seu avô, Rudy Ghröel, 75 anos, como toda a família de Rogério presente para assistir à exibição.
Rudy diz que era desse «tamanhinho» e mostra a altura do bisneto Luan, de 9 anos, quando viu tudo acontecer.
Segundo o diretor, a visão do avô é dos vencedores e não a que ele quis mostrar no filme:
dos oprimidos.
Rogério se entusiasmou em ser diretor.
Estudante de jornalismo na UNISC, ele agora pretende fazer um documentário longa-metragem sobre o cultivo de fumo na região.
E pensar que tudo começou por um anúncio na voz do Brasil.
«Ouço sempre que posso», diz.
O projeto Revelando os Brasis foi uma proposta do Instituto Marlin e do Ministério da Cultura para democratizar o acesso às tecnologias digitais.
O objetivo era mostrar um olhar do Brasil que dificilmente é documentado, ainda mais como audiovisual.
A caravana em Arroio do Tigre, contava com uma produtora do Instituto Marlin, uma fotógrafa da ONG Observatório das Favelas e um estudante do Instituto Marlin responsável por o making of.
Junto com a história de Rogério foram escolhidas outras 39. Todas viraram curtas digitais de 15 minutos (a de Rogério também teve uma versão do diretor de 19).
A maioria das histórias eram documentais, 26 ao todo, enquanto as outras 14 foram de ficção.
A caravana, que traz o caminhão de projeção já passou por 19 estados, depois de Arroio do Tigre segue para Mato Grosso do Sul e termina em Rondônia, encerrando uma viagem de mais de trinta dias por todo o Brasil.
Segundo a produtora do Instituto Marlin, Gabriela Vieira, 33 anos, a maior emoção é ver a reação do público se identificando no filme e também a mudança de mentalidade das cidades.
Algumas das histórias foram biografias de pessoas que eram oprimidas na cidade e, com a realização do filme, viraram estrelas por lá.
Para o diretor de Arroio do Tigre o mérito principal da sua história foi o resgate histórico de uma história que poderia ter sido esquecida e que assim, ainda foi popularizada.
Mas o público de Arroio do Tigre que enfrentou o frio do final da tarde estavam ali estavam para ver a si mesmos na tela.
Logo que o filme começou a ser feito todos os amigos e familiares de Rogério foram chamados.
Os atores principais foram escolhidos por ele, que, como bom diretor, colocou a namorada como atriz principal, ao seu lado como a esposa do líder da revolta.
Em o hotel onde a caravana estava hospedada, o único da cidade, Dona Clari, a dona repetia continuamente que conhecia quase todos que participaram do filme.
«Um que outro a gente não conhece».
Esses, Dona Clari, são das comunidades vizinhas.
Rogério é natural de Coloninhas, no interior de Arroio do Tigre, e de lá trouxe atores e produtores para seu filme.
De o movimento que participa, não muito diferente do líder que interpreta no filme, trouxe o apoio das comunidades vizinhas como Sobradinho e Estrela Velha de onde vieram figurantes e produtores.
Número de frases: 37
O pão é um dos alimentos mais populares do planeta.
Está espalhado por os continentes e acompanhou a evolução cultural de cada povo nos últimos séculos.
Em a «Última Ceia» (segundo os cristãos), Jesus Cristo pegou o pão em suas mãos e deu aos seus discípulos dizendo ..."
Tomai, comei:
isto é o meu corpo que será entregue por vós;
fazei isto em memória de mim».
O circo foi a principal manifestação artística nos últimos milênios.
Era e ainda é usado como forma de acalmar ou agravar as manifestações das populações, nas sociedades de qualquer país -- já que trazia ou traz no lazer, formas de diversões populares e bizarras.
Em o Brasil, o circo encontra-se em decadência.
As crianças choram!
Sentem falta do palhaço, do trapezista, do mágico e das maravilhas em palco e picadeiro.
Longe das lonas e terrenos baldios, e distante dos profissionais da área, o circo é um caso especial e político.
Tem a aparência de algo obscuro.
Soa como teatro de mau gosto, mentira, egoísmo, inveja, corrupção e tantos outros desmandos oficiais ou clandestinos.
As combinações de «pão e circo» fizeram os grandes pensadores, poetas, escritores, sacerdotes e outros, repensarem o segredo da vida de uma forma mais humanista e algumas vezes:
materialista. A curiosidade continua a mesma:
«pão e circo» são necessários à sobrevivência dos humanos?
É do conhecimento geral que o pão alimenta o corpo (é referência na «Última Ceia» de Jesus Cristo) e hoje, alimenta a fé cristã.
O «circo» distrai e deixa relaxado qualquer mortal.
É uma diversão que pode mostrar a verdadeira arte circense, alienação ou corrupção!
Será que só de «pão e circo» viveu, vive ou viverá a humanidade?
Em o dueto de palavras entra em cena uma terceira:
amor.
A palavra amor é uma das mais bonitas da língua portuguesa.
O mais interessante é que amor ao contrário -- vira Roma -- e foi lá na Roma Antiga que ocorreu a maior perseguição, aos que pregavam o amor verdadeiro entre as pessoas.
Homens e mulheres, velhos ou jovens, da situação ou oposição ao regime político, foram devorados por leões em nome do Império Romano -- para atender à política do «pão e circo».
Jesus Cristo deu o pão como alimento na «Ultima Ceia».
Ele possuía o dom de falar na forma de parábolas.
Profetizou: «nem só de pão vive o homem».
Em a interpretação dos teólogos:
o corpo humano precisaria do pão (o corpo de Cristo) e outros alimentos para sobreviver.
A alma (muitos acreditam que complementa o corpo humano, e outros seres vivos) precisa do amor:
fonte essencial para o crescimento espiritual, e a convivência pacífica com outros corpos e almas, nos circos diários da sobrevivência.
Juntando-se três palavras:
«pão, circo e amor» -- percebe-se que o consumismo da antiga e atual sociedade é ofuscado por a fraternidade de Chico Xavier, Madre Tereza de Calcutá e Irmã Dulce.
A harmonia com a natureza -- tão pregada por São Francisco de Assis -- é o pão da vida, sem trigo, milho ou fermento, e que cresce!
Poderá crescer ainda mais, quando for distribuído na forma de solidariedade e paz.
Um abraço verdadeiro -- sem vestígios de mágoas ou interesses materiais -- é o «pão, sem circo e com amor».
É o alimento que levará qualquer indivíduo ao encontro com o Universo do Criador ...
Sites:
Número de frases: 40
http://lailtonaraujo.blig.ig.com.br/
Alguém levantou pra mim umas questões sobre o uso do Gnu / Linux e fiz algumas reflexões que gostaria de compartilhar com os amigos.
Óbvio que aceito controvérsias!
Então, quanto ao Linux e o software livre, há umas questões de fundo a serem consideradas:
Considere um documento -- texto, planilha, banco de ddos, etc -- contendo informações estratégicas para você ou sua empresa.
Caso este tenha sido editado utilizando-se uma ferramenta de software proprietário -- o MS Office, por exemplo -- este arquivo, contendo a informação que você acredita pertencer a você que a gerou e formatou, só poderá ser acessado por alguém que utilize a mesma ferramenta proprietária, no caso o mesmo MS Office e preferencialmente com uma licença na mesma versão, não uma anterior à versão que você utilizou.
Não, não vale ter aquele CD do Office 2007 comprado no Camelódromo em Campina Grande por dez reais e instalado na máquina.
Em última análise esse seu documento é uma " caixa-preta e só pode ser aberta com a ferramenta criada e mantida por terceiros -- no caso em exemplo a MS -- ferramenta a qual você não é proprietário mas é apenas um usuário licenciado.
A tal ferramenta de software pode ser modificada a cada nova versão, ou até mesmo descontinuada por o «fabricante» -- sendo o seu documento em consequência «desatualizado» ou «descontinuado» e tornada inacessivel a informação que você julgava de sua propriedade ...
Assim, meu amigo, aquela planilha que lhe deu tanto trabalho pra fazer no Excell na verdade não lhe pertence:
a Microsoft é que é a legítima dona!
Você e seus amigos são apenas «licenciados» por a MS a utilizá-la!
Algo diferente disto tem um nome:
pirataria!
Veja que a questão do software livre e do código aberto não tem somente o aspecto da gratuidade, como normalmente se pensa pois este é o aspecto mais visível, mas também envolve problemas de estratégia e propriedade da informação.
Sensível a este problema, o governo da França determinou que órgãos públicos somente utilizem arquivos que correspondam a uma padronização Iso de documentos, que na verdade existe e é centrado nesta padronização -- Iso / IEC 26300.2006 -- que se desenvolve a suite Open Office -- que no Brasil atende por o nome de Br Office.
O nosso Governo Federal já determinou que empresas e instituições públicas adotem o Br Office e o padrão Iso -- Exército Brasileiro, Caixa Econômica, etc..
O Gnu / Linux para mim significa uma mudança de cultura.
Adotando o software livre e aberto, bem como os formatos padronizados de documentos, estou manifestando a minha liberdade:
liberdade de manter meu Sempron de 1.6 GHz e 1 GB de memória RAM ativo por alguns anos mais -- e não ter que trocá-lo por um quad-core de 4 GB-RAM, por causa dos requisitos do Ruindows Vixta e do Office 2007-h yper para o!
Liberdade de manter-me honesto, sem sequer estar exposto à tentação de copiar e instalar qualquer software pirata ou de versão «trial» que arrisque a infectar e desconfigurar meu computador, por causa de um.
DOC que precisa ser editado no formato mais uptodate possivel ...
Os repositórios Debian / Ubuntu -- o Kurumin / Kubuntu é a minha preferência pessoal -- possuem mais de 20.000 pacotes de software, plenamente funcionais, legais e geram arquivos de acordo com as especificações Iso.
O custo disto é:
comprar livros, estudar e aprender -- o que não é tão chato, nem é tão dificil assim ...
Este é o novo paradigma:
ganha-se dinheiro ainda, mas com serviço e suporte de qualidade, com ferramentas que gerenciam informações com segurança e certificação;
não forçando usuários a se tornarem reféns de um formato proprietário, nem os obrigando a se «atualizarem» em hardware e software a cada dois anos (ou menos), nem nos convertendo em desonestos «piratas da informação».
Projeto Software Livre Br:
http://www.softwarelivre.org/ Site do Br Office.
org: http://www.broffice.org/
Padronização Iso para aplicações Office:
Iso / IEC 26300.2006
Site do Kurumin-NG:
http://www.kurumin-ng.com.br/ Site da Canonical Foundation:
Número de frases: 35
http://www.canonical.com/ É isto.
Há muito tempo não víamos no cinema brasileiro um assunto tão delicado tratado com tamanha sensibilidade.
«Batismo de Sangue» é daqueles filmes que, ao sairmos do cinema nos perguntamos:
Onde está nossa juventude, onde estão nossos ideais já que vivemos uma democracia?
Será que somente sob repressão acordamos e nos tornamos sujeitos da história?
O filme do mineiro Helvécio Ratton vem sacudir quem conheceu a ditadura apenas por os livros e reavivar a indignação contra o arbítrio por parte daqueles que viveram a época, apesar de que, às vezes, temos a impressão que este último grupo ao mesmo tempo agradece a Deus por pertencer a uma geração que injetava utopia nas veias.
A palavra alienação não fazia parte de suas vidas.
«Batismo de sangue» evoca a liberdade, ao mesmo tempo em que revela uma história recente, ignorada por muitos e velada por uma elite governista.
A ditadura traz com si tristes recordações, mas ao mesmo tempo marca um período em que o conformismo cede lugar à luta, à convicção de que cada indivíduo é agente transformador da história.
Aliás, os anos 60 são marcados por as lutas em meio a repressão, dentro e fora do Brasil.
A o escrever o livro que se transformou em filme, Frei Betto revive a saga do grupo de frades dominicanos na luta contra a ditadura militar.
Ele teve a coragem e a ousadia de tocar em sua própria ferida e relatar um período de grande sofrimento, embora seja uma lição de fidelidade aos ideais de uma geração que apostava num país melhor.
As imagens carregam tamanha força estética que, não por acaso, um dos prêmios recebidos no Festival de Brasília foi o de melhor fotografia.
A equipe conseguiu uma transformação tão grandiosa e coerente dos cenários e personagens com a época e a temática que os diálogos acabaram ficando em segundo plano, em diversos momentos.
Dois pontos altos do filme são as cenas de tortura dos frades e o sofrimento de Frei Tito, personagem vivido por Caio Blat.
Queriam forçá-lo a delatar pessoas e assinar confissões.
Impossível para uma pessoa que «preferia morrer a perder a vida» conforme escreveu em sua " Bíblia.
Batismo de Sangue " ainda consegue uma unidade de interpretação rara e eleva a auto-estima dos atores mineiros.
Sabemos que fazer filme no Brasil não é tarefa fácil.
Em Minas, parece ainda mais complicado, apesar de termos em Belo Horizonte uma excelente equipe de atores e técnicos.
Este foi sem dúvida, um dos melhores filmes produzidos nos últimos anos e um divisor de águas para Minas e para os atores mineiros.
Daniel de Oliveira, Odilon Esteves, Léo Quintão e Marku Ribas são parte do elenco.
E vale ressaltar que Marku Ribas foi uma das grandes revelações do filme no papel do líder revolucionário Carlos Marighella.
Alcides Buba Jr.
Cláudio Vieira Eduardo Soares
Número de frases: 25
Francislane Priscilla Gildemir Lima
por Ronald Augusto
Antes de tratar do objeto desta resenha, isto é, o livro Bala, do poeta Luis Turiba, abro parêntese para uma breve rememoração (como se verá mais a diante, não nos desviará do foco inicial), rememoração que diz respeito à alegria que experimentei ao me deparar com Bric-a-Brac, revista brasiliense dos anos 90 dedicada à poesia e às demais formas de arte.
Com um design gráfico atento tanto à experimentação quanto ao mais alto padrão visual estabelecido por as publicações do período, Bric-a-Brac chegava afirmando o ecumenismo quer no campo estético, quer no campo das idéias.
Para exemplificar até que ponto se entrelaçavam em suas páginas a mestiçagem cultural e a vocação pan-semiótica, destaco algumas colaborações do número de dezembro de 1990: um poema de Haroldo de Campos;
canção de Caetano Veloso;
artigo de Paulinho da Viola;
Antônio Risério levantando idéias " Para uma viagem poético-antropológica removeme;
Carlos Ologunci jogando na mesa os búzios d' " A influência africana no falar brasileiro;
uma seção de poemas visuais e, por fim, entrevista de Mário Quintana concedida à Alice Ruiz.
Ademais, o conselho editorial da revista abrigava, entre outros, o bibliófilo José Mindlin e o poeta concreto Augusto de Campos.
Bric-a-Brac se abria, portanto, ao traço forte da tradição vida e à troça da subversão permanente.
Em este sentido, sua imagem, para um olhar de hoje, parece ratificar a tese de que as manifestações artísticas das décadas de 80/90 foram marcadas, grosso modo, por uma espécie de ecletismo retrô.
Fecho parêntese.
Muito bem.
Mas, o leitor deve estar se perguntando a essas alturas, o que o poeta Luis Turiba tem a ver com isso?
Tudo, meu caro.
Bric-a-Brac foi concebida, editada e mantida por ele, e é de mencionar, ainda, sua participação na concepção das capas e na instigação de temas à equipe de colaboradores da revista.
Luiz Eduardo Resende e Lucia Miranda Leão foram os outros editores.
Mas, se Bric-a-Brac foi pós-moderna, isto é, dá-se a ler, agora, como signo e produto de uma época que entroniza o relativismo como polifonia, a poesia de Luis Turiba, não obstante lidar criticamente com ressonâncias desse estado de espírito, representa um deslizamento sobre a superfície desse e de outros ismos, retidos na sucessão conflitante de tempos e espaços.
Com efeito, um poema também se define historicamente e esta divisa não é recusada por Turiba.
No entanto, consciente da efemeridade da experiência presente, Luis Turiba lê ou re-inventa o mundo por meio de sua linguagem-lábia transtemporal.
O poeta menos se arraiga no tempo do que o atravessa.
à primeira vista, sua poesia coincide com o que parece ser:
imemorial, bebe de águas egípcias;
transatlântica, estabelece trocas entre o yorubá e o nheengatu;
moderna; antropofágica;
concreto-tropicalista, etc..
A poesia de Bala parece, mas não se confina apenas a estes estilemas.
Em a verdade, salta, num passo de brincante, sobre tudo isso.
Poesia do encontro Hermes-Exu, divindades do trânsito, do translado de signos, das línguas e dos escambos sócio-culturais.
Poesia do cyberspace como holocausto aos deuses que presidem a zona de fronteira entre o aquém e o além-túmulo.
Em este livro, Turiba investe na tematização dos «tempos híbridos».
De minha parte, gosto de vislumbrar em seus poemas a tentativa de fazer o tempo experimentar sua húbris:
ele se converte em signo de um presente eterno que se anula, estanca, já mudado em espaço, território.
Um aqui mais do que um agora.
Em Bala, o presente encarna um lugar sem margens, a arena de mundos possíveis que se entrechocam, círculo, a um tempo, vicioso-virtuoso.
O conjunto de poemas contidos entre as capas de Bala, se resolve numa épica fragmentária.
Encenação de migrações, cruzamentos de gentes e culturas.
Mas, atenção:
encenação, esta, plasmada no procedimento mesmo da linguagem.
Poesia permeável à falação do mundo.
Turiba, portanto, também sabe se contrapor, quando necessário ao Mallarmé da esterilidade que dizia fumar apenas para lançar um pouco de fumaça entre ele e o mundo.
Bala, ao contrário, se mostra fecundo, porque atravessa e é atravessado por o cinema falado dos «corações e mentes da corrente planetária».
Um desdiscurso-livro ou um livro de transviagens.
Verdadeiro bloco de anotações e conotações corrosivas num job de campo sobre o acabar-começar de ideologias e culturas díspares em processo de fusão.
Bala, fabulação cujo nascedouro-sumidouro localiza-se no vocábulo-idéia sempre fora do lugar, que enche as medidas, para desespero da mentalidade logocêntrica.
Segundo Turiba, com os poetas-bebês, «desaprendemos a logística da sintaxe e criamos as tais desequações lingüísticas que ficam zoando por aí».
Em este livro, tudo está no seu lugar e tudo transborda, graças a Oxalá.
Rio em estado de carnaval mastigando suas margens, o texto desse Luis Turiba heraclítico parece querer inundar a vida de linguagens, com a intenção de que ela emerja, exsurja sob outra roupagem, dessas águas sempre recomeçadas.
De acordo com Décio Pignatari, um bom poema fala de tudo e de nada ao mesmo tempo.
Por outro lado, o poema não é senão linguagem.
A flor ausente de todos os buquês é a palavra flor.
Turiba está ligado, ele sabe o que se esconde no avesso do poema, tanto que, em «Tecnotribos 2072» (pg. 97), cita a seguinte passagem extraída do livro Arco e a Lira, de " Octavio Paz:
«O poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana».
Erosão e eros da linguagem, para Luiz Turiba a poesia é uma ferida-fissura que não sara nunca.
Mas, a «bala perdida encontra (o) coração solitário», carga de fogo que afugenta o tédio por um breve momento.
Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961.
Poeta, músico, letrista e crítico de poesia.
É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) e Confissões Aplicadas (2004).
Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature:
a special issue, vol. 18, n0 4, Baltimore:
The Johns Hopkins University Press (1995), Dichtungsring -- Zeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2002, colaborações em diversos números, poesia verbal e não-verbal) www.dichtungsring-ev.de.
Artigos e / ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura:
Babel (SC / SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA), Caderno de Cultura do Diário Catarinense (SC), Suplemento Cultura do jornal Zero Hora (RS);
Revista Dimensão nº 28/29, tradução de poema de e.
cummings (MG);
Revista AT (MG);
Revista Roda -- Arte e Cultura do Atlântico Negro (MG);
www.germinaliteratura.com.br; www.slope.org;
entre outros.
Assina os blogs:
www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com e www.poesia-pau.zip.net.
Ministra oficinas de poesia e é integrante do grupo os poETs.
Número de frases: 74
E-mail:(dacostara@hotmail.com).
Os festivais de cinema no Brasil são a principal janela de exibição de filmes nacionais.
Atualmente, entre mostras competitivas e informativas, existem no país aproximadamente 110 certames cinematográficos.
Como a qualidade da produção nem sempre é proporcional à quantidade, os festivais acabam disputando acirradamente os filmes candidatos a suas respectivas seleções.
Isso tem feito com que os festivais de cinema brasileiros deixem de ser um espaço para o debate da sétima arte e das questões que envolvem a produção, distribuição e exibição do cinema brasileiro, para se transformarem em meras plataformas de lançamentos.
As especulações em torno desse tema ganharam força a partir do ano passado, quando o tradicional Festival de Brasília do Cinema Brasileiro fez valer o item do seu regulamento que exige ineditismo dos filmes candidatos ao troféu Candango, retirando da competição o filme «Quarta B», de Marcelo Galvão, que aceitou o convite da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ocorrida tradicionalmente em outubro.
A decisão do Festival de Brasília, coordenada por Fernando Adolfo, acirrou o clima de tensão reinante no inflacionado mercado das maratonas cinematográficas do país.
Em esse contexto, a 30ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, prevista para o período de 20 de outubro a 2 de novembro de 2006, terá nesta edição uma contribuição especial de sua patrocinadora oficial -- a Br Petrobras em benefício do cinema brasileiro.
Os filmes brasileiros de longa-metragem, ficção e documentários da seleção da 30ª Mostra irão concorrer ao Prêmio Petrobras Cultural na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo com um total de R$ 600 mil para os dois filmes apontados como os melhores por o júri do festival.
Com R$ 400 mil destinados para o melhor longa-metragem de ficção e R$ 200 mil para o melhor longa-metragem documentário.
Estes prêmios complementam o edital Petrobras de difusão de filmes de longa-metragem, com inscrições abertas através do seguinte endereço eletrônico:
www.petrobras.com.br/culturaesporte, e uma verba total de R$ 4 milhões.
O edital tem por objetivo apoiar o lançamento de filmes brasileiros no mercado exibidor.
Essa gorda premiação da mostra paulista, também denominada de Mostra Br por razões óbvias, deixou de cabelo em pé os organizadores do Festival de Gramado -- cuja 34ª edição está prevista para acontecer de 14 a 19 de agosto, se conseguir solucionar a tempo as pendências orçamentárias agravadas por o escândalo envolvendo seu ex-presidente Enoir Zorzanello, afastado da direção na semana passada, que abriu mão do ineditismo.
A o que tudo indica, a festa gaúcha, que há anos luta para recuperar o prestígio de outros festivais, parece garantida.
Entre os filmes selecionados para concorrer ao Kikito estão obras de diretores de vigor estilístico do calibre de «Kiko Goifman (Atos dos Homens», que aborda a violência na Baixada Fluminense) e» Andrea Tonacci (Serras da Desordem», um índio nômade que escapa de um ataque surpresa de fazendeiros e que durante dez anos perambula sozinho por as serras do Brasil central).
Em esse contexto, diante do convidativo prêmio da Mostra Br de São Paulo, essencial para o lançamento de qualquer filme no Brasil, quem deverá sofrer o impacto é o festival candango.
Com premiação total de R$ 475 mil, distribuídos em várias categorias, sendo que o melhor filme de ficção leva R$ 80 mil, o Festival de Brasília abre suas inscrições no próximo dia 15 para a mostra competitiva que acontece de 21 a 29 de novembro, sem abrir mão do ineditismo.
Em esse campo de batalha em que se digladiam brasilienses e paulistas, os cariocas correm por fora.
O Festival do Rio disputa com a Mostra de são Paulo em outro nível:
o da oferta de melhores atrações para o mercado internacional.
Assim como o certame paulista, o festival carioca abriga uma competição brasileira dentro da programação internacional, a Primière Brasil, que atrai a atenção dos produtores brasileiros porque significa uma ótima oportunidade de maior visibilidade para seus produtos perante os distribuidores estrangeiros que participam do festival, aumento as chances de inserção no mercado exterior.
Em esse sentido, tanto o Festival do Rio -- que este ano apresenta sua sessão de pré-estréias nacionais de 22 de setembro a 5 de outubro -- quanto a Mostra Br de São Paulo cumprem bem os seus papéis de importantes janelas para a produção nacional.
Resta saber agora se a credibilidade de 35 anos do festival mais politizado do Brasil falará mais alto do que o chamariz financeiro da tradicional mostra paulista, capitaneada por Leon Cakoff, que no ano passado exibiu 54 títulos na competição brasileira.
O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é o mais antigo do país e a cada ano se fortalece, atraindo cada vez mais público, imprensa e diretores, que escolhem o festival para exibirem pela primeira vez suas produções.
O evento nasceu da iniciativa da Fundação Cultural do Distrito Federal, que na época comemorava a transferência da capital federal, em 1960.
Com o apoio da Universidade de Brasília (UnB), de seus alunos e ilustres professores -- entre eles Paulo Emílio Sales Gomes e Jean-Claude Bernardet -- foi criada a Semana do Cinema Brasileiro.
A efervescência dos acadêmicos, do público em geral e do Cinema Novo, que arrebatava platéias e prêmios em várias partes do mundo, fizeram com que o evento tomasse fôlego e crescesse.
A partir de 1967, passou-se a chamar Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Desde então, ele vem ocorrendo anualmente, inclusive durante o regime militar.
A ditadura apenas não permitiu que o festival se realizasse entre 1972 e 1974.
Há 35 edições, o festival tem sido local de intercâmbio de experiências entre produtores, cineastas, distribuidores e novos realizadores.
Em pauta, sempre estão as principais questões que nosso cinema enfrenta, como políticas de apoio, incentivos, distribuição e estética.
Sem deixar por menos, a Mostra Br De Cinema -- Mostra Internacional de Cinema de Internacional de Cinema de São Paulo.
O evento chega à sua 29ª edição com todo o vigor.
São duas semanas de intensa programação cinematográfica com cerca de 350 filmes de mais de 50 países.
Uma pluralidade de títulos que procura entender o outro, sem desviar olhar da produção nacional.
São pelo menos quatro premiações nas seguintes categorias:
documentário, longa e curta-metragem de ficção para filmes brasileiros, além da premiação para novos diretores.
como se pode deduzir, o fato é que o panorama do circuito de festivais nunca será o mesmo depois de outubro próximo.
Uma certeza também fica:
Número de frases: 41
nessa guerra dos festivais, quem sai ganhando é sempre o público e o cinema brasileiros
A literatura conta a história da vida.
A partir desse axioma desenvolvo algumas considerações sobre as quais há muito matuto e, para mim, são inquietantes para o futuro de nossa produção literária.
Não vou aqui ater-ma citações, transcrições ou coisas do gênero porque fugiria ao propósito dessa opinião, obrigando-me já a elaborar uma tese ou coisa que a valha.
A literatura corre parelha às grandes movimentações humanas que transformam a face da sociedade e do mundo, chegando primeiro ao leitor que a própria história oficial dessas ações.
A meu ver é assim que acontece.
Ao longo dos tempos temos visto que escritores de calibre surgiram nesses momentos cruciais -- escolas literárias e pictóricas são criadas como expressão dessas transformações, reportando-os.
A literatura e os escritores têm que estar imbricados ao ser humano, às suas inquietações, aspirações e transformações, pois conta justamente a sua vida, para não correr o risco de tornarem-se obsoletos, mortos, verdadeiras peças de museu.
Grandes autores não contemporâneos dessas transformações ainda assim têm a oportunidades de explorá-las como cenário de suas histórias.
Que não pareça a quem ler essa opinião que defendo que toda literatura tenha que ser exclusivamente histórica.
Apenas nesse momento estou abordando esse assunto.
Arrisco-ma dizer que hoje vivemos esse vácuo na literatura brasileira.
Onde se encontram os nossos grandes escritores, porta-vozes dos momentos agudos de nossa história, como o foi Euclides da Cunha em Os Sertões?
Mundo afora isso é freqüente.
Quem não se lembra de Maiakovski e seus parceiros escritores e poetas, não só ativos na revolução bolchevique como intérpretes desses acontecimentos?
E Hemingway, relatando os fatos da Primeira Guerra Mundial e também da Guerra Civil Espanhola?
Outros autores foram também intérpretes não de momentos revolucionários, mas de transformações evolutivas.
E aqui no Brasil?
Uma vez mais pergunto onde estão os grandes escritores intérpretes dos nossos momentos mais importantes?
Enumero algumas transformações sociais que não geraram grandes obras;
e isso, a meu ver, não porque tenham sido insignificantes, que muito marcaram ou ainda marcam a nossa sociedade.
Seria por quê? Incapacidade de nossos autores?
Um exemplo:
o avanço da fronteira agrícola e populacional sobre a Amazônia Legal e o Centro-Oeste.
A luta do homem contra o próprio homem e a natureza nessas duas regiões foi e ainda é fantástica, manancial para grandes romances épicos e históricos.
Nada conheço de destaque tratando do tema.
Cadê esses registros?
Em todo o país temos a luta do homem pobre contra o latifúndio, a existência do Movimento dos Sem-Terra, o próprio movimento também uma excitante fonte para grandes romances.
O que existe de significativo sobre isso?
E sobre a saga de Serra Pelada, o maior garimpo aurífero do mundo?,
sepulcro de milhares de vidas e também de sonhos?
Saiamos das transformações coletivas e falemos sobre o indivíduo.
Lampião, o maior cangaceiro brasileiro, ainda carece de uma biografia definitiva, de um romance rico, verdadeira referência sobre ele e o seu tempo, que esteja à altura de sua significação histórica.
O mesmo digo sobre Zumbi dos Palmares.
E sobre Tiradentes?
Não falo aqui de teses universitárias ou ótimos trabalhos de pesquisadores sobre o tema ou a personalidade.
Esse tipo de trabalho é importante e fundamental, mas dentro do aspecto que abordo seria bibliografia, material de pesquisa para um romance.
Falo, pois, da ficção.
Temos ainda outros momentos e personalidades de nossa história importantes e que praticamente foram esquecidos.
Sabem quem foi Cunhambebe, Pindobuçu, Aimberê, Coaquira e tantos líderes?
E Iperoig?
E a Confederação dos Tamoios?
Foram eles líderes da revolta indígena Confederação dos Tamoios contra a violência portuguesa em meados do século XVI, que os matava para ocupar suas terras ou os escravizava como mão-de-obra nos engenhos de cana-de-açúcar do litoral sudeste brasileiro.
Iperoig foi a praia, hoje do Cruzeiro, em Ubatuba, onde foi assinado o primeiro armistício das Américas entre os índios tamoios (Confederados) e os portugueses, pondo fim à luta.
Acredito que o escritor é um perpetuador da história do homem, e os nossos estão deixando essa história morrer.
Número de frases: 45
Esta é afirmação do estilista Otávio Meneses que, a convite de um showroom que divulga a moda brasileira na Europa, participa de evento fashion na Alemanha.
Um dos poucos designers de moda do Piauí que aposta todas as fichas num trabalho autoral fugindo da tentação do mercado massivo de moda, Otávio Meneses fala sobre suas criações e faz severas críticas ao segmento fashionista local.
Fale sobre o evento na Alemanha em que suas roupas estão participando.
Otávio
MENESES: É uma feira em que participo a convite da Casa Moda Brasil, um showroom que divulga a moda brasileira na Europa.
Lá, haverá um desfile com oitos looks de cada empresa agenciada por a casa.
Eu tenho apenas uma participação especial por a limitação da produção e falta de estrutura para exportação.
A coleção será ainda o Vento, que realmente despertou interesse de vários compradores de todo Brasil e de alguns países.
Realmente, não procurei compradores internacionais para esse trabalho.
Fui procurado por a diretora da Casa;
segundo ela, meu trabalho era maravilhoso e tinha tudo a ver com a proposta do showroom por ser autoral, com identidade brasileira e ao mesmo tempo internacional.
Desenvolvi novas peças dentro do conceito, pensando na mulher européia.
Tenho consciência que mercado internacional é complicado:
temos uma das taxas de juros mais altas do mundo que onera bastante o produto, falta profissionalismo, cultura de prazo.
Por falar em coleção, no que está trabalhando atualmente?
Vem aí algum lançamento?
OM:
Estou desenvolvendo uma linha de acessórios para uma empresa, pesquisando para novos projetos, atendendo alguns clientes com peças exclusivas.
Coleção é um pouco complicado.
Já torrei muita grana.
Realmente falta patrocínio, tive que cancelar participação em alguns eventos fora do Piauí.
Existem alguns equívocos quando se fala em coleção.
Têm pessoas que pensam que é fazer 40 peças de roupas e jogar na passarela.
Realmente coleção exige muita pesquisa, desenvolvimento do produto, uma equipe primorosa para desenvolver o pensamento do designer e isso tudo sai muito caro.
O que inspira o estilista Otávio Meneses?
Para que tipo de mulher você cria?
OM:
Acho que tudo, principalmente imagens.
Tenho uma curiosidade e uma inquietação muito grande por o novo.
Sou ávido por informação, livro, cinema música, adoro pesquisa de rua em cidades urbanas, que existe atitude fashion.
Em Teresina sempre fui taxado de louco.
As pessoas confundem inquietação necessária para arte com loucura e atitude de vanguarda com avacalhação profissional.
A moda é cíclica.
Ela precisa do novo, sempre.
Um designer, mesmo fazendo um trabalho retrô, tem que olhar sempre para frente e ter atitude moderna em relação à vida, jamais ser uma pessoa banal e comum.
Tem que ter muita personalidade.
Eu gosto muito de liberdade de expressão, mas crio para uma mulher de atitude fashion que procura ter maIs estilo, seguir as últimas tendências de moda;
para uma mulher chique sem vício burguês ultrapassado.
Adoro Kate Moss.
Ela sabe reinterpretar a roupa de acordo com sua personalidade, tem uma atitude moderna e cool e uma mulher super atual.
Você é um dos poucos estilistas piauienses que consegue se manter com trabalhos autorais, personalizados.
Nunca pensou em trabalhar para uma marca local ou grife?
OM:
Já tentei, mas os salários são incompatíveis com o mercado e as empresas geralmente não têm estrutura para desenvolver um trabalho de estilo.
Realmente se copia muito.
Não só no Piauí mas em todo o Brasil.
Falta uma identidade brasileira na moda sem cair em clichê.
Já fiz moda indústrial no eixo Rio-São Paulo, foram experiências interessantes, tudo tem o seu momento.
Já desenvolvi uma linha para a C&A no Rio que um modelo chegava a 12 mil peças.
Realmente tomava um susto quanto chegava na fábrica mas depois era gratificante ver centenas de pessoas vestindo peças criadas por mim.
Gosto de experiências novas.
Já criei até alguns tapetes para uma a Trapos & Fiapos, que tem um trabalho super bacana.
Eu apenas sobrevivo, trabalhar com moda não é fácil.
Junto com outros estilistas, você participou da primeira edição do Cara Piauí.
Depois não participou de mais nenhuma.
O que aconteceu?
Foi deixado de lado ou foi o evento que mudou de foco?
OM:
Acho que o evento mudou de foco, mas a moda precisa tanto da indústria que gera emprego e renda como das experimentações do designer.
Em o projeto faltou apoio para os designers continuarem o trabalho.
Tive problemas com alguns técnicos.
Segundo soube, estão me dando gelo.
Isso só acontece no Piauí porque lá fora sempre fui tratado com muito respeito por as pessoas especializadas em moda.
Tive uma trajetória de trabalho fora do Piauí sem problemas.
Comecei a utilizar o artesanato na moda antes deste blá blá.
Entra até a questão do Valter Rodrigues que é uma pessoa que admiro profissionalmente.
Utilizamos a mesma matéria prima em trabalhos com características diferentes, ambos tiveram repercussão, mas como sou de um Estado que não tem força econômica e nem tradição em moda.
De o meu pouco se falou em Teresina.
O Piauí ainda tem uma cultura proviciana de só valorizar o que é de fora.
Tem pessoas aqui batalhando para fazer moda com muita dificuldade e coragem.
O que é mais importante para quem lida com moda no Piauí:
vender, ter seu trabalho reconhecido ou fazer sucesso?
OM:
Antes de tudo desenvolver um bom trabalho.
Isso é extremante importante, sucesso é conseqüência.
Não deve ser objetivo de ninguém na vida.
Sempre tentar melhorar é uma busca pessoal e não competitiva.
O que você acha do cenário da moda no Piauí atualmente?
Existem realmente novos talentos ou apenas se copia as tendências do grande mercado nacional?
OM:
Moda no Piauí é muito recente.
Teresina tem uma juventude superbonita e moderna que está num processo de ebulição, com certeza vai surgir gente com boas idéias.
Falta uma direção de trabalho quanto à identidade, mas isto realmente
é só com o tempo, sem atropelos.
Quanto à moda, não é só no Piauí mas em todo o Brasil, as pessoas estão muito iguais sem personalidade.
Tem a questão econômica;
o foco da maioria das empresas piauienses é o norte onde realmente a informação de moda é muito limitada.
Em o Brasil a única cidade que tem uma atitude fashion de moda e comportamento é indiscutivelmente São Paulo.
É caro vestir Otávio Meneses?
OM:
Número de frases: 90
Tudo é caro, matéria-prima, mão-de-obra, etc.
Ainda permanecem quase desconhecidos os poemas, romances e roteiros escritos por o cineasta Mário Peixoto (1908-1992).
A trajetória literária de Mário iniciou na década de 30, quando lançou Mundéu, livro que fez Mário de Andrade vê-lo como uma revelação poética, e O inútil de cada um (1933), romance que teve uma segunda versão, publicada em 1984.
O livro ainda inédito Poemas de permeio com o mar, que possui muito da força das imagens de Limite, foi escrito da década de 1930 até a década de 1960.
Os poemas de Mário Peixoto revelam a impossível separação entre texto e imagem.
As palavras desenham visíveis movimentos.
Os versos parecem ser determinados por uma intensa visualidade do eu poético, e a linguagem cinematográfica explicitada em Limite marca também a percepção poética na obra de Mário Peixoto, com poemas que vão além dos limites dos versos e chegam próximos às imagens do filme.
Imagens e palavras se misturam na obra de Mário Peixoto, em trocas recíprocas e inesgotáveis.
Imagens se multiplicam indefinidamente, desnorteando o sujeito poético dos versos de Mundéu (1931) e Poemas de permeio com o mar, o narrador do romance O inútil de cada um, e a câmera que narra Limite (1930):
facetas da voz que se recusa à personificação e que podemos «identificar por uma semelhança entre o tom que estas vozes assumem e as complexas questões existenciais e estéticas a que nos remetem».
A linguagem poética de Mário prende-nos em algumas armadilhas, imagens nos conduzem a um estado de torpor, e nosso olhar torna-se cada vez mais turvo, por conta da confusão sensorial apresentada nos textos.
Imagens se impõem em seus poemas, que não deixam outra possibilidade se não aceitar e acompanhar o movimento.
Acabamos imersos numa complexa rede de imagens velozes e vertiginosas.
É evidente uma certa organicidade na obra de Mário Peixoto, que assume formas diversas e acaba retornando insistentemente, como imagem que está sempre defluindo dos mesmos núcleos temáticos.
Este fato não ocorre apenas no filme, mas nos poemas e romances, com a particularidade das imagens de cada um destes serem essencialmente as mesmas já que, apesar de se distanciarem, possuem uma correlação temática.
Suas imagens poéticas sempre revelam realidades irreais, simulacros inevitáveis, porém revelando uma profunda coerência, através de imagens que evidenciam uma unidade.
Por isso sua escrita jamais vela as imagens, pelo contrário, sempre as revela.
«A o inventar a escrita, o homem se afastou ainda mais do mundo concreto quando, efetivamente, pretendia de ele se aproximar», afirma Flüsser, o que nos leva a pensar que, na obra de Mário Peixoto, a percepção da contradição na palavra permanece, nos aproximando e distanciando da realidade concreta.
A linguagem, em sua obra, será sempre metamorfoseada, como uma construção -- com todos os perigos e promessas.
Referências bibliográficas:
Farias, Otavio.
Eu creio na imagem.
In: O fan, vol. 6.
Rio de Janeiro, 1929.
Mello, Saulo Pereira de.
Mário Peixoto -- Escritos sobre cinema.
Rio de Janeiro: aeroplano, 2000.
Peixoto, Mário.
Limite." scenario " original.
Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996.
Rocha, Glauber.
Revisão Crítica do Cinema Brasileiro.
Número de frases: 32
Paulo: Cosac & Naify, 2000.
Recentemente, numa lista de discussão de que faço parte, houve a clássica discussão sobre qual o problema do rock baiano:
«Por que o público não aparece?», "
Por que só existe um lugar pra fazer show?», "
Por que o som é sempre ruim?», "
Por que os shows só começam uma da manhã?"
«Por que? Por que?
Por que? Por que?
² cantava a Maria Bacana, no final dos anos 90.
Descobri o punk muito cedo, com 10 anos.
Em 1989, muito depois do punk ter nascido, a porra do Bahia foi campeão brasileiro.
Zé Carlos, marido de minha mãe, é torcedor do Bahia e foi com ela assistir ao jogo da final no Beira Rio, em Porto Alegre.
Sou torcedor do Internacional até hoje.
Um mês depois, chego da escola e minha mãe me apresenta a um amigo de ela.
-- Esse é Carlinhos Vergueiro, um amigo meu, acabou de lançar um disco.
Ele levou o disco recém-lançado de presente, disco esse que comemorava 15 anos de carreira.
Ele na foto, bonitão.
Foi a primeira pessoa que conheci que tinha um disco.
E ele estava lá por outro motivo.
Por gostar muito de futebol, fez uma música para o Bahia e seu título e foi mostrar para a Zé Carlos.
Mas Zé Carlos não estava.
-- Eu posso gravar ela, então -- disse ele.
-- E depois você manda pra mim?--
perguntou minha mãe.
-- Não precisa, vou gravar agora.
-- Hein?
«Gravar agora?
Aqui em casa?
Como? Com que microfone?»,
pensei.
Pegou o Gradiente duplo deck, colocou uma fita TDK minha, afinou o violão, fez «hamham» pra limpar a garganta, pediu silêncio, apertou REC e PLAY ao mesmo tempo e gravou.
-- Minha voz saiu um pouco grave e áspera, vou fazer mais uma vez.
E pronto.
Dois takes.
«Porra, é assim que grava, é?»,
pensei eu.
O cara tinha um disco gravado, era profissional, era ele na capa do disco e ele gravava igual a mim (diferente só o tema).
A primeira vez que me apresentei em público foi no Colégio Anchieta, em 1992.
Eu era da sétima série e outros alunos da sexta fariam uma apresentação no pátio, no fim da aula.
Eles não tinham cantor e eu disse que cantava.
Tivemos apenas um ensaio, no dia da apresentação, na casa do avô do baterista (onde ficava a bateria), que era neto de Jorge Amado.
Durante uma manhã inteira, a bucólica casa de Jorge e Zélia no Rio Vermelho se encheu com as idéias de Bob Dylan, através de minha voz, cantando Knockin'On Heaven's Door ³.
Hoje fico me perguntando " será que Jorge estava por ali, no andar de cima, ouvindo?"
Imagino ele e Zélia no quarto, comentando sobre a banda do neto e as músicas que tocavam.
Também ensaiamos Planeta Morto, uma música que os Titãs fizeram pra algum programa infantil da Globo.
Era semana da natureza ou algo assim, então tinha que ter uma música com o tema.
Depois da apresentação, fui recomendado por todos do colégio a esquecer de vez a carreira de cantor.
Eu estava tocando com uns amigos numa banda chamada Aguarraz.
Uns meses atrás, aconteceu a chance da banda tocar numa escola.
Incentivei o projeto.
É o melhor público para uma banda que está querendo e precisando mostrar seu trabalho.
Antes de mais nada, é um público sóbrio.
No máximo, uns iniciantes na maconha, o que já é melhor que os bêbados do Rio Vermelho, a uma hora da manhã, no mesmo lugar, mesma iluminação, mesmo cenário, entre a fumaça incessante dos cigarros.
Vou cada vez menos a shows.
Viva os 30.
Um amigo meu, no dia do seu aniversário de 29 anos, recebeu um telefonema.
-- Alô -- ele atendeu.
-- Aaaaahhhhhh, trintão, trintão, aaaaahhhhh ...--
gritava a voz do outro lado da linha.
Em a primeira oportunidade que ele teve, quando o outro parou de gritar, disse:
-- Primeiro lugar, é 29. Segundo lugar, ano que vem não lhe atendo.
Os adolescentes querem o máximo de informações por simplesmente serem adolescentes.
É a lei da natureza.
Ainda mais se tratando de rock and roll.
Tocar em escolas é ter à disposição um número enorme de espaços pra tocar, seja qual for a sua música.
Com a Aguarraz, tocamos no primeiro intervalo, para estudantes da 5º à 8º série.
-- Bom dia, nós somos a Aguarraz e vamos tocar rock and roll pra vocês -- disse Roberta, no microfone, após o término da primeira música.
E com pãozinho delícia na boca, ficaram ouvindo rock por 20 minutos.
Uns ignoravam, outros olhavam e não esboçavam reações, uma menina saiu correndo, de mau humor, porque queria falar no celular e o solo de guitarra não deixava, enquanto alguns outros olhavam fascinados.
Depois tocamos no segundo intervalo, para os mais velhos, do 1º e 3º anos.
Mesma coisa:
bom dia;
pãozinho delícia;
indiferença; no celular;
e 3 ou 4 fascinados com o som.
Talvez o primeiro show de rock de eles.
Esses 3 ou 4 são fundamentais para uma banda.
Em o mundo segmentado da internet, eles indicarão a banda pra centenas de pessoas idênticas a eles.
Em a ultima música, percebi que a pele de resposta da caixa (a que fica embaixo) tinha estourado.
Como ainda tocaríamos para os do turno vespertino, na hora do almoço fui comprar outra pele para trocá-la.
A apresentação vespertina começaria às 14:30. Cheguei mais cedo e tinha um grupo de estudantes em cima do palco:
uns estudavam, outros conversavam e um casal dava chupão atrás do palco.
Subi, puxei a caixa e, quando virei para ver a pele estourada, todos disseram «poooooOOOOOOooooorra».
A troca de pele foi o acontecimento do momento.
Nunca troquei uma pele com tanto público.
Acho até que já fiz show com menos gente.
Um de eles era baterista.
-- Eu percebi a mudança no som, quando a pele estourou.
Foi no finzinho da última música, não foi?
-- Foi -- disse eu.
Cercado de eles, enquanto soltava os parafusos, fui ouvindo as conversas.
-- Ali é Flavinha com aquele cara do terceiro ano, é?
-- É -- respondeu uns seis, ao mesmo tempo.
Em o primeiro show da tarde, para os mais novos, um ficou perturbando, fazendo piadinhas entre uma música e outra.
Toni, o guitarrista, virou pra mim e disse:
-- Rapaz, se esse pirralho continuar, vou no microfone ameaçar dizendo que vou chamar o Soe.
Toni, que tocou no Cascadura, também me disse que uma vez foi com a banda tocar no halloween de uma escola, e que tio Fábio teve que fazer sorteio de dentaduras de vampiro e máscaras de monstros.
Adolescente de hoje sai cada vez menos de casa.
Se diverte na internet.
Inclusive nas classes menos favorecidas, em lan houses de 1 real por três horas de navegação.
Mas para as escolas elas ainda têm de ir.
Seja pública ou privada.
Eles estão lá, de bandeja, para a banda ir lá e dizer «bom dia, vamos tocar rock and roll pra vocês».
Receber e-mails com «clique aqui e ouça minha musica, veja meu clip» eles recebem dezenas por dia.
Ver uma banda ao vivo é outra referência, que está cada vez mais rara, e talvez por isso, mais valiosa.
Não é à toa que, nos anos 80, o termo College Rock foi criado para rotular as bandas do pós-punk que venderam milhões após se apresentarem por anos nas universidades americanas.
De o R.E.M. ao Pavement, quando o termo sofreu mutações a se chamar Indie Rock, nos 90." Hey, kids, rock and roll», cantava Stipe.
Após a febre de Anna Júlia, o Los Hermanos fez um show em Salvador, no Rock In Rio Café, pra ninguém.
Ninguém. Tudo indicava que a banda parecia fadada a ser mais um Wonders.
O público cansou, a gravadora cansou, eles cansaram de tocar em festa de rodeio, peão e boiadeiro, que era o que vinham fazendo, o empresário cansou, o empresário novo pegou e disse:
-- Vamos focar nos estudantes.
A banda ficou um ano «sumida», tocando nos anfiteatros de escolas e universidades.
E, nas suas devidas proporções, ocorreu a progressão aritmética até onde eles foram.
Um amigo indicando para o outro:
-- Já ouviu o disco novo do Los Hermanos?--
perguntava um.
-- Eles ainda existem?
-- Vou te mandar as músicas.
Para a turnê do terceiro disco, eles queriam tentar Salvador de novo, mas estavam com medo.
Ligaram para a Luisão, que na época tocava com a Penélope, pedindo para ele produzir o show.
Ele não poderia, estava no Rio, mas indicou Rogério BigBross.
-- É um cara do rock de lá -- disse Luisão.
E até hoje não se sabe se tinha mais gente fora da casa de show, que foi no E D10, de propriedade do jogador Edílson e que só agrupava bandas de pagode, ou se dentro da casa, com todos cantando em uníssono todas as músicas da banda.
Muitos roqueiros baianos desistem do rock e, para manter o sonho da profissão de músico, vão tocar outras coisas.
Muitos ficam traumatizados.
Cansado de tocar em espeluncas com equipamentos de quinta, um conhecido meu, depois de anos dedicados ao rock and roll, aceitou ser guitarrista de uma banda de pagode.
O cachê seria bom, viajaria muito, bons hotéis e, melhor, o som de sua guitarra, a sua amada Fender Stratocaster, finalmente, soaria, constatou ele, ao chegar no palco para a passagem de som do seu primeiro show como guitarrista de pagode, e ver o amplificador dos seus sonhos montado.
Um AC 30 Vox esperando o plug de sua guitarra.
Ele não acreditou no que viu.
Em 15 anos de rock, nunca tocou naquele equipamento.
Os seus guitarristas prediletos usavam aquele amplificador.
Beatles, U2, Strokes ...
«Isso que é profissionalismo, ainda bem que larguei o rock», disse para si mesmo.
Sua guitarra foi feita para soar naquela caixa, de som definido, e não naquelas porcarias que o rock lhe dava, com som de carro de feira.
Em o rock, ele sempre foi otimista de que, um dia, a sua banda conseguiria um equipamento como aquele.
Mas o rock da Bahia nunca respeitou o poder de sua guitarra.
Era o pagode que o faria.
«Que ironia», ele pensou.
E não importava que era pagode.
O que importava era a comunicação entre ele e a guitarra.
Nada é mais prazeroso para um guitarrista do que o som de sua guitarra.
E num AC 30 Vox, nem se fala.
Com a guitarra pendurada, foi em direção ao seu brinquedo novo, o plug na mão desde longe mirando o buraco conector do amplificador.
Tudo ao seu redor era silêncio, estava em transe, concentrado apenas no momento de plugar a guitarra e ouvir aquele som mágico, ajustar os graves, médios e agudos, assim como o volume, os efeitos ...
Mas o máximo que conseguiu foi chegar a dois metros do AC 30 Vox:
-- Ô, maluco, a guitarra né aí não, viu?
-- Hein?--
respondeu ele, despertando.
-- A guitarra né aí não, a guitarra é naquela caixinha ali -- era o ajudante de palco.--
Esse amplificador aí é do cavaco -- finalizou ele.
Talvez essa seja a real diferença entre While my guitar gently weeps e Mandei meu cavaco chorar.
Trabalhando com produção, certa vez tive de ir parar atrás do palco de um show de Jorge Vercilo.
Putaquepariu.
Eu já não gosto muito de Djavan, mas mesmo assim fiquei lá observando o Vercilo, ouvindo aquelas músicas, maresia da porra, chato pra caralho, aí olhei para o tecladista e parei de reclamar minha sorte ao perceber que a situação de ele era pior, quando, no meio de uma música, ele mandou o arranjo, a melodia e a harmonia desta pra putaquepariu, ao tirar uma mão do teclado e olhar para o relógio.
PQP. O cara não devia tá agüentando mais.
Salvou minha noite.
Em a escola, na 3º série do primário, tia Zeni me ensinou que eu nunca, jamais, em hipótese alguma, deveria olhar para o relógio enquanto alguém estivesse se apresentando.
Meu avô descobriu o punk um pouco tarde, em 2007, na véspera de completar 90 anos.
«De o it yourself», o «faça você mesmo», era a palavra de ordem dos punks nos anos 70, querendo alertar que ninguém precisava saber tocar um instrumento para fazer uma música ou formar uma banda.
Com o tempo, o conceito foi direcionado para todas as áreas artísticas e sociais, inclusive sendo ampliado, saindo da esfera da criação e englobando também os setores de produção, como temos hoje o «não espere uma gravadora, grave seu próprio disco».
Desde que me lembro das coisas, meu avô reclama que os jovens hoje não têm mais acesso à poesia, ao parnaso, à leitura ...
e por isso o desinteresse geral.
Foi assim com o rock baiano nos anos 90, onde a grande massa mídiatica -- jornais, rádios e TVs -- ignorava o segmento, só mostrando, exaustivamente, Danielas, que hoje precisam fazer propaganda de detergente pra aparecer na televisão.
Meu avô já teve seus livros lançados, tempos atrás, mas poucos exemplares.
Sempre desejou muito relançá-los para espalhar suas idéias por aí, ainda mais que ficou todos esses anos de aposentado revisando e mexendo seus versos.
Mas ele achava que a única forma de lançar e divulgar um livro era através de uma editora.
Isso até eu fazer o meu livro, sem editora.
Tô indo nas gráficas com ele.
Fomos na EGBA -- Empresa Gráfica da Bahia --, mas lá não tinha o papel e nem a tinta para deixar a capa da cor que ele quer.
Ficou puto.
Achou um absurdo, com toda razão, uma empresa gráfica referencial na Bahia não estar hábil para pedidos tão simples, como uma cor amarelo-ouro e papel tipo verger.
Estamos visitando outras gráficas.
Vai fazer mil livros e dar todos.
-- Quero espalhar nas bibliotecas, universidades e escolas -- disse ele.
-- Yeah -- disse eu.
(1) Rock ' n ' roll high school, de Joey Ramone, por Ramones.
(2) Hélice, de André Mendes, por Maria Bacana.
(3) Knockin'On Heaven's Door, de Bob Dylan, por Guns and Roses.
(4) Planeta Morto, de Marcelo Fromer, Arnaldo Antunes e Sérgio Brito, por Titãs.
(5) Drive, de Bill Berry, Peter Buck, Mike Mills e Michael Stipe, por R.E.M. (
6) Anna Júlia, de Marcelo Camelo, por Los Hermanos.
(7) While my guitar gently weeps, de George Harrison, por Beatles.
Número de frases: 182
(8) Desafio (mandei meu cavaco chorar), de Tonho Copque, Xandy, Duller e Fábio Alcântara, por Harmonia do Samba.
Há uns seis ou sete anos, estive lá no morro da Pedreira, em Acari, para entrevistar o Zé Calixto, um sanfoneiro que dividiria a programação de uma série de shows no CCBB dedicado ao instrumento com Hermeto Pascoal, Sivuca e outros.
Lembro com carinho da visita e da conversa.
Fui recebida com um sorriso e um almoço caseiro delicioso feito por a dona Ritinha, mulher de ele.
Bom, essa introdução foi só para mostrar que Zé Calixto foi um personagem que me marcou, menos por o almoço do que por a prosa, é claro, apesar de ambos os aspectos da recepção demonstrarem uma simplicidade estimulante.
Simplicidade que não tem nada a ver com modéstia exacerbada, como pude constatar nesta nova conversa, motivada por o lançamento de seu disco «Zé Calixto, poeta da sanfona» (ouça uma das faixas aí do lado).
Nascido em Campina Grande e morando há quase 50 anos no Rio (dos 72 de vida), o paraibano adota o estilo-Pelé ao falar de si sempre na terceira pessoa e tem o nome gravado em letras garrafais na sanfona que mais usa em shows.
São formas legítimas de reforçar a identidade e a importância de seu trabalho, em tempos de variações que, na opinião de ele, são perigosas para o forró.
«Tem uns anos que a coisa está complicada, a cena foi invadida por bandas do Ceará que não fazem forró autêntico.
Já tinha antes, era bronca de vários companheiros que já se foram, como o Gonzagão e mais recentemente a Marinês e o Sivuca.
Enquanto isso Zé Calixto está cada vez mais velho, toca cada vez menos, mas tá aqui dando entrevistas e tocando o que acredita», diz ele.
De fato, no tempo que separa nossas duas conversas aconteceu bastante coisa.
Dois AVCs, há cerca de cinco anos, fizeram a memória passar a pregar umas peças e, conseqüentemente, o sanfoneiro diminuir o ritmo de shows.
Felizmente, pôde voltar à ativa pouco depois, lançando até um disco faz uns dois anos (o variado «Misturando os ritmos», em que toca até bolero).
Mas era um trabalho independente, sem distribuição, que chegou mais ao público que freqüenta seus shows e à Feira de São Cristóvão -- lugar que, apesar de ser o «quartel-general dos nordestinos», em sua definição, ele freqüenta pouco como músico.
«Só toquei lá umas duas vezes, eles não querem pagar o justo, só triozinho», lamenta.
Ainda assim, a vida vai bem, mesmo depois do susto da doença.
O disco novo, que sai dentro do Programa Petrobras Cultural, tem participação de grandes músicos e amigos, como Dominguinhos, o flautista Marcelo Bernardes e o violinista francês figurinha-fácil da-Lapa Nicolas Krassik.
Gente de todas as gerações e origens, bem de acordo com o nome escolhido para produzir o disco:
o jovem sanfoneiro Guilherme Maravilhas, o Mará do Forróçacana.
Perguntado sobre a opção por este produtor, ele dá uma resposta sincera.
«Temos que unir o útil ao agradável.
Papai do céu quer que a gente seja humilde.
Zé Calixto gosta de uma grande amizade.
Se dá bem com o pessoal dos novos grupos e mesmo com o pessoal dos grupos do Ceará», diz, para deixar claro que as diferenças estéticas não interferem nas relações pessoais.
Ontem (terça, dia 27), no show de lançamento aqui no Rio, fez miséria e teve toda a estrutura que preza.
A idade e a experiência fazem com que não abra mão do que considera padrão de qualidade.
«Não trabalho com trio, é muito pouco, até porque não canto.
Gosto de manter um violonista sete cordas, um cavaquinista, zabumbeiro, pandeirista."
Sem que ouça dona Ritinha, sua esposa, ele até assume que um dia gostaria de voltar de vez para o Nordeste.
Mas sabe que não tem condições, por a ligação sentimental com quatro filhos e nove netos nascidos e criados em solo carioca.
Dá a entrevista ao mesmo tempo em que acaba os preparativos da viagem para a temporada nordestina que inclui as cidades de Caruaru, João Pessoa, Recife e sua Campina Grande natal.
E ela não é motivada só por o novo álbum.
«Com disco ou sem disco, vou todo ano tocar nas festas juninas de lá».
Festas juninas que, como sabemos, não tem igual por aqui «embaixo», na opinião de ele por falta de bons músicos.
«Teve uma época em que muitos músicos nordestinos bons vieram morar aqui, mas hoje os melhores estão lá.
Hoje conto nos dedos os artistas que fariam uma festa junina arretada morando no Rio de Janeiro».
Com todo o respeito que nutre por os músicos daqui, ele observa que uma certa febre de " trios pé-de-serra criou uma falsa imagem do que seria o forró autêntico.
«Vejo muitos trios que não inovam, mas também não tocam o forró original».
Zé é de uma geração de sanfoneiros que toca de tudo.
Turma que começou no rádio e encontrou um espaço na noite e outro nas gravadoras.
Foi assim que consolidou seu lugar no Rio, gravando pela primeira vez na Phillips no ano em que chegou, 1959, e mantendo uma respeitosa estrada de 26 álbuns.
Tocou muito por o Brasil, inclusive com o compadre Luiz Gonzaga, que batizou sua filha Neide.
Quando a situação apertava, dispunha-se a realizar outras tarefas.
«Trabalhei um pouco com outras coisas, aprendi a emboçar uma parece, botar fechadura embutida, cortar um cabelo, afinar sanfonas», enumera.
Esta última função, aliás, está cada vez mais rara, a não ser nos dois ou três instrumentos que mantém em casa.
«Ainda afino algumas, mas lamentavelmente o oito baixos é um instrumento em extinção.
Vejo pouca gente aprendendo, há poucos professores, mesmo no Nordeste.
Preferem o acordeon, porque é mais fácil."
E resume:
«O instrumentista da sanfona de oito baixos em geral não é escolarizado, não aprendeu a ler partitura.
É o meu caso.
Mas se tiver um rádio ligado com si identificar na hora qual é o tom!"
Assim como Luiz deve respeitar Januário, como diz a letra do forró, por aqui o recado está dado:
Número de frases: 54
vamos respeitar -- e ouvir -- os oito baixos do Zé Calixto!
Os mato-grossenses freqüentadores do Sesc Arsenal devem ficar atentos por esses dias.
Será realizada em regime de urgência no congresso nacional, a votação sobre o futuro do Estatuto apelidado de Super Simples e que irá unificar oito impostos e contribuições de empresas com faturamento anual de até R$ 2,4 milhões.
O que o Sesc tem a ver com isso?
O parágrafo 3º do Artigo 13 do Projeto dispensa os micros e pequenos empresários dos encargos tributários destinados ao Sesi, Senac, Senai e do próprio Sesc.
Isso afeta diretamente as atividades das unidades da entidade, que dependem dessa arrecadação para custiar seus projetos -- e não são poucos.
De janeiro até setembro deste ano, somente na unidade Sesc Arsenal (Cuiabá-MT), foram oferecidos à comunidade mais de 240 espetáculos de dança, teatro e música;
e quase 350 atividades relacionadas às áreas de literatura, artes visuais e artes plásticas.
Em este período, aproximadamente 125 mil pessoas conferiram peças teatrais e musicais fora do circuito comercial -- que dificilmente chegariam até a capital de outra forma e sem recursos, se tornaram bem mais raras.
«O custo médio para trazer uma peça por o projeto ' Palco Giratório ' é de R$ 50 mil.
E o público tem a oportunidade de assistir a ela da forma como foi montada, com cenário e iluminação completos.
No entanto, o valor do ingresso, quando não é gratuito, é fixado com valor máximo de R$ 15,00, contando ainda com os descontos para estudantes e associados.
De essa forma, seria impossível para nós cobrir todos os gastos.
Se cortarem nossa verba, a gente vai ficar sem as pernas e sem os braços.»,
afirma o Coordenador de Cultura do Sesc Arsenal, Clodoaldo Arruda.
As mesmas dificuldades serão encontradas por as outras oito unidades mantidas por o Sesc em Mato Grosso.
No entanto, não é sem motivos que o Super Simples ganhou aliados e chegou até as mãos dos senadores.
Os defensores alegam que a aprovação das alterações nas contribuições tributárias irá trazer para a formalidade milhares de pequenos comerciantes.
Porém, o jornalista Ricardo Noblat, em artigo publicado no seu blog em fevereiro, tem uma visão menos otimista e declarou que a melhoria é ilusória:
«O primeiro defeito do supersimples é constituir uma proposta para combater os sintomas de uma doença grave em vez de atacar suas causas.
O sistema tributário continuará tão ruim quanto agora.
Apenas uma parte dos contribuintes ficará imunizada contra o vírus da peste tributária -- as microempresas e as de pequeno porte -- mediante uma redoma que pode isolá-los do mundo das exportações -- que tende a crescer mais rapidamente do que a própria economia nos próximos anos -- e retirar-lho incentivo para crescer, investir e inovar.
Em ambos os casos, a economia perderá no longo prazo». (
ler texto na íntegra)
Em as últimas semanas, sugiram por a internet e na imprensa manifestações em defesa do Sesc e suas unidades recolheram assinaturas por o país para serem enviadas ao Senado.
O objetivo é que o congresso aprove uma emenda que reveja o Artigo 13.
«Ficamos sem saber que proporção isso vai tomar.
Nós, que temos gastos inferiores em relação às unidades do Sesc de maior porte, ficamos assustados.
Imagina as outras do resto do país», finaliza Arruda.
Número de frases: 29
Fiquei intrigado quando soube do show Caos no Pantanal!
Que história é esta de ' tríade punk ` num único evento?
Mais que evento, uma reedição de um show histórico, considerado a ' pedra fundamental ` do ' movimento punk ` em Campo Grande?
Peraí! Até 1990 não existia praticamente ' música urbana ' na Capital de MS, contava-se nos dedos de uma mão as bandas de rock ' n roll.
Matutei, matutei: '
punk em Campo Grande? '
Logo recebi o release do show:
' O ano de 1996 marcou o início de uma nova fase para o punk rock campo-grandense:
nos espaços existentes havia uma dominação do blues e do metal.
As 3 principais bandas de punk rock da época eram:
* The CRAZY DICK:
desde 1990 já aranhava os acordes ao som de RAMONES e CHUCK BERRY;
* HxIxVx:
liderada por a figura lendária de Marco Aurélio, vulgo «Kão», já incomodava a vizinhança da Vila Planalto desde 1992;
e * Os Impossíveis:
que em 1993 começou fazendo covers de RAMONES e ainda não tinha sua formação estabilizada por a troca constante de baixista e guitarrista ...
Foi a banda Impossíveis que deu início ao movimento Caos no Pantanal, a partir de uma frase gritada por um organizador de show metal:
«Vocês querem tocar?
Então façam shows!"
As 3 bandas se organizaram e começaram a promover seus próprios eventos, que inclusive contavam com a participação de bandas de metal sem discriminação, pois a intenção era promover a união de todos (punks, headbangers, rock, pop ...
Deu certo, as 3 bandas ganharam a simpatia do público e os eventos sempre tinham um bom número de pessoas.
A partir disso surgiu intercâmbios com outras bandas, a Panela Eventos, Cães Records, Alternative Way ...
outras bandas como Mulekes Sarnentus, DxDxOx, Bizarro's, Fuck Society, PxDx ...
bem como zines (Em a lata, CGZINE), selos (Nöise Mesmo Recs, Old Jack, B-side distro) e a cada dia novas bandas, selos e propagação do punk rock em Campo Grande, ainda mais com o avanço da Internet.
Portanto, não perca o retorno das 3 bandas numa reunião de punk rock e pogo! '
Depois de ler o texto decidi que iria ao show!
4 de novembro chegou e estava um ' trapo '.
Madrugadas mal-dormidas + sono vencido por causa da minha filha nova (Ana Lua)!
Lá fui eu para o show, com máquina digital, gravador e matutando, matutando ...
punk no Pantanal!?
Em a ida da minha casa até o Chácara Bar lembrei que lá por 1986 ou 1987 me misturei com uma dupla de irmãos que tinha uma banda chamada Miseráveis!
Se aquilo era punk num sei, mas a gente decididamente não sabia tocar.
O líder, Marquinhos, fazia filosofia na faculdade dos padres (FUCMAT hoje UCDB) e sua irmã tocava bateria.
Nunca mais vi o Marquinhos, um tipo franzino, com cara de bugre-japon ês!
Chegando no Chácara Bar, grupinhos de pessoas estavam na frente do local!
Uma sexta, depois de um feriado!
Entrei e a banda Bizarros se preparava para tocar!
Nunca tinha visto os caras e gostei pacas.
Já comecei a abrir o olho, porque estava bem devagar meu ânimo!
Decidi ir lá para fora, porque estava quente perto do palco e a muvuca já começava ...
Peguei minha primeira cerveja (garrafa) e fui dar um tempo na ' varanda ` do bar!
Percebi que tinha uma mesa com vários CDs, fitas kassetes, camisetas, flyers e um ' cara ` tomando conta.
Senti que o clima estava tranqüilo entre a platéia, um clima de confraternização, tipo ' vc por aqui! ' '
há quanto tempo ' ... Dei uma olhada no Vaguinho, comandante da Panela Eventos, que produzia o show e é guitarrista de Os Impossíveis.
O cara estava a mil, ajudando no palco, atendendo pessoal na porta, indo e vindo e tal ...
Não quis atrapalhar o cara com perguntas sobre o evento e fui tomar minha cerveja.
Ainda estava, digamos, devagar.
Surge então a ' figura '!
O Kão, integrante da banda HxIxV, reconhecido por todos como ' desbravador punk ` destas plagas.
Ele já tinha me colocado pra ' dentro ' do evento, sentou na minha frente e sugeri a entrevista.
Topou na hora!
Rodrigo -- Fala um pouco esta história de música punk aqui em Campo Grande.
Kão -- Em a realidade começou em 88/89 ou até antes.
Primeiro tinha o Carnificina, que virou Carbonari, uma banda de um cara chamado Oswald (?) ...
depois de eles teve a banda Corrupção de Menores ...
e depois o HIV apareceu na mídia.
Porque o Crazy Dick parece que começou em 90.
Nós começamos com o HIV em 1992, chamava Wirus.
Rodrigo -- E vcs já falavam de AIDS naquela época e isso foi uma das coisas que chamou atenção da banda ...
Kão -- Sim ...
porque HIV é Heroína Injetada na Veia.
Em aquele tempo, o MS era o quarto maior consumidor do Brasil e o segundo em AIDS, primeiro Santos e segundo Corumbá.
Hoje, primeiro é Itajaí, segundo Santos e terceiro Campo Grande.
De 150 exames mensais aqui em Campo Grande de 10 a 17 são positivos.
Todo mês!
Rodrigo -- E a maneira de abordar o tema mudou, é claro ...
Kão -- Em aquele tempo a gente tinha letras mais sociais.
Hoje é mais pessoal.
Se olhar hoje, nossas letras eram bem infantis.
Por outro lado eram mais políticas e hoje buscamos ...
Rodrigo -- Vc naum acha interessante Campo Grande produzir bandas de punk no início de 90 quando mal se tocava rock na cidade?
Kão -- Sim, e a gente fazia música própria.
Mas o tempo faz a gente amadurecer.
Eu comecei a ver as mesmas coisas q via antigamente mas de forma diferente.
Porque não adianta só reclamar.
E aqui não tem banda punk mesmo.
Pq pra mim punk não é tocar ou fazer letra punk, é ter atitude.
Como produzir o Rock Por a Fome, um evento beneficente para arrecadar comida para os necessitados.
Fiz outro que dei para o Asilo São João Bosco, outro foi para o pessoal do Lar das Crianças com AIDS.
Não fiz muito, mas sou eu que tenho q fazer.
Mas a maioria toca por diversão mesmo.
Rodrigo -- Hoje existe uma periferia em CG q poderia ter uma atitude mais punk e que desenvolvesse um trabalho artístico neste sentido?
Kão -- Tem.
Mas na forma de rap.
O rap daqui é mais punk que os próprios punks.
Os caras têm atitude mesmo.
Falam e vivem o que falam.
Mas a maioria dos punk são playboys.
A família mantém e a maioria não precisa trabalhar.
Agora, você vai em São Paulo, os caras são da periferia mesmo, do Abc ...
Campo Grande neste sentido não tem periferia.
Rodrigo -- Mas sai banda de uma Moreninha, por exemplo, complexo de bairros com umas 100 mil pessoas?
Kão -- Sai.
A banda Catuaba Punk e outras.
E têm bandas da Vila Popular, de onde eu vim ...
Mas a maioria não toca punk com essência, toca por tocar.
Os pais sustentam.
A maioria é meu amigo, mas é punk pop, punk diversão ...
tem cara que assume.
Mas não é punk.
O cara não sabe o que é passar fome, pagar aluguel, água, luz ...
Rodrigo -- Como você analisaria a política do município e estado para este tipo de música?
Kão -- Cara ...
a maioria dos músicos não sabe de política e tão cagando e andando.
Falam mal de político, mas não sabem nem os direitos q têm ...
conhecimento nenhum, tanto o punk, o roqueiro ...
a maioria é acéfala, leiga ou burra.
E tem os ignorantes, que sabem muito, mas ignoram os fatos.
Rodrigo -- Este é um dos motivos que a cena não seja mais forte em CG?
Kão -- Falta união.
Em 86, que queria unir uma banda de rock e rap.
Um falou q naum tocava com maloqueiro e o outro q naum tocava com drogado.
Ai estourou o Planet Hemp em 1993 e todo mundo queria tocar junto.
Hoje melhorou, mas moramos numa cidade pequena.
Campo Grande é provinciana, em vez de charrete anda-se de carro.
A cidade está crescendo, mas culturalmente não.
E só cresce com união.
Rodrigo -- Projetos do HIV?
Kão -- Vai sair um DVD e um CD em 2007.
E vamos ver.
Porque naum depende de mim só, o guitarrista e vocalista estão casados.
Mudou a visão.
Rodrigo -- Envelhecer é o grande paradoxo do rock ' n roll?
Kão -- É.
Mas quanto mais velho melhor.
Rodrigo -- De onde vem seu apelido?
Kão -- Foi o Rezende, com quem trabalho hj.
E como odiava pegou.
20 anos de apelido.
Meu nome é Marco Aurélio.
Vou fazer 34 em 23 de novembro!
O movimento da galera ao redor se torna insuportável, o barulho aumenta e decido ir com Kão para dentro do bar.
Acompanho a performance final do Bizarros e me surpreendo com o som potente dos caras.
Banda de futuro.
Acaba o show, faço umas fotos do Kão lá dentro mesmo e vou buscar mais uma cerveja antes de começar o show do Crazy Dick.
A remontagem do palco começa a demorar e vou pegar um ar.
Todo mundo fica lá dentro e acabo indo ver as coisas na ' banquinha '.
Fico besta de ver um monte de kassete e CD-demo, com capas xerocadas.
Me apresento para o cara que está vendendo e emendamos um papo.
Ele me diz que a maioria do material das bandas que tocam aquela noite já foi vendida.
As kassetes, algumas raridades com gravações da década de 90, custam uma média de R$ 3,50.
As ' raras ' R$ 5,00.
Os CDs-demo não passam de R$ 8,00.
Detalhe: quase tudo foi vendido.
Resta uma única camiseta do Bizarros.
Começo a juntar os ' pauzinhos ` e percebo que estou vendo ' público ` lotando o espaço e um esquema de vendas de produtos, que dá certo.
Aí vem a notícia dada por Enrique, o tal ' cara da banquinha ', que é músico também: '
Um amigo nosso deu um tiro na cabeça.
Tá todo mundo triste aqui hoje '. (
Depois fico sabendo que se trata de Júlio, um garoto, guitarrista das bandas Astronauta Elvis e Evergreen) Vai começar o show do Crazy Dick e vou para dentro com o impacto da notícia.
Em estas alturas já tô com duas cervas na cabeça.
Vou para a frente do palco e fico no meio da galera.
Aí, acontece o estouro da boiada.
De repente percebo que tá todo mundo cantando a música e então me vejo no meio do que os punks chamam de ' pongo '.
Em o popular, sair dando porrada para todo o lado, se debatendo, chocando com os outros ...
o detalhe é que o bar é pequeno e parece que não vai suportar.
Vou para mais longe do epicentro da ' pongagem ' e percebo que tá todo mundo se divertindo.
A maioria conhece as músicas e canta junto.
O Crazy Dick é power-trio e Pedro, o guitarrista-vocalista, chama atenção por o jeito sério e meticulosamente alucinado.
A platéia se inflama, o calor aumenta, mas todo mundo se espreme até a última música.
Ufaaaa, nestas alturas já são umas 2 da matina e decido ver mais a próxima banda Os Impossíveis e me mandar!
Vou pegar a terceira cerveja.
Sou apresentado lá fora ao garoto Tomás.
Ele comanda o www.cghardcore.com.br, site que divulga os eventos de rock da cidade.
Somo então o fato da cena ter um público cativo, um esquema de venda de produtos, um site para divulgar a maioria dos shows e a produtora Panela Eventos impulsionando tudo, na raça, e o resultado é um evento que registra o potencial da cidade para gerar cultura alternativa jovem.
A maioria sai para fora do bar e todos parecem saudosistas.
Vejo, por exemplo, o jornalista Alexandre Maciel (depois fico sabendo que ele escreveu um texto sobre o show em seu blog Mosaicos de Prosa).
Me explicam que poderia ter bem mais gente se o lugar fosse maior (cabem lá umas 200 pessoas no máximo) e pudesse entrar menores de idade.
Vai começar o show de Os Impossíveis e me posto bem ao lado do palco.
O vocalista Cebola começa a improvisar, enquanto o baterista Jean arruma o instrumento. '
Você por aqui?
Virou professor né? ` (
aponta para um); '
olha só, agora vc é pai de família ` (azucrina outro); '
e você finalmente está trabalhandooo ' (alfineta um mais próximo) ...
Percebo que bandas e público se conhecem desde o primeiro Caos no Pantanal, o tal show histórico de 1996 ...
Os Impossíveis tocam os primeiros acordes e tudo começa de novo.
Público cantando, a pongagem geral, eu com três cervejas na cabeçaaa ...
Vou saindo de fininho já jogando a toalha.
Não vai dar para esperar o HxIxV do Kão!
Em a porta do bar olho um garoto com cabelo estilizado de punk.
Peço pra tirar uma foto.
Passa o domingo e na segunda bato um papo por o msn com Vaguinho, na verdade, o grande responsável por a maioria das produções de shows de rock de Campo Grande.
Rodrigo Teixeira:
diz:
preciso saber quantas pessoas mais ou menos foram ao show?
como é q vc faz com as bandas, tipo reparte bilheteria?
quero falar da Panela e explicar um pouco o sistema ...
Astronauta ELVIS de Luto (Julio, ex-guita) ...
diz:
legal.
nesse show o lugar (chacara) era pekeno.
cabe la umas 150 pessoas;
nesse evento entraram 90 pessoas pagando e + 35 convidados;
e + ou -- 20 pessoas d bandas ou seja deu lotação da casa
Rodrigo Teixeira: diz:
e as vendas de CDS, fitas cassetes, camisetas ...
como é isso?
Astronauta ELVIS de Luto (Julio, ex-guita) ...
diz:
ah sim esse material pertence a Mim e ao Enrique
Rodrigo Teixeira: diz:
parece q tudo q tinha lá das bandas vendeuuu ...
Astronauta ELVIS de Luto (Julio, ex-guita) ...
diz:
nós montamos esse mercado na época e resgatamos nesse show.
em 1996 o comercio d divulgação das bandas era feito através d fitas K7 (fita demo);
e nesse show resgatamos isso;
pq tenho mta coisa daquela época;
pq hj em dia e mais CD-demo q as pessoas adquirem;
se vc fosse ver, tinha bem pouco cd's na banquinha;
pelo menos nesse show;
e eu me surpreendi por o consumo em massa q rolou;
isso se tornou relíquia
Astronauta ELVIS de Luto (Julio, ex-guita) ...
diz:
por exemplo;
Caos no Pantanal q foi um movimento q virou uma coletanea com as bandas;
é uma Tape Rara;
e eu não vou lançar ela (por enquanto) em cd;
vai ser so em Fita K7;
eu levei varias e vendeu bem;
a unica banda q não tem la e o HxIxV q na epoca fazia parte do movimento, mas não tinha nada gravado
Rodrigo Teixeira: diz:
quanto custa cassete, cd e camiseta em média?
Astronauta ELVIS de Luto (Julio, ex-guita) ...
diz:
o preço medio das K7 e entre 3 e 5 por a raridade;
pq se vc for ver;
o cd-r custa bem + em conta;
camisetas entre 10 e 15;
cd's na media entre 5 e 8 CD-R;
os originais entre 10 e 15
Rodrigo Teixeira: diz:
outra coisa:
qual a importancia do site cghardcore?
na verdade nenhum outro segmento tem isso.
Astronauta ELVIS de Luto (Julio, ex-guita) ...
diz:
o site Cg Hardcore e um site q surgiu a pouco tempo;
os meninos tão no caminho certo;
mas tão tendo problemas com outros movimentos;
tipo: eles tão sempre nos nosso eventos (pq a gente convida eles);
e outros organizadores se sentem excluidos;
na verdade é dificil vc agradar a todos
Astronauta ELVIS de Luto (Julio, ex-guita) ...
diz:
tem uns q são radicais;
pq eles vão nos eventos Pop e fazem cobertura;
e os radicais acham q isso não e justo;
q eles deveriam ir so em eventos hardcore;
o q mto não entendeu q Hardcore e so o nome do site
Rodrigo Teixeira: diz:
me fala em termos de grana.
como as bandas sobrevivem?
uma banda como os Impossíveis consegue gerar uma graninha por mês?
um show como o Caos rola quanto mais ou menos por banda?
raxa bilheteria?
Astronauta ELVIS de Luto (Julio, ex-guita) ...
diz:
essa questão d grana e uma incognita;
pq nos temos custos;
não temos patrocinio;
la no ERNANI (Chácara) nos temos q repassar para o Bar uma porcentagem d portaria para a casa
Rodrigo Teixeira: diz:
sim
Astronauta ELVIS de Luto (Julio, ex-guita) ...
diz:
pq ele tb tem custo (segurança, bilheteria ...);
isso e por conta de ele;
e eu fico com custo d som, cartazes, panfletos, divulgação ...
e as bandas
Rodrigo Teixeira: diz:
mas por exemplo, só para a gente estabelecer parametros; quanto
uma banda como o Os Impossíveis;
q tem público, pode cobrar por exemplo?
tem quem pague?
Astronauta ELVIS de Luto (Julio, ex-guita) ...
diz:
os IMPOSSIVEIS e uma banda amigos;
se eu fosse cobrar d alguém pra tocar;
seria na media de 500 mesmo;
400;
como eu sei q mtos não pagam;
eu mesmo faço os shows
Astronauta ELVIS de Luto (Julio, ex-guita) ...
diz:
por exemplo;
o CRAZY DICK toca pq gosta;
mas o Pedro (vocal / guita) mora em Coxim e eu tenho q pagar a vinda de ele;
pra ele e diversão isso;
tocar Astronauta ELVIS de Luto (Julio, ex-guita) ...
diz:
o Bruno (baixista) dos IMPOSSIVEIS mora em Dourados;
tenho q pagar a passagem de ele tb;
fora isso tenho as despesas do Bar;
por a cerva tenho q dar para a galera das bandas;
entende?
Rodrigo Teixeira:
diz:
ou seja;
vc é um herói!
Astronauta ELVIS de Luto (Julio, ex-guita) ...
diz:
pois eh;
eu faço pq gosto;
qdo da preju as bandas tb se unem pra ressarcir essa perda;
e depois num proximo evento a gente ressarci as bandas;
isso varia d evento pra evento
Astronauta ELVIS de Luto (Julio, ex-guita) ...
diz:
mtas pessoas acham q eu ganho dinheiro com os eventos;
se eu fizer sertanejo quem sabe;
rock n roll não dá;
ainda mais qdo não se tem patrocínio ...
e estamos nessa dsd 1993!
Depois do show e as conversas todas, entendo bem mais aquela discussão que rolou no meu blog Matula Cultural (aqui mesmo no Overmundo) entre o Vaguinho e o Pablo Capilé, do Espaço Cubo, de Cuiabá.
Quando o Vaguinho defendeu o ponto de vista que Campo Grande tem uma cena diferente, não de grandes eventos e festivais (mas não tiro a razão do Pablo em apostar numa outra diretriz também!),
mas de shows regulares com público certo, eu entendo melhor o que ele quis dizer após conferir o Caos no Pantanal!
Com certeza, a maioria das capitais têm seus subterrâneos musicais da mesma maneira, que pulsa silenciosa, mas com intensidade.
Número de frases: 320
Como passar de uma cena silenciosa para barulhenta em termos de repercussão nacional é que agora fico matutando, matutando ...
O primeiro livro da trilogia do jornalista «Laucides Oliveira, Boa Vista 1953 Uma aventura», já é sucesso de vendas na cidade.
O fato é que com apenas um mês após o seu lançamento é preciso rodar a capital para encontrar um exemplar.
E não é devido a baixa tiragem -- o livro foi impresso em grande quantidade.
E nem porque existem poucas livrarias em Boa Vista, precisamente duas mais importantes -- o livro também pode ser encontrado em bancas de jornais, supermercados e drogarias.
Esta obra se tornou tão popular e difícil de ser encontrada, pois é claro, Mestre Lau além de ser o jornalista mais reconhecido do estado, figura simpática e com entrada em todos os segmentos da sociedade roraimense, conseguiu produzir um livro que retrata com qualidade uma parte da história e da evolução cultural da cidade e do comportamento social daquela época.
Personagem de destaque na comunicação do estado foi o responsável por a implantação, a partir de 1964, do rádio jornalismo a nível profissional.
Formou os primeiros profissionais do rádio jornalismo no Território Federal do Rio Branco (Roraima antes de ser estado era Território).
Teve destaque também no Telejornalismo.
Foi o responsável por a implantação do telejornalismo em Roraima.
Em a imprensa escrita deixou seu registro na redação de «O Átomo, jornal principal do estado em 1958».
Criou a Folha Esportiva.
Foi correspondente da Revista «Veja» e do «Jornal Folha de São Paulo».
Participou da implantação da versão roraimense do jornal «A Crítica» e foi muito feliz na fundação da revista «Diretrizes», seu veículo próprio.
Com todo esse currículo, experiência adquirida há anos de trabalho, o jornalista Laucides Oliveira decidiu contar a história de sua vida.
E o ano de 1953 foi o ponto de partida, quer dizer, mais precisamente de sua chegada em Boa Vista, que ainda era Território Federal do Rio Branco.
E com apenas 21 anos de idade ...
«cheio de ilusões e fantasias, esperança de prosperar na vida, esquecer o desenho, profissão mal valorizada, mal paga, deixar os estudos para aprender a comprar diamantes e fazer fortuna» (pág. 09), como cita em seu livro.
Antes de narrar os acontecimentos após sua chegada em Boa Vista, o autor faz uma breve descrição de como foi a sua infância em Minas Gerais e a sua ida para o Rio de Janeiro.
Lembra a trajetória de seu pai nos garimpos do Brasil, seu reconhecimento como um grande diamantário e os tempos difíceis na segunda metade da década de 40, na Cidade Maravilhosa.
Faz um breve e emocionante relato do carnaval do Rio daquela época.
Em poucos parágrafos consegue transportar o leitor para as ruas animadas, para as matinês disputadas, os blocos carnavalescos da Avenida Rio Branco e a sua imensa ingenuidade.
Mas Boa Vista não fica para trás.
Apesar de possuir apenas três clubes, em 1955, a sociedade roraimense se divertia bastante.
Durante as noites de Carnaval os clubes disputavam entre si para ver qual conseguiria funcionar até mais tarde.
Enquanto houvesse foliões e a banda agüentasse tocar, eles iam até às seis, sete da manhã e até mais tarde.
Imaginem só, em 1955 ...
O autor consegue, também, «pegar» o leitor na sua passagem por a Copa do Mundo de 1950.
A derrota do Brasil para o Uruguai por 2X1, o título tão esperado e arrancado em pleno gramado de casa.
Ele estava lá.
«Senti-me morrer, naquele domingo triste, enlutado» (pág. 15).
Parece até fala de personagens Rodriguiano.
Mas a convivência em Boa Vista é que marca a sua obra.
O relato da cultura local, uma época em que o garimpo movimentava a cidade, as histórias interessantes de personagens que conheceu e que hoje tem seus nomes registrados em placas de ruas, como Áureo Cruz, que como cita o autor em sua obra «um jovem alegre e folgazão, mas prestativo e muito consciente da tradição familiar» (pág. 23); " ( ...)
Modulação aveludada de Dick Farney " (pág. 23), famosíssimo cantor da época, se referindo à sua voz.
A descrição excitante de uma Boa Vista antiga, um centro histórico que ele consegue a cada prédio, casarão, a cada residência e loja contar um pouco da história da capital.
A formação de suas ruas, a sensação da leitura é de estar ao pé de uma árvore ouvindo o autor dividir com muito amor toda a sua lembrança, toda a sua nostalgia dessa Boa Vista que não acompanhou muito o ritmo do tempo.
E como toda história feliz, um romance não podia faltar.
Seu encontro com o maior amor de sua vida:
D. Clotilde. O autor reserva sua maior poesia ao final do livro.
A o ver sua esposa repousar em sua poltrona ele pensa, " nada vivera de significativa importância antes da conhecer;
nasci para a verdadeira vida ao sabê-la minha esposa, minha companheira, minha mulher!
Importa, a vida que estamos começando agora, a que iremos construir juntos!
Minha vida consagrada à sua. ( ...)
pode até ser que nem tudo venha a ser perfeito como eu sonho, mas não importará muito:
eu tenho você, e você terá a mim -- afirmo-lhe mentalmente, teremos-nos-um ao outro para sempre " (pág. 154).
E ela estava lá, no dia do lançamento, orgulhosa e feliz, posando para fotos ao lado do marido.
É evidente a importância deste registro para os que se interessam em conhecer mais a fundo a história deste estado, que como todos dizem, é a terra das oportunidades.
Já dá pra imaginar como será a segunda obra desta trilogia, que contará a história do Território Federal, de 1944 a 1990, recheado com depoimentos de personalidades que viveram a construção do estado de Roraima.
Número de frases: 49
Os anos 1960 e 70 ensinaram muita coisa sobre o modo como o mundo funciona e como você pode burlar os processos deste mundo para se inserir em ele.
O conceito do faça-você-mesmo se espalhou como um verdadeiro vírus, disponibilizando principalmente aos jovens as ferramentas existentes e permitindo que elas fossem usufruídas.
De lá para cá, a cada novo meio surgido, uma nova leva de fazedores-mesmais apareceu, cada qual com sua consistência.
E, a cada geração, tal fazer se tornava cada vez mais profissional e, ao mesmo tempo, particular.
Em os dias de hoje, a polinização é tamanha, fazendo surgir quase como casas virtuais, contendo em cada uma de elas um conceito que é, ao mesmo tempo, privado e público.
Esta é uma visita a uma destas casas.
Como na música, ela não tem porta, nem teto, nem chão.
E em ela mora Lucas Santtana, sua obra e o fruto do seu trabalho, materializado numa palavra:
Diginóis.
Considerado recentemente por o New York Times como um dos melhores novos músicos nacionais, Lucas fundou, a partir de seu segundo álbum (Parada de Lucas), o selo musical Diginóis, que fincou definitivamente os pés na rede com o lançamento do álbum subseqüente, 3 Sessions in a Greenhouse.
O netlabel e a sintonia do artista com o profuso meio criativo que o mundo pós-Guerra Fria libertou se fundem no seu website, por si uma obra ainda em progresso.
Apesar de produzido por o m 2 br-grupo soluções, na casa virtual de Lucas é ele quem cuida de tudo.
«Encomendei de um modo que, depois de feito [o site], eu mesmo produzisse e postasse todo o seu conteúdo com total independência», explica o músico baiano hoje radicado no Rio.
Completando um ano de existência neste 17 de maio, o seu portal é atualizado semanalmente.
Baseado no Rio de Janeiro, ele o acompanha em qualquer lugar:
«O Diginóis está sempre com mim na vida real ou virtual e, a cada dia que passa, essa diferença perde mais sentido», analisa Santtana.
Em o site também estão disponibilizadas tanto as faixas originais de seu último disco como as remixagens feitas a partir de ela, uma liberdade permitida graças à adoção de uma licença Creative Commons para seu álbum.
A opção por este tipo de licenciamento é uma opção consciente para garantir seus direitos e, ao mesmo tempo, poder disseminar seu trabalho.
É sabido que cada vez mais músicos migram para este tipo de formato de distribuição musical paralela, o que deixa a sempre tacanha indústria cultural estabelecida com seus pés vários passos atrás.
Lucas é decidido ao falar de seu modelo de negócios, alinhado ao chamado open business:
«Acho que a licença é um upgrade em relação aos direitos autorais, pois coloca na mão dos criadores a decisão do que desejam em relação a suas criações e determinam quem deve pagar por ela e quem não deve.
Não entendo esse temor todo das editoras, acho tudo muito compatível.
Isso é o que mais tenho certeza que irá mudar radicalmente, mais até do que a maneira como as pessoas consomem música».
Além de distribuir e divulgar as músicas de seu selo, o portal Diginóis também busca disseminar informação e diversão, por meio de seu blog, inserido estrategicamente no centro visual de leitura do site.
Em o final, se pretende concentrar toda a obra do músico no mesmo local, tornando o portal uma vitrine que, ao mesmo tempo que expõe, também reflete a evolução pessoal e artística de Lucas Santtana.
Além, claro, de servir como canal para que ele seja conhecido e possa gerar sua sustentabilidade, por meio de shows, venda física de discos e, futuramente, de outros produtos, como camisetas.
Como o próprio Lucas reconhece, é uma questão de tentativa e erro, indo aos poucos, mas firme em frente.
Além do próprio site, o Diginóis vive também em outros espaços da internet, como o MySpace e o Orkut, locais onde angaria apreciadores de sua música.
Os usuários, por meio destes caminhos alternativos e também de eventuais matérias em veículos da imprensa em geral, chegam de mansinho, mas de forma crescente, ao seu portal principal.
A bola rola, por enquanto, quase sem patrocínio na camisa.
A Petrobras é a exceção, por conta do último disco de Lucas ter sido viabilizado graças a um edital da multinacional -- vale dizer que o Diginóis, enquanto site, também estava incluso na proposta encaminhada à empresa na mesma época.
Quanto a parcerias sociais, Lucas destaca os sites que são indicados no próprio portal e, em contrapartida, também os sites que linkam o Diginóis.
«Parcerias são sempre bem vindas.
Acho que poderia ser importante no sentido do open business.
De gerar algum negócio remunerativo dentro do Diginóis», destaca o músico, que teoriza:
«Talvez outras empresas que queiram comprar aquele conteúdo e disponibilizar para seus clientes mantendo a independência de ele.
Ainda assim, o projeto não possui existência jurídica formal, pois, como o próprio Santtana alfineta, «tive empresa e sei que esse país não foi feito para pequenos empreendimentos».
Fazendo tudo na raça, qual é então o meio que o artista utiliza para divulgar o portal?
Na raça também, espalhando aos quatro ventos sobre ele, tanto física como virtualmente.
Um dos elementos-chave para esta divulgação é o Orkut, que se revelou uma grata surpresa para Lucas, que praticamente desistia de utilizar este recurso quando começou a sentir que havia retorno direto de um público ainda em formação.
Sua comunidade, criada por a proprietária da Livraria De antes, Anna De antes, é modesta em termos de participantes, se comparada com arrasa-quarteir ões da nova música, como a cantora Céu.
Em compensação, é composta de fãs fiéis a seu trabalho, num movimento consistente de crescimento da base de seus apreciadores.
Lucas abre mesmo o coração quando fala sobre o seu envolvimento com o meio virtual que explora com interesse experimental:
«O que diferência [o Diginóis] de modelos usuais talvez seja o fato de tudo ter que ser muito verdadeiro para mim.
Não coloco nada no Diginóis que não tenha minha sincera atenção ou interesse.
Então não é um negócio que visa ludibriar as pessoas.
Em a verdade ainda nem é um modelo de negócio, é uma experiência assistida online.
Minha mulher me lembrou que, antigamente, as experiências científicas eram públicas, não eram privadas, ainda não tinham sido incorporadas aos interesses das indústrias farmacêuticas, cosméticas, de armamento etc..
Acho que isso é um diferencial de modelos abertos (open business), essa volta a experiências públicas».
Lucas não acredita ter um público-alvo definido, pois, para ele, sua música é tanto para o filho quanto para a avó.
Mas não dispensa o que é tradicional em termos de divulgação:
assessoria de imprensa em época de lançamentos, divulgação (do trabalho e de shows) em mídia tradicional e a própria venda de seus discos em lojas.
Entretanto, seus boletins regulares de divulgação do site para os usuários cadastrados em sua mala direta virtual, os Diginews, são a forma mais constante de comunicação entre público e artista.
Interessante destacar uma das possibilidades abertas em relação à obra de Lucas:
no portal, existem músicas abertas disponibilizadas em sistema de rodízio.
Tais faixas são abertas (ou seja, separadas em camadas com as quais a canção original foi gravada), de modo a permitir a colaboração de qualquer um que se disponha a fazer uma nova leitura de sua obra, sendo que há também espaço aberto para que estas recomposições sejam ouvidas por o público, que pode, desta forma, atuar de modo interativo.
O que é, claro, parte do espírito colaborativo pretendido.
Em uma área em que não considera ter concorrentes e, sim, divulgadores em potencial, a internet se torna um grande campo de expansão para Lucas.
«Há sem dúvida mais concorrência entre bandas do que entre blogs», exemplifica.
A gestão de propriedade intelectual é toda definida por licenças Creative Commons, seja quanto à distribuição, ao uso da obra e à sua maleabilidade enquanto trabalho aberto, adotanto um sistema de livre manipulação sem fins lucrativos.
Há uma razão para tanto:
«A possibilidade da minha obra poder agregar outras visões e manifestações em relação a ela e a possibilidade de se criar uma pequena, mas infinita, cadeia criativa musical e de pensamento.
E também o fato de ela poder ser ouvida por mais pessoas», como Lucas explica.
Parece claro que as novas tecnologias foram fundamentais para o surgimento do Diginóis e que, sem elas, não haveria as possibilidades hoje existentes de interação e colaboração do seu público.
Mas estas mesmas tecnologias, é claro, podem se tornar um empecilho em outro sentido, graças à dificuldade ainda existente de acesso a elas no Brasil.
«Tenho batido nessa tecla em todos os seminários e debates de que tenho participado», afirma Santtana, que aponta:
«Enquanto não tivermos um acesso em banda larga maciço da população, será mais difícil se criar nichos com poder de modelos de negócios.
Qualquer banda gringa desconhecida no MySpace tem, no mínimo, o mesmo número de visitas que a banda ou artista de maior visibilidade no momento aqui no Brasil.
Isso é uma prova de que ainda há um grave problema de acesso».
Mesmo com todas as dificuldades, o saldo é positivo para o Diginóis, que consegue ser auto-sustentável, graças à venda de CDs (que garante a hospedagem do portal) e de shows (segundo Santtana, um show pode manter o site ativo por um ano inteiro).
Isso não quer dizer que ele tenha um balanço definitivo de lucros ou prejuízos que já tenha tido com o site:
por não ser uma empresa jurídicamente constituída, estes números são esparsos.
O que há de concreto são os dados estatísticos do Diginóis, como, por exemplo, os mais de dez mil downloads de faixas (tanto abertas como do seu último álbum) no último ano.
Mas Lucas sabe de seus dados financeiros é no lugar onde eles pesam:
no próprio bolso.
Ele afirma que sua renda é, no mínimo, majoritária em relação aos produtos divulgados por o Diginóis -- sendo que, por vezes, esta renda chega a ser mesmo integral.
Nada mal para quem está comemorando apenas um ano de existência virtual.
E quanto aos anos que virão?
O objetivo de Lucas Santtana é aumentar e consolidar o público do Diginóis, ampliando o alcance dos Diginews (sem se utilizar de mailings alheios, faz questão de frisar).
Com isso, visa confirmar o site como seu netlabel, acrescentando cada vez mais trabalhos seus, tanto solo quanto com parcerias, e ampliando a gama informativa de seu blog (que é parte integrante da home do portal).
Enfim, se preparando para o desafio da tão falada Web 2.0: " Quando for colocar o próximo CD, farei mudanças na estrutura do site.
Colocarei também músicas em projetos de parceiros nos quais me envolvi, farei um teste na venda de camisetas e outros produtos que forem aparecendo.
Já pensei também em começar a escrever para algum portal maior e, assim, fazer disto um link para o Diginóis;
colocar RSS, outras novidades tecnológicas que possam facilitar a navegação.
Fazer o Diginóis virar bilíngüe também acho fundamental.
Como disse esse mundo da Web 2.0 muda rápido, então vou ficar atento e ir vendo o que vai interessando ao Diginóis», detalha o autor, que não vê riscos nesta planejada expansão.
Apesar de não acreditar que exista pioneirismo no site, Lucas avalia que seu conteúdo atual é único.
Por exemplo, o fato de tudo se concentrar na página inicial é um diferencial ao portal da maioria dos artistas.
Além disso, a clareza do processo colaborativo, com a colocação de faixas, faixas abertas e remixes em seqüência direta, demonstra inclusive os princípios por os quais o Diginóis é regido.
Além de ser claramente diferente, em termos de conteúdo, do que existe em relação ao mercadão comercial estabelecido.
Lucas cita, por exemplo, uma entrevista com a socióloga e professora da UFRJ Anna Jaguaribe, autora de um texto redigido para a Unesco sobre Indústrias Criativas, e também uma notícia sobre a criação, no Reino Unido, de um ministério para tais indústrias.
«O mundo já começa a perceber no termo «indústria cultural» uma idéia ultrapassada.
Se os negócios conseguirem caminhar com o mundo aberto, a indústria sofrerá grandes transformações.
Aliás, vide o que a indústria fonográfica e cinematográfica já estão sofrendo», aponta o músico.
Mas é, afinal, aniversário do Diginóis.
O aprendizado virtual até aqui, como é este contexto?
«De um novo mundo e novas maneiras de fazer circular a cultura e bens simbólicos.
De poder estar fazendo parte de uma mudança significativa na história da humanidade, mesmo que de maneira bem tímida.
De poder estar me comunicando cada vez mais com o mundo todo sem precisar sair de casa», diz Lucas.
«Mas repito que, para mim, tudo está bem no começo e não tenho idéia do quanto isso irá se modificar e crescer.
Mas quero estar preparado quando isso ocorrer.
Não tenho recomendações, cada historia é uma história», faz questão de acrescentar, sem esquecer, no entanto, de um belo conselho para quem está desbravando, como ele, esta maravilhoso mundo novo na internet:
«Divirtam-se».
E diversão, claro, não poderia faltar para quem quer comemorar este ano de conquistas de Lucas Santtana.
Quem está no Rio pode conferir, neste 17 de maio, a festança de Lucas e a Seleção Natural lá no Cinemateque, que fica na Voluntários da Pátria, 52, em Botafogo.
Começa às onze da noite e não tem hora pra terminar.
Afinal, é uma festa.
Número de frases: 107
E esperamos que se repita por muitos 17 de maios futuros.
Quando recebi o release sobre o espetáculo «Olhos de Touro», da Cia Márcia Duarte, de Brasília, fiquei intrigado para saber, afinal, o que poderia ser algo com nome tão instigante.
A o ler, fiquei ainda mais interessado para assistir à peça que mistura dança contemporânea e teatro.
Ou vice-versa, que tem como foco a história do Minotauro -- aquele metade humano, metade animal.
Os textos do espetáculo são do dramaturgo e escritor Marcus Motta.
O local da apresentação foi o Teatro Um do Sesc, em Porto Velho, numa sexta-feira de noite agradável e cadeiras lotadas, que faz parte da décima edição do Palco Giratório.
Antes de entrar, um aviso iniciava o que estaria por vir:
«por favor, gente, vocês serão os próximos a entrar no labirinto e é necessário que fiquem atento a tudo, porque a próxima vítima pode ser qualquer um de vocês».
Entramos todos em silêncio.
O primeiro impacto foi ver o personagem, interpretada por a atriz Márcia Lusalva, percorrer o palco em todos os sentidos expressando a concentração que se deve ter ao entrar num labirinto cheio de surpresas.
Sentimentos que mudam a cada escolha.
Angústia, medo, morte, terror, prazer, desespero, pânico, alegria.
Introspecção.
Os desvarios do ser humano imerso diante dos vários obstáculos do misterioso labirinto.
Pavores e temores do desconhecido causavam ansiedade e agonia a cada passo.
Água e fogo estão presentes na vida de qualquer um para acender ou apagar o que se quer, depende apenas da decisão.
Certa ou errada sempre existirá uma conseqüência.
Talvez por isso, o lado animal, ao debater-se por o chão, sofria e chorava como se fosse menino, como se fosse morrer.
como se fosse com nós.
como se fosse na vida.
Segredo.
A apresentação não durou mais que quarenta minutos, mas permitiu aos espectadores um final vitorioso e repleto de suspense.
Sentiu-se que o labirinto existe dentro de cada um e que as batalhas internas são como se fossem infinitas, mesmo sendo derrotáveis.
Como a luz do palco que acende toda vez que um espetáculo termina.
Quando as palmas são inevitáveis.
Quando a vitória depende de nós.
Número de frases: 26
9h da manhã:
não posso ser atendida num posto de saúde.
Há esta hora os médicos já pararam de atender.
Para ser consultado é preciso madrugar na porta do posto.
Sugeriram que eu fosse a um pronto socorro, o Hospital Público Municipal de Diadema.
Nenhum posto me atenderia sem «o cadastro».
Tenho que ter «o cadastro» de um posto perto de minha casa.
10h10:
entro na fila para cadastro do primeiro atendimento no Hospital de Diadema.
Pergunto à negra de cabelos encaracolados se ela é a última daquela grande fila, onde ela afirma que sim, me olha de cima a baixo e diz:
aqui temos hora para entrar, mas não para sair.
10h45:
chega a minha vez de fazer o cadastro e a atendente conversa com um funcionário do hospital sobre as filas do ortopedista, culinária, filhos, família ...,
para concluir o cadastro e descobrir por qual médico devo passar, me olha nos olhos e diz:
«Me fala um sintoma.
Só Um».
Respondo: Então, estou com uma crise de rinite que não me deixa dormir a duas noites, a sinusite me dói a cabeça e não consigo respirar direito.
Recebo um olhar fulminante e devolvo:
Dificuldade de respiração.
10h55:
arrumo um cantinho para esperar, já que a quantidade de pessoas aguardando atendimento é grande.
Um corredor apertado em frente a três portas, onde dois médicos faziam o atendimento.
Pessoas desoladas, com ou sem acompanhantes, homens, mulheres, de todas as idades.
De o lado direito uma TV com som baixo passa os desenhos animados da programação da manhã, uma placa enorme com o telefone da Ouvidoria do Hospital:
dúvidas, sugestões, reclamações ...
ligue 0800 ...
enquanto a fila não para de crescer.
A negra de cabelos encaracolados que me olhou com desconfiança na fila para o cadastro senta ao meu lado e me oferece um biscoito de polvilho.
«Ah, nem tomei café antes de vir pra cá, então passei ali no mercado pra comer alguma coisa.
Vai que o médico me dá uma injeção e eu passo mal porque não comi nada?».
Talvez ela não precisasse de injeção, me disse que amanheceu com uma dor nas costas, que dói quando respira.
Disse a ela o que provavelmente minha mãe me diria nesse caso:
Talvez sejam gases.
Apesar de também não ter comido nada, recuso o biscoito de polvilho.
A garganta seca por ter que respirar por a boca não suportaria.
11h40:
finalmente sou chamada.
Sem me olhar no rosto ou pedir para que eu sentasse o médico pergunta:
«tá sentindo o que?"
Então, estou com uma crise de rinite que não me deixa dormir duas noites, a sinusite me dói a cabeça e não consigo respirar direito, talvez uma nebulização ajudasse inclusive sinto um pouco de dor nas costas, penso que talvez seja o pulmão.
Explico detalhadamente.
«Sente dor de cabeça?"
Sim." Vai fazer um Raio X na cabeça." Só isso?
«Sim." Me entrega um papel, me solta num corredor, apinhado de gente e volta para atender outro paciente.
Perdida, sou auxiliada por o guarda municipal, que fala:
Raio X, nesse balcão aqui.
11h45:
pego uma senha e aguardo ser chamada por o operador de Raio X. Algumas das mulheres que estavam na mesma fila do primeiro atendimento se perguntam assustadas, desinformadas ...
o que deve ser feito com o Raio X, onde é a sala, é pra falar com quem???
Mais uma TV, mais uma placa de ouvidoria.
Rostos enfermos, característicos nordestinos (como em toda Diadema), médicos bem penteados e a planta ao lado, seca, perde as folhas.
12h: pedem para que eu tire o óculo e solte o cabelo.
Deito de costas na maca fria, sem nenhum protetor higiênico, não importa quantas pessoas já passaram por ali:
encosto o queixo, depois encosto a testa.
12h15:
recebo o resultado de meu raio x.
Sem saber o que fazer, volto para a sala do médico.
«A senhora vai tomar uma injeção e vai levar essa receita aqui».
Sem me explicar nenhum dos remédios, nada mais, me dá a receita e com um olhar me manda embora.
12h20:
passo por uma enfermeira e pergunto:
vem cá, ta escrito aqui se tenho que tomar alguma injeção? (
letra de médico) " Sim. Aqui: Raio x e injeção de Voltarem." Injeção de Voltarem?
Para rinite e sinusite?
Estranho. Volto para a sala do «doutor».
O senhor poderia me esclarecer se eu tenho mesmo que tomar essa injeção?
«Você toma se você quiser». Como assim, se eu quiser, o médico aqui não é você?
«É, se você quiser você toma, se não, não toma."
Quer saber eu não vou tomar nada, só queria um mínimo de educação da sua parte.
Virei de costas e saí, enquanto o médico resmungava algo como:
«não volte mais aqui».
Número de frases: 71
Texto publicado originalmente no http://narravidas.wordpress.com/ Carioca Funk Clube -- Esse é o projeto que eu quero continuar fazendo, trabalhando sério novas misturas de sons e pessoas, comandando os bailes cariocas onde eles estiverem, na favela ou na Lua, poder tocar o que eu quiser aqui no Rio, na Lapa, não só em Stockholm, tocar funk de todos os jeitos que já existiram, e ainda vão existir, no estúdio e ali no meio das multidões, essa é a minha vida, não sou de muita conversa, minha história é a história do funk carioca.
Cresci feliz, pobre, suburbano, carioca, filho de uma baiana morena com um catarinense descendente de alemão que se conheceram no Rio.
Minha mãe era empregada doméstica e meu pai trabalhava em construção civil.
Encarregado de máquinas, por incrível que pareça, ele não sabia ler e mal escrevia seu nome, mas liderava uma equipe grande e ajudou a construir a ponte Rio-Niterói.
Em 83 viemos para a São Cristóvão, onde moro até hoje.
Em 87, comandei meu primeiro baile funk sozinho.
O lugar era na praia de Ramos, um caixote de concreto, não tinha janela nem nada, só uma portinha, o povo chamava de Forninho.
Toquei lá um ano, e comecei a receber elogios, e fui virando profissional.
Enquanto isso também estudava à noite, trabalhava como ofice-boy e servi o exército, nunca desisti até conseguir viver só de funk, lá para a 92.
Ser carioca é o que faz o funk dos bailes ser sintonizado com o mundo, não por causa desse ou daquele bairro, artista ou estilo.
De algum jeito o nosso povo faz das festas uma arte.
Com pouco ensino tradicional mesmo pra quem teve escola, é nas festas que a gente inventa um jeito de estudar a vida, uns com os outros.
Acho que é esse jeito carioca (ou brasileiro) que atrai os gringos.
Em a música, esse jeito sempre teve muita percussão, com harmonias rítmicas complicadas, mesmo quando o resto todo é bem simples, tosco até.
Pra quem é funkeiro ou sambista parece fácil, mas pra um músico mais erudito é cheio de detalhes nos tempos e nos timbres.
Em o funk ainda tem os efeitos eletrônicos e as letras, que vêm diretamente do comportamento das multidões nos bailes, tem um monte de informação ali.
E pra complicar tem aquele lance de ser brasileiro e adorar novidade, estar sempre evoluindo e não ter dificuldade de misturar tudo que cai na mão -- cada mês surge um pequeno detalhe, e como todo mundo absorve, passa a fazer parte do gênero todo.
Como sou funkeiro, já nasci com essa antena carioca na alma.
Não sei qual o beat ou estilo que vai dominar o futuro, mas esse jeito antenado irreverente com certeza está espalhado por todo lado que eu escuto, na música do mundo hoje, então a gente faz a música que os artistas jovens do mundo tão fazendo também.
Adoro música árabe, japonesa, samba, hip hop, eletrônico, heavy metal, gosto do pop que todo mundo conhece e coisas escondidas, muito boas, muito ruins, enfim, sou viciado em música.
É coisa de uma vida inteira.
Tirando alguns outros ritmos populares no Brasil, ainda não consigo dividir muito essa paixão com os músicos do funk não, tem um circuito de bailes e discos efêmeros exclusivos do funk carioca que seduz a garotada principalmente, e poucos são ecléticos, curiosos com o resto do mundo.
Mas já não me acham excêntrico como antes, têm vindo perguntar o que existe por aí, como achar.
O funk nos bailes tem uma linguagem própria, o circuito é como um canal de assinantes, os funkeiros, que ninguém mais entende direito, mas quando consegue captar o sinal não desgruda mais da Tv.
E a audiência vai aumentando, diversificando, a pessoa do outro lado da tela pode estar na Ásia, ou em Ipanema.
E no mundo todo o povo vai traduzindo e incorporando pedaços dessa língua diferente, pra usar no seu universo também.
Cada um com sua cultura, sua história, do seu jeito.
É assim que o baile de hoje se transforma no funk carioca espalhado por o mundo.
O funk das favelas é das favelas, cada baile tem um publico, todo DJ sabe que a audiência muda tudo.
A grande evolução do funk aqui nos últimos 20 anos foi se tornar brasileiro, enquanto mudava a tecnologia, e a sociedade carioca.
Em 89 surgiram as letras em português, logo depois o sucesso romântico, em 94 os bailes de corredor, sempre nos subúrbios, e em 98 os bailes de favela.
Enquanto isso, o funk americano foi se transformando no voltmix, e no tamborzão, cada vez mais misturado e batucado, de vinil, md e mpc.
A mensagem sempre foi a vida das pessoas simples do Rio de Janeiro, mas a audiência mudou muitas vezes, e com ela a forma, a gente falava que queria ser feliz na favela quando cantava para o asfalto, fazia quase punk rock quando buscava o publico do subúrbio, e proibidão quando foi banido de vez.
E putaria quando funkeiro virou artista exótico pra animar festa ...
ps:
Esse texto só saiu mesmo com a ajuda das cariocas Sabrina Fidalgo, que fez as perguntas certas, e Adriana PITTIGLIANI, que faz tempo procura junto com mim respostas simples -- o texto completo você encontra no link Agenda da semana:
Número de frases: 36
Carioca Funk Clube na Fosfobox de Copacabana com Sany Pitbull
Em o último sábado, 10/05, jogaram Auto Esporte x Desportiva Perilima, por a quarta rodada da segundona da Paraíba.
Seis vezes campeão estadual, o tradicional alvirrubro da capital esperava conquistar sua terceira vitória consecutiva.
No entanto, esbarrando na valentia do adversário e em sua própria deficiência, o «Autinho do Amor» conseguiu apenas evitar uma tragédia maior dentro de casa, com um gol nos acréscimos, empatando o duelo.
De o outro lado, a equipe de Campina Grande (inter?)
nacionalmente conhecida por o seu camisa 7: Pedro Ribeiro Lima (as silabas iniciais formam o nome do clube).
Seu Pedro, como é conhecido, além de presidente (e também por isso) é, aos 60 anos, o jogador de futebol «profissional» mais velho do mundo.
Segundo a Fifa, Seu Pedro também é o mais velho atleta a ter balançado as redes, feito obtido no ano passado, contra o Campinense.
O gol, é claro, foi de pênalti.
Perilima também é o nome da empresa de Seu Pedro, uma fábrica de sordas (espécie de bolo doce muito conhecida por aqui).
A base do elenco da A.D. Perilima é formada por proletários da Perilima S.A..
É o verdadeiro clube-empresa.
Seu Pedro esteve em campo os 90 minutos.
Deu alguns passes de primeira (por incrivel que pareça, alguns certos), cobrou faltas e laterais.
A foto acima é do último lance do jogo.
O Auto Esporte tinha acabado de empatar e a «Peri» tinha a chance da vitória, que seria épica.
A imagem mostra Vinicius, camisa 11 tricolor, pedindo a Seu Pedro pra bater a falta.
Mas o dono do time (e aqui «dono» não é força de expressão) foi teimoso e fez a cobrança.
Ou melhor, recuou para o goleiro.
Após o jogo, Seu Pedro reclamou da falta de otimismo de seus colegas-empregados com sua decisão de cobrar a falta.
Ele se disse prejudicado por as «energias negativas».
A irritação de Seu Pedro pode ser vista neste vídeo, gravado quando o ídolo se preparava pra entrar no vestiário.
A partida em foi tecnicamente muito fraca.
O time pessoense criou várias chances, perdidas parte por a ruindade dos atacantes, parte por as boas defesas do arqueiro tricolor.
Já a Perilima no máximo conseguia alguns chuveirinhos na área.
No entanto, a falta de competência dos donos da casa foi punida num contra-ataque letal do adversário, que culminou num belo toque por cobertura de Chacal, o dono da camisa 9 da Perilima.
Chacal já ia deixar o gramado, cansado, e se não fosse o empate aos 47 da segunda etapa, seria o herói da segunda vitória do time na competição, o que alimentaria o sonho de voltar à elite do estado -- este ano apenas um clube sobe.
Número de frases: 27
Confira classificação aqui e algumas fotos do jogo aqui.
Não conhecia o escritor Márcio Souza.
Era apenas um leitor voraz de sua obra, conhecendo muito da nossa região, o Norte do Brasil, por as páginas de livros emocionantes como Galvez -- o Imperador do Acre e Mad Maria.
Ele esteve em Araguaína, por cinco dias, no final de maio, durante estréia da peça teatral A Maravilhosa Estória do Sapo Tarô-Bequê, de sua autoria, encenada por o grupo local Ciganu's.
Souza é uma pessoa extremamente gentil, tranqüila, completamente o avesso da agitação e das aventuras com que compõe seus personagens em livros cujo cenário é a sua própria região:
a Amazônia.
Um escritor que dá destaque à história de seu povo em seus livros, ele acredita que no Brasil existe certo preconceito dos autores em trabalhar temas históricos.
Também acredita que se o país tivesse mais bibliotecas públicas, o brasileiro teria mais chances de elevar seu nível de leitura.
Para Márcio Souza, quem deseja iniciar na carreira literária tem que ser perseverante e buscar uma editora do eixo Rio-São Paulo para obter sucesso.
jjLeandro -- Araguaína é uma cidade da região Norte.
Em os seus trabalhos, o senhor explora muito a temática dessa região.
Causou-lhe surpresa a encenação de uma peça sua aqui, numa cidade desconhecida?
Márcio Souza -- Não.
Não causou surpresa.
É uma peça bastante encenada no Brasil e me deixou bastante feliz porque, como disse, é muito encenada, mas raramente é encenada na região.
As dificuldades são maiores aqui para fazer teatro, fazer qualquer tipo de arte, principalmente nas cidades do interior.
Por isso mesmo quando eles me pediram autorização, eu falei: '
olha, não tem o menor problema ', e até brinquei com eles, dizendo ' eu autorizo, mas vocês têm que me convidar para a estréia '.
E eles convidaram mesmo.
E eu achei ótimo estar aqui para assistir ao espetáculo e conviver com o grupo.
Eu faço teatro também e sei das dificuldades.
jjLeandro -- Quais suas expectativas para o lançamento dessa peça em Araguaína?
Márcio Souza -- A experiência que eu tenho com o Sapo Tarô Bequê é que ele é um espetáculo que atrai público.
Onde ele foi encenado, em geral, agradou.
É comédia.
O brasileiro é ligado aos temas cômicos, não gosta muito de drama e tragédia, e, por o fato de ser comédia, já tem meio caminho andado para interessar ao público.
Depois tem o poético, o romance, o inusitado de trabalhar o mito indígena como teatro e como comédia.
jjLeandro -- Como o senhor vê o enfoque da peça com o grupo Ciganu's voltado para todas as faixas etárias e não somente ao público infanto-juvenil?
E a relevância de uma abordagem atual como ecologia e meio ambiente?
Márcio Souza -- O sapo também é apresentado para todo mundo.
Nós estamos com uma montagem agora lá em Manaus, e temos apresentado para platéias de todas as idades, de oito a oitenta anos.
A temática do meio ambiente não é parte aberta do espetáculo.
Está implícito isso na medida em que o próprio mito trata da relação homem / natureza, da civilização.
De fato, eles fazem uma encenação e não uma adaptação.
E esses temas já estão subjacentes na peça.
jjLeandro -- O senhor aborda muito a temática da região Norte em seus trabalhos.
A tetralogia sobre as crônicas do Grão-Pará explora essa temática e o senhor já disse que a Cabanagem tem material para milhares de romances.
O senhor acredita que o tema histórico no Brasil é explorado satisfatoriamente?
Márcio Souza -- Hoje não é muito do interesse dos escritores trabalharem isso.
Primeiro porque a literatura brasileira na sua maioria hoje, com honrosas exceções, é uma literatura subjetiva que tem mais a ver com as experiências pessoais dos autores.
É uma literatura reflexiva.
Naturalmente, a literatura que trabalha com temas históricos é muito mais ampla, de ação em muitos casos, que leva os leitores ao passado e a partir daí faz uma reflexão sobre o presente.
Diria até que há certo preconceito contra o romance histórico no Brasil.
Não é da moda ...
jjLeandro -- Isso é positivo ou negativo?
Márcio Souza -- Não faz a menor diferença para a literatura.
É negativo para os leitores, porque a divulgação da literatura no Brasil -- seja brasileira ou estrangeira -- tem um espaço muito limitado.
Você compara com trinta anos atrás, a literatura tinha muito mais espaço no jornal impresso, na rádio, e hoje não tem mais espaço.
E aí, quando surge um preconceito contra um dos nichos de narrativa, é muito ruim para a divulgação da própria literatura.
jjLeandro -- Como autor consagrado, o senhor acha que exista uma fórmula para o autor inédito que procura reconhecimento e leitores para sua obra?
Márcio Souza -- Acho que não.
Acho que ele tem que ser perseverante, escrevendo.
O primeiro cuidado de ele é não editar, se ele não está no eixo Rio-São Paulo, na sua cidade, pois aí estará apostando contra ele mesmo.
Em geral, fora do eixo Rio-São Paulo não tem profissionais com capacidade de distribuir o livro.
Mesmo no eixo Rio-São Paulo a distribuição já é precária no país por a suas dimensões continentais.
E são poucas as editores que atingem todo o país.
Mas, se ele quer começar de alguma maneira, tentar ser conhecido, ele tem que lutar para ser publicado por uma editora paulista ou carioca.
jjLeandro -- O brasileiro tem um bom índice de leitura?
Ele lê bem?
Márcio Souza -- O Brasil tem os piores índices de leitura.
Mas eu acho que não é o leitor brasileiro que não lê bem.
Há uma demanda reprimida no Brasil por a carência de bibliotecas públicas.
O preço do livro é muito alto para o poder aquisitivo do brasileiro.
Em a verdade não é o livro que é caro.
O brasileiro ganha mal, nós ganhamos mal.
Então tudo isso limita o acesso.
Quando ocorreram fatos que melhorou um pouco o poder aquisitivo da população, as vendas dos livros aumentaram no Brasil.
Isso ocorreu umas três ou quatro vezes na segunda metade do século XX.
Portanto, comprovadamente do ponto de vista econômico, o brasileiro não tem acesso porque ele é pobre e o Estado não oferece alternativa.
jjLeandro -- Obviamente o autor também é prejudicado.
Márcio Souza -- É claro.
Você escreve e publica num país que os leitores não têm acesso a livros ...
É uma situação kafkiana.
Número de frases: 73
Apelidado Xis, um dos nomes mais influentes e polêmicos do hip-hop brasileiro está de volta à cena.
Em a ativa desde o início dos anos 90, época em que integrava o grupo DMN (autores do clássico H.Aço), Xis acompanhou a ascensão e assistiu a queda da popularidade do Rap no Brasil.
O fenômeno teve como marco Sobrevivendo no inferno (1998), disco do Racionais MC ´ s que vendeu mais de um milhão de cópias e abriu espaço para o rap na grande mídia.
Em este processo Xis cometeu dois discos solo:
Seja como For (2000) e Fortificando a desobediência (2001).
Em 2002 colocou outros grupos em evidência com a coletânea Xis Apresenta:
Hip-hop SP, distribuída em bancas de jornal por todo Brasil.
Depois de quase seis anos sem colocar um som novo na pista o preto-bomba de Itaquera ataca com sua primeira mix-tape, batizada com o trocadilho Xistape Vol. 1.
Cabe aqui falar um pouco sobre o que é uma mix-tape, formato que vem se popularizando cada vez mais entre produtores e apreciadores das batidas e rimas.
Como bem propõe o nome, a mix-tape surgiu quando DJ ´ s e MC ´ s começaram a gravar fitas com músicas mixadas em seqüência.
A princípio o formato colocava a prova tanto a habilidade do DJ, em sua capacidade de mixar diversas batidas, como a do MC, na função de cantar mesmo em cima de batidas que não eram suas originais.
Em os últimos anos a mix-tape vem sendo usada para popularizar o trabalho dos MC ´ s.
É um formato onde os rappers exibe versões distintas de músicas antigas e pequenas prévias dos sons que constarão num futuro álbum.
A Xistape é recheada com algumas das melhores produções da carreira do rapper, mescladas entre versões originais, remixes e trechos de músicas novas.
A diferença é que, nesse caso, a Xistape se coloca como um produto concluído em si mesmo, não apenas uma ferramenta que abre os trabalhos de um novo disco, Xis explica que:
«S ão tracks novos, lados B, remixes e alguns sucessos.
Uma ou outra coisa nova.
Em a real a Xistape é uma homenagem a cultura dos DJs, e é dedicada a todos os DJs que eu trombei no role até hoje.
Seja no palco, no estúdio, nos clubes ou nas rádios».
O mérito por a produção da mix-tape é dado ao " DJ RM:
«Ele é muito talentoso, e apenas uma pessoa com talento poderia executar este trampo.
Sem o RM esta mix-tape não iria acontecer».
A percepção das mudanças no formato de produção, distribuição e consumo da música também impulsionou Xis a realizar a mix-tape.
«No caso do primeiro (disco) que lancei, eu mesmo fiz o corte da master do vinil, ele saiu em fita k7 também.
Olha só quanto tempo ...
Hoje em dia nem se lança mais discos em vinil.
O esquema é subir o mp3 para a internet».
Foi o próprio rapper que jogou a mp3 (é um arquivo só, com mais ou menos 35 minutos de músicas seqüenciadas) na rede, em poucos meses a Xistape já bateu a casa dos 14 mil downloads, " a internet é o caminho mais rápido, direto e barato, hoje em dia.
Sorte de quem gosta de música».
Depois de circular por grandes gravadoras, pequenos selos, tocar ao lado de figuras como Cásia Eller Xis segue na ativa.
Em o melhor estilo «a volta do que não foi», o rapper provoca:
«pra quem acha que o Xis parou?
Escuta a Xistape, depois me fala».
Baixe a Xistape:
Número de frases: 34
http://www.overmundo.com.br/banco/xistape entrevista concedida para Tiago Jucá Oliveira, Joe Banzi e Leandro De Nardi, da revista O Dilúvio
O primeiro CD do Mombojó teve duas formas mais eficazes de distribuição:
encartada numa revista (Outracoisa) pra ser vendido em bancas por um preço justo e disponibilizado no site da banda em mp3 para download gratuito.
Que vantagens vocês notam nesses dois formatos de divulgar música?
Marcelo Campello:
Principalmente em internet, que tem se mostrado a estratégia ideal para bandas independentes divulgarem o trabalho, pois você não tem limite de prensagem.
Uma vez colocando a música na internet ela pode ser reproduzida infinitamente.
O que a gente fez foi liberar as músicas pra esse download caseiro, que é uma forma que a lei hoje em dia trata a pirataria, que é a comercialização de cópias ilegais, e esse download caseiro da mesma forma.
Quando na verdade é totalmente diferente.
Essas leis estão sendo discutidas, em muitos países isso está mudando em algumas áreas, em informática.
Desde a experiência da Xérox, nunca mais a população pode voltar atrás com essa coisa da cópia livre.
O caminho da música é seguir o exemplo da literatura e da Xérox.
Como a banda tomou conhecimento do Creative Commons?
Marcelo Campello:
Tem um grupo lá no Recife que se chama Re:
Combo que é super ativista nessa área.
A gente ...
Marcelo Machado: ...
fizemos a capa do CD com um dos membros do grupo e ele nos deu a idéia.
E através de ele começamos a conhecer o que era o Creative Commons.
Samuel:
É bom falar que não é do Recife só a banda.
O Re:
Combo tem conexão em São Paulo, na Alemanha.
Os caras usam um programa que tu pode fazer música, grava uma base, manda pra um doido que é dono de uma banda na Alemanha, manda pra não sei quem, ou seja, é uma banda comunitária mundial, do caralho.
Marcelo Campello:
Em essa época logo antes de lançar o primeiro disco a gente tava pensando nessas coisas.
Eu tava numa viagem pessoal no meu prédio fazendo uma TV Prédio, que era um canal comunitário de TV e que funcionava dentro do prédio.
Aí eu estava me questionando muito essas questões, tipo alugar uma fita e reproduzir para todos os andares.
E isso era uma coisa que mexia com direito autoral.
Foi onde despertou essas questões de direito autoral.
E numa festa conversando com Mabuse, eu expus essas questões pra ele, que me falou:
«você já ouviu falar em Copyleft?».
Eu disse não e começamos a conversar.
Tudo o que ele falava tinha a ver com que eu acreditava.
Esse conceito entrou na banda também.
É possível quantificar a proporção entre o investido e o retorno posterior?
Marcelo Machado:
Venda de CDs a gente não tem como dizer se melhorou.
A gente crê que com as músicas liberadas na internet as pessoas compraram mais CDs.
Em os shows todo mundo dizia «eu tenho as músicas no computador, mas eu tenho o CD também».
E a gente chegou a tocar em alguns lugares porque os contratantes desses lugares ouviram a gente por a internet.
Então se o cara de Florianópolis não tivesse ouvido a gente na internet, não teríamos ido tocar em Florianópolis na nossa primeira turnê.
E lá vendemos alguns discos, e isso vale pra qualquer outro lugar.
Marcelo Campello:
Parece natural que se aponte para o lado do CD em si ir sumindo e virar a coisa da música virtual.
Ou a gente lida com essa realidade nova e tenta descobrir novos caminhos pra isso, ou vai fazer que nem as grandes gravadoras que estão aí falindo.
Então não tem escapatória, tem que aceitar a nova realidade ...
Marcelo Campello: ...
e tentar criar a nova realidade, as soluções não estão aí prontas, a gente está participando do desenvolvimento.
A questão da venda de CDs ficaria em segundo plano?
Marcelo Machado:
Acaba sendo uma coisa empírica.
A gente colocando as músicas na internet ajudou a aumentar as pessoas que vão aos shows, as pessoas que cantam as músicas.
E quem vai aos shows e gosta, compra o CD.
E a gente vende o CD nos shows mais barato do que está nas lojas.
Aí uma coisa acaba trazendo outra, e isso vai aumentando, pois na internet se propaga muito fácil.
É uma coisa que tem um tempo bem diferente do que pra uma banda de sucesso, tipo uma banda que aparece do nada e vende milhões.
Hoje em dia a coisa é diferente, as bandas que vão se firmando e se mantendo é ao longo do tempo que vão crescendo seu público.
Tipo a Nação Zumbi, é uma banda que está há mais de dez anos aí e já plantou muita semente.
entrevista completa:
Número de frases: 61
http://www.odiluvio.com.br Há 28 anos o grupo teatral sergipano Imbuaça faz muito mais que teatro de rua.
Ao longo de todo esse tempo, o grupo vem realizando um feito e tanto:
em meio à difícil realidade da vida na periferia, usar o teatro para formar não só artistas, mas também cidadãos.
E de quebra ainda manter viva a memória da literatura de cordel.
Não é mesmo à toa que o grupo foi selecionado como Ponto de Cultura do MinC no ano passado.
Com um currículo de 28 espetáculos montados -- sempre com mais de um em repertório -- apresentações por todo o Brasil, além de tantas outras internacionais, e mais um vasto e cuidadoso trabalho de resgate da literatura de cordel local e nacional, tinha que haver um objetivo maior para tudo isso.
Além do amor à arte, o Imbuaça é um exemplo a ser seguido de como dar um propósito nobre ao que se faz, sem egoísmos ou vaidades, e mantendo os pés no chão.
Duas das atividades desenvolvidas por o grupo ilustram bem esse propósito:
os projetos Mané Preto e Nosso Palco é a Rua.
O primeiro usa a arte -- dança, teatro e música -- como meio para formar pessoas melhores, cidadãos conscientes.
Através de parcerias com a iniciativa privada e mais o apoio do BNDES e da Bovespa, desde 2000, cerca de cem alunos -- mais da metade crianças de 07 a 12 anos -- participam de oficinas e atividades que visam a conscientização cidadã, a auto-estima local e uma possível iniciação no mercado de trabalho através da dramaturgia.
Todo ano novas turmas se formam e a procura para as vagas não pára de crescer.
Já o segundo, para o qual ganham o apoio do programa Cultura Viva, do MinC, tem a própria arte como fim.
Em uma cidade onde não há curso de ator, nada mais nobre que dar a chance de uma formação artística a quem mal consegue ter acesso à educação fundamental.
Com o Nosso Palco é a Rua, desde o ano passado, 40 alunos da rede pública têm aulas de introdução ao teatro, história da arte e musicalização, entre outras matérias.
O curso é profissionalizante e tem o objetivo de aliar a linguagem do teatro de rua aos elementos do folclore local, com espaço também para o que for do gosto e do talento dos próprios alunos.
Assim, por exemplo, se um grupo de alunos gosta de street dance, eles aprendem a incorporar passos do folclore às suas coreografias.
E não é só isso.
O bairro onde está localizada a sede do grupo já teve uma das mais tradicionais festas de São João (hoje em dia abafada por o monumentalismo das grandes festas, como o ForróCaju), onde toda a cidade ia prestigiar os cortejos de grupos folclóricos, os palhoções e as quadrilhas.
Para não deixar morrer a tradição, o Imbuaça criou o projeto Zabumbadores do Folclore que toda última semana do mês de agosto, leva grupos folclóricos para se apresentarem para a comunidade e promove oficinas e debates, com o foco principalmente no público infantil.
Fora tudo isso, o grupo mantém em repertório quatro espetáculos de rua:
Teatro chamado cordel -- a montagem mais antiga do grupo (a primeira foi em 78), A farsa dos opostos, Antônio meu santo e Desvalidos.
Todos textos baseados em obras de autores cordelistas.
Para saber mais sobre as atividades do Imbuaça acesse o site.
A sede do grupo (foto) fica na rua Muribeca, nº 04, bairro de Santo Antonio, bem no pé do morro.
Contatos:
gimbuaca@infonet.com.br, tel:
Número de frases: 27
(79) 3215 3064. Faça novo o teu ano
Frei Betto Escritor, é autor de Gosto de uva (Garamond), entre outros livros
«Em este ano-novo, faz-te novo, reduz a tua ansiedade, cultiva flores no canteiro da alma, rega de ternura teus sentimentos mais profundos, imprime a teus passos o ritmo das tartarugas e a leveza das garças."
Este é o primeiro parágrafo da coluna do grande escritor e humanista Frei Betto no Correio Braziliense de hoje (04/01/2008).
Começar a manhã com esta leitura é iniciar um dia iluminado.
Que me diz que nada vale o nosso desespero.
Como que dizendo:
se um mundo quer desabar a sua volta, que desabe!
Porém, permaneça inteiro porque é sua única chance de contribuir na transformação de todo caos que insiste em se instalar em nossa vida.
A única possibilidade de mudar o curso de nossa história é continuar vivo e alerta, porém sem perder a paz e a calma.
«Evita, porém, o olhar narciso.
Sê solidário:
ao estender aos outros as tuas mãos estarás oxigenando a própria vida.
Não sejas refém de teu egoísmo».
E ele nos dá o simples recado:
«A publicidade sugere felicidade e, no entanto, nada oferece senão prazeres momentâneos "
Frei Betto, como sempre, do alto de sua lucidez e sensibilidade, ainda nos brinda com muitos outros recados, como:
«Centra tua vida em bens infinitos, nunca nos finitos.
Lê muito, reflete, ousa buscar o silêncio neste mundo ruidoso.
Lá encontrarás a ti mesmo e, com certeza, um Outro que vive em ti e quase nunca é escutado."
«Cuida da saúde, mas sem a obsessão dos anoréticos e a compulsão dos que devoram alimentos com os olhos.
Caminha, pratica exercícios aeróbicos, sem descuidar de acarinhar tuas rugas e não tema as marcas do tempo em teu corpo.
Freqüenta também uma academia de malhar o espírito.
E passa em ele os cremes revitalizadores da generosidade e da compaixão." ( ...)
«Não te deixes desiludir por o mundo que te cerca.
Assim o fizeram seres semelhantes a nós.
Saiba que és chamado a transformá-lo.
Se tens nojo da política, receberás a gratidão dos políticos que a enojam.
Se és indiferente, agradecerão os que a ela se apegam.
Se reages e atuas, haverão de temer-te, porém a democracia se fará mais participativa." ( ...)
«Em 2008 celebraremos o 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Pratica-a em tua casa, com teus filhos e tua (teu) parceira (o).
Não trate tua faxineira como uma semi-escrava.
Remunera-a com um salário digno e propicia-lhe melhoria da qualidade de vida." ( ...)
«Arranca de tua mente todos os preconceitos e, de tuas atitudes, todas as discriminações.
Sê tolerante, coloca-te no lugar do outro.
Todo ser humano é o centro do universo e morada viva de Deus.
Antes, indaga a ti mesmo por que provocas em outrem antipatia, rejeição, desgosto.
Reveste-te de alegria e descontração.
A vida é breve e, de definitivo, só conhece a morte.
Faz algo para preservar o meio ambiente, despoluir o ar e a água, reduzir o aquecimento global.
Não utilizes material não-biodegradável.
Trata a natureza como aquilo que ela é de fato:
tua mãe.
De ela vieste e a ela voltarás;
vives do beijo que te dá continuamente na boca:
ela te nutre de oxigênio e alimentos.
Guarda um espaço em teu dia-a-dia para conectar-te com o Transcendente.
Deixa que Deus acampe em tua subjetividade.
Aprende a fechar os olhos para ver melhor.
Feliz 2008!"
É isso.
Número de frases: 52
Roubando as palavras de Frei Betto, espero mesmo que tenhamos competência para que o nosso 2008 seja realmente novo e não um «repeteco» cansativo de nossos últimos anos.
Alagoas Tem Muita Musica, ARTE E Cultura Intocada em Cada Canto De Suas Cidades, Periferias E SUBURBIOS.
Artistas ANONIMOS Que Nao Tem Onde Mostrar Seu Trabalho.
Skatistas Que Querem Contribuir Para A Divulgação De o Esporte.
Muitos
desses Artistas, Musicos, Seres Que Transmitem A Cultura Para Outras Pessoas Ficam A Cada Dia Ociosos E Acabam Se Entregando As Mazelas Que O Capitalismo Cria Diariamente.
Somos
La Poli & CIA!
Rimas De Reflexão, Grupo Que Surge Com Propostas De Divulgar A Cultura Popular De o Estado De Alagoas E Transmitir Consciencia Para Os EXCLUIDOS De a Sociedade, Como Assim Os Chamam.
Número de frases: 9
A Literamérica e os escritores.
Penso:
o papel do escritor é escrever.
Trabalhar muito:
escrever, ler o que escreveu, riscar, cortar, amassar, amar, odiar, destruir, jogar no lixo, lixo.
Ler muito para escrever.
Jogar muitos escritos fora na lata de lixo e continuar escrevendo, depurando, lapidando a nave bruta para vôos na casca da jóia desengastada.
Jóias de vôos.
Asas de poesia.
Só que, agora, nos tempos modernos, o papel do escritor tem se alargado como imensas páginas que se abrem -- ad infinutum -- para se escrever, selecionar, editar, produzir, distribuir o livro com os inúmeros meios disponíveis, enfim, cair na rede e tentar ocupar seu território nesse mar de (des) territórios.
páginas vazias repousam antes de serem ocupadas por as garatujas que se multiplicam como insetos nesse grande oceano de coisas & signos
Então é preciso discutir mercado, encontrar soluções para novos mercados, cooperar, disponibilizar obras, fazer circular tanto o objeto livro como o e.
book ou e.
livro se preferirem, encontrar novos meios, novos caminhos, novos fluxos nessa gigantesca rede que não pára de se expandir.
Esses movimentos vêm, saudavelmente, anarquizando os modelos arcaicos de produção que são estanques, elitistas, autoritários, exploradores.
Então, tem mais é que parar de chorar e ir à luta:
encontrar seus próprios meios de sobrevivência nessa grande rede colaborativa que está construindo um caminho sem volta.
A onda que seduz a garotada é a do conhecimento coletivo, do compartilhamento criativo-afetivo solidário.
As utopias estão mais vivas do que nunca.
A capacidade de sonhar está em estado de alerta e vem desenhando novos modelos de auto-sustentabilidade.
Naveguei por toda essa introdução, para falar da segunda Feira do livro sul-americano, que aconteceu em Cuiabá, no mês de setembro.
A Feira é realizada por a Secretaria estadual da Cultura junto com a associação Alimento -- amigos do livro de Mato Grosso -- entidade que agrega escritores, editores e livreiros.
A Alimento mantém reuniões regulares onde seus membros têm como objetivo falar daquilo que mais gostam:
de livros.
Buscam encontrar saídas para a complicada questão da leitura, da escrita, da edição, da publicação e da distribuição de livros em nosso país.
A idéia ao se realizar esse evento, que envolve a participação de quase todos os países sul-americano, é propiciar uma integração cultural através do livro, dos escritores, editores, estudiosos, enfim, de todos aqueles que de alguma forma alimentam a cadeia produtiva e faz o livro chegar até os leitores.
É interessante iniciar essa integração continental, de fato, através do livro.
A Feira propiciou encontros entre escritores e editores de vários estados brasileiros e de outros sul-americano, como Equador, Chile, Venezuela, Uruguai e Argentina, de entre outros, o que torna o evento bastante pertinente, pois a aproximação entre produtores e criadores pode frutificar, despertar interesses principalmente para a circulação de suas obras, enfim, são contatos que sempre deixam algo de bom.
Foi interessante também a mostra gastronômica, realizada através de uma parceria entre a secretaria estadual da Cultura e a UNIC, com a oferta de um prato típico, de cada país da América do Sul, no restaurante da Literamérica.
A produção dos pratos, muito bons por sinal, ficou por conta dos alunos do curso de Gastronomia da Universidade de Cuiabá.
As palestras e os encontros dos escritores têm revelado um certo distanciamento entre a literatura brasileira e a produzida no restante do continente principalmente por a questão da língua.
Uma maneira de se iniciar essa integração poderia ser através de acordos bi-nacionais entre os Departamentos Superiores de Políticas de Leitura, das Câmaras setoriais que tratam da questão do Livro, da Literatura.
É importante desenvolver políticas públicas, por exemplo, de estímulo à tradução de obras literárias tanto do português para o espanhol quanto o inverso;
de fomento ao processo de edição, publicação e circulação nos países sul-americano, nas escolas de ensino básico, ensino técnico e universidades.
Acho que seria interessante também estimular o ensino da língua espanhola no ensino básico no Brasil.
Afinal, além de ser uma língua cada vez mais difundida na geografia mundial, é importante para uma integração definitiva entre nós brasileiros e ' los hermanos del sul. '
Sem deixar cair a peteca do infame trocadilho:
Hermano Vianna, que foi um dos palestrantes da Feira de livros, deu uma belíssima demonstração em sua aula-palestra multimídia sobre a contemporaneidade e suas possibilidades milionárias de produção colaborativa.
O que dá para concluir é que o conhecimento coletivo deve ser cada vez mais difundido, sem medo de ser feliz, ao contrário, a felicidade e o bem estar coletivo são as melhores coisas que podem acontecer com esses novos procedimentos, que representam avanços fabulosos na prática humana do viver em coletivo.
Qual o sentido do conhecimento, a não ser, servir a todos?
E aí entra a questão da autoria.
De quem são as idéias?
Por o que sei, elas circulam livremente, não respeitam barreiras geográficas e tampouco são privilégios de alguém ou de algum lugar.
Os modelos de regulação do direito autoral que vigoraram e vigoram ainda hoje estão sendo superados.
Novas alternativas estão sendo praticadas e fazem parte desse conjunto de transformações que estamos vivenciando.
Alternativa como o Creative Commons que já passou das 50 milhões de obras em todo o mundo sob sua forma de licenciamento.
Overmundo também está nessa.
Faz parte dessa vanguarda.
A literatura de Mato Grosso vem se desdobrando em movimentos orgânicos que não dependem de nenhuma ação oficial.
Escritores aparecem em qualquer lugar e considero animador ver a sanha da gurizada que vem brotando em todos os recantos desse imenso Mato Grosso:
então, vi textos de autores contemporâneos bons, que me chegaram por a revista Fagulha, editada por Juliano Moreno, de Sinop, de Barra do Garças, de Cáceres.
Lembro de Raimundo Maranhão que morava em Guiratinga, interior de Mato Grosso, no século passado, com seu faro de futuro:
se utilizava de meios que na época ainda não eram utilizados para tais fins:
com o melhor aparelhamento dos Correios, na época (pós Segunda Guerra), descobriu que não havia limites que impedissem a circulação de sua produção literária junto com a dos seus parceiros poetas de vários países do mundo.
Ele tinha uma lista com cerca de seiscentas cidades para onde distribuía seus poemas entre movimentos literários planetários, criando e abrindo assim, novo meio de circular, interagir, ler compartilhar.
Hoje, fico fascinado com a gurizada que, com muita facilidade, mete a mão na internet e recorta coisas, cola outras, recria, cria em coletivo, se «adjuntano» pra fazer arte, como diz o cuiabano.
Acho muito rica essa relação entre meio e mensagem onde nada se separa, onde tudo interage e uma coisa dialoga com a outra:
bifurcações que nunca terminam.
Nunca acreditei em obra acabada, obra fechada, obra que não pudesse ser invadida.
Então, uso de tudo para criar, utilizo velhas bulas de produtos químicos, revistas velhas, recorto trechos de filmes já rodados, pedaços de músicas alheias, jogo tudo no ventilador, jogo poeira pra tudo que é lado.
Não tem barreiras, não tem limites, não tem geografia fronteiriça, é zoeira nas orelhas, ruídos nos olhos, tatos, olfatos, e assim vamos, vivendo e revivendo todos os ciclos possíveis e inimagináveis.
Termino aqui deixando um forte abraço torto de anjo barroco misturado ao som eletrônico que rola no fundo do quintal, enquanto a feijoada se refestela ao fogo, a boca bebe um gole de cachaça com limão.
A cerveja?
É holandesa ou alemã, não sei direito.
O poema?
É português.
De o José Luis Peixoto.
Poesia contemporânea de Portugal.
Qual?
Número de frases: 69
O título não esclarece mas quem curte pop brasileiro sabe de quem eu estou falando:
Pato Fu.
Em o mês de setembro, a banda, quer dizer, 2/5 de ela, fez um rolê por o Japão para divulgar seu novo álbum De aqui Para o Futuro, o primeiro a ser lançado aqui na Terra do Sol Nascente.
Aproveitando a participação da vocalista no desfile do estilista Ronaldo Fraga, Fernanda Takai e John Ulhôa fizeram apresentações na capital japonesa e em Kamakura (província de Kanagawa), atraindo os fiéis fãs brasileiros e novos admiradores nativos.
Em uma da maiores lojas de CDs de Shibuya, um dos bairros mais descolados da capital japonesa, eles apresentaram um pocket show com músicas do álbum novo e um bis que incluiu as antigas Eu e Vivo no Morro.
Fernanda e John abriram as portas do Japão para o Pato Fu que, estranhamente, apesar de todas as influências japonesas, ainda não havia recebido o merecido espaço por aqui.
No entanto, o filé para os admiradores da banda foi o show organizado no subsolo de um templo em Iidabashi, Tóquio.
Sentado à moda japonesa, o público assistiu curioso a um vídeo que conta a história de Made In Japan, talvez a música que melhor resuma o trabalho do Pato Fu.
Depois, os simpáticos Fernanda e John mandaram, no voz-e-violão, sucessos e músicas novas.
A cantora, agora estudante de japonês, aproveitou para praticar o idioma.
Ela contou que, em sua passagem anterior por o Japão, sentiu-se desapontada por não poder comunicar-se na língua nipônica.
«Senti que estava perdendo alguma coisa», disse ela, que matriculou-se num curso e, pouco antes de vir, deu um gás para fazer bonito por aqui.
«Kawaii» (bonitinho, em português), disse uma menina japonesa ao final do pocket show de Shibuya.
Realmente. O Pato Fu faz um trabalho onde o limite entre brinquedo e instrumento é nulo e a experimentação rola solta.
Aliás, essas características são mais surpreendentes ainda quando pensamos que a banda é bastante popular no Brasil e gravou por uma das maiores majors durante algum tempo.
Fase, aliás, que ficou para trás no disco anterior -- Toda Cura Para Todo O Mal -- quando o Pato retornou a suas raízes independentes.
De aqui Para o Futuro foi lançado simultaneamente em CD e em download e vem ocupando o topo do ranking de uma famosa loja virtual brasileira desde que chegou ao mercado.
«Sabíamos que o disco iria parar na internet de alguma forma, então decidimos oferecer uma opção àqueles que desejassem tê-lo de forma legal», explica Fernanda.
Além disso, eles contam que a opção de vender por download tem retorno rápido e é mais transparente, gerando mais vantagens para o artista.
Ainda não ouvi De aqui Para o Futuro por pura falta de tempo.
Porém, a música de trabalho Cities In Dust, uma releitura do sucesso de Siouxsie & The Banshees, que tinha demorado a descer, não sai da minha cabeça.
Kawaii Fernanda-san deu uma outra vida para uma das melhores canções de uma das maiores bandas dos anos 80.
De aqui para o futuro, a banda pretende vir completa para uma série de shows no Japão.
Em o que depender dos fãs, os novos e os antigos, os japoneses e os brasileiros, a porta está bem aberta.
A entrevista completa, com direito a fragmentos dos shows, feita por Ewerthon Tobace e este que vos escreve pode ser vista em videostream por o link aqui.
Número de frases: 25
Publicada originalmente em Alternativa.
Imagine um encontro reunindo 26 chefs de 12 estados brasileiros.
É de dar água na boca, não é!?
Mas os ingredientes desse encontro não param por aí.
Representantes de 77 comunidades rurais, quilombolas e povos indígenas estavam lá com seus produtos de excelência culinária e todo o conhecimento tradicional envolvido no cultivo e preparo de suas delícias.
A festa está completa?
Não, ainda tem mais:
coloque neste caldeirão pesquisadores, acadêmicos e apaixonados por gastronomia.
Está formado o ambiente em que aconteceu o I Terra Madre Brasil -- encontro nacional de ecogastronomia, que foi realizado em Brasília no início de outubro de 2007.
Já na abertura do evento podia-se ver um pouco do que viria no dias seguintes.
Silvio Barbero -- um dos fundadores e atual secretário executivo do movimento Slow Food -- contextualizou o Terra Madre dentro do Slow, falou sobre a importância de conhecermos e valorizarmos os alimentos locais e a cultura envolvida na sua produção.
Durante a tarde, aconteceu um dos momentos mais ricos do encontro:
uma enorme sala de degustação onde os participantes puderam experimentar os produtos das comunidades.
Entre as saborosas maravilhas estavam:
farofa de castanha do Brasil, doce de umbu, castanha de licuri torrada, licor de açaí, marmelada santa luzia, cuca catarinense, caju passa, queijo canastra, palmito de pupunha, pé de moleque de baru, farinha de coco, farinha de tapioca, farinha grossa, farinha fina, vinho de uva goethe, cachaça artesanal orgânica, guaraná defumado em barra preparado segundo a tradição do povo Sateré Mawé entre muitas outras delícias.
Um privilégio poder experimentar toda essa diversidade reunida num mesmo espaço.
Privilégio maior foi poder conhecer os produtores e ouvi-los falar com paixão sobre suas comunidades e sobre como fazem /colhem/preparam cada uma daquelas delícias.
Se eu terminasse esse texto aqui, seu título já estaria justificado.
Mas o evento estava apenas começando ...
Enquanto participante do evento, o que mais me marcou foi a disposição de todo mundo para trocar experiências.
Pessoas vindas de uma realidade mais particular que a outra circulavam por os corredores, salas e restaurantes do Terra Madre.
E todos com várias histórias para contar:
fosse um jovem de uma comunidade do Amapá que foi colonizada por marroquinos, fosse a presidente de um instituto fundado para preservar e divulgar os produtos e fazeres dos mais diversos derivados da mandioca, fosse a representante de uma comunidade potiguar que desenvolveu uma maneira artesanal de torrar a castanha do caju e está mudando a história de muitas outras comunidades do nordeste através do comércio justo.
Em os dias que se seguiram, os participantes se distribuíram entre oficinas, debates e degustações.
Aqui vale o destaque para as oficinas de ecogastronomia para crianças e para as «oficinas de sabores».
Em uma dessas oficinas, foi preparado coletivamente um delicioso chocolate artesanal, com direito a descascar o cacau torrado, pilar e bater o pó do cacau, com todo mundo colocando a mão na massa e, depois, experimentando o maravilhoso «resultado».
Houve a Festa da Polenta e a oficina da Super Tapioca, onde esses alimentos típicos foram produzidos em grande quantidade, mais uma vez com direito a todo mundo aprender como fazer, a ter contato com as matérias primas e, claro, a degustar no final.
Ligação entre o alimento, quem produz e quem consome
Nem precisa falar que as refeições servidas nos dias do evento foram especiais.
Os almoços e jantares foram preparados com ingredientes da agricultura familiar.
Vou contar para vocês que tem um sabor muito especial se alimentar de produtos que você conhece o produtor.
Em o cardápio do Terra Madre sempre tinha arroz vermelho, feijão canapu, pequi, sucos de frutas naturais entre várias de outras opções.
Mas era assim:
ali no estande do Slow Food, você conversava com o pessoal que produz arroz vermelho, ficava sabendo de como a comunidade vive no sertão da Paraíba, dava umas boas gargalhadas com os casos do pessoal do Feijão Canapu e, quando ia almoçar, podia se deliciar com os produtos de eles (e ainda saber que o que está consumindo colabora com a comunidade e ajuda no trabalho de preservação daquelas espécies).
Tinha o Espaço Gourmet também.
Em esse espaço cada almoço ou jantar foi assinado por um ou mais chefs.
Tive o prazer de ir no almoço elaborado por o Chef Faustino onde foi servido de entrada macaxeira recheada com camarões.
O prato principal foi filé de peixe ao mocororó, acompanhado de arroz vermelho e purê de abóbora.
A sobremesa foi da Chef Rita de Medeiros, que serviu sorvete de cagaita com calda de pequi.
O Faustino também é produtor:
planta e colhe diversos alimentos e temperos que serve em seu restaurante, o Cantinho do Faustino, em Fortaleza.
A Rita tem uma sorveteria em Brasília, a Sorbê, onde podemos saborear sorvetes e picolés feitos com frutas e castanhas do Cerrado, alguns exemplos são:
baru, pequi e buriti.
O Terra Madre Brasil foi realizado por o MDA em parceria com o Slow Food e aconteceu em paralelo com a Feira Nacional de Agricultura Familiar, que é um universo complementar de sabores e saberes.
Por a força do evento, se tudo der certo, ano que vem teremos a segunda edição.
Para saber mais sobre o evento, ver mais imagens e acompanhar algumas discussões que continuam acontecendo, visite o site:
http://terramadre.slowfoodbrasil.com
Para saber mais sobre o Slow Food, conhecer um pouco sobre as comunidades do alimento e sobre os alimentos brasileiros protegidos por os programas do Slow para preservação da biodiversidade, acesse:
www.slowfoodbrasil.com (
Número de frases: 49
Em o site você pode indicar alimentos tradicionais que estão correndo risco de desaparecer, veja em Arca do Gosto)
A jornalista Eleuda de Carvalho registrou certa vez não saber onde batia o coração de Fortaleza, mas sabia exatamente onde ficava seu umbigo:
a Praça do Ferreira.
O local recebe democraticamente aposentados que driblam o tempo em rodas de conversas e partidas de dominó, estudantes secundaristas que vão justamente matar o tempo, milhares de pessoas que passam apressadas em direção às galerias comerciais, sindicalistas de toda ordem (e com todo tipo de reivindicação) e artistas de rua que a elegem diariamente como palco mais nobre.
Não surpreende, pois, que numa consulta popular realizada no ano de 2001, a Praça do Ferreira tenha sido escolhida como o ícone da cidade.
Inaugurada em 1829, a praça era conhecida como Feira Nova.
Tornou-se Largo das Trincheiras em 1842 e recebeu em 1871 o nome que conserva até hoje, uma homenagem ao boticário Antônio Rodrigues Ferreira.
Amplas intervenções urbanísticas ocorreram ao longo dos últimos dois séculos.
A última, em 1991, devolveu ao local o posto de palco principal da esfera pública fortalezense.
Restabeleceu a Coluna da Hora, ampliou os espaços de circulação e recuperou o projeto arquitetônico do início do século XX.
Se a história é feita de gente e de símbolos, a Praça do Ferreira tem dois que permanecem firmes diante da passagem do tempo.
A Farmácia Oswaldo Cruz, inaugurada nos anos 1930, e um outro boticário, Edgar de Paula, 87 anos, 56 de eles no comando da mais tradicional drogaria da cidade.
Seu Edgar tem dificuldade em organizar tantas lembranças dos lugares da Praça que existiam e hoje fazem parte apenas da memória da cidade (além de sua drogaria, sobrevivem a Pastelaria Leão do Sul, a ótica A Hora Certa e a banca do jornaleiro Bodinho, falecido em 2004.
O imponente prédio do Clube Iracema, desde a década de 50, é de propriedade da Caixa Econômica Federal;
o Excelsior Hotel, outrora o mais luxuoso da cidade, hoje é ocupado por alguns moradores e inquilinos e o Cine São Luiz foi transformado recentemente em Centro Cultural).
Sua fala é pausada, pontuada por vários silêncios.
As primeiras recordações aparecem devagar:
«O bonde passava aqui, ' arrodeava ' a praça e fazia ponto no abrigo central.
Aí os clientes desciam e entravam direto.
E ao lado tinha o Majestic Bar, os fregueses tomavam umas e outras e iam para os bancos que tinham aqui na frente».
Postado calmamente na mesa de madeira onde costuma atender os clientes, repete mais de uma vez que está na Oswaldo Cruz desde 1944, quando começou como contínuo da Hortêncio Mota & Cia, empresa que produzia equipamentos farmacêuticos e antiga proprietária da Drogaria.
«A firma entrou em dificuldade financeira e, com a graça de Deus, pude adquirir o controle total da farmácia.
Isso em 1950», afirma.
Seu Edgar não é muito dado a explicações acerca de sua farmácia ter permanecido em funcionamento enquanto tantos outros estabelecimentos não resistiram à mudança das décadas.
«Quando eu comecei, muito dos meus amigos falavam ' rapaz, tu vai se meter num negócio desses? '
Mas eu acreditei.
E aqui estou».
Está há 56 anos.
Mas deixa escapar:
«A farmácia permanece aberta por conta dos clientes, eles tem confiança em mim como farmacêutico».
Uma passada por o local confirma a percepção do proprietário.
Transita por a drogaria, nos dias de semana, uma média de mil pessoas.
De esse total, 750 compram algum medicamento e 100 fazem questão de exibir suas receitas médicas para uma apreciação de seu Edgar, pedir orientação sobre os medicamentos prescritos por os médicos ou simplesmente conversar.
Quem informa é Aderson Tavares, gerente da Oswaldo Cruz, 57 anos, 38 de eles na farmácia.
Começou como office-boy.
«Já acompanhei três reformas na Praça."
A pior época foi a dos caixotes altos [blocos de cimento implantados na época da ditadura militar, retirados na última reforma].
«O pessoal tinha medo de freqüentar, tinha marginais, muita violência.
Mas o dono nunca quis se desfazer do negócio, quer passar para as duas filhas.
Hoje, muita gente vem aqui, muitos aposentados.
São os saudosistas».
Saudosistas de conversas sobre os velhos tempos e de um atendimento diferenciado.
José de Oliveira Vale, 69 anos, freqüenta a Oswaldo Cruz desde a década de 50.
Como tantos outros clientes, demonstra uma resistência inicial em falar:
«Estou com pressa, converso com você só se for muito rápido», diz numa pressa dissimulada que contrasta com a decoração da farmácia a sugerir que o tempo não passa.
Mas a insistência revela as recordações:
«Seu Edgar é do tempo do meu pai, José de Castro Vale.
Ele também era farmacêutico, trabalhou na Pasteur [hoje extinta] e aqui, em 1924 e 1925.
Eu vinha aqui com ele».
E sentencia:
«Eu vou a outras farmácias também, mas os tipos de remédio tradicionais, compro aqui.
Já é uma tradição no Ceará quando se quer comprar com critério», diz, exibindo uma «pasta de água de enxofre».
«É para escabiose e brotoejo».
Além dos produtos diferenciados, como a «loção esportiva» (R$ 9,00, o frasco), a Oswaldo Cruz distingue-se de outras farmácias por a decoração, fiel aos primeiros anos de funcionamento.
As estantes dos medicamentos são de 1932, data de inauguração, e o piso é de mosaico.
Placas de décadas distintas mantém grafias e estilos originais.
As intervenções do moderno são poucas:
dois computadores no balcão, caixas com caixas registradoras eletrônicas, cartazes atuais de remédios como aspirina e um freezer estilizado dos Sorvetes Pardal convivem com a tradição.
É curioso ver a antiga placa de madeira que anuncia «só vendemos à vista» impor-se sobre as bandeiras de Visa e Mastercard ao lado do caixa, por puro charme.
Todos esses detalhes destacam a Oswaldo Cruz, mas é efetivamente a relação entre a clientela e o proprietário o motivo maior de tanta longevidade comercial.
Tanto que Seu Edgar afirma com segurança:
«Não vejo as farmácias daqui como concorrentes.
Eu atendo bem meus clientes».
Hoje, além da Oswaldo Cruz, existem cinco drogarias na Praça do Ferreira, quatro de elas associadas a grandes redes varejistas.
Enquanto transcorria a conversa com Seu Edgar, uma fila, formada essencialmente por clientes da terceira idade, não parava de crescer.
Até que um de eles, um senhor alto, magro e de cabelos ralos, irrompe:
«Rapaz, você está aí faz 45 minutos.
A gente não pode ficar aqui esperando o dia todo.
Eu sei que é uma entrevista, já fui jogador de futebol e sei como é isso, mas não é só você que precisa falar com ele».
Conversa encerrada, então.
Não há como argumentar quando uma placa grafando " Exija a máxima presteza na execução de sua receita.
Temos obrigação de servi-lo no menor espaço de tempo " paira em cima de nossas cabeças.
Em a Oswaldo Cruz, mais do que em qualquer outro lugar de Fortaleza, o cliente tem sempre a razão.
A Farmácia Oswaldo Cruz está localizada na Rua Major Facundo, 576, Praça.
É reconhecida como Patrimônio Histórico do município.
Edgar de Paula encontra-se todos os dias no local.
Trabalha religiosamente nos dois expedientes da farmácia, como faz questão de frisar.
Número de frases: 77
Como os centros de ensino podem ampliar o seu potencial de instigar os alunos à análise, problematização, exercício da criticidade e elaboração de conteúdos, de forma a exercer sua plena cidadania nesta sociedade da informação?
Propomos o início de uma importante reflexão e esboçamos algumas alternativas para esta importante questão a partir do entendimento da relação entre educação e canto falado, tradição oral da cultura popular brasileira expressa através de letra e música, poesia e canção.
Uma das bases didáticas para construção do conhecimento são os livros.
Antes de serem adotados são criteriosamente analisados por os professores, para que sejam escolhidos aqueles que mais facilitam as trocas professor-aluno e aluno-professor.
Ou seja, seleciona-se o conteúdo com o qual se deseja desenvolver a aprendizagem.
Apesar disso, os alunos em sua maioria possuem certa resistência à absorção do conteúdo dos livros.
Em este ponto é que entra a questão da música.
Não pensando os livros como elementos excludentes à aprendizagem, mas pensando a música enquanto forma auxiliar, como algo que pode funcionar concomitantemente aos livros.
Raríssimas são as pessoas que não gostam de música.
No caso dos jovens é mais raro ainda.
A evidência disso percebemos quando vemos um adolescente caminhando com fones nos ouvidos.
O que está fazendo:
mais do que escutando música ele está absorvendo conteúdo.
Então pensamos que se pode aproveitar a música como aliada à educação, no mínimo em quatro instâncias:
mediação para a leitura, absorção de conteúdo, fortalecimento da auto-estima do educando e alfabetização midiática.
Como mediação pensamos que a leitura de mundo pode se dar também através da música, elemento afeito à realidade do educando, ponte proporcionadora de relações críticas e porta de entrada para a percepção de que a canção vem recheada de conteúdos, signos, símbolos que permitem diferentes leituras.
Enfim, pode-se caminhar em direção de se aprender a «ler canções», sabendo-se que, de forma subjacente e paralela, a aprensão de conteúdos programáticos deve ser desenvolvida por o professor.
Como absorção de conteúdo, a música desempenha um papel similar ao do vídeo.
Um aluno que não gosta de livros de física, talvez tenha menos resistência à esta disciplina se assistir vídeos didáticos do astrônomo Carl Seagan.
De a mesma forma, uma marchinha de carnaval dos anos 30 facilmente levará o aluno a uma aula de história sobre os valores da sociedade naquela época.
Uma música regionalista pode ser uma bela aula de geografia, literatura ou de história do pampa gaúcho.
Uma música d ´ O Rappa pode ser elemento disparador para reflexão da realidade brasileira atualmente, violência generalizada no Rio de Janeiro, preconceito, desigualdade social, tudo isso de forma poética e crítica através do suporte canção.
Para Paulo Freire o ato de educar é um empoderamento.
Podemos empoderar através da música.
O hip hop é um bom exemplo disso.
Se um aluno passa a escutar músicas produzidas por gente de seu país, de seu estado, de sua cidade, de seu bairro, percebe que seu modo de vida, sua cultura, possuem um forte significado.
Isso fortalece sua auto-estima, lhe traz segurança e novas perspectivas de vida, com reflexos construtivos nos diferentes grupos com que se relaciona:
escola, família, amigos e trabalho.
O trabalho com a música em sala de aula pode ser um importante instrumento de ensino para que os alunos e professores aprendam a se relacionar com a mídia.
Segundo pesquisa feita por Kátia Suman, em dissertação de mestrado apresentada na Unisinos, 97 % da programação de três rádios líderes no segmento jovem é ocupada por quatro grandes gravadoras, que veiculam 40 músicas que, num mesmo dia, entre 7h e 19h, podem se repetir de duas a cinco vezes.
Porque uma música toca mais que a outra?
Que conteúdos são transmitidos?
Que impacto tem em nossa opinião, gostos e valores?
A análise destes contextos e conteúdos fortalece o exercício da problematização e criticidade que devem estar presentes no ato educativo.
Após 10 anos de vivência na área musical, uma experiência rica em diversidade, onde estabelecemos relações de troca com escolas públicas e privadas do RS, com instituições de ensino conceituadas como a Feevale, com projetos em sintonia com o Fórum Cultural Mundial, com o Mercado Cultural de Salvador e mais recentemente com o Consórcio Social da Juventude do Rio Grande do Sul e com o Fórum Internacional do Software Livre, acreditamos ser o momento de começarmos a formar educadores, acadêmicos e populares, capacitados para utilizar a música como ferramenta didática de apoio à aprendizagem.
Este é um processo que deve começar a ser planejado e implementado em parceria com as secretarias de educação e cultura, áreas de extensão universitárias, organizações não-governamentais e iniciativa privada.
O estudo através de nossa própria música com enfoque nas canções pode acrescentar elementos à leitura do sistema simbólico, criando novos recursos expressivos capazes de despertar nos alunos um olhar crítico sobre sua contemporaneidade e a vontade de aprender.
Ou seja: não é só o aluno que precisa ler livros.
O professor e a escola também precisam aprender a ler aquilo que os alunos costumeiramente lêem, fazendo uso desses elementos à aprendizagem.
Autores do artigo:
Richard Serraria é professor universitário da Feevale (RS), músico e compositor (serraria@gmail.com)
Alê Barreto da Independência é produtor cultural e administrador por a UFRGS (alebarreto capta@yahoo.com.br)
Número de frases: 42
Ambos atuam nos grupos Bataclã FC e Coletivo Tarrafa (Trabalhadores Articulados em Redes Alternativas Fazendo Arte) e através destes promovem encontros públicos em Porto Alegre para troca de saberes culturais, educacionais e comunitários.
A origem e o presidente
Há noventa e dois anos, no dia 15 de agosto de 1915, em pleno bairro do Alecrim (bairro famoso por o seu comércio popular), um grupo de jovens fundava um dos times mais tradicionais de Natal.
Ele, o próprio, Alecrim Futebol Clube.
Entre esses jovens -- quem diria?,
estava Café Filho, talvez o único jogador de futebol do Brasil, quiçá do mundo, a trocar os gramados do esporte bretão por a poltrona confortável -- imagino -- de Presidente da República.
Café Filho era um goleiro mediano.
Defendeu as cores verde e branca do clube entre 1918 e 1919 e, depois disso, enveredou por os «campos» da política e nunca mais saiu de lá.
Depois do goleiro presidenciável, o Alecrim seguia sua rotina de jogos sem muita expressão, até que em 1923 chegava a Natal um sujeito chamado Alexandre Kruze, um pernambucano filho de alemães.
Apaixonado por o futebol, Kruze, além de rádio-telegrafista da Marinha, especializou-se em Educação Física e Desportos (Nomenclatura da época), e naquele ano, o jovem sargento Kruze era transferido para a Cidade do Sol.
De uma maneira ou de outra, o cara conseguiu entrar no modesto time do Alecrim, e logo ocupou uma posição de destaque no alviverde.
Falando constantemente em técnica e tática do futebol, Kruze motivou os dirigentes do clube a confiar-lhe uma nova missão:
treinar o time do Alecrim.
Deu no que deu.
Em 1925 o Alecrim levantava o caneco de campeão de maneira invicta, fato inédito entre os clubes de futebol da cidade até então.
Como naquela época o Alecrim era formado, basicamente, de negros e descendentes de índios, os caras do Abc e América, que eram times das elites do bairro do Tirol, ficaram putos da vida.
Em o tapetão, o jeito foi dissolver a federação de futebol da época, pra que o campeonato fosse invalidado.
Assim foi feito, é mole?
De a bolinha murcha ao tal do batendo um bolão
Os anos foram passando e o Alecrim seguiu jogando uma bolinha mais ou menos.
38 anos passaram até o segundo título, que veio em 1963, com o técnico Geléia, numa vitória contra o Abc (o Abc é considerado a 2ª força do futebol potiguar).
Em essa época ainda não havia o «bicho» (grana recebida por a vitória).
A grande regalia dos jogadores depois de ganhar algum jogo, era um copo de refresco de maracujá acompanhado de um pão doce.
Coisa fina ...
Em o ano seguinte Geléia deixou o clube dando lugar a Pedro 40, que garantiu o bi-campeonato contra o mesmo adversário.
O Abc passou dois anos sendo freguês do escrete alecrinense.
O meio oito na vida do Alecrim e a visita do Mané
Em 1968, outra façanha, outro chiste do Alecrim.
O espírito do time de 1925 baixou no clube naquele ano, porque o esquadrão esmeraldino venceu o campeonato estadual de ponta a ponta.
Mais uma vez, invicto!
O quarto título do verdão contou com 10 jogos disputados.
Sete vitórias, três empates e 24 bolas deixadas nos fundos das redes adversárias.
Embalados por a conquista, nesse mesmo ano a torcida do Alecrim ganharia mais um presente.
Em um amistoso contra o Sport (PE), o gênio das pernas tortas, Mané Garrincha, vestiu a camisa 7 do clube alecrinense e fez a alegria da galera.
Apesar da derrota por 1 a 0, aquele 04 de fevereiro ficou para sempre na história do Alecrim.
A Fera verde
A torcida organizada do clube é um caso a parte.
Nascida das bebedeiras por os bares da vida, os Fiéis Esmeraldinos Radicais -- Fera -- acompanham o time do Alecrim há mais de trinta anos.
Mas verdade seja dita.
Além das bacantes bebedeiras inspiradoras, a fundação da Fera teve seu pavio acesso, de fato, após um jogo do Corinthians e América no Campeonato Brasileiro de 1977.
Um grupo de ' alecrinenses ' estava naquele jogo e ficaram maravilhados com o verdadeiro show que os torcedores corinthianos promoveram no Machadão.
Vieram da capital paulista os Mosqueteiros do Timão, os Gaviões da Fiel, Coração Corinthiano e a Camisa 12.
A mistura foi essa:
bar + cerveja + Corinthians = Fera.
Em a década de oitenta, um dos torcedores mais fanáticos que a Fera tinha, era um cego.
Chico Araújo ia «ver» os jogos munido do seu radinho de pilha, não perdia uma única partida que fosse.
Isso sem falar no berrô, no berrô que o Armando deu, outro que comungava verbalmente da liturgia alecrinense.
Em dias de jogo, reza a lenda que o grito de «juiz ladrão» de Armando ecoava o Machadão inteiro.
Vai saber né?
É por essas e outras que o Alecrim F.C. é, sem dúvida, um dos times de futebol mais cheio de anedotas que apareceram na face da terra.
De goleiro presidente á torcedor cego, até Garrinha tirou uma onda por os gramados alecrinenses.
Vida longa ao escrete esmeraldino.
Número de frases: 52
Há alguns anos, era moda, em certos programas de TV (inclusive no de Jô Soares), exibir trechos de filmes nos quais ocorriam os chamados " erros de continuidade ";
ou seja, quando, após um corte, algo no plano está diferente do que estava antes, contrariando a lógica do tempo (pode ser a mudança brusca da posição de um objeto, de uma pessoa ou do estado de algo por exemplo, no filme «Batman», de Tim Burton, um quadro num museu é destruído por o Coringa para, segundos depois, reaparecer intacto, como mágica).
O site Imdb, por exemplo, traz, para quase todos os filmes, a seção «Goofs», que também se dedica a apontá-los.
Normalmente, este tipo de ocorrência é noticiado com certo escárnio, com uma espécie de alegria por, talvez, querer mostrar que os diretores de cinema (especialmente os milionários, que trabalham para o que chamam de " Hollywood ") não são infalíveis.
Realmente, não existe diretor de cinema (ou qualquer outra pessoa em qualquer outro ramo de atividade) que seja infalível, mas hoje, após eu ter trabalhado um pouco nas funções de diretor e montador (ou editor de imagens), tenho plena consciência de que estes «erros» merecem estas aspas porque muitas vezes (nem sempre, é claro que exceções sempre existem) eles não ocorrem inconscientemente, mas são fruto de escolhas criteriosas do montador, com aprovação do diretor (ou do produtor, se for este quem detém a primazia sobre o corte final).
Faço esta afirmação com base em minha própria experiência, já que nunca vi nenhum diretor se manifestar a respeito numa entrevista, embora seja óbvio que estes «erros de continuidade», assim como o famigerado» pulo de eixo «(também chamado no Brasil de» quebra de eixo», quando o posicionamento de câmera ou dos atores destrói a lógica espacial de uma cena, assim como o «erro de continuidade» subverte a lógica temporal cinema é basicamente tempo e espaço), já tenham sido usados com consciência por renomados diretores como Martin Scorsese (em «Táxi Driver», toda a continuidade num diálogo entre Robert De Niro e Jodie Foster é propositalmente aviltada para demonstrar a distância entre suas duas personagens;
em «Quem Bate à Minha Porta», há uma gritante quebra de eixo contrapondo Harvey Keitel e outra atriz que interpreta sua amante, que trocam mágica e poeticamente de posição, como se um ocupasse o lugar do outro e os que cobram verossimilhança da máquina de ilusões que fiquem mordendo os cotovelos).
Em seu livro «Em um Piscar de Olhos», lançado recentemente por aqui, Walter Murch (montador de» Apocalypse Now!" e outros, além de diretor e desenhista de som) relega a continuidade (espacial e temporal) à última posição numa lista de prioridades para uma boa montagem (a que vem em primeiro é resumida numa singela palavrinha: emoção).
Claro que isto é altamente subjetivo;
cada montador define seus critérios, seu estilo, sua personalidade (tendo sempre de se adequar a filmes totalmente diferentes, já que cada projeto pede uma determinada mise-en-scène, uma paleta de cores, um ritmo de montagem etc.).
Em o último filme que montei, um projeto premiado por a Prefeitura de São Bernardo do Campo intitulado «Em as Duas Almas», dirigido por Vebis Jr. e estrelado por» Milhem Cortaz «(" Carandiru»,» A Concepção ") e Vanessa Prieto (a estréia foi no mês passado, com a exibição de mais dois outros filmes um de eles também montado por mim e um show;
na primeira quarta-feira do próximo mês, às 21h30, está prevista outra exibição no Cinesesc de São Paulo, dentro da Sessão do Comodoro, capitaneada por Carlos Reichenbach;
estejam convidados, a entrada é gratuita), tive de definir um critério para a montagem, já que o diretor havia trabalhado bastante com improvisos, não só desconsiderando uma decupagem prévia (que na verdade nunca existiu) como o próprio roteiro, ao sabor do dia-a-dia da produção e das propostas dos (ótimos) atores.
Sabendo que, a partir daquelas poucas horas de gravação eu deveria contar uma história em 15 ou 20 minutos, obviamente aquelas imagens precisavam ser organizadas de maneira lógica, do início ao fim (o que, sabemos, também não é uma regra;
o «Pulp Fiction» de Quentin Tarantino é um célebre e recente exemplo de " filme que não começa em seu começo e não termina no seu fim ").
Mas este não era o único desafio, já que cada plano (ou seja, o espaço de tempo em que a câmera é ligada e desligada, que gerará um «pedaço de filme» a ser montado no quebra-cabeças) costuma ser repetido algumas vezes (cada uma de elas é chamada de «take» ou " tomada ");
ou porque o primeiro não saiu bom ou porque o diretor tinha tempo e dinheiro suficientes para se dar ao luxo de ter várias opções para a montagem.
A colocação no filme de pedaços de duas tomadas diferentes do mesmo plano numa cena é basicamente a causa de todos os «erros de continuidade» (estes erros, na maioria das vezes, obviamente não ocorrem de propósito, mas porque nem sempre as equipes de filmes mais baratos contam com uma continuísta antigamente chamada de script-girl, a assistente do diretor responsável justamente por este controle, também sujeita a erros).
A o montar um filme, o editor claramente tem consciência disso e costuma perceber sem demora quando eles ocorrem (o diretor também costuma ter este olho afiado;
alguém que não acompanhou as filmagens muitas vezes não os percebem), mas decide deixá-los no filme porque, a exemplo do que aconteceu com mim neste caso, preferiu usar como critério a performance dos atores ou outro fator qualquer.
E não tenham dúvida de que uma cena fica muito melhor quando os atores estão ótimos em todos os planos do que se a continuidade espacial e temporal é respeitada à risca ...
Em a minha cena preferida de «Em as Duas Almas», os atores me criaram um problema delicioso:
cada tomada que eles faziam era não apenas melhor do que a outra, mas completamente diferente (as falas, as ações, os rumos que a cena tomava, estava nas minhas mãos criar uma cena com sentido a partir de elas).
Em a opção que tive de fazer, muita coisa boa foi desconsiderada (cortar um filme é isto mesmo, muita coisa querida e suada acaba jogada fora), e a cena ficou bem diferente da imaginada originalmente por o diretor, mas recebeu a aprovação do público.
Em esta cena, a continuidade temporal não é exatamente respeitada porque, para fins de acentuação do conflito apresentado (o casal protagonista briga durante um passeio de carro), certas passagens da cena são repetidas de ângulos diferentes;
a marcação básica da cena é seguida, mas os diálogos são improvisados, e o tempo é manipulado (comprimido ou expandido) para gerar maior impacto.
Além disso, ocorreu um imprevisto:
em determinado momento, o carro passou num buraco e, no solavanco, o microfone entrou em quadro;
para mim e para o diretor, aquela invasão é gritante, mas preferimos deixá-la no filme porque ocorreu justamente na tomada que consideramos a mais forte.
Dito e feito:
durante a exibição do filme, ninguém além de nós prestou atenção no microfone bicão;
e se prestasse, não haveria nenhum problema.
Há muitíssimo mais o que dizer sobre montagem para cinema (incluindo percepções sobre duração dos planos, raccord, teorias diversas da montagem etc.), mas obviamente é assunto para um livro, e não um artigo.
Mas, para encerrar por hora, nada melhor do que citar o livro do Murch, que traz uma frase de que gosto muito (" todo filme é um país estrangeiro ") e corrobora um pouco do que eu quis dizer aqui:
«A mente humana tem mais aptidão para reconhecer idéias do que para articulá-las.
Quando você está num país estrangeiro, é sempre mais fácil entender a língua do que falar.
De certa forma, todo filme é um país estrangeiro, e a primeira coisa que se deve fazer é aprender a língua daquele país.
Cada filme tem (ou deveria ter) um jeito único de comunicar, cabendo a nós o esforço para aprender sua língua.
Mas o filme fala a língua própria de ele melhor do que você!
Portanto, na procura mecânica do que eu queria, acabava encontrando o que eu precisava algo diferente, melhor, mais arguto, mais espontâneo e mais verdadeiro do que a minha primeira concepção.
Conseguia reconhecer quando achava, mas não poderia nunca ter articulado aquilo antecipadamente.
Picasso costumava dizer: '
Eu não procuro, eu acho ', que é outra forma de expor a mesma idéia."
«Uma das maiores responsabilidades de um editor é estabalecer um ritmo de emoções e pensamentos interessante e coerente em pequena e grande escala que permita que o público confie no filme e a ele se entregue.
Sem que se perceba o motivo, um filme mal-editado faz com que o público se contenha, dizendo inconscientemente: '
Há algo de difuso e nervoso na forma como o filme está pensando, na forma em que se apresenta.
Não quero pensar dessa forma, logo não vou me envolver tanto quanto poderia '.
Número de frases: 47
Ao passo que um bom filme bem editado é uma emocionante extensão e elaboração dos sentimentos e pensamentos do público, que portanto se entregará ao filme como este se entrega a ele."
Uma antiga boneca sem braço ou um carrinho sem roda são o que poderíamos chamar de um brinquedo que já não nos serve, mas existe algo que nos faz manter estes e muitos outros objetos guardados em algum lugar.
Estes representam para nós o nosso Museu Particular, pois neste caso, não é a função primeira do objeto que nos importa.
Muitas vezes estes perderam a sua função de origem, mas olhando para eles fica mais fácil se chegar a algo que queremos guardar:
as lembranças do nosso passado.
A importância de se lembrar do passado é inquestionável, pois é em ele que se encontra acumulada tudo o que o indivíduo passou no decorrer de seus anos.
Aprendizados, lições, experiências.
A junção de tudo isso nos torna o que somos hoje:
indivíduos únicos, pois cada um seleciona suas memórias de acordo com suas convenções, omitimos ao máximo as desagradáveis e fazemos de tudo para lembrarmos e repassarmos as boas.
É nestes momentos que guardamos um objeto que acaba recebendo a nomenclatura de «lembranças», pois em si ele significa quase nada, mas nos remete a momentos muito importantes atuando como uma ponte entre o momento presente e um momento importante de nosso passado.
Mas estes objetos não existem apenas na nossa vida enquanto indivíduos.
Podemos encontrá-los em formas bem mais ampliadas não só no tamanho, mas na sua área de abrangência porque representa a memória de um coletivo, é o caso dos museus, e de nosso Patrimônio Cultural, por exemplo.
No caso dos Museus é comum se ouvir a conceituação de que «é um lugar onde se guardam coisas velhas», mas este conceito não estaria tão dissociado com o que de fato representam os museus se o termo» velho «não viesse com significado de» sem utilidade».
O conceito de Museu é bem mais amplo do que de fato é reproduzido, pois o mesmo não é apenas «um lugar onde se guardam coisas antigas» e nem se limita apenas a um espaço físico que foi criado especificamente para isso.
Assim, o Patrimônio Cultural coletivo não se encontra apenas numa exposição e sim em diversos ambientes, já que ele pode ter várias formas que nem sempre foram feitas para os fins a que se propõem naquele determinado momento.
Um índio, por exemplo, nunca pensou em ver o seu arco e flecha e muito menos a sua casa no Museu Sacaca, assim como um ribeirinho não sabia que seus utensílios diários estariam em exposições na Europa e os construtores e trabalhadores de nosso Mercado Central não imaginavam que um local onde alguns mercadores, interioranos ou não, seria hoje um monumento que nos trouxesse tantas lembranças para o coletivo.
Por isso o termo «resgatar nossa história» é muito estranho aos ouvidos dos Historiadores.
O que temos são representações de nosso passado, que nunca volta.
Este tipo de patrimônio, portanto, deve ser mantido não como uma simples construção que está atrapalhando o «progresso» de nossa cidade e sim como mais uma obra que ajudará a nós e a nossa posteridade a compreender melhor nossa história.
Sabemos, através de fotos e relatos, que Macapá já teve bastante casas e instalações antigas da época da construção da Fortaleza, mas estas foram quase todas destruídas antes mesmo que houvesse um pouco mais de consciência coletiva no que diz respeito à preservação de nossa história que, pra ser estudada, necessita também de monumentos como estes.
O Mercado Central se constitui num riquíssimo Patrimônio para o povo do Amapá, pois não somente representa uma fonte para estudos arquitetônicos, mas, principalmente, por ter sido um local onde aglutinou e aglutina uma riquíssima diversidade de identidades amapaenses.
Não se pode simplesmente deixar de lado tamanha construção para que se atenda a objetivos estritamente comerciais.
Existem diversas maneiras de se valorizar uma obra como esta sem sacrificar a nossa memória.
Seria o caso de uma estruturação em forma de galeria, por exemplo.
É claro que temos como objetivo primeiro que tomar atitudes visando a não destruição do Mercado Central, mas seria o caso de pensarmos no que fazer com ele.
Não é necessário que ele seja sempre um mercado.
Temos que olhar por o ponto de vista dos trabalhadores que ali se concentram e seria razoável, como outra proposta, que eles fossem deslocados para um local estruturado enquanto se fizessem daquele espaço um descente Museu Histórico para a nossa cidade.
Digo isso com muitas restrições, pois não é fácil ser despejado de um local onde se retirou o sustento de sua família por anos e anos.
Se observarmos aquelas imediações constataremos que existem construções que estão dentro da Planta original da Fortaleza de São José de Macapá que, por se tratar de nada mais do que o Banco do Brasil, dificilmente será derrubada.
Será que não seria o caso, já que se precisa de um espaço na frente da cidade, dos senhores parlamentares e prefeitura interessadoos verificarem tal informação e não enviar os trabalhadores e parte de nossa história Mar Abaixo?
Este Texto Faz Parte De Uma Campanha Levantada A Partir De a Manifestação De Alguns Membros da Câmara Municipal De MACAPÁ Por a Derrubada De Um Antigo Mercado De Nossa Cidade.
Número de frases: 31
Arqueologia, estudo das manifestações materiais de culturas antigas, ou seja, partir de um pedaço de osso ou um caquinho de cerâmica pra contar a história de civilizações!
Fascinado por história como eu sou, as grandes e as pequenas, fui a um dos mais importantes sítios arqueológicos de Alagoas, a famosa Serra da Barriga, palco da luta por liberdade de Zumbi e seus guerreiros negros.
Tomei o rumo de União dos Palmares na intenção de conhecer e vivenciar um pouco do trabalho que está sendo realizado por o Nepa -- Núcleo de Ensino e Pesquisa Arqueológico da Universidade Federal de Alagoas, ligado ao Centro de Ciências Sócias e capitaneado por o o doutor em arqueologia Scott Joseph Allen, americano de New Hampshire, que há nove anos estuda a região.
Cheguei à cidade por volta de onze horas da manhã, atravessei União dos Palmares até a antiga ponte sobre o rio Mundaú, que dá acesso à estrada de terra de 9 km num vale entre os canaviais até o pé da Serra da Barriga.
Apesar da estrada estar boa, aconselho não fazer este passeio em período de chuva, mas, claro, se você é uma pessoa off-road, e eu agrado, o caminho pode ser um atrativo a mais.
A vista para a serra é bonita, mas lindo mesmo é ver o vale crescendo quando comecei a me elevar nos 550 metros de altitude da serra, que não é tão alto mas garante uma linda vista para um mar de morros e vales de um verde vivo, com serras mais altas no horizonte, a vista dos pássaros, a vista da liberdade, a vista de perceber a chegada dos inimigos!
Claro que os caras foram pra lá montar um quilombo, uma resistência!
Eu pensava nisso à medida que subia e o mundo parecia ficar menor e maior ao mesmo tempo lá embaixo.
Claro!
Lá no alto, encontrei a equipe do Núcleo, o cientista social Daniel Meira, o arqueólogo Leandro Surya e um grupo de estudantes.
Eles estavam no meio de um trabalho de campo, escavando, fiquei conversando com eles ali e observando aquele trabalho.
Que paciência, eles cavam com umas coisas menores que um canivete, e um pincel pra ir tirando a terra com o maior cuidado, coisa delicada, cuidadosa, me lembrou outra atividade de preservação que é a restauração de monumentos e igrejas, por a meticulosidade.
Só que embaixo do sol quente, com a mão na terra, e «a terra conta muita história» como disse Daniel.
Comentei essa minha admiração por aquele trabalho com eles, Leandro disse " muitas vezes fazemos escavações como essa que você esta vendo, encontramos materiais como ossos e cerâmica, por exemplo, e continuamos o trabalho, afinal, podem ser ossos humanos antigos e urnas funerárias ou outros artefatos importantes.
Mas podemos descobrir também que se trata de um cachorro ou uma telha moderna."
E começa tudo de novo, em outro ponto.
Haja paciência e dedicação.
Segundo o doutor Scott, em conversa posterior, esse trabalho vai exigir menos paciência com a chegada ao Nepa de um equipamento que detecta anomalias magnéticas, ajudando muito no mapeamento e na estratégia de escavação da Serra da Barriga.
Durante a tarde, saí com Daniel e Alexandro dos Santos, o Alex, de 23 anos, um dos vários moradores das dezenove famílias que vivem na Serra da Barriga e trabalham com o pessoal do Núcleo.
Descemos uma trilha entre pés de laranjas.
Daniel estava fazendo STPs -- sigla em inglês para Shovel Test Pit, ou no bom português, poço teste de pá, em áreas previamente marcadas.
O sol quente já estava começando a queimar o juízo quando aos poucos fomos entrando numa mata de reflorestamento em estágio razoavelmente avançado, uns 10 a 15 anos segundo Alex, que diz ter plantado algumas daquelas árvores, vários exemplares de mata atlântica como jaqueiras, muricis, cupiubas, banana de papagaio.
E, claro, palmeiras nativas, que deram nome ao quilombo e a cidade.
O clima ficou mais agradável.
Seguimos descendo por a trilha até chegarmos à Lagoa dos Negros, um lugar mágico e cheio de histórias.
Me chamou atenção de imediato uma árvore linda na beira do pequeno lago, me disseram que se chama ogan, e que é algo como a árvore sagrada da Serra da Barriga!
Sentamos numas pedras na sombra, onde havia nítidas marcas de lanças outrora afiadas ali, e Alex explicou «embaixo da árvore ficava a fonte mais forte de onde brotava a água e por isso o povo acredita que ela é sagrada».
A lagoa hoje é maior que seu tamanho natural e sofreu um forte impacto, assim como os vestígios de atividades humanas antigas na área, por causa do período em que aconteceu a corrida atrás de um suposto ouro de Zumbi enterrado na serra!
Aconteceu entre o final dos anos 70 e começo dos 80, usaram explosivos e tratores, Alex conta que quando era criança ouvia o barulho de «coisas» quebrando por onde o trator passava, possivelmente artefatos de cerâmica importantíssimos.
Claro que ninguém achou ouro nenhum, mas o estrago estava feito.
Há também as lendas do lugar, Alex conta que várias pessoas já viram o negro da lança, um guerreiro que levanta sua arma ao alto e grita assustando o povo.
Tem também a história de uma tal serpente, que desce até a lagoa às seis horas da tarde para beber água.
Depois desse horário, ninguém chega perto da lagoa.
Ele mesmo disse que uma vez entrou na água e ouviu uma voz gritando «oooooi», e que» de certeza era sobrenatural».
A maioria das lendas, e são várias, giram em torno da Lagoa dos Negros.
Subimos até o Morro das Graças, ponto mais alto da serra e onde encontramos ainda um bom pedaço de mata nativa, só a paisagem lá de cima já paga a caminhada.
Começaram a cavar.
Perguntei a Daniel quais os principais vestígios que se encontram por ali, segundo ele são artefatos de cerâmica, ossos e materiais líticos, ou seja, pedras que foram modificadas por a mão do homem para a fabricação de instrumentos.
Bom lembrar que não se trata somente do Quilombo dos Palmares, mas de ocupações indígenas ou qualquer agrupamento antigo que tenha deixado sua marca ali.
Segundo o professor Scott Allen, existem ali duas arqueologias.
A de Palmares trata especificamente do período histórico do Quilombo.
E a arqueologia da Serra da Barriga, que leva em consideração todas as épocas.
«Temos que analisar e tratar de tudo que encontramos, estamos tentando entender, estudando os sítios de Alagoas, o que era ser negro e ser índio durante esses períodos históricos».
Os principais sítios arqueológicos de Alagoas se encontram em Porto Calvo, Porto de Pedras, Paripueira e Maragogi, ao norte (Invasões Holandesas) nas cidades históricas de Penedo e Marechal Deodoro, e em Pão e Açúcar e região de Piranhas e Canindé do São Francisco (SE) no sertão, onde se encontram pinturas rupestres e outros materiais com datas de até 8.000 anos no passado.
Em o sertão a preservação é mais duradoura devido ao clima seco e árido.
Voltando do meu dia na Serra da Barriga eu pensava no Brasil, e na quantidade de vestígios existentes num país desse tamanho.
E o pior, a quantidade que já se perdeu, com a intervenção do homem moderno, desde as cerâmicas que Alex ouvia quebrar sob a fúria do trator na Serra da Barriga até hidroelétricas e outros grandes empreendimentos que destroem para sempre um patrimônio inestimável que poderia ser resgatado e preservado por esses profissionais.
É a chamada arqueologia de contrato, coisa nova ainda no Brasil, consiste no seguinte:
as empresas que vão causar um forte impacto numa região de relevância histórica e ambiental, como uma usina ou uma represa, são obrigadas por o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) a contratarem uma consultoria que recolha e preserve os vestígios arqueológicos.
Scott adverte que é preciso ser muito criterioso quanto a isso, pois muitas dessas consultorias apenas recolhem o material e guardam num depósito, sem que haja um estudo de contextualização e datação daquele material.
Acontece que a profissão de arqueólogo não é reconhecida no Brasil!
Já houve uma graduação em arqueologia na Faculdade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, mas fechou há algum tempo.
O único curso universitário de graduação existente hoje no país fica no município de São Raimundo Nonato, no Piauí, onde está um dos mais importantes sítios arqueológicos do país e do mundo, o Parque Nacional Serra da Capivara, onde tive a oportunidade de conhecer aquele belo conjunto de pinturas rupestres e entrevistar a arqueóloga doutora Niède Guidon há alguns anos atrás.
Aliás, a faculdade de arqueologia de São Raimundo Nonato é um dos cursos oferecidos por a Univasf, Universidade Federal do Vale do São Francisco, uma boa notícia para o semi-árido.
A idéia é levar o conhecimento ao sertão, de maneira que seu povo não precise ir embora para ter a oportunidade de ingressar num curso superior.
Número de frases: 55
A Univasf possui três campus nas cidades de Petrolina (PE), Juazeiro (BA) e São Raimundo Nonato (PI).
Muita gente um pouco mais velha do que eu lembra com certo carinho (e malícia) do «Sala Especial», sessão de cinema que passava no fim de noite da Record (quando ainda não era uma rede ligada a uma organização religiosa), dedicada a um gênero que alcançou grande popularidade nos anos 70 e 80 e que acabou levando o nome de» pornochanchada " (curiosa mistura do prefixo de pornografia com o rótulo dado às comédias musicais no geral, de perfil carnavalesco, mas que também retrataram outros tipos de música, inclusive o então recém-nascido rock ' n ' roll que haviam movimentado o mercado cinematográfico nacional entre os anos 40 e 60 e que, como explica Sérgio Augusto num ótimo livro sobre o assunto, era um termo originalmente pejorativo).
Eu, que sou jovem demais para tê-la acompanhado, entrei em contato com alguns destes filmes em sessões na extinta TV Manchete e, principalmente, no SBT, onde eram exibidos após o «Show de Calouros» que encerrava o Programa Silvio Santos (não existia esta bênção restrita a muito poucos, por constar apenas nos pacotes mais caros das exorbitantes TVs pagas, chamada «Canal Brasil» à qual não tenho acesso;
minha única opção, hoje, é alguma madrugada de segunda-feira na Globo, quando o «InterCine» é dedicado ao cinema nacional).
Ali vi de tudo, de comédias eróticas que faziam jus ao termo, como «O Bem-Dotado removeme», a filmes bem mais sérios, como» Mulher Objeto», de Silvio de Abreu, a algumas obras-primas de Walter Hugo Khouri, um de nossos maiores diretores (cuja obra merece restauração urgente).
Ou seja, o rótulo «pornochanchada», que encerra falsos preconceitos, extrapolou as comédias populares e ingênuas com pequenas doses de erotismo para abarcar toda uma produção (em boa parte das vezes, independente, sem depender de recursos da estatal Embrafilme) bastante diversificada.
Hoje, com a distância de mais de duas décadas, este conjunto de obras é objeto de estudos acadêmicos (tanto estéticos como de mercado foi a época de maior bilheteria para nossos filmes, assim como o recorde de número de salas de cinema em nosso país) e também de culto:
além de mostras dedicadas aos filmes nacionais com este perfil, surgiram na internet espaços que buscam valorizar esta parcela importante do nosso cinema, como a revista " Zingu!"
e o blog «Estranho Encontro», entre outros.
Mas o que quero compartilhar aqui é um breve depoimento (cujo trecho em questão foi batizado com a frase que agora intituta este texto) gravado em vídeo há alguns meses, quando dirigi um curta-metragem em 16mm chamado «A Volta do Regresso».
De os quatro atores principais do filme, três de eles foram muito atuantes no cinema dos anos 70 e 80: Ênio Gonçalves (" O Olho Mágico do Amor», «Filme Demência "), Kate Hansen (" As Deusas»,» Aleluia Gretchen ") e Carlo Mossy, sobre quem vamos nos concentrar aqui (o quarto é o Gustavo Engracia, que interpretou o repórter-fotográfico em " Cidade de Deus ").
Em os anos 60, Mossy estudou nos Eua e na França;
de volta ao Brasil, fez uma peça com madame Morineau e não demorou a estrear em cinema, como protagonista-galã de «Copacabana Me Engana», de Antonio Carlos da Fontoura.
Poucos anos depois, era dono de sua própria produtora e escrevia, dirigia e estrelava sucessos como «Com as Calças na Mão» (fez também um filme singular, considerado sua obra-prima, chamado «Ódio» uma espécie de «Desejo de Matar» brasileiro, com Átila Iório e Wilson Grey).
Com a crise do cinema nacional a partir da metade dos anos 80, deu uma «sumida» e aos poucos volta às telas:
atuou em «O Homem do Ano», de» José Henrique Fonseca, O Sacófago Macabro», de Ivan Cardoso, e no ainda inédito «Cleópatra», de Júlio Bressane, entre outros.
Também está participando de várias produções recentes da Globo (" Minha Nada Mole Vida», «Amazônia», algumas novelas).
Em este vídeo de quatro minutos, gravado durante um intervalo nas filmagens (eram 4h30 da manhã, perdoem a sonolência), Mossy fala um pouco sobre a pornochanchada, revelando que gosta do rótulo.
O que ele diz pode ser, em parte, discutível, mas creio que é um depoimento que vale a pena registrar, por lembrar de uma época em que técnicos e artistas operavam num verdadeiro mercado de cinema (o que temos hoje é artificial e elitista) e por vir de uma das figuras centrais do cinema popular brasileiro durante o período em que atuou.
Número de frases: 19
Quem fez a entrevista foi a roteirista, diretora de documentários e professora Ana Paul, e quem editou fui eu como ele é grande demais para ser publicado aqui, peço que vocês o vejam em minha página no YouTube (que contém outras partes da entrevista com o Mossy, além de algumas brincadeiras que ele fez para a câmera).
Um dos últimos episódio de contestação de população urbana do Rio Grande do Sul contra autoridades, com conseqüências fatais, foi a Revolta de Motoqueiros -- espécie de levante popular ocorrido entre cinco e sete de fevereiro de 1979, em Passo Fundo.
É a única revolta contra a ditadura militar, no Brasil, liderada por motociclistas.
O estopim foi o motoqueiro de 17 anos, Clodoaldo Teixeira, ter sido perseguido e alvejado por policiais militares em frente à casa dos pais após fugir de uma batida policial.
O assassinato ocorreu num período especial.
Havia desacordo de camadas da população com as lideranças militares, devido à truculência de alguns oficiais e os desmandos de uma ditadura militar que apresentava sérios sinais de agonia, devido à crise econômica mundial iniciada em 1974 e ao autoritarismo que tolhia a liberdade de expressão e de, portanto, intervir nos rumos da cidade ou da nação.
Os mais profundos exemplos desse descontentamento eram as greves dos metalúrgicos no Abc paulista e um ainda insipiente movimento de redemocratização, reforçado por a volta dos exilados por a ditadura militar, entre eles Leonel de Moura Brizola -- o caudilho que enfrentou os militares, quando governador, com a Campanha da Legalidade.
Havia, também, o ressurgimento da luta por a reforma agrária, impulsionada por o movimento dos atingidos por barragem, na Encruzilhada Natalino, próxima a Passo Fundo.
Em a cidade, os motoqueiros e cabeludos eram perseguidos por os policiais.
O assassinato de Clodoaldo gerou revolta dos motoqueiros e da população contra a brigada militar, cujas lideranças se negaram a punir os responsáveis.
Os protestos iniciaram com a tentativa de linchamento do autor dos disparos, por parte da vizinhança, e alastrou-se por a cidade por mais três dias, envolvendo cerca de dez mil pessoas e gerando a morte de outros dois jovens:
Adão Faustino e Joceli Joaquim Macedo -- ambos mortos em protesto diante do CPA3, na Avenida Brasil.
O episódio marcou o cotidiano dos passofundenses e o imaginário da nova geração.
Muitos dos envolvidos mudaram-se do município, após o ocorrido, seja por perseguição ou busca de melhores oportunidades.
Os que permaneceram ou, na infância, foram marcados por o episódio, compuseram lados distintos da bipolar sociedade local.
Estão nos setores mais diversos -- indústria, comércio, comunicação, serviços, entre outros.
Há dois estudos acadêmicos sobre a Revolta:
um capítulo de uma tese de doutorado de José Ernani, professor de história da Faculdade do Planalto (Faplan), e a dissertação de mestrado de André Martinelli Piasson.
Em outubro de 2006 foi lançado ficção sobre o tema, entitulada Revolta dos Motoqueiros de Leandro Malósi Dóro.
Rediscutir a intitulada Revolta dos Motoqueiros é uma forma de buscar um importante naco do imaginário local e observar as conseqüencias da ditadaura sob o viés dos motoclubes.
Número de frases: 20
Até hoje não se sabe ao certo quando a primeira «alimentadeira de almas» (expressão feminina que serve para homens e mulheres) resolveu caminhar por as noites da quaresma entoando benditos e fazendo orações, nem se foram realmente os capuchinhos e franciscanos, que fundaram no início do século XVIII a cidade de Juazeiro, sertão da Bahia, os responsáveis por a introdução da prática penitencial.
Verdade seja dita:
tais fatos históricos preocupam menos do que a possibilidade de desaparecer a silhueta dos cordões da penitência.
Cordão é um grupo de alimentadeiras de almas que durante as segundas, quartas e sextas dos 40 simbólicos dias do sacrifício de Cristo realizam o ritual da penitência.
-- Eu cuido mais por causa da tradição.
Se a cultura da gente acabar, não fica nada ...
Afirma d..
Nenenzinha, coordenadora do cordão mais antigo da cidade.
Em 1987, a mãe de ela -- dona Zabelzinha -- era a «chefe» do cordão e sentindo a morte se avizinhar fez um único pedido:
-- Minha filha, não abandone meus penitentes ...
O cordão de «Atrás da banca» (hoje bairro de Santo Antônio) continua sua peregrinação por as sete estações (cruzeiros das tradicionais paradas dos penitentes).
O crescimento desordenado do espaço urbano e a falta de segurança fizeram da estrada até o cemitério municipal um caminho de disputas e perigos noturnos.
como se não bastasse, há três anos, segundo Carlos -- penitente durante quase 30 anos -- começou a «malandragem» no cemitério municipal.
Antes um lugar que só por o nome já causava certos calafrios e um profundo respeito ante os mistérios da morte, hoje é ponto de encontro de uso de drogas.
O silêncio perpétuo das tumbas foi substituído por a algazarra sem fim.
Junto a estas transformações, os cordões também foram influenciados.
-- Hoje em dia o povo não sabe o que é penitência não ...
Antigamente penitente andava descalço, não mostrava o rosto, não saia de unha pintada de vermelho, não vestia outra roupa por baixo se não fosse branca, a mulher não fazia a sobrancelha, não vinha para a penitência de batom ...
Hoje está tudo defasado, ninguém mais tem compromisso com nada ...
Bingo -- que abandonou um cordão por «problemas de artrose e desgosto» -- desabafa e, com a mesma determinação, dispõe as velas acesas em forma de cruz no chão do cemitério e cuida para que elas não apaguem, no encontro dos cordões da Quarta-feira Santa.
Ele, Carlos e tantos outros ex-penitentes não querem ver a chama da fé que ilumina as noites da quaresma juazeirense acabar, e se agarram a fios, ou melhor, cordões de esperanças.
A crítica não deixa de ser uma defesa da tradição.
Segunda-feira Santa, 17 de março
Cheguei à casa de d.
Nenenzinha por volta das sete e meia da noite.
Ela já estava do outro lado da rua, na Casa de Oração de sua madrinha Alvina, coordenando os rituais de preparação das alimentadeiras de almas para a penitência do primeiro dia da Semana Santa.
Em a Casa de Oração, lugar onde acontecem os rituais de preparação da penitência, pessoas apressadas vão chegando a todo o momento com suas mochilas ou sacolas de roupa.
Algumas pedem a bênção à d..
Nenenzinha antes de se vestirem com a anágua comprida, o lençol branco envolvendo o corpo inteiro e um cordão de São Francisco na cintura.
São homens e mulheres vindas do trabalho, da escola ou mesmo de casa para formar um cordão que, segundo d..
Nenenzinha, data de 1901.
às oito e meia uma cruz preta de cedro virgem entrelaçada por uma toalha branca com o rosto de Jesus Cristo sai da Casa de Oração carregada por a primeira alimentadeira do cordão (geralmente um homem).
Logo atrás, uma penitente faz soar a matraca -- instrumento de percussão feito de uma tábua de madeira com uma argola de ferro que, ao ser girada, produz um ruído seco.
As pessoas se aproximam para acompanhar o cortejo, ao som dos acordes da matraca e do bendito da " Segunda-feira Santa:
«Em a Segunda-feira Santa
Veio um padre pregador
Um padre santo missionário
Nossa Senhora das Dor "
Se a rima não é rica, rara e perfeita (e o último verso carece de concordância), a beleza do bendito fica por conta da voz rasgada, em tom de lamento, que ecoa na sincronia dos penitentes.
D. Nenenzinha, que não acompanha o coro, segue ao lado do cordão, segurando um banco numa das mãos e conduzindo, na outra, d..
«Izabel Ceguinha».
Até terminar o ritual da noite, d..
Izabel terá distribuído muitas velas e as alimentadeiras terão cumprido sete estações, em sete cruzeiros espalhados por o percurso.
Sete também é o número de anos do compromisso que cada membro do cordão assume com a penitência.
Se por um acaso não cumprirem o tempo previsto, um parente deve substituir.
A o terminar o compromisso com saúde, geralmente, o penitente o renova por mais sete anos.
Quarta-feira, 19 de março:
Encontro dos Cordões
A ambientação, o corre-corre de curiosos, as câmeras fotográficas, já davam pistas do que iria acontecer na noite de quarta-feira, entre os cemitérios novo e velho:
dia do tão esperado encontro dos cordões das alimentadeiras de almas.
O cordão de d.
Nenenzinha foi o primeiro a chegar.
Enquanto ela caminhava conduzindo d..
Izabel à praça da saudade (parece que todo cemitério tem uma praça com este nome), um rapaz se aproximou pedindo a bênção.
«Ainda posso ir?" --
perguntou o rapaz com um saco na mão.
«Vá, ainda não fez a primeira estação ...».
E assim um penitente atrasado foi procurar um lugar entre as tumbas para se vestir com tranqüilidade e participar do momento mais esperado da quaresma.
Velas dispostas no chão formando uma cruz luminosa, olhos atentos em volta dos madeiros, flashes a todo vapor tentando captar a emoção do momento, o Pranto se inicia pungente:
«Estava a mãe dolorosa
Junto ao pé da cruz, chorosa
Enquanto o filho pendia
Sua alma, cruel espada
Que lhe foi profetizada
Tiranamente feria.
Tende Misericórdia, Senhora
Tende Misericórdia de nós ..."
Cada sílaba é declamada numa unção contagiante.
A fumaça do incensamento dos madeiros e o som ininterrupto da matraca acompanham o coro.
Tal como acontece nas estações, alguns devotos se afastam momentaneamente para preces individuais.
O momento mais esperado é também o mais rápido.
De ali, os cordões partem à procura das próximas estações ...
Sexta-feira da Paixão, 21 de março
Em clima de despedida e aos acordes da matraca, foram chegando os cordões de d..
Dedé, Roza, Nenenzinha, Emília e o de Malhada da Areia.
Entre túmulos de pessoas que teriam muita história para contar, a penitência atravessa o século XXI construindo em cada vela acesa ao pé da cruz sua própria trajetória.
Apesar de não existir um registro do início da prática nestas terras ribeirinhas, D. Roza, na autoridade de seus 92 anos, faz questão de evocar um tempo em que havia mais mato do que casas em Juazeiro, em que os cordões saiam sorrateiramente às 10 horas da noite percorrendo um imenso areão até o cemitério, que ainda não era cercado por o muro.
Em aquela época, só os devotos acompanhavam os cordões, pois muita gente tinha medo dos «irmãos das almas».
Em o mistério da última noite quaresmal, o cordão de d..
Emília se aproxima da primeira estação:
o cruzeiro do cemitério novo.
O ritual se inicia com o som da matraca, enquanto as alimentadeiras se dispõem ao redor do cruzeiro.
Ajoelhadas, entoam o bendito «Louvado seja a paixão do Redentor».
Em seguida, pedem três pais-nossos:
para a sagrada Paixão e morte de Jesus Cristo, para as almas do cemitério e para a alma de devoção.
Soa a matraca, e uma voz masculina se eleva em súplica:
«Rezem outro Pai Nosso
Com a sua Ave Maria
Com a sua Ave Maria "
Todos respondem:
«Ave Maria "
Segurando o madeiro, a voz grave do homem continua, em diálogo com a resposta das outras vozes dissonantes:
«Em a intenção de toda alma
As almas santas benditas
As almas santas benditas --
Santas benditas --
Para que Deus, Nosso Senhor
Dê a ela o Paraíso
Dê a ela o Paraíso --
O Paraíso --
Ajoelhai, irmãos meus
E rezem pelo amor de Deus
E rezem pelo amor de Deus --
O amor de Deus
O amor de Deus
A penitente que segura a matraca, com sua voz em tom comovente, implora:
«Rezem uma Salve Rainha
Para Nossa Senhora das Candeias
Para Nossa Senhora das Candeias --
Senhora das Candeias -- Ela é quem nos alumeia
Em o caminho da Penitência
Em o caminho da Penitência --
De a Penitência --
Ajoelhai, irmãos meus
E rezem pelo amor de Deus
E rezem pelo amor de Deus --
O amor de Deus
O amor de Deus».
Agora, todas as vozes se juntam:
«Alerta, alerta, pecador
Pecador que não se lembra do pecado
Hoje é vivo, amanhã é morto
Em a escada da sentença
Purgatório é penitência
Eu vos peço, meu Senhor
Eu vos peço:
Misericórdia!" Em a última sílaba, a matraca soa novamente.
As cabeças se curvam num só movimento, a mão direita procura as batidas do coração penitente e as vozes tremulam:
«Senhor Deus, misericórdia
Misericórdia, misericórdia!
Senhor Deus!
Por a dor de nossa mãe,
Maria Santíssima, Senhora Santana,
Nossa Senhora das Dor,
Misericórdia!
Misericórdia!
Misericórdia!
Tende piedade,
Deus piedoso,
Tenha de nós piedade
Seja por o amor de Deus».
Todos se levantam, e sem perder o ritmo, fazem a saudação final:
«Irmãos meus, ficai com Deus
Que eu me vou com Jesus Cristo --
Com Jesus Cristo».
Soa a matraca:
a primeira estação do último dia de penitência do ano foi encerrada.
O ritual dura em torno de 15 minutos.
Mas é como se, presa à ladainha, fosse aberta uma senda a um lugar chamado eternidade.
Só um adendo:
Em o último dia de penitência, encontrei Bingo acomapanhando uma estação no cemitério velho.
à sua maneira, ele incitava as pessoas a abrir os pulmões e entoar alto as ladainhas:
-- O povo parece que está morto!
como se fosse uma canção de ninar, todos repetiram três vezes os versos de despedida das alimentadeiras de almas:
«Minha santa lapinha
Coroada de flor
Até para o ano
Se nós vivo for
Meu menino Deus
Senhor São José Até para o ano
Se Deus quiser "
Ano que vem, «se Deus quiser», ele vai voltar.
Número de frases: 162
Está no ar, já há algum tempo, a propaganda do novo Palio.
Para mim, a logomarca da propaganda do carro lembra bastante a do jogo Midnight Club -- Dub Edition», disponível para Playstation 2 e X
Box. As coincidências ficam maiores no comercial da TV.
Além do tom prateado, são exibidos, no final da propaganda, três carros correndo lado a lado (e ainda aparecem «1»,» 2 «e» 3 " acima de cada veículo).
É nesse ponto que tudo fica mais parecido.
E polêmico.
Em o jogo em questão há pegas nas ruas.
E num mapa aberto ao estilo do clássico jogo «GTA -- San Andreas», que é da mesma produtora de» Midnight Club».
Você pode transitar por as ruas da cidade, sem seguir um roteiro pré-determinado.
Você procura por parceiros de «pega».
A o encontrar algum, uma corrida é iniciada.
Algo muito similar ao que acontece na propaganda, por sinal, quando os outros carros se juntam ao Palio inicial.
Em o jogo, para demonstrar a rapidez dos carros, os veículos são acompanhados de listras.
Novamente, outra coincidência entre jogo e propaganda.
Alguns dados merecem ser divulgados.
Anualmente, ocorrem mais de 35 mil mortes em acidentes de trânsito, sendo que um quarto dessas vítimas tem entre 16 e 24 anos.
Ou seja, uma faixa etária ávida por jogos eletrônicos.
Ademais, segundo dados do Ministério da Saúde, houve aumento de 9 % nos acidentes com morte nos últimos três anos.
Isso reverte a tendência de queda que ocorria desde 1998, quando entrou em vigor o Código de Trânsito Brasileiro.
Se a idéia foi associar o lançamento do carro a um jogo de corrida, nada mais inapropriado.
Tanto é assim que até o Conar (Conselho de Auto-Regulamenta ção Publicitária) recomendou que a série de comerciais fosse tirada do ar.
Número de frases: 21
O julgamento final deve acontecer até o dia 27 de maio.
Tião Carvalho acaba de lançar o inspirado álbum Tião (Carvalho) canta João (do Vale) [Por do Som / Atração, 2006], onde revê, com a propriedade típica de quem, mais que conhecer, vivência o trabalho que faz, com prazer.
Nascido em Cururupu, cidade cravada no litoral ocidental do Maranhão, Tião mudou-se aos oito anos para a capital do Estado e em 1979 partiu para São Paulo, onde mora.
Esta é apenas uma das diversas semelhanças que guarda com o também maranhense João do Vale, que deixou sua Pedreiras natal para brilhar nos forrós do sul maravilha e amargar o apagar das luzes quase no esquecimento.
Tião desenvolve, no Morro do Querosene, atividades culturais e sociais.
Por essas e outras, em 2004, recebeu da Câmara Municipal de São Paulo, o título de cidadão paulistano.
Com patrocínio da Petrobras, através do «Ministério da Cultura, Tião canta João» não é o resultado fácil de um artista que pega um apanhado de canções de um compositor e monta um caça-níquel em forma de disco.
É o mergulho profundo e sincero de Tião Carvalho na obra de João do Vale.
Tanto é que não se limita a regravar «clássicos» do autor de «Pisa na fulô» (música que não entrou no disco), mas recriá-los e pesquisar músicas quase desconhecidas do vastíssimo legado deixado por João.
Estão lá «Carcará» (que virou uma toada de bumba-meu-boi), «Sanharó»,» Os óio de Ana Bela (" Olhar de Ana Bela)», Baião de viola «e» Eu chego lá».
As participações especiais de Zeca Baleiro (em «De Teresina a São Luís» e no coro de «Forró do Beliscão "), Divina Batucada (grupo de maranhenses radicado em São Paulo, no samba» A voz do povo ") e Trio Virgulino (em " Os óio ") mostram uma reunião de amigos celebrando a música de João do Vale, que com um discurso social extremamente forte e atual, soa, antes de tudo, alegre.
Semana passada, o compositor de «Nós» (gravada por Cássia Eller e Ná Ozzetti) esteve em São Luís para o lançamento de «Tião canta João» (Teatro Arthur Azevedo, 14/9).
Em o show, repertório exclusivo do autor de «Em a asa do vento», mas sem se limitar ao que está no disco.
à vontade no palco, esbanjava alegria:
cantou, dançou e contou histórias, numa apresentação impecável.
De aqui, volta para São Paulo e roda, ainda este ano, Brasília, Rio de Janeiro e Salvador, entre outras.
«Trabalhar com músicos locais, essa troca, me enriquece muito e a eles também.
Gosto muito», disse.
A idéia para 2007 é uma turnê por a Europa.
Antes, aproveitando um momento de folga, conversou com o Overmundo.
Era domingo, e Tião havia chegado atrasado para a pelada que inclui tradicionalmente na agenda, sempre que vem ao destino da viagem de trem cantada por João.
Entre o barulho dos pagodes emanados das barracas da Avenida Litorânea e o dos carros de som com propaganda política que passavam constantemente, e sendo várias vezes interrompido por vendedores de toda ordem -- amendoins, ostras, picolés -- concedeu a entrevista que se lê a seguir.
Zema Ribeiro -- Gostaria que você começasse falando de sua infância, das experiências em Cururupu, se ainda vais lá de vez em quando.
Tião Carvalho -- Minha infância em Cururupu foi uma infância de brincadeiras, de boi de cofo, infância de água, fruta, festa, família.
Vou lá em média uma vez por ano.
Minha mãe mora lá.
Eu tenho duas mães, que na realidade são irmãs, a que me teve e a que me criou.
São irmãs e as duas estão agora em São Luís.
Ontem [16/9] foi aniversário da Didi, e a minha mãe veio pra cá para o aniversário de ela, para o show e pra me ver.
Quando eu venho a São Luís, às vezes correndo, não dá tempo de ir até Cururupu, então a minha mãe vem aqui me ver.
às vezes vou lá ver mamãe, os parentes, beber água, tomar banho de rio, fazer alguns rituais necessários para ter alimento para a batalha lá fora.
Tu estás há mais de 25 anos em São Paulo.
Tu sentes muita diferença entre o Maranhão de tua infância e o de hoje?
A São Luís de tua adolescência, a Cururupu de tua infância e a de hoje?
Dá pra dizer se é melhor ou pior?
Estou em São Paulo há 26 anos, 27 anos.
São Luís tá muito diferente, Cururupu nem tanto.
A diferença [entre o passado e o presente] de São Luís é maior.
Lá [em Cururupu] também tem televisão, já há essa entrada da mídia, que transforma muito as coisas, mas as diferenças são menores.
A estrutura, a geografia, os costumes permanecem.
A televisão, a mídia, o capitalismo, fazem com que estas coisas se transformem.
Em São Luís essa diferença é mais berrante que em Cururupu.
Dizer se é melhor ou pior, é um pouco difícil porque não se trata só de São Luís, necessariamente, e tal.
O mundo, me parece que ele perde um pouco com o capitalismo, que faz com que a gente perca coisas muito profundas.
Aquela coisa que o poeta fala [cita «Caetano Veloso]» da força da grana que ergue e destrói coisas belas», então, eu não diria se é pior ou melhor, me parece ainda um pouco cedo pra dizer isso, pra colocar esse sentimento.
O capitalismo, principalmente quando se trata da relação da música, da arte, ele sai destruindo com muita força, com muita arrogância, é isso que eu sinto, quando tratamos do lado musical, social, cultural.
É algo pesado.
Por exemplo: é muito comum, esse ano eu não sei, mas eu já observei muitas vezes, por exemplo, em Cururupu, um [grupo de bumba-meu-] boi tradicional fazendo a festa de ele, e ao lado, uma «radiola» de reggae com o som altíssimo.
E o pessoal do boi cantando, fazendo um som sem microfone e a «vitrola» ali do lado.
E as pessoas já não têm mais sensibilidade de pensar " ah!,
hoje é dia de São Pedro, dia de São João, dia de São Marçal, dia de Santo Antonio ...»,
uma festa religiosa que as pessoas têm ali.
Se não quisermos entrar no contexto religioso, poderíamos pensar que ainda assim, há ali uma manifestação cultural que deve ser respeitada.
Em tua apresentação, o teatro estava, infelizmente, vazio.
As pessoas acabam não sabendo e não vão.
Rádios, tevês e jornais não têm interesse em divulgar.
Por outro lado, outubro está bem aí, e o Marafolia vai encher essa avenida aqui [a Litorânea] de gente, mesmo que os abadás sejam infinitamente mais caros que os ingressos para teu show.
É um bom exemplo da forma como a mídia interfere nisso, não?
O que eu vejo é que parece que, por eu trabalhar com coisas simples, profundas, com arquétipos, com nossas histórias e tal, isso não dá status pra eles [os jovens que vão ao Marafolia], como dá chegar na escola, na faculdade, com os amigos e " ah!,
tou vindo do Marafolia, eu fui, eu já comprei meu abadá».
Não é o mesmo que dizer " ah!,
eu fui ao Teatro ouvir João do Vale cantado por Tião Carvalho, que é cantor, é dançarino, é conterrâneo nosso " [Tião saúda alguém que se despede, na mesa ao lado].
Há uma questão de status aí, são valores que precisamos trabalhar muito, suar muito, pra ter essa cultura viva.
Não tenho nada contra províncias, mas suspeito de atitudes provincianas.
Isso é uma atitude provinciana e deixa a gente triste, isso da gente sempre querer comprar o importado, o que vem de fora é sempre melhor que a gente, é sempre mais bonito que a gente.
Agora tu chegas ao Tributo a João do Vale, o «Tião canta João», mas João do vale já influência teu trabalho há muito tempo.
Em o disco do Mafuá [" Mafuá», CPC-UMES / Eldorado, 1998] tem música de «João do Vale [Estrela Miúda "], no teu primeiro disco-solo [" Quando dorme Alcântara», Por do Som, 2002] tem música de» João do Vale " [" Passarinho "] e tu não buscas imitá-lo, mas há uma ligação muito forte entre teu trabalho e o de João.
Eu queria que tu falasses um pouco desse teu novo trabalho.
Conheci João pessoalmente, graças a Deus, mas não diria que chegamos a ficar amigos.
Até gostaria, mas não tivemos esse tempo [João do Vale faleceu em 6 de dezembro de 1996].
Conheci João e ele teve também a oportunidade de ver o Tião Carvalho cantando e interpretando João do Vale.
Não só ele, mas a família de ele.
Eu não chamo meu trabalho de um tributo a João.
É algo diferente, não sei o quê, exatamente.
Quando ele ainda estava vivo, há uns onze, doze anos, fizeram uma festa pra ele, João do Vale em vida, onde vários cantores maranhenses interpretavam músicas de ele.
Eu tava chegando aqui e soube, e era Chico Maranhão quem fazia a direção musical desse trabalho;
aí eu fui falar com Chico:
«Pô, Chico, tou chegando, quero cantar também».
E ele:
«Não, agora não dá mais».
«Não, eu quero, tem tudo a ver, pesquiso o trabalho de ele, já o interpreto, não vou precisar aprender música, já ia assisti-lo no Forró Forrado [casa onde João do Vale se apresentou diversas vezes, no bairro do Catete] no Rio de Janeiro, somos próximos, tem toda uma história e eu não vou cantar?».
Ele falou «tudo bem, mas não tem mais grana».
E eu «não tem problema, não interessa a grana, eu quero cantar e quero mostrar pra ele que eu tou cantando a música de ele, eu quero ir, eu tenho que ir».
Foi interessante por ele ter visto.
«Oricurí «não tava no repertório e eu falei,» bom, ' Oricurí '», e cantei a música.
João já tava na cadeira de rodas, eu cantei, dancei, brinquei.
A tia Tereza, prima de ele, tava lá do lado, era quem cuidava de ele.
E ela dizia:
«Esse cara é escritinho João!
João, esse moleque é teu filho!».
João era assim em cena.
De o time que cantou, o que mais tinha afinidade com João era eu, que já o via sempre, já tinha essa preocupação social, política, [com a questão] racial.
É uma das características da música de João do Vale, não é?
Essa coisa da denúncia social com alegria.
São temas tristes em músicas alegres.
Cantar João do Vale já é uma denúncia social.
É uma coisa muito comum do brasileiro e do nordestino que tende a se perder também com a globalização.
O pai Francisco, ele é isso aí, o quê que é o pai Francisco?
É uma tragédia, né?
É o cara que pega toda essa coisa trágica e traz alegria, brinca com a perda do filho, trapaceia daqui, trapaceia de ali e faz a gente rir, mas no fundo o cara tá perdendo um filho.
Em a tua fala, tu disseste que não considera o «Tião canta João», um tributo, certamente por tua cumplicidade com o repertório.
Não foi só «pescar» catorze músicas de João e encher um disco pra ganhar dinheiro, tanto é que não estão aí só os «clássicos» de João do Vale.
Eu queria que tu falasses um pouco desse processo, de tua ida à Pedreiras pesquisar, de ter conhecido o seu Zezinho, personagem de «Minha história», que nem entrou no disco.
Seu Zezinho perguntou, «ué, cê não vai botar» Minha história»?».
É, é meio delicado, queria fazer um disco alegre, um João para as pessoas dançarem.
Por exemplo, [dia 24/8, no SESC-Pompéia, no show de lançamento do disco] em São Paulo eu não cantei [" Minha história "].
Aqui tinha mais a ver, eu cantei.
Eu queria ter o aval da editora, do direito autoral, eu queria isso, «ah, bom, burocraticamente tá liberado, Tião pode gravar».
Mas eu queria que a família ouvisse e dissesse, «pô, que legal, pode gravar, cê tem o nosso aval», eu queria isso, e consegui, graças a Deus.
Com a D. Tereza, o Riva do Vale, a neta de João que foi assistir ao show em Brasília, uma nora de ele, as pessoas da família, os amigos de ele, Seu Zezinho, os amigos de Pedreiras, amigos de João do Vale que trabalham por a Prefeitura, amigos do Sindicato que jogavam baralho com ele, Seu Jacaré da Rua da Golada [rua citada em " Pisa na fulô "], com essas pessoas aí.
Eu queria que eles me conhecessem e soubessem que eu estava fazendo algo sério e gostassem do que eu estava fazendo.
Foi fundamental isso.
Outra coisa foi colocar uma roupagem nova dentro das próprias raízes, trabalhar com bumba-meu-boi no Carcará, o tambor de crioula no Sanharó.
Tu tens um reconhecido trabalho social lá no Morro do Querosene, por o que a Câmara Municipal de São Paulo te outorgou o título de cidadão paulistano, sobre o que eu queria que tu falasses, tanto da honraria quanto desse teu trabalho.
Quando vem esse título, eu não resumiria apenas ao trabalho social no Morro do Querosene.
Há outras coisas.
Eu nunca abri mão de trabalhar com minhas raízes, a africana, a brasileira.
A primeira banda [" banda, banda!»,
frisa] a tocar forró por ali, para uma classe média, universitária, não sei o quê, em São Paulo, no início dos anos oitenta, foi a minha banda, a Mexe Com Tudo.
De lá pra cá surgiram várias bandas de forró.
Levamos o bumba-meu-boi pra São Paulo.
A experiência fora do Brasil também, levar o Brasil lá.
Não só aquela coisa que o Brasil é a terra do futebol e do samba, graças a Deus que é também.
Mas há outras coisas:
há cientistas, e até me considero cientista, já que a música é ciência e eu estudo música e dança.
Há uns quatro anos eu trabalhei com quarenta escolas no País de Gales, trabalhei com filhos de refugiados de guerra, tudo isso é trabalho social.
Fundei vários grupos de dança, de danças brasileiras, em Londrina no Paraná, em Campinas.
Em São Paulo influenciei a fundação de vários grupos de dança e pesquisa, fundei grupo em Brasília.
Tudo isso são valores que se juntam ao que é o Tião Carvalho.
Eu cheguei à São Paulo com uma bagagem.
Cheguei lá para trocar.
Não cheguei só para pedir.
É uma relação de reconhecimento.
E, claro, o trabalho social e cultural no Morro do Querosene, que há um tempo era muito violento e através da arte, conseguimos uma certa suavidade.
Mas, claro, São Paulo é violenta, o Brasil é violento, o planeta é violento.
Mas a gente conseguiu algo no bairro e queremos levar essa coisa para o estado, para o país e para o mundo, isso de botar instrumentos musicais nas mãos das crianças [Tião agradece mais um vendedor de amendoins], afastando-as das armas.
Você coloca um cavaquinho, um tamborim, na mão de uma criança, e brinca com ela, é mais fácil ela se afastar das armas, das drogas.
É mais fácil você olhar no olho de ela, até para colocar limites.
Olhar a criança enfeitada e perguntar " você sabe cantar?,
ah, legal», e a criança não vai querer saber de roubar, de usar drogas. [
apresenta Elias Filho, um «grande amigo, irmão, amigo de infância», e convida-o a sentar-se com nós]
Podemos dizer, então, que o PCC é falta de arte?
Como é que tu vês esse fenômeno em São Paulo?
É triste, mas não me sinto apto a apontar o dedo pra tipo de crime nenhum.
Muitas vezes as pessoas te chamam para um trabalho social, por exemplo, para tirar as crianças da rua.
E o órgão não te paga, então você tira crianças da rua e as suas crianças vão para a rua.
Não conheço o PCC, mas a imprensa é medíocre, a televisão é racista, ela julga.
Vêem por a tua cara se você deve ou não trabalhar, te lêem no rosto as habilidades, o caráter.
Isso é crime!
Então, para falar de um crime, você teria que falar de tudo, para poder falar de uma facção.
Eu moro do lado do Rio Pinheiros, do Tietê.
O rio é apodrecido por os poderosos que abrem fábricas e fazem toda a sujeira e jogam no rio.
O adolescente vê aquele rio daquele jeito, fica injuriado, e cai nas drogas.
Erros existem por aí, todos nós erramos, mas eu não posso falar de tudo.
Eu sei falar de meu trabalho.
Eu prefiro procurar fazer o meu trabalho, perseverar, puxar as pessoas para a arte, levá-las a fugir da violência, do crime, das drogas, e droga é muito relativo, né?,
o que não é droga, o que é?,
qual o motivo desta ser proibida e aquela não?,
é muito delicado.
Acredito nas coisas, em pegar meu cavaquinho, cantar, ir para a escola, eu trabalho com escola.
Recentemente ganhamos uma casa, tivemos um projeto aprovado por a Petrobrás [Projeto Treme Terra, onde são desenvolvidas aulas de inglês, capoeira, danças e computação, entre outras atividades], para recebermos crianças da comunidade, de todas as classes sociais, misturar mesmo.
A gente sempre fala de forma muito separatista.
Quando falamos de índios, por exemplo, parece que o índio nem é humano, que não existe.
E não só o índio, não é?
Mas a mulher, o negro, o homossexual, o «drogado».
Tá tudo num contexto só;
nós ainda discriminamos muito as coisas, então temos que fazer um trabalho, percorrer um trajeto, para chegar a essas pessoas. [
Elias dá o exemplo da ausência de negros na televisão, da ausência de crianças negras no programa da Xuxa].
Até nas escolas, você vê poucas crianças negras, quase nenhum professor negro.
Em a televisão, o negro nunca aparece beijando, fazendo sexo.
Sexo é coisa de branco.
Aí, quando o cara é revoltado, ninguém é revoltado por acaso.
Fala Paulinho da Viola, [declama trecho de «Chico Brito», de Afonso Teixeira e» Wilson Batista] «o homem nasceu bom, e bom não se conservou, culpa da sociedade, que o transformou».
Então vai saber o que essa pessoa passou para fazer o que tá fazendo.
Será que ela nasceu em berço de ouro e teve a oportunidade de estudar, de ir para a universidade, ou foi discriminado como João do Vale foi?
Como várias outras crianças foram?
Eu, graças a Deus, sempre fui negro, fui forte, esse aqui sabe [aponta para Elias], eu sempre fui brigador, não escutava muito, mas uma coisinha que fazia errado era suficiente para ser suspenso, expulso [da escola].
Tu acabaste de citar Paulinho da Viola, que num tributo a João [o disco «João Batista do Vale, BMG, 1994 "], cantou» A voz do povo " [registrada por Tião no novo disco].
O disco é fruto de projeto de Chico Buarque, que foi quem também produziu o «João do Vale convida», na década de 80.
Chico já ouviu este teu trabalho?
Ainda não.
Chico tá fazendo show em São Paulo, meu amigo Marcelo Bernardes toca com ele.
A gente tava fazendo show simultaneamente e eu ainda não consegui ver o show de ele.
Já conheci Chico pessoalmente ...
Ele que era um entusiasta da obra de João.
... e não deixa de ser uma fonte de inspiração pra mim, Chico ver João e dizer, «pô, que legal».
Conheci Chico em São Paulo, fui apresentado a ele por a Marisa Orth, que foi minha aluna de dança, no Teatro Vento Forte.
Em o Rio de Janeiro, fomos jogar com o time de ele, mas ele não jogou.
Mas a turma de ele perdeu para nós de 3x2, de virada.
Se eles quiserem uma revanche, a gente marca.
Tenho muito respeito por o Chico, quando chegar em São Paulo vou levar o cd até ele.
A gente sabe que o futebol é uma das paixões de Chico.
Bob Marley jogou bola com Chico Buarque [Tião comenta um " eu não sabia "].
Eu queria tua opinião sobre isso de São Luís ser a Jamaica brasileira, a apropriação do reggae por o povo maranhense, algo que hoje já é até menor com a chegada do forró eletrônico.
Isso aconteceu de forma natural.
A história conta que a gente quando era criança, na época do rádio de pilha, com aquela antena, se escutavam reggaes vindos do Caribe.
Os rádios já tocavam.
São Luís é um pouco propícia também, o fato de ser uma ilha, a métrica do reggae e do boi são muito parecidas, o boi de orquestra é super-parecido com o reggae, e isso faz com que ele [o reggae] chegue com mais facilidade aqui.
Essa força, esse poder, essa grana, ela é duvidosa.
Justamente quando se coloca em competição com o bumba-meu-boi, com a religião, os dias de festa de santo.
Se disserem «hoje é dia de festa de reggae», beleza, aqui há espaço pra tudo.
O que não pode acontecer é isso de dizer que o que não é da gente é do diabo, como quando o índio começa a tocar o maracá de ele e a gente diz que isso é do diabo [refere-se à catequização].
Nos ensinam nas escolas que o índio é preguiçoso.
E isso aconteceu também com o pessoal do reggae.
Eles sofreram com isso.
Bob Marley, Peter Tosh, iam para a rádio e lhes diziam que a música de eles não seria tocada.
E eles diziam:
«vocês estão com a rádio aqui na nossa terra, então vão tocar sim, se não a gente vem aqui em grupo e não vai sobrar pedra sobre pedra».
Tudo bem, o cara tá falando de amor, mas ao mesmo tempo tinha peito de ir à rádio e dizer isso.
Claro que o fato de eles falarem e cantarem em inglês favoreceu, pois eles conseguiram chegar a todos os lugares do mundo, não só no Maranhão.
Que bom que o reggae está aqui.
Tenho medo das relações de poder, como tenho medo disso em tudo, onde as coisas vão discriminando as outras e passando por cima e destruindo culturas locais muito fortes.
Eu só não componho reggae por que não sei, mas gosto.
Voltando ao disco, além do Trio Virgulino, o Divina Batucada [formado por maranhenses que moram em São Paulo] e Zeca Baleiro participam do «Tião canta João».
Como é reencontrar essa turma lá fora?
Nem chega a ser um reencontro, a gente é amigo.
O pessoal do Divina Batucada toca com mim, sou padrinho do grupo.
Eu e [Nana de] Nazaré [percussionista, membro do grupo] temos um grupo chamado Forró-Chão.
César Peixinho, Catatau [membros] é meu afilhado de casamento.
Somos todos amigos.
Quando eu conheci Zeca, eu já morava em São Paulo.
A gente admira muito o trabalho um do outro e eu quis trazê-lo para essa homenagem e ele deu essa força, a gente fez essa troca.
Ficou bonito ...
Número de frases: 223
Ficou bonito ...
«A morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade;
e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti».
Conheço desde muito essa reflexão de John Donne, poeta inglês do século XVI, na verdade um belo verso de suas Meditações XVII que Ernest Hemingway deu destaque em seu livro Por Quem os Sinos Dobram.
Conheço também o seu significado, mas nunca o havia sentido de maneira tão efetiva como agora que estou desenvolvendo pesquisa para um livro sobre a história de uma cidadezinha do Tocantins de nome Babaçulândia.
Essa consciência surgiu a partir do momento das entrevistas com antigos moradores que, com seus depoimentos ajudariam-me-a recompor, como no trabalho de um artífice em sua colcha de retalhos, a história do lugar.
Houve sim muitos depoimentos ricos e surpreendentes, textos e documentos valiosíssimos, mas ainda assim lá no fundo, bem no fundo do coração, ficou enraizado um sentimento de frustração a despeito do quanto pude resgatar e tenho certeza que será preservado com o livro.
A frustração surgia quando em meio à conversa descontraída com um antigo morador -- arqueado por o peso dos anos e das lutas de uma vida agreste, ele me dizia sobre alguém que fora importante na história do lugar:
«Meu pai falava muito sobre fulano de tal».
Em o afã de que tivesse preservado fielmente a memória paterna (sonho de um aprendiz de historiador), eu perguntava ansioso:
«E o senhor, sabe da história de ele como seu pai sabia?"
Os olhos perdidos no horizonte pareciam delatar o desejo de navegar no rio Tocantins que corta a cidade em busca de resgatar a história em águas do passado;
mas, ao cabo de duas batidas de remo na água, expressavam antecipadamente o naufrágio e a decepção de não poder colaborar, denunciados em seguida por os lábios:
«Não, isso faz tanto tempo.
Eu era pequeno, pouco guardei».
Sentia-me nessas ocasiões impotente.
Era dominado por o sentimento de ter chegado atrasado e ter deixado retalhos da história se perderem.
A riqueza de detalhes por a contemporaneidade, o depoimento fidedigno por a participação na história estavam irremediavelmente perdidos.
O pouco que pudesse transmitir já vinha contaminado por as falhas do esquecimento, por a miscelânea dos boatos em que os fatos corrompidos se transformaram.
Em esse caso é obrigatório cotejar muitos depoimentos em busca de aferir a veracidade dos fatos.
Mas muitos de eles emergem diminuídos dos recessos da memória de quem conta, sem a riqueza de detalhes de quem o faz em primeira mão.
Em tais momentos compreendia que cada homem que desaparece leva com si um pouco da história da humanidade.
E é quando os sinos tocam por cada um de nós.
Número de frases: 23
«Trabalho para mãos que vêem» é um projeto bem interessante cujo objetivo pode ser sintetizado numa palavra:
tocar. Trata-se de aplicações de shiatsu, em locais públicos, realizadas por deficientes visuais.
Esse projeto, em andamento há algum tempo, já passou por a drogaria Gutemberg, por o shopping Plaza, shopping Boa Vista, por a prefeitura do Recife e hoje conta com o apoio do shopping Paço Alfândega, onde permanecerá ao menos por um mês.
O projeto é coordenado por a Associação Pernambucana de Cegos, e visa adotar a prática do shiatsu em lugares de grande movimento e por onde passa diariamente um fluxo importante de pessoas, de todas as idades e classes sociais, que podem dispor de um pouco do seu tempo para cuidar do bem-estar orgânico.
O Veneza de Brasileiros conferiu, in locu, a implantação do projeto e entrevistou um dos massagistas, senhor Arão Júnior, deficiente visual, que além do shiatsu lida ainda com a área de informática.
Segundo ele, o shiatsu vem da junção dos vocábulos japoneses shi e atsu, dedos e pressão respectivamente.
«Nós trabalhamos com movimentos de pressão sobre a escápula, cintura escapular, a região da coluna, inteira, atuando também no pescoço e na cabeça, ativando a oxigenação do córtex cerebral, por exemplo.
Para ele, todas as funções fisiológicas são beneficiadas por o shiatsu, o que proporciona um melhor ajuste do organismo, mitigando o stress cotidiano em seus sintomas mais externos, como a tensão muscular, até desconfortos intestinais, pois trata do corpo como um todo.
Para aqueles que pensam a massagem como algo supérfluo, Arão responde defendendo o shiatsu como uma necessidade do organismo:
«Com a pressão externa das mãos, o corpo libera a endorfina que é a substância do organismo responsável por aliviar as dores."
Ainda conforme seu relato, o shiatsu também mexe com a adrenalina, hormônio das emoções, o que faz com que algumas pessoas tenham reações extravagantes como até chorar durante a terapia, sorrir em demasia ou sentir dor.
Para iniciar-se nos mistérios do shiatsu, todavia, não é tão fácil como pode até parecer.
O senhor Arão, assim como todos os seus companheiros massagistas, tiveram de freqüentar em torno de cem horas de aula prática além de matérias teóricas sobre fisiologia, anatomia e psicologia, com um aprofundamento também na teoria do associativismo.
Esta última matéria prepara o deficiente visual para se relacionar de modo mais integrado com o cliente e entre si mesmos, em grupos, buscando não apenas uma formação científica mas também humana.
Questionado sobre gostar ou não do ofício, ele é taxativo:
«é um serviço muito bom, pois além de melhorarmos a qualidade de vida daquelas pessoas atendidas, nós também temos a oportunidade de fazer novos amigos por onde passamos."
Quanto ao futuro, Arão o vê com bons olhos:
«o próximo passo talvez seja conquistarmos um espaço em clínicas e hospitais onde há uma necessidade muito grande dessa forma de tratamento."
O grupo já esteve numa grande fábrica, em Suape, tratando os sintomas mais diretos do stress no labor.
A Associação Pernambucana de Cegos oferecerá uma próxima turma sobre shiatsu e mantém atualmente cursos básicos de computação operacional e internet, os deficientes visuais contam com softwares específicos para atender suas necessidades, como um decodificador através de sinais sonoros.
Sobre o preconceito, eles têm de matar um leão por dia, pois como trabalham nos mais diversos ambientes são muitas vezes abordados por curiosos incautos.
Um desses curiosos, exemplificativamente, veio até eles após a nossa entrevista, com a pergunta clássica:
vocês são cegos e fazem massagem? (
em tom de estupefação).
E a resposta veio na ponta da língua:
«nós fazemos massagem com as mãos, não com os olhos."
Por essas e outras, dá para se ter uma idéia de como ainda somos subdesenvolvidos e temos muito o que aprender com os deficientes, em termos de associativismo.
Número de frases: 27
Lorena era filha de um importante senhor.
Um dia, na praia de Ipanema, aguardava seu pai num bar, quando mirou um «trigueñisimo» pianista baiano ...
Apaixonou-se perdidamente.
Não tinha dinheiro nem futuro, o poeta sonhador baiano, mas, para Lorena, «foi mais que o céu, foi mais que um deus» já que «lhe ensinou o que é o amor».
Só que a felicidade de Lorena durou pouco, pois seu pai tomou conhecimento do «mal logrado» romance e esbravejando, ordenou que esquecesse o dito cujo:
«esse miserável não é de tua categoria e não combina com nossa rica sociedade», proibindo-a definitivamente de voltar a ver o trigueñisimo.
Lorena então, desesperada, subiu ao Corcovado e, lá de cima, «abriu suas asas e voou» ...
Deve ter se espatifado toda a bichinha, coitada:-).
Também, foi logo se apaixonar por um negão-pianista baiano (negão é minha tradução livre para trigueñisimo), lá por as bandas da praia de Ipanema.
Tinha mais, essa pendenga, era que terminar desse jeito mesmo.
Lorena, de tão tenra idade, não deve ter ouvido falar de Ícaro e de suas asas coladas com uma cera de quinta categoria que, obviamente, derreteu.
E o probrezinho despencou direto para o mar Egeu.
Então ela, ao se atirar voando do Corcovado, pode ter querido planar por a Baía (ou seria Bahia?)
da Guanabara, e quem sabe, pegar o vácuo de um urubu até o Porto da Barra (Salvador, Baía?),
onde, bem pertinho, fica um outro Cristo, só que bem mais baixinho.
Lá poderia ver o pôr-do-sol com seu negão pianista e mandar às favas os preconceitos paternos.
Mas conta a lenda que ninguém nunca mais viu Lorena ...
Eu conheci a estória de Lorena por a voz de uma linda «cantante» argentina:
Soledad Pastorutti, através do incrível Youtube.
Clique aqui para ver o videoclip da música «El Bahiano».
Concordo com aqueles que dizem que o mesmo brasileiro que adora rotular o americano de etnocêntrico por este achar que a capital do Brasil é Buenos Aires, jura de pé junto que a capital da terra dos aborígenes e dos cangurus é Sydney (sinto desapontar alguns, mas a capital da Austrália se chama Canberra) e ainda aposta seu último níquel que a capital dos Estados Unidos é New York.
Então, longe de uma postura nacionalista do tipo policarpiana, o que me move ao escrever essas linhas é mais uma observação bem humorada do bizarro (que na acepção mais usada no Brasil significa estranho, esquisito), ou de como algo que parece ter bom suporte técnico e financeiro, pode descambar para o superficial e o equivocado.
Antes de tudo, não me consta que «Sole» seja (ou fosse em 1999, ano em que foi feito o videoclip) uma cantora de renome mundial.
Mas, basta dar uma olhada no site da Sony BMG para perceber que a empresa não a teria em seu cast se ela, como artista, não tivesse, pelo menos, o potencial de transpor as fronteiras da Argentina.
Portanto, não se trata de uma produção amadora.
É certo também que as «bizarrices» já vinham acontecendo:
Michel Jackson e Spike Lee são a prova disso, com o vídeo que produziram entre o Rio de Janeiro e Salvador, em 1996.
Agora, mesmo que não se fizesse como um Paul Simon que veio, em 1990, a Salvador gravar com o Olodum a faixa «Obvious Child» do álbum Rhythm of the Saints, e que, depois de um ano, com um milhão de cópias vendidas e um Grammy nas mãos, levou os percussionistas para um grande show no Central Park, a coisa poderia ter sido, digamos, melhor contextualizada.
Vamos lá:
especulam alguns que o vídeo foi gravado no Uruguai ou em Miami.
Se foi na Conchichina, tudo bem.
Em a Bahia é que não foi.
Se não, Soledad derreteria dentro do espesso casaco de lã vermelha, com o qual aparece na maior parte das cenas:-).
E os trajes das «bahianas»?
Poderiam muito bem ter saído dos desenhos de Rugendas ou Debret se já não tivessem precedentes nas estereotipadas novelas de época e minisséries globais, que também devem ter inspirado as cenas com os círculos de velas.
Os percussionistas estão uniformizados e aquietados demais, com instrumentos variados de menos, além de inadequadamente coloridos.
E por falar nisso, a referência sonora a uma possível banda de percussão baiana, que acontece com mais ênfase no intermezzo, apesar de ser bem resolvida musicalmente, como é inclusive toda a música, soa irremedialvelmente frustrante.
Imaginem um violinista, por melhor que seja, tentando se fazer soar como uma orquestra de cordas inteira?
É mais ou menos isso que acontece.
O trigueñisimo baiano que toca piano (o ator, branco, diga-se de passagem, pode até ter nascido na Bahia, mas não tem quem me tire da cachola que o sujeito é argentiníssimo) num bar da praia de Ipanema, vestido como os escravos das novelas da Rede Globo, só que usando um colete com ares andinos, é um tipo quase surreal, vocês hão de concordar.
Ver o videoclip ambientado numa pseudo Bahia e imaginar o casal se amando em Ipanema e Lorena se atirando do Corcovado é, no mínimo, engraçado.
Enfim, tudo me parece e me soa um tanto bizarro.
Não que isso tenha alguma consequência para o futuro das relações entre Brasil e Argentina, mas que eu dei boas risadas com o vídeo, não há como negar.
Por último, me vem à mente um trecho citado por Hemarno Vianna, num dos fóruns do Overmundo, de Jorge Luis Borges, escritor argentino, onde este diz que a falta de camelos no Alcorão é exatamente a prova de que este livro é árabe.
Maomé, o «autor», por ser árabe, não sentiu a necessidade de incluir camelos, já que eram comuns ao seu contexto.
Número de frases: 45
Porém, un falsario, un turista, un nacionalista árabe, lo primero que hubiera hecho es prodigar camellos, caravanas de camellos en cada página».
Toda cidade é um mistério e não se confunde com nenhuma outra, por mais próximas geográfica ou historicamente as duas estejam.
Cada uma é o empreendimento coletivo, misto, anônimo de milhares de seres que a constroem ininterruptamente, com o conteúdo de suas próprias vidas.
Sua essência está em tudo e em nada especialmente, pois cada parte só tem sentido encravada no todo, no conjunto.
É uma obra única, singular, inconsútil, resultado da alquimia de sua presença humana, física, histórica, econômica, cultural, que erige a sua grandeza e sua mesquinhez, reflexos da condição dos homens.
Mesmo para o morador mais atento, ela se mostra um tanto velada, reservada em algo de sua intimidade, de modo que não se mostra por inteiro, até porque só vemos o que os nossos valores, crenças, conceitos, interesses nos permitem enxergar, numa visão redutora.
O que não é percebido mostra-se insuspeito, fazendo, no final, tudo parecer habitual, familiar.
Se a cidade tem pudores mesmo para os seus habitantes, imagine o que ela reserva a um estrangeiro!
Suponha um que em ela chegue, vendo-a à primeira vista.
É provável que se depare com um ambiente bastante diferente daquele encontrado em sua terra natal.
Previsivelmente, ele se aterá à beleza natural, ao relevo, ao conjunto arquitetônico, com um olhar inusitado.
É de supor que teça comparações, considere alguns costumes um tanto exóticos e pitorescos, observe os tipos físicos existentes e a linguagem lhe pareça um som contínuo e indistinto.
Esse conjunto de aspectos comporia um panorama particular, único.
Tudo isso é permitido e comum a qualquer estrangeiro.
Pensemos, então, em alguém que retorne à cidade em que nasceu, mas da qual partiu pequeno e haja passado muito, muito tempo fora de ali.
Ele não mais reconhece a fisionomia, o sotaque, o imaginário, o tempero.
Confuso, ele espera, no entanto, ser recebido como por a mãe que abraça, com alegria e calor, o filho há tanto distante.
As pessoas parecem arredias, desconfiadas, e você se sente um forasteiro no seu lugar, que talvez nem seja mais seu, e que, por isso, você não tem mais nenhum direito a ele.
Você é daqui, mas não é daqui.
Você é de lá, mas não é de lá.
Talvez não seja mais de lugar algum.
Número de frases: 21
Seja apenas um estrangeiro dentro de si mesmo.
É exatamente com esta frase que o radialista João Carlos, 75 anos, o JC, atende seus ouvintes no programa «A Hora do Boi», na rádio Transamazônica FM 105, 9, que é transmitido todos os domingos, a partir do 12h00 min às 15h00 min, dedicado aos amantes da música popularmente brega.
E, é lógico, aos cornos de plantão.
Trata-se do primeiro programa também direcionado aos «chifrudos» do Brasil.
Músicas para entortar os chifres, literalmente.
Há 24 anos, quando foi ao ar o primeiro programa «A Hora do Boi», na Rádio Rondônia FM, a idéia era resgatar o famosíssimo» Bolero de Puteiro».
Sucessos das décadas de 70 e 80. Músicas de cantores como Valdick Soriano, Evaldo Braga, Carlos Alexandre, Reginaldo Rossi e tantos outros sucessos daquela época.
O programa passou por várias outras rádios, mas se mantém firme até hoje.
E assim por muito tempo, espera JC.
«A palavra ' corno ', nunca ouvida antes num programa de rádio, era falada pela primeira vez», lembra o radialista JC, que também é sócio-fundador da Associação dos Cornos de Rondônia (ASCRON).
Ele conta que, no início, não foi nada fácil sustentar o programa porque houve muita discriminação com o tema abordado.
«Puro preconceito», diz.
«Quando entenderam que o programa seria uma forma de ajudar, com conselhos e palavras reconfortantes, deixaram de nos perseguir».
E não é à toa que mais de 200 ligações são atendidas durante o programa.
Ouvintes que, além de pedirem sucessos, querem e gostam de ouvir os conselhos e as «verdades» de JC.
Que o diga Cristiano Cruz, ouvinte assíduo do «A Hora do Boi».
«Acredito que seja a única programação destinada a nós, cornos e amantes da música brega», relata.
Gente que não tem vergonha de contar como, a maneira e a forma que encontrou o tão temido pé-de-pano.
Aliás, segundo JC, já houve uma reconciliação ao vivo.
Em a ocasião, um homem apresentou seu relato e, entre um choro preso, depois de muita conversa, decidiu que deveria perdoar sua esposa.
Porém, o final nem sempre é feliz.
Mas, caso o problema não seja resolvido, existe um encaminhamento psicológico a ASCRON.
«Corno também tem que ser tratado com respeito», revela JC.
O programa é aberto para quem quiser participar:
homens, mulheres e crianças.
«Gostamos de transmitir otimismo e alegria, seja qual for a situação».
Os chifrudos agradecem.
A ASCRON
Fundada em 1982, a Associação dos Cornos de Rondônia tem como presidente Pedro Soares, que teve essa idéia inusitada após ser «chifrado» por sua esposa.
Pior, o «outro» era seu melhor amigo.
Ele conta que, ao invés de perder a cabeça, resolveu admitir que era corno.
«Poderia ter usado a violência, mas isso não me levaria a lugar nenhum», diz.
Assim, juntamente com JC, estava criada a primeira Associação para cornos.
Ao todo, mais de 8 mil pessoas estão associadas em Rondônia, entre sócios e simpatizantes.
Cornos assumidos chegam a somar mais de 4.500.
Segundo Pedro Soares, a ASCRON é para auxiliar qualquer pessoa que tenha passado por situação semelhante à sua, independentemente da opção sexual.
Lésbicas, gays e afins têm espaço garantido.
A grande novidade deste ano é o «Plantão do Corno», que funcionará durante 24 horas durante o Natal e Ano Novo.
«Geralmente é nessa época, por incrível que pareça, que os casais mais se separam, ou seja, levam chifres», afirma Soares.
Para maiores informações sobre a ASCRON, basta acessar o site:
Número de frases: 40
http://www.ascron.pop.com.br O apelido, dado por Cyro Monteiro, era por conta da cara arredondada.
Mauro «Bolacha» Duarte compôs aos montes e, mais que tudo, se divertiu na vida de sambista.
Mas, por ironia, não chegou a fazer significativos registros de sua obra em bolachas -- grandes como os vinis de antigamente ou pequenos como os CDs de hoje.
Ao todo, foram apenas quatro discos -- três de eles como integrante do conjunto Os Cinco Crioulos.
Talvez isso ajude a explicar, em parte, por que seu nome (com apelido ou não) nem sempre é diretamente ligado às suas composições.
Ainda que muitas de elas, como «Lama»,» Canto das Três Raças e Portela na Avenida " (as duas últimas com Paulo César Pinheiro) estejam até hoje na boca do povo.
Desde de sua morte em 1989 -- próxima de completar 20 anos, portanto -- Mauro vem tendo sambas gravados esporadicamente por aí.
A homenagem mais recente foi do parceiro Walter Alfaiate, que gravou «Tributo a Mauro Duarte (CPC-Umes) em 2006)».
Mas isso não significa que o baú de inéditas tenha esvaziado.
Agora parte de elas será lembrada numa mesma bolachinha:
o disco será lançado no fim de fevereiro por a Deckdisc com 30 canções, a maior parte nunca gravada, outras gravadas mas (quase) esquecidas, algumas ainda montadas como quebra-cabeça.
Quem interpreta pérolas como «Jeito de cachimbo», Sublime primavera» e «Lenha na fogueira» é o grupo Samba de Fato, formado por Alfredo Del Penho, Pedro Miranda, Paulino Dias e Pedro Amorim, com auxílio luxuoso de Cristina Buarque, grande amiga do compositor, e participação especial de Paulo César Pinheiro, parceiro mais constante e figura fundamental para a realização do projeto.
Para completar, há quatro faixas-bônus com trechos do próprio Bolacha cantando, em pequenas vinhetas.
Como a idéia é celebrar o sambista respeitadíssimo por os compositores, mas pouco conhecido por seu próprio público, o projeto vai além do CD.
O mergulho no baú rendeu a Alfredo, que coordena a empreitada, a redescoberta de fotos, fitas e anotações.
Matéria-prima que o estimulou a dar mais um passo, registrando em vídeo os depoimentos dos parceiros e amigos de Mauro.
O material iconográfico e audiovisual vai ser reunido num hotsite, a ser lançado junto com o disco.
É tarefa de fã.
«Acho o Mauro um dos melodistas mais ricos do samba.
É daquele tipo de compositor que você consegue identificar ao ouvir o fraseado.
Tem marca de autor.
Isso torna ainda mais inusitado o fato de seu nome nem sempre ser ligado à sua obra», explica " Alfredo.
«Quem conhece a vida não se desespera
Em o mundo
O que tinha de ser, já era." (
Palavra) Mauro nasceu em Matias Barbosa, distrito de Juiz de Fora (MG).
Mas foi no Rio, no bairro de Botafogo, que se aproximou do samba, ainda na infância.
«Ele ainda era criança quando começou a freqüentar o carnaval.
Em a época, em Botafogo, tinha muito bloco de sujo.
Era o auge dos blocos cariocas, animados como são os de hoje, mas sem essa coisa arrumadinha, de camiseta.
Então ele começou a compor por essa influência», conta Cristina.
A produção para os blocos era enorme e extrapolava o bairro.
De o mesmo modo que compôs sambas-exalta ção para diversas escolas, sem deixar de ser portelense convicto, criou músicas para blocos de Laranjeiras, Flamengo, Catete, sem trair de forma alguma o amor a Botafogo -- o bairro e também o time.
Já adulto, tocava a vida trabalhando em banco, atuando como ourives, vendendo chapéu, mas sempre dedicando as horas vagas ao samba.
Em a Portela, desfilava sempre na ala dos compositores -- e se não chegou a emplacar nenhum samba-enredo (apesar de ter tentado com «Fonte dos Amores, com Alfaiate e Wilson Moreira, em 1988 "), mereceria todas as loas mesmo que fosse só por causa de» Portela na Avenida», imortalizada na voz de Clara Nunes.
Gostava de compor andando, batucando nas pernas.
De aí a necessidade de registrar tudo no gravadorzinho ao chegar em casa.
Em a de ele ou na dos parceiros.
«O Mauro gostava de ir à praia cedinho.
Logo começava a tomar umas e, como na época eu morava no Leblon, não era raro aparecer lá em casa dizendo que precisava me mostrar alguma melodia recém-criada», lembra Paulo Pinheiro.
A aproximação da maturidade o deixou ainda mais próximo do samba.
Passou a ser gravado por alguns intérpretes -- sendo a mais recorrente e importante Clara Nunes, mas também Elizeth Cardoso, Alcione ...--
e até a se assumir timidamente como cantor.
Função que exercia muito bem, segundo os amigos.
A prova está nos três discos que gravou como membro do conjunto Os Cinco Crioulos (com Nelson Sargento, Elton Medeiros, Anescarzinho do Salgueiro e Jair do Cavaquinho), no qual substituiu Paulinho da Viola a partir de meados da década de 60.
E também no disco independente que gravou com Cristina Buarque em 1985.
«Não adianta
Estar no mais alto degrau da fama
Com a moral toda enterrada na lama " (
Lama) Mas nem só como compositor e cantor ele deu sua contribuição:
nos anos 80, junto com a própria Cristina, começou a realizar o Projeto Resgate, com o intuito de fazer as pérolas de sambistas antigos não se perderem.
«A gente encontrava os compositores e revirava o baú.
De a memória, porque muitos de eles não tinham gravador.
Então a gente gravava, conversava», lembra Cristina.
«O duro foi que ninguém poderia prever que Mauro morreria logo em seguida.
Ele era até organizado com sua obra, tinha um caderno com os nomes de suas composições.
Mas muita coisa ficou solta."
Quem organizava o resgate, curiosamente, acabou sendo alvo de outro, duas décadas depois.
Se não chegou (e nem queria) ao mais alto degrau da fama, tem uma obra que mostra consistência e perenidade e o carinho eterno de muitos cariocas.
O simpático símbolo disto é uma conquista de seus amigos em 1998: seu nome passou a batizar uma pequena praça de Botafogo.
Frankenstein
Em o fundo do baú havia três fitas.
Cassete, sem grandes explicações, que foram passadas por a família de Mauro para Cristina Buarque.
A o ouvir, ela sacou o tamanho da encrenca e pensou:
«Só o Paulinho pode dar um jeito nisso!"
«Isso» eram os trechos de melodias e letras que Mauro registrava assim, de bobeira, para quem sabe um dia aproveitar.
Não chegava a ser total novidade para Paulo.
«Fomos parceiros por muitos anos e não foi raro eu trabalhar com base nessas gravações caseiras de ele.
Esse que é o grande barato:
conhecia os caminhos criativos de ele, a gente tinha uma intimidade musical, era muito companheiro.
O engraçado é que ele gravava para não esquecer, mas depois esquecia que tinha gravado, ou não tinha paciência de ir ouvir para criar em cima.
Sobrou pra mim», conta, rindo.
E foi realmente um trabalho de formiguinha para ouvir melodias soltas, sem saber exatamente onde começavam e terminavam as idéias para as mesmas músicas.
«Fui separando o que me chamava atenção e complementando.
Quando vi, tinha 10 músicas prontas.
Elas não existiriam se eu não tivesse essa paciência de chinês», diverte-se, lembrando que, além de elas, entraram no disco outras oito parcerias antigas dos dois.
A pesquisa rendeu pelo menos outro quebra-cabeças, dessa vez envolvendo mais gente.
Em um dos depoimentos gravados, um entrevistado comentou sobre a existência de um samba em homenagem ao polêmico casal Garrincha e Elza Soares.
Alfredo começou então a perguntar a todo mundo.
«Ninguém lembrava direito.
O parceiro Walter Alfaiate cantou uma parte, um amigo de Botafogo lembrou da letra inteira, mas não da melodia ...
Aí o salvador Paulinho resolveu a parada, lembrando tudo.
Foi o maior Frankenstein!"
Como a música acabou não entrando no disco, aí vai a palinha com a letra remontada por a lembrança coletiva:
Música sem título sobre Elza Soares e Garrincha (Mauro Duarte, Walter Alfaiate)
Eu já não sei mais o que fazer desta paixão
Além de amor proibido
Somos demais conhecidos
Demais, demais
Pagando o tributo da fama
Fizeram do nosso caso um drama
Com manchetes de jornais
Vizinho se manda com a vizinha
Branco adora a escurinha
E ninguém diz nada
Plebeu desposa broto do society
Madame adora o chaveiro da light
E ninguém sabe de nada
Mas bastou ser artista
Pra ter o nome na lista de repórter à procura de furo
que pra manter a alcunha de foca
Em todo caso faz uma fofoca
Se tornando um dedo duro
Imagens à vista
Hoje em dia é raro ver um projeto deste tipo ter vez em gravadoras tradicionais.
Em este caso, saiu do papel graças aos esforços pessoais dos envolvidos (como costuma acontecer em toda produção apaixonada) e alguma negociação.
A gravação por o Samba de Fato barateou os custos, pois os arranjos foram feitos de forma coletiva e não foi necessário contratar músicos extras.
A produção enxuta teve como contrapartida a possibilidade de se fazer o site com o resto do material pesquisado.
Em a reta final do processo, uma constatação um tantinho desanimadora se instalou:
se no processo de pesquisa cada foto ou material encontrado era comemorado, agora existe uma certa frustração de não poder mostrar tudo no site.
Por questões de copyright.
«Encontramos fotos lindas, mas em alguns casos não sabemos quem é o fotógrafo.
Acredito até que o próprio autor da foto pode não se lembrar que a tirou.
Mesmo assim, não podemos colocar no site sem autorização», conta Alfredo.
Sem entrar no mérito do inusitado da coisa, resta fazer um apelo:
Número de frases: 115
se nos carnavais da vida você por acaso tirou uma foto de Mauro Duarte, entre em contato com esse pessoal!
A Cidade de Goiás transformou-se mais uma vez num grande palco para o cinema e o meio ambiente, no período de 6 a 11 de junho.
Desta vez aconteceu
a oitava edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (
Fica). Idealizado há sete anos por Luiz Felipe Gabriel, Jaime Sautchuk,
Adnair França e Luís Gonzaga, o Fica despontou como marco de um novo momento
da cultura em Goiás.
Como projeto do Governo do Estado, por meio da Agência
Goiana de Cultura (Agepel), tinha atrás de si objetivos ambiciosos, como valorizar o cinema, discutir amplamente a questão ambiental, conquistar o título de Patrimônio da Humanidade para a Cidade de Goiás, movimentar o setor cultural como um todo, gerar riquezas (como cultura e informação),
empregos e fomentar o turismo.
Este ano, os grandes homenageados foram o professor (da Escola
de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo) Ismail Xavier por o seu
trabalho voltado para o cinema e o seu envolvimento com Goiás desde 1978,
quando esteve em Goiânia ministrando palestra no então recém-criado
Cineclube Antônio das Mortes, no DCE da Universidade Federal, do qual fui um dos fundadores;
o deputado federal (PV / RJ) e jornalista Fernando Gabeira por
sua atuação em defesa do meio ambiente, e o ex-governador do Estado Marconi
Perillo que bancou o festival desde o início e o transformou em projeto de governo, além de seu trabalho ímpar voltado para a cultura goiana como um todo.
O VIII Fica -- Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental foi encerrado na noite deste domingo, 11, na cidade de Goiás, com a apresentação
dos Titãs, na praça do Chafariz, a partir das 20 horas.
O show do grupo de rock foi centrado no seu mais novo trabalho do grupo, o CD MTV ao Vivo
Titãs, e incluiu também sucessos já consagrados.
A banda interpretou 30
músicas, entre elas A Melhor Banda, Homem Primata, Pra Dizer Adeus, Enquanto
Houver Sol, Provas de Amor e Anjo Exterminador.
Pela manhã, no Cine-Teatro
São Joaquim, a partir das 11 horas, o escritor e deputado federal Fernando
Gabeira proferiu palestra sobre Política, Cinema e Meio Ambiente, com a coordenação de jornalista ambientalista Washington Novaes.
O público
estimado que compareceu ao festival foi de 200 mil pessoas.
mais de duas centenas de pessoas se fizeram presentes
Premiações Parte da manhã de sábado, 10 de junho, foi dedicada à revelação e premiação
dos vencedores do VIII Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (
VIII Fica), bem como do Festival dos Festivais, da Mostra ABD Goiás e do Projeto Se Liga no Fica.
A solenidade foi realizada no Cinemão e contou com as presenças do governador de Goiás, Alcides Rodrigues, acompanhado da primeira-dama Raquel Rodrigues;
ex-governador Marconi Perillo;
presidente da Agepel, Nasr Chaul, e o prefeito da Cidade de Goiás, Abner Curado, entre
outras autoridades, além de personalidades ligadas ao mundo do cinema e a população em geral.
O deputado Fernando Gabeira falou de política, cinema e meio
meio ambiente Inicialmente foi exibido o Making of do VIII Fica, que se abriu com Nasr
Chaul lembrando o trabalho pioneiro do cineasta Glauber Rocha em relação à questão ambiental, além do cinema, e fazendo referência à coincidente
presença, na Cidade de Goiás, de três companheiros de Glauber na produção do filme " Terra em Transe ":
Eduardo Escorel, Dib Lutfi e Zuenir Ventura.
O filme Glauber foi exibido no Cine Teatro São Joaquim, dentro da Mostra
Paralela de Cinema Brasileiro. O Making of foi produzido por alunos das oficinas de Fotografia em Vídeo, com Dib Lutfi, e de Edição, com João Paulo
Cavalho.
Com o filme «Ovas de Oro», média-metragem dirigida por Manuel Gonzalez e Anahí Johnsen, o Chile foi o grande vencedor (melhor filme) do VIII Festival
Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (VIII Fica), conforme decisão do júri oficial do evento, composto por Washington Novaes, Rubens Machado Jr.,
Maria Dora Genis Mourão, Paulo Souza Neto, Mário Borgneth, Rigoberto López e Carlos Teófilo Furtado Oliveira.
Os ganhadores receberam o Troféu Cora
Coralina e premiação em dinheiro no valor de R$ 50 mil.
Filme chileno foi o grande vencedor
«Ovas de Oro» é uma radiografia inspirada e orientada para denunciar o comportamento do império industrial salmoneiro e pesqueiro nas costas do Chile.
A obra tenta informar sobre as conseqüências para os operários do salmão, os pescadores artesanais, as comunidades litorâneas, a cultura das vilas e o meio embiente, devido ao desejo de se tornarem o primeiro produtor
salmoneiro do mundo.
Por os votos do Júri Popular (Troféu Luiz Gonzaga Soares), o melhor filme do VIII Fica foi o curta-metragem «Zoo», de Daniel Lima (Brasil / Goiás).
Trata-se de um musical animado, enfocando o desabafo dos animais que vivem
num zoológico
Já para os jornalistas (Troféu Imprensa), o melhor filme do festival foi o longa-metragem «The Last Atomic Bomb, de Robert Richter (Estados Unidos».
Documentando a maior tragédia ambiental e humana, o filme traça o perfil dos sobreviventes da bomba atômica lançada em Nagasaki (Japão) e de estudantes
determinados a se certificarem de que as histórias dos sobreviventes nunca
serão esquecidas.
O documentário entrelaça a vida dos personagens com a controvertida decisão dos Estados Unidos de usar a bomba, enfocando também a censura norte-americano e japonesa, a discriminação contra os sobreviventes,
o acúmulo das armas da Guerra Fria e a proliferação nuclear.
As demais premiações
O prêmio de Melhor Produção Goiana foi «par Bartô», de Luiz Botosso e Thiago
Veiga, que recebeu o Troféu João Bennio e R$ 40 mil.
Em a mesma categoria,
levou o Troféu José Petrillo e R$ 40 mil o filme «Zoo», de Daniel Lima.
O Melhor Curta-Metragem foi «White Gold -- The true cost of cotton», de Gillian Hazell (Unido), que foi agraciado com o Troféu Acari Passos e R$ 25 mil.
O Melhor Média-Metragem:
«Kirasã yõ Sãti -- O Amendoim da Cutia ', de Komoi e Paturi Panara (Brasil / Mato Grosso), que levou o Troféu Jesco von Puttkamer e R$ 25 mil.
Melhor Longa-Metragem:
«The Real Dirty on Farmer John, de Taggart Siegel «(Unidos) e» Profeta das Águas», de Leopoldo Nunes (Brasil / SP), que
levaram o Troféu Carmo Bernardes e R$ 35 mil -- prêmio dividido por os dois
ganhadores.
Em a série televisiva (Troféu Bernardo Élis e R$ 25 mil), o júri decidiu não premiar nenhuma obra, mas conferiu menções honrosas, por o alto nível
apresentado, aos filmes " The Last Atomic Bomb, de Robert Richter (Estados "
Unidos), «Source», de Martin Marececk (República Checa) e» Conflict Tiger»,
de Sasha Snow (Rússia).
«Festival dos Festivais "
«Carpatia», de Andrezej Klamt e Ulrich Rydzewsky (Germânia / Áustria), foi o ganhador do Festival dos Festivais, recebendo o Troféu Marconi Perillo e R$
30 mil.
O filme faz uma viagem poética no tempo e nas montanhas rurais que
podem parecer estrangeiras para muitos, mas que ainda assim fornecem a conexão com as raízes comuns, culturais e históricas.
Este documentário
retrata as pessoas, os lugares e a paisagem das montanhas Carpathian.
Em esta
jornada pôde-se conhecer garimpeiros de ouro, magos, boiadeiros e suas
boiadas, além dos velhos Chassids.
Também se presência de perto as vidas de grupos étnicos da região, como os Hultsul, os Gorals e os Roma.
O júri do Festival dos Festivais foi formado por Lisandro Nogueira (
Brasil / Goiás), Gaetano Capizzi (Itália) e Lauro António (Portugal).
Cinco países (Brasil, Portugal, Itália Espanha e Grécia) participaram como concorrentes, cada um de eles apresentando o seu melhor filme de temática
ambiental em 2005 e um outro filme de livre escolha, dentro da mesma
temática.
Homenageados do VIII Fica
Três personalidades de destaque nas áreas do cinema, meio ambiente e cultura
foram homenageados com o troféu do VIII Fica.
Em a área de cinema, o homenageado foi Ismail Xavier, da USP, que recebeu o troféu das mãos de Lisandro Nogueira.
Em a área ambiental, o troféu, entregue por Washington
Novaes, foi para o deputado federal Fernando Gabeira.
O ex-governador Maconi
Perillo recebeu, das mãos de todo o Júri Oficial do VIII Fica, o troféu para a área de cultura, e foi efusivamente aplaudido.
Vencedores da IV ABD Cine Goiás
A Associação Brasileira de Documentaristas, Seção de Goiás, coordenou este
ano uma das mais bem organizadas mostra do cinema goiano em todas as edições
do Fica.
E esta não é uma opinião pessoal -- que seria no mínimo suspeita por
ser eu o atual presidente da entidade, mas sim do público (que superlotou
todas as sessões) e de realizadores e convidados que acompanham o festival
desde 1999.
Além da IV ABD Cine Goiás -- Mostra Competitiva, a entidade
promoveu também duas outras mostras de caráter informativo:
a Mostra ABD
21 -- Panorama Goiás, com 15 outras produções realizadas de junho de 2005 a abril deste ano, e a Mostra AB D21 -- Panorama Brasil, na qual pretendíamos
exibir curtas das 27 ABDs estaduais, mas, infelizmente, apenas 16 enviaram
seus representantes, apesar dos nossos esforços junto às diretorias de essas
entidades desde janeiro deste ano.
Com o júri formado por o cineasta Sílvio Da-Rin (que também ministrou a super
elogiada oficina «Tradição e Transformação do Documentário», sob a coordenação da ABD-GO, e lançou seu livro homônimo), o documentarista
carioca Pedro Nabuco e Fernando da Costa, do Cineclube do Mosteiro da Anunciação do Senhor (Cidade de Goiás), a IV Mostra Competitiva da ABD Cine
Goiás premiou dez filmes, cujos diretores receberam o Troféu Pedra Goiana e prêmios em dinheiro que variam de R$ 1.500 a R$ 3.500, num total de R$ 18
mil.
Antes de eelencar os vencedores, gostaria de abrir aqui um parênteses para falar um pouco sobre o belo troféu criado este ano em comemoração aos 21
anos de fundação da ABD Goiás.
Produzido em resina, medindo 15x15
centímetros, o troféu traz estilizada a chamada Pedra Goiana e um negativo
de filme no seu interior sobre o qual foi aplicada a logomarca oficial da ABD-GO e o selo comemorativo de 21 anos.
Idealizado por mim, o troféu foi confeccionado por a artista plástica Rochane Torres e representa uma das atrações geológicas e turísticas de Goiás, a Pedra Goiana, que existia na Serra Dourada (assim chamada devido à cor que adquire quando a luz do crespúsculo atinge toda sua extensão), explodida por vândalos em 1965.
A Pedra Goiana possuía grandes dimensões e se equilibrava em duas outras
pedras muito pequenas.
O monumento era um local turístico e sua perda foi bastante lamentada, com repercussão na imprensa.
Agora sim, vamos aos premiados da IV ABD Cine GOIAS:
Melhor " Trilha Sonora:
Uma Só Vez na Vida, de Robney Bruno " " Melhor Editor:
Capital XX», de Juliana Corso
Melhor " Direção de Fotografia:
Resto de Sabão, de Rochane Torres " " Melhor Roteiro:
Peixe Frito, de Ricardo George de Podestá " " Melhor Animação ":
«Zoo», de Daniel Lima
«Melhor Ficção: Uma Só Vez na Vida, de Robney Bruno "
«Melhor Documentário: Coque do Buriti, de Gel Messias "
Melhor Curta-Metragem:
«Corra, Coralina, Corra!»,
de João Novaes
Melhor " Direção:
O Dono da Pena, de Cláudia Nunes " " Melhor Filme:
Resto de Sabão, de Rochane Torres».
Projeto Se Liga no Fica
O Projeto Se Liga no Fica, realização do governo de Goiás, por meio da Agepel e da Agência Ambiental, voltado para a mobilização social e educação
ambiental, premiou os filmes ' (1º lugar), do Escola
Estadual João Augusto Perillo, que recebeu o " Troféu Marconi Perillo;
«Águas que Choram» (2º lugar), do Colégio Estadual Professor Alcides Jubé, com o Troféu Brasilete Caiado;
e «Lixo Rural -- Uma questão de consciência» (3º
lugar), da Escola Municipal Holanda e Escola Municipal Terezinha de Jesus
Rocha, com o Troféu Professor Artur da Costa Ferreira.
Os três vídeos
premiados foram resultados da Oficina de Fotografia em Vídeo, ministrada por
Dib Lutfi aos alunos.
Indústria criativa é a atração do Empório Sebrae-Fica
As chamadas indústrias criativas, que produzem cultura, cinema, audiovisual
e música entre outros produtos e serviços afins, são as que mais atraíram a atenção dos visitantes do 3° Empório Sebrae-Fica.
A área montada do Empório,
que expandiu de 450m² em 2005 para 1400m² neste ano, fica no QG do Fica, no Colégio Alcides Jubé.
Em ela foram instalados 40 estandes de exposição e venda de produtos e serviços, quatro salas de projeção, espaço para realização de palestras,
oficinas, shows e praça de alimentação.
Alguns estandes de Universidades
editaram e mostraram como editar vídeos.
É a preferida dos jovens que
disputam o direito de editar vídeos.
O de maquiagem cenográfica é outro
estande que concorreu na opção dos jovens.
Em o estande da ABD Goiás, houve o lançamento do livro " Espelho Partido
Tradição e Transformação do Documentário», de Silvio Da-Rin, bastante
procurado durante a noite de autógrafos para um bate-papo por as pessoas
presentes no evento.
Em o mesmo local foi relançado também o jornal Claquete,
informativo oficial da ABD-GO que não circulava desde 2000.
Outra novidade
foi a exposição para comercialização de 50 livros sobre cinema.
Em o III Empório Sebrae-Fica de Cinema e Vídeo, a ABD Goiás participou também de uma importante mesa-redonda que discutiu o documentário no Brasil.
Em o
mesmo espaço foi realizada a II Mostra Paralela DOCTV Goyaz, exibiu 20
títulos da Série DOCTV II, entre os dias 07 e 10 de junho.
A mostra é fruto
da parceria entre o Pólo Estadual de Goiás (composto por a TV Brasil Central
e ABD-GO), o SEBRAE-GO e a AGEPEL -- Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico
Teixeira.
A II Mostra Paralela DOCTV Goyaz também contou com a realização, na quinta-feira, 08 de junho, de uma mesa de debate intitulada " O documentário
brasileiro pós-retomada e a importância do modelo DOCTV em sua renovação
estilística». O debate contou com as presenças de Mario Borgneth, Assessor
Especial do Ministro da Cultura, Maurício Hirata, da Coordenação Nacional do DOCTV, João Novaes, Coordenador do DOCTV Goyaz, e Beto Leão, Presidente da ABD-GO.
A mesa colocou em perspectiva as questões levantadas por o ciclo de debates
do Seminário DOCTV, realizado em parceria com o CINUSP Paulo Emílio e o Departamento de Comunicação da PUC/RJ (que contou com a participação de Eduardo Coutinho, Jean-Claude Bernardet, Stela Senra, Cláudia Mesquita, Giba
Assis Brasil, Leandro Saraiva, Nelson Hoineff, Newton Cannito, Eduardo
Escorel e João Salles);
e por a Oficina para Desenvolvimento de Projetos do Doctv
III (que contou com a participação de Geraldo Sarno, Giba Assis
Brasil, Eduardo Escorel, Cristiana Grumbach e Ruy Guerra).
Número de frases: 200
Em 3 de janeiro último, se vivo estivesse, Luiz Carlos Prestes estaria completando 110 anos.
Em 1926, chefiando a famosa Coluna, o Cavaleiro da Esperança esteve em Oeiras e Possidônio Queiroz, jovem músico de 23 anos, confraternizou com os chamados revoltosos.
Sessenta e um anos depois, em 1987, acompanhado de sua filha (com Olga Benario) Anita Leocádia, Prestes retornou a Oeiras e foi recepcionado com um discurso do próprio Possidônio.
A íntegra desse discurso chegou-me às mãos há poucos dias e eu decidi postá-lo aqui no overmundo, numa espécie de homenagem uns dias atrasada (mas o que são 20 dias em vista de cento e dez anos?)
«Saudação dirigida por Possidônio Queiroz ao valoroso Líder Luiz Carlos Prestes na sessão solene com que o homenageou o Instituto Histórico de Oeiras, realizada às 10 horas do dia 26-07-1987, no Cine-Teatro Oeiras, completamente lotado.
Mesa constituída por o Sr. Prefeito Municipal, B. Sá, que presidiu os trabalhos, Sr. Dr. Juiz de Direito da Comarca, Pres. do IHO, Pedro Ferrer Mendes de Freitas, Pres. da Academia Piauiense de Letras, A. Tito F°, Luiz Carlos Prestes, Médico Wirmar Soares, Genu Aguiar Correia, Chefe do Cerimonial de Karnak e do Pres. da Câmara Municipal de Oeiras, Costa Lima "
Exmo. Senhor
Luiz Carlos Prestes A vossa vinda a Oeiras é motivo de satisfação para a ex-Metrópole do Piauí.
A vossa presença, hoje, na cidade invicta onde o Piauí nasceu ficará registrada nos anais dos acontecimentos marcantes da vida de nossa terra, como um fato histórico, a guardar-se para posteridade.
Já estiveste aqui, Senhor, em permanência mais demorada que a de agora.
Em os idos de 1926, por o mês de julho, quando a Nação se estorcia, gemendo, sob as tenazes de um governo de exceção;
quando o Brasil vivia sob o império de um governante que atravessou o seu período administrativo em contínuo estado de sítio, trazendo arrolhadas as consciências e inquieta a alma dos filhos da terra de Santa Cruz; --
naquela época estiveste aqui à frente da renomeada «Coluna Prestes», e aqui, com outros bravos, vos demorastes por vários dias.
Gonfaloneiro de um nobre, alevantado ideal, desfraldaste, lado de outros insígnes Oficiais do Exército, autênticos valores militares, a Bandeira da Revolução salvadora, e por ela vos aforçurastes, lutastes por ela, com todo o poder de que éreis capaz, com todas as energias, emprestando ao movimento, todo o vigor de vossa mocidade sadia e esperançosa.
A o tempo da juventude, o vosso cérebro crepitava em faíscas admiráveis, no ingente labor por a busca do saber.
De aí a maneira brilhante como cursastes a Escola Militar no Rio de Janeiro, em que aos 22 anos de idade, vos laureastes engenheiro, como o primeiro da turma.
Os ensinamentos bebidos na severa escola dos êmulos de Caixas, vos acrisolaram o ingênito amor por a Pátria, herdado ao vosso genitor, Oficial do Exército, que, segundo se diz, teve ativa participação na queda do regime monárquico.
Sonháveis, então, e sonhais ainda, com um Brasil forte, rico, equânime, pai generoso de todos os seus filhos;
com um Brasil em que não haja nababos apodrecendo de ricos, na expressão popular, tampouco mães famintas, emagrentadas, esqueléticas, mirradas por a fome crônica, de olhos esgazeados, girando espantosos nas órbitas escuras, dando o seio murchos aos filhinhos semi-mortos, como na visão dolorosa de Raquel de Queiroz.
Esse sonho patriótico por um Brasil melhor, por um Brasil bom, por um Brasil isento de injustiças sociais, -- gênese, não há dúvida, das muitas violências que nos afligem;
esse sonho, melhor, esse desejo, vos levou, desde o primeiro 5 de julho, de que, por moléstia, não pudeste tomar parte;
a vos insurgir contra o estado de coisas reinante.
A malfadada carta, dada a lume no dia 9 de novembro de 1921 no «CORREIO DA MANHû, um dos órgãos mais importantes da imprensa carioca;
carta insultuosa aos Oficiais do Exército, vincou fortemente a vossa alma.
Não obstante a negativa do indigitado autor, o exame grafológico da missiva em apreço, lançou dúvidas, não pequenas, no espírito de muitos.
Outros fatos de suma gravidade, somados a distorções que se praticavam amiúde, foram agitando o cenário político brasileiro, aborrecendo o ânimo de apreciável parte da oficialidade, até a eclosão do segundo 5 de julho.
Este em 1924.
Foi o movimento paulista daquele ano.
Servíeis, então, no Rio Grande do Sul.
Mas, olhos voltados para o movimento paulista, vistes, com tristeza, a sua derrocada, e a retirada dos bravos, que sempre lutando, se deslocavam, valentemente, para a Foz do Iguaçu.
Com o vosso idealismo, coragem e prestígio, preparastes, com outros, um levante na terra dos pampas, e, em fins de outubro ou começo de novembro, abrindo caminho à força de recontros sangrentos, fostes vos juntar, com os valorosos companheiros que vos acompanhavam, aos denodados revolucionários paulistas, iniciando-se então, a marcha da célebre Coluna que a história recolheu com o nome de «Coluna Prestes».
O ano de 1925, foi, pode-se dizer, o das grandes marchas e contramarchas, iniciadas por vós no Rio Grande do Sul, e postas em prática na enorme caminhada por todo o Brasil, marchas e contramarchas, mais desenvolvidas em 1926.
Era a guerra de movimento, em que com a vossa estratégia vos tornastes invencível;
a guerra guerreada de que nos fala o Apóstolo de Havia, na extraordinária e erudita disputa travada entre ele e o eminente filólogo Ernesto Carneiro Ribeiro, no começo deste século, quando da questão celebérrima por a redação do Código Civil.
O vosso gênio militar, a tática que puseste em prática e que desnorteava as numerosas forças, que de todos os lados marchavam contra a Coluna;
constituíram páginas que não fora ainda escrita nos anais da história brasileira.
O Brasil inteiro, estarrecido, acompanhava os feitos, quase increditáveis dos valorosos componentes da Coluna.
O General Miguel Costa, os Tenentes Coronéis revolucionários Juarez Távora, Antônio de Siqueira Campos, Osvaldo Cordeiro de Farias, João Alberto Lins e Barros, Djalma Soares Dutra, -- falange admirável -- e outros agoniados da verdade e da justiça, com vós à frente, palmilharam naqueles dias difíceis, indômitos, os caminhos intérminos deste Brasil gigante.
A imprensa oficial infamava, cotidianamente, o nome dos chefes revolucionários.
Atribuindo aos mesmos, por onde passavam, crimes inomináveis.
Era preciso criar na alma do povo, um clima de repúdio, de animadversão ao movimento militar, que se fazia exatamente para dar a esse povo uma posição de relevo no contexto da vida nacional, para fazer esse povo respeitado, para tirá-lo da simples condição de massa;
para dar-lhe vontade, compreensão de que sem o seu concurso consciente, o Brasil não seria jamais a grande nação que desejamos.
A Imprensa blaterava, o povo desavisado acreditava e temia.
Mas, a vossa presença, por onde passáveis com a Coluna, ia desarticulando distorções aleivosas, despertando confiança nas populações, e não raro, conquistando adeptos.
Como Chefe do Estado da célebre Coluna, éreis, por todos admirado, respeitado e estimado.
O vosso tato, a simpleza no tratamento com os oficiais, a sisudez amiga com os inferiores, o senso do justo nas decisões;
criaram em torno da vossa pessoa e do vosso nome, uma aura de verdadeiro carisma.
Não se pode negar, e é possível que um ou outro fato desagradável, haja ocorrido durante a marcha, partido de elementos sem nome e sem compostura.
Maior que fosse a vossa autoridade, e a tínheis realmente indiscutível, não possuíeis o dom supremo da ubiqüidade.
Exmo.
Senhor Luiz Carlos Prestes!
A vossa marcha por o interior do Brasil, foi para vós, como um extraordinário, magnífico e alto compêndio de geografia pátria, por qualquer faceta que se queira apreciar.
Vistes a grandeza potencial do Gigante, que alguém disse adormecido em berço esplendido e que é preciso ser despertado.
Contemplastes os campos ubérrimos, as terras férteis em que se podem praticar todas as culturas vegetais, porque, tudo aqui, já dizia o primeiro cronista brasileiro, «em se plantando dá».
Apercebestes-vos, se bem que à ligeira, da grandiosidade das nossas jazidas minerais, das minas inexploradas, capazes, por si, somente, para tornar a nossa terra, uma das inexploradas, capazes, por si somente, para tornar a nossa terra, uma das mais ricas e opulentas do mundo.
Atravessastes rios majestosos, imensas artérias, a cingir em mádidos abraços, o corpo varonil da terra brasílica, e a correr inaproveitados para o mar, num desperdício enorme, sem nome, da linfa preciosa, como se o oceano ainda precisasse de mais água.
Em as horas silentes das noites límpidas do Nordeste calcinado, quando a Coluna dormitava;
ouvidos e olhos atentos, perscrutáveis os rumores da floresta, e vigiláveis com os astros, sofrendo, matutando, a pensar no futuro da Pátria, a que tanto queríeis, a qual tanto quereis.
O nosso maior sofrimento, porém, nascia e se alimentava da visão que nos oferecia o povo ignaro, em grande parte explorado, levando vida quase infra-humana.
Então, o generoso coração do «Cavaleiro da Esperança», sofria e se irava.
Não era a ira dos maus, era a ira dos bons, de que muitas vezes se vêem atacados os santos e os justos, no pensamento excelso de RUY Barbosa.
Era o repúdio aos que governavam mal;
aos que, em nome de uma democracia canhestra, servia-se do povo apenas como trampolim para galgar posições de mando.
E uma vez alçados a essas posições, era o povo, como sói acontecer ainda, o grande esquecido.
O que ainda se vê, nos dias atuais, segundo a imprensa, são as mordomias, o favoritismo aos grandes, a cessão gratuita de mansões luxuosas aos protegidos, os salários altos a funcionários fantasmas, os ordenados astronômicos aos «marajás», etc..
Tudo isso, já se vê, à custa do povo.
Os vossos dignos companheiros de luta, tinham em vós, o grande condutor.
Tanto que, encerrada a marcha heróica, sustentada quase incrivelmente durante mais de dois anos, e quando se arregimentavam forças idealistas para a arrancada do ano de 1930, era na vossa pessoa que viam todos, civis e militares, o Chefe indicado.
Vós, porém, já não acreditáveis no regime brasileiro.
O que vistes e sofrestes nos anos em que palmilhastes as terras de nossa Pátria, vos levaram a meditar fundamente em outra estrutura política.
Os chefes militares perderam o valoroso Comandante que desejavam.
Houve a cisão inevitável, por todos sinceramente lastimada.
Mas, a alma de todos, apesar das fortes divergências de ideal que levaram a eles e a vós para campos opostos; --
apesar das divergências inconciliáveis, continuastes a merecer o mesmo respeito, o mesmo acatamento, que a vossa inteligência, a vossa cultura, a vossa sinceridade de propósito vos haviam judiciosamente granjeado.
O notável advogado Heráclito Fontoura Sobral Pinto, que sofreu com vós nos dias ominosos da ditadura Vargas, que durante oito anos esteve ao nosso lado, defendendo-vos;
Sobral Pinto divergiu frontalmente de vossa nova orientação.
No entanto, em longa missiva que vos dirigiu em 27 de abril de 1945, confessou publicamente o respeito, a amizade que vos tributava.
O Marechal Juarez Távora, figura inolvidável de militar brasileiro, dissentido também das idéias expendias por vós em manifestos publicado;
escreveu, em repúdio ao referido manifesto, a 31 de maio de 1930, o seguinte:
«Sinto, sinceramente, ter de dizê-lo, pois, há muito, me habituei a admirá-lo, ouvi-lo e acatá-lo, como um verdadeiro guia, por sua experiência, sua cultura, sua ponderação».
Perdoai-me Senhor, essa digressão.
Ela me pareceu necessária, como um ligeiro enfoque, para mostrar ao auditório, a grandeza de vossa personalidade, o valor que todos os que integravam a renomeada Coluna, reconheciam em seu General.
Oeiras, Exmo.
Senhor, nos idos de 1926, vos conheceu, Comandante da Coluna que hoje tem o vosso nome.
Vários dias vos demorastes aqui.
Foram dias tranqüilos para a ex-Metrópole do Estado.
Vossa presença era penhor de segurança para a população da velha terra.
Agora, experimenta a cidade invicta, novamente, a satisfação de vossa presença;
já, não como aquele guerreiro que combatia os desmandos do governo Artur Bernardes.
Mas como o Líder que o Brasil todo admira e conhece.
Como o Líder cujo nome extrapolou as fronteiras nacionais e se espairou por outros povos, deste, e do continente europeu.
A vossa visita, disse, de começo, constitui para nós, acontecimento de relevo.
O Instituto Histórico de Oeiras promoveu esta sessão para homenagear-vos.
E sente-se prazeroso por vos poder saudar por um dos seus fundadores, e o mais velho dos seus membros.
A vossa mística, Senhor, não é de nossa Entidade.
O Instituto Histórico de Oeiras não comunga com vós das idéias que esposais.
Pouco importa.
O arraigado sentimento cívico, o extremado amor à Pátria Brasileira, nos confunde, afinando, sintonizando os nossos desejos, por um Brasil grande, soberanamente justo.
Embora o queiramos por caminhos que não são os mesmos.
Reverenciamos o homem, o patrício ilustre que escreveu uma página heróica como «Chefe da Coluna Prestes», página que estarreceu o mundo, fazendo com que, naquela época, muitas nações tivessem os olhos voltados para nós.
O Instituto Histórico de Oeiras, Exmo.
Sr. Luiz Carlos Prestes, vos dá boas vindas à nossa cidade, e vos saúda, mui respeitosamente.
Saúda, igualmente, com grande e fraternal alegria, a Exma.
e ilustre patrícia, a Professora Anita Leocádia Prestes, cuja presença em nossa urbe, é motivo de exultação para a terra máter do Piauí e de grande prestígio, de extraordinário prestígio para esta sessão solene.
Número de frases: 104
Em o dia 16 de maio de 2008, a data será celebrada pela primeira vez para lembrar a importância do registro e socialização de experiências de vida em todo o mundo
A Rede Internacional de Museus da Pessoa (Brasil, Portugal, Eua e Canadá) e o Center for Digital Storytelling (Eua) anunciam campanha por o Dia Internacional de Histórias de Vida, uma celebração internacional que acontecerá pela primeira vez no próximo dia 16 de maio de 2008.
O objetivo da campanha é mobilizar pessoas e organizações a apoiarem a data visando que ela se torne referência e um marco anual para valorizar, compartilhar, ouvir e coletar as histórias de vida de pessoas.
O site oficial desta iniciativa, www.ausculti.org, fornece mais informações sobre a campanha e permite a troca de informações entre todos os participantes.
«Nossas organizações acreditam que ouvir, coletar e compartilhar histórias de vida são elementos críticos dentro do processo de democratização», afirma Joe Lambert, fundador e diretor do Center for Digital Storytelling.
«Quando começamos a disseminar nosso trabalho por o mundo, entramos em contato com colegas de todas as partes, que tinham diferentes perspectivas e metodologias de trabalho com histórias de vida, mas todos eles compartilhavam o sentimento de que este trabalho é vital nas sociedades contemporâneas."
O próprio nome do site já indica o intuito da iniciativa:
«Ausculti», que significa escutar em Esperanto, antiga língua universal.
«O que estava faltando era uma convocatória coletiva para celebrar todas estas diferentes práticas voltadas à preservação e coleta de histórias de vida», adiciona Karen Worcman, fundadora e diretora do Museu da Pessoa no Brasil.
«Queremos que este dia seja especialmente dedicado à celebração e à promoção de projetos voltados à preservação das memórias e histórias de vida, que tenham provocado mudanças em bairros, comunidades e na sociedade como um todo.
Seja ajudando a coletar uma história local, encorajando jovens a compartilhar suas histórias usando mídias digitais ou fazendo uma exposição sobre histórias de vida.
São diferentes estradas para o mesmo destino», completa Karen.
O Center for Digital Storytelling e o Museu da Pessoa estão convocando pessoas de todo o mundo para que se encontrem em locais públicos, praças, salas de aula, teatros ou até mesmo em ambientes virtuais no dia 16 de maio para compartilhar suas histórias uns com os outros.
Outras organizações também estão convidadas para anunciarem o dia em seus sites e organizarem atividades também por a internet.
Outros exemplos de atividades que podem ser realizadas durante o dia:
* Círculos de histórias em locais públicos, escolas, casas, centros comunitários, ambientes virtuais etc.;
* Espaços abertos para performances diversas de contação de histórias;
* Exposições de histórias de vida em locais públicos utilizando os mais diversos formatos (fotografias, textos, vídeos, áudios, etc.);
* Eventos homenageando contadores de histórias locais, mestres da cultura popular, griôs, além de organizações e projetos de memória e histórias de vida;
* Promoção de eventos diversos abertos ao público que tenham como base o compartilhamento de histórias de vida;
* Reuniões virtuais simultâneas para promoção de trocas de histórias de vida;
* Difusão de histórias de vida e de documentários sobre histórias orais e temas relacionados nos mais diversos meios de comunicação:
jornais, revistas, rádios, televisão etc.
Alguns eventos já estão sendo programados por o mundo, em cidades como São Paulo, Cidade do Cabo, Melbourne, Toronto, Estocolmo, Zelândia, Los Angeles, Washington, Nova York, Cidade do México, entre outras.
Desde outubro, mais de 80 organizações de 21 países já demonstraram seu apoio ao Dia Internacional de Histórias de Vida.
Durante a campanha, o Center for Digital Storytelling e o Museu da Pessoa desenvolverão seções especiais e atividades no site e criarão um espaço para o calendário de eventos do dia.
Todos estão convidados a registrar seu apoio ao dia no site www.ausculti.org ou por o e-mail internacional@museudapessoa.net.
Em o site, há um blog em que é possível compartilhar experiências de trabalho com histórias de vida, projetos em desenvolvimento, estudos de caso, etc.
Mais informações podem ser fornecidas por o e-mail internacional@museudapessoa.net ou por o telefone +55 11 2144-7170, com Ana Nassar, responsável por as Relações Internacionais do Museu da Pessoa no Brasil
Museu da Pessoa O Museu da Pessoa é uma rede internacional de histórias de vida localizada no Brasil, Canadá, Portugal e Eua.
Sua missão é contribuir para que a história de vida de cada pessoa seja valorizada por a sociedade.
Museu da Pessoa Brasil -- www.museudapessoa.net
Musée de la Personne -- www.museedelapersonne.ca
Museu da Pessoa Portugal -- www.
museu-da-pessoa. net /
Museum of the Person Usa -- http://www.bloomington.in.us/~mop-i/
Center for Digital Storytelling
O Center for Digital Storytelling é uma organização que trabalha auxiliando pessoas a contarem histórias significativas de suas vidas usando mídias digitais.
Com sede em Berkeley, na Califórnia, desenvolve projetos e realiza pesquisas em comunidades, escolas e empresas, utilizando a metodologia e os princípios do Workshop de Histórias Digitais -- Digital Storytelling.
Número de frases: 39
www.storycenter.org
Priscila Basile e Fernando Ferraz
Uma quinta-feira.
9 e meia da noite.
Antes de entrar, luvas, máscara, proteção para os pés e avental.
Todos devidamente trajados, os espectadores tornam-se médicos observadores, prontos para presenciar os últimos 50 minutos da vida de um homem e suas reflexões a respeito do que foi ou poderia ter sido.
Para entender Os Satyros é preciso vivenciá-lo.
Essa é a frase que sintetiza não só a experiência com Cosmogonia, mas também as outras peças as quais estes repórteres presenciaram.
Os Imorais
Os Satyros nasceu num cenário político e cultural bastante conturbado.
Era pós-ditadura, época de Fernando Collor e seus marajás.
Além disso, predominavam na cena teatral diretores como Gerald Thomas e Antunes Filho.
Ivam Cabral, um dos fundadores do grupo, conta que o teatro na década de 80 era muito formal e colocava o ator como um mero objeto de encenação.
«O texto não existia.
O ator entrava com uma música, com uma fumaça e, tremendo, repetia uma frase durante uns 15 minutos " -- satiriza Cabral.
Isso justifica a grande polêmica que a primeira peça do grupo, Sades ou Noites com os Professores Imorais causou tanto nos espectadores quanto na crítica.
«Nós nos distanciamos dos dois [Antunes e Thomas] e fizemos um espetáculo pornográfico e violento» -- relata Rodolfo Garcia Vasquez, fundador e diretor teatral d' Os Satyros.
Exílio Voluntário
Insatisfeitos com esse quadro, o grupo organizou intervenções culturais estratégicas como forma de reação.
Foi daí que surgiu a idéia de criar As Satyrianas, evento que abrigava diversas atividades como o teatro, a literatura, a música e o cinema e que durava 78 horas ininterruptas.
Em 92 o grupo foi convidado para participar de festivais na Europa e aproveitou a viagem para se instalar sua primeira sede em Portugal, remontando a peça que marcou sua estréia no Brasil.
Segundo Cabral, Os Satyros decidiram fazer um exílio voluntário porque achavam que não conseguiriam trabalhar por aqui, já que havia uma percepção preconceituosa a respeito de eles.
«Foi difícil para as pessoas perceberem que a gente não era drogado e nem fazia bacanal no palco.
Estávamos tentando responder com o nosso trabalho ao que o país vivia.
Era nosso grito de liberdade».
Após viajar por vários países da Europa e fundar Os Satyros em Curitiba, o grupo começou também a trabalhar em Berlim.
Ivam conta que a crítica, mesmo da classe teatral, achava que o sucesso internacional da companhia era mentiroso.
«Aos poucos as coisas foram se acertando.
A internet facilitou muito " -- conclui.
Voltaram definitivamente ao Brasil em 99, mas só se reinstalaram em São Paulo no final do ano seguinte na Praça Roosevelt.
Nós da Praça
Em o começo, o encontro do grupo com os moradores da praça, entre eles traficantes, travestis e mendigos, foi atribulado.
Ivam E Rodolfo relatam que quando chegaram, tiveram que negociar com os habitantes.
Contam que em frente ao Satyros havia um bueiro que levantava a tampa e que os traficantes guardavam pacotes ali.
«Em o começo a gente não entendia muito bem o que era essa transmissão de pacotes e eles nos ameaçavam.
Enquanto isso, a gente ia conversando com eles dizendo que precisávamos trabalhar e eles insistiam que precisavam do buraco».
Foi então que decidiram dar uma volta por as redondezas para achar um outro buraco.
Encontraram." Não adianta você chegar num lugar e expulsar.
Você tem que inserir essas pessoas.
Até porque eu acho que esse teatro que fala de favela e tal, de uma maneira distante, é uma coisa muito burguesa " -- completa.
Um trecho de um dos espetáculos do grupo ilustra a relação que Os Satyros passaria a estabelecer com o lugar onde está localizado:
«Roosevelt fez o que, exatamente?
E por que essa praça de merda tem esse nome?
O que esse Franklin tem a ver com a gente?
Onde está a nossa história e onde eu apareço?».
Rodolfo afirma que a inserção na praça foi tão natural que tudo à volta de eles os tocava, sentindo assim a obrigação de mostrar o outro lado da vida social, o que não aparece nas novelas.
Ainda a esse respeito, Cléo de Páris, atriz do grupo, diz que é inevitável falar do que está ao seu lado, pulsando junto ao grupo e fazendo parte de sua vida.
«A denúncia social é papel da arte porque é tudo muito velado.
Não podemos ficar em silêncio compactuando com a hipocrisia».
Terra De Ninguém
Dea Loher, dramaturga alemã, levaria um tempo para perceber que o que procurava no Brasil era a Praça Roosevelt.
Sua vinda ao país objetivava escrever o texto de uma peça para o Thalia Theater, de Hamburgo, Alemanha, cujo conteúdo deveria remeter ao título Terra de Ninguém.
Para tanto, Dea chegou em São Paulo e pesquisou os presídios e favelas a fim de conhecer as mazelas que marcam o país.
Em este meio tempo, a dramaturga conheceu Os Satyros, mas sua pesquisa ainda nada tinha a ver com a praça.
Foi depois do roubo de seu laptop, contendo todas as informações para sua pesquisa, que se aproximou mais do grupo e, conseqüentemente, da vida na praça.
Meses depois o grupo paulistano teria a notícia que o Thalia montaria A Vida na Praça Roosevelt.
A peça relata a existência de personagens com suas diversas histórias e dramas.
Embora ambientado no Brasil, o seu compreendimento ultrapassa barreiras geográficas.
Como disse Rodolfo, Dea soube descobrir nessas personagens a universalidade dos sentimentos como a solidão da cidade grande, o medo e a insegurança.
E Cléo completa:
«A Dea escreveu sobre pessoas reais, falíveis e intensas e elas estão em todo lugar, não só na praça Roosevelt.
Uma pessoa que sente dor aqui é igual a outra que sente dor no Japão;
isso é lindo no texto de ela.
Entre essas personagens está Aurora, interpretada por Alberto Guzik e inspirada em Phedra D. Córdoba, uma travesti cubana de 67 anos.
Ela conta que ingressou n ' Os Satyros logo quando voltou da Europa e sua história serviu de inspiração para a composição de uma entre as diversas personagens que compõe o texto de Dea.
«Fiquei muito lisonjeada de ver uma personagem tão bonita como a Aurora de Córdoba.
Todo mundo que vê a peça percebe que eu sou mesma " diz Phedra.
Indagado sobre o porquê das pessoas contemplarem personagens como esses no palco e os desprezarem nas ruas, Rodolfo conclui:
o palco lhes dá a palavra e, portanto, a dignidade.
Coisa que na vida real eles nunca poderiam ter.
Número de frases: 70
Continuação da transcrição de trechos do diário de bordo da 2ª Expedição Guaicuru ao Sudoeste de MS (por Marcos Paulo Carlito)
Aldeia São João Em a aldeia São João, acompanhados de nosso simpático guia, (Ambrósio) fomos recepcionados por os principais, que viviam no núcleo formado por meia dúzia de casas e uma escola de instalação bastante precária, a saber, um coberto de palha sem paredes.
Após as apresentações fomos convidados a sentar à sombra de uma árvore, onde o professor João Moreira nos contou com toda a serenidade típica de um nativo o que transcrevemos abaixo:
Nome:
«João Moreira Anastácio».
Filiação:
«Guilhermano Anastácio e Ordalha Moreira Anastácio».
Local de nascimento:
«Nasci aqui na aldeia São João em 28 de março de 1963».
Nome nativo:
«Eu não tenho».
Origem étnica:
«Kinikinawa».
Atividade na aldeia:
«Eu me preparei pra ser técnico agrícola, mas saiu esta oportunidade de dar aula, e como eu já tenho o 2º grau completo, estou exercendo a função de professor.
E teve uma lei que saiu e exigiu que toda a área indígena deve ter um professor que seja índio».
Os Kinikinawa não foram considerados extintos?
«Sim, já foi considerados extintos, só a Funai reconhece e nós estamos tentando voltar».
Quantos remanescentes existem na região?
«Em torno de umas 80 pessoas pura, misturada já tem umas 232 pessoas, mais ou menos».
Quais as outras etnias existentes nesta aldeia?
«Aqui divide entre Terena e Kinikinawa.
Tem também umas três famílias Kadiwéu».
Onde os Kadiwéus predominam?
«A aldeia Kadiwéu mesmo é Bodoquena.
Tem a Tomásia e Barro Preto também, só que já mistura Kadiwéu e Terena.
Aqui na São João tem um pouquinho de Kadiwéu, um pouco de Terena e mais Kinikinawa».
E como é a relação entre estas três etnias?
«Acho que os Terena e os Kinikinawa vêm de um tronco só, eles se entendem bem, tem quase os mesmos costumes o mesmo modo de viver.
Agora os Kadiwéu já há muito tempo atrás são considerado guerreiros, então já é mais agressivo e a gente não combina bem».
Os Terena e os Kinikinawa têm a mesma origem étnica, a mesma ancestralidade?
«É a mesma».
Os livros dizem que os Terena são de origem Aruwak, confirma isso?
«Sei que os Kinikinawa é Aruwak».
Quantos jovens freqüentam a escola aqui na aldeia?
«De 1ª a 5ª nós temos quase 80 crianças».
Qual é a atividade predominante na aldeia?
«Lavoura e pecuária.
Tem famílias que criam gado e vivem da roça.
O que produz mais é arroz e milho.
Feijão já é mais complicado.
Plantamos mandioca também».
Quais as frutas que predominam aqui?
«Laranja, poncã e manga».
E as frutas nativas?
«Tem muitas:
guavira, jatobá, só que a maioria tem época, agora mesmo é tempo da goiaba, perde muita goiaba aqui».
Quantos professores têm na escola?
«Dois indígenas e uma não indígena que é da 5ª série.
O outro professor indígena é o Inácio Roberto, e ela se chama Rosana».
Como é a produção de artesanato na aldeia e qual o artesanato característico Kinikinawa?
«O artesanato é mais por família, tem família que dedica mais e tem outras que sabe mas não procura aprender mais.
O artesanato mais Kinikinawa é o do pote e alguns utensílios de uso como vasos.
A pintura quase já desapareceu, então eles estão tentado resgatar uma da própria etnia».
Vocês têm costume cultural das tatuagens e pintura corporal?
«Não.
As cerimônias também estamos tentando criar uma, porque dos Kinikinawa a gente nem sabe como que era, as pessoas mais antiga, os velhos mesmo, não existem mais, os que tem por aí já foram criados depois que os Kinikinawa separou».
Qual é o lugar de origem dos Kinikinawa?
«Eles fala que é entre Miranda e Aquidauana, um lugar chamado ' Paxixe '. '
Akaxi ' também eles falam.
E foi constatado por os estudos antropólogos que fizeram que tem 400 e poucos mil hectares de terra que eram onde viviam os Kinikinawa.
Eles acharam o cemitério da tribo, só que os Terena é que estão tentando ocupar as terras lá».
Qual é o nome do cacique e do vice-cacique desta aldeia?
«Manoel Roberto é o capitão e o vice-capit ão é o Pedro Lima».
Como você vê, no início do século XXI, sua etnia tentando se reorganizar?
«Pra nós vai ser muito difícil porque não tem uma pessoa ou alguma coisa do passado da gente que guarde nossa história.
A gente não sabe mais as tatuagens, as pinturas, as cerâmicas, como que eles se preparavam quando eles eram nômades, não tem mais cerimônia nem ritual.
A etnia já foi considerada extinta e a maioria foi massacrada, é bem difícil mas a gente vai tentar, mesmo que seja de outra forma mas nós temos que criar uma da gente mesmo.
A gente comemora o Dia do Índio».
Mas o Dia do Índio é uma invenção do homem branco.
«A data é inventada por o branco, mas a forma da gente festejar a gente tá tentando colocar do nosso modo».
Qual a sua mensagem para a juventude " Kinikinawa?
«Minha mensagem, como todos os que se considera índio, porque muitos da sociedade branca acham que o índio não é capaz de realizar muitos sonhos que os brancos tem de prosseguir na vida, e muitos se sentem desprezados por causa disso.
A gente percebe que muitas crianças na escola não querem ser índios porque na cidade eles falam que índio é burro, é preguiçoso, então através disto os jovens, principalmente os que não falam a língua Kinikinawa, não querem mais aprender.
Mas a gente, se você parar pra pensar, o valor que você tem é maior do que o que as pessoas falam, eles falam isso porque não querem ver o índio se desenvolver como os brancos se desenvolvem.
Se lutar você vence, pois o valor de um ser humano é igual em toda raça».
Você já ouviu falar de " Marçal Tupãy de Souza?
«Já, inclusive tem até matéria a respeito de ele por aí.
Eu que tenho andado em várias aldeias vejo que Marçal de Souza foi um grande líder da etnia de ele que lutava pelo direito da sua tribo, então onde ele foi sendo perseguido e os fazendeiros não gostaram porque ele denunciava as coisas erradas que a sua própria comunidade fazia, como aqui também na área Kadiwéu existe gente fazendo coisas que não é pra ser feita, negócio de madeira, roubo de gado e outras coisas ruins;
então Marçal de Souza via que isto não era bom pra sua comunidade e ele corria atrás e lutava, então morreu vitorioso porque morreu lutando por o bem de seu próprio povo».
Em a oportunidade gravamos também uma entrevista com a professora de 5ª série da aldeia São João:
Nome:
«Rosana Gabriel».
Filiação:
«José Gabriel Filho e Cleide dos Santos Gabriel».
Local de nascimento:
«São Bernardo do Campo / SP, em 1971.
Em a aldeia São João desde fevereiro de 2002».
Atividade na aldeia:
«Professora de 5ª e 6ª série.
Leciono todas as matérias menos língua indígena».
Qual o nível de aproveitamento dos jovens da aldeia em relação ao aprendizado?
«Está em fase de adaptação ainda, é uma nova realidade pra eles, são várias disciplinas, várias matérias e atividades a serem desenvolvidas».
As crianças dominam o português?
«Dominam, todas elas falam muito mais a língua portuguesa do que a língua indígena, mesmo porque a língua indígena só foi implantada na escola de algum tempo pra cá.
O trabalho que o professor Giovani José da Silva estava desenvolvendo lá na aldeia Bodoquena se estendeu para outras aldeias e agora também temos o objetivo de resgatar a identidade do povo».
O sistema de ensino é ligado a qual " Município?
Porto Murtinho».
Quais as etnias dominantes aqui na aldeia " São João?
«A predominante é Kinikinawa, mas existem Terena e Kadiwéu.
Se não me engano uma ou duas famílias Kadiwéu».
Como é a relação entre as três etnias, conflitante ou harmoniosa?
«De o tempo em que estou aqui não percebi conflito nenhum».
Como a senhora vê esta tentativa de reestruturação da tribo " Kinikinawa?
«Em a realidade acho que isso já passou da época, eles há muito tempo já tem esta vontade de serem reconhecidos como povo, acho que o que falta é os órgãos públicos, prefeitura e o Estado, apoiarem mais este povo, porque aqui é geograficamente complicado para o pessoal do Município estar acompanhando a aldeia.
Este povo está abandonado».
Qual o fator mais limitante nas relações entre a municipalidade e as aldeias da reserva?
«Aqui nós não temos apoio de nada praticamente.
As coisas que são mantidas nas outras aldeias aqui também tem.
Em termos de estrada não há ligação com Porto Murtinho, muitos nem sabem que a aldeia pertence a Porto Murtinho, pensam que pertence a Bonito.
A FUNASA dá um pouco de assistência, o pessoal vem entregar cesta básica, tem a merenda e as coisas relacionadas à escola, mas no geral precisaria ter pessoas acompanhando o dia-a-dia da aldeia, não sei se seria o caso da criação de uma regional para acompanhamento não só da São João mas também da Tomásia e Barro Preto.
Em estes três meses que estamos aqui percebemos que este povo fica abandonado, acho que deveriam acompanhar mais de perto as necessidades das aldeias».
Qual a sua mensagem para os estudantes da aldeia?
«Que não parem por aqui, pois o ginásio e o ensino médio são apenas o começo.
A gente nunca pode se limitar a ficar só no que se oferece, a gente tem que buscar mais».
Encerrada a entrevista com a professora Rosana, manifestamos aos principais o desejo de conhecer o capitão Manoel Roberto, no que fomos prontamente atendidos.
Novamente em companhia de nosso guia, que se mantinha sempre por perto, cortamos de carro cerca de 1 ou 2 quilômetros por o cerrado até chegar à casa do líder, onde fomos recebidos com a mesma simpatia manifestada desde o primeiro contato com os Kinikinawa.
Apresentados por Ambrósio, fomos convidados a sentar num banco de madeira à frente daquela simples mas bem cuidada choupana erguida em madeira, coberta de palha e algumas telhas de amianto, com chão de cimento num canto e terra no outro.
Ali morava a família do capitão Manoel Roberto.
O começo do diálogo foi um pouco desconcertante porque a família do cacique não queria a gravação da conversa, nem anotações em papel, fato que comprometeu o apanho de informações importantes como nome, idade e procedência dos membros.
Enquanto Ambrósio nos ajudava conversando alguma coisa, observavamos aquelas pessoas:
além do capitão Manoel, havia dois anciões, uma anciã, duas meninas e um menino.
Número de frases: 122
(continua na próxima e última parte)
Cena 1
Madrugada de um fim da década de 80 do século passado, quando a insônia batia e era possível andar por a cidade plana sem medo, só buscando o sono.
Ruas e vielas arborizadas.
Silêncio, trânsito quase nenhum.
Acordes ao longe.
Estaco.
Lembro da terra natal, e o saudoso festival de Ribeirão Preto.
O compasso, o ritmo, não pode ser, mas é.
A isso chamam blues.
Em plena Campo Grande de polcas e guarânias uma guitarra chora ao som da voz rouca.
Atento para o rumo e persigo.
Um sobrado, parece um bar:
Adrenalina, em plena Fernando Corrêa da Costa que naquele tempo tinha outro nome ...
Entro e sidero.
Encostado num canto do palco, um ser magro, alto, canta:
Baby, please don't go ...
Guitarra e baixo dão o tom, a bateria acompanha.
Era Blues Band na área, em sua formação inicial.
Renato Fernandes é o elemento da voz e das letras.
Fábio Brum, um prodígio da guitarra.
Mário Pezão na batera e o baixo quem era mesmo?
Recorro à memória aditivada de Marcos Yalouz (Bando do Velho Jack) que também tocou na Blues Band.
O baixista naquela época era o Alfredo ...
Fiz amizade com o povo que circundava a banda.
Dancei e bebi até o dia clarear.
Voltei para a casa e Campo Grande ficou mais encantadora para os meus olhos.
Cena 2
Tieta's Bar, reduto arco-íris de todo tipo de gente.
Entro com meu visual riponga só pra comprar um cigarro e ta lá o som.
Desta vez tem Alex Sodré junto e as vozes fazem blues e rock ' n roll da melhor qualidade para o público mais eclético que já vi num espaço tão pequeno.
Depois foram tantos bares e lugares que se pode contar a história dos places underground de Campão a partir das apresentações da Blues Band:
Bar Artes, Sucão, Chácara Bar, Farol, Buteko, Stones, Fly ...
Em uma ou outra noite você saia e topava com as criaturas daquela banda.
Marcos Yalouz era o mais tranqüilo e menos etílico, o restante bebia até a última e ainda pedia mais uma dose.
Diversos músicos passaram por a formação da Banda.
O coração sempre se manteve batendo forte:
Renato Fernandes, bebendo, vivendo, compondo e cantando ao som da guitarra de Fábio Brum até bem recentemente.
Outra memória surge do baú.
Cena 3
Farol bar, com mesas e garçons, palco, luz e espaço.
Minha primeira hand cam na mão, muitas doses duplas na corrente sanguínea, gravo o primeiro vídeo clipe da Blues Band, que nessa época já tinha até uma flâmula lindona feita por as mãos talentosas da artista plástica Cirlene Brum, não por acaso mãe e fã número 1 do guitarrista.
Já era Edney na bateria e Yalouz no baixo.
Em a hora de editar o material, constato aflita, nenhuma imagem fixa.
A lente girava, dançava, rodopiava ao som da banda e acho que só Dona Cirlene pode ainda ter a fita que presenteei à banda.
Tempos idos.
Cena 4
Formada por ex-membros da «Blues Band» -- considerada a primeira banda de blues do MS -- a banda «Bêbados Habilidosos» tem como ponto comum a paixão por o ritmo nascido às margens do Mississippi:
O Blues.
Amigos que tocam juntos há mais de uma década, o negócio de eles é realmente a boemia retratada por as composições da banda, todas calcadas no ritmo e suas vertentes mais próximas, do soul ao rock ´ n roll clássico.
Seu repertório é formado 90 % de composições próprias e os 10 % restantes se completam por clássicos do gênero.
De B.B..
King a James Brown, claro que nunca deixando de lado o improviso, tão característico do blues.
Tendo o bar como maior referência, «os Bêbados» como são sempre chamados, não se sabe bem porquê -- já tocaram em diversos lugares da cidade nesses dez anos.
De o Aero Rancho à Penitenciária.
Sempre tendo a diversão -- e alguma boa grana, claro -- como objetivo maior.
Havendo 10 pessoas ou 1.000 na platéia, não faz muita diferença.
A paixão por o que fazem é o que conta.
Cena 5
Formações ...
Primeiro foi Blues Band
voz e letras
Renato Fernandes guitarra e música
Fábio Brum baixo
Alfredo -- Franja -- Marcos Yalouz -- Marcelo
bateria Mário Pezão -- Luiz Marcelo -- Bosco -- Linconl (Grupo Acaba) -- Ediney
Depois Bêbados Habilidosos, dois CDs (Envelhecido 12 Anos e A o Vivo)
e a formação atual:
voz e letras
Renato Fernandes = Além de vocalista e compositor da banda, Renato também é considerado a alma dos «Bêbados».
Um dos precursores do Blues na cidade, Renato é músico na noite campo-grandense há mais de 15 anos.
Desde os tempos do velho «Jota Jota» na Av..
Afonso Pena ... Não é a toa que brincam com ele, chamando-o vovô da banda.
Depois de tantos anos de trabalho ele acredita que os «Bêbados» podem mostrar a qualidade que possuem em outros mercados, especialmente agora que conseguiram atingir um nível que ele considera muito bom.
Enquanto ainda não dá para ganhar muito dinheiro, Renato procura ao menos se divertir na noite.
É um prazer poder fazer o que gosta e quando não está no palco pode ser visto tirando sarro dos outros em companhia dos amigos.
Pode parecer um pouco estranho às vezes, mas só para quem não o conhece.
Último detalhe:
apesar da fama, ele não é carioca.
Mesmo tendo passado quase toda sua infância no Rio, Renato nasceu em Teresina, no Piauí.
guitarra
Rodrigo é o fera que assumiu o posto quando Fábio Brum voou para a Sampa e lá se instalou com a banda Descambo.
O menino faz bonito e sua história com os Bêbados está só começando
baixo Marcelo Rezende
O baixista da banda é músico " de berço ":
seu pai foi guitarrista de uma das primeiras bandas de Rock de Campo Grande;
o avô tocava modas de viola;
seu bisavô era construtor de violas e violões.
A paixão por a música explodiu de vez em sua alma quando aos 8 anos ganhou o seu primeiro vinil:
um compacto duplo de Elvis Presley.
Em essa época Marcelo ainda não tinha idéia de todo o impacto que isso havia lhe causado.
A os 12 anos pediu para sua avó um violão, mas não foi desta vez.
Ela achava que o neto se tornaria um «vagabundo como seu pai».
Mas aos 14 anos, após conseguir seu primeiro emprego, comprou o desejado instrumento e aprendeu a tocar sozinho.
Mais tarde passou a tocar guitarra, atuando em algumas bandas de garagem.
Em uma dessas bandas, após substituir um baixista, ele acabou descobrindo seu verdadeiro talento.
De aí até chegar aos «Bêbados» muita coisa aconteceu.
Marcelo recebeu convites para fazer parte da «Blues Band», mas na época ainda não confiava no seu potencial, preferindo ficar em casa ouvindo seus discos antigos e aprendendo mais.
Suas influências são o rockabilly de Eddie Cochran, Gene Vincent e principalmente a banda Stray Cats.
Além, é claro, de Elvis Presley e dos clássicos do Blues.
O que Marcelo espera hoje com relação ao trabalho dos «Bêbados» é o que todos esperam:
que a banda continue tendo o destaque que merece no cenário do Blues, inclusive nacionalmente, e que com isso eles possam viver fazendo o que mais gostam.
bateria
Erik Tatton, filho de Miguel, esse menino tem a música em toda sua história e sua bagagem dá o ritmo na cozinha da banda.
Atua em diversos projetos musicais, um de eles a proposta com pai e irmãos, tocando Beatles.
sax
Nelson Weiss, o detalhe que faltava.
Cena 6
Aquela cidade por onde perambulava a notívaga guria sozinha não existe mais.
Hoje permanece a mesma intensa produção artística que cativou desde o primeiro dia.
Em a música, espacialmente.
De o trash ao regional, passando por a polca rock e afins, ebulindo ao som de cada nova composição.
Quer mais?
Aí vão links com músicas, fotos e mais sobre o bom e velho blues na capital do Matão do Sul
www.bebadoshabilidosos.com.br www.bebadoshabilidosos.hpg.ig.com.br
www.velhojack.com.br Apêndice
fotos e textos das cenas 4 e 5 = home page Bêbados Habilidosos
Número de frases: 117
consulta minemônica = Marcos Yalouz
Quem Tem Boca, que SE Cuide!
(Autor: Antonio Brás Constante)
A frase:
«quem diz o que quer, ouve o que não quer», é uma mensagem que serve para nos alertar sobre os riscos advindos daquilo que falamos.
Para se ter uma idéia mais clara sobre a força da palavra, vale lembrar que dependendo de onde a pessoa está, com quem está, e o seu papel num determinado evento, a pronúncia de um simples «sim» pode mudar toda sua vida.
Claro que logo após dizer «sim» ela assina uns papéis na frente de algumas testemunhas, muitos convidados e um padre.
Mas, o que acaba valendo para todos ali presentes é a tal palavrinha dita.
Quantas brigas de trânsito começam com meras palavras de desagravo, passando aos palavrões até que seus interlocutores resolvam utilizar uma linguagem mais corporal, expressada através de socos e pontapés, tentando fazer valer os seus pontos de vista.
O homem sabe do risco de falar sobre coisas que não devem ser ditas.
Por exemplo, nunca mencionar que sua companheira parece ter engordado alguns quilinhos e por esse motivo o vestido não quer entrar em seu corpinho mais roliço.
Ou dizer que a bela jovem que está passando na frente de vocês é realmente bela.
Ou ainda que a comida feita por sua esposa, especialmente para você, ficou muito salgada.
Falar de coisas assim é querer iniciar uma guerra conjugal.
A citação utilizada por o papa na Alemanha é outro bom exemplo que se enquadra no assunto deste texto.
Porém, não devemos imaginar que ele, com toda sua benevolência, iria querer ofender intencionalmente o mundo islâmico.
Talvez, por ser quase um leigo em assuntos religiosos, apenas desconhecesse o impacto fulminante que tal pronunciamento causaria.
Bento XVI, em sua ânsia de unir cada vez mais os povos deste imenso globo azul, utilizou-se de uma «sutil» citação antiga, que provavelmente era empregada sem maiores problemas nos tempos da idade média.
Seu único propósito era condenar os que fazem uso da violência para disseminar a fé.
Mas afinal, quem de nós nunca pensou em fazer algo assim?
Pronunciar uma frase polêmica, dita pela primeira vez nos tempos em que se queimavam bruxas, divulgando-a através de um discurso planejado, e em cadeia mundial para que todos pudessem ouvi-la.
Tocando o dedo na ferida de uma nação de seguidores religiosos, que adora provocar feridas em quem contesta suas crenças.
Jamais iria passar por a cabeça do papa, que aquele povo tão amável que persegue chargistas por causa de alguns «desenhos profanos» de seu profeta, se enfureceria com meras e pejorativas palavras sobre Maomé, utilizadas possivelmente com o intuito de se buscar uma maior reflexão em torno da paz.
Por muito menos que isto, extremistas em povos religiosos como os mulçumanos já demonstraram que são capazes de cometer as piores atrocidades para defender os seus princípios sagrados.
Agora, eles dispõem de mais um bom pretexto para saírem matando ainda mais «infiéis» em nome da sua fé.
A diferença é que desta vez os alvos serão todos aqueles que ostentarem algum crucifixo junto de si.
O resultado das palavras do sumo pontífice já ecoa por o planeta, onde a resposta dada para suas declarações veio em forma de violência e sofrimento, como seria de se esperar.
Faltando apenas uma razão plausível, que explique tal atitude do papa.
Enfim, falar é muito mais do que apenas se expressar por a voz, é uma arma que se engatilha com a língua.
Utilizando meros jogos de palavras, para tocar as pessoas através do balsamo da sabedoria ou da mais completa estupidez.
Sites:
www.abrasc.pop.com.br e www.recantodasletras.com.br/autores/abrasc)
Atenção: Divulgue este texto para seus amigos. (
Caso não tenha gostado do texto, divulgue-o então para seus inimigos).
Número de frases: 34
Dizem que a primeira impressão é a que fica.
Desta vez não foi bem assim ...
Já passara da hora do almoço e eu ainda estava imerso nos tacs tacs dos teclados da redação da assessoria em que trabalho, quando o telefone tocou.
Era Guerra, o porteiro do gabinete da Prefeitura.
Com sua voz de cristão arrependido, me disse que havia deixado dois «irmãos» descerem para falar com mim.
Olhei o relógio do celular, respirei fundo e disse que tudo bem:
-- Ok, já que tá dentro ...
Saí da minha mesa cinza como as nuvens que cobriam aquela manhã de quinta-feira e abri a porta da sala para os dois irmãos.
Surpresa! Em vez de me deparar com aqueles tradicionais irmãos, com roupas de velório e bíblias em mãos, me bati com duas pessoas que me passaram à mente serem jornaleiros do A Tarde, com seus coletes e calças azuis e jornais que largam tinta debaixo das axilas da fardinha.
-- Bom dia irmão!
Agora sim ele se fez parecer com um «irmão» de verdade.
-- Meu nome é Romário e este é Gilberto (não me lembro se era este o nome do colega de Romário).
Nós somos do jornal Aurora da Rua.
Esta frase já me fez pensar uma coisa bastante ruim:
a mistura de um «irmão» com vendedor à lá telemarketing bem na minha hora do almoço.
Porém, o nome e a imagem do jornal, bem colorido e que me fez lembrar o caderno A Tardinha, me chamaram muito a atenção.
Resolvi dar trela a eles.
-- Este jornal é todo feito por nós, ex-moradores de rua de Salvador.
Aqui a gente conta nossa história, nossas vidas.
Moramos numa igreja perto da Feira de São Joaquim e, o bom de dormirmos lá é que não ficamos mais expostos aos riscos da noite nas ruas.
Enquanto Romário, que até se parece com o dos mil gols, baixinho e com carinha de marrento falava, eu pensava na disciplina da Pós-gradua ção e no texto que a história deste cara dava para publicar no Overmundo.
-- Custa um real.
Voltei a cair na real.
-- Tá, e o dinheiro vai para quem?
Perguntei.
Romário, que não tinha a língua presa e não sabia muito bem o português, começou a me explicar que a verba era dividida da seguinte forma:
-- Setenta e cinco centavos fica «pra» mim e o resto, vinte e cinco né, é «pra» pagar o papel.
Olhei para Romário novamente, com sua fardinha de jornaleiro azul, parecendo um smurf, e percebi que só os 25 não davam para tanto.
-- Certo, mas têm outras pessoas que ajudam vocês?
-- Tem sim senhor.
Tem uma jornalista que olha as matérias, outra que monta, mas tudo é a gente que faz.
A igreja também ajuda.
Romário era morador de rua de Lauro de Freitas, cidade da Região Metropolitana de Salvador.
Ele guardava carros e morava na praça por onde passo todos os dias para ir trabalhar e ouvir os benditos tacs tacs dos teclados que as fabricantes dizem ser silenciosos.
Nunca o havia percebido, assim como os ex-colegas de ele, com seus colchões de papelão e bombinhas de cachaça, que ainda habitam a Praça da Igreja Matriz.
Agora «irmão», ele diz estar liberto não só dos perigos das madrugadas ao léu, mas também das drogas.
Quando dei por mim, estava arrepiado e percebi como o jornalismo, a escrita, a publicação e o ato de se ver em boa forma num jornal havia mudado a vida de ele.
Voltei a pensar como um calouro de faculdade que se acha capaz de mudar o mundo com seus textos jornalísticos, não sabendo ele o que o mercado o reserva.
Botei as mãos no bolso e só achei um real.
Só tenho para um, mas gostei muito do jornal.
Amanhã você pode trazer mais um deste número e dois da edição anterior?
-- Posso sim senhor.
Não imaginei que ele voltaria.
Em o dia seguinte, novamente na hora do almoço daquela manhã cinzenta como a minha mesa, o telefone tocou.
Era Guerra, agora com uma voz mais contente, anunciando o retorno do irmão:
Marvin?
Oi, é o mesmo irmão de ontem, ele quer falar com você.
-- Ah, Romário?!
Tá, deixa ele descer.
Romário desta vez chegou mais alegre e me entregou os jornais como lhe pedi.
Paguei o que devia e fiquei com uma sensação de vazio, como a de quem vê um pedaço de costela mas só pode comer uma folha de alface no almoço.
-- E como eu posso ajudar mais este projeto de vocês?
Tomei um susto com a minha própria pergunta.
Romário respondeu com um ar de alegria:
-- Pode mandar um e-mail com sugestão, opinião.
Aí no jornal tem nossos contatos, nosso site.
O peitoral de Romário, ao terminar a frase, se encheu de ar, como quem conseguiu completar uma prova para a qual havia treinado muito.
Seus olhos brilhavam.
Romário saiu de lá com a certeza que conquistara mais um para colaborar com o projeto que mudou a sua vida, a mesma cara que deve fazer um cristão pregador após uma visita bem sucedida à uma casa qualquer numa manhã de domingo.
Romário S. de Oliveira, o jornaleiro cidadão, tem 37 anos, e agora ele volta todos os dias às ruas que desde os sete anos lhe serviram de morada, mas, agora, seus passos com as havaianas verdes e o sorriso miúdo no rosto trazem um brilho que, com toda certeza, inspirou no nome do jornal:
Aurora da Rua.
Número de frases: 61
De bares em bares longos luares
Noites inúteis, dias inertes
A vida é um confete no momento em que cai
Ou um cotovelo parado na solidão do balcão (
Cantarolando ou bombardeando o Suriname)
Decidindo, determinando e julgando
Assuntos bêbados, conclusões perfeitas
Canta, lamenta, desabafa e exibe seu poder de compra
Ostenta tua imagem agora embaçada aos olhos de outros bêbados
Refugio dos sem futuro, ponto de desencantos, sexo e drogas
Número de frases: 10
Calo da sociedade, retiro dos vagabundos assalariados.
Mariano Neto é o sucessor.
Se não fosse ele, a peça de artesanato mais importante de Mato Grosso do Sul teria acabado.
Mariano é neto de Conceição Freitas da Silva, criadora dos bugrinhos no final dos anos 60.
Em 1987, quando faleceu, a avó de Mariano já era conhecida como Conceição dos Bugres.
A escultura nasceu numa cepa de mandioca.
Assim como a avó, Mariano vende principalmente para turistas, o que fez com que o bugrinho se espalhasse por a Europa, Estados Unidos e Japão.
Encontrar um original de Conceição para adquirir é coisa rara, apesar de ela ter produzido milhares.
Em o ateliê do artesão, localizado num bairro popular de Campo Grande, entre os quase 50 bugres de diversos tamanhos fabricados por Mariano, havia um de Conceição.
Enquanto o maior de Mariano custa R$ 250, o pequeno de sua avó sai a bagatela de R$ 6 mil.
Cada bugre da artista Conceição tem uma fisionomia, são rústicos e esculpidos a machadadas.
Únicos. Já os bugrinhos de Mariano são mais bem acabados.
A madeira guiava Conceição.
O neto segue um padrão e trabalha com eucalipto.
Ele é capaz de fazer por dia de 10 a 15 bugrinhos.
Admite que sua avó era mística e repete a história que já virou lenda.
A inspiração para fazer o bugrinho veio para Conceição num sonho.
A o acordar, foi até o quintal, sentou embaixo de uma árvore e percebeu uma rama de mandioca.
Quando olhou a raiz viu a mesma figura que tinha enxergado no sonho.
Teve a idéia então de talhar a feição na própria cepa e o resultado foi a nascensa do bugre, o artefato que já virou sinônimo de Mato Grosso do Sul.
A imagem do bugrinho se tornou tão famosa que é usada excessivamente em propagandas, papéis timbrados, estampas, revistas e publicidades.
Cada vez mais as pessoas recriam o bugrinho, fazendo suas versões e estabelecendo uma espécie de domínio público sobre a obra de Conceição e Mariano.
O que deixa ingenuamente preocupado o artesão em relação a direito autoral.
Ele reclama que qualquer um pode fazer o bugrinho e não há como a família de Conceição ser recompensada por isso.
Jura que está tentando tirar a patente junto ao Sebrae, mas não só no Brasil, como em outros países, a constituição em torno do direito autoral é restrita e está em mutação com a explosão do acesso a obras de arte através da internet.
Em o dia da entrevista era aniversário de sua mãe Sotera, também artesã e criadora dos totens, nome que deu às suas belas peças de artesanato (dá para ver no canto da foto lá no alto).
Ela serviu durante o bate-papo refrigerante e alguns pastéis.
Embora a fama dos bugrinhos tenha chegado a outros países, o neto Mariano e a mãe Sotera, casada com Wilson, filho de Conceição já falecido, vivem de forma bem simples.
O ateliê de Mariano é franciscano.
Tem um pôster em preto e branco de sua avó na parede.
Alguns bancos de madeira.
Fico pensando o que aconteceu com o dinheiro que os bugrinhos renderam a Conceição?
Mas isso é outra história ...
Mariano está tentando atrair o sobrinho Fernando, de 16 anos, filho do artista plástico Ilton, o outro filho de Conceição.
Mariano quer conscientizá-lo de que alguém mais novo na família precisa aprender a fazer o bugrinho para ocupar o seu lugar um dia.
Os descendentes de Conceição continuarem a multiplicação dos bugrinhos da avó é fundamental para a perpetuação do raro ícone antropomórfico proveniente dos povos nativos da região do alto do Paraguai.
Os bonecos de madeira, como foi constatado por Guido Boggiani, é tradição artesanal entre os índios das famílias Mbayá-guaicuru que habitavam a região de MS e o Chaco Paraguaio e que foi intenrrompida no início do século XX.
Com os bugrinhos, Conceição retomou inconscientemente a confecção destes bonecos e inventou um artefato emblemático de Mato Grosso do Sul.
Confira abaixo a entrevista com Mariano Neto:
Overmuno -- Como você começou a aprender a fazer as peças com a sua avó?
Mariano Neto -- Gostei de ver ela fazer os bugrinhos e comecei a ajudar.
Desde os sete anos já cortava as madeiras.
De vez em quando, por ser pequeno, cortava a mão.
E fui ajudando ela.
Fui melhorando cada vez mais.
A sua avó fazia com que material?
Ela começou com ramo de mandioca, que ela sabia que apodrecia.
Depois que foi vendo que tinha que fazer com madeira.
Faço com eucalipto, por exemplo.
Mas ela pegava qualquer madeira no mato e fazia.
Podia ser capitão, arueira, faveiro, cerejeira ...
E a cêra de abelha ela começou a usar por quê?
Ela usava vela e parafina.
Depois que ela foi ver que a cêra para cobrir ficava mais bonito.
Dá aquela presença.
Quando você sentiu que seria o sucessor de sua avó?
Ela faleceu em 1987, eu tinha uns 18 anos.
Estava internado por causa de um tumor e estava para operar no hospital militar.
Foi um desespero.
Não pude sair de lá.
Meu avô Abílio continuou fazendo por mais 10 anos.
Quando ele faleceu aí sim senti que teria de continuar o trabalho.
Fiquei emocionado e tive responsabilidade.
Era o único da família que podia fazer o bugrinho da avó.
Conceição tinha um lado místico na criação dos bugrinhos?
Sim.
Porque ela nunca tinha feito esta escultura.
Só quando veio para Campo Grande.
Igual a minha mãe, ela também sonhou com estas esculturas que faz.
Eu já fui aprendendo vendo os outros.
Meu avô não fazia escultura, fazia mesinha de três pernas e banquinhos redondos sem encosto.
De a família só eu e minha mãe estamos fazendo artesanato agora.
Qual a diferença dos bugrinhos do Abílio para os da Conceição?
O meu é mais parecido ao da minha avó, mas o do meu avô não.
Ele não fazia aquela parte para rebaixar o cabelo.
Deixa reto.
O olho é um triangulo.
Mas o pessoal gosta também.
Atualmente qual é o material que você utiliza para fazer o bugrinho?
Já utilizei outras madeiras, mas achei melhor o eucalipto reciclado.
A madeira é bruta e vou esculpindo.
Uso cêra de abelha.
Uma barra custa uns 15 reais e dá para encerar uns 10 bugrinhos dos pequenos.
Já o grandão leva umas três barras.
Uso também tinta esmalte sintética, que é cara, da lata de três litros.
Lixa só um pouquinho para tirar as rebarbas.
E as ferramentas, formão, facão, serrote ...
Uso marreta, mas a minha avó usava machadinha.
Ficava com medo de ela se machucar.
Ela tinha idade e eu era novinho.
Falava para ela tomar cuidado, mas ela ficava braba daí.
Você lembra de ela falando sobre os bugrinhos?
Que eles eram a vida de ela.
E que não ia desistir e parar porque era muita encomenda que chegava.
Quem vai dar continuidade aos bugrinhos quando você parar?
É que não apareceu ainda.
Minha mãe acha que tenho que arranjar uma mulher e ter filhos.
Mas não é assim também.
Eu estou ensinando os meus quatro sobrinhos.
O mais velho tem 16 anos e a sobrinha menor 12. O mais velho, Fernando, se interessou mais.
Explico para ele que alguém tem que continuar.
Isso é uma coisa que me preocupa.
Quantos bugrinhos você acha que a sua avó fez?
Ela fez muitos.
Milhares. Em o mundo inteiro tem bugre de ela.
Estados Unidos, Europa, Japão ...
Inclusive os japoneses fizeram algo terrível com mim.
Em 1989 vieram oito japoneses e nós aqui querendo tratar bem.
Eles levaram uma sereia, dois bugrinhos, da minha mãe umas seis esculturas.
Deram o cano em nós.
A minha mãe ligou em São Paulo, mas babau.
Levamos um prejuizo de uns dois mil.
Nunca mais.
O que representa o bugrinho para você?
É uma coisa que apareceu de aprender fazer isso.
É muito sagrado para mim.
Quando faço sinto a presença de minha avó.
Quem foram as pessoas que ajudaram a Conceição?
Os únicos foram Humberto Espíndola e Aline Figueiredo.
Eles ajudaram a encaminhar a minha avó, divulgar o trabalho e comercializar os bugrinhos.
O Candido Fonseca fez o filme, mas não reverteu em dinheiro não, apesar de ter mostrado em vários países.
O registro de ele é uma das raras imagens da Conceição.
É sim.
Você acha que o bugrinho representa a cultura de Mato Grosso do Sul?
Sim.
Muito. A turma fala que este bugrinho está em primeiro lugar de todas as esculturas.
Então, se eu parar, acabou.
Quantos você faz por dia?
Quando estou com o pensamento bem legal faço uns 10, 15 por dia.
Um bugre deste grande se pegar firme mesmo levo uns dois dias para cortar e fazer o formato.
Mais um dia para encerar.
E vende?
Vende.
O pequeno é o que vende mais.
Mas agora está meio parado.
Faço para locais fixos aqui em Campo Grande, como a Casa do Artesão, Barroarte e atendo pedidos de outras cidades do Brasil e exterior.
Mas é dificil.
Recebo do Sebrae bastante pedidos de outras cidades.
Mas não está tendo encomenda assim e nem aqui na cidade.
Mas é a crise mesmo.
Não é só o meu serviço.
Mas você não sente falta de um esquema mais organizado para comercializar o bugrinho?
Vender 3 ou 4 não resolve.
Mas se vender dois destes grandes já quebra um galho.
Vivo disso.
Tem hora que penso em fazer outros serviços que este aqui não está fácil.
Não tô passando fome, mas não está bom.
Minha mãe também não vende.
Em 2003 e 2004 vendi bem.
Mas em 2006 nem os turistas estão comprando muito.
Você possui o direito autoral em cima da imagem do bugrinho?
Tenho que fazer.
Se uma pessoa começar a fazer não posso falar nada.
Tenho que patentear o bugrinho, mas para isso estou em contato com o Sebrae.
Eles estão vendo para mim.
Tenho que fazer logo, tô com medo.
Por isso, quero fazer o Instituto Conceição dos Bugres.
...
Lendo agora a entrevista de alguns meses, sinto mais forte ainda a presença da imagem do Bugre da Conceição por os ambientes e ruas de Campo Grande.
Uma empresa de ônibus municipal está usando como estampa de seus veículos.
Não tinha percebido até pouco tempo.
Quando fui ao Festival de Bonito, em agosto de 2006, assisti pela primeira vez ao documentário que o cineasta Cândido Alberto da Fonseca fez de Conceição dos Bugres.
Em sua famosa chácara nos arredores de Campo Grande, onde aconteceu de fato a criação.
Pode-se ver as famosas e ' arriscadas ' machadadas que Conceição mandava ver nos pedaços de lenha, a gaúcha com cara de índia conversando, os movimentos, as roupas ...
O doc de Cândido ganhou o prêmio da Embrafilme em concurso promovido por a Funarte em 1980.
É realmente uma pérola, até porque é o único registro em filme de Conceição.
E a verdade é que o filme está se perdendo.
Segundo o próprio cineasta, o original está com problemas sérios e precisa de manutenção.
O filme é o mais visto do Museu da Imagem e Som de MS (Mis.
A o entrevistar o compositor Geraldo Espíndola, também escutei algumas histórias dos bugrinhos.
Por exemplo. Geraldo conta que uma vez foi a chácara de Conceição com a sua esposa Dalila.
Depois da prosa e tal, chegou a hora da despedida.
Conceição apareceu com um bugrinho preto e deu para o casal dizendo que ' aquele bugrinho ela só dava para quem gostava '.
A o receber o bugre negro Geraldo teve a mesma surpresa que a minha, quando vi a peça na casa do compositor.
Enfim, Conceição dos Bugres é uma personalidade ímpar no cenário artístico brasileiro.
E Mariano luta, dentro de suas possibilidades, para dar prosseguimento.
Descobri que Sotera, a mãe de Mariano e sogra de Conceição, paraguaia típica, é uma grande artista também.
Seus totens são incríveis e únicos, assim como os bugres de Conceição.
Número de frases: 178
Instituto Conceição dos Bugres urgente!
Imperatriz é uma cidade que está localizada na Amazônia Legal, com área territorial de 1.538 km e população de 230.450, oriundos de todas as regiões do Brasil.
No entanto, como aconteceu com a grande maioria das cidades brasileiras, as salas de exibição de filmes foram sistematicamente fechadas, restando apenas uma na cidade, que por característica / necessidade, se firma numa programação restrita a filmes comerciais, voltados exclusivamente para o entretenimento, salvo raríssimas exceções.
O cinema mambembe é prática corrente a partir do final dos anos 90, sem contar, é claro, com o cinema itinerante dos anos 60, devido a falta de locais específicos para a exibição.
Diante deste quadro, a ASSARTI -- Associação Artística de Imperatriz, juntamente com a Fundação Cultural de Imperatriz desenvolveu o projeto Cinema no Teatro, no período de 2001 a 2004, com sessões todas as segundas, às 19h, com entrada gratuita.
Assim, a comunidade teve a oportunidade de assistir e debater a cinematografia brasileira.
Porém, com a mudança de governo na esfera municipal o projeto, infelizmente, ficou inviabilizado, e no ano de 2005, em parceria com o Instituto Sinergia, a ASSARTI pode dar continuidade a ele.
Com a nova parceria com o Ministério da Cultura, através da seleção do Teatro Ferreira Gullar como Ponto de Difusão Digital permitirá um incremento das exibições, pois como a ASSARTI é a proprietária do espaço, e tem como objetivo cada vez mais dinamizá-lo, sendo essencial para formação de público, oportunizando à comunidade imperatrizense o conhecimento e reconhecimento do cinema como objeto de reflexão e, mais ainda, no caso especifico do cinema brasileiro, a consolidação da identidade nacional.
Os espaços de cultura e cidadania existentes na cidade restringem-se ao teatro Ferreira Gullar, Galeria de Artes Mauro Soh, Cine Timbira, Ponto de Cultura Folguedos Boi Valente, sendo que o único gerido por a prefeitura municipal é a Galeria de Artes.
O governo do estado não tem nenhuma relação com a cidade, e com anos atrelado às oligarquias, a cidade ficou à mercê do descaso.
Imperatriz, como segunda maior cidade do estado, parece não pertencer ao Maranhão:
seus laços com a capital não são refletidos em seu modo de vida, seus costumes e tradições.
Com isso, o distanciamento é substancial, tanto em aparelhos públicos quanto em mobilizações.
O Guarnicê de Cine-vídeo, realizado anualmente por a Universidade Federal do Maranhão, na capital do estado, São Luís, já acenou com a intenção e o desejo de disponibilizar seu acervo para exibição em nossa cidade, o que nunca foi possível mediante a falta de equipamentos disponíveis para a execução deste.
Em Imperatriz existem duas universidades públicas (estadual e federal) e algumas faculdades particulares, e principalmente através do curso de Letras, alguns alunos puderam elaborar curtas em vídeo.
Em meados de 2000 ocorreu um festival de vídeo em nossa cidade, que fez com que uma escola particular articulasse e viabilizasse, através dos alunos, a inscrição de alguns vídeos.
Com a instalação do ponto de cultura Folguedos Boi Valente, abre-se um outro espaço para produção de vídeos independentes.
Entidades Envolvidas no Projeto
As entidades envolvidas no projeto estarão se reunindo mensalmente para definição da programação dos filmes, avaliando sua aplicabilidade e melhorando seus mecanismos de divulgação, debate, numa perspectiva de valorização da produção e alternativas para atrair público, objetivando a lotação do teatro Ferreira Gullar, que é de 166 (cento e sessenta e seis) lugares.
São elas:
Academia Imperatrizense de Letras -- AIL;
UEMA / CESI / DEP.
Letras; " Centro de Cultura Negra Negro Cosme ";
Instituto Sinergia -- Gestão & Cidadania;
Associação de Gays de Imperatriz -- Agir;
Ponto de Cultura Folguedos Boi Valente;
Passo Preto Produções; e Engenho de Idéias.
Qual A Idéia?
Durante o transcurso de 01 (um) ano serão exibidos filmes, duas vezes por semana, sempre às 19h, as segundas e quintas-feiras, no Teatro Ferreira Gullar, com capacidade para 166 pessoas sentadas, totalizando 105 exibições.
Haverá debates mensais, na última quinta-feira do mês, após a exibição do filme, sempre com uma temática diferente, a saber:
Cinema Marginal Brasileiro;
Cinema e Literatura;
Psicanálise no Cinema;
Cinema Novo; Vera Cruz;
Cinema Mudo Brasileiro; Ciclo Cataguases;
Chanchada; Produção Contemporânea;
O Cinema e a História;
Pornochanchada; Documentário Brasileiro.
As temáticas dos filmes serão definidas por as entidades, de forma colegiada, nas reuniões mensais.
A produção local será exibida, inclusive, na programação, como o curta Flores de Plástico, e seu making off, sempre antes da exibição dos longas.
O projeto inclue, ainda a recuperação e exibição de curtas em vídeo produzidos por universitários na década de 2000 e estudantes da rede particular de ensino, na mesma década, bem como exibir curtas brasileiros antes de cada sessão de longa, excetuando os dias em que haverá exibição da produção local.
Os debates sobre os filmes após cada exibição, serão sempre com uma das entidades responsáveis por o projeto, ou algum convidado, levando em consideração a temática, a estética fílmica, ou algum elemento específico como a montagem, o som, a fotografia, a direção.
O projeto, além de exibir, estimulará a produção juntamente com o Ponto de Cultura Folguedos Boi Valente e o Instituto Sinergia, de 02 (dois) vídeo clipes;
02 (dois) vídeo documentários e 02 (dois) vídeos de ficção, em regime de cooperativa, com atores locais, demais entidades envolvidas e espectadores das sessões, desde a argumentação até a finalização de curtas em vídeo.
Todos os produtos recuperados e / ou elaborados serão disponibilizados, em código aberto, no sítio do Estúdio Livre.
Número de frases: 45
Há momento ideal para uma banda deixar de existir?
Quando perceber que o ciclo de uma banda se encerra?
Em muitos momentos o público, mesmo que inconscientemente, já dá os seus espasmos de descontentamento em relação aos trabalhos produzidos.
Abujamra, falando sobre o fim do Karnak, disse que os músicos têm que saber o momento de parar, mas parar com a banda não quer dizer parar com a música ...
Ou será que sim ou?.
Não sei ...
Cada banda tem o seu tempo de maturação.
Os Los Hermanos com os seus três últimos discos mostram uma grande evolução, mas talvez eles tenham começado cedo demais.
Como estaria a banda se o seu primeiro disco tivesse sido o Bloco do Eu Sozinho?
Os Titãs foram perdendo integrantes e ainda assim continuaram, não sei se para o bem ou para o mal ...
Gosto dos discos de Arnaldo Antunes, de algumas canções de Nando Reis nas vozes de Marisa Monte e Cássia Eller.
A banda Nação Zumbi procurou outros caminhos, diferentes do tempo em que tinha Chico Science como líder, com Chico ali se via uma banda, hoje vemos outra Nação Zumbi que é a mesma mesmo sendo outra. (?)
Rita Lee não voltou com os Mutantes.
Os Mutantes tiveram trajetória dúbia, uma na fase de Rita Lee e outra na fase progressista.
Mas por que mantiveram o nome da banda neste retorno?
Acho que o problema é este, as bandas acabam mas mantém os nomes de outrora.
Paul McCartney continua a cantar canções dos Beatles, mas quem canta é Paul e não os Beatles ...
Os Titãs sem Arnaldo Antunes, Nando Reis e Marcelo Frommer são outra banda, mas por que mantém o nome antigo?
Não entendo.
A banda de que mais gosto, resolve de maneira única esta questão que ponho aqui, a questão do fim das bandas e início de outros projetos, esta banda a cada disco se apresenta com um nome distinto, mas mantendo o vigor e a criatividade;
teve início como Moreno + 2 (Moreno, voz e violão / Kassin, baixo / Domenico MPC), depois passaram a se chamar Domenico + 2 (Domenico, Voz / Moreno, guitarra e violão / Kassin, baixo / Pedro Sá, guitarra / Stefan San Juan, bateria) e estão por lançar do disco sob a alcunha Kassin + 2 ....
Vejam este exemplo, o + 2 não teve receio da cada disco mudar o nome da banda, mantendo assim o arco sempre teso, mantendo o frescor a cada novo trabalho.
Muitos músicos ficam reféns das próprias carreiras, parecem temer uma nova empreitada, é uma pena.
Abujamra foi Karnak, foi Mulheres Negras ...
Será sempre um músico.
P. S.:
Para ser coerente com minhas afirmações, deveria me cadastrar novamente no Overmundo e então começar do zero.
Não o farei agora, ainda acho que o ciclo não se encerrou.
Número de frases: 28
Você pode até duvidar de tudo que vê, difícil é duvidar que esteja vendo
Este ano, durante o Festival Internacional de Curtas de São Paulo ouvi de um diretor de longa-metragem a seguinte frase: --
«só se fala em curta, todo mundo só pensa em curta, tem edital pra tudo o que é tipo de curta, quem faz longa tá cada vez mais ferrado».
Em a hora rimos e etc., agora prossigo no pensamento sobre uma interessante constatação:
a de que hoje e cada vez mais (quem sabe?)
o curta-metragem no Brasil vem ganhando mais espaços e tudo quisso pode e deve trazer de positivo para quem faz filmes curtos e para quem deseja exibi-los, cultural eou comercialmente.
Curtas e longas
O curta é, desde a invenção do cinema, a mais adequada duração para se experimentar audiovisualmente o mundo, por isso ele será aqui tratado como origem de enredos e movimentos universalmente originais.
Seja no comunicar ou no alterar o haver por a linguagem / arte audiovisual tornada cada vez mais popular, com todo posinegativismo que o ser ´ popular " carrega de nascença.
Idealmente é o dia em que cada vez mais pessoas terão menos tempo pra «gastar» com conteúdos banais, quando mais gente terá acesso gratuito à internet de alta velocidade (a rede pra mim sempre foi vista e usada como uma «tv digital», só que praticamente sem custo final e com muito mais canais, estes milhões de sites sobre tudo).
Imagino que os curtas serão naturalmente mais atraentes à população em geral e aos poucos vão estar mais presentes no cotidiano de mais pessoas, sendo dai mais populares do que filmes de maior duração, muitas vezes supérfluos à cultura, ineficazes ao mercado.
Longas nunca ´ morrerão `, apenas perderão cada vez mais espaço para filmes mais adaptáveis aos novos mundos, estes que desde o chip tem modificado tudo ao redor também através da aplicação da tecnologia às ciências das comunicações, das mídias e da informação.
Curtas chegam mais facilmente ao público não apenas de guetos e patotas, o YouTube, com seus milhões de vídeos postados e vistos por dia ao redor da terra, que o diga.
Sem comparação
Não se deveria comparar esforços físicos e cargas simbólicas tão distintas que carregam obras de durações tão diferentes, é como comparar o poder / valor de uma música com a de todo um CD, sendo que assim como no cinema, por vezes uma música pode ' valer ' por vários cds, um curta pode ´ valer ' por vários longas, depende de tudo!
Então, mesmo talvez não devendo, se pode comparar, já que sempre haverá espaço para todos os tipos e gostos neste potente mercado cultural brasileiro.
Uma vantagem dos longas é que a cultura de assisti-los com alguma regularidade vem de várias décadas, enquanto o incentivo e mesmo as chances de curtir os curtas é inexistente ou recente para a maioria das pessoas.
Refiro-me ao público em geral, a saber:
os milhões de brasileiros que não fazem filmes mas gostam de vê-los, os praticantes do audiovisual como espectadores, sem os quais quase nada haveria.
Já uma vantagem dos curtas é sua fácil adaptação à digitalização do mundo, sendo poética e potencialmente atraente a diversos segmentos da vida social, científica, cultural e qualquer nome que se invente, o curta pode estar presente em todos os lugares, seja fazendo filmes, seja vendo-os.
Agora o desafio é avançar tais movimentos para que o curta seja, em alguns anos, também um meio de vida e não apenas um hobbie.
Se não pra todos, claro, ao menos para os interessados em viver profissionalmente do audiovisual no Brasil.
Longo e promissor futuro para os curtas!
Quem sabe esta imensa economia cultural ligada ao curta não será tão relevante e economicamente ativa e instigante quanto à economia focada nos longas?
Além desta questão do curta ser mais atraente para as novas plataformas móveis, onde já está o futuro, no Brasil são feitos cerca de 700 curtas por ano e cerca de 60 longas (muitos não lançados, apenas exibidos em festivais, isso quando são selecionados ...).
Oxalá uma noite neste país seja possível se realizar cinema / vídeo, de qualquer duração, um Audiovisual, com alguma chance de ver este investimento independente (de tempo e tutu) retornar com sobras que animem seus realizadores a fazer mais filmes.
Aí sim, teremos uma indústria se movimentando de fato com as próprias pernas, se autogerando, ditando certos rumos nas mídias e não sendo por elas guiados ao prazer de modas e moedas / culturas estrangeiras.
Nossa indústria audiovisual, hoje mais cultural que comercial, precisa se desenvolver mais rapidamente e com focos também no longo prazo, para ser um manancial de empregos e recursos em atividades co-ligadas às milhares de pequenas e micro-empresas, centenas de canais de tv /iptv/celular/ etc., de cinemas, sites e cineclubes dispostos a levar ao público a produção de filmes curtos e longos independentes e não apenas de novelas, seriados e comerciais premiados.
Número de frases: 28
Número de frases: 0
Uma tarde as igrejas voltarão a ser cinemas, não como os cinemas de ontem, que ainda vendem filmes e pipocas, mas centros audiovisuais de pensamento e entretenimento multimídia.
Sempre estudei em escola pública.
Dois dos quatro primeiros anos da minha vida estudantil, eu e meus quatro irmãos estudamos com minha mãe, a respeitada dona Mercês.
E ela sempre dizia na sala de aula, em repetidas e sonoras palavras:
«Trato todos vocês aqui como meus filhos e os meus filhos como meus alunos».
Era sua maneira de dizer que seria amável com todos eles e que não privilegiaria a nenhum de seus filhos por estudarem com ela.
Morávamos na roça, a uns 10 km de estrada de chão, em Muqui.
Nossa casa era uma mistura de casa e escola, e isso não é uma metáfora.
Morávamos no mesmo prédio da escola.
Dois terços de ele eram divididos em salas de aula da «Escola Pluridocente Aliança», e o restante dava lugar a 6 cômodos que compunham a casa da professora, a nossa casa.
Por o que sei, houve um tempo em que muitas casas-escolas foram construídas em zonas rurais, para que a professora -- que morava na cidade -- pudesse passar a semana.
Bom, o que sei de fato é que nunca morei numa casa de verdade, e nunca precisei sair de casa para estudar.
E foram quase 20 anos morando na mesma casa.
Em dias de chuva, eu não me molhava como os outros;
e também jamais subiria numa árvore, tomaria banho de rio ou pegaria frutas em algum quintal ao voltar da escola, porque não havia um caminho entre minha casa e a escola:
eu morava numa.
Todos os meus amigos da Aliança (sugestivo nome da roça onde eu morava) viviam em casas com quintais cheios de mangueiras, bananeiras, goiabeiras, que se ligavam aos pastos, onde bois, riachos, pássaros e flores se misturavam.
E essa não é nenhuma imagem árcade ou romântica pensada de um poema de Gonzaga, Casimiro de Abreu ou de uma música da Elis Regina, são imagens da minha infância.
Eu e meus quatro irmãos -- os filhos da dona Mercês, a professora -- morávamos numa casa-escola, com um estreito quintal, ladeado por muros construídos por o estado e mantidos por a prefeitura.
Mas, mesmo no pequeno espaço, plantamos um pé de «esponjinha», onde meu irmão construiu uma casa de árvore.
Também tínhamos uma amendoeira, que chamávamos de «castanheira», bem no canto do muro.
A árvore cresceu, suas raízes surgiram por sobre a terra e racharam o muro, os galhos e folhas racharam o céu, fizeram sombra para a gente brincar.
Mas, a ousadia da árvore foi mal vista.
Depois que minha mãe se aposentou, mudamos de lá e fiquei sabendo que a castanheira foi cortada ...
Ela não sabia que não podia ir além daquele muro cinza, que nos cercava.
Mas, por outro lado, aquele muro cinza foi palco de dias felizes:
quando meus pais saíam de casa -- no jeep, ano 66, azul, nós brincávamos de andar no muro.
E o muro era daqueles estreitos, feitos com placas de cimento sobrepostas.
Um dia minha irmã caiu, machucou a perna.
Em outra vez, eu caí e quebrei o braço.
Em o muro escrevíamos com carvão, subíamos para alcançar a casa de joão de barro, ou para tirar fotos de nós mesmos.
Quanta alegria!
Rimos muito de tudo depois.
E foi de ali, por perto do muro, que eu e minha irmã -- de tanto ouvir minha mãe dar aulas -- apredemos a ler;
antes mesmo de entrar na, ou para a, escola (se é que vocês me entendem).
E por sermos alunos, e não filhos, de nossa mãe -- quer dizer, da professora, jamais tivemos acesso às provas que ela iria aplicar para nós, seus alunos.
E se colássemos, seríamos castigados.
Mas, para a alegria de nossa mãe -- e de nossa professora -- tirávamos notas boas e éramos obrigados a ouvir que só nos dávamos bem na escola porque éramos filhos da professora ...
Em o recreio, na sala, ou em qualquer outro lugar, tínhamos que nos comportar como filhos da dona Mercês.
Se falássemos um palavrão, ou contássemos alguma vantagem, logo éramos repreendidos por os colegas:
«Vocês são filhos da dona Mercês, não podem falar palavrão!».
Tudo bem, a gente não falava.
Mas, se quiséssemos sair mais cedo, ou ir ao banheiro em casa, a gente não podia, afinal éramos alunos como todos os outros, nada de regalias ...
Mas, pensando bem, talvez a grande regalia fosse poder ir à escola sempre que eu quisesse.
Havia um armário de madeira, antigo, onde eram guardados livros e revistas -- a maioria doados.
Ele ficava numa das salas.
Eu ia pra lá, abria aquele armário e começava a folhear revistas e livros.
Lembro-me que em 1994 eu lia atento os detalhes da Guerra do Golfo, que tinha terminado no fim da década de 80.
É claro que eu sabia da guerra, mas só pude ler detalhes, ver fotos, muito tempo depois, pois a revista havia sido doada, após passar por várias mãos.
Que privilégio há nisso?
A leitura.
Mesmo que tardia.
Talvez seja por isso que, até hoje, me pego lendo jornais e revistas velhos e revendo a maneira como os fatos foram narrados à época.
E juro, há coisas que me surpreendem, outras já não fazem sentido.
Entre os muitos alunos, pode não parecer, mas tínhamos bons amigos.
Alguns até porque éramos justamente filhos da professora.
Outros, verdadeiros mesmo.
Éramos pobres como todo mundo, mas se eles podiam mais que nós, só porque eram «filhos» de nossa mãe, nós tínhamos quadro, giz, e revistas velhas bem perto.
Ah, e, claro, tínhamos um muro em volta de nossa casa.
Coisa que ninguém tinha por ali.
Um muro!
Há coisa mais urbana, mais evoluída, mais avançada que um muro de concreto?
Não!
Eu me sentia numa cidade em que, a qualquer momento, meu pai pudesse dizer:
«Não passe do portão, tem carros na rua, tem isso, aquilo e aquilo outro».
Número de frases: 65
Só não dava pra ter essas viagens à noite, quando a escuridão nos unia aos pastos e gados e flores e pássaros, pois já não se via o muro da minha casa, e os grilos jamais nos deixariam ouvir o sussurro dos carros ou as guerras de minha metrópole imaginária.
Quando Entrar no Ar Oficialmente em Setembro, Tomará O Nome De Rede Brasileira De Televisão Internacional-Rbti.
JÁ Faz Experimentais.
Vai Muito Bom E Muito Legal Ver Transmitida Para Todo O Mundo A Cultura E O Jeito De Fazer TV De o Brasileiro.
Um Povo Generoso E Mais Solidário do Mundo.
Número de frases: 5
Apesar De Todas As Coisas Ruins Que Acontecem Em o País De o Carnaval, De o Futebol, De a Literatura Popular E De a MPB E De o ESPORTEAMADOR.O Futebol Pentacampeão do Mundo, Merecerá Outro Artigo Mais Adiante.
Muita gente adora dizer que não assiste televisão.
Em o orkut, por exemplo, são vários os perfis que no campo programas de tv consta um sonoro não assisto.
Parece que ninguém quer ser identificado com o hábito de assistir TV.
Se eu fosse um sociólogo tentando explicar esse fenômeno, diria que existe em ele uma relação de alteridade, em que o hábito de assistir tv é visto como algo que apenas os «outros» fazem, mas eu mesmo não faço.
Isso lembra a pesquisa que o economista Eduardo Gianetti da Fonseca popularizou há alguns anos perguntando se as pessoas se achavam felizes ou infelizes.
A maioria absoluta das pessoas se declarava feliz.
No entanto, ao serem perguntadas se achavam que os outros eram felizes ou infelizes, a maioria também respondia que os outros certamente deviam ser infelizes.
Ou seja, ninguém queria se identificar com a «infelicidade», ou tinha uma percepção errada sobre si mesmo.
Com a TV parece acontecer a mesma coisa.
Tem gente que mesmo assistindo à televisão de um jeito ou de outro, continua acreditando que não assiste.
Há pouco tempo escrevi um artigo discutindo a ausência de novidades na linguagem televisiva.
Talvez essa ausência possa ser creditada a essa postura de distanciamento com relação à TV, já que ela acaba percebida como uma mídia menor, especialmente quando comparada ao cinema, uma mídia vista como mais «nobre».
No entanto, desde o momento em que o vídeo na internet tornou-se um fenômeno gigantesco, foi dada a largada para ver quem inventa a nova linguagem para essa nova mídia «televisiva».
Ou seja, mesmo que o preconceito ainda seja um obstáculo, o desafio da renovação da linguagem audiovisual que antes era problema apenas das redes de TV, passou a ser compartilhado por todo mundo.
Olha a Gema aí Eis então que para ilustrar essas possibilidades surge um projeto como a Gema TV.
Sem qualquer preconceito com a televisão (que está inclusive no nome do projeto), a Gema nasce com a missão de ser precisamente uma «TV de moda» na internet.
Mas peraí, TV na internet?
Não seriam fenômenos contraditórios?
Ao que parece não.
Como diz José Camarano, fundador do projeto, na entrevista que ele concedeu ao Overmundo:
«Somos apaixonados por televisão desde crianças, e hoje por internet, nada mais normal que juntar os dois."
É curioso notar que a Gema TV não tem medo de se apropriar de formatos consagrados da televisão, mas adicionando a eles uma boa dose de traquinagem.
Um exemplo é o formato de «entrevista», renovado por o site por meio da improvável» entrevistadora de maiô», um dos quadros fixos da Gema.
Até mesmo o formato de «programa de viagem» sofre um reprocessamento, ganhando uma abordagem mais direta, só possível com a internet.
Como o pessoal da Gema TV fica perambulando por lugares como Nova Iorque e Tóquio, de tempos em tempos são enviados streamings ao vivo por o site (com hora marcada) de cada um desses lugares.
O formato adotado por o site é o de clipes curtos, o que mostra uma consideração com as peculiaridades da Internet enquanto mídia.
Um vídeo curto pode ser assistido casualmente, entre uma tarefa e outra no computador.
Faz parte do que a revista Wired chamou recentemente do fenômeno da snack culture.
Além disso, o pessoal da Gema investe tempo e idéias na edição do conteúdo.
Essa é uma característica do site que vale acompanhar.
Na medida em que a internet vai ficando saturada do formato de vídeos «toscos ', sem qualquer produção / edição, uma hipótese é de que quem trouxer linguagens novas e mais elaboradas sai na frente tão logo o efeito» novidade " acabar.
Por fim, é importante destacar que a Gema TV não deixa também de dar sua contribuição em termos de experimentação de linguagem.
Em esse sentido o site criou um outro quadro fixo, chamado fashion clips.
São editoriais de moda «conceituais», que desenvolvem um tema específico ao longo de um ou dois minutos.
Vale conferir o vídeo de Paranoid para se ter uma idéia.
As roupas mostradas são de estilistas e lojas bacanas e estão à venda.
É curioso notar como o pessoal da Gema consegue gerar uma «ressignificação» interessante dos produtos.
E moda é exatamente isso.
Em síntese, cada vez fica mais claro que a fonte da inovação está se tornando os próprios usuários (como defende há anos gente como Eric von Hippel).
A tendência é que tanto os centros de pesquisa e desenvolvimento das empresas quanto as redes de televisão tradicionais acabem sendo deixados para trás em termo de inovação por as experimentações feitas por seus próprios usuários.
É a lógica do «do it yourself» levada às últimas conseqüências.
Para acompanhar um pouco mais de perto um exemplo desse fenômeno, deixo a palavra com José Camarano, fundador da Gema TV:
Overmundo:
Qual é a história da Gema TV?
Existe um conceito que guia o site?
José Camarano:
A idéia do site nasceu com o intuito de aproveitar as facilidades de transmissão de vídeo atuais para nossos próprios interesses.
Mas foi uma idéia totalmente adaptada, partindo do principio que a Gema TV pretendia ser uma revista impressa, coisa muito rara de se fazer (bem feita e barata) hj em dia.
Resolvi então fazer um blog, um ano e pouco atrás, que foi ganhando cada vez mais colaboradores, adeptos e por conseqüência, mais força para se tornar um site.
Overmundo:
Quem são as pessoas que fazem a Gema TV?
É gente da internet, de mídia ou de moda?
E como chegaram ao site?
JC:
Alem de editar o site, sou stylist há 5 anos, colaboro para revistas como Vogue, Vogue Rg, Revista Domingo do Globo e faço desfiles no Fashion Rio.
Sou internauta de carteirinha e muito ligado e apaixonado por tecnologia.
Consegui finalmente transformar o meu hobby em trabalho.
O crew Gema é formado basicamente por amigos, das áreas de moda, mídia, música (djs), jornalismo e tecnologia.
Estamos juntos o tempo todo tendo idéias coletivas e implementando novidades no site de maneira totalmente informal.
Nunca tivemos uma «reunião» sequer ...
Porém, desde que começamos a fazer o site, não conseguimos falar mais em outro assunto.
Estamos sempre conectados, apesar de alguns morarem até mesmo em outros paises (temos correspondentes em NY, Londres, Paris, Berlim e vamos aumentar ainda mais este quadro).
Celulares, rádios (nextel), skype e msn nos mantêm conectadissimos.. Assim é feita toda a comunicação e programação do site.
Não somos profissionais do vídeo.
Nosso foco é estético e informativo, não estamos preocupados com «técnicas de edição» já estabelecidas.
Overmundo:
Para quem o site é feito, ou seja, qual é o público alvo ideal de ele?
JC:
Recentemente li no «O Globo» que o Brasil é o número 01 em número de horas / mês na internet.
Somos o país onde cada internauta passa mais tempo conectado e q tbm tem o maior número de amigos virtuais.
Este é o nosso publico alvo!
Pessoas ligadas em tecnologia, moda, música e arte e cansadas de formatos já existentes (e quem não está nos dias de hj?).
Overmundo:
Existe algum plano de levar o conceito / conteúdo do site outras mídias dentro ou fora da internet?
Ele tem um plano de sustentabilidade, de publicidade ou outras formas de gerar receitas?
JC:
Pretendemos disponibilizar downloads de conteúdo para celular, mp3 e vídeo players, temos uma versão impressa do site, que circulará vez ou outra em formatos completamente diferentes (o número 01 foi uma espécie de teaser do site, anunciando o que estava por vir, em formato de pôster, em quarto versões diferentes, distribuídos na festa de lançamento do projeto no Hotel Sheraton (Rio), durante o último Fashion Rio) e tbm fazemos festas e intervenções artisticas (já com datas programadas), pois apesar de internautas, somos festeiros e gostamos de «encontrar gente».
Queremos propôr life style, dos bons.
Somos um crew de amigos, por isso conseguimos trabalhar com custos baixos em prol do site neste inicio, mas estamos captando recursos para que o mesmo possa crescer cada vez mais, melhorando a qualidade e quantidade das produções.
Todos temos carreira sólidas em outras áreas, mas estamos curtindo tanto, que adoraria fazer da Gema minha primeira opção de trabalho.
Overmundo:
Uma das coisas mais interessantes da Gema TV é que ela desenvolve uma linguagem própria para a internet.
Além de renovar formatos tradicionais (entrevista, cobertura de evento etc) em clipes curtos, o site cria outros formatos próprios.
Um exemplo são os «fashion clips».
Essa experimentação de linguagem é proposital?
O que mais podemos esperar do site nesse sentido?
JC:
Nada disso foi pensado.
O nosso formato é o «não formato».
Fizemos tudo do jeito q gostaríamos que as coisas fossem e gostamos muito da cultura pop, de tentar coisas novas e de relembrar coisas legais já feitas.
Ainda estamos desenvolvendo essa linguagem, estudando, testando.
Queremos experimentar, acertar, errar ...
Que bom que a aceitação está sendo boa, pois não tínhamos a menor idéia de como o público e a imprensa receberiam o site.
E no dia que estiver tudo com uma cara, um formato, certamente já estaremos em outra.
Mas sair do óbvio, isso sim foi uma das intenções.
A busca por o novo tem muito a ver com o meu trabalho como stylist, assim como na tecnologia que se alimenta do novo.
Uma das propostas do site é levar o novo às pessoas, tanto no conteúdo, quanto na tecnologia da navegação.
Um dos nossos objetivos para o futuro, é fazer com que o site passe vídeos o tempo todo, como uma TV mesmo (estamos começado este processo, através de um midiaplayer q nos permitirá tocar mais de um vídeo de uma só vez, agrupando assim o conteúdo, como num programa de tv).
Somos apaixonados por televisão desde crianças, e hj por internet, nada mais normal que juntar os dois.
A rapidez da informação é outro ponto importante nos dias de hj, vídeos curtos e ágeis têm muito mais chance de ser assitidos que um documentário da bbc, por exemplo.
Não pretendemos e nem queremos fazer jornalismo sério, aliás, «não pretendemos nada!».
Queremos simplesmente mostrar e fazer coisas q gostamos e acreditamos, e quem se identificar que assista.
Os fashion clips nasceram de uma vontade de exibir o meu trabalho numa nova midia, conectando a moda com um novo público (todos os fashion clips têm créditos de roupas a venda nas lojas e funciona tbm como uma prestação de serviço do site, estamos subindo as galerias de imagens de cada clip, que em breve ganhará hotsite, que misturará fotos com vídeo.)
Overmundo: Como a Gema TV se posiciona em face do You Tube, por exemplo, que atrai a maioria da atenção dos usuários em busca de vídeos?
Vale apostar num site de nicho, com conteúdo específico?
JC:
Após a avalanche de vídeos na internet, se sobressair aos demais é um desafio.
Ser super assistido no Youtube não é o nosso objetivo.
Estamos mais preocupados com a qualidade do público que nos assiste do que com a quantidade de vezes que o vídeo foi visto.
O nosso publico preza por qualidade tecnológica e visual e queremos proporcionar prazer enquanto ele navega no site.
Não queremos «ser mais um» no youtube, queremos que o youtube seja mais um site onde divulgaremos o nosso trabalho.
Inclusive, ainda temos que fazer a nossa pagina lá.
Foi tanta correria que não deu tempo ainda.
Adoramos o myspace, por exemplo, que reúne mais o nosso publico, os tais «apaixonados por moda e tecnologia» ...
Overmundo:
Um denominador comum de projetos novos é que no começo as pessoas ainda não sabem bem para o que eles servem.
Foi assim com o começo do Orkut, do Twitter e do Second Life.
Então, pergunto, para que serve a Gema TV?
JC:
Para entreter, divertir e informar.
Queremos fazer com que pessoas do mundo todo possam exibir seus vídeos, contando um pouco do que estão fazendo, vendo, e que isso possa interessar ao público.
«Comunicar» é a palavra de ordem.
Estamos caminhando para o «nosso» futuro, aquele que quando crianças sonhávamos em viver, com parentes próximos e amigos aparecendo nas telas de tv em tempo real para nos visitar, onde a tecnologia seria nossa aliada, e para nós esse futuro já é o presente, é só aproveitar o que a tecnologia vem nos oferecendo.
Número de frases: 124
Céu e mar azuis na sexta-feira, 13 de abril.
A deixa:
o cinza da memória dos 281 anos de fundação de Fortaleza.
A pauta:
Estação João Felipe.
Era chegar e conversar e ouvir testemunhos, saber dos números em rápido diálogo com a administração, fotografar e, em seguida, voltar para casa satisfeito, sentimento de dever cumprido.
Embora enfadonho.
Um jornalismo feito às pressas, às vésperas do grande acontecimento que é a publicação.
Não que o aniversário da metrópole pedisse mais.
É que, ali, havia mais.
Havia um jogo de dominó e outro de carteado.
Um bom papo feito à sombra da castanholeira ou dos coqueiros.
E um café ou chá pelando naquela manhã ainda mais quente.
Havia, esquecida a um canto, a Associação dos Ferroviários Aposentados do Ceará (AFAC).
Lá dentro, numa saleta apertada onde quatro mesas e algumas cadeiras brigavam por espaço, as memórias de Luís guardadas em gavetas.
A chegada
A praça da Estação é ampla e habitada sobretudo por ônibus, que chegam e saem e tornam a chegar, vazios.
Vista de cima, um grande bolo meticulosamente fatiado em pedaços retangulares em cujas extremidades dormem, sob as poucas árvores, mendigos.
As ruas de que se serve a praça são de paralelepípedos.
Uma cabine policial aqui, uma banca de revistas ali.
Em um cruzamento próximo, enxame de mototaxistas se concentra num ponto colorido que atravessa a praça.
Dois ou três palmos acima dos joelhos, uma saia vermelha acompanhada de dois peitos que se sacodem ritmicamente.
Os olhos crescem.
Adiante, o Passeio Público, ponto de encontro das «meninas».
Entre uma sombra e outra, dez metros de sol na cara.
Além, a «velha» de 134 anos recebia -- boca desdentada, mas ainda viçosa -- homens e mulheres cujo destino, a bem dizer, desconhecia.
Um entra-e-sai movimentado, distante da imagem de decrepitude afixada em tudo que já passou dos quarenta.
Ela, a estação João Felipe -- fundada em 1873 sob o nome de Estrada de Ferro de Baturité -- tinha quase quatro vezes mais que isso.
E se mantinha, àquela altura, digna de amores velados ou paixões desvairadas.
Como a de Luís.
O prédio da AFAC, anexo ao da estação, fica numa esquina sombreada em frente ao Centro de Turismo do Estado (Emcetur), em cuja sede funcionou também a antiga cadeia pública.
Filtrada, a música dos tempos idos chega mansa aos associados que pelejam do lado de fora debruçados nos tabuleiros ou travam partidas de sinuca do lado de dentro.
Ela vem da sala da administração.
De lá, era como se Luís Ribeiro, atual secretário da entidade, conseguisse enxergar a esquina.
«Trabalhava aqui na estação como agente comercial.
Era 1966.
Bebia muito.
Um dia, depois de uma noitada ali no Curral (antigo cabaré no Centro da cidade), amanheci deitado lá.
Um amigo viu.
Fui demitido da estação pouco tempo depois».
Luís é calvo e simpático.
Vaidoso, fala aos borbotões, revelando com satisfação cada lance, dramático ou cômico, da sua vida.
Fato curioso:
perseguindo o filho homem, teve quatro meninas.
«Como não nascia o menino, a gente ia tentando.
Quando vi, tava com quatro filhos», conta.
A quarta menina e quinta cria por a ordem de nascimento veio mais por força de vontade ou falha dos métodos anticoncepcionais que por o gosto do casal.
«Ela veio sem querer.
O nome de ela é A última».
Ante o espanto, acrescenta ligeiro:
«Só que em francês».
Em a mesma lógica, o único filho do casal.
Em a certidão de nascimento, A aguiazinha.
«Em homenagem ao filho de Napoleão Bonaparte, de quem sou muito fã.
Também em francês, claro».
O tropeço
Rápida tomada de nota -- ele corre à frente da locomotiva.
Em esses 65 anos de vida, 57 dos quais dedicados aos trens de carga ou de transporte de passageiros, Luís passou por quase todos os setores e desempenhou as mais diversas ocupações dentro e fora das estações.
Foi «limpador».
Em o que consistia o ofício de limpador?
«Limpava o trem».
Foi «soltador».
De esse, Luís fala com orgulho:
«Pra sair da estação, só com a minha assinatura.
Eu soltava o trem», diz sorrindo.
No meio do caminho de Luís, porém, a pedra do alcoolismo.
«Começou na hora de ir para a escola, o Rui Barbosa, e, no lugar de tá na aula, ia beber».
Sua vida, antes aprumada sobre o ferruginoso dos trilhos, descarrilou.
Ele, porém, não engasga, não gagueja ou faz torneios ao falar do assunto.
Em o lento e prazeroso rememorar, esses anos de embriaguez diária vêm natural, porque, ao menos em parte, superados.
«Nunca digo que deixei de ser alcoólatra, porque disso a gente não se livra.
É como um bicho que fica pra sempre dentro da gente.
É por essa razão que nunca deixo de ir às reuniões do grupo que eu freqüento.
Se deixar, ele toma conta de mim.
Basta um primeiro gole pra desfazer o trabalho desse tempo todo».
Como no livro, Luís fez da «queda um passo de dança, do medo uma escada», e foi subindo e subindo até retornar à estação.
Desta vez, recontratado e com direito a pedido de desculpas.
Ele conta.
«Os trens sempre foram a minha vida.
Desde os oito anos, quando comecei em Amanaré, que estou metido nisso.
Me aposentei muito cedo, em 1984, e até hoje me arrependo.
Depois de ter sido demitido daqui, procurei uma saída para a doença.
Encontrei ela no Alcoólicos Anônimos (AA), de onde nunca mais saí.
Voltei a trabalhar e a estudar.
Entrei na faculdade.
Fiz vestibular para História na Universidade Estadual do Ceará (Uece) e me formei.
Para a formatura convidei muitos amigos, inclusive o homem que me demitiu aqui da estação».
O que segue, porém, Luís diz aos empurrões, voz escassa.
«Um amigo comum foi e contou pra ele.
Fui contratado novamente.
Número de frases: 90
Em o dia do nosso reencontro, agradeci por ele ter me demitido naquele dia».
Azul esgotado, cena de uma tragédia no quintal
Três jovens talentos no palco e a mão sensível de uma diretora teatral, discípula do irreverente e inventivo Hugo Rodas.
E o princípio dos princípios:
o fio de uma idéia, aquele fiapo que puxamos de um misterioso novelo que se chama processo criativo.
A cena, que inicialmente nem era cogitada no novelo que se desenrolava, uma tragédia dos tempos modernos, ocorrida em Goiânia em setembro de 1987: o acidente radioativo com o césio-137.
Coincidentemente, quando se completa 20 anos do acidente, chega aos palcos por a primeira um recorte dessa tragédia, com muita, mas muita sensibilidade no olhar.
Em o dia 3 de julho, Azul Esgotado, modestamente caracterizado como «ensaio coreográfico», será apresentado no Teatro Goiânia Ouro, às 20 horas.
Mas o espetáculo, por a qualidade e força cênica, deve rodar os principais circuitos culturais do Brasil.
Já passou por audições em Santa Catarina e São Paulo, onde impressionou e aguçou curiosidades, principalmente porque a maioria do público nunca ouviu falar no acidente radioativo de Goiânia.
Mas retomando o fio daquele novelo.
Em o princípio era a cor.
E a cor era azul.
Azul! Azul desejado, reverenciado, procurado à exaustão, como metáfora da irreal e fugaz felicidade.
Azul desbotado.
Azul das fases geniais dos mestres da pintura.
Que sonho as bailarinas azuis de Degas!
Azul néon das ruas, de jeans, índigo blue.
Azul de tudo bem, tudo azul.
Azul da cor do céu.
Azul da cor do mar.
Azul pertinho e azul de longe, muito longe, anos luz de azul.
Azul dos olhos de Sinatra e da esplendorosa visão de Neil Armstrong, que pisou na lua e balbuciou:
a Terra é azul.
Azul de sonho, de luz de palco, de momentos de combustão na chama.
Azul de césio-137, azul de ciência encapsulada, azul de letal segredo violado ...
Azul em pó, dançando de mãos em mãos numa perversa ciranda radioativa no quintal.
A jovial trindade de Azul Esgotado, um espetáculo de encher os olhos e a alma de uma penumbra azuladamente triste, é formada por a bailarina Fernanda Costa, 14 anos (um encanto de leveza no palco), e os atores Rodrigo Cunha e Vanessa Ruiz.
O quarto elemento é a presença em cena da impressionante voz de Carolina Braga, 16 anos, também pianista, com varias premiações em festivais nacionais e que acaba de receber um convite para cantar no Japão.
A jovem cantora lírica é uma aparição angelical, que aprofunda o encantamento da cena com uma ária.
A concepção coreográfica é da bailarina Angélica Braga, que tem no currículo 25 anos de profissão e atuações ao lado de grandes nomes do balé nacional.
A direção é da professora e atriz Valéria Braga, que já trabalhou como atriz e preparadora de elenco de vários filmes da cineasta Tizuka Yamasaki, durante cinco anos.
Azul Esgotado é mais que um ensaio coreográfico, realizado por o Núcleo de Pesquisa da Escola de Teatro e Dança Vivace.
Dança, música, teatro e poesia, linguagens que se entrelaçam para narrar no palco um drama com todos os tons de realismo fantástico, se não fosse de fato real e não tivesse de fato acontecido.
Mais que um drama, uma tragédia.
O fantástico fica por conta da nossa incredulidade dessa tragédia moderna ter acontecido no nosso quintal.
E moderna porque une no mesmo fio o máximo da conquista científica e tecnológica do homem -- a fissura do átomo e o uso dos elementos radioativos para a cura do câncer -- e o descaso e a ignorância.
Essa tragédia narrada em Azul Esgotado é o acidente radioativo de Goiânia, ocorrido em setembro de 1987.
às vésperas de se completar vinte anos do acidente de Goiânia, um recorte dessa tragédia chega pela primeira vez ao palco.
A história já rendeu livros (precipitados), um de eles do jornalista e hoje deputado federal Fernando Gabeira, filme e documentários.
Considerado o maior acidente radioativo doméstico da história, a tragédia do césio-137 fez quatro vítimas fatais (logo após a descoberta do acidente, entre elas a menina Leide das Neves Ferreira, que chegou a ingerir césio, transformando-se numa fonte radioativa viva), centenas de vítimas diretas e outras indiretas.
Pior que o rastro de contaminação deixado por o césio foi a discriminação engatilhada no day after.
Vinte anos é tempo suficiente para embalar o esquecimento.
Pouco se fala do acidente, que teve um enredo tão difícil de acreditar que nem o mais inventivo autor de ficção científica ousaria imaginá-lo.
Catadores de papel furtam parte de um aparelho de radioterapia deixado nos escombros de uma clínica abandonada.
A peça é aberta a marretadas num ferro-velho na região central de Goiânia e a cápsula de césio violada.
A pastilha de césio, que emitia uma luz azul brilhante, começa a ser distribuída em pedaços, pequenas pedrinhas, entre vizinhos e amigos curiosos.
Tem gente que levou para a casa no bolso da calça.
Outros inventaram brincadeiras lúdicas com aquele pó que brilhava na escuridão, como Ivo Alves Ferreira (já falecido), pai da menina Leide das Neves.
Os dois espalharam o pó, apagaram as luzes, e sonharam com uma cidadezinha de fantasia brilhando na noite daquele setembro de 1987, tamanho o fascínio da luz azul emitida por o césio-137.
Acidente do descaso e da ignorância.
Descaso porque todas as pessoas e instituições que deveriam zelar por a guarda e segurança daquele aparelho falharam.
E acidente da ignorância porque a maioria esmagadora das pessoas desconhecia os perigos da radiação e nem poderiam suspeitá-lo tão perto, ao alcance da mão.
É cruel, mas toda tragédia tem lá o seu lado pedagógico.
O acidente com o césio gerou centenas de pesquisas sobre os efeitos da radiação em seres humanos com os mais variados graus de exposição, técnicas em processos de descontaminação e de controle de resíduos no ambiente, novas normas de segurança, enfim, mais ciência e tecnologia.
E a popularização do símbolo da radiação, aquele alerta de perigo que reconhecemos no trevo laranjado que ostenta algumas salas de hospitais e laboratórios.
Uma tragédia azul -- E como uma história assim poderia funcionar no palco?
Maestria, unindo a idéia do fascínio azul ao minimalismo de três pessoas no palco.
É como se abríssemos uma caixinha de música, de onde saltam o encantamento e a ameaça.
Antes, apenas um balé silencioso da menina no mundo da partícula de luz azul, amparada em suas evoluções por dois seres de máscaras, trajando macacões brancos, os mesmos que os homens da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) usaram em Goiânia quando entraram nas áreas contaminadas e logo isoladas com fitas amarelas.
O balé é encantatório, vertiginoso e trágico.
A cena é carregada de simbolismo.
A menina dança como se estivesse no espaço, às voltas com dois astronautas ou anjos na UTI.
A dança tem o ritmo da respiração.
De novo astronauta e de novo respirador artificial de uma Unidade de Terapia Intensiva.
E a menina conheceu sim o medo dos vidros, das máscaras e do isolamento.
Era uma fonte radioativa viva sob os cuidados de atônitos cientistas e médicos no Hospital Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, onde morreu.
E, claro, a música, sempre música, diáfano véu conduzindo a cena.
E tem a voz de Carolina Braga, uma ária que embrulha a cena com um véu finíssimo de tristeza.
E tem também palavra para fazer recordar e acordar a história.
Palavra de lembrar, de ressentir, de doer, de se colocar no lugar do outro, de abraçar, de escutar ...
Palavra de não deixar calar a tragédia humana que, às vezes, pula o muro e vem dançar no nosso quintal.
Não pretendia tocar no assunto, mas vamos lá.
Em o final do ano passado Valéria me convidou para assistir um ensaio.
E depois pediu palavras para o espetáculo.
Saí de lá comovida com o que vi.
E mais do que comovida, mexida.
É que voltei no tempo.
Em 1987 eu era repórter e fiz toda a cobertura do acidente com o césio-137, entrando em áreas contaminadas, entrevistando as vítimas, técnicos, médicos, cientistas.
E, principalmente ouvindo as histórias daquelas pessoas que da noite para o dia perderam tudo.
Nunca esqueci, por exemplo, a tristeza profunda daquele olhar sem brilho de Ivo Ferreira, o pai da menina Leide, a adorada filha única.
Imagens da memória e angústias sentidas naqueles dias estranhos da primavera de 1987 vieram se juntar ao invólucro cênico, em forma de poema, palavras de um azul esgotadíssimo.
Espetáculo:
Azul esgotado
Coreografia: Angélica Braga
Bailarina: Fernanda Costa
Atores Rodrigo Cunha/Vanessa Ruiz
Canto: Carolina Braga
Concepção: Valeria Braga
Poesia: Cida Almeida
Voz gravada:
Número de frases: 91
Valéria Braga
Seu nome é Sidnei Silva do Rosário, 26 anos, popularmente conhecido como Castanhal.
Logo cedo pega seu skate, a mochila e segue rumo ao centro comercial de Macapá, onde montou uma barraquinha na qual vende modelos diversificados e criativos de chapéus.
Seu trabalho é classificado como artesanato industrial e é deste ofício e comércio que vive.
Castanhal é natural de Curupi, cidade que fica na divisa dos Estados do Pará e Maranhão.
Ele faz chapéus desde 1998, é autodidata e aprendeu a confeccionar os acessórios quando viu e desejou uma boina ' style ' na cabeça de um jovem que passava na rua.
A mãe costureira tinha em casa uma máquina na qual, mesmo sem permissão, Castanhal começou as primeiras costuras na tentativa de fazer uma boina como a que tinha visto.
«Eu só sabia dar uns remendos nas minhas roupas, então, ela não gostava que eu pegasse a máquina de ela.
Mas eu esperava ela dormir e começava a mexer», lembrou Castanhal.
Foi numa loja de «usados e quase novos» que ele comprou o primeiro casaco velho, que depois de desmontado transformou-se em duas boinas.
«Eu terminei a primeira, mas ela ficou parecendo um chapéu de cozinheiro, só dobrando e arrumando um pouco ficava bem legal.
Sai com ela na rua e todo mundo comentou que estava ' style '.
De aí vendi a primeira e fiz a segunda, vendi também.
Depois vi que eu podia ganhar um troco fazendo aquilo e até o rapaz da boina que eu tinha visto trocou o chapéu de ele com mim por um que eu tinha produzido».
A boina serviu de molde para as próximas criações:
novos modelos de boinas, girassol, cata-ovo (chapéu do Seu Madruga, personagem do Chaves), cartolas e assim por diante.
Sidnei veio para Macapá pela primeira vez em 2000, depois voltou para a cidade de Castanhal no Pará, onde morava com a família.
Lá teve oportunidade de fazer cursos de gestão e empreendedorismo no Sebrae e participou de uma grande feira, em Palmas, Tocantins, onde conheceu outros micro-empresários e histórias de sucesso.
Retornou à Macapá, em busca do seu e sozinho recomeçou a vida junto à sua inseparável Pedrita, ou Pedra Velha, a sua primeira máquina de costura.
«Eu comecei a ganhar uns clientes, graças ao meu esporte, o skate.
Mas depois comecei a vender pra várias pessoas.
Cada um que compra um dos meus chapéus é um manequim que saí por aí.
E quando alguém pergunta, a galera que me conhece indica o trabalho».
Atualmente nosso protagonista trabalha em sua barraca em frente ao prédio onde antes funcionava a loja Pernambucanas, vende uma média de 15 chapéus por dia quando há dinheiro circulando e diz que o principal público são os jovens que preferem os chapéus de rap ou os de estilo ' regueiro '.
As mulheres adultas gostam dos girassóis e os homens das boinas italianas.
Mas não termina por aqui, o Castanhal, digo Sidnei, é cheio de história.
«Outro dia roubaram a minha mochila com tudo dentro, daí resolvi que eu mesmo ia fazer uma nova pra mim, passei o dia quebrando a cabeça até que ficou pronto.
Saí com ela na rua e já tenho algumas encomendas».
Eu mesma acabei encomendando um mochila depois.
Castanhal diz que a coisa mais importante que aprendeu foi confiar em seu talento e encarar os tombos não deixando a peteca cair.
Número de frases: 30
Veículo de fabuloso fomento à identidade regional, o cordel tem nas camadas populares seus mais constantes e fiéis consumidores, sendo através dos tempos valorizado e cultuado como a verdadeira e autêntica literatura nordestina, o livro de bolso do povo da região.
Há ênfase a diversos clássicos da Literatura de Cordel, os quais são estudados com seriedade em importantes academias espalhadas mundo a fora, não obstante ser recente o estudo desse gênero em Universidade Brasileiras.
Entre esses, destacam-se as produções de Leandro Gomes de Barros, José Martins de Athayde, José Camelo de Melo, José Pacheco, José Ferreira de Lima, entre outros inspiradores do Movimento Armorial, criado por a genialidade ímpar de Ariano Suassuna.
A importância de estudar o cordel em sala de aula está sendo enfatizado em projeto ousado e inovador, por título Acorda Cordel, coordenado por o poeta popular, radialista, ilustrador e publicitário cearense Arievaldo Viana, nascido aos 18 de setembro de 1967, nos sertões adustos de Quixeramobim, terra que também viu nascer o beato Antônio Conselheiro.
Intitulado Acorda Cordel na Sala de Aula, folheto de número 70 da Coleção Queima-Bucha, publicado em Mossoró, Estado do Rio Grande do Norte, em janeiro de 2006, esse cordel traz ilustração de capa do próprio autor.
Vale ressaltar que Arievaldo Viana foi eleito no ano de 2000, membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira de número 40, cujo patrono é o poeta popular João Melchíades Ferreira.
Arievaldo Viana desenvolve sua verve extraordinária alertando sobre a necessidade de primar por normas ortográficas e gramaticais corretas, tendo em vista que o cordel, quando usado para a alfabetização, principalmente de jovens e adultos, deve respeitar a linguagem corrente, sem erros grosseiros que atrapalhem os objetivos propostos em seu projeto de fomento ao processo ensino-aprendizagem.
O autor sintetiza a influência do cordel em sua vida, desde a infância, quando se verificou o contato do mesmo com grandes nomes da literatura regional, cujas histórias eram lidas por a avó com o frenético entusiasmo de quem se rende aos encantos das bravuras e feitos épicos narrados primorosamente em folhetos de diversos mestres do passado.
Arievaldo Viana confessa, sem titubear, que os versos geniais decorados de diversos cordéis tiveram influência mais incisiva que os livros nos quais estudou.
O cordel tinha decisiva importância na formação do povo nordestino em razão do advento do rádio e da televisão ser pouco enfático na época.
A mídia ainda não havia contaminado efetivamente o imaginário do povo nordestino.
A fim de que recuperemos nossa identidade vilipendiada por os rumos da globalização, o autor frisa a importância de que cada biblioteca estruture sua cordelteca como fonte de saber.
Aviso singular quanto à utilidade do cordel está contido na necessidade da observância da métrica, rima e oração que cada folheto deve conter, visto que, na brilhante advertência do autor, deve existir seqüência lógica para que o estudo seja contemplado de êxitos.
A influência da avó é destacada intensamente no folheto, como forma de exaltar a importância do cordel na sala de aula, pois conforme o autor, esta teria sido sua mais completa fonte de inspiração para que se desabrochasse o amor por o gênero mais identificador da verdadeira cultura nordestina.
(*) José Romero Araújo Cardoso.
Geógrafo. Professor Adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.
Especialista em Geografia e Gestão territorial e em Organização de Arquivos.
Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.
Número de frases: 18
Eu nunca falei alemão na vida.
Nem tenho ao menos uma remota origem germânica.
Ainda assim, me senti um descendente de alemães durante o penúltimo final de semana de maio, quando estive na simpática cidade de Estrela, localizada a 113 km de Porto Alegre, no chamado Vale do Taquari.
O motivo dessa sensação foi o tradicional Festival do Chucrute, já em sua 42ª edição.
O evento é uma forma de celebrar a colonização alemã no Rio Grande do Sul, através de danças e comidas típicas, além de competições que remetem a práticas realizadas por os imigrantes quando aqui chegaram.
Minha participação nos festejos começou na tarde de sábado, no Parque Princesa do Vale, onde uma lona no estilo circense abrigava shows musicais ao mesmo tempo em que premiações de uma gincana eram distribuídas no outro canto do local.
Acompanhado por um grupo de amigos, fiz um piquenique na grama, numa espécie de prévia da orgia gastronômica que nos esperava à noite.
Enquanto a tarde caía, fiquei observando o parque e o clima de festa ordeira que reinava.
Devo ter dado um sorriso contido, com uma ponta de inveja por não ter nascido em Estrela e crescido naquela tranqüilidade.
Com a barriga ainda cheia com os lanches vespertinos, rumamos para o Ginásio São Cristóvão, no bairro Boa União, onde estava acontecendo o Baile Típico do festival.
O frio de aproximadamente dez graus na rua logo foi esquecido na entrada do ginásio lotado, cuja sensação térmica era o dobro da exterior, sem dúvida.
Em a recepção, o brinde do evento logo foi entregue:
um copo com o logotipo do festival e dos patrocinadores, que muito seria usado de ali para a frente.
Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção no recinto foram os painéis gigantes nas paredes.
Pintados por um artista local, representavam paisagens tipicamente européias, sendo que algumas casas também podem ser vistas de maneira bastante parecida em determinadas ruas de Estrela, através de construções com o estilo enxaimel.
Os painéis ficaram realmente bonitos, embelezando a festa.
Quando entramos lá, as danças folclóricas já estavam acontecendo.
Por problemas de horário, perdemos a apresentação das crianças, pois ao chegarmos os adolescentes estavam na pista.
Uma pena, mas nada que comprometesse o brilho da noite, já que as demais performances foram excelentes.
Além da representação de danças seculares de origem germânica, a colonização italiana existente no município também foi homenageada, bem como outros povos europeus que influenciaram a dança e os costumes dos primeiros habitantes de Estrela e cercanias.
Perto do final das apresentações e já com algumas providenciais horas de intervalo depois do piquenique, parti pra um dos momentos mais esperados da festa:
a comilança.
Para aqueles não familiarizados com a culinária alemã, a experiência pode ser traumatizante, até.
Como não era a minha primeira vez lá, ansiava por o momento de encher o prato com chucrute -- a estrela da noite, convenhamos, joelho de porco (ou eisbein), língua, cuca e salsicha bock, entre outras delícias.
É nessa hora que, mais do que nunca, me sinto um genuíno morador de lá, saboreando aquelas iguarias com toda a disposição.
São dois buffets extensos que acumulam filas durante todo o tempo em que a janta é servida, das 20h às 23h.
Como não poderia deixar de ser num evento dessa natureza, a comida é livre, ou seja, enquanto o vivente agüentar, pode se servir à vontade.
Me servi duas vezes e só não encarei uma terceira rodada pra me preservar para o momento seguinte do noite, que era o baile propriamente dito.
Afinal, dançar com a barriga cheia demais é suicídio.
Sob o comando da banda La Montanara, a pista começou a ser invadida por os presentes.
Trenzinhos foram formados por gente de todas as idades, embalados por música alemã.
Fiquei de fora nesse momento, esperando a comida baixar e tomando cerveja no copo personalizado que havia ganho na entrada.
Mas observar a alegria do pessoal contagia mesmo, e não demorei muito pra entrar na dança ao som de clássicos das bandinhas alemãs e, na seqüência, aos embalos de vaneirão, pagode, sertanejo, axé e tudo mais que o povo gosta.
Impossível precisar quantas horas fiquei na pista, com algumas pausas humanamente necessárias pra repor as energias (e o copo, claro) e beliscar uns pedaços de cuca com salsicha bock (pode parecer forte demais, mas garanto que desce que é uma beleza).
Só sei que a sensação de estar ali foi muito boa, improvisando passos e coreografias num ambiente familiar, caseiro, por mais contraditório que possa parecer vindo de um forasteiro.
Mas é a realidade.
Recomendo a todos que um dia tiverem a chance de conhecer Estrela que escolham ir pra lá em maio, quando o Festival do Chucrute acontece.
Não importa se virão do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste, do Sudeste ou até do exterior.
A chance de se sentir um pouquinho descendente germânico é bem grande.
Número de frases: 39
E daí pra entrar no clima da festa é um pulo, podem apostar.
Os Jovens do Movimento Enraizados depois de lançarem Cds e DVDs, de produzirem diversos tipos de eventos, comandarem programações de rádio, produzirem curta metragem e documentários invadindo assim o mundo áudio-visual e de colocarem seu portal (www.enraizados.com.br) de entre um dos mais visitados do país (no gênero), agora dão mais um passo longo e importante nessa longa trajetória que estão percorrendo desde 1999.
Os meninos e meninas acabam de inaugurar uma loja virtual chamada Loja Virtual Enraizados, e pretendem assim escoar a produção do hip hop nacional, mas deixam claro que preferem trabalhar com os grupos de músicos e escritores independentes, visto a grande dificuldade de distribuição das produções da periferia.
Sucesso é um fator que acompanha esse grupo de jovens que tiram força dos sonhos pra continuar caminhando, recebem visitantes em seu escritório pelo menos duas vezes por semana, dão palestras para universitários, saem constantemente nos jornais e mostram porque preferem ser protagonistas de suas próprias ações.
Mesmo antes da inauguração da loja, alguns artistas já os procuraram interessados em disponibilizar seus produtos para a venda, que é feita sob o sistema de consignação, mas pretende-se num futuro próximo estar «comprando» um número fixo de exemplares produzidos por a rede enraizados, que já se encontra presente em 16 (dezesseis) estados brasileiros.
Informações
www.loja.enraizados.com.br loja@enraizados.com.br
Número de frases: 7
(21) 3064-4517 (19) 3809-7554
Ana Angélica espinheira D'Aguiar, nascida em 1984.
Mas com ganas de ter nascido em 1952 ...
«Amanhã, vai ser um novo dia ...».
Hoje ao assistir Zuzu Angel, tive realmente vontade de ser repórter, comunista ...
Vontade de ter nascido em outra época, de ter vivido as revoluções.
De ter avançado com as multidões por um ideal que realmente valesse a pena ...
Hoje em dia as lutas são diferentes, os objetivos também ...
Vivemos nesse «ecossistema cognitivo», e tudo está tão comum, que nos parece que a mudança deixou de valer a pena.
Parece que é mais confortável deixar tudo como está.
Que não vale a pena lutar, por que não há motivo de luta.
É como se o ideal de sociedade tivesse sido alcançado.
Mas Como?
Se o que se vive hoje é «ideal», o próprio sentido de viver perde significância, porque essa vida medíocre que somos obrigados a viver a cada despertar, é totalmente mecânica e repetitiva.
Somos livres,
Livres pra trancar bem as portas das casas antes de dormir,
Livres pra não andar na rua após as 22h, ou a qualquer hora sem ter medo.
Livres pra trabalhar 44h semanais por um salário mínimo.
Livres ...
Liberdade ...
O que é liberdade?
Temos liberdade?
Utopia ou realidade?
Somos livres?
Achamos que somos.
Temos escolha?
Sim.
Sim?
Podemos escolher a quem servir ...
Mesmo que seja a si mesmo.
Quando seremos livres?
Nunca!
Ou talvez na não existência ...
Número de frases: 33
Uma pesquisa que está sendo realizada na Universidade de São Paulo tenta mapear as práticas de cultura livre na cidade de São Paulo.
A pesquisa quer descobrir quem são os grupos e indivíduos que realizam atividades criativas que se encaixariam no conceito de cultura livre.
A pesquisa também quer descobrir qual é o entendimento de cultura livre dos grupos, assim como os tipos de licença que utilizam.
A pesquisadora Jhessica Reia, responsável por o trabalho, está disponibilizando um questionário online com as perguntas da pesquisa até o dia 30 de outubro.
O questionário se encontra no site www.gpopai.usp.br/pesquisacl e pode ser respondido por qualquer ator cultural da cidade.
O termo cultura livre, que pauta a pesquisa, foi sugerido inicialmente por Lawrence Lessig no livro de mesmo nome lançado nos Estados Unidos no ano de 2004 (no Brasil foi lançado em 2005, por a Trama).
Lessig se refere às práticas culturais cujas obras são disponibilizadas por licenças alternativas que permitem a livre reprodução e distribuição, podendo restringir o uso comercial e a criação de trabalhos derivados.
Lessig buscou inspiração no movimento do Software Livre, criado na década de 1980 por Richard Stallman para permitir a livre execução, reprodução e modificação de programas de computador.
Ele transpôs os princípios do Software Livre para outras práticas culturais com a criação da Creative Commons, uma ONG que oferece ao público um conjunto de licenças de direito autoral que permitem que os criadores autorizem o livre uso e reprodução das suas obras.
A pesquisa da USP quer ver os efeitos do Software Livre, do Creative Commons e de outras iniciativas semelhantes na cultura paulistana.
A pesquisa já indentificou mais de 200 manifestações que se aproximam do conceito de cultura livre, de grupos de programadores, até artistas plásticos, músicos e escritores.
Este mapeamento da comunidade de cultura livre da cidade será depois disponibilizado na Internet para que todos tenham acesso aos resultados.
Contato:
Jhessica Reia, telefone 2646-7484/ 8644-3938, e-mail:
Número de frases: 14
jhereia@gmail.com Minha primeira lembrança musical consciente foi um rádio-gravador que ganhei de minha mãe junto com duas fitas, uma de Erasmo e outra de Roberto Carlos.
Graças a esse rádio e a uns tios cheguei à MPB.
Muitos anos depois, lancei meu primeiro, por enquanto único e certamente equivocado CD inteiramente -- achava eu -- dedicado à bossa nova;
estranheza geral da parte dos músicos, que achavam o movimento passado e incapaz de despertar interesses.
Estavam certos, em parte.
Hoje, quase uma década depois do 1° CD, sei o que na bossa nova me interessava e interessa:
João e Tom.
Clichê dos clichês, citação sacal, referência obrigatória conservadora, tudo isso junto e muito mais;
que cara chato era e sou eu.
Fazer o quê?
Nada era mais impressionante para mim que ver João tocando e cantando, mesmo lá na distante Belém do Pará, tão fora de rota, tão cheia de si, tão independente de tudo isso.
Mas não adiantava.
Eu queria tocar e cantar assim, mesmo que a geração que mais ouvi e que mais me influenciou diretamente (tome clichê: Chico e Caetano) já tivesse sido influenciada por ele, já fossem portanto seus grandes herdeiros diretos.
Quem poderia me fazer mudar de rota?
Eu estava fadado a nada criar, apenas me bastava chegar perto de João.
Ninguém chega.
Só sei disso agora, tarde demais.
Músico de nada, violão vadio, incompetente, amador, ouvia e ouço João centenas de vezes e não consigo enjoar.
E vejam, enjoei até algumas coisas do Caetano, cuja obra mais conheço.
Mas João?
«Desafinado»? Como ouvir ainda isso?
Não sei, tampouco posso livrar-me dessas audições infinitas.
Estou aqui, escrevendo e ouvindo, tudo novamente, hoje, no seu aniversário, que por pouco não esquecemos:
João fez 75 anos sábado passado.
Como fazer o Brasil ouvir isso de novo se nem João parece certo de que valha a pena?
Ele imaginou um dia o país que sintetizou quando cantava Jobim, Dorival, Noel, sonhou com essa capacidade da língua portuguesa que diz tudo quase muda, viu o país apontar para um rumo;
mais: deu-lhe um leme, inútil.
Tudo perdido.
Somos um fracasso.
Quando ele resolve sair de casa e sentar diante do povo de novo é para fazer lembrar que há algo por o qual ainda podemos viver, que nosso fracasso não pode ser uma entrega definitiva.
Quando aniversaria, diz de longe que estar vivo significa que o país também ainda vive, de alguma forma.
Na contramão da imagem que ganha o mundo hoje via Alemanha, de uma país festivo, jovial, solar, sorridente, competente (no futebol, ao menos) João senta na penumbra e desconfia.
Revira essa imagem de dentro, interpretanto a nação como poucos o fizeram.
É certo colocá-lo junto a Sérgio Buarque, Guimarães Rosa, Caio Prado, Gilberto Freyre, ele também criou um Brasil que se pensa, que se exige, que se olha.
Que triste pensar que ele é quase sempre lembrado como um intolerante.
Quando o é, quer apenas que pensemos mais alto do que nossa história parece nos permitir.
Somos mais do que ele imagina?
Não sei.
Teríamos que provar, e aí estamos empacados, ruminando tentativas, em desespero, sem saídas.
Número de frases: 39
Hoje é dia de ouvir João, e tentar sair da menoridade que nos domina.
Escla, Re, Cido e Vital mudaram-se para minha rua numa daquelas tardes em que o sol lambe a linha do horizonte.
Dia lindo para o que denominei «tabuleiro humano».
Cido era o marido da rainha Escla, Re, a irmã e Vital, o cachorro de todos.
Cido rei era um devasso dissimulado, amava uma irmã por vez, além, é claro, do pião Valdez, que morava ao lado e era cortês.
Não respeitaram a regra do jogo e não usaram o preservativo da sensatez.
Re se deleitava de prazer, enquanto Valdez ostentava a condição de co-concubina com altivez.
Escla desconfiava entre o sim e o talvez -- afinal o amor é cego tanto quanto a estupidez.
Cido e Escla poderiam ter tido belos filhos, Maria, João e Inês;
com Re teria sido felicidade a seis, mas Cido traiu a todas e a AIDS matou os três para depois sucumbir Valdez.
Agora Vital é mau agouro, ninguém o quer, a não ser Montenegro, ex-namorado de Valdez.
Relembrando essa história, percebo que toda segurança está comprometida com mim embaixo do chuveiro, escorrendo lenta, frágil e vermelha por o ralo do banheiro.
Surge então a inevitável pergunta:
serei eu a peça da vez?
Eu que amei Montenegro por apenas um mês?
Enquanto a reposta não vem, a vida continua com seu macabro jogo de xadrez.
Nercy Luiza Barbosa Nos 20 anos da morte do artista o cartunista Márcio Malta (o Nico) lançou a biografia do cartunista mineiro Henrique de Souza Filho.
A biografia «Henfil -- o humor subversivo» percorre o trabalho artístico e a militância por a democracia.
Publicado por a editora Expressão Popular, o livro faz parte da coleção Viva o Povo Brasileiro, e será vendido ao preço simbólico de R$ 4.
Conversei com Nico a respeito, confira:
De LUNA \> Afinal, qual foi a maior contribuição política do Henfil?
Nico -- A conclusão a que chego no livro é a importância da participação política de Henfil, principalmente em 2 movimentos, as «Diretas Já» (batizada por ele) e a campanha por a Anistia (onde um dos exilados era o seu irmão, Betinho).
Ficou também o exemplo da solidariedade e do humor de combate.
De LUNA \> Entre os depoimentos colhidos de amigos, políticos e parentes do artista, qual o que mais te impressionou ou te revelou mais coisas que você não sabia a respeito de ele?
Em termos de carisma sem dúvida o depoimento mais marcante é do histórico militante e advogado Plinio de Arruda Sampaio, que narrou um momento de convivência.
Por outro lado também merece destaque a sinceridade da sobinha de Henfil, Rossana, que trabalhou com ele como secretária e me deu um depoimento bem emocionado, que utilizo na conclusão do livro.
De LUNA \> Ter acesso ao acervo de Henfil, guardado por seu filho, é uma grande honra.
O que mais te emocionou ao abrir o baú?
Nico -- Em a verdade não tive acesso direto ao acervo.
O que relato é que tive o prazer de conceder entrevistas ao lado do Ivan Cosenza de Souza, assim como conversar longamente em algumas oportunidades.
O Ivan esteve sempre à disposição e fez questão de escanear diretamente dos originais as imagens que solicitei para ilustrar o livro.
É um guerreiro ao preservar a obra do pai tão bem com tão poucos incentivos e recursos financeiros.
De LUNA \> Se Henfil fosse vivo, o que ele estaria fazendo e como ele estaria abordando o cenário político deste século?
Nico -- Não posso fazer exercício de futurologia, pois fiz um trabalho de pesquisa e levantamento de fontes para poder fazer considerações acerca da atuação de Henfil.
Mas o que você me pergunta é realmente interessante, pois chego a fazer o apontamento no livro de que uma coisa é certa, Henfil estaria ao lado dopovo e dos trabalhadores, pois smepre os defendeu.
E pode estar certo, estaria indignado com muita coisa.
A questão qe considero como mais interessante é qual seria o posicionamento de Henfil em relação ao governo de seu amigo Luis Inácio Lula da Silva.
Para dar o tom da discussão, segue a transcrição de meu livro em respeito à questão:
Em 1980, o artista assinou o manifesto de fundação do Partido dos Trabalhadores (PT).
Apesar de nunca ter se filiado à sigla contribuiu com desenhos para cartazes, camisas e buttons.
Henfil recusou o convite para assinar a ficha de ingresso no partido -- feito por Lula -- em visita à casa do desenhista.
A justificativa:
«Estou achando a proposta de vocês meio social-democrata, e eu sou revolucionário.
O meu lance é mais embaixo." [
1] O comportamento de autonomia diante de partidos políticos foi uma tônica expressa durante a vida.
Desde os primeiros momentos do PT, o cartunista já destilava críticas nas charges do jornal O Globo.
Questionado por os «companheiros», costumava responder que tinha independência e queria ser um dos primeiros a bater no partido quando o mesmo se desviasse do caminho.
E de fato assim o fez em todas as ocasiões que achou pertinente.
[1] Moraes, Denis de.
O Rebelde do traço:
377.
De LUNA \> E por fim, o que você, como artista, faz para contribuir politicamente no país e na sua cidade?
Nico -- A influência do meu trabalho como cartunista é muito grande, não só por o traço simples e rápido como por o comprometimento político.
Minha vida acabou ganhando contornos parecidos, pois assim como Henrique optei por o curso de sociologia (que ele abandonou para se dedicar integralmente ao desenho).
Penso ainda em fazer a minha tese de doutorado em Ciência Política (PGCP/UFF) sobre a contribuição de Henfil no processo de redemocratização brasileira.
A minha militância sempre correu junto com o desenvolvimento da minha carreira como cartunista e sempre que posso estou ao lado e contribuindo com movimentos sociais, assim como denunciando através das minhas charges as injustiças e corrupção do país.
Número de frases: 56
A banda Latuya, que agora é 100 % carioca, disponibilizou cinco músicas novinhas em folha no MySpace.
Elas vão fazer parte do segundo disco com lançamento previsto para junho deste ano.
A produção é de Flávio Danza e Caetano Salles, respectivamente guitarrista e baixista, além de ambos serem vocalistas.
Completam a banda José Carlos no trompete e Rodrigo Barba na bateria (sim, é o mesmo que fez parte da " Los Hermanos).
«A idéia do MySpace da banda é justamente divulgar as novas músicas do nosso próximo CD.
Quem divide a produção com mim é o Caetano Salles, inclusive é ele uma das boas novidades, cantando e assinando algumas das novas canções», disse Danza, que ainda completou, " a base de guitarra, baixo e batera está sendo gravada toda ao vivo, no mesmo take, sem cortes.
A idéia é fazer o CD soar o mais próximo possível do nosso som ao vivo, sem maiores invenções de pós-produ ção».
Uma das canções que logo chamam a atenção para o novo trabalho é Canto de Iemanjá.
Traz uma letra simples, melodiosa e um arranjo bonito que passa longe dos sambas e axés característicos das músicas que falam do tema.
«Apesar de não ter nenhum elemento de samba ou percussão, ela surgiu como uma tentativa de saudar os afro-sambas.
Inclusive tem uma parte no arranjo de trompete que a gente fez questão de colocar um trecho incidental de Canto de Iemanjá de Baden e Vinicius, assumindo de vez a referência», explicou Danza.
Outro destaque é Sinhá Sinhô onde diz «deixa o samba ferver e a poeira subir / festa já começou, tamborim incendeia».
Mas a música em si passa longe do sambinha e manda ver uma bossa-jazz-latino-danada de boa, sempre marcada por o trompete bem tocado de José Carlos.
Há de se destacar também os vocais graves (sem ser Arnaldo Antunes) e muito bonitos de Caetano Salles em Amanhã.
Latuya nasceu em 2002 como um projeto solo de Flávio Danza, mineiro que fazia heavy metal.
Até que ele mudou de idéia quando foi morar no Rio de Janeiro e conheceu o samba.
Não passou a tocar pandeiro, mas tratou de dar cadência latina à guitarra até desenvolver um som muito próximo ao que a Los Hermanos fez no Bloco do Eu Sozinho.
Os laços com a banda mais famosa tinham o reforço da participação de Rodrigo Barba.
O primeiro EP trazia uma releitura inusitada do clássico latino Bésame Mucho, além de músicas divertidas como a de amor platônico inconformado " Amigo.
«Depois de tomar a forma de banda, com duas guitarras, baixo, batera, chegou ao lançamento do primeiro CD Alegorias Gratuitas em dezembro de 2005.
O problema é que essa formação ficava dividida entre Rio e Minas, gerando grandes dificuldades pra ensaios, shows e composições.
Em esse período a banda acabou virando basicamente de internet.
Quase sem shows, e sem produzir nada de novo.
Essa situação acabou gerando a dissolução dessa antiga formação. (
Se já é difícil manter uma banda com todos morando na mesma cidade, imagina com membros morando a 550 km de distância!!)».
O fato de não conseguir trabalhar bem o Alegorias Gratuitas foi uma pena porque foi um belo disco com poucos pontos fracos.
Ele ganhou inclusive o prêmio London Burning de Música Independente em 2006.
Muitas formações depois, a Latuya parece que encontrou o conjunto ideal em agosto do ano passado sob a forma do que Flávio Danza chamou de trio plus.
«O plus é o trompete do José Carlos», e disse também que a época foi marcada por a entrada oficial de» Rodrigo Barba.
«Desde então, com a formação agora toda carioca, estamos mantendo uma rotina legal de ensaios e shows.
Mas pra mim o fruto maior, são as novas canções».
Com certeza será mais um disco aguardado.
Para ouvir as novas canções acesse:
www.myspace.com/bandalatuya.
Este texto foi publicado originalmente no fanzine Elefante Bu, de Brasília.
Para acessa-lo e fazer o download:
Número de frases: 36
http://elefantebu.poraki.com.br Festival de Campos do Jordão abre inscrições para bolsistas
Evento é um dos mais importantes de música clássica da América Latina.
Serão oferecidas 148 bolsas de estudos para músicos.
Estão abertas até 15 de abril as inscrições para bolsistas do 38º Festival Internacional de Inverno de campos do Jordão, um dos eventos mais importantes de música clássica da América Latina, que ocorrerá entre 7 e 29 de julho de 2007.
Serão oferecidas 148 bolsas de estudos para músicos, dos 12 aos 30 anos, nos cursos de instrumentos, prática de orquestra, música de câmara, regência e composição.
Os cursos de canto lírico e técnica de gravação são para candidatos entre 20 e 35 anos.
Este ano, assim como acontece desde 2004, os bolsistas formarão a Orquestra Acadêmica que tocará e gravará um disco sob a regência do maestro Roberto Minczuk, diretor artístico do festival.
Para Minczuk, «a diversidade cultural aliada a um intenso programa de trabalho e aulas, dão aos bolsistas do Festival de Inverno de Campos do Jordão uma experiência sem paralelo na formação acadêmica».
Pela primeira vez, o Festival terá audições para jovens músicos nos Estados Unidos -- no prestigioso New England Conservatory;
em Caracas, na Venezuela -- país que tem um dos melhores projetos internacionais de formação de jovens músicos, com cerca de 450 mil estudantes -- e em Brasília.
As demais cidades serão São Paulo, Janeiro, Buenos Aires, Santiago do Chile e San José de Costa Rica.
Também serão selecionados bolsistas através de gravações.
Leia na Integra
Festival de Campos do Jordão abre Inscrições De o It:
the end
«Não se submeta «-- assim termina a canção» De o It» de Lenine.
Com esta breve frase, o compositor simbólicamente subverte não somente a estrutura na qual a letra da música foi construída como também o seu próprio tema.
Senão, vejamos.
Quase toda a letra desta canção foi construída sob a base:
«se está com este problema, faça isto (do it)».
Assim, depois de apresentar uma infinidade de «soluções simples para um mundo complexo», num embalo rítmico empolgante, no final, a canção concluí apresentando uma solução para a qual não foi mencionado nenhum problema:
«Se escreveu, remeta
Engrossou, se meta
Quer dever, prometa
Pra moldar, derreta
E não se submeta
E não se submeta."
Desta forma, ocorre então a primeira subversão:
a da estrutura poética sobre a qual a canção foi montada.
A segunda acontece em relação ao tema da canção:
o " do it, isto é, os imperativos do pragmatismo da vida atual -- que nos joga numa torrente de atividades e compromissos cujo sentido e razão nem sempre estão conectados às nossas vontades e que, talvez exatamente por isto, nos leva a questionar o sentido desta correria a qual nos submetemos.
Esse é, portanto, o provável problema colocado por a canção:
os imperativos que nos conduzem à escravidão e ao vazio espiritual.
No entanto, quem hoje pode dizer um não ao " do it e continuar pagando as despesas cotidianas? ...
Mas, ao menos no contexto do show de Lenine, o «não se submeta» é muito contagiante.
Afinal de contas, nada como cantá-lo a plenos pulmões depois de inúmeras tentativas frustadas de lembrar a seqüência dos trechos desta canção cuja memorização é um desafio para o nosso cérebro -- precário e maltratado por as enxurradas diárias de informação.
Chegamos, então, à conclusão que o «não se submeta» seria apenas uma compensação psicológica e performática para a nossa submissão cotidiana?
Nossa libertação estaria, assim, restrita ao plano simbólico e artístico? ...
Bem, isto já seria uma grande conquista, mas penso que podemos ir além.
Dias atrás, por exemplo, tive a alegre surpresa de encontrar esta expressão «não se submeta» num dos livros da Bíblia no que me pareceu ser uma boa aplicação deste anseio comum nos dias de hoje.
Não pretendo fazer grandes citações deste texto bíblico porque este não é, aqui, o propósito e o leitor poderá, se desejar, lê-lo na íntegra consultando a carta que foi escrita aos cristãos que moravam na Galácia e que foram, por isto, chamados de Gálatas -- sendo este, portanto, o nome do livro na Bíblia.
Um dos temas da carta era o seguinte:
o apóstolo, que havia lhes levado a mensagem de «boas novas», lamenta que, depois de um certo tempo, os gálatas tenham voltado atrás no conhecimento de Deus ao se submeterem a um legalismo religioso que nunca fez parte da mensagem de liberdade que receberam.
O apóstolo, autor da carta, então recomenda:
«Para a liberdade foi que Cristo nos libertou.
Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão." [
Gálatas 5:1]
Por que esses cristãos tinham abandonado a liberdade espiritual para se submeterem a formalismos religiosos?
O autor da carta também se pergunta isso e esclarece que as leis de Deus são semelhantes aos ensinamentos que recebemos dos pais quando crianças e que tem finalidade de nos proteger para que possamos chegar bem à vida adulta quando então, com discernimento, haveríamos de fazer nossas próprias escolhas baseado nos princípios que aprendemos.
Assim, não foi porque um dia nossos pais nos disseram «se pediu, agüenta» que devemos fingir, para nós mesmos (ou para a imagem paterna que foi interiorizada), que agüentamos firme enquanto que, na verdade, não estamos suportando uma situação que nos está tirando nossa humanidade ou nossa alma.
Em alguns casos, como disse Cristo, «é melhor que se perca um dos teus membros do que todo o seu corpo». [
Mateus 5:29,30]
Um anti-exemplo deste princípio pode ser visto numa das cenas mais decisivas do filme «O Advogado do Diabo», quando o diabo apresenta, ao advogado, a opção deste deixar suas atribuições profissionais para cuidar da sua esposa que estava emocionalmente fragilizada.
Talvez inspirado por o imperativo (do it) «se pediu, agüenta», ele nega-se a abandonar seus deveres profissionais respondendo que pode dar conta de ambos.
Desta forma, o diabo obtém assim permissão para atingir o seu lado mais frágil (simbolizado por sua esposa) e fazer a devastação moral.
Mas, assim como não precisamos ter uma esposa para reconhecer o nosso «lado frágil», não precisamos também ser tentados por o próprio diabo para nos convencermos que esta questão está sempre diante de nós.
Número de frases: 56
Lembranças de uma década efervescente que fez toda a diferença para a cultura de Cuiabá (e do Brasil)
As manifestações típicas de uma arte mais urbana surgem em Cuiabá nos anos 80.
O mundo já se conectava de uma forma muito mais vibrante e de antenas ligadas numa perspectiva pré-internet.
As informações começavam a circular com muito mais intensidade, uma circulação de idéias e um tesão criativo, uma vontade de fazer muito maior que qualquer barreira, sofrendo as porradas da cultura massificada sob as batutas monstruosas das indústrias dominantes da difusão cultural.
Era o tempo das gigantes.
A década de 80 foi uma década riquíssima em rupturas e buscas por novas alternativas.
Rock na estrada Br abrindo picadas no sertão brasileiro de parabólicas eriçadas em palhoças explodindo metais para todo lado.
Geração 80-Rio-Parque Laje irradiando cores e alegria anárquica, «expressionante!»,
como diz um amigo meu.
Cuiabá era ponto de muitos encontros e rupturas, importantes para a preparação de um terreno fértil onde antevíamos o surgimento luminar de novas cabeças no decorrer dessa trama caótica.
Trouxemos aqui o Aguillar da Banda Performática, vieram poetas marginais, conhecemos Diô, arquiteto carioca, designer, artista gráfico, que agora mora em Barra do Garças (ele acabava de chegar do Rio de Janeiro e fazia parte do movimento da galera da Nuvem Cigana).
Arrigo Barnabé e suas Claras Crocodilos no teatro Universitário.
Havia aqui representantes de peso na pintura da Geração 80, dois monstros como Adir Sodré e Gervane de Paula.
Bandas de rock surgindo e explodindo as garagens, Ss, Caximir, Bloqueio Mental, GTW, Kabalah, Alma Negra, BR 364, Nidhog, Lynha de Montagem.
O teatro maldito de Chico Amorim e o Grupo de Risco, a genialidade de décadas de Wladimir Dias Pino.
Liu Arruda e Chico carnavalizando o escracho cuiabano com suas mais de mil máscaras.
Em os bares do baixo Coxipó respirava-se liberdade e exalava-se criatividade como matriz para um mundo possível, algo que demarcou um período desencadeador de forças que sobreviveram e foram realçadas com toda sua pluralidade.
Acontecia aqui uma efervescência que definiu, mesmo que entropicamente, toda uma seqüência de acontecimentos que legitimam essas expressões.
Uma contemporaneidade antenada nos mais de mil tentáculos da cultura, da política, da arte, da história.
Em 2006, com o surgimento de várias novas expressões e uma nova geração, o discurso é mais organizado, as ações se voltam para políticas de mercado, políticas públicas de cultura e organizações de classe.
Mas o punk não morreu.
Fora os que se foram, a grande maioria das pessoas daquela década estão em franca atividade.
Mário Olímpio, produtor cultural e atual secretário de Cultura de Cuiabá, lembra:
«Os 80 foram a 120.
A vida era divertidamente rápida e a gente pensava que nunca iria acabar.
Se bem que, no eterno retorno, não acabou.
Abertura política, comício das Diretas, colégio eleitoral, Fafá de Bélem, Tancredo, Rock ' n Rio, Mercenárias, Inocentes, Ira, Legião e Paralamas.
Em Cuiabá, nas ruas do baixo Coxipó a universidade federal exalava o perfume da contracultura.
Caximir, bar do Chico, bar do Léo.
Poesia cara trocada por bebida barata.
Ateliê livre, Adir, Gervane, Aline e Humberto.
João Sebastião. Teatro universitário tinha Pixinguinha.
Parece que foi ontem.
E foi mesmo».
Encerro o artigo com os olhos -- orbitais sobretudo -- da professora universitária mais cult de todos os tempos em Cuiabá, a musa mau di " Maurília Valderez:
Adir Sodré e seus caralhos voadores sinalizando e barbarizando o campus da UFMT, Wlademir Dias Pino e muitos outros que faziam parte da galera e também comeram o'biscoito fino ' fabricado por a poesia-literatura filosofia oswaldianas, traçaram a cartografia dessa cidade-sol, plantada no cerrado.
Feito máquina de guerra, invadiram a cidade demolindo seus ídolos.
Havia Caximir, que na época tinha Bouquet e fez um grande estrago na cultura dita local / regional, mostrando que o global era aqui.
Realizando um tipo de experiência criou-se algo que até então a cidade não vira, não ouvira ou sentira, enquanto conde Bakura com seus dentes afiados sangrava palavras e corpos com sua volúpia.
Pura experimentação era o devir-bar Quase 84. Esses visionários que como os animais estão sempre à espreita de algo.
Estavam envolvidos com processos de criação na poesia /pintura/literatura/ vídeo, e nada a ver com representação e interpretação, e sim com experimentação.
Você participou desse banquete devorando suas iguarias?
Eu até hoje tenho o sabor dessa festa na minha boca».
Número de frases: 43
Nelson Rodrigues escreveu que " sabemos mais do esquimó que do piauiense."
Em «Take me back», Juca Chaves faz, em tom de blague, um contraponto entre o mundo sofisticado e o Piauí, tomando o Estado como a antítese da modernidade (o artista é conhecido também por um versinho cretino e impublicável, rimando» Piauí «e» aqui ").
Famosa revista de variedades escreveu em meados do século XX que o Brasil precisava conhecer o Piauí antes que ele acabasse.
Mais recentemente, o escatológico -- para dizer o mínimo -- Mr. Manson, do site Cocadaboa, escreveu um livro chamado «Transpiauí: uma peregrinação proctológica», com o único intuito de avacalhar gratuita e preconceituosamente o Estado (recebeu um tapa de luva de pelica ao ser convidado para divulgar sua» obra «no Salão do Livro do Piauí, prestigiado por autores» de verdade», perto dos quais ele não deve ter sabido onde colocar as mãos, quanto mais apresentar o que " escreveu ').
Além de ele, o importantíssimo Paulo Zottolo, Presidente da Philips do Brasil e um dos cabeças do não menos importante movimento «Cansei» (cansaram tanto que o movimento nem começou), disse em entrevista ao jornal Valor Econômico que " não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez.
Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado».
Em o comments.
Cresci ouvindo piadas sobre o subdesenvolvimento do Piauí, até mesmo de parentes do Maranhão e do Ceará (que, vamos e venhamos, não têm um índice de desenvolvimento humano nórdico).
E o pior é que, como escreveu o Nelson, todo mundo sabia mais sobre Paris, Nova Iorque ou Buenos Aires que sobre Teresina.
Nossos políticos perderam vários «trens da história» -- como a industrialização promovida por a Sudene, um dos mais antigos, e a visão do turismo como negócio e não como cabide de emprego, entre os mais recentes.
Até por a baixa auto-estima que marca minha geração e por a introspecção característica do piauiense, somos reticentes em divulgar nossos aspectos positivos, nossas belezas, nossas potencialidades e nosso recente desenvolvimento.
O site Teresina Panorâmica pretende ser a Pedra de Roseta sobre a Capital do Piauí na Internet.
Em português e inglês, com mais de 400 imagens e cerca de 30 páginas de texto, aborda as raízes históricas e o modo como se deu a fundação de Teresina, mostra como a cidade evoluiu em seus 156 anos de vida e descreve particularidades da cultura, do folclore, da arquitetura e da natureza teresinenses.
Quantos internautas sabem que Teresina foi a primeira cidade brasileira especificamente planejada para ser Capital em substituição a outra, em 1852, antecedendo Belo Horizonte, Goiânia, Brasília e Palmas?
Será que é fato conhecido que dois dos maiores rios do Nordeste, o Parnaíba e o Poty, confluem num belo Parque Ambiental na Zona Urbana de Teresina?
Quem sabe o que foi a Batalha do Jenipapo e qual a sua importância na formação do Brasil como Nação?
Será que a informação de que Teresina é a maior cidade do Nordeste fora do litoral, sede de uma região metropolitana de mais de 1.100.000 habitantes e com um PIB de mais de 6 bilhões de reais não é relevante para divulgação?
Palácios neoclássicos, edifícios art-decó, majestosas igrejas centenárias, marcos arquitetônicos modernistas, modernas avenidas, espigões futuristas, tudo surpreendente para o visitante que esperava um lugar tido como arquétipo de pobreza (que existe, é fato, como existe em todo lugar, mas que nenhuma cidade [ainda que com uma miséria maior e / ou mais cruel] faz questão de mostrar como sua faceta mais marcante) e registrado em fotos que abrem os olhos do mundo -- está em inglês também!--
para um instantâneo de Teresina no começo do século XXI.
Sua localização estratégica, ações do governo e da iniciativa privada e, principalmente, o trabalho de milhões de teresinenses ao longo de um século e meio fizeram a grandeza da Capital, mostrada no site.
A cidade hoje é referência em prestação de serviços especializados, em saúde (um dos principais pólos do país) e educação (mais de 30 instituições de ensino superior, fazendo de ela um dos mais importantes centros universitários do Norte-Nordeste), abrindo novos horizontes de desenvolvimento como a construção civil, o comércio de bens de alto valor agregado em centros comerciais sofisticados e o turismo de eventos, além de um novo surto de industrialização.
Como dizem os teresinenses, permita-se «beber da água do Parnaíba» e, ao visitar o site, conhecer uma cidade bonita, moderna, em expansão e ambiciosa, com pretensões de ser a metrópole nordestina fora do litoral.
Tanto o teresinense como o visitante conhecerão uma cidade pouco divulgada, numa experiência que será, pelo menos, agradável e -- até agora -- única no mundo virtual.
Serviço:
Teresina Panorâmica -- Panoramic Teresina www.teresinapanoramica.com
Número de frases: 25
Vivo e em fase de crescimento.
A definição se encaixa no momento atual da banda Karranka, formada em 2004 e que rapidamente se diferenciou por o repertório de músicas autorais que apresenta.
Com seu primeiro cd em fase de finalização, e agendando uma pequena turnê por o Norte-Nordeste, o grupo promete mostrar que é possível fazer sucesso sem comprometer as particularidades de seu som.
Com Danilo, nos vocais e guitarra, Edílson, nos teclados, Alan, na bateria, e Diego, no baixo, o Karranka apresenta composições cuja maturidade surpreende, e é hoje referência quando o assunto é música no estado.
Atentos a diferentes sonoridades, os músicos procuram assimilar e conciliar estilos na hora de criar, o que resulta em músicas singulares e de caráter introspectivo.
O grupo exibe uma visível maturidade musical, decorrente do tempo de formação, embora pouco, e da bagagem musical adquirida até agora.
«Achamos que a somatória desses fatores se transforma em amadurecimento, que vem de forma natural, com mais experiência na hora de compor, em cima do palco e no contato com o público», definiu Danilo.
Por não seguir padrões pré-determinados, o Karranka encontra dificuldade quando o assunto é classificar seu estilo.
Mesmo assim, o grupo segue com seu trabalho único, cuja base é a criação, sem preocupar-se com rótulos.
Segundo Edílson, as preferências musicais que cada integrante coloca na mesa podem ser observadas no primeiro cd do grupo, que deverá ser lançado no próximo mês.
«Nossas influências e essa mistura de estilos acabam numa sonoridade muito boa, que pode ser percebida no nosso som», apontou o tecladista, que faz parte de uma banda de rock e outra de reggae roots.
«O Karranka mostra seu som no espaço existente entre Beatles, Bob Marley e Eric Clapton.
Nossas influências, apesar de distantes, beberam de fontes parecidas», destacou Danilo.
«Quando estamos tocando, olhar o público é sempre muito bom, especialmente quando eles estão curtindo as músicas, cantando junto e dançando», disse Alan.
«Acho que as pessoas gostam do nosso show porque nós também nos divertimos;
gostamos do som que a gente faz, e isso faz toda diferença», completou o baterista.
Sucessos como «Caminho de Casa», de Nando Chá, e» De aqui Pra Frente», de Igor Melo, já são executadas constantemente nas rádios, ganhando aprovação da crítica, de outros músicos e, mais respeitável, do público.
«Achamos importante trabalhar com outros compositores e intérpretes, mas que isso aconteça de forma natural.
É preciso mesmo haver afinidade», explicou o vocalista, que assina grande parte das músicas do cd.
Além da participação de músicos convidados, o álbum terá uma faixa estimulante, fruto da parceria firmada com o grupo Casca Verde, oriundo da zona rural de Teresina.
«Esperamos que o público conheça nossas músicas e que se identifique com o que está ouvindo;
que seja a música de algum casal, que faça parte da história de alguém», apontou Diego.
Sobre trabalhar com material autoral no Piauí, estado que ainda engatinha quando o assunto é projeção nacional de sua música, Danilo não vê outra forma de conquistar espaço.
Segundo ele, o grupo chegou a conclusão de que, sem distinção geográfica, trabalhar com material autoral é mais difícil, porém mais garantido.
Apesar de juntos há pouco tempo, os músicos já demonstram bastante entrosamento encima do palco, reforçado por a participação da vocalista Tânia.
O resultado dessa mistura é o Karranka, é música que vem do inesperado, e que, por falar sobre o cotidiano e exprimir sentimentos verdadeiros, acaba conectado ao público.
Número de frases: 26
O cd do grupo será lançado com apoio das leis de incentivo fiscal, tanto do estado, através do SIEC, como da Prefeitura, através da Lei A. Tito Filho.
Irrita-me muito quando eu vejo alguém limpando a calçada com jatos d' água.
O cara aqui do prédio do lado faz isso.
Toda semana pega a mangueira e começa a tirar folhas do telhado e do chão empurrando-as com a água que sai da mangueira.
Mas que desperdício, hein?
Vai pegar uma vassoura, ô filho da puta.
Talvez porque eu seja meio que a defensorazinha da natureza, que já fica com a consciência pesada quando toma um banho mais demorado (caô) ou quando deixa a torneira aberta enquanto escova os dentes ou quando gasta papel à toa.
Outro dia no ônibus uma mulher jogou um papel de bala por a janela e eu, sentada no banco ao lado de ela, disse «Tem uma lixeira ali do lado, por que tu atirou o papel por a janela?»,
quando na verdade o que eu queria era ter dado um ' pedala-robinho ' em ela e saído correndo.
O pior é que, no fundo, esses detalhes não valem quase nada.
Porque aí tu liga a TV e vê um navio derrubando 10 toneladas de petróleo numa baía, uma empresa despejando todo lixo num rio, um país não querendo assinar o tratado mundial da preservação do meio-ambiente.
Segue minha teoria:
95 % das pessoas são burras e, das 5 % que restam, 95 % se esforçam pra também ser.
E eu odeio pessoas burras.
* Essa é para complementar o texto acima:
«confesso q ele tem a razão pq quando escutava na epoca q estava para sair quarto dos livros era bala tanto q xous como fresno e lyse em porto alegre era tudo muito bom mas agora tudo é fresno e todo mundo é emo ta foda a coisa mas ainda escuto e ainda considero mas confesso tb q foi uma palhaçada a saida do lezo pq ele ta desde o inicio e ajudou muito a banda pra colocarem outro baixista como se nada tivesse acontessido por tanto fresno mudou sim e naum foi para a melhor "
Eu juro que não sei de quem é a culpa.
De as escolas?
De os professores?
De a internet?
Como esta pessoa vai escrever uma redação no vestibular?
Número de frases: 21
Isso só comprova minha teoria de que a burrice entre os adolescentes está em plena ascensão, e no ano 2060 o mundo vai acabar por alguma estupidez humana.
A Revista Raiz.
completou um ano mês passado.
Em sua primeira edição estampava o Maracatu e num trecho do editorial trazia:
«A missão de Raiz.
é dar a conhecer e fazer consumir a produção cultural popular brasileira em todas as suas expressões -- sonora, iconográfica.
Cênica, escrita.
Os brasileiros se orgulham das dimensões continentais do país, saúdam sua diversidade cultural como uma benção -- mas, «cegos de tanto ver», desconhecem quase inteiramente a riquíssima gama de manifestações da própria cultura de raiz».
Li com uma ânsia delicada de quem ama e tem desejo por jornalismo cultural.
A primeira sensação -- " lá se vêm os folcloristas ..." --
não durou o folhear de algumas páginas.
Junto com o Maracatu, uma entrevista com Gil, o então recém lançado Futura do Nação Zumbi, um artigo sobre software livre e direitos autorais ...
Ilustrando tudo isso um projeto gráfico sóbrio com entradas de matérias de página dupla, um ensaio fotográfico.
Uma revista apurada.
Agora, aproveito a oportunidade da disponibilização de todo o conteúdo da Revista em seu site, além do projeto e-vento:
levantando a poeira da cultura popular brasileira que está fazendo e disponibilizando uma série de entrevistas com artistas, produtores e pensadores em geral sobre a relação cultura popular e mercado, para fazer essa entrevista com Edgard Steffen Junior, editor da Raiz.
As perguntas são um tanto vagas, amplas, apressadas, mas (ou por isso mesmo) a cada resposta vem um «artigo» que deixa claro os rumos da revista, sua avaliação do jornalismo cultural praticado por os grandes meios e a relação da revista com o MinC, um de seus principais patrocinadores.
O nome a princípio da a idéia que a revista que pautaria uma «cultura de raiz», ligada a conceitos como autenticidade, genuinidade, muito ligados a concepções folcloristas.
Mas ao vermos os números da revista, lemos diversas dimensões da cultura popular e sua dinâmica.
Como a revista entende a cultura popular?
Bom, esta é uma questão complexa que mereceria uma entrevista inteira somente para respondê-la, pois estamos falando de identidade, que é um conceito muito amplo e que necessita conhecimentos múltiplos para sua discussão.
Temos ótimas bases com Mário de Andrade, Darci Ribeiro, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freire, Câmara Cascudo e tantos outros que nos dão a régua e o compasso para navegarmos nesse oceano.
Gostaria de esclarecer alguns pontos conflitantes na sua pergunta.
Primeiro, não somos ligados a concepções folcloristas, aliás as abominamos.
Acreditamos que a cultura popular brasileira é uma das únicas culturas nacionais ainda não folclorizadas, daí a sua força e penetração global, tão apreciada como manifestação de cultura e nação.
Pelo contrário, nossa capacidade antropofágica, oriunda de nossa formação mestiça, permite visualizar uma produção cultural particular e inovadora.
O maracatu se funde com o rock, os santeiros se fundem com o cartoon, as danças juntam África com hip hop e assim vamos.
Segundo, para nós Cultura é todo componente que não é oriundo da natureza e, sendo assim, permeia várias atividades humanas.
Como já falamos, nós brasileiros temos um jeito todo especial para tratar dessas questões com criatividade, inovação e incorporação de tudo que nos rodeia -- inclusive fastfood e Hollywood, com alegria e solidariedade.
A cultura popular genuína não é pobre como é vista por os meios midiáticos, ao contrário é riquíssima e conta com público consumidor cativo.
Por isso tivemos que invadir as bancas, a Internet, as livrarias e as bibliotecas que estavam às moscas sobre o tema da Cultura Popular Brasileira.
A apresentação temática diversa da Revista Raiz.
é decorrência natural dessa compreensão de que nossa cultura popular é viva e não produto de museu, não é folclorizada, ao contrário, se manifesta ricamente em várias expressões.
Em a Itália você vai comer macarrão, no México tacos, na Inglaterra fish and chips, no Japão variados sushis, mas, e no Brasil?
Aqui tomamos chimarrão no sul e comemos tapioca no nordeste, comemos tutu de feijão em Minas e moqueca no Espírito Santo.
De a culinária vamos para a música, onde a sanfona da cultura gaudéria é completamente diferente da sanfona forrozeira nordestina.
De a música vamos para as danças, onde a quadrilha junina caipira paulista dança em roda, assim como a ciranda do norte e nordeste, mas com outro apelo e característica.
Enfim, temos fartura cultural e a Raiz pretende ser reveladora, em parte, desse universo dinâmico.
Qual a avaliação que você faz do jornalismo cultural praticado no Brasil atualmente?
Tenho cuidado em falar de nossos companheiros de trabalho, pois também vivemos o dia a dia das indiosincrasias do jornalismo cultural, além do embate com o mercado.
Mas, na realidade não tenho identificado nenhum jornalismo cultural em voga no país.
A imprensa e os famosos «Cadernos 2 de Cultura» não passam de agendas comentadas.
Não se discute cultura e não se divulga nada que não faça parte da dita «Agenda Cultural», que nada mais é do que pauta sobre os espetáculos que estão anunciados nas publicações.
Historicamente tem sido o diálogo profundo com nossa identidade, a alavanca dos grandes processos criativos da nossa história.
A Semana de 22 com o Barroco Mineiro, Villa-Lobos com as cantigas tradicionais e o chorinho, a bossa-nova com jazz e samba, a Tropicália misturando chiclete com banana, o mangue beat trazendo para a MPB a batida seca e ritmada do maracatu.
E poderíamos falar do Cinema Novo, da literatura de Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Graciliano Ramos, Ariano Suassuna e tantos outros.
Então por que esse certo desdém com a nossa cultura?
Por que o preconceito?
É tão cotidiano que a gente nem percebe a beleza?
O jornalismo cultural está devendo e muito, pelo menos a grande mídia.
Raiz se distancia do jornalismo cultural ligado a «lançamentos» e «eventos» para questionar e pensar a própria dinâmica da cultura e políticas públicas para o setor?
O que ocorre é que não cobrimos a cultura de massa, e sim a cultura popular.
Ou seja, nós cobrimos intensamento lançamentos e eventos, mas da cultura popular.
Somos ligados a isso, promover o que está sendo realizado, agora dentro do universo que pretendemos cobrir.
Veja que no fundo a pergunta carrega os vícios e preconceitos vigentes:
eventos e lançamentos populares são «menores» e portanto parece que a Raiz.
discute o sexo dos anjos ou as politicas públicas para o setor ...
Aliás, somos a única revista e o único Portal na Internet com agenda focada na Cultura Popular e nas suas atividades, o volume é grande e as manifestações intensas.
Nosso objetivo é o de dar poro aos porões e nesse processo procurar entender / revelar essa dinâmica.
Se por um lado, o mercado desdenha da Arte Popular, como se ela fosse ingênua e não carregada de significados, vida e inteligência -- apesar de ela ser tão expressiva que mesmo sem alavancagem comercial perpetua-se por tanto tempo.
Por outro lado, o artista popular também tem que se posicionar frente ao mercado, sem medo, porque o medo esconde e o que está acanhado num canto é engolido ou ignorado.
Se olharmos nosso passado recente vemos que todos os avanços culturais brasileiros vêm no sentido do resgate de nossa identidade para, a partir dai, traçar novos caminhos.
O que foi a semana de 22, a Tropicália, o Mangue beat?
Se imaginarmos o Brasil de Villa-Lobos, Drummond, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Vinícius de Morais trabalhando como agentes governamentais.
Se pensarmos no CPC da Une de Odvaldo Vianna Filho -- O Vianinha -- e de Dias Gomes, o Teatro Arena, o Show de João do Vale e Bethânia da onde sempre lembramos do «Caracará», João Gilberto e Tom Jobim cozinhando o samba com o jazz, os festivais de música enfim a lista é grande e significativa.
Luiz Gonzaga e o baião foram campeões de vendas na década de 40, o samba na década de 50, a bossa nova na década de 60, daí veio a ditadura e o «Ame-o ou deixe-o», que contribuiu para deixar a pecha nacionalista como uma» coisa de milico».
Ao mesmo tempo a economia americana preparava-se para a sua internacionalização, com a cultura do «way of life» a frente.
Quebra-se o ciclo virtuoso.
Os nossos valores passam a ser tratados como «menores», sem» tecnologia», sem «glamour».
O popular ficou sendo o brega.
Até num processo de resgate, como o Programa Central da Periferia da TV Globo, apresenta nossos valores como aqueles da cultura de massa.
A distinção clara entre cultura popular e cultura de massa muitas vezes são fronteiras tênues.
O Ministério da Cultura tem seus projetos constantemente pautados na revista, além de ter algumas páginas patrocinadas.
Como fica a autonomia da revista em relação ao Minc?
O Ministério da Cultura desenvolveu um ritmo muito grande de ações culturais na gestão do Gilberto Gil.
Cultura entrou na ordem do dia com peso e respeito.
Como decorrência surgiram muitas pautas;
lugares e pessoas esquecidas foram lembradas, a não discriminação da nossa cultura de raiz também.
Esse cenário proporcionado por o MINC alavancou o tema da Cultura Popular.
Além de outras questões importantes como a questão digital, dos softwares e licenças livres;
ou dos Pontos de Cultura, que é uma nova maneira de implementar políticas públicas.
Agora, a cultura popular por sua quase ausência do mercado de entretenimento ou cultural se apóia hoje enormemente no Estado, do nacional ao local.
Então o MINC aparece como um agente importante no processo.
Naturalmente abrimos um espaço na Raiz.,
que na minha opinião ainda não foi potencializado, para retratar esse cenário do Ministério da Cultura, informando a sociedade e os artistas do novo processo e oportunidades em curso.
Agora, a dependência com o MINC é nenhuma.
Nunca ninguém me ligou falando para fazer isso ou aquilo, ou então criticar algo.
A postura do MINC tem sido muito positiva no sentido de fornecer informações.
Alguns falam que este espaço aberto para o MINC pode levar a Revista a ser «chapa branca».
Eu não preciso nem responder, pois a Raiz.
se explica por si.
Coloco uma questão, qual é a chapa da Veja, ou do O Globo, ou da Bravo, ou do Jornal Nacional.
São isentos?
Não acredito em isenção.
Número de frases: 94
Nós somos totalmente tendenciosos para com os artistas populares e para com a nossa cultura de raiz, que é viva e moderna, exatamente o que a grande mídia não quer deixar transparecer.
Conhecendo ao longo desses 12 anos de computação, tenho 26 anos, nâo venho aqui como dono da palavra, mas como um observador.
Hoje uso o ruindows mais tenho em minha máquina o linux que uso muito, o mac apple se eu podesse comprar um compraria, não só por o sitema mas a máquina que vim a conhecer com colegas de faculdade.
O que venho observar é a parte social, onde vivemos no mundo virtual, globalização com informação, mas isso tudo expandido de forma eficiente e barata, eficiente porque o ruindows que todos criticam e um sistema intuitivo trabalhado que atende a massa leiga (cheio de falhas funcionais), defendo isso porque aprendi o conheci o 3.1 com pouca leitura, unix antigamente isso era impossível cheio de comandos, apesar que o mac teve iniciativa da interface grafica ele nunca chegou no meu meio social aqui em recife (classe media, hoje já este fato melhorou) era para poucos e poucas lojas.
A parte barata do ruindows é porque ele deixou ser pirateado facilmente até a era XP, e nunca vi ninguém tendo sua casa invadida porque usavam sistema operacional pirata, cocheço sistemas com proteção chata, a microsoft poderia simplesmente desativar seu windows se entrasse na internet sem ser horiginal, mas nunca fez.
O uso em todos os cursos de computação que conheci, depois de muito tempo paguei um professor de linux com um grupo de amigos, ele vinha da paraiba dar aulas.
Windows conseguio se expandir mundialmente apesar de ter muitos erros, ser caríssimo para as empresas, instituições e usuários, estou falando que o empresario Tio Bill tem seu merito dessa Geração Digital, realmente hoje uso windows e linux pq não tenho mac e não tem macromedia, corel e adobe photoshop para Linux.
Número de frases: 7
Então não me convence o mundo falar tanto mal do windows em vários lugares e criticar, ele com todos os problemas, valor alto e criticas está em nossas vidas, espero que a empresa microsoft sobreviva ápós o vista por que esta muito dificil vender sistemas operacionais sem deixar-se piratear.
Semana passada, numa espécie de nostalgia vaga, provavelmente provocada por as reflexões que fiz ao ver minha cidade por a janela do avião quando chegava à Vitória, escrevi um pequeno poema chamado Medo do Mar, sobre as modificações por as quais ela passou durante a minha vida.
Foi exatamente durante a década em que não morei aqui que Vitória se transformou radicalmente.
E, por não estar por aqui, não acompanhei o dia a dia dessas mudanças, ocorridas na década de 80.
Acho que daí me vem essa sensação vaga de não ser de lugar nenhum:
não tenho muitos pontos de apoio na arquitetura ou na paisagem para ancorar as lembranças de minha infância e adolescência em Vitória.
A maioria foi demolida ou radicalmente modificada por o processo de modernização e ampliação da cidade.
Em uma dessas coincidências (ou confluências) da vida, fui ver nessa semana a exposição Vitória em dois tempos -- fotos aéreas de Paulo Bonino, na Estação Porto.
De ela só tinha lido aquela informação vaga dos guias de jornais, de que a exposição era de fotos aéreas de Vitória.
Fui vê-la por o Bonino, fotógrafo das antigas que admiro faz tempos e que, acho, tem o trabalho mais sólido que já vi na sua especialização, os beija-flores.
Conheci Bonino pessoalmente quando fazia meu trabalho de conclusão do curso de jornalismo no final dos anos 90.
Meu tema era o fotojornalismo no estado, do início até a profissionalização, no fim dos anos 70.
Paulo Bonino foi um das dezenas de fotógrafos, jornalistas e editores entrevistados que me ajudaram a construir um painel da profissão no Espírito Santo.
Já conhecia seu trabalho com os beija-flores, por o qual ele é reconhecido e premiado no mundo inteiro.
Sabia, também, que ele tinha fotografado para algumas das boas revistas capixabas que desapareceram no início da década de 80, engolidas por as grandes empresas jornalísticas e editoriais.
Em a ocasião em que fui à sua casa entrevistá-lo para meu trabalho, pude constatar com prazer que seu trabalho fotojornalístico é de primeira, no nível dos grandes fotógrafos da agência Magnum (não por acaso, Cartier-Bresson é seu guru fotográfico).
Mas não conhecia seu trabalho de fotografia aérea, embora ele atue nessa área desde a década de 60.
A exposição fez muito mais que matar a minha curiosidade sobre como ele se saía com as fotografias aéreas e aumentar minha admiração por o profissional Bonino.
Ela me levou de volta a uma Vitória que só existia ainda na minha infância perdida (e na de muita gente que, como eu, viu Vitória uma ilha).
E, de alguma forma, me reconciliou com a cidade e suas transformações.
A mostra foi elaborada por o fotógrafo David Protti e por a arquiteta Clara Miranda, ambos professores da Ufes.
Tem uma concepção perfeita para um mergulho no passado da cidade.
É composta de 40 painéis fotográficos, tamanho 60X90, organizados dois a dois, retratando um mesmo local em duas épocas diferentes (década de 60 até 2005), com texto localizando a área e apontando as referências atuais.
Assim, tanto as crianças como os mais velhos visitantes podem se transportar para as imagens e perceber as modificações por os quais o local retratado passou de 1960 até 2005.
As fotos, que fazem parte do acervo da Secretaria de Desenvolvimento da Cidade (Sedec), são belíssimas e absolutamente nítidas, o que faz a nossa viagem ao passado por meio de elas muito mais emocionante.
Para as crianças há ainda um quebra-cabeças feito com grandes cubos, que formam seis fotos diferentes.
Para auxiliar na montagem do brinquedo, um grande ploter de uma imagem de satélite da cidade foi afixado ao chão do Armazém.
Diversão garantida para a criançada que visitar a Mostra.
Chama a atenção, porém, um ponto negativo:
para uma exposição que pretende ser permanente, a mostra tem uma estrutura muito frágil.
É impossível deixar de notar que alguns dos painéis estão empenando e os ganchos que os prendem estão se soltando das estruturas de suporte.
A administração da Estação Porto deveria dar mais atenção para esses detalhes importantes.
Afinal, o trabalho de Paulo Bonino e a cidade de Vitória merecem um cuidado maior na apresentação.
Apesar disso, Vitória em dois tempos emociona.
Vendo uma das fotos preto e branco da década de 60, que mostra a Ilha do Príncipe e a Ponte Seca, ainda visíveis em suas formas de ilha e ponte, transportei-me para uma tarde na casa de minha falecida tia-avó Arabela, no alto do morro Santa Clara, quando ela e sua vizinha Lilica, ambas com seus oitenta e tantos anos, suas vozes suaves e suas memórias afiadas, me desvendaram um mapa da Vitória antiga, para além dos prédios que meus olhos viam da janela.
Acho que o grande mérito dessa exposição é esse:
desvendar uma cidade perdida por as transformações urbanísticas, nos fazer entender onde estamos e nos reconciliar com nossa história.
E, principalmente, nos fazer refletir sobre que cidade queremos ter no futuro.
A Mostra Vitória em dois tempos -- fotos aéreas de Paulo Bonino, inaugurada dia 8 de dezembro, é permanente e está na Estação Porto, no Armazém 5, do Cais do Porto.
Número de frases: 39
Pode ser vista de terça a domingo, das 11h às 22h.
A Revista O Pavio é mais um poderoso instrumento de difusão de idéias originais no Amapá.
Ela é o primeiro projeto aprovado por o Conselho Estadual de Cultura para fazer uso da Lei Estadual de Incentivo a Cultura e já possui distribuição em Macapá, Santana e Laranjal do Jarí.
Com o slogan «Informação não precisa ser chata» e com a tiragem de 3.000 exemplares a equipe da revista, com seu formato de 28X42 cm, já lançou duas edições (e a terceira já está no forno) cheias de charges, imagens, dicas de HQ ´ s e Internet, resenhas de livros e filmes e matérias que se reportam, principalmente, ao universo acadêmico e pré-universitário.
Além disso, suas páginas são carregadas de humor que se reportam a questões locais e cotidianas como, por exemplo, o quadro «Positivo e Operante» onde se pode saber as situações mais inusitadas registradas nos CIOSPs (Centrais Integradas de Polícia) da cidade, contadas por quem mais entende do assunto:
«Os polícia».
Outros conteúdos engraçados e (sempre) atuais são os que estão na série especial sobre os buracos nas ruas da cidade de Macapá, assim como o de outros problemas e discussões locais, mas para resolver estas dificuldades e atender melhor à demanda da equipe a Revista O Pavio conta com uma gama de personagens e Super Heróis, caso de Xibé Kid, um caboclo muito louco do Abacate da Pedreira (localidade do interior do Amapá).
Ele estuda Física Molecular pós-Moderna no Massachutes Institut of Tecnology do Abacate da Pedreira e que, vez em quando, passa férias em Macapá, posando de editor chefe da revista.
Além disso, podemos contar ainda com a presença do Capitão Albatroz, um super herói que não se manca em pensar que é Super Herói, apesar de ser muito famoso nas Ilhas Canárias ao contrário do Capitão Açaí, um herói vitaminado e infalível, mas por conta de tomar muito açaí acabou ganhando uma barriga um pouco avolumada.
Depois de ter lido a revista e ter encontrado muitos temas interessantes, sentimos a necessidade de conhecer melhor o projeto e o processo da Revista O Pavio e fomos em busca da Diretora Geral, Cíntia Souza:
Fale um pouco sobre o processo de aprovação do projeto na Lei de Incentivo a Cultura, já quem ele foi o primeiro.
Eu e o Elton (Diretor de Marketing, criação e vendas) elaboramos o projeto com a ajuda de uma consultoria.
Depois colocamos o projeto para aprovação na comissão técnica da Fundecap (Fundação de Cultura do Estado), que por sua vez encaminho para o Conselho Estadual de Cultura.
De aí foi parar na mão do relator, representante da Comissão de Letras (do conselho), o Pantoja, que defendeu o projeto com muita emoção e isso ajudou muito para que ele fosse aprovado unanimemente por todos os conselheiros, apesar de alguns não acreditarem muito nessa história de revista-humor informação.
Imagino que tenha sido uma longa trajetória, não?
Mas fala mais sobre o processo de formação da revista e explique mais esse lance de revista-humor informação ":
Em 2001 eu estava voltando de Mogi (SP), de onde tinha acabado de pedir a transferência do curso de jornalismo para cá (Macapá).
De aí tive a idéia de publicar uma HQ, mas com personagens regionais.
Seriam Super Heróis que defenderiam a Amazônia contra a invasão da superficialidade promovida por o exagero consumista.
Então eu fui reencontrar o Elton, porque ele gostava de rascunhar e era engajado no movimento secundarista, foi membro da diretoria da Umes (União Macapaense dos Estudantes Secundaristas) e eu era integrante da SLOM (Semente Libertária Organizada de Macapá) -- um coletivo Anarco-Punk formado por Eron, Buba, Picolé, Marcelinho punk, a Lana, o Ailzo, o Boca (Paulinho) e mais uma pá de gente.
Nos encontramos, discutimos a idéia, chegamos a projetar uma boneca, mas outras coisas aconteceram e acabamos engavetando o projeto.
Mais tarde a gente resolveu publicar reportagens sobre música, esporte e cultura, na época nós chamávamos a revista de «Pavio Curto», chegamos a reunir duas equipes de jornalistas e chargistas, antes de vingar.
Em o ano retrasado, depois que a lei foi homologada, a gente conseguiu montar «a equipe».
Desde então trabalhamos a informação, por a necessidade de cumprir meu papel social (primeiro por ser um lance pessoal e depois por a carreira mesmo -- se bem que uma coisa tá bem ligada a outra.
rsrsr). Humor a gente também justifica como uma necessidade no cotidiano.
Confesso que já não tenho tanta motivação, mas sei que nessa vida é preciso rir, e de nós mesmos, o que é pior rsrsrs.
Qual a equipe que está consolidada na revista hoje?
O Ivan Carlo foi contratado como editor chefe, ele já ganhou prêmio literários, às vezes assina como Gian Danton (você pode achar muito sobre ele na net), é amante dos HQs e um dos mais entusiasmados.
O Elton é o diretor comercial e também responde por a criação, a gente prima muito por a qualidade da criação, pois a linguagem visual tem que ter o mesmo nível dos textos.
Tem também 2 jornalistas de prima:
A Ronelli Aragão, uma mola muito criativa, ela é uma ótima repórter, usa muitas entrevistas para poder escrever.
Além de ela e de mim, trabalham outros jornalistas, como o Ivan Carlo e Ana Girlene.
Temos colaboradores como o João Bolero Neto, que escreveu umas notas nesta segunda edição e o professor Wirlei de Oliveira, que escreveu um artigo sobre as desventuras da língua portuguesa.
E nessa mesma coluna, porém, na primeira edição publicamos um texto da professora Clébia.
Os dois dão aula em cursinhos.
De aí temos a equipe da arte, os chargista:
Andrew, Honorato, Dinaelson, Edricy e o Ronaldo Rony.
O Elton finaliza no photoshop e também faz as outras ilustração com montagens.
Além de eles tem a equipe da distribuição:
Número de frases: 39
Nauber, Aracy, Manuela e Bruna e o Cici, que é o diagramador oficial, mas que, na verdade, só aparece aqui uma vez pra formatar todo o material na linguagem da gráfica, pega o trabalho já praticamente todo pronto.
A os 85 anos, Apolônio era um homem desconfiado das modernidades e amante da música.
Não era um sestro adquirido recentemente com a idade, vinha de antanho.
Imagine que se rendeu ao automóvel somente quando o Ford Bigode já era peça de museu.
Muito contrariado aposentou a alimária -- a velha burra das longínquas viagens.
Sem exagerar nas concessões, aboletou-se justo num fordinho desses.
Mas, decidido a romper princípios -- para os mais novos mania de velho --, foi a uma loja comprar um Toca CD.
Voltou animado com a novidade e dois cds para testar o bicho em casa.
Não deu sorte.
Qualquer coisa não funcionou.
Escusou-se dos tradicionais tapas, como fazia nos antigos aparelhos -- para pegar no tranco.
Levou-o na loja imediatamente.
Lá ouviu o polido vendedor dizer que não podia trocar por outra a «vitrola», como o velho chamava o Toca CD.
Para isso é que existia a autorizada.
Que levasse lá, ela resolveria o seu problema.
Saiu pisando em brasas.
Levar em assistência técnica?
Tinha muita graça.
Em a volta passou diante de duas de elas e nem deu bolas.
Eram uma gatunagem essas oficinas.
Tinham fachada com linhas agressivas, cheia de vidros espelhados, front light e muitas outras modernas enganações.
Pura aparência.
Chegou em casa.
Foi quando se lembrou do Joca.
Havia tempos não o via.
Ainda estaria vivo?
Era ótimo para consertar gramofones.
Se continuou na profissão, devia estar atualizado.
Alguns contatos e o Joca apareceu reclamando dos achaques da idade.
Tinha 90 anos.
-- Imagina que fui ao médico e ele quase me matou de susto, me inventando uma tal de tuberculose.
Eu olhei pra ele -- que pena!
Era novo o talzinho.
Eu disse:
«não me invente doença, doutor, que tudo que tenho é uma tísica».
O Joca atacou o aparelho.
O caso era sério.
Apolônio ajudou dizendo que o vendedor suspeitava de defeito no ' carrossel '.
-- Humm!--
suspirou desanimado o Joca -- Nunca pus fé nessas tecnologias.
Têm muita utilidade num só treco, parece Bombril.
Daqui a pouco vão querer que mostrem imagens junto com o som (referia-se ao DVD, que desconhecia).
-- E tem jeito a geringonça?--
sondou desanimado o Apolônio.
-- Jeito tem, mas quando isso começa a estragar um leitor ótico, um ship, um hardware, um software ...
não pára mais.
Tudo se complica.
Fez umas adaptações para funcionar melhor.
Colocou um suporte sobre o carrossel, ligou fios não sei onde, e um prato de um aparelho três num que o seu Apolônio tinha na despensa.
Substituiu o leitor ótico por a agulha.
Abandonou os cds.
Funcionaria com o LP.
Apolônio tinha muitos de eles.
Era uma tecnologia de transição, sujeita a falhas.
Mas melhor que essas eletrônicas, não tinha dúvidas.
Não funcionou.
-- É mais grave do que eu pensava -- e foi para casa, prometendo voltar com algumas peças sobressalentes para novo conserto.
E voltou dias depois porque era responsável.
Puxava de uma perna.
Comentou com o Apolônio.
A demora se explicava com o médico.
Sorriu." Velho é como carro novo, vive em revisão», filosofou.
«Ele me veio com uma tal de artrite.
Eu balancei a cabeça.
Coitado, que erro de diagnóstico!
Você sabe que a gota é o meu inferno».
Havia trazido um achado.
Peças de uma velha vitrola.
Leu nos olhos do Apolônio satisfação e reconhecimento.
Fez emendas com o que sobrou do Toca CD, do três num e da vitrola.
Engendrou um monstrengo.
Estava agora o aparelho apto a execuções em três velocidades:
33, 45 e 78. Satisfação no rosto do Apolônio.
Competência nas mãos do Joca.
Deixou para testar no dia seguinte, depois de resgatar do esquecimento uns pesados discos de cera de carnaúba.
-- Decepção, Joca.
Nada funciona -- era o que dizia seu Apolônio no telefone ao Joca, no dia seguinte.--
Vem voando consertar.
E ele foi lá na bucha.
Desistira dos médicos e dos diagnósticos errados.
Trazia ecos do passado que fizeram o Apolônio viajar no tempo.
Peças de um velho gramofone.
Foram horas de labuta.
Seu Apolônio inquieto.
Joca mexendo no aparelho e ele lustrando os pesados discos de carnaúba.
Fim do trabalho.
Era impossível não funcionar.
Pôs o disco, a agulha delicadamente sobre ele, acionou a manivela e sentaram-se em cadeiras de palha.
Um som de gato arranhando vidro brotou da geringonça.
Contentamento dos dois.
A voz roufenha e distante de um cantor, quase ininteligível e soterrada por mil ruídos, surgiu do passado.
Apolônio olhou emocionado para o Joca, ali sentado.
Ele sorriu, desculpando-se.
Havia terminado o serviço e também queria ouvir o prodígio.
-- Isso que é som!--
suspirou Apolônio.
Número de frases: 96
Janga e os animais, uns irracionais outros nem tanto ...
A o falarmos em pantera, pode ser que nos venha à mente a figura de mulheres bonitas da alta sociedade, como era de hábito Ibrahim Sued usar em suas metáforas.
Em o meu caso particular, cada vez que falo em pantera, me vem à mente a imagem mais do que felina de Leila Diniz, inesquecível com sua beleza rara e cativante.
Ainda criança, sem saber ao certo o que era sensualidade, eu vislumbrava naquela nereida formosa, de contornos perfeitos o que, mais tarde, viria a aprender como sendo feminilidade.
Mesmo com a pureza de criança, mas já despontando um bom gosto latente, quando eu via Leila, o mundo ficava paralisado ao seu redor.
Agora não é metáfora, é literal:
Leila conseguia paralisar tudo e todos ao seu redor.
Que mulher bonita!
A rua que inspirou meu avô, depois que o Rhenânia foi destruído por os nacionalistas mais exaltados, a dos Jangadeiros, era muito mais residencial do que comercial.
Havia, no entanto, um minúsculo teatro, que de tão pequeno era chamado Teatro de Bolso, bem de frente à Praça General Osório, onde Leila começou sua carreira como atriz.
Ali também era um reduto da liberdade e, portanto, da boemia, duas palavras que, não só em Ipanema, e nem só na década de 60, andaram sempre juntas:
boemia e liberdade.
Várias peças foram encenadas no Teatro de Bolso.
Evidentemente que, sendo criança, oficialmente eu não poderia sequer chegar perto, quanto mais assistir a um dos espetáculos ou filmes ali exibidos.
Mas como eu era «da casa», havia vezes em que eu ia para a saletinha de iluminação e projeção, e, de ali, me deliciava com as peças e com a beleza estonteante da pantera.
Não me recordo com exatidão do nome de uma determinada peça, que eu não assisti (nem da saleta de projeções), mas que foi muito comentada durante décadas, chegando a entrar nos anais da história de Ipanema, por causa de uma cena inusitada.
Em o enredo da peça havia uma cena em que um cachorro atravessava o palco, sincronizadamente após um comando de voz, era a deixa em linguagem teatral, para que o cão fizesse sua aparição.
Mas aí veio o problema:
que cachorro-ator poderia desempenhar aquele papel aparentemente simples, mas que na realidade era dificílimo?
Sim, pois seria um problema ter que adestrar um cão só para isto.
Tanto o diretor, quanto contra-regras e equipe de apoio, além do elenco, ficaram num tremendo dilema, a ponto de cogitarem o corte desta cena importante.
Em esta época, um habitante das ruas ipanemenses, um cachorro vira-lata, de porte médio para grande, que atravessava a rua Visconde de Pirajá, então de mão dupla e com bondes, com maestria e responsabilidade, olhando para a esquerda e para a direita, antes de dar o primeiro passo, de por os acinzentados, longos, mal tratados, sujos e que frequentemente era visto entre as mesas que se situavam na calçada em frente ao Jangadeiro, foi aventado para desincumbir a tarefa de atravessar o palco, mas no momento certo, quando da deixa de uma das falas do texto.
Como era um morador de rua e seu por o era longo, foi apelidado de Barbado, com o tempo chegando até a atender mesmo por este nome a quem o chamasse, desde que fosse pessoa conhecida.
Barbado tinha um bom relacionamento com os vários segmentos de freqüentadores boêmios do Janga, era manso e dócil, e acompanhava muitos bebuns, já de madrugada, até suas respectivas casas, pelo menos até às portarias dos prédios onde moravam os que se excediam no álcool.
Ele fazia parte da turma.
Era alimentado com restos de filé, pizza, peixe e até frango com osso (sem se engasgar), jogados à beira da calçada por os habitués do bar.
Por o que o ator Antônio Pedro me falou, ali estava a solução para o problema, mas esta solução gerava um outro problema:
Barbado atendia por o nome, desde que o chamassem de Barbado.
Tinha desenvoltura e finesse, mas teria que atravessar o palco no momento certo, quando da deixa que fazia parte do diálogo da peça.
Só que o Teatro de Bolso era mínimo, não se podia, mesmo que sussurrando, chamar Barbado por o nome, pois fatalmente este sussurro seria escutado por a platéia, fato que não poderia acontecer.
Havia ainda um outro problema subjacente, como garantir a presença de Barbado assiduamente à hora em que a peça fosse encenada, nas noites de espetáculo, se ele era um vira-lata de rua?
Para todo problema há solução.
Seguindo à risca a sugestão dada por algum biriteiro do elenco:
antes da peça começar, alguém da equipe teria a incumbência -- fácil -- de, primeiro, localizar Barbado, e atrai-lo para o Jangadeiro, onde seria mantido à base de mimos.
Degustando pedaços de filé, peixe, pizza (esta tinha que ser de alicci ou de alcaparras) angariados junto aos fregueses que jantavam nesse horário, Barbado ficava entretido.
Assim que a peça começasse, levava-se o cachorro até o Teatro de Bolso, o que também não era complicado.
A mesma pessoa encarregada de levar Barbado ao Teatro, deixava-o aos cuidados da equipe que o introduziam na coxia, local em que se sentia muito à vontade, por os carinhos que recebia.
Em este ínterim, a pessoa que o havia levado ao teatro voltava ao Jangadeiro e providenciava a «varinha de condão» que faria a mágica da cena dar certo.
Apenados com a mascote dos boêmios, após lhe darem de comer, habitualmente, os amigos de Barbado não lhe davam água, mas sim chope, que era servido numa vasilha metálica exclusiva do cão amigo.
Esta vasilha era a «varinha de condão».
Ela era levada ao teatro enquanto Barbado ficava à espera da deixa.
Em este momento, a vasilha, com chope evidentemente, era passada da bilheteria para o lado da coxia que seria o destino do passeio canino por o palco.
Aí estava o segredo do timing e da assiduidade do cão-ator, que jamais faltou a um espetáculo enquanto fora encenado.
Barbado viveu nas ruas próximas à Praça General Osório durante anos, sempre alimentado com restos de comida de «bacana», regada a chope gelado, de primeira qualidade, com pressão, isto é, com espuma, como se deve servir um verdadeiro chope.
Acredito que Barbado esteja no Céu dos bebuns, fazendo companhia aos que lá estão.
Causa-mortis?
Possivelmente velhice abreviada por cirrose hepática ...
Mas deve estar feliz, pois certamente fica o dia inteiro aos pés da pantera Leila!
Número de frases: 48
Todo domingo, às 18 horas, sintonize e aumente o som na rádio Mundo Livre 93,9 FM em Curitiba para ouvir as bandas independentes da cidade (quem for de outras localidades pode acessar o site: http://mundolivrefm.rpc.com.br).
O novo programa Acústico Mundo Livre mostra a performance dos grupos, além de trazer um bate-papo contando a história e os planos da banda entrevistada naquele dia.
Com a direção artística do já conhecido da cena, Helinho Pimentel, e da apresentação e direção musical da roqueira, Marielle Loyola, o programa quer proporcionar um novo espaço para diferentes estilos musicais na rádio.
Toda semana um grupo entra no Nico's Studio para gravar dez músicas em formato acústico.
De esta captação soma-se ao próximo programa com outra banda em estúdio num encontro quinzenal no palco do Jokers Pub Café.
Isso mesmo, além do grupo gravar seu som, vai ter a chance de tocar na mesma noite com uma outra banda diferente de seu estilo para o público presente no bar.
Quem deu o ponta pé no programa foi o Terminal Guadalupe.
Com cinco anos de estrada e quatro discos gravados, o quinteto liderado por Dary Jr mostrou uma desconstrução musical caprichada nos mínimos detalhes na estréia.
Como foi o caso de «Pernambuco Chorou», que ficou refrescante com a nova roupagem que o quinteto deu à canção.
Em o próximo domingo quem faz o som no Acústico Mundo Livre é o Black Maria.
De aí sim, no dia 15 de agosto acontece a festa onde une -- neste primeiro evento -- Terminal e Black no palco do Jokers.
A idéia de juntar o programa na rádio e o show no bar já estava nos planos de Helinho há quase um ano e agora com o suporte de parceiros -- o programa Plug, da RPC;
o bar Jokers;
o Nico's Studio e o jornal Gazeta do Povo --, finalmente o projeto saiu do papel.
«Encontramos o formato, o dia do programa, selecionamos as bandas, o estúdio, as principais coisas foram conseguidas.
Agora o nosso próximo desafio é ter um registro bacana, diferente da banda ir gravar num lugar convencional onde edita.
Aqui não, é a gravação ao vivo», conta o competente criador do projeto, que já tem no currículo a fundação da rádio Estação Primeira, Rock FM, além da direção do primeiro festival Lupaluna que aconteceu em abril que contou com a participação de O Rappa, Skank, NX Zero, Cláudia Leitte, Lulu Santos, além de artistas locais como a Relespública, Namastê e Regra 4.
Helinho garante que a escolha para a gravação em formato acústico foi proposital devido aos bons resultados que este projeto consegue ter.
«A gente viu carreiras que estavam em baixa e com o som acústico acabaram tendo uma boa exposição, dando um impulso enorme aos novos trabalhos.
A Mundo Livre é uma rádio que toca muita coisa acústica do U2, The Cure, Neil Young, Bob Dylan, artistas nacionais, que é uma releitura dos trabalhos desses músicos», diz o diretor que com este material vai entrar na programação normal da Mundo Livre e que as bandas também poderão usar o trabalho gravado para que possam tocar em outras rádios.
Sobre os critérios para a seleção das bandas estarem neste projeto, a líder do Cores D Flores e apresentadora Marielle Loyola, que já possui uma extensa bagagem no rock nacional com a Volkana, Arte no Escuro e Escola de Escândalo, diz que foi através do trabalho de cada um que chamou sua atenção para o convite no programa.
«Vi as bandas que estão tendo maior destaque na cena.
A escolha foi por aí:
grupos que estejam trabalhando, que tenham disposição para pegar este material e usar.
Porque não adianta você pegar uma banda que é legal hoje, mas que amanhã não quer mais tocar», conta a roqueira.
Ao todo nesta primeira parte do projeto foram selecionadas 50 grupos.
Mas outros artistas, que não foram escolhidos nesta 1ª etapa, podem mandar o material para a rádio.
«A idéia foi trazer bandas que além de terem uma produção musical interessante, tenha uma estrutura armada.
A partir dessa fase inicial, a gente começa abrir o leque para trabalhos novos», garante Helinho.
Segundo o organizador, o sucesso do evento depende muito dos grupos que estão tendo agora a oportunidade de mostrar o som em formato acústico.
«A gente tem batido nessa tecla: '
Se esforcem para as coisas acontecerem '.
Porque é fundamental o esforço que a banda faça para atingir o público.
E para os grupos que vão se inscrever, a gente avisa:
vai se organizando, montando uma estrutura, convidam o tio, a tia, os amigos do colégio para dar uma força.
Divulguem no orkut, myspace.
Você tem que ter um núcleo».
Entrar no estúdio e fazer um unplugged das músicas já pode ter sido bastante singular.
Agora subir ao palco e tocar na mesma noite com um outro grupo diferente de seu estilo pode soar ainda mais curioso, porém não menos interessante.
«Analisei o projeto ' Estúdio Coca-Cola '.
Aí conversei com o Carlos Miranda, um dos produtores, que é meu amigo e ele disse que a mistura das sonoridades traz coisas inovadoras para o público.
O show é individual, mas a idéia é que as duas bandas façam pelo menos uma jam session», revela Marielle.
Com todo esse aparato sendo feito, a dupla ainda encontra novos saltos para o " Acústico Mundo Livre.
«Eu vou criar um myspace para o evento.
Vou deixar duas, três músicas de cada banda e o pessoal pode ir conferindo o material na internet», conta a apresentadora que afirma que este registro vai ser passado gratuitamente para os artistas.
«Por a relação contratual com os grupos, a gente pode ter condições de usar o material para eventuais coletâneas que de repente a gente queria lançar», revela Helinho.
Por mais que Curitiba já tenha tido anos atrás alguns programas de rádio voltados aos artistas da cidade, o diretor do Acústico Mundo Livre alega que há algo novo neste meio.
«Isso aqui não é uma invenção, mas é uma invenção na regionalização do produto», diz Helinho quando é complementado por a veterana artista do rock ' n ' roll.
«Nunca teve um programa com este perfil e eu não tenho medo do desafio, porque confio nos caras e vou cobrar união.
Compro as idéias do Helinho e sinto que os artistas acreditam em ele também.
Eu boto fé».
Em a mesma sintonia de Marielle, o criador do projeto acha que o programa vai dar certo.
«Agora é colocar a competência das bandas no estúdio ao vivo e contar com a presença do público nos shows.
O resto está tranqüilo».
Já a apresentadora enfatiza outro lado da questão cultural da cidade.
«O mais importante é fazer dessas festas quinzenais um centro de encontro.
Não só para ver a banda no palco, mas para que elas se encontrem e troquem informações».
É neste momento que Helinho mete o pé na porta e destaca ainda mais o que a Marielle falou.
«É também um desafio para que os músicos participem da festa.
Porque são eles que sempre reclamam da oportunidade.
Então é legal que quando o Terminal, o Black Maria estiver tocando, que a Relespública, o Djambi e outras bandas estejam prestigiando o evento.
Se não há interesse daqueles que fazem a cena musical, aí fica difícil».
Recado dado por a dupla e o convite feito:
todo domingo, às 18 horas, na Mundo Livre 93,9 FM, você pode ouvir as bandas de Curitiba tocando suas versões em formato acústico.
E a cada 15 dias, no Jokers, é a vez de conferir os shows dessa moçada que faz da música independente da cidade uma festa pra ninguém botar defeito.
* Quem quiser ou estiver fora de Curitiba, basta acessar o site da rádio para ouvir o programa: "
www.myspace.com/ 91 cenandependente
www.myspace.com/acusticomundolivre Abaixo segue algumas datas e as bandas que vão tocar na rádio e os dias dos shows:
Datas dos programas que vão ao ar na Rádio Mundo Livre:
03/08 -- Terminal Guadalupe
10/08 -- Black Maria
17/08 -- Regra 4
24/08 -- Relespública
31/08 -- Nuvens
07/09 -- Mestre Dalma
14/09 -- Motorocker
21/09 -- Anacrônica
28/09 -- Djambi
05/10 -- Hevo 84
12/10 -- Real Coletivo Dub
19/10 -- Poléxia
Shows no Jokers Pub Café:
15/08 -- Black Maria e Terminal Guadalupe
29/08 -- Regra 4 e Nuvens
12/09 -- Relespública e Mestre Dalma
26/09 -- Motorocker e Anacrônica
10/10 -- Djambi e Real Coletivo Dub
Número de frases: 87
24/10 -- Hevo 84 + Poléxia
«Procuramos juntos em profundidade as sutilezas e riquezas que se escondem em suas entrelinhas, para que a peça encontre uma forma à altura de sua qualidade».
Essa citação do diretor Marcos Loureiro foi tirada do programa de «Assassinos, Suínos e Outras Histórias na Praça Roosevelt», a penúltima peça encenada na maratona do dia 6 de abril, que contou com sete peças do projeto» E se fez a Praça Roosevelt em sete dias».
Contudo, as sutilezas e profundidades mencionadas por o diretor se perdem em meio a diálogos mal estruturados, que incluem comentários sobre travestis que roubam almas e fazem nascer peitos nos homens, mulher que vira crente e não faz mais boquete, e referência a filme do «Van Domini» (sic).
Em o centro do palco, um senhor com os punhos amarrados para trás na sala do próprio apartamento está prestes a ser executado por dois assassinos de aluguel, Josué e Gavião.
Como no filme «Pulp Fiction», de Quentin Tarantino, a história se foca mais na relação entre os dois bandidos e na naturalidade como tratam as mortes, do que no ato em si.
Porém, o que em Tarantino é brilhante, na peça acaba perdendo a força por a tentativa de fazer uma comédia em torno do cotidiano da profissão do assassino, como se fosse igual a outra qualquer.
O texto tenta explorar como os matadores também estão à mercê de influências externas:
amorosas, religiosas e intestinais.
Com piadas fáceis do universo cultural popular, como citações ao aparelho de emagrecer de Luciana Gimenez, livros do Paulo Coelho e brincadeiras com bunda grande de mulher, dificilmente o espectador acredita que está vendo uma peça no Espaço dos Satyros.
O que mais chama a atenção durante a apresentação é a discrepância de qualidade entre ela e outras do mesmo projeto, como «A Noite do Aquário».
Assim, se o autor quis passar qualquer mensagem sobre a banalidade da violência no centro de São Paulo, ou a facilidade e frieza com que os crimes são cometidos, tudo isso se dilui em meio a piadas como " Dei um cagão no seu banheiro.
Número de frases: 12
Você vai ter que interditar», certamente a pior piada entre as sete peças.
O Sintoma
Sou mãe de uma menina de 8 anos de idade.
Antes de ser mãe também fui eu, uma menina de oito anos de idade.
Como todas meninas gostava muito de bonecas.
Era a década de setenta e apesar das várias revoluções sociais que o mundo passava, continuava alheia a elas no microcosmo plácido / lúdico do meu quarto.
Lá habitavam várias bonecas.
A maioria branca, mas variavam as castanhas, ruivas e duas bonecas negras que eu apreciava muito.
Cresci e quando engravidei me enchi de revistas de bebês e livros de gravidez onde pipocavam lindos bebes rosinhas, roliços e iluminados.
Minha filha nasceu roxinha com dois laços de cordão umbilical em seu pescoço.
Não se parecia muito com os bebes das revistas, mas era linda.
Ela cresceu amada e querida como a maioria dos bebês felizes.
Ela foi crescendo, e eu observava como o seu arsenal lúdico se construía.
Logo fui me dando conta de algumas diferenças.
Quando adentrava a sessão de brinquedos do supermercado em busca de bonecas, só encontrava bonecas louras de olhos azuis.
Evitava as Barbies.
Apesar de ter possuído uma única Barbie em minha infância, sempre tive certa antipatia a essa boneca.
Inevitavelmente, apesar de meus esforços, a Barbie invadiu seu mundo em forma de capa de cadernos, pasta escolar, escova de dente, desenhos animados, propaganda repetidas no canal infantil etc..
Logo ela possuiría umas cinco.
Quantia razoável em comparação à sua prima que devia ter pelo menos umas 200 Barbies, 50 Kens e carros, casa, piscina, banheira, sapatos, cavalo, castelo e até uma em tamanho natural que dançava.
O bebe sorridente que eu conhecia deu lugar a uma menina inquieta que ficava fascinada por crianças louras e que um dia finalmente expressou a sua angústia em duas frases: --
mamãe eu quero ser branca, de cabelo amarelo.
Claro que não quero acusar a Barbie unicamente de ter confundido a minha filha, também acuso a Susie, a Polly, a Skipper, as bonecas carecas com uma única mexa loura presa por um lacinho cor de rosa, a Lindinha «Super Poderosa» entre outras platinadas que insistem em dominar as prateleiras das lojas de brinquedos e supermercados.
Não somente as lojas, os brinquedos, as bonecas, mas também as histórias de princesas, a Disney, a Xuxa, Angélica, Kelly Key, Avril Lavigne, a Leona, a novela, a indústria cultural que insiste em cristalizar a imagem ariana num país com uma população de maioria parda.
A identidade de uma nação se constrói na medida em que seus filhos tenham a oportunidade de se enxergar nos bens simbólicos que ela produz.
Os Estados Unidos sabem disso.
Tanto que o seu «american way of life» é mais facilmente identificável no comportamento de jovens num «shopping center» de Aracaju ou de qualquer capital brasileira, geralmente alimentados por seriados de televisão a cabo e filmes de entretenimento vindos de Hollywood do que um grupo de jovens no Xingu.
O potencial simbólico de um povo é que faz de uma nação.
É a sua cultura.
Mas como podemos falar de cultura num tempo de globalização plena?
Obviamente não reivindico um purismo tupiniquim.
Mas apenas quero apontar o sintoma manifestado por essa frase:
Mamãe eu quero ser branca.
A Boneca
A Barbie nasceu em março de 1949 por as mãos do designer Jack Ryan, na feira anual de brinquedos em Nova York a pedido de Ruth Handler mulher do dono da fábrica Matel que tinha três filhos:
Bárbara, Ken e Skipper.
Nomes com que batizou a boneca Barbie diminutivo de Bárbara, Ken o seu namorado e Skipper sua irmã.
Desde seu lançamento a imagem da Barbie é associada a valores de sucesso, juventude, consumo e beleza.
Suas medidas de top model refletem um pseudo-eterno feminino compatível ao modelo de mulher comumente apresentado por os mass mídia onde costuma aparecer associada a um erotismo velado que vende a imagem de uma mulher consumista que é ao mesmo tempo estimulante ao consumo.
Por exemplo, as mulheres nas campanhas de cerveja.
Brincar com a Barbie é aprender a redução da mulher à sexualidade sob uma falsa idéia de liberalismo.
Afinal Barbie é bonita, bem sucedida e extremamente consumista a exemplo de todos os seus acessórios com os quais se pode emular uma vida de celebridade com seus castelos, carros, namorados, cavalos, piscinas e roupas glamourosas.
O Processo
Sempre tive vontade de manipular Barbies.
Faz tempo que namoro trabalhos de artistas que utilizam a boneca mais vendida de todos os tempos, a exemplo de Karin Swartz, que recentemente gerou polêmica com as suas Barbies Lésbicas ou mesmo trabalhos anônimos encontrados na internet em que elas aparecem gordas, retalhadas, no lixo, lésbicas, sado-masoquista etc.
Talvez minha criança interior ainda se divirta (de uma forma perversa naturalmente), com esse ícone.
Duchamps, com o seu Urinol inaugurou uma arte de objetos prontos ou «ready-mades».
Esses objetos são deslocados de sua utilização funcional, desafiando o pensamento do observador.
Eu desloco esse pedaço de cotidiano familiar, (as Barbies de minha filha) no intuito de propor um jogo em que uma série de simbologias que são arranjadas em favor da expressão do meu pensamento.
O processo foi dispendioso e estafante, o que já era esperado, pois estava eu lidando com uma Diva.
Minha idéia inicial seria pegar as bonecas de minha filha e encapsulá-las.
Em a primeira tentativa levei-a para o meu local de trabalho onde promoveu uma pequena comoção, meus colegas logo se prontificaram em penteá-la e perguntar por que eu iria usar uma boneca nova para um fim tão sombrio.
Aos poucos fui desenvolvendo certo apego à boneca, que insistia em me olhar com aquele sorrisinho de Mac-Monalisa, decidi poupá-la.
Em seguida uma colega de trabalho me deu a idéia de fazer o encapsulamento com glicerina ao invés de resina.
Achei a idéia sensacional, não somente por o fator financeiro, como também poderia fazer uma alegoria ainda mais forte.
A exemplo de Gianni Motti que fez um sabonete para lavar as mãos da gordura roubada de uma clinica de lipoaspiração de um Ministro italiano corrupto.
Queria fazer um sabonete de Barbie para os casos mais crônicos, um «Embarbiezador» que através do contato com a pele poderia transformar lentamente seus usuários em Barbies.
A boa idéia se revelou um desastre completo em termos financeiros, terminei gastando o dobro entre compra de bonecas barbies falsas (já que havia poupado as da minha filha), cilindros de glicerina transparente, essências e strass cor de rosa.
Pedi a moça da loja de essências que fizesse o tal «sabonete de boneca», sai de lá triunfante feliz com economia de dinheiro e energia.
Em o dia em que voltei para apanhar a «obra», algo me dizia lá no fundo que não daria certo.
E não deu.
Encontrei uma Barbie falsa enfiada no sabonete em forma de garrafa pet de 2 litros e meio, somente com a cabeça para fora e cheia de comprimidos coloridos que tinha dado uma reação na glicerina tornado-a turva e espumosa.
Resolvemos reaproveitar a glicerina derretendo-a num papeiro de estanho em banho-maria.
Comprei outra boneca e mais glicerina e resolvemos fazer de outro modo com a garrafa cortada ao meio.
Desta vez fiquei durante o processo todo.
Desinformei duas peças em casa, e não gostando resultado, comecei a tirar pedaços da primeira peça com uma faca e como essa boneca estava com os cabelos soltos eles foram saindo por a glicerina.
Batizei a peça de " Barbie Bucha ":
Sabonete Embarbiezador de efeito suave
Com a segunda peça, derreti a glicerina ficando momentaneamente transparente, após algumas horas ela voltou a ficar turva perdendo toda a visibilidade da boneca.
Não me dando por vencida, comecei a intervir no sabonete com uma faca retirando os pedaços perto do rosto da boneca.
Quebrei o vidro.
Essa peça se transformou no " Barbie Peeling ":
Sabonete Embarbiezador de efeito profundo.
Como a Barbie é um ícone do consumismo é obvio que ela iria me fazer gastar muito, resolvi refazer todo o processo com resina, mais desta vez sabia exatamente o que eu queria.
Comprei mais jarros de vidro, bonecas, boah de penas cor de rosa, e fui a uma empresa de fibra e resina.
Coloquei as Barbies dentro dos vidros para ver como se comportavam, depois fiz algumas interferências em seu corpo com caneta Bic de cor preta.
Depois que endureceu a nanquim da caneta teve uma reação e expandiu criando manchas.
Em a primeira, realcei olheiras e expressão de terror, amarrei as suas mão atrás e coloquei uma mordaça feita de fitilho cor-de-rosa realçada por o preto da caneta Bic, e fiz pequenas cruzes em todo o seu corpo.
Não quebrei o vidro (ainda), aplicando um boah de plumas cor -- de -- rosa no seu topo.
Batizei essa peça de «Anorexia» em homenagem as tantas meninas que sofrem de anorexia fomentadas por a indústria da imagem, da qual se pode dizer que a Barbie é uma nobre representante.
Em a segunda peça desenhei motivos inspirados nas pinturas corporais dos índios brasileiros e apliquei manchas com corante vermelho, simbolizando sangue.
Essa peça dialoga com nossa herança cultural indígena, que gradativamente perece mediante ao processo de globalização.
Quebrei o vidro e acoplei uma estrutura de ferro com uma lâmpada dicróica.
Intitulei-a de «Civilização».
O Amor
Como esse trabalho é dedicado à minha filha Hannah, gostaria de esclarecer alguns pontos, para não confundi-la:
1. Os sabonetes embarbiezadores não são para uso, mas para reflexão
2. Pode continuar brincando com a Barbie, mas com moderação.
3.A
sua cor é linda, não duvide disso.
4. Por fim, duvide de tudo sempre!
Número de frases: 91
Gauche é uma palavra francesa -- pronuncia-se «goxe» -- que significa esquerdo, mas também serve para designar o desajeitado, estranho, acanhado, deslocado ...
Talvez o nome reflita um pouco a natureza de seus integrantes;
rapazes na casa dos vinte anos com certo ar nerd e avessos às sedutoras badalações tão comuns para as bandas iniciantes do mundo pop.
Em a verdade o que implica é uma postura equilibrada e madura, em busca de uma sonoridade contemplativa cheia de paisagens progressivas, sem parecer chato e ou petulante.
Esse grupo pessoense de pop progressivo surgiu em 2003, por as mãos de Bruno Sérgio (voz, teclados e violão), então integrante do The Silvias, junto com Luis Venceslau (guitarra), Paulo «Gauche» Victor (bateria) e Tom «Ramone Alves» (baixo);
formação atual e definitiva.
Até aqui poucos shows realizados e mais de uma dúzia de musicas prontas.
Com tempo urgente e moderno, citar nomes virou referência das influencias, no caso de eles vai desde a psicodelia folk-pop anos 60 até as tendências retro-progressivas atualizadas;
é nesse balaio que podemos citar Violeta de Outono, Echo and The Bunymen, Byrds e Mopho, como bons exemplos para situarmos a escola da banda.
Em março desse ano gravaram quatro canções ao vivo em estúdio, no qual originou um disco promocional de divulgação sob os auspícios do selo paraibano-pernambucano Musicland Records.
Um bom cartão de visitas para conhecer a sonoridade Gauche.
O disco formato EP e de bela capa -- foi gravado em março desse ano, abre com «Teatro de Serafins» instigante psicodelismo pop que remete de imediato às melodias e lirismo do Violeta de Outono, sem dúvida a melhor faixa do disco.
Em a seqüência «O Palhaço», como o próprio título sugere, a levada é toda circense.
«Primavera» é uma balada em forma de doce lamento, boa prova da diversidade melódica / harmônica do grupo.
Fechando com «Seja Onde For» uma canção curta com intensidade crescente e um guitarra com timbragem similar a de Mark Knopler.
É certo que a sonoridade do Gauche não seja comum, mas isso é prova maior da multiplicidade da atual cena rock paraibana.
Longe de serem estranhos, a possibilidade de desenvolverem uma musicalidade envolvente e consistente é infinitiva.
Vale uma prova.
Contatos:
bandagauche@gmail.com
tramavirtual. com.
br / gauche
Número de frases: 22
purevolume. com / gauche
Um fala que samba da zona sul não presta.
Que samba de subúrbio é o autêntico.
O outro fala que samba de raíz é o cacete, que o samba é de todo mundo, que ninguém é dono do samba.
Pagodeiro diz que faz samba.
Mas o samba não reconhece o pagodeiro como sambista.
Tem público que adora ouvir o samba óbvio, o re-conhecido, pq não acha óbvio.
Para os sambistas, isso é o samba de playboy, Para os playboys, isso é samba de raíz.
Curiosamente uma gíria da moda no Rio é a palavra roots, pronunciada em inglês surfístico:
rútz. Esse conceito de coisa de raíz está em alta por aqui ...
O ponto de vista mais valorizado é sempre o do que se diz dono da raíz.
No caso do samba o dono é o preto, o pobre, o cara do morro?
Esse é o senso comum sobre o samba.
Não deixa de ser verdade.
Mas isso torna o samba propriedade de alguém?
Eu sempre pensei muito nisso, nesses terrítórios musicais, pq sempre andei em lugares que não eram originalmente meus e tive que me explicar.
A música é um universo cheio de mundos.
E eu compreendo a possessividade do genitor.
Um bom mestre de bateria tem status de maestro no universo do samba.
Ter uma vida dura, ter a escola de samba como núcleo social da sua comunidade, ter crescido ao som da bateria, ter batucado desde criança é um diferencial definitivo, é seu passaporte exclusivo para o posto.
Ele não quer que tirem de ele esse privilégio e o dividam com alguém que tenha chegado ao samba por pesquisa, por estudo ou mesmo por amor.
Ele respeita quem respeita o samba, mas ele não quer entregar o samba na mão de qualquer um.
Noel era do asfalto, branco.
Cartola era do morro, preto.
Os dois faziam samba.
Eram amigos e parceiros.
Mas tenho a impressão de que no imaginário popular, Cartola é sambista, Noel é poeta ...
Preconceito?
As fronteiras também servem pra definir conceitos.
As comparações, idem.
E mesmo que eu tenha saído do meu habitat musical natural, aquele que meu meio me apresentou, para pegar praia e trabalhar em searas variadas do samba ao funk, não posso negar que reconheço fronteiras:
que las hay, las hay.
A mistura entre tantos micromundos me parece interessante, necessária, até.
Mas tem dias em que um fundamentalismo dentro de mim cantarola:
xô, chuá, cada macaco no seu galho ...
Número de frases: 35
Descendo a rua General Sampaio sentido sertão-mar, logo depois da praça José de Alencar, você pode quebrar a direita e entra na Galeria Pedro Jorge.
Não tem errada.
Amola-se faca, tesoura;
conserta-se a arcada dentária, o liquidificador e a televisão quengada;
vende-se o sanduíche, o caldo de cana, o pastel, a esfirra, o salgado com suco.
Tem a bíblia pequena e grande, tem a gravata listrada, tem a camisa do exército de Deus.
Rock? Lá em cima.
«Ééééégua, ainda tá aqui?!
Rapaz em 80 e pouco eu comprava disco a ti», comenta um senhor que passa na galeria depois de muitos anos.
«Esse aí não compra mais nada.
É daquele que diz: '
Ah! Eu fui roqueiro '», quem fala é Tony Cochrane, pioneiro na galeria Pedro Jorge.
Sua loja Opus chegou naquele prédio entre a General Sampaio e a Senador Pompeu em que predominavam escritórios de advocacia e contabilidade ainda em 1984, época em que os LPs de bandas de punk-rock e hard-rock eram escassos na cidade.
Antes, final de 1970, Tony fazia parte do movimento punk.
Tomou conhecimento através da antiga revista Pop, que em 1977 lançou uma coletânea Pop apresenta o punk-rock com grandes nomes do estilo.
Tony e outros punks se reuniam em inferninhos nos subúrbios -- «boca quente pra caralho» -- com uma fita na mão pedindo para tocar The Clash, Sex Pistols e Ramones.
Os LPs de punk-rock não chegavam aqui.
Era o jeito despachar uma carta com destino a São Paulo, onde os comprava de alguns contatos.
Tony, em sociedade com um amigo, juntou os vinis do acervo particular dos dois e subiu para o segundo andar da galeria, na época um centro comercial qualquer sem nenhuma tradição nesse meio.
Além dos vinis, pendurou algumas camisetas e acessórios.
«Em a verdade eu tinha ido para São Paulo e tinha visto o começo da galeria lá.
Eu andava lá desde a década de 70.
Tinha o sonho de fazer isso.
Não foi nada pesquisado.
A gente conhecia muita gente, muito colecionador, vivia fazendo troca de vinil», fala Tony com a voz mansa, óculos e alguns cabelos brancos que lhe tingem a cabeça quase 30 anos depois.
A loja é hoje uma das maiores da galeria, ocupando duas salas.
Chakal veio depois, foi também um dos pioneiros na galeria.
Conta a história de um grupo de punk que pediu para lavar a cabeça no banheiro de sua loja.
«Só que ele entrou meteu a cabeça no vaso sanitário e deu descarga e ficou lavando a cabeça.
Aí depois foram no restaurante, compraram uma quentinha, viraram no chão e ficaram comendo com a mão na frente de todo mundo», diz rindo como que revendo a cena da galeria anos atrás.
De lá pra cá muito mudou.
A notícia se espalhou e foi loja por cima de loja.
O boom, segundo Ocean Gomes, vendedor há 12 anos na galeria, foi de 2001 pra cá.
O que era algumas lojas no segundo andar, cresceu para os lados e para a cima, chegou no terceiro e hoje existem duas no quarto andar.
O público além de crescer se diversificou.
«O público feminino é mais recente, cresceu bastante.
Em a década de 80 e começo de 90 não existia.
A gente ia pra show não tinha menina.
Umas duas.
Só homem.
De o meio de 90 pra cá é que começou mesmo a aparecer.»,
fala Ocean, vendedor da Opus atualmente.
As mulheres chegaram e hoje dividem pau a pau com os marmanjos.
Camisetas baby look estampadas com símbolos e fotos dos integrantes de banda são comuns nas lojas.
A galeria hoje abriga lojas de piercing, tatuagem, vestuário.
Especializadas em reggae, rock, rap, skate ...
O quarto andar abriga a sede dois selos musicas independentes -- Empire Records e Nocaute Discos -- que rumaram para o prédio que também serve de espaço de intercâmbio para a cena independente do rock principalmente.
Rock e o comércio da fé Em o térreo da galeria predomina o comércio da fé.
A primeira foi a Casa da Bíblia.
Vai completar 20 anos.
O que antes era apenas uma loja, hoje são três:
uma pequena, outra bem maior e ainda há uma locadora só de filmes evangélicos.
Quando descobriram a Opus, " os caras vinham aqui querendo me evangelizar.
Dizendo que era coisa de demônio», diz Tony, comentando a convivência dos dois segmentos no mesmo prédio no passado.
«Hoje em dia eles não são metaleiros também?
São punk, são dark, são tudo.
Modernizaram né, eles estavam perdendo a juventude, eles não admitiam a música nessa época.
Então agora eles têm heavy metal, até black deth metal versão white.
Falando de Jesus." A palavra de Deus não está mais só nos tradicionais louvores -- ainda os mais vendidos.
Cds de bandas gospel dos mais diferentes estilos estão a venda nas lojas de baixo.
Desde do Dj Alpiste, que faz um rap gospel, até a banda estadunidense P.O.D (Payable on Death), uma banda cristã que mistura hip-hop, hardcore, reggae e a batida pesada do metal.
João Paulo Xavier, vendedor da Bíblia & Opções e fiel da Igreja Pentecostal da Fé, lembra que a música gospel não necessariamente é a evangélica, mas confirma a pluralidade de estilos.
«A gente tem reggae, rap, hip-hop, sertanejo, tem o brega mais antigo, tem tudo.
Quando se faz um trabalho evangelístico, a gente aproveita todas as características das músicas.
Tem até tipo cover do Raul Seixas, que é pra poder o som chegar àquelas pessoas que rejeitam o louvor.
Eu mesmo quando ouvi o Catedral [banda de rock], foi uma das bandas que eu mais gostei, porque eu gostava do Renato Russo."
Nada de coisa do demônio.
«Carlos Alberto Souza» era ateu.
Nem acreditava em Deus, nem diabo, em nada, só curtia o som e tudo mais."
Isso até a conversão em 2001 ao neo-pentecostalismo.
«É aquela coisa quando Deus chama, transforma o ateu em alguém que crer."
Carlos Alberto Souza, mais conhecido como Chakal.
Aquele que contou a história dos punks.
Meu amigo não acredita quando falo que ele se converteu.
«O Chakal?
Aquele bixo era doidão ...».
Foi, se converteu.
Hoje a loja do Chakal na sala 225, ao lado da Opus, ainda mistura cds seculares com o gospel, mas isso tá diminuindo e ele começa a se especializar no ramo white.
«Antigamente era muito difícil um cara que era roqueiro se evangelizar, porque era um espaço muito fechado.
Só um cara que pegasse uma doença muito grave ia parar pra ouvir a palavra de Deus.
Hoje em dia sem querer ouvir já estão ouvindo, as bandas estão chegando».
Número de frases: 81
Velhos Tempos, Belos Dias Eu poderia afirmar que não tive infância e não estaria mentindo.
Juntos ou separados, meu irmão gêmeo e eu passamos todo o período de estudos em internatos variados, a começar por a creche da Paróquia de N. S. de Copacabana, sustentada por a caridade de madames e fiéis.
Não tenho do que reclamar:
o que se perdeu em liberdade e «joie de vivre» ganhei em saúde e sobrevida, com boa alimentação e cuidados médicos.
Em os estudos obrigatórios adquiri cultura, fora a educação rígida e «arranhei» idiomas estranhos como o polonês, francês e latim.
De cada «estação» ficou uma lembrança, mero registro doloroso ou divertido da «prisão» momentânea em que me encontrava.
Em todas, um só senão:
a ausência dos pais, sempre distantes, às vezes em outro Estado.
Não vinham nem para nos buscar nas férias de fim de ano, quando o colégio encerrava as atividades.
Primos ou vizinhos de nossa tia «resolviam» o problema.
Em um Mundo que, apesar das dengosas Evas, já nasceu masculino, um colégio interno pode ser um ambiente bastante divertido, apesar do espaço exíguo se considerarmos a imensidão fora das grades.
De a creche (com 3, 4 anos?!)
lembro muito pouco:
a sesta após o almoço, num mar de cadeiras de praia que tomava todo o enorme salão.
Recordo os banhos de luz azulada numa máquina apavorante, óculos escuros escondendo o medo, e também a cadeira do dentista, com uma janela sanfonada que deixava entrever a pracinha em frente.
De esse distante passado restou uma foto de «aluno» aplicado, lápis sobre o caderno aberto e um ábaco de brinquedo enfeitando a mesa.
Sei que fomos reportagem de jornal carioca, quando a petizada visitou em excursão a jaula dos elefantes na Quinta da Boa Vista.
Se ficávamos sozinhos no barraco a vida virava uma festa só.
Pegava-se carona nos caminhões que desciam cautelosos o Morro, fumávamos «guimbas» de cigarros catados nas calçadas e vivíamos de estrepolias que levaram meu irmão ao hospital, clavícula e braço quebrados rentes às rodas de um possante GMC. (
leia-se " gemecê ")
Graças aos «Cosme e Damião» -- PMs aos pares em ronda que fez história no Rio dos anos 50 -- acabamos no SAM (espécie de FUNABEM) para desespero de minha mãe, 3 meses à nossa procura.
O lugar era horrível, serviam macarrão estragado e havia grades por todos os lados, cercando até o escritório do Diretor.
Meu pai encerrou a questão «raptando-nos» do barraco à revelia da genitora, para nos internar nas Escolas Reunidas São João Batista, nos confins do Brasil, em Santa Catarina.
As Irmãs Vicentinas nos receberam de braços abertos -- os primeiros cariocas da histporia do Colégio ...
e gêmeos, ainda por cima -- e providenciaram roupas de inverno e cobertores, pois nosso enxoval era para férias nas praias havaianas.
Velhos tempos, belos dias ...
foram quatro anos inesquecíveis, com internato misto no 2º ano (1962) para alegria da gurizada e pavor das Madres.
Em pouco tempo «acabou-se o que era doce» ...
mas o sótão do galpão de aulas ainda guarda estórias cabeludas dos que o «visitaram».
Era tempo de Jânio e sua vassourinha dourada, dos panfletos das Casas Pernambucanas, do enorme sabonete «Vale Quanto Pesa» e do programa «Aliança para o Progresso» do esperto JK americano, abarrotando colégios de óleo de cozinha e barris de leite em pó que a umidade invernal estragava em poucos meses.
De os «Estêites» só queríamos a mini-bola de gude com uma hélice colorida dentro, o «olhinho», como a chamávamos.
Valia meia dúzia das comuns e, quanto menor, mais valiosa.
A Dirce -- filha do comerciante mais importante do vilarejo Alto Paraguaçu -- presenteou-me com uma gigante, 3 cm de altura, para despeito de meio colégio e mais um apontador em forma de globo terrestre ...
tudo por uma migalha de meu «amor» infantil, mas eu só tinha olhos para a walkiriana Elizabeth, loura com estrelas azuis sob os cílios sensuais.
Coisas da Vida:
pouco depois me surgiria uma «pereba» incurável na canela e acabei sem nenhuma.
Tempos patrióticos aqueles ...
o Hino Nacional cantado todo sábado pela manhã e os demais hinos quando a época formal se apresentava.
Passamos incólumes (naquele fim-de-mundo!)
por os sucessos do malfadado 31 de março de 1964 e tudo o que ocorreu em seguida.
As Irmãs eram professoras de todas as matérias, um só livro durante os 4 anos do primário e muita lição de casa, 6 ou 8 páginas ao dia.
Castigo na escola, nem pensar ...
apanhava em casa quem demorava a voltar das aulas e levar bilhetinhos da mestra para os pais era o terror de qualquer guri.
Corrigia-se os errados com 200 ou mais linhas de " NÃO DEVO ..." (ou na classe), na época da caneta-tinteiro e do milagroso mata-borrão.
Velhos tempos ...
As brincadeiras, para os internos, apenas no intervalo após o almoço ou à noitinha.
Pique-bandeira e «queimado» eram as principais, mas havia o «cavalo de guerra» -- duplas se derrubando, um nos ombros do outro -- e as raras «peladas», com o padre-fotógrafo Victor Pascek a esconder a bola sob a batina. (
A o soar do sino largava-se tudo e, perfilados, rezávamos na hora da Ave-Maria ou Hora do Ângelus.)
Em o dormitório, após as orações, guerra de travesseiros e, vez em quando, o «trenzinho», espécie de» meia " em grupo, mas a prática não tinha dia nem hora.
Soube que usaram até o catafalco como cama ( ...).
Missa diária bem cedinho, em fila indiana para a colossal «catedral» ao lado, cortando a cerração gelada com os narizes vermelhos.
Tortura maior que lavar o rosto de manhã com a água congelada da bacia só mesmo almoçar uma tal de «tatarka», massa escura feita de grãos de trigo e arroz integral, da pior culinária do mundo, a polonesa.
Enquanto alguém distraía a cozinheira, os demais passavam seus pratos ao que estivesse mais próximo do buraco no assoalho do refeitório, para deleite das ratazanas, vermes e insetos.
Os mais comportados eram promovidos a sacristãos, com paga nos domingos e dias santificados e a escolha recaía sempre nos gêmeos -- nós, mais Elói e Wagner -- para azar dos demais.
Missa do 7º dia ninguém gostava ...
tínhamos que arrastar imenso caixão (o " catafalco ") para o adro interno da igreja, com estrado de toneladas e, ao fim do sacro ofício, retirar tudo.
Bater os sinos a cada 6 horas também era nossa responsabilidade.
E encher as galhetas de vinho, tarefa disputada a tapas.
A gente quase sujava o «short» para dar a primeira badalada e, às 18 horas, o prazer virava suplício.
Oa morcegos debandavam em massa roçando-nos a nuca ...
um de eles chocou-se com meu covarde nariz.
Mergulhei sem hesitar no vão entre as escadas, descendo corda abaixo qual esquilo.
A pele das mãos ficou no cordame rude, como lembrança.
Até hoje o interior das igrejas me parece o local ideal para a reunião de demônios.
Onde mais podem êles conquistar almas, senão quando elas tentam ser um pouco melhores?
Ser sacristão tinha suas vantagens:
almoçava-se vez ou outra com os padres na Casa Paroquial, podia-se comer as sobras das hóstias e passear no jipe de eles.
Só era ruim ter que lavar a colossal igreja ou suportar, de frente para a multidão, os compridos sermãos dominicais do Pe.
Lauro, espécie de Moisés redivivo.
Polonês de cabelos vermelhos e olhar em fogo, fazia estremecer o púlpito reverberando os pecados dos fiéis.
Estragava o domingo da maioria, os machos amassando os chapéus nas mãos calosas e voltando às suas casas sérios e calados.
Deus deve ter reclamado dos exagêros do pároco, que apressou a morte de muitos cristãos, por problemas cardíacos, graças aos seus berros.
às vezes me pego a sorrir, recordando esses momentos todos.
Tem muito mais a contar, pois éramos escolhidos para representar o colégio em tudo, nos desfiles e festas.
no aniversário dos padres e até em peças «teatrais».
Em o último ano (1964) resolvemos de comum acordo boicotar a peça de encerramento das aulas.
Fazíamos um general e seu ordenança, os poltrões, que apanhavam das espôsas no final. (
Sem rádio nem jornais no vilarejo, as Irmãs não ficaram sabendo do golpe militar meses antes.)
Erramos falas nos ensaios, «esquecemos» cenas, relaxamos treinos mas a peça foi encenada ainda assim, para nosso desespêro.
Fiz também um caipira voltando da cidade grande para contar as novidades:
«Chegue seu Zé, chegue Mané, / venha o Pedro e o «Bastião» / que seu Juca vai contá / o que viu na capitá, / pois tem coisa de fazê inspantação!"
Foi por essas e outras que adquiri um trauma de palcos e peças.
Aliás, naquele mesmo ano o salão da Casa Paroquial foi testemunha da ira santa de um missionário capuchinho que catequizava com bolas de basquete (habilmente manipuladas) e filmes em geral, em tela grande e com som, novidade para encher dois salões.
Senhor da platéia, êle discorria sobre as dificuldades da catequese na África, imagens de casebres de estuque e couro com os «selvagens» circulando.
De repente, ao fundo, surge imenso leão que põe todos a correr feito baratas tontas.
A fera rasga as choupanas como papelão e sai de uma com um garoto atravessado na bocarra.
Deita o corpo bem em frente à câmera, leva parte do estômago e some.
Enquanto a criança esperneia nos estertores da morte, o teto vem abaixo ao pêso das gargalhadas.
Desligado o projetor, o «barbudinho» passa «um sermão» na platéia.
Logo em seguida cenas da Segunda Guerra Mundial ...
mais «baratas» correndo apavoradas de outro monstro, os tanques alemães na capital polonesa arrasada.
Sorrisinhos presos nos cantos da boca, as bochechas inchadas por o esfôrço.
Em a parede iluminada um infeliz escorrega nas pedras e cai sob as «rodas» do Leviatã de aço, que lhe esmagam a cabeça, com os braços e pernas espadanando no espaço.
As paredes tremeram ao som dos uivos da patuléia, enquanto o sacerdote ensandecido saltava do balcão sobre os espectadores, espumando de ódio.
Nunca mais vi um padre com raiva ...
Mas as melhores lembranças vêm das excursões, duas ou três ao ano.
Quem não lembra da única vez em que se viu mulher careca, quando o vento jogou longe o chapéu-canoa da Madre Superiora, a severa Irmã Helena?
A gargalhada foi geral, a festa acabou ali e a vaidade feminina da esposa de Cristo a fez chorar por vários dias.
E quando o caminhão de «saúvas» infantis parou bem debaixo da ameixeira mais querida do sitiante que convidara o colégio?
As frutas «sumiram» em segundos e o «polaco» pulou a varanda aos berros, dizendo coisas estranhas.
Aquela excursão também acabou antes de começar!
E quando um outro «cacareco» com quase 50 crianças na carroceria começou a descer de ré a ladeira escorregadia?
Tivemos que saltar e empurrá-lo, os garotos maiores somente, patinando no lamaçal.
Mas a visita ao Museu dos Capuchinhos, em Rio Negro / PR, se tornou inesquecível ...
valeu a pena o susto:
Como dizia a canção:
«ai, ai, ai, / são belos tempos que não voltam mais!"
Número de frases: 107
CINCINATO Palmas Azevedo ...
cheio de palavras que eu sei que nunca vou usar " ¹
Raul Seixas só disse essa frase aí de cima porque não era advogado.
Pois, se fosse, teríamos de ouvir, ao invés de «eu sou o início, o fim e o meio»,» eu sou o início, a introdução e o começo».
É muita prolixidade.
Os estudantes de Direito devem ter matérias como Aurélio I, II e III e optativas, para quem quiser se especializar, de introdução ao Houaiss.
UFBA.
Prédio de Direito.
Qualquer época.
Professor diz:
-- Senhores alunos, estudantes, discípulos, representantes da classe discente e, por que não dizer, aprendizes, queiram, por gentileza, separar, desunir as partes móveis, ou melhor, abrir o seu Houaiss na composição tipográfica de um órgão vegetal laminar de dígito 2294.
A avaliação será desta página de verbetes com o prefixo PRE, até a de algarismo, cifra, código, identificador, ou melhor, de número 2477, com palavras e vocábulos com o prefixo ROS.
Em a acareação da CPI dos Correios em 2005, o deputado e advogado (o cara é os dois) Roberto Jefferson usou e abusou da prolixidade, redundância e pleonasmos viciosos:
-- O senhor está mentiiindo.
Isso é uma fraaaaude, uma poetaaaagem, quimera, uma falsidade, e digo mais (pausa) ...
Posso até dizer que Vossa Excelência está usando de uma afirmação contrária à verdade.
Ou:
-- Reitero, reafirmo, recoloco, reponho, repito e digo mais uma vez que Vossa Excelência participou da reunião e blá, blá ...
Em tempo:
a melhor resposta da acareação foi a do deputado José Dirceu, quando uma deputada, lá do fundo, o chamou de «arrogante de nascença» e ele respondeu:
-- Não era isso que a senhora achava de mim quando éramos amigos na faculdade.
Eu ouvi isso como um «já comi».
Em o ano de 2004, fui ver meu avô, o advogado Pacífico Ribeiro, na época com quase 86 anos, receber uma honra junto com outros advogados.
Essa honra era para os advogados com mais de cinqüenta anos de profissão e que ainda advogavam.
Meu avô já tinha parado de trabalhar há algum tempo, já não enxergava nem ouvia com precisão, se dedicando, exclusivamente, à leitura e às suas poesias.
Como ele falava do seu universo em suas criações literárias -- mulheres, sua cidade natal, a cidade em que vive, sua profissão, seus sonhos ...--
ele fez este soneto para a advocacia:
Em cinqüenta anos de defesa agrária,
em busca da justiça e do direito,
prendi-me à intensa vida judiciária,
por toda causa me ferindo o peito!
Fronte altiva à demanda temerária,
a vitória alcancei em cada pleito,
alheio à recompensa monetária,
mas, profissionalmente, satisfeito.
Por isso, rendo graças à labuta,
e até repetiria a mesma luta,
trouxesse embora a mão sempre vazia.
Fechei, porém, a banca de advogado, --
meu foro, hoje, é o parnaso, onde hei logrado
mais aventuras nas asas da poesia!
Meu pai, porém, estava se separando de sua segunda mulher e meu avô, que nunca perdeu uma questão das mais de três mil em que advogou, foi ser o seu advogado.
Ele e sua segunda esposa, Araguaci, também advogada.
-- Por meu filho eu volto a advogar.
E venceu, mais uma vez, todas as questões.
Então ele foi receber, dos advogados da Bahia, esse reconhecimento por mais de meio século de militância advocatícia, e a família foi junto.
Eu, sem nenhum conhecimento jurídico, fui, achando que seria uma coisa rápida, corriqueira, mas, além da premiação, era 11 de agosto, dia do advogado, e a Ordem dos Advogados Seção Bahia estava se homenageando.
Começa o mestre de cerimônia lendo algum roteiro que, com certeza, foi escrito por algum advogado (tentarei resumir ao máximo).
Mestre de cerimônia:
-- Convidamos, para compor a mesa, o excelentíssimo, digníssimo, meritíssimo, ilustríssimo, ilmo senhor presidente da Ordem dos Advogados da Bahia, o Doutor Fulano de Tal.
Aplausos do auditório cheio de eles.
Ele ia até a mesa, se sentava, e o mestre de cerimônia continuava:
-- Convidamos agora a excelentíssima, digníssima, meritíssima, juizíssima, ilma senhora Doutora Beltrana dos Santos.
Aplausos calorosos.
«Se ainda fosse gostosíssima» -- pensei.
Ela ia até a mesa, se sentava e o mestre de cerimônia continuava:
-- Convidamos, para também compor a mesa, o representante da sociedade civil, o ilmo, ilustríssimo, magnânimo, altivo senhor, o deputado Cicrano da Silva.
Ele ia e se sentava.
Foram uns quinze.
Todos íssimos, íssimos e íssimos.
Quando eu achei que iria começar a entrega das placas honrosas, começou o pesadelo.
O excelentíssimo, digníssimo, meritíssimo, ilustríssimo, ilmo senhor presidente da Ordem dos Advogados da Bahia, o Doutor Fulano de Tal, iniciou:
-- Senhores (pausa), senhoras (pausa), nobres colegas de profissão (pausa), prestigioso senhor Cicrano da Silva (pausa), nobre senhora Beltrana dos Santos (pausa), ilustre advogado Num-Sei-Quem Amorim (pausa) ...
É com majestosa satisfação (pausa) que blá, blá ...
E tome sine qua non e «datas venias».
Luis Fernando Verissimo tem um texto que diz que, se os advogados tivessem um hino, este começaria com " Data venia, data veniaaa ..."
Aí, depois de meia hora enaltecendo aquele importante, grandioso e necessário encontro, o excelentíssimo, digníssimo, meritíssimo, Vossa Santidade, o senhor presidente convidou um dos que estavam na mesa para discursar.
Este senhor foi até o púlpito e começou:
-- Senhores (pausa), senhoras (pausa), nobres e pródigos colegas de profissão (pausa), prezado senhor Presidente Fulano (pausa), nobre senhora e briosa advogada Beltrana (pausa), ilustre e dadivoso advogado Num-Sei-Quem (pausa) ...
É com grandiosa satisfação que usarei das minhas humildes palavras para uma elucubração sobre o digno, altivo, nobre, ilustre e, digo mais, sublime senhor Fulano de Jesus, que não está mais aqui entre nós e ...
Jesus, socorro!
O que é aquilo?
Diversão entre advogados deve ser quem acaba uma revistinha Passatempo, modo Difícil, mais rápido.
Eu queria sair correndo, gritar «parem, calem a boca, fechem a matraca, fiquem em silêncio, deixem de ser mal educados».
Meu avô, assim como os outros que estavam lá para serem premiados, já idoso, com 85 anos, sem a saúde de poder estar sentado numa cadeira desconfortável por mais de três horas, só ouvindo ladainhas cheias de pompas, retóricas para fazer média e blá, blá ...
E, no fim, os realmente ilustres ouviram apenas o:
-- Convidamos o advogado Tal para receber a honra.
Foi ali que percebi o porquê da justiça no Brasil ser devagar, lerda, vagarosa, lenta, arrastada, diuturna, morosa ...
Ê, Caymmi ...
(1) Eu também vou reclamar, de Raul Seixas e Paulo Coelho.
Gravação: Raul Seixas, disco «Há 10 Mil Anos Atrás, Philips/Phonogram, 1976».
Número de frases: 81
Leitor, leitora, me perdoem desde já por o tom de manifesto.
Mas quando se fala de paixões o sangue arde.
Temos prazeres e prazeres na vida.
Alguns são médios, constituídos por o conforto do conhecido.
Outros são motivados por a mágica da descoberta, e intensos.
A improvisação, na música como na vida, é mais estimulante da criatividade e da festa intracelular do que a repetição de uma pauta pré-fabricado.
Em o Brasil existem muitas manifestações musicais.
Uma linha é especialmente encantadora:
a música instrumental brasileira.
A mídia dominante (por oferecer porcarias pseudo-culturais) e a propagação boca-a-boca de lugares comuns acabaram por fazer do rock uma arte «superior».
Dá pra entender que isso tenha acontecido já que, realmente, entre os males, o rock acaba sendo o menor.
Mas basta voltar o filme um pouco pra ver que na realidade ele apareceu como alternativa fácil ao jazz, música criativa e inovadora por excelência (na época free demais para o poder hegemônico).
O historiador Eric Hobsbawm escreve sobre esse fenômeno no livro A História Social do Jazz.
Claro que o que se faz no nosso País não é jazz (cujo surgimento se deu nos Eua), e sim o resultado de várias misturas e recriações daquilo que veio de fora inicialmente, fruto da nossa característica antropofágica apontada faz tempo por os modernistas brasileiros.
Mesmo assim, o jazz já não pode mais ser definido como made in Usa, tendo adquirido um caráter cosmopolita e, na origem, provindo da África, mais precisamente da percussão africana.
A mistura de samba, frevo, maracatu, xote, maxixe, xaxado, forró, baião, com o jazz, em suma a improvisação-, se manifestou por aqui com mais flexibilidade na chamada música instrumental brasilera, a vertente que mais comeu desse pasto e bebeu dessa fonte multicultural.
Sendo assim, vale considerar que a vanguarda do mundo no campo da música éramos nós já há 30 ou 40 anos.
Isso, quando surgiram grupos como Som 4, Sambrasa Trio, Quarteto Novo.
Cito propositalmente os que foram integrados por um ser de outro mundo:
Hermeto Pascoal. Que, aliás, dá à música que faz o nome de música livre ou música universal.
Nada mais verdadeiro.
Detalhe: Hermeto é filho de negros voltamos à África-, embora seja albino.
É irônico, apenas, que hoje consideremos como música nova a que importa um modelo quadrado basicamente estadunidense e inglês, o rock and roll.
A cena dita «independente» tem seus representantes contemporâneos, e um público razoável.
Tudo bem, o rock é legal, os Beatles e os Stones tiveram seu tempo, outras bandas também fizeram a cabeça de muita gente, Woodstock foi um acontecimento e tanto, mas convenhamos, depois de ouvir Hermeto fica difícil considerar Mick Jagger original.
Hermeto não rebola no palco, mas toca, e como.
Além disso, é possível fazer uma diferenciação clara entre o propósito de uma e outra música.
Quem sabe nem merecessem ter a mesma denominação.
Enquanto uma é produto do meio urbano do hemisfério norte, a outra deriva das raízes naturais do Brasil.
Ao passo que bandas de rock ensaiam em garagens, Hermeto e o grupo de ele, por exemplo, faziam retiros de até 24 horas no meio do mato, ouvindo o som da natureza, usando o clima dessa imersão como base cardíaco-afetiva sensorial.
A mediocridade que grassa é tão abundante a ponto de hoje ser comum ouvir frases do tipo:
«eu não gosto de música ruim, odeio sertanejo e pagode, meu negócio é rock».
É necessário fazer um upgrade no nosso miolo mole.
A música instrumental brasileira é revolucionária.
Isso se constata ouvindo.
Enquanto alguns estilos musicais são tão populares porque grudam logo nas primeiras audições, a improvisação musical tem como mola-mestra um caráter criador do ouvinte.
Porque não basta ouvir uma vez, decorar a letra e sair cantando junto.
É necessário um mergulho de alma.
A ausência de palavras permite um vôo emocional.
O intuito de quem improvisa é manifestar a foto da aura de um momento, e não criar um gesso para os ouvidos.
Ouvir música não deveria ser uma atividade banal.
Fazer música menos ainda.
Tanto o extremo da música erudita, presa a partituras e grandes mestres, quanto o da pop, a que agrada ao povão, se perdem na repetição, na tentativa de acertar.
Hermeto Pascoal começou a vida musical de ele ouvindo passarinhos.
Além disso, «brincando de errar» com os irmãos.
Pegavam pedaços de madeira e batiam o mais «errado» que conseguiam.
De esse jeito virou um gênio.
Transpondo essa idéia e fazendo de ela uma filosofia de vida, (paralelo do qual não se pode fugir, já que a música acontece em ela), se praticássemos mais o lado lúdico do erro quem sabe seríamos menos infelizes.
Boa parte das neuroses deriva da busca de perfeição.
Bastaria soltar as cordas imaginárias que prendem nossos corações e ouvidos pra descobrir que existe um caleidoscópio sonoro sagrado ao final do arco-íris.
Referências contemporâneas:
Música Instrumental no Overmundo
Itiberê Orquestra Família
Maritaca Produções Artísticas Gravadora Núcleo Contemporâneo
Benjamin Taubkin Nenê Trio
Arismar do Espírito Santo
Toninho Ferragutti Selo Rádio Mec
Hermeto Pascoal e Aline Morena
Orquestra Popular de Câmara Airto Moreira e Flora Purim
Naná Vasconcelos Sivuca
Itiberê Zwarg Jovino dos Santos Neto
Vinícius Dorin Curupira
www.cafemusic.com.br (rádio online, artigos, mp3, discos inteiros disponíveis para ouvir, resenhas, entrevistas, links)
Número de frases: 63
Podcast Miscelânea Vanguardiosa Quando chegamos para a entrevista com José Mojica Marins, em seu estúdio no Centro de São Paulo, topamos com o cineasta no balcão de um bar ao lado do endereço que seu assessor (e também genro) havia nos passado.
Identificados, ele logo explicou que um vazamento no prédio iria atrasar um pouco nossa conversa.
A relação com algum indício de fenômeno sobrenatural foi logo aventada, mas preferimos a versão de que o edifício era bem antigo mesmo.
Já no estúdio, vemos rolos de filmes, cartazes e capas de revista onde o mais famoso personagem de Mojica, o Zé do Caixão, é a estrela principal.
Alguns outros objetos soturnos também completavam o ambiente algo tenebroso, que contrastava com a simpatia e a acolhida do cineasta e das outras pessoas que trabalham no local.
Como parte do ritual de nossas entrevistas, oferecemos uma cachaça artesanal para o nosso entrevistado.
Mas fomos surpreendidos com a informação de que Zé do Caixão também emprestaria seu nome para uma aguardente.
Aliás, para dois tipos da «marvada».
Logo, a mesa tinha mais duas garrafas da dita cuja, obrigando os entrevistadores a também degustar do produto que será lançado em breve no mercado.
Durante as quase duas horas de conversa, Mojica falou sobre seus filmes, em especial o que será lançado ainda este ano, Encarnação do Demônio, que encerra a trilogia iniciada com à meia-noite levarei tua alma e Esta noite encarnarei no teu cadáver.
Encerra? Talvez não, segundo o que o próprio Mojica deixa escapar, revelando uma certa pressão para que Zé do Caixão (ou Coffin Joe para os fãs gringos) não pereça em sua eterna busca por a mulher perfeita.
A entrevista foi concedida para os integrantes do Futepoca (www.futepoca.com.br).
Sua carreira no cinema é toda em cima do medo.
De onde surgiu isso?
José Mojica Marins -- Acho que fui o homem mais covarde do mundo, muito medroso.
Aí, chegou uma hora que não tinha como fazer, estava noivo da mulher mais linda do Brasil.
Pertência à colônia espanhola, era capa de revista direto e, queira ou não, se apaixonou por mim e eu, por ela.
Aí tive que raptá-la, mas de um jeito diferente, com apoio dos irmãos e da mãe.
Raptei e a levei para a casa da própria mãe do meu sogro.
Mandei uma carta dizendo que estava na Argentina, pedindo que autorizasse o casamento.
Para não passar vergonha, ele autorizou.
Eu era muito medroso e me perguntava:
«Como vou me casar e viver com uma mulher se só durmo com a luz acesa e tenho que escutar a voz do meu pai e da minha mãe?».
Puta que o pariu!
Eu era considerado um cara violento demais na aparência, era ator, tinha 18 anos.
«Como faço, se passo que sou de uma coragem fora de série, mas sou medroso."
Aí, tomei coragem.
Cemitério da Consolação, 1956.
Vou direto, assobiando Acorda, Maria Bonita, pulei o muro, fui perto de uma cova.
Via sempre no cemitério aquelas coisas surgindo, diferentes, uma coloração verde, amarelo, vermelho, e não sabia o que era.
Tinha de descobrir.
Vinha assustado, junto com um amigo, e era o fogo-fátuo.
Quando você morre, seu cadáver está em decomposição, sai aquela coisa estranha, colorida, muito bonita.
Em a época não consegui filmar, porque não tinha um negativo com sensibilidade que tinha essa resolução.
Hoje, você pode pegar um cemitério onde houve um massacre, e há muitos corpos [recém-enterrados] em decomposição, e você vai ver coisas sensacionais que nunca viu na vida.
Parece fantasma verde, amarelo, azul.
Pulei o muro do cemitério da Consolação e cheguei perto de um túmulo e vi um recém-falecido, mas não vi nada.
Fui me afastando uns 30 metros, nascia aquela imagem verde e amarela, que era o fogo-fátuo.
Quando cheguei perto, desapareceu.
Aí falei:
«Não existe a não ser na minha mente, isso tem uma explicação científica».
De esse dia em diante, eu pulava o muro, nunca mais teria medo de cemitério, de corpos em decomposição, enfim, perderia o medo completo.
E aceitaria me casar, porque enfrentei e destruí meu próprio medo.
Isso é realmente o que aconselho às pessoas.
Aquilo que elas têm medo, têm que enfrentar.
Não tem que dar aqueles dois segundos e voltar para trás.
Você vai em frente, enfrenta, e volta.
Você é outro homem.
Passei a ser um homem dono do medo, eu passo medo nos outros.
Eu faço os outros sentirem medo, convivo com cadáver, com vermes.
Vocês vão ver Encarnação do Demônio, que vai sair agora ...
Sempre disseram:
«Não, você faz nos outros».
Agora eu deito, e mando encher de aranhas, elas vêm nos meus olhos, já saiu o trailer.
São muitas aranhas, cobras ...
«Pode pôr mais perto do rosto».
Disseram: «Não, mas pode te acertar o olho».
«Se me acertar é acidente de filmagem» (risos).
Pus a cobra e ela dá picada perto dos meus olhos.
Eu era um homem que, só de falar em cobra, dava um pulo.
Depois, passei a fazer nas pessoas, só que elas viram que eu já não tinha mais medo.
Aí, topei no Encarnação fazer, para mostrar que não tenho medo.
Afogo minha companheira onde ninguém -- 70 técnicos -- ficou, em três mil baratas.
Pensei que só mulher tinha medo de barata, mas nenhum técnico chegou perto.
Paulo Sacramento [produtor do filme] ficou no terceiro andar com uma vigia para ver se alguma barata ultrapassava a porta.
Qual filme o senhor considera sua obra prima?
Mojica -- Finis Hominis.
Um filme lançado trinta e tantos anos antes do seu tempo.
Ficou duas semanas em cartaz, que achei até muito, e eu dizia que a fita estava muito avançada.
Hoje é a época das igrejas.
Mostrava as igrejas tomando conta do Brasil, mas estava adiantado.
O bispo iria tomar conta do Brasil.
E tomou.
Só não consegui fazer uma fita que lutei, lutei para fazer, não deu.
Mas se fizesse, estaria como um herói.
Chama-se Ereto, o Crente.
Um roteiro que escrevi há 25 anos, tentei patrocínio, na raça, mas não consegui.
O Crente era exatamente o que eu achava que aconteceria depois do ano 2000, " está preso em nome de Deus.
Pega a virgem, gira o rabinho, joga ...
Tá amarrado».
Que merda, não existe porra nenhuma.
As minhas esposas mais legais do mundo se tornaram crentes e eu tive de me separar.
Olha só.
O personagem principal do Finis Hominis é mais nocivo do que o Zé do Caixão?
Mojica -- Segundo Glauber [Rocha], eu deveria unir Zé do Caixão e Finis Hominis.
Porque Zé do Caixão é um louco consciente.
Finis é um louco inconsciente.
São dois loucos de jeitos diferentes.
Juntando os dois, tenho um roteiro, deve dar uma loucura total.
Se conseguir, através do Encarnação, verba suficiente, eu faço.
O senhor tem muitos projetos?
Mojica -- Sim, muitos.
Mas gostaria de fazer realmente a continuação do Finis se encontrando com o Zé do Caixão.
Acho que estaria apropriado para a época.
Total. Para 2009 ou 2010, é o filme ideal.
O encontro.
Número de frases: 96
A íntegra da entrevista está em http://www.entrevista.futepoca.com.br/ A indústria fonográfica não é a indústria da música.
A primeira está moribunda, a segunda está no auge.
Em um livro em 2067 ...
Número de frases: 3
«Ai, terras negras d ´ África,
portos de desespero ...
-- quem parte, já vai cativo;
-- quem chega, vem por desterro."
Cecília Meireles -- Romanceiro da Inconfidência
Existiu um rei-escravo na Vila Rica do período colonial brasileiro?!
Ou a história de Chico Rei é mera imaginação, fruto da ânsia de um povo por melhores tempos vindouros?
Até aonde segue a realidade e onde se inicia a lenda?
Exploremos o misto de história e lenda, valendo-nos do conhecido samba «Chico Rei», presente na obra» Voz e Coração «de» Martinho da Vila.
«Vivia no litoral africano
Uma régia tribo ordeira cujo rei era símbolo
De uma terra laboriosa e hospitaleira
Um dia, essa tranqüilidade sucumbiu
Quando os portugueses invadiram
Capturando homens
Para fazê-los escravos no Brasil
Em a viagem agonizante
Houve gritos alucinantes
lamentos de dor
Ô, ô adeus, Baobá, ô, ô Ô, ô adeus, meu Bengo, eu já vou "
Dizem que Chico Rei foi um rei africano que juntamente com a sua tribo foi feito prisioneiro e trazido ao Brasil para servir a fins escravocratas.
«Ao longe, Minas jamais ouvia
Quando o rei mais confiante
Jurou à sua gente que um dia os libertaria
Chegando ao Rio de Janeiro
Em o mercado de escravos
Um rico fidalgo os comprou
E para Vila Rica os levou "
O outrora rei Galanga foi rebatizado como Francisco, ficando posteriormente conhecido por Chico Rei.
Com boa parte da tribo, Chico Rei foi comprado por abastados senhores de Vila Rica (a atual cidade de Ouro Preto).
«A idéia do rei foi genial
Esconder o pó de ouro entre os cabelos
Assim fez seu pessoal
Todas as noites quando das minas regressavam
Iam à igreja e suas cabeças banhavam
Era o ouro depositado na pia
E guardado em outro lugar com garantia
Até completar a importância
Para comprar suas alforrias
Foram libertos cada um por sua vez
E assim foi que o rei
Sob o sol da liberdade trabalhou
E um pouco de terra ele comprou
Descobrindo ouro enriqueceu
Escolheu o nome de Francisco
E ao catolicismo se converteu
Em o ponto mais alto da cidade, Chico Rei
Com seu espírito de luz
Mandou construir uma igreja
E a denominou
Santa Efigênia do Alto da Cruz " Chico Rei conseguiu se beneficiar com algum tempo de trabalho livre e com o ouro que conseguiu esconder.
Ajuntou dinheiro e comprou sua alforria, bem como a alforria dos seus súditos.
Comprou a Mina da Encardideira e utilizou o dinheiro da extração do ouro para iniciar a construção da Igreja de Santa Efigênia, localizado no Bairro Alto da Cruz.
Dizem que escravos iam até a igreja com ouro escondido entre os cabelos e que os lavavam na pia, onde o ouro permanecia para posterior uso libertário ou para uso na construção da igreja.
Entre a realidade e a suposição, o certo mesmo é que a escravidão e a colonização portuguesa foram uma grande mazela social.
Tentando escapar de elas, muitos se valeram das mais inimagináveis práticas.
Para captar mais nuances da história-lenda, veja também o filme «Chico Rei».
Somando-se ' a luta dos negros é mostrada a luta dos inconfidentes contra o poderio português.
Em o mais resta discutir a escravidão e a dominação econômica entre nações e intra-nações, práticas essas que não foram criadas no Brasil Colonial, práticas essas que vêm assolando a humanidade há tempos imemoriais.
Resta ainda discutir se hoje a humanidade já é realmente livre ou se a escravidão apenas mudou de roupagem ...
Relembrando esse tema e encantando a Marquês de Sapucaí, a tradicional escola de samba «Beija-Flor» promete desfilar, já em 2007, exaltando a força africana.
Entre outros personagem surgirão Chico Rei e Zumbi dos Palmares.
A escola promete abordar a força de africanos que mesmo vivendo num meio escravagista, nunca deixaram as suas almas serem escravas.
Número de frases: 63
A população do município de Nova Mamoré ficou curiosa quando viu o caminhão do Revelando os Brasis chegando à cidade.
Queria mais detalhes do que se tratava e o que, de fato, aconteceria nos próximos dias.
«Vai ter cinema na praça, e de graça!"
foi logo avisando a produtora do projeto, Gabriela Nogueira, a um grupo de pessoas, minutos após sua chegada, antes mesmo de se hospedar no hotel no domingo (08/07) à tarde.
O evento estava programado para o dia seguinte, segunda-feira, às 19h:30m. Porém é preferível que você, caro leitor, esteja localizado nesta que foi a última apresentação da primeira etapa desse projeto, onde um caminhão, que carregou toda a estrutura técnica, já percorreu mais de 15 mil quilômetros por o Brasil afora.
Que município é esse?
Antes de receber esse nome, o município de Nova Mamoré era denominado como Vila Nova do Mamoré, em conseqüência da desativação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM).
A ferrovia tinha como ponto de parada a pequena comunidade de Vila Murtinho, localizada às margens do rio Madeira, na época um dos principais centros comerciais da região por absorver a produção de borracha e castanha dos seringais nativos da República Federativa da Bolívia.
O município fica localizado a 240 quilômetros da Capital, Porto Velho, e apenas 40 quilômetros do município de Guajará-Mirim.
Com a desativação da EFMM, Vila Murtinho sofreu um golpe em sua economia e começou, então, uma migração dos comerciantes da pequena vila para as margens da futura rodovia (Br 425), surgindo assim um povoado que, inicialmente, foi chamado de «Vila Nova».
Mas foi através da Lei nº 531, anos mais tarde, em 1993, após ser chamada de «Vila Nova do Mamoré», que finalmente estava criado o município de Nova Mamoré, hoje com uma área de 10.113 km² e uma população estimada em 20.343 habitantes.
É uma daquelas cidades típicas do interior, que possui apenas uma rua principal (que é a BR 425) onde fica localizado o centro da cidade.
Motocicletas e bicicletas são os principais meios de transportes daquela região.
A única praça da cidade (conhecida como Matriz) fica localizada bem no centro, onde também está situada a Igreja Católica de São Francisco.
É o ponto de encontro de quem quer bater um papo, paquerar, lanchar ou simplesmente ficar sentado no banquinho da praça.
Cinema Grátis
Enquanto ainda estava sendo montada a estrutura do cinema a céu aberto por a dupla Ricardo e «Seu Toninho», duas figuras ímpares da equipe de apoio, não paravam de chegar pessoas em busca de informações sobre o que estava acontecendo na praça Matriz.
Era um sobe e desce nas ferragens, puxa corda de ali, estica a corrente daqui, que ninguém entendia quase nada.
E quando finalmente sabiam do que se tratava, a pergunta era unânime:
«é de graça?»,
questionavam." Sim», respondia este escriba que acompanhava tudo de perto.
Foi quando o Rafael -- um menino de oito anos -- estacionou sua bicicleta, ficou me rodeando e tomou coragem pra perguntar:
«tio, eu posso vim assistir?».
Lógico, respondi.
Mas o melhor da história ainda estaria por vir ...
Quando o relógio marcou 18h:20m estava tudo pronto para a primeira exibição gratuita de cinema no município de Nova Mamoré.
Era o Revelando os Brasis, mais uma vez, pronto para entrar em ação.
«Aquele Apito do Trem "
Esse é o nome do documentário, dirigido por Sâmia Dias da Silva (uma das escolhidas por o projeto Revelando os Brasis), e também a principal atração da noite para os moradores de Nova Mamoré.
Quem assistiu pôde ficar emocionado ao ver o «Seu Zé Piraíba», um dos primeiros moradores de Vila Murtinho, relatar as dificuldades daquele tempo e como viviam os moradores da pequena vila na época.
«Era 18 estivador, nós embarcava a borracha e as mercadorias que vinham de Porto Velho (castanha), todo trem vendia banana, berimbá ...
essas coisas», relembra " Piraíba.
«É um patrimônio imaterial», revela Sâmia Dias ao se referir ao documentário.
Segundo ela, houve um interesse muito forte em contar a história do município por pessoas que acompanharam o desenvolvimento de Nova Mamoré desde o início, naquela época ainda Vila Murtinho.
Foram mais de cinco dias de filmagens e 15 dias para o documentário ficar totalmente pronto, diz Sâmia, que adorou a experiência de dirigir um curta-metragem.
«Eu nem esperava ser selecionada por o projeto e ver meu trabalho hoje aqui na tela é muito gratificante».
E finaliza:
«Agora quem quiser saber um pouquinho mais da história de Nova Mamoré poderá recorrer a este arquivo em forma de documentário».
Depois da experiência, Sâmia pensa em produzir um novo documentário, desta vez contando a história do município de Guajará-Mirim.
«São planos para o futuro», complementa.
Enquanto isso na primeira fila ...
... Lá estava ele, frenético, inquieto e de olho na tela -- até então nunca vista daquele tamanho.
Rafael Andrade de Jesus, de oito anos, ao me ver gritou:
«Não disse que eu vinha?"
E não veio sozinho.
Trouxe com si seus irmãos Daniel Andrade, 10 anos e a irmã mais velha, Daiane Andrade, 13 anos.
Rafael nasceu em Nova Mamoré e faz a 2ª série do primário.
Contou que viu «aquele monte de ferro pendurado» na praça e resolveu saber o que era, enquanto passeava com sua bicicleta.
A o saber que se tratava de cinema, não pensou duas vezes em convencer seus irmãos para não ir sozinho, já que, como ele mesmo disse, «não tenho idade pra sair sozinho à noite».
Ele me revelou que estava muito feliz em poder assistir a um filme numa tela tão gigante, embora ainda não soubesse o nome do filme.
«É ação, tio?
Porque eu gosto de filme de ação», argumentou.
Não, disse eu.
«É filme contando a história de Nova Mamoré».
Ele coçou a cabeça como quem não é tão interessado em história, mas preferiu não sair do lugar.
O documentário «Aquele Apito do Trem» começa e Rafael não pisca os olhos.
Está atento e vibra ao ver a locomotiva correndo os trilhos da Estrada de Ferro Madeira Mamoré.
Parece sonhar com a imensidão das imagens e fica emocionado quando o «Zé Piraíba» dá o seu depoimento.
Pergunta: «Por que esse velho tá chorando?».
Respondo que ele está emocionado.
Após o documentário, ainda foram exibidos mais três filmes:
Terra Santa, de Antônio Gato -- Pará;
O Retorno do Zeca, de Paulo Castelo Branco, Bonfim -- Roraima;
e Matinta-Perera, de Júnior Rodrigues;
Anori -- Amazonas.
A o perceber que a sessão de cinema tinha chegado ao fim, Rafael apenas me olhou e, como quem pedia pra que esse momento nunca chegasse, perguntou mais uma vez:
«Terminou mesmo, tio?
Amanhã tem mais?"
Fiquei sem saber o que responder ...
Revelando Emoções
A produtora do Revelando os Brasis, Gabriela Nogueira, comentou sobre a sensação de dever cumprido.
«É muito emocionante trabalhar num projeto com essa magnitude que é o Revelando os Brasis, porque dá pra sentir a necessidade do cinema em municípios onde as pessoas adorariam assistir a filmes pelo menos uma vez por semana», conta.
Ela diz que em algumas cidades, onde a cultura do povo era mais reservada, houve transformações consideráveis porque traz à população um estímulo de ver o trabalho de alguém da própria cidade ser reconhecido.
«E foi principalmente nestas localidades que observamos uma necessidade do cinema, onde existem, sim, pessoas com talento», finaliza.
Patrocinado por a Petrobras, o Circuito de Exibição começou no dia 24 de maio, no Espírito Santo, e vai até o dia 27 de julho, no Estado do Amazonas.
As telas e os equipamentos estão sendo transportados em dois caminhões, que, durante as sessões, também são utilizados como cabines de projeção.
Até o final da mostra, os caminhões irão percorrer 25 mil quilômetros em todo o País, chegando a 61 municípios (as 40 cidades onde os vídeos foram produzidos e 21 capitais).
Número de frases: 77
Quando a banda sergipana naurÊa lançou, há uns dois anos, o seu primeiro CD e começou a ser celebrada como uma grande revelação da música do Estado, fui conhecer o trabalho dos rapazes e de verdade gostei, porém não me engajei àquele alarde inicial porque ando cansado dessas «novidades» em Sergipe que são excessivamente cultuadas no primeiro estouro, mas que se mostram, em pouco tempo, serem simples traques de massa.
Esperei o segundo disco (que acaba de ser lançado e se intitula " NaurÊa apresenta O Sambaião ") e agora, sim, posso dizer que se trata, disparado, da melhor banda atualmente existente por estas bandas.
Os sete componentes (Márcio de Dona Litinha, Alex Sant ' anna, Léo Airplane, Abraão Gonzaga, Aragão, Binho Caixa d'Água e Patricktor4) têm mostrado considerável amadurecimento artístico e o que, antes, soava meio amador, agora já ganha ares profissionais.
É fato que o pessoal tem talento e, aliado a ele, talvez o mais importante:
a vontade de chegar lá.
Assíduos freqüentadores de apresentações na Rua da Cultura, local em que conquistaram grande parte de seu público, já tocaram e se destacaram também fora dos nossos limites territoriais, como no Festival de Inverno de Garanhuns e até na Alemanha, como ocorreu no mês de julho passado.
Muito bem gravado por o competentíssimo Anselmo Pereira no Estúdio Caranguejo Records e com um trabalho gráfico simples, mas bem concebido e executado, o novo CD compõe-se de quinze faixas nas quais os ritmos nordestinos se impõem e ganham contornos bem interessantes.
A maioria das canções é composta por Márcio que se mostra um criador inspirado, se bem que a banda conta com um outro compositor de peso, Alex Sant'Anna, o qual, inobstante desenvolver paralelamente um ótimo trabalho solo, poderia ser mais utilizado por o grupo.
As melhores faixas deste muito bem-vindo álbum são «Álcool ou Acetona» e «Basta Viver», mas dá para destacar também a deliciosa e politicamente incorreta» Vc Toda», «Dona Lalinha», Fome Moderna» e a instrumental «Hoje Só Amanhã» e ainda há a participação especial de Silvério Pessoa em «Sexta-Feira».
A única preocupação que os rapazes precisam ter daqui para a frente é não se repetir porque de resto a banda está prontinha para conquistar o Brasil.
É Sergipe mostrando que musicalmente não deve nada a ninguém!
Rubens Lisboa
RUBENS Lisboa é compositor e cantor e escreve toda semana para a coluna Musiqualidade que sai no site da infonet www.infonet.com.br.
Banda: NaurÊa
CD: " NAURÊA Apresenta:
O SAMBAIÃO "
Selo: Disco De Barro
Ano: 2006
Número de frases: 18
Lançamento: 11 de setembro de 2006 na Rua da Cultura.
Em este mês de Julho Campos do Jordão tem recebido milhares de turistas, principalmente nos finais de semana.
Muito concorrida nesta época do ano, Campos é a única cidade do Brasil que oferece atrações para um público absolutamente seleto, promovendo um verdadeiro desfile de luxo e sofisticação.
Em as ruas estreitas da cidade, carros importados disputam espaço entre si, bares e restaurantes ficam lotados de gente bonita e elegante.
E para ocupar todo este exigente público, várias atrações culturais são programadas para todas as idades ao longo do mês.
O Festival de Inverno, além formar diversos bolsistas, oferece também a oportunidade de ver de perto as melhores orquestras e músicos do Brasil, além de diversas atrações internacionais como o London Brass, um dos principais conjuntos de metais do mundo, a violonista americana Sharon Isbin e a diva das sopranos a neozelandesa Kiri Te Kanawa.
A Praça da Vila Capivari recebe imperdíveis atrações, como a Banda Sinfônica tocando junto com o London Brass (foto) e outras orquestras interpretando uma imensa variedade de música, principalmente brasileira em apresentações comentadas e gratuitas.
Considerada uma das principais vitrines do País, Campos do Jordão é invadida também por uma grande quantidade de empresas que divulgam suas marcas em todos os locais da cidade, oferecendo brindes, sorteios e patrocinando eventos com presença de personalidades.
Como o ambiente é propicio, os canais de mídia como TV, revistas, sites e jornais sobem a serra para registrar tudo que acontece na Suíça Brasileira, valorizando o local e dando um toque especial de glamour e brilho à cidade.
Número de frases: 9
www.netcampos.com addd -- videos da apresentação no teatro do sesi FILE 2006
Oi pessoal,
gravamos a apesentação do «addd» no file hipersonica 2006 (festival internacional de linguagem eletrônica) no teatro do sesi SP
separamos em 3 partes no youtube.
É só clicar e assitir.
Levando em conta a compatcação tosca q o site do youtube faz com os videos.
Ficou até bom de assistir.
Mas ao vivo ou no DVD é outra coisa:
D videos addd -- file hipersonica -- teatro do sesi 2006
parte 1
http://www.youtube.com/watch? v = 8D8uKprEqiM
parte 2
http://www.youtube.com/watch? v = HPzaDssMwIo
parte 3
http://www.youtube.com/watch? v = 2rtNZwf5540
mais infos:
www.addd.com.br
Número de frases: 17
www.file.org.br Mais que um festival de música, o Piauí Pop é uma forma do piauiense, especialmente o mais jovem, se sentir «incluído».
Só quem mora aqui sabe da sensação ruim de saber que grandes shows acontecem em todo o país, até mesmo aqui pertinho no Ceará, e poucos, pouquíssimos chegam até nós.
De bandas e artistas do mainstream então, nem se fala.
Existe uma carência muito grande por aqui.
Não vou entrar numa discussão inócua com quem acha que o Piauí produz muita coisa boa, que toda semana tem espetáculos no Teatro do Dirceu, que os músicos piauienses brilham nos barzinhos e blá blá ...
tudo isso é muito verdade!
Sem discussão.
Mas quero ver alguém dizer que não fica morrendo de vontade de ver um show do Los Hermanos, do Capital Inicial, do Barão Vermelho.
Só para dar um exemplo, há alguns anos dezenas de jovens fretaram ônibus, se juntaram em vários carros e foram em caravana para São Luís para assistir a um show do Sepultura (que acabou nem rolando, para tristeza e decepção de quem sonhou em ver a banda).
Bandas que são consideradas «out» no eixo Rio-São Paulo, como o Biquíni Cavadão (lembra da nossa conversa na Lapa, André?),
aqui fazem shows simplesmente lindos, inesquecíveis para quem assiste e certamente para os músicos também.
O Bruno Gouveia é adorado, quando ele sobe no palco e soam os primeiros acordes, o chão treme de tanto que a galera pula.
O show deste ano foi memorável.
às seis da manhã de uma segunda-feira, milhares de pessoas ainda cantavam e dançavam.
Encerrar o festival com o Biquíni é literalmente deixar um «gosto de quero mais».
O Cidade Negra também levou à loucura milhares de pessoas, assim como o Kid Abelha, O Rappa, Lulu Santos e Barão Vermelho.
Isso sem falar na histeria coletiva provocada por os meninos do Los Hermanos.
A moça que estava na minha frente cantava tão alto que certamente amanheceu afônica no dia seguinte.
Até «Anna Júlia» eles tocaram, para espanto de muita gente.
O idealizador do evento, Marcus Peixoto, publicitário, 54 anos completados em pleno primeiro dia de shows, é um homem de grandes festas.
Basta dizer que ele é o criador da Micarina, a micareta de Teresina que durante dez anos arrastou multidões.
Problemas com a empresa organizadora acabaram por dar fim (e deixar saudades em muita gente, é bom que se diga) na festa, que já foi considerada a maior do Piauí.
Peixoto criou há três anos o Piauí Pop para dar uma opção a quem estava cansado de Chicletes, Ivetes, Babados e afins.
Deu certo.
Vitrine para bandas locais
Quando é que uma banda underground tem a oportunidade de tocar para 20, 30 mil pessoas?
O Piauí Pop abre espaço para os músicos do Piauí mostrarem o que sabem fazer muito bem.
Bandas como Full Reggae, Káfila e Gramophone e músicos como Teófilo e Ostiga Jr. sabem da importância do evento.
A banda Acesso, uma das mais queridinhas por aqui, teve a boa idéia de gravar o show em DVD.
Espero que não demore pra sair, porque foi muito, muito bom.
O reggae da Acesso é uma delícia e é impossível não sair cantando o refrão de «Palavras no Papel», que já é sucesso nas rádios locais.
Aliás, as bandas de reggae -- Fullreggae, Nando C.H.A., Cabesativa (de Parnaíba) e Karranka -- este ano foram destaque no festival.
Como a proposta é agradar a todos os públicos, por isso além dos shows de música pop tem tenda eletrônica, hip hop, teatro e dança, não posso deixar de comentar que o público do heavy metal saiu decepcionado.
Primeiro com o cancelamento do show do Krisiun, marcado para a primeira noite, e também com o fato do Anno Zero não ter tocado devido a problemas de comunicação com a organização.
Centenas de pessoas afirmaram que tinham comprado o ingresso especialmente para ver a banda.
Os palcos menores, montados para espetáculos de dança, teatro, shows de rap e hip hop tiveram um público menor, mas bem atento.
A cantora Maria da Inglaterra, que foi homenageada com o nome de um dos palcos (os outros dois são Torquato Neto e Assis Davis), mais uma vez deu um show de simpatia e alegria, emocionando quem estava na platéia.
Para ela, ser pop é ser feliz e fazer o que gosta.
Para quem participou do festival, música pop não é só aquela que martela nossos ouvidos no rádio o dia todo.
Por aqui, pop é ficar feliz da vida por ter três noites de shows e começar de já a contar o tempo para a edição 2007.
Número de frases: 40
Anos 60.
Em aquela época entrava-se na Escola apenas aos 6 anos de idade, já para a alfabetização.
O «jardim de infância» fiz em casa, com minhas irmãs mais velhas, portanto não entrei «analfabeta», já sabia escrever o nome e segurar o lápis.
Morávamos em Resende, cidadezinha do interior Estado do Rio de Janeiro, onde funciona a Academia Militar das Agulhas Negras, que forma os oficiais do Exército e onde meu pai era Instrutor, na época.
Minha primeira Escola chamava-se Olavo Bilac, a melhor escola pública da cidade, diziam.
Saí do «pré-primário» elogiada por a professora, fluente na leitura, orgulhosa com meu primeiro livro, «O coelho Perna Longa».
O primeiro dia foi bem traumático para uma criança de seis anos.
As aulas já haviam começado, meu pai recém-transferido, eu sem uniforme, aluna nova ...
Fiquei com tanta vergonha que não conseguí levantar da mesinha de quatro lugares e fiz xixi na calça.
Diante daquela poça um amiguinho chamou a «tia», que foi muito carinhosa, falou que eu podia pedir para ir ao banheiro ...
Os coleguinhas foram implacáveis:
Virei a «Maria-Mijona»!
Moramos cinco anos em Resende e praticamente terminei o «primário» no Olavo Bilac.
Lembro-me das sabatinas de tabuada e conto para minha filha que não conheço outro método mais eficiente:
Decorar a bendita!
Toda semana entrávamos «em forma» para o hasteamento da bandeira e para cantar o Hino-Nacional, que naqueles anos de Ditadura, vinha impresso em todos os cadernos que recebíamos, de graça, junto com o material didático.
Minha mãe era professora da Escola e eu achava o máximo.
Ela era " linha-dura, a turma de ela vivia de castigo, sem recreio.
Algumas meninas invejosas as vezes me chamavam para brigar.
Marcávamos hora e local, durante o recreio.
Só que quem aparecia era minha irmã do meio, somos três filhas, que mais parecia uma lutadora de «kung-fu».
Eu só via a poeira subindo e cinco minutos depois minha irmã saindo triunfante, a adversária empoeirada no chão.
Topei a briga mas não disse que seria a lutadora!
Nunca mais mexeram com mim.
E eu nunca aprendí a brigar ...
Só mais tarde!
Depois nos mudamos para o Rio de Janeiro, cidade que nascí mas deixei com um ano para morar no Espírito Santo.
Fui matriculada na Escola Municipal Minas Gerais, na Urca, Praia Vermelha, ao lado do Pão de Açúcar, lá onde Estácio de Sá fundou a cidade do Rio de Janeiro, onde fica o Instituto Militar de Engenharia (Ime), o Estado Maior do Exército e a Escola Superior de Guerra.
Praticamente todos os filhos de militares estudavam ali, além da população do bairro.
Em essa Escola concluí o «primário» até o «Admissão», uma espécie de preparação para o» Ginásio».
Em o ano seguinte houve a Reforma do Ensino, acabaram com o Curso de Admissão.
Todo mundo ganhou um ano, menos eu e meus colegas!
E foi lá, aluna nova, tímida, sem minha irmã Luci para me «proteger», porque estudava em outro período, que ganhei o apelido de» Maria-Chorona», «banana pintada» (por causa das sardas), «tomou sol com peneira» e eu chorava, chorava ...
Até que me aconselharam a começar a achar graça, eu comecei a rir ao invés de chorar e as piadas terminaram ...
Lembro-me que tive minhas primeiras (e únicas) aulas de francês nessa Escola ...
E do refeitório que servia lanche e almoço para o turno da tarde!
Saudades do Minas Gerais.
Boa Escola. Fazíamos apresentações nas datas folclóricas e tínhamos até recitais de poesia.
à noite funcionava o «Supletivo», para os adultos.
Depois, nova mudança ...
Desta vez fomos para o Paraná.
Meu pai terminou seu Curso e fomos «tranferidos».
Já estava na quinta-série do «ginásio» e sofrí um bocado ...
O sotaque carioca era «atração» da Escola, Escola Estadual Regente Feijó.
Número de frases: 44
E a saga continua no próximo capítulo!
Estamira desemboca no lixo das misérias humanas, da mentira, da canalhice, da vergonha.
Ela é contra o maltrato, o descaso, a imoralidade, a falta humildade.
Vive do lixo das almas, do lixo que não é de resto, mas do descaso, como ela diz.
do que as pessoas têm para cuidar, mas deixam ir.
O filme de Marcos Prado, premiado em diversos festivais de cinema, arremessa-nos aos delírios de consCiência de Estamira, uma catadora de lixo iluminada com idéias e conceitos próprios, desencadeados por sofrimentos de sua vida acumulados.
Mas o filme brilha por a intensidade dos depoimentos, por a captação das imagens, por os recursos que trazem uma image granulada e dolorida, por a trilha sonora profundamente conectada com o sentimento de cada imagem, mas sobretudo por o sentimento que o filme provoca em cada espectador.
E é esse sentimento que merece ser vivido, pois cada um experimentará uma reação diferente a esta provocação.
O mundo pára para ser orquestrado por Estamira, esta bruxa que não é perversa, mas pode ser má, justamente quando se preocupa em vestir seus companheiros pois a chuva se aproxima.
E o vento que chega para varrer o chão levanta todos os lixos leves, que voam em cores e despregam desgovernados dos montes de lixo, e a chuva vem para diluir aquela atmosfera, inundar as superfícies, derreter numa só forma aquela degradação horrenda.
E Estamira explica o chorume, do que é feito.
Mais adiante, ela diz:
«A vida é dura».
Ela é, mas muito mais para uns do que para outros.
Suas expressões são conceitos recorrentes, ela é contra o trocadilho, aquelas situações trocadas, a realização numa palavra da injustiça, ela define a mãe como o homem par e o homem como homem ímpar, para mim ela é dor pura do excesso de consciência de que tudo está errado e de que, por isso, não poderia haver Deus.
Seu rival é poderoso, seu rival foi potencializado por seu ex-marido, mas seu rival é ainda mais poderoso e mesmo com esta carne velha, esta camisa sanguínea, ela ainda dá conta de enfrentá-lo.
E ela é contra a imoralidade, contra o descaso, o maltrato, a falta de humildade.
Ela não é contra Deus, é contra os seres humanos que inventaram um Deus para poderem justificar sua
maldade.
E a maldade está no filme em tantas formas, no que fizeram com ela, prostituindo-a, traindo-a, estuprando-a, drogando-a, não dando outra opção que não a de tirar seu sustento do lixão de Gramacho, criar seus filhos no lixão, mas também a maldade está no lixão que é a borda, o limite da sociedade, da cidade e da humanidade, nos hospitais psiquiátricos, nos valores trocados, na hipocrisia, descaso, canalhice, mentira.
Estamira está em todos os cantos, em todos nós e todos precisam de Estamira.
Não sei de todos, mas eu preciso.
Número de frases: 22
Sobretudo, um resgate ...
«Esta obra é o marco do resgate da Ribeira, o bairro-berço de Natal.
Representa ainda o ato final no processo de revitalização desta parte tão querida da cidade ...».
As palavras da placa de aço dão o mote da razão de ser de mais um espaço que nasceu para guardar a memória da cultura popular.
E se todo museu é um mundo de possibilidades, com o recente Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão, não poderia ser diferente.
A implantação do Museu vem completar o hiato que havia em terras potiguares em relação à cultural original do povo.
A missão da nova casa de cultura é reverberar os testemunhos materiais e imateriais da Cultura da Tradição do Estado, proporcionando uma leitura geral das manifestações folclóricas do Rio Grande do Norte.
O ponta-pé inicial fica por conta da exposição de longa duração denominada Atos de Memória:
Tradição e Cultura do Povo Potiguar, que está dividida em quatro eixos temáticos:
O mundo encantado dos Folguedos e das Danças Tradicionais no RN;
O mundo mágico:
encantos e encantamentos do João Redondo;
Saberes e Fazeres do Povo Potiguar;
Atos de Memória:
Arte, Fé e Religiosidade do Povo.
Entrando museu adentro, uma fartura de pequenos seres feitos de madeira, pano e, sobretudo, criatividade, dão as boas-vindas a quem vem chegando.
São eles, os bonecos João Redondo, representantes fiéis do teatro popular, manifestação presente no interior do Nordeste.
Abaixo dos bonecos que provocam encantamento, estão fotografias de seus principais criadores:
Gapó, João Viana da Costa, Francisco Ferreira Sobrinho, Miguel Relampo, Antônio Rato, José Targino Filho e o maior de todos, mestre Chico Daniel.
Além do Teatro Popular de Bonecos, outro traço marcante do povo nordestino é a religiosidade.
Por isso mesmo, não poderia faltar no Museu uma representação do ' Quarto dos Santos ' -- os oratórios domésticos instalados, geralmente, na sala de visita.
Em eles, os fiéis não guardavam apenas seus santos, mas também tudo o que fosse relacionado com sua fé:
medalhas, terços, santinhos, rosários, velas, enfim, um verdadeiro memorial de fé, culto e devoção.
Mas não apenas a religião católica se professa no ambiente.
Em o museu, todos os cultos comungam de um mesmo propósito:
representar o verdadeiro mosaico e sincretismo que é a religiosidade do povo nordestino.
Cultura e espaço
Em síntese, a iluminação interna do Museu se apresenta como um componente de destaque.
A luz do lugar não é natural.
O espaço é tomado por uma penumbra que causa introspecção, transmite sentimentos.
Faz com que o visitante se aproxime mais dos elementos expostos, gerando um maior entendimento entre o observador e os objetos.
Hélio de Oliveira, Coordenador do Projeto Museológico e Expográfico, revela que um outro aspecto cuidadosamente pensando foi a própria arquitetura do Museu.
«Toda a ambientação do Projeto Expográfico foi elaborada em relação ao acervo que iriam contemplar estes módulos.
Discuti com o arquiteto, e chegamos à conclusão de que colocaríamos os folguedos populares num círculo, e a religiosidade ficaria num espaço em forma de cruz, já que tínhamos quatro religiões, que formam a religiosidade do povo brasileiro».
Quanto ao acervo, Hélio conta que o Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão dispõe de mais de 2000 peças materiais.
São esculturas, artesanatos, brinquedos populares, pinturas, e dezenas de outras coisas que representam o cotidiano cultural do Rio Grande do Norte e que contemplam, ainda, cerca de quatrocentos artistas populares, valorizando, assim, o homem e sua produção.
«Começamos a visitar os produtores, e aos poucos fomos conseguindo o acervo.
A grande maioria foi adquirida através de compra, salvo quando os produtores já eram falecidos».
De entre aqueles que têm suas obras expostas, estão os seridoenses Luzia Dantas (artesã e santeira), Ivan do Maxixe, Júlio Cassiano (escultor de madeira pintada com esmalte sintético);
de Acari, Chico Santeiro, Dimas Ferreira (escultor de granito), Gregório, Galego e Jordão.
Em a pintura ingênua, estão trabalhos de Ivanize do Vale, Nivaldo Rocha, Iaperi Araújo, Iaponi e Maria do Santíssimo.
De a ruma de bens culturais que constituem o acervo do Museu, o escritor e folclorista, Deífilo Gurgel diz o seguinte:
«Eu achei muito bom.
Eu senti que houve muita inspiração por parte de quem fez a montagem do Museu».
E houve mesmo.
Há algum tempo, Hélio de Oliveira começou, com a ajuda de estagiários e alguns consultores, a elaborar a proposta conceitual do que seria apresentado no Museu.
«Quando Dácio me convidou, eu passei um tempo trabalhando sozinho e com três estagiários, pessoas que auxiliavam na compilação do material pra que eu começasse a ler e, começasse a entender que universo eu iria trabalhar para apresentar.
Tínhamos vários consultores espalhados por o RN, que nos informavam do que estava sendo produzido em termos de arte nos municípios».
Findado o tempo de muita pesquisa dedicada à elaboração do Museu, Hélio recebeu o aval que precisava.
«Depois de um tempo, eu apresentei a proposta, ele gostou, eu comecei a trabalhar ...
já estamos há mais de dois anos elaborando este projeto que não se estanca aqui», garante o Coordenador que ainda arremata:
«Ele tem uma continuidade».
Tradição e Contemporaneidade
Umas das grandes novidades que o Museu apresenta, é a união da tradição com a contemporaneidade.
Além do acervo material, o espaço conta ainda com mais de 200 horas de conteúdo digital, acessadas através de oito pontos de multimídia espalhados por as dependências do " Djalma Maranhão.
«Os meios de comunicação avançam, e o Museu não pode ficar pra traz.
Nós temos que nos adaptar à nova realidade.
Então essas são as novas formas de comunicação que temos com o público, especialmente o público mais jovem, que fica mais à vontade com as informações do Museu numa linguagem mais moderna», analisa Hélio.
Para o maior folclorista potiguar em atividade, os novos modelos de propagação da cultura são, na verdade, um mal necessário.
Saudosista e tradicional, Deífilo Gurgel fala como deveriam ser as coisas:
«Eu gostaria muito que as futuras gerações tivessem a mesma possibilidade que eu tive, de estudar essas coisas ao vivo.
Não através de livros, de vídeos, filmes, essas coisas ...
por que se você vê ao vivo, você tem a oportunidade de dialogar.
E através desses registros eletrônicos, não tem.
Aquilo ali é uma coisa meio morta, parada ...
ao vivo é outra coisa», sentência o folclorista.
De o verdadeiro maniqueísmo que é a junção de um acervo cultural material com o digital, Dácio Galvão é pragmático e vê a união com bons olhos.
«O hibridismo dos testemunhos materiais e imateriais, mostram, não somente a dinâmica da cultura potiguar, mas, fundamentalmente, os vários aspectos das produções do Estado.
E a virtualidade é algo que dinamiza.
É um conteúdo muito diverso, muito consistente, que vai colocar o jovem, o turista, o intelectual, um pesquisador e mesmo aquele desatento à cultura, num mesmo nível de curiosidade.
É uma produção muito bem feita, muito bem editada, que vai possibilitar, não só o deleite estético, mas a pesquisa também».
Movimento dançante
O Estado do Rio Grande do Norte é privilegiado em matéria de danças da tradição folclórica.
Primeiramente, porque continua resistindo e dançando sem perder a estima.
E, em segundo lugar, porque a província potiguar é a única no Brasil que ainda mantém vivos os quatros grandes autos populares:
Boi, Fandango, Chegança e o Congo.
E, ainda a Lapinha, o Pastoril e os Caboclinhos.
Em o Estado se manifesta, ainda, outras danças populares, desde o Zambê de Tibal do Sul -- uma referência nacional, à Sociedade Araruna, única do país e orgulho dos potiguares.
Falecido no dia 13 de agosto, poucos dias antes da inauguração, Cornélio Campina não teve tempo de prestigiar o Museu e nem pôde ver a sua Sociedade sendo representada com as dezenas de manequins trajando as roupas típicas do grupo.
De uma ocasião anterior à inauguração do espaço, os periódicos da cidade registraram a fala simples de Cornélio.
«É uma beleza.
Tudo o que vier para o bem das tradições eu estou gostando».
Sorte diferente teve Seu Correia, mestre do Congo da Vila de Ponta Negra.
Em visita ao Museu, o guerreiro da Vila diz ter ficado «satisfeito» com a representação do seu grupo.
«Achei muito bacana.
Muito organizado.
As pessoas podem conhecer mais sobre o Congo.
O Congo tem história pra contar».
Uma brincadeira que começou com o pai do Mestre Correia, Sebastião Francisco Correia, no longínquo ano de 1912, hoje, O Congo de Calçola de Mestre Correia continua sendo uma herança de família.
«Quando eu fechar os olhos, o Congo já vai ter raízes ..."
Abrindo as portas
Inaugurado no dia 22 de Agosto, Dia Nacional do Folclore, os cerca de 400 metros quadrados do piso superior da rodoviária velha transformados numa verdadeira casa de cultura ficaram pequenos para tanta gente.
Autoridades, jornalistas, músicos, repentistas, pintores, artistas plásticos, escultores e muitos outros tipos.
Em a ocasião, o livro de visitas registrava mais de 300 assinaturas.
Uma de elas era da escritora Mailde Pinto Galvão.
Diretora de Documentação e Cultura no Governo Municipal de Djalma Maranhão, ela diz ter ficado maravilhada com a lembrança que tiveram do ex-prefeito.
«Acho que foi uma homenagem muito digna de quem era Djalma."
Emocionada ao falar sobre o homem que levou leitura e alfabetização para o povo na Natal da década de 60, através da campanha De pé no chão também se Aprender a Ler, Mailde acredita que com a construção do Museu «fizeram uma homenagem não só a Djalma, mas à cidade».
Um multiplicador de conhecimento, este é um museu que se propõe redimensionar frequentemente os seus módulos e sua expografia, gerando, como assegura Dácio, «uma identidade maior, uma auto-estima mais aprofundada daqueles que visitarem o Museu».
Hélio de Oliveira corrobora com este conceito.
«Não existe nada permanente, tudo tem um tempo, por isso, usamos agora, exposições de longa duração, com um tempo estimado de três anos, onde as peças poderão ser substituídas, mas sem perder a informação e o conteúdo».
Aliado a isso, o Museu conta, ainda, com a galeria de exposições temporárias, um espaço que tem o objetivo de dinamizar ação cultural da casa.
«A nossa intenção é que o museu não tenha um caráter da limitação de um depósito de peças, mas um caráter educativo e pedagógico.
Ele é totalmente diferente da idéia de museu de antigamente», defende Dácio Galvão.
Contando com um espaço para programação educativa, oficina de restauração e conservação e auditório -- que leva, merecidamente, o nome de Cornélio Campina, outra preocupação do Museu é com a comunicação e, sobretudo, com a publicação daquilo que vem sendo pesquisado em solo potiguar.
Com o selo do Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão, no dia da abertura das portas, os leitores ganharam mais uma obra de peso.
«O reinado de Baltazar», do folclorista Deífilo Gurgel, que é uma homenagem ao mamulengueiro Chico Daniel.
Também estão previstos o lançamento de dois Cds, um do poeta popular Xexéu e outro com músicas da linha da Jurema (religião descendente das culturas afro e indígena).
Os idealizadores do lugar percorreram grande parte dos museus do Nordeste que dizem respeito à cultura popular e perceberam, segundo o Presidente da Fundação Cultural Capitania das Artes, Dácio Galvão que, «sem falsa modéstia, o Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão não deixa nada a desejar».
Sobranceiro, Dácio ainda lança o desafio:
«Se você fizer um levantamento, desses museus ...
de Salvador, do Rio de Janeiro, de São Paulo, você vai, seguramente, ter um orgulho muito acentuado do nosso Museu».
Para «Hélio de Oliveira,» o museu, sem sombra de dúvida, poderia ser instalado em qualquer parte do Brasil, não fazendo vergonha a ninguém».
De as sentenças do Presidente e do Coordenador, o referido é verdade e dou fé.
Djalma Maranhão -- Memória
Plural e dionísico, sentimental e romântico, Djalma Maranhão vivia permanentemente em contato com todas as classes.
Como dizia o poeta José Conde, «Maranhão» transformou Natal numa verdadeira Passárgada cultural».
Nascido na capital potiguar no dia 27 de novembro de 1915, Djalma era filho de Luís Inácio de Albuquerque Maranhão e de dona Salomé de Carvalho Maranhão.
Homem simples, inteligente e que sabia exatamente o que queria da vida, não transigia nas suas idéias.
Primeiro prefeito a se eleger diretamente por o voto do povo na Natal de 1960, acabou sendo preso durante o Golpe Militar de 1964.
Em uma mensagem dirigida ao povo brasileiro datada de 1965 e enviada de Montevidéu, lugar de seu exílio, Djalma Maranhão explicaria qual teria sido o seu grande infortúnio.
«Meu crime maior foi alfabetizar vinte e cinco mil crianças, na pioneira campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler, reconhecida por a Unesco como válida para as regiões subdesenvolvidas do mundo, num país de humilhante maioria de analfabetos e lutar para dar ao povo, acesso às fontes do saber, no plano de democratização da cultura.
De fazer Feira de Livros, de construir uma Galeria de Arte e estimular o Teatro do Povo.
De restaurar e promover a revalorização dos Autos Folclóricos.
De abrir Bibliotecas Populares que estabeleceram recordes nacionais de empréstimos de livros, numa cidade que não tinha biblioteca pública».
«É difícil fazer um resumo do que foi aquele tempo em poucas palavras.
Mas posso dizer que foi um período de grande efervescência cultural na cidade».
É com esses dizeres que a escritora Mailde Pinto Galvão sintetiza o governo de Djalma Maranhão.
Se ele morreu de «saudade» como alguns defendem, não se sabe.
O fato é que mesmo sendo preso, exilado e vilipendiado de todas as formas, Djalma Maranhão não perdeu o foco do seu trabalho:
lutar por a cultura do povo.
«Caso venha a morrer no exílio, peço que meu corpo seja transportado para Natal.
O caixão coberto com a bandeira da campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler, e que, na hora em que o corpo baixar a sepultura, as crianças da minha cidade, que se alfabetizaram nos Acampamentos Escolares cobertos de palhas de coqueiros, cantem o nosso Hino, o Hino de Pé no Chão.
Companheiros, meus irmãos:
mesmo distante continuo presente na Cidade.
O vento trará minhas palavras e cada alvorada recordará a claridade da minha luta, permanentemente lembrada por o coração do povo», eis o homem.
Número de frases: 136
As inscrições para as duas mostras competitivas da VI edição do Festival de Cinema e Vídeo de Palmas, o «Chico 2006» já estão abertas e prosseguem até o dia 02 de outubro.
Em a mostra «Circuito Universitário» podem concorrer acadêmicos de todo o país, com vídeos de até cinco minutos de duração.
Já na mostra «Circuito Aberto», podem ser inscritos vídeos com até vinte minutos de duração, desenvolvidos por produtores de qualquer estado brasileiro.
A temática, para as duas mostras, é livre, como também são aceitos vídeos nos gêneros ficção, documentário, animação e / ou vídeo experimental.
Além dos circuitos competitivos o «Chico» também oferece espaço para jovens diretores que queiram expor seus trabalhos (longas ou curtas -- metragem) numa mostra não competitiva
Apoio Além do Sesc -- Serviço Social do Comércio, o Ceulp-Ulbra -- Centro Universitário Luterano de Palmas e o Sebrae (Te o) -- Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas são outras duas instituições no Tocantins que já confirmaram apoio cultural para a realização do Festival, que este ano está previsto para acontecer de 22 a 25 de novembro, na capital tocantinense.
O apoio dessas instituições vai possibilitar a presença de convidados e jurados de renome nacional que farão parte da comissão julgadora do Festival, bem como proporcionará, pela primeira vez na história do Chico, a realização de oficinas de capacitação na área do audiovisual e projetos culturais.
Inscrições
As inscrições são gratuitas.
Os interessados devem acessar o site oficial do Festival www.festivalchico.com.br, para obter o regulamento e a ficha de inscrição, que será efetivada com a entrega ou envio do filme em DVD, no Sesc de Palmas, no endereço:
301 Norte, conjunto 01, lote 19, avenida Theotônio Segurado, Palmas -- Tocantins, Cep:
77.001-226, em nome do Centro de Imagem e Som, e aos cuidados da Coordenação Cultural do Sesc.
Até o momento a organização do Festival já recebeu mais de 30 inscrições de todo o país.
Mais informações podem ser obtidas com a direção-geral do Chico, Tatiana Fagundes, por o telefone 63-9213-5421.
Número de frases: 14
Divertir.
Eis a principal função de um jogo eletrônico.
Porém, se é possível ir um passo além, por que não?
Os games vêm sendo cada vez mais utilizados na prevenção e tratamento de doenças (a chamada " gameterapia "), sem falar em áreas como publicidade, treinamento corporativo, educação, bem estar social e até mesmo como instrumentos para promover a paz.
São os chamados «serious games» que, no exterior, já têm exemplos célebres, como America's Army, desenvolvido por a exército norte-americano para estimular o alistamento militar no país, e Food Force, criado por a Onu com a nobre missão de estimular o combate à fome.
Em o Brasil, os jogos sérios encontraram uma vertente promissora e interessante, especialmente na propaganda e na educação.
Os advergames -- o termo nasceu da junção das palavras advertising (propaganda) e game, é claro, também chamados de «jogos publicitários», nada mais são que os games empregados para transmitir mensagens publicitárias aos consumidores, principalmente através da internet.
É, certamente, muito mais divertido (e interativo) que os comerciais da televisão ou os pop-ups dos websites.
«O advergame, seja ele para mídia online ou mesmo offline, tem a característica de expor, de maneira não-intrusiva (os usuários procuram o jogo por livre vontade), determinado público-alvo a uma marca, produto, ou campanha», explica Fred Vasconcelos, 32, sócio e diretor comercial da Jynx Playware.
Em suma, enquanto um anúncio comercial pode atrapalhar a leitura numa revista, ou atrasar o início do seu programa predileto na TV, nos advergames ele auxilia nos objetivos no jogo.
A Jynx, estabelecida em Recife, tem entre seus clientes companhias como Coca-Cola, MTV, Petrobras, SBT, Smirnoff Ice, Sadia e por aí vai.
Para as produtoras de games, especialmente no Brasil, a vantagem em investir nos advergames é a segurança, afinal, são projetos sem grandes orçamentos e alheios à pirataria, condições ideais para um país onde falta dinheiro para investir em grandes projetos e sobram falsificações.
Entretanto, nem sempre os serious games têm fins lucrativos.
Pelo contrário: podem até desempenhar um papel importante na sociedade.
Prova disso é o Desafio Sebrae que, atualmente em sua 7ª edição, contou com mais de 55 mil inscritos -- para 50 mil vagas.
São pessoas de absolutamente todos os Estados do Brasil, que se organizam em equipes de até cinco integrantes, para encarar o desafio de gerenciar um empreendimento próprio.
A competição é dividida em cinco fases e as três primeiras acontecem através da internet, num jogo online que lembra muito The Sims (famoso um simulador de relacionamentos da Maxis), só que voltado ao aspecto «business».
Em esta fase, as equipes montam e administram seu próprio empreendimento.
As duas fases derradeiras, semifinal e final, são presenciais, mas o suporte continua sendo o jogo.
A diferença é que, agora, as equipes são «confinadas» num hotel e cada quarto transforma-se na empresa, por assim dizer.
Os custos com viagem e hospedagem são todos bancados por o Sebrae e, na semifinal, cada participante das 32 equipes classificadas ganha um computador.
à equipe campeã, o prêmio é uma viagem para o norte da Itália.
«O Desafio Sebrae, por utilizar a metodologia de jogos empresariais, agrega ludicidade ao processo de aprendizado e esta é uma das mais modernas formas de abordagem no ensino de adultos», explica Ricardo Albert Garcia, 45, consultor e coordenador geral do Desafio Sebrae.
Em a área da educação, os jogos também vêm quebrando barreiras, indo além do virtual.
Sapiens Circus, criado por um grupo de pesquisadores da Fundação CERTI e do Instituto Sapientia, da Universidade Federal de Santa Catarina, é um bom exemplo de como os games educativos estão longe daquela imagem de software com gráficos precários e clima infantil.
O projeto mistura teatro, em que atores e visitantes compartilham um mesmo palco;
cinema, com mídias e telas desenvolvidas para integrar experiências reais e virtuais;
e jogo, ponto máximo da jornada, quando visitantes assumem papéis reais na trama.
Hoje, o espaço físico do Sapiens Circus está instalado em Manaus e Florianópolis e, de tempos em tempos, vai a outras cidades do país.
Como a plataforma pronta, torna-se possível trabalhar vários temas:
o primeiro de eles foi «BioDiversão: uma aventura na Amazônia», cuja história começa com um passeio por a floresta, se desenvolve com uma estranha doença alienígena que assola o local, prejudicando índios e ribeirinhos, e desemboca convocando o público -- no caso, crianças entre 10 e 14 anos -- a interagir com diferentes personagens e com a própria cultura da floresta, para restabelecer a ordem.
Seja na propaganda, simulação corporativa ou na educação, os serious games mostram que jogar é coisa séria e, mais do que isso, que, quando bem explorado, o entretenimento eletrônico pode ter um papel nobre, contribuindo para sociedade.
Número de frases: 32
É uma visão muito interessante para uma mídia que, por vezes, de maneira injusta, é utilizada como bode expiatório para as mazelas da sociedade -- como a violência, por exemplo.
Quanta coisa aconteceu, em Oeiras.
naquele fatídico dia 11 de Fevereiro de 1973.
Só o que eu sei dá para escrever uma crônica envolvendo partidas, para alhures e para o além, separações, até traumáticas, e intensa comoção popular.
E olhe que eu, nem de longe, imaginava, neste dia, que viria a conhecer Oeiras e poder discorrer sobre as personagens dessa história, sendo que, de alguns de eles, vim a ser amigo e, de todos, admirador.
Em este dia, o então estudante, Pedro Ferrer Mendes de Freitas retornava à Cidade Maravilhosa, então «Estado da Guanabara», após merecidas férias na amada terrinha, Com ele viajavam objetos do amor e da afeição de dois dos mais ilustres oeirenses.
Ele conta:
«Em a tarde em que Gerson faleceu, mais ou menos três horas antes, viajei de volta para o Rio de Janeiro onde residia há dez anos.
Em a minha companhia seguiu aquela de quem o amigo estava enamorado.
Estava também amando e me confidenciou: --
Vou casar com o Gerson, sabia?
E entrou num mutismo que denunciava a incerteza, não dos sentimentos, mas de que viesse a concretizar seu sonho, àquela hora, sem que soubesse, já desfeito." (
Dez anos sem Gerson Campos, in " Solo Distante, crônicas oeirenses ").
Se a seu lado, no entanto, viajava a prometida do poeta Gerson Campos, na bagagem ia um pedaço do coração do professor Possidônio Queiros:
sua flauta de prata, doada ao filho Franscisco, a pedido deste.
É ainda Ferrer quem revela " Em a volta de uma destas memoráveis férias recebi, entre honrado e constrangido, a missão de transportar para o Rio o bem mais precioso de Possidônio Queiroz, sua flauta de prata.
É que um filho de ele, também residente no Estado da Guanabara, Francisco Queiroz, que era músico e se ordenara pastor pediu ao pai, que há anos deixara de tocar, que lhe cedesse a flauta.
Honrado porque transportaria o bem material mais precioso do mestre Possidônio.
Constrangido, por o mesmo motivo:
quem visse, como eu, a emoção de que Possi foi tomado, o semblante denunciando a tristeza que lhe invadia a alma ...
sentiria o mesmo ...
Era como se alguém lhe arrancasse um pedaço de si!
Por momentos cheguei a pensar em recusar-ma transportar algo tão caro a alguém." (
«O Estado do Piauí, o mais charmoso do Brasil, número 4», edição comemorativa dos 100 anos do nascimento do professor Possidônio Queiroz).
A impressão relatada por Ferrer é, de certa forma, corroborada por o próprio Possidonio que, escrevendo sobre o instrumento a seu filho, Francisco Queiroz, diz, a certa altura:
«Em o momento da despedida, tentei arrancar algumas notas mas, a contragosto, verifiquei que a flauta já não me conhecia, ela que outrora foi uma amiga inseparável.
Que sons bonitos, maviosos ela me fornecia? ...
Ficava muitas vezes, noite velha a dentro a manejá-la encantado com o que ela me dizia.
Doce ao extremo, requeria um sopro suave, fraco, porque do contrário ela gritava magoada.
Em os graves uma beleza encantadora.
Notas cheias redondas, magníficas.
Em os médios uma riqueza de doçura que se assemelhava ao violino.
Em os agudos afinadíssima e agradável sobremaneira ao ouvido.
Hoje me não quis satisfazer.
Também há mais de doze (12) anos não tocava.
Assim mesmo pude arrancar-lhe quase a contragosto de ela, umas cromáticas e uns trenos saudosos que constituíam os meus estudos dos tempos de mocidade»." (
«O Estado do Piauí, o mais charmoso do Brasil, número 4», edição comemorativa dos 100 anos do nascimento do professor Possidônio Queiroz).
Em o dia 11 de Fevereiro de 1973 o Estádio de Futebol do Leme, em Oeiras encontrava-se lotado.
A partida entre as seleções de Oeiras e Floriano era decisiva para saber qual das de elas iria disputar, em Teresina, o jogo final do VI Torneio Intermunicipal Piauiense de Futebol.
A peleja, evidentemente, mobilizava os corações e as mentes dos oeirenses, entre os quais se encontravam a mente efusiva e brilhante e o grande, porém adoentado, coração do poeta Gerson Campos, figura querida de todos por o alto astral e alegria de viver que transmitia.
A seleção de Oeiras, começara o jogo perdendo por 1 a 0.
Que ninguém esperasse moderação daquele torcedor fanático.
Gerson, da arquibancada, fazia tanta algazarra, embora com graça e sensibilidade, evidentemente, quanto os carros de som desses candidatos que acham que vão ganhar a eleição no grito.
É de Possidônio Queiroz a pungente descrição do momento em que recebeu a notícia da morte do jovem poeta:
«Morreu Gerson Campos!
Morreu Gerson Campos!
Morreu Gerson Campos!
Dizia uma voz, num crescendo aflitivo, ao longo da Praça Cel.
Orlando Carvalho. Era um moço que descia do Estádio Municipal, onde acabara de dar-se o encontro pebolístico Oeiras-Floriano, e onde vira, minutos antes, vibrando, aplaudindo, incentivando os jogadores, o inditoso Gerson, agora morto."
Carlos Said, cronista esportivo do «Jornal do Piauí, em crônica publicada a 14 de Fevereiro de 1973» em homenagem ao torcedor Gerson Campos escreveu:
«Em homenagem à bravura do desportista que, proibido de exaltar-se em benefício do futebol de sua terra natal, o vereador José Alves Teixeira, da Câmara Municipal de Oeiras, encaminhará projeto de lei solicitando a mudança de nome do Estádio do Leme para Gerson Campos.
Evidentemente, fará-se-justiça a quem sempre mereceu homenagens por o desprendimento e amor ao futebol, nunca largando a seleção de Oeiras, mormente agora, na fase mais importante do campeonato, quando Floriano, outra seleção candidata à classificação, adversária temida, procurava a vitória com o respeito que se deve dar ao jogo da bola."
A seleção de Oeiras classificou-se para disputar a final do campeonato em Teresina, contra a Seleção de Altos.
Venceu Floriano por 2X1, de virada.
Mas imagino como devem ter sido tristes as comemorações por tão importante conquista desportiva.
Por tudo isto que relatei, espero ter conseguido demonstrar que, para o bem e para o mal, o 11 de Fevereiro de 1973 deve ser considerado um dia inesquecível para os oeirenses.
Em tempo:
Oeiras, infelizmente, perdeu o jogo final para Altos.
Talvez a seleção tenha sentido falta de seu torcedor mártir.
Ainda em tempo:
Apenas como um detalhe complementar daquele tão historicamente referenciado dia, vejam o poema que eu encontrei, entre os escritos do poeta, acompanhado da seguinte nota explicativa
«Este soneto, publicado no jornal «O COMETA» de Oeiras-Pi, ed. de fev.
/ 73, foi entregue na Redação, dia 11/02/73, poucas horas antes do falecimento repentino do poeta (o grifo é meu J.O.).
As estrelas dos postes de cimento,
enchendo de clarão toda a cidade,
são mil círios velando o meu tormento
num velório de angústia e ansiedade ...
Para que tanta luz e encantamento
se estou só?--
Se para mim a claridade
mais claro me faz ver o desalento
da face amargurada da saudade?
Quero vê-la e não posso -- Coisa incrível
se amar uma pessoa tanto assim,
notando que este amor é impossível ...
Meu delírio é sentir que não tem fim,
a dúvida fatal, cruel, horrível,
de saber se ela gosta ou não de mim.
Número de frases: 78
Oeiras, 19/ 07/ 72
Sara Regina A fotografia como arte engajada foi um dos temas discutidos na palestra ministrada por o fotógrafo Rogério Ferrari, realizada na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), no dia 08 de agosto, às 10 horas.
A palestra pertence ao ciclo de debates sobre Antropologia e Fotografia, que vão de 1 a 29 de agosto, às terças-feiras.
O evento faz parte do Agosto da Fotografia que está sendo realizado por a Casa da Photographia.
Fotógrafo e antropólogo, Rogério Ferrari durante a palestra falou sobre as críticas daqueles que consideram a arte engajada como uma forma de ' panfletagem '.
Ele acredita que se envolver com uma determinada luta, causa, é assumir uma responsabilidade como artista, no que chama de fusão da fotografia com a militância.
Os seus trabalhos surgem da vontade de retratar a vida de povos marcados principalmente por histórias de lutas e resistência.
«Realizo esse trabalho muito provocado por essa inquietação, mas do que por uma busca do exótico, algo muito comum entre os fotógrafos dos primeiros e dos primórdios da fotografia», disse Ferrari.
Segundo Rogério Ferrari, através de suas fotografias, ele pode se expressar politicamente, assim o seu trabalho apresenta características de ensaio, mas num determinado contexto histórico, baseado na espontaneidade através do seu olhar diante dos fatos.
Para ele suas fotografias são realizadas com tranqüilidade, não correndo o risco de parecer um voyeur por o posicionamento que assume na realização das fotos:
«Eu não me coloco lá como estranho.
Claro que a máquina demarca uma distância, mas é uma relação de mais tempo e não apenas chegar e começar a clicar, tirar a foto.
É uma situação que eu procuro me inserir no meio dessas pessoas e desse contexto as imagens e as fotos fluem de maneira que dentro do possível não haja uma fronteira entre o fotógrafo e a situação», disse Ferrari.
Algumas perguntas foram feitas por a platéia, a primeira questionou o fotógrafo sobre a possibilidade da fotografia engajada futuramente se tornar mais uma mercadoria.
Ferrari respondeu expondo que esse é um dos dilemas que envolvem a fotografia, na medida em que o fotógrafo realiza um determinado trabalho de forma a transmitir informação e que a partir de ela as pessoas tomam consciência dos fatos e passem a ter uma atitude, e o que acontece para além disso, como o envolvimento do olhar mercadológico, extrapola a intenção inicial da fotografia.
De acordo com Rogério Ferrari a fotografia é utilizada por a antropologia como maneira de retratar culturas distantes ou próximas, pois ao entrar no contexto social, político, naturalmente se evidência um modo de vida:
«A fotografia tem a mesma eficácia ou talvez até mais do que um estudo antropológico exclusivamente baseado no texto.
Foram vários os antropólogos que compreenderam, analisaram e escreveram sobre outros povos a partir das imagens», disse Ferrari.
O público assistiu a um vídeo de 12 minutos baseado no livro de «Rogério Ferrari A Eloqüência do Sangue», que tem como objetivo mostrar um outro olhar sobre o conflito que ocorre na Palestina, diferentemente do veiculado por a grande mídia, onde, muitas vezes, existe a rotulação dos palestinos como terroristas.
«A decisão de ir pra lá foi retratar, de mostrar a situação dentro da perspectiva dos palestinos», disse Ferrari.
Rogério Ferrari fez registros da Queda do Muro de Berlim, Revolução Sandinista na Nicarágua, Mães da Praça de Maio na Argentina, Exercito Zapatista de Libertação Nacional no México, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), de entre outros.
Número de frases: 21
Com a aproximação do seminário «A Cultura Além do Digital», estou publicando este texto aqui no Overmundo, que possui duas versões.
Uma publicada por a Revista Cult e a outra, ampliada e atualizada, publicada por a revista do SESC em sua edição atual.
Os temas discutidos no texto, bem como vários outros (TV Digital, mídia colaborativa, direitos autorais) serão discutidos no seminário.
Vale a pena dar uma olhada abaixo, para já ir pensando em como contribuir para a discussão.
* * * Um dos jornais mais vendidos na Coréia não tem jornalistas fixos.
Trata-se do OhMyNews, uma das primeiras experiências em mídia colaborativa.
Seu lema é:
«Todo cidadão é um repórter».
O jornal, que possui uma versão impressa diária e uma versão on-line, é realizado a partir das contribuições de qualquer pessoa.
Entretanto, o corpo editorial ainda desempenha um papel importante:
uma junta de editores escolhe o que vai ser publicado ou não de entre todo o material recebido.
A idéia de «jornalismo cidadão» tem-se mostrado cada vez mais forte.
O evento emblemático aconteceu no atentado a bomba ocorrido em Londres em 2005.
O evento, com toda a sua dimensão trágica, pode ser visto como o marco zero da consolidação do papel das mídias colaborativas na formação e disseminação da informação.
Os atentados a Londres demonstraram, através dos inúmeros vídeos amadores e da explosão de matérias e comentários feitos em blogs e em sites privados, que o monopólio das versões sobre grandes eventos não pertence mais à mídia tradicional.
Um fato muito simples demonstra essa transformação.
Basta procurar através do Google pela palavra tsunami.
De entre os primeiros resultados, estará a Wikipedia, a enciclopédia colaborativa escrita e modificada por qualquer pessoa.
Em estudos recentes, tem ficado claro que as pesquisas no Google têm trazido como principais resultados informações provenientes de weblogs e outros sites colaborativos.
A mídia tradicional muitas vezes nem sequer aparece de entre os primeiros resultados.
Uma das razões para isso é a decisão de grande parte dos conglomerados de mídia de «trancar» seu conteúdo através de senhas e outras estruturas similares.
De essa forma, o conteúdo não é indexado por o Google, tornando-se praticamente inacessível para um número significativo de usuários.
A conseqüência:
o conteúdo dos blogs, aberto e disponível livremente, torna-se a principal fonte de referência indexada na internet.
Esse modelo de produção colaborativa está sendo apelidado de «web 2.0».
O termo indica o desenvolvimento recente da internet, que potencializa formas de canalizar o trabalho descentralizado de voluntários.
Essa nova vertente de produção cultural, ao que tudo indica, veio para ficar.
Em tempos nem tão longínquos, um evento como os atentados em Londres, o tsunami na Ásia ou os ataques à Espanha seriam não só eventos políticos, sociais e econômicos, mas também eventos de mídia.
Atualmente, a cobertura da mídia tradicional compete diretamente com a cobertura feita de forma descentralizada, por qualquer pessoa.
Em outras palavras, a mídia tradicional ganhou um concorrente inédito historicamente:
a própria sociedade.
Não por acaso, o surgimento da sociedade como produtora de notícias está levando a uma profunda reformulação em símbolos da mídia centralizada.
Essa reestruturação da mídia tradicional é necessária e possivelmente um requisito para sua sobrevivência.
Gigantes como o jornal The New York Times, bem como a tradicionalíssima estrutura da BBC, estão desenvolvendo meios de captar as contribuições de seu público como forma de se adaptar aos novos tempos.
Em outras palavras, estão tentando adotar internamente a descentralização de opiniões e conteúdos.
Essa é a tendência atual de todas as empresas de mídia.
Não por acaso, o magnata Rupert Murdoch, dono da Fox, adquiriu o MySpace, a rede de relacionamentos norte-americano que se tornou um dos sites mais visitados daquele país.
De a mesma forma, o Google adquiriu o YouTube, em acirrada competição com a Microsoft e o Yahoo, também interessados no site.
O interessante nessas aquisições é que até o momento, ainda nem sequer está claro como transformar o MySpace ou o YouTube em modelos economicamente viáveis.
Outra estratégia consiste na criação de braços on-line dos vários jornais e outros periódicos, muitas vezes uma forma de se criar um digesto aberto das principais notícias, que possa ser indexado e atrair a atenção para a parcela de conteúdo «fechado», protegido por senha.
Isso leva a um questionamento sobre o futuro do acesso à informação na internet.
E, nesse sentido, uma das principais questões diz respeito à «propriedade intelectual» daquilo que se encontra na rede.
Como se sabe, o direito autoral atual é produto do século 19.
Em esse sentido, a regra geral é de que, não havendo notificação em contrário, todo o conteúdo nasce protegido pelo direito autoral e só pode ser utilizado mediante autorização de seu titular.
Em vista disso, como gerar conteúdo colaborativo, criado a partir do trabalho de outras pessoas?
Assim, o problema da web 2.0 e de qualquer forma de produção colaborativa é a presença permanente de uma tensão entre o legal e o ilegal.
Para agir colaborativamente, é preciso ter acesso e poder modificar o conteúdo produzido por terceiros.
Sem isso, não há colaboração.
E, para fazer isso de forma legal, é preciso que o conteúdo esteja previamente autorizado para essa finalidade.
Em esse sentido, cresce cada vez mais a importância de um projeto como o Creative Commons (www.creativecommons.org), que funciona como uma caixa de ferramentas que facilita o licenciamento de qualquer obra autoral, deixando-a pronta para tornar-se parte do processo colaborativo.
A essência do Creative Commons é seu caráter voluntário:
somente disponibiliza sua obra através de ele quem quiser.
Após três anos de funcionamento, dá para notar que muita gente efetivamente quis contribuir para esse conjunto de obras livres.
Há hoje mais de 140 milhões de obras referenciadas por o Creative Commons.
Somente um único site, o www.soundclick.com, possui mais de 200 mil músicas licenciadas por o sistema.
Em síntese, já é possível constatar a existência de uma parcela do conteúdo da internet efetivamente pronta para a colaboração.
Não por acaso, muitos dos sites que lidam com o modelo da web 2.0 utilizam uma licença Creative Commons, bem como inúmeros outros blogs.
As conseqüências disso são culturais, políticas e sobretudo econômicas.
O professor da Universidade Yale Yochai Benkler teve a ousadia de batizar seu livro recém-lançado de A riqueza das redes [do original em inglês The Wealth of Networks], uma provocação com o título do livro de Adam Smith A Riqueza das Nações.
Benkler chama a atenção para uma nova forma de geração de valor econômico na sociedade contemporânea, que passa a residir cada vez mais na idéia de «rede», isto é, enquanto uma obra ou criação intelectual torna-se disseminada.
É nisso que reside o valor dos blogs:
conteúdo livre, amplamente disseminado, em contraposição ao conteúdo da mídia tradicional, fechado e não indexável.
Tempos interessantes estes, em que as barreiras entre consumidor e produtor da informação são abaladas.
A internet dos dias de hoje se torna cada vez mais o berço de uma nova mídia, produzida de forma descentralizada.
Há quem desqualifique tudo o que está ocorrendo como irrelevante.
Podem estar certos ou não.
O principal argumento para isso é que ainda não se descobriu um modo uniforme de ganhar dinheiro para a mídia colaborativa.
No entanto, como Benkler enfatiza em seu livro, o motor da cultura colaborativa é extramercado e extramonetário.
Os incentivos para seu surgimento não são os mesmos mecanismos tradicionais do mercado.
Pode não existir ainda um modelo de negócios claro para essa nova mídia, mas o fato é que surge no horizonte a possibilidade de que deixe de existir um também para a mídia tradicional.
Como cantava «Doris Day,» que será, será».
Número de frases: 71
Sólon Ferreira é o líder do grupo Pastor Tsapa e Os Mutantes Idiotas, produz vídeos, é agitador cultural, e provavelmente dono do maior acervo áudio visual do cenário artístico independente de Maceió dos últimos 15 anos.
Morador do distante bairro do Village Campestre, Sólon vive cercado de vinis, filmes antigos, cartazes de show, gravações caseiras das bandas locais, e entre suas produções estão filmes toscos e cults em Maceió como «Os Irmãos Exóticos», 1 e 2, filmados em meados dos anos 90 e estrelados por Sólon, por o compositor Wado, por o Glauber Xavier, mentor do grupo performático multimídia Saudáveis Subversivos, e o Siri, do Santo Samba e Fino Coletivo, em atuações hilárias na tragicômica história de um traficante de coentro.
Sólon possui uma grande quantidade de imagens brutas de um momento muito fértil da música independente local, dos anos 90 até hoje, shows, ensaios, gravações de discos, conversas ...
Se esse material for editado um dia, daria um bom documentário sobre o cenário musical de Alagoas nesse período.
Ele não é um grande cantor, nem nunca estudou cinema.
Sólon é artista por insistência e liberdade poética pra sê-lo, antes de tudo, é um grande humorista, um comediante nato e impossível de descrever, só vendo e ouvindo as qualidades de coisas que ele diz.
Ao mesmo tempo em que é o rei do trash em Maceió, Sólon é figura respeitada no meio artístico da cidade, os shows da sua banda trazem sempre novos integrantes, músicos conceituados da cena local que participam das suas loucuras performáticas.
Tem show que ele junta uma turma que faz som pesado, metal, hardcore, e faz as versões das suas músicas nesses estilos, com direito a capa preta, gritões guturais e gritinhos falsete.
Em outro momento apresenta uma banda com formação mais funk, ou jazz, ou rock ' n ' roll, Sólon mostra as suas músicas em diferentes gêneros.
Genial.
Certa vez, num show dos Mutantes Idiotas na Universidade Federal de Alagoas -- Ufal -- o Pastor Tsapa, personagem que encarna no palco, estava com um cabelo amarelo interessantíssimo, que ele raspou num ritual durante a apresentação, trabalho este realizado por seus asseclas.
Aconteceu que a máquina de cortar cabelos estava velha e quebrada, e praticamente arrancava, puxando, os cabelos do pobre pastor.
Um verdadeiro show de mutilação não programada.
A música mais cantada nas apresentações, chamada simplesmente «Sólon», diz» tão herói que quebrou o pé», em referência ao acidente ocorrido nas filmagens das cenas de vôo do clipe «Spectroboi» (assista aqui!),
inspirado no personagem de ficção japonês Spectreman, no qual o próprio Sólon encarna o herói, e realmente, quebrou o pé devido à carência de tecnologia para os efeitos especiais.
Algo como a versão alagoana do personagem nipônico.
Isso é que é dar o sangue, o osso do pé e o cabelo pintado de amarelo por a arte.
Sólon promove, todos os anos, a festa «Boca do Lixo» num puteiro (não me ocorre nenhuma nomenclatura mais adequada) no centro de Maceió, onde convida outras bandas locais e também se apresentam os Mutantes Idiotas, com direito a streap-tease e tudo (não de eles).
Entusiasta do cenário musical de Maceió, Sólon já realizou coletâneas para divulgar a produção dos artistas locais, ele conta, «durante o tempo que trabalhei na casa noturna Kuarup, tive oportunidade de entrar em contato com a maioria das bandas da cidade, daí surgiu a idéia de coletâneas de divulgação, com distribuição gratuita para o público, imprensa e produtores, tivemos um bom retorno em revistas nacionais de música».
Em essa época, os contatos resultaram na participação de Sólon no festival / fórum Nordeste Independente, na Paraíba, representando " Alagoas.
«Fiquei um pouco decepcionado por estar lá sozinho, enquanto que outros estados traziam ônibus cheios de artistas e produtores, acho que Alagoas precisa criar um maior intercambio com os outros estados do nordeste».
Sólon é atualmente um empreendedor do audiovisual com sua empresa Exóticos Philmes, a idéia, segundo ele, é agregar amadores e profissionais do audiovisual e da música independente na realização de experiências livres nessas áreas.
«Tenho os equipamentos e a vontade, me tragam idéias, roteiros, projetos.
De aí é só fazer acontecer."
Enquanto isso, faz DVDs de grupos de forró-eletro brega, como a banda Saga, além de casamentos e festas de criança.
«Dá pra tirar uma grana que possibilita realizar as minhas próprias produções» diz o empresário / câmera.
Segundo Sólon, a próxima produção autoral, em fase de edição, é um documentário sobre a cidade de Arapiraca e seus personagens, a ser exibido no evento Curta Arapiraca, que será promovido em janeiro de 2007 por o projeto Salas de Música, onde também se apresentará com Os Mutantes Idiotas.
Sólon participou da produção dos documentários «Nelson», de Tales Gomes, que conta a história de um menino na cidade de Capela, cujo pai foi morto vítima do coronelismo impune.
E «Timotinho», realizado coletivamente por Tales Gomes, Sólon e Siri, que retrata um dia na vida do vigia de uma galeria de arte.
Isso mostra que nem tudo é trash nas produções do pastor.
Mas voltando ao tema, em breve a Exóticos Philmes vai lançar «A Cachaça», estrelado por Sólon e Juca Araújo, sobre um homem que depois de um dia cansativo de trabalho, tem três desilusões, política, futebolística e religiosa, e se entrega ao álcool até o momento em que encontra um anjo e os dois travam um debate que só vendo.
A o assistir ao trailer de «A Cachaça», perguntei a ele o que usou pra cuspir na cena do vômito, ele respondeu» é vômito de verdade, eu quero autenticidade, realismo fantástico, entornei 2 litros de leite e muita água, misturado com o que já tinha lá no estômago, adquiriu a consistência e a realidade que eu precisava».
Discografia:
Sem Futuro 89-99
Pastor Tsapa e os Mutantes Idiotas
Pastor Tsapa e os Mutantes Idiotas -- Gravações
Pastor Tsapa e os Mutantes Idiotas -- Vértice do Triangulo (versão do diretor (!)
do primeiro disco, com músicas ao vivo e restos de estúdio).
Filmografia:
Os irmãos exóticos 1
Os irmãos exóticos 2
Spectraboi A cachaça
Co-produ ções:
Timotinho
Nelson Coletivo base dos Mutantes Idiotas:
Pastor Tsapa:
Voz, pífano desafinado e câmera
Cobra Zumbi:
Contrabaixo / violão / viola
Ula Ula: Guitarra
Bueiro: Bateria / baixo
Perde Chave:
baixo-metal do-mal (
Respectivamente: Sólon, Magal, Eduardo Bahia, Fernando Coelho e Mirofucker).
Trilha sonora de " A Cachaça ":
Jones e Mutantes Idiotas
Mais informações e músicas do Pastor pra baixar aqui.
Contato Exóticos Philmes:
Número de frases: 58
82 8844 6766 A arte pop, em seu aspecto consagratório, conseguiu reaproximar o objeto artístico das coisas do mundo real.
A utopia modernista acabou por fazer da atividade artística o campo premonitório de um projeto de mundo idealizado que contrastava com a realidade objetiva do cotidiano.
A segunda grande guerra mundial marca em definitivo essa dicotomia entre o otimismo das teorias da arte e o fracasso de suas aplicações na vida prática.
Os grandes artistas da segunda metade do século passado são exatamente aqueles que, sem abandonar a autonomia de suas linguagens, premissa tão cara aos modernistas de primeira hora, a ela acrescentam elementos subjetivos, alguns resquícios do passado, referências, de origem popular enfim, universos culturais até então desprezados por os formalistas responsáveis por a nova Ordem que passaram a refugiar-se em escolas -- academias modernistas -- elaborando teses e conceitos nos quais a liberdade e o talento subjugavam-se ao método e a um suposto rigor científico.
O encantamento por a modernização, o fascínio por os artefatos industriais que despertava a atenção de todos no início do século XX cede lugar, nos anos 50, a um mundo cada vez mais complexo e articulado, no qual a indústria da comunicação passa a desempenhar um papel cada vez mais relevante.
É essa rede, essa visualidade urbana, essa reprodutibilidade assombrosa de imagens sem conceito e «sem alma» que domina o mass media, essa popularização do consumo visual que passa a despertar o interesse dos jovens artistas de então.
Em esse mundo repleto de imagens sem mensagem e sem dialética os artistas reencontram a possibilidade de retomar suas relações com o mundo figurativo.
Se, até agora, a arte se considerava uma espécie de laboratório de pesquisas onde a comunicação de massas se alimentava, a partir da pop art essa equação é invertida:
a arte passa a invadir a estética da publicidade, a subverter os conceitos e mensagens simplificadoras que caracterizam a relação produto / consumo.
Em o Brasil, Helio Oiticica é, sem dúvida, o artista paradigmático dessa relação intrínseca entre a estratégia conceitual baseada no paradoxo e na ironia, que tem como referência Marcel Duchamp e a valorização dos aspectos populares, subjetivos oriundos de uma poética artesanal que encontra origem em Pablo Picasso.
Os parangolés, cor vestida e sambada, são objetos referenciais dessa estratégias que abre portas e janelas para as futuras gerações.
Essa precariedade de materiais que se aproxima da arte povera embasada por um profundo compromisso com a tradição conceitual do objeto artístico como elemento de estranhamento e surpresa no mundo encontra eco e alento em diversos artistas brasileiros como Jorge Duarte, Marcos Cardoso e Edmilson Nunes.
Suas obras referem-se diretamente a uma realidade palpável, objetiva, de forte apelo popular, comprometidas com o «imaginário periférico» e suburbano ao mesmo tempo que se afirmam como elementos de forte sofisticação intelectual.
A estética, aqui, é o caminho de descoberta, de re-encontro, de aproximação, ponte entre o universal e o subjetivo, o internacional e o nacional, entre a tradição de nossa história recente na qual, alem de Oiticica, firma-se a presença de Gerchmann, Barrio, Cildo Meireles, Tunga, Bispo do Rosário.
Essa é a família, essa é a base sobre a qual se estrutura a linguagem dos três artistas que se apresentam nessa exposição.
A ela, acrescente-se o mundo.
Esse Brasil intenso e tenso que povoa nossas retinas, nossas ações, nossos atos, fatos, falos, faltas, falhas, fotografias reais e complexas de uma realidade que aterroriza e fascina como os perigos do abismo, como os trapézios e picadeiros, como os desfiladeiros por os quais caminhamos, eterno viajante, artista, repórter.
E, portanto -- e afinal -- do que trata essa mostra?
Trata do olhar, assustado, encantado, corpo que cai, corpo que voa e que reúne as tripas e as tralhas de seu caminho, de suas trilhas, do seu menino, do nosso ancião, arte por toda a parte, por todo o olhar, por o céu, por as paredes, por o chão.
Jorge, Marcos e Edmilson fazem parte de uma legião de artistas que acreditam na arte como instrumento de conhecimento e de transformação do mundo.
Seus trabalhos são, antes de tudo, pequenas engrenagens que articulam os movimentos da arte.
São brinquedos articulados nos quais o espectador é instado a participar, a pensar e a reconstruir os seus próprios jogos de armar, armas de amar.
Dentro de um universo comum de ação política da arte cada um dos artistas desenvolve a sua produção a partir de temáticas e ações específicas, o que permite que as suas obras, reunidas num mesmo espaço físico, estabeleçam diálogos articulados a partir da identificação de semelhanças e diferenças.
Jorge Duarte é um dos mais importantes artistas da chamada " Geração 80:
ao longo desses últimos 20 anos o artista desenvolve uma sólida carreira na qual a sua figuração corrosiva, de apelo popular e relações diretas com os grafiteiros urbanos mescla-se com uma constante ironia com a história da arte, na maioria das vezes manifestada através da apropriação de imagens icônicas que são abordadas por o artista através do fetiche e de suas características icônicas relacionadas com o universo dos signos da comunicação.
A utilização das palavras na obra de Jorge Duarte supera a poética visual de origem cubista e se afirma como elemento de estruturação da obra na qual a mensagem e a imagem atuam de maneira integrada e complementar.
Em meio a tanta vibração, perpassa na obra do artista uma espécie de silêncio existencialista:
a ironia e o distanciamento crítico tão caro ao artista acabam por estabelecer tensões emocionais com situações relacionadas com a vida e a morte, tortura e prazer, cenários ambíguos que parecem se deixar dominar por o próprio absurdo da existência.
Marcos Cardoso parte de comportamentos oriundos da prática artesanal para atuarem na criação de uma obra que parece querer romper os limites cada vez mais questionáveis entre as esferas da arte popular e da arte considerada erudita.
A o trabalhar nessa tênue fronteira o artista questiona os seus valores, as relações de poder determinadas por a sociedade dividida em classes e a função do «gênio» e do espírito inseridos na idéia que justifica a produção da arte.
Embalagens, garrafas, restos e resíduos urbanos, fragmentos de festa, pequenos discursos amorosos, esses são os materiais construtivos com os quais o artista elabora a sua linguagem.
Colar, rasgar, costurar, dobrar, em Marcos Cardoso a função artesanal é incisiva e representa parte fundamental de seu processo construtivo;
o pensar e o fazer se articulam numa mesma escala de valores, numa sofistica construção poética que persegue a harmonia e a integração de um Todo construído por partes desiguais, espécie de mosaico contemporâneo de forte conotação romântica.
Edmilson Nunes mergulha corajoso no universo kitsch, na força expressiva das palavras lidas, das emoções vulgares, dos sentimentos previsíveis.
Tudo aqui respira sexo, amor e traição, religião, culpa e tesão, boudoirs com aroma de alfazema, puteiros rastaqueras, Vila Mimosa, barracão de escolas de samba cheirando a cerveja, suor, cola e esperma, Almodóvar comendo moela de frango na Praça Raul Soares às 4 da madrugada, atmosfera suburbana, esse é o cenário que o artista povoa de sonhos e de fantasias, esse é o Carnaval, esse é o corpo e a cinza, a penitência e a paixão, a fé e a profanação, o sagrado e o sacrilégio.
O elemento decorativo é parte determinante da obra, alegorias de festas e de fantasias, figurinos, adereços, brilhos e purpurinas que o artista manipula, subverte a efeméride, adquire contornos de eternidade, empresta caráter e veracidade, amálgama de frustrações envelhecidas, de prestações vencidas, samba e rock, tangos e boleros, sons e cores de uma orquestra vibrante que Edmilson Nunes manipula com a voracidade de um maestro.
Número de frases: 36
Marcus de Lontra Costa, Nova Iguaçu, outubro, 2006 Movimento Defesa da Língua envia Carta aos centros de ensino em apoio ao ensino de português
A organização encoraja o professorado de secundária a solicitar para o próximo ano escolar a optativa de português no ensino.
solicitamos-lha todo o professorado que realize um pequeno
Número de frases: 3
esforço para que o próximo ano haja no seu centro a matéria de Língua e Cultura portuguesa, quer pedindo directamente através do sistema habitual do centro para ofertar matérias quer fazendo um apelo aos / às alunos / as para que o solicitem.
«Vê, o meu Recife se enfeitou demais / Olha, até o rio parou de correr ..."
Ainda estou meio de ressaca, mas como prometi, vou relatar o que rolou no Carnaval aqui da Veneza Brasileira e em Olinda.
Por enquanto vou falar da mega-abertura na sexta-feira e, ao longo da semana, vou postando detalhes, pois são muitos.
Indescritível
é a palavra que mais se aproxima do espetáculo que foi a abertura do Carnaval Multicultural do Recife.
Várias vezes me emocionei (eu e todo mundo!)
e me arrepiei no meio da multidão que tomou a praça do Marco Zero da cidade, enfeitada com os gigantescos passistas do artista plástico Lula Cardoso Ayres, num cenário maravilhoso e que tornou a noite inesquecível.
Vou abrir aqui um parêntese para elogiar a decoração de bom gosto das pontes e dos pólos com motivos inspirados na obra de Lula (o artista!),
que foi um dos homenageados do Carnaval 2007.
Continuando:
gente de tudo quanto é lugar, turistas visivelmente deslumbrados vieram saudar os 500 batuqueiros das 15 nações de maracatu de baque virado sob o comando do maior dos percussionistas brasileiros, o grande Naná Vasconcelos, que por sua vez vieram saudar a majestade da festa, o Frevo.
O baticum das alfaias ecoou por todo o Recife Antigo e um show pirotécnico se encarregou de deixar a festa mais linda do que estava.
Acho que teve mais fogos que no reveillon e tanto quanto no aniversário do frevo, no dia 9!
Mas o melhor ainda estava por vir, porque eis que surge sob um pálio de maracatu, uma extasiada Maria Bethânia pedindo licença ao povo da nossa terra e o mestre Naná para cantar.
Nem preciso dizer que o Recife inteiro presente se rendeu a essa gentileza da cantora baiana, que estava vestida tal qual aquela capa do disco Pássaro Proibido.
Cantou músicas de candomblé com babalorixás e ialorixás da cidade, e massageou mais ainda o ego pernambucano cantando " A Festa (" Belo é o Recife pegando fogo / Em a pisada do maracatu.").
Lógico que ela deixou para o final, pra delírio da galera, o Frevo n° 1 do Recife (" Ô, Ô, Ô, Saudade / Saudade tão grande / Saudade que sinto do Clube das Pás / De o Vassouras / Passistas trançando tesouras / Em as ruas repletas de lá ..."),
cantando ao lado de uma orquestra de pau-e-corda e de um afinadíssimo Coral Edgard Moraes.
Muita gente reclamou que o investimento foi muito alto para a ela cantar apenas cinco músicas.
Eu particularmente gostei, porque havia ainda muitas atrações.
Depois entrou a sensacional Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, com o não menos sensacional Maestro Forró e deram um show à parte, com todas as mesuras e «coletes» que tinham direito.
O povo simplesmente não acreditava no que via:
uma orquestra de frevo juntando coco-de-roda com jazz da Louisiana e sambada de maracatu rural aos acordes do frevo-de-rua!
E quando a orquestra e os maracatus entoaram juntos o «Evoé, Hino do Carnaval de Pernambuco», então foi pra morrer!
Logo após subiram na passarela mais dois cortejos (foram três contando com o de maracatus), um com os tradiconais blocos líricos e outro trazendo os centenários clubes e troças de rua, como Vassourinhas e Lenhadores, mostrando porque o Recife é a capital do frevo.
Arrebentaram! Claudionor Germano, o mais popular intérprete de frevo daqui, fez «frever» a praça com o hino do " Batutas de São José (" Eu quero entrar na folia, meu bem / Você sabe lá o que é isso ...").
Qualquer criatura dava-se por satisfeita se o show acabasse por ali, mas não o pernambucano.
E pra fechar com chave de ouro, aparece tocando a sua indefectível rabeca, o multiartista Antônio Carlos Nóbrega, acompanhado da Orquestra de Frevo do Maestro Spok (que arrasou na festa do aniversário do frevo).
O paraibano Chico César deu uma canja cantando o frevo-de-bloco Evocação n° 1 de " Nelson Ferreira (" Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon / Cadê seus blocos famosos..").
E Nóbrega com aquele seu didatismo contou a história do frevo em passos e música encerrando o show.
Ufa!
Fui para a casa em êxtase, dormir para o Galo da Madrugada no outro dia.
Mas esse assunto vai ficar para o próximo.
O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo.
A proposta é construir um panorama do Carnaval do Brasil, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país.
Número de frases: 36
Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag carnaval-2007, no sistema de busca do Overmundo.
Uma viagem por o rock ' n roll rondoniense
Se você quiser saber algo sobre o rock ' n ' roll em Rondônia, pode chamar Marcos Souza para uma conversa.
O jornalista, crítico e roqueiro lembra com detalhes dos primeiros passos do ritmo de Elvis Presley e The Beatles na terra da Madeira-Mamoré.
Por aqui, as guitarras verdadeiramente roqueiras começaram a gritar na década de 1980, época do surgimento do Estado, da maioria das cidades e do enorme crescimento da população.
Foi aí que, em Porto Velho, as bandas Ponte Aérea e Código Morse apareceram em festinhas de escolas, tocando covers de Rpm, Legião Urbana, Ultraje a rigor e Paralamas do Sucesso.
A rivalidade das duas bandas descia do palco e chegava aos fãs, conta Souza com entusiasmo.
«Ambas eram muito boas, mas houve quem achasse a Ponte muito elitista ou mesmo reclamasse que Código só tocava Legião», lembra o jornalista.
Vítimas do Sistema e Ossos do Ofício apareceram já no final dos anos 80.
Vítimas só tocava Ramones e Punk Rock.
Barão Vermelho era assunto para a Ossos.
O ofício desses rapazes (Gustavo, Marcelo, Denis e Rods) foi além de animar festinhas para jovens, muito da cena existente em Rondônia se deve à persistência dessa banda.
Vídeo Rock, Oficina do Ney e Urublues
Foi nessa época que surgiram as animadas disputas do Vídeo Rock, promovido por o Sesc da capital, que foi o primeiro palco de muitos roqueiros da terrinha.
Quando o projeto acabou, muitas bandas que surgiram para concorrer no mini-festival acabaram numa oficina de carros no centro de Porto Velho.
É isso mesmo, o roqueiro e mecânico Heavy Ney abriu sua Oficina do Rock todos os finais de semana, e lá, com pouco espaço, entre macacos e chaves de rodas, a galerinha pirava ao som do puro metal.
«Eu gostava de ouvir, os caras gostavam de tocar, e a galera vinha e era barato.
Não deu outra, foi sucesso», conta Ney.
Apesar dos primeiros shows na oficina datarem do início da década de 80, foi no final dos anos 90 que as festas ganharam destaque maior no cenário de eventos da capital.
«A vizinhança sempre teve muito preconceito com o pessoal do metal», conta Ney.
As bandas que tocavam na Oficina do Ney eram mais underground e a fama do local não era das melhores, dadas às roupas pretas, cabelos compridos e tatuagens da galera do heavy metal.
A Oficina do Rock acabou em 2003, quando Ney teve que mudar para um bairro na periferia da cidade.
Antes disso, Ney virou político, um folclórico candidato que deixa as eleições mais animadas e radicais.
«Heavy Ney é radical, o resto é tudo igual», diz o seu animado slogan.
Metal para um lado, Pop rock para outro.
Foi assim que a galera da Ossos, já com nova formação, teve a idéia de montar o Urublues Rock Pub em 1997, uma casa que começou devagar, mas que em menos de um ano virou a mais badalada da cidade.
«Muito dessa cena atual no rock em Porto Velho se deve ao Urublues», acredita Denis Carvalho, um dos idealizadores do projeto e baixista da Nitro, antiga Ossos do Ofício.
A única casa de rock da capital passou a ser ponto de encontro também dos shows de grandes bandas nacionais em Porto Velho, como Paralamas do Sucesso, J. Quest, Skank, Titãs, entre outros.
Alguns desses astros também aportaram no Urublues para curtir a noite dessas bandas da Amazônia.
Em 2001, o Urublues fechou as portas.
Festivais e a nova geração
Mas Denis e companhia não desistiram de fazer rock e dar palco para as bandas de Rondônia e, depois de tocarem no Festival Enseada, em Santos, Porão do Rock, em Brasília e no Festival de Verão de Salvador, surgiu a idéia de promover algo de gênero, uma produção totalmente local, mesclando as bandas da região e grandes ídolos brasileiros.
Assim, em 2003, nasceu o Madeira Festival, um dos maiores festivais de música da região norte do Brasil.
Roqueiros da capital, das cidades do interior, do Acre, Amazonas e de estados do centro-sul do país subiram no mesmo palco de Titãs, Ls Jack, Pitty, Tihuana, Detonautas e O Rappa.
A idéia deu certo.
Tão certo que pela primeira vez um evento no Estado teve cobertura nacional, feita por a MTV.
Em as cidades do interior, o crescimento econômico e populacional fez com algumas tribos também começassem a surgir.
Logo esse pessoal e as bandas desses municípios precisaram de palco.
Em Ji-Paraná, a segunda maior cidade de Rondônia, surgiu em de 2003 o Rock In Jipa, com o objetivo de reunir bandas independentes do cenário do rock da região norte ou de outras regiões do país.
Em 2005, nada menos que 50 bandas de rock ' n ' roll, em suas mais variadas vertentes, participaram do festival, vindas de várias cidades de Rondônia, além de bandas de São Paulo, Amazonas, Acre, Rio Grande do Sul e Mato Grosso.
Dois anos depois, em Porto Velho, as bandas Quilomboclada, Coveiros e Suco di Nóis tomaram à frente da discussão para a criação do Festival dos Beradeiros, quando os roqueiros de Rondônia e Acre subiram ao palco para pedir respeito aos povos e à cultura da floresta.
Marcos Souza vê com alegria a cena do rock em Rondônia.
Muitas, mas muitas bandas.
Sons de qualidade, músicas próprias, eventos diferentes e de sucesso.
«Tudo o que vemos hoje é resultado da luta dos veteranos por a criação da cena e da vontade dos novatos em construir essa identidade roqueira rondoniense», defende o jornalista.
Entre CDs e os velhos discos de vinil, Souza faz do seu ofício um registro histórico da cultura recente de Rondônia, isso entre um gole e outro de café.
Número de frases: 46
Os mais novos «viajantes das almas», como diria Fernanda Montenegro, mostraram a que vieram na pátria amada, no resultado do Módulo I de Interpretação Teatral da Escola de Teatro da UFBA.
Os calouros de 2007 revelaram-se uma turma extremamente vigorosa e dona de uma energia contagiante e cativante.
A mostra «Pátria Amada -- Plasil», dirigida por Luiz Marfuz e Iami Rebouças aconteceu na Sala 5 da Escola, nos dias 16 e 17 de Junho, em três concorridíssimas sessões por dia, com direito a espectadores» repetentes», que saíam da sala e encaravam nova fila por senha para beber mais um pouco do caldeirão de emoções ferventes que a turma ofereceu:
ancestralidade, pesquisa de DNA, matizes culturais, nacionalidade, preconceito, ufania, antropofagia, religiosidade, descobrimentos e Guimarães Rosa ...
A estrutura da encenação seguiu o formato bem sucedido da Mostra dos calouros do ano anterior, dirigida por a mesma dupla.
O coro de atores que explora e extrapola possibilidades, o ritmo preciso e intenso que faz pulsar toda a platéia, sugada por o mosaico multifacetado de microcenas que se desenvolvem ao longo do espetáculo, e, a musicalidade, que nesta turma é deveras pungente, e que contou com o «auxílio luxuoso» de uma banda que ia do violoncelo ao agogô.
O desempenho dos alunos-atores foi, em sua maioria, muito vibrante e corajoso.
A turma é heterogênea e bastante rica em possibilidades.
O humor pareceu ser a verve mais forte e é estimulante saber que tipos como «Mãe Coisinha»,» Filho Americano», Dr. Lexotan «e» Padre Cabra da Peste " nasceram a partir de improvisações em sala de aula.
Fica, é claro, patente que ainda há uma longa estrada a percorrer por os «viajantes».
Ainda há falta de foco, alguns ainda tornam-se espectadores na cena e alguns ainda não perceberam que o trabalho do ator é essencialmente um jogo, e este não é solitário.
Em um debut, ganhar o público parece ser o mais importante, mas é a generosidade em cena que garante o resultado positivo.
Estranhamente, foi em alguns dos atores que tinham mais «bagagem» que este «truque» fez mais falta.
Mas ele estava lá.
Imponente, resplandecente, implacável:
o brilho nos olhos de quem foi tocado por Dionísio.
O trabalho era vivo, não só em sua forma e temática, também em seu cerne.
A comemoração ao final da última sessão reforçou o que a encenação deixava perceptível:
há muita energia pra ser usada no caminho.
Que o caminho não apague este brilho nos olhos, não dê lugar a um cinismo opaco, que o frescor do começo desta senda a preencha por tijolos da experiência e que esta traga com si muitas pequenas mortes, mas acima de tudo, muitas ressurreições numa pátria que precisa estar sempre muito fértil:
Número de frases: 20
o teatro.
Tacacazeiras Quem, em Belém do Pará, nunca tomou um tacacá?
Quem nunca se deliciou com aquele sabor gostoso da Cidade das Mangueiras, numa das tantas barracas de comidas típicas espalhadas por a cidade?
Sabe aquela tarde chuvosa, céu nublado, aquele «frio» bom que só o paraoara sente?
Essa é uma tarde perfeita para se tomar um tacacá ...
Segundo o dicionário, o tacacá é um «mingau quase líquido, de mandioca e camarão, temperado com jambu e pimenta.».
Segundo a cabocla que aqui vos escreve, é uma delícia de dar água na boca!
Tem gente que saliva, só de pensar.
Tem aqueles que sempre tomam no mesmo lugar, há vários anos.
Tem gente que até mesmo sai da cidade de Belém e vai a municípios vizinhos para tomar um tacacá em especial.
E ainda aqueles «Quem vai ao Pará parou, tomou tacacá ficou».
Ah, o tacacá nosso de cada dia.
É uma mistura de sabores, de cheiros, de texturas e de cultura:
o tucupi que encontramos em feiras e supermercados;
a goma que é feita de mandioca (assim como o tucupi) e que é completamente transformada para virar ingrediente do tacacá;
o camarão, nem sempre pescado na hora, mas delicioso de qualquer maneira;
o jambu que deixa aquele «ardido» e aquela dormência na boca que é uma das características mais fortes do tacacá.
Primeiro uma camada de tucupi (fervendo, de preferência), depois um pouco de goma ou muito, depende da pessoa, as folhas de jambu, o camarão rosa, graúdo e salgado, mais um pouquinho de tucupi e pimenta a gosto!
Quem não é daqui, pede um palitinho ou um garfinho de madeira, quem daqui é pega camarão e jambu com a boca ou com os dedos, se assim o preferir.
como se já não bastasse ser parte da cultura e da culinária do povo paraense, do amazônida, o tacacá traz ainda as gentis «senhoras» (que, hoje em dia, estão cada vez mais jovens) vendedoras de tacacá, as famosas «tacacazeiras» que fazem, vendem e divulgam esta iguaria.
Estas «senhoras» são tão importantes quanto o próprio tacacá, são cheias de histórias, cheias de «causos», cheias de vida!
Digamos que, se os baianos têm suas baianas, nós, paraenses, temos nossas tacacazeiras.
Elas são mais do que aquelas que preparam o tacacá, elas fazem parte da vida dos paraenses.
Em cada canto da cidade, tem uma tacacazeira.
Pode até não estar vestida de branco e vendendo somente o tacacá, mas ela terá toda a simpatia de alguém simples, porém, de extrema importância para o povo de Belém e dos arredores da cidade.
Espalhadas por a cidade de Belém, as tacacazeiras ficam com seus carrinhos de comidas típicas nos lugares mais variados possíveis.
Perto de uma parada de ônibus, em frente a algum restaurante, perto de algum fast-food, etc..
É fato que não encontramos tacacazeiras em lugares fechados, chiques.
Assim é até melhor, arrisco dizer.
Perderia o encanto, creio eu.
Tacacazeiras são pessoas do povo, elas são o povo.
O pescador que chega vendendo seus camarões frescos, aqueles que ainda usam o tipiti (instrumento de palha usado para secar a mandioca) para fazer o tucupi e a goma, os micro-agricultores que vem cedo para a cidade trazendo o jambu para vender na Feira do Ver-o-Peso e todas as pessoas envolvidas no processo.
Elas vendem também outras iguarias como:
vatapá, caruru, maniçoba e até mesmo a mistura dos três, a varuçoba.
«É uma camada de vatapá, uma camada de caruru e uma camada de maniçoba e é muito bom», diz a vendedora Solange.
O que todos procuram, porém, é o tacacá.
Sentam, conversam, comem, bebem, contam e ouvem histórias, se encantam!
Tudo isso em apenas uma hora ou menos, tomando um tacacá.
As tacacazeiras fazem de tudo para que você se sinta bem, «em casa» quando você está na casa de ela, em sua barraca, tomando seu tacacá.
É de uma delicadeza rústica que vos falo.
Como pessoas tão simples podem ser tão adoráveis?
Sempre com um sorriso estampado no rosto, a tacacazeira lhe pergunta como você está e, o mais importante, como você quer seu tacacá.
Pensando agora, vai ver é isso que torna o tacacá tão especial.
Cada um faz o «seu» tacacá.
Pode-se chegar e dizer «mais goma»,» menos tucupi», «capricha no camarão»,» sem pimenta " e, assim, cada um toma um tacacá, diferente do outro, como deve ser.
Nenhum tacacá é igual ao outro.
De aí a preocupação de agradar o amigo -- porque é assim que as tacacazeiras se referem à sua clientela.
Tem muito do espírito de conquistar uma clientela cativa e mais ainda da sorte de termos sempre tacacazeiras simpáticas que, mesmo chegando a sua barraquinha 8h, 9h da manhã e permanecendo em pé, trabalhando, servindo até depois das 18h.
É quase um dom, diria.
O dom de ser tacacazeira e de fazer tacacá.
Número de frases: 50
Porque, acredite, não é pra qualquer um (a).
Teatro nas Universidades é um projeto que, desde 2005, busca estabelecer um vínculo maior entre os estudantes universitários brasileiros e o teatro.
Por trás deste projeto há nomes e entidades de imensurável importância para a cultura brasileira, como Antônio Ermírio de Moraes, a Companhia Brasileira de Alumínio, a Associação Comercial de São Paulo, o patrocinador Santander e o casal global Paulo Goulart e Nicete Bruno (que, como comprova a foto escaneada do programa, formam um lindo casal feliz).
O projeto é bastante simples:
apresentar espetáculos teatrais dentro das universidades.
E não são quaisquer espetáculos.
Entre as propostas, já houve espetáculos de altíssima qualidade, passando por grandes nomes como o dramaturgo Newton Moreno ou o ator e encenador Antônio Abujamra.
Deixando de lado o oportunismo comercial que infelizmente é o maior impulsionador de cultura no país, é um projeto interessante.
Em o dia 14 de maio, através deste projeto, foi realizada mais uma apresentação do espetáculo O Cavalo na Montanha, desta vez na faculdade de comunicação Cásper Líbero.
O espetáculo conta a história de amor entre uma mulher e o cavalo que ela tivera quando pequena e que havia fugido.
O reencontro dos dois os leva a reflexões sobre suas identidades e relações.
Como se trata de um espetáculo que mescla teatro e sobretudo dança, e eu não tenho absolutamente referencial algum para falar de dança, me limito a dizer que o espetáculo apresenta um trabalho corporal bastante intenso por parte dos atores (Paulo Goulart Filho e Vanessa Portugal), mas que não empolga (confesso que cochilei em alguns momentos).
Após a apresentação, é aberto um debate sobre o teatro na universidade, que na verdade não passa de uma estratégia para consolidar os nomes dos patrocinadores na cabeça das poucas pessoas que toparam ficar.
O debate se extende por míseros quarenta minutos (afinal precisa mais do que isso pra discutir o teatro no meio acadêmico?)
e as pouquíssimas manifestações polêmicas que surgem, promovidas por o grupo de teatro nascido na faculdade (e que fora boicotado por a própria instituição que agora recebe de braços abertos uma iniciativa de objetivo questionável), são abafadas e incorporadas por o discurso vendido, que na medida do possível finge que nada está acontecendo.
Dentro destes quarenta minutos, pérolas como «a arte não existe sem um respaldo financeiro grande»,» não vá me dizer que 35 reais por mês é caro [para ver uma única peça teatral] «e a onipresente e demagógica» nós estamos fazendo a nossa parte e cabe a vocês lutarem por a parte de vocês " são soltas no ar para uma platéia escassa que muitas vezes sequer tem noção da importância de uma discussão como essa.
Número de frases: 16
E algumas poucas pessoas saem do auditório onde outrora se gravava o programa de Sérgio Mallandro se questionando sobre o que foi mais fraco, o espetáculo ou o falso debate.
A indústria bilionária de desenvolvimento de jogos está começando a se desenvolver agora no Brasil.
Seguindo esta nova tendência da necessidade de desenvolvimento de games profissionais que possam competir com o mercado externo foi lançado um novo e inédito curso online de desenvolvimento de jogos.
Através deste curso o aluno pode aprender a desenvolver games para PC, celulares, web e consoles como o Playstation e XBOX.
O curso é rápido e relativamente barato, além de servir para qualquer pessoa mesmo sem experiência em programação.
Além disto, os melhores alunos poderão fazer estágio para desenvolver jogos no portal.
O curso está dividido em 15 módulos e utiliza em sua grande parte de softwares livres, permitindo que o aluno faça o curso conforme a sua disponibilidade financeira e de tempo, tornando a capacitação para este novo mercado acessível para qualquer pessoa.
Durante o curso o aluno aprenderá sobre:
Programação orientada a objetos voltada para jogos;
Criação de gráficos 2d com conceitos e técnicas de desenhos de personagens;
Criação de gráficos 3d com conceitos e técnicas de modelagem de personagens;
Conceitos de física aplicadas a jogos;
Técnicas de criação de enredos e histórias voltados para jogos;
Conceitos de matemática usualmente utilizadas em jogos;
Criação e manipulação de áudios para ambientes 3 d;
Técnicas avançadas de programação 3d utilizando multitexturas, sprites, transparências, partículas para simulação de efeitos como fogo, chuva e neve entre outros, efeitos de luzes, névoa e animações;
Técnicas de detecção de colisões de objetos e cenário;
Conceitos na criação de engines (máquinas) de jogo;
Conceitos de protocolos de comunicação para criação de jogos online;
Conceitos e técnicas de utilização de banco de dados em jogos;
Conceitos na criação de jogos MMORPG (jogos de RPG massivos);
Criação de jogos para celulares;
Criação de jogos para consoles.
O endereço do curso é este:
Detalhes do Curso
Número de frases: 25
ou http://www.skola.com.br
O Sílvio santos é uma figura.
Já faz parte do nosso imaginário nacional.
E no Youtube dá pra achar uma pérolas.
Recomendo o vídeo em que faz campanha para presidente em 89.
E tem outro hilário, o da menininha que conta uma anedora pra lá de divertida.
E tem muito mais.
Número de frases: 7
Recomendo! Recebi o e-mail abaixo de meu amigo Álvaro Santi, figura séria e competente que me autorizou ampla divulgação.
Impressionante constatar onde alcança o braço corporativista de algumas categorias.
Boa leitura.
De:
Alvaro Santi Enviada em:
quarta-feira, 2 de abril de 2008 11:51
Para:
Assunto:
concurso para produtor cultural
Ilma. Sra..
Pró-Reitora de Extensão
Sara Viola Rodrigues Dirijo-ma V. Sa.
com o propósito de, antes de tudo, parabenizá-la por a realização de concurso público para preenchimento de vagas de Produtor Cultural.
A programação cultural dessa Universidade, reconhecida amplamente por a comunidade, sempre primou por a qualidade e por o acesso universal, pelo menos desde os anos 80, quando do meu ingresso como aluno.
E colaborou decisivamente para eu ter escolhido a carreira artística, quando já matriculado no curso de Geologia.
No entanto, não posso deixar de registrar minha perplexidade ao saber que é pré-requisito para este cargo a graduação em Comunicação Social.
Difícil entender quais razões nortearam tal exigência.
A Universidade considera que seus alunos egressos dos bacharelados e licenciaturas em música, artes cênicas, artes visuais, e mesmo de letras, não têm competência para exercer esta atividade?
Outra hipótese que me ocorre seria a submissão à padronização do gosto imposta por a grande mídia, que nos empurra goela abaixo os padrões estéticos que ela mesma elege, sabe-se lá por que motivos;
ou simplesmente o anunciante que paga mais.
Pode-se também apelar para o entendimento tácito, igualmente difundido por os meios de comunicação, de que o curso de Comunicação Social (em especial o Jornalismo) confere uma espécie de super-poder aos seus alunos, habilitando-os, com um mínimo de conhecimento, opinar sobre praticamente qualquer área do conhecimento, do futebol à política, passando por a arte, esta já historicamente um campo aberto ao diletantismo.
Ou seria uma opção preferencial por a visibilidade do evento artístico, em detrimento da qualidade do seu conteúdo?
Ou ainda, uma exigência destinada a defender o mercado de trabalho de uma categoria profissional mais organizada institucionalmente, nefasta infiltração de critérios corporativistas na redação deste Edital?
Qualquer uma dessas hipóteses me parece absurda, se confrontada com o valioso trabalho desenvolvido até hoje na área cultural
por a Universidade.
Não vai aqui qualquer menosprezo aos profissionais da comunicação, e sim uma defesa ao mesmo tempo da especificidade do conhecimento artístico e da mais ampla oportunidade de trabalho, atendendo à diversidade própria do campo cultural.
Exemplifico com um depoimento pessoal:
em 1996, a Prefeitura de Porto Alegre realizou concurso para técnicos em cultura, visando criar um quadro de pessoal estável para a SMC, então com poucos anos de existência.
Foram abertas vagas para todas as artes, além de ciências sociais, museologia, antropologia e comunicação social.
Isto não obstante já haver no quadro profissionais «técnicos em comunicação social».
Graças a este concurso, eu e outros ex-alunos da UFRGS tivemos a oportunidade de trabalhar em produção cultural no serviço público.
Ainda que a grade curricular do meu curso, meio desconectada da realidade, não tenha me preparado para isso, tenho a pretensão de estar contribuindo desde então para qualificar a gestão pública de cultura, como parte de um corpo funcional bastante diversificado.
De essa forma, venho apelar a V. Sa.
para que suspenda o concurso, retificando o edital com a finalidade de ampliar a possibilidade de acesso a todas as áreas artísticas.
Cordialmente,
Álvaro Santi Bacharel em Música e Mestre em Letras por a UFRGS
Titular do Conselho Nacional de Política Cultural/MinC
Número de frases: 37
Gerente do FUMPROARTE/SMC Campo Grande (MS) -- A Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul realizou nos dias 06 a 09 de novembro o 1º Seminário Estadual de Teatro.
A programação contou com importantes nomes do teatro nacional, que abordou temas relacionados à identidade, regionalidade e organização de classe.
O objetivo do evento foi promover uma reflexão sobre o teatro produzido em Mato Grosso do Sul nesses 30 anos e buscar alternativas de desenvolvimento a partir das potencialidades culturais que o estado possui.
O Seminário contou com uma tímida presença da classe teatral, produtores culturais e gestores de cultura dos poderes públicos municipais e estaduais.
Fez parte do evento uma ilustre convidada Magdalena Rodrigues (SATED-MG e CONATED) com o tema «Exercício e representação legal da profissão de artistas e técnicos».
De aí a pergunta!
Será que estamos preparados para exercer a profissão de artistas e técnicos?
Não poderá ser uma perigosa ferramenta de «barganha» nas mãos de pessoas sem escrúpulos?
Obs:
Devido à baixa participação dos nossos fazedores de «Teatro», deixamos aqui as indagações ...
Colabore ...
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Número de frases: 12
Preocupados em valorizar a cultura brasileira, André Marques (piano), Cleber Almeida (bateria / percussão) e Ricardo Zóio (baixo) se reuniram em Sorocaba (SP) nos idos de 1996 e formaram o Trio Curupira, grupo de música instrumental inspirado na figura mítica do folclore, protetora das matas.
Em 2002, com a saída de Ricardo, Fábio Gouvêa passa a ser o novo baixista.
«Sete no Frevo», de André Marques, primeira música exibida no DVD do Itaú Cultural, mostra a vontade de evidenciar os ritmos regionais.
«A intenção da gente é tentar passar estas outras sonoridades também.
O tempo todo só piano, baixo e batera, aí tem algum arranjo que começa com uma viola caipira; ( ...)
a gente aproveita muito essa coisa folclórica também ...
começa uma catira; ( ...)
tentar fazer uma coisa bem movimentada no palco e na sonoridade», explica Cleber.
A percussão do pandeiro anuncia o início da próxima música, «Família Nova, de Fábio Gouveia».
A leveza da execução musical do Trio Curupira contrasta com a força demonstrada por o domínio que cada músico tem de seu instrumento.
Lição muito bem aprendida de uma de suas grandes influências, o mestre Hermeto Pascoal.
Criativos, espontâneos e com grande maturidade musical, o Trio Curupira provoca quem assiste ao seu show.
«Parafraseando Shakespeare, «há mais mistérios entre a execução de uma música instrumental e a apreensão de seu significado por quem escuta do que julga nossa vã filosofia».
Mais informações sobre o Trio.
Escute o Trio Curupira no myspace.
Conheça também os outros artistas da coletânea «Cartografia Musical Brasileira», do Programa Rumos Brasil da Música 2004-2005:
Amaranto (MG)
Renata Rosa (SP)
Brazil Guitar Duo (SP)
Antonio Vieira (MA) Recife, carnaval 2006). Não lembro o dia, mas eram umas três da manhã.
Amigo Pedrinho foi me pegar no aeroporto, e disse que tinha um show do " Lula Queiroga (" ôxe, quem é esse?")
no " Recife Antigo (" antigo ...?").
Em o caminho para o tal do Recife Antigo, onde acontecia o show do tal do Lula Queiroga, tudo era novo, e eu observava cada detalhezinho daquela cidade linda, que viria a ser, sem dúvida, uma das maiores e melhores recordações da minha vida.
Eu estava feliz por estar ali.
Era a primeira vez que saía das terrinhas capixabas pra curtir o carnaval, e fui parar em Rééécife.
Putz.
Chegamos.
Quando botamos o pé pra fora do estacionamento, chuva.
Torrencial, e repentina.
Começou a bagunça.
Saímos correndo, passando por trás do palco, onde nos deparamos com o primeiro galego.
Pablito. Tirando água do joelho.
Arregalou os olhos, abriu o sorriso metálico e inchou as bochechas sardentas como se quem dissesse «porraaammmmmmm carammmm».
Logo depois «esbarrei» com Bibi e Jujú, que pareciam mais estar nas nuvens curtindo o som do Lula.
Juntei-ma elas.
Comprei saquê, fechei os olhos, senti a chuva cair no rosto, e tentei me adaptar àquela novidade sensacional.
Uma das adaptações mais fáceis e mais maravilhosas do mundo.
O show acabou, e com ele, a chuva.
Eu, Pedrinho, Pablito, Bibi, Jujú.
Quando de repente, chega o sexto e último integrante que completaria a trupe mais incrível e idiotammm dos últimos carnavais.
Guilas (" tunt tunt tunt tunt ").
Estilo, no mínimo ...
divertido. Cabelo engraçado, olhos pequenos, boca de coração.
Carinha de urso.
Encantador. Fomos andando em direção ao estacionamento.
Eu não conseguia desviar a minha atenção pra mais nada.
Acho que foi admiração à primeira vista.
Admiração que, no decorrer daquele carnaval mágico, transformou-se em amizade, carinho, identidade, cumplicidade, amor.
Em os poucos dias vividos em meio ao Recife Antigo, Quanta Ladeira, Marco Zero e Olinda, muita coisa boa se comeu, se bebeu, se viu e se viveu.
Muita gente querida e amiga apareceu.
E que não some nunca mais.
Eu sempre tive vontade de escrever sobre essa experiência.
Não que eu quisesse compartilhá-la com alguém (s), mas queria registrá-la num espaço só meu.
Ok, isso é uma contradição.
F ...
Número de frases: 55
Te a aí. =)
Sobre a iniciação (Ou como aprendi alguma coisa sobre música) (Fragmentos sobre o rap) (uma defesa do sampler)
Escutava alguma coisa no rádio, nada de interessante.
Até que meu pai trouxe das suas viagens uma caixa de fitas.
Dentro de ela várias fitas de vários estilos musicais.
Disse que tinha achado.
Tomei posse.
Dentro da caixa havia fitas estranhas, com sons um tanto ousados e palavrões a adorná-los.
Minha mãe tomou de mim a caixa e disse que os vizinhos não pensariam ouvindo aquele tipo de coisa.
E eis que nasce a paixão.
Em a caixa havia uma fita do Racionais -- Raio x do Brasil, Thaíde e dj Hum, não lembro do título, mas é de ela umas das melhores composições da dupla, como a poética Noite, havia também um K-7 do rapper GOG, Dia-à-Dia da Periferia e uma do Cirurgia Moral -- A Minha Parte Eu Faço.
Apenas Isso.
O ano era 1994 quase 95
E posso dizer que estive lá.
O que o rap faz?
Retorna.
Rap é retorno.
Ou uma das categorias do rap é o retorno.
Tim Maia, Jorge Ben, Paulo Sergio, Roberto e Erasmo Carlos, Elis Regina, Milton Nascimento, e por aí vai;
é matéria prima do rap nacional.
Poderia dizer, que o Rap recicla, mas parece rústico, grosseiro.
O rap cria a partir de outras criações passadas.
E a base da suporte para a rima, o essencial.
Mas é a roupagem, o sampler que faz a música grudar na mente, e acompanhar o trabalhador ao trabalho, o estudante ao colégio, e o vagabundo para a rua ...
O mais importante é sampler no rap que produção.
sintetizadores, melodias compostas, isso é distãncia, lacuna, erro!
Tudo bem quanto a produções, mas o sampler é o que dá ao rap inconfundibilidade ...
Ensina sobre música, dita o caminho à origem, e deixa o som, mais rústico.
Como foi no início.
Nada contra as MPC ´ s, mas não é disso que se trata ...
A idéia de rua, de arte urbana pura, passa por o sampler ...
Mais adiante falarei mais sobre isso ...
Número de frases: 32
Dj Link -- Old School
Carta a Mário de Andrade, o escritor serelepe que é uma tradução de Brasil
Mário, Mário!
Por muito, mas muito tempo mesmo, você ficou esquecido entre tantos e confusos títulos na minha estante ...
Até que veio o baque, o estalo, o romper da casca.
Mas essa é uma outra história que não convém relatar agora.
E não vejo outra forma de contar da alegria do meu encontro com você do que por esta carta que não encontrará o seu destinatário.
Mas isso não importa.
Encontrei você dentro de um envelope em forma de livro.
Em pensar que esse envelope esteve tantas vezes em minhas mãos e sempre voltava para o fundo confuso da estante.
Aliás, um envelope não, dois:
no primeiro, que me atraiu mais, as suas cartas para Manuel Bandeira;
no segundo, a sua correspondência para Candido Portinari, o seu pintor número um, aquele que desbancou Lasar Segall na sua preferência apaixonada.
E todos os envelopes recheados de cartas que escreveu compulsivamente.
Cartas pensamenteadas de Mário de Andrade.
E como escreveu cartas o grande autor de Macunaíma (livro escrito em seis dias)!
Penso que seria uma delícia você vivendo nos dias de hoje, com todas as facilidades desse admirável mundo novo da tecnologia em tempos de globalização -- e você que já era um cara tão antenado ...
Quantos livros não publicariam os amigos e os não tão amigos assim com a sua profícua e instigante correspondência?
E já são tantos dando conta dos segredos de sua robusta caixa postal.
Imagino você e sua curiosidade no tempo das facilidades do e-mail.
Nada mais ilustrativo do que a sua citação de Platão na abertura de A escrava que não é Isaura: "
Vida que não seja consagrada a procurar não vale a pena de ser vivida».
Você e suas idéias circulando por o mundo a um click, sem o ritual dos envelopes, do selo, do carteiro, da espera e dos extravios ...
A angustiante carta que corria o risco de nunca chegar ao seu destinatário ...
Que beleza, Mário!
Difícil, Mário, organizar as idéias e centrar-me na objetividade do relato, tamanha a emoção que provocou em mim esse encontro com a sua intimidade sem rodeios, sem papas na língua.
Você tão você, com seus erros conscientes e os seus erros de ignorância, que deixavam todos tão confusos que ninguém sabia distinguir o que era estilo ou lapsos de fazer estremecer os puristas na sepultura, principalmente os da língua.
A língua que queria brasileiríssima, sem a pompa lusitana.
Concordo (em parte) com você.
Os nossos diminutivos são mesmo uma gostosura.
Carneirinho, sem dúvida, é infinitamente mais bonito que carneirozinho.
Depois de você me sinto livre para nadar em riachinho ...
E achando lindo!
E no aguaceiro marioandradiano de suas cartas um legado precioso de memória que ultrapassa em muitas léguas o homem Mário de Andrade, porque sua intimidade pensamenteada tem a profundidade de Brasil.
E você melhor do que ninguém a refletiu, de forma viva e cristalina, em sua obra literária, em sua obra de homem público, incentivador da cultura, pesquisador criterioso e incansável, um brasileiro serelepe e essencial.
Um brasileiro metido até o pescoço no modernismo.
E na sua intimidade pensamenteada um relicário de testemunho vivo daqueles anos fervidos da cultura nacional.
Mário, o brasileiro que não se furtou ao Brasil, que não deixou que «seqüestrassem» -- palavra tão concretamente dura nos violentos dias de hoje e tão recorrente na sua fala metafórica -- a sua coragem de ser Mário de Andrade, a ponto de, conscientemente, chegar a comprometer a sua obra.
Você era mesmo um sujeito cabeça-dura!
E Manuel Bandeira que nos diga de sua teimosia e obstinação e todos aqueles que foram vítimas de sua inteligência.
Provocador nato, esgrimista intelectual de primeira grandeza, não arredava pé de seu orgulho duramente construído, sobretudo na convivência com a antropofagia das vaidades do seleto círculo dos modernistas.
Penso que rancores, desafetos, mágoas e algum sentimento de inadequação sempre sobram para quem não nasceu em berço de ouro e teve de palmilhar o barro da estrada do cidadão comum, mesmo sendo um sujeito ímpar.
E uma frase sua revela muito dessas emaranhadas entrelinhas: "
Não ando pago por os outros.
Um café que me paguem me ofende».
Trabalhar duro, conviver com as desvantagens das diferenças e superá-las todas, e muitos dos seus contemporâneos, na capacidade de produção e na grandiosidade da obra.
Invejável, Mário, em todos os sentidos, a sua capacidade de trabalho.
E principalmente a sua capacidade de escuta desse Brasil profundo, o Brasil que ficou mais transparente e carregado de identidade com a sua obra.
Um Brasil que é Mário de Andrade, um Brasil que se perde, se confunde e se contradiz, mas que emerge do fundo do poço com vitalidade titânica.
Senti em tantos momentos dessa viagem por a sua intimidade pensamenteada o abatimento moral e a depressão que lhe deixavam meio cinza, meio turvo e mais convicto ainda ...
E muito mais cabeça-dura.
É, devia ter lá as suas fórmulas para sacudir a poeira e seguir em frente.
Com certeza o trabalho e as múltiplas funções que exercia e as obrigações que se impunha eram um santo remédio para essas dores da alma.
E justo você que se orgulhava de ser conhecedor de Freud e se considerava um psicólogo.
E o intuitivo psicólogo Mário de Andrade deixou rastros fecundos na crítica literária e de artes plásticas.
Acredita que outro dia fiquei de queixo caído numa mega-livraria ao encontrar disponível na prateleira títulos de sua obra que imaginava fora de catálogo.
E muitos outros referenciais.
Além de ficar contente com o fato (esse Brasil ainda tem jeito!),
confirmei também ali que você deve ter sido o escritor brasileiro que mais escreveu cartas.
E tome cartas para ilustres conhecidos e desconhecidos ...
De cara comprei um volume com três títulos, aquele que o crivo de sua autocrítica carimbou de Obra Imatura:
Há uma gota de sangue em cada poema (título que me perseguiu uma adolescência inteira;
achava lindo, dramático;
reminiscências das aulas de literatura ...);
Primeiro andar (contos) e A escrava que não é Isaura (ensaio / discurso).
Passei fácil por Há uma gota de sangue e continuo em marcha lenta nos contos, mas caminhando ...
E fiquei de queixo caído, mais uma vez, e surpresa com a sua esgrima.
Digo mesmo, encantada desde o início com o seu jeito de atingir o nervo exposto da polêmica.
Adorei a sua parábola da verdade: "
Cristo dizia:
Sou a verdade.
E tinha razão.
Digo sempre:
Sou minha verdade.
E tenho razão».
E, claro, mais adjetivo, encantada com a sua visão da eterna escrava, aquela que Rimbaud deixou nua com um «chute de mais de 20 anos» em sua heterogênea (eterogénea na grafia de Mário) «rouparia» ...
Só que as impressões da leitura ficam pra (nada mais Mário de Andrade do que um para a coloquial, livre e solto na língua escrita) depois.
Mas sinto-me tocada por o legado generoso do caminho do aprendiz Mário de Andrade, irregular e magistral, mediano e soberbo, enfim, como todo mundo, com seus altos e baixos.
Bom demais também, Mário, ver ressurgir do fundo do poço do seu tempo e por as suas mãos conscientes a musicalidade dos brasis perdidos dos próprios brasileiros graças ao obstinado trabalho do pesquisador interessado que sempre foi e cultivou.
Bem que podia ter se acomodado, contentado com menos.
Aulas no conservatório de música, críticas para jornais, cartas para os amigos, sessões de leitura de poemas, um encantamento com um pintor aqui, outro encantamento maior acolá, Lasar Segall e Candido Portinari nos extremos de sua paixão ...
Ah, e tinha um Manuel no meio para temperar tudo, o seu alter ego, o seu sparring, a paixão de alma, a irmandade purificada das abertas confidências e todas as inconfidências também.
E os seus livros para escrever e a incansável correspondência ...
Mas não, você era um viciado em Brasil.
Mário, aquele camarada de terno e chapéu, do dinheiro curto e sempre contado, percorrendo o Brasil, recolhendo os fragmentos da musicalidade que são parte do nosso tesouro, da nossa alma no caldeirão saboroso da cultura.
E tome viagens ...
Norte, Nordeste, esses ermos de Brasil tão diferentes, tão palpitantes, tão desencontrados de si mesmos, tão fora do eixo (São Paulo / Rio?).
Paulistano que nada!
Você era mesmo é do tamanho do Brasil.
E que continue desvairada a Paulicéia.
Com todos os xamãs, olho para esse caldeirão no qual meteu atrevidamente a sua colher de pau e me reconheço Macunaíma.
E tenho apetite voraz.
É Mário, você me deixou obsessiva.
Não, palavra forte.
Melhor compulsiva.
Depois de devorar a sua correspondência para Manuel Bandeira (Mário de Andrade -- Cartas a Manuel Bandeira, coleção Ediouro / Notas e prefácio de Manuel Bandeira), letra miudinha, espaçamento menor ainda, e a sua ortografia toda diferente e os seus brados (Eu falo brasileiro!),
e do livro quase ter desmanchado na minha mão -- tive que pedir a um colega da gráfica para remendá-lo --, aí é que me veio o apetite de devorá-lo inteiro.
E não posso omitir que tropecei à beça nos tais erros conscientes e de ignorância.
E me deliciei com as suas gargalhadas de si mesmo ao admitir a confusão, pois nem você sabia mais o que era um e outro.
Portanto, mais difícil de ler impossível, mas não consegui despregar os olhos do livro e de rabiscá-lo.
E tinha a lanterninha esclarecedora de Bandeira, com suas notas, sempre apontando aqui e ali.
Creio que essa leitura sem frescura de você acordou o Macunaíma endiabrado que existia dentro de mim, cheio de disparates, ávido de tudo, sempre por caminhos tortos, como o desta escrita.
Fiquei, sim, Mário, embasbacada com você, que me acertou como uma trombada, desmantelando tudo.
Por caminhos tortos, diferentes daquela trilha batida (e incompreensível) da leitura (odiada) de Macunaíma no colegial, você me chega à idade madura com um cheiro absoluto de intimidade, de verdade, a verdade do homem, as dúvidas todas, as idiossincrasias, aqueles fios do caminho do aprendiz que foi juntando para construir Mário de Andrade, o escritor serelepe, como você gostava de dizer.
Mas como eu ia tropeçando -- aprendo com você que escrever é um soberbo tropeção!--,
fiquei ávida de você como alguém que de repente se vê num espelho pela primeira vez.
Você cutucou alguma coisa dentro de mim e cutucou com vara curta, quase que me exigindo a ousadia do ataque, a coragem da exposição, da fragmentação, da cara a tapa ...
É Mário, você me espetou sem dó nem piedade.
E me encheu de uns apetites diferentes, vorazes, ferozes ...
E mergulhei nas linhas e entrelinhas da sua correspondência com o velho Manú, aquele que lhe agüentava com complacência de um deus indiano ...
E Manú agüentava e decifrava a sua tortuosa e difícil escrita e pegava você no flagra das teses mais descabidas, mas enchia de orgulho a bola da sua criação.
Penso que nem Manuela (a máquina de escrever comprada a crediário e batizada para homenagear Bandeira) aliviou o suplício.
Felizmente, Mário, você encontrou em Manuel mais do que o fiel amigo confidente, um espelho que ajudou você a refletir e se refletir do modo mais transparente na moldura de um tempo eivado de futuro por o viés da sua obra.
É nesse saboroso diálogo com Manuel Bandeira que vemos Mário por inteiro e mais do que Mário um retrato amplificado de Brasil que ecoa nos tempos de hoje, vertiginosamente ...
Há que se agradecer por extensão a Manuel por ter deixado você inteirinho da silva, ou melhor, andradiano mesmo, com sua ortografia personalíssima.
Tanto «milhor» para a gente na labuta de conhecer você.
Mário, o mais modernista dos modernistas de 1922, ainda hoje o moderníssimo Mário de Andrade, que legou ao Brasil a materialidade de sua alma, a alma musical de seu povo e de sua fala.
E a consciência é um oráculo tão obscuro, como você mesmo pontuou.
Assim como você era apaixonado por sua verdade porque ela era apaixonante, talvez esta mesma paixão febril em sua vida e obra seja o que mais me toca e encanta agora.
E ando em círculos com você e vou cada vez mais (para o) fundo marioandradiano, escutando a sua voz, suas dúvidas, suas tentativas, seus erros e encantando-me com o acerto final de tudo isso.
E como estou no círculo de sua escrita e o precioso envelope já se desmanchando novamente em minhas mãos, aproveito a íntegra de um pensamento seu para sair da enrascada dessa carta: "
Imagino que entre a consciência e a subconsciência inda deve de ter um terreninho safado em que grandes brigas se travam.
Ás vezes escuto ecos dessa briga.
Porêm me aturdo com leituras e pensamentos em outras coisas ..."
Assim, entre outras leituras e interesses, sempre volto a Mário de Andrade.
Bem, antes que eu perca completamente a oportunidade de colocar ponto final no rumo absurdo dessa carta, nesse desgoverno de idéias e sensações, continuarei com a firme determinação marioandradiana de travar essa gloriosa batalha com a sua obra ...
E me divertindo muito ...
Talvez retome o assunto, de forma mais ordenada, em outras cartas, ao sabor de suas provocações.
Um abraço danado de afetuoso.
P.S.:
Número de frases: 130
Favor não devolver ao remetente.
Substituir o termo música por arte sonora?
A idéia de rever o termo não é nova.
John Cage, num texto de 1940, chamado O Futuro da Música:
Credo, propôs que o termo música fosse substituído por outro mais adequado às novas abordagens que vinham surgindo no século XX:
organização sonora.
Chamar essa arte do sonoro de outra coisa que não música não é, portanto, novidade.
Cage estava interessado na ampliação da paleta sonora proporcionada por a utilização do ruído em música.
Para uma música do total sonoro, não restrita a material escalar (acordes, escalas, modos, séries de notas), ou seja, de natureza mais concreta do que abstrata, fazer música significaria organizar materiais sonoros dentro de lapsos de tempo definidos.
Em o final, continuou usando o termo música, talvez por crer que dentro de ele havia espaço para essa nova concepção.
Essa atitude representou um ganho filosófico para os músicos, pois foram obrigados a refletir sobre os limites da arte e a reformular alguns conceitos.
Falar em música implica em remeter-se a idéias e conceitos tradicionalistas.
Não há como se envolver com o contexto musical, profissional ou amador sem ser forçado a discutir a necessidade do estabelecimento de sistemas estruturais abstratos para a criação musical (escalas, acordes, séries de notas), a busca por uma escrita da complexidade como meio de manter evoluindo a técnica instrumental, a atualização tecnológica como pré-requisito para se fazer música eletroacústica nova, a simplicidade sob suspeita quando esta não possui uma justificativa pedagógica ou engajada, o caráter autêntico da música de raiz, a necessidade de se manter a dicotomia erudito x popular, o estudo da genealogia da criação musical para não perder de vista a linha evolutiva da linguagem, o que é boa música e o que é má música, quanto vale a música, e todas as formas de balizamento do fazer e do fruir.
Antes de preocupar-me com organização sonora, técnicas de estruturação, manutenção de material escalar, gosto de escutar as coisas e elegi o som, e não o discurso (o que dizer por meio dos sons), como ponto de partida.
Penso que todo mundo (músico ou não) possui suas próprias estratégias de produção, organização, interpretação e escuta sonoras e que seria muito interessante que as pessoas trocassem entre si livremente suas impressões sonoras a respeito da realidade.
O fazer musical institucionalizado é apresentado como a única via para se entender e usufruir o sonoro e isto representa um obstáculo para a livre apreensão do universo de sons que nos rodeia.
O sonoro é a matéria-prima da música, mas a música só é considerada como tal quando o compositor consegue estabelecer uma conexão coerente entre sons e sentido.
Essa coerência depende de questões culturais, históricas e ideológicas.
O fazer musical institucionalizado funciona como uma teocracia:
é regido, no nível transcendente, por um deus (música) que, por sua vez, é representado por uma casta sacerdotal (críticos, regentes, compositores, intérpretes e outros).
Havendo ainda o não-músico, que equivale ao leigo não-instruído ou ao plebeu, servo de gleba, indivíduo sem titulo e que, para citar o sociólogo argentino Néstor Canclini, não faz a história, apenas a sofre.
Estou quase convencido de que o nome Música não se refere mesmo a uma arte do sonoro.
Vai ver a única tradução possível seja a literal:
arte das musas.
Digo isso, porque parece que é elemento inseparável do fazer musical, não só a abordagem artística do sonoro, mas uma obrigação para com uma remota tradição espiritual.
Em muitos casos, o fazer musical não conseguiu superar o status cortesão e os músicos, mesmo sem o saber, ainda se comportam como vassalos de algum nobre.
O fato é que todas as estruturas que funcionam em torno do fazer musical institucionalizado possuem como marca característica a organização estamentária, típica de uma sociedade de castas, dividida em camadas diferenciadas quanto ao status social, e sacramentada por uma tradição acima de qualquer suspeita.
Quando um intérprete se dispõe a executar uma obra musical, age como um cavaleiro da baixa nobreza que busca proteger o patrimônio de um membro da alta nobreza.
Em essa relação desigual não há conflito por o mesmo motivo que não há conflitos, no que diz respeito a questões de hierarquia, entre o senhor e o vassalo.
Cada qual tem consciência de que ocupa um lugar na sociedade que foi determinado por um fator transcendente ou natural.
Não há conflito.
Cada qual está, e se sente, no seu lugar.
O regente nada mais é, dentro desta lógica, que um comandante de um exército de cavaleiros dedicados a uma missão.
É hierarquicamente superior a eles, mas continua sob ordens.
Essa imagem psicológica, se eu estiver correto, ajudaria a explicar, para meus colegas compositores, porque a primeira providência de um intérprete ao receber uma obra inédita é a de averiguar se a pessoa que concebeu a peça é digna de ser defendida por ele.
Leia-se:
se possui nobreza confirmada;
ou se, pelo menos, é seu superior hierárquico.
Em o meu caso, quanto mais referências curriculares acumulo, mais gente se interessa por executar minhas peças e, em 90 % dos casos, sem querer saber do que se trata.
Em o fundo, todo jovem compositor é visto como um príncipe herdeiro.
Há sempre grande expectativa em torno de suas habilidades.
Afinal, de entre os diversos estamentos da música, o compositor é o mais valorizado.
A criação musical é vista como um verdadeiro dom divino e, toda vez que alguém arrisca percorrer esse caminho é necessário averiguar se ele é mesmo uma encarnação do Dalai Lama.
O simples ouvinte, por sua vez, não possuindo habilidades especiais dentro desse universo de divindades encarnadas, faz as vezes do plebeu que fica à mercê das decisões dos membros do clero e da nobreza.
Não manda em nada, não sabe rezar, não sabe se defender, só serve para, obedientemente, plantar, colher e abater carne para manter abastecidos os sujeitos da história.
De o mesmo modo aqui não há conflito:
o homem comum, numa sociedade teocrática aceita passivamente sua condição inferior como um dado da natureza.
Para falar um pouco do papel da música popular nesse contexto metafórico, lembro de outro estamento importante, que se consolidou durante os séculos XVI-XVII na Europa devido à prosperidade do comércio do Mediterrâneo:
a burguesia.
Em os séculos que anteciparam a Queda da Bastilha, a ambígua distinção entre uma nobreza decadente e uma burguesia poderosa e culta foi motivo para enormes embates.
Houve muitos burgueses que, literalmente, compraram títulos de nobreza, bagunçando a idéia de que esta seria um bem genealógico inalienável e gerando discussões sobre os limites entre os dois mundos.
Esse constrangimento cultural nos persegue em música até hoje e se reflete na dicotomia música erudita X música popular.
Com a possibilidade de registro e reprodução de sons no século XX, e com a rápida expansão do comércio mundial, todo tipo de informação passou a circular de uma forma nunca antes vista.
A música, de um modo geral, sofreu um processo de democratização e acabou escapando do monopólio da elite cultural européia.
É claro que, como constata Adorno, essa democratização é enganosa, pois o que se constituiu na verdade foi uma Indústria Cultural de caráter totalitário, manipuladora das massas, responsável por a regressão da audição e do gosto que pôs em risco a própria sobrevivência da civilização ocidental (etc, etc).
Bem, o que ocorreu foi que a chamada música popular, a música que estava sendo veiculada fora dos meios oficiais da elite, ascendeu em importância e ganhou amplo espaço nos meios de comunicação se configurando como protagonista inconteste do processo de produção, distribuição e consumo musicais.
Uma música plebéia de imensa relevância econômica e política, mas esteticamente marginalizada.
Tal qual a burguesia renascentista.
Isso é motivo de mal estar nos círculos culturais dedicados ao cultivo de música erudita.
Penso que, se pudéssemos retornar aos debates da Renascença, muitas das queixas da ameaçada aristocracia, com aquela cultura reles batendo à porta, nos soariam familiares.
Uma maneira de amenizar esse conflito é distribuindo títulos de nobreza.
Assim, fulano é do povo, mas, por ter alma nobre, ser honrado e valoroso dentro do que a nobreza espera, pode virar cavaleiro (como ocorreu, literalmente, no caso dos Beatles).
Procuramos enfatizar, como símbolos indiscutíveis de qualidade musical tudo aquilo que nos remeta ao referencial tradicional:
a organização engenhosa e coerente, a ousadia sob controle, o compromisso com o desenvolvimento da linguagem, a capacidade de resolver problemas propostos, e, sem dúvida, o critério técnico possui um lugar de destaque nesse contexto.
O argumento da técnica foi o que ganhou mais adeptos dentro da realeza moderna.
Não é por acaso que nas monarquias européias, ao invés dos reis governarem, preferem fazer eleger um técnico (um especialista em gestão de países), como primeiro ministro.
De essa forma, o monarca continua servindo como antena espiritual do país, lembrando-o da sua ligação com um passado heróico, e o primeiro ministro trata de questões mais objetivas e mundanas.
Em música, o critério técnico pode ser o passaporte de um músico popular (plebeu) para o ingresso no mundo da música erudita (nobreza).
Não basta ganhar dinheiro e poder:
sempre vai faltar alguma coisa enquanto ele não puder sentar na mesma mesa da aristocracia e ser reconhecido como igual.
Assim, o músico popular bem sucedido, pode tanto o ser do ponto de vista da Indústria Cultural (parte material do sucesso), quanto do ponto de vista do prestígio que é capaz de angariar frente às elites culturais estabelecidas (parte espiritual do sucesso). Quanto mais
próximo dos ideais estéticos da elite, mais perto da condição de nobreza.
Indivíduos que sabem escrever música, fazer arranjos, tocar piano, compor suas próprias músicas, passam a ser chamados de maestros, ganham prêmios e viram exemplo no exterior do quanto a música popular de um país é avançada (o caso da nossa MPB).
São os Carlos Gomes, Padres José Maurício e os Aleijadinhos anônimos da vida que, apesar da origem humilde e etnia, amparados por o metier e / ou por a proteção da aristocracia, conseguem ascender à condição de nobres da arte.
Assim, justificando a primeira afirmação do texto sobre deixar de fazer música e dedicar-me à arte sonora, concluo que, afinal de contas, o termo música é ideal para uma manifestação artística de tendência aristocrática como a que acabamos de apresentar, pois, em sua raiz etimológica, se refere, de fato, à realeza das artes, as Musas, e se trata de arte produzida por elas e para elas.
Não é a arte do sonoro.
É, antes, a arte de acatar ordens, por meio da organização de material oriundo de sistemas sonoros pré-estabelecidos, visando à manutenção da desigualdade.
Esquecer as Musas e ater-se aos sons para que tudo volte a ser possível!
Número de frases: 78
Cinco Reflexões:
1) Música e Músicos;
2) Sociedade e Povo Brasileiro;
3) Literatura e Política;
4) Cultura e Meio Ambiente;
5) Mediano ou Intelectual.
E a Avenida Paulista (Paulo / SP) é palco do 3º Corredor Literário na Paulista ... (
www.corredorliterario.com.br) 1) Música E Músicos
Partindo do princípio que o Brasil é um país com as diversas faces culturais dos povos que aqui chegaram (alguns forçados;
outros -- exilados;
e uma minoria em busca de fortuna), e colocando em questão a homogeneidade da música brasileira em análise, dispomos de três pilares básicos que sustentam a musicalidade tupiniquim:
* Luiz Gonzaga -- com a cara pernambucana, pele cabocla, harmonias árabes e o canto da " Asa Branca ";
* Dorival Caymmi -- que tem a negritude baiana do recôncavo, influências lusitanas e as cantigas «É Doce Morrer no Mar», Promessa de Pescador» e outras obras primas;
* Pixinguinha (Pizindim) -- neto direto da Mãe África, músico, compositor, arranjador e cidadão maior do planeta.
Estes «mestres» foram responsáveis por a quebra dos preconceitos musicais e raciais, no meio daqueles, que rotulam a produção musical brasileira como algo de elite.
Algumas minorias, ainda cometem o erro de apropriação ilícita, daquilo que conhecemos popularmente como «MPB -- Música Popular Brasileira».
As citadas minorias acham que a «MPB» é única e, portanto:
homogênea e de poucos.
A globalização com as suas armadilhas e informações democráticas na era da internet, mostra que o segredo da «produção musical brasileira» -- de qualidade indiscutível, não deve ser confundida com as aparências «homogêneas ou heterogêneas».
Cada pedaço do solo brasileiro foi há muito e é hoje, a moradia dos povos nômades (milenares ou contemporâneos), responsáveis por toda a beleza melódica, harmônica, rítmica e poética dos sons «multirraciais» e «multiculturais», que diferenciam a nação» Brasil», das outras tão iguais nos cantos dos pássaros, barulho do vento, espiritualidade dos terreiros e templos e democracia quase completa na criação artística.
Os artistas brasileiros (colocando em pauta, os que trabalham a expressão artística musical) sabem qual é a diferença entre criação, plágio e repetição.
O Brasil sempre produziu e produzirá inovações na área da música, e seus filhos e filhas, beberam, bebem e beberão na fonte da universalidade (uma utopia -- vale a pena sonhar!).
A linguagem musical será a futura forma de comunicação entre os seres humanos, e quem sabe:
os brasileiros serão os professores!
() 2) Sociedade E Povo Brasileiro
Ai Jesus!
Onde eu fui atracar minhas caravelas!
As calmarias traíram-me, e levaram-me para esta terra tão difícil!
Saí de Lisboa em direção às Índias ...
Levei toda a base política (e que base!)
e cultural do futuro povo brasileiro e eis, que após 500 anos, vejo está grande lama.
O que fiz de errado?
Jesus! Não sei o que é «dossiê» ...
Não sou sanguessuga!
Não bebi ou bebo sangue!
Não sou vampiro!
Deixei no Brasil os degredados, os ambiciosos e os presos políticos.
Levei para Portugal, o ouro, o pau-brasil e dormi com as belas patrícias de peles vermelhas e negras.
Também levei muito açúcar e tomei minhas cachaças!
Eis que como castigo, em 2007, recebo esta classe política brasileira, medíocre e oportunista, sem coração e sem alma!
Ai Jesus!
Só rezando e pedindo perdão por o erro de não saber navegar.
Desembarquei de minhas naus na Terra de Santa Cruz!
Fui católico ...
Até o nome está politicamente correto!
Fiz minha cagada, mas sou humano!
Os franceses, holandeses e ingleses também cagaram nesta terra!
Que Deus tenha compaixão de minha alma e das almas dos que ainda tiveram coragem de votar em Outubro.
Tomara que não tenham cagado na escolha do político!
Oh Jesus!
A ex-colônia lusitana continua na mesma merda e parece com a antiga corte portuguesa de 1500.
Querem dividir o Brasil!
Isto é uma «cagada» ...
Um novo «Tratado de Tordesilhas» trará problemas com os nossos patrícios do «além-mar»!
Portugal já não é uma casa portuguesa (com certeza!)
Hoje, Portugal faz parte do primeiro mundo e do mercado comum europeu.
(http://www.jornaldedebates.ig.com.br/index.aspx?
cnt id = 15 & art id = 141)
3) Literatura E Política
Um pobre ancião criou uma fórmula chamada felicidade
Ele disse que na fórmula tinha açúcar e amor, e um bolo
A fórmula genial mostrava sabedoria e conceitos de divisão
Somar (+) Somar (=) A dividir (:) quantas (x) O Brasil precisar
O ancião iluminado mostraria o segredo da tal felicidade
Mas temendo que alguém surgisse do nada e criasse oposição
O esperto ancião escondeu o segredo e caiu no anonimato
E num mundo de intrigas, inveja, corrupção e tantas religiões
Como fazer o ancião sair do anonimato e falar de felicidade?
Uma sugestão para reflexão!
Poderá ser a sua ...
Talvez ...
Fazer o coração bater o bolo do amor, com açúcar
Sal, ovos, farinha de trigo, chocolate, fermento e divisão
Será que eles são socialistas ou capitalistas disfarçados?
É Lula cá (X) Alckmin, Aécio e FHC no centro (X) Lula lá Em Paris?
Oxente ... Varig!
Varig! Varig!
Cadê o Aerolula?
Será que Tucano voa?
Uai sô!
Sei não!
(http://www.jornaldedebates.ig.com.br/index.aspx?
cnt id = 15 & art id = 1043 &)
4) Cultura E Meio Ambiente
A fauna e flora do Brasil, já não suportam tamanha agressão e descaso por parte dos poderes públicos.
Vários habitantes de nichos ecológicos (em destaque, a espécie Homo sapiens) informam que o «fogo na mata» e a «poluição das águas», são apenas detalhes na nova agenda governamental e talvez sejam discutidos no futuro.
As prioridades com habitação, saúde, educação, cultura e segurança, ainda são «Segredos de Estado».
Novos «silos» foram construídos para armazenar a próxima safra e exportação de grãos.
Os olhos racionais e irracionais estão bem abertos!
A fome, nunca mais será moeda de equilíbrio na balança comercial -- um animal faminto, ataca, morde e devora.
Depois de décadas e séculos, servindo como cobaias nas experiências de líderes ou manipuladores políticos de centro, direita e esquerda, o povo brasileiro adapta-se aos novos tempos.
É a lei natural da evolução.
Hoje, o povo sofrido, come, bebe e respira a frase:
«toma lá, dá cá», mostrando que a cidadania caminha lado a lado com a evolução natural da espécie Homo Sapiens.
Em as periferias das citadas selvas ou grandes cidades, surgem as novas «tribos urbanas» -- vestidas de «contracultura».
Elas simbolizam as rupturas dos velhos nichos ecológicos e provam que a espécie humana, caminha nos passos do jacaré, da formiga ou do piolho.
O efeito «dominó» já contamina a sociedade pseudo-harmoniosa e puritana.
Alguns gritam:
não me toques!
Muitos alegam que acontecerá a divisão natural em todos os aspectos e a ultrapassada sociedade elitista, sucumbirá no processo gradual da evolução.
Os descendentes dos primatas continuarão em harmonia?
(http://www.leialivro.sp.gov.br/texto.php?
uid = 12423)
5) Mediano Ou Intelectual
O que é ser um Homo sapiens intelecto?
Será o resultado da mistura do acúmulo de conhecimentos e arrogância?
Será a soma de todas as horas na leitura de temas importantes?
Para alguns, esses citados temas possuem enormes valores culturais e para outros, não passam de uma perda de tempo?
Ser Ou Não Ser?
O ser humano é um bicho -- Homo sapiens -- muito complicado e possui vantagens de adaptação em relação aos primos e irmãos de outras espécies.
A espécie Homo sapiens intelecto (descobri essa espécie no Brasil), acha que a sua adaptação é diferenciada do Homo sapiens primary (espécie nativa da região Nordeste do mesmo Brasil), pois as grandes universidades, os títulos de doutor, os idiomas falados (alguns meia boca) e a convivência com outros bichos da mesma espécie -- Homo sapiens intelecto -- dá-lho direito de escrever manifestos endereçados a todas as outras espécies Homo sapiens (são elas: Homo sapiens poetics, Homo sapiens musics, Homo sapiens quaisquers e aquelas geneticamente modificadas), fazendo da carta ao ecossistema brasileiro, uma teoria evolucionista que até Darwin, será confundido com Freud.
Não é criticando o Homo sapiens primary, que o bicho Homo sapiens intelecto subirá mais um degrau na escala evolucionista da intelectualidade.
Os outros Homo sapiens também pensam e sabem dar os seus «pulos e nós» nos galhos das árvores.
Quem não lembra do refrão:
cada macaco no seu galho!
O ecossistema brasileiro Brasiles politicy e todas as espécies que o habitam, deverão entrar em sintonia com outros ecossistemas, como fala e grita ao vento o Homo sapiens intelecto.
Mas, sabendo que ecologicamente a biogeografia traz uma vicariância de aspecto ético e moral -- assunto para a bioética -- a voz da suposta verdade soa como falsa e oportunista.
Alguns Homo sapiens (espécimes não explicadas na primeira Lei de Mendel), já não utilizam as mesmas formas da comunicação ou aproximação (moedas-bananas) em Brasiles politicy.
Hoje a forma de agregação (discurso político) de todas as espécies Homo sapiens do ecossistema brasileiro, é vazia e disfarçada em evolução gradual no Habitat.
Será que a espécie Ramphastos vitellinus (nome popular: Tucano) evoluiu ou sofreu mutação da espécie Homo sapiens intelecto?
Número de frases: 120
() Conheça a pesada rotina dos garis que fazem a limpeza das ruas em Belo Horizonte
Ainda é noite quando começam os preparativos para o dia seguinte."
hora de preparar a marmita, na latinha o de sempre:
arroz, feijão, verdura e um pedaço de carne, quando tem.
Para chegar no horário acorda bem cedo, pois o ônibus passa às quatro e meia da manhã.
Ana Lúcia mora em Santa Luzia e não precisaria chegar tão cedo, mas como é uma das mais antigas gosta de chegar antes dos outros para ajudar o monitor Tião a arrumar o lixo e as vassouras dos companheiros.
Quando o relógio bate às 7h, Ana Lúcia sai com seu companheiro Edney para mais um dia de trabalho.
A saída também é antes dos outros, enquanto o pessoal faz ginástica Ana e Edney saem para o seu destino, que sempre é o mesmo:
Tupinambás, Afonso Pena e Amazonas.
Chegando à Tupinambás começa a varredura, Ana pega sua vassoura no carrinho, levado por Edney, e começa a varrer.
Enquanto ela varre o passeio ele fica com a rua.
Enquanto trabalham, pessoas passam em cima dos lixos sem nenhum respeito, outros fazem cara feia.
«Tem gente que passa aqui, xinga e até chuta o lixo» disse Edney.
Mas para Ana Lúcia já teve tempos piores, quando os camelôs ficavam no centro.
«Nossa! Quando tinha camelô aqui era um inferno, a gente acabava de limpar, eles jogavam plástico de suas mercadorias no chão, a gente tornava a limpar e eles continuavam.
Eu não ficava nervosa, mas muitos garis não tinham paciência e brigavam com eles " disse Ana.
Além desse desrespeito os camelôs também tinham preconceito com eles.
«Falavam que se não fossem eles para sujarem a rua, nós não teríamos emprego e diziam que recebíamos para limpar o que eles sujavam» disse Ana.
Para fazerem suas necessidades dependem da solidariedade das pessoas que trabalham no comércio da região central de Belo Horizonte.
Mesmo assim, enfrentam alguns obstáculos, reclama Ana.
«Em alguns lugares a gente vai ao banheiro num dia e no outro quando chegamos lá a porta do banheiro está fechada até com cadeado."
Além do banheiro, Ana toma muita água, por isso sai com sua garrafinha cheia e quando acaba ela novamente conta com a solidariedade, ou de seus amigos garis ou das pessoas do comércio.
O trabalho segue até às 11h, quando eles vão para o alojamento, situado embaixo do viaduto Santa Tereza.
É hora de saborear a marmita feita no dia anterior.
Banho Maria para esquentá-la e pronto, agora é só comer.
Após o almoço Ana Lúcia gosta de dormir, pois mais tarde volta à varredura.
Alguns garis também preferem tirar um cochilo, outros preferem bater papo.
à tarde, o trabalho começa ao meio-dia, Ana e Edney varrem o mesmo trecho que varreram de manhã.
Não pense que estará mais limpo, só porque foi varrido mais cedo.
à tarde, o fluxo de pessoas é maior e a sujeira aumenta.
«à tarde o lixo é maior, tem muita gente e além disso tem aqueles meninos que panfletam por aqui e jogam muitos papéis no chão» disse Ana.
O trabalho de gari é muito pesado.
Eles chegam a varrer 4000m por dia.
Apenas no centro de Belo horizonte são coletadas por dia 12 toneladas de lixo dos mais variados materiais.
Os mais coletados são papéis, copos, garrafas plásticas e folhas de árvores.
Mas de vez em quando aparecem surpresas no lixo.
«Teve um dia que eu achei um salário jogado no canto da rua, não me lembro quanto era, procurei o dono.
Como não encontrei usei o dinheiro para pagar uma parcela de um lote " disse Edney.
Ana lúcia não teve tanta sorte.
Em vinte anos de profissão nunca achou nada de valor.
«Eu nunca achei nada, muitos companheiros meus já acharam brincos, anéis de ouro.
A única coisa que acho de vez em quando são moedas de cinco, dez centavos " disse ela.
Ana Lúcia de Oliveira Silva tem 56 anos e vinte de eles como gari.
Ela entrou para profissão quando ganhou seu último dos quatro filhos.
«Quando comecei a trabalhar de gari meu filho era bem pequeno, hoje ele tem vinte anos» disse ela.
Com tantos anos de profissão, já sente no corpo as conseqüências do ardo trabalho de gari.
«Tem dia que meu ombro fica muito inchado, mas mesmo assim continuo a trabalhar» disse ela.
O médico já não lhe deixa levar o carrinho, devido a alguns problemas que ela tem nos ossos.
São 16h, hora de ir embora.
O caminho é o mesmo do almoço, voltar para o alojamento guardar o material, tomar banho e ir embora.
Em o alojamento são três banheiros para mais ou menos 20 funcionários.
Alguns voltam para casa sem tomar banho, mas Ana sempre toma e volta para casa onde descansa antes de começar um novo dia de trabalho, com a mesma rotina.
Número de frases: 52
A necrofilia da arte é papo velho.
O gostar de uma banda só porque ninguém a conhece e você pode tomá-la como sua também.
Mas um grupo que junta essas duas características não deixa de ser interessante.
Vamos lá, falar da Graforréia Xilarmônica.
Atualmente formado por Frank Jorge (baixo e voz), Carlo Pianta (guitarra e vocais) e Alexandre Birck (bateria), o trio gaúcho é um dos grupos mais cultuados do rock brasileiro sem que se saiba ao certo a razão disso.
Não, eles nunca foram super-astros de vender milhões.
Sim, eles já lançaram disco com apoio de grande gravadora, mas que ninguém comprou.
Não, eles não fazem milhões de shows por ano, como um Carbona da vida.
Sim, eles têm quase vinte anos de carreira.
Definitivamente, é um fenômeno esquisito.
A única certeza sobre esses gáuchos é que a música de eles é muito mais interessante do que a média do rock nacional.
Ponto.
Antes da banda, os irmãos Alexandre e Marcelo Birck e Frank Jorge já eram vizinhos de casa.
«O Marcelo e o Alexandre eram vizinhos de cama», frisa Frank, aos risos.
Refutando em parte a idéia de que o grupo se formou da divisão de várias outras bandas, Alexandre Birck explica que se tratava de " uma zoação de rua, que virou um time de futebol, que virou uma banda.
Era tudo muito natural».
Essa intimidade pueril é a chave para se entender o humor que as letras do grupo trazem.
A zoação interminável e a quantidade de piadas internas impedem qualquer malandro de acompanhar o raciocínio de eles e não sentir que está sendo zoado sem saber.
Enquanto um fala, os outros dois riem.
De a formação atual, só Alexandre Birck é remanescente da formação original, que nem chegou a fazer um show.
«Mas foi de vital importância, pois foi de lá que veio o nome decidido por uma votação, onde cada um escolhia uma palavra aleatória.
Depois nós votavamos entre as que tinham sido propostas.
Lembro que deu empate entre Graforréia e Xilarmônica.
Eu não lembro em qual eu votei», conta o baterista.
Você já deve ter ouvido a história de uma banda de amigos que começam a tocar, gravam uma fita, as pessoas começam a gostar, a quantidade de shows começa a aumentar ...
Pára! Parou aqui.
No caso de eles, é Quase isso.
«A gente fazia um, dois shows por ano no início», conta Pianta.
«E depois que lançaram a fita-demo?»,
pergunta o repórter já imaginando aquela resposta.
«Depois? Depois continuou igual», responde o guitarrista como uma sinceridade absurda.
Depois da fita -- tudo bem -- as músicas se espalharam e as pessoas começaram a cantá-las nas apresentações.
«Eu não sei por que cargas d' água, mas desde o primeiro, os nossos show estavam sempre cheios», lembra Pianta.
A química acontecia, mas os shows continuavam esporádicos.
Com outras prioridades individuais, a banda alternava um certo culto underground com um quê de mambembe.
Um integrante saía, outro entrava, a banda acabava, ficavam dois anos parados, depois os amigos se encontravam, bebiam e resolviam voltar a tocar e assim ia.
Um, dois, no máximo três shows por ano e, de repente, um " querem gravar um disco por a Warner?"
Hein? (Esse «hein» é só do repórter surpreso, ninguém da banda parece achar nada de anormal nisso).
Em a mais importante aventura do rock nacional nos anos 90, o selo Banguela, comandado por o gaúcho Carlos Eduardo Miranda e abrigado por a Warner, foi a pedra fundamental para a renovação do cenário nacional tendo lançado bandas como Raimundos e Mundo Livre S / A, além de ter estimulado às outras gravadoras a investirem em novas bandas.
Miranda então chamou a Graforréia para ser uma das bandas a serem lançadas por o Banguela.
Em esse momento, é de se imaginar que a rotina tivesse, enfim, mudado.
Mas o guitarrista explica que não.
«A banda sempre teve uma rotina própria de ensaiar e criar material.
Rolou apenas uma injeção de energia, mas o ritmo continuou o mesmo.
A seriedade sempre foi uma faceta que nos acompanhou».
O fim do Banguela na mesma época em que o álbum Coisa de louco II era lançado, colaborou para que o grupo não estourasse nas paradas de rádios nacionalmente.
«Aconteceu com o nosso disco a mesma coisa que acontecera com a demo:
se espalhou sem tocar muito na rádio.
Até tocava, mas não ao ponto de gerar uma demanda de shows.
Nós tínhamos que garimpar essas poucas apresentações», explica Pianta.
Em uma época em que os artistas independentes ouvem que o importante é cair na estrada, tocar, fazer muitos shows, a trajetória da Graforréia, ao mesmo tempo em que põe toda essa teoria por água abaixo, a reafirma por completo.
Uma das coisas que o disco trouxe de positivo foi que, pela primeira vez, surgiam shows no interior do Rio Grande do Sul, fora de Porto Alegre.
Com essas apresentações, juntaram algum dinheiro e, de forma independente, lançaram um segundo disco em 1998, o Chapinhas de ouro.
«Quando o primeiro disco saiu por o Banguela e não deu certo, nunca pensamos em parar.
As coisas tinham voltado ao que sempre foram.
Pensamos qual era o próximo passo.
O primeiro passo tinha sido gravar o primeiro disco.
Gravamos. Qual seria o próximo?
Gravar um segundo disco.
E assim seguimos, normal», lembra Pianta.
E a rotina continuou com seus esporádicos shows, até que, em 2000, a banda acabou oficialmente.
«Não teve um porquê.
A gente se olhou e estava todo mundo meio de saco cheio e ' vamo parar? ',
vamos. Não houve treta», explica Alexandre Birck.
A combinação de necrofilia da arte com o boom do MP3 fez com que, a partir de então, o culto à Graforréia crescesse exponencialmente.
Pra piorar (ou melhorar), os dois, três shows por ano não aconteciam mais.
Além disso, o Pato Fu gravou duas músicas de Frank Jorge, Nunca diga (no álbum Televisão de Cachorro, 1998) e Eu (em Ruído Rosa, 2001), sendo que a segunda -- uma parceria com Alexandre, Marcelo e Carlo -- fez com que os mineiros vencessem a categoria «melhor videoclipe pop» do VMB 2001.
Tudo isso ajudou a aumentar «a aura», a lenda, em torno do grupo gaúcho e de seu principal compositor.
Os integrantes começaram a receber propostas de shows, a ver a demanda por a presença da Graforréia crescer, mas eles estavam parados.
Entre 2001 e 2003, faziam uma apresentação, no fim de cada ano, esquema Robertão-Rede Globo, numa casa de shows de Porto Alegre.
Até que em 2004, uma proposta de um escritório para produzi-los os seduziu a voltar.
De lá pra cá, o número de shows cresceu.
Já chega a uns cinco ou seis por ano.
Em julho de 2005, gravaram um disco ao vivo, que está em fase de finalização, sob a produção de Kassin.
Conversar com a banda sobre a rotina dos shows chega a ser engraçado, pois eles vão se lembrando um a um.
-- «Ano passado, antes da gravação, rolou um show na festa de uma rádio, que foi legal», lembra Frank Jorge, sendo interrompido por Birck:
-- " Teve aquele de Vacaria ...
Teve Caxias (do Sul) ..." -- "
Caxias! Carlos Barbosa ... [
silêncio para lembrar] Mais recentemente, já em janeiro de 2006, tocamos em Florianópolis. [
silêncio para lembrar 2] ...
Tocamos também duas vezes em Porto Alegre em dezembro ...»,
completa Frank.
O próximo pequeno passo da história do grupo é lançar este terceiro disco.
«Querer, a gente sempre quis ganhar dinheiro com o nosso material, víamos que tinha uma receptividade.
Nós queríamos ganhar, tocando.
Nunca aconteceu, pode ser que agora mude, mas ainda não mudou», explica Pianta.
Pode ser, pode ser que agora mude.
Mas aí não existirá mais a necrofilia, nem a sensação de que a Graforréia é só sua.
E aí?
O que você prefere?
Número de frases: 91
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Bruno Maia escreve no www.sobremusica.com.br Em tempos de retomada do conservadorismo da Igreja Católica e da visita do Papa Bento XVI ao Brasil, não poderia haver melhor peça a ser encenada do que Santidade, de José Vicente, em cartaz no sempre polêmico Teatro Oficina.
Zé Celso e companhia embarcam de corpo (nu) e alma no choque entre a Igreja, com todos os seus dogmas, e o mundo contemporâneo -- de liberdade sexual, aids, longas jornadas de trabalho, drogas e violência.
Com um texto atual (apesar de escrito há 40 anos), o espetáculo conta a história do casal gay formado por o estilista de 70 anos Ivo (Zé Celso) e por o jovem ex-seminarista Arthur (Haroldo Costa Ferrari).
O conflito entre as crenças e a vida ostensiva de busca constante por o prazer acontece quando o irmão de Arthur, o diácono Nicolau (Fransérgio Araújo), se hospeda na casa do estilista em ocasião da visita do Papa a São Paulo.
Dogmas antigos da Igreja Católica como a proibição do uso da camisinha e o preceito de que a relação homossexual é anti-natural, retomados com a nomeação de Bento XVI, têm sua praticidade questionada na peça.
Como essas imposições podem ser aplicadas no mundo de hoje, com doenças sexualmente transmissíveis e as drogas injetáveis ainda por ai?
Dirigida por Marcelo Drummond, o espetáculo traz toques pessoais do Teatro Oficina, como o trocadilho envolvendo Frei Caneca, rua famosa em São Paulo por ser considerada um reduto homossexual, e Frei Galvão, primeiro santo brasileiro canonizado por Bento XVI.
A atuação de Zé Celso é um espetáculo à parte, apesar de não ser a melhor da peça.
Longe disso:
Haroldo Ferrari e Fransérgio Araújo dão conta do recado e seguram o nível da montagem.
Contudo, Zé Celso nitidamente se diverte em cena, mesmo quando erra.
Em um momento, quando precisa se vestir para sair de cena, quase coloca o paletó errado, mas conserta:
«Esse não é o meu.
Herchcovitch fez só pra mim, e eu não vou usar?»,
fala se referindo a Alexandre Herchcovitch, estilista que fez o figurino da peça.
Não é difícil compreender o equívoco:
Zé não está acostumado a vestir roupas.
Ainda sem perder a piada, Zé aproveita mais uma vez para alfinetar a péssima qualidade da vizinhança.
Tanto na peça quanto na vida real, o vizinho de ele «topa tudo por dinheiro».
O público do Teatro Oficina nunca ficou tão confortável como nesta montagem:
pufes foram colocados em toda a pista para substituir o desconforto das duras arquibancadas do espaço.
Uma das características da companhia, a interação com a platéia aparece de forma muito amenizada.
Os atores apenas passam no meio dos espectadores, jogam cuecas e, de vez em quando, dão uma sentadinha no colo de alguém.
Nada demais para o jeito Oficina de ser.
Mas como em toda platéia sempre há um perdido que não conhece esse tipo de teatro, a fala de um ator foi interrompida por uma mulher aflita que falava para a amiga, no pufe do lado:
«Você me paga!!!»,
enquanto Haroldo Costa Ferrari a abraçava por trás.
O único problema de Santidade é na utilização dos microfones por os atores.
Em o início da encenação, sem o aparelho, não dava para ouvir direito algumas falas.
Quando começaram a usar, às vezes, o microfone produzia ruídos de acordo com o movimento dos intérpretes.
Em certas ocasiões parou de funcionar, mas não se sabe se propositadamente ou por causa de algum tipo de falha.
Por a segunda vez, o Oficina acerta ao montar um texto de José Vicente.
Em 2003 encenaram O Assalto, com o mesmo diretor e também com Ferrari e Araújo no elenco.
Enquanto a Record proíbe seus jornalistas de usarem o termo Santidade ao se referirem ao Papa, a Bacante aprova a peça e comprova nossa teoria:
Zé Celso realmente nasceu pelado.
Número de frases: 35
Ele não consegue ficar vestido nem nos agradecimentos finais.
«Hoje longe muitas légua
Em uma triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortá para o meu sertão " Asa Branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)
Quando um tema é abordado de maneira vasta, principalmente nas artes, pode-se dizer com uma certa firmeza que se trata de alguma característica própria do ser humano.
O amor à terra natal, por exemplo, é um tema que já foi bastante explorado aqui no Brasil, certamente porque já se viveu muito esse amor e, diga-se também, essa saudade.
Com Humberto Cavalcanti Teixeira não foi diferente.
Cearense da cidade do Iguatu, foi viver no Rio de Janeiro em busca de crescimento profissional.
Logicamente que seu caso não era tão parecido com o dos retirantes que, sendo pobres, iam para o sudeste na intenção de sobreviver.
Mas tinham muitas coisas em comum e, basicamente, o imenso amor e saudade por a terra de origem.
Sendo um legítimo Teixeira e convivendo com o seu povo, Humberto levou para o Rio de Janeiro essencialmente três coisas:
a musicalidade própria da família e refinada na flauta por seu tio -- o bem-humorado maestro Lafaiette Teixeira, cuja «escola musical sanguínea» espalhou-se por alguns outros cantos do Brasil;
um senso de humor espetacular, também herança cearense e " teixeirense ";
e muitos, muitos sonhos, principalmente relativos à sua terra.
Resumindo bastante a história, estando no Rio de Janeiro, Humberto Teixeira encontrou-se com outro nordestino e, desse encontro, saíram vários hinos de amor ao sertão daquela região flagelada, terra de muitos e também, infelizmente, terra de ninguém.
O encontro se dá com Luiz Gonzaga, sanfoneiro vindo de Exú, sertão de Pernambuco -- depois da parceria feita, Luiz seria coroado como Rei do Baião, representante oficial da voz nordestina para o Brasil.
Humberto seria «nomeado» o «Doutor do Baião», por ser advogado e um tanto erudito.
Assim, com músicas imortalizadas, Humberto Teixeira nunca deixou de levar no coração o amor por sua terra, por seu povo.
E não só isso, preocupou-se ainda:
«Será que o Ceará me esqueceu?"
Hoje, a gente pergunta:
Será que o Brasil lembra do Humberto Teixeira?
E não só do Humberto, mas de tantos outros que também cantaram amores por esta terra, seja em ritmo de baião, samba ou choro.
Quanto a Humberto Teixeira, alguns movimentos ultimamente para resgatá-lo à memória, através de um livro e um filme já mencionados aqui no OVERMUNDO.
O livro:
«Cancioneiro Humberto Teixeira», belíssima edição de luxo com dois volumes -- bibliografia e seleção de músicas -- onde se encontra muito mais informações sobre a vida deste apaixonado por o sertão, desde sua infância até a suas labutas no Rio de Janeiro (inclusive com alguns fatos curiosíssimos).
Ainda estou lendo e já estou gostando muito!
Já o documentário, o longa-metragem «O Homem que Engarrafava Nuvens», que ainda não consegui adquirir, mas já ouço algumas coisas a respeito e parece estar bem interessante. (
Número de frases: 29
E desde já recomendo a todos!)
Presos dentro de um camarim improvisado, de paredes de madeira, colocado na borda de uma praça rente a armazéns abandonados do cais do porto, um grupo de jovens músicos tenta entender o que acontece quando alguém arremessa uma garrafa de cerveja no telhado, inúmeros outros forçam as portas e as paredes, mais garrafas quebram sobre suas cabeças, o pânico toma conta de todos, uma mulher grávida, esposa de algum roqueiro, começa a chorar, um dos seguranças do show se acocora num canto com os olhos arregalados sem saber o que fazer.
Vários instrumentos musicais ali, vários equipamentos caros, coisas alugadas, e lá fora centenas de pessoas na maior batalha campal da história da música paraense.
Nenhum policial a postos naquela madrugada, toda a proteção do festival de bandas de rock tinha sido deixada a cargo de uma agência terceirizada chama «Gang Mexicana», que, nada mais fez que precipitar o confronto final ao chutar um garoto que tinha acabado de cair desajeitadamente do palco durante o show de uma banda de heavy metal que ora se apresentava.
Esse chute tinha sido a gota d' água.
Tudo foi quebrado e saqueado:
palco, caixas de som, mesa de controle, barraquinhas de alimentos, pessoas, entre outras coisas, num frenesi que durou pelo menos meia hora.
Em o final havia restado apenas escombros do que poderia ter sido a grande oportunidade do rock paraense projetar-se na cena nacional.
Era a terceira vez em dois anos que Belém tinha conseguido organizar o festival de bandas «Rock 24 Horas», onde nada menos que 24 bandas tocaram durante 24 horas seguidas (e pelo menos uma centena ficava de fora), das 9 da noite até as 9 da noite do dia seguinte.
Era abril de 1993, ano em que o Mangue Beat foi descoberto em Recife e que produtores importantes de São Paulo fizeram questão de viajar ao Norte para saber que diabos está acontecendo lá em cima.
Em Pernambuco e Belém, todo um movimento de bandas ocupando um espaço expressivo nas cenas locais.
Foram lá ver.
De Recife colheram um dos mais interessantes acontecimentos da música popular brasileira dos anos 90;
de Belém, colheram uma verdadeira lição de barbárie e falta de organização.
Demorou muito tempo para que o rock paraense voltasse a aparecer com força na cena local:
cerca de 10 anos.
Mas, voltando ao camarim prestes a ser destruído do último Rock 24 Horas, na Praça Kennedy (hoje Praça Waldemar Henrique) encontramos uma das bandas que faziam parte desse movimento acuada, amedrontada e que teve que correr de mãos dadas gritando " somos músicos, somos músicos!"
no momento em que uma das paredes foi derrubada e uma turba enfurecida invadiu o aposento.
Ninguém dos Anjos do Abismo saiu ferido.
Foram arremessados em táxis em fuga, recolheram-se às suas casas e decidiram não mais participar daquele caos que tinha se tornado a cena roqueira paraense.
Tanto sacrifício tocando em espaços precários, tomando ônibus lotado, em pé, abraçado ao instrumento para ir ensaiar em Icoaracy (distrito afastado de Belém) com equipamento precário, procurando compor algo que acabou-se por identificar como rock progressivo por os seus apreciadores.
O s Anjos do Abismo tiveram vida curta.
Começaram em Icoaracy nos idos de 1990 como uma das bandas de lá, logo começaram a se apresentar em Belém regularmente e a participar ativamente da cena do rock da capital, tendo participado das três edições do festival Rock 24 Horas e lançado uma música na Rádio Cultura chamada «Black Screen», cujo formato final (com arranjo de cordas) jamais foi tocado nas rádios paraenses por ter sido produzida no canto do cisne da banda quando ninguém mais tinha vontade de continuar.
Atualmente os Anjos do Abismo continuam, cada um à sua maneira, dedicados à música.
O Beto (Hoje Márcio D' Alari), vocalista, violonista e percussionista, atualmente se encontra em Boston tocando com grupos dedicados à música brasileira.
Também se formou em musicoterapia e massoterapia;
Valério Fiel da Costa, guitarrista e violonista seguiu a carreira acadêmica e dedicou-se à composição, atualmente está em São Paulo fazendo doutorado por a UNICAMP;
Rogério Carvalho permaneceu em Belém, continua tocando baixo elétrico e de vez em quando realiza participação em bandas de rock na cidade -- teve um filho;
Pio Lobato, guitarrista, dedicou-se ao estudo das guitarradas e foi o principal responsável por o atual resgate desse gênero em Belém.
Continua tocando guitarra na banda Cravo Carbono, fez música para cinema e representa o Pará em duas coletâneas de música brasileira patrocinadas por o Itaú Cultural;
Charles Matos, baterista, aperfeiçoou-se como músico de jazz e realiza regularmente trabalhos com diversos músicos em Belém, tendo lançado um livro sobre adaptação de ritmos regionais para um set de bateria.
O baterista Beto Brasil e o guitarrista Helder Avelar (ex " Chama ") também passaram por o Anjos e chegaram a tocar no último show da banda, em 1994, no Teatro Margarida Schiwazzappa em Belém, onde Beto aproveitou a imprensa presente para comentar a perseguição do Grupo Liberal de Comunicação contra o jornalista Lúcio Flávio Pinto.
O último vôo dos Anjos do Abismo.
Número de frases: 33
O que Aracaju tem de pequeno além do território?
Expressão cultural além das fronteiras, talvez?
Talvez sim, mas isso vem cheirando a mudança.
Os produtores e agitadores culturais da cidade, e até do interior do estado [Sergipe] andam se misturando, se conhecendo, trocando figurinhas, atentos ao que vem acontecendo por aí.
Eles se espalham estrategicamente buscando informação e continuam interagindo pra não perder o andar da carruagem.
Um dia essa bomba de informação vai explodir e eu quero estar atento pra contar a história.
O Festival «NADA PODE PARAR O ROCK», o mais novo na cidade, é um bom exemplo do que falei acima.
Promovido por ' Carburador Discos ` e ' Mono / Stereo produções ', em sua segunda edição, que ocorre no início de setembro deste ano, já é ousado e dura em 3 dias, traz atrações de estados vizinhos e faz até mesa redonda ...
Coisa de ' peixe grande '! [
Confira a programação abaixo.]
É amigo.
Em uma cidade tão pequena, a ' união faz a força ` direitinho.
E é isso o que Werden Tavares (Mono / Stereo produções), idealizador do evento, procura com essa mesa redonda, tentando unir pessoas que lidam com cultura no estado em diferentes ' departamentos ' num só lugar, para trocar idéia, interagir, colaborar, agregar.
Tudo com a participação de um público ávido por novidades na cidade.
Em a escalação, nomes que vêm aparecendo em outros festivais Brasil afora, como os pernambucanos Vamoz, Parafusa e Volver, os mineiros do Valv, e até o lendário gaúcho Júpiter Maçã.
Tem também, claro, atrações locais novinhas e outras com muita bagagem e respaldo.
Os Verdes que fazem um estilo retrô, o rock lissérgico-sergipano da Plástico Lunar, os recém lançados Psicosônicos (revelação no interior sergipano) e Leprechauns, a Maria Scombona que tem toda uma saga pra contar, e a respeitada Máquina Blues.
Além dos baianos Vendo 147 e Vinil 69.
O que absorver disso?
Pra quem é sergipano, ficar ligado, porque bons tempos estão próximos, muito próximos.
E pra quem é de fora, é pagar pra ver!
Programação do festival:
31/08 19h30 Mesa Redonda no Teatro Juca Barreto -- Cultart / UFS
Temas em pauta:
O que é o Mercado Musical?
O Mercado Cultural como um todo?
Dá pra viver de Produção Cultural?
Que mídias usar?
O que são as novas mídias que todo mundo anda falando?
Para isso contamos com a parceria de um aliado de peso, o site Overmundo.
Que será representado numa mesa de discussão cujo tema é «" Música, mercado, produção cultural e novas mídias».
Participantes:
Marcelo Rangel (OverMundo)
Luciano Mattos (Revista RockPress, Jornal A Tarde (BA), blog El Cabong)
Indira Amaral (Revista Imagine-SE)
Rafael Jr. (bandas Snooze e Maria Scombona)
Rosângela Rocha (Casa Curta-SE)
01/09 20h Show na ATPN
Os Leprechauns (SE)
Os Verdes (SE)
Vamoz (PE)
Plástico Lunar (SE)
Parafusa (PE)
Valv (MG)
Volver (PE)
02/09 20h Show na ATPN
Psicosônicos (SE)
Máquina Blues (SE)
Vendo 147 (BA)
Vinil 69 (BA)
Maria Scombona (SE)
Número de frases: 51
Júpiter Maçã (RS) -- Hoje tem espetáculo?
-- Tem sim, senhor!
Uma das combinações mais perfeitas da alegria é a mistura criança + circo.
E é exatamente essa a proposta da Companhia Teatral Arte Viva [companhiateatralarteviva@hotmail.com], coordenadora do Ponto de Cultura que leva o nome do grupo.
O Ponto funciona desde o ano passado, mas o grupo existe há dezessete anos no bairro do Paraiso -- periferia da pequena cidade de Santa Cruz [população estimada em cerca de 30 mil habitantes], distante 110 km de Natal, capital do Rio Grande do Norte.
Até aí tudo de muito normal, inclusive o histórico de dificuldades que os integrantes do grupo tiveram que vencer para continuar existindo.
Mas a «atração principal» do circo não é o palhaço atrapalhado, o intrépido trapezista ou o bigodudo domador de leões.
É uma ...
televisão! Isso mesmo.
Uma televisão e uma maleta cheia de «coisas» legais.
A Maleta Beleza do Canal Futura.
Desde o mês passado, quando receberam a maleta, o Arte Viva criou a ação «da escola ao ponto» e já receberam mais de 250 alunos da rede pública de ensino.
A meta, segundo os coordenadores [e também atores, palhaços e oficineiros] é atender todas as crianças e adolescentes matriculados nas 17 escolas da cidade.
Toda sexta-feira uma turma [cerca de 30 crianças e adolescentes] é convidada a conhecer o Ponto, que funciona num circo armado no pátio da sede [construída em forma de mutirão num terreno cedido por um dos moradores locais].
«Os levamos para uma espécie de turnê dentro do circo», afirma Marcos Antônio, integrante da companhia, «mostrando os elementos do teatro e da cultura popular», completa Fábio de Souza, que também faz parte do grupo.
Os meninos, meninas e professores são recebidos por palhaços, que os convidam a assistirem a algum dos programas integrantes do projeto Maleta Beleza do Canal Futura.
Após a exibição se abre uma roda de conversa sobre o que as crianças entendem por beleza e como a identificam em seu cotidiano.
E depois?
Depois as crianças recebem giz de cera e são motivadas a desenhar nas paredes da própria sede o que elas decidiram de mais belo em sua vida!
Nuvens, casas com cachorro, bicicletas, vestidos, pai e mãe, sorvete ...
Número de frases: 20
E assim a Maleta Beleza se abre dentro de um circo de periferia do sertão brasileiro, levando as crianças ao Paraíso.
Ultimamente ando muito reticente em ouvir bandas novas, ainda mais as recém saídas das fraldas, quando ainda nem coloquei os anos 90 em dia.
Tenho mais bandas em mp3s que tempo para ouvir e quando eu chegar na letra D, provavelmente nem vai mais existir mp3.
Em um exercício de futurologia prevejo que a música vai ser distribuída por telepatia, o que deve ser bem pior do que o som do carro de limpeza passando na sua rua.
O que me leva a questão:
Cansei de Ser Sexy é de verdade, é pra ser levado a sério?
Diz a crítica gringa que sim, menos o cara da Veja, que não gosta de nada mesmo.
Tão bombadas no exterior, abrindo para Deus e o mundo, o sucesso já deve estar subindo à cabeça das meninas, imagina quando Deus e o mundo abrirem para CSS.
Diz a Wikipedia, a Barsa que não precisa nem ter a 4a série para contribuir com verbetes, sobre CSS:
«Formada em setembro de 2003, a banda começou de maneira descomprometida (claro, sucesso e fama pra quê?)
e, com excepção do baterista, ninguém sabia tocar direito seus respectivos instrumentos."
Nesse meio tempo tornaram-se virtuoses.
Engraçado vai ser o dia que a bateria eletrônica der pau ao vivo, fudeus.
Falo mal, só que não consigo parar de ouvir.
Sabe aquela coisa do é ruim mas é bom?
Difícil dizer o que é mais espantoso a japa fedelha cantando em inglês ou em brasileiro.
Quando não faz os dois na mesma música.
É impressão minha ou Superafim é influência da Kelly Key.
Finalmente reconheceram o talento da carioca.
Número de frases: 19
Antes tarde do que nunca.
Com as bênçãos de Padim Ciço e Frei Damião, nordestinos de todo o mundo vão à luta.
Lampião e seus guerreiros já foram convocados.
Antônio Conselheiro já iniciou a marcha.
O sertão cerra fileiras, pois eis que outro valor mais alto se alevanta.
A rapadura.
Sim, este doce subproduto da cana-de-açúcar, produzido no Brasil desde os tempos do Império, está no centro de uma polêmica internacional envolvendo o Brasil, a Alemanha e os Estados Unidos.
A questão não é recente.
Tudo começou quando a empresa alemã Rapunzel Naturkost AGregistrou a patente da marca rapadura nos Estados Unidos e na Alemanha.
O registro consta nos órgãos oficiais na Alemanha desde 1989, e nos Estados Unidos desde 1996.
A descoberta do registro foi feita só em 2006.
Em a época, pedidos e notificações por a anulação da patente foram endereçados ao Itamaraty, ao Ministério Público Federal e às embaixadas da Alemanha e dos Estados Unidos no Brasil.
Em vão. Por isso, produtores brasileiros só podem exportar o doce típico com essa marca para os dois países, se pagarem direitos de comercialização à Rapunzel.
Agora, a briga por o resgate da rapadura volta à tona:
a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) tomou as dores dos produtores nacionais e vai processar a Rapunzel nos tribunais da Alemanha e dos Eua.
O objetivo da entidade é anular o registro da palavra rapadura no exterior alegando descumprimento do Tratado de Paris.
O tratado não permite aos países signatários patentear algo que faça parte do patrimônio de um país.
«Ante a grave situação que arranha nossa soberania e os preceitos do direito, entendemos que a Ordem dos Advogados, no exercício de seu mister, deve atuar de forma mais contundente para elidir a conduta da empresa alemã», sustenta a OAB.
A entidade lembra ainda que a rapadura, doce tipicamente nordestino, «foi e é item de subsistência de milhares de famílias pobres do nordeste que o produzem de forma artesanal».
Por isso, decidiu unir-se ao clamor nordestino:
«A rapadura é nossa!».
Número de frases: 21
Relançado por a Global editora em 2008, Veia Bailarina, de Ignácio de Loyola Brandão, percorre caminhos tortuosos e desperta sentimentos diversos.
Em ele, a queda e ascensão de um homem
Entre as artérias que irrigam o cérebro, o ovo da serpente.
Quando havia sido depositado ali e quem o tinha feito?
Por que tinham escolhido a cabeça de Ignácio?
Coroada de bons e também de maus pensamentos, a polpa gelatinosa a que chamamos cérebro agora carregava um grande e inexplicável passe para um mundo ainda mais inexplicável.
Sinuoso, o caroço só havia sido detectado após exames precisos, realizados em meados de 1996.
Depois disso, deu as cartas por algumas semanas.
Como boa pugilista, havia acertado em cheio o adversário, que, sob o efeito do golpe, tateava à procura das cordas.
A bolha assassina regeu atos cotidianos e laminou os dias de Ignácio com uma cor acinzentada.
Ao menos essa foi a reação imediata.
A o descobrir-se portador de um aneurisma cerebral, Ignácio de Loyola Brandão, autor de Zero e Não verás país nenhum, «fez da queda um passo de dança».
Em o ano seguinte ao de sua via-crúcis hospitalar, lançou o premiado Veia Bailarina (Global Editora, 2008), escrito logo que deixou a sala ocupada no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.
Lá, Loyola deu entrada sem saber ao certo se voltaria a caminhar através das ruas de Araraquara, no interior paulista, nem ver as coxas das mulheres, aspirar odores instigantes.
Ou mastigar fiapos de manga.
Era 26 de maio de 1996 -- um domingo.
às 10 horas da segunda-feira, Loyola foi conduzido numa maca até a sala de cirurgia.
«A maca atravessa corredores gelados, porém o frio dentro de mim não tem a ver com a temperatura do dia», escreveria ele.
Nove horas após ter transposto a soleira do câmara escura, Loyola voltou.
Cabeça costurada, pequenos orifícios na base do crânio, veias perfuradas por tantas picadas de agulhas -- mas sem bolha que lhe pusesse a existência em risco.
Onze anos depois, Loyola Brandão atende o telefone.
São 11 horas da manhã.
Ligação de Fortaleza.
A voz é mansa, devagar e firme.
Ele tem 72 anos e ainda vive em São Paulo.
Dito sem aviso prévio, seu primeiro punhado de frases espanta:
«Uma em cada trinta milhões de pessoas descobrem antes que têm um aneurisma.
Por que eu fui o escolhido para saber antes?
Isso continua me intrigando».
Mensageiras, as tonturas deram o alarme.
à página 12 de Veia Bailarina, o escritor registra:
«O chão foi para o lado direito, inclinei-me para o esquerdo.
Virei-me para o direito, o chão subiu.
Quem está bêbado, o chão ou eu?"
A hipótese mais óbvia veio ligeira, inofensiva:
estresse. Ou labirintite, vai saber.
Era só o caso de se auto-diagnosticar e, em seguida, prescrever-se alguns medicamentos que as tonturas, fossem elas resultado do estresse ou não, iriam embora.
Não foram.
Mesmo depois da cirurgia que salvou a vida de Loyola -- segundo a página na Internet mantida por o médico-estrela Dráuzio Varella, apenas dois terços dos aneurismáticos sobrevivem, metade de eles com seqüelas irreversíveis, as tonturas iam e vinham, como parentes cujas visitas se evitam.
Intrigado, Loyola resolveu telefonar para o médico que o operara, Marcos Stavale, e perguntar se aquilo era, de fato, normal.
Bem-humorado, o neurocirurgião sugeriu a Ignácio ficar, de bom-grado, com as tonturas.
Afinal, «elas salvaram a sua vida».
Em entrevista, Ignácio de Loyola Brandão conversa sobre aqueles dias corridos e explica por que, após a cirurgia, resolveu adaptar-se ao passo mais lento da vida.
Hoje, encontra tempo para ficar de cara para cima.
Sempre devagar, bailando como a veia que, durante a coleta de sangue, no pré-operatório, saltava a cada nova fisgada da enfermeira.
Henrique Araújo -- Quando veio o estalo do livro?
Ignácio de Loyola Brandão -- Logo que voltei ao trabalho (um mês após a operação, realizada em 27 de maio de 1996, Loyola voltou a escrever).
Eu tinha feito anotações durante o processo.
O livro começou como uma crônica, que chegou a ser publicada no Estado de São Paulo.
Escrevi Veia Bailarina em dois meses, foi o livro mais rápido da minha vida.
Henrique -- De que maneira a experiência relatada no livro mudou a sua relação com as coisas?
Ignácio -- O que mais me espantou em tudo foi que a doença não avisa.
Uma em cada trinta milhões de pessoas descobrem antes que têm um aneurisma.
Por que eu fui o escolhido para saber antes?
Isso continua me intrigando.
Não tem qualquer religiosidade nisso, apenas curiosidade.
E o momento em que ele veio também foi curioso.
Eu estava muito deprimido, não tinha projetos na cabeça, achava que devia me retirar.
Vida é projeto e sonho.
Henrique -- E isso mudou depois do aneurisma?
Ignácio -- Depois eu descobri que a vida é mais simples do que a gente imagina.
Um catastrofismo desapareceu.
A ansiedade foi diminuindo.
Antes tudo ia mal, se eu fosse num restaurante ia estar fechado.
Andava sempre apressado.
Hoje eu aderi ao devagar, que é uma nova teoria, que anda na Europa e Estados Unidos.
Tem um autor escocês chamado Call Honoré.
Ele escreveu Devagar.
Antigamente eu não tinha férias porque eu vendia, não tinha final de semana.
Você deixa de olhar para as coisas, um vaso de flores, uma mulher bonita.
Aqui em São Paulo você tem várias árvores frutíferas na rua, mas as pessoas são indiferentes.
As pessoas não param mais pra tomar um suco, ou pra ficar olhando para a cima.
Isso mesmo, ficar olhando para a cima.
As pessoas não falam obrigado, não dizem bom dia, não dizem por favor.
A gente precisa fazer coisas banais.
Henrique -- Você ainda pensa muito sobre o dia 27 de maio de 1996?
Ignácio -- Eu não penso mais, ele desapareceu.
Ficou no passado.
Henrique -- Em a época, antes de entrar na sala de cirurgia, você escreveu duas crônicas para O Estado de São Paulo:
uma para o caso de correr tudo bem e a outra para a segunda opção.
Você ainda tem essas crônicas?
Ignácio -- Eu escrevi duas crônicas, a 1 e a 2, e entreguei para a minha secretária, que começou a chorar.
Ela trabalhava com mim há bastante tempo.
A crônica 1 era mais fria;
a da morte, a 2, era mais divertida.
Eu começava «Por motivos de força maior, não posso estar aqui».
Está guardada numa das minhas caixas aqui.
Henrique -- As tonturas que o salvaram continuam até hoje.
Elas não tinham qualquer coisa a ver com o aneurisma ...
Ignácio -- Eu falei com o médico e disse:
«Olha, as tonturas continuam».
Ele disse:
«Então fica com elas, que elas já salvaram a sua vida».
Além de competente, ele era bem-humorado.
Henrique -- O livro se converteu em leitura obrigatória para pessoas que estejam passando ou que já passaram por situações semelhantes à sua.
Isso o incomoda de alguma forma?
Ignácio -- Eu sempre achei a literatura de auto-ajuda uma bosta.
Mas, curioso, o livro foi se aproximando disso.
A literatura é imprevisível.
Até hoje recebo muitas cartas, muitos e-mails, convites para participar de grupos de ex-aneurismáticos.
Eles fazem reuniões, conversam, discutem.
Meu interesse não chega a tanto.
Henrique -- No seu caso particular, como é feita a mistura do jornalismo e da literatura?
Como as duas se combinam?
Elas se combinam?
Ignácio -- O jornalismo é factual.
A literatura é o delírio, a imaginação.
Em o jornalismo você não tem tempo para apurar, a não ser que você que trabalhe para uma revista mensal;
a literatura é mais cuidada e o jornalismo é, quer queira ou não, é mal cuidada ...
Mas o jornalismo foi o importante pra minha ficção.
Henrique -- A paixão por o cinema continua?
Como ela afetou o trabalho nos jornais e com os livros de ficção?
Ignácio -- O cinema ficou como uma frustração.
Mas ainda vou muito ao cinema.
A gente precisa das frustrações pra viver.
Serve para a gente dizer que um dia eu ainda vou fazer.
De repente um dia eu vou fazer aquilo, isso.
Em a vida nada é abandonado.
Número de frases: 118
Reportagem publicada originalmente em O Povo para que serve um blog de ficção científica recheado de histórias de qualidade duvidosa que pouca gente visita?
para pouca coisa.
para passar o tempo, talvez ...
ou para deixar alguma marca nessa confusão que se chama «mundo» e que não compreendemos muito bem, para dizer a verdade bem mal.
acho que bem pesado e bem medido, não serve para coisa alguma.
ainda assim insisto em publicar o sub-literatura, penosamente, regularmente, como se fosse uma espécie de louco, pelo menos naqueles minutos em que dedico minha mente a criar enredos sem pé nem cabeça sobre invasões extra-terrestres, mundos múltiplos e sondas espaciais inteligentes.
o sub-literatura é uma espécie de lobo solitário.
chega até a margem do rio para beber um pouco de água e foge em seguida para o meio da mata.
assustado e assustador.
alguns afirmam tê-lo visto.
mito ou realidade?
procuro sempre divulgá-lo de alguma maneira.
não é a primeira vez que escrevo sobre ele aqui no overmundo.
emails seguem para amigos a cada atualização, a cada lampejo de história que deixo na web.
já mandei alguns emails para eminentes criaturas dos meios de comunicação mais amplos, ditos de massa, e penso em seguida:
estou querendo fazer literatura?
não deveria.
ainda bem que eles ignoram.
aceito o destino marginal e inútil do sub-literatura.
de fato seus poucos leitores são amigos íntimos dessa sombra, que se divertem, para o bem ou para o mal, com os textos que vou enfileirando e que nascem das dezenas de filmes ruins que tive a oportunidade de assistir, quadrinhos de segunda categoria e conversas fantasmagóricas madrugada adentro com amigos que não vejo a muitos anos.
o sub-literatura tem vocação pop.
é como uma música que toca no rádio do carro, de madrugada, quando voltamos de uma festa.
às vezes pode ser sombria.
sim ...
mas, para que serve o sub-literatura?
somente apara assombrar alguns leitores de vez em quando, quando eles lembram do vermelho (r: 204 / g: 0 / b: 0) prodominante na tela.
também de vez em quando escrevo naquelas páginas e também me assombro, ou caio na gargalhada por imaginar que fui capaz de escrever semelhantes estranhezas.
...
o sub-literatura está no endereço www.sub-literatura.com e é atualizado com alguma regularidade.
às vezes está cheio de histórias novas e de repente ...
o silêncio.
nesses momentos recomendamos a releitura do que já está publicado enquanto as novidades fermentam, sabe deus onde ...
...
no overmundo:
no guia
Número de frases: 35
a urgência da ficção científica Eu lembro bem aquela tarde quando, enjoada da monotomia da academia de ginástica, ouvi uma batida diferente e vi umas pernas para a cima na janela de uma das salas.
Eu, entrando na minha década balzaquiana, procurava um desafio:
-- O que eu sempre gostei-mas nunca me atrevi a fazer por me achar incapaz?,
me perguntava.
Quando descobri que ali tinha aquela arte tão linda da ginga que eu via embevecida e hipnotizada acontecer nas ruas, achando que era algo que meu corpo não conseguiria fazer, pirei.
Quando botei a cabeça -- e olhos curiosos -- pra dentro da sala, veio o convite de um cara de voz forte e bonita que, depois eu soube, era o Mestre Kinkas -- Joaquim Guedes da Silva Alcoforado Neto.
-- Venha aí, fazer uma aula com a gente», disse.
De onde veio a coragem, sinceramente ainda não sei, mas eu fui.
E há cinco anos, toda terça e quinta eu tô lá, faça chuva ou sol, atravesso a cidade para aprender a jogar capoeira, cantar, tocar e, de quebra, tenho aula de Brasil, de um Brasil que parecia distante pra essa «catarina» branquela, mais acostumada, nos seus mais de 20 anos de Curitiba, à toada do rock que aos ritmos da cultura popular.
Ainda hoje me emociono com a força da cantoria e do batuque que contam sobre a saga dos negros, provocando calafrio no ritmo marcado por o pandeiro, atabaque e berimbau.
Que coisa linda é essa cantoria!
E o som do berimbau hoje em dia é capaz de me tirar (e colocar de volta no) do prumo.
O Grupo Força da Capoeira nasceu em Curitiba há 14 anos, quando Kinkas e Áurea vieram de Recife para Curitiba para (re) começar tudo.
O menino Gabriel eles tiveram aqui, e foi por conta das «intromissões» de ele -- que já é um capoeirista com estilo aos 13 anos, querendo fazer bananeira e entrar no jogo, que eles desenvolveram uma técnica de ensino da capoeira para crianças a partir de 2 anos e 9 meses, que auxilia também na alfabetização.
Áurea e Kinkas também ajudaram a disseminar nessa «terra de polaco» os ritmos da nossa cultura popular.
Junto com a capoeira, aprendemos frevo, maculelê, samba de roda, coco, maracatú, xaxado, puxada de rede, eles tentam pôr mais dendê na vida dessa gente meio durinha aqui do Sul.
Em o ritmo dos quadris e dos pés da professora àurea ví alguns preconceitos -- que nem sabia que eu tinha -- irem por terra com ela buzinando no meu ouvido:
«Vamo lá Rubi, solta essa franga, faz a piriquita falar».
E o maculelê -- «essa dança guerreira de preto velho do tempo da escravidão» --?
Confesso que entre a candura do coco, a sensualidade do samba de roda, foi a energia catártica do Maculelê que mais me acertou.
O batuque, as músicas guerreiras o bater dos paus e o faiscar dos facões ...
Não foi só por sua beleza que a capoeira entrou na minha vida.
Tenho convicção que se continuo nessa lida é porque encontrei o Grupo Força da Capoeira.
Porque gosto da filosofia de vida que norteia seus trabalhos, das pessoas especiais que o fazem existir.
Sábado passado mesmo, numa aulão, Mestre Kinkas teve outra daquelas conversas que nos dizem que a capoeira não é só dar pernada, mortais e essas coisas de exibicionismo gratuito.
Sempre ao final das aulas ele conversa, alerta para não entrar no jogo de quem gosta de tretá, relembra histórias da capoeira, comenta sobre algo que está acontecendo ...
eu gosto disso.
Também tem os dias em que o tempo fecha, faz parte, é só saber levar e não é por acaso que Kinkas é chamado de Mestre.
Ele é uma referência, principalmente, noto, para algumas pessoas que estão há mais de dez anos juntas no grupo, começaram adolescentes, crianças, cresceram e hoje são homens e mulheres que ajudam a quebrar os preconceitos que ainda rondam essa linda arte marcial brasileira.
E a Áurea ali, segurando a onda junto, fazendo as roupas, os instrumentos que eles vendem na Feirinha do Largo da Ordem, todo domingo, dando aulas e, especialmente, ensinando as gurias a cantar e soltar o corpo de «um jeito diferente dos homens».
Ela tem uma voz poderosa e isso é importante, porque ainda não é muito comum as mulheres cantarem na capoeira.
O Força tem mulheres que cantam e tocam.
Terá mais, em breve.
Até porque o número de elas aumentou muito desde 2001.
Já tinha a Maria José, a Mirian, a Alessandra e a Grila, vieram as superpoderosas Lindina, Docinho e Florzinha.
A Sereia, «que cresceu na capoeira», voltou com uma gana visível para recuperar os três anos que ficou sem treinar;
chegou a Cacá, carioca seu jeito de guerreira, e, há pouco tempo a Tati, com sua experiência de dez anos na arte da ginga.
Gurias porretas que não perdem o charme na hora de brincar a capoeira.
É um hábito na capoeira dar apelidos aos seus integrantes.
Eu simplesmente amo o que ganhei, Rubi, por conta de meus cachos coloridos artificialmente -- que lhes causava um tanto de espanto no começo, principalmente quando um suor vermelho escorria depois de uma camada recente de tinta.
Gosto de estar em mundos diferentes, e vê-los se encontrando.
A jornalista tagarela acostumada a ter tudo sob relativo controle que, aqui, se desarma, desacelera, entra com uma expressão tensa no rosto e sai leve, sorriso aberto e com uma vontade louca no peito de nunca mais sair de uma roda de capoeira.
Fico puta da cara quando o jogo não rende, mas tem horas mágicas em que já não importa se eu jogo muito ou pouco, se acerto o movimento ou não.
Quando dou o aú para entrar na roda, é um transe incrível que, ao invés de cansar, descansa, descarrega todo o peso do mundo e repõe as forças -- tanto quanto uma bela canção.
A vontade de fazer capoeira melhor aumenta quando vejo o «jogo zen» do Boneco de Milho (Miguel);
a obstinação do Ema (Rodrigo);
a alegria contagiante do Cigano (Marcos), o charme da Sereia (Larissa), da Jaboticaba (Mirian) e da Grila, os cuidados do Olavo, a força do Marquinhos.
Mestre Kinkas e Áurea inspiram, também na vida.
Assim como a amizade de todos os outros, nesse grupo que cresce a olhos vistos e sempre dá um jeito de engrenar uma baladinha regada, claro, a roda de capoeira, que vai até o churrasco e uma cervejinha, que ninguém é de ferro.
E por falar em balada, esse texto é pra contar que no próximo dia 9 de dezembro, como sempre acontece no segundo sábado de dezembro, é dia do Batizado do Grupo Força.
Batizado é a cerimônia de troca de cordas dos alunos, não tem absolutamente nenhum cunho religioso.
Vai ter também xaxado, maculelê, coco, samba de roda, com convidados daqui, de Santa Catarina e Rio de Janeiro.
Eu vou pegar a corda marrom e verde -- e me dá um frio na barriga só de pensar.
Eu não planejei ficar na capoeira, só queria ver como era.
E hoje não consigo me imaginar sem ela e sem essas pessoas que conheci.
E pra quem acha que capoeira é só para o pessoal mais novo, tem uma fala que o Mestre Kinkas emprestou de alguém, se não me engano, que é perfeita:
a Capoeira é o jeito que o corpo dá.
Que o diga eu, essa branquelinha de 36 anos, que dava pinta de que não vingaria:
pois é, e eu achei mais um lugar que é meu nesse mundão:
a capoeira, junto com o Força da Capoeira.
Serviço:
13º Batizado do Grupo Força da Capoeira.
Dia 9/12/2007.
Memorial de Curitiba (Largo da Ordem).
A partir das 14h30.
Informações: (41) 9641-7478.
Número de frases: 66
Em o orkut são várias as comunidades do Grupo Força da Capoeira e do Mestre Kinkas.
Assossiação une mulheres que usam a natureza como matéria-prima de seus artesanatos
A riqueza da natureza, a criatividade das mãos delicadas, a força de vontade, a liberdade para ser, a esperança de conseguir e o orgulho de fazer.
Assim definem-se as mulheres da Associação de Artesãos do Quilombo de Arte Tapuia (Aquidart).
A Arquidart não tem patrocínio governamental, nem empresarial, vive de sua própria produção.
É na natureza que as mulheres encontram seus melhores parceiros:
cascas de árvores, sementes, folhas, ouriços, fibras e outras matérias-primas para confeccionar seus produtos.
Um universo de coisas que vão sendo criadas por estas mulheres destemidas.
As sementes, fibras e tudo mais ganham cores, formas e através de técnicas artesanais se transformam em bijuterias de todo tipo, colares, brincos, pulseiras.
Ainda podem ser utilizados como detalhes que fazem a diferença em bolsas, roupas, bonecas etc..
Os produtos chamam tanta atenção que já renderam convites para participação em feiras internacionais de cultura e artesanato.
A Associação existe há um ano apenas, mas a arte elas já faziam muito antes, aprenderam com suas mães, e suas mães aprenderam com suas avós.
É uma arte que existe há mais de cem anos na Comunidade do Coração.
Tem apoio do Sebrae, que através de seus técnicos instruiu as artesãs criarem a Associação.
Além de oferecer cursos de capacitação e ajudar no estatuto da Aquidart.
A sede da Aquidart é uma casa de três andares, estilo rústico, com muitas árvores.
O ateliê fica no segundo andar.
Muitos turistas vão até lá só para vê-las trabalhando.
«às vezes vão na mata com nós para ver de onde pegamos nosso material», explica Rosângela Costa, presidente da Associação.
As artesãs têm seus segredos, como a técnica, que levaram três anos para elaborar, de aglutinação para compactar a fibra, e de impermeabilização, que elas tentaram várias vezes até conseguir.
Como? Não dizem de forma alguma.
Elas têm um pacto de não revelar.
O segredo que ficará com elas até a nova geração.
As mulheres artesãs
Unidas e sempre bem dispostas, não desanimam nunca.
Até nos dias em que não vendem, elas mantêm a esperança, gostam do que fazem.
Como é o caso de Dona Gorethe, que trabalha com serviços domésticos e na horta caseira com o marido.
As verduras são vendidas na feirinha do município de Santana.
Com a produção de artesanato, que serve também como distração, ela ajuda na despesa da casa.
Outra que não mede esforços é Dona Dica, que fabrica pãezinhos caseiros e nas horas vagas vai até a Associação.
Arranja tempo também para comandar o tradicional Grupo Folclórico de Batuque e Marabaixo do Coração, do qual ela é a presidente.
Aliás, estes dois ritmos estão sempre presentes nas festas da comunidade.
A determinação fica por conta de Dona Socorro, outro membro da Aquidart, que por a parte da manhã trabalha no Lixão, como Carapirá.
E, à tarde, faz junto com outra artesã paneirinhos de arumã, para melhorar a renda da família.
As moças mais jovens não ficam para trás no quesito vontade.
Francilete pega todo dia ônibus para Santana, onde faz cursinho pré-vestibular, trabalha como diarista e ainda tem tempo de fazer colares de sementes de tento, que em suas mãos viram verdadeiras obras de arte.
Tem também Mara Adriana que trabalha na evagelização dentro da comunidade, e nas horas de folga faz artesanato.
A arte também ajuda a acadêmica Andréia, que está cursando o último ano da faculdade de Administração, que tem sua principal fonte de renda no trabalho que faz na Associação.
Segundo Rosângela, o apoio da família é fundamental:
«são eles que nos dão coragem para irmos à luta, sempre que preciso, meu marido ou um dos companheiros das outras artesãos dão ajuda, nos levam para a mata, carregam nossas sacas, ajudam a catar as sementes, pegar as fibras, a mexer no maquinário ...».
As crianças e adolescentes também vão até a Associação para aprender a fazer artesanato, algumas adolescentes já se tornaram membros.
«Sempre depois da escola, elas vêm até aqui, gostam de fazer bijuteria, bonequinhas de fibra de juta, muitas vezes para elas mesmas.
Elas são a nossa continuação, e é através de elas que sabemos que essa arte vai perdurar por mais tempo, nos sentimos orgulhosas por isso», conclui Rosângela.
Número de frases: 43
Água mole pedra dura tanto bate até que fura!
Fura?
Elizete Vasconcelos Arantes Filha
Começo este texto citando um provérbio popular que faz muito sucesso entre os mais velhos:
água mole pedra dura tanto bate até que fura!
Os jovens talvez não saibam o que quer dizer, no entanto não vou desistir de citá-lo sempre que possa e também não vou desistir de contar esta história, aos velhos, aos jovens e às crianças, quem sabe, um dia todos aprendem.
Recentemente eu contei para um grupo de crianças entre 10 e 12 anos e pedi para elas interpretarem em forma de desenho e pintura e o resultado vocês podem conferir e, se ainda não entenderam, conto-lhes quantas vezes for necessário.
A história começou após várias conversas sobre adoção de crianças e, inconformada com a ignorância da sociedade quando o assunto é raça, ou seja, cor da pele, já que só existe uma única raça, a humana, resolvi contar esta história que aconteceu há, exatamente, 25 anos no interior de Pernambuco.
Vou omitir os nomes verdadeiros dos envolvidos, mas a essência da história será conservada.
Em o início da década de 80, um repórter fotográfico (também estudante de jornalismo) acompanhou uma jornalista que fazia reportagem sobre trabalho infantil numa carvoaria numa cidade do interior de Pernambuco, abandonada por Deus e por os políticos.
A o iniciar a matéria, a dupla sofreu várias perseguições e quase foi morta por causa da ousadia de registrar acontecimentos desumanos que, de certa forma, eram comuns na região -- se ainda é hoje, imaginem 25 anos atrás.
Terminada a matéria, as belas fotografias renderam ao fotógrafo vários prêmios e um contrato num jornal de grande circulação em outro estado, abrindo-lhe portas para exercer, mais tarde, várias funções importantes em muitos jornais e revistas do país.
Bem, voltemos à história.
Concluída a reportagem, o fotógrafo voltou para casa trazendo nos braços uma garotinha de apenas 11 meses de idade, envolvida em trapos.
Imaginem o «furdunço» no jornal, na família e entre os seus amigos.
Após procurar o Juizado de Menores para concretizar a adoção, imediata e sem restrições, o fotógrafo, que já era casado e pai de dois filhos, foi apoiado tanto por alguns de seus familiares quanto por sua mulher.
No entanto, houve reservas por parte de alguns amigos de trabalho, parentes, vizinhos e até mesmo de alguns fiéis e do pastor da igreja que a família freqüentava, através de críticas, risadas e cotoveladas entre as pessoas (principalmente mulheres e mocinhas) quando a família chegava ou saía de um recinto público.
Eram comuns dizeres desse tipo:
«Um casal de negros com uma menina branca no colo não combina».
E outra:
«As pessoas deveriam adotar crianças que se parecem com elas, branco adota branco, negro adota negro, pardo adota pardo."
E certa vez foi dito, para magoar mesmo, conta a mãe adotiva da menininha, relembrando:
«A menina loira com cabelos de cachinhos dourados, olhos azuis, uma verdadeira «nórdica», foi adotada por um negro».
Esta era a cena que as pessoas não aceitavam.
A maldade e a ignorância humana não tinham limite.
Quando aquela mãe apresentava a filha e dizia «esta é a minha filha», sempre havia constrangimento ...
Pois as pessoas que se diziam bem educadas e civilizadas logo indagavam:
«Como ela pode ser sua filha?», "
Você é negra e a menina é branca?».
Aquela mãe humildemente contava e recontava a história da sua adoção esperando compreensão das pessoas, na esperança que elas percebessem que o amor de mãe não vê cor, nem raça, que se ama com o coração, não com os olhos.
Mesmo assim aquelas pessoas não entendiam nada, pois o preconceito e o sentimento racista, ou seja, a ignorância, eram maiores do que a inteligência para compreender motivos tão nobres que levaram àquela adoção.
E na igreja ocorria o seguinte:
os «irmãos» de fé, aqueles que geralmente a gente teme mais a língua do que a fúria de Deus, diziam:
«Fulano querendo embranquecer a família, adotou uma menina branca».
A família sofria diante de tanta ignorância manifestada nos lugares que freqüentava.
No entanto, com muita dignidade, manteve o relacionamento familiar, cuidando da menina da mesma forma que cuidava dos filhos legítimos, com todo amor de pai e mãe que cabia num coração.
Além de comida, zelo, escola, amor, respeito, dignidade, deu àquela criança a oportunidade de ter uma Família, pessoas dignas, independente da cor da pele para serem chamadas de Mãe e de Pai.
O tempo passou, a menina cresceu muito esperta, muito inteligente, muito amorosa.
Retornava para os pais adotivos o amor incondicional que recebia.
Era uma família feliz!
Hoje, 25 anos após esse acontecimento, aquela menininha é uma jovem senhora de 26 anos, casada e mãe de um casal de filhos.
Formou-se recentemente em jornalismo, seguindo a carreira do seu amado pai, e trabalha num conceituado jornal.
Mais: é proprietária de uma casa e paga as contas em dia.
É uma cidadã.
Fui testemunha na adoção, pois era professora primária dos demais filhos do casal e sabia os motivos que sensibilizaram aquele fotógrafo e, futuramente, sua esposa, seus filhos, o juiz e as pessoas de bem que fizeram parte da melhor parte da história.
Aquela menininha aos 11 meses de idade foi violentada por o seu pai legítimo, homem branco, que vivia alcoolizado.
A o ser socorrida, ainda estava sangrando.
O homem branco, que era pai e esposo legítimo, espancava a esposa e os filhos maiores.
A mãe, mulher branca e também alcoólatra, fumava cigarro de palha e apagava no corpo dos filhos.
Em a região, todas as crianças trabalhavam na carvoaria, enquanto a polícia, os políticos e a população fechavam os olhos para a situação.
As crianças trabalhadoras tinham o corpo queimado e algumas tinham membros do corpo amputados.
Aquela criança, ao ser socorrida por o fotografo, estava desnutrida, abaixo do peso, com poucas chances de sobrevivência e com marcas de queimadura de cigarro por todo o corpo, inclusive perto dos olhos.
Os médicos que a socorreram afirmaram que por pouco não atingira o olho, cegando-a.
Ainda bem que aquele fotógrafo não olhou para a cor da pele da menininha, apenas para a situação de ela e percebeu que poderia fazer a diferença!!!
Já pensou se ele tivesse pensado assim:
«Não vou ajudar esta criança porque ela não combina com a cor da minha pele!"
Quantas crianças negras, brancas, mulatas, pardas, saudáveis e não saudáveis, com ou sem necessidades especiais estão nas creches, nas ruas e até no trabalho infantil.
Algumas ainda bebês, outras já bem grandinhas e todas precisando de adoção.
Bem amigos, a situação da adoção no Brasil é um fato para se refletir, a maioria dos casais brasileiros que querem adotar uma criança dá preferência a meninas, brancas, de olhos claros de até um ano de idade, enquanto os estrangeiros não escolhem sexo, idade ou cor.
Adotam até crianças com doenças crônicas conhecidas.
Que possamos ter a mesma atitude.
Não adotar uma criança só porque ela não combina com a nossa cor da pele, ou com a cor dos nossos olhos.
Filhos não são acessórios de vaidade.
Devemos adotar para fazer a diferença.
Amar com amor de mãe e de pai.
Incondicional.
Para que nós possamos fazer a diferença não é necessário adotar uma criança, já que para adotar é constitucional querer e poder.
No entanto, podemos fazer a diferença combatendo a infâmia do racismo relembrando e fazendo uso de uma célebre frase que nunca fica fora de moda e fez parte da maioria de nós na adolescência.
«Só se vê bem com o coração.
O essencial é invisível para os olhos ..."
Antóine de Saint-Exupéry, em «O pequeno Príncipe».
Referências:
Número de frases: 72
Jornal Folha de São Paulo / 11/07/97 em www.filhosadotivos.com.br/acessado em 29/07/2007 as 14h00 min
Minha admiração por os Beatles é similar a do flamenguista que não acompanha muito o time rubro-negro ou a do mangueirense que não sabe um samba-enredo sequer da verde e rosa.
Sempre gostei muito da banda, mas nunca tinha mergulhando no mundo da beatlemania.
Nunca passei horas explorando os discos, lendo as letras e degustando as melodias.
Conhecia os discos, sabia assoviar os clássicos, mas nada muito além.
E olha que meus dois melhores amigos são viciados em Beatles desde quando éramos pequenos!
Pois bem, minha dieta moderada de Beatles seguiu até 2004 (é sério!)
quando a discografia completa em mp3 foi parar lá em casa.
Preguiçoso do jeito que sou, essa coleção era tudo o que precisava, ou melhor, era o que faltava pra poder explorar o Fab 4.
Foi aí que escutei pela primeira vez, como uma obra completa, o disco Sgt.
Peppers Lonely Hearts Club Band.
Mesmo tendo o Abbey Road (até o momento) como álbum favorito, confesso que Sgt.
Peppers teve um impacto muito grande na maneira como a música pop era e é feita.
Fiquei pensando como um disco de 40 anos atrás pode ser ao mesmo tempo tão pop e tão malucão.
Até então, a experiência mais próxima que tive foi na primeira audição de OK Computer, do Radiohead. Quem
conhece sabe ...
Acho que o que mais encantou no Sgt.
Peppers foi o todo.
O clima das músicas, a coesão entre elas, as letras fantásticas, a capa do disco, os elementos «exóticos» (orquestra, músicos indianos), o climão de circo que eu adoro e toda essa atmosfera mágica da década de 60 ... mas aí tem algo de interessante!
Prestem atenção:
Acho que muita gente pode ouvir o disco seguidas vezes e não se envolver com todos esses elementos.
Não é uma questão de ser ou não fã do grupo.
Eu mesmo, que já conhecia tantas músicas do disco só fui redescobri-las e explorá-las há quatro anos!
Acho que o grande mérito de Sgt.
Peppers talvez seja esse:
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estar sempre mostrando uma nova melodia na mesma melodia.
Andaram dizendo por aqui, no Overmundo, que futebol era um «campo estritamente masculino», num texto votado e publicado chamado» A mulher, a bola e o silêncio».
Não estou aqui para falar desta matéria, quem teve paciência para argumentar, contra-argumentar o fez até à exaustão.
O fato é que muitos votaram no texto.
Pois bem, agora tenho uma prova irrefutável que as mulheres têm seu lugar nos campos de futebol, e como!
Vencemos o campeonato de futebol Pan Americano contra as americanas, por 5 a 0!
Um «chocolate», como dizem por aqui!
Marta, artilheira do Pan, com 12 gols, foi a primeira mulher a colocar os pés na «Calçada da åFama>» do Maracanã, junto aos famosos Pelé, Garrincha e tantos outros grandes campeões da bola.
Essas meninas de ouro treinaram muitas vezes sem patrocínio, sem apoio, lutaram contra o preconceito e muitas foram jogar fora do Brasil.
Já tinham «olheiros» atrás de elas.
Marta é a melhor jogadora de futebol feminino do mundo.
Agora, os patrocínios começaram a chover!
Elas simplesmente deram um show de bola no Maracanã, repleto de mulheres e crianças.
A artilheira ganhou «asinhas de anjo» no final do jogo, foi muito bonito!
Saíram ovacionadas!
Meninas Super Poderosas!
Um dia que entrou para a história do futebol, um público de 67 mil pessoas, sem brigas, só lágrimas, muitas lágrimas, de pura emoção!
E a nossa bandeira subindo no mastro, o Maracanã e seu coral de quase 70 mil vozes.
De arrepiar até a estátua do Bellini!
Sem perder a feminilidade, antes da entrevista coletiva, retoque na maquiagem, batom, rímel à prova d' água!
É isso, rapazes ...
Por falar em rapazes ...
A seleção masculina foi eliminada ainda na fase classificatória!
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As mulheres acabam de entrar para a História do Futebol do Brasil, das Américas e do Mundo!
Brasília tem dessas coisas.
De vez em quando surge uma banda em que todo mundo aposta.
É ouvida, comentada, os shows são legais e elogiados.
Mas, por alguma tramóia do destino, acaba não dando certo.
Os anos 80 produziram pelo menos duas clássicas na capital:
o Escola de Escândalos e o Tonton Macoute.
A história da primeira é bem conhecida por quem acompanha o rock candango.
Só pra dar uma situada básica, vale dizer que em 1987 o grupo assinou com a EMI e gravou uma demo produzida por o plebeu Philippe Seabra.
Mas, por motivos diversos, nunca conseguiram lançar o esperado disco de estréia.
E o grupo acabou antes do fim da década.
O Tonton Macoute é o outro da safra.
O nome foi roubado da polícia repressora do Haiti, no governo Papa Doc, e significa bicho papão, em francês.
A formação inicial tinha o vocalista / letrista Cau, a tecladista / backin ´ vocal Cláudia, o trompetista Flama e o baixista Maurício.
Cadê a guitarra?
Não tinha.
O quarteto era completado por uma (hoje) arcaica bateria eletrônica.
Drum ' n ' bass nos anos 80?
Hein?
A primeira demo mostrava que, em épocas de Legião, Capital e Plebe no auge, tinha gente na cidade disposta a fazer música diferente.
Completamente diferente.
O som eletrônico tinha vocais em português, inglês e alemão, muito mais recitados do que cantados, teclados inspirados por grupos como Ranaissance, baixo preciso e o incrível trompete.
Isso tudo fazia da banda a única do gênero.
Aliás, que gênero?
Não dava pra classificar.
E muito antes do Rotomusic de Liquidificapum, o 1º disco do Pato Fu, as programações da bateria Roland do Tonton já chamavam a atenção.
Animais, uma das primeiras composições, era praticamente um drum ´ n ´ bass.
E A Pele era algo como um acid jazz.
Isso em 1986.
A fita demo do grupo foi parar nas mãos da Fluminense FM, uma conhecida rádio de vanguarda do Rio.
Pra vocês terem uma idéia, foi a mesma rádio que tocou Legião Urbana antes de todo mundo.
As músicas Electric Light e A Pele ficaram, respectivamente, em 1º e 2º lugar durante um bom tempo.
Quando a banda começava a decolar, o trompetista Flama decidiu tentar vôos maiores.
Saiu pra tocar numa orquestra no Rio de Janeiro.
E logo depois o baixista Maurício saiu também.
Tempo de reformulações
Entra Sérgio Couto, percussionista do Obina Shock, histórico grupo de Brasília que estourou nacionalmente com a música Vida.
Abre parênteses.
A estréia do Obina em vinil, com músicas em português, francês, inglês e dialetos africanos, influenciou diretamente os Paralamas a compor o disco «Selvagem?».
Fecha parênteses.
Entra também o baixista Dedé, egresso da banda Fama.
Volta Maurício.
Com novos membros e dois baixistas, um tocando eventual guitarra, o agora quinteto buscou um caminho um pouco mais pop.
Mas isso não significou perda de qualidade.
Mesmo sem Flama, o som continuava original.
A segunda demo, com músicas como A Bruxinha e Mr. DeJohnette, uma homenagem ao baterista de jazz Jack DeJohnette, era tão boa quanto a primeira.
Mas o tempo foi passando e as expectativas de gravação de um disco foram por água abaixo quando Collor assumiu a presidência e cortou as verbas da cultura.
Um tempo de trevas para os artistas brasileiros.
E os primeiros que dançaram foram os que não se enquadravam no duvidoso gosto do ex-presidente.
Sem perspectivas, o grupo acabou.
Cláudia e Sérgio Couto casaram-se e foram para a Varsóvia.
Cau se mandou para o Rio.
E assim terminou uma das mais criativas e originais bandas da história da cidade, avançada para a época e até hoje atual.
Duvida? Ouça o mp3 de Electric Light logo ali no início da matéria, ou busque outras músicas de eles no Banco de Cultura, e tire suas próprias conclusões.
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Com patrocínio da CHESF, apoio cultural da CEPE (Companhia Editora de Pernambuco) e Prefeitura do Recife, a Revista Coquetel Molotov Nº 3 chega às mãos do público a partir deste mês de julho.
Em a capa, a cantora paulistana Cibelle, que hoje, morando em Londres, é aclamada como a mais nova expoente da música brasileira no exterior.
Em o bate-papo com a cantora, os leitores podem conhecer um pouco mais do talento e da carreira de Cibelle, que teve início logo cedo e despontou de fato quando ela se entregou por completo a sua paixão musical.
Esta paixão musical também é o que move os autores desta edição da publicação do coletivo Coquetel Molotov.
Em os destaques deste número, o surpreendente Diário de Turnê do músico americano Josh Abrams, que esteve em São Paulo em maio deste ano, quando presenciou o incidente ocorrido na Praça da Sé em plena Virada Cultural.
As curiosas observações de Josh Abrams sobre o Brasil e os shows que realizou em turnê estão nas páginas da revista em primeira pessoa.
E sempre deixando seus entrevistados bem à vontade, a revista convidou Rogerman, do Bonsucesso Samba Clube, para escrever nesta edição a lista de seus 20 discos favoritos.
Valorizando o trabalho de muitas bandas recifenses, que sequer tiveram espaço em outros veículos de comunicação, a revista apresenta reportagens sobre os grupos Monodecks e Rivotrill.
Em suas 68 páginas, a edição nº 3 da revista possui também entrevistas com as bandas Maximo Park, Panda Bear, Maquinado, Parteum e Ludovic, fazendo algumas revelações importantes e dando opiniões bombásticas.
Os lançamentos de discos nacionais e estrangeiros ganham espaço com doze páginas dedicadas a resenhas escritas por colaboradores convidados.
Trabalhos independentes e não-independentes estão lado a lado com destaque para resenhas do disco Bodes & Elefantes, de Guilherme Granado (Hurtmold), além dos novos trabalhos do Low, Beastie Boys e Siba e a Fuloresta do Samba.
De a mesma forma que procura caprichar nas pautas e na escolha de grupos e artistas com trabalhos musicais desafiadores, a arte e a diagramação da revista são um capricho visual à parte, sob a responsabilidade da mooz design e ilustradores convidados a exemplo de Raul Aguiar, Cecília Torres, Ugo Palermo e Zupi.
Todos os textos, fotos e ilustrações da revista estão licenciados em Creative Commons, exceto as fotos de divulgação, o que possibilita que ela possa ser reproduzida livremente desde que citada a fonte.
Histórico -- A Revista Coquetel Molotov, que desde sua primeira edição vem sendo apoiada por órgãos públicos, tem caráter gratuito e tem por objetivo uma democratização da informação, levando novas perspectivas sobre música a um nicho cultural mais amplo do que costumeiramente se faz.
A revista é distribuída em ONGs, Bibliotecas, espaços públicos e alcança um público que normalmente não teria acesso a este tipo de publicação.
Aliás, todos os projetos do Coquetel Molotov (programa de rádio, festival, website) têm essa preocupação em mostrar e facilitar o acesso da população em geral, a outro tipo de informação que está distante das mídias tradicionais.
A revista Coquetel Molotov surgiu em dezembro de 2005 para dar nova vida à música independente nacional e internacional.
Sua segunda edição foi lançada em abril de 2007 e conta com o multi-instrumentista Erasto Vasconcelos em sua capa.
A publicação é gratuita, distribuída livremente no Recife em alguns locais como a Saraiva Mega Store, Bar Central, Burburinho, Cinema da Fundação e em eventos organizados por o Coquetel Molotov.
O coletivo também disponibiliza a revista em formato PDF em seu site:
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www.coquetelmolotov.com.br. Situada no reduto das escolas de Samba de São Paulo, num dos bairros mais antigos e conhecido da zona norte, a Casa Verde.
A Vila do Samba tem como objetivo resgatar as raízes do Samba paulistano trazendo artistas, compositores, cantores, mestre de escolas, mestres de bateria entre outros.
Em uma vila agradável, a Vila do Samba além de formar com o tempo um espaço cultural,
tende a criar uma instituição para a comunidade da região e outras, tendo em sua programação atividades ligadas a música
e a arte.
Com espaço amplo podemos apresentar exposições temáticas a música, eventos de lançamentos de produtos,
encontros dos bambas da velha-guardadas escolas paulistas.
Uma vila de muita alegria, paz e muito samba de qualidade!
Onde a música, a poesia das nossas raízes tomam conta do lugar ...
Tendo como ideal, viver e trazer o melhor e o mais bonito samba de raiz.
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Salve o samba na Casa Verde.
Umbanda, Neopetencostal, Catolicismo, Psicanálise, Espiritismo
Será que o diabo ainda provoca medo na sociedade contemporânea?
Jenifer Leão
Satanás, demônio, Lúcifer, diabo, belzebu, chifrudo, coisa-ruim, tinhoso, capeta, o cão, mefistófeles, sete-peles.
A imaginação humana foi pródiga em criar denominações para o anjo caído.
Desde o menino mais velho de Vidas Secas a Riobaldo de Grande Sertão:
Veredas, o homem se questiona de onde provêem todo o mal que assola a sua existência.
Será que o diabo ainda provoca medo na sociedade contemporânea?
Pelo menos, o cinema acha que sim.
A «satanofobia» é um recurso exaustivamente usado por a milionária indústria do entretenimento que se apropria de lendas e temores humanos para posterior comercialização.
Imersas em seu cotidiano de ações agendadas, as massas buscam a satisfação e o prazer através da exploração terrificante do sobrenatural.
Contorções insólitas, voz gutural pronunciando línguas mortas, força descomunal, excreções fétidas.
Assim são os relatos mais comuns de possessão demoníaca.
Elementos pontualmente presentes nos sucessos de bilheteria:
O Exorcismo de Emily Rose e O Exorcista.
Este último, em especial, é considerado o filme mais aterrorizante de todos os tempos, mais uma prova da irresistível fascínio e horror que o tema satânico ainda provoca.
Umbanda
Em a Umbanda, a figura de Exu vai ser construída num amálgama de suas funções no Candomblé e de sua percepção como demônio cristão.
Sua identificação com o diabo, decorre do fato de que o culto africano era perseguido e reprimido nos primeiros anos de escravidão, Sua aparência e personalidade:
chifres, fogo, luxúria desenfreada, encontram pontos de semelhança com a representação tradicional do diabo cristão.
Matreiro e burlador, por ser o ente mais próximo dos homens é o que melhor os compreende, até em seus desejos vingativos, e é a ele que se roga o mal alheio.
Além disso atende questões ligadas a luxúria, a problemas cotidianos, à magia negra, fatores que se assemelham às clássicas funções de satanás.
Também sua posição em hierarquia inferior torna Exu um espírito mais acessível, sendo muitas vezes incorporado em sessões de possessão, na qual o contato com sobrenatural acontece através da incorporação de entidades espirituais, momentos em que o possuído é despojado de suas idiossincrasias e passa a agir sob sua influência.
Igreja universal do reino de deus
A figura do capeta está ostensivamente presente na retórica da Igreja Universal do Reino de Deus.
Localizada em diversos pontos da cidade, seus templos opulentos estão cheios de homens e mulheres que cantam em voz alta, mãos levantadas ao céu, animados por um pastor que grita palavras de ordem em tom autoritário e professoral.
A Igreja Neopenntecostal se arroga o direito de ser os contadora de Deus, fazendo da fé um produto pago a prestações.
«O dízimo é sagrado.
Tudo que passa por a mão de vocês deve ser dizimado.
O que não for dizimado o diabo tira " dizia o pastor.
Os testemunhos são a face mais eloqüente da pregação.
Ailton Joseilton da Silva, agora obreiro da Universal, explica que já chegou a mendigar, após perder o emprego, devido a uma macumba que sua sogra teria feito.
Todo o dinheiro colhido era entregue à Igreja, o que frustrava imensamente sua mulher, «tentada por o diabo!»,
interrompeu o pastor.
Após sete anos, ele consegue um emprego de padeiro, juntando dinheiro suficiente para montar o próprio negócio, e hoje possui quatro casas e onze terrenos.
«Como Jesus, na cruz é necessário sacrificar.
Você dá o que você não tem.
A Universal não é igreja de rico não, é de pobre.
Mas antes de tudo a fé.
É preciso ter fé, e doar a igreja por amor a Deus."
Não bastam as menções a figura diabólica, é preciso representá-la, torná-la viva, próxima e aterradora.
Os endemoninhados.
Terça-feira, dezenove de dezembro, quarta sessão de descarrego.
Em esse dia, ao invés do habitual terno e gravata, o pastor e os obreiros vestem branco, à maneira dos pais e mães de santo.
A analogia não se limita a indumentária ...
O pastor ordena então que os fiéis coloquem às mãos sobre a cabeça e fechem os olhos.
Todos obedecem, a não ser algumas crianças ainda inconscientes do espetáculo que será promovido em instantes.
Um som de terror trash toca ao fundo.
Os obreiros andam de um lado a outro do corredor.
«Se manifesta, Exu, se manifesta Pomba-Gira!"
brada energicamente o pastor, «Você que tomou o marido da outra!»,» Você que destruiu a vida daquele!».
Ele convida então as pessoas que estão passando por momentos difíceis a subirem no palco, logo, filas se formam no altar.
Novamente ele pede que elas ponham as mãos sobre a cabeça e mantenham os olhos fechados, enquanto ele reveza com outro pastor os gritos e as ordens para que os espíritos se manifestem.
Os obreiros já seguram os cabelos de algumas pessoas e sussurram em seus ouvidos.
Finalmente, gritos histéricos se ouvem, e uma mulher é levada a frente do altar.
Uma voz rouca e quase indistinguível diz:
«sou o bagaceira».
O espírito relata que se apossou do marido quando ele tentou apunhalar a mulher.
Confessa também impedir que o filho de ela deixe as drogas.
Enquanto segura fortemente o cabelo da mulher, o pastor incita a multidão:
«Queima Jesus, queima!»,
todos gritam e gesticulam, como a jogar algo para trás:
«Em nome de Jesus, sai, sai!».
Exorcizada uma única mulher, apesar de outras terem também encenado a possessão, o espetáculo termina, todos aplaudem.
O pastor pode então ofertar um conjunto de DVD e CD gospel.
Os fiéis são, em sua maioria pessoas de baixa renda, desempregados e desiludidos amorosamente, em busca de uma igreja que reconheça os seus problemas cotidianos e que dê uma resposta satisfatória e urgente.
É fácil entender a sedução que a Universal exerce num estado com profundas desigualdades e escassas possibilidades de ascensão social.
«O diabo tenta, mas nunca acima de nossas forças».
A Igreja Católica não reconhece essas manifestações como possessão demoníaca e sim encenações de pura ignorância e fanatismo religioso.
Padre Henrique Soares, demonologista, jamais presenciou em Maceió um caso real de possessão, caracterizando-o como muito raro " Nunca presenciei uma possessão em sentido estrito, agora a obsessão sim e a infestação.
Obsessão é quando a pessoa é provada por o diabo, fisicamente, então a gente faz uma oração de Libertação, já a infestação ocorre quando a gente sente que num ambiente há forças malignas."
Para ele, as Igrejas Neopetencostais não têm qualquer discernimento no que se refere à possessão:
«Está com dor de dente?
Está possesso. ( ...)
e isso faz qualquer psicólogo sério rir, porque vê que é sugestão é histeria."
A cautela é o tom da abordagem católica que, antes de designar um exorcista, exige uma bateria de exames científicos " Se pede a ajuda de um profissional, um psicólogo, um psiquiatra, para ver se o mesmo (caso) não tem um causa natural."
As ciências da mente.
A psicologia pontifica essas manifestações como originárias de crises pessoais:
«são surtos psicóticos, crises histéricas, manifestações de um arquétipo, que o sujeito vai incorporar, trazendo a tona tudo que faz parte do imaginário social que o ser humano vem acumulando ao longo da história» esclareceu o psicólogo e professor universitário Ricardo Maia.
A psicanálise, campo controverso de ciência e mito, foi a primeira a desmistificar as crises histéricas como fruto de uma repressão social e não como apoderação diabólica:
«As mulheres tidas, na Idade Média, como bruxas ou possuídas por o diabo, na verdade eram histéricas, que sofriam uma repressão muito grande da sociedade por sua condição de mulher, e que acabavam implodindo tudo isso, dando origem a todos aqueles sintomas estereotipados» afirmou Maia.
Para ele, ainda, é muito comum, em lugares de forte tradição religiosa, haver indivíduos que por ouvirem durante toda a vida o discurso religioso, representam em nível inconsciente todos os infortúnios como manifestação satânica:
«É um discurso que vem sendo inculcado na sociedade.
De entre os sistemas de representação coletiva, a religião como forma de conhecimento mais arcaico, mais antigo, sedimentou-se no repertório da humanidade, o que acaba repercutindo nos momentos de crise do ser humano, nas manifestações do inteiramente outro, do estranho, do inconsciente, de conteúdos que foram excluídos como também o próprio diabo que foi expulso do céu."
Espiritismo. Ao contrário do que é ensinado nas aulas de catecismo, para o espiritismo kardeciano nunca existiu Lúcifer, o anjo caído.
Como num socialismo espiritual, Deus não teria criado tamanha desigualdade em níveis espirituais entre os seres, portanto não há a concepção de anjos e santos, nascidos belos e perfeitos, tão cara a Igreja Católica, explicou João Alves, presidente do centro espírita José Euzébio.
A evolução espiritual por meio de sucessivas reencarnações é a base da doutrina espírita.
Após a devida depuração e superação de si mesmo pode então o espírito se tornar pleno.
Em a vida pós-morte, o espírito passa a habitar uma outra dimensão paralela a dos viventes, embora seja ainda dotado da personalidade e índole anteriores.
E é aí, que se manifesta o mal como conhecem os espíritas, na aparição do espírito de uma pessoa que matou, roubou, estuprou.
às vezes os espíritos vingativos buscam desequilibrar psicologicamente os indivíduos, chegando a provocar surtos e mesmo, o suicídio.
Ou podem vir à procura de ajuda numa sessão chamada de desobsessão, na qual os demais membros do centro espírita tentam se comunicar com o espírito que perturba o obcecado, procurando entendê-lo e ajudá-lo.
Em um país cristão, o demônio detém lugar certo no imaginário popular.
Em um país pobre, ele está em todos os lugares incertos, na miséria, na fome, nas doenças.
Pior ainda, na ignorância de um povo, que não responsabiliza o homem individual por seus erros, atribuindo a culpa a entidades fora do controle humano.
Em o país das desigualdades e indiferenças, o diabo é o presidente que, acompanhado de seu séqüito de demônios, estabelecem o inferno na terra, a cada guerra, a cada criança que morre sem cuidados, a cada salário de fome, a cada menino que o tráfico ganha, a cada omissão.
Há o medo, mas não do verdadeiro mal.
Número de frases: 98
Frevo Desembestado!
Caros foliões, músicos, compositores e carnavalescos, há mais de 100 anos que uma cidade veste a indumentária da alegria.
E isso se dá justo em seu momento mais apaixonante:
o Carnaval.
Em o dia nove de fevereiro de 1907, uma corruptela do verbo ferver -- «O Frevo» -- surge por a vez primeira num jornal da cidade, o Jornal Pequeno.
O termo tornaria-se-sinônimo do Recife e a faria mundialmente conhecida.
Embora o Frevo tenha muitos aninhos a mais, o estabelecimento da data da sua criação não deixa de ser interessante.
Mesmo que a questionemos (pois se o Frevo aparece num jornal, é porque já existia nas ruas), não podemos deixar de reverenciá-la.
Cabe a nós a tarefa de permitir que, daqui a mais 100 anos, nossos netos possam comemorar os 200 anos do Frevo.
A longevidade do Frevo, enquanto fenômeno de massas, depende de múltiplos fatores.
Trago à baila um de eles, tema polêmico e que desagrada a alguns músicos e maestros, mas que tem de ser encarado de frente.
Faço isso por amor ao nosso grandioso Carnaval e por ser Folião e Passista -- esse último na medida do possível, logicamente.
Trata-se de questão aparentemente menor e que não está despertando o necessário interesse dos estudiosos:
o andamento melódico do Frevo, principalmente do Frevo de Rua e Canção, que acelerou-se de forma perigosa.
Infelizmente, até no Frevo de Bloco a coisa chegou, existindo alguns de eles sendo executados como Frevo de Rua.
Em a verdade, o Frevo desembestou-se!
Alguns atribuem o fato à pressa do mundo moderno:
«tudo se apressou», o que não deixa de ser parcialmente verdadeiro.
Outros defendem esse fenômeno com o argumento de que o Frevo precisava e precisa modernizar-se.
Mas será que tanta pressa é benéfica ao Frevo?
Será que, daqui para frente, modernizar significa apressá-lo ainda mais?
Para que, por quê?
O andamento mais rápido do Frevo -- o que pode ser entendido por alguns como modernização -- já foi realizado por gigantes como Duda, Carlos Fernando, Michiles, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Bubuska, além dos baianos Gil, Caetano, Morais Moreira e Gal Costa.
Para que correr mais do que eles?
Será que tal «modernização» não pode se dá nos arranjos, nos acordes, nas improvisações, nos efeitos especiais, ou em outros tantos aspectos musicais como estão fazendo, por exemplo, Silvério Pessoa em «Micróbio no Frevo» e no belíssimo «Balanço do Frevo» de Braz Marques e Jackson do Pandeiro.
Ou ainda no «O Recife é a Cara do Seu Carnaval», do Bubuska, no» Lágrimas de Folião " com o Spok e nos muitos Frevos reinventados por Antônio Nóbrega.
O Frevo, música ligeira e difícil por natureza, está cada vez mais difícil de ser executado.
Mesmo que virtuosos instrumentistas, no afã de mostrarem suas habilidades, consigam fazê-lo, a musicalidade sofre, pois se elimina a malícia, os breques, a sutileza musical do ritmo.
Como esclarece «Guerra Peixe» o dinamismo rítmico do Frevo (onde se nota a presença da síncope), não está na velocidade, mas na expressão melódica (tensão e afrouxamento) e na orquestração apropriada à melodia».
Além do veloz andamento melódico, incorporou-se, graças à tecnologia, a elevação do som a níveis insuportáveis, o que gera, por vezes, distorções desagradabilíssimas.
Quem brincou bem junto a um trio, sabe muito bem do que estou falando.
Até nos salões, não se consegue ouvir com nitidez um comentário de um amigo, ou uma declaração amorosa carnavalesca.
Em o desesperado andamento melódico do Frevo, há três situações diferentes.
A primeira é a das orquestras que se apresentam em estúdios.
Em geral, orquestras de elevado nível, cujos músicos podem ser comparados aos nossos «ronaldinhos»,» cacás «e» robinhos», o que, somado à tecnologia, fazem com que a pressa se torne, aparentemente, menos ofensiva aos nossos ouvidos.
Em segundo lugar, as orquestras de palco, às quais podemos dividi-las em vários sub-grupos, desde o citado acima, até orquestras improvisadas de última hora, por vezes de péssima qualidade.
Portanto, a pressa será tanto mais maléfica, quanto menor for a qualificação da orquestra.
Ressalte-se que, ainda aqui, a tecnologia pode promover pequenos milagres.
Porém, o problema maior ocorre com as orquestras de rua, aquelas que fazem o verdadeiro Carnaval de Pernambuco, já que o Frevo nasceu na e para a rua.
Em a sua grande maioria, são orquestras pequenas, de parcos recursos financeiros e musicais e que, infelizmente, tentam acompanhar o modismo de se tocar um «Último Dia», um» Corisco», um «Relembrando o Norte» ou mesmo um «Cabelo de Fogo» -- para citar apenas alguns exemplos -- mais rápido que um «heavy metal».
É aí que o Frevo joga a toalha.
Alguns músicos amigos, grandes instrumentistas, me confidenciaram que estão «comendo» notas até nos palcos.
Imaginem, então, o que deve estar sendo «devorado» nas ruas.
Após quatro Frevos, os músicos de rua estão com a língua de fora, mesmo com o descanso habitual, onde permanace a percussão com predomínio da caixa ou tarol, ou com o indesejável hábito de se tocar «Parabéns pra Você» que não se sabe de onde nem porque surgiu, nada tendo a ver com o nosso carnaval.
Já para os passistas, embora também seja desgastante, eles conseguem enrolar com mais facilidade.
Não «comem» passos, mas os acomodam para não sofrerem tanto, já que, inclusive, executam poucos e quase sempre os mesmos passos.
Sim!
A coisa reverberou, logicamente, na dança.
O Passo, oriundo da capoeira, portanto cheio de ginga e de improvisos, vai perdendo suas características.
Os novos passistas-bailarinos teimam em demonstrar que o ritmo não é só frenético:
é elétrico e, para eles, quanto mais rápido dançarem melhores passistas serão.
A maioria dos passistas profissionais está dançando quase que da mesma forma.
Se colocarmos dez Frevos diferentes para serem dançados, cada passista os dançará praticamente com os mesmos passos.
Sem as «paradinhas», sem a malícia, sem o improviso, sem a leveza, que ainda podem ser observados na dança de foliões-passistas de rua mais antigos, espécie em extinção.
Infelizmente, este é mais um elemento desagregador, porque inibidor de foliões da terra e, principalmente, de turistas, aos quais devemos dizer que qualquer folião pode «cair no Passo», sem ter que se preocupar com os» atletas olímpicos " dos palcos.
Palco que, inclusive, confere artificialidade à dança, já que a retira do seu habitat:
a rua.
Fique claro que não estamos falando da sua estilização, trajes, cores, das mudanças da Sombrinha -- nosso maior símbolo -- nem da sistematização e criação de novos passos.
Estas são inovações que surgiram para embelezar a coreografia.
A rapidez do Frevo e do Passo ainda não os descaracterizou completamente, mas até quando resistirão?
Viva os 101 Anos de Frevo.
Parabéns para todos nós!
Mas, para que se comemore os seus duzentos, trezentos ...
anos, muito temos a fazer agora.
Recife, 19 de janeiro de 2008 Luiz Gonzaga de Castro
Folião e Compositor Pernambucano
Diretor de Um Bloco em Poesia
E-mail: luizgonzagadecastro@hotmail.com
Número de frases: 68
Fones: 88763070 -- 32685108
O Brasil é um país de dimensões continentais.
É o óbvio escrito e comentado em qualquer meio teleguiado por as leis da física.
E sendo assim, as surpresas aparecem, como poeiras deixadas por as revoluções culturais passadas e perdidas, naqueles caminhos retos e tortos da antiglobalização.
Não é uma história sem pé e sem cabeça!
É uma introdução aleatória para trazer ao público um talento da Música Brasileira, natural do Estado do Piauí, e de nome Glorya Ryos.
Esta menina -- de meia idade -- é uma das legítimas sucessoras da «Rainha do Forró --Marinês».
Sua voz tem um timbre agradável e afinação perfeita.
Poderia ser (com toda certeza) uma cantora de MPB (Música Popular Brasileira), e constar no seleto grupo das divas da voz.
Sem qualquer dor de consciência, Glorya Ryos escolheu o «Forró» como bandeira política e alimento espiritual.
O «Forró» ainda é um estilo musical diferenciado por os intelectuais?
A brasileira, mulher, radialista, comunicadora, compositora, cantora, Bacharela em Direito e amiga pessoal, Glorya Ryos, responde (sem qualquer censura) às provocações culturais ...
01) Perguntas E Respostas
Lailton Araújo -- Quem é Glorya Ryos?
Glorya Ryos -- Sou mulher, nordestina e artista.
Só por isso eu já poderia estar reclamando de todos os tipos de preconceitos.
Acho que nunca fui de perder tempo pensando no lado difícil da vida.
Meu tempo foi bem aproveitado na produção de coisas boas.
Como geminiana sempre quis desenvolver várias habilidades.
Fui secretária!
Formei-me em Direito e trabalhei na Bolsa de Valores de São Paulo durante 12 anos.
Gravei 10 discos (LPs e CDs).
Fui ainda comunicadora e produtora artística no programa de rádio Mulher Atual (Rádio -- 1370 AM) -- durante 13 anos -- participando ativamente de todas as campanhas sociais.
Estive ainda envolvida na área política (como assessora) de uma cidade na Grande São Paulo.
Em a literatura:
escrevi um livro de primeiros socorros (em parceria com minha irmã -- Nélia Maria), e que está em fase de divulgação.
Em o momento, apresento um programa musical na TV SPL -- Zona Leste da capital paulista.
...
Lailton Araújo -- Em o mar cultural do Brasil, as sardinhas e outros pequenos peixes conseguem sobreviver nas mesmas águas de tubarões e lulas?
«Glorya Ryos --» De jeito nenhum!"
As sardinhas que se virem!
Trabalhando duro!
Inventando alternativas ...
E o cardume ou indivíduo sempre morre na praia!
...
Lailton Araújo -- O que é «Forró»?
«Glorya Ryos «--» Forró» é a maior manifestação cultural do Brasil.
O «Forró» é a música do «Sertão Nordestino» -- região castigada por a seca e abandonada por governantes durante anos.
Mesmo assim -- teimosamente como o «mandacaru» (planta da flora local -- nome científico: Cereus jamacaru) -- muitos e muitos talentos nascem, crescem ou tentam crescer, e terminam morrendo sem oportunidades profissionais.
Esses citados talentos estão por aí ...
...
Lailton Araújo -- Sem acordeom (sanfona), zabumba e triângulo, o «Forró» não pode tornar-se um «Funk» nordestino?
Glorya Ryos -- Rindo muito (risos) ...
Não! Mesmo sem estes tradicionais instrumentos musicais, o «Forró» tem sua própria autenticidade e espaço.
E continuará sendo o bom e quente «Forró».
...
Lailton Araújo -- Será que o «Forró Universitário» tem razão em discriminar o «Forró Primário»?
Glorya Ryos -- Isto é uma prova (ou argumento) de que só a universidade não dá sustentação e sensibilidade para as pessoas respeitarem a sua história cultural.
«Forró «não é» Universitário «nem» Mobral» (programa de alfabetização).
«Forró «é música» nordestina boa e bem feita».
Nada impede que existam estes movimentos inovadores tocando «Forró» e colocando o estilo em evidência.
Mas, a autenticidade fica mesmo com Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro, Ary Lobo, Anastácia e muitos outros.
...
Lailton Araújo -- Quem ficará na história do " Forró ":
Luiz Gonzaga e sua voz grossa, adulta, política e nordestina, ou o grupo Falamansa com a fala maneira, jovem e paulista?
Glorya Ryos -- Com o devido respeito aos meninos do Falamansa (aprendi a respeitar todos os artistas, pois a luta é árdua e desleal), o mestre Luiz Gonzaga é o «papa» da música nordestina.
...
Lailton Araújo -- Rindo à Toa no Xote dos Milagres e com um Xote da Alegria, o comentado grupo musical Falamansa vendeu quase três milhões de Cds.
Luiz Gonzaga (o Velho Lua) nunca chegou perto de tal marca fonográfica.
Em a batalha musical Luiz Gonzaga (x) Falamansa, quem venceu?
Glorya Ryos -- Este resultado de venda foi a novidade de um «momento» e muita divulgação (não invalidando evidentemente o valor do Falamansa, que ajudou a evidenciar o «Forró» novamente).
As «Mídias» pedem jovens bonitos!
Com um considerável investimento, a «coisa» acontece.
O artista Luiz Gonzaga foi uma construção bem feita.
Tijolo por tijolo, na raça, no suor, no «gogó», contando a nossa história, construindo verdadeiras pérolas da nossa música nordestina.
Quando você ouve a música Apologia ao Jumento (O Jumento é Nosso Irmão), você se transporta para a região Nordeste do Brasil, construindo uma paisagem em seu pensamento.
...
Lailton Araújo -- Os cachês musicais brasileiros caminham nos passos das formigas, jacarés, avestruzes ou mamíferos?
Glorya Ryos -- Não só os cachês ...
Como qualquer remuneração (em qualquer profissão) ...
Para uns em passos de formigas!
Para outros em passos de avestruzes!
...
Lailton Araújo -- Uma mulher pode ser a matriz ou filial?
É justo?
Glorya Ryos -- A mulher pode tudo!
Ela é quem define o que lhe convém.
O importante é ser feliz na postura escolhida.
Se ela não prejudica outra pessoa ...
É válida tal postura!
Respondendo ao segundo argumento:
a mulher e o homem têm que caminhar lado a lado.
...
Lailton Araújo -- A independência financeira é uma peça fundamental no jogo de xadrez da relação homem (x) mulher?
Glorya Ryos -- Embora muitos digam que não, beijinhos e abraços não pagam contas nem eternizam amor algum.
Se os dois trabalharem, a possibilidade de dar certo é bem maior.
A receita para tudo é trabalho.
E acho que não importa quem ganha mais.
Em o conjunto, o casal é quem vence.
...
Lailton Araújo -- A intolerância sexual e racial é uma realidade ou mito na época do Orkut?
Glorya Ryos -- É uma realidade ...
Muitas vezes velada!
Outras vezes:
camuflada!
...
Lailton Araújo -- A migração foi algo necessário no Brasil.
Qual é a atual estrada dos novos migrantes?
Glorya Ryos -- Acho que cada um deve lutar por os seus sonhos.
Voltar para a cidade ou região de origem às vezes é o caminho necessário.
Muitos migrantes -- sem quaisquer experiências profissionais -- não têm condições de concorrer no seletivo mercado de trabalho.
...
Lailton Araújo -- O Estado do Piauí vai receber o «Funk» dos morros cariocas?
Glorya Ryos -- Está tudo tão louco que é bem capaz de um empresário artístico (desconhecido e sem currículo), levar tal idéia.
O nordestino é receptivo!
Ele sempre esquece dos preconceitos que sofreu, sofre ou sofrerá fora de sua terra natal.
...
Lailton Araújo -- E a «manga» da Mangueira?
A «Tropa de Elite» vai combater com o «Urso de Ouro ou Oscar»?
Glorya Ryos -- Rindo muito (risos) ...
O brasileiro sempre procura o melhor caminho ...
...
Lailton Araújo -- Uma escolha ao acaso:
«Jornal Impresso», «Rádio»,» Cinema», «Televisão» ou «Internet»?
Glorya Ryos -- Eu gosto de «Televisão».
Minha comunicação é visual.
O «Rádio» foi e será sempre a grande força determinante para o sucesso de uma tendência.
Principalmente em AM onde o ouvinte interage com o locutor.
...
Lailton Araújo -- Sabe-se que o «Rádio» foi responsável por a existência e sobrevivência de vários artistas.
O «Cinema» é a sétima arte.
Talvez a primeira!
A «Televisão» trava uma briga de audiência com a «Internet».
O que está acontecendo com a «Mídia»?
Glorya Ryos -- É uma briga boa ...
Quem sabe se desta forma a «Televisão» não melhora o padrão de qualidade!
...
Lailton Araújo -- O que foi a Rádio Atual na vida da artista Glorya Ryos?
Glorya Ryos -- Foi uma fase boa e de aprendizado.
Valeu enquanto durou!
Agora é tempo de mudanças, de novos projetos e novas experiências.
Estou feliz!
...
Lailton Araújo -- O CTN (Centro de Tradições Nordestinas) foi responsável por a divulgação da atual música do Nordeste do Brasil.
Alguns frutos musicais estão por aí.
Como você define os estilos «Forró-pop»,» Axé «e outras fusões» Bregas», românticas e regionais?
Glorya Ryos -- Esta nova fase do «Forró» aconteceu com o advento da Rádio Atual e do CTN.
Nem sempre o que está «rolando» agrada a todos.
Existe o lado positivo:
o «Forró» está em evidência.
É um momento novo, com tendências agregando-se ao estilo «Forró».
Tudo é válido!
...
Lailton Araújo -- Em o sonho religioso do povo humilde aparecem três personalidades:
Padre Cícero do Juazeiro, Frei Damião e Padre Marcelo Rossi.
Tente decifrar o enigma de tal sonho!
Glorya Ryos -- Você mesmo diz que é um enigma de um sonho.
Cada personalidade religiosa -- no seu tempo -- encantou e continuará encantando pessoas com suas mensagens.
Toda mensagem de fé e de esperança fala alto no coração de quem está preparado para ouvir.
...
Lailton Araújo -- Em a escolha das ordens:
OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e OMB (Ordem dos Músicos do Brasil), como se posiciona a Bacharela em Direito e Artista Glorya Ryos?
Glorya Ryos -- Eu escolhi o apelo do meu coração:
a OMB (Músicos).
A OAB (Advogados) é necessária para a sobrevivência de um grupo muito especial de profissionais.
...
Lailton Araújo -- A moeda «jabá» existe?
Você conhece alguém que viu?
Se existe:
ela é cunhada em ferro, prata ou ouro?
Qual é o brasão da tal moeda?
A mídia recebe o tal «jabá»?
O «jabá» não está ficando mais caro que o «bacalhau»?
Glorya Ryos -- Rindo muito (risos) ...
Sou alternativa!
Sempre fui!
Quando gravei meu primeiro LP (Long Play) por a gravadora Continental, aconteceu algo inesperado:
a diretoria artística e todos os artistas foram dispensados da «casa».
Eu havia largado meu emprego na Bolsa de Valores de São Paulo para cantar!
Estava eu com um LP (lindíssimo) na mão e sem saber o que fazer.
Não conhecia nada dos mecanismos do meio artístico.
Não desisti!
Fui à luta e busquei espaços musicais para meus shows nos teatros e praças públicas.
Valeu à pena!
Continuo batalhando e só faço o que me dá prazer e alegria.
Gravo o que eu quero e não aceito palpites de quem não vem somar.
Sobre o " jabá ":
é uma delícia (risos)!
Qual é o nordestino que não gosta de um «jabá» bem temperado e com todo o sabor dos condimentos de uma das culinárias mais especiais do Brasil?
...
Lailton Araújo -- Um vôo musical para 2008 ...
Glorya Ryos -- Voar nas asas da emoção sempre!
Cantar e encantar no ritmo de um Brasil cheio de esperança, e que acredita que tudo vai dar certo.
Os brasileiros merecem!
02) Outras Informações
GLORYA RYOS Site Oficial:
Glorya Ryos
Vídeos:
Música " Caboclo "
Outros Vídeos
Programas NA Televisão:
TV SPL -- Canal Glorya Ryos & Você
ART TV SAT -- www.arttvsat.com.br
Café e Revista -- www.cafeerevista.com.br
Contatos:
gloryaryos@uol.com.br
Número de frases: 196
gloryaryos@yahoo.com.br A os 77 anos, Augusto Boal não esconde o orgulho de estar entre os 197 candidatos ao Prêmio Nobel da Paz 2008.
O nome do vencedor será anunciado em outubro.
«Evidentemente, há pessoas de influência muito grande.
Não tenho nenhuma expectativa de ganhar, mas estou extremamente feliz porque, entre os que apoiaram a minha nomeação, estão pessoas dos cincos continentes.
Isso é extraordinário.
É o reconhecimento da importância do Teatro do Oprimido», comemora.
A indicação de Augusto Boal pode ser entendida por sua frase, escrita em 1973 no livro Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas:
«Tenho sincero respeito por aqueles artistas que dedicam suas vidas exclusivamente à arte -- é seu direito ou condição!,
mas prefiro aqueles que dedicam sua arte à vida."
A dimensão cosmopolita do teatro de Augusto Boal já data dos quinze anos, entre 1971 e 1986, em que esteve no exílio político.
Em esta fase, Boal desenvolveu as experiências teatrais que lhe renderiam o reconhecimento internacional do público, da crítica, dos estudiosos e do meio teatral.
«Augusto Boal reinventou o Teatro Político e é uma figura internacional tão importante quanto Brecht e Stanislawsky», afirma o The Guardian
«Boal conseguiu fazer aquilo com que Brecht apenas sonhou e escreveu:
um teatro alegre e instrutivo.
Uma forma de terapia social.
Mais do que qualquer outro homem de teatro vivo, Boal está tendo um enorme impacto mundial», escreveu Richard Schechner, diretor de The Drama Review
Há muitos anos as proposituras do Teatro do Oprimido são objetos de teses de mestrados e doutorados e de cursos em diversas universidades por o mundo.
Boal é autor, entre outros, dos livros:
Teatro como Arte Marcial;
Jogos para atores e não atores;
e sua autobiografia Hamlet e o filho do padeiro.
«Hoje já existem pelo menos 29 livros publicados no mundo inteiro sobre mim ou sobre o Teatro do Oprimido, em línguas que vão desde o inglês, italiano, alemão, até o hindi indiano e o urdu do Paquistão», afirma Boal.
Suas idéias inspiraram os pontos de cultura de Gilberto Gil.
Atualmente, numa parceria entre o Centro de Teatro do Oprimido e o programa Cultura viva do Ministério da Cultura, o projeto Teatro do Oprimido de Ponto a Ponto proporciona cursos de multiplicadores do Teatro do Oprimido, no Brasil e na África.
Número de frases: 24
Cinema e publicidade há tempos caminham de mãos dadas, feito Charles Chaplin e Paulette Godard no final de Tempos Modernos.
Cineastas dirigem comerciais, publicitários migram para o cinema, e as linguagens de um e outro meio estão cada vez mais próximas.
Mas é preciso ressaltar que esse relacionamento íntimo não vem de hoje.
Diretores renomados como Federico Fellini já fizeram filmes publicitários, e no Brasil um cineasta como Carlos Manga, responsável por algumas das mais conhecidas chanchadas da Atlântida como Matar ou Correr (1954) e Nem Sansão Nem Dalila (1955), trabalhou anos com publicidade.
Afirmou Manga:
«A diferença entre cinema e propaganda é que no cinema conto uma história em 90 minutos, enquanto na propaganda tenho que fazer isso em 30 segundos».
Diretores, roteiristas, câmeras e profissionais de cinema especializados em áreas como fotografia, montagem, figurino, som e direção de arte, de entre outros, buscam colocações em outras áreas do campo audiovisual, como programas de TV, produção de videoclipes ou, principalmente, de comerciais, campo em que o mercado de trabalho é maior.
É até natural, pois, que a linguagem cinematográfica influencie a publicitária e vice-versa.
Em o Brasil, alguns dos principais cineastas da atualidade, como Fernando Meirelles (Cidade de Deus), Breno Silveira (2 Filhos de Francisco) e Andrucha Waddington (Casa de Areia) ganharam experiência dirigindo comerciais antes de se aventurarem na tela grande.
O caminho inverso também ocorre.
Vide a campanha The Hire da BMW, que bancou uma série de 8 curtas-metragens, dirigidos por cineastas do naipe de Ang Lee, Wong Kar-Wai e Alejandro González Iñarritu.
Cada diretor ganhou liberdade criativa para desenvolver seu próprio filme, desde que usasse os carros da BMW como elementos importantes na narrativa.
Resultado: uma campanha extremamente bem-sucedido:
os filmes foram visualizados mais de 100 milhões de vezes, a campanha recebeu o Grande Prêmio do Cannes Cyber Lion de 2002 e, de quebra, passou a integrar a coleção permanente do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.
Vale a pena lembrar também daquele que talvez seja o comercial mais famoso da história, recentemente parodiado por as campanhas para as prévias previdenciais do Partido Democrata dos pré-candidatos Hillary Clinton e Barack Obama:
1984, peça de 1 minuto de duração.
O comercial, que marcou o lançamento do computador pessoal Macintosh da Apple, foi veiculado uma única vez na televisão, durante a final do Super Bowl, e faz referências ao livro homônimo de George Orwell.
A direção ficou a cargo de um cineasta consagrado em Hollywood:
Ridley Scott, de filmes como Blade Runner e Gladiador.
Em tempos nos quais espectadores são cada vez mais resistentes ao apelo das mídias tradicionais, ganha força no mundo da publicidade o conceito de branded entertainment:
peças publicitárias que escapam do formato tradicional de comerciais de 30 segundos, veiculando marcas e produtos ao roteiro dentro do contexto de programas de TV, filmes ou produções feitas especialmente para a Internet.
É o caso da campanha de lançamento do Office 2007, da Microsoft.
Composta por cinco filmes dirigidos por Stacy Wall, a série, exclusivamente veiculada na Internet, tem poucos traços da publicidade tradicional:
os curtas, de linguagem cinematográfica, poderiam ser exibidos no Festival de Gramado.
Os cinco filmes dessa campanha, devidamente integrados com a proposta de branded entertainment, narram as tragicomédias de funcionários de escritório que passam por situações que poderiam ser descritas por aquele locutor da Sessão da Tarde como «altas confusões de uma turma do barulho».
Pesadelo, por exemplo, mostra um executivo alemão que, durante a apresentação de uma conferência, é sabotado por o seu software de apresentação de slides a ponto de ficar, literalmente, sem calças na frente de uma platéia.
Já em O Divisor, os protagonistas são dois funcionários de uma mesma empresa que, apesar de compartilharem mesas no mesmo escritório por 32 anos a fio, jamais haviam se conhecido.
E assim, ao exibir histórias de forte apelo emocional ou humorístico, a campanha do Office 2007 busca passar o conceito de que sua nova versão facilitará a vida de todos, adotando a seguinte assinatura:
«Um novo dia.
Uma nova empresa».
Diversas outras empresas no Brasil adotaram a mesma estratégia da Microsoft, optando por divulgar suas marcas fugindo aos modelos publicitários tradicionais.
Alguns exemplos:
BrasilTelecom, Sagatiba, SuperBonder, Nissan e Coca-Cola.
Filmes no YouTube, ações em programas como Big Brother Brasil e a gravação de canções compostas por músicos conhecidos foram algumas das interfaces adotadas por essas campanhas, que buscaram aliar publicidade com um conteúdo que fosse capaz de trazer entretenimento e diversão.
Sobre a intertextualidade crescente entre cinema, publicidade, televisão e outras linguagens, a publicitária com especialização em cinema na Universidade da Califórnia Alessandra Moretti, em entrevista concedida a Rogério Covaleski, afirmou:
«Acho que qualquer interação entre publicidade e cinema, ou pintura e cinema, artes e cinema ou artes em si é positiva».
Mais adiante, complementa:
«Se existem diretores de publicidade partindo para o cinema, isso há de ser positivo, principalmente no Brasil onde a gente teve por anos uma limitação grande de produção.
Número de frases: 38
Acho que a diversidade é sempre positiva, e a linguagem publicitária é bem-vindo dentro desse contexto todo».
Não está na hora do SATED / MS?
Magdalena
Rodrigues Atriz e Presidente do SATED/MG (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões)
Mercado -- " Nós temos muita preocupação com o comportamento do próprio artista dentro do mercado de trabalho.
O artista é um trabalhador com características específicas muito bem definidas, mas é um trabalhador.
Vai ter que disputar qualidade igual aos outros.
Em os comerciais de televisão, por exemplo, muitas vezes, mais de cem pessoas vão fazer um teste.
Todo mundo fica numa sala esperando, esperando e não recebem um script direito, não sabem o que é.
O ator fica ali jogado, parecendo uma feira.
É de quem pegar.
Muitas vezes, sabemos que o casting do comercial já está escolhido.
Então, por que fazer esta palhaçada com o artista?
Sei até de verdureiro do Mercado Central fazendo teste para ator.
O ator é para ser motorista, verdureiro, ser tudo, sem ser de verdade.
Ator é para ser.
E existem muitos para fazer isso.
Por que chamar outro?
Minas Gerais está ao nível de qualquer Estado.
Aqui, nós somos formados no palco, o que não acontece lá fora.
Artista de televisão não faz teatro assim tão fácil.
Ator de teatro faz qualquer veículo sem muita dificuldade.
Acho que a solução está na própria conscientização da categoria.
Temos agora esse terrível racionamento de energia, quando teremos que descobrir como vamos continuar sendo artistas.
Um refletor gasta 1000 Watts de potência.
E a televisão?
Acho que tudo vai ter que cair numa forma boa para todos.
É a hora da fraternidade.
É preciso que a categoria se entenda mais.
As pessoas não devem se esquecer que somos todos parte de uma só humanidade e que os artistas é que podem transformá-la.
Temos tudo para isso."
T Faça você mesmo um comparativo com a nossa realidade.
Número de frases: 32
Se a saudade tem cheiro, esse é o da terra molhada;
o porquê me remonta à minha infância querida, vivida nos campos, nem sempre verdes, de minha pequenina Poço Verde.
Então, lembro do poema de Casimiro de Abreu, " Oh!
que saudades que tenho ...», ...
dos folguedos inocentes, das quebras de «licuris» ...
Que bons dias aqueles, com tudo que lá vivi!
Ah!
Que saudade!
De a família, dos amigos, dos amores ...
De o cheiro da terra molhada.
Número de frases: 10
15/03/2007 Terceiro Setor e ética pública no Brasil:
Um caso de polícia
Para quem trabalha no âmbito do Terceiro Setor (aquele nicho hiperativo, ocupado por a chamada sociedade civil organizada, espremido entre o Estado -- Governo -- e a Iniciativa privada) ou seja, todos nós artistas, profissionais autônomos, assistentes sociais, produtores culturais, arte educadores, intelectuais, ativistas pelo meio ambiente, trabalhadores normais, assoberbados por a penca de mazelas sociais, educacionais e culturais que atravancam a evolução deste nosso amado Brasil, mais uma historinha fresquinha (e verídica) sobre o ponto a que chegaram as espúrias, asquerosas, nojentas, relações entre sociedade e dinheiro público neste nosso triste Pindorama.
Aconteceu com mim, ontem mesmo, logo, falo de cadeira.
Em caso de engulho, vomite.
Em caso de pânico, chame o ladrão.
Terceirizaram o Brasil.
Deu no que deu
Para quem não sabe -- ou não se liga-, tudo, rigorosamente tudo que o Terceiro Setor do Brasil realiza, é patrocinado com dinheiro público.
É hábito recorrente (e já observei esta prática em uso aqui mesmo, relacionada ao patrocínio a este nosso site) elogiar instituições privadas como a Petrobrás, por exemplo, por ' patrocinar ' iniciativas culturais ou sociais, altamente meritórias.
Ora, não fazem mais do que a sua obrigação.
A prática recebeu até um dístico, que é moda em dez entre dez sites institucionais das grandes corporações brasileiras: '
Responsabilidade Social '.
Cinismo tipicamente nacional, galera.
Armadilha para os puros e os incautos.
Confortável covil para os espertalhões de ocasião.
A iniciativa privada retira o que gasta com " Responsabilidade Social ` do imposto de renda.
É a chamada ' renúncia fiscal ', o Estado renunciando, em nosso nome, ao imposto de renda destas empresas privadas, dinheiro que deveria ser recolhido por elas, aos cofres do tesouro nacional.
Logo, quem paga tudo?
Nós, os contribuintes, é claro.
Cortesia com chapéu alheio.
O meu, o nosso já amarfanhado chapéu.
Estas grandes empresas (e as pequenas também), a maioria pertencentes ao Estado, deveriam gastar uma grana preta em comunicação social e marketing, mas como podem decidir, ao bel prazer, a que áreas destinar suas verbas de ' Responsabilidade social ', passaram a, malandramente, travestir seu marketing e sua comunicação social de ... '
Responsabilidade Social '.
Duvidam?
É fácil, você abre um edital, cria suas próprias regras, e critérios, entre os quais, é claro, estão os seus interesses e pronto.
Projetos sociais financiáveis no Brasil são, por esta razão, aqueles que dão mais visibilidade e marketing.
Não há lisura nos procedimentos nem monitoração e fiscalização dos resultados, do destino dado ao dinheiro público.
Mas não fica por aí a iniqüidade (e isto é que me espanta).
A corrupção e o tráfico de interesses já estão, totalmente, inseridos no contexto.
Existem lobistas atuando no setor, tabelas de propina, tudo nos conformes, como acontece, diuturnamente, na corrupção, digamos, convencional.
Em o exemplo a seguir, acontecido agora mesmo com este escriba que vos fala, mais um passo ao fundo do nosso poço ético.
Merecia um nome bem mais feio esta história, mas, parvo como sou e pasmo como ainda estou, vou chamá-la simplesmente de:
(Música de tuba desafinada, por favor)
Oh, Deus!
E não é que tomaram até o pirulito da criancinha!
Oh!
Pobres meninos ricos (
Toda historinha deste tipo começa com um circunspecto edital.
O presente já é uma alteração do original, que foi, inteiramente, adaptado às exigências de um certo interessado.
Veja a íntegra deste Edital Nº 001/2007 do Ministério da Justiça/SENASP / PNUD, aqui no link) ...
«Para efeito deste Edital serão considerados meninos e meninas de rua, crianças e adolescentes com até 18 anos incompletos, que vivam nas ruas da Cidade do Rio de Janeiro." (
nota de rodapé suprimida do edital original)
Orientação especial:
Leia as expressões em negrito com o senso irônico bem aguçado, por favor.
«O Programa das Nações Unidades para o Desenvolvimento -- PNUD, no âmbito do Documento de Projeto BRA / 06/019 firmado com a Secretaria Nacional de Segurança Pública -- SENASP, do Ministério da Justiça, torna público que, receberá projetos de organizações governamentais e / ou não-governamentais, que ofereçam atividades sócio educativas, profissionalizantes e / ou albergamento para meninos e meninas de rua, na cidade do Rio de Janeiro, no circuito dos Jogos Pan-americanos 2007, em atendimento à demanda do Projeto de Cooperação Técnica -- PRODOC BRA / 06/019 -- Medalha de Ouro:
Construindo Convivência e Segurança Cidadã.
De o Contexto
«Pensar a segurança do Pan RIO 2007 é pensar a oportunidade de mobilização social em prol de um bem comum.
É pensar que por meio das atividades esportivas, a inclusão social é mais acessível e palpável.
É pensar na construção de capital social, restabelecendo a confiança do cidadão carioca na capacidade de resposta de políticas públicas sustentáveis.
Logo, os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro em 2007 é movimento transformador por natureza e um estado de espírito imanente aos eventos esportivos ..."
Êpa!
(Em este momento, um trecho crucial do edital original é suprimido veja como era:)
«Em este contexto, é especialmente preocupante o fato de que na cidade do Rio de Janeiro muitas crianças e adolescentes ainda vivam nas ruas por falta de opções e serviços públicos de atendimento adequado, assim como por diversas outras razões, agravando o quadro de exploração e violência ao qual estão diariamente expostos.) (
O seguinte trecho, afirmando exatamente o contrário, é então inserido no novo edital:
«2.
De o Objeto
Selecionar projetos apresentados por Instituições governamentais e / ou não governamentais que receberão apoio financeiro para ampliarem as ações sócio-educativas e / ou profissionalizantes, orientação e apoio sócio-familiar, fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários e / ou acolhimento em abrigo para crianças e adolescentes em situação de rua, com base no fortalecimento e expansão da oferta de serviços já existentes, na cidade do Rio de Janeiro."
Hum ...
Take & 2
A festa de " Dom Ratão ...
«Para fins deste Edital o circuito do Pan-americano, contempla áreas tais como:
aeroportos, rodoviárias, rede hoteleira, bares e restaurantes, proximidades das estações de metrô, praias, pontos turísticos em geral, terminais de barcas e locais de realização dos jogos." (
Nota de rodapé também suprimida do edital original)
Relendo os pontos chave:
A questão «meninos de rua» (ou, simplesmente, «menino infrator»,» menino bandido ') passa a ser considerada estratégica para a segurança pública, a ponto de se tornar questão essencial para o'bom andamento do jogos pan americanos no Rio '.
Tanto que o governo federal, com apoio -- imaginem!--
da ONU, disponibiliza uma verba específica para, a título de alguns vagos subterfúgios do tipo ' fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários ` ou ' inclusão social mais acessível e palpável ', garantir a retenção, ou seja, o acolhimento em abrigo para crianças e adolescentes em situação de rua (evidente objetivo primordial da iniciativa).
Para este fim, o programa disponibiliza (para serem usados em apenas seis meses), cerca de R$ 2.200.000,00 (!).
Os procedimentos para a seleção de projetos nestes editais têm sido, ultimamente, tão meticulosos quanto esotéricos.
Este não fugiu à regra.
Ninguém sabe, exatamente, como as escolhas se dão, ali, na hora ' H '.
às vezes, os nomes dos avaliadores são divulgados, mas, a rigor, os candidatos não têm nenhuma garantia sobre a lisura do processo de escolha em si.
Como tudo no Brasil:
Manda quem pode.
Obedece quem tem juízo.
E assim foi também desta vez.
A SENASP, responsável por o edital, lá para as tantas, simplesmente informou às Ongs já inscritas, a anulação do edital original, adiado por uma misteriosa razão (trocar as colheres por os garfos, talvez).
Á boca pequena, um funcionário da SENASP comentou que um certo secretário de Assistência Social da Prefeitura do Rio havia ameaçado impugnar o edital porque, segundo ele, o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDDCA, órgão da prefeitura) teria direitos especiais sobre o processo de seleção dos projetos.
Segundo uma nota disponibilizada na internet, numa página de Assistência Social (que parece ter sumido, misteriosamente, logo após o a divulgação do resultado do concurso) A coação do secretário (por intermédio de sua subordinada, a presidente do CMDDCA), foi bastante abrangente, chegando inclusive a ' orientar ' as Ongs registradas no tal Conselho, a boicotarem o referido edital).
Prometido para sair nos sites da SENASP, do PNUD ou do Ministério da Justiça no dia 6 de Junho último, o resultado não saiu em site algum, até hoje, dia 10 de junho (dêem uma conferida nos links, quem sabe ele agora estão por lá).
Nenhum telefonema, nenhum e.
mail recebemos nós e, imaginamos, nenhum outro projeto preterido (afinal não seria a divulgação pública do resultado uma exigência de qualquer Edital?)
Conseguimos obter o resultado, já há muito sacramentado, apenas ontem, assim mesmo depois de um garimpo penoso no Diário Oficial da União.
A natureza do resultado, uma peça pública de pasmar, de corar qualquer aloprado, por sua evidente irresponsabilidade, explicava tudo:
Take & 3
Não vale o Escrito
Ou: ' Para quem sabe ler, um pingo é letra ' ...
«O presente Edital poderá ser revogado ou anulado, no todo ou em parte, a qualquer momento, por iniciativa do PNUD ou da SENASP, sem que isto implique no direito de indenização ou reclamação de qualquer natureza." (
Traduzindo: Nada do que estava escrito vale.
Estranha observação para um edital de um órgão da Justiça, não acham?)
Deu no que deu:
O comitê de avaliação, divulgado a posteriori, foi composto por cinco avaliadores (entre eles dois do PNUD e outro da SENASP).
Os outros dois membros (quase 50 %) pertenciam, pasmem, aos quadros da Prefeitura do Rio! (
presidentes ou representantes dos conselhos CMDDCA e CMAS), ligados, direta e exatamente a SMAS, órgão que ameaçara impugnar o edital.
O Ministério público já permite estas coisas?
Logo, como conseqüência, dos 22 projetos selecionados, praticamente, todos são, de algum modo, ligados à Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro (11 de eles diretamente ligados à SMAS) e outros, reconhecidamente ligados a seus Conselhos diretos (CMDDCA e CMAS), enviados por Ongs que, tradicionalmente, funcionam como terceirizadas da SMAS ou que estão a ela ligadas, por meio de convênios outros.
A grande maioria dos projetos agraciados são, portanto, equipamentos da Prefeitura, já normalmente financiados com verbas próprias, não se sabendo de que forma se procederá a fiscalização das verbas federais sobrepostas, nem mesmo quais seriam suas finalidades.
Como diz a malandragem do meu bairro:
Um escândalo federal.
Take & 4
Um resultado de envergonhar até ' bicheiro '
Não há mais Operação Furacão que nos redima
Por o inusitado da situação, em se tratando de um edital do Ministério da Justiça, regendo a utilização de dinheiro público, em matéria social de tal relevância (meninos de rua) não seria o caso da SENASP oferecer um esclarecimento público, o mais amplo possível, acerca do procedimento que resultou na lista final de aprovados?
Onde foi parar a planilha com a pontuação dos candidatos, regra contida no edital?
Todas instituições inscritas, cumpriram todas as exigências exigidas por o edital para o ato da inscrição?
A SENASP pode provar isto?
E se algum ex-concorrente mais afoito reclamar e exigir, agora com toda razão, a impugnação deste estranhíssimo resultado?
Com todo respeito (e sem fazer ainda qualquer ilação), como responder as seguintes questões:
-- Em o que se basearam as sabidas gestões da Secretaria Municipal de Assistência Social / Prefeitura do Rio no sentido de impugnar o edital original, gestões estas que, ao que parece, fizeram a SENASP a anular o edital original?
Dá para divulgar isto?
-- Os equipamentos da prefeitura escolhidos estão, realmente, no contexto geográfico do Pan, exigência prevista no edital?
-- Sob que argumentos avaliar a ética (à luz do próprio edital) de um processo de seleção público, de um órgão federal, que anula e modifica um edital, supostamente, sob pressão de uma instituição governamental municipal?
Não seria um caso típico de má fé pública?
-- Sob que critérios (jurídicos inclusive) justificar que, entre os projetos considerados vencedores do edital, estejam, praticamente, apenas projetos ligados à Prefeitura?
-- Estes estranhos critérios não estariam caracterizando, um repasse direto de verbas da União para uma única instituição governamental?
Seria esta uma regra correta e justa, no caso de editais deste tipo?
-- Que critérios, enfim, se impuseram na escolha, exatamente, destes projetos já que, fica difícil considerar à luz do bom senso, que uma única instituição pudesse ter este mérito exclusivo, esta qualidade absoluta, preenchendo todas as exigências do edital (fator, aliás, que deveria ser cláusula básica desta seleção -- um número limite de projetos por instituição -- para impedir qualquer tipo de manipulação e corporativismo)
Dizem, sempre à boca pequena, que o referido titular desta secretaria, agraciada com mais de dois milhões de reais (para serem gastos em apenas seis meses, repetimos), está pensando em se candidatar à prefeito de uma pacata cidade vizinha.
Se me permitem o exagero (e sem querer ofender os bichinhos) não parece uma espécie de fábula de abutres?.
Sem moral, é claro.
Ou seria uma farra de hienas, aqueles bichinhos ariscos que, enquanto destrincham a carniça, soltam gargalhadas tristes?
E o pior de tudo é que nem o aeroporto funciona mais direito.
Spírito Santo
Número de frases: 125
Rio 10 junho 2007
Foi logo no início das nossas colaborações por aqui.
O Boletim Famaliá, no qual o tema apareceu, atraindo o meu comentário, já freqüentava a minha caixa de e.
mail bem antes disso.
Andava me dedicando ao tema há muitos anos e ele sempre tinha sido, pelo menos para mim, um mistério irresistível, coisas antigas, daquela que mãe da gente conta assim, por entre os dentes, no meio de uma conversa fortuita sobre assombrações:
O Jongo!
Quem sabe o que é isso exatamente?
Para nos situarmos na conversa reproduzo aqui o link do verbete (que eu, fiel à memória do que aprendi e vivi sobre o assunto, criei e disponibilizei no sistema criative commons).
Veja em http://pt.wikipedia.org/wiki/ Jongo.
A natureza das contribuições dos grupos, comunidades e instituições envolvidas no processo deste inventário e, principalmente, o grau de ligação real (conhecimento de causa) dos envolvidos, com relação a uma manifestação cultural tão antiga quanto o Jongo, não estão explicitados no corpo do artigo.
Não se pode deixar de aludir que o Jongo, uma manifestação até bem pouco tempo vagamente conhecida por nossa etnologia, é um tema muito complexo, ligado a uma espécie de ' elo perdido ' -- e sistematicamente subestimado por nossa academia:
O caráter fundamental das particularidades das culturas africanas originais que informaram a cultura negra existente no Brasil.
Esta impossibilidade de se fazer uma avaliação criteriosa sobre o assunto atrapalha bastante a formação de um juízo de valor, uma opinião definitiva a respeito de uma ação de tamanha envergadura, podendo atrapalhar a própria decisão da comissão incumbida de legislar sobre a questão.
É importante se frisar também que se está propondo a implementação de políticas públicas (de certo modo invasivas), ações governamentais que produzirão um impacto importante sobre o caráter de uma manifestação cultural que, cá entre nós, vivendo há mais de um século esquecida na roça, por alguma razão, de repente ' caiu na moda '.
«No decorrer do processo de inventário foi fundamental o apoio da Universidade do Rio de Janeiro (UniRio), do Grupo Cultural Jongo da Serrinha, da Rede da Memória do Jongo, do Grupo Cachuêra e de lideranças de várias comunidades jongueiras ..."
O pleito por a transformação do Jongo em patrimônio imaterial (objeto da matéria do Boletim Famaliá neste link: http://www.overmundo.com.br/blogs/artigo jongo patrimonio imaterial brasileiro) -- por sua inusitada relevância nos dias de hoje -- me parece um tema por demais polêmico.
Fico mesmo surpreso que ele não esteja sendo amplamente debatido, pelo menos em seu âmbito mais direto.
Eu penso que patrimônio cultural material ou imaterial são conceitos bastante óbvios;
patrimônio material mais ainda, porque neste caso, geralmente, estamos nos referindo a artefatos, obras concretas, acabadas, que não são muito passíveis de intervenção, transformação, ou mesmo apropriação.
O grande X da questão na verdade é mesmo esta palavra de peso tão forte:
Apropriação.
Afinal, por que se apropriar?
Quem tem necessidade de se apropriar?
Ninguém tem necessidade de se apropriar de sua própria cultura, conclusão pra lá de óbvia, não é mesmo?
Logo ' alguém ', por alguma razão (que não discuto ainda) só pode querer se apropriar da cultura do ' outro ', daquele culturalmente diferente, claro!
' Nós ` e os ' outros '.
A velha dicotomia.
Temos um problema bem controvertido aí, vocês não acham?
Esta mesma questão nos leva à outra:
O Registro.
Parece óbvio mas vale a pergunta:
Por que registrar?
Já veiculamos e registramos cultura por intermédio das chamadas linguagens artísticas, melhor entendidas, a grosso modo, como Arte, Mídia, ou seja lá o que for.
Parece que, de uma forma ou de outra, o homem sempre encontrou maneiras, muito eficientes e sofisticadas até, de veicular (transmitir, disseminar, etc.) seus pontos de vista, pensamentos, sentimentos, sua cultura enfim.
São estas formas de comunicação que acabam cristalizando certos aspectos de uma manifestação cultural, gerando os tais ' registros ', imprecisos, geralmente codificados em intrincadas simbologias, esoterismos, etc. (como os da literatura oral, por exemplo) mas que, mesmo no caso das mídias mais modernas, não passarão jamais de ' flash backs ', imagens virtuais do que já foi, do que ' já era '.
Em este aspecto do Registro e como argumento preservacionista, a discussão costuma se basear também na comparação entre mídias ' modernas ` e ' arcaicas '.
A transmissão oral (a memória das pessoas contidas em sua arte) seria a mídia imperfeita, frágil, enquanto que a literatura ' culta ', a Internet e suas diversas mídias correlatas seria o processo ' novo ` e, por conseqüência, perfeito.
Por meio da transmissão oral perderíamos gradualmente o foco, a manifestação se esmaeceria e perderíamos uma peça de nosso ' patrimônio ' cultural.
Patrimônio? Imaterial?
Em uma sociedade tão corrupta como o Brasil vale perguntar:
Patrimônio Imaterial de quem, «cara pálida»?
O fato é que, ao que parece, não é correto intervir muito nestas coisas, assim como donos da verdade, como um grupo social isoladamente -- uma ' elite ` portanto, decidindo que aspectos da cultura de uma sociedade devem e quais não devem ser preservados.
Isto é menos correto ainda quando não pertencemos àquele meio cultural específico, ou quando somos de contexto social diferente daquelas pessoas que praticam aquilo que estamos querendo ' preservar '.
Aí o perigo é muito grande porque, quando dominamos meios de registro rápidos, modernos, estando diante de culturas cujo principal mídia ainda é a transmissão oral, acabamos nos iludindo e achando que ' copiar ' Cultura ` é o mesmo que ' fazer ' Cultura.
É quando nos arriscamos a entrar no campo da apropriação (copiando a Cultura do ' outro ` com estranhos fins) ou, o que é pior, participando da criação de um modelo ' fake ` daquela cultura, ' desvirtuando-a ' completamente e aí sim contribuindo, decisivamente, para neutralizá-la e destrui-la.
Com efeito, a parte crucial -- e surprendente-de a matéria (extraída do documento oficial do Iphan) é aquela que, a título de melhor justificar a pertinência do pleito, diz o seguinte:
..." As crianças, por exemplo, que durante muito tempo não podiam freqüentar as rodas de jongo, hoje são estimuladas a aprender o canto e a dança de seus ancestrais.
E em muitas comunidades, hoje em dia, não é mais necessário ser filho de jongueiro para ser considerado jongueiro.
A aproximação de pesquisadores e estudiosos, bem como, mais recentemente, de jovens das camadas médias urbanas, fez com que a participação numa roda de jongo não seja mais limitada aos membros das comunidades jongueiras.
Além disso, algumas comunidades passaram a fazer apresentações artísticas, nas quais as rodas de jongo acontecem sob a forma de espetáculo."
Este tipo de processo de apropriação, como o se processa agora com o Jongo, com o alegado intuito preservacionista, costuma ser muito comum em países onde a sociedade é muito desigual, muito dividida (como é o caso do Brasil).
Aliás o fenômeno anda se tornando por demais ocorrente em grandes centros urbanos, envolvendo outras manifestações tais como o Samba tradicional carioca, o Maracatu e outras manifestações tradicionais, outrora exclusivamente ' populares '.
De um lado pessoas com muitas posses e pouca ou nenhuma identidade cultural, engolfadas e, de certo modo, envergonhadas de seu ' verniz ' estrangeiro '.
De outro, pessoas muito pobres mas com uma cultura tradicional, muito original e de grande personalidade, reconhecida academicamente como ...
Cultura'Nacional ' brasileira.
Acabam uns querendo se apropriar (geralmente com os tais estranhos fins, geralmente pecuniários) da Cultura dos outros.
Afora outros comentários possíveis acerca da pouca relevância dada no texto do Iphan à essencialidade antropológica das tradições expressas por o suposto passado do Jongo (que justificariam, por exemplo, a participação apenas de iniciados), afinal de contas, como justificar a pertinência do pleito por a transformação de uma manifestação cultural em patrimônio imaterial (um atributo apenas justificável se comprovada sua perenidade e autenticidade) se, ao mesmo tempo se ressalta -- ou na verdade quase se propõe -- a sua completa descaracterização, o seu ' aviltamento ' sociocultural, sua banalização travestida de popularização?
O fato é que não adianta muito gravar um DVD sobre a exótica cultura de pessoas muito diferentes da gente ou tentar convencer estas pessoas a praticar a Cultura que nós, do alto de nossa suposta ' sabedoria acadêmica ', achamos que elas devem praticar.
Em o final serão sempre elas, as pessoas, que decidirão.
Se quisermos praticar também a cultura que elas praticam, tudo bem, que entremos na dança pois, mas nunca sem antes mergulhar de cabeça no jeito de vida de elas, se possível nos transformando em elas também.
Afinal há que se pagar o preço da travessia, perder o'verniz ', ' trocar a pele ' (já que, aparentemente, não existe neutralidade em Cultura).
O certo é que não dá pra se ter um pé na sala e o outro na cozinha.
É melhor procurar, com ética e sinceridade, a nossa turma.
Um saião de chita estampada não fará jamais de uma garota de Ipanema uma jongueira ou uma caixeira do Divino.
Há também o recurso natural de se incorporar elementos extraídos da cultura tradicional em nossa cultura pop, relendo, fundindo, criando novos gêneros híbridos, um recurso que sempre gerou excelentes resultados artísticos em nossa música popular ou ' contemporânea '.
O que não se pode, de jeito nenhum, é sub-repticiamente trocar a cultura do ' outro ` por uma ' adaptação ', de modo a trocar a cópia por o original (que passa a ser o'falso ', o impuro), ocupando no contexto da cultura tradicional de uma sociedade, o lugar que era do ' outro ', justamente no que diz respeito a auferir algum tipo de benefício, verbas, patrocínios, etc.
Não seria o caso de se debater mais profundamente o assunto, antes que seja tarde demais?
Número de frases: 67
A estréia do argentino Diego Simeone como técnico de futebol pode servir de lição a seus colegas brasileiros
Um drama daqueles que não se vê há muito tempo nos estádios brasileiros movimentou o final da Clausura -- o segundo dos dois torneios nacionais de futebol da temporada Argentina.
Enquanto por aqui o Brasileirão começa sem surpresas e extremamente equilibrado, nossos vizinhos tiveram a sorte de assistir a um daqueles acontecimentos que o torcedor dedicado não esquece jamais.
Em um campeonato por pontos corridos conquistado por antecipação por um Boca Juniors sem brilho, as emoções fortes ficaram por conta da luta do tradicional Racing Club de Avellaneda contra o rebaixamento.
Em demonstração de amor à camisa rara no futebol de hoje, o veterano Diego Simeone comandou uma recuperação espetacular da equipe.
Falência, crise e ameaça de rebaixamento
Ao cabo de 15 anos no futebol europeu, Simeone voltou à terra natal em 2005 para encerrar sua carreira defendendo pela primeira vez as cores do Racing, seu time do coração.
à altura da sexta rodada, essa parecia ter sido uma decisão das mais equivocadas.
Ameaçada por o rebaixamento, a equipe de Avellaneda tinha apenas um ponto na tabela e amargava a crise mais grave desde a declaração de falência do clube em 1999.
Há sete anos atrás, o Racing quebrou e esteve por um triz do leilão de sua sede social.
Uma iniciativa dos torcedores ajudou a sanear as finanças e tirar a sede do prego.
A conquista da Apertura em 2001 não foi suficiente para afastar de uma vez por todas a maré ruim.
Sem dinheiro e mal administrado, o clube adotou uma política austera de poucas contratações e diminuição dos salários -- que, ainda assim, continuam sistematicamente atrasados.
Essas novas diretrizes conduziram a equipe aos maus resultados que derrubaram o técnico Teté Quiroz na quinta rodada.
Foi então que os planos de uma aposentadoria tranqüila de Diego «El Cholo» Simeone foram por água abaixo.
Mesmo hostilizado por a torcida e sem receber em dia, o truculento volante aceitou o convite da diretoria e pendurou as chuteiras antes da hora para assumir temporariamente o posto de técnico da equipe.
«El amor no sabe de gerenciamentos "
Apesar dos tropeços nos primeiros jogos, o técnico de primeira viagem conseguiu imprimir ritmo à equipe, que emplacou uma série de quatro vitórias e um empate nos últimos cinco jogos.
A torcida, entusiasmada, passou a comparecer em massa aos estádios e os jogadores passaram dedicar verdadeira devoção ao Cholo.
Cada gol era comemorado por os jogadores com abraços no ex-companheiro de cancha e nos integrantes de sua comissão técnica.
Em as últimas rodadas, já livre da ameaça do rebaixamento e idolatrado por a torcida da «Academia» -- apelido carinhoso do clube de Avellaneda -- Simeone manifestou em entrevistas à imprensa argentina o desejo de continuar no comando do Racing.
Mas não foi atendido por os gerentes da empresa que desde 1999 é responsável por a gestão do clube, a Blanquiceleste S.A..
Carlos «Mostaza» Merlo, que levou a equipe ao título nacional em 2001, foi contratado para ocupar seu cargo no segundo semestre de 2006.
«É injusto que eu não possa seguir treinando o Racing.
Pretendo voltar em breve», disse ao recusar um cargo de assessor que a direção lhe ofereceu em desagravo à contratação de Merlo.
A despedida de Simeone aconteceria, portanto, no último jogo da Clausura, contra o Newell's Old Boys.
A equipe azul e branca encontrou o estádio coberto de faixas de apoio ao treinador.
Uma de elas sintetizava a situação com perfeição.
Agradecia ao treinador e mandava um recado aos dirigentes:
«Gacias, Cholo.
El amor no sabe de gerenciamentos».
A torcida homenageou Simeone durante os 90 minutos.
Quando o canto de «Oleolê, Oleolá, El Cholo es de Racing, es de Racing de verdad» tomou o Cilindro -- alçapão do Racing em Avellaneda -- o volante que jogava com a faca entre os dentes olhou para o céu e chorou copiosamente à beira do gramado.
«Tenho orgulho de ter jogado, treinado e livrado do rebaixamento o clube do qual sou torcedor», disse, emocionado, ao fim da partida.
Em meio à comoção, o zagueiro Cláudio Ubeda, jogador mais experiente do plantel, fez um diagnóstico preciso do problema.
«Espero que em algum momento possamos conseguir alguma estabilidade na permanência de um técnico e na estrutura da equipe para que o trabalho de todos possa dar frutos, mas, para isso, é fundamental ter paciência e tempo», protestou.
Incompetência e personalismo
A breve relação de Simeone com seu clube é de um gênero que vem desaparecendo rapidamente no Brasil.
Ela pertence a um outro tempo.
A o passado.
A aposentadoria de Carlinhos, o mitológico comandante rubro-negro, a morte de Telê Santana e a fragilidade física de Zagallo são sinais dramáticos desse processo.
São personagens que encarnam o amor à camisa e o gosto por o bom futebol.
E são, cada um à sua moda, paradigmas da discrição que a função pede.
Nada que se pareça com os Napoleões de opereta encastelados na maioria dos clubes brasileiros, dos mais inexpressivos aos mais tradicionais.
Qualquer uma das declarações de Wanderley Luxemburgo, a truculência do incensado Geninho e o comportamento pouco ético de Paulo César Gusmão em sua recente saída do Botafogo atestam a decadência da maneira inteligente de pensar o futebol.
Os técnicos brasileiros têm assumido uma postura cada vez mais personalista que é sistematicamente alimentada por os clubes e por a imprensa esportiva.
A incompetência à beira do gramado se transforma em empáfia nas mesas redondas, onde não são jamais confrontados por jornalistas e apresentadores, e em salários milionários em clubes cada vez mais mal administrados.
Número de frases: 47
«Solidão é quando a gente não tem com quem falar que está sozinho» (fala do personagem Júlia)
A Via Láctea, de Lina Chamie, é um dos filmes mais intensos e perturbadores que vi ultimamente. (
Pausa. Branco).
Intenso e perturbador são palavras muito enfáticas e contundentes, que mais ou menos encerram a possibilidade de reflexão racional sobre o filme.
Mas é uma reflexão racional o que quero fazer?
O filme não me atingiu racionalmente.
Ele me atingiu fisicamente:
expôs meu oco, o buraco mal disfarçado da minha confusão emocional.
Vesti A Via Láctea por fora e por dentro e sai do cinema repleta das estrelas mortas que ainda teimam em brilhar nesse céu.
Um céu que não começa nas nuvens, mas na epiderme da grama mais rasteira, na nossa epiderme exposta à poesia do caos humano, do caos urbano, do caos do amor, do caldo mal cozido de nossa dor de ser humano e amar e desamar, de pensar e se confundir, de lembrar e ser lembrado.
E de esquecer.
A Via Láctea poderia ser mais um história de amor e desencontro.
Mas Lina Chamie optou por a via mais difícil e bela:
a da poesia.
E transformou seu filme numa obra de arte, no sentido mais amplo e contemporâneo do termo.
Para quem gosta de se ater ao fio da história, a de A Via Láctea é assim:
Heitor, não por acaso um professor de literatura, e Júlia, duble de atriz e veterinária, se encontram e desencontram nos caminhos da grande cidade de São Paulo.
Uma discussão violenta ao telefone faz com que Heitor saia de casa para ir ao encontro de Júlia.
A história se resume na busca de Heitor por Júlia.
E nessa busca ocorre também o encontro de Heitor com ele mesmo.
São as lembranças de Heitor que nos contam sobre o casal e seu amor, tendo como pano de fundo e interlocutores a cidade e o trajeto entre o apartamento de Heitor e a casa de Júlia.
Mais que o cenário desse amor, a cidade de São Paulo é um personagem importante na construção do filme.
São suas vias e seus remansos que determinam a interação entre os personagens.
É a cidade que serve de fio condutor para essa história construída por as lembranças e por a imaginação de Heitor.
Uma história que pode mudar a qualquer hora, pois não há separação entre o que é a lembrança real, o sentimento ou a imaginação do apaixonado enciumado interpretado por um maravilhoso e maduro Marco Ricca (também produtor do filme).
A Júlia de Alice Braga (a Angélica de Cidade de Deus) a princípio parece não existir.
Nós a vemos apenas com o olhar de Heitor, idealizada por o amor de Heitor.
Ela só aparece como Júlia no fim do filme.
E ai percebemos a grandeza da atriz Alice Braga, que sutilmente construiu o personagem mítico que Heitor ama e o personagem real Júlia.
Toda a narrativa é construída com a matéria bruta da mente de Heitor e amalgamada com a poesia de Carlos Drummond de Andrade e Mário Chamie, entre outros.
E também com a música de Gil, Satie e Mozart, misturadas à clássica abertura de desenho animado, o burburinho da cidade e a participação luxuosa e dionisíaca do Grupo Oficina.
Tudo isso sobreposto às imagens poéticas da fotografia de Kátia Coelho e a primorosa direção de arte de Mara Abreu formam um palimpsesto de sentidos às vezes difícil de decifrar.
Mas que toca na alma da gente com força.
Um material delicado e denso que Lina Chamie e a equipe dominam com absoluta precisão e delicadeza.
Número de frases: 34
Um roteiro bem construído que a fotografia, o som, a direção e a atuação souberam interpretar com a maestria de quem trabalha com o coração desperto.
Sábado 21 de Outubro de 2006 Logo que decidi comprar o passe de 20 filmes eu pensei " Eu merecia ganhar a programação e o catálogo.
Já torrei uma grana no passe, o mínimo que podiam fazer é me dar isso."
Pois bem, na fila para pegar ingressos do dia seguinte descobrimos que tínhamos de fato direito à programação e um poster, e os coletamos devidamente.
Filme 1 -- Dias Gelados.
Cine Bombril. 14:10
Como não tinha reservado ingresso, peguei a fila da bilheteria normal.
Uns amigos apareceram e pediram que pegássemos ingressos para eles.
Totalizando duas pessoas pegando quatro.
Fôssemos dois casais de namorados, ninguém veria problema, entretanto as pessoas imediatamente atrás ficaram enfurecidas, mas como sempre ocorre nessas situações, não falaram com nós, falaram para o ar.
Como não estavam falando com mim, eu não ouvi.
Provavelmente chamaram alguém de mau-educado, de cult, falaram algo sobre os pobre-coitados que têm que comprar ingressos (estranho, eu paguei por os meus).
Esse lance de cortar a fila é meio um dilema pra mim, eu geralmente não ligo.
Mas olha o abuso:
o cara na minha frente comprou cinco ingressos.
Depois do almoço, minha primeira visita ao Cine das mil e uma utilidades.
E foi uma reação mista.
O café é bom, e um preço legalzinho, 1.40. Bem mais barato que no Vienna na entrada do Conjunto Nacional.
Entretanto, os direitos dos não-fumantes não são observados já que eu e umas outras pessoas fumamos ao lado de uma placa de proibido.
A sala em si tem poltronas fantásticas, largas e macias e com um descanço de braço sensacional, o defeito fica no encosto da cabeça que te projeta para a frente.
Já a projeção foi problemática.
Em dado momento o filme passou uns belos minutos fora de foco.
Strike 2 para o Bombril.
Encontrei vários conhecidos, inclusive meu primo e sua mulher em momentos completamente distintos.
Depois do filme há tempo suficiente para uma esticada até a Galeria do Rock e aquela ao lado que não me lembro o nome, mas que tem as lojas boas de CD (sem propaganda!).
Filme 2 -- Fica Com mim.
Cinemateca. 20:30.
Há uma pequena corrida por a cidade para pegar os ingressos dessa e da próxima sessão e buscar a namorada do meu amigo.
Em a Cinemateca, a mulher logo atrás fica preocupada por não ter credencial para comprar ingressos, e explica com um forte sotaque chinês que é estrangeira.
Chegamos sãos e salvos à sessão, e a tempo de mais um cafezinho.
Mesmo preço do Bombril mas com direito a açucar mascavo e canela.
Além disso, há um outro charme na Cinemateca (mesmo sob reforma).
Pra quem não sabe, o lugar costumava ser um matadouro, o prédio é bonito e não tem nada de modernoso (um contraste à sala Bombril), com exceção do banheiro, que é um dos banheiros mais legais que já usei.
Infelizmente, a sala é pequena, e as poltronas só tem a vantagem de estarem bem conservadas.
Nenhum problema na projeção.
Já o público conseguiu ser o pior até agora:
um grupinho atrás de mim fazia comentários idiotas, e no começo da sessão um de eles fez uma ligação (!).
Filme 3 -- The Punks Are Alright.
Sala Uol. 23:50.
A Sala Uol tem dois grandes problemas.
Primeiro, é uma das grandes isoladas da mostra, um lugar meio chato de chegar, na boca da Vila Madalena -- especialmente problemático num sábado à noite.
Mas tivemos sorte e ainda dava tempo de fazer uma boquinha.
Surgiu então o segundo problema:
quase não há lugar decente imediatamente perto.
Andamos alguns quarteirões para comer uns churrasquinhos até que apetitosos.
A vantagém da sala é o seu tamanho:
enorme. Nada de modismos stadium, mas nada de visão ruim também.
Não havia muita gente, e gostei do filme.
A boa surpresa no final foi a presença do diretor Douglas Crawford que respondeu a algumas perguntas.
Depois, posou para uma foto e pediu que eu mandasse minha crítica overmundiana a ele, e-mail que estou devendo ainda, aliás.
Número de frases: 50
A noite terminou por volta das duas da manhã, quando começa a postagem aqui e mais uma vez durmi o ao som dos pássaros madrugadores.
Tunuka, Tunuka bála
Ki tem koráji, é só Tunuka di meu
Sukuru ka das-l kudádu,
Ka duer-l xintidu, ki fari duer-l korasom.
Os versos acima, em criolo cabo-verdeano, são embalados por um som composto de elementos muito familiares.
O fraseado de violão, o jogo percussivo, a língua de vogais livremente pronunciadas.
É uma sensação diferente de reconhecimento e surpresa, de se estar chegando a um lugar novo e revisitando ambientes antigos, onde estão impressas nossas origens ancestrais, ibérica e africana.
Tudo no mesmo compasso.
Quem nos guia é uma voz firme e doce de mulher.
De entre as muitas cantoras que certamente existem em Cabo Verde e em toda a África, a que representava para o resto do mundo as vozes femininas do continente negro de hoje era -- e ainda é, principalmente -- Cesária Évora, com seu canto de «sodade».
Mas a terra de Évora nos presenteia mais uma vez.
Com seu viço de moça nova (de 22 anos) e seu charme crioulo, Mayra Andrade nos leva de barco com seu canto ancestral cheio de novidade.
«Navega», seu álbum de estréia de 2006, é o disco de uma cabo-verdeana urbana que se considera também parisiense (a cantora mora atualmente na França), depois de ter nascido em Cuba e vivido com seus pais no Senegal, Angola e Alemanha.
Traz doze canções, como ela, mestiças.
A maioria é entoada em crioulo, mas Mayra também canta em português e francês, flertando com o jazz, o samba brasileiro e o afro que vem do arquipélago em que foi criada.
O som de Mayra e sua banda nos contagia a cada faixa.
É uma produção simples, em tons acústicos, livre, divertido, sensual, profundo, cheio de balanço e saudade.
A maioria das letras falam das alegrias e dos dilemas próprios do povo cabo-verdeano.
A «pegada» brasileira " pode ser explicada, em parte, por a formação de sua banda:
o percussionista é o brasileiro Zé Luis Nascimento, que tem como companheiros de palco os compatriotas Tarcisio Gondim e Nelson Ferreira nas guitarras, além do virtuoso Hamilton de Holanda, no bandolim.
Também nas cordas, o cabo-verdeano Kim Alves integra o lado africano, junto o baixista, Etienne Mbappé dos Camarões e Régis Gizavo, de Madagascar, no acordeon.
A relação de Mayra Andrade com o Brasil não pára por ai.
Suas amigas de infância eram brasileiras e a cantora já esteve aqui e cantou com Chico Buarque e Lenine representando seu país numa campanha contra a AIDS.
«Navega «traz como faixas bônus» Samba e Amor «(de Chico) e» Felicidade» (de Vinícius de Morais), cantadas em brasileiro sem sotaque, perfeito.
A trajetória de Mayra Andrade só está começando e é longa.
Apesar de muito nova, Mayra já mostra uma complexidade e uma profundidade em seu canto e em suas escolhas como artista, costurando suas origens de sua cultura com o que há de mais cosmopolita, universal.
Número de frases: 27
Quem quiser conhecer um pouco mais sobre essa cantora, ouvir suas canções e saber mais detalhes sobre sua trajetória, seu site é o http://www.mayra-andrade.com/
Não sei como devem se sentir os músicos das bandas locais de Recife.
Talvez, da mesma forma que Sísifo, realizando uma tarefa da inutilidade.
Recentemente saiu uma matéria enorme na Continente sobre Le Bustier En Decadence, Mombojó, Profiterólis, Barbies, e outros nomes da inutilidade musical.
O que essas bandas não entendem é que absolutamente ninguém em Recife as escuta.
Nunca vi Mombojó tocar em lugar nenhum -- a não ser em eventos de cunho altamente institucional, onde o apadrinhamento vale tudo.
A sonoridade de todas elas é péssima.
Antes os músicos eram escolhidos em festivais, o sujeito, no mínimo, deveria tocar bem seu instrumento.
Hoje não, tudo é indicação.
Direção de cinema é indicação, jornalismo é indicação, teatro é indicação, estamos num mundo de predestinados.
O irônico é que por mais que os jornalistas da cena local tentem impulsionar esses nomes incompetentes, nada acontece.
Eles insistem em enfiar guela abaixo os vocais terríveis do Mombojó.
As letras pueris de quem utiliza o minimalismo para desculpar a incompetência.
Mas não adianta, nada acontece.
Perguntem a qualquer recifense:
cante um refrão do Mombojó.
Não adianta, não pega.
Todos os dias sai no jornal alguma notinha sobre esses grupos, mas não tem jeito.
Será que foi preciso esse mesmo esforço para levantar Chico Science?
Creio que não.
Será que Sísifo teve que empurrar aquela pedra tantas vezes ladeira abaixo para levantar o Chico Science?
Será que Lenine foi tão forçado assim?
A cena atual de Recife não é pós-mangue, é invísivel -- igual as cidades imaginárias de Ítalo Calvino.
Ninguém vê Nada!
E não é aquele Nada de Émile Cioran, tampouco o Nada construtivo de Bachelard, ou aquele que preenche o ser de Sartre.
É um Nada que fede a lixo e incompetência.
Número de frases: 26
Pelo amor de Deus, arrumem bons vocalistas e bons compositores.
Muito se tem comentado sobre o direito de homossexuais unirem-se em matrimônio.
Há indignação por parte de uns, comemoração por parte de outros.
Por a mídia, acompanhamos manifestações no Brasil e no mundo de casais gays que assumem publicamente suas relações, expondo sua felicidade e sentimento de conquista plena em cerimônias -- oficiais ou não -- e rituais de casamento, consolidando assim, simbolicamente, anos de vida em comum.
A intenção, quando se decide mostrar para as pessoas mais próximas o desejo da união com o (a) parceiro (a), não é chocar ou agredir a sociedade, a Igreja ou as autoridades.
Os homossexuais buscam somente o reconhecimento, perante a lei, daquilo que todos, minorias ou não, têm direito.
No decorrer da vida, conhecemos alguém especial, nos apaixonamos, idealizamos e construímos juntos algo em comum, tanto no que se refere aos sentimentos, quanto no âmbito material.
Ainda hoje, alguns homossexuais enfrentam pontos de resistência da sociedade.
No entanto, aos poucos tentam mostrar que são «normais» como todo mundo e que buscam o mesmo objetivo de uma existência perfeita:
ser feliz.
Muitas vezes o homossexual ainda sofre intolerância no ambiente de trabalho, em casa ou mesmo diante dos colegas quando assume sua opção, ainda mais quando expõe aquele que se ama e convive às pessoas do seu convívio diário.
Mas a maioria já descobriu como administrar esse tipo de situação.
Não mais com agressividades gratuitas, exibicionismo de trejeitos sem fundamento ou máscaras da falsidade, e sim com diálogo sincero, direto e aberto.
Perante a lei já foram conquistadas vitórias importantes, onde a Justiça se fez presente, dando ganho de causa a gays que lutaram por os seus direitos como cidadãos.
Direitos como a assistência médica, pensão, divisão honesta de bens e respeito.
É tudo que se busca e que certamente, num futuro não muito distante, será conquistado.
Número de frases: 16
Então, com satisfação por a «vitória da conquista» dos direitos a que todos têm direito, o homossexual poderá manifestar perante o mundo a sua felicidade junto ao ser amado numa tremenda festa de arromba, com direito a muito champanhe, bolo, flores, fotos, decoração deslumbrante, música de qualidade e muita alegria.
Era 1994, eu tinha dezessete anos, havia acabado de entrar para a faculdade e começava a freqüentar o meio cultural capixaba.
Em aquele tempo, a Fafi era o «point intelectual» de Vitória e Waldo Motta ainda grafava seu nome como «Valdo Motta», mas eu nunca tinha ouvido falar de ele antes.
Em algum daqueles happy hours culturais, bastante comuns nos saudosos anos 90, alguns poetas locais realizaram um recital no anfiteatro da Fafi, por ocasião do encerramento de uma oficina que o Chacal tinha realizado na cidade poucos dias antes.
Um de eles, baixinho, magrinho e com cara de poucos amigos, pegou o microfone, e se apresentou:
«Meu nome é Edi-valdo Motta.
Edi, pra quem não sabe, em gíria gay, significa» ...
e lá foi ele explicar para a platéia que edi era um singelo sinônimo para o impronunciável e familiar orifício anal.
Em a mesa em que eu estava, todo mundo já alto por conta de horas de bebedeira, não teve um que não caiu na gargalhada.
Aí ele começou:
«Em o cu/» Risinhos por toda a platéia.
«Pronto, a bicha endoidou!»,
foi o que eu pensei.
Ainda mais depois que ele encarnou o pastor evangélico, para entoar um texto de nome " Encantamento ":
«Ó Deus serpentecostal / que habitai os montes gêmeos, / e fizestes do meu cu / o trono do vosso reino, / santo, santo espírito / que, em amor, nos forjais, / felai-me com vossas línguas, / atiçai-mo vosso fogo, / daí mas graças do gozo / das delícias que guardais / no paraíso do corpo».
E aí o risinho do começo da apresentação foi se tornando cada vez mais amarelo.
E todo mundo foi percebendo que o negócio ali era seríssimo.
«A poesia é a minha / sacrossanta escritura, / cruzada evangélica / que deflagro deste púlpito.
/ Só ela me salvará da guela do abismo.
/ Já não digo como ponte / que me religue / a algum distante céu, / mas como pinguela mesmo, / elo entre alheios eus», dizia um poema de nome «Religião».
Pronto. Antes do recital terminar, eu já havia me tornado admirador incondicional do cara.
Meses depois, matriculei-me numa de suas oficinas literárias.
Foi uma das melhores coisas que fiz na vida.
De as Oficinas Poiesis, ainda iriam surgir alguns dos nomes mais barulhentos da geração de poetas capixabas nos anos 90 e 00, mas isso já é outra história.
Até porque a história que quero contar aqui é a de Waldo Motta (nascido em 1959 na cidadezinha de Boa Esperança, situada no norte do Espírito Santo), cuja poesia situa-se no cruzamento entre o homoerotismo e uma leitura das Sagradas Escrituras, de uma maneira tão revolucionária e estarrecedora que proporcionou ao escritor muito mais barulho que qualquer poeta local fez no cenário nacional.
E isso sem precisar de sair da ilha para poder ter algum reconhecimento nacional (condição que, infelizmente, ainda hoje é meio que regra para quem quer tentar uma carreira iniciada nas capitais fora do eixo hegemônico deste país).
E é Waldo que nos apresenta sua tão peculiar visão do cruzamento entre sagrado e erotismo na poesia, como podemos confirmar no prefácio de sua coletânea Transpaixão, publicada em 1999:
«Mas a doutrina que prego não é invenção, é uma descoberta:
acredito piamente que encontrei a palavra perdida, secreta, impronunciável, e que nada me impede de anunciá-la, e nem a ninguém, apesar de Borges e do Imperador Amarelo. ( ...)
Fodam-se todos:
o sagrado é o sacro, e o grande segredo é que em nosso rabo está o Santo dos santos, o Céu dos céus.
Por conseguinte, a solução de todos os problemas.
E o povo brasileiro, com seus 200 e tantos sinônimos de bunda, parece intuir esta verdade maior."
Isso já dá uma boa idéia do que o leitor pode esperar de cada um dos livros de Waldo.
Ele afirma ser a sua poesia um «drama espiritual», uma reflexão existencial, fruto de um processo de auto-conhecimento e maturidade.
Essa trajetória se inicia em 1981, ainda no norte do Espírito Santo, com a publicação de quatro livros em tiragens independente, de poesia desbocada, recheada de gírias e episódios afrontosa e assumidamente gays, em franca consonância com o escracho da poesia marginal setentista -- esses trabalhos seriam reunidos na coletânea Eis o homem, publicada por a FCAA / Ufes em 1987, numa espécie de balanço dessa primeira fase da carreira.
Poiezen, publicado por a Massão Ohno três anos depois, já aponta uma série de reflexões metapoéticas que, junto a Waw (palavra hebraica que significa ponte, travessia), marcariam uma transição para a epifania erótico-mística de Bundo, livro de 1995 que revelou Waldo (na época ainda grafado com " V ") no cenário nacional.
A publicação de Bundo e outros poemas (reunindo os então inéditos Waw e Bundo), por a Editora da Unicamp, em 1996, logo atraiu os olhares de diversos figurões das letras brasileiras para a irreverência solene do poeta capixaba.
Isso é o que podemos comprovar neste depoimento Waldo, que transcrevo da gravação que fiz de sua recente participação numa mesa-redonda sobre poesia, realizada em Vitória, no " Centro Cultural Up:
«Sempre fui considerado um poeta indecente, obsceno.
Isto porque eu sempre misturei baixo calão com alto calão.
Palavras difíceis, eruditas com palavras sujas, enlameadas, gosmentas.
E não só por esta mistura de registros, também por a temática.
Eu sempre me assumi como homossexual, não é uma palavra da qual eu goste, mas não tenho outra.
E sempre fui muito místico.
Logo, nas minhas pesquisas, estudos, aquilo que para muita gente não tem nada a ver eu descobri que tem muito a ver.
Sexualidade com religião.
O mais chocante de tudo é que nas minhas pesquisas quanto mais eu procuro Deus, o sagrado, eu sempre acabo chegando aos ' países baixos ', a uma geografia muito interessante do corpo humano. ( ...)
Desde o início da história humana, existem tabus.
E o que eu descobri nas minhas pesquisas e que reflete na minha poesia, é que a sexualidade é tanto a perdição quanto a salvação da humanidade».
Apesar de recusar o rótulo de «autor gay» que a então dominante tendência dos «estudos culturais» tentou lhe conceder na década de 90, Waldo foi tema de artigos, resenhas e textos diversos de Iumna Simon, João Silvério Trevisan, Célia Pedrosa, José Celso Martinez Corrêa e Ítalo Moriconi, entre outros.
Sem contar que foi incluído por a Heloísa Buarque de Holanda na antologia Esses poetas (1998), que reunia a nata da geração 90 da poesia brasileira.
Waldo ainda participou de programas como o Writer-in-residence, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, além da bolsa concedida por o Departamento de Cultura de Munique, em 2001, que lhe permitiu concluir o poema anagramático Recanto, que se tornou sua mais recente publicação, em 2002.
E qual seria a receita para a poesia de Waldo?
Para ele, a poesia tem que fazer jus à origem do termo (do grego poiesis) -- descoberta, invenção, criação de realidades através do verbo:
«Mas também descoberta de realidades e mundos ignorados, outras Américas e terras prometidas», complementa, explicando que, para obter tais resultados, ele faz uso de recursos pouco usuais como interpretação de sonhos, numerologia, cabala, anagrama, estudos etimológicos de línguas como o hebraico, o yorubá e o tupi-guarani, além, é claro, dos textos sagrados oriundos de diversas tradições místico-religiosas.
A isso, Waldo dá o nome de «método paraclético», um método apocalíptico, escatológico, que pretende discutir exatamente o» fim das coisas».
Afinal, poesia, para ele é também vaticínio, profecia, sendo o poeta, dessa forma, a «antena da raça» de que tanto falava Ezra Pound.
Além de Pound, Waldo também me faz lembrar um outro nome fundamental do século XX:
Jean Genet. Não só por a proximidade com uma certa marginalidade, mas também por uma opção extremamente sincera por viver de literatura (e Waldo leva isso tão ao pé da letra, ao ponto de residir, até o final da década de 90, num minúsculo porão no centro de Vitória, rodeado de livros e escritos, exatamente o período em que sua literatura mais freqüentou os cadernos culturais dos principais jornais de circulação nacional).
Em o prefácio de Bundo, Waldo escreve:
«Minha poesia é uma síntese de meu projeto de vida, uma aventura em busca da Verdade, intuída como a ciência da restauração da condição divina ( ...).
Não quero apenas escrever, mas também ser o que escrevo.
De aí o entusiasmo e o tom solene, porque é algo sério;
daí o caráter pregacional, mesmo que o meu discurso esteja ainda em construção."
É ainda nesse texto que ele afirma propor em Bundo o cruzamento entre o «amor que não diz seu nome» e o «nome impronunciável» ou «palavra secreta», tão presente nos textos esotéricos e freqüentemente associada à poesia.
Uma mistura explosiva, não?
«Eu quero ser lido, entendido, debatido, assimilado, apedrejado, amado, babado, beijado por todo mundo.
Mas não posso negar que sou perverso, perversejador.
Eu sou perigo, sou um grande problema.
Porque sou muito radical em tudo que faço.
Arte, poesia é uma questão para mim de vida e morte», afirma o escritor.
Para Waldo, a salvação não deixa de ser «uma senda erótica», como comprovam versos como os do poema» As brincadeiras sérias ":
«Só pode amar quem moeu / seu eu na amorosa mó, / e desse pó renasceu».
Número de frases: 74
Convenhamos: afirmar isso, numa época em que boa parte da literatura brasileira tem tão pouco a dizer, já é mais do que suficiente para iniciar um grande debate, não acham?
Este texto começou como um comentário no meu texto anterior, o " Graforréia Xilarmônia:
um caso a ser estudado».
Comecei a comentar em cima do que o Edmundo Nascimento tinha dito e vi que aquilo podia render mais do que um comentário.
Venho fazê-lo, pois.
:: [adendo] Estava se falando sobre a parceria que Frank Jorge vai fazer com a banda pernambucana Volver no Abril Para o Rock 2006 ...
Pois é.
Dizia eu que assisti ao show do Volver no APR do ano passado ...
Boa banda.
De essas que têm surgido no Recife, com uma pegada mais pop, é a que mais me interessa.
Não curto tanto a Rádio de Outono, por exemplo.
Parafusa também é legal, mas é outra onda.
A Superoutro, que tocou lá no APR2005, também era bacana, se aproximava de um rockão mais climático, não tão pop, mas com belas faixas.
De eles, não ouvi mais falar.
Não sei se ainda estão de pé.
Tomara que sim.:::
A mistura do Volver com Mr. Jorge parece que vai ser interessante.
Queria ver isso acontecendo mais freqüentemente no rock nacional, essa aproximação de gerações.
Quer dizer, não só no rock como na música brasileira de forma geral.
São poucos os casos como Paulo Moura e Yamandu, Orquestra Imperial e Wilson das Neves ...
Principalmente quando se trata de aproximações para Criar, Compor.
Essas são muito escassas ...
Só rolam assim, pra fazer uns showzinhos e tal, criar um alarde, uma justificativa para vender a apresentação.
No máximo, um coroa chama alguém mais novo para produzir o seu disco.
Não sai disso.
Não se vê nenhum dos nossos sessentões apostarem numa nova geração para compor, como Vinícius fez com eles, por exemplo ...
Também não sei se os novos estão procurando.
Se não o fazem, qual a razão?
Reverência em excesso ou arrogância?
Bacana o Frank e o Volver se juntarem, ainda mais sendo de estados aparentemente tão diferentes, de culturas muito particulares ...
Tem tudo pra ser bonzão!
Tomara que isso vá além dos palcos do APR 2006.
Em vez do Pedro Sá apenas produzir o próximo disco do Caetano, eu queria era ver várias músicas de eles assinadas em parceria.
Chama também o Kassin ...
Queria ver o Jards Macalé compor com o BNegão, o Camelo com o Chico Buarque, o Frank Jorge com o Nervoso ou mesmo com o próprio pessoal do Volver, e assim vai ...
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * Não sou especialista em artes plásticas, em pintura, etc, mas será que isso acontece também em outras manifestações artísticas ou é mais na música mesmo?
Em o teatro e no cinema isso não rola.
Fernanda Montenegro cansa de participar de filmes de diretores novatos.
Como diria o saudoso Carequinha, " Tá certo ou não tá?!?!"
«O cada um por si é que é a lei» -- Renato Martins, Canastra * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Número de frases: 40
Bruno Maia escreve no www.sobremusica.com.br Em meados da década de 90, quando o então Ministro da Cultura Francisco Weffort esteve ministrando uma palestra na Universidade Federal de Sergipe (UFS), ele contou sobre as «surpresas maravilhosas» com as quais ele se deparava quando via e sentia a força da criatividade e, na maioria das vezes, também as formas de resistência cultural de nosso povo.
Segundo Weffort, era o melhor que o cargo de Ministro lhe proporcionava.
E foi o que constatei quando estive no dia 20 de abril no povoado São José, em Japaratuba, para assistir às apresentações do IV Caatingarte -- festival de artes daquela comunidade --, representando o «Complexo Cultural O Gonzagão» e a Ong Ação Cultural.
O convite foi formulado por Luciano Acciole, coordenador geral do evento, professor e atualmente vereador da cidade.
Luciano é o tipo de ativista cultural honrado em qualquer lugar aonde ele for, e seu compromisso com a cultura popular chegou até nós a partir dos frutos que ele deixara num dos Colégios onde trabalhou, no conjunto Jardim, região onde lecionei durante alguns anos, e que ajudaram a fortalecer as iniciativas culturais que apoiamos naquela localidade e bairros adjacentes nos anos de 2000 a 2006.
Falando ao jornal Tribuna da Praia, edição on-line, Luciano Acciole explicou os objetivos do festival da seguinte maneira:
«estamos com este evento homenageando as mais bem sucedidas experiências no campo da cultura popular, razão de serem premiadas com o Prêmio de Culturas Populares, do Ministério da Cultura», disse.
Segundo ele, com o Caatingarte, experiência contemplada com o Prêmio através do «Movimento Reação,» oportunizamos aqui uma confraternização dos grupos premiados, quatro de Japaratuba (São João na Roça, Caatingarte, Reisado de Nego e Acompanhamento São Benedito) e dois de Pirambu (Reisado de Sabal) e Ilariô) com os demais grupos folclóricos da região», acrescentou.
«Em Sergipe foram desesseis projetos contemplados, sendo quadro te Japaratuba e dois de Pirambu.
De os quatro de Japaratuba, dois são daqui de o povoado São José, por isso este reunião da cultura popular nesta comunidade símbolo da resistência cultural», completou.
De a nossa parte ao ser convidado para dirigir algumas palavras aos que se faziam presentes, afirmei, em primeiro lugar, que a festa estava linda demais, independente se estavam em baixo ou em cima do palco, por o que pude conferir naquele momento.
Estavam belos os mestres e brincantes de todas as idades, com suas vestimentas multicoloridas e novas, como afirmou com satisfação a brincante Marilene:
os instrumentos novos ou remodelados, as melodias (algumas do nosso conhecimento e outras, não) e o mais importante:
a auto-estima lá em cima, como pude constatar através dos sorrisos estampado nos rostos.
Algumas líderes da festança, como Marilene e Vilma, do grupo São João na Roça, estiveram participando de Seminários e Encontro de Culturas Populares em Brasilia, em 2005 e 2006, e não se deixaram contaminar por o clima de pessimismo de alguns técnicos e gestores culturais que nos acompanhavam e que eram ligados ao governo anterior.
Muitos de eles ainda ocupando posições de destaque, e diziam que aquilo não iria dar em nada, era tempo perdido, promessas vãs etc ...
E foi isso que lembrei a Marilene.
Quando cheguei ao local do acontecimento, disse:
«Pois é Marilene, é tão bom ver o resultado da colheita que plantamos em Brasilia, através de debates, conversas, brincadeiras e apresentações.
Veja só, como é possível plantar e colher ao mesmo tempo, como ter resultados satisfatórios imediatos, como queriam alguns, se nunca antes um governo como o do Presidente Lula dedicou tanto respeito, atenção e cuidado para com as culturas populares e com resultados que logo não tardaria aparecer.
E foi um dos temas que lembrei quando disse que quando os queridos Gilberto Gil e Sérgio Mamberti assistirem ao vídeo do evento eles constatarão que realmente valeu a pena escutar e investir para apoiar aqueles que acreditam e lutam para fazer deste país, um Brasil justo, belo e plural.
Percebemos também da parte do Prefeito Padre Geraldo (PT) o mesmo carinho e atenção que o governo federal manifesta por os mestres e brincantes, e isso é materializado de diversas maneiras:
participando das festas populares, trazendo os restos mortais de Artur Bispo do Rosário para a cidade de Japaratuba, local de seu nascimento, apoiando com recursos materiais e financeiros o próprio festival e a manutenção e subsistência dos grupos, destinando para esse fim, recursos públicos, todos os anos.
E é isso e mais que esperamos do próximo prefeito eleito, inclusive o mais forte candidato ao próximo pleito, Hélio Sobral, e que conta com o apoio de Padre Geraldo e Luciano Acciole, esteve presente e demonstrou que também percebe a necessidade de dar continuidade e de ampliar as iniciativas que visam fortalecer a identidade cultural do nosso povo, no intuito de atingir uma população com a mente massificada por a cultura do consumo imediato, como afirma a carta cultural da periferia elaborada no ano de 2005 em Aracaju e que contou com representação de seis municípios sergipanos.
E para concluir, gostei muito da proposta de incluir trabalhos com oficinas e rodas de conversa, pois, como tenho escrito há alguns anos, é necessário possibilitar o acesso aos meios de produção cultural, ou aprimorar os conhecimentos daqueles que detém o controle desses meios, como artistas, produtores e educadores populares, e não simplesmente investir altas somas de dinheiro tão somente para que os sergipanos continuem como meros consumidores, assistentes, expectadores etc.. daquilo que é produzido artisticamente em Salvador, Rio de Janeiro, Paulo e Belém.
Outro fato importante é a postura de atenção e respeito demonstrada por os moradores que assistiam a todas as apresentações (em especial as da cultura tradicional).
Percebi também que a mesma estrutura de som e palco para os grande shows também estiveram a serviço dos artistas populares.
E, para concluir, a questão da diversidade cultural foi garantida com a apresentação da banda de reggae Reação, da Pagodant (pagode) e Legionários (pop-rock).
Por tudo isso, ganhei o dia, a despeito de alguns contratempos para chegar ao local, e tenho certeza que foi um dos melhores momentos que vivenciei em 2008.
Agradeço a todos e todas que tornaram possível a realização do IV Caatingarte, inclusive aqueles que, por motivo de espaço, não tiveram os nomes citados acima.
Por fim, agradeço especialmente ao jornalista e fotográfo Ronaldo Sales,
autor das imagens que embelezam esse post, por a atenção a mim dispensada.
Número de frases: 32
A estatística oficial mostra que a economia informal ocupa hoje aproximadamente um quarto dos trabalhadores urbanos do país e que, desse total, aproximadamente uma quinta parte se dedica ao comércio de rua, ou ambulante, em suas diferentes modalidades.
A presença do comércio de rua especialmente nas áreas centrais das grandes cidades brasileiras é natural.
Não apenas hoje mas, ao que parece, desde sempre.
De fato, historicamente, a reunião e a movimentação de mercadores nas áreas centrais vem sendo elemento chave na construção daquilo que pode ser denominado como o imaginário de rua das nossas grandes metrópoles.
Os vendedores ambulantes, sugere o Arquiteto Jorge Dios (2007), estudioso do assunto, seriam imprescindíveis na valorização simbólica da cidade bem como em toda a representação urbana.
Diz ele:
sabemos que as representações, juntamente com a economia, o planejamento e a arquitetura, também constroem a cidade e os ambulantes, através da experiência coletiva, seriam marcas de leitura do patrimônio cultural.
O trabalho elaborado no que segue se posiciona nesse contexto e descreve uma situação, pode-se dizer, emblemática nesse campo de estudo, uma situação onde valores simplesmente funcionais e valores de representação se fundem numa situação urbana inusitada;
o Camelódromo da Praça XV localizado na área central de Porto Alegre.
(O Trabalho NA Integra, Encontra-SE A Disposição no Banco De Cultura).
O Camelódromo da Praça XV é o corpo, a materialização, de uma coletividade.
Ocupando o espaço público, a rua, numa condição urbana radicalmente visível e exposta, tanto à intempérie, quanto ao movimento de pessoas -- e a tudo mais que isso venha a ter de positivo ou negativo -- o Camelódromo executa, diariamente, seus movimentos, sem cerimônia, em meio aos edifícios históricos do centro da cidade.
É difícil atribuir individualidade a uma banca isoladamente, já que em muitos casos, a banca foi construída por um, o dono é outro, a mercadoria é de mais um e ainda, ocasionalmente, ela se emenda a uma banca vizinha, e por aí vai.
E cada banca, com seus camelôs-atores, faz parte dessa rede, que se articula num processo de comunicação extremamente rápido e eficiente.
Alguns chamam esse processo de fofoca, outros de conversa fiada.
O fato é que a fala e o gesto entre camelôs, entre camelô e passante, entre camelô e cliente, é o que viabiliza a unidade dessas pessoas a ponto de, em momentos críticos, serem capazes de enfrentar a autoridade oficial e acreditarem em si próprios e na sua capacidade de luta;
com o objetivo único, comum e maior de permanecer na rua.
Descrever o Camelódromo da Praça XV é a questão que motiva a realização deste trabalho;
seus elementos constituintes e, naturalmente, os agentes produtores, as pessoas responsáveis por a produção dessa grande instalação, com seu modo de arranjo.
Como se apresenta, como se comunica, como se levanta a cada dia, toma corpo, e como se desconstitui em inúmeras partes para novamente, no dia seguinte, renascer.
A escolha por o audiovisual, além da escrita, como meio de registro do lugar, se fundamenta no método de análise subjacente à nossa aproximação ao Camelódromo;
o método Polifônico;
que nos levou a registrar os movimentos da estrutura física do lugar, as imagens e vozes dos trabalhadores e os demais componentes estruturais que se manifestam simultaneamente na polifonia urbana, assim conceituada por Massimo Canevacci (2004).
São múltiplas vozes, vindas não apenas da palavra falada, mas também de outras mídias;
visuais, tácteis, olfativas e outras tantas.
A reportagem cinematográfica também resultante deste trabalho, batizada como Anos de Pedra (uma realização da Cooperativa Catarse -- Coletivo de Comunicação, procura registrar essa percepção, de um lugar colorido, com tradição, muito humano e intenso, e que se comunica permanentemente através dessa pluralidade de linguagens.
Assim, ao observarmos o Camelódromo da Praça XV desse modo, através do, assim denominado, método Polifônico, buscamos identificar essa variedade de aspectos que, em conjunto, constituem os diferentes textos originados por aquele lugar.
Os procedimentos técnicos utilizados vieram então, por necessidade, a incluir uma diversidade de modos de registro;
observações anotadas em diário de campo, entrevistas, gravações audiovisuais e ainda, em paralelo, as diferentes tarefas relacionadas à produção da reportagem cinematográfica Anos de Pedra.
Com o andamento do trabalho e as sucessivas visitas, observações, conversas e gravações, a organização do lugar se evidenciou cada vez mais rica.
Uma questão inicial prática, que parecia ser resolvida simplesmente com descrições objetivas de rotinas (montagem e desmontagem de bancas), começa então a se mostrar, a cada passo, mais e mais complexa.
E assim, mais que um relato objetivo, o trabalho se transforma no registro das relações estabelecidas entre a pesquisadora e o universo da Praça XV;
a passagem de uma pessoa estranha por o lugar.
O trabalho registra também uma mudança no modo de perceber o fenômeno Camelódromo.
Esse processo fica evidente ao compararmos o projeto que deu origem ao trabalho, e o resultado final.
O projeto tinha como base teórica as idéias de Hélio Oiticica, sobre a anti-arte ambiental, a Folkcomunicação, de Luiz Beltrão, e o espírito do Situacionismo, a deriva.
Ocorre que muito embora o texto que segue faça pouca referência à linha conceitual inicialmente proposta, ele de fato permeia, a todo momento, o espírito da aproximação ao Camelódromo utilizado no trabalho que acontece então através de três diferentes perspectivas:
a primeira ali buscando encontrar a obra de arte urbana, a segunda observando as formas comunicacionais desenvolvidas no lugar, e a terceira experimentando o Camelódromo utilizando-se da técnica do andar sem rumo, aliada à disposição de, como diz Canevacci, ' tornar-se um corpo cheio de olhos '.
Em esse processo de descoberta, o Camelódromo começa a se mostrar uma totalidade coesa, seja socialmente, como uma corporação, seja fisicamente, como um sistema espacial.
De aí a necessidade que tivemos em agregar uma outra teoria como base para a análise do lugar desde essa perspectiva;
a, assim denominada teoria dos sistemas.
Desde essa perspectiva o Camelódromo se apresenta como um organismo complexo.
Um conjunto, que só se torna possível em virtude de uma unidade, não apenas estrutural -- a semelhança de seus elementos materiais constituintes -- mas também humana.
As pessoas, ali dentro, terminam se identificando umas com as outras, a ponto de desenvolverem, no cotidiano, laços solidários, baseados num esforço conjunto, que naturalmente conduz a uma duradoura vida em coletivo, com muita solidariedade, companheirismo, vivida, em geral, com alegria e, necessariamente, com alguma malandragem.
E tudo isso repercute, naturalmente, na peculiar espacialidade daquele lugar.
O Camelódromo da Praça XV é o povo;
um lugar organizado e vivido por o povo, com um código de leis próprio, um modo de falar, um jeito de ser e de se expressar, uma estética.
Ele congrega comportamentos genuínos da cultura popular da cidade contemporânea.
Como diz Massimo Canevacci, comportamentos ' que a cidade inventa '.
Estudar esse tipo de fenômeno social, econômico e cultural vem se tornando necessário num tempo em que somos bombardeados constantemente com notícias, informações e experiências sobre ações violentas praticadas no meio urbano.
E o vilão da história, em geral, tende a ser o pobre.
Canevacci sintetiza assim a questão:
Se não começarmos a entender qual a direção assumida por os valores e modelos de comportamento que a cidade inventa, as formas ainda mais inovadoras e de vanguarda, a expansão ilimitada da cultura de massas, não se compreenderá nunca como são os pontos de referência, as distorções das partes mais marginalizadas de qualquer pais. (
2004, p. 41)
Este trabalho nasce de um reconhecimento e admiração, por as pessoas que diariamente trazem à existência e dão vida à situações urbanas como a do Camelódromo.
Nasce também, de uma curiosidade, misturada com fascinação, por as formas e cores inventadas por aquele grupo de pessoas que se instala dia após dia naquele espaço da cidade denominado Praça XV.
Partindo do trabalho de um grupo de pesquisa sediado na UFRGS, Universidade Federal do Rio Grande do Sul -- o GEEA, Grupo de Estudos da Espacialidade Contemporânea, sob a coordenação do Prof. Douglas Aguiar -- nosso ponto de partida é um olhar arquitetônico sobre o objeto Camelódromo.
Assim sendo, arquitetonicamente falando, o lugar, apesar de sua carga histórica, é uma manifestação típica da cidade contemporânea;
arquitetura do improviso, que se aproveita de espaços, brechas, falhas e interstícios no tecido urbano para se incrustar, uma arquitetura do movimento, efêmera, que se constrói e deconstrói em curtos intervalos de tempo, nesse caso, em ciclos diários.
As observações, realizadas ao longo de dois meses -- agosto e setembro de 2007 -- foram fundamentais ao conhecimento e à apreensão de diversos aspectos da rotina do Camelódromo;
aspectos esses que não poderiam ser explicados apenas através de uma análise espacial.
As sucessivas visitas foram também importantes ao criar uma familiaridade entre a pesquisadora e os camelôs, ao reconhecê-los no contexto do Camelódromo, conhecer a localização de cada um e as micro-comunidades que se formam entre camelôs localizados num mesmo entorno imediato.
Destaca-se aí naturalmente o papel da comunicação, acontecendo em múltiplas escalas;
entre indivíduos, nas micro-comunidades e na escala global do Camelódromo.
Observando a relação entre os camelôs, as conversas, a convivência diária, as amizades, percebe-se a importância do processo comunicacional na constituição da estrutura espacial e material do Camelódromo.
Não se trata, nesse caso, da comunicação fria, característica da contemporaneidade digital, mas da comunicação quente, pessoa a pessoa;
a fala, o gesto, os sentidos mais básicos.
São esses elementos os que mantêm a coesão da estrutura.
Concomitantemente à realização da pesquisa de campo, tivemos acesso à dissertação de mestrado da antropóloga Prof. Dra.
Rosana Pinheiro Machado (2004).
Essa pesquisa foi fundamental ao apontar caminhos para a elucidação de inúmeros aspectos então obscuros na pesquisa.
E foi uma expressão da fala, própria dos camelôs, o que passou a nortear de ali para frente a realização do trabalho, a busca por entrevistados e, conseqüentemente, muito do conteúdo coletado para elaboração deste trabalho escrito.
Anos de Pedra, essa é a expressão que dá significado aos muitos anos passados trabalhando no asfalto, na ' pedra ', enfrentando frio, calor, chuva, problemas de saúde, fiscalização, e todas as incertezas que envolvem a rotina do vendedor ambulante na busca do seu sustento.
São anos marcados na pele;
anos de luta na rua.
Em a busca de um olhar polifônico sobre o Camelódromo da Praça XV, foi realizado um conjunto de entrevistas;
as, assim denominadas entrevistas em profundidade semi-estruturadas.
Em a linha sugerida por Jorge Duarte (2006, p. 62-63), a entrevista individual em profundidade é uma ' técnica qualitativa que explora um assunto a partir da busca de informações, percepções e experiências de informantes para analisá-las e apresentá-las de forma estruturada '.
Esse tipo de metodologia permite identificar diferentes maneiras de perceber e descrever os fenômenos.
Assim, é através da experiência subjetiva de uma fonte que a entrevista fornecerá informações sobre uma realidade qualquer a ser apreendida e, num passo seguinte, descrita.
A técnica de entrevista utilizada foi a, assim denominada, semi-aberta, que se vale de um roteiro de temas e questões que norteiam a conversa com cada pessoa entrevistada.
Foram abordados diferentes assuntos com as diferentes pessoas, sendo as ênfases adequadas às características do informante, isto é, sua função no Camelódromo (dono de banca, auxiliar, carregador, cavaleiro, sindicalista) e seu tempo de pedra.
Além dos registros com os camelôs, foram realizadas entrevistas com representantes da autoridade oficial, isto é, os funcionários da SMIC, Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio.
Também como parte da pesquisa, foi realizada uma entrevista com o antropólogo Massimo Canevacci, a qual está anexada, na íntegra, no final deste trabalho.
A entrevista teve como temas centrais a metrópole contemporânea e o assim denominado, método Polifônico.
A conversa com o pesquisador foi fundamental na tentativa de compreensão e visualização do fenômeno cidade contemporânea, a partir do método Polifônico, o qual se diferência na essência do enfoque tradicional de espaço urbano, especialmente no que diz respeito à necessidade de delimitação espacial inerente a essa disciplina.
Canevacci, na mão contrária, atravessa e vai além do concreto, do visível da cidade;
finda com seus limites materiais e a torna um espaço virtual de contornos praticamente indefiníveis.
O Camelódromo se encaixa nessa lógica, nessa prática, e passa a ser percebido de modo ampliado com relação a nossa percepção anterior mais localizada do fenômeno.
Sem embargo, o olhar espacial-local segue igualmente como foco do trabalho, especialmente no que se refere a temas tratados diretamente com os camelôs e com representantes da autoridade oficial.
Todas as entrevistas com os camelôs foram registradas em vídeo constituindo uma peça audiovisual com caráter documental;
a reportagem cinematográfica mencionada acima.
Outras entrevistas, com órgãos oficiais e pesquisadores, foram feitas com gravador de áudio.
Houve também registro, em diário de campo, de conversas informais com camelôs, nas quais estes tratam igualmente dos temas sobre os quais esse trabalho versa.
As gravações audiovisuais foram iniciadas no ano passado, em setembro de 2006, como parte do projeto Arquiteturas Off-Road, vinculado ao grupo de pesquisa acima mencionado.
O objetivo inicial do documentário foi registrar a assim denominada arquitetura do movimento produzida por os camelôs da Praça XV.
No entanto, ao longo do tempo e das visitas, os processos e os modos de comunicação passaram a ter um peso maior como tema a ser abordado nas entrevistas, ultrapassando ocasionalmente a importância inicialmente conferida ao Camelódromo como artefato espacial.
Contudo, apesar do tema comunicação ter sido abordado por os camelôs em diversas entrevistas, foi através de observações que os momentos de maior riqueza foram revelados, especialmente no que se refere ao conhecimento das relações e do papel da fala e do gesto na organização do espaço e no convívio dos camelôs.
Registramos inicialmente a ação, o movimento do Camelódromo no verão e seguimos observando e registrando ao longo da mudança das estações, até a chegada do inverno, gravando em situações extremas de temperatura, umidade, sensação térmica, etc..
A edição e a montagem do filme foram iniciadas enquanto ainda fazíamos gravações.
Durante essa etapa diversas dúvidas surgiram com relação à informações vindas dos camelôs.
Em esse processo, ficou evidente a importância de que fosse aprovado por eles todo o conteúdo do vídeo;
uma vez que era da situação social, econômica, cultural e política, de cada um de eles, e do grupo, que o documentário estaria tratando.
Assim, tendo um primeiro corte de 30 minutos concluído, duas cópias do trabalho foram entregues a eles.
As cópias circularam por a mão dos participantes e de outros camelôs que vieram a participar no decorrer das gravações.
Uma das cópias foi entregue à Patrícia, descendente de uma família tradicional de camelôs e ela também hoje uma camelô, que veio a gerenciar a circulação do vídeo entre os colegas.
Patrícia participou das primeiras entrevistas feitas para o documentário em outubro de 2006 e tornou-se uma pessoa fundamental em nosso percurso dentro e através desse universo que é o Camelódromo.
Diversas referências são feitas a ela, durante este trabalho escrito, como nossa camelô-guia.
Quando entregamos as primeiras cópias aos camelôs, o trabalho já havia sido batizado como Anos de Pedra.
Muito perspicaz, Patrícia imediatamente percebeu a falta justamente daquilo que o título representava, ou seja, camelôs com muita experiência, com muitos anos de estrada.
Até então boa parte das entrevistas havia se concentrado em pessoas jovens e com funções de apoio no Camelódromo.
Assim, foi Patrícia quem acabou nos conduzindo até aqueles com anos de pedra;
os camelôs antigos, que levam a história e a luta marcadas no corpo e na memória.
Este trabalho, portanto, acontece também através do olhar de uma camelô, que já faz parte de uma segunda geração de camelôs do Centro de Porto Alegre.
Seu pai, Seu João, iniciou uma história como vendedor ambulante, e os três filhos seguiram seus passos.
Patrícia, com 28 anos, tem dois filhos e esses, nos finais de semana, seguindo a tradição familiar, já vêm com a mãe para o Camelódromo;
anunciar, vender, barganhar, aprender a vida e a lida do camelô.
O surgimento e a maturação dessa relação foi fundamental na qualidade do material gravado.
Os camelôs são uma classe extremamente exposta e vulnerável às decisões do poder público.
Além disso, sofrem ataques e críticas constantes dos meios de comunicação.
A presença de uma câmera naquele lugar é, na maior parte das vezes, uma ameaça.
O fato de eles terem um retorno nosso e saberem o objetivo do trabalho, veio a nos dar acesso a muitas pessoas das quais, possivelmente, jamais teríamos a confiança não fosse essa construção diária de uma relação através de alguém lá de dentro.
Sem embargo, em diversas situações de conversas informais, foram feitos comentários por os camelôs que posteriormente, nas entrevistas em vídeo, não conseguimos registrar.
O motivo, certamente, é a presença da câmera, que freqüentemente inibe as ações e as reações das pessoas.
E certamente, um outro motivo é a perda da naturalidade que ocorre normalmente ao relatarmos uma mesma história, uma segunda vez, para uma mesma pessoa.
Ainda no processo de produção do audiovisual, outra questão importante a ser mencionada foi a necessidade de mantermos um controle sobre a disseminação das cópias.
O Camelódromo localiza-se vizinho aos assim chamados caixinhas -- vendedores ambulantes ilegais de Cds e DVDs piratas, de entre outras mercadorias -- e até o trabalho ficar pronto e ter a aprovação de todas as partes necessárias, foi necessário conter a reprodução, muitas vezes tentadora da novidade e, mais ainda, sendo uma novidade que fala de eles próprios.
Não houve, no entanto, em momento algum vazamento de cópia, ou reprodução antecipada.
Porém, já no final do trabalho, com a realização da estréia do filme no próprio Camelódromo da Praça XV, duas cópias em DVD foram entregues aos camelôs e as reproduções liberadas.
O filme ganhou vida autônoma, sendo apropriado e difundido por os camelôs e caixinhas independente do grupo realizador do trabalho.
Tendo como base para a coleta e produção da informação, o método polifônico, o texto que segue, na linha do documentário audiovisual, é uma costura das falas, histórias, pontos de vista e opiniões dos camelôs, e das autoridades do mundo oficial.
O capítulo 2 introduz o modo como será apreciado o espaço urbano ao longo do texto;
aborda o tema da cidade contemporânea, suas características e o modo como será lida.
Em o desenvolvimento, é introduzido o método Polifônico, na linha sugerida por Canevacci.
As relações entre a cidade e a pedra constituem o capítulo 3.
Buscamos aí localizar o Camelódromo no espaço urbano da Praça XV.
E a partir daí, mergulhamos progressivamente nas histórias dos camelôs descrevendo os anos passados trabalhando e usufruindo daquilo que a pedra tem a dar, chegando então, naturalmente, à relação entre o Camelódromo e a Lei.
O capítulo 4 aborda o organismo Camelódromo, seus componentes, seu modo de funcionamento.
A narrativa é procedida a partir dos protagonistas da instalação;
as vozes do Camelódromo, vozes que formam um corpo, um clã, uma corporação que é complementada por carregadores, cavaleiros e caixinhas.
Os relatos partem dessas funções e ações para os componentes materiais da grande instalação, analisando a forma, a arquitetura móvel, as mercadorias e a rotina que, em meio à diversidade, se perpetua.
A partir daí, a alimentação do organismo passa a ser o tema do trabalho;
o camelô, sua técnica e a tradição da venda tornam-se o foco.
De a tradição da venda para a tradição da informalidade o trabalho mostra um universo aparentemente caótico.
No entanto, novamente aqui, o espaço público, a pedra, emerge com uma lei, um elemento ordenador que claramente aponta para uma territorialidade baseada na palavra e no respeito.
Número de frases: 145
Não adianta procurar o significado no dicionário -- e nem mesmo em muitas gramáticas e livros de literatura.
O Eu-lírico é quando o poeta expressa sentimentos que não sentiu necessariamente, ou sentiu com uma outra intensidade da realidade, tratando-se então de não ser seu «eu» real, mas de um «eu» poético, ou lírico.
A palavra lírico origina-se de um instrumento musical antigo chamado lira.
Este instrumento foi muito utilizado por os gregos a partir do século XII a.C.
Chamava-se lírica toda canção que era executada ao som da lira, inclusive as expressões poéticas.
Porém, o século XV chegou e houve um afastamento do som lírico e da palavra poética, que passou a ser declamada.
Podemos dizer que o eu-lírico é a voz que fala no poema e nem sempre corresponde à do autor.
O eu-lírico pode ou não expressar as vivências efetivas do poeta, mas a validade estética do texto independe da sinceridade do mesmo.
Os heterônimos de Fernando Pessoa podem ser considerados Eu-líricos.
Um narrador-personagem pode ser considerado um Eu-lírico.
Um poema sendo «falado» por uma pedra é um eu-lírico.
O Eu-lírico é um recurso que possibilita a infinidade criativa dos sentimentos poéticos.
Não limita as palavras em apenas um corpo, uma mente, um coração.
Consegue pluralizar os sentidos.
Assim podemos ser o que quisermos:
uma pedra, um animal, uma árvore, outras pessoas.
Explorar e incorporar sentimentos dos mais diversos como um ator faz com suas personagens.
Número de frases: 17
www.radamesgnattali.com.br
Este aí, acima, é o endereço do sítio oficial do compositor, pianista e arranjador, maestro RADAMÉS GNATTALI, gaúcho de origem, carioca por adoção, que em 2006 estaria completando 100 anos de nascimento.
Com patrocínio da Petrobras, o sítio foi lançado em agosto deste ano.
O sítio contém muita informação e o objetivo destas linhas é dar uma explicação geral sobre o seu conteúdo.
O primeiro item do menu é a ' autobiografia ' contendo uma seleção de falas de Radamés recolhidas de diversas entrevistas concedidas por ele ao longo dos anos.
Separada por assuntos, que o usuário vai escolhendo num submenu, a autobiografia traça um histórico bastante abrangente do maestro, baseado em suas próprias palavras.
Há informações de várias épocas da sua vida, desde ao seu nascimento, passando por a infância, juventude, até chegar à maturidade.
Radamés comenta lances importantes da sua vida profissional, desde quando iniciou carreira no Rio de Janeiro como pianista de concerto;
conta como foi parar na música popular, como ingressou no rádio, como conheceu Ernesto Nazareth e Pixinguinha.
Muitos assuntos abordados na autobiografia podem ser aprofundados com consultas ao ' álbum de recortes '.
Ali se encontra uma coleção de aproximadamente 150 recortes de revistas e jornais, em alta resolução, desde 1924, quando Radamés estreou no Rio de Janeiro, até a década de 1990.
O'álbum de fotos ' apresenta mais de 150 fotos com legendas que contam mais sobre a vida de Radamés.
Textos e fotos podem ser copiados à vontade.
Uma ' linha do tempo ' ilustrada percorre todo o trajeto de vida de Radamés, ano a ano, desde o seu nascimento, em 1906 (aliás, desde o matrimônio dos seus pais, em 1905), até 1988, ano da sua morte.
A linha do tempo, além de conter informações sobre a vida e a obra do compositor, procura contextualizá-las numa espécie de mapa, onde são traçados e entrelaçados os principais acontecimentos nacionais e mundiais, no campo das relações humanas, das artes, da cultura, da política, ocorridos no período citado.
Outros itens importantes são:
-- ' discografia ' -- contendo, até o momento, 131 discos catalogados, entre Lp's e CD's.
-- ' música para cena ', incluindo a música para cinema, teatro e balé;
-- ' depoimentos ' -- uma seção especialmente dedicada à opinião dos amigos e dos críticos sobre algum aspecto da figura humana, do artista, do profissional que foi Radamés;
-- ' baixar arquivos ' onde, brevemente, se poderão baixar ilustrações interessantes, autógrafos de partituras, trechos de músicas gravadas, programas de concerto e outros;
-- ' notícias ' -- espaço destinado à divulgação de eventos, concertos, seminários, debates, lançamentos de livros, discos, trabalhos acadêmicos e outros relacionados à vida e à obra de Radamés.
Para publicação no sítio, enviem dados completos contendo título e tipo do evento, participantes, data, hora, local, ficha técnica, repertório e outros que acharem necessário.
Enviar para robgnattali@terra.com.br
Talvez, o principal item do sítio seja o'catálogo de obras ` pois, este, é um banco de dados contendo o registro de todas as obras de música de concerto compostas por Radamés, constantes do seu arquivo particular.
São 274 peças, até o momento, sendo que este número vai aumentar já na próxima atualização do catálogo.
Esta é a grande vantagem do catálogo on-line, ele pode ser atualizado periodicamente com inclusões de obras e novas informações.
Por intermédio do catálogo fica-se sabendo, exatamente, o que Radamés compôs, quando, para qual formação, a quem dedicou etc..
Algumas fichas catalográficas são ilustradas com imagens de partituras manuscritas ou editadas em computador.
No entanto, não se espere encontrar obras completas pois, não somos autorizados a disponibilizar as partituras de Radamés por a web.
Os interessados em obter informações sobre aquisição de partituras devem entrar no ' fale com nós ' e enviar uma mensagem, através da caixa de correio, diretamente para a Nelly Gnattali, esposa e viúva do maestro, responsável por este minucioso trabalho de catalogação da sua obra, bem como por a administração do seu acervo.
O catálogo de música popular está em construção e, brevemente, deve estar na web.
Já temos em catalogação aproximadamente 200 peças, entre valsas, polcas, choros, marchas, sambas, muitas canções.
Somando tudo, música de concerto com música popular, Radamés compôs perto de 500 músicas.
Isto, sem contar os milhares de arranjos que escreveu para a Rádio Nacional, para as gravadoras Victor, CBS e Continental (para citar apenas três), as trilhas sonoras para cinema, televisão e peças de teatro musicado, os arranjos para festivais de música, para as orquestras de baile.
O espantoso é que, segundo ele próprio, só escrevia pela manhã, das cinco e meia ao meio-dia.
«Depois, não sei fazer mais nada», dizia.
E ainda arranjava tempo para a sesta, após o almoço.
A tarde era reservada para ensaiar, gravar programas de rádio (Nacional e MEC), reger e tocar piano em gravações de disco.
Além disso, participava como regente ou pianista de suas próprias obras, em diversos concertos de música erudita ao logo do ano.
Não foi a toa que Tom Jobim compôs um choro com o título «Radamés e Pelé».
Completam o sítio os itens do menu secundário, localizados horizontalmente, na barra inferior da página.
São eles: '
bibliografia ', ' sítios relacionados ', ' projeto ', ' créditos ` e ' fale com nós '.
E, ainda, no canto inferior direito, onde se vê um pequeno ícone em forma de livro, fica o'glossário ', uma listagem explicativa de termos empregados no sítio, histórico de grupos em que Radamés participou, abreviaturas empregadas no catálogo de obras, etc.
Esperamos que gostem do sítio e façam bom uso de ele.
Esperamos, também, que enviem sugestões e críticas, apontem erros e nos ajudem a melhorá-lo cada vez mais.
Saudações musicais!
Roberto Gnattali
Número de frases: 48
robgnattali@terra.com.br O Jambolada 2007 promete ser um marco.
Evolução é o caminho e a terceira edição deve confirmar Uberlândia no circuito independente dos festivais de música no Brasil.
Em o dia 12 de julho foi feito o lançamento oficial com a Segunda Conferência Municipal de Música Independente.
Para dar um clima bem musical à parada, o grupo de rap Negros D ´ Stilo foi convidado para fazer um pocket show que foi muito elogiado e aplaudido por cerca de 30 pessoas presentes.
Em este ano, o evento acontece de 14 a 16 de setembro.
Segundo Talles Lopes, um dos produtores, atualmente a cidade goza de um prestígio ímpar no Estado e após visitas a Belo Horizonte ele pode perceber que o cenário independente de Uberlândia tem muito o que mostrar à capital.
A terceira edição do festival traz novidades.
Por a primeira será realizado numa grande casa de shows, Acrópole, durante dois dias e manterá o Arte na Praça -- Especial Arte na Praça, com entrada franca no domingão.
Alessandro Carvalho, outro produtor, anunciou que serão feitas seletivas em Uberlândia e Belo Horizonte.
O anúncio das bandas deve ser feito em meados de agosto, quando devem acontecer as seletivas.
Em a sexta-feira 13, Dia Mundial do Rock, serão realizadas oficinas de Comunicação e Produção, para que os músicos e produtores da cidade discutam idéias para aprimorar a cena local e também sobre o festival.
A coordenação ficará por conta de Mariana Soldi.
A noite será rrrroooockkkk com Autoramas (RJ), MQN (GO) e Porcas Borboletas (MG), no London Pub, a partir das 23 horas.
Desafios
O grande desafio da produção do Jambolada é integrar os músicos dos mais variados estilos e fazer com que a cena de Uberlândia não se resuma a apenas um festival.
Número de frases: 15
Por meio das oficinas e grupos de trabalho os produtores querem inserir os músicos no Circuito Fora do Eixo e mostrar a eles que, atualmente, é possível viver de música na sua cidade, valorizando a sua cena e, principalmente, fazendo intercâmbios por todo o País, porque só assim a música circula.
Justiça Suprema É Mais Grupo De Rap do Interior De SAMPA.LEVANDO A Palavra De Deus ATAVEZ De o Rap do Mesmo Modo Que Deus Mudou A Nossa Vida Pode Mudar A Sua TBM.
Número de frases: 2
Que Deus Continue Te Abençoando VC E Sua Familia Para se entender a propalada diversidade da música pernambucana, os interessados deveriam, pelo menos uma vez na vida, partir em peregrinação para as bandas de lá.
De preferência, durante o Carnaval.
É nessa época que se pode presenciar a reunião de praticamente todas as manifestações musicais do estado, além dos «agregados».
As aspas vão para os artistas nacionais e internacionais que contribuem para enriquecer a folia e a troca de sensações sonoras.
A festa está um pouco longe, é verdade, mas se você mora em São Paulo pode conter um pouco da sua ansiedade ou curiosidade dando uma chegada no Citibank Hall, no dia 15 de novembro.
Lá, a partir das 19h, acontece o show de lançamento do Carnaval Multicultural do Recife 2007.
Alceu Valença, Spok Frevo Orquestra, Silvério Pessoa, Lula Queiroga, Antônio Nóbrega e Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado são as atrações do palco;
no meio da galera, apresentam-se o Maracatu Nação Estrela Brilhante, a Companhia de Dança da Escola Municipal de Frevo e o grupo de Caboclinhos Sete Flechas.
Levando-se em conta seus respectivos estilos, todas as atrações são excelentes.
Porém, todavia, contudo, Ad Luna dá seu pitaco:
não perca de maneira alguma o Maracatu Estrela Brilhante e a Spok Frevo Orquestra.
O primeiro foi o campeão do Carnaval do Recife 2006 na categoria «maracatu de baque virado».
O Estrela foi fundado em julho de 1906 e hoje é um dos orgulhos da comunidade do Alto José do Pinho.
Sim, é o mesmo território do punk rock hardcore do Devotos.
A estrondosa percussão do Estrela Brilhante é comandada por o polêmico mestre Walter de França.
Alguns reclamam que o tratamento que ele dá a seus batuqueiros é um tanto quanto duro, mas é inegável o carisma e a competência do homem.
A pancada soa pesada, mas harmônica.
Não menos figura é a rainha e presidenta da agremiação, Dona Marivalda (foto).
A sede do maracatu está instalada em sua própria casa.
Já a Spok Frevo Orquestra vem deixando público e crítica de queixo caído por onde passa.
O conjunto é liderado por o jovem maestro Spok, que comanda um timaço de dezoito músicos.
Spok tem sido apontado como um dos grandes renovadores do frevo -- ritmo genuinamente pernambucano.
Além da Orquestra, o rapaz vez por outra toca ao vivo nas bandas dos citados Alceu e Nóbrega, Fágner, Elba Ramalho, Naná Vasconcelos e Sivuca.
Em o ano passado, a performance da Orquestra surpreendeu no Tim Festival.
Este ano, a sua música foi parar na China.
O primeiro CD da Spok Frevo Orquestra, «Passo de Anjo, lançado em 2004» de forma independente, agora volta às lojas por o selo Biscoito Fino.
Serviço
Carnaval Multicultural do Recife em SP
Dia e hora:
15/11/2006, às 19h
Local: Citibank Hall, Rua dos Jamaris, 213, Moema
Ingressos: R$ 15 (meia-entrada) e R$ 30, já disponíveis nas lojas da FNAC Pinheiros e Paulista
Site Carnaval Multicultural do Recife: www.recife.pe.gov.br/carnaval
Número de frases: 33
à tola pergunta \" o que é o samba?\"
podemos responder desmembrando-a em diversas outras:
teria este ritmo secular uma gênese determinada, como por exemplo salvador ou rio de janeiro?
ou, pelo contrário, o samba seria um fenômeno plural, que se delineou conforme condições sociais e culturais localizadas?
para nei lopes, o samba carioca, por exemplo, é produto urbano, com ênfase nas relações históricas que traçam " a linha evolutiva que vem do batuque dos povos bantos de angola e do congo até o partido alto."
já hermano vianna, ressalta o caráter positivo da mistura brasileira, ao afirmar que " o mistério da mestiçagem ( ...)
tem ( ...) a mesma importância e a mesma obscuridade do mistério do samba para a história da música popular do brasil».
deixo este debate para os especialistas e, como mero freqüentador de pagodes no rio de janeiro, exponho a seguinte questão:
o samba tem dono?
quero dizer, como um estilo musical, tido como a expressão cultural brasileira por excelência, se adequa a uma cultura extremamente patrimonialista como a nossa?
que contradições internas se agitam por baixo do sorriso escancarado do «crioulo do grapete», decantado por nelson rodrigues?
de saída posso dizer que este tema me foi estimulado por a figura de zeca pagodinho.
mais especificamente, por sua relação com a mídia, que de saída, assumo, não vejo com bons olhos.
aos mais atentos, que já pescaram ao que me refiro, digo logo:
não se trata de uma crítica ao fato de zeca fazer propaganda boçal de cerveja.
sim, ele tem o direito de acumular capital «honesto», emprestando sua imagem àqueles que desejam tornar seu produto mais popular.
sim, ele tem o direito de fingir que a política não existe, de compactuar com as empresas de comunicação que lhe negaram visibilidade durante anos a fio, com o capital que agora sorve os insumos de sua imagem.
sim, ele pode atenuar o poder de sua música, bisando à exaustão a mesmíssima turma de compositores, interceptando a chegada de novos talentos -- porque eles existem!
se milton nascimento, fernanda abreu, rappin hood, arnaldo antunes, nair belo, entre outros tantos artistas, emprestaram sua imagem à promoção de diversas marcas e produtos, por que um sambista ilustre não haveria de fazê-lo?
sim, ele tem o direito.
mas o direito ainda não basta ...
o samba sempre aparece em momentos em que a indústria precisa se servir de seu poder agregador, de seu «mistério», como sugere vianna.
os artistas mais «improváveis» emergem quando a indústria está falida;
e somem quando há profusão de produções enlatadas e manipuladas.
a história mostra que quando um sambista se impõe no mercado, na verdade ocorre o oposto simétrico do que se divulga:
sub-aproveitado, sub-utilizado, mal-remunerado, o sambista -- aquele que vive no e do samba -- continua se concentrando nas «áreas de risco», entre os indivíduos visualmente negros ou chamados» mestiços».
de modo que não se pode confundir ascensão de determinado artista com ascensão do samba em geral.
hoje, contam-se nos dedos os grupos de samba no mercado:
onde estão os discos de camunguelo e de bandeira brasil?
e o «quintal do pagodinho», reunião de compositores apadrinhados por zeca, que segundo conta a boca miúda, foi lancado com restrições de venda impostas por a gravadora universal?
e o que entendo aqui por samba não é mais do que a produção do sambista.
se a lapa hoje revela uma galeria de anjos, teresas e sacramentos, artistas que não são propriamente versados na arte do samba, a saber, «naquele elemento primitivo fundamental, representado por a correspondência entre a percussão e uma competente reação neuromuscular» (tinhorão), é porque o mercado musical, como qualquer mercado, oferece mais oportunidades àqueles com segundo grau completo e formação profissional -- ou, no mínimo, com a estrutura adequada para tanto.
quem não tem condições, permanece na retranca, desabilitado a preencher editais, frequentar as rodas certas e organizar-se minimamente na vitrine do mercado musical brasileiro.
evidenciam esta desigualdade -- e, sobretudo, o oportunismo que de ela decorre -- as biografias de padeirinho, clementina de jesus, e de partideiros como geraldo babão e o lendário antenor gargalhada.
esses últimos, então, são ainda mais negligenciados, visto a volatilidade de sua arte:
no partido alto, assim como no jazz, o improviso é o elemento fundamental.
trata-se de repassar não o sentido da história do samba, mas alguns acontecimentos arquetípicos recorrentes, que reiteram práticas e relações tão antigas quanto o próprio samba.
quando se pensou que zeca pagodinho representaria uma nova esperança para o samba e, portanto, para o sambista, a história, que se deu como tragédia durante pelo menos setenta e poucos anos, se repetiu finalmente como a farsa da aceitação plena e da integração definitiva à famigerada «identidade brasileira».
mas e os «zés com fome» que sustentaram o repertório de martinho, roberto ribeiro, entre outros?
e os criadores de repertório, afogados em péssimas condições materiais que sumiram no vão do tempo?
e se sérgio porto não tivesse chegado naquele bar e encontrado cartola, será que hoje teríamos seus discos?
e se não tivesse batido à passarinha do hermínio ir à taberna da glória naquele fim de tarde em que viu clementina pela primeira vez?
mesmo com toda celebridade, o samba permanece à mercê do fortuito e do acaso.
me parece que «o caso zeca pagodinho» vem confirmar uma triste realidade, alegorizada por glauber rocha no filme câncer:
o negro sambista continuará sendo aquele sorridente de plantão, aquele que empresta sua «alegria rítmica» ao que quer que seja.
tá certo, ao menos zeca ficou rico, dirão alguns;
com ele, levou tantos outros (o compositor e intelectual nei lopes, por exemplo).
mas não é menos verdade que, submetido à decodificação setorial do mercado, a imagem do samba vem perdendo seu caráter de contínua renovação, sublinhado em livro por o mesmo nei lopes.
por este motivo, o samba vem se tornando conservador.
reparem que não somente os arranjos de hoje estão padronizados -- ao contrário das décadas passadas, em que se observava uma profusão criativa de tipos de arranjo -- como também as capas dos discos encaretaram de vez!
o nivelamento e a escassez que povoam o «mundo do samba» são produtos diretos de um tipo de relação que o sambista que ascende socialmente mantém com o poder.
quando o brasil perdeu a copa, puseram zeca pagodinho fazendo embaixadinha na tevê.
e ele, amansado por sua nova condição social, concordou em ser o bálsamo das dores de um público indignado, que durante meses aturou comerciais de cerveja com o ronaldinho gaúcho estampado.
por outro lado, as condições e conjunturas que propiciam esta ascensão estimulam tantas outras, compostas por levas de oportunistas, sempre prontos a levantar a bandeira da «pureza» -- ora, não existe «samba de raiz» porque não há nenhuma expressão musical brasileira mais impura e misturada que o samba!
josé ramos tinhorão escreveu certa vez que enquanto a evolução do samba não significar ascensão social, esta situação permanecerá intocada.
e eu acrescentaria:
não somente a ascensão social, mas uma certa «cara feia» diante do cinismo do mercado e das alegria de proveta dos meios de comunicação.
bem o sabia um artista como candeia, que dialogou com os black panthers, com o soul americano, misturou jongo com funk, e nunca deixou de articular seu samba extremamente original à atitude e opinião.
vale lembrar, a título de conclusão, os versos de sua canção, «dia de graça», cuja mesangem exprime justamente o tipo de atitude que procurei cobrar neste artigo:
«negro: deixa de ser rei só na folia!"
mais textos em matéria
Número de frases: 61
formigas miúdas A Capa de Discos no Brasil:
ontem e hoje
Em comparação a outras artes aplicadas, são relativamente recentes as artes gráficas no Brasil.
A proibição da imprensa, que perdurou até a vinda da Família Real em 1808, trazendo em sua bagagem a primeira prensa tipográfica «legalizada» (inventada no século 15, não esqueçamos), ocasionou-nos um sensível atraso nesse setor.
Isto é flagrante, por exemplo, em relação a América espanhola, que incentivou a imprensa desde os primórdios da colonização (e sua consequente produção de livros e literatura -- uma outra grande falha na nossa formação cultural com efeitos sentidos até hoje).
Em termos absolutos, portanto, o design gráfico brasileiro é bastante recente.
Curiosamente, no entanto, no design de capas de discos, somos pioneiros ao lado dos Eua, Inglaterrra e França.
Se a primeira capa de disco long-play é produzida em 1948 por Alex Steinweiss na recém criada Columbia Records, já em 1951 Paulo Brèves desenha a primeira capa de Lp no Brasil para a Sinter (distribuidora da Capitol).
Mesmo assim, são apenas 50 e poucos anos de cultura visual do disco em nosso país.
Atualmente, para o designer, a primeira vista, o espaço diminuiu.
De os 31 x 31 cm do LP restaram 12 x 12 cm no CD;
a distribuição musical por a Internet e o iPod nos levarão para caminhos ainda insuspeitados:
nunca mais uma capa como Milagre do Peixes, de Milton Nascimento, que se abre num poster de 90 cm com a letra de cada música em papéis coloridos independentes.
Ou a Blitz 3 com três versões de capas impressas em cores diferentes.
Mas, a mística continuara ' para sempre:
nunca mais esqueceremos o «Álbum Branco dos Beatles» ou as «cabeças cortadas» do primeiro disco dos Secos e Molhados.
E por mais que ouçamos, queremos também «ver e tocar».
Procuramos, talvez, uma «confirmação» das emoções e sentimentos suscitados por aqueles sons.
Pergunte aos amigos sobre algum disco marcante e as imagens gráficas das capas explodem na memória junto com os sons.
Os discos eram «conceitos» e os projetos gráficos faziam parte de ele.
As capas (e os discos) irão permanecer?
É pouco provável.
Mas nos sobra uma certeza:
elas representaram para o design gráfico uma reserva criativa e um espaço privilegiado que jamais serão esquecidos por os fãs da música, do design e da cultura material do século 20.
Se voce quiser conhecer um pouco dessa história leia o ensaio «A história do design das capas de disco no Brasil» (tambem uma versão em inglês) no Jornal Musical em:
http://www.jornalmusical.com.br
O link direto e ':
http://www.jornalmusical.com.br/textoDetalhe.asp?
iidtexto = 619 & iqdesecao = 1 (
cuidado para não quebrar o link:
ele comeca em http e termina com o numero 1)
A versão em ingles fica em:
http://www.jornalmusical.com.br/ing/home.
asp E o link direto em ingles:
http://www.jornalmusical.com.br/ing/textoDetalhe.asp?
Número de frases: 35
iidtexto = 653 & iqdesecao = 1
Você coloca sua roupa de pirata e vai para a rua.
Encontra hordas de colombinas, diabos, freiras, palhaços e homens vestidos de mulher.
Aí, atravessa o deserto do Saara, consola a jardineira, dá uma zoada na cabeleira do Zezé, fala mal da Aurora (essa fingida!)
e celebra a mulata bossa nova, que caiu ...
no hully gully!?
Peraí, esta cena é do carnaval de 2008 ou dos anos 70 (ou 60)?
Pode ser de todos.
Os blocos do carnaval de rua do Rio de Janeiro estão em lua de mel com a cidade.
Crescem em tamanho e quantidade, atraem foliões cada vez mais animados e criativos em suas fantasias.
Mas as marchinhas ...
continuam as mesmas.
Claro que, para quem gosta (como eu!),
são ótimas, geram uma catarse coletiva de vozes e gritos.
Mas quando chega a terça-feira de carnaval, não sei vocês, mas já quero que o Zezé fique careca e que a Aurora se exploda.
Será possível que o povo não tem outras marchinhas para cantar?
Tem, claro que tem.
Só no Sassaricando, musical de marchinhas que faz sucesso na cidade, são cerca de 100, de todos os tempos e jeitos.
Quando levei meu avô para ver o espetáculo, ele saiu orgulhoso dizendo que reconheceu praticamente todas as músicas.
Sinal de que, nos carnavais de outros tempos, elas ganharam bem as ruas.
Em os anos 80, Chacrinha e Silvio Santos levavam as marchinhas para a televisão e dava certo.
Mas o que mais chama atenção é que há também produção atual, coisa que os desavisados nem imaginariam se apenas se baseassem no que ouvem no carnaval de rua.
Blocos como Céu na Terra, Cordão do Boitatá e Rancho Flor do Sereno lançaram seus discos com várias marchas inéditas, mas nem sempre elas são cantadas nos desfiles de rua, ou, quando são, (ainda) não repercutem muito na voz do povo.
As marchas contemporâneas foram alavancadas sobretudo por conta do concurso de marchinhas da Fundição Progresso, que chegou ao terceiro ano fazendo muito sucesso dentro dos domínios da instituição cultural -- e com repercussão nacional, graças a transmissão ao vivo no Fantástico.
De o lado de fora, entretanto, a coisa ainda não reflete.
Não se vêem os blocos dando vazão às marchas estreantes, que falam de Tapa na Pantera, escova progressiva, burka muçulmana ...
Dão gosto de cantar justamente porque tratam de coisas dos nossos tempos.
Por que diabos elas não emplacam?
«Demora mesmo», diz com naturalidade Perfeito Fortuna, coordenador da Fundição e idealizador do concurso.
«Participei de alguns movimentos de mudança musical.
Tudo seria mais fácil se as novas marchinhas tocassem no rádio, mas mesmo sem isso as coisas estão melhorando ano a ano.
Por exemplo: rock brasileiro não tocava na rádio, até que a Rádio Fluminense começou a bombar e tudo mudou».
Mas rádio faz tanta diferença em tempos de internet, mp3 e celular com musiquinha?
«Claro que faz!
As pessoas que ouvem Ipod são recatadas demais!
Ouvem sozinhas.
Marchinha é do coletivo, precisa ser ouvida em bando!"
A melhora ano a ano que Perfeito aponta não é papinho de agitador cultural.
A cada ano aumenta significativamente o número de marchinhas inscritas no concurso.
Somadas, já passam de 2 mil, de 22 estados do país.
Interesse em produzir músicas, pelo visto, não falta.
Mas e em aprender?
«As pessoas só lembram que existe marchinha perto do carnaval.
Não vão querer aprender uma marchinha nova em cinco dias.
A gente já nasceu levando ' me dá um dinheiro aí ' na veia, quando vê já está cantando e nem percebe», diz a foliã Barbara Butland.
Aos poucos, entretanto, já é possível ouvir uma canção nova ali no baile do Trapiche Gamboa, outra no ensaio do " Cordão do Boitatá ...
«Imagina quanto tempo o «Allah-lá-ô» está aí para as pessoas aprenderem!
É até covardia, a gente tem só dois anos ...»,
diverte-se Perfeito.
Se formos otimistas -- e Perfeito é muito -- 2008 pode ser considerado o ano da canoa virar, olê, olá.
Mas será que os foliões estão ligados nisso?
Será que ninguém sente falta de cantar sobre coisas da hora?
Fui perguntando por aí.
Em geral, a reação inicial foi o silêncio, às vezes seguido de um " nunca tinha pensado nisso ..."
Tirando um ou outro rabugento que respondia «Marchinhas novas não emplacam porque são ruins», a maioria usou a tradição como argumento.
«Acho que antigamente eram poucas músicas disponíveis, não se tinha tanta exposição, então a música feita para o carnaval era tão aguardada que ela acabou ficando muito marcada.
Hoje você tem um bombardeio de música até no elevador ...»,
opina o designer Júnior Simões.
Bombardeio de tudo quanto é gênero, menos marchinha.
«Tenho impressão que ficamos um bom tempo sem produção, então as pessoas se acostumaram com as antigas, aquelas do tempo em que o Rio era capital federal e influenciava muito», palpita o engenheiro Alexandre Velloso.
A historiadora Rosa Maria Araújo, criadora do musical Sassaricando junto com Sérgio Cabral, concorda com as suposições dos foliões.
E acha que as marchinhas vão se adaptar aos novos tempos.
Em os tempos áureos elas tocavam no rádio, a partir de outubro começavam a sair as revistas com letras.
Sem contar o cinema nacional, que era um grande difusor da marchinha em seus musicais.
Os tempos são diferentes, essa retomada agora está começando, agora saiu o disco com as dez melhores marchas do concurso da Fundição e achei a qualidade muito boa.
Aos poucos as pessoas vão se familiarizando."
Talvez a festa esteja se preparando para receber suas novas marchinhas.
A saída para a lotação nos blocos é se criar mais blocos -- e com isso, mais sambas e marchas pintam na área.
Tudo isso faz Perfeito se empolgar num quase manifesto.
«O que está acontecendo no carnaval carioca é um caso de saúde pública.
Faz bem!
É você pensar que está tudo tão errado, tão violento, mas que ninguém vai conseguir te entristecer.
Os blocos são improvisados, não precisam daquele esporro de carro de som, juntam um grupo de pessoas que querem ouvir as vozes uns dos outros.
Isso dá sensação de segurança.
A marchinha é, portanto, o símbolo disso.
O Rio tem vocação para a alegria e continua exportando isso.
Hoje já tenho conhecimento de concurso de marchinhas em Belo Horizonte, São Paulo e até organizados por prefeituras do interior.
Daqui a pouco, aposto que as rádios vão querer entrar nessa onda, porque vai estar tudo dominado."
Aí, não vou precisar mais explodir a coitada da Aurora, porque ela estará acompanhada de outras figuras, como a ótima Maria do Cabelo Bom (de João Cavalcanti, terceiro lugar no concurso).
Número de frases: 79
Além De Diversão, Private EDITION 6 Estimula A Solidariedade
Solidariedade combina com música eletrônica!
É nisso que apostam os organizadores da Private Edition 6, a maior festa ' open air ' do Estado que será rea-lizada no próximo dia 31, na granja Santa Luzia, localizada às margens da Br-304, em Macaíba.
O primeiro lote de ingressos está sendo vendido com desconto para quem doar um quilo de alimento não-perecível no ato da compra.
Todos os alimentos arrecadados serão destinados ao lar «Deus é Caridade», uma instituição que cuida de idosos, em Macaíba.
Os ingressos estão sendo vendidos nas lojas Colcci do Natal Shopping e Midway Mall.
Os organizadores esperam arrecadar cerca de meia tonelada de alimentos, a exemplo do que aconteceu na quinta edição da Privte Edition, realizada no mês de agosto do ano passado.
Em a ocasião, foram arrecadados 500 quilos de alimentos, que foram doados ao Abrigo Juvino Bar-reto, de Natal.
Impressionados com o resultado, e orgulhosos por a colaboração do seu público, os organizadores estão apostando mais uma vez nessa ação social.
«O público que freqüenta as nossas festas é, geralmente, das classes A e B. Ou seja, todos têm condições de fazer uma simples doação como essa.
A nossa iniciativa busca estimular o lado solidário que todos temos dentro de nós», explica a organizadora da Private Edition, Eveline Pires.
O Evento
A Private Edition 6 -- Evolution será realizada na Granja Santa Luzia, em Macaíba, um local com 6.000 metros quadrados de área livre e muito verde, distante apenas 500 metros da Br-304.
Para comandar a ' big party ', a Technolive traz WRECKED MACHINES Live!
O dj top 5 do mundo, que já visitou Natal no Coca-Cola Mix Festival de 2006, volta ao Estado como maior nome do psytrance brasileiro.
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Além do Wrecked Machines, a Private Edition 6 -- Evolution contará com outros 15 dj's que irão ' incendiar ' as duas pistas do evento durante 14h de muita música eletrônica.
Evento:
Private Edition 6 -- Evolution
Local: Granja Santa Luzia -- Macaíba
Quando: 31 de março, às 23h59
Atrações: Wrecked Machi-nes, Dj Gabe + 14 djs
Preço:
1º lote:
R$ 15,00 + 1 kg de alimento (500 ingressos) ou R$ 20,00
3º lote:
R$ 25,00 4º lote:
R$ 30,00 Vendas:
Loja Colcci -- Midway Mall e Natal Shopping
Informações:
Número de frases: 30
-- www.privateedition.com.br
Nunca mais o despotismo
Quando a gente imagina um senador, vêm à mente aquelas imagens de filmes ou novelas, sempre um homem poderoso e informado, à frente do seu tempo, verdadeiro visionário.
Em a eleição do representante baiano, este ano, porém, o cardápio será este:
João Durval, ex-carlista, Antônio Embassahy, ex-carlista, e Rodolpho Tolinho, futuro ex-carlista.
Fora esses, só existe um tal de Dr. X e aqueles estudantes de Filosofia de São Lázaro que fugiram do hospício com a banda Los hermanos.
Tá bom pra você?
Tragédia helênica
Mulher, nordestina, candidata a presidente, honesta, cristã, sofredora.
De quem estou falando?
De Roseana Sarney, óbvio.
Ou existe outra com este perfil?
Que beleza é sentir a natureza
Todos os Santos no 2 de julho, bairro do centro de Salvador:
Somente aqui, em todo o mundo, coreanos vendem acarajé e caldo de sururu, e o que é pior, ou melhor, sai tudo uma delícia.
Não à toa, também, fica aqui a sede da seita Universo em Desencanto (em desencontro?),
aquela de Tim Maia.
Em frente à tal sede, no Largo do 2 de Julho, a grande filarmônica (grande mesmo) da UD se reúne e vai ensaiar no Passeio Público, no Campo Grande.
E só poderia ser no 2 DJulho que o PSOL (Le Petit PT) alugaria um kitnet em prédio residencial (Edf.
Calábria) para funcionar como seu comitê regional.
Um aparelho, como nos memoráveis tempos do MR8, para o novo partido do racha unificado.
Olha a faca!
Entidades alemãs passaram o começo do ano tentando doar equipamentos e estrutura para montar cinco bibliotecas modernas em bairros carentes de Salvador.
A secretária de Educação da Prefeitura à época, Olívia Santana, chegou a visitar as terras germânicas, mas a sua assessoria, nutrida na boa politicagem e na ótima burocracia, boicotou o projeto porque este seria gerido por órgãos independentes ligados à cultura (institutos e universidades).
Crianças e jovens ficaram no prejuízo.
Em outra situação semelhante, a UFBA deveria capacitar professores para o Projovem, programa que oferece R$ 100,00 mensais para jovens retomarem seus estudos, mas a Prefeitura da Capital baiana optou por contratar uma faculdade evangélica, em lugar da Federal.
Hoje os estudantes dos bairros pobres obrigam os professores, no fio da faca, a registrar suas presenças e lhes dar notas boas, garantindo o dinheirinho de todo mês.
Em uma turma de 30 alunos, cinco ou seis participam das atividades de educação formal, profissionalização e inserção social.
Também, já faz algum tempo que a gráfica Bigraf tenta doar equipamentos para o curso de design da UNEB, mas esbarra na burocracia daquela universidade.
Para o nobis
Retornando da Itália, encontrei meu guia espiritual, meu Dalai Lama, minha Nossa Senhora, Dona Edézia.
Quem? Dona Edézia, minha mãe-de-santo.
Explico melhor, ela é minha mãe e eu sou o santo.
Trouxe umas imagens do Vaticano e, à medida em que as desembrulhava, Dona Edézia, toda dengo, beijava os retratinhos.
Havia ternura naqueles gestos e foi por isso que, lá em Roma, na igeja de Santa Maria Magiore, eu me ajoelhei e rezei por ela, por as suas vizinhas e por todas as mães.
Tão pouco católico, pedi à Virgem que protegesse ao menos essas santas do Coração de Maria.
Quando dei por mim, estava chorando como uma velha mexicana, o maior vexame.
Bento XVI veio de penetra no pacote que eu trouxe da viagem, e é claro que eu não gosto de ele, mas Deus sabe o que faz.
Um é cinco, três é dez "
é grande, mas é sofisticado " -- A mulher, de roupas humildes, dá esse conselho para a amiga que escolhe óculos numa banca de camelô, na Avenida Sete.
A cena me remete imediatamente à imagem dantesca de brasileiros atacando as prateleiras nos duty frees, aquelas lojas de aeroportos internacionais que vendem relógios, perfumes e outras quinquilharias de grifes isentas de impostos para turistas em trânsito.
Seus clientes são o tipo de gente que em Madrid, Paris, etc, enche a bagagem de Diors, Armanis, Hugos Bosses e outras hipogrifes vendidas a preços módicos.
Depois, desfilam charme no retorno aos seus países pobres.
É um jogo de vida ou morte, ou eles compram nos dutys, ou terão que desembolsar o triplo nos shoppings de suas terras natais, coitados.
Ah, como é difícil parecer europeu, ainda mais fora da Europa ...
Um grande dilema.
Mas é sofisticado ...
Abominável
A tecnologia estraga tudo, e aqui estou eu preocupado com essa tal TV digital.
Até agora, bastava um bom prato de macarrão e um copo de Coca-Cola para entrarmos num universo paralelo, sentados num confortável sofá, assistindo programas idiotas na telinha.
Acabou a paz.
Em um breve futuro, vendo televisão, seremos convidados a fazer compras, participar de pesquisas e até, mesmo, dar opinião, o que aumentará sensivelmente nosso nível de culpa.
Um verdadeiro nojo!
Rerum Novarum
A carne mais barata do mercado é a carne do trabalhador, mais barata ainda se for negra ou pertencer aos jovens.
O preço de uma adolescente na Calçada varia entre R$ 10 e R$ 25 (+ as despesas do motel).
A cotação de um rapazinho de shopping está em R$ 20 (+ as despesas do motel), chegando a R$ 15 no Pelourinho (+ as despesas do motel).
Para contratar um matador de aluguel na Cidade Nova ou no IAPI se paga R$ 100 (+ o preço de uma bala de revólver).
Isso tudo a rua informa, e eu pensava se deveria escrevê-lo, quando parei para observar um rapaz sendo tratado aos gritos por seu patrão velho e grosseiro.
O jovem, que tirava a ferrugem de uma chaparia, estava tão nervoso que quase decepou o dedo cortando-o numa chapa de metal.
O contratante do serviço se ofereceu para levar o moço numa farmácia, mas o patrão não deixou."
Ele precisa se acostumar.
Tem que deixar de ser frouxo».
O jovem sorriu seus dentes de tétano e pediu um dente de alho para «queimar» a ferida.
Por fim terminaram o serviço e foram embora, deixando a sujeira no chão.
Gotas de sangue misturadas à fuligem negra.
Mal do século
Também estou preocupado com o crescimento desordenado da população, a criminalidade, o esgotamento dos recursos naturais, a crise na educação e o consumismo, mãe de todos os vícios.
Mas quando vejo intelectuais pessimistas com o futuro do país porque leram outros intelectuais pessimistas com o futuro do país, fico pessimista com os intelectuais.
Quando percebo que eles não depositam a menor esperança no povo -- esse ignorante que teima em sobreviver à indolência e à incompetência dos intelectuais, dos profissionais liberais, dos médicos, dos advogados, dos artistas, dos escritores e dos jornalistas da classe média -- descubro onde devo me posicionar para esperar o tão anunciado fim das coisas.
Quando vejo as revistas especializadas em arte publicarem mês a mês os retratos das mesmas cantoras brancas do sul, entendo que estas revistas não podem se debruçar sobre a cultura brasileira.
De a mesma forma, avistando universitários infantilizados lançando mão do coco, da capoeira e do maracatu para fazerem fusões infelizes e insuportáveis, entendo quanta falta faz o trabalho braçal para jovens que cresceram em apartamentos.
Quanto ao povo, não, nunca perco a esperança, embora o povo sempre traia todas as rotas que lhes são traçadas e faça as coisas do seu jeito.
Ele é como o fluxo de um rio, que pode ser detido por um tempo, pode ser tangido, mas que tem os seus caprichos e sempre pode explodir na direção que quiser.
Coelhão
A nova Playboy traz uma atriz global nua e tem propaganda na TV:
«Em essa edição, uma entrevista bombástica de FHC».
Como a Editora Abril não costuma anunciar a Playboy na televisão, estranhei.
Supus que decidiu fazê-lo agora, em período eleitoral, porque a nudez de Fernando Henrique deve interessar muito aos leitores tucanos.
Nada que a Revista Veja não fizesse melhor, mas falar mal de Lula na Veja não tem mais graça.
A próxima baixaria deve vir encartada na revista do Mickey.
Número de frases: 81
A história do intérprete Baldinir Bezerra é também um recorte da história dos movimentos sociais que aconteciam em Campo Grande no início dos anos 80.
Adolescente ainda, aos 14 anos, foi motivado por uma professora do segundo grau a compor sua primeira música para participar de um Festival da Canção Estudantil -- FEMACRI, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em 1974, no qual foi classificado em quarto lugar.
Em 1980, com o ingresso na universidade, entrou em contato com o movimento estudantil numa época em que o país passava por transformações significativas.
Era o período da abertura política, da anistia e da campanha para as eleições diretas.
Ainda nesse período, seu envolvimento com o movimento cineclubista abriu os horizontes para o trabalho como animador cultural, a partir do contato com comunidades periféricas.
Essa proposta acabou tendo grande repercussão política na cidade e rendeu-lho primeiro emprego como responsável por os setores de comemorações e expressões artísticas do SESC / MS.
Embora alegue que nasceu cantando, sua relação mais profissional com a música ocorreu nessa mesma época, em bares que fizeram história na noite campo-grandense, como o Bar da Soraia, Bar do Nagibão, Caras e Bocas, Rui Bar Bossa, entre outros.
Foi vocalista da Banda Mescla Latina, formada por integrantes de diversas nacionalidades (uruguaios, chilenos, bolivianos e brasileiros).
Em 1988 foi consagrado um dos melhores intérpretes do Estado com o show «Tocante», numa parceria com o músico e compositor Luís Poeta.
Em 1990, com o espetáculo «Adeus Amigos», recebeu o troféu Jacaré De Prata, na categoria melhor show musical do ano, numa premiação promovida por a Secretaria Municipal de Cultura de Campo Grande.
Este espetáculo foi produzido na época que antecedia sua partida para uma temporada de cinco anos em Natal-RN, onde concluiu o curso de psicologia, na UFRN.
Atualmente, retornando de uma temporada de quase 10 anos no Rio de Janeiro, onde se dedicou especialmente à psicologia, a projetos sociais e ao mestrado na UFRJ, entende que, finalmente, é hora de dar à música a atenção que ela merece ter em sua vida.
E este artista, de personalidade forte e mente analítica, aguçada por sua formação intelectual, experiências adquiridas nos trabalhos como educador popular e em suas vivências em várias regiões do país, tem deixado a sua marca pessoal, como intérprete instigante e como artista comprometido com a cultura da terra que acolheu sua família de migrantes nordestinos, que lhe deu as bases para ser a síntese de brasilidade que o caracteriza.
Compositor da músicas, Saudade da Paz, Samba de Gaveta e Dadivosa, Baldinir deixou, nessa entrevista exclusiva para nossa comunidade de overminas e overmanos, suas impressões de momentos significativos da história do Estado de Mato Grosso do Sul.
Como iniciou sua relação com os movimentos sociais de Campo Grande na década de 80?
Baldinir Bezerra -- O início dos anos 80 coincide com a minha entrada na faculdade de psicologia da então chamada FUCMT (Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso), hoje UCDB (Universidade Católica dom Bosco).
É um período onde eu começo a virar gente também, me reconhecendo como um ser social.
Isso começa quando eu entro em contato com o movimento estudantil na faculdade.
Acontecia o Projeto Pixinguinha, que trazia para a cidade, shows de artistas nacionais de primeira grandeza e dava espaço para os artistas regionais também.
Assim que entrei na faculdade fui cooptado para fazer parte da chapa que concorria ao Diretório Acadêmico Felix Zavatarro.
Nossa chapa denominada «Rumo à Luta» foi a vencedora, derrotando o pessoal ligado ao Pcbão.
Eu havia me juntado ao grupo que estava no movimento germe da construção do Partido dos Trabalhadores.
Era a chamada «Esquerda Festiva».
Claro que eu não podia ficar de fora, certo? (
risos).
Como foi seu ingresso no Partido dos Trabalhadores?
Baldinir Bezerra -- Eu nunca cheguei a ser um filiado do partido, mas eu estava lá no início.
De qualquer forma, acho que fiz mais por esse partido do que muito petista de carteirinha.
Não foram poucas as noites fazendo e pregando cartazes feitos em silk screan na tentativa de eleger os primeiros parlamentares do PT em 1981, como o velho Ezequiel, Alcides Faria, Zeca do PT, Stella Brandão, entre outros.
Em a campanha de 1990 o PT me oportunizou duas experiências gratificantes:
participar da equipe do programa de TV e da composição do jingle da campanha em parceria com o jornalista Dari Jr..
Segundo depoimento do próprio Lula, num encontro realizado no Clube Cruzeiro, nosso jingle era mais bonito que o de ele.
Em 1996, novamente estive na equipe de produção do programa televisivo, agora dirigindo, criando, filmando, fazendo tudo.
A parte bacana dessa história é que tudo era construído coletivamente.
Era um sonho que me deixava muito esperançoso.
Hoje em dia mudou muito minha forma de ver este partido.
Mas isso é outro assunto.
O certo é que foi tudo um processo de confluência.
Paralelamente a isso, eu entrei em contato com o Movimento Cineclubista.
Trata-se de um movimento popular que nasceu no Brasil por conta da censura imposta por a ditadura militar a partir dos anos 70.
Uma censura bravíssima, que impedia a produção e a circulação do cinema nacional de qualidade.
Não só do cinema.
Qualquer produção artística que pretendesse propor reflexão, que fosse crítica, estava fadada ao cerceamento.
Quem é que participava desse movimento do cineclube?
Baldinir Bezerra -- Até onde eu sei, aqui em Campo Grande, quem encabeçou essa proposta, nos meados dos anos 70, foi a professora Maria da Glória Sá Rosa, e acho que do lado de ela estavam pessoas como a professoa Idara Duncan, o Cândido Alberto da Fonseca, entre outros.
A proposta, na época, consistia na valorização do cinema de arte, a exemplo dos filmes europeus e filmes de vanguarda, ou seja, uma cultura bem de elite, para uma platéia que caracterizava a elite cultural local.
Foi a forma que essas pessoas encontraram para se contrapor ao cenário imposto por o sistema naquele período histórico.
Em os anos 80 a direção seguida por o cineclube foi outra?
Baldinir Bezerra -- Em os anos 80 o cineclube foi acolhido por outro grupo:
o João José, advogado e político, o Carlão, professor de história, sua companheira, Rose, entre outros que não cheguei a conhecer.
Já era um outro momento do país, e esse grupo tinha uma nova forma de ver o mundo e de ver o cineclubismo.
Parece que nesse momento, a difusão do cinema foi usada como instrumento para fazer uma política mais de esquerda.
Isso porque o Brasil naquele período, já se encaminhava para um processo de abertura política.
Com o início desse processo, eu já começo a existir também como um ser social, para além do meu umbigo.
Como se deu esse processo?
Baldinir Bezerra -- Meu encontro com o cineclubismo foi por volta de 1982 aproximadamente.
Em esta época o cineclube de Campo Grande estava sendo levado por o meu amigo Celso Arakaki, por o Paulo Paes, por o Joel Pizzinni, que hoje é um cineasta de renome nacional, por o jornalista Wilson Aguaí, por o Nelson Nagase -- vulgo Jacaré -- por a Áurea Luz, por a Nazira Scaff, entre outros.
Era um bom número de pessoas, a maior parte de elas universitários, querendo dar continuidade ao projeto de mostrar e debater aqueles filmes que a gente não podia ver no cinema comercial.
Em as salas que existiam na cidade neste momento, só rolava pornochanchada, bang-bang e cinema americano.
Portanto, o cineclube era uma saída para a moçada interessada em roçar seus neurônios discutindo a 7ª arte.
O que motivava o grupo de vocês a inventar estes projetos?
Baldinir Bezerra -- A gente gostava muito de ficar junto e, além disso, era uma turma que gostava de cinema.
Mas nós também tínhamos um senso crítico relativamente desenvolvido.
Éramos um grupo bastante conversador e questionador da realidade.
Uma galera meio diferente, inquieta e com vontade de promover mudanças.
A gente acreditava que podia mudar o mundo.
Mudar a proposta de ficar exibindo a figura na Av..
Afonso Pena, costume que até hoje é levado a sério por muita gente, mas que para nós não tinha a menor graça.
O que diferenciou o trabalho de vocês no cineclube em relação aos grupos anteriores?
Baldinir Bezerra -- Quando eu entrei para o cineclube de Campo Grande a galera ainda reproduzia a proposta inicial.
Passavam filmes para um grupo mais intelectualizado, em espaços descolados no centro da cidade.
Inicialmente, as exibições aconteciam na sede da Associação Campo-grandense de professores, na rua sete de setembro.
Depois, conseguimos o apoio do Sindicato de Construção Civil, onde o cineclube funcionou por um bom tempo.
Era tudo muito artesanal.
O Celso Arakaki fazia a maior parte dos contatos, alugando um filme 16 mm das distribuidoras em São Paulo (EMBRAFILME).
Esse filme vinha de ônibus, numa lata que tinha que ser devolvida imediatamente no início da semana.
Os custos eram cobertos principalmente por patrocínio, que também bancava os folhetos de divulgação.
A bilheteria nunca dava grande coisa.
Em a questão de espaço, onde a gente conseguia um abrigo, a gente estava lá usando uma sala e chamando as pessoas para assistir e debater um filme a cada fim-de-semana.
Como surgiu a idéia de levar o cineclube para a periferia?
Baldinir Bezerra -- Isso aconteceu por conta dos novos tempos, dos novos interesses e nova visão de mundo.
A idéia foi do Paulo Paes, que veio com a proposta da gente despolarizar esse processo de difusão de cinema, principalmente do cinema brasileiro no qual estávamos investindo mais.
Com essa história toda, a gente acabou indo parar no bairro Nova Lima, que fica na saída para Cuiabá.
Era um loteamento recente, com poucas famílias habitando aquele chão batido de terra vermelha em torno do antigo Leprosário São Julião, que atende os pacientes com hanseníase.
Muitos egressos do hospital, pessoas que tinham se curado, compraram terrenos no entorno para continuar tendo a segurança de cuidados profissionais.
Só que no processo o loteamento foi sendo ocupado por outras pessoas e isso acabou caracterizando uma série de problemas por conta do preconceito dos que estavam chegando no bairro.
A comunidade foi receptiva ao projeto de vocês?
Baldinir Bezerra -- Esse grupinho de moleques urbanos com pouco mais de vinte anos, metidos a cinéfilos, foi parar numa reunião da Associação de Moradores do Bairro Nova Lima numa bela tarde de domingo e teve sua singela proposta de trazer filminhos para a comunidade incluída na pauta de reunião.
Só que como último item da pauta.
Então a gente sentou e começou a ouvir os papos que foram surgindo.
A gente foi se envolvendo com aquilo tudo, somatizando mesmo.
Em o fim das contas, acabamos nos metendo com uma série de temas que nos deixaram perplexos.
Para mim, moleque de tudo na época, ficava a questão:
como é que aquela comunidade conseguia viver com problemas tão sérios?
Comente sobre algumas destas questões.
Baldinir Bezerra -- Por exemplo, não existia água tratada no bairro.
Existia uma caixa d' água, um poço artesiano e um sujeito que vendia água para os moradores.
Corriam aquelas mangueiras pretas à flor da terra e o cara era tão abusado que se alguém cedesse água para o seu vizinho, ele cortava a água dos dois.
E o preço era diferenciado.
A população pagava mais caro que a água do serviço público.
Entre outras questões, a gente acabou participando de movimentos dentro da escola local, onde havia uma diretora que era muito equivocada e abusiva.
A gente acabou ajudando a comunidade a se mobilizar para questioná-la, pois ela não aparecia lá, deixava a escola fechada e os alunos sem aula.
Foi uma revolução na comunidade.
Ajudamos a comunidade a se mobilizar também na construção de uma horta comunitária e num mutirão para a construção de um clube de mães.
Essa história toda acabou indo parar nos jornais locais.
O bairro Nova Lima virou notícia através da ação do cineclube.
Ou seja, o que era o cineclube de Campo Grande?
Era um grupo de jovens urbanos que, nos finais de semana, se dispunha a ir para a periferia passar e debater filmes, a cultura cinematográfica e a relação dos temas com a problemática local.
O episódio mais engraçado ocorreu justamente no dia da exibição do primeiro filme.
Era «O homem que virou suco», estrelado por José Dumont.
No meio da exibição aconteceram várias coisas.
A primeira foi quando apareceu uma cena de sexo do tipo que, hoje em dia, passa direto na sessão da tarde ou na novela das seis.
Um grupo de evangélicos se levantou e fez o maior barraco.
Como não bastasse, depois da situação contornada e quase já no fim da fita, a lâmpada queima, e é claro que nós não tínhamos uma sobressalente.
Até hoje aquele grupo de pessoas não sabe como que o filme terminava.
Assim, nosso lema poderia ser descrito da seguinte forma:
«Uma idéia na cabeça e um projetor 16 mm nas costas».
De a Nova Lima despencamos para uma comunidade quilombola existente dentro do perímetro urbano da capital.
A comunidade da Tia Eva.
Também criamos um cineclube lá.
E fomos nos sofisticando, nos envolvendo com a educação propriamente dita.
A partir de um Programa do MEC, denominado Programa Interação entre a Educação Básica e os Diferentes Contextos Culturais Existentes no País, foi elaborado o Projeto Periferia Viva, do qual eu não participei-mas que garantiu a continuidade de um trabalho educativo no local por mais alguns anos.
Esse trabalho foi determinante para a transformação da vida de vários dos jovens envolvidos.
Quem eram os militantes «cineclubistas periféricos»?
Baldinir Bezerra -- Paulo César Duarte Paes, Nelson Keith Gomes Nagase, Áurea Luz, e esta figura que vos fala.
Esse era um sub-grupo do cineclube de Campo Grande.
Tinha muitas pessoas no entorno.
O Celso Arakaki era o cara que mantinha essa bola rolando.
Era um cinéfilo mesmo naquele período.
Nós acabamos adquirindo uma verdadeira habilidade para transitar por dentro dos mais diversos órgãos do governo para descolar apoio para nossas propostas.
Vale lembrar de um cara que foi nosso grande incentivador o tempo todo.
Chamava-se José Octávio Guizzo que hoje merecidamente, dá nome a um centro cultural e a um teatro fechado na sede do Paço Municipal.
O Guizzo mantinha sempre abertas as portas do seu departamento, na então denominada Secretaria de Desenvolvimento Social -- SDS.
Assim, paralelamente a esse trabalho com a comunidade nós continuamos promovendo outras coisas na cidade.
Por exemplo, nós resgatamos um filme rodado aqui em Campo Grande na década de 30 sob o título «Alma do Brasil».
Este filme, segundo o pesquisador José Ottávio Guizzo, é pioneiro no gênero de filmes de reconstituição histórica além de ser pioneiro também no uso do sistema sonoro no Brasil.
Então, em 83 ou 84, não me lembro bem, a gente fez o lançamento do «Alma do Brasil» e do livro de mesmo nome, escrito por o Guizzo, aqui em Campo Grande e no MASP, em São Paulo.
Viajamos eu e o Wilson Aguaí para lançar este filme lá.
Em a época em que esse filme foi produzido, a Lagoa da Cruz (próxima da UCDB) parecia Corumbá, cheia de tuiuiús, jacarés e outros bichos.
Campo Grande tinha uma vegetação e uma fauna completamente diferente.
A prova disso está no filme.
Realizamos também mostras importantes, como a do cineasta Silvio Bach, que lançou aqui o seu filme «Guerra do Brasil», no Hotel Concord.
Essa produção foi encabeçada por o Joel Pizzini mas acabou dando trabalho para toda a galera.
A gente exibiu uma série de filmes de ele e conseguimos desencadear uma grande discussão sobre cinema.
A gente tinha sempre casa lotada todos os nossos eventos.
Foi um grande acontecimento cultural na cidade.
Conta sobre a idéia de criar o Núcleo de Cinema de Animação de Campo Grande
Baldinir Bezerra -- Essa foi uma outra coisa importante que a gente realizou, a criação do Núcleo de Cinema de Animação de Campo Grande.
Através de um contato que o Celso Arakaki fez com um cineasta paulista chamado Wilson Lazaretti, criador do Núcleo de Cinema de Animação de Campinas.
Este projeto aconteceu dentro do SESC pois na época eu trabalhava lá, justamente na difusão cultural do Centro de Atividades Camilo Boni.
A proposta foi alicerçada no SESC mas acabou recebendo abrigo no Centro Cultural José Otávio Guizzo, onde sobreviveu por alguns anos.
Era um trabalho feito com crianças.
Nós até levamos um grupo numeroso de elas para conhecer o pantanal, para que elas se inspirassem e fizessem suas primeiras produções, levando em conta a temática de identidade do estado.
Tudo que a gente fazia naquela época era pensando nisso.
O Estado estava recém criado após a divisão do Mato Grosso.
Então, era tudo focado nessa necessidade de promover a identidade cultural.
Associar o pantanal à essa identidade aparecia como uma possibilidade bastante coerente.
Hoje eu entendo que o Mato Grosso do Sul possui uma diversidade gigantesca.
O Pantanal é apenas uma das referências possíveis.
Como foi a sua experiência de difusão cultural no SESC Camilo Boni na época?
Baldinir Bezerra -- O fato de eu ser cineclubista me rendeu o primeiro emprego mais sério.
Foi no SESC, que naquele momento tinha um projeto nacional chamado «O melhor do filme brasileiro».
A cada semana o SESC nacional enviava um filme brasileiro que permanecia aqui de quarta a domingo.
Só que antes de eu ser contratado, o filme era exibido somente um dia, numa salinha muito restrita, muito pouco divulgada.
A moça que tomava conta desse projeto, tomava conta de todas as outras atividades artísticas, culturais, festivas e comemorativas.
E ela não tinha essa vivência que no caso eu tinha na difusão de cinema.
Quando eu entrei lá esse filme passou a ser exibido nos quatro dias da semana que permanecia na cidade.
Ele chegava aqui na quinta-feira e ia para alguma associação de moradores, algum presídio feminino, masculino, para alguma escola, onde ele fosse adequado.
Nem sempre o local era tão adequado assim (risos).
Tinha aquela coisa da censura.
Então, uma vez eu fui passar um filme que era meio libidinoso.
Era a história da dançarina Luz Del Fuego que viveu nos anos 30 ou 40, interpretada por a atriz Lucélia Santos.
A personagem era adepta ao nudismo.
Não era um filme de sacanagem propriamente dita, mas a história de vida de uma personagem real.
Aí eu, distraidamente, permiti que uma rapaziada, na faixa dos 16 a 17 anos, assistisse.
E alguém comentou isso com o juizado de menores.
Quase fui processado.
Só escapei porque tinha me demitido do SESC para ir vender sanduíche natural e salada de frutas nas praias de Salvador.
Fiquei um ano e meio nessa.
Foi ótimo.
Mas essa também é uma outra história.
Quais foram os projetos musicais que você produziu nesse período como animador cultural do SESC?
Baldinir Bezerra -- Minhas responsabilidades nessa instituição iam desde as exposições de trabalhos manuais dos cursos do SESC até a produção dos shows nacionais do Projeto Brasileirinho, que o SESC nacional editava anualmente, passando por as festas juninas, folclóricas, mostras fotográficas, de dança, etc..
Durante os três anos e meio que lá permaneci pude realizar a produção de alguns shows de grande porte, como o de Paulinho da Viola, Martinho.
Mas também tive o prazer de produzir alguns dos primeiros shows da carreira de vários colegas, shows de artistas locais como Maria Cláudia e Marcos Mendes, Paulinho e o Expresso Arrasta-pé, Bete e Betinha, Pérsio Assunção e Orlando da Gaita.
O Zé Dú chegou um dia com um projeto para um circuito musical em escolas.
Comprei a idéia.
Ele foi o primeiro a fazer isso.
Depois o SESC manteve a proposta por vários anos.
Hoje parece que não vai mais às escolas.
Sinal dos tempos.
De qualquer forma eu tive uma experiência bastante rica trabalhando lá naquela época.
Continuação no overblog:
Número de frases: 193
Baldinir Bezerra: retrato tocante dos anos 80II hmm ...
acho que estou entendendo o que o Overmundo entende por «cultura» ...
:(Sinceramente, estou me decepcionando.
«a produção é cada vez maior, mas só uma mínima parcela do que é produzido consegue ser divulgada ou distribuída para o público.
Aproveitando todas as possibilidades colaborativas da internet, o Overmundo propõe uma nova forma de gerar conhecimento sobre as múltiplas vertentes de nossa arte contemporânea, na qual não é mais possível estabelecer fronteiras claras entre produtores, divulgadores e consumidores de cultura».
Produção de cultura ...
Não acho que cultura seja algo como uma fábrica, você pára «bom, agora vou produzir cultura, agora vou comer, agora vou dormir, amanhã acordo e produzo mais um pouco de cultura».
Literatura de cordel fala de muita coisa, é meio de comunicação e objeto de consumo cultural.
Funk, merma coisa.
Hiphop então nem se fala, tem até grife de roupa.
Hiphop, música, mas também jornal, rádio independente.
Não é «produção cultural somada a ações políticas e engajadas».
É cultura, atitude, hábito e maneira de ver o mundo.
É tudo junto.
Essa coisa de separar cultura é raciocínio de mercado, e se a proposta do overmundo é extrapolar os limites do pensamento de mercado, é preciso pensar essa palavrinha perigosíssima:
«cultura». Desmontá-la.
Um trecho do Guatarri pra tentar clarear as coisas:
O terceiro núcleo semântico, que designo «C», corresponde à cultura de massa e eu o chamaria de cultura-mercadoria.
Aí já não há julgamento de valor, nem territórios coletivos da cultura mais ou menos secretos, como nos sentidos A e B. A cultura são todos os seus bens:
todos os equipamentos (casas de cultura, etc.), todas as pessoas (especialistas que trabalham nesse tipo de equipamento), todas as referências teóricas e ideológicas relativas a esse funcionamento, enfim, tudo que contribui para a produção de objetos semióticos (livros, filmes, etc.), difundidos num mercado determinado de circulação monetária ou estatal.
Difunde-se cultura exatamente como Coca-cola, cigarros «de quem sabe o que quer», carros ou qualquer coisa. (
o linq pra um trecho maior do texto tá aqui, ó)
Tõ afim de fazer masturbação teórica não.
Só tou tentando pensar que limites a gente se coloca, de antemão, se tentamos entender aqui no Overmundo cultura como algo que se produz, distribui e vende.
Isso é uma maneira de ver as coisas e, sinceramente, bastante limitada.
Nem todo mundo é, consegue, ou quer ser um «profissional da cultura», que é conhecido mais popularmente como artista.
Vai que catador de papel quer cantar enquanto trabalha, gosta, inventa, faz música que combina com o ritmo e os ambientes do trampo de ele.
Não quer vender, mas não vai achar ruim se quiserem distribuir.
Sem precisar virar bem de consumo.
Sem precisar de nada mais.
Ou, digamos, o que iniciou esse meu blablabla:
uma notícia a respeito de uma multinacional que apoiou uma operação ilegal da polícia federal pra expulsar uns índios lá no Espírito Santo.
Publiquei a notícia.
Óbvio que ela não combina com o que a gente entende normalmente por «cultura».
Não se compra, não se vende, não se faz nada com essa notícia a não ser, talvez, uma ação política.
Mas porque que ação política não tem a ver com cultura?
Quem disse isso?
E porquê?
E, principalmente, porque nós precisamos concordar com isso e dar razão a essa idéia aqui no Overmundo?
A provocação tá aí.
Se a comunidade é aberta, as palavras usadas pra definir o que ela é, quais os seus objetivos, pra quê ela existe, também estão abertos.
... Ou não?
Número de frases: 42
Será que o Overmundo tá aberto mesmo ou foi uma ilusão, ainda que breve, minha?
Democracia para ser compartilhada
Frente à imoralidade que corrompe o cenário político nacional, parece quase impensável resgatar Aristóteles e o conceito de que a política é a ciência que tem por objetivo a felicidade humana.
Desgastados com a mesmice da corrupção, temos a nossa moral assolavancada, nossos direitos digladiados, nossa cidadania pisoteada.
Engolimos a indignação como um pão nosso de cada dia que o Estado amassou.
Mas quem compõe o Estado senão nós, cidadãos brasileiros?
A disenteria que nos abate é reflexo de nossa inação, de nosso descaso e da total ausência de interação tanto entre o governo e a população quanto entre os cidadãos brasileiros de um modo geral.
Algo incompatível com a revolução colaborativa que vem chacoalhando os meios de comunicação e propiciando a multiplicidade do acesso à e a troca de informação.
É nesse cenário que novas iniciativas têm surgido no intuito de dar voz ao ciberativismo, como uma alternativa de transpor o monopólio da opinião pública e a mídia como até então era produzida e veiculada.
E o melhor:
sem passar por a chacota de (des) usuários fakes que acomete sites de relacionamento e a web 2.0 de um modo geral.
Vide a iniciativa do site Democracia.
com. br.
Ou melhor, da ferramenta Democracia.
com. br..
Partindo do pressuposto de que sem informação não há democracia, a plataforma pretende promover a interação de forma nunca antes experimentada entre políticos, candidatos e cidadãos brasileiros.
Por enquanto apenas o blog está na rede, mas dentro em breve haverá debates, abaixo-assinados on-line e perfis de usuários cadastrados, bem como daqueles que ocupam ou ocuparam cargos eletivos, já perfilados antes mesmo do cadastro.
Como assim?
É que a versão anterior do site funcionava como uma espécie de banco de informações aprofundadas sobre a vida política de nossos ilustres representantes, além de enquetes virtuais.
Repaginado, o Democracia.
com. br volta à tona com a importante missão de revolucionar a vida política do país e dar voz, também, à inclusão digital.
Mais por o conteúdo do que por a usabilidade e interatividade, o Fala, Brasil!
também funciona basicamente através da pluralidade da produção de conteúdo.
Com colunistas que «não têm medo de controvérsia nem de escrever com inteligência», como auto-escancara, o portal traz textos de nomes expressivos do cenário político nacional, como Cristovam Buarque e Alberto Dines, e propicia a interação dos internautas com os autores e entre si através de comentários e livre troca de opiniões.
Há controvérsia?
Pouca. Talvez por não ser lá tão interativo assim:
nem todos podem inserir artigos no portal.
Mas vale (e muito!)
por o poder de formar massa crítica e consciência política, tão escassas atualmente quanto a ararinha azul em extinção.
Há opções para todo tipo de ciberativismo.
Até mesmo divertidas.
Ou então, digamos, trajadas com nariz de palhaço.
Não, não se trata de menosprezar a iniciativa.
É que o Não Sou Palhaço funciona exatamente assim.
mais de 1.500 internautas já estamparam suas fotos com acessórios de arlequim e desceram o teclado contra a corrupção e o abuso dos políticos brasileiros.
Com navegabilidade prática e divertida, o site permite que em poucos minutos você também alardeie a sua indignação.
Indignados todos estamos.
Mas nem sempre fazemos a nossa parte.
Falta de tempo?
Preguiça? Ou desinformação?
É hora de compartilhar conhecimento.
Número de frases: 41
Ao invés de ' mãos ao alto ', que tal as ' mãos na massa '?
KINEMANDARA: O Ponto De Mistério do Cinema Brasileiro.
Por Carlos Pará * --
Nossa História só terá realidade quando o nosso Imaginário a refizer, a nosso favor.
VFC -- Manifesto Curau.
«Agora, abrir os olhos.
Agora, começar a sonhar o sonho de ver como somos vistos».
VFC: " Tarkovsky:
Através de uma fina película transparente».
Vicente Franz Cecim
Volta a ter sua produção cinematográfica exibida na cidade."
KinemAndara: 30 anos de Cinema do Invisível."
curtas-metragens poéticos produzidos em Belém na década de 70 em super-8 mm.
Os filmes foram, por a ordem de realização: '
Matadouro (1975)», ' Permanência (1976) ', ' Sombras (1977) ', ' Malditos Mendigos (1978) ` e ' Rumores (1979) ', que eram projetados em cineclubes, garagens, auditórios, passava em qualquer lugar, onde desse para ligar o projetor, armar a tela, mandava ver.
Os anos de 1975 até 1980 apesar de ser um caminho exaustivo de Cinema e Loucura para VFC, foi principalmente, um ritual sagrado, solitário, existencial e essencial.
Enquanto as fábricas de filmes estimulavam o consumo de máquinas de filmar para registrar «os momentos felizes da sua vida», batizado, casamentos, aniversários, piqueniques, passeios, Cecim utilizava sua Câmera como um meio de interrogar, espreitar as aparências da realidade e ir até as últimas conseqüências com seu roteiro que era abandonado logo no começo das gravações, pois nada do que tinha sido filmado obedecia ao que tinha sido escrito, captava a realidade em frames fora ou além da ótica estabelecida como beleza e como verdade,» espelhos de mistérios, revelando outros mistérios», poemas visuais em Super-8, Cinema com um custo relativamente barato.
As principais dificuldades de se fazer Cinema na época são as mesmas de hoje:
falta de dinheiro e a insensibilidade para criar, imaginar e ser.
Cada rolo tinha três minutos de gravação e na hora de editar aproveitava por completo as filmagens e tudo ia para o filme, não perdia nada na seleção e organização das imagens, já sabia o que queria, quando colocava a Câmera, já sabia o que ia fazer, dessa forma acreditava e fazia os filmes, como tudo é miragem, tinha miragens, tanto as recordações, projeções e especulações sobre o futuro, quanto miragens do presente, miragens imediatas.
Se não fosse uma miragem não havia a poética, então, porque fazia arte?
Por que não só viver, ouvir, ver, se conformar com tudo o que está pronto e condicionado para nós vivermos.
É preciso recriar, ver a realidade através de uma fina película transparente?
Uma fina película entre o olhar e a realidade.
VFC concretizava seus sonhos que hoje possuem um grande valor artístico e documental.
Em a época o material que utilizava era uma pequena máquina de super-8 com filmes da Kodak, depois de filmar, enviava para revelar em São Paulo através do Foto Keuffer, e depois voltava, pronto para serem exibidos.
Depois que parou de fazer seus filmes, por uma questão de princípios, deu todo seu equipamento.
Tinha decidido dedicar-se unicamente a um novo «Caminho VIAJAR A ANDARA», determinou fazer uma coisa só, para avançar, ir mais fundo na sua Existência, pois havia a Intuição que um novo caminho devia ser seguido, o Caminho da Escritura.
A partir de 1979, ano que realizou do seu último filme «Rumores», escreveu e publicou o seu primeiro livro» A asa e a serpente», primeiro passo do seu Projeto de «Andara -- O livro invisível».
E assim se impôs a Literatura como um ritual único.
Seus filmes têm muito da Literatura por o poético, e seus livros têm muito do Cinema, por o visual.
Não fazer filmes foi uma escolha radical e com isso deixou esquecidos seus trabalhos e levava-os com si como o inconsciente que de quando em vez se manifesta.
Atualmente os pequenos rolos de filmes em super-8 se encontravam dentro de seu Caos onde mora, serenos, perdidos dentro de um saco de plástico com a boca amarrada debaixo de uma televisão que nunca é ligada, onde por ocasião desta Mostra Itinerante realizada por a Revista PZZ em parceria com o Mis-PA, resolveu guardar no Museu da Imagem e do Som -- Pará, para preservá-los.
Em 2005 os filmes voltaram a ser exibidos, no formato digital, em Belém e em São Paulo, incentivado por o Projeto de resgate dos resíduos, dos raros vestígios do Cinema paraense, desenvolvido por a Universidade Federal do Pará, em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico -- CNPQ.
Os filmes foram restaurados e adaptados à tecnologia digital, um processo de filmagem da projeção dos filmes e digitalizados para DVD, assim, puderam garantir a salvaguarda do conteúdo e da sua informação histórica, pois seus filmes mostram aspectos do cotidiano de Belém e dos esquecidos em sua ótica visionária poética numa trilha sonora emocionante.
Os filmes dialogam com o invisível que não podemos ver.
Não é cinema mudo nem falado, é uma organização intuitiva de imagens, silêncio e música que se compõe num mosaico onírico.
O cinema sempre fala como linguagem para dialogar, transmitir a emoção, a miração, a migração, o ato de olhar do autor.
«Kinema = Movimento, Andara = Andar = Amazônia, Kinam Andara, revela imagens que não se vêem habitualmente, a imagem da morte, a imagem dos esquecidos, a imagem da velhice, a imagem da transitoriedade das coisas, a imagem interior, o silêncio e o vazio são povoados de alucinações e significados.
Fazer filme não com o olho que vê ou o olho mecânico da máquina que filma, fazer com o desespero e com a alma, louco, apaixonado a filmar, a iluminar, a editar, sonorizar, incansável no seu ofício mágico e alquímico, solitário em seu ritual sagrado, existencial-essencial, pessoal-impessoal, para expressar a matéria-prima da vida, alguma coisa brutal em outro sentido figurado, para as pessoas se tocarem.
Mostrar a realidade bruta trans-figurada, experimentar, recriar cenários.
O cinema trabalha com a matéria-prima pré-existente, a libertar o sentido das coisas, criando um mundo inteiro com as imagens diferentes do que são usadas, faz entrar num espelho energético e voltar desconhecido, diferente do que era antes, com aparências de realidade e o Cinema não depende só da realidade para existir, entrar num espelho de mistérios e ver-se como mistério é o que VFC queria mostrar, queria olhar, ver-se, na vida, na tela, até conseguir captar a dimensão oculta na realidade visível.
E por isso Kinem Andara é o Cinema do In-visível.
Existe um rico Universo imagético com raízes na memória do homem moderno, mas que este não tem acesso, permanecendo oculta ou ignorada, sua fonte original de criação, que se encontra invisível aos olhos e insensível ao coração, não pertencendo ao universo da percepção profunda da noção de realidade que regem nossa compreensão do mundo e de nós próprios.
Todas as coisas que acontecem na Consciência se refletem a partir de uma visão-vivência que renova memórias, o que está em baixo (inconsciente-passado) assemelha-se ao que está em cima (vivência).
Uma linguagem de grande riqueza imagética por o recurso da poética, dos momentos de iluminação, da fotografia e do movimento das cenas com alegorias fantasmagóricas, e aos jogos de imagens na busca por o elemento de mistério das coisas, re-vela o Kinem Andara.
Vicente Cecim faz parte das Vozes que se insurgem contra a mediocridade e ao modo de produção mercadológico que se transformou o Cinema, revela a coragem e a vontade em utilizar para benefício próprio as técnicas de Comunicação contra o niilismo e as concessões que o cenário audiovisual se define e se resolve em expressões obscuras.
Sempre que falamos abertamente não falamos nada, sempre que usamos uma linguagem que recorremos às imagens, ocultamos a verdade.
E tudo o que dissermos de uma Obra de Arte será insufi [ciente ou inútil.
Diferente é a experiência de nos iniciarmos diretamente em seus filmes.
«Quando sós, face a face com eles, sempre nos falam com ampla generosidade, se entregando profundamente, em retribuição ao nosso silêncio.
Respeito e prudência, ao falarmos de eles, então se impõem.
Deixar que eles se digam.
E, previamente, apenas de eles falar por alusões.
Esse est percipi / Ser é ser percebido -- nos diz Berkeley.
E quando o olho humano vem fazer companhia a esse Olho mecânico, vem humanizá-lo, digamos assim, no sentido pleno das visões, intuições, carências, indagações, ilusões, possíveis saberes, esperanças, miragens, que fazem de ele um olho humano?
Esse est percipere / Ser é perceber -- nos diz Berkeley.
«Um filme de Vicente Cecim sendo então uma dessas raras oportunidades que nos são dadas por a Via Estética de confrontar -- no sentido já dissimulado por o uso mais ainda vivo na palavra, de colocar frente a frente -- vida e homem, o percipi e o percipere, o percebido e o perceber. (
A imagem e o olhar).
Bergson nos diz:
Se ' percipi ` é passividade pura, o'percipere ' é pura atividade.
A fina película então é o elemento intermediador entre a epiderme do Real, que se entrega a Cecim em percipi, se deixando ser percebida, e lhe permite o ato de percipere, perceber e, o por ele percebido, nos revelar.
Mas, a esta altura, ainda estamos falando da fina película que é um filme, ou imperceptivelmente já ingressamos no coração obscuro do nosso assunto:
já nos surpreendemos falando da matéria como uma fina película transparente situada entre o homem e Deus?
A ambivalência das palavras, ah:
tanto nos naufragam como nos socorrem.
E o que leremos a seguir, ao lermos a palavra doutrina, seja lido como sinônimo da palavra vida.
Pois é implicitamente a ela, como visão de mundo de Berkeley, que Bergson se refere, quando nos diz:
De ela nos aproximaremos se pudermos atingir a imagem mediadora ( ...) --
uma imagem que é quase matéria, pois se deixa ainda ver, e quase espírito, pois não se deixa tocar -- fantasma que nos ronda enquanto damos voltas em torno da doutrina e ao qual é necessário que nos dirijamos para obter o signo decisivo, a indicação da atitude a tomar e do ponto para onde olhar.
É permitido ao homem, através da mediação da Arte, não somente percipere / perceber mas também dar a perceber aos outros homens o que, através da fina película transparente, percebeu?
Em o cinema, em todas as épocas, a alguns, isso foi consentido:
Bresson, Ozu, Antonioni, Dreyer, mais recentemente a Alexander Sacha Sokurov, Tarkosky e ao próprio Cecim.
«Diante do Abismo que é o Assombro de existirmos, humanos, face a face com a espessura e as transparências da Vida que nos habita e na qual habitamos, sutis como uma sombra, densos como um corpo, deveu ser grato a eles, por a vertigem que em nós sempre despertam, por as quedas para o alto em que sempre nos precipitam, nos impedindo de adormecer na desoladora fronteira que inventamos para nossas omissões, no passo que não damos, entre o Imanente e o Transcendente."
Tarkovsky entendeu o Cinema como a arte de Esculpir o Tempo.
E no livro que escreveu com esse título, e não apenas através das imagens dos seus filmes, nos fala de uma urgência alarmante: --
O homem moderno não quer fazer nenhum sacrifício, muito embora a verdadeira afirmação do eu só possa se expressar no sacrifício.
Aos poucos vamos nos esquecendo disso, e, inevitavelmente, perdemos ao mesmo tempo todo o sentido da nossa vocação humana.
Que vocação é essa?
A vocação de uma entrega total, de um consentir permanente que luzes lampejem em nós, nos permitindo ver -- mesmo que por breves clarões, na vida como numa escura sala de projeções, sacrificando nossas consolações vazias, nossas paixões condenadas a cinzas, nossa avidez de um agora efêmero -- aquela que ama ocultar-se e que, em seu Pudor, é a Fonte
Permanente do nosso mais intenso fascínio?
Clarões.
Ainda que estonteantes, cegantes.
Mas de uma cegueira que nos liberte de continuar vendo através de um cristal escuro e nos conceda outros olhos capazes de ver através dessa fina película transparente situada entre o homem e Deus -- sabemos o que essa Palavra significa, em todas as suas metamorfoses.
É esse o olhar que reivindicava Berkeley, segundo Bergson.
E esse é o olhar que buscou Franz Cecim, com seus filmes que são fendas abertas na espessura da matéria, e que ele, também, reivindica como Tarkovsky, quando afirma:
-- E o que são os momentos de iluminação, se não percepções instantâneas da verdade?
Ou quando denuncia:
-- A moderna cultura de massas ( ...)
está mutilando as almas das pessoas, criando barreiras entre o homem e as questões fundamentais da sua existência, entre o homem e a consciência de si próprio enquanto ser espiritual.
São palavras que devemos manter acesas em nós quando as luzes
se apagarem e os filmes começarem a cintilar para os nossos olhos.
Em esses Templos de um tempo sem templos em que podem se transformar as salas de projeções, ante filmes como os de Cecim, já não se trata de simplesmente ver, mas de penetrar profundamente, através da fina película transparente que o seu cinema nos oferece, até nos revelarmos a nós mesmos, e orando em silêncio:
-- Agora, abrir os olhos.
Agora, começar a sonhar o sonho de ver como somos."
A alusão aqui acima é ao texto de «Vicente Cecim Tarkovsky: Através de uma fina película transparente», que nos remete à própria idéia central do pensamento de Vicente.
E assim, passo a passo, nos damos conta que foi dito, algo sobre o cinema de Vicente Cecim, ele próprio por ele próprio, mas obliquamente:
por reflexos de vozes ecoando em espelhos que constroem sua Imagem em Movimento.
Quem inadvertidamente, penetrar neste campo semiótico, depara de súbito com um sistema caótico de referências, com uma rede de códigos e normas, de nomes e de símbolos relativos a substancias arcanas (segredos, mistérios) em permanente mutação, em que aquilo que é aparente, pode ter sempre um significado diferente do que aparenta-ser e a noção de que a projeção dos fenômenos oníricos não podem ser manipulável a não ser por alusões.
Para Marcelo Ariel que viu os filmes de Cecim na PUC de São Paulo em Abril de 2005, fala na Revista Critério que " são filmes que transfiguram o sentido das imagens e se inserem como ' documentários do fantasmagórico ` incrustado em nossa ' ficção-vida ' 9 ela mesma um sonho onde sonhamos que não sonhamos como nos lembra Borges). ( ...)
Cecim é um criador radical que trabalha entranhado entre o ser e o não-ser evitando separar os dois do sagrado porque ele em sua obra sobrevoa dualidades que se dissolvem num estado poético acessível a qualquer um dotado de sensibilidade que ele chama «nos dando a chave» de Ver A Terra do Céu.
Vicente Cecim pode ser entendido de modo mais livre do que os outros do seu tempo que tentaram fazer Cinema, senão de modo mais evidente e mais claro, com um Cinema mudo de uma extrema complexidade na sua expressão.
Mais do que imagem-palavra, miragens.
Através da miração do olhar e do pensamento do cineasta atingir o intelecto-coração do espectador num processo alquímico de revelação transformando a massa cinza do cérebro em massa de verdade e transubstanciação do espírito.
O conhecimento visionário, substitui a compreensão literária do texto, a compreensão imagética do filme, a projeção na câmera obscura que atravessa o Olho que agora não vê, vê-se e vive-se no que sente.
O olho humano é uma imagem do Universo.
O branco do olho corresponde ao oceano de mistério, que rodeia o universo por todos os lados.
Andara é o ponto central de tudo, a partir do qual se torna visível o aspecto do universo inteiro.
Para Vicente Cecim, não lhe agrada a rotação do girar, girar, filmar, filmar com uma órbita rotineira.
Em esse processo, misterioso e caótico, simples e violento de interpretar as coisas que não lhe incomodam mais, em que os opostos se encontram ainda in-conciliáveis, num conflito pacífico-violento, de ver e ser transformado progressivamente num estado de libertação de harmonia perfeita, a Pedra Filosofal.
«Agora, abrir os olhos.
Agora, começar a sonhar o sonho de ver como somos vistos».
VFC.
«Foto Cecim
«Fazer um filme foi e sempre será um sonho, em qualquer circunstância:
antes de realizar o filme, é o sonho de fazê-lo, e, depois de ele pronto, é o convite ao sonhar se manifestando plenamente.
Em aqueles anos, o super-8 foi para nós o que hoje é a facilidade do vídeo.
Equivalia, e equivale, a ter na mão um lápis e algumas folhas de papel.
Então, escrevemos, com imagens ou com palavras.
Com isso se eliminava, e se elimina, ou atenua muito, o impasse, melhor dizer:
o bloqueio que o dinheiro representa».
Olho
VFC queria olhar, ver e mostrar a vida como os seus olhos e o da câmera conseguisse captar a dimensão oculta na realidade visível.
E por isso KinemAndara é o Cinema do Invisível.
Foto CECIM
O Cinema é o Olho que tudo vê e tudo mostra.
Essa foi e será a sua essencialidade em qualquer época, qualquer tempo.
Atualmente, quando parece que todos estamos vendo tudo, o mundo inteiro e o que se passa em ele, acabamos não percebendo que há muito mais oculto do que de fato revelado.
A comunicação de massa mistifica o Real, ilude o Homem.
É manipulada conforme interesses freqüentemente sujos e suicidas para a nossa espécie.
A invasão do Iraque por a América de Bush é um exemplo brutal.
Há tantos.
Em estes tempos que estamos vivendo, o Cinema deve assumir, com enorme responsabilidade, o desafio que Berkeley, citado acima, nos faz, e que eu entendo assim: --
Dar a perceber a Realidade submersa no cristal escuro das imagens que os engenhos e maquinações das comunicações de massa, agora, nos ocultam.
Carlos
Pará Editor
De a Revista PZZ-Arte Política E Cultura
Coordenador Executivo da Mostra Itinerante LONGWORD Vicente Franz CECIM \>».
Número de frases: 138
«Três transformações do espírito vos menciono:
como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança."
Friedrich Nietzsche Um crime contra a esperança!
Sinto a exclamação permear os atos como se fosse incapaz de abrir uma nova janela para o futuro.
Sem possibilidade de esquecimento, acumulo vivências afetivas, profissionais, sociais e políticas, recortando e colando os traumas junto às realizações e tentando suportar a longa travessia no deserto.
Busco em vão os porquês, mas me surpreendo com as ambigüidades que encontro ou com as certezas que perco.
Ora me acoberto com leituras para suportar as madrugadas frias, acordar sob o sol escaldante e permanecer viva na aridez do território, ora me escondo na própria releitura e reincido em narrativas que não surpreendem e que pesam excessivamente sobre a possibilidade de ser.
O espírito sobrecarregado se projeta num corpo rendido ao descampado ...
Assim falou Zaratustra.
A obra de Nietzsche me afasta do cotidiano.
Transporto-me no tempo sem me importar muito com o espaço e vejo quando Zaratustra desce a montanha rumo às profundas inquietações de todos os seres.
As transformações enunciadas em seu primeiro discurso me convencem da necessária metamorfose a que devemos nos submeter para vivermos de forma mais criativa, com mais desejo e força e sem tanta submissão aos «deveres» ou às verdades que não ousamos profanar com indagações.
O espírito amadurecido percorre o deserto com o peso do seu estar no mundo.
A perfeita representação do camelo -- ruminante e decadente.
Carregado de vivências e sem anseios de mudanças, o espírito permanece submisso à sua representação na sociedade.
Um ser cansado e solitário num caminho desértico.
Resignação e obediência.
Tu deves ...
A existência do camelo possibilita a transformação em leão.
O impulso e a coragem, expressos no querer pessoal em confronto com o dever coletivo, são características fundamentais para o novo espírito.
Ser livre para apropriar-se do próprio deserto.
A ferocidade do leão rasga o existente e com ímpeto rompe com os vínculos, mas não tem o poder da criação e se limita aos conhecidos desertos cotidianos.
Eu quero ...
O espírito seria abatido por o próprio desejo caso não se transformasse em criança.
Eis a terceira metamorfose.
O leão, após se libertar e apropriar da vida, torna-se uma criança e, com a inocência e o esquecimento, assume o jogo da recriação.
Completo o ciclo de metamorfoses, o espírito livre é «uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação».
Eu sou ...
Apóio o livro na cabeceira enquanto aterrizo na realidade repleta de obrigações e noticiários.
Novas metáforas brilham como perspectivas renovadas de céu sobre o deserto.
Ainda não iniciei as metamorfoses necessárias a fim de compreender o eterno retorno e a necessidade de recomeçar com criatividade.
Busco-me ainda leão ...
Número de frases: 32
A paixão do professor universitário Carlos Menezes por o bumba-meu-boi remonta aos tempos de morada na terra do maracatu.
«Quando vim para cá, eu conhecia pouca coisa do bumba-boi, mas o pouco que eu sabia já me deixava entusiasmado.
A o chegar aqui, saí em busca dos discos da brincadeira, nas lojas especializadas, sebos, nos centros de cultura, enfim.
Consegui reunir um bom material, que continua a crescer com a compra dos CDs», conta.
A menina dos olhos de Carlos Menezes é o disco do Boi da Madre de Deus, primeiro registro fonográfico do gênero no Estado.
Gravado ao vivo, o disco teve a direção de Stockler de Moraes.
Segundo o cantador Roseno, que participou do disco, a gravação foi feita em 1971.
De o vinil, além de Roseno, participaram nomes como Manoel Pinto, Luís Chofer, Ari Lobo, Nhô Cristo, Manoel Onça e Orpila, entre outros.
Em o acervo de Carlos Menezes podem ainda ser encontradas as primeiras gravações em disco dos bois de Morros, Maracanã, Ribamar, Sítio do Apicum, Axixá, Redenção, Coroatá e Periz de Cima.
O bumba-meu-boi de Axixá é o recordista de discos da coleção, são 11 no total.
Seguido por o batalhão da Maioba, com seis e Madre de Deus, com cinco.
Em a trupiada de preciosidades, está o primeiro disco do boi de Morros, com gravações de Lobato, Leocândida e Ercias.
Lançado em 1984, o disco fazia uma homenagem a José Hugo Lobato (Zuza Lobato), patrono da brincadeira.
De os batalhões de matraqueiros, destaca-se o disco Ilha Encantada, do Sítio do Apicum.
De o bumba-meu-boi de Ribamar, de 1984, destaque para as toadas Lá Vai Morena, Eu Também Vou Cantar prá meu São João, na voz dos cantadores Cantanhede e Preto.
De o batalhão ribamarense tem ainda a excelente Meu Tamarineiro.
De o sotaque de zabumba, o boi da Liberdade, com os cantadores Dico e Givaldo, é uma boa pedida.
Também é bom ouvir os bumbas-meu-boi do Coroadinho, São Simão, Iguaíba, Humberto de Campos, Pindaré e Bequimão.
Além da mais autêntica trupiada, Carlos Menezes guarda ainda discos como o do 1º Festival de Toadas de Bumba-meu-boi do Maranhão, Ilha do Amor e Música Popular do Norte.
O disco do Festival de Toadas de Bumba-meu-boi do Maranhão reúne as toadas de 12 grupos de bumba-meu-boi.
Entre os cantadores, participaram do registro Zé Olhinho, do Boi de Pindaré;
Preto, de Ribamar;
Manequinho do boi de orquestra de Axixá;
Leonardo do Boi de Iguaíba; e Humberto de Maracanã, do Bumba-boi de Maracanã.
Para se ter uma idéia da preciosidade, foi nesse festival que o cantador Humberto de Maracanã cantou pela primeira vez a toada Maranhão, meu Tesouro, meu Torrão, que virou ' hino do Maranhão '.
Uma outra coletânea interessante do acervo de Menezes é o disco Ilha do Amor.
O trabalho, idealizado por o baiante Leôncio Rodrigues, reúne nomes dos bois de zabumba, orquestra e pindaré, como Bartolomeu Santos, o Coxinho, Josemar Prazeres, Joubert Queiroz e Manoel Leôncio.
O saudoso Coxinho canta no disco as toadas Orgulho da Ilha e São João Padroeiro.
Em esta última, ele afirma ser o folclore maranhense «o melhor do nosso país brasileiro».
A qualidade do acervo de Carlos Menezes não está apenas nas belas toadas dos discos e nem nas grandes vozes dos cantadores que as interpretaram.
Impressionam também por as obras de arte que são as capas de alguns destes discos, particularmente nos vinis dos bois de Barbosa de Rosário e do bumba-meu-boi de Bequimão, ambos no sotaque de orquestra.
De o quarto disco do Boi de Barbosa de Rosário, destaca-se o trabalho feito por Gersinho para a capa do vinil.
Ele mistura aspectos arquitetônicos da cidade de São Luís com o bumba-meu-boi.
Já o artista plástico Fransoufer fez para o bumba-meu-boi de Bequimão, sua terra natal, um desenho com o auto do bumba-meu-boi.
Os discos, claro, são guardados a sete chaves.
Número de frases: 35
«Olá, Daniel.
Boa tarde.
Que bom que você atrasou um pouco.
Eu estava na rua até agora mesmo».
Com essa frase e um sorriso constante no rosto Carlos Elias entrega duas características marcantes de sua personalidade:
a inquietude e a simpatia.
E uma da minha:
a dificuldade de chegar no horário.
A os 72 anos, o sambista, que já foi gravado por Nara Leão e Beth Carvalho, está em fase de divulgação do seu novo grupo, Som Brasília.
E tem visitado amigos e meios de comunicação em sua incansável cruzada de propagação do samba, iniciada há mais de 50 anos, quando o mineiro de nascimento ainda morava no Morro do Pinto, no Rio de Janeiro, para onde se mudou aos 3 anos de idade.
Foi lá que nasceu Ernesto Nazareth», revela, referindo-se a um dos grandes nomes do chorinho, autor do clássico Odeon.
A paixão por a música começou na adolescência, quando tentou estudar alguns instrumentos.
O destino não ajudou muito.
De seus três professores de piano, um se mudou sem deixar o endereço.
Outros dois morreram.
Depois, passou para o violão.
E seu primeiro mentor também acabou falecendo.
Coincidência ou não, sempre no período de férias.
«Meu segundo professor de violão até brincou, dizendo que se eu viajasse não voltasse para lá como aluno, apenas como amigo», ri, cheio de vida.
Outro amor de Elias, a Portela surgiu para ele durante o carnaval de 1954, quando os desfiles ainda ocorriam na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio.
Tornou-se relações públicas da escola.
Lá, nos anos 60, conheceu Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Candeia, Argemiro do Patrocínio, Monarco e outros nomes de peso do samba.
E tornou-se um respeitado compositor.
Foi gravado por Nara Leão (Canção da Primavera) e Beth Carvalho (Homenagem a Nelson Cavaquinho), entre outros.
Nelson Cavaquinho, aliás, foi um grande amigo.
Tentaram uma parceria, que nunca se realizou.
«Acho que o Guilherme de Brito (parceiro mais freqüente de Nelson) teve um pouquinho de ciúmes.
Dizia que a parceria não daria certo.
E não deu mesmo», sorri.
«Nelson me entregou uma música com um pedaço de letra.
Eu terminei, mas infelizmente nunca tive tempo de mostrar pra ele."
Em esse momento deixa escapar uma pontinha de tristeza.
Como quando conta da decepção causada por sua escola do coração no carnaval de 2005.
Foi escalado para entrar na Marquês de Sapucaí ao lado da Velha Guarda, mas a ala não conseguiu desfilar.
«A Portela saiu muito cheia.
E o presidente não teve outra escolha a não ser impedir a entrada da Velha Guarda.
De o contrário, não encerraríamos o desfile a tempo e seríamos rebaixados."
Mas logo volta a falar das coisas boas que realizou.
Como a temporada Sexta-Feira É Dia de Samba, em 1966 e 1967.
Começou no Teatro Jovem, em Botafogo, e depois foi transferida para o Teatro Princesa Isabel, em Copacabana.
«Uma noite o Grande Otelo foi convidado para cantar.
E levou com ele um grupo elétrico, com guitarra e bateria.
Teve gente que torceu o nariz, mas eu gostei», conta.
«E ainda teve a vez em que recebi um bilhete de um amigo, pedindo para abrir espaço para um jovem cantor que estava começando.
Sabe quem era?».
Eu não sabia.
«O Martinho da Vila."
No meio dos anos 70, mudou-se para Brasília por necessidade de seu trabalho administrativo no Itamaraty.
E fundou o Clube do Samba, anterior ao que João Nogueira montou no Rio.
Funcionou semanalmente de 1978 a 1981.
«Mas os músicos não aprendiam novas canções.
O repertório ficou o mesmo durante três anos, e aí começou a esvaziar».
O que seria desânimo para uns tornou-se motivação para ele.
Manteve o samba apenas uma vez por mês, e ocupou as datas restantes com mais um de seus projetos, também seminal para a cultura brasiliense:
a Feira de Música.
Os frutos foram tão bem plantados que nos anos 90, já sem o seu comando, a Feira tornou-se o principal palco do rock de Brasília.
Depois, foi para a França.
Morou em terras napoleônicas em dois períodos:
de 1984 a 1989, em Marselha, onde recebeu a notícia da morte do amigo Nelson Cavaquinho.
E de 1997 a 2003, em Paris.
E fez muito bem o seu trabalho de embaixador do samba.
Tocou em badaladas casas de show, como a Favela Chic, montou espetáculos e até participou de um desfile de moda do estilista japonês Yoshi Yammamoto.
Há dois anos de volta à capital, é uma das figuras mais queridas da cidade.
Tanto que existe até comunidade no Orkut em sua homenagem.
Com fôlego de criança, tem gente que jura já tê-lo visto em duas rodas de samba ao mesmo tempo!
O segredo, revela, é sua vida regrada.
«Procuro seguir uma dieta e não bebo cerveja, só um pouco de vinho».
E como com cavalheiro, nunca nega uma dança.
«As mulheres pedem para dançar com mim.
Acho que é porque eu sou animado e adoro inventar meus próprios passos.
Meu ídolo é o Fred Astaire».
Link:
Comunidade «Eu Conheço o Carlos Elias», no Orkut
Número de frases: 73
Contato: carloseliasdacruz@yahoo.com.br Os conceitos se proliferaram de uma forma faraônica.
São tantos conceitos, tantas metáforas, tanta poesia, tanta ciência elegante.
Ernesto Sábato diz algo interessante.
Para este argentino, era fácil entender a teoria de Newton a partir da metáfora da maçã, porém, vamos tentar entender a teoria de Einstein a partir da metáfora do trem e do observador.
Já viu algo mais chato do que as imagens suscitadas por Einstein para compreensão da teoria da relatividade?
Tudo fica ainda mais caótico quando partirmos para a compreensão de Heisenberg, Prigogine, Atlan, e os demais que adoram falar em «teorias do caos».
Impressionante, o «homem médio», diz Sábato, desisti de entender toda essa baboseira.
O que quer o homem médio?
Ele quer comprar objetos deliciosos que encantam nosso viver.
Pode comprar?
Não. Antes que ele possa ir a um bom restaurante, deve entender que a boa carne e a boa bebida é reservada aos homens que divagam insistentemente.
Esses homens repensam a trajetória de Celso Furtado, questionam a política de exportação de Delfim Neto, e ainda têm a cara-de-pau de dar " contribuições-malucas ao plano Real -- o plano Real recebeu mais pitaco que o time do Santa Cruz em 2005-2006.
O homem-médio então desiste de entender tudo isto.
Ele apenas quer amar.
Visualiza na mulher que ama um motivo para encantar sua trajetória sem luxo nesse mundo vazio.
Diz que a ama, beija, fica suado, fode, enlouquece em seus braços.
E depois?
Depois os discursos rebuscados suscitam uma mulher inalcansável e o homem-médio perde o encanto por a mulher desleixada que tem em casa.
Se ele não pode amar, nem comprar, o que ele pode fazer?
Trabalhar. Tem trabalho?
Não tem trabalho.
Então ele vai assaltar.
Muito chato tudo isto que eu escrevi, não é?
Eu também acho chato.
Quando «antecipamos» o mal-estar as pessoas acham ruim.
Mas quando as balas começam a perfurar as cabeças alheias, o choro rompe as capitais falídas desse «Brasilzão de Deus» -- expressão cafona e sem sentido.
Agora estou aqui apaixonado por sei lá quem.
Tentando arrumar um emprego que eu não sei qual vai ser.
E divagando bobagens bem menos sofisticadas do que a economia pós-moderna dos pós-celsos furtados.
Que assim seja, amém.
Número de frases: 30
O que se pode fazer quando tudo aquilo se deseja parece está
distante de nossas possibilidades?
Como conviver com essa falta
que amargura o coração de quem se sabe carente, sente os desejos e é obrigado a aceitar a impossibilidade de concretizá-los?
Ele conhecia bem essa angustia da falta e do desejo.
Desde menino trazia com si esse sentimento de desejar, de possuir, de ter, de ser alguém ou representar algo com um grau de importância que ele mesmo não sabia como expressar.
Sentia a dor física que essa falta provocava.
Um buraco no peito, uma incapacidade de raciocínio lógico, uma angustia que o levava a considerar-se o mais infeliz das criaturas sobre a Terra.
Não era uma carência material, ou a falta de estruturas mínimas para uma vida confortável e sadia, tudo isso era oferecida por os seus pais.
Era uma carência existencial, um momento de distração do criador, uma desatenção mínima e ele teria nascido faltando alguma coisa.
A conhecida sensação de buraco no peito retornava mais forte, as angustias triplicavam, o medo do que poderia acontecer invadia sua alma e seus pensamentos.
Seria medo da morte?
Mas não temia a morte, pelo contrário tinha por ela certa simpatia e agradecimento.
Simpatizava com a certeza de encontrá-la um dia e lhe era grato por ter levado embora alguns, antes que estes pudessem lhe causar mal.
Temos o péssimo hábito de nunca estarmos contentes com o que somos e com o que construímos.
Nossas realizações podem até ser importantes e consideradas, em algumas situações, como válidas e representantes daquilo que almejávamos construir.
Entretanto, esse comportamento é reflexo da adequação a que nos submetemos para parecermos normais, no fundo não valorizamos tanto assim nossas realizações e conquistas.
Aquele egocentrismo infantil, aquela analise do mundo e dos outros continua acontecendo a partir de nossos umbigos.
Pouco nos interessa saber do outro, queremos mais é vê o nosso lado.
Não, não somos felizes!
Felizes são eles que têm isso, possuem aquilo, podem comprar o que quiserem e a esta hora estão passeando de lancha.
Conhecemos pessoas que se tivessem vivido um quarto das experiências que vivemos estariam plenas na realização de seus desejos.
Se analisar-mos veremos que nossos mais profundos desejos e realizações não passam de hábitos cotidianos para alguns e, mesmo esses alguns, estão cheios de angustias e preocupações quanto aos seus desejos.
Porque desejamos coisas diferentes.
Estaria no desejo a causa maior da infelicidade?
Sentia a falta de algo, de um pouquinho a mais para ficar plenamente realizado e mesmo quando conseguia esse pouquinho, sentia a falta de mais.
A felicidade é como uma droga poderosa quem de ela experimenta não consegue mais largar, quem nunca experimentou já ouviu falar e se morde de curiosidade para conhecê-la.
O que não sabem é que felizes são os que não a desejam.
Os que aceitam tudo do jeito que é, sem questionamentos, sem dúvidas, sem revide.
A vida em sociedade foi feita para os passivos, para os que baixam a cabeça, para os que oferecem o outro lado do rosto depois que um é esbofeteado.
Há momentos em que cometemos determinados atos, assumimos rígidas posturas ou nos armamos até os dentes para defender algo, pode ser um objeto, uma idéia, uma crença ...
A o fazer isso transferimos nosso ponto de referência, que deve ser nos mesmos, para esse algo, essa alguma coisa.
Nossas atitudes passam a ser norteadas a partir dessa escolha.
Temos o campo de visão reduzido.
A unilateralidade impossibilita que vejamos o que acontece ao lado, atrofia nossa capacidade de pensar.
Com o passar do tempo essas coisas se materializam, tomam corpo e vida própria, independentes de nos, que os criamos e tão reais se tornam que muitas vezes mesmo sabendo que o ato, o gesto, a atitude, o pensamento, a postura, ou qualquer outra manifestação do caráter humano não é correto, ou não cabe naquela situação especifica, nos o cometemos.
Achamos que as coisas são o que são por serem.
Que tudo já foi determinado e que essa determinação imposta é correta, sacra e deve ser aceita sem questionamentos para não prejudicar o equilíbrio das coisas.
Mas, de qual equilíbrio estamos falando?
De este que mantêm alguns poucos tão felizes e realizados e remete outros ao mais profundo vazio?
Esse equilíbrio que prega o amor entre os homens, a fraternidade, e que diz sermos todos iguais perante a Deus?
Mas como, se Deus nem neste mundo reside?
Se Deus criou mesmo esse mundo e tudo que há em ele por que então deliberou sua administração aos homens se sabe que os homens são egoístas e não medem esforços nem respeitam o próprio Deus quando se trata de alcançar seus objetivos?
Por que Deus não ficou, ele mesmo aqui, na sua criação a administrá-la, a indicar o caminho correto que os homens deveriam seguir?
Número de frases: 44
Sou Pernambucano de Sangue e Alma e, apesar de só ter morado em Recife por cinco anos intercalados, tenho o maior orgulho disso.
A mania geral hoje é culpar a sociedade, o capitalismo, enfim, justificar o afloramento da violência de forma a distribuir a culpa e nos deixar sem perspectiva de solução.
Acredito que os problemas sociais existem, contudo, uma pessoa que arrasta uma criança de seis anos por vários quarteirões, consciente do fato, não fez isso por morar numa favela ou não ter estudado.
Uma pessoa capaz de tal atrocidade não pode conviver livre em nossa sociedade, nem tão pouco acredito que possa ser «curada» em determinado tempo.
Como Pernambucano, bairrista, orgulhoso, creio que a mudança deve começar por nós mesmos, não podemos assistir a um espancamento e virar as costas, ver um roubo e deixar de lado.
Outrora os ladrões eram chamados de gatunos por agirem à surdina, com medo de serem linchados por a população em revolta.
Hoje eles são quem nos metem medo, nós somos quem nos esgueiramos para não sermos pegos de surpresa.
A União Faz a Força ...
somos maioria, somos os donos da sociedade, elegemos os políticos, enfim, o poder vem do povo ...
por o povo ...
para o povo.
Temos que mostrar que não estamos satisfeitos com os rumos ditados por a minoria dos mal-feitores e políticos medíocres, temos que tomar o timão e guinarmos a proa rumo aos nossos anseios.
Em o momento em que um grito de socorro for atendido, que um político, que aja com indecorosidade, seja imediatamente deposto se iniciará um movimento natural de evolução (eu diria involução, pois seria, em parte, uma volta a valores ditos ultrapassados) que se espalhará como a adrenalina em momentos de perigo.
Sei que não é fácil, que não queremos expor ao risco, mais ainda, nossas precárias vidas.
Contudo é bom lembrarmos que podemos ser nós do outro lado a suplicarmos por socorro, por ajuda, por compaixão.
Vencermos a inércia da comodidade é difícil, se bem que não sei que comodidade é esta que nos força a suprimirmos nossa liberdade, nosso direito constitucional de ir e vir, contudo nada conquistado com facilidade dura, nada fácil recebe o devido valor.
Nós Pernambucanos, que lutamos contra os Holandeses, orgulhosos e fortes, valorizadores do que vem de nossa terra, sejamos nós os precursores desta mudança, que a primeira notícia em rede nacional de revolta popular a um assalto venha de Recife, que essa noticia gere um sentimento de insatisfação com a inércia social, que depois desta venha mais uma e outra ...
enfim que nos façam sair de cima do muro.
Eu, como Raul Seixas cantou, «não quero ficar sentado com a boca aberta esperando a morte chegar» não quero padecer calmamente ...
quero lutar.
Não desejo gerar uma onda de justiça com as próprias mãos, de justiceiros, desejo que renasça em todos o sentimento de insatisfação, de companheirismo, de Humanidade.
Vamos retomar o que já foi nosso, o chapéu de capitão do navio ...
de Nossas Vidas, nossa Liberdade.
Número de frases: 23
Campo Grande (MS) -- A versatilidade da música sul-mato-grossense foi destaque no projeto Planeta Música MS, apresentado no último dia do 9° Festival de Inverno de Bonito, que aconteceu de 30 de julho a 3 de agosto.
O idealizador do projeto, o maestro Otávio Neto, criou novos arranjos para os clássicos da música regional e deu um tom de modernidade ao show, que contou com a participação de 70 artistas, entre intérpretes e músicos sul-mato-grossenses.
A apresentação inédita conquistou um público mesclado por diversas faixas etárias.
A música eletrônica foi marcante com a interferência do Dj Léo Copetti e as coreografias do grupo de dança Corpomancia deram uma mostra da criatividade da dança do Estado nos intervalos entre as interpretações musicais.
O coro dos baking vocals e a Orquestra Sinfônica de Campo Grande conferiram uma sonoridade sofisticada ao show, ambientado com uma cenografia de produtos recicláveis e vídeos de paisagens e horizontes das terras de Mato Grosso do Sul.
A expectativa do resultado da integração das expressões artísticas do Estado era grande.
Participaram do Planeta Música MS 50 integrantes da " Orquestra Sinfônica de Campo Grande.
«Para a gente esta é uma apresentação muito especial.
Aguardamos essa fusão dos estilos e instrumentos de concerto como violino, violoncelo, com os instrumentos de música popular.
O resultado sonoro é muito interessante.
E participar de um show com grandes nomes da música sul-mato-grossense é muito bom para a orquestra.
Tivemos que transcrever os arranjos feitos por o Otávio Neto para a orquestra, esse foi o maior trabalho.
A orquestra não tem nem um ano de existência e estamos felizes com a oportunidade de nos integrar com as diversas manifestações artísticas do nosso Estado», afirmou o maestro Eduardo Martinelli.
Os intérpretes estavam muito satisfeitos por serem acompanhados por os colegas da música erudita.
«Meu sonho era cantar com uma orquestra.
É uma coisa que ainda não fiz.
O Otávio Neto elaborou o projeto, foi uma surpresa o convite.
Eu sempre quis cantar no Festival de Inverno de Bonito e estou feliz que deu tudo certo», contou Zé Geral.
E a recíproca dos eruditos é a mesma.
«É uma novidade interpretar Kikiô no canto lírico.
Essa integração é interessante porque valoriza os compositores sul-mato-grossenses e ainda democratiza o canto lírico no Estado, disse a cantora lírica Edineide Dias.
O projeto foi inspirado nas questões ambientais e na sustentabilidade das etnias indígenas que vivem no Estado.
O show tem o repertório de 15 músicas e a direção do descendente de Terena da aldeia Taunai, o tecladista Otávio Neto.
Para a intérprete Melissa Azevedo, participar de projetos como o Planeta Música é um momento em que revive a união dos artistas.
«O festival é um ambiente muito familiar em que aproveitamos para chamar o público para a conscientização sobre o meio ambiente», lembrou Melissa Azevedo.
Durante o show foram interpretadas as músicas de compositores locais, Semente da Floresta (Guilherme Rondon), Abraço da Terra (Melissa Azevedo), Bonito (Zé Geral), Em a Catarata (Tostão e Guarany), Madre Canaã (Gilson Espíndola), Lua (Daniel Freitas), Mês de Maio (Celito Espíndola), Pureza (Maria Cláudia e Marcos Mendes), Kikiô (Edneide Dias) e Planeta Água / Não Violência (Américo e Nando).
A música de raiz também estava presente no espetáculo, representada por a dupla " Tostão & Guarani.
«Para nós é um prazer muito grande estar nesse projeto.
Cantamos juntos com diversas vertentes da música do Estado, que é muito rica.
Comemorar nossos 25 anos de carreira participando do Festival de Inverno de Bonito é muito gratificante», afirmou " Guarani.
«Esse projeto vai falar a língua da música de Mato Grosso do Sul por muito tempo, pois diversos artistas estão representados nesse show», concluiu Tostão.
Projeto Planeta Música MS
Participam do projeto Planeta Música MS os intérpretes Edineide Dias, Melissa Azevedo, Maria Cláudia e Marcos Mendes, Tostão e Guarany, Américo e Nando, Celito Espíndola, Guilherme Rondon, Gilson Espíndola, Zé Geral e Daniel Freitas.
Os backing vocals ficam com a Marta Cel, Priscila, Patrícia Carvalho, Débora Paez, Samuka Nascimento, Marcelo Sas e Maik Brito e a Orquestra Sinfônica de Campo Grande é regida por o maestro Eduardo Martinelli.
Também marcam presença no projeto o Dj Léo Copetti, o grupo de dança Corpomancia, Maurício Copetti no vídeo, Aline Ranelli na cenografia e Espedito Monte Branco na iluminação.
A banda que acompanha os intérpretes é formada por Otávio Neto no teclado, Alex Mesquita no baixo, Adriel Santos na bateria e percussão e Eliseu Capim no acordeon.
Número de frases: 36
Em uma esquina do bairro do Rio Vermelho, uma baiana de acarajé interrompe suas atividades:
«Corre, corre, venha vê».
Um esquadrão de motos fura o trânsito para dar passagem a uma fila de carros oficiais.
São presidentes, embaixadores, ministros, conselheiros reais, lideres religiosos e intelectuais.
Estão vindo a Salvador para a IIª Ciad (Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora), para debater o futuro do continente africano com os herdeiros da cultura afro, filhos e filhas da diáspora, como a curiosa baiana de acarajé.
Segundo Ubiratan Castro, presidente da Fundação Cultural Palmares, a organização da IIª Ciad «foi um pedido formal do Abdoulaye Wade, presidente do Senegal e da União Africana (UA) ao presidente Lula e ao ministro Gil para que o Brasil pudesse sediar a segunda conferência».
Assim, através da parceria entre a UA, o Ministério da Cultura, o Ministério das Relações Exteriores e a Secretaria Especial de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial (Seppir) foi possível organizar um encontro de proporções históricas.
Entre os dias 12 e 14 de julho, o evento reuniu mais de 2 mil pessoas, 280 vindas da África.
Além do presidente Lula, do ministro Gil e da ministra Matilde Ribeiro, participaram da Conferência, entre outros, os chefes de Estado de Botsuana (Festus Mogae), Verde (Pedro Pires), Guiné Equatorial (Obiang Nguema), Gana (John Kufuor) e Senegal (Abdoulaye Wade), a primeira-ministra da Jamaica (Portia Simpson-Miller), o vice-presidente da Tanzânia (Ali Mohammed Shein), ministro de Cultura de Cuba (Abel Prieto) e o presidente da Comissão da União Africana (Alpha Oumar Konare).
Entre os convidados especiais estavam a ambientalista queniana e prêmio Nobel da Paz de 2004, Wangari Maathai e o cantor Stevie Wonder.
É «emblemático» o fato desse encontro estar acontecendo em Salvador, como disse o poeta e educador «Jorge Portugal,» porque o lugar que está sediando a Ciad é a capital máxima da diáspora africana no Brasil, que é a cidade do Salvador. ( ...)
É uma espécie de Copa do Mundo do pensamento africano na Bahia».
Para ele, «o interesse que a cidade inteira tem por este evento é um sinal de que as pessoas estão se plugando nessas questões fundamentais e estão com vontade, na verdade, de tomar as rédeas de sua história».
A cidade foi chamada ao diálogo e respondeu.
Plenária
Entre as diversas mesas redondas e grupos de trabalho, um dos momentos mais concorridos foi a plenária do dia 14, sobre «A necessidade de um pacto político entre a África e a Diáspora por a paz, democracia e desenvolvimento», onde a Prêmio Nobel da Paz Wangari Maathai falou sobre a» importância de governarmos a nós mesmos, de respeitarmos os direitos humanos, de aprendermos a nos tornar inclusivos, a dar voz aos fracos como damos aos fortes, aos pobres como damos aos ricos, a nível nacional e global.
Porque, senão, aqueles que se sentem marginalizados, mais cedo ou mais tarde se organizarão e criarão conflitos.
Talvez sob a forma de crime organizado, talvez sob a forma de terrorismo ou sob outras formas.
A paz não acontece acidentalmente, assim como a guerra não acontece acidentalmente.
Acontece porque uma parte se sente marginalizada e sente necessidade de chamar a atenção do resto do mundo».
O Ministro Gil pronunciou seu discurso conclamando «a implementação de uma rede mundial de comunicação afro-diaspórica, que possa formar uma opinião pública internacional afro-centrada, capaz de intervir junto a cada governo nacional e junto às instituições internacionais como um elemento ativo de pressão em favor de um projeto de renascimento africano».
Em esse mesmo dia, poucas horas depois, representantes do Movimento Negro Unificado (Mnu) demonstraram a força da sua reivindicação por cotas raciais contagiando todos os presentes à plenária com palavras de ordem como «Contra cotas raciais, só racistas!»,
«Reparação já!», «Brasil, África, América Central, a luta do negro é internacional» e «Cotas já!».
Um casal, representando a igualdade de gêneros, subiu no palco da plenária para ler um manifesto em defesa das cotas. (
veja um vídeo do protesto).
História da Ciad
Em 2004 foi realizada a primeira Ciad em Dacar, Senegal.
Uma conseqüência direta da transformação da Organização da União Africana (OUA) em União Africana (UA), no sentido de envolver a sociedade civil na construção de uma nova era de desenvolvimento econômico e social no continente africano.
Segundo o site do Consulado Geral da República da África do Sul, a criação da UA tem o desafio de " distanciar-se do caráter abertamente estado-cêntrico da OUA e a concomitante falta de participação civil.
A cooperação das ONGs, das sociedades civis, dos sindicatos, das organizações empresariais africanas, é essencial no processo de cooperação e implementação do Tratado de Abuja, como expressado na Declaração de Uagadugu e conforme estipulado na Declaração de Sirte.
Durante a Cúpula de Lusaka, várias referências foram feitas ao fato de que a União Africana estava em certa medida baseada sobre o modelo da União Européia, e a esse respeito foi dito a África ' não deveria reinventar a roda '».
Em a segunda versão do Ciad, a União Africana (UA) com a ajuda do governo brasileiro dá um passo importante na direção de seus herdeiros culturais, os negros brasileiros filhos da diáspora.
Para Conceptia Ouinsou, presidente da Suprema Corte do Benin:
«A África espera a intervenção dos seus milhares de filhos que vivem fora da África, para que não sejamos sempre os pobres da humanidade.
A diáspora pode ser um grupo de pressão muito forte».
Lula e o G20
A conferência também pode ser entendida como fruto da estratégia política do governo Lula em busca de aliados africanos que possam fortalecer o G20, o grupo dos países emergentes, que é hoje uma importante força na balança econômica do mercado mundial.
Lula sabe que sem a coalizão do G20 será difícil convencer os países mais ricos a flexibilizar o protecionismo de sua fronteiras econômicas, seja na área agrícola, na guerra das patentes, nos lobbies técnicos, ou mesmo na circulação de produtos culturais.
Por que não toca música africana nas rádios?
Por que não vemos clipes de artistas africanos na MTV?
A indústria cultural também é uma fronteira muito bem protegida por as grandes corporações da indústria do entretenimento.
Não por acaso, a IIª Ciad teve também um espaço para as artes, no Ciad Cultural.
O sapiente ministro Gil bem sabe das dificuldades, mas proclama suas esperanças de «fazer convergir a saga de refazenda cultural experimentada por os negros da diáspora com a saga da reconstrução nacional vivida por os negros do continente africano».
Muitos podem ser os caminhos para essa transformação, «é preciso tecer com carinho a rede das instituições de ensino, pesquisa e divulgação de conhecimentos, de modo a possibilitar um sistema permanente de intercâmbio multilateral, virtual e presencial».
A Declaração de Salvador
O resultado concreto do encontro foi a elaboração da «Declaração de Salvador», que em linhas gerais defende:
o diálogo entre os intelectuais africanos e da Diáspora, a criação de um Centro Internacional da África e da Diáspora, a fim de adensar e encorajar um pensamento africano mundial.
Vários são os problemas para que o renascimento da África se concretize, como disse Ubiratan:
«Espero que a Carta de Salvador contenha indicações muito precisas e diretrizes, princípios e recomendações não somente de uma nova qualidade de intercâmbio e de cooperação, mas acima de tudo por a definição de objetivos comuns em termos de atuação nos organismos internacionais, nos órgãos multilaterais e tudo isso centrado na noção de Renascimento Africano, que é a noção de um novo desenvolvimento de qualidade dos países da África e dos países que têm uma diáspora africana, uma população de origem africana».
O grande mérito da IIª Ciad é convocar a sociedade, herdeiros da diáspora ou não, intelectuais ou não, a pensar sobre o que pode ser feito.
Como responder à provocação de Frene Sinwala, ex-presidente do parlamento da " África do Sul:
«Não (basta) só observar, criticar.
É preciso também vir para o debate, propor, contribuir.
Não só expor suas idéias em revistas acadêmicas, mas também na mídia pública, distribuir o conhecimento».
Ela convoca cada participante da conferência a perguntar a si mesmo:
o que eu vou fazer?
Uma nova página da história da África e da diáspora foi escrita, mas, como disse o embaixador «Alberto da Costa e Silva,» a importância histórica dos eventos, só a história é que nos diz.
Geralmente a gente só sabe se foi importante ou não 50 anos depois.
E às vezes o que a gente pensa que foi muito importante não teve importância nenhuma.
Uma coisa que passa quase em segredo, revela-se da maior importância depois.
Então a importância será conforme o resultado.
Conforme as coisas que se discutiram aqui, o que se disser e o que as pessoas levarem com elas na cabeça e no coração.
Isso é que é importante.
O que vai dizer se é importante agora, eu não sei.
Talvez amanhã, depois de amanhã, eu saiba alguma coisa».
O show
Angelique Kidjo é um anjo.
Em a grande festa de encerramento da IIª Ciad, a cantora fez o que não se viu em nenhuma das conferências e plenárias, conclamou o povo a participar, a platéia foi para o palco e fez parte do show.
O que no ambiente da conferência poderia causar algum desconforto diplomático, na festa foi apenas alegria.
Muitas foram as tensões nos dias da Ciad, mas vendo Angelique dançar e cantar, podemos entender que uma das grandes lições da herança cultural africana é que a música e a dança negra podem ser expressões da esperança, apesar de tudo.
(não deixe de ver as fotos do evento e ler a entrevista de Ubiratan Castro)
Número de frases: 71
Colaborou: Agnes Mariano
Show (parte poética)
Espetáculo " Retratando "
Relação dos poemas para as apresentações:
Inspiração, Consagrar-te, Insucesso, Criar, Acordo Firmado, Amigo, Amor, Ansiedade, Decifra-me, Descrença, De os Quinze aos Setenta, Inimigo Invisível, O amanhã Pode Esperar, O amor Que Nunca Fiz, Oferenda, Poema Sem a Letra A, Quero Repartir, Questão de Tempo, Refém de Poeta, Sabor da Vida, Teatro, Em o Mesmo Lugar, Retrato.
Show (parte musical)
Anand Rao faz músicas na hora
Por: Juliana Sanches
Compositor com 04 CDs lançados e poeta com 20 livros publicados, Anand Rao está lançando por o Brasil um novo gênero o MPBJazz no show intitulado Versos & Sons, onde faz músicas letradas com harmonias, ritmos e melodias diversas.
Apresenta também, composições pré-elaboradas, como costuma dizer feitas em parceria com poetas brasileiros.
Sua home-page (www.anandraobr.com) é atualizada diariamente, divulgando notícias da área cultural, possuindo músicas para download bem como, livros disponibilizados na íntegra em PDF, enfim, vale a pena conferir.
Anand Rao, diferente de outros que militam na área da música, sabe que é absolutamente desconhecido apesar de se apresentar desde os anos 80.
Quando toca em bares, pubs, cafés, muitos dos clientes pedem músicas tradicionais de MPB, mas, leva numa boa tudo isso e respeita o público.
Tendo sido músico da noite no período de 1983 à 2000, tem larga experiência.
É deste período que traz belas recordações de ter participado de diversos shows com Cássia Eller, Renato Russo e Zélia Cristina (hoje Duncan) só que não adotou o rock, pop ou reggae como seu gênero, sendo sim um ouvinte atento do jazz e da música indiana e um leitor assíduo dos poetas brasileiros.
Número de frases: 15
Há muito pouco tempo (ainda nos anos 1950) os gestos da criança surda eram atacados violentamente por professores em salas de aula, proibidas que eram elas de tentarem se expressar de forma outra que não fosse por escrito, já que por ser serem surdas não falavam.
É recente a conquista de espaço cultural também por a pessoa com deficiência.
A arte tem sido uma ferramenta potente para dar provas cabais e irrefutáveis de que fazem teatro, música, cinema, pintura, escultura como pessoa outra qualquer.
A oportunidade escassa que exista na sociedade, alargada que tem sido por a persistente mobilização consciente dos segmentos diversos, é apropriada de tal modo sôfrego que emociona e leva às lágrimas o mais empedernido dos espectadores.
Mesmo os avessos às mínimas conquistas que vêm somando para pessoas com deficiência em acessibilidade a locais de público acesso, ao transporte coletivo, ao ir e vir em calçadas de quaisquer ambientes sociais.
Os recentes postados aqui em Overmundo de Brilhantino, de Chico motivaram-ma expor estas fotos da participação alegre, festiva e de uma qualidade surpreendente de artistas na Semana Municipal da Pessoa com DefiCiência de Porto Alegre, dias 21 a 26 de agosto deste ano.
As cenas são de uma gincana que incluiu apresentações artísticas de pessoas com deficiência como tarefas do concurso.
Creio que as fotos falam por si, embora de amador e de pouca técnica, algumas captaram o sentido básico do que se deve a qualquer ser humano:
Número de frases: 8
a oportuniade de existir e criar.
O primeiro contato que tive com as danças circulares se deu em Recife, no ano de 1999, quando participei de um primeiro encontro com William Vale, de Belo Horizonte.
A partir de então, continuo tendo essa experiência até os dias de hoje.
A o receber o convite através do Centro Nordestino de Animação Popular (PE), fiquei em dúvida se a proposta iria muito além de um repertório com base nas divertidas (mas já conhecidas) rodas infantis.
E foi muito além mesmo!
Pela primeira vez, tive contato com danças de roda de adultos, oriundas de diversos povos e tradições, e de algumas idealizadas por coreógrafos contemporâneos, com exceção das cirandas de Olinda e Recife, a qual já me havia sido apresentada em outras ocasiões, nas minhas andanças por Pernambuco.
As primeiras sensações foram as melhores possíveis;
lembro de forma especial do contentamento ao dançar em pares, em razão da semelhança com as danças de roda que tinha visto em filmes com temáticas inspiradas no modo de viver dos povos tradicionais da Europa, dos ciganos, dos israelenses, entre outros, e que mostravam a leveza e a alegria estampada nos rostos das pessoas.
A o voltar para casa, numa manhã de segunda-feira, após descer a ladeira que despede a gente do seminário Cristo Rei, em Camaragibe, município que integra a grande Recife, lembrei-me da cena de ter visto, por trás das grades de ferro, um amontoado de mesas e cadeiras numa casa de shows sem movimento e fiquei a pensar sobre o modo como as pessoas deviam ter celebrado seu encontro com as outras naquele espaço, nos dias anteriores (sábado e domingo).
Algumas provavelmente dançando em pares, outras conversando e / ou ouvindo a música, ou fazendo tudo isso em tempos diferentes.
Ainda assim, deviam estar desprovidos de um espírito de integração mais amplo.
Outra forma de contato que uma parcela de pessoas tem com a dança se dá através da freqüência a teatros para assistir a espetáculos coreográficos.
Em este formato, a maioria ocupa o papel de simples expectadora e assiste um grupo de bailarinos virtuosos.
Em o meu caso, nos dias em que estive dançando com cerca de vinte e cinco pessoas, me pude sentir mais integrado a elas.
Pude ter a sensação de calma através das danças meditativas, através das danças de pares me alegrei.
Por estar em contato com as danças de povos e culturas diferentes me senti conectado / transportado e podendo assim entrar em comunhão com gente de tantos lugares e épocas distintas, gente e lugares que eu não conheci.
E como síntese de tudo de bom que pode proporcionar o movimento das danças circulares, entendo como fundamental a possibilidade de resgatarmos um modo de dançar que recupere o caráter de participação coletiva de todos os presentes no momento, abolindo a distinção entre público e artistas ou entre uma minoria que se especializou e a maioria que não teve tempo para isso ou que não leva jeito para a coisa.
Em as danças circulares sagradas fica claro que podemos e devemos recuperar o direito de todos experimentarem o prazer de estar em círculo de mãos dadas com os demais, compartilhando momentos de felicidade que tanto bem fizeram aos nossos antepassados e, de maneira bem natural, utilizando nossos corpos guiados por lindas melodias e por a criatividade humana, que nos legaram uma série de instrumentos de onde tiramos sons e melodias deliciosas.
A despeito disso, defendo que a dança de salão e a dança espetáculo também têm o seu espaço, só não consigo imaginar viver sem as danças circulares.
É por aí que muitos estão descobrindo uma das principais fontes de vitalidade daqueles que nos antecederam, e que foi se perdendo aos poucos retornando agora com toda a força.
Agradeço a Bernhard Wosien por ter percebido o potencial de cura dessas danças, antevendo que muitas de elas iriam se perder na memória do tempo, em virtude das mudanças do modo de vida urbano / industrial contemporâneo.
Ele iniciou o registro gráfico das coreografias e mobilizou um grupo de pessoas, em particular os membros da comunidade de findhorn, localizada na Escócia, para guardar e repassar o conhecimento ancestral e, desta maneira, tornar possível a permanência de um repertório de danças populares que nos dias de hoje possibilita fazer mais feliz a existência de milhões de «passageiros» que estão viajando através da nave mãe terra.
P.S.:
Essa mesma situação podemos perceber em relação a uma série de danças populares nordestinas.
Aqui em Sergipe ocorre, todos os anos, uma discussão acadêmica envolvendo a mudança de perspectiva das quadrilhas juninas que aos poucos vão perdendo a simplicidade e a ludicidade dos passos tradicionais para dar lugar a outros mais complexos e que se caracterizam por a inovação e por o hibridismo.
Com isso, a maioria das quadrilhas acaba se transformando em grupos populares de dança ou em balés populares.
De a nossa parte, entendo que é um movimento que não tem volta, em função daquilo que alguns intelectuais chamam de «sociedade do espetáculo», que é uma marca da cultura atual.
Entretanto, como considero que a quadrilha tradicional tem o seu lugar, a sua razão para continuar a existir, penso que é incorporando ao movimento das danças circulares sagradas que isso estará garantido.
Já experimentamos os efeitos de integração, socialização, quebra do gelo, «distensionamento», satisfação e etc. que os movimentos coreográficos da quadrilha tradicional podem nos proporcionar.
Em alguns eventos realizados recentemente no «Complexo Cultural O Gonzagão», como na celebração de 1 ano da atual gestão, na festa junina de confraternização dos funcionários da Secretaria da Cultura e também após a apresentação espetacular de algumas quadrilhas juninas durante o forró mensal, que é realizado naquele local, os presentes foram convidados para adentrar o salão principal e através dos passos da quadrilha tradicional celebrar a alegria de estarem juntos e sentirem a pulsação da vida.
Em os dias 25, 26 e 27 de setembro a Ong Ação Cultural estará promovendo mais um Encontro de Danças Circulares, o qual se somará a iniciativa de pessoas e entidades, de diversas partes do Brasil e do mundo, que celebrarão o centenário do nascimento de Bernhard Wosien.
Número de frases: 31
Para saber mais clique aqui.
Conheça o tecnobrega da Bahia
«Eu vou votar no 25 meu bem».
Quando Adelmo coloca o melô do PFL (atualmente Partido Democratas) no som, o pessoal só começa a reclamar depois de 5 minutos.
Então lembram que é da eleição passada;
alguns protestam e volta o tom meloso de Silvano Sales, o «arrocha», como o tecnobrega é conhecido em Salvador.
A cerveja custa 1,70 e muitos bebem.
Há casais jovens e homens solteiros sequiosos em busca de fêmeas.
De o outro lado, o Shopping Iguatemi.
A 200 metros, a Catedral da fé da Igreja Universal.
A festa espirra para a pista já meio vazia, embaixo de um viaduto e perto da passarela que transporta 40 mil pessoas diariamente.
São 22h00 e a festa começou no bar «Canto do Dão».
às sextas-feiras, o pé-sujo desafia a Superintendência de Coordenação do Uso do Solo (Sucom, municipal), responsável por monitorar os decibéis excessivos.
O bar, se muito, tem 6 metros quadrados de área útil, um balcão de fórmica arranhado e cartazes de mulheres loiras oferecendo
cada uma a sua marca de cerveja, com espaços para os preços.
Um aparador de vidro e lâmina de alumínio oferece coxinhas e empanados rústicos de presunto ou hot-dog.
O bar é segrado -- alguns até evitam cruzar o espaço ínfimo, muitas garrafas já se foram nos degraus, especialmente em dia de chuva, com a lama trazida por os pés das pessoas.
O que se ouve é um misto arrastado de seresta (com teclados e programação) e vocais românticos, quase sertanejos.
O andamento é de uma valsa acelerada e de vez em quando entra um sax alto, solando.
Os movimentos de dança exigem técnica complexa:
quadris encaixados e mexendo-se em três tempos, sinuosamente.
Um casal dança obscenamente, o homem sem camisa, a mulher de calça jeans enfiada na bunda e tamancos de salto.
A maioria dos freqüentadores reside no Cabula ou em Brotas.
O bar encontra-se no centro da artéria mais valorizada da cidade, um complexo de viadutos e pistas de cinco faixas que liga a Avenida Paralela, eixo de crescimento da cidade, e a Br-324.
Tamanho poder rodoviário não espanta os dançarinos e alguém mais ingênuo acharia que há um acordo tácito entre o asfalto, os carros e os auxiliares de serviços gerais, funcionários de concessionárias de serviços públicos, operários da construção civil e estudantes do ensino médio, que descem em algazarra dos colégios nas colinas de Brotas.
Ademir trabalha no bar há dois anos -- na sexta-feira, o dono prefere não ficar de olho na venda de cervejas, atordoado por a zoada das sextas-feiras que repetem-se há doze anos, desde quando os matagais da zona foram desbastados e os pântanos drenados para ceder lugar ao novo centro financeiro da cidade.
O movimento atinge o auge às 22h00 e morre à meia-noite, quando os dançarinos exaustos atravessam a pista, perigosamente, indo para a Estação Rodoviária e de lá a lugares mais distantes, periféricos.
Os últimos engradados são empilhados no depósito mofado.
Número de frases: 28
O bar volta a exalar o aroma terroso de infiltrações passadas e presentes.
Quatro estrelas.
Essa era a cotação (a máxima) estabelecida por um famoso guia de São Paulo, desses que vêm em jornal, sobre a peça O Continente Negro, em cartaz no Teatro Faap.
Nós da Bacante não somos muito adeptos à cotação convencional.
O negócio é tão subjetivo e superficial que 22 estrelas e dois patinhos na lagoa podem significar a mesma coisa.
Porém, dessa vez até acreditamos na classificação do jornal e fomos assistir ao espetáculo.
Bom, o causo é o seguinte:
fiquei a maior parte da peça tentando entender o porquê das malditas quatro estrelas do tal guia.
Seria por o extremo naturalismo?
Por o cenário com ar experimental?
Por o Ângelo Antônio de cueca?
Por a Débora Falabella andando de bicicleta?
Depois de abusar do direito à divagação, vamos à peça.
A montagem é composta por várias esquetes amorosas intercaladas, tendo em comum apenas a temática das relações tumultuosas entre casais heterossexuais e a África.
Os três atores, Ângelo Antônio, Débora Falabella e Yara de Novaes, se revezam em diversos personagens, que não conseguem manter um relacionamento estável e acabam fugindo.
E é ai que entra o nome da peça.
A África, ou o continente negro, é a rota de escape para os amores interrompidos.
Distante de clássicos românticos como França e Itália, é para a África que se refugiam os corações abandonados, traídos, solitários, impossíveis e desiludidos.
Essa metáfora pode até parecer bonita, mas é pouco representativa no espetáculo.
O significado fica perdido no contexto das histórias e parece forçar uma amarração entre as esquetes.
Um exemplo disso são as ligações telefônicas recebidas por grande parte dos personagens.
Eles recebem chamadas da África, de alguém à procura de seu amor perdido.
Poucas das narrações trazem algum tipo de inovação e a maioria esbarra em estereótipos:
a Lolita apaixonada por o professor, o marido canalha, a mulher traída, o romance com a cunhada, e por aí vai.
As atuações naturalistas embasam os personagens e correspondem aos seus propósitos.
O ponto alto da peça é o cenário de André Cortez.
Em o imenso palco do teatro Faap, foi construída uma grande estrutura oca de metal, intercalada na parte superior por janelas, proporcionando a divisão das partes de uma (ou várias) residências.
Ainda compõe o ambiente um táxi, e na parte central do palco, um microfone.
Nada melhor no mês dos namorados do que ver uma peça recheada de amores destruídos, romances inacabados e paixões proibidas.
Número de frases: 29
Assista e traga seu namorado.
«A Lei Federal Nº 9.294/96 tem por objetivo a preservação do ar nos ambientes internos e a proteção aos não fumantes, proibindo o fumo em recinto privado ou público, salvo em área destinada exclusivamente a esse fim, devidamente isolada e com arejamento conveniente».
A teoria é basicamente esta.
A Lei proíbe.
Quem não a cumpre, deve ser penalizado.
No entanto, a realidade que circula por as ruas do Rio de Janeiro, enumerada por grandes números de cores amarelas e com luminosos nomes de bairros típicos da, até então, «Cidade Maravilhosa», segue rumos obscuros.
Além do desinteresse dos governadores no que diz respeito à segurança e à saúde, pude constatar um outro problema, não menos grave que os outros.
Voltando da faculdade, por volta das 13h, num ônibus da linha S-20 Carioca, tive o privilégio de fotografar um motorista que fumava, tranqüilamente, enquanto exercia sua função de transportar, com segurança, os usuários do sistema de transporte público do estado.
E parecia não se importar com os malefícios do tabaco, com as punições que lhe poderiam ser impostas e, tampouco, com o perigo de distrair-se com o ofuscante trânsito fluminense.
Número de frases: 9
Sexta-feira, 29 de agosto de 2008 Escultor baiano Jair Dias, promete Exposição para o final deste ano.
Natural da Cidade de Itapetinga, sudoeste do Estado da Bahia,
Jair Dias Coelho, nasceu em 03 de abril de 1955, é poeta, menbro da Academia Itapetinguense de Letras, é escultor autodidata, de familia voltada as artes, a pintura e a música, começou moldar suas esculturas antes dos 20 anos, com essas influências, principalmente do mano Coelho Dias,
em 1977 ingressa na Faculdade de Belas Artes de São Paulo FEBASP, estudou 1 ano, deu uma parada, retornou para Itapetinga, e em 1981, transferiu-se para Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e lá retornou ao curso de Belas Artes onde ficou por mais 6 meses, logo chegando teve alguns trabalhos selecionados para a 1ª Exposição realizado por a Faculdade Bennett do Rio de Janeiro.
Em 1999, Jair Dias Coelho, teve uma escultura exposta durante todo o programa de Hebe Camargo, Sbt sistema brasileiro de televisão.
Até o final deste ano, Jair Dias, vai fazer exposição de suas belas peças de esculturas na agência do Banco do Brasil em Nazaré, BA onde o artista estar radicado.
Nazaré é um município localizado no recôncavo baiano, recomendado para o turismo histórico culturais, que já hospedou Ruy Barbosa e Dom Pedro II.
Número de frases: 7
Com uma população de aproximadamente 30 mil habitantes, o povo simples deste lugar recebe tão bem os visitantes que, muitos turistas de pesquisas visitam a cidade o ano inteiro, Nazaré das Farinhas, como é mais tradicionalmente conhecida por os turistas, fica a 70 km da Ilha de Itaparica, via BA / 001
Para o pessoal do Forninho, uma sacola de papel é muito mais que uma sacola de papel.
É um meio de comunicação, uma forma de saciar não apenas a fome física (afinal, é a embalagem do pãozinho que se compra na padaria), mas também a «fome» de informação.
O jornal Forninho é impresso em sacos de papel, que circula em padarias da Grande Vitória, substituindo os tradicionais «sacos de pão».
Com distribuição gratuita, atendendo 120 padarias da região, o Forninho chegou à 26ª edição no final de 2006, trazendo informações de utilidade pública, saúde, educação e cidadania (na «capa» do jornal) e matérias voltadas ao turismo, cultura, entidades sociais e projetos do poder público e privado de interesse geral (na «contracapa», ou seja, no verso da sacola).
Artistas locais, programas de rádio, sites, livros, cds, filmes, espetáculos teatrais, shows musicais e exposições de artes visuais são assuntos constantes no periódico, que destaca ainda as manifestações tradicionais da cultura popular (artesanato, folguedos e festividades).
O Forninho circula mensalmente em quatro dos sete municípios da região metropolitana da Grande Vitória (Vitória, Cariacica, Vila Velha e Serra, onde o projeto está sediado).
Realizado por a Elo de Comunicação, o projeto atinge uma tiragem média de 250 mil exemplares.
Idealizado por Fábio Santana, atual coordenador da iniciativa, o Forninho foi buscar inspiração nos antigos almanaques, geralmente patrocinados por produtos farmacêuticos, como elixires e biotônicos, tão comuns na primeira metade do século XX (e que tiveram um breve revival nas décadas de 70 e 80).
A o resgatar o conceito desses almanaques, de forma a suprir uma lacuna existente na difusão de informações de utilidade pública e cidadania, Fábio pensou num suporte que pudesse chegar, de forma gratuita, na maioria dos lares, principalmente nas classes sociais menos favorecidas:
daí a idéia de um informativo impresso nas sacolas de pão, cuja própria rede de distribuição fosse a das padarias dos bairros.
Esse formato de mídia alternativa caracteriza o Forninho desde o início do projeto.
A primeira edição foi lançada em novembro de 2003, atendendo doze padarias, numa tiragem de 12 mil exemplares.
Em as palavras de Fábio:
«Eu sempre enxerguei a sacola de pão como um meio de comunicação.
Em diversas partes do País, algumas pessoas usam o embrulho para divulgar poesias, receitas e a propaganda da própria padaria.
Em o Forninho, eu juntei tudo isso numa coisa só».
Com a apropriação do provérbio, poderíamos aqui subvertê-lo para «Cultura põe a mesa, sim senhor».
Inicialmente editado a cada 20 dias, o projeto enfrentou alguns obstáculos, tanto referentes à qualidade do produto (apenas a partir da terceira edição foi encontrada uma gráfica, em São Paulo, que garantisse boa qualidade de impressão, sem afetar os alimentos que viessem embalados dentro do Forninho), quanto relativos à concorrência dos fabricantes de sacolas de papel -- durante os dois primeiros anos, o jornal teve parte de seu preço de custo (35 reais o milheiro) subsidiado por os responsáveis, que o revendiam por 33 reais aos donos de padarias e estabelecimentos comerciais, de modo a conseguir ampliar sua rede de distribuição.
A receita do periódico, por conta desse subsídio, passa a vir então dos anunciantes, em sua maioria comerciantes e prestadores de serviço locais.
Por vezes, órgãos públicos também anunciam, em troca da divulgação de atividades de interesse público por eles promovidas (saúde, educação e cidadania).
Atualmente, o Forninho é revendido às padarias por o preço de custo, sem o desconto dado inicialmente.
Com a chegada do produtor Ivan Pereira ao projeto, e com um trabalho mais voltado à difusão da cultura local nas páginas do periódico, o Forninho ampliava o seu alcance:
em novembro de 2004, já circulava em 80 padarias, com periodicidade quinzenal e tiragem superior a duzentos mil exemplares.
Em essa época, a Elo de Comunicação promoveu, na Assembléia Legislativa do ES, um ciclo de debates acerca da relação entre o artista capixaba e as mídias alternativas, como parte das comemorações de dois anos do veículo.
Tempos depois, o Forninho deixou de ser quinzenal, uma vez que a dificuldade em fechar a veiculação de alguns anúncios (os clientes por vezes demoravam a decidir, comprometendo a receita do periódico) ocasionava o atraso no fechamento da edição.
Alterando a periodicidade para mensal, garantiu-se a viabilidade da empreitada, aumentando inclusive sua credibilidade junto às pequenas padarias de bairro, que muitas vezes haviam substituído totalmente as tradicionais sacolas de papel genéricas por os exemplares do Forninho, e não podiam recebê-lo com atraso, sob o risco de perderem seus consumidores.
A equipe envolvida é bastante reduzida:
além de Fábio e Ivan, há ainda uma secretária, um ilustrador, um jornalista responsável e uma pessoa que cuida da distribuição junto às padarias.
Uma série de promoções buscando maior interação entre o jornal e o público leitor também aumentou a popularidade do jornal, atingindo, em 2006, tiragens de 300 mil exemplares, distribuídos em 100 padarias.
Apenas para efeito de comparação, são 870 estabelecimentos comerciais similares em toda a Grande Vitória, que conta com cerca de 1,5 milhão de habitantes.
Uma curiosa estratégia promocional consistia na realização de sorteios de brindes com base no envio de cupons respondendo perguntas sobre artistas locais.
Os prêmios incluíam principalmente cds, livros e ingressos para espetáculos locais, destinados não apenas aos leitores contemplados, mas também o atendente da padaria que vendeu o produto que fora embrulhado no Forninho.
O resultado dos sorteios ia ao ar no programa Coisas do Brasil, na Rádio Universitária FM, tradicional nos segmento de samba e pagode, contando com grande audiência nas camadas mais populares da Grande Vitória.
Mais recentemente, os sorteios passaram a ser realizados durante o programa Conexão Vestibular, na mesma emissora.
Outra iniciativa consistia na distribuição de ingressos para shows e espetáculos teatrais para os donos de estabelecimentos comerciais e seus funcionários, pessoas que muitas vezes possuíam pouco ou nenhum acesso ao produto cultural capixaba, tão promovido por o Forninho em seu estabelecimento.
A resposta foi muito positiva, de modo que, após os espetáculos, os funcionários ficavam mais empenhados a aderir à causa cultural defendida por o periódico e estimular a população dos bairros a conhecer melhor os conteúdos abordados por o jornal.
O passo seguinte, com o aumento da demanda, seria a realização de edições voltadas para cada município, editadas simultaneamente, de modo a fazer uma divulgação localizada das ações culturais e de cidadania, além de potencializar o resultado dos anunciantes junto a seus públicos locais.
Em o final de 2006, experimentou-se um piloto da idéia, com a circulação de uma edição exclusiva no município de Cariacica, em parceria com a administração municipal.
Em este exato momento (fevereiro de 2007), os responsáveis por o projeto buscam parcerias junto às outras prefeituras, de modo a poder dar início, a partir de abril, à ambiciosa empreitada dos Forninhos «simultâneos».
Um segundo braço do projeto é o portal Culturartes (site em construção), uma parceria da Elo de Comunicação com o Instituto Cidades, Sebrae, Prefeitura Municipal de Vitória e Governo do Estado do Espírito Santo, além do apoio logístico da Universidade Federal do Espírito Santo (através da Fundação Ceciliano Abel de Almeida).
O portal irá disponibilizar, na internet, um vasto repertório de informações sobre as iniciativas nas áreas de cultura, turismo e terceiro setor que são realizadas no Espírito Santo.
O projeto foi lançado no dia 31 de janeiro, e o site, que pretende reunir um amplo banco de dados acerca dos artistas e produtores em atuação no estado, como também de seus produtos, serviços e convênios (o " Cardápio Cultural "), deve ir ao ar em abril de 2007.
A parceria institucional, nesse caso, permite que possam ser pensadas, a médio prazo, ações conjuntas envolvendo os órgãos públicos, em especial ampliando o alcance do produto cultural local em ações voltadas para o turismo e para o terceiro setor, campos potenciais para a geração de negócios junto aos agentes culturais.
A idéia do Culturartes surgiu exatamente no momento em que a equipe do Forninho, ao buscar divulgar a diversidade da produção capixaba, diagnostica a dificuldade de diálogo entre os artistas / agentes e determinados setores que em muito poderiam alavancar a economia da cultura na Grande Vitória, em especial o terceiro setor (uma vez que muitos artistas locais acabam indo trabalhar em projetos sociais, como fonte principal de suas rendas).
O mesmo poderia ser aplicado aos órgãos públicos voltados para a promoção do turismo, que no Espírito Santo raramente envolvem os agentes culturais locais em seus projetos, alegando a inexistência de bancos de dados que permitam localizar e estabelecer contato com esses agentes.
O portal Culturartes propõe-se a ser mais um canal de diálogo entre essas instituições e as entidades de classe, agentes, artistas e produtores, de modo que há uma grande expectativa por parte dos envolvidos no sucesso dessa empreitada nos próximos anos.
Em esse caso, a internet pode representar um espaço bastante propício para fazer do Culturartes o tão sonhado «espaço de referência», tanto para gerar oportunidades de negócios para artistas locais, quanto para funcionar como um ponto de encontro capaz de fornecer informações sobre iniciativas sustentáveis que envolvam os produtos locais.
Por exemplo, divulgando não apenas projetos culturais de terceiro setor e possíveis patrocinadores dessas iniciativas, mas também datas de editais, concursos e leis de incentivo, além de fornecer um «passo a passo» para formatação de projetos, contribuindo para a capacitação desses agentes /artistas/produtores.
Há ainda a intenção de criar um fórum virtual para debate de idéias acerca do cenário capixaba, aberto à participação dos visitantes.
Por fim, o projeto prevê a inauguração de uma loja virtual, na qual estarão disponíveis serviços e produtos locais, além de convênios com empresas e fornecedores diversos.
Essa loja, numa espécie de desdobramento do «Cardápio Cultural», possibilitará ao projeto gerar uma receita que garanta sua independência, após o término dos convênios institucionais que atualmente o patrocinam.
Apesar de não operar com a licença do Creative Commons, ou com algum formato explícito de flexibilização de direitos autorais, ambos os projetos aproximam-se das características do Open Business por trabalhar com uma estrutura de sustentabilidade econômica a partir da ampliação do acesso à cultura, trazendo informações acerca do cenário artístico local, do turismo e do terceiro setor, além de itens de utilidade pública para camadas sociais que dificilmente teriam algum contato com esse material.
A experiência do Forninho fez com que Fábio e Ivan buscassem uma série de estratégias criativas para tentar atingir o objetivo de difusão do produto cultural junto às diversas camadas sociais da população capixaba.
Afinal, apesar de um certo «boom» na mídia nos últimos sete anos, capitaneada por as vendagens de cds independentes de bandas locais, essa produção ficava restrita a uma parcela privilegiada da população, aquela que habitualmente lê jornais, freqüenta teatros e espetáculos musicais, vai aos lançamentos de filmes e vídeos e exposições de artistas locais.
A o buscar ampliar o acesso de outras classes sociais a esse produto, a equipe do Forninho percebeu que não bastava fazer essa informação chegar de forma impressa, mas que também era necessário estimular a participação de todos os envolvidos no processo, incluindo os comerciantes e atendentes, que lidam diretamente com o público-alvo, e que em muito poderiam contribuir para que essa «multidão» pudesse se sentir próxima da cena cultural capixaba.
Em um segundo momento, eles sentiram a necessidade de atacar em outra frente:
a de dar visibilidade a essa produção junto a possíveis apoiadores.
É aí que reside o risco e a ousadia do portal Culturartes:
como fazer para reunir num único lugar uma parcela representativa dos agentes culturais de um Estado?
Afinal, estima-se que de 8 a 12 mil pessoas vivam da atividade artística no Espírito Santo.
Além disso, como convencer o empresariado a apoiar esse tipo de produto?
Como fazer de um site de internet uma oportunidade de negócios?
Bem, eles já conseguiram enxergar uma boa oportunidade numa sacola de pão.
Quem sabe não exista outra em meio ao universo da world wide web?
Número de frases: 65
olá amigos, sou sandro de teresina, piauí, e tenho uma banda chamada clínica tobias blues.
estou lendo muito sobre tudo isso que está acontecendo e concordo que o cd físico, pra ser vendido, comercializado, está com os dias contados.
isso certamente será substituído por a venda online na internet.
ou vc vende o cd físico propriamente dito ou o cd virtual em mp3, ou até mesmo as músicas separadas, também em mp3.
para tanto vc precisará seguir algumas etapas que estou descobrindo agora.
vc deve se cadastrar num distribuidor como o «cd baby», entre outros, e ele vai se encarregar de pôr sua música pra vender em vários sites mundo afora como itunes, raphisody ...
mas como fazer pra essa grana que vc ganhou chegue ao seu bolso?
se vc tiver uma conta nos estados unidos seria uma boa, mas ninguém tem isso não.
então vc tem q apelar pra sistemas como o «paypal».
vc terá q se cadastrar no paypal, por exemplo, e «atrelar» seu cartão de crédito a ele.
sim, tem q ter cartão de crédito, e internacional ao q parece.
daí como funciona?
alguém vê seu disco no itunes, gosta e compra ele.
aí o itunes paga o teu distribuidor que é o cd baby por exemplo, aí o cd baby tira a porcentagem de ele q é de 9 % e te repassa o resto através do teu paypal.
aí o paypal faz assim:
ele não tem como te enviar esse dinheiro em espécie para a vc pegar com a mão, ele põe esse dinheiro no teu cartão de crédito e vc fica com esse crédito lá no teu cartão, q vc pode usar pra comprar o q quiser ou até mesmo usar esse crédito pra abater na conta mensal do teu cartão.
agora, para vc fazer seu paypal ou fazer seu cdbaby, esse sites estão em inglês, vc tem q ter cartão, pagar 35 dólares pra fazer o cd baby se teu cd, q vc vai pôr a venda não tiver código de barras, o cd baby faz um código para a vc por mais 20 dólares.
quem tem tudo isso pra ao menos pensar em começar esse negócio?
esse é o grande problema.
para a maioria a falta de informação e acesso.
ok, então digamos q vc seguiu todas essas etapas, quando tudo isso aí tá pronto?
e o teu cd estará disponível para a venda nos grandes sites internacionais?
uns 2 a 3 meses.
vejam só, se vc for ver que artistas brasileiros estão vendendo cds no cd baby, são pouquíssimos e são os artistas já consagrados.
os artistas desconhecidos q suaram pra fazer um cd de qualidade mais ou menos na maioria não conhecem ainda essas novas tendências.
pois bem, eu digo:
o negócio é vender música para o mundo, estou fazendo isso com minha banda, nossas músicas estarão à venda nesses sites mesmo daqui a 50 anos.
sempre poderá entrar uma graninha aqui e acolá com essas vendas.
ainda tem gente sonhando em gravar disco, prensar e vender em loja ou sei lá onde, ainda sonham em ser contratados por gravadoras.
td isso estará obsoleto em no máximo 3 anos.
gravem, leiam sobre distribuição e vendas na net, ponham suas músicas pra vender para o mundo inteiro, há sites no brasil q vendem música, como o tramavirtual, mas é um site em português q não faz sombra aos grandes mundo afora.
então assim vc é seu próprio selo, daí vc manda sua música pra um distribuidor (cd baby) q repassa seu trabalho pra grandes vendedores do mundo.
depois a grana retorna e vira crédito para a vc no seu cartão de crédito.
tomara q um dia fique mais fácil pra todos.
quantos grupos de rap, hip hop daqui de o brasil maravilhosos e criativos poderiam estar ganhando dinheiro dessa forma mas muitas vezes não têm acesso a informação e aos meios de concretizar os negócios.
tenho músicas da minha banda em sites q estão lá de graça pra serem baixadas, mas esse acesso grátis tá com os dias contados.
vou atras é desse filão tecnológico q surgiu para a música.
e é pra todos nós.
estude, aprenda.
Número de frases: 39
sou sandro
Cansados de esperar por o interesse dos produtores locais, duas bandas amazonenses de reggae e dois músicos solo se unem para organizar semanalmente o Projeto Reggae Point.
O evento acontece aos domingo, às 21h, sempre no A o Mirante bar e o resultado pode ser avaliado com a comprovação de uma cena consolidada, onde a presença de um público fiel torna-se o melhor indicador da qualidade das bandas manauaras do gênero.
A festa sempre começa com o simpático grupo de covers que leva o nome de seu vocalista, natural da Guiana Inglesa e radicado em Manaus, Silinci Niguci (foto) -- pronucia-se salinçái niguçái -- apresentando aquele pacote simpático de hits que animam qualquer festinha como sweat a la la la long e clássicos de Bob.
Participam ainda do projeto o cantor Salomão Rossy, com repertório próprio de temática essencialmente regional;
Marcelo Ipanema, ex-Deskarados, tocando músicas de sua autoria que consagraram uma das mais importantes bandas da história do reggae em Manaus, além da criatividade do som místico-florestal da banda Ayuhaska, falando de duendes, chás, substâncias e experiências astrais ao mesmo tempo em que brinca com instrumentos que imitam sons da floresta.
Também produtor do evento, Marcelo Ipanema (em segundo plano na foto) conta que o Reggae Point surgiu como alternativa para dar visibilidade às bandas locais.
«Também é uma boa oportunidade para galera se antenar no que rola fora o circuito popular da cidade que gira em torno do axé, pagode e forró», completa.
Assim como as atividades que acumula, Marcelo oscila em seu discurso o ar preocupado do cantor com o otimismo do produtor cultural.
«Em geral falta ousadia, os produtores locais e proprietários de casas há anos utilizam uma fórmula cansada de covers para a maioria das bandas locais em festas, e não utilizam bandas novas», critica.
«Apostamos na diferença, aqui temos espaço para cantar nossas músicas e estamos mostrando que este ' diferente ' é um bom nicho de mercado», comenta Marcelo, que ri ao ser questionado sobre a ironia de se referir à produção local usando o termo diferente.
«Diferente é o não-convencional, né?
É chato, mas Manaus tem disso, comenta.
Com um espaço livre para tocar o que quiser, longe da manipulação do repertório por parte dos donos das casas de shows e produtores, a certeza do caminho escolhido por os participantes está da presença do público que todo domingo freqüenta o local, no último dia (14/08), a bilheteria calculou 314 ingressos vendidos, superando ligeiramente a margem estimada por o produtor.
«Não é à toa que está dando 250 a 300 pessoas, a mesma quantidade de público na programação normal de casas noturnas similares e consagradas».
Vale destacar que boa parte do sucesso do projeto também se deve a escolha do local, o A o Mirante bar é um local único na cidade, não chega a ser grande, mas seu espaço ao ar livre com palmeiras e vista para o rio Negro propicia uma atmosfera ideal para o reggae amazônico.
Cultura e outras bandas
Embora seja um evento musical, o projeto abre espaço para outras manifestações, como a apresentação de grupos de capoeira, danças afro, exposição de artes plásticas e performances teatrais que enriquecem o cenário divulgando cultura, ao mesmo tempo em que distrai o público nos intervalos entre bandas.
«A partir de setembro vamos abrir espaço para a galera do graffitte também».
Realizado como uma cooperativa entre músicos, evento começou com sete bandas organizadoras, mas mesmo com o número atual a festa está longe de ser restrita, semanalmente, uma banda é chamada para se apresentar como convidada especial.
«Financeiramente, aqui a gente precisa dividir o resultado bom e o resultado ruim.
Mas tem muita banda boa na cidade e agora que temos espaço e público, todo mundo tem que aproveitar», comenta Marcelo.
A repercussão do Reggae Point também começa a romper a divisa entre estados vizinhos ou mais distantes, fato que proporcionou apresentações recentes do cantor roraimense Eliakim Rufino, e das bandas O Cãimbra de Minas Gerais, Dago Miranda de São Paulo e a niteroiense Linha Rasta.
Ficou afim de conferir?
O ingresso custa R$ 10 e dá direito a uma cerveja.
Estudantes com carteira pagam apenas R$ 5, mas não ganham a cerva de cortesia.
Maiores informações por o telefone 0xx92 8121-2258.
Aniversário com CD ao vivo
O Reggae Point completou um ano no último dia 31 de julho, mas longe do comodismo, os participantes querem aproveitar o bom momento para aumentar a divulgação de sua música.
«Estamos programando um evento em setembro para comemorar o aniversário de um ano do Reggae Point com a gravação de um CD «ao vivo», revela.
Marcelo conta que a intenção é priorizar o material em qualidade pensando na melhor distribuição possível, o maior problema enfrentado por bandas do Amazonas.
«A intenção é distribuir nacionalmente para lojas de trabalham com artistas alternativos, internet, mas o ideal é conseguirmos uma distribuição maior, via gravadoras como EMI, Indie Records ou Central Reggae», afirma.
No caso do planejamento não se concretizar, Marcelo se sente à vontade para falar em nome de todos os integrantes do Reggae Point, dando como exemplo o esforço feito para divulgar o primeiro CD de sua ex-banda Deskarados, quando o projeto Valores da Terra, da Secretaria de Estado da Cultura, gravou três mil cópias para o grupo.
«Saímos pessoalmente para vender aqui no Amazonas, nas praias por o Nordeste oferecendo de mão em mão e fizemos isso até quando fomos para Margharita, na Venezuela».
História de esforço e profissionalismo
Muita coisa mudou desde o primeiro show de reggae na cidade realizado no início da década de 1990 e promovido por o cantor Cileno, o primeiro militante do gênero musical.
De lá, o ritmo ainda precisou superar o estigma de «música para maconheiros», para depois de alguns anos conquistar as primeiras oportunidades mesmo sob a forte desconfiança dos poucos donos de casas noturnas que, no seu entendimento, arriscavam a reputação do seu ambiente.
«Tivemos que arregaçar as mangas e encarar a música como profissão, o resultado disso, hoje, são as muitas casas que dedicam dias específicos ao reggae e as novas bandas que já surgem fazendo música e realizando seus próprios eventos», afirma Marcelo, confirmando o exemplo da Jamão Manão que já fez parte da organização do Reggae Point.
A postura profissional dos reggaeiros amazônicos já rendeu os primeiros ídolos locais no melhor estilo maintream.
A banda Casulo possui uma exposição na mídia manauara digna de bandas nacionais, e são o melhor resultado em termos de massificação desta abnegada construção coletiva sobre uma cena que teria todas as características necessárias para estagnar no underground de uma cidade como Manaus.
Um exemplo apropriado para a excelente cena roqueira da cidade, que, à exceção de trabalhos isolados, parecem imersos no conflito entre a vida de garagem e uma carreira realmente profissional.
Longe de descansar sobre os louros, em geral, os resultados demonstram por meio do volume de produção musical a consciência dos meios necessários para se manter." Tem
que criar, compor, movimentar sempre, se não vem outro ritmo dito «da moda» e domina o espaço que era teu», conclui Marcelo.
Em o mais, resta dedicar a toda esta nação colorida por o verde, vermelho, amarelo e preto, os parabéns por a façanha e congratulações por o ímpeto!
Número de frases: 44
O reggae venceu!
«Acho que tudo balança
Tua dança é um balancê, balançar
Acho que tudo é criança
Em a lembrança, tua trança no ar Meu amor que será de mim?
Quixeramobim, que será de mim?
Meu amor, que será?
E eu acho graça é da cachaça que você me deu ..." (
Fagner-Fausto Nilo)
Pois eu escrevo do Sertão, do miolo de um certo mundo, de Quixeramobim, município que traz em seu corpo o Marco Zero do Ceará.
É por isso que o pessoal chegado ao Barroco adora chamá-la Coração do Ceará.
Eu chamo só Quixeramobim, que o nome já é difícil, quase surreal, e a digo com o pronome ela, pois elas, as terras, têm que ser fêmeas.
Quixeramobim, em sua fecundidade, gestou muita coisa importante para a Cultura.
Pariu Antônio Conselheiro, o fundador do Arraial do Bello Monte, que o resto do Brasil batizou de Canudos, outra forma de aniquilá-la.
Em os idos imperiais, de lá da sua Câmara, destronou o imperador e proclamou-se capital do Ceará, que passava a compor a Confederação.
Sobre isso nos conta Marum Simão, historiador conterrâneo:
O mais importante movimento revolucionário republicano do Nordeste, a Confederação do Equador, teve início em Quixeramobim.
A Vila de Campo Maior, antiga e futura Quixeramobim, teve uma heróica participação nos movimentos liberais emancipadores do século 19. ( ...)
O Nordeste haveria de reagir à prepotência imperial com um movimento revolucionário que passaria à História como a Confederação do Equador, propondo a formação de uma república constituída das seis províncias situadas ao norte do Cabo de Santo Agostinho:
Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Alagoas. (
in. Quixeramobim:
Recompondo a História).
Outra cria de sua história é Fausto Nilo que, aliás, nasceu na mesma casa de Antônio Conselheiro.
Ele, além de arquiteto, criador de importantes equipamentos urbanos de Fortaleza, é o autor de mais de 400 letras da Música Popular Brasileira.
De entre elas, as clássicas Meninas do Brasil, Pão e Poesia, Pedras que Cantam, Zanzibar e Coisa Acesa.
Como vinheta, diga-se que seu depoimento para o Engarrafando Nuvens, tema de uma colaboração recente para o Overmundo, foi tomado na Estação de Trem de Quixeramobim, onde Humberto Teixeira fazia paradas em suas viagens de Iguatu para Fortaleza.
Em mais de duzentos anos como Município, Quixeramobim conta histórias de escravidão, de libertação, de tragédias, de festas populares e insurreições políticas.
Não à toa, seu hino brada que estamos sempre «nas lutas por a liberdade».
A mesma liberdade que levou os nordestinos a seguirem Antônio Conselheiro e lutarem por vida melhor.
Infelizmente, o final do Século XX destruiu grande parte da memória desse povo sertanejo.
A arquitetura simples e bela dos séculos anteriores, testemunha de tantos acontecimentos, foi devorada por a ignorância de um suposto progresso econômico.
A peleja do arcaico com o moderno empresta hoje a Quixeramobim ares de uma Macondo, sombreada por um futuro com muito mais anos de solidão.
Podemos ter outro destino, é certo, mas para isso é preciso radical intervenção política, cultural e educacional.
Questões locais à parte, voltemos aos dizeres gerais.
Quem quiser vir aqui, verá muita beleza:
cultural e natural.
Os monólitos que cercam a região são de grande importância para quem salta de parapente e pratica rapel.
O turismo rural desponta atraente.
Quem vier poderá conhecer a Casa de Antônio Conselheiro, o prédio de Câmara e Cadeia, onde o Ceará proclamou sua independência, além de inúmeros sítios arqueológicos com inscrições rupestres de milhares de anos.
Enfim, acho que está bom para se fazer uma chegança e dizer de onde escrevo.
De isso e de muito mais, conto depois, se interessar.
Contarei do Festival Internacional de Trovadores e Repentista, do novo cd do Fausto Nilo, dos 110 anos do fim da Guerra de Canudos, dos Profetas da Chuva, da possível vinda de Zé Celso Martinez e o Grupo Oficina para Quixeramobim e de outros temas que atravessam o Sertão do Ceará.
Número de frases: 42
A cena acima é muito familiar para os amantes desse jogo:
uma mesa bagunçada, cheia de papéis e de pessoas em volta de ela escrevendo, jogando dados e conversando.
RPG é a sigla para Role Playing Game, ou jogo de interpretação de personagens, em português.
O RPG é considerado por muitos um «jogo demoníaco» (talvez devido ao tratamento que a mídia deu aos casos de assassinato supostamente relacionados ao jogo).
Porém, quero deixar isso de lado e tratar de outro aspecto:
o estímulo à criatividade.
Há várias formas de se jogar RPG.
A forma mais tradicional e conhecida é reunir vários amigos, eleger um como narrador (ou mestre) e começar a contar histórias e rolar dados.
O narrador começa a contar a história, e os outros participantes do jogo são personagens dessa história e suas ações podem modificar o rumo dos acontecimentos.
Ao contrário da maioria dos jogos, ninguém ganha (ou, pensando de outra forma, todos ganham) a «partida» de RPG.
É um jogo cooperativo, no qual os participantes agem juntos para enfrentar os desafios encontrados em cada aventura.
E o que vale é a diversão.
Em o jogo, a criatividade é o aspecto mais importante.
Criar novas histórias, novos personagens, desenvolver as características desses personagens e interpretá-los tal qual foi proposto não é uma tarefa fácil, embora seja bastante divertida.
Em esse sentido, o RPG é bastante semelhante a um exercício de improvisação no teatro.
Os jogadores devem aprender a lidar com as mais variadas situações, não agindo como eles mesmos agiriam, mas como personagens criados por eles.
Para que as aventuras fiquem mais interessantes, conta muito as experiências do grupo em literatura, cinema e artes em geral.
Geralmente, um rpgista (como são chamados os jogadores) gosta muito de ler e procura sempre histórias interessantes para incrementar as aventuras e os personagens construídos nas histórias.
A cada aventura, uma nova história é contada.
Qualquer tipo de aventura pode ser aproveitado em mesas de RPG, desde a já tradicional fantasia medieval até investigação policial, terror, ou até mesmo fatos históricos.
Sim, é possível aprender história a partir do jogo.
Há muitas iniciativas sérias sobre a inclusão do RPG no processo de educação.
Para ficar em poucos exemplos, cito o Histórias Interativas e a Jogo de Aprender.
Há também uma comunidade no orkut sobre o tema.
Meu primeiro contato com o RPG foi na escola, em Jataí.
Um amigo jogava, e logo montamos um grande grupo, com umas dez pessoas.
Com o tempo, o grupo se firmou nuns cinco ou seis integrantes, surgiram novos grupos e conhecemos outros grupos de jogadores mais antigos.
Foi muito importante para os grupos a troca de experiências com o jogo e até o intercâmbio de jogadores entre os grupos, que ajudou a difundir bastante o RPG na cidade (mesmo com a desconfiança dos pais, com medo da possível má influência que o jogo poderia causar).
Hoje, conheço cerca de dez grupos de jogadores / ex-jogadores em Jataí, alguns formados por jogadores muito jovens.
Em goiânia, há uma tradicional livraria voltada para RPG e card games, a Solo Sagrado, que reúne sempre os fãs do jogo em busca de novos livros e revistas sobre o assunto.
Até pouco tempo atrás, havia espaço para jogar na livraria, mas retiraram.
Recentemente fiquei sabendo que tem um pessoal que se reúne no shopping Bougainville para jogar.
Várias mesas são ocupadas por jogadores.
Em o CEFET de goiânia sempre tem uma oficina de RPG para os calouros todo início de ano.
Como se vê, o movimento dos rpgistas na capitar é bem maior ...
Há vários encontros nacionais e regionais no Brasil, entre eles o Encotro Nacional de RPG.
Para maiores informações, visitem o site rede rpg ou um dos sites citados no final do texto.
RPG é isso:
um jogo de contar histórias.
Uma história inventada coletivamente.
Obs.:
Número de frases: 41
para maiores informações sobre o jogo, visitem o site da Devir Livraria e da revista Dragão Brasil, ambas especializadas no assunto.
O Teatro em Mato Grosso do Sul está «Cego»???
Cegos De Paixão!!!!
Cegos de Paixão " -- Comédia que conta a estória do Sr. Aquino Pinto, proprietário da Mas-Q-Zona -- Indústria de roupas íntimas e assessórios, apaixonado por a sua secretária Maristela Castro (fã incondicional do Wando), que tenta de todas as formas seduzi-la mas sempre é barrado por o seu Office-boy.
A trama vai se desenrolando e o público começa a torcer para que no final o amor triunfe e Maristela «veja» que Aquino Pinto é o grande amor de sua vida.
Quando tudo parece estar se encaixando um final surpreendente e mostra que somos todos «cegos» e que nosso verdadeiro amor pode estar bem mais perto do que se imagina.
O grupo mostra um perfeito domínio do espaço cênico, pois nem mesmo a deficiência visual os impedes de andar de bicicleta, saltar sobre mesas e andar de perna-de-pau.
O Grupo
O Grupo Teatral Luzes -- o primeiro do Brasil formado por deficientes visais, estreou no ano de 1993, neste quatorze anos os atores conseguem por meio da arte cênica explorar suas potencialidades e surpreender a platéia.
Foram inúmeras as adaptações das técnicas de teatro convencional para os deficientes visuais, desde relaxamento, exercícios de dicção, marcação cênica, entre outras.
O resultado destes treze anos de trabalho foi à formação de atores que através das técnicas teatrais passaram a ter um melhor desempenho em sua vida cotidiana, assim como uma surpreendente melhora gestual, que não é peculiar aos deficientes visuais.
Essas adaptações capacitaram os atores a atuar em qualquer espaço cênico, fazendo o reconhecimento do palco com algumas horas de antecedência.
O Grupo Teatral Luzes, trabalha quase sempre com o gênero comédia, e é comum, ao final do espetáculo encontrarmos pessoas na platéia emocionadas, por o exemplo de superação transmitido por estes atores, tornando-se hábito receberem pessoas no camarim para parabenizar o elenco e, notoriamente, verificar se os mesmos são realmente deficientes visuais.
Cuidados especiais, como a elaboração do programa da peça em Braille para outros deficientes visuais que vão assistir a mesma, com descrição minuciosa do cenário, figurino e objetos de cena, assim como a colocação de um «intérprete» para os deficientes auditivos, são valores agregados do Grupo Luzes, que prova que a exclusão social, injustificável por si só, inibe também uma inesgotável fonte de talento e exemplos.
Em 2006 o Grupo Luzes ganhou o prêmio FUNARTE de Arte Cênicas -- projeto Arte sem Barreiras e o prêmio FUNDAC -- da Prefeitura Municipal de Campo Grande com o espetáculo Circo Brasil.
Equipe Técnica
Elenco:
José Aparecido Souza
Maria de Lourdes Nivaldo Santos
Wanderlei Rodrigues Ficha Técnica:
Texto:
Ivan Reatte Figurino:
Luis Gugliato
Maquiagem / Cenário:
Malvina Menero
Sonoplastia: Thamara Rachel Reatte
Chefe de montagem cênica:
Tadeu Aggio Criação Gráfica:
Gustavo Cabral Iluminação / Direção / Produção:
Ivan Reatte Contatos:
E-mail:
grupoluzes@terra.com.br Site:
www.grupoluzes.com.br Obs:
Pode ficar com inveja!!!
Só Mato Grosso do Sul Tem.
Número de frases: 35
Justamente neste momento em que o Brasil regozija-se com a prisão de duas pessoas que até se provar o contrário são inocentes perante a lei, mas infelizmente já foram pré-julgadas e pré-condenadas por a mídia tanto quanto por a maior parte da população, resolvo tratar da morte no âmbito da Arte.
Apresento-lhes, portanto, Gregor Schneider e sua «beleza da morte».
Em a segunda quinzena do mês passado, o renomado artista plástico alemão, Gregor Schneider, anunciou estar procurando um paciente terminal que participe de sua futura instalação, chamada «beleza da morte», na qual pretende-se que o moribundo morra na galeria de arte, diante daqueles que quiserem ver.
Polemista e genial, o artista conta com a ajuda da gestora da uma clínica médica privada em Düsseldorf, Roswitha Franziska Vandieken, para auxiliá-lo a encontrar uma ou mais pessoas que estejam dispostas a morrer em público, numa derradeira entrega em nome da arte.
Afirmou ele, em entrevista para a imprensa alemã:
«Estou confiante que encontraremos pessoas que queiram participar».
E ainda que:
«Essa idéia já me persegue há mais de dez anos».
Acredita que agora é o momento certo de realizá-la.
Decidiu-se.
Gregor, que apresenta sua proposta de arte com muita seriedade e competência, informa que o processo artístico será preparado com o consentimento legal do paciente e de seus familiares e que a morte será apresentada de uma maneira respeitosa e humana, bem como de acordo com a vontade do doente.
Finalmente, o artista argumenta que tornar a morte pública e apresentá-la de modo direto e honesto, pode servir para diminuir o medo e quebrar o tabu que as pessoas mantêm para com esse momento natural e participante da vida.
De minha parte, enquanto artista, somente decidi-me por escrever esta matéria e aqui apresentá-la, porque eu ÍgorO.,
apoio completamente o projeto de Gregor Schneider e de ele participaria caso estivesse para morrer, posto que a morte é questão fundamental de minha obra, assim como a total liberdade da Arte.
ÍgorO.
Número de frases: 15
Maio de 2008.
De Recife até Natal, são cerca de quatro horas de ônibus.
Pouco, considerando que leva mais tempo para chegar em outras cidades no interior de Pernambuco (como Arcoverde).
Mas ainda é muito para mim, que não tenho muito costume de estrada.
Dei sorte de pegar uma viagem junto com Guilherme Moura, amigo que é responsável por o site RecifeRock (ou talvez império RecifeRock, agora que eles são TV, Rádio, Revista e site).
Foram quatro horas de considerações sobre o que encontraríamos este ano em terras potiguares.
Nenhuma previsão seria suficiente para os próximos dias.
Não descemos no terminal, mas antes.
Um bairro chamado Neopolis -- descobri mais tarde que Natal é cheia de bairros com nome de ' cidade isso ', ' polis aquilo ' -- e fomos recebidos por Anderson Foca.
Não sei ainda se isso é um apelido ou o nome de ele.
Foca é responsável por o bar De o Sol, onde tem shows quase todos fins de semana com as principais bandas independentes do Brasil.
Também faz o festival De o Sol, a De o Sol Image, estúdio e selo.
Eles lançam a maioria dos artistas locais de hoje.
Se conversa muito sobre música em Natal.
A cidade está borbulhando de idéias e todo mundo quer contribuir para o que vai nasce daí.
Seja no terraço da casa de Anderson, seja na piscina do hotel onde fiquei hospedado, o assunto era sempre bandas, mercado e festivais.
Foi meu segundo Mada (e depois escrevo sobre ele em detalhes aqui), o primeiro que realmente gostei.
Festivais independentes estão entre as coisas mais legais hoje no país, em tempos de Internet.
Tem a felicidade de descobrir bandas que antes eram apenas links, conversar pessoalmente com pessoas que antes eram apenas coleções de arrobas na caixa de email.
O festival tinha sido ótimo (calma, vai vir os detalhes) e parecia que Natal já tinha provado que era o cenário certo para esse tipo de evento no Nordeste.
Todo mundo se mistura, sem preconceito melódico.
Em o fim de um dos dias, no hall do hotel, ficamos alguns jornalistas, as bandas Cachorro Grande, Daniel Belleza, Volver e Impar debruçados no piano de cauda, todos cantando beatles.
O momento mais legal de todos.
Aproveitei para pedir um dia de folga no jornal, já que tinha trabalhado dois fins de semana, e estiquei um dia na cidade.
Foi a melhor coisa que já fiz.
Descobri, entre outras coisas engraçadas, que Natal não tinha mais McDonalds.
Todas foram fechadas porque o público preferia mesmo uma lanchonete local, a Pits Burger.
Fomos numa praça do campus universitário, um lugar enorme, onde é montado um palco no primeiro domingo de cada mês.
Foi a grande surpresa.
Tinham mais de mil pessoas lá, conferindo um show de reggae e, na sequência, um de rock.
Uma das bandas tinham tocado dois dias atrás no Mada, e ninguém estava nem ai.
Em a verdade, estavam com mais refrões na ponta da lingua, prontos para participar mais do show.
Foi bonito de ver.
Era um clima família, com pais e filhos, casais, e um pequeno furacão na frente do palco.
Mais tarde, rumamos para o Fósforo.
Algo próximo de um inferninho local, bar de qualidade que é cuidado por uma galera que inclui o Neguedmundo (músico que mistura hip hop com samplers eletrônicos, lá de Natal também).
A galera rock diz que lá só rola reggae.
Neguedmundo garantiu que passavam todas as tribos.
Fiquei com a opinião de ele, porque nessa noite rolou um show histórico.
O Relespublica, de Curitiba, e os Filhos de Judith, do Rio de Janeiro.
Ambos com uma energia e vontade que não apareceram no Mada.
A noite encerrou, para nós, perto das 3h da manhã.
Mas o quadro negro do bar, ao lado de uma mesa de sinuca, prometia pelo menos mais quatro shows na noite.
E tinha publico lá para isso.
Saímos todos, bandas e jornalistas, com um papo de «quero isso na minha cidade».
Número de frases: 45
Não sei se é exagero, mas da mesma maneira que aconteceu com o Recife, em breve o Brasil vai querer virar Natal.
Podem me chamar de chato, mas não gosto e nem tenho motivação em aprender a gostar de certas construções de sons que surgem por aí afora, que alguns tentam chamar de cultura brasileira.
Não, não posso acreditar que várias «canções» que tocam nas chamadas rádios populares, ou aquelas que não desgrudam dos nossos ouvidos, como se fossem vírus irremediáveis, que só desaparecem quando você desaparece, são frutos de uma cultura, como a nossa.
É no mínimo ridículo, quando alguns tentam colocar no mesmo patamar batidas de um funk, que não levam a nada, a não ser transformar ou manter a condição da feminilidade submissa e degradante, junto com mestres do samba brasileiro como Cartola, ou da MPB, como o velho Chico, e por aí vai.
Pois, quando há essa comparação, creio que os amantes da boa música e dos verdadeiros artistas deste país se sentem ofendidos.
Para legitimar o lixo musical aí existente, reside a tentativa, mais uma vez, de tirar da música a característica contemplativa, lúdica, para reafirmar a opinião barata e pobre de que alguns tipos de sons que tocam são desabafos de um povo sofrido, que só deseja se divertir, abrindo de vez as portas para as letras apelativas e rasas.
Não podemos excluir que algumas grandes gravadoras fazem questão de manter e serem cúmplices desse jogo para arrecadar mais dinheiro.
Elas não estão preocupadas em fornecer à população músicas de qualidade.
Prova disso, é o grande número de artistas que procuram formas independentes de gravar seus trabalhos.
A meu ver, a grande forma de reverter esse quadro tão desastroso é levar à camada carente da sociedade uma cultura de qualidade.
Número de frases: 10
Pois, dessa forma ela continuará sendo refém dessas gravadoras e de uma parcela da mídia que tem total falta de compromisso com o que é realmente é digno de fazer parte da verdadeira cultura brasileira.
A novela O dia do descanso de Deus, primeiro livro de Adroaldo Bauer, está impressa.
Será lançada no fim do mês, dia 31, em sessão de autógrafos, na Palavraria Livraria -- Café, em Porto Alegre.
O autor já tem um debate marcado com leitores para 26 de junho, no Plenarinho da Assembléia Legislativa.
Em esta entrevista exclusiva com o autor que apresento em primeira mão no Overmundo, convido a viajarem por a novela deste novo escritor (o primeiro livro a gente não esquece).
Não vou fazer lide ou nariz de cera para não alongar e ocupar muito espaço na página.
Como dizem as personagens de Adroaldo Bauer:
Mãos à abóbora!
Vá de retro capataz!
Juliaura Ubá -- Quem te conhece um pouco sabe que és um sujeito que faz política, fez política nos últimos 30, 40 anos (eu nem pensava em nascer), tem política no enredo da novela?
Adroaldo Bauer -- Tem, como tem política na vida de qualquer pessoa, em qualquer tempo, seja ela engajada ou não.
Se não faz, fazem para ela, nem sempre por ela.
As personagens existem num tempo entre 1950 e 1970, por aí.
É ficção, mas tem a ver com coisas reais, de pessoas comuns, que se amam, se odeiam, até se matam.
Juliaura -- Tem personagem principal, herói, heroína?
Adroaldo -- A personagem principal é a Língua Portuguesa.
Eu tenho certeza que não está tudo nos conformes e por a ordem exata, mas tentei ser o mais fiel ao que se dizia e se falava em Português aqui no Rio Grande do Sul, num ambiente em transição do rural para o urbano, nas cidades que já iam se modificando para assumir o perfil que têm hoje.
Antes, portanto, da ocupação cultural que estamos vivendo.
Então, a política aí é também de resistência, acredito.
Juliaura -- Por que uma novela?
Adroaldo -- Nem sei bem porque.
Encafifei com uma frase.
Tava trancado num ônibus, num fim de tarde quente.
Comecei a suar frio, ter enjôos.
A frase era não tenha medo de nada.
Duas negativas em oito palavras.
Redundância. Pensei que podia dizer, não tenha medo.
Achei comum.
Cheguei a não tema.
Que é o presente.
Então, se fosse contar uma história, teria que ser menos jornal, mais literário.
Encontrei: nada temia.
A mesma negativa em duas palavras.
Aí dei um nome para o sujeito.
Juliaura -- Em o ônibus?
Adroaldo -- É, encontrei a frase e o nome do sujeito ainda no ônibus.
Em casa, deu vontade de escrever.
Fiz três capítulos numa sentada, à mão, caneta e bloco de repórter.
Aí apareceram outros personagens.
Não consegui dormir direito com aquela multidão com mim na cama.
Juliaura -- Que multidão?
Adroaldo -- As personagens.
Citadas de passagem, começaram a me atazanar cobrando falas, função, papel para elas.
Isto era o meio da semana.
Em o fim de semana, cheguei a 12 capítulos.
Juliaura -- O enredo estava bolado antes?
A idéia, a vértebra da história tinha alguma anotação anterior?
Tu vinhas acalentando essa necessidade de escrever a novela há muito tempo?
Adroaldo -- Não, filha, se permites o tratamento.
Juliaura -- Pra mim é uma honra, ainda que até possa ser tua neta (risos)
Adroaldo -- Menos, Juli ...
Eu não tinha planos de escrever uma novela.
Acho mesmo que é uma novela o estilo que acabou resultando.
Eu sempre escrevi.
Fiz a redação sobre o Dia da Árvore da escola no terceiro ano primário.
Fiz alguns versos para o Jornal O Saci, naquela escola.
Publiquei alguns versos e contos no jornal O Julinho, em 1972, uma resistência possível que ajudou a reabrir o grêmio estudantil fechado por a ditadura.
Rabisquei muito guardanapo em boteco.
Publiquei também no Quadrão, que era um suplemento do jornal Folha da Manhã, que os donos fecharam na maior cara de pau em 1980.
Mas eram sempre peças curtas, em verso ou prosa.
Contos ligeiros, versos rápidos.
Mais recentemente comecei a fazer resumos de livros e apresentação de eles em blogs meus ou de outros e no Jornal Fala Brasil, mas isso é muito recente, de uns dois anos para cá.
Juliaura -- És poeta também?
Adroaldo -- Isto é bondade dos amigos.
Faço algumas rimas, brincadeira com a sonoridade das palavras.
Não sei fazer com métrica, por exemplo.
Mas tava dizendo que não tinha roteiro, nem plano de escrever algo parecido com O dia do descanso de Deus.
Juliaura -- Então como foi isso?
Adroaldo -- Não sei bem direito.
Foi sendo, e sendo foi feito.
Mostrei os três capítulos para minha companheira, a Cristina.
Ela gostou e disse para eu continuar a história.
De aí eu sentei para tentar e saíram os 12 capítulos naquele fim de semana que já falei.
Então eu não dormia mais sozinho com a Cris.
Era aquela multidão se enroscando em mim a noite inteira, pedindo fala na mesa do almoço, da janta, até para as visitas.
Cheguei a 25 capítulos.
Juliaura -- Dormindo?
Sonhando?
Adroaldo -- Não sei bem como é o nome disso.
Não é sonho.
De aí dei um intervalo de alguns dias.
Eram as festas de fim de ano.
Em janeiro eu me atraquei no computador para dar um fim na história.
Teve um momento em que havia três hipóteses para o rumo de ela.
Juliaura -- Três histórias numa só?
Adroaldo -- Até pode ser, mas prefiro acreditar que eram três finais possíveis.
Escolhi um e suei na máquina uns dez dias seguidos.
Terminei a história em 13 de janeiro.
Havia rabiscado as primeiras linhas em outubro.
Ainda tem umas idéias sobre os outros dois rumos no Epílogo.
Talvez até uma continuação ...
Juliaura -- Ah!
Aquilo que chamam de trilogia ...
Adroaldo -- Já falei que nem tinha idéia de que pudesse fazer o livro e tu me vens com trilogia, guria.
Isso é muita responsabilidade.
Mas que tem personagem querendo continuar, isso tem.
Essa gente é impossível, quer mais, sempre.
Juliaura -- Mudando de saco para a mala, por que estás editando por conta?
É uma edição de autor, não é fato?
Estás montado na grana, é isso?
Adroaldo -- Antes fosse, guria.
Continuo devendo aos banqueiros, vivendo do salário do mês.
Tu ainda não tens filho ou filha, não é?
Imagina o que é ter a criança e deixar ela peladinha na incubadora, esperando sabe-se lá o quê?
É bem isso que acontece com autor de primeira viagem, pai ou mãe.
A gente quer pegar a criança, quer beijar, quer vê-la e que a vejam.
Para a gente ela é a mais bonita.
Ou tanto quanto as outras.
E ninguém se apresentou para o batismo ou sequer para olhar a recém-nascida.
Juliaura -- Mandastes originais para as editoras?
Oferecestes na Internet, tem ali umas firmas de e-book?
Adroaldo -- Filha, a novela é do milênio passado e eu também sou mais de lá, ainda, que de cá.
E, se tem situação de que não gosto é a de pedir penico.
Mercado editorial eu compreendo, não quero discutir, mas não engulo coisas do tipo:
estamos sem agenda para o momento.
Ora, isso é resposta?
O momento é a única situação real da existência.
Quando termina esse momento?
Em o filme Inteligência Artificial, de que eu gostei muito e recomendo, um momento dramático, pode-se dizer, durou dois mil anos.
Um momento terno, prazeroso, feliz, durou 24 horas.
Eterno enquanto dure, nos recomendou Vinícius de Moraes.
Então eu emputeci, sondei uns amigos aqui, uns conhecidos ali, e decidi fazer por conta.
Tenho o crédito do Shimite, da Proletra.
Vendi antecipado 200 exemplares.
É edição do autor.
Escritor pelado e metido a besta, se quiseres.
Juliaura -- E a história, o que é?
Qual é a mensagem?
E o final, ah, ah?
Adroaldo -- Já dá pra saber o fim.
Está impressa, vai ser lançada em 31 de maio na Palavraria Livraria-Café.
O preço promoção de lançamento será R$ 20,00.
É comprar e abrir a página 103, que tá lá.
Em a 104 tem o Epílogo.
Não aconselho muito essa técnica, porque pode ser que a curiosidade se intrometa e tu tenhas que ler todo o livro para saber porque termina assim a história.
É melhor ler desde a primeira página da trama.
Tem três capítulos de ela, mais a apresentação do amigo e colega de jornalismo Pilla Vares, no meu blog, o Retorno Imperfeito, e em outros lugares, aqui no Ovemundo, que eu fiquei sabendo de tuas peraltices que resultaram em publicações por aí, até no Shvoong, já me contaram, é isso.
A história é um drama, talvez até tragédia, de um homem que tem três filhos gêmeos e uma filha e perde a mulher assassinada numa tentativa de curra.
O sujeito emputece, desaparece e ...
Tem graça, amor e ódio.
Tem uma técnica de vai e vem que eu aprendi sobre la marcha, meio inspirada n ' O Louco do Cati, do Dyonélio Machado, para muitos o precursor ainda não reconhecido do Realismo Fantástico.
Não sou pai coruja, mas sou pai:
é uma boa história.
Juliaura -- Pois é, li a apresentação do Pilla Vares e vi que ele te chama de velho que demorou pra escrever literatura (risos).
Amigão, ele, ãh?
Adroaldo -- Respeito é bonito e conserva os dentes, guria.
Aliás, lindos dentes, menina, quase tão bonitos como os teus olhos.
Bem que lembras a Laurita, uma das minhas personagens.
Mais por a insolência que por o feitio.
O Pilla é bem assim como tu disseste.
É verdadeiro.
Ele lamenta de fato que tenha eu resolvido tão tarde dedicar-me à literatura, a um escrito de fôlego.
Primeiro eu quero agradecer também aqui, porque já o faço no livro, a gentileza de ele me apresentar.
E principalmente por ser do jeito que foi.
Segundo, porque ele e mais alguns sabem que não era possível eu escrever assim antes por as tarefas que eu mesmo me impunha no trabalho político e profissional.
Ficou para a hora que deu.
Ainda bem que ainda me restam mais uns 50 anos de vida (risos) e, agora que eu já sei como se faz, vou continuar fazendo.
É como coçar.
Começou, não pára.
Como eu te disse antes, tem personagem cobrando continuação.
E, aí eu me recordei de que tinha uns dois capítulos pensados, resolvidos na cabeça, como se diz, mas ainda não escritos de uma outra história que, essa sim, pensei a respeito de ela em 1994, quem sabe não dá uma outra novela?
Tem crime que precisa ser explicado e situação que necessita compreender.
Juliaura -- Então, tá!
Agradecida por tua paciência.
Adroaldo -- Tem de que, filha.
Número de frases: 165
Eu que te agradeço.
Desde que terminei a faculdade, em 2004, não sei o que é férias e por conta do acaso só consegui tirar umas semanas agora, em janeiro de 2008.
Então, não pensei duas vezes em fazer render esses dias e, desde o ano passado, vim planejando uma viagem por a Bolívia, Chile e Peru.
Junto com três amigos percorremos os três países por terra.
Conhecendo cidades, grandes, pequenos povoados, desertos, praias, pessoas ...
uma experiência única que recomendo a todos.
Eu poderia passar horas documentando cada detalhe, mas isso não vem muito ao caso.
O motivo do texto é outro.
Sempre me interessei por esse papo de integração latino-americana e nas discussões que giram em torno da barreira cultural e linguística entre o Brasil e o resto da América Latina.
Percorrendo estes três países, pude sentir na pele como se dá essa relação de proximidade -- ou distância -- entre nós e eles.
Quando perguntado se era brasileiro, a frase que mais ouvi, tanto na Bolívia como no Chile e no Peru, foi:
«Brasil? El más grande del mundo!».
É impressionante.
De o taxista ao garçon, da recepcionista ao camelô ...
todo mundo falava isso.
Em o começo, a gente até explicava que não que somos o quinto maior etc ...
engraçado e curioso.
Em a Bolívia, em especial, a frase vinha num tom meio de deboche, com um sorriso de canto de boca.
Não soubemos entender exatamente o porquê disso.
Talvez seja a questão do Acre, talvez envolva também a grandeza da nossa economia, o futebol, sei lá.
Depois, no Chile e no Peru, a história se repetiu direto.
Todo mundo falava isso para a gente ...
Um tapinha não dói
E quem diria, o funk carioca, exportado para Europa, também ecoa por aqueles lados e faz sucesso na boca do povo.
Além do «El más grande ...», muitas vezes o sujeito soltava um» Dói, um tapinha não dói.
Vai Glamurosa, cruze os braços ...».
Hilário! Em o Chile então, a galera canta com o sotaque direitinho.
O Axé (ou " atché ") também faz a cabeça da galera e ouvimos também Ivete, Asa de Águia etc.
Talvez por que seja semelhante à cumbia (lembra muito nosso calipso / tecno-brega) e o reggaeton, ritmos que tocam em tudo o que é lugar e tem aquele remelexo que o povão gosta.
Em o mais, a música brasileira, assim como a latina por aqui, não ecoa tanto por lá.
Ah, claro!
O samba e o carnaval tem bastante relevância e os jornais fazem até uma cobertura bem bacana.
E o futebol?
Bom, o futebol dispensa comentários.
Todos se amarram na seleção e os craques do momento estão na ponta da língua.
Todo mundo conhece Kaká (o mais hypado no momento), Robinho e Ronaldinho Gaúcho, presente em vários anúncios colados em porta de lanchonete, lanhouse, banca de jornal ...
Quando estivemos no Chile usei minha camisa do Mengão e teve muita gente olhando, apontando e parando pra falar com mim.
Tava rolando a pré pra Libertadores e os times participantes dessa edição estavam sendo muito noticiados.
E falando no Chile, lá rola um lance muito engraçado.
A juventude é muito rocker (pelo menos no visual).
E olha que eu conheci duas cidades de praia onde esperava encontrar surfistas, playboys, loironas saradas, hippies de butique.
Até rola essa galera, mas a maioria esmagadora é roqueira.
Além dos emos, punks e headbangers, tem uma outra «tribo» conhecida como pokémon.
O visual de eles é meio Cansei de Ser Sexy e, lendo jornais locais, fiquei sabendo que rola até briga de gangues punks contra pokémons ...
rsrsrs.
Mais integração
No geral, fomos Muito bem recebidos nos três países.
Acho que diferente dos gringos que vem dos Eua, Europa, Israel ...
rola uma cumplicidade maior.
Tipo, " vocês são gringos, mas a gente tá no mesmo barco.
Somos hermanos!».
Não há preconceito, muito pelo contrário.
Nosso passaporte brasileiro abriu muitas portas e gerou muitas amizades por onde passamos.
Drinques de cortesia, desconto em pousada, convite para jantar, enfim, todo esse metier turístico nos recebeu muito bem e fiquei me perguntando se o mesmo acontece com eles quando estão nos visitando.
Funk, futebol, caipirinha ...
às vezes ficava pensando como eles não conhecem tanto nossa cultura e, entre si, são tão integrados ...
mas ao mesmo tempo também somos tão ignorantes em relação a eles.
O Café Tacvba, banda argentina, estava fazendo uma mega turnê e todas as datas (em estádios!!!)
estavam esgotadas por onde passavam.
Aqui no Brasil, poucos conhecem o som do grupo.
Parece que os Andes ligam esses países como uma coluna vertebral ...
e o Brasil fica de fora.
Não sei se estou sendo exigente demais, afinal passa até novela nossa por lá, mas fato é que apesar de perto, estamos ainda muito longe dos nossos hermanos e eles de nós.
Número de frases: 63
* Gostaria muito de incluir fotos minhas, mas minha máquina foi perdida durante a viagem e meus parceiros de aventura (com suas fotos) ainda estão por lá ...
Rodeado de seus alunos da Oficina da Palavra na Kabum!
Escola de Arte e Tecnologia, um semblante alegre vem em minha direção com passos rápidos e avidos, pressa para falar e ser entendido, como se pudesse correr do tempo.
Tão logo quanto calculou, pára e deseja um bom dia simpático.
Alguns fios brancos ternos de maturidade surgem em sua barba enquanto os óculos parecem esconder um olhar tímido, ainda de menino.
O mesmo olhar que pede para não colocar o gravador a mostra «para não parecer que estava sendo entrevistado».
Em tom de prosa de bar, com o toque especial de uma música de fundo, colocada por ele mesmo para embalar a conversa, o jornalista, professor e poeta Samarone Lima fala um pouco de suas obras, explica sua visão sobre a imprensa brasileira e expõe sua percepção a respeito do jornalismo literário.
E claro, faz o que mais lhe agrada:
contar histórias com um jeito todo especial.
O que você pensa sobre o jornalismo brasileiro?
Eu acho que o jornalismo não consegue mais enxergar o indivíduo.
Ele se perdeu nos números e nas estatísticas.
Existe uma grande incidência de violência contra a mulher no Estado de Pernambuco.
Além dos números, não me lembro de ter visto nenhuma reportagem mais humanizada sobre o tema.
Ao invés de recitar estatísticas, seria muito mais válido contar a história de apenas uma dessas mulheres com mais sensibilidade.
Em uma crônica, falo de um momento em que estava passando por alguns problemas e me deparei com a cara de sofrimento de um vendedor de churrasquinho no meio da rua.
Era uma tarde chuvosa e eu realmente estava muito triste, mas quando me deparei com aquele rosto, percebi que minhas agruras não eram nada em relação às daquele homem.
A o ler esta crônica um amigo falou que era exatamente isto que faltava no jornalismo brasileiro, enxergar o sofrimento dessas pessoas e dar voz a elas.
Existem diversas denominações para o termo jornalismo literário.
Para você, o que ele significa?
A minha concepção é de um jornalismo feito com o uso da literatura.
Narração, descrição, cenas, diálogos.
Ele em alguns momentos chega muito próximo da literatura.
É feito com toda uma base literária;
descrição de lugares, de personagens, elementos mais densos, reflexões.
Citando meu caso, no meu primeiro livro a respeito de um fugitivo da ditadura.
o Zé, eu o achei bem jornalístico, bem seco.
Fiz a reportagem sobre a biografia de um camarada que lutou contra a ditadura.
Já no Clamor, eu já dei uma aproximada na literatura.
E o livro que estou fazendo agora, que trata de um atentado no aeroporto dos Guararapes em 1976, vou tentar explorar o máximo do jornalismo literário.
Em o atentado tema deste livro mais recente, os envolvidos não foram presos.
Apenas dois anos depois, foram encarcerados dois engenheiros que não tinham nada a ver com a história.
Em a prisão, eles passaram por as situações mais cruéis.
O meu livro vai contar a história de eles, do sofrimento destas pessoas que foram acusados injustamente, não é uma busca de quem realizou o atentado.
Houve uma transformação do jornalismo literário descrito no manifesto por Tom Wolfe, em 1960, no qual ele abordou mais a respeito do estilo e da estrutura do texto.
Hoje em dia, Gay Telese acredita que o jornalismo literário precisa estar voltado para a transformação da sociedade.
Telese trouxe a idéia de que o jornalismo literário além da parte estilística, da inserção da literatura necessita existir em função de uma mudança.
Você acredita que nós seus livros você incita esta mudança?
Em a profissão mesmo, no dia a dia, o jornalismo pode ter esse caráter de mudança social, eu sempre acreditei nisso.
Em o seu comportamento como profissional, na sua posição ética.
Em a forma como você olha para o mundo, quando você vê o que é prioridade.
Ou numa reunião de pauta, quando você leva pautas que sejam diferenciadas.
Eu sempre fui muito ligado aos direitos humanos e este interesse me rendeu muitas matérias boas, porque não tinha gente que se quisesse cobrir essas pautas.
Quando tinha alguma matéria com este tema ficava para mim.
Eu me lembro quando eu trabalhava para a Veja e levava minhas matérias lá, muitas eram rejeitadas.
Um dia, minha chefe me disse que as minhas pautas não tinham muito a ver como a revista.
Em os livros, para alcançar um direcionamento diferente você deve escolher um assunto para trabalhar e trabalhá-lo de uma maneira legal.
Por exemplo, este terceiro livro que eu estou escrevendo sobre o atentado trata de um tema bem polêmico e eu já poderia ter publicado, mas ainda não está bom.
É uma questão de respeito a todas as pessoas que eu entrevistei e fui conhecendo, eu sei que ainda não é um momento de ele.
Para mim não existe uma afã de status em ter mais um livro publicado, acima disso, existe um grande respeito com os leitores e entrevistados.
Qual seu jornalista literário favorito?
Eu tenho sentido falta de ler coisas brasileiras.
Em a coleção de Jornalismo Literário da editora Companhia das Letras tem mais coisas gringas.
Saiu um livro do Joel Silveira se eu não me engano, há pouco tempo.
Um que eu li que gostei muito, foi Hiroshima, acho muita boa a maneira como ele vai descrevendo as cenas.
John Hersey. pega os detalhes do cotidiano dos seis personagens e conta como estavam essas pessoas horas antes da bomba ter explodido, o que elas faziam e o que aconteceu depois, quando as histórias vão se cruzando.
Tem outro livro que eu estou lendo que é de Rodolfo Wach.
Ele pega um caso que aconteceu de uma matança de líderes comunistas em que um sobreviveu.
Rodolfo vai resgatando a história a partir de desse sobrevivente.
Mas o cara assim, escreve demais.
Tem também o famoso, A Sangue Frio, que também é muito bom.
Em a biografia de Gerald Clarke, principal companheira de trabalho de Truman Capote, ela declarou que alguns trechos de A Sangue Frio foram inventados por ele.
O que você acha desta atitude de Capote?
Você já colocou inverdades em seus livros?
Quando você se envolve num projeto deste tipo, tem o domínio sobre o que está trabalhando.
Estar há tanto tempo convivendo perto da história, torna possível supor algumas coisas.
Por exemplo, no Zé, tem uma parte que eu gosto muito no final.
Ele estava fugindo de São Paulo para Minas Gerais e no caminho vai lembrando de tudo que aconteceu;
dos lugares, das pessoas que conheceu.
Era como se ele tivesse lembrando de tudo aquilo, passando um filme na sua cabeça.
E esta memória de ele seria interrompida por o carro da repressão chegando.
Seria uma cena bem marcante no livro, mas a editora tirou esse trecho, eu só vi quando o livro estava pronto.
Esse texto das lembranças é meu, não sei se ele imaginou isso.
Mas foi uma coisa totalmente crível, que se pode supor que eu não inventei.
Em a verdade foi um resgate das histórias que eu havia escutado a respeito de ele.
Você leva bastante tempo para concluir seus livros.
Porque uma obra deste tipo leva tanto tempo para ser feita?
Uma coisa que eu sou é paciente.
Tenho 37 anos ainda nem casei, minha mãe fica invocada com mim.
O Zé foi meu trabalho de conclusão da Universidade Católica de Pernambuco.
Em esse período eu estava em redação de jornal, o que ocupa muito tempo.
Um fato que me ajudou muito foi minha estadia em São Paulo, pude me aproximar de alguns entrevistados.
Mas tinha um personagem que eu não conseguia encontrar em lugar nenhum, pois ele viva meio clandestino.
Resultado; quando eu entreguei a reportagem para banca examinadora da faculdade o livro ainda não estava pronto.
Zé demorou cinco anos para ficar ser publicado.
Clamor também exigiu muita pesquisa e levou cerca de oito anos para ser publicado, e este que eu estou fazendo no momento, também está dando trabalho.
O jornalista João Valadares comentou no prefácio de Estuário que não é fácil encontrar boas histórias e Estuário está repleto de elas.
Como você encontra estas histórias?
Eu sempre gostei muito de poesia, sempre escrevi muita poesia e gosto muito de crônica.
Esta experiência do Estuário, nome sugerido por uma amiga, começou com um site de amigos e depois foi tomando outra proporção.
Logo, fui convidado por o JC Online para levar as crônicas para lá.
Em o dia em que um amigo perguntou que história é essa de escrever sobre um casal de passarinhos?"
percebi que estava no caminho certo.
A partir daí não parei, hoje em dia o Estuário ainda está ao ar, mas num blog.
O JC queria que eu escrevesse de graça, logo, preferi mudar para um site pessoal.
Já existe pós-gradua ção em jornalismo literário aqui no Brasil.
Você acha possível ensinar a escrever desta forma?
Claro, eu já fui professor da Católica e sempre incentivei os alunos para que eles inovassem na construção do texto.
Alguns futuros jornalistas me olhavam surpresos quando eu pedia mais ousadia na redação.
Mas o essencial neste processo é a leitura.
Era raro encontrar alunos com uma bagagem literária rica.
Número de frases: 101
Pedro Rocha, Salvador, abril de 2006.
Impressões forasteiras de um fortalezense. *
E quando se chega de mala e cuia ali na Praça da Sé, um pouco antes dos becos enviesados do Pelourinho, lá se vem de fitas na mão André, preto de andar apressado, morador da Baixa do Sapateiro, 25 anos, de olhar seguro do que precisa fazer, de fala rápida e desenrolada, sotaque baiano, voz rouca, barba rala, de fitas na mão.
Oferece ali para o turista que chega lembranças coloridas de salvador, de graça, e já vai amarrando no braço, enquanto desenrola o papo e dispensa outro concorrente que azucrina para levar os visitantes a algum albergue que lhe dará 10 ou 15 por centro de comissão por o serviço.
Dispensa na manha, dando confiança, " Aqui não é otário não, é nordestino, não é gringo."
Depois que a fita tá no braço, não custa nada comprar mais umas 10 por 1 conto.
E daí que não tem trocado, tira de dois ...
na verdade ele ia cobrar era 3, mas vai por os dois mesmo.
E vai meu primeiro dois conto da viagem, rápido e confuso.
Dois reais que interou naquela hora os 16, metade André do que vai apurar no fim daquele dia.
A Solange é uma moradora de rua desengonçada, dos dentes tortos, das pontas dos dedos mal formadas, poetisa, de olho rápido, aguçado, de temperamento volátil, um tanto agressiva.
Sincera demais para turistas que querem ser apenas viajantes.
E daqui a pouco o que era uma conversa despretenciosa, vira meio que uma visita guiada por o Pelorinho, até o nosso albergue.
Ali, ela brincava, acompanhava Olodum, as batucadas, antes daqui virar um centro turístico cultural, limpo, bem guardado, recheado de galerias, restaurantes, ateliês, albergues, pousadas, gringas, gringos, baianas na função de posarem para fotos.
Tudo muito bonito.
No meio da conversa se levanta, pega dois canudos no lixo, os trança e de eles faz e me entrega um laço vermelho.
Solange tem aids, fala minha namorada chorosa depois, confirmando a sensibilidade da poetisa de olhar entre-linhas.
Quando lhe vier na cabeça de entrar num beco escuro, de bares fim de carreira, só pra ver qual é, e conhecer algo que não seja um postal, se ponha no seu lugar de classe média, turista, opressor e legitimador do que vem atrás do consumo de massa, do modelo de vida globalizado e do turismo.
Talvez você evite perder 30 reais e os documentos para um cara que depois de balançar o pau no fim de uma mijada, coloca a mão dentro da camiseta e leva sua carteira.
Depois do BO, a postura é de se dar uma folga frente conflitos sociais, comer uma ótima moqueca de marisco para três pessoas por 35 reais, num daqueles restaurantes transados do por o.
Claro que o mais barato.
Outra opção para sua viagem pode ser um tira-gosto de piabas fritas, Pititingas, de pé na areia, ante o mar, na praia de Ponta de Areia, acompanhado de pimentinhas e farofa branca.
5 reais, fora o ferry boat para chegar na ilha de Itaparica e a topic até a praia.
Quem sabe o grande shopping open mall Aeroclube Plaza, ou uma tarde em Itapuã, um Acarajé da Dinha ...
* foi foda
Número de frases: 25
www.grupotrema.blogspot.com É.
Coisas acontecem.
Estava eu, um dia desses, por acaso, na página de recados de um amigo no Orkut, quando me deparei com uma singela imagem da violoncelista carioca Fernanda Monteiro e do músico e produtor baiano Luisão Pereira, feita por a fotógrafa Mbeni Waré.
Fernanda, em primeiro plano, abraçada ao seu violoncelo.
Luisão, um pouco atrás, acompanhado de uma guitarra.
Em o fundo, uma parede laranja, com uma luz maravilhosa, e ambos com um semblante sereno, típico de quem ajudou a lapidar o mundo, doando o que se tem de melhor.
A imagem era um link para a página no myspace do Dois em Um -- projeto belíssimo desenvolvido em casa por a dupla, que costumo definir como melancolia passeando do céu, suspensa por delicados balões de gás.
Fernanda surpreendeu a todo mundo, inclusive a si mesma, quando assumiu os vocais e descobriu que, além de dar vida ao cello, podia tocar o coração das pessoas com sua voz macia, doce, suave, mas de muita personalidade, e seu jeito tímido e meigo de cantar, que já lhe renderam comparações à musa da Bossa Nova, Nara Leão.
Já Luisão, que também participa com voz, se encarregou dos arranjos e da execução de todos os instrumentos, incluindo guitarras, baixo, violão teclados e programações.
O projeto já conta com cinco músicas, duas de elas feitas unicamente por Luisão e outras três em parceria com o compositor e músico Mateus Borba.
As canções evocam influências diversas, que vão de Radiohead a João Gilberto, passando por Andrew bird, Stereolab, Massive Attack, Kings of Convenience, Cocorosie, Belle and Sebastian, Cat Power, Cibelle e Joana Molina, mas sempre com a marca bem pessoal do duo.
Adoro todas elas, com destaque para «Eu sempre avisei» -- uma mistura de Roberto Carlos com Portishead que me faz perder o ar;
e para " E se chover?" -- lançada recentemente e cujo arranjo, com direito a metais, xilofone e fanfarra, sem falar da melodia, coloca o Dois e Um no seu momento máximo até agora.
Considero a minha melhor descoberta de 2007.
E sou grata a eles por isso.
Número de frases: 15
O pernambucano talvez seja o povo com mais orgulho de ser.
Afinal, tudo aqui é o melhor, o maior, ou o mais antigo:
o maior shopping da América Latina, o mais antigo jornal em língua portuguesa em circulação, a maior avenida em linha reta do Brasil, o verdadeiro local do descobrimento, e por aí vai.
«Eu vi o mundo ...
ele começava no Recife», diz humilde a obra de Cícero Dias, cravada no Marco Zero da cidade.
Em as artes gráficas, não poderia ser diferente:
em matéria publicada na revista Continente Multicultural, o jornal satírico O Carcundão (1831) foi indicado como o primeiro tablóide brasileiro a circular com uma ilustração de humor.
«Um burro corcunda derrubando a coices uma coluna grega», descreveu o historiador Alfredo de Carvalho.
O Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco, cuja extensa programação terminou no domingo passado, com certeza não é o maior ou o mais antigo festival de quadrinhos do Brasil.
Porém, ao demonstrar vitalidade em revelar e dar suporte a uma cena de artistas cada vez mais organizada e interessante, com certeza figura entre os melhores eventos de sua categoria.
De acordo com os organizadores, ao longo de três semanas de exposição -- de 16 de setembro a 07 de outubro -- aproximadamente sete mil visitantes movimentaram as instalações da Torre Malakoff, no Recife Antigo.
De estes, mais de 700 levaram para casa uma caricatura feita na hora por os artistas da Associação dos Cartunistas Pernambucanos, entidade realizadora do FIHQ, ao lado da ONG Auçuba.
Assim como revelou a cobertura do o FIQ de Belo Horizonte, o FIHQ conta com respaldo de uma conjugação de instituições públicas e privadas.
O patrocínio é da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, com apoio da prefeitura do Recife e Oi Kabum!
Escola de Arte e Tecnologia.
Tanta força convergiu para um evento bonito de se ver:
bem idealizado, organizado e localizado.
«Nossa experiência em Recife não podia ter sido melhor.
A cidade é linda, o evento está ótimo e as pessoas são realmente únicas.
É muito bom ver um evento feito com carinho e com ótimo apoio dos órgãos oficiais, leis de incentivo, com uma infra-estrutura muito bacana, além de uma super cobertura por parte da mídia local», escreveram em seu blog Fábio Moon e Gabriel Bá, os talentosos irmãos desenhistas convidados por o FIHQ 2007.
Outra visitante, Teresa Souza, que também esteve na abertura do FIHQ,
confirma a boa impressão da dupla.
Em a ocasião, foram divulgados os premiados da mostra competitiva, escolhidos entre 194 trabalhos pré-selecionados, de um universo recorde de 719 inscritos de 28 países diferentes -- boa parte do oriente médio e leste europeu -- distribuídos em cinco categorias:
cartum, charge, caricatura, história em quadrinhos e ilustração editorial.
Entre o juri foi consenso que o nível estava altíssimo, o que dificultou bastante a escolha dos cinco vencedores.
Cada um ganhou R$ 6 mil, uma quantia R$ 2 mil acima da concedida por as edições anteriores.
Um pouco de história -- Desde a primeira edição, o FIHQ ficou conhecido por trazer para o Recife astros mundiais como Jerry Robinson, Will Eisner e Keno Don Rosa, e importantes artistas gráficos brasileiros, como Gualberto Costa, JAL, Marcelo Lélis, Eloar Guazelli, Fábio Zimbres, e los quatro amigos Angeli, Laerte, Glauco e Adão.
Nomes de peso, cuja presença foi fundamental para estabelecer a cidade no mapa das artes gráficas e atrair público à Torre Malakoff.
Tudo começou por iniciativa do artista gráfico Laílson Cavalcanti junto ao governo de Pernambuco.
Laílson, que desde os anos 70 viaja o mundo participando de festivais de quadrinhos e humor gráfico, a partir de 1983 passou a organizar eventos do gênero em Recife.
Em 1999, nascia o FIHQ.
«A idéia era colocar a cidade neste circuito, alimentando uma visão empresarial voltada a um mercado editorial internacional», explica o artista.
Laílson permaneceu na organização do FIHQ até 2005, quando passou a bola definitivamente para a Acape.
Desde então, por desentendimentos internos, seu nome desapareceu do evento, e não somente de ele.
Coincidentemente ou não, um pouco antes foi demitido do jornal onde trabalhou por mais de um quarto de século, o Diario de Pernambuco.
Ensina o dito popular:
«é preciso matar o pai para de ele se servir».
«Acho tudo isso muito deselegante.
Estão querendo negar a origem do festival.
Um determinado número de pessoas passou a controlar diferentes esferas de poder, e onde poderia haver respeito, questões pessoais valeram mais», avalia o artista.
Hoje, além de se dedicar a adaptações da literatura brasileira para os quadrinhos, Lailson publica charges em jornais de Londres e Berlim, através de uma super-representa ção internacional mantida por o norte-americano Daryl Cagle.
Mudança de rumo -- Sob a batuta coletiva da Acape, em 2007 o FIHQ mantém outrasprioridades.
As palestras e oficinas, por exemplo, focaram em temas como experimentação em quadrinhos, quadrinhos como instrumento didático nas escolas e ilustração e direitos autorais.
«Existe uma idéia de indústria de quadrinhos a partir de duas grandes referências no mundo:
a norte-americano e ou japonesa.
Fora desses lugares, esse modelo de indústria com a qual estamos acostumados a pensar nunca funcionou.
Já a produção independente existe de fato, tem respaldo, mas tem um gargalo na distribuição», avalia o ilustrador João Lin, presidente da Acape, e um dos curadores do FIHQ.
De aí se entende a presença de artistas menos conhecidos do grande público, mas com potencial de interagir entre iguais, trocar experiências na busca da necessária articulação, e conseqüente fortalecimento do mercado independente.
Além de Moon e Bá, o FIHQ 2007 convidou o caricaturista Baptistão, o ilustrador Nelson Cruz, o chargista Jota A, o cartunista Márcio Leite, o antiartista Shiko, o caricaturista boliviano Alejandro Archondo (ou somente ARXONDO) e a peruana Avril Filomeno, ambos integrantes do coletivo de quadrinhos sediado em La Paz, Viñetas com Altura.
O homenageado deste ano foi o veterano RAL.
Após intensa atividade nos anos 70 e 80, quando colaborou com O Pasquim e quase todas as publicações pernambucanas, RAL amargou alguns anos «no banco de reserva», como ele mesmo definiu durante seu discurso de agradecimento.
Sua criação mais conhecida, o Boi Misterioso, se tornou mascote e troféu do FIHQ 2007.
RAL conta que a idéia foi fazer uma brincadeira com o auto do bumba-meu-boi.
«Como a gente estava na ditadura, coloquei o Capitão como a autoridade, e o Boi como o povão.
O boi original é bem colorido, mas lá embaixo está uma pessoa pobre, oculta.
Aí eu fiz o boi com roupa toda remendada, um vagabundo que desobedece às ordens», explica o artista, a quem tive o prazer de realizar uma entrevista.
Todos os convidados ganharam exposições individuais, com exceção de Shiko, cujo instigante trabalho já demonstrado em fanzines, grafites, telas e no recente livro Blue Note, estranhamente não recebeu o destaque que merece.
E, já que estamos falando do que poderia ser melhor, além da ausência de uma exposição para Shiko vale sinalizar alguns probleminhas, que não comprometem o saldo positivo do evento como um todo, mas que precisam ser registrados:
1) os trabalhos da mostra competitiva foram impressos em adesivo e colados sobre um suporte de plástico cujo relevo listrado alterou o aspecto original dos desenhos (ver foto ao lado);
2) o horário de visitação (de terça a domingo, das 15h às 20h) não foi cumprido corretamente, já que no segundo sábado do evento, às 19h45 não podia entrar mais ninguém na Torre Malakoff;
3) nos últimos dias da exposição, o espaço dedicado ao Coletivo Viñetas Com Altura, no 4º andar, e ao chargista piauiense Jota A (2º andar) estavam com problemas de iluminação, ou seja, durante a noite não era preciso muita boa vontade para conferir seus trabalhos;
e 4) algumas HQs foram impressas com tamanho tão reduzido que ninguém conseguiu ler os balões.
Experimentando formatos -- Outra nova prioridade do FIHQ é o incentivo a experimentos de linguagem através de publicações independentes.
Para isso, criaram o Circuito Experimental, organizado por a Livrinho de Papel Finíssimo Editora, um coletivo de artistas que adotou como modelo as editoras underground norte-americano Rip Off Press e Zap Comics, e assumiu o compromisso de editar títulos que custem, no máximo, R$ 5.
De o início do festival, até duas semanas depois do encerramento das exposições, o circuito lançou novos números da coleção Olho de Bolso, promoveu duas oficinas, o Em a Rua!,
em que artistas espalharam suas HQs cidade afora, o Cartum de Repente, em que, aos moldes dos repentistas, o público improvisou temas instantâneos com cartunistas, o Traços em Projeção, em que os 719 trabalhos inscritos na mostra competitiva foram exibidos em telão (o que acabou com o problema de falta de espaço).
Por fim, o circuito realizou neste último fim de semana a primeira edição recifense do 24 Hour Comic Day (24 HCD), desafio internacional de criação de quadrinhos criado por Scott McCloud, o circuito encerrou sua programação.
O evento, cujo objetivo é criar uma HQ de 24 páginas em 24 horas, se realizou no estúdio da Oi Kabum!,
instituição parceira que recebeu todas as oficinas e palestras do FIHQ, para se encerrar às 9h do domingo.
Os três vencedores em breve terão seu trabalho publicado por a Livrinho.
Número de frases: 70
Quem quiser saber como foi o evento, é só clicar aqui.
Sempre considerei a dicotomia entre velha e nova mídia falha, assim como a distinção entre on e off line.
Um meio de comunicação antigo pode ser revisitado, reinventado até.
Por outro lado, uma nova tendência de comunicação pode não vingar, ser abandonada sem que aja uma ampla utilização de ela.
Ademais, hoje os meios apontam para uma simbiose entre eles.
Cada vez mais a convergência se mostra verdadeira.
E a velha mídia, tão massacrada sobre sua pouca aptidão aos novos tempos, mostra-se viva.
Sempre acreditei numa premissa simples:
o que conta é a reputação.
E, se uma empresa goza de prestígio em outras áreas de comunicação, ele poderia transferir seu quinhão de credibilidade também para projetos on-line.
Ainda mais com a ampliação do público com um todo que usa a grande rede, em especial dos mais velhos.
Eles procurarão informações nos veículos que já confiam.
Ou seja, os espaços virtuais de empresas tradicionais podem sair ganhando.
Além disso, as empresas de comunicação, por mais que enfrentem problemas operacionais e financeiros, são projetos estruturados há mais tempo.
Podem estar em crise, mas conseguem lidar com eles com mais facilidade que um novo projeto de comunicação on-line.
Esses podem ser até boas idéias, mas são lançados sem business plan consistentes, dependendo de capital de risco.
Para piorar, o meio on-line ainda não apresenta muitos projetos lucrativos, não há modelos consolidados a serem seguidos.
Há os links patrocinados, por exemplo, mas não existem muitos modelos lucrativos que servem como referência.
Um passo-a-passo de como se obter resultados satisfatórios on-line.
Os sites de relacionamento, por exemplo, são campeões de audiência mas não de lucro.
Orkut e Facebook ainda procuram uma forma de capitalizar em cima de suas ferramentas.
O MySpace lucra com uma parceria de links patrocinados com o Google, mas que não é muito interessante para a maior empresa da internet.
A grande rede, em suma, ainda é um laboratório de idéias.
De toda forma, é sempre complicado traçar prognósticos de longo prazo nos tempos atuais, já que hoje mirar o longínquo é olhar para perto.
Número de frases: 24
O celular, antes apontado como algo que seria destinado apenas ao público mais abastado, agora é visto como uma ferramenta de inclusão digital.
De o Cafezinho (Ou Caipirinha) à Palavra
Essa conversa poderia ser intitulada Gota d' água, Medida por Medida ou Como Anuviar Percepções, ou ainda Ecos de Uma Prática Perversa, e muitos outros mais.
Trata-se de coisa simples, a que todo cidadão anão e anã-está acostumado, porém vamos brincar de repetir este óbvio luxo das perdas & danos cotidiáridos.
Em a madrugada de uma terça-feira, há algumas semanas, fez-se um remanejamento nos canais Net, avisando sobre isso e aquilo, que os assinantes deveriam desligar (para tal trabalho) o botão POWER do decodificador, sob pena de haver possível problema na captação de algum canal.
Pois bem:
nunca mais pude ver um dos meus canais favoritos -- o 25, a televisão alemã DW-Deutsche Welle / Voz da Alemanha (não pego nada no canal 86, para onde foi «enviada» a referida emissora alemã.
Foi assim também com o canal 28. Óbviamente, nenhum desconto financeiro nos foi dado aqui em casa.
É certo que não telefonamos, não para ficar ouvindo música de elevador, até sermos atendidos com um «disque o nº 2 para isso, o nº 3 para aquilo ...».
É óbvio que quero saber em que botões clicar para, talvez, reaver o canal ...
hehe.
* * * * * * * Outro Assunto, Embora, Em o Fundo, Seja da Mesma Estirpe do Anterior:
Desde o ano passado, não se fala absolutamente nada acerca do mais forte dos encontros de futebol entre clubes em todo o mundo -- Barcelona x Real Madrid.
Mas onde isso?
Explico:
a mui digna e graciosa-toda-prosa ESPN transmite, de setembro a abril / maio, o Campeonato Espanhol de Futebol, mas quando chega nas duas únicas partidas que realmente interessam, eis que a graciosa simplesmente deixou de transmiti-las para os assinantes no Brasil (pelo menos no meu barracão).
Ontem, um dia depois, soube que o jogo de sábado terminou em 3x3.
Antigamente, talvez num esgar ou resquício de consideração, sorteavam até mesmo duas passagens entre os / as assinantes, para irem lá ver o jogo.
ZÉ FINI, e nem aí, Seo Souza.
Com todas as agravantes, sou quase todo ouvidos, mas até hoje não sei a causa de tamanho acinte, desleixo, êmese, hemoptise.
Número de frases: 20
Quem comprou o direito que, automaticamente, penso meu?
«Os zabumbeiros Cariris levam aos palcos a essência da música nordestina, em especial do Ceará."
O grupo cearense desenvolve seu trabalho musical mergulhado no imaginário nordestino, ainda preservado nos inúmeros folguedos da cultura popular presentes na região sul do Estado.
Formado em outubro de 2002, na cidade de Juazeiro do Norte, Os Zabumbeiros Cariris reúnem músicos de gerações e influências distintas para levar aos palcos a essência das tradições nordestinas, em especial do Ceará.
O repertório do grupo é autoral, formado por temas instrumentais e canções cujas letras nos remetem a fatos históricos do Cariri, como, por exemplo, a saga do Caldeirão do Beato Zé Lourenço.
Os Zabumbeiros, que já fizeram outros shows na capital, apresentam uma música simples e vigorosa, baseada na sonoridade de instrumentos típicos do sertão nordestino, como zabumba, pífano e rabeca.
Aos poucos, o grupo vem transcendendo as fronteiras de Juazeiro do Norte e das outras cidades da região do Estado.
Em sua trajetória, os Zabumbeiros Cariris mostram-se conscientes da importância da música que fazem:
nordestina, mestiça, brasileira, universal.
O grupo cearense é formado por Amélia Coelho, Evânio Soares, Michel Leocaldino, Flauberto Gomes, Haarllem Resende e Luciano Brayner.
Juntos, eles cantam, batucam, «rabecam»,» pifam " e brincam por horas sem parar.
Feiras e romarias
O primeiro CD dos Zabumbeiros Cariris, que leva o nome do grupo, foi lançado em julho de 2007, no " Sesc do Crato.
«É um disco com a cara do Cariri, com as músicas das feiras, das romarias, com ritmos bem característicos de nossa região», comenta Amélia Coelho, uma das letristas do grupo.
«Em este CD, a gente também contou com a parceria de outros compositores do Cariri, como Geraldo Júnior, Luciano Brayner, Beto lemos e o poeta Ermano Morais.
São todos conhecidos por aqui e todos muito bons», completa.
O disco reúne 15 músicas, começando com uma saudação de boa noite muita usada no reisado.
E o encerramento do CD acontece com «Amado Rei», outra música bem tradicional do Cariri, do reisado de Congo, muito cantada no dia de Reis.
«Por as músicas, é muito fácil identificar que o grupo é do Cariri.
Até a gravação do disco foi feita na região, no estúdio Idbertson, do Crato», diz Amélia.
Em a gravação do CD, segundo ela, os Zabumbeiros ainda contaram com o apoio da " Universidade Regional do Cariri.
«Agora, estamos na estrada, procurando divulgar nosso trabalho», avisa.
Número de frases: 22
mais informações no site oficial da banda.
Fui uma das muitas pessoas que se divertiram lendo a entrevista do Lima Duarte na Folha de SP no fim de semana passado.
Parece um prazer meio sarcástico para quem acha a qualidade da programação de TV ruim ver um figurão que faz parte de ela abrir o verbo e detonar tudo à sua volta.
Foi uma fala muitas vezes má educada, rabugenta, e nos sentimos um pouco vingados -- apesar de, como ele, sermos meio cúmplices daquela gororoba insossa de novela + telejornal + novela no horário nobre há tantos anos.
Fico imaginando a reação nos corredores do Projac nos dias seguintes à publicação (deste ou de qualquer raro desabafo que se vê por parte de quem faz parte da «família» global).
Imagino alguns olhando para o coroa com uma cara de espanto (" Está completamente lelé», devem pensar) e outros o cumprimentando discretamente por falar tudo que eles sempre acharam, mas nunca tiveram cacife para revelar ...
Mas esse texto não é para discorrer sobre a repercussão da língua ferina de Lima Duarte.
Em a verdade, só comecei falando nisso porque foi lendo o jornal que parei para pensar sobre os destinos de um dos colegas para quem Lima apontou sua metralhadora giratória:
o Tony Ramos.
Até que o velho ator nem pegou tão pesado com o galã das noveleiras de meia-idade.
Apenas disse que jamais faria um sotaque tão bizarro quanto o do grego Nikos (interpretado por Tony) em Belíssima.
Político (como foi pouquíssimas vezes na entrevista), Lima ainda mandou um «adoro o Tony».
Pois é, difícil odiar o Tony.
Mesmo no Orkut, território onde a fórmula «Odeio fulano» se espalha fácil como as filas de formiga na minha casa, só há duas comunidades para mostrar repúdio ao ator -- ambas com pouquíssimos adeptos e criadas por o mesmo sujeito.
Ok, ok, não se pode dizer o mesmo em relação à sua famosa exuberância de pêlos, mas aí é outra história *.
Mesmo para quem não agüenta a quantidade de papéis mela-cueca que ele interpreta, é bem complicado afirmar que ele é ruim, trabalha mal.
Em a verdade não sou a pessoa mais indicada para analisar a carreira do Tony Ramos.
Tive minhas fases noveleiras, mas não tenho condições de fazer um balanço da atuação de ele na TV e no cinema -- até porque antes de eu nascer ele já tinha um senhor currículo.
Então o que faço aqui é uma reflexãozinha apenas com base no que lembro.
E desde que me entendo por gente Tony Ramos é bonzinho.
Em a vida pessoal, é O exemplo de cara família (parabéns para ele).
Em o trabalho, é tido como uma pessoa íntegra e bem educada (palavras da Wikipédia, baseadas não sei em quê.
Mas acredito, e pelo visto todo mundo que leu o verbete também.
Alguém teria coragem de contestar essa frase?).
No decorrer da carreira, ele teve um punhado de bons papéis que destoam da maioria calcada na fórmula galã-do-bem.
Um exemplo?
O amigo do protagonista de Pequeno Dicionário Amoroso (um tipo machista.
Ele estava muito bem posando de canalhão).
Também lembro de rir muito com as participações de ele na Comédia da Vida Privada.
Não vi Cabocla, mas tenho boas lembranças da gargalhada da minha mãe vendo as cenas de ele como um coronel caipira.
Tony manda bem em comédia, me parece.
E olha que nem vi Se eu fosse você, o recente filminho-pipoca em que dizem que ele é a melhor coisa (fazendo rir, claro).
Mas é até sacanagem limitar os bons momentos de ele a esse gênero.
Teve o tal do Clementino, o atormentado de Torre de Babel que matou a mulher traíra a «pazadas».
Parecia a grande oportunidade de ver o ator fazer papel denso na TV.
Mas aí já era.
Parece que o público já estava acostumado com Tony-bonzinho e o Silvio de Abreu teve que repensar os destinos -- não só do personagem (que, claro, ficou bonzinho), mas de toda a novela.
Como disse antes, não tenho condições de falar da temporada de novelas pré-Torre de Babel (porque não me lembro mesmo, mas se alguém lembrar, o espaço para comentários aí abaixo é livre).
Mas desde então é assim.
Não fossem duas ou três chances de ver personagens engraçados, é sempre a mesma xaropada ora boa-gente, ora corno-manso.
Em este último quesito, ninguém fez mais «mal» a Tony que Manoel Carlos.
Lembram do Miguel, o dono da livraria de Laços de Família?
E o Teo, o saxofonista de Mulheres apaixonadas (que o Casseta e Planeta sacaneava com pêlos saindo até por o saxofone)?
Pô, Tony merece algo mais do que interpretar personagem cuja única serventia é ser corneado por mulheres taradas por o José Mayer (cruzes, tem gosto pra tudo ...).
Ufa!
Acabou o desabafo.
Se o Lima Duarte pode, eu também posso!
Mas tudo isso serve para eu deixar aqui o meu apelo:
Tony, quero te ver mau!
Ou pelo menos ambíguo!
Não precisa ser um assassino de mulheres, um personagem menos maniqueísta já faria diferença.
Imagino que um ator com essa experiência tenha alguma liberdade para escolher seus personagens na TV ...
Alguém tão bonzinho na vida real bem que podia dar uma variada na ficção!
Pronto, falei.
Não tenho muitas esperanças de ser atendida, mas tudo bem.
Sou paciente e prometo aturar o Nikos chamando a Julia de Zulia até ver Tony num papel melhor.
Mas a minha satisfação vai ser mesmo se daqui a alguns anos ele sofrer uma síndrome de Lima Duarte e sair falando desembestado sobre tudo que não gosta.
Tony é bonzinho sim, mas convenhamos, também é filho de deus!
* Para quem ficou curioso e com preguiça de ir procurar, listo pelo menos três nomes de comunidades:
Seria Tony Ramos um urso?,
Meu cão parece o Tony Ramos e Tony Ramos é um lobisomem.
Número de frases: 61
Maldade, maldade ...
Violência à mulher.
A IX Semana de Mobilização Científica (SEMOC) realizado na Universidade Católica de Salvador (UCSAL) expressou em sua trilogia Segurança, Violência e Drogas os problemas que o Brasil vem enfrentando.
Um dos temas que mais chamou atenção foi à cerca da violência contra a mulher.
«A mudança da postura feminina é necessária para combater a violência e a submissão.
As mulheres têm que reverter o quadro de vulneráveis e dependentes dos seus parceiros», relata a especialista em Saúde Pública Virginia Falcão de Seixas.
As professoras da UCSAL, Isabel Maria Oliveira, pesquisadora de Direitos humanos e Virginia Falcão de Seixas, especializada em Saúde Pública participaram de uma mesa redonda dentro do evento SEMOC com o tema:
«Violência à mulher:
uma questão de gênero?»,
falaram sobre as conseqüências e leis para o combate.
«A principal lei, não é para ser escrita e sim vivenciada», alerta a professora Isabel Maria.
A violência também é um problema no setor da saúde:
«O setor de saúde viu sempre a violência como algo da polícia e justiça.
Não conseguiram fazer essa ponte saúde / violência», afirma a professora Virginia Falcão.
Priscila Silva
Priscila Silva -- A Sociedade é machista.
Como as mulheres podem mudar isto?
Virginia Falcão:
Uma das ferramentas para as mulheres mudarem, é começar por a mudança interna.
Discordar dessa idéia da sociedade ser androcêntrica (poder masculino) e lutar para que a sociedade seja igualitária, a segunda coisa é a questão da educação, como nós vamos transformar essa sociedade, tudo isso começa por a família.
Um exemplo bem claro é quando a mãe lava as peças íntimas do filho e manda a filha lavar a de ela.
P.S -- Porque a mulher possui uma imagem de vulnerável?
V.F:
Isso é algo cultural, na verdade, isso é um cenário mundial.
O movimento feminista inaugurou-se na Inglaterra, França e outros paises europeus então vamos ter que pensar numa dimensão maior do que a do Brasil, o combate à violência tem que haver uma construção histórica.
P.S -- A violência também é uma questão de saúde?
V.F:
O setor de saúde viu sempre a violência como algo da polícia e justiça.
Não conseguiram fazer essa ponte saúde / violência.
Atualmente, a violência entra na saúde como um problema ortopédico, queimadura e entre outras lesões que com certeza podem ter sido resultantes de uma agressão.
É necessário perguntar, investigar e encarar que a violência acaba indo para o setor de saúde.
A saúde é o único setor que penetra no intimo da pessoa conseqüentemente é a única que pode solucionar isso.
Priscila Silva -- Além da Lei Maria da Penha, é necessário à criação de outras leis para a proteção da mulher?
Isabel Maria:
A principal lei, não é para ser escrita e sim vivenciada.
A mulher tem que se reconhecer como pessoa com direitos e subjetivos a vida.
Isso não precisa estar na lei, embora já esteve, desde a declaração do homem no ano de 1948 até hoje com a Lei Maria da Penha (que combate à violência doméstica a mulher).
Eu acho que neste momento já temos um aparato normativo legislativo avançado, com esse conjunto legislativo as mulheres vão gradativamente assumir o papel, não é mais o exercício de legislar e sim de implantar.
P.S -- A mulher torna-se muitas vezes submissa ao seu parceiro, por o fato de depender financeiramente de ele.
O que seria necessário para a mulher ser independente?
I.M:
Eu entendo que a mulher não é submissa ao parceiro intimo porque ele é o pai dos seus filhos, a submissão da mulher quando ocorre ela advém de algo muito anterior à parceria e a necessidade de sobrevivência.
Essa submissão percorre entendo eu, de uma pouca auto-estima, pouca compreensão do seu papel social de mulher e isto vai gerando uma postura de submissão ao homem.
A dependência econômica se configura apenas como um fragmento de algo mais amplo, contextual, ou seja, passa por o fato de ela não ter concluído o seu curso, por ela ter aceitado um sub-emprego, passa por o fato de ter uma gravidez precoce, muitas vezes entra não estou dizendo na totalidade, mas entra no lugar da necessidade de ser querida, desejada e vista, a condição de ser mãe coloca a mulher numa questão de respeitabilidade na sociedade.
A mulher não precisa de artifícios para se embelezar para o homem, se cuidar para o homem, engravidar para ser vista, para entrar na família.
Ela precisa trabalhar sua auto-estima, se não tiver um eixo claro do que ela é, aí sim corre o risco de ter parceiro, filhos e entre outros fatores para a submeter-se a eles.
Número de frases: 46
O Buzzine!" \>
buzzine@gmail.com \> Buzzine!
é um fanzine para alunos do curso de Design do UniRitter, em Porto Alegre.
Aproveitando a passagem do curso introdutório do projeto Tipocracia por Porto Alegre, resolvemos (eu e o amigo Pedro Trg) entrevistar o Henrique Nardi.
Em a entrevista, falamos sobre tipografia no Brasil, sobre o projeto e outras coisas:
O que te guiou para se interessar por tipografia?
Eu comecei a me interessar por tipografia na faculdade lá por 1999.
Meu pai tem um gráfica então eu sempre gostei de design mesmo antes de saber o que era.
Em a faculdade (Anhembi Morumbi) comecei a ter contato com trabalhos de tipografia, o que mais me chamou a atenção foi o Elesbão e Haroldinho * e seu design de bolso, e desde então sempre fazia meu trabalhos de fim de semestre sobre o assunto.
Meu TCC:
«Gráfico amador e a experimentação de Aloísio Magalhães» trata bastante de tipografia.
Tu achas que, hoje, designers formados, que já trabalham tem uma boa base de tipografia?
Acho que sim, existe essa base, a questão é:
você fazer o uso sem erros, mas quanto mais conhecimento se tem em tipografia, pode se potencializar o trabalho.
A maioria dos escritórios supera as expectativas.
As vezes em portifólios de estudantes ou recem formados apresentam algum problema, algum mal uso.
O que é o Tipocracia e pra onde ele vai?
O tipocracia é um projeto que tem como objetivo estimular disseminar a tipografia no Brasil.
Começou em março de 2003 quando me juntei com meu amigo Márcio.
A idéia era fazer um intensivão tipográfico, 3 ou 4 dias de curso que reunice uma sério de informação sobre tipografia nós consideravamos relevantes e não aprendemos na nossa formação (Anhembi Morumbi e FAAP), era um complemento.
Eu já tinha uma parte de ele desenvolvida material em 2002 em razão de 2 workshops.
Aí surgiu a oportunidade de fazer uma oficina no NDesign de 2002 em Bauru, e escolhi o tema tipografia.
Depois em 2003 o Shima disse que queria montar um curso de tipografia e juntamos forças.
Para onde ele vai?
A minha idéia é fazer uso do Tipocracia para estimular esse conhecimento e fazer com que as pessoas gostem cada vez mais, principalmente estimular o desenho de letras, que é muito pequeno no Brasil.
Além de fugir do eixo Rio-SP, espalhar esse conhecimento para todo Brasil.
Qual a resposta que tu sente do Tipocracia?
A resposta é boa, no começo eu tinha mais dificuldade de tocar a proposta para frente em razão do projeto não ser conhecido, mas ao longo destes 3 anos o nome do projeto foi ficando conhecido.
Hoje em dia tem pessoas que vem fazer o curso porque é o Tipocracia e não necessariamente o que que tem no curso.
Cada região do país tem um perfil.
Por exemplo, no nordeste tem uma carência muito grande não só de tipografia, mas de informação complementar:
cores, design editorial.
Existe uma carência de uma formação mais específica.
Então o pessoal absorve bem a idéia, tem um interesse grande.
Já a galera e Brasília, Centro-Oeste, é mais consciente, tem mais acesso a informação, tem muita vontade, e são bastante exigentes, já pedem uma próxima edição.
Já tens outros cursos?
Já, mas eles nunca foram implantados.
A idéia é iniciar ou um curso seqüencial ou complementar ainda esse ano, já que fazem 2 anos que estou com esse curso introdutório.
Como está a tipografia no Brasil?
Porque o Brasil não tem uma cultura tipográfica?
O Brasil não tem uma cultura tipográfica em razão da forma como o país se estruturou.
Um lugar onde as pessoas vinham extrair madeira, metais preciosos e não existia um interesse de constituir uma sociedade.
E também por o fato de Portugal não ter uma tradição tipográfica nós herdamos essa «não tradição».
Em esse período em que Portugal estava preocupado com a navegação e a exploração dos mares, não havia um compartilhamento de informação, porque ela valia muito.
Até mesmo por isso a comunicação entre portugal e outros países não foi tão desenvolvida e Portugal não teve essa cultura de desenho de tipos como em outros países, consequentemente isso não veio para nós.
Como tu vê o panorama da tipografia no mundo?
Com o advento da informática, o fácil acesso à informação, como a produção tipográfica se molda pra isso?
[Henrique atende o telefone] Alou ...
oi. ahn. pronto, tá jóia, beijo, tchau. [
telefone desliga] Desculpa Moisés, repete a pergunta, por favor.
... Tem muita coisa relacionada a tecnologia, tem muita coisa nova em relação a tipografia digital, temos mais ou menos uns 15 anos, comparado a mais de 500 anos de história da tipografia.
E tem muitas coisas em relação a tecnologia vindo aí que certamente vão mudar a nossa maneira de perceber tipografia.
Por exemplo, do ponto de vista de aplicação, estão sendo criados cada vez mais dispositivos, displays eletrônicos que pedem tipografia digital, tipografia pixel, displays cada vez mais pequenos:
relógios, celulares e tal.
Essa área tem muito potencial para ser explorado ainda.
Em relação a tecnologia em si, temos agora novos formatos de fonte, o Open Type que dá um cuidade maior com tipografia, pode se trabalhar com mais caracteres, aplicar programação específicas para tipo, ou seja é um arquivo de fonte inteligente, será possível fazer uma coisa menos mecânica.
Por exemplo, uma fonte com 5 caracteres para a mesma letra, e eles vão se alterando para fazer uma composição mais próxima da escrita humana e menos da repetição do computador.
A tipografia está ficando cada fez mais dinâmica.
Existe algum tipo de saudosismo das oficinas tipográficas tradicionais e os tipos móveis?
Acho que até existe um saudosismo por parte de quem viveu os tipos móveis e a composição, mas não é essa a questão, e sim qual a importância de continuar fazendo referência a isso.
O que é que tem ali que vale a pena uma vez que nós temos acesso ao digital que tem uma precisão muito maior e tal?
O que tem ali é que se perdeu uma parte no processo.
Existe um conhecimento tipográfico relacionado aos modelos de composição antigos que hoje em dia não existe mais.
Seja porque o computador assumiu essa função, seja porque as pessoas não tem mais a percepção daquilo, como a questão de fazer pequenas modificações nos diferentes corpos de letras quando faz tipos móveis de diferentes tamanhos, compensações de acordo com o tamanho.
E hoje em dia é tudo feito em cima da mesma matriz e inevitavelmente fazendo textos que tem manchas muito claras, ou então muito escuros.
É uma característica da uso de tipos móveis, que foi perdida, e foi colocada fora de questão e as pessoas perderam essa percepção.
O importante de extrair destas técnicas antigas é perceber o que elas tem de importante em relação a hoje em dia.
Qual o tipógrafo que mais marcou a história, na tua opinião.
Eu acredito que seja considerado o Claude Garamond, apesar de não ter nenhum de preferência.
Que livro sobre tipografia tu recomendarias pra quem está começando a estudar o assunto?
Olha, mesmo pra quem está começando, o livro que eu recomendo é o do Bringhust, Elementos do Estilo Tipográfico.
Não é um livro introdutório, mas no momento que a pessoa começa a se interessar ele dá um base muito legal e mostra o quanto sutíl e diversificada a tipografia pode ser, além de importante.
Qual o caractere que tu mais gosta?
É o «s», ele é difícil.
Quando relacionado ao desenho de letras é umas das mais dificeis por ser toda curva.
O «g» minúsculo chamado g de gato também.
Tu já desenhaste algum tipo?
Já desenhei tipos na faculdade, mas nunca levei a frente como fonte.
Número de frases: 78
Essa é uma das minhas metas para daqui para a frente.
As mudanças de comportamento causadas por a internet em São Paulo
De a criatividade à futilidade
Em pesquisa realizada por o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em março de 2007, o estado de São Paulo está em segundo lugar em número de usuários da internet, com 29,9 %, perdendo apenas para o Distrito Federal, com 41,1 % dos acessos à rede de computadores no Brasil.
O acesso à rede na maior cidade da América Latina, significa trabalhar e como conseguir trabalho.
Significa conhecer a futura mãe ou o futuro pai dos seus filhos.
Exprime a resposta concreta de idéias quando se cria um site ou um blog.
Para muitos é não sair ou sair menos de casa.
Pode ir desde encontrar um filme para assistir no cinema, até achar o endereço de um hospital em que um parente acaba de dar entrada e o telefone do famigerado lugar só dá ocupado.
Com o uso da web em São Paulo, podem ocorrer reduções de custos provocadas por mudanças de comportamento, porque hoje se envia menos cartas e mais e-mails.
Através de um programa de mensagens instantâneas, é possível um usuário da internet se comunicar com um outro que tenha o mesmo programa, em tempo real, por um preço menor em relação à telefonia fixa.
Muda-se o tipo das cantadas nas noites paulistanas;
ao invés de se pedir o telefone, se pede o e-mail da paquera.
E não podemos deixar de falar na febre do Orkut, que conquistou internautas de diferentes idades, estilos e pensamentos.
Basta ir a bibliotecas, LAN houses, cibercafés e você verá o azul-claro do site de relacionamento brilhando nos monitores de Sampa.
Hoje, ter computador em casa é quase tão necessário quanto um microondas ou televisor, e mais:
quem conhece pouco de informática tem a chance reduzida no mercado de trabalho, sendo classificado quase como um analfabeto.
A internet deve ser um instrumento de desenvolvimento social.
Ela possibilita a partilha de bens como a memória, a percepção e a imaginação.
Em esta reportagem, abordaremos como a ciência define um netviciado e os problemas que a rede poder trazer para algumas pessoas, em entrevista com a psicóloga Dra.
Andréa Jotta Ribeiro Nolf.
Mostraremos como escolas paulistanas auxiliam na formação de jovens internautas e as conseqüências dos seus atos perante a lei no ambiente virtual.
Contaremos como foi o surgimento das LAN houses e a história de Vinícius Ortiz Pinelli, um ex-viciado em games que se tornou gerente da Monkey Paulista.
Escolas particulares de SP ensinam implicações jurídicas do uso da internet
Para tentar disciplinar a pesquisa de trabalhos e frear as agressões entre alunos em ambientes virtuais, escolas particulares de São Paulo decidiram incluir nas suas atividades o ensino de ética no uso da internet.
O exemplo mais recente é no tradicional colégio Bandeirantes (zona sul).
Em este ano, os professores passaram por uma capacitação específica sobre o tema, e os alunos recebem uma cartilha que mostra, entre outras coisas, as implicações criminais que algumas ações na rede podem acarretar.
Uma das situações apontadas é o repasse de e-mail que espalhe um boato, ação que se encaixa no Código Penal como difamação pena de três meses a um ano.
Se o autor do crime for menor de idade, os pais serão responsabilizados.
Alunos já publicaram em sites e blogs fotos de professores em posições desconfortáveis e a coordenação de tecnologia do colégio Bandeirantes, decidiu fazer ações de prevenção.
A partir do ano que vem, os estudantes da 5ª série do ensino médio do Bandeirantes terão no currículo uma disciplina específica sobre ética na internet.
Muitos pais, alunos e professores não têm idéia do transtorno legal que pode causar uma simples comunidade no Orkut que ataque um colega de classe.
Outra escola que procurou auxílio jurídico foi o Humboldt, colégio bilíngüe na zona sul.
Um grupo de estudantes criou uma comunidade contra professores e alunos.
A escola Humboldt consultou um advogado e decidiu promover palestras sobre o assunto.
A internet potencializa as agressões verbais, porque o adolescente acha que está protegido, não precisa se identificar.
Em o colégio Augusto Laranja (zona sul), o foco é como pesquisar corretamente.
O trabalho começa já para as crianças da 2ª série, que estão na casa dos oito anos.
Elas ganham uma cartilha logo no começo do ano e trabalham com professores nos laboratórios.
Desde cedo, eles querem mostrar que pesquisar na internet não é só copiar e colar.
Tem de verificar a fonte e qual o autor.
E essa informação precisa ser apenas uma parte da pesquisa;
o texto final deve ser do aluno.
Em o Dante Alighieri (zona oeste), as discussões são amplas, vão desde a pesquisa para trabalhos até as ofensas de alunos por a rede.
Anorexia na casa de psicóloga
A ação da escola ajudou Ana (nome fictício), 16 anos, em sua recuperação.
Ela sofreu depressão por se achar gorda.
Em as férias, ficava o dia todo na internet, não saía de casa.
Era uma fuga da realidade.
Quando as aulas retornaram, ela não fazia as lições nem estudava;
só tinha ânimo para ficar no computador, o que fazia por dez horas ao dia.
Ana não queria nem mais se alimentar.
Por isso, teve um princípio de anorexia e chegou a ser internada, com fraqueza.
Sua mãe, que é psicóloga e tem 53 anos, conta que, como trabalha o dia todo, tentava monitorar por o telefone o tempo que a filha usava a internet, mas era difícil.
A internação fez com que a estudante passasse a ser tratada por um psicólogo.
Mas o que impulsionou sua recuperação foi uma palestra na sua escola, o Santa Maria (zona sul), cujo tema era «Perigos e Ameaças Online», segundo matéria publicada na Folha de S. Paulo.
Diversão made in Korea
Elas se espalham por a cidade como rastilho de pólvora;
são as LAN Houses.
Uma opção de entretenimento inicialmente introduzida na Coréia do Sul, em 1996.
Lá existem cerca de 22 mil lojas, nos Estados Unidos cerca de 15 mil e há uma multiplicação das casas de jogos em rede no Brasil.
As primeiras LAN ´ s surgiram aqui em 1998, quando o empresário brasileiro Sunami Chun voltou de uma viagem à Coréia do Sul e trouxe a idéia para São Paulo.
Fundou a Monkey, hoje a maior rede em território nacional.
Depois da Monkey, milhares de LAN houses ganharam o espaço de cibercafés e se espalham na terra tupiniquim.
É uma febre entre jovens de 13 a 27 anos, dos quais 90 % são do sexo masculino.
Existem 3,5 mil LAN houses no Brasil, das quais 600 estão em São Paulo.
LAN vem do inglês Local Area Network.
Em a versão hi-tech do velho fliperama, vários jogadores se divertem com as últimas novidades no ramo de jogos, todos conectados em rede num único ambiente virtual, disse Lino Pereira diretor-geral da Monkey.
O gerente ciberatleta, ex-viciado em games
Em a tarde de quinta-feira, 12 de julho de 2007, fui até a mega LAN House Monkey, que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana.
Localizada num lugar onde muitos sonham em morar na capital paulista, alameda Santos -- bairro de Cerqueira César.
Entrei por o lado direito da alameda n° 1217, e pedi autorização ao gerente Vinícius, para fazer entrevistas com alguns ciberviciados.
Entrevistei várias pessoas que ele me garantiu serem dependentes do mundo virtual, mas na hora H elas se mostravam muito equilibradas e me disseram que não passavam mais do que duas horas lá dentro.
Quando já estava quase indo embora, eis que surge Vinícius Ortiz Pinelli, 22 anos, ciberatleta e gerente da casa.
Ele me diz:
Por que você não me entrevista, pô?
E eu pergunto surpreso:
Mas você é viciado, realmente faz uso excessivo da tecnologia?
-- Me entrevista que eu te conto direito.
Liguei o microfone e ...
Quanto tempo você jogava por dia?
Quando tinha 16 anos, ficava jogando o dia inteiro, minha vida era só jogo e estar em frente ao computador.
Ficava em torno de 10 horas por dia, mas já fiquei, várias vezes, bem mais do que isso.
Me lembro de jogar 27 horas, com intervalos de 30 minutos para descansar e voltar a ativa.
Jogava profissionalmente o game «Counter Strike».
O resto como ficava, e quais as conseqüências que esse hábito teve na sua vida?
Não tinha resto, trocava tudo para jogar desde a balada de final de semana com amigos, namoro, até tomar banho e comer.
Só comia porcaria, quando comia.
Jogava em casa, ia para a LAN house, acabava o dinheiro e continuava jogando em casa.
Cheguei a pedir grana emprestada, fiquei devendo na LAN só para jogar.
«Sou doido por jogos e vídeo-game desde criança, nunca tive outro vício "
Você se considera um ex-viciado?
Sim, me considero um cara que foi e atualmente não tenho mais pique e nem quero mais fazer isso.
Você buscou algum tratamento psicológico para amenizar a dependência do jogo?
Não, o meu uso foi decaindo com a idade e força de vontade.
É bem parecido com o vício do cigarro.
Se a pessoa tiver o fumo como mais importante que vida de ela, não vai parar de fumar.
O mesmo acontece com os jogos e o jogador.
A pessoa deve ter a capacidade de sair do vício.
«Os jogos não viciam, tudo que é demais faz mau, como ir à igreja todos os dias e comer em excesso "
A compulsão por ciberjogos foi um dos motivos que te credenciaram a trabalhar numa LAN house?
Estou há cinco anos neste ramo e um dos requisitos básicos para ser gerente da Monkey é, sem dúvida, ser um profundo conhecedor de jogos e também faço faculdade de designer em informática.
Está tudo relacionado.
A principal fonte de renda de uma LAN são os games, e não a internet, como muitos pensam que é.
Hoje você joga quanto tempo;
em média?
Agora, aos 22 anos, fico cerca de três horas por dia, mas conheço pessoas que continuam jogando muitas horas diariamente, preferem se enturmar com os games e pessoas online do que buscar amigos na vida real.
Como é o game «Counter Strike»?
É um jogo que um bando de terroristas confronta um grupo de policiais em diferentes situações e o fato de estar online com qualquer jogador do mundo em tempo real é um grande estímulo para a molecada.
Pacote viciado:
50h / R$ 125,00
1h / R$ 5,00
Mudanças negativas
Em o mundo, há entre 50 milhões e 100 milhões de dependentes da internet.
Isso corresponde entre 5 % e 10 % do total de internautas do planeta, segundo artigo da pesquisadora Diane Wieland publicado na revista «Perspectivas em Cuidados Psiquiátricos».
Em São Paulo, há serviços que cuidam de pacientes que deixaram a web tomar conta de suas vidas.
É o caso do NPPI (Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática), localizado na Clínica Psicológica da PUC -- SP.
O NPPI foi criado em 1995 a fim de auxiliar as pessoas com problemas psicológicos de grau ampliado como.
Medo de sair de casa, medo de dirigir, amar demais, pedofilia etc..
Os profissionais que atuam nesse grupo são psicólogos formados que buscam um aperfeiçoamento clínico, que vai da triagem com o internauta até o chamado atendimento presencial, (face a face).
Os especialistas da mente cumprem seus serviços dentro da clínica da PUC.
Em 2006, foi implantado no NPPI o atendimento para pessoas que têm problemas com o uso da internet.
Foi a partir de uma matéria publicada na Folha de S. Paulo, em julho daquele ano, que houve um boom com a repercussão da reportagem, pois recebemos uma enxurrada de e-mails por parte da comunidade com queixas do tipo:
«Estou perdendo o meu emprego», «Meu filho está perdendo o ano letivo», Meu marido ou esposa quer sair de casa» ...
Assim, esse grupo teve que estudar mais a fundo as implicações do uso da rede e foi como se consolidou e se manteve, segundo a Dra.
Andréa Jotta Ribeiro Nolf.
Qual é a faixa etária, sexo e classe social dos dependentes da internet?
Os dependentes não têm uma determinada classe social, idade e sexo.
Em os casos dos hard users que atendemos, há de tudo.
Desde meninas de 12 anos a senhores de 70, de donas de casa até funcionários públicos e padres.
Quais são os sites e os serviços mais acessados por os viciados?
Sem dúvida a pornografia, seja sites ou salas de bate-papo, e em seguida os games.
Segundo a psicologia, quando uma pessoa é considerada viciada e quais são os critérios de avaliação para se chegar em tal conclusão?
Quando a pessoa deixa de fazer coisas na vida presencial para na fazer vida virtual e começa a ter um uso restritivo ou patológico, ou seja, restringe as atividades normais como:
não transa com a mulher para visitar site pornográfico, fica conectado o dia inteiro, não quer trabalhar, estudar, comer ou conviver com a família e deixa de ter amigos.
Os problemas são do tipo de uso, o mau uso.
Ninguém fica viciado em internet, por causa da internet, e sim, por problemas anteriores.
Veja o clássico exemplo do assassino que mata por causa do revolver e dizermos que não é por um instinto ou por conta de algo dentro de ele.
Assim como o revolver, a web é um instrumento que as pessoas usam para viabilizar um conteúdo que já é de elas, aquilo já estava ali.
O que acontece é que por a impunidade e inocência, o mundo virtual é uma coisa muito ampla e desconexa com o que temos como realidade.
Alguns internautas não se enxergam nesse tipo de atitude e se escondem numa virtualidade.
Fingem que aquela pessoa matando velhinhas, por exemplo, não são eles, é só um jogo.
Tentam disfarçar que essas coisas não lhe pertencem.
O que começamos a perceber é que existe agora uma intersecção entre vida presencial e vida virtual.
Para nós do NPPI, desde 2003, vida real é a presencial mais a virtual.
O que faço dentro da internet, o que faço na minha vida virtual é, o que faço nas minhas relações face a face, isto é, a minha vida real.
De aqui a dez anos, ninguém poderá dizer que tem uma vida virtual e que esta não tem nada a ver com a vida presencial, coisa que já se reflete hoje, como a web 2.0 e o preenchimento da cultura com a virtualidade em grandes metrópoles como São Paulo.
Repetição e restrição:
é assim que a psicologia avalia um netviciado, quando chega a ponto da tecnologia não fazer parte da vida do viciado, mas sim, ela ser a vida de ele.
Ele não se relaciona mais com amigos numa balada e só quer se comunicar com amigos virtuais, não tem mais relacionamento sexual com sua esposa ou outras mulheres para fazer sexo virtual.
«Pessoas inteligentes e mentalmente muito ágeis.
Ficam irritadas se alguém tenta reduzir seu tempo de conexão no PC, costumam mentir para pessoas próximas com o intuito de encobrir a extensão do seu envolvimento com as atividades online.
Vivem em transe durante um período prolongado na internet é comum o dia-a-dia do dependente ter a sensação de viver num sonho.
O viciado da rede tem problemas físicos por o uso excessivo do computador nas articulações motoras utilizadas na digitação, o que causa lesões por esforços repetitivos (Ler) e a vida sedentária contribui para a obesidade "
Satisfação do viciado
O dependente da web não se satisfaz mais com a vida face a face;
fica ansioso em se conectar novamente e só fala sobre isso.
O que o faz ele se sentir bem é estar conectado a internet.
Viver num lugar onde a pessoa pode tudo e tudo é perfeito.
Exemplo disso é o ambiente virtual e tridimensional «Second Life».
Ali, ter um avatar é ser a versão perfeita de você mesmo e aí a pessoa pode viver mais nesse ambiente do que com ela mesma.
A tecnologia facilita muito a fantasia, e fazendo isso o viciado evita entrar em contato com a vida presencial.
Lá ele voa, tem dinheiro, casa e uma série de coisas que não tem aqui.
Então essa pessoa se dá conta do que tem aqui e prefere ficar lá.
Isso é considerado um sofrimento, não é sadio.
Outra característica de mau uso é consumir toda a informação e conter tudo de uma vez, como se alguém pudesse absorver todo o conteúdo da internet.
De a mesma maneira em que se vai ao museu ou a uma biblioteca e se identifique todo o conteúdo das obras desses lugares em apenas um dia.
Personagens problemáticos ciberespaço quem são eles?
Um casal adulto, marido ou esposa, começa a conversar com ex-namorados (as), almoça com amigos (as) virtuais e muita coisa pode acontecer ...
Isso tem interferido nos relacionamentos.
Recebo vários e-mails a respeito disso.
É o caso de uma esposa que descobriu que seu marido conversa com outras mulheres no MSN.
Criou um perfil fictício, conversou com o homem, seduziu o próprio marido e o levou a ter um encontro presencial com ela.
Sem que ele soubesse que era ela.
Isso criou uma cisão no casamento e eles se separaram porque, de certa forma, essa esposa se sentiu traída por ela mesma.
Casais estão tendo que conversar e esclarecer o que pode e o que não pode na internet.
Como, por exemplo, conversar no MSN, ter perfil no Orkut, ter a senha para acessar os e-mails do outro etc..
O comportamento está tendo que ser revisto, os casais inteligentes já fazem isso.
Alguns chegam a englobar no relacionamento o uso da tecnologia e vêem juntos sites pornográficos.
Carolina e Luciano
Outro exemplo da era da modernidade, mas fora do NPPI, é o de Carolina, 24 anos, e Luciano, 27, moradores do bairro Jardim Miriam, zona sul de São Paulo.
Namoravam havia três anos e fazia três meses que moravam juntos.
Eram um típico casal de classe média.
Luciano, desempregado, se viu deslumbrado por o mundo virtual, que se tornou bem real.
Pulou a cerca duas vezes, ou seja, conheceu duas mulheres fora do casamento por o Orkut (site de relacionamento na internet).
Ele ficava direto conectado à web e fez de tudo para a sua companheira não ter um perfil no Orkut.
Doce ilusão.
Em a facilidade que essa ferramenta tecnológica traz, Carolina desacatou a «ordem» e rapidamente encontrou o seu homem e as sua «amiguinhas».
Conversou com o namorado pessoalmente, Luciano confirmou a história e se separaram.
Há um caso de uma jovem que conheceu um rapaz da Arábia Saudita, se apaixonou, largou tudo em São Paulo para ir morar no país de ele.
A mãe de ela estava em grande sofrimento, mandou um e-mail desesperada, pois a menina não conhecia o rapaz pessoalmente e a cultura de ele era completamente diferente da nossa
Onde fica o lado bom da internet, existem mudanças positivas
Quando é feito o uso correto dessa ferramenta, o normal é que essa tecnologia nos ajude não só a trabalharmos, mas também a nos relacionarmos.
Se pensarmos numa cidade como São Paulo, onde existe trânsito intenso, dificuldade de estar em contato presencial com nossos amigos todos os dias para encontrar com as pessoas que conhecemos e utilizar o ciberespaço para fazer isso é uma prova de bom uso.
Você pode facilitar a comunicação para estar com as suas escolhas, em vez de ligar para uma só pessoa de cada vez é possível enviar um e-mail de tarde com uma mensagem para vários destinatários, dessa forma ocorre um, ganho de tempo e espaço para combinar um encontro com eles à noite.
O bom uso da internet é isso, o uso criativo que traz coisas boas.
Posso fazer uma pesquisa escolar bem feita.
Se não puder me deslocar fisicamente a uma biblioteca, eu acesso um mundo de informação que, se souber usar, irá acrescentar alguma coisa, como cultura e conhecimento.
Nós, aqui, somos apaixonados por a internet e a estudamos porque é extremamente prazerosa e se você usar corretamente será maravilhoso.
«Quem adquire um novo computador doméstico nos dois primeiros anos temos uma tendência de fazer hard uso e depois desse tempo o uso se estabiliza -- acesso de e-mails, consulta ao bankline, teclar com amigos etc "
Há Meio termo para não cair no vício?
Olha, isso depende do ser humano que está acessando a tecnologia.
O meio termo é o resultado da forma que cuidamos da nossa vida fora da web, nos relacionamento com amigos, parentes, namoros e vida profissional.
Não devemos deixar lacunas nos relacionamentos presenciais.
Tomando esses cuidados, como conseguir ter equilíbrio na vida face a face e sentir prazer em tudo isso, dificilmente você será um netviciado, pois automaticamente haverá uma normalização no uso, ou seja, usar a internet para aquilo que me serve e não como uma válvula de escape sobre algum problema na vida face a face.
«Se você for uma pessoa centrada, você saberá fazer o bom uso da tecnologia "
Somos assassinos por natureza?
Todo ser humano é agressivo por natureza.
Com o advento do virtual, isso se tornou mais tolerável por a sociedade que atualmente está num limiar mais próximo de aceitação desse sentimento.
O que antes ficava escondido dentro de nós era tido como ruim.
Hoje, você pode através de um jogo, matar pessoas.
Como é feito o contato com o NPPI?
No caso do uso patológico, temos uma orientação que dura oito semanas e começa por correio eletrônico.
Em a quarta troca de e-mail, é possível notar qual é o problema do netviciado e se a pessoa chegar até a oitava semana com o uso restritivo ela é encaminhada para um tratamento psicológico.
O dependente tem a opção de procurar quem o atendeu por e-mail e ter a assistência do profissional na clínica.
Depois é feito o processo formal por o paciente, que preenche uma ficha com seus dados, como nome completo, endereço etc.
O NPPI segue as normas do CFP (Conselho Federal de Psicologia), que considera o grupo como um serviço clínico apto em psicologia.
O custo por consulta presencial é o valor referência de R$ 100.
Número de frases: 218
Para mais informações acesse o site:
O Seminário Internacional de Comunicação para a Transformação Social foi realizado por a TV Futura na semana passada, em São Paulo.
Durante sua palestra de abertura, Warren Feek -- diretor da The Communication Initiative -- exibiu um filme, via YouTube, que retrata o pano de fundo «inescapável» para qualquer debate sobre a mídia / comunicação hoje.
É uma história-piada do futuro, nosso provável futuro, narrada do ponto de vista de quem vive após o ano 2050.
Em o filme, o Google, grande potência da Web 2.0, comprou a Microsoft.
Lawrence Lessig, fundador do Creative Commons, virou Secretário de Justiça dos Eua.
A indústria cultural tradicional é passado.
Nenhuma de suas estratégias desesperadas -- de DRMs a processos contra compartilhamento de arquivos -- conseguiu combater a mudança:
a comunicação eletrônica deixou de ser feita de poucos para muitos.
Todo mundo (" de muitos para muitos ") se tornou " prosumer ":
ao mesmo tempo consumidor e produtor de conteúdos comunicacionais e ferramentas de comunicação.
Em o caminho para São Paulo, eu li um novo ensaio de Mark Pesce, pioneiro da realidade virtual e da linguagem VRML, que revela alguns números impressionantes e nada proféticos:
os serviços de telefonia celular demoraram 10 anos para atingir a marca de 1 bilhão de assinantes, 3 anos e meio para chegar a 2 bilhões, e apenas 18 meses para atrair o terceiro bilhão.
A previsão é que em 2008 metade de toda a humanidade tenha telefones celulares.
Como até o mais básico desses aparelhos já tem funções multimídias, os usos que as multidões vão fazer da facilidade de comunicação serão sempre supreendentes.
Serão, não.
Já são.
Mark Pesce cita o caso dos pescadores pobres de Kerala, sul da Índia, que agora trocam torpedos SMS em alto-mar e descobrem que portos têm o melhor preço / demanda para o cardume que acabou de ser fisgado por seus anzóis.
O mesmo acontece com pequenos agricultores do Quênia, que se comunicam diretamente com os mercados das cidades vizinhas, sem mais depender de intermediários.
São experiências de comunicação que não estavam previstas por os modelos de negócios de fabricantes de celulares.
Mas são cada vez mais comuns, e aparecem espontaneamente em qualquer «buraco» do planeta.
Nenhuma iniciativa de comunicação pode ignorar esta realidade, em constante e acelerada transformação.
Os debates acirrados sobre a «net neutrality» mostram que o que está acontecendo não é automaticamente a vitória da democracia informacional.
Novos mecanismos de controle, cada vez mais sofisticados, aparecem em cena, ao mesmo tempo em que as ferramentas para hackear os controles também proliferam.
É uma batalha complexa, difícil, apaixonante.
Não dá para menosprezar nenhuma das inúmeras forças que estão batalhando, nenhuma luta está ganha.
Por isso o Seminário foi tão interessante:
era o encontro de experiências muito diferentes que tentam praticar / pensar a comunicação como uma arma para garantir o desenvolvimento e a justiça social.
Mas isso no meio de um turbilhão, sem chão firme para ancorar muitas certezas:
«comunicação para a transformação social» virou o nome comum para todas essas experiências, justo quando a própria comunicação está sendo cada vez mais profundamente transformada por a transformação social, e a comunicação transformada pode ser mais transformadora, e assim por diante, sem fim.
Em uma entrevista pré-Seminário, tentei criar minha própria definição do que é «comunicação para a transformação social».
Cheguei à seguinte fórmula, que pretende ser a mais sintética possível, apesar de seu contorcionismo conceitual um tanto barroco:
«comunicação para a transformação social é aquela que possibilita que as próprias pessoas que se comunicam, elas mesmas, decidam (no processo de se comunicar, e como resultado da comunicação) que transformações desejam fazer em suas sociedades."
Em esse sentido, a comunicação mais socialmente transformativa seria aquela que possibilita que todos os participantes possam ser produtores e receptores de informação.
Isso era praticamente (e também politicamente) impossível nos meios tradicionais de comunicação eletrônica:
o espectador não tinha equipamento suficiente para produzir ou distribuir suas mensagens.
Mas desde o aparecimento dos computadores pessoais, das câmeras de vídeo portáteis, dos celulares etc., é bem mais fácil que um computador perdido numa selva qualquer possa se transformar numa central emissora de broadcasting com público em todos os continentes.
Seguindo essa trilha, o Overmundo aproveita toda essa grande oportunidade e aposta num regime editorial radicalmente colaborativo (todo mundo pode colaborar, e as decisões sobre o que é ou não publicado e sobre quanto destaque cada colaboração ganha são tomadas por a comunidade), tentando provar que processos abertos / descentralizados conseguem gerar qualidade de conteúdo.
Além disso, o próprio software do Overmundo é também aberto podendo ser usado e transformado por outras iniciativas que queiram enveredar nos caminhos da produção colaborativa de conhecimento (na abertura do Seminário, mostrei exemplos já no ar de utilização do código do Overmundo por outras iniciativas, como o iCommons e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública).
Estamos aqui fazendo uma experiência pioneira, testando ferramentas e regras.
Muitas vezes nosso dia a dia é tão absorvente que deixamos de perceber o que está acontecendo no mundo lá de fora, o mundo não Over.
Por isso foi bom ter participado do Seminário, para conhecer outras experiências com objetivos semelhantes que estão sendo feitas em outras mídias e em outros cantos do mundo.
Prometi, na minha fala no Seminário, que iria escrever um texto aqui no Overmundo, que teria como função principal dar continuidade às conversas iniciadas por lá.
Vou publicar então algumas observações sobre coisas que me chamaram a atenção nas várias apresentações -- os comentários estão abertos para outras observações, de pessoas que tenham ou não ido ao Seminário.
Os relatos de experiências diversas de comunicação para a transformação social começaram com a palestra de Arlene Centeno Guevara, da Fundação Puentos de Encuentro, da Nicarágua.
Ela é uma estrela popular no seu país, pois foi uma das protagonistas da «telenovela» Sexto Sentido, produzida por a Puentos de Encuentro com o objetivo de levar para a juventude debates sobre sexualidade e direitos humanos.
O interessante é que até a primeira exibição da Sexto Sentido não havia dramaturgia televisiva feita na Nicarágua.
A equipe teve que aprender tudo na marra (desde a escrita de roteiros à edição final), a partir de exemplos de sucessos brasileiros e mexicanos que continuam a dominar a TV local.
Apesar do uso de câmeras baratas, da inexperiência técnica, o resultado foi grande sucesso de audiência, uma espécie de Rebelde com causa, e até já foi exportado para países vizinhos e para os Eua.
O que mostra que as pessoas querem ver suas experiências e realidades retratadas na mídia, não se importando tanto com comparações de qualidade técnica com produtos hollywoodianos.
Arlene mostrou imagens dos atores de Sexto Sentido dando autógrafos para turbas de fãs nas ruas de Manágua.
Fãs com os mesmos tipos físicos mestiços de seus ídolos.
Ídolos que realizam outros trabalhos sociais atrás das câmeras, como programas de rádio, uma revista feminista, cursos e qualquer outra atividade que possa ajudar a difundir suas idéias transformadoras.
Depois da Arlene, quem falou foi Zita Carvalhosa, que dirige o Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo desde 1990.
Durante o festival, na tentativa de levar os filmes para as periferias da cidade, surgiu a idéia das Oficinas Kinoforum de Realização Audiovisual, com esquema muito simples, mas com resultados estimulantes.
As oficinas duram apenas três finais de semana, e terminam sempre com quatro vídeos criados e finalizados por os alunos.
Parece difícil acreditar que um curso tão relâmpago possa gerar resultados positivos, mas isso é fácilmente comprovado vendo os vídeos produzidos e também constatando que muitos dos «oficineiros» resolveram dar continuidade ao trabalho audiovisual abrindo produtoras nas suas quebradas, como a Filmagens Periféricas, da Cidade Tiradentes.
Em a sua fala, Zita anunciou também a estréia do KinoOikos, novo site do projeto, com ambiente mais colaborativo, fóruns e streaming de vídeo.
Vale a pena dar uma olhada no vídeo Cidade do Sol, que quando eu escrevo está na home do KinoOikos -- é uma mistura muito esperta de documentário e ficção, abordando histórias de migrantes nordestinos que chegam na periferia de São Paulo para «vencer na vida».
A terceira experiência apresentada no Seminário nos trouxe notícias sobre as pesquisas do IZI (sigla para Instituto Central Internacional para Televisão Jovem e Educativa).
A apresentação de Elke Schlote, editora científica e coordenadora de projetos, teve como foco apenas duas iniciativas.
A primeira analisou a inovação num formato antigo como uma aula de línguas na TV.
A aula virou um seriado envolvente.
Os alunos são imigrantes (um iraquiano, um russo etc.) e a professora alemã.
As situações de aprendizagem nada têm a ver com as tediosas repetições tipo «the book is on the table».
São sempre relacionadas à vida cotidiana de alguém que acaba de chegar na Alemanha:
a procura de emprego, as diferenças culturais etc..
A diversidade de experiências entre os próprios alunos também provoca ricas cenas dramáticas, incluindo um namoro entre a professora e o iraquiano, causador de uma polêmica nacional.
A segunda iniciativa apresentada por Elke Schlote é ainda mais interessante:
uma pesquisa que grava em vídeo a reação de um grupo de crianças assistindo programas na TV, tentando perceber o que prende e o que dispersa suas atenções.
O resultado prova muita coisa em detalhes.
Mesmo uma explicação sobre o funcionamento do esôfago, quando é encenada de maneira criativa e bem narrada, faz com que as crianças grudem os olhos na tela.
Gostaria de fazer o mesmo tipo de experiência para todos os programas com os quais já trabalhei ...
Depois do IZI, foi a vez da Beatriz Lindenberg apresentar os projetos do Instituto Marlin Azul, já bem conhecido aqui no Overmundo por intermédio do seu projeto Revelando os Brasis.
Como o tempo era curto, Beatriz só conseguiu falar sobre o Projeto Animação, que desde 2002 ensina a produção de desenhos animados para alunos da rede pública de Vitória, Espírito Santo.
Gostei de saber que as oficinas de animação conseguem também incentivar outros tipos de trocas culturais na cidade.
Por exemplo: ao buscar músicos para a trilha sonora de seu filme, uma turma se lembrou de um grupo de congos que havia perto da escola.
A parceria deu tão certo que esse grupo já tocou para outras animações, inclusive acompanhando uma orquestra sinfônica.
Isso mostra como não só o produto final, mas o próprio processo de produção, se pensado de forma não óbvia, pode dar início a outras transformações sociais importantes para uma rede cada vez mais ampla de grupos e indivíduos envolvidos na sua criação.
Continua
Número de frases: 80
Em Comunicação e Mundo em Transformação -- PARTE 2
Uma parceria virtual repleta de conversações sobre tratados filosóficos e sobre a existência:
seus riscos e tragédias.
Kastrowisk e Sidney Giovenazzi são elementos distintos nesse jogo, sombras de um subsolo recheado de dor e angustia com a luz que de tão intensa chega ao grito.
A parceria de letra [kastrowisk] com o som [incomparável de Sidney] pode ser conferida no endereço:
http://www.purevolume.com/sidneygiovenazzi O senão é que o Sidney troca as músicas com a rapidez de um piscar de olhos ...
De essa maneira é certeza que você terá que procurar nos arquivos.
Mas é legal, de lá você pode ouvir e baixar para seus sons favoritos essa e outras pérolas do maestro Sidney Giovenazzi.
A internert serve para isso ...
Aproximar indivíduos que estão longe por força de uma gigantesca geografia e conseguirem desenvolver parcerias poéticas, musicais, visuais e que a arte conseguir gerar e parir.
Acessem e divulguem esse endereço como as pragas do Egito conseguiram mover o pensar e o acreditar dos homens.
Número de frases: 11
Abraços virtuais.
Nascido em 1972, em Tarnow na Polônia.
O jovem pintor Wilhelm Sasnal é um artista do instante.
Seus trabalhos diferem, por vezes, tão substancialmente uns dos outros, que chega-se a questionar a consistência de sua obra.
No entanto, suas pinturas comportam uma carga tão intensa de sensibilidade, que é impossível não sentir-se tocado por os aspectos políticos, morais e estéticos de sua produção pictórica, profundamente marcada por a realidade.
Em sua obra Sasnal leva a experiência pictórica ao limite, dada a extensão de sentimentos, eventos e emoções que transparecem em sua poética.
Esses momentos nos dão a oportunidade de mergulhar nos detalhes de um acidente de carro ou de um fragmento de filme visto por o artista.
Sasnal tem a habilidade de transformar o instante em imagens multidirecionais, repletas de significado, num verdadeiro duelo com os detalhes que explodem do interior das representações.
A produção de Wilhelm Sasnal longe de celebrar a liberdade, é um soco na cara do conformismo.
É uma arte que luta para expor a experiência pessoal no seio de uma realidade impessoal.
Através de sua pintura, ele explora uma terra de ninguém, onde experiências públicas e privadas convergem para uma diluída memória coletiva.
Operando como próprio sustentáculo das informações, Wilhelm Sasnal vem desenvolvendo um trabalho na arte contemporânea, que lhe garante uma posiçãocomo consciência individual.
Número de frases: 12
& 1. O comercial mais discriminador do mundo.
Um cara grisalho bate na porta da casa da mulher, com um buquê de flores na mão.
Entende-se que seria um encontro.
A mulher fala:
«Ah, não.
Com esses cabelos grisalhos eu não vou sair não."
Aí vem o narrador e faz toda a propaganda do Grecin (assim que se escreve?)
2000. De aí a primeira cena se repete, o mesmo cara bate na porta da casa da mesma mulher:
«Uau! Tá um gato!" que merda de propaganda, hein?
Pra onde vai essa sociedade?
Agora o que importa é a aparência?
Só de raiva agora não vou pentear o cabelo durante os próximos 3 meses.
Só vale ajeitar com a mão.
& 2. Uma velha pobre vai à padaria e pede 4 pães.
Porém, tem dinheiro para comprar somente três.
A fala da narradora da história e filha da dona da padaria é:
-- Minha mãe me pediu que eu colocasse mais dois pães em sua (da velha pobre) sacola.
Só depois eu entendi que aquilo era uma questão ( ...)
A velha pobre pediu quatro pães.
Só tinha dinheiro pra comprar três.
Logo, a mulher lhe deu mais Dois pães.
Por que 2?
Por que não deu Um?
Afinal, ela não tinha pedido Quatro?
Pode se pensar que a vendedora era uma pessoa muito generosa e, além dos quatro pães, quis dar mais um brinde, totalizando 5.
Ou então pode-se pensar que ela já tinha dado os 4 pães quando a velha pobre tinha pedido 3, e com mais aqueles 2, totalizaria Seis.
Resumindo, a velha tinha dinheiro pra Três, queria Quatro e levou Cinco ou Seis.
Que confusão.
& 3." Vamos à nossa primeira aula de inglês.
What is your name?"
«My name» Is Julia."
«And what's your name?"
«My name is Guilherme, because my mother likes this name.
By the way, it was my grandfather's name.
But please, (nunca entendi) " (
a professora desmaia)
«Se quieres professora, también puedo hablar en español."
Fim. A pior coisa já feita até hoje.
E não estou me restringindo a comerciais de televisão.
Meus filhos nunca estudarão no FISK.
Só por causa dessa propaganda.
Número de frases: 41
Estava visitando umas fotos antigas aqui no meu pecê e dei de cara com essa nunca publicada em lugar algum.
Tem razão Chico Buarque:
a dor da gente não sai no jornal.
A Festa da comunidade Negra da Vila Maria da Conceição, em 1995, recebeu orgulhosa a visita de Bezerra da Silva, ainda uma década de vida por a frente.
A festa acontece anualmente num lugar conhecido como Vermelhão, o centro de uma das favelas mais musicais de Porto Alegre, única área livre da favela que ninguém põe barraco e ninguém mete a mã.
Ainda nos dias de hoje ela recebe de cinco a 15 mil pessoas a cada realização, do lugar e de toda a cidade.
O programa já começou às 10 da manhã e se estendeu até além das 22 horas, em domingos.
Porque ninguém é de ferro, o passeio das artes:
do teatro, da música principalmente, do samba de raiz, com certeza, nas edições mais recentes se inicia após às quatro da tarde, mas não encerra antes da meia-noite, e, às vezes, se realiza em sábados, sempre próximo ao 20 de novembro data de celebração de Zumbi.
Em Porto Alegre o 20 não é um feriado, sabe-se lá porque.
Lutero, que rachou o catolicismo por o livre arbítrio, mas também em razão de acordo com a nascente burguesia alemã para redução do número de feriados religiosos à época (mais de uma centena, contam as lendas) é que deve saber explicar.
Porque Zumbi não era santo, com certeza, mas herói de seu povo, com qualidades e defeitos de homem que pretendeu ser livre, sim, foi e continua assim sendo celebrado até hoje.
Depois do show de hora e meia na Conceição, Bezerra deslocou de carro meia-hora até a Restinga, bairro distante 24 quilômetros do centro de Porto Alegre e cantou mais hora e meia para 20 mil pessoas que muito entusiamadas o aplaudiram tanto ou mais que as 8 dez mil que encatara na Conceição.
Não contei uma por uma, por óbvio, mas foi o registro que fizemos no projeto de Descentralização da Cultura, que coordenava na época, em consulta a oficiais da Brigada Militar que avaliaram a presença e, a especialistas no assunto da companhia de transportes local que, segundo me disseram, transportaram para o Bairro, naquele dia, mais dez mil pessoas que o usual.
Número de frases: 14
Não sei se as revoluções têm características particulares.
Algo que faça alguns de nós -- por acaso ou mérito, tanto faz -- sentirem que elas estão por vir.
Sei lá.
Uma evidência qualquer, uma sutil demonstração de que as coisas estão para mudar.
Mesmo quando mais novo, nunca fui o melhor dos sujeitos pra sacar que algo novo tava pintando.
Acho que tem a ver com o fato de ser excessivamente crítico e carregar um outro tanto de descrença.
Coisas de quem lê demais, quem sabe.
Ou coisas de quem lê os livros errados.
Era, como vários caras de minha idade, contrário a tudo.
Lutava contra o que quer que fosse óbvio -- uma obviedade numa época de equívocos e outras descobertas.
Qualquer leve suspeita e caminhávamos resolutos na direção inversa.
E lá íamos nós de cabelos longos, com camisas pretas num sol de rachar.
Buscando um novo riff ou um novo som -- mesmo que estes estivessem sido inventados lá nos setenta;
contanto que fosse de fora.
Isso causava um tipo de cegueira que carrego até hoje.
Em aquela tarde a coisa não era lá muito promissora.
Em a verdade, o que me levou a ir até ali foi a mais pura preguiça.
Um tipo de negligência em causa própria.
O convite surgiu de um amigo, na casa do mesmo.
A gente tentava decifrar uns solos do Hendrix -- ou seria do Page?--
enquanto rolava umas «outras ondas» naquela pequena sala de estar.
Ao menos havia o pôr-do-sol.
Era bacana.
Aliás, no Solar do Unhão, o sol era presença marcante.
Não aquele tipo de sol chapado e cru.
Tinha outras nuances, outras definições e cores.
Estendido, gigante, imponente.
Em o anúncio recortado do jornal por o meu amigo, o nome da banda nos fazia acreditar que era do estilo «regional» -- entendam as aspas como algo que, na época, colocávamos no saco das coisas óbvias, comuns demais para nossos egos enfurecidos;
nossa certeza de estarmos na contramão, num caminho certo.
Alguns fios já estavam espalhados por onde seria o show.
As pessoas, algumas pelo menos, pareciam ter as mesmas expectativas que nós dois.
Mas era uma boa e preguiçosa tarde.
E havia o sol, caso a coisa fosse excessivamente tediosa.
Quando a guitarra surgiu, toda suspeita de tédio, repetição ou obviedade desapareceu.
Foi detonada, literalmente.
O Chico, ele mesmo, com esse nome tão trivial, cantava coisas que até então eu não compreendia.
Uns tambores enormes e pesados -- estes com nomes menos triviais:
alfaia -- sacudiam e faziam ruir algumas velhas certezas.
Elas quebravam, feito vidro vagabundo.
A gente se divertiu.
Alguns que, assim como nós, chegaram desconfiados demais, curtiam e dançavam do jeito que lhes parecia melhor:
o corpo respondendo ao som pesado, as surradas camisas pretas encharcadas de suor.
Era uma mudança.
Que nos fez alterar o rumo das coisas.
Fazer outras escolhas, ouvir outros sons;
acertar nos livros e nos discos;
sermos um pouco nós mesmos.
O nome é revolução.
Mas você pode chamar também de Manguebit
Número de frases: 49
Chico Science -- dez anos se passaram A grande confusão em torno das obras de Cecília Meirelles parece que vai tomar novos rumos este ano.
Obras da escritora já podem ser editadas e reeditadas graças a uma decisão judicial do ano passado que, ao que tudo indica, deve acabar com 20 anos de brigas entre os herdeiros envolvendo direitos autorais.
Em esse tempo, a autora praticamente sumiu das prateleiras e o público leitor foi privado de seus livros.
Em a matéria do Estadão que li domingão, o professor de Direito Sérgio Branco, da Fundação Getútio Várgas (FGV) do Rio, mata a charada sobre as causas desse mafuá todo:
«O problema é que o direito (autoral) dura demais, 70 anos contados a partir da morte do autor, um prazo excessivamente absurdo.
São três gerações que brigam, e a obra deixa de circular, cai no esquecimento, a sociedade não tira o seu proveito."
Essa situação não é incomum -- nem aqui no Brasil nem em outros países.
Em o que dependesse da indústria e de alguns como Paul McCartney, suas obras nunca entrariam para o domínio público.
São fontes seguras de lucros.
A continuar nesse passo, a indústria de entretenimento deixará pouco ou quase nada para o domínio público -- mesmo tendo ela se alimentado durante anos desse caldo geral de mitos, lendas e personagens que habitam a nossa história desde sempre e estão à disposição para serem remixados quantas vezes forem necessárias.
Vampiros, múmias, heróis da Antigüidade, lendas, etc, estão aí pra não me deixar mentir.
E mesmo as criações protegidas por direitos autorais, como Mickey Mouse, acabam nesse balaio porque a ânsia criativa de muitos simplesmente transborda os prazos e regras draconianas do copyright.
Isso é ruim?
Muitos autores e toda a indústria (claro ...)
acham que sim, mais por temerem o que disso pode sair do que por dados concretos.
A indústria da música sofre hoje com os downloads em redes P2P porque não percebeu a oportunidade antes daquele moleque espinhento do Napster e insiste em dar soco em ponta de faca colocando boa parte de seu público-alvo contra a parede.
Em vez de surfar a onda gigante, que bater de frente.
Vai tomar caldo.
A indústria japonesa de mangá entendeu a parada do lance e já surfa a onda.
Um embrionário modelo que atua entre a lei de direitos autorais e a pirataria desmedida vai de vento em popa na terra dos samurais e está inclusive salvando a indústria, conforme constatou a revista Wired em sua edição de novembro passado.
Basicamente, é o seguinte:
o mangá é a base da cultura pop japonesa, das revistas em quadrinhos a filmes, animações de TV, brinquedos, jogos eletrônicos.
É gigantesca, mas está em decadência.
As vendas caem ano após ano.
No entanto, uma outra indústria cresceu no paralelo, a dos mangás feitos por fãs, que pegam personagens famosos e remixam com outros, às vezes alterando até suas características originais -- algo como um Cebolinha serial killer contracenando com um Bob Cuspe convertido ao islã.
Esse pessoal se reúne em mega-conven ções e vendem milhões de cópias de suas obras piratas, tudo pulverizado entre milhares de autores amadores.
A indústria oficial até tentou bater de frente, mas acabou vendo que aquilo era um enorme campo de teste gratuito para seus títulos, além de fonte quase que inesgotável para garimpar novos autores.
Então, em vez de tentar eliminar essa concorrência, formou uma parceria implícita, às franjas da lei.
Os amadores não fazem muitas cópias do seu trabalho, para não canibalizar a indústria oficial, e esta faz vista grossa aos piratas, usando-os como termômetro do mercado.
Enquanto dá certo, todos ganham.
Se começar a dar chabu, voltam ao que era antes.
Lawrence Lessig, professor de Direito da Universidade de Stanford e um dos criadores da licença Creative Commons, afirma que o caso exemplifica bem a incompatibilidade das atuais leis de propriedade intelectual com a cultura moderna.
Se antes vivíamos numa era de leitura apenas, em que a passividade era regra, hoje com as inúmeras ferramentas que a tecnologia da informação nos oferece, podemos ler, editar, reescrever, alterar, transformar.
Basta querer e ter a criatividade necessária.
Não é a mesma coisa que fotocopiar páginas e distribuir, é recriar.
As leis, criadas na era anterior, não previam isso e não conseguem lidar com esse novo cenário.
No máximo, enxugam gelo.
Cecília Meirelles foi engavetada por culpa da lei de direitos autorais que deveria promover sua obra.
A briga de seus herdeiros por seu espólio é apenas um dos efeitos colaterais desse regramento anacrônico.
Se seus livros estivessem livremente sendo publicados, reeditados, comentados e, sim!,
recriados por fãs, todos estaríam ganhando -- a autora e sua família, os leitores, a indústria.
Em o caso, seguir a lei foi a pior opção.
A quem interessar possa:
as obras da escritora Cecília Meirelles estarão sob domínio público em 2034.
As primeiras gravações dos Beatles e de Elvis Presley, em 2012.
As de Noel Rosa estarão livres ainda neste ano de 2008.
fonte:
Número de frases: 47
www.escriba.org Crônica, muito pessoal, de uma viagem a Belém do Pará
Manual para a leitura:
Este texto é dividido em várias seções, que formam um relato em ordem cronológica.
É possível, no entanto, ler apenas as seções que sejam de interesse.
A idéia do texto é ser mais um «post» de blog do que qualquer outra coisa.
Estúdio do DJ Beto Metralha
A primeira parada da minha viagem foi visitar o estúdio do Beto Metralha.
Outrora um importante membro da cena musical do tecnobrega, hoje Beto opera como uma espécie de catalisador de diferentes cenas e tendências musicais que passam por Belém.
É fácil ver um pouco do trabalho de ele.
Basta conferir o documentário Good Copy, Bad Copy, onde ele aparece trabalhando no seu estúdio, convenientemente montado dentro de casa.
A tecnologia é um elemento fundamental desse trabalho, que acontece, por exemplo, através do MSN.
Através de ele, Beto Metralha recebe músicas de toda parte e agita produções diversas, como o programa semanal de televisão do DJ Dinho, gravado também no seu estúdio, ou então vinhetas para a televisão anunciando as festas da semana.
O número de contatos do MSN do Beto Metralha é impressionante.
Quando alguém era procurado e estava offline, parecia que tinha alguma coisa errada, como se todo mundo tivesse de estar sempre conectado.
Além de teclar no MSN o tempo todo, o Beto Metralha fica também operando o After Effects e o SoundForge para produzir músicas e vinhentas.
O curioso é que ele faz tudo ao mesmo tempo:
edita uma animação no After Effects, tecla no MSN, remixa uma faixa no Soundforge, e ainda por cima fala no telefone e ouve música, enquanto conversa com os visitantes (no caso, eu e meus anfitriões em Belém, o Vladimir Cunha e o Gustavo Godinho).
Depois da visita, é impossível não suspeitar que essa capacidade «multitarefa» indica alguma habilidade fora do comum.
No entanto, num segundo pensamento, talvez o caso seja outro.
É possível o Beto Metralha seja um dos primeiros representantes de uma geração que está se apropriando da tecnologia na raça e de forma inesperada.
E isto está acontecendo não só no Brasil mas no mundo todo.
Documentário (s) sobre o Tecnobrega
A visita ao estúdio fazia parte das gravações do documentário sobre a cena do tecnobrega que o Vlad e o Gustavo estão realizando.
Quem não sabe ainda no que consiste esta cena, pode ter um gostinho também assistindo ao documentário Good Copy, Bad Copy.
Para dar continuidade às gravações, quase fomos para Barcarena naquele mesmo dia, com o afã de gravar uma festa de aparelhagem do Tupinambá, estrelando o DJ Dinho.
Chegamos a ir à estação da balsa, mas ao descobrir que não havia retorno entre 22h e 6h da manhã, este foi um bom incentivo para abandonar a idéia.
O resultado foi uma visita ao Boteco São Mateus.
Foi lá onde tomei meu primeiro caldo de tucupi da viagem, enquanto notava que sistema de som do bar tocava a banda inglesa The Smiths, enquanto as pessoas na mesa conversavam sobre o livro Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, escrito por o Philip K. Dick.
Belém é um lugar de fronteira em muitos sentidos.
«Comércio» e Eletro Melody
Em o dia seguinte, a rota era seguir para o «comércio», onde no centro de Belém se concentram os vendedores de rua.
O lugar é similar ao Saara no centro do Rio de Janeiro, ou à famosa Rua 25 de Março em São Paulo, com a diferença de que nesses últimos dois lugares não tem para vender (por enquanto) CD ´ s de tecnobrega.
Conversando com os vendedores de rua, deu para constatar a tendência de crescimento de um estilo musical novo dentro da cena, chamado eletro melody.
Para contextualizar, o tecnobrega surgiu quando o brega foi se misturando com música eletrônica, adicionando batidas mais rápidas.
Um pouco depois que isso aconteceu, a banda Calypso estourou em todo o Brasil, influenciando novamente a cena.
As batidas mantiveram-se eletrônicas, mas se tornaram um pouco mais lentas, gerando uma preferência por vocais femininos nas faixas e fazendo surgir assim o chamado «brega melody» (que domina a cena até hoje).
Em mais uma reviravolta estética, aparece agora o «eletro melody».
Ele acelera de novo as batidas e inclui elementos do eletro, cena que fez a festa nos clubes «globais» do início desta década, tudo misturado a vocais que lembram o reggaeton.
Essas mudanças rápidas de estilo estão em sintonia com um dos elementos mais importantes constatados na pesquisa que a FGV e a FIPE fizeram em Belém sobre a cena tecnobrega:
a necessidade de permanente inovação.
Se a indústria musical hoje sofre justamente por não ter conseguido inovar no tempo necessário (foi preciso alguém de fora, a Apple, para começar a vender música online!)
no tecnobrega, ao contrário, tudo muda muito rápido.
Desde as formas de distribuir a música, até os equipamentos utilizados por as festas de aparelhagens.
Os estilos musicais também não escapam a essa permanente evolução.
O potencial do «eletro melody» é bem grande.
Isto porque ele pode muito bem transcender a cena local de Belém e ser recebido em qualquer lugar do mundo simplesmente como música eletrônica.
Claro que uma música eletrônica totalmente diferente do que se ouve por aí, mas possivelmente mais divertida e descolada.
Dependendo de como caminhar esta cena, ela tem condições de chamar rapidamente a atenção global, tal como vem fazendo o funk carioca nos últimos anos.
A o que tudo indica, um dos grandes nomes responsáveis por o surgimento do novo estilo é o artista chamado Maderito, ex-integrante da cultuada Banda Bundas, que até hoje recebe crédito por a posição peculiar que ocupou dentro da cena do tecnobrega.
Não será surpresa se algum DJ estrangeiro (alô Diplo) começar a «exportar» o estilo.
Em todo caso, antes que isso aconteça, o fato é que o público das aparelhagens já descobriu o eletro melody muito antes e está se divertindo a valer com ele.
Conversando com os vendedores de rua no «comércio», todos apontam que já tem muita gente pedindo coletâneas específicas de eletro melody.
O problema é que elas ainda não existem.
O estilo é tão novo que só é possível encontrar faixas de eletro melody perdidas em meio a outras coletâneas mais genéricas.
No entanto, como o mercado do tecnobrega não dorme no ponto, dá para esperar com enorme segurança que em breve começarão a aparecer compilações só de eletro melody, saciando os fãs.
Outra indicação forte da força do novo estilo veio logo a seguir, em visita ao bairro do Bengui, para um bate papo com o Márcio da aparelhagem Vetron.
Marcio é outro ponto de conexão importante do tecnobrega.
Ele funciona como uma espécie de curador informal da cena do tecnobrega.
Os artistas trazem suas músicas serem remixadas por ele e incluídas em coletâneas.
Usando programas como o Soundforge e Vegas, que aprendeu também na raça, ele busca atender ao gosto do público, ao mesmo tempo em que vai também criando tendências.
Não duvido que possivelmente ele será a primeira pessoa a lançar uma coletânea exclusiva de eletro melody em Belém.
Grito Rock em Belém
Em a noite do mesmo dia, mudança completa de cenário.
Era dia de Grito Rock em Belém do Pará, o incrível festival de rock descentralizado que ocorre em várias cidades diferentes do Brasil, sempre na época do carnaval.
Em o ano passado, assisti ao Grito em Uberlândia, Minas Gerais, o que gerou até uma matéria aqui para o Overmundo.
Minha esperança é que isto sempre aconteça:
poder acompanhar o Grito Rock todos os anos, cada vez num lugar diferente (e depois escrever um texto para o Overmundo).
A edição de Belém aconteceu no Açaí Biruta, certamente o maior «açaí» que já vi em qualquer lugar.
Algumas centenas de pesssoas acompanhavam a festa.
Acabei perdendo alguns shows da noite, como o da banda I.O.N. e dos Filhos de Empregada (mas ganhei o EP de eles de presente).
Consegui ver o show do Clepsidra (de quem eu já tinha o CD, recebido de presente em Recife há um tempo), do Tetris (de Manaus) e do projeto Irracional, que reuniu integrantes das bandas Madame Saatan, Sevilha, La Pupuña e Clepsidra em homenagem ao Tim Maia no seu tempo Racional.
Ah, tinha também um artista estrangeiro, o canadense Chris Murray, tocando seu reggae de voz e violão.
Acabei conhecendo e conversando com várias pessoas bacanas durante o Grito.
De papos com os membros das bandas à Priscilla Brasil, vencedora do 14º Festival Mix Brasil, com o filme as Filhas da Chiquita, que mostra o que acontece quando 40 mil gays encontram dois milhões de católicos na maior festa religiosa do norte do Brasil», o Círio de Nazaré.
Festa de Aparelhagem
Contraste total com a festa de aparelhagem do Príncipe Negro.
Lá chegando, de cara, era impressionante o aspecto visual do «altar» da aparelhagem, o lugar onde ficam posicionados os DJ ´ s, centro das atenções da festa.
Parecia que uma espaçonave tinha descido no meio do clube em Belém.
Por trás de tudo, um gigantesco painel de leds iluminando o lugar com imagens «remixadas» por os próprios DJ ´ s, que são ao mesmo tempo também VJ ´ s (vale dar uma olhada no estudo publicado por a FGV e por a FIPE com detalhes sobre o tecnobrega e as festas de aparelhagem para entender melhor a relação intrínseca da cena com a tecnologia).
A dinâmica da festa é relativamente difícil de entender para um forasteiro.
Se shows de rock ou festas de música eletrônica celebram uma certa individualidade, nas festas de tecnobrega dá para ver imediatamente que a coisa é um pouco mais complexa.
Primeiramente, são diversas as «galeras» que vão juntas às festas (galera da moto, galera do comércio, de entre outras).
Em esses casos, a identidade passa a ser muito mais de grupo do que individual.
Além disso, a comunicação entre o público e os DJ ´ s é muito mais intensa.
Esqueça completamente a imagem apática de um DJ de música eletrônica, que toca para multidões sem sequer levantar os olhos do equipamento.
Em a música eletrônica do Pará, os DJ ´ s são verdadeiras estrelas e ao mesmo tempo mestres de cerimônia.
O público se comunica o tempo todo com eles, que respondem ditando o ritmo e temas da festa, fazendo menções às diferentes galeras presentes no lugar, tudo definido na hora.
Até mesmo o jeito de beber cerveja atende a um outro ritual.
Ninguém compra a bebida por unidade, mas sim em baldes de gelo, que circulam por a festa através de uma equipe de garçons.
Basta ficar parado em qualquer lugar para ouvir a pergunta: --
Quer balde?
Além disso, saber dançar é um elemento fundamental da festa.
Conforme várias pessoas me disseram, «para paquerar é preciso saber dançar».
Quem não sabe, nem tente.
Há algum tempo, as festas de tecnobrega costumavam ser quase que exclusivamente para se dançar juntinho, em parzinho.
No entanto, isso mudou há alguns anos e agora muita gente dança sozinha mesmo, ou junto com as galeras.
No entanto, essa configuração geral não impede que casais se formem a toda hora.
E nessa hora vale tudo:
homem com homem, com mulher, com travesti e assim por diante.
Vale mais o par que dança melhor e menos o sexo do parceiro.
O preconceito não é um convidado bem-vindo nas festas de aparelhagem.
Estamos de novo numa área de fronteira.
Programa Balanço do Rock
Em o dia seguinte, encontro com o Lázaro Magalhães e o Pio Lobato.
Só para constar, o Lázaro e o Pio são da banda Cravo Carbono, que lançou o disco que na minha opinião foi o mais bacana do ano passado (indiquei isso por exemplo nesta lista que foi publicada aqui).
O objetivo era participar do programa Balanço do Rock, capitaneado por o Beto Fares, que vai ao ar todos os sábados por a Rádio Cultura de Belém há pelo menos 15 anos.
O papo incluiu desde comparações entre o black metal da Noruega com black metal de Belém, até questões envolvendo o Overmundo e a cultura digital.
Até o grande Sarcófago, banda de Death Metal originária da minha terra, foi lembrado.
Chris Anderson e Gabi Amarantos
Tive a oportunidade de relatar no programa uma história que talvez pouca gente saiba e que considero emblemática para entender as possibilidades de futuro estão em jogo hoje.
Há pouco tempo veio ao Brasil o Chris Anderson, editor da ultra-prestigiosa revista Wired (e ex-editor da The Economist).
Sem a menor dúvida, a revista mais importante do mundo hoje sobre tecnologia e cultura.
Além disso, Chris Anderson é também o autor do livro A Cauda Londa (The Long Tail), um grande best-seller mundial, que se tornou referência para o presente das mídias digitais e para os modelos de negócio na internet.
Por esta razão, ele foi convidado em novembro de 2007 a participar de um enorme seminário em São Paulo, para mais de 4 mil executivos.
A o aceitar o convite de vir ao país, ele fez apenas uma exigência à organização do evento:
conversar com a Gabi Amarantos, vocalista da banda Tecnoshow.
A conversa aconteceu por telefone e durou cerca de 40 minutos.
Foi tão boa que o próximo livro do Chris Anderson, agendado para sair ainda este ano, terá um capítulo com o tecnobrega.
O interesse de ele por a música de Belém surgiu ao entrar em contato com os estudos feitos recentemente sobre a cena (objeto inclusive de notícia na CNN).
A conversa entre Gabi Amarantos e Chris Anderson é uma imagem muito importante e poderosa.
Ela simboliza mundos diferentes que estão, sim, se encontrando, de forma rápida e inesperada.
Seja no estúdio do Beto Metralha, nas festas de aparelhagem, nas coletâneas feitas por o Márcio e em outros lugares de Belém e do mundo.
Cerveja e o Futuro
Depois do programa, debaixo da chuva que permanecia em Belém, só nos restava ir beber cerveja.
Desta vez não nos «baldes» de uma festa de aparelhagem, mas nos dividindo entre o Mormaço, um dos agitos principais de Belém (localizado na beira do rio) e o «Le Chat Noir», um dos bares mais legais que fui nos últimos tempos, em qualquer lugar.
Juntou-se a nós a artista Giseli Vasconcelos e mais toda uma galera gente boa a fim de fazer passar o tempo na tarde e noite chuvosa de sábado em Belém.
Foi uma ocasião perfeita para fechar eventos dos últimos dias e organizar as idéias.
Conversando com o Pio Lobato, perguntei qual tinha sido a repercussão da recente visita do Ministro Roberto Mangabeira Unger a Belém, na qual ele anunciou uma série de idéias para a região.
A resposta (que já tinha ouvido de outras pessoas durante a viagem) foi contundente: --
Nenhuma.
Intrigado, perguntei a razão para a ausência de um maior interesse na visita.
A resposta foi contundente mais uma vez: --
É a Amazônia.
Não satisfeito, retruquei dizendo que a notícia da visita de ele a Belém repercutiu intensamente no Rio e em São Paulo.
Por exemplo, o jornal O Globo colocou como destaque na capa por dois dias consecutivos a visita do Ministro.
A o questionar o Pio sobre tamanha repercussão, veio a resposta novamente, desta vez totalmente elucidatória: --
É a Amazônia.
O Pio também me contou outro fato musical importante.
Em as várias subdivisões da cena do brega / tecnobrega, há as festas chamadas de «Saudade», que tocam as músicas» tradicionais " do brega.
Em esses bailes, que atraem um público um pouco mais velho, sempre toca Kraftwerk, que também é considerado «saudade» ao lado de outros artistas herdeiros do legado de Odair José, Amado Batista e Reginaldo Rossi.
O mesmo acontece nas rádios de Belém:
Kraftwerk nunca deixou de tocar por lá.
Não só a música eletrônica influência de forma constante a música paraense, mas a música paraense está dando o troco, transgredindo os limites da linguagem «eletrônica» e, diga-se de passagem, tornando-a mais interessante.
Um exemplo disso é o fato de que o tecnobrega, apesar de seu caráter essencialmente eletrônico, pode e continua a ser dançado «a dois» nas festas.
Imaginar a música eletrônica «global» (e também o rock) servindo de desculpa para dançar «a dois» em tempos como estes é, como regra, quase anátema.
Por fim, perguntei sobre o destino das intensas sessões de gravação que foram feitas há algum tempo por os produtores Miranda e Kassin, que passaram um bom tempo em Belém numa «missão» musical (meio pós-moderna, é verdade) gravando um grande número de artistas locais (o Vladimir Cunha tem um artigo aqui no Overmundo que descreve essas gravações).
A idéia, ao que tudo indica, era lançar um disco triplo retratando o presente e futuro da música paraense.
Apesar de tudo gravado e aparentemente mixado, o disco nunca foi lançado e as músicas permanecem esquecidas nos arquivos públicos.
Se nada for feito em breve para colocar essas músicas na avenida, talvez elas se tornem o trabalho de algum historiador que, depois de um tempo imprevisto, irá «descobrir» aquele futuro da música paraense que simplesmente deixou de acontecer.
Aliás, Belém parece ter uma relação curiosa com o futuro.
Um de eles é vaticinado tambem por o Vlad no seu artigo:
... a idéia de ver o tecnobrega, a guitarrada e o carimbó pulsando em conjunto com o som periférico mundial me agrada bastante.
Não sob o viés reducionista da world music, mas como um segmento viável dentro da música pop urbana do século XXI.
É um desejo que compartilho e que me faz lembrar uma frase do escritor William Gibson, criador do termo «ciberespaço».
Ele diz que «o futuro já está aqui, só não está bem distribuído».
Belém me parece um dos lugares em que o futuro, com suas várias vertentes, possibilidades, utopias e distopias, encontra-se melhor distribuído.
Seja por sua posição de fronteira (tanto reais quanto virtuais), por sua cena cultural peculiar, ou ainda, pelo modo como a tecnologia digital se materializa na cidade, existe ali uma vanguarda que faz de Belém um pouco mais próxima do que está por vir.
Enquanto estava na cidade, provoquei várias pessoas com essa idéia, lembrando que a maior parte das imagens de futuro compartilhadas hoje são essencialmente industriais.
O exemplo principal é a cidade ultra-urbana do filme Blade Runner (onde aliás, também sempre chove).
Fiquei imaginando se não seria possível conceber um futuro que fosse baseado numa outra raiz, um futuro florestal.
Não sei se essa idéia é válida ou não.
Só sei que um dia depois de ir embora de Belém, li a notícia de que um helicóptero transportando uma mulher grávida fez um pouso de emergência no meio de uma das mais movimentadas avenidas da cidade, para permitir que ela tivesse o bebê na Santa Casa de Misericórida do Pará.
Quando vi isto, ficou claro que o novo chega mesmo de forma excêntrica, seja de helicóptero ou de nave espacial.
E não pude deixar de pensar: --
Número de frases: 164
É a Amazônia.
Excelente a iniciativa do Egeu Laus ao trazer ao Overmundo um tema que aborda a tragédia diária a que estamos presenciando ou mesmo sofrendo diretamente, sob o título, nada poético, Contagem De Corpos.
Talvez record de comentários, provocou o nosso protegido Overmundo e tocou sensibilidades.
A partir da informação obtida no artigo acima mencionado (comentários), Eu Fui à manifestação pública neste 26/03.
Em a expressão de cada um era possível ler a interrogação maior, cujo ponto sedia no coração diretamente ferido, rasgado, transpassado por a navalha da perda daquele a quem ama e tantos outros que, solidários, empaticamente comungavam da mesma dor.
Era uma busca de forças para suportar o evento passado, revivido no instante, reascendendo a chama da expectativa da mudança -- presente em cada vela acesa.
Os cartazes representavam o grito máximo;
os longos minutos de silêncio diziam tudo o que não se pode traduzir por palavras;
o choro contido (ou não), o nó na garganta, os discursos profundos, a leitura emocionada de «CONTAGEM DE CORPOS», sob a direção do Tico Santa Cruz (de Os Detonautas) e repetição do estribilho por a população» E nós contamos os corpos», o dar as mãos -- eram o combustível, o apoio mútuo, o pacto de união, de renovação de esperanças para que a vida seja possível.
A arte não pode eximir-se também deste papel social.
Refugiar-se na cultura, no sonho, na poesia, no plano da realização do possível e do impossível, enquanto que lá fora a guerra urbana com suas trágicas conseqüências se instala, pode ser uma forma de alienação.
O problema é grave, o esforço da real participação não deve ser apenas dos vitimados ou pessoas próximas, mas de todos nós, de qualquer região, sob o risco do Brasil se tornar impossível de se viver.
Além da cruel estatística, perdemos empregos, investimentos e nem conseguimos dimensionar os efeitos negativos nos nossos parceiros internacionais.
Se toda a discussão sobre origem, causas e efeitos da violência não produzirem resultados práticos ou então não sinalizarem para uma possível ação no mundo lá fora, haverá um sério risco de termos como objeto de inspiração a dor, a lágrima, a ausência, a fatalidade decorrentes da vítima que estará cada vez mais próxima.
Não haverá leitores para o último escritor.
Desculpe-mo tom trágico, mas é muito comum a banda do bem desabafar, apregoar que a sociedade não tem jeito, que o governo é omisso, que P.A.Cabral foi o culpado ...,
como que isto fosse prova de conscientização e desse um certo alívio diante da falta de ação mais efetiva.
A sociedade, os brasileiros somos nós.
Acho que vale até um manifesto poético, quem sabe tocará mais ao coração do descrente, do que se sente só dependendo apenas de um estímulo para se integrar ao grupo que está aí protestando, denunciando, indo às ruas.
Que o dom e a arte sejam também usados como veículos de mudança para o bem, colocando-se à serviço da conscientização, de comprometimento com a nossa realidade.
Valeu, Egeu.
Número de frases: 21
Vem Aí, A Partir De Setembro, A TV Brasil Internacional, Que Vai Transmitir Programação De Tudo O que Há De Melhor NA Televisão Brasileira.
E Começa Com Programas De a TV Gazeta De São Paulo.
Tambem Transmitirá Novelas, Jornalismo E Esportes Com O Campeonato Brasileiro De Futebol.
A Emissora Terá Estúdios Em FORT FONDERDALE, Florida, Estados Unidos E Um em São Paulo.
Brasil. O Jornalismo Será Coordenado Por o Casal LEILA Cordeiro E ELIAKIM ARAÚJO, Que Já Vivem nos Eua Há Muito Tempo.
Número de frases: 5
Será A Primeira Emissora De TV Brasileira Fora do Território Nacional.
Ver é saber!,
uma das frases que estudiosos utilizam para definir a Anatomia "
Você já teve a oportunidade de tocar num cérebro?
ou talvez um fígado?
Isso e muito mais é possivel encontrar na exposição Corpo Humano -- Real e Fascinante, na Oca -- Parque do Ibirapuera.
Que estreou em 28 de fevereiro.
O acervo conta com 16 corpos e 225 orgãos verdadeiros, conservados através de uma técnica chamada «Preservação por Polímero», o objetivo é revelar o funcionamento do corpo humano e seus sistemas.
As dissecações públicas realizadas há milhares de anos por os egípcios, gregos, romanos e islâmicos, já ajudavam o homem a observar a complexidade e a riqueza de detalhes do corpo humano.
Em o Renascimento, Leonardo da Vinci foi pioneiro na utilização da anatomia para entender nossa funcionalidade.
Uma de suas obras mais conhecidas relacionadas ao assunto é o «Homem Vitruviano -- Homem Perfeito», desenho utilizado para descrever as proporções do corpo.
Em a exposição é possivel ver esqueletos com cartilagens e músculo à mostra, partes do corpo divididas por funcionalidade, como sistema cerebral, sistema digestivo, sistema reprodutivo e outros.
Através de um crânio expandido é possivel entender com mais detalhes o sistema cerebral e visualizar ossículos do crânio, como martelo, bigorna e estribo.
A mostra ainda conta com orgãos danificados como pulmões de fumantes e cérebros com sequelas de AVC, levando os visitantes a alguns minutos de reflexão.
Também está à mostra instrumentos e próteses utilizados em procedimentos cirúrgicos.
Há uma sala especial que simula o desenvolvimento fetal.
Exemplares de 7 a 20 semanas, que faleceram dentro do útero, devido às complicações da gravidez, são utilizados para ilustrar o desenvolvimento.
Os fetos foram tratados com Alizarim, uma tinta que em contato com o cálcio, produz um agente responsável por conservá-los.
Em um mundo cercado de tecnologia e informação, vive-se uma imensa correria, sem muito tempo para reflexão.
Geralmente, as pessoas só passam a refletir quando se deparam com a mortalidade, em evidência através de alguma doença.
É ai que pondera-se a existência humana.
Porém assim que obtêm a cura, voltam à rotina e mais uma vez deixam de se preocupar com a saúde, talvez essa seja uma das explicações ao grande público recebido já no primeiro final de semana.
A exposição já foi vista por mais de 2 milhões de pessoas, em países como Inglaterra, México, Unidos e Holanda.
Tem um propósito informativo e não sensacionalista, conforme afirma o médico americano Roy Glover, responsável por o desenvolvimento da mostra.
Número de frases: 24
Com a idade, fico até com medo do Alzheimer, esqueço cada vez mais freqüentemente o nome de pessoas que me são caras e de outras que são famosas e até pouco tempo estavam na ponta da língua.
Por isto acho muita graça em lembrar do nome de uma colega da primeira à quarta série do ginásio, chinesa, ou filha de chineses, chamada Aarin Chu.
Como já relatei numa colaboração anterior, fiz o curso ginasial, isto é, estudei durante quatro anos (fui reprovado na quarta série) no «Instituto Estadual de Educação Professor Alberto Conte», em Santo Amaro, como também já contei.
Em aquele tempo, como alguns já sabem, era preciso prestar exame de admissão ao ginásio, uma faca de dois legumes pois, se de um lado denotava a falta de vagas para todos, elitizando a escola pública já no chamado 2º grau, ao mesmo tempo, obrigava os que conseguiam entrar, e mesmo os que não conseguiam, a prepararem-se melhor.
Só para tirar a má impressão de vocês quanto ao meu confessado esquecimento, e não para me gabar, de jeito nenhum, passei no exame de admissão em 14º lugar com média 7,28.
Mas voltando.
Estudei com Aarin Chu durante quatro anos, e durante quatro anos ouvia, em todo o início de aula, a professora chamár -- Aarin Chu!
e ela responder -- Presente!
Podem não acreditar, eu mesmo não acreditaria, mas durante todos estes anos eu e a supracitada colega nunca nos encaramos;
não me lembro de tê-la observado de frente.
E olhe que não a estou culpando, absolutamente.
No máximo podemos «dividir a culpa» -- ela, por timidez certamente e eu, constato hoje, um tanto consternado, porque nunca me passou por a cabeça aproximar-me de ela.
Preconceito? Com toda a certeza.
E este mútuo isolamento se deu de forma ainda mais facilitada porque ela sentava na primeira fila.
Mas mesmo os CDFs, como era chamada a turma do gogó, privei da amizade de alguns de eles.
Em os dois primeiros anos, creio que porque não havia outros nomes iniciados com A, me passou despercebido o duplo A do nome de ela.
Em a terceira Série, no entanto, veio uma moça transferida (Alice ou Ângela), e a Aarin continuou sendo a primeirona da lista de chamada.
Achei que a ordem alfabética da chamada estava sendo desrespeitada.
De novo, em vez de perguntar a ela, fui olhar no diário de classe da professora e me deparei com o «Aa» que fazia o nome de ela ser sempre o primeiro por ordem alfabética, a não ser que alguém conheça uma «Aabin» no mesmo contexto.
Quis o destino (Deus?)
que eu viesse a guardar na memória uma pessoa das mais improváveis.
Fico pensando:
ao segregá-la, mesmo inconscientemente, da maneira que fiz, quem sabe se não saí perdendo uma boa amiga?
AARIN CHU, esteja você onde estiver, saiba que estará sempre Presente na minha memória.
E de lá receba um carinhoso beijo, embora atrasado, do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Em tempo:
Vejam o que eu encontrei no Gloogle ao invocar o nome de ela:
[PDF] Schizophrenia SourceFormato do arquivo:
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Dr. Aarin Chu, DDS.
Dr. Thomas Coles, Jr..
Raymond M. Cracchiolo. Eileen Craig.
Carolyn Critser. Laura C. Cruthers.
Carolyn S. Drescher. Janice Sweek Fairley ...
Número de frases: 34
www.nsfoundation.org/newsletters/sourcefall05.pdf -- Páginas Semelhantes
Os índios tupis deram ao pequeno pássaro um nome que significa, em português, «amigo do homem».
A expressão traduz com perfeição a relação entre os habitantes de Florianópolis, popularmente conhecidos como manezinhos, e o curió, cientificamente catalogado como Oryzoborus angolensis.
Para os manezinhos, andar com um curió na gaiola é tradição.
A figura do ilhéu passeando com seu amigo no Mercado Público, nos arredores da Lagoa da Conceição ou por as várias praias da cidade faz parte do cenário florianopolitano, da mesma forma que o canto característico dos cúrios compõe a trilha sonora da ilha e de toda a região litorânea catarinense.
Tal hábito cultural atravessa gerações de manezinhos.
«Os moradores mais antigos da cidade se recordam de um vendedor de peixes que circulava por o Mercado Público numa carroça, sempre com o seu curió ao lado», confirma um dos maiores especialistas nessas aves da cidade, o empresário» Luiz Carlos Hantschel.
«O canto servia como um anúncio de que o peixeiro estava passando e atraia os compradores».
Em aqueles tempos, as aves eram capturadas na natureza.
Nunca existiram muitos espécimes vivendo livremente na ilha onde se localiza Florianópolis.
Os curiós eram trazidos de regiões de mata atlântica próximas, das cidades de Paulo Lopes, Penha e Tijucas.
A captura indiscriminada e, principalmente, o avanço da agricultura, começaram a ameaçar a espécie.
Áreas de mata nativa foram derrubadas naqueles municípios para dar lugar a plantações, acabando com o hábitat dos animais.
Pior:
o uso de defensivos agrícolas quase extingüiu as aves na Região Sul do país (hoje, curió vivendo fora da gaiola, praticamente só existe no Norte e Nordeste do país).
Cúrios e outros pássaros eram retirados em grande quantidade nos locais próximos a plantações de arroz.
Sem vida, dentro de enormes sacos de lixo.
Em 1967, passou a ser proibida por lei a captura desses animais.
Foi a partir de então que a criação passou a ser um meio de preservação dos curiós em Santa Catarina, ela foi o único meio de tirar a ave da lista dos animais ameaçados de extinção.
Isso aconteceu na cidade ainda na década de 1980, quando surgiu o primeiro Curiódromo do Brasil.
O local, criado no dia 25 de julho de 1980, está situado num espaço nobre de Florianópolis, entre a supervalorizada avenida Beira-Mar Norte e a Universidade Federal de Santa Catarina, e é administrado por a Sociedade Amigos do Curió, ou SAC.
Durante a maior parte dos seus 25 anos de existência, o Curiódromo florianopolitano foi o único do país.
Só recentemente foram inauguradas duas novas estruturas, uma em São João Batista, também em Santa Catarina, e outra em Brasília.
O Curiódromo é um espaço dedicado à troca de experiências entre criadores e serve de palco para exposição de animais, para torneios de canto e palestras.
Há ainda as confraternizações, como as peixadas que ocorrem todas as noites de quarta-feira.
«São mais de mil associados, incluindo cerca de 150 criadores que reúnem aproximadamente três mil pássaros, entre curiós e outras espécies, como o canário, o bicudo», contabiliza Aldo Luiz Machado, fotógrafo profissional e atual presidente da SAC.
«Todos as aves estão devidamente registradas de acordo com as normas do Ibama».
A organização que o Curiódromo trouxe aos criadores catarinenses permitiu importantes avanços nas pesquisas com o pássaro.
Possibilitou ainda uma verdadeira operação de resgate histórico.
Quando viviam soltos, os curiós do catarinenses apresentavam uma forma única de cantar, tão característica quanto o sotaque de seus amigos manezinhos.
O objetivo da cantoria, como não podia deixar de ser, era atrair as fêmeas e demarcar território.
Posteriormente, o dialeto local foi batizado de Canto Florianópolis, ou ainda Canto Catarina, como preferem chamá-lo passarinheiros de fora do estado.
O convívio com pássaros vindos de outros lugares, estava descaracterizando a linguagem original.
O curió é famoso por sua habilidade de imitar o canto de outros indivíduos, sejam de sua própria espécie ou até mesmo de outras aves.
Existem mais de 100 tipos de cantos regionais no Brasil inteiro, sendo que o mais difundido é original do litoral de São Paulo, o Praia Grande.
Espécie de inglês do mundo dos curiós, esse modo de cantar ameaçava uma forma de riqueza natural e de diversidade cultural.
Foi a partir da constatação de que o Canto Florianópolis se perdia que vieram as iniciativas para a sua preservação.
Fininho foi o primeiro curió a ter o canto registrado, isso em 1982, numa simples fita cassete.
A partir disso, criadores locais passaram a utilizar gravações do Canto Florianópolis, em todas as suas variáveis, para ensinar as novas gerações dos amigos do homem.
Literalmente desde o ovo, através de caixas de som estrategicamente localizadas nos criadouros, vários campeões aprenderam a preservar a herança da família.
A prática se modernizou e hoje outros curiós, como o Guri, têm seu canto gravado em CDs.
É o que acontece em lugares como o Sítio do Curió, administrado por Jorge Guerreiro Heusi.
Em a página do criadouro na internet é possível ouvir o legítimo Canto Florianópolis, interpretado por Estrela do Sul, um curió que foi campeão Sul-Brasileiro em 1999.
A própria complexidade da melodia e das variáveis desse canto regional passaram a ser melhor compreendidas depois que foram registradas.
O modo clássico de cantar é caracterizado por uma entrada de canto (que pode ser longa ou curta), seguida por a passagem, a alteada em duas notas e termina com um remate.
Pode também ser seguido por o intitulado «pandeirinho», algo como três rápidos assovios com os quais o curió encerra seu fraseado.
Tais detalhes são minimamente analisados por juizes especializados durante os já citados torneios, que se concentram no último trimestre do ano.
Um dos mais renomados especialistas é Luiz Carlos Hantschel, dono do campeão Paulo Lopes, outro curió que teve seu canto registrado em CD.
«Quem cria um macho ou uma fêmea de procedência boa, e coloca o canto em CD para os curiós ouvirem desde pequenos, tem capacidade de formar novos campeões e preservar o dialeto», afirma o criador.
Devidamente treinados, os pássaros competem em duas categorias:
fibra e qualidade de canto.
De a mesma forma, existem dois tipos de atletas, os pardos (os pássaros jovens, até cinco anos em média) e os pretos (adultos que já desenvolveram plenamente seu canto).
A diferenciação é necessária para que os pardos não sejam intimidados por os mais experientes, algo que afetaria o desempenho desses novatos na arena.
Durante as competições que ocorreram no final de 2005, a grande preocupação dos criadores eram as várias epidemias animais que viravam manchetes por o mundo.
A famigerada gripe aviária, obviamente, alarmava muitos de eles, apesar dos casos só terem surgido do outro lado do planeta.
Mas foram as barreiras fitossanitárias provocadas por a febre aftosa que trouxeram complicações de ordem prática.
Como a movimentação de animais vivos estava proibida entre as divisas dos estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, quase foi inviabilizada etapa catarinense da liga nacional.
Muitos dos animais que estavam inscritos para o torneio viriam de Brasília, Paraná e Mato Grosso do Sul.
Foi preciso uma verdadeira mobilização da Sociedade Amigos do Curió, envolvendo vereadores e o prefeito de Florianópolis, além do governador do estado.
Por fim, uma decisão deste último permitiu a realização do evento, que reuniu aproximadamente duas mil pessoas e 800 aves na espaçosa base aérea da cidade, em outubro passado.
De hábito cultural, a criação de curiós passou a ser também uma atividade econômica que gera empregos diretos e indiretos.
São milhares de fabricantes de equipamentos, de medicação e de ração entre outros tantos profissionais.
Aves campeãs passam a ser valorizadas como reprodutores de boa linhagem e, com o avanço da espécie, os curiós que hoje são criados em cativeiro chegam a ter uma expectativa de vida de cinco a seis vezes superior à de aves selvagens.
Em a natureza, raramente se via um pássaro da espécie que ultrapassasse os cinco anos de vida, ou seja, eles morriam logo após as penas escurecerem.
Em cativeiro, é normal os cúrios, paparicados por seus orgulhosos proprietários, chegarem aos 30 ou 35 anos.
«Vários curiós vivem mais e estão saudáveis porque cantam.
Aqui na ilha você leva um curió para praia, ele canta no carro, na casa e alegra as pessoas, como um cachorro, um gato.
Vira um companheiro da família», explica Hantschel.
Os cuidados envolvem muito mais que esses tradicionais passeios por as ruas da cidade, vão desde a aplicação de fortificantes e de vermífugos até a preocupação em nunca usar jornal para forrar o fundo das gaiolas.
Todo o esforço para preservar a saúde do companheiro vale a pena.
Mesmo assim, é de grande interesse dos criadores, dar uma nova chance à espécie de viver em liberdade.
Uma proposta já encaminhada por Hantschel ao Ibama prevê a criação de um parque ambiental onde curiós possam repovoar uma região de mata preservada a salvo de predadores (sejam humanos ou animais) e de poluentes.
Criadores se comprometeriam a doar parte de cada nova ninhada a esse projeto.
Número de frases: 73
De essa forma, a iniciativa que começou com o objetivo de preservar uma tradição secular passa a ter sua visão voltada para o futuro, trazendo novas esperanças para esses velhos amigos, o curió e o manezinho.
Em coluna recente aqui na Ilustrada (link apenas para assinantes), Marcos Augusto Gonçalves fez o seguinte comentário sobre a turnê Banda Larga, de " Gilberto Gil:
«É engraçado um compositor bem-sucedido como Gil tirar chinfra de ' liberou geral ' na questão dos direitos autorais.
Mas, na verdade, ele está abrindo mão de quê?
Por o que entendi, de nada:
apenas de não ir à Justiça contra pessoas que fazem gravações dos shows e as colocam na internet -- o que já ocorreria mesmo."
Em a semana passada, em artigo para O Globo, Roberto Corrêa de Mello e Walter Franco, dirigentes da Associação Brasileira de Música e Artes (Abramus), escreveram algo parecido, tendo como alvo o projeto " Creative Commons:
«Em a verdade estamos com muita ansiedade e surpresa sobre um tema que pouco, muito pouco, tem de novo.
Por quê? A Carta Constitucional de 1988 já consagrou tal direito no artigo 5º, incisos XXVII e XXVIII, explicitando de forma assertiva que só compete ao autor o direito de usar, fruir, dispor e gozar de sua criação da maneira que quiser. [ ...]
Creative Commons é assim tão visceral?
Criativo como, se a Carta Magna já consagra o direito de autor?"
São perguntas extremamente pertinentes.
Porém, Marcos Augusto Gonçalves se engana:
Gil não está tirando chinfra de «liberou geral» com relação a seus direitos autorais.
Como dizem os dirigentes da Abramus, a Constituição brasileira já determina que " só compete ao autor o direito de usar, fruir, dispor e gozar de sua criação da maneira que quiser."
É isso -- simplesmente e apenas isso -- o que Gil faz em Banda Larga:
está reafirmando enfaticamente seu direito autoral de decidir o que pode ser feito com suas obras.
É o contrário do «liberou geral».
Liberar geral seria fazer vista grossa para o que já ocorreria mesmo «-- Gil está trazendo o que ocorre (todo mundo sabe que ocorre, quase todo mundo participa da» ocorrência " -- e muitos autores ficam satisfeitos quando encontram vídeos de seus shows ilegalmente disponíveis no YouTube) para a legalidade.
O que não é pouca coisa.
E pode ser o início da criação de novos modelos de negócios para autores que não querem mais agir como se a revolução digital não tivesse «ocorrido».
Quem tiver dúvidas deve ler os Termos de Uso do site da turnê Banda Larga, totalmente licenciado em Creative Commons.
Tudo é muito claro, e já no primeiro parágrafo está escrito:
«Os presentes termos de uso, além de regularem contratualmente a relação entre as partes, devem ser entendidos também como licença de uso do site, que é regido pelo direito autoral."
É isso mesmo:
qualquer licença Creative Commons é totalmente regida por a legislação de direito autoral (as licenças, quando lançadas em países diferentes, são adaptadas para a legislação de cada um desses países, e assim aconteceu no Brasil, que não segue as regras do copyright da legislação norte-americano).
Em o Banda Larga, a novidade é que seus conteúdos -- enviados por qualquer usuário do site, inclusive por Gilberto Gil -- podem ser copiados, distribuídos, executados e servir de fonte para obras derivadas se forem observadas as seguintes condições:
a finalidade tem que ser não-comercial;
o autor da obra original tem que ser creditado;
a obra derivada tem que ser distribuída com a mesma licença Creative Commons.
Portanto: nada mais distante de um «liberou geral» ou «vale tudo».
Só vale o que o autor, neste caso Gilberto Gil, determinou que vale.
Então os dirigentes da Abramus têm razão em perguntar:
mas o que é criativo no Creative Commons?
Certamente não há ali uma novidade na lei, ou uma mudança legal.
A lei de direito autoral continua a mesma.
Tudo que as licenças Creative Commons permitem já era permitido por a lei.
E mais importante até:
já eram práticas comuns, sobretudo na internet.
O que o Creative Commons faz de útil é trazer essas práticas para o âmbito legal, codificando-as em licenças com textos claros, baseados na legislação vigente, que facilitam a vida de criadores que querem sinalizar para o mundo que incentivam determinados usos de suas obras, vedando outros usos, mas sempre mantendo integralmente seus direitos.
Sem as licenças do Creative Commons, cada autor teria que escrever -- ou contratar advogados para escrever -- suas licenças pessoais (o que continua podendo fazer, inclusive pode usar outros tipos de licença, criadas por projetos similares ao Creative Commons) dizendo quais os usos permitidos para seus trabalhos.
A aceitação das licenças -- hoje já são mais de 150 milhões de obras licenciadas em Creative Commons -- mostra que muitos criadores, sempre voluntariamente, consideram que essa codificação é vantajosa (mesmo comercialmente), simples, prática, e permite maior proteção e controle de suas obras, sem a necessidade de intermediários, acelerando assim sua circulação na internet e fora de ela.
Mais uma vez: o resultado buscado é o contrário do «vale tudo» -- trata-se do fortalecimento do direito de autor exercido por o próprio autor (e não por intermediários), com opções mais diversas do que aquelas apresentadas por as licenças tradicionais, que nos eram vendidas como se fossem as únicas possíveis.
Quem leu este artigo até aqui pode se perguntar:
mas o que está errado com as licenças tradicionais?
Nada está errado, legalmente falando -- mas elas se tornaram inadequadas para lidar com a realidade estabelecida por a cultura digital, e por a crise do modelo pré-internet da indústria fonográfica.
Mesmo as chamadas grandes gravadoras (que são cada vez menores -- no Brasil elas têm atualmente apenas 92 artistas contratados) já perceberam que não dá para lutar contra a maré digital.
A Universal e a EMI agora vendem música na internet sem o DRM pois viram que a proteção era muito ruim comercialmente.
E para quem não tem gravadora -- a maioria da gente que faz música -- é inegável que a situação atual, mesmo ainda confusa, se revela como uma incrível e inédita oportunidade, e não como uma ameça, pois permite que suas obras tenham acesso a mercados e meios de distribuição com amplitude, vigor e independência completamente inviáveis no passado.
Todo dia surgem novas formas locais e mais baratas de gravação, reprodução, distribuição, divulgação etc..
É uma situação francamente positiva do ponto de vista da inclusão democrática, da diversidade e, em última análise e por isso mesmo, da eficiência competitiva no mercado.
Quem tem música boa e disposição para o trabalho (mesmo as velhas gravadoras), não precisa temer os novos tempos.
Os governos devem garantir que grupos diferentes possam exercer plenamente essa oportunidade, que possam ter acesso aos equipamentos -- inclusive ferramentas para proteção legal -- que facilitem seu trabalho criativo.
Em o ano passado, fazendo o programa Central da Periferia, pude conversar com muitos dos músicos mais populares hoje no Brasil, quase todos pertencentes à maioria que não tem contrato com gravadoras, grandes ou independentes.
Eles mesmos produzem seus «CDs» «em casa», e aí sim liberam geral, torcendo para que sejam vendidos por a pirataria (onde mais vão vender, se as lojas de disco fora de Rio e São Paulo sumiram?)
Ou seja, ficam totalmente desprotegidos.
É obrigação portanto do Ministério da Cultura pensar em como proteger essa maioria, trazendo-a para a legalidade, mas uma legalidade realista, não fantasiosa, sem fingir que vivemos no mundo de antes dos computadores com gravadores de DVD, sem querer numerar CDs logo agora que os CDs estão condenados a desaparecer, sem proibir a cópia de músicas de CDs legalmente comprados para tocadores de MP3 (como a lei brasileira, se interpretada ao pé da letra, proíbe), sem propor marcas d' água digitais que não funcionam (e criam riscos de que nossas vidas na rede sejam vigiadas totalitariamente por gravadoras e outras empresas de mídia).
É esse debate, é essa procura de novos caminhos, de novos modelos de negócio, mais colaborativos, mais descentralizados, mais independentes de 3 ou 4 intermediários monopolistas, que tanto o ministro Gilberto Gil, quanto o artista Gilberto Gil querem incentivar.
Artista tem que poder viver de suas criações.
Nada a ver portanto com a idéia que a distribuição de música tem que ser integralmente gratuita, ou outro projeto quixotesco semelhante.
Para isso sim, é preciso ser muito criativo.
De nada adianta chorar com saudade do tempo em que as grandes gravadoras funcionavam (mas sempre funcionaram para poucos, e hoje há muito mais gente produzindo música por aí).
Muita coisa vai mudar.
Muita gente vai perder empregos (como os monges copiadores de manuscritos da Idade Média tiveram que partir para outros trabalhos depois da invenção da imprensa).
O tempo pode ser cruel para alguns, mas não pára.
E como disse Antônio Cícero, numa de suas belas composições:
«quem vai colar / os tais caquinhos / do velho mundo».
É preciso enfrentar o problema.
Os caquinhos estão todos espalhados por a internet, em milhões de samples que são o motor principal (e ainda muitas vezes ilegal) da criatividade contemporânea.
Contar com soluções já ultrapassadas -- como o DRM -- é suicídio (também para o " business ").
Não há soluções fáceis.
É preciso experimentar muito -- e o Ministério da Cultura pode criar um ambiente que possibilite as mais variadas experimentações, já que do sucesso de algumas de elas depende a saúde da indústria criativa brasileira no futuro.
Mas esperar que a solução venha do governo, é querer vida fácil demais.
Somos todos cidadãos grandinhos, temos que tomar conta de nossas vidas, de nossos direitos.
Para terminar:
na semana passada o ministro Gilberto Gil proferiu uma das conferências principais do seminário Tecnologia Emergente, do Massachusetts Institute of Technology (MIT).
A repercussão na internet foi imediata.
Até o CNet, site central para a divulgação das novidades tecnológicas e que raramente fala do Brasil, publicou matéria elogiosa sobre a reflexão avançada acerca de cultura e direitos autorais proposta por Gil.
Ainda este ano nosso ministro foi para Sevilha participar de outro colóquio, chamado Criatividade e Inovação na Cultura Digital, ao lado de uma seleta turma de convidados, entre eles o sociólogo Manuel Castells, o neurocientista Antônio Damásio e o urbanista Sir Peter Hall.
Cito esses acontecimentos -- apenas dois, entre vários outros recentes e da mesma importância -- para mostrar que o Brasil conquistou notável presença internacional num debate de ponta.
Em todo mundo, há curiosidade para conhecer melhor o que estamos pensando sobre direitos autoriais e cultura por aqui.
Viramos referência num assunto, mais que decisivo e crítico para qualquer indústria criativa planetária, no qual até então ocupávamos posição (segundo as visões mais benevolentes) secundária.
Vamos agora arregar?
Tenho essa mania de pensar sempre grande:
não admito que sejamos condenados a ser um país medíocre:
quero o Brasil indicando novos bons caminhos para o mundo, não quero o Brasil entrando num beco sem saída por medinho DRM, ou por apego ao que já passou.
Vamos encarar o desafio que o mundo da internet nos propõe?
Cantando, então (será que violo algum direito autoral?):
«chegou a hora dessa gente bronzeada [e digitalizada!]
mostrar seu valor ..."
uma versão reduzida deste texto foi publicada no caderno Ilustrada, Folha de S. Paulo, no dia 06/10/2007 (l ink apenas para assinantes)
PS: Em a semana passada, aqui no Rio, levei um sobrinho de 15 anos e outro de 9 anos para assistir o Video Games Live.
O que mais me impressionou foi a reação da platéia quando apareciam os filmes com as saudações dos criadores ou compositores das trilhas sonoras do jogos.
O público aplaudia com entusiasmo impressionante, consagrando-os como heróis.
Gente (geralmente japonesa) como Hideo Kojima, criador do Metal Gear Solid, ou Koji Kondo, compositor do Zelda e do Super Mario Bros.
Gente que inventou novas formas artísticas, com novos modelos de negócio (cada vez mais independentes de cópias fisicas facilmente pirateáveis) baseados em serviços de assinatura e outras estratégias de venda que sabem tirar partido da internet.
Toda modalidade artística deveria tomar lições com os games -- cada vez mais originais, mais ousados e bem-sucedido como produtos comerciais.
Novamente: gente (venerada por as novas gerações assim como David Bowie e Francis Ford Coppola foram venerados por a minha) que não fica chorando por os cantos, contra o novo, apegada ao que passou.
Número de frases: 98
Gente que tem mais o que fazer / criar.
Quis escrever esse texto buscando refletir um pouco acerca da questão da visibilidade ou invisibilidade no Overmundo.
Então me vem à memória uma certa discussão que tive sobre determinada diagramação de texto onde tínhamos um título maior, informações variadas agregadas a este título (várias palavrinhas com cores variáveis do branco ao laranja passando por o amarelo, tudo sobre um fundo de tijolos amarronzados), e uma frase que deveria ser compreendida e destacada.
Acontece que minha cliente se incomodou com o fato de haver espaços entre a tal frase e as informaçõezinhas variadas, e haver um espaço menor -- na verdade coloquei próximo para que fossem associados entre si -- entre o título e as tais informaçõezinhas que ficariam bem abaixo, em determinado posicionamento.
Tentamos nos destacar no Overmundo, mais ou menos nos guiando por referências antigas, de um mercado que valorizava poucos e criava mitos vivos, com seguranças, secretárias, assessores, etc..
Entretanto, como Hermano Vianna destaca em algum de seus textos, essa configuração toma atualmente outro rumo.
Não há destaque especial no Overmundo.
De aí a angústia para que possamos ser reconhecidos.
Pude, ao ler certa discussão, notar que o espaço de debate se privilegiou quando algumas pessoas começaram a freqüentar e comentar sobre o texto de certo companheiro da cidadeOvermundo.
Mas quantos leram e comentaram neste espaço?
Não mais que 20, 25 pessoas!
Então a quantidade no overmundo é menor, é desprezível?
Creio que não deve ser comparada a outros meios de comunicação de massa que valorizam certos perfis de audiência e com isso ganham crédito para aluguel de anunciantes etcblablaba.
Mas não é desprezível não!
Já somos mais de dez mil habitantes!!!
Entretanto, o que me chama a atenção identicamente e talvez com mais força em minha percepção é o fato de que os comentários acerca do material disponibilizado sejam muitas vezes como já foi dito «nada a ver».
Destacaria duas questões sobre isto:
uma é a de que somos hoje frutos de uma urgência pós-moderna que não nos facilita a horizontalização e a observação multifacetada de ângulos e possibilidades, calmamente e com precisão.
Então somos rápidos, estenográficos, telegramizados, sintéticos e lacônicos, porém no lugar-comum, na não-crítica, no dizer-para-crescer karma.
Há sem dúvida aqueles que o fazem para ganhar pontos e outros que não possuem conhecimento sobre determinado assunto, não o abordando de modo aprofundado.
Entretanto esta maneira de lidar com a informação que vem do outro e analisá-la sem críticas é fruto indiscutível de uma árvore que privilegia os sucos advindos do imediatismo que se iniciou com a cultura de massas nos anos 60/70 e alcançou o ápice no segundo milênio com a Internet que se ramificou indiscriminada e livremente (ainda bem!).
Mas a Internet não atingiu seu forte, sua potencialidade maior que poderia ser associada -- e aí fica o meu segundo destaque -- a uma qualidade e riqueza de trocas de saberes que corresponderia, por exemplo, no Overmundo, a um aprofundamento nos comentários críticos (sempre) sobre idéias.
Aqui no Overmundo não somos 9.999 pessoas num estádio de futebol assistindo a um ídolo.
Somos 10.000 criadores observando a nós mesmos e trocando (músicas, textos, idéias, concepções de vida ...).
Imagine o cálculo:
Cada overmundense possui 3 produções.
São 30.000 produções!
Como cada pessoa dessas 10.000 poderá ler as 29.997 produções outras existentes?
As combinações possíveis ultrapassam a casa do bilhão!
Tudo bem que nem todos produzem e muitos apenas lêem o que foi produzido.
Mas também muitos produzem bem mais que 3 ações culturais.
Só no universo Overmundo, somos maiores que todo o número de habitantes do planeta em número de combinações de informações.
Estatísticas a parte, devemos, creio, nos preocupar com a qualidade dos comentários, cultivar nossos próximos e as proximidades e afinidades.
Com isto disseminamos a riqueza inteira de cada pessoa, suas peculiaridades, os movimentos de grupos que tencionam a liberdade de expressão e a busca por um ser humano mais completo dentro de suas inevitáveis complexidades.
Assim, como na tal diagramação que cito ao início do texto, vamos nos agrupando em conjuntos que se valorizam isoladamente e que, desta maneira, valorizam o todo em que se inserem, sem neutralizar, sem competir ou rivalizar.
Apenas somando, multiplicando para dividir os bons frutos.
Vamos em frente.
Abraços,
Fabio Campos
OBS. Aproveito e envio algumas músicas de minha autoria.
Fazem parte da produção da CidadeOvermundo!
Número de frases: 41
Os livros «Dear Friends» (Queridos Amigos ") tiveram origem na história de cada um dos três estudantes que os escreveram:
Marcelo, Albert e Yaeger.
Brasileiro, filipino e haitiano, respectivamente.
Os três vivem nos Estados Unidos e isso já explica muito a origem e a razão do trabalho que realizaram.
São três livros individuais e um outro escrito coletivamente por as seis mãos.
Eles foram realizados como uma tese de fim de curso da universidade americana California College of the Arts.
As páginas falam de muita coisa:
design gráfico, artes, política, pobreza, desigualdade social, estética, violência, trabalho coletivo, mídia, histórias, pessoas.
Plano de viagem:
Haiti, Brasil e Filipinas.
Objetivo:
Entrevistar pessoas, entender as culturas, participar da rotina local.
Coletar dados, escrever um livro e formar-se na faculdade.
Culturas e origem serão palavras muito repetidas no texto que você vai ler abaixo.
É quase impossível falar sobre qualquer aspecto dos livros que foram escritos sem que essas duas idéias sejam constantemente retomadas.
A cultura de um povo é constantemente modificada desde que inventaram o primeiro barco e as diferenças e semelhanças começaram a ir e vir.
Já a nossa origem é uma:
definida, quase uma marca de nascença, impossível de ser apagada.
As diferenças e semelhanças, roupas, algumas meias, câmeras fotográficas e gravadores foram colocadas nas malas dos três estudantes:
era hora de voltar para casa (com ou sem aspas):
Haiti, Brasil e Filipinas, nessa ordem.
Pouco antes da viagem começar, o Haiti foi cancelado.
O motivo foi a onda de violência vinda de diversos grupos da sociedade, inclusive de um exército, o brasileiro, que ocupava o país numa suposta missão de paz.
O cancelamento e seus motivos já serviam de alguma maneira como explicação cultural e histórica do país.
Seguiram então diretamente para o Brasil.
Viajaram ao Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Florianópolis e Porto Alegre.
Os três estavam à procura de exemplos de formas alternativas de mídia e de se trabalhar coletivamente.
Encontraram, descobriram, estudaram, conviveram e conversaram bastante com representantes do Centro de Mídia Independente, do MST e do Movimento do Passe-Livre.
Em a visão dos viajantes, a recepção (como também seria nas Filipinas adiante) foi a melhor possível.
As pessoas ajudavam sem pedir nada em troca.
O que mais chamou a atenção foi a dedicação das pessoas envolvidas nesses projetos.
Figuras como Pablo Ortellado e Graziela Kunsch (entrevista em áudio) representam bem esse empenho e vontade de criar novas formas sustentáveis de trabalhar e realizar projetos.
Com o caminho percorrido no Brasil (e o mesmo se repetiu nas Filipinas depois, onde Marcelo contou que se sentiu muitas vezes em casa, tamanha era a similaridade das realidades), assuntos como culturas, mídia, origem e política começaram a se misturar, afinal, está tudo interligado.
E no meio disso tudo estavam as pessoas às quais eles dedicaram o título do projeto.
São mais de 193 nomes que eles lembram de cabeça, mais de 4 mil registros fotográficos, 70 horas de entrevista, incontáveis páginas de anotações e uma mala nova adquirida e completamente lotada de materiais recolhidos.
Antes disso tudo ser realizado, os três autores se conheceram nos corredores e nas salas de aula da faculdade.
Três imigrantes (ou com pais imigrantes, no caso do haitiano Yaeger e do filipino Albert) que só se encontraram por causa do passado de cada um de eles que deu condições para que estivessem ali, estudando numa boa faculdade americana.
Mas a origem é sempre representativa e realçada quando se vive numa cultura diferente.
Foi o que Marcelo explicou:
«eu não divido com eles (americanos) o mesmo passado cultural, então referências à cultura popular não faziam sentido pra mim, e até hoje isso acontece em pequenas instâncias.
A o passar do tempo também notei que ser de outra cultura muito diferente da americana me dava um ponto de referência único sobre vários assuntos».
Marcelo explica um pouco mais do contexto que aproximou os três.
«Lembro que eu e o Yaeger começamos a conversar pela primeira vez ao assistir a apresentação da turma de design anterior à nossa.
Notamos que o painel inteiro era composto por homens anglo-americano, brancos e heterossexuais e como isso era bastante típico da nossa profissão e refletia uma realidade maior que nossa comunidade».
Essas questões os fizeram pensar sobre o mercado de trabalho, o papel de um designer gráfico na sociedade, o que isso tinha a ver com origem de cada um de eles e para onde eles iriam de ali em diante.
Como a comunicação se encaixa nisso?
Os três amigos respondem:
«nós nos comunicamos por uma necessidade de comungar (ligar-se, unir-se) com outros, revelar o que causa dor e dividir o que dá alegria.
Comunicamos contra nossa solidão e contra a solidão dos outros».
A coceira que isso tudo causou foi sendo transformada no plano de viagem.
E tudo começou a tomar forma com o apoio dos professores e da ajuda financeira do American Institute of Graphic Arts.
É sempre delicado falar sobre as diferenças de comportamento entre os povos.
É perigoso cair nos lugares mais que comuns da cordialidade brasileira ou da frieza do americano e tomá-los como marcas definidoras dessas identidades.
como se todo brasileiro estivesse sempre disposto a ajudar e todo americano não desse a mínima para os problemas dos outros.
Mas não há como negar que as diferenças existem sim, e o exemplo de Marcelo em relação a esse tema é muito interessante:
«se num grupo de americanos um é deixado pra trás, é responsabilidade de ele correr atrás do grupo.
Ninguém vai deixar de seguir para que outros tenham a mesma chance.
Se o mesmo acontece no Brasil, o grupo irá esperar para que o que ficou pra trás consiga se juntar a eles, pois a integridade do grupo é importante como a dos indivíduos».
O futuro?
Ao passo que cada um de eles vai acertando a vida de recém-formado e, no caso de Marcelo, tem que lidar com a renovação do seu visto, eles tentam dar continuidade ao projeto e com o que aprenderam em ele.
Mas por a ótima recepção que tiveram do público, as chances de publicar e lançar os livros são boas.
Eles foram finalistas da Student Achievement Awards da Adobe e para levar o trabalho a um público maior, os três já entram em contato com editoras e donos de galeria que demonstraram bastante interesse.
Enquanto ela não sai, os três continuam refletindo sobre o tema, agora escrevendo um artigo sobre a interseção de arte e pensamento político radical, para ser publicado na AK Press.
Número de frases: 63
Um carnaval de ritmos dentro de outro.
Assim é o Rec-Beat, festival que há 13 anos acrescenta um molho especial ao enorme cardápio musical que é o carnaval pernambucano.
Treze anos se passaram e em meio a tudo que acontece nos carnavais do Recife e Olinda, o festival Rec-Beat cresce e continua como um frescor de vitalidade na cena musical pernambucana, brasileira e internacional.
Sempre antenado com as novas tendências da música mundial, a cada ano o festival leva multidões ao palco instalado no Cais da Alfândega para conferir e se surpreender durante as quatro noites de shows com atrações que transitam da tradição às novas tendências."
Esta é a melhor forma para o Rec-Beat se reciclar, mantendo seu conceito inicial:
trazer novidades e linkar a tradição com novas tendencias», afirma Antônio Gutierres, Gutie, produtor e idealizador do evento.
Esta mistura de ritmos e de sons diferentes acabou por inspirar o atual modelo do Carnaval Multicultural do Recife, onde todos têm vez, do frevo ao rock, do maracatu à música eletrônica."
Acredito que um festival como o Rec-Beat tem a obrigação de buscar coisas novas, ou atrações conhecidas mas que dificilmente viriam pra o Recife», salienta Gutie.
Bandas nacionais -- De entre estas coisas novas e que chegam pela primeira vez à cidade durante o carnaval temos atrações brasileiras como Lucy and The Popsonics (DF), Os Outros (RJ), Marina de la Riva (SP), Porcas Borboletas (MG) e boTECOeletro (RJ).
De acordo com Gutie, " o que fez o festival abrir para outras bandas foi o crescimento do festival e também o crescimento e profissionalização das bandas pernambucanas.
O Rec-Beat hoje cumpre uma função de intercâmbio entre bandas independentes daqui e de outras regiões do país».
Conexão Latina -- E com nomes conhecidos internacionalmente, o Rec-Beat chega neste ano com um perfil que privilegia novos grupos latinos.
Orquesta Tipica Fernandez Fierro (Argentina) e Panico (Chile) reforçam o caráter latino do festival, reflexo da participação do produtor na formação de uma associação Ibero-Americana para festivais, uma espécie de Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes) para a América Latina."
Em os últimos anos tenho voltado minha atenção para a nova produção musical dos paises vizinhos.
Em o ano passado estive na Argentina, numa feira de musica, onde conheci novos grupos», revela o produtor.
A 13ª edição do festival também reserva outros grandes encontros no palco do Rec-Beat, como o do lendário guitarrista de ska americano Chris Murray com a banda paulista Firebug, do grupo Fino Coletivo com Davi Moraes, além da presença do grupo paulista QG Imperial junto do pioneiro do reggae brasileiro Ras Bernardo.
E comemorando 20 anos de atividades, a banda Devotos ganha de presente um show explosivo com a participação de Clemente, ícone do punk paulista e líder do Inocentes, banda que serviu de inspiração para Canibal criar o já conhecido punk-rock-hardcore, no Alto José do Pinho.
Cena local -- De entre as atrações pernambucanas, o festival privilegiou grupos recentes da cena pernambucana e de estilos diversos.
Representando a música eletrônica, tem o grupo Julia Says, revelação do cenário local;
a fusão de ritmos da música tradicional da Zona da Mata com côco e afoxé na cantoria de Isaar;
a elegante releitura da música francesa por a Bande Ciné;
o samba de mesa do Trio Pouca Chinfra e a Cozinha, o reggae de raiz da Ramma Seca e ainda a alegre e efusiva música da Orquestra Contemporânea de Olinda.
A princípio, o folião de outros estados pode estranhar a ausência de grandes nomes do movimento manguebeat e do atual cenário pernambucano, mas Gutie lembra que «Nação Zumbi, Eddie e Mundo Livre, entre outras, já passaram por o festival inúmeras vezes quando o festival era importante para elas e quando não tinham espaço em outros palcos».
Em a atual programação do Carnaval Multicultural do Recife, essas mesmas bandas fazem shows em vários palcos da cidade e em diversas datas ao longo do ano."
Acho que seria redundante o Rec-Beat escalar essas bandas também, sendo que tem tanta coisa nova pra entrar na programação», explica.
Nascedouro -- Outra importante novidade na programação do festival deste ano é que ela não ficará restrita ao Cais da Alfândega, no Recife Antigo.
O Rec-Beat 2008 se expande e cria mais um pólo de atrações nas tardes de domingo a terça de carnaval.
Em estes dias, a partir das 15h, o Nascedouro de Peixinhos será palco para algumas das principais atrações do evento, que traz em sua programação nomes de peso da cena pernambucana.
A programação especial começa todos os dias com agremiações carnavalescas tradicionais do estado.
E encerrando cada uma das noites do festival, o palco do Nascedouro recebe pela primeira vez os shows de consagradas bandas pernambucanas:
Samba de Coco Raízes de Arcoverde, Devotos e Cordel do Fogo Encantado.
Eventos vespertinos -- Além dos shows, o Festival Rec-Beat promove outros eventos especiais nas tardes de domingo e segunda-feira no Cais da Alfândega.
A concentração do irreverente Bloco Quanta Ladeira, acontece no domingo de carnaval, a partir das 16h, sob o comando do compositor Lula Queiroga em companhia de Lenine e diversos convidados que caem na farra para apresentar sátiras musicais politicamente incorretas.
Em o dia seguinte, segunda-feira, a partir das 17h, é a vez dos foliões mirins se encontrarem no Rec-Bitinho, um evento especial que contempla o público infantil, neste ano com a presença da Companhia Carroça de Mamulengos (CE), uma trupe de saltimbancos formada por uma família de 11 integrantes com espetáculos que utilizam bonecos, teatro, circo e música.
História -- É essa diversidade de sons e ritmos que norteia o Rec-Beat ao longo de sua trajetória e o consolida como uma referência entre os principais festivais independentes do Brasil.
Já passaram por o festival em edições anteriores importantes nomes da música nacional como Seu Jorge, Replicantes, Isca de Polícia, La Pupuña, Trio Mocotó, Fellini e ainda shows especiais como o Instituto com tributo ao Tim Maia Racional, que aconteceu em 2007, trazendo como convidados Thalma de Freitas, B Negão e Carlos Dafé.
Estrutura -- O festival, que é gratuito, conta com patrocínio da Prefeitura do Recife e acontece de 02 a 05 de fevereiro, entre o Sábado de Zé Pereira e a Terça-feira Gorda.
O Rec-Beat é realizado no palco do Cais da Alfândega, Pólo Mangue, no Recife Antigo -- local com capacidade de abrigar até 20 mil pessoas por noite e um dos mais belos cartões-postais da cidade.
-- REC-BEAT 2008
Palco Alfândega (as margens do Rio Capibaribe)
Recife Antigo -- Recife / PE
Sábado -- 02/02 -- A partir das 20h00 *
00h30 -- Devotos (Partic.
Clemente) (PE / SP)
23h00 -- QG Imperial & RAS BERNARDO (SP / RJ)
22h00 -- Os Outros (RJ)
21h00 -- JÚLIA SAYS (PE)
20h00 -- RAMMA Seca (PE)
Domingo -- 03/02 -- A partir das 16h *
00h30 -- Móveis Coloniais De Acaju (DF)
23h20 -- boTECOeletro (RJ) --
Marina De La RIVA (SP)
21h00 -- Orquestra Contemporânea De OLINDA (PE)
20h00 -- ISAAR (PE)
16h30 -- Concentração do Bloco Quanta Ladeira
Segunda -- 04/02 -- A partir das 17h *
00h30 -- Panico (Chile)
23h10 -- CHRIS MURRAY & FIREBUG (Canadá / SP)
22h00 -- Fino Coletivo (Partic.
DAVI Moraes) (RJ)
21h00 -- Metaleiras da Amazônia (PA)
20h00 -- Trio Pouca CHINFRA E A Cozinha (PE)
17h00 -- RECBITINHO -- Carroça De Mamulengos (CE)
Terça -- 05/02 -- A partir das 19h30 *
01h00 -- Pato FU (MG)
23h45 -- LUCY And The POPSONICS (DF)
22h30 -- ORQUESTA Tipica FERNANDEZ FIERRO (Argentina)
21h20 -- Porcas Borboletas (MG)
20h00 -- LES FRÈRES GUISSÉ (Senegal)
19h30 -- BANDE CINÉ (PE) *
DJ Bruno Pedrosa vai discotecar antes do início dos shows e nos intervalos *
VJ Milena Sá ficará responsável por as projeções de imagens durante os shows
Festival REC-BEAT 2008 -- Palco Alfândega
Datas: De 02 a 05 de fevereiro (Sábado a Terça de Carnaval)
Local: Cais da Alfândega (às margens do Rio Capibaribe)
Recife Antigo -- Recife / PE
Capacidade do local:
20 mil pessoas
Entrada Franca Mais informações:
Número de frases: 79
www.recbeat.com São Paulo, 10 de Março de 2007.
Ata da Plenária da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde.
Local:
Auditório da Secretaria Especial para Participação e Parceria da Prefeitura do Município de SP.
Apoio:
Coordenadoria dos Assuntos da População Negra.
Abertura.
Orações á Exú -- Orixá da comunicação.
Considerações iniciais e boas vindas.
* Iyalorixá Maria Cristina Martins -- Secretária Executiva do Grupo de Valorização do Trabalho em Rede.
* Ronaldo de Abreu Almeida -- Diretor Geral do Grupo de Valorização do Trabalho em Rede.
* João Carlos Benício -- Coordenador Interino da Coordenadoria dos Assuntos da População Negra.
Apresentação dos presentes:
* Coordenadoria dos Assuntos da População Negra.
* Coordenadoria -- Capela do Socorro/PMSP.
* Ile Oxum e Xangô.
* AEPIR -- Araraquara.
* Centro de Referência Afro -- Araraquara.
* Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente -- PMSP.
* GRUMIN -- Grupo de Mulheres Indígenas / SP.
* Associação Indígena Cariri.
* Ile Asé Ode Ofa Okân.
* Diretoria Geral e Associados do GVTR.
COPIRE / Governo de Santos -- enviou e-mail justificando sua ausência, dizendo estar á espera das decisões da plenária para estabelecimento de parceria.
Sessão de Informes de interesse público.
II Seminário Paulista da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde.
O relatório final do seminário encontra-se disponível em www.crt.saude.sp.gov.br
Estão sendo entregues os documentos finais do II Seminário Paulista da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde.
Os documentos elaborados por a plenária final do evento estão sendo encaminhados e as resoluções também.
GT Religiões / Coordenação Estadual de DST / Aids.
GT Religiões retomará seu trabalho neste mês de Março.
Paula de Oliveira e Sousa entende que é preciso encaminhar as questões previstas no planejamento do grupo (ata de Dezembro / 2006) e conta com apoio da Gerente de Prevenção para a implementação das ações.
Capacitação sobre assistência envolvendo as questões de medicina tradicional e sífilis congênita, oficinas de capacitação sobre aids e religião no universo homossexual e ampliação do debate entre os profissionais do Centro de Referência e Treinamento em DST / aids são as linhas de frente do grupo.
A reunião está prevista para o dia 15 de Março na Igreja Anglicana / Marechal Deodoro.
Importante que todos saibam que as Religiões Afro-Brasileiras vem se mostrando parceria do Estado no combate á aids, ora por meio do GVTR e outrora via Rede Nacional, mas esta parceria não resultou ainda em ações concretas, tal como a produção de materiais específicos, e coisas do gênero.
Comitê Técnico de Saúde da População Negra -- SES / SP.
Entre as propostas cogitadas na Reunião de Planejamento do CT, para as ações de 2007 está a produção de pesquisa sobre religiões afro-brasileiras / medicina tradicional.
CAMS / Comissão de Articulação com os Movimentos Sociais -- PN.
Em este mês de Fevereiro ocorreu a apresentação de Pai Celso na Comissão de Articulação com os Movimentos Sociais do Programa Nacional de DST-Aids / Ministério da Saúde, ocupando cadeira de suplente de José Marmo / Secretário Executivo da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde.
A CAMS é um espaço consultivo do Programa Nacional, onde são pactuadas as principais ações do governo com a Sociedade Civil Organizada.
Ministério da Saúde / Humanizasus.
Encontra-se disponível no site da Política Nacional de Humanização, nota referente ao II Seminário Paulista da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde.
06 anos do GVTR
Já foram iniciadas as articulações referentes ao sexto ano de aniversário do GVTR.
Propõe-se uma festa ao invés de um seminário como de costume, previsto para 03 de Maio, ás 18h/22h na Câmara dos Vereadores.
Entende-se que a ocasião pode ser também o palco da solenidade de entrega do Prêmio Afroaids III, para isto recomenda-se a realização de uma reunião e formação de uma comissão especifica para pensar o formato do prêmio e que a esta Comissão seja delegado o dever de pensar o formato do prêmio (indicações exclusivas do GVTR) e a Temática:
Humanização nos seis anos de GVTR.
Oficio da SMS / Área Temática de Saúde da População Negra referente á reunião do Comitê Assessor de Consensos Técnicos em Saúde da População Negra.
A Secretaria Municipal de Saúde enviou ao GVTR, Oficio No. 018 referente á convite para reunião do Comitê, dia 16 Março, no Conselho Municipal de Saúde, ás 14h.
Trata-se de um espaço técnico onde serão discutidas as questões saúde da população negra e outras etnias, para Assessorar as decisões da Secretaria Municipal de Saúde.
Boletim Religiões Afro-Brasileiras e Saúde.
Disponibilizada a edição de número cinco do Boletim Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (por e-mail), na segunda quinzena de Fevereiro, trazendo informações de caráter diversificado sobre as questões cogitadas por a Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde.
Espera-se para Abril, a edição de número seis, com editorial de Liliana Tófoli.
Em esta ocasião, estará também entre a pauta do boletim, o aniversário do Grupo de Valorização do Trabalho em Rede e a devolutiva dos eventos que acontecerão ao longo do mês de Março.
Comissão Municipal de DST / Aids
O Babalorixá Celso Ricardo de Oxaguián, foi indicado no dia 07 de Março para a Coordenação da Comissão Municipal de DST / Aids do Conselho Municipal de Saúde.
O GVTR é membro suplente da ALIVI nesta comissão e tem participado ativamente de suas atividades.
Agenda externa.
Seminário de Aids e Controle Social -- 30/31 de Março, no Hotel Brastom da Rua Martins Fontes.
Trata-se de uma ação do Programa de Aids da Cidade de São Paulo em parceria com a Comissão Municipal de DST / Aids do Conselho Municipal de Saúde.
O GVTR é membro da comissão organizadora.
Seminário Nacional da Rede de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde -- será realizado em Fortaleza entre 27 e 29 de Março.
Entre as pautas cogitadas por o seminário estão a Política Nacional de Atenção Integral á Saúde da População Negra e os Pactos de Gestão do Sus.
A Prefeitura de São Paulo, que vai participar do evento, anunciou seu interesse em pleitear a realização do seminário na Cidade de SP em 2008, já que ao termino de cada um dos seminários nacionais, é eleita a cidade sede do próximo seminário (candidatura).
Seminário Paulistano de Combate ao Racismo / Anhembi 12/14 de Abril -- O GVTR é parceiro da Coordenadoria dos Assuntos da População Negra nesta atividade.
Trata-se da revisão das práticas governamentais em relação ao combate ao racismo.
Pretende-se também, ampliar a participação popular em relação á gestão da Coordenadoria.
O evento está associado á eleição de Conselho Gestor e o eixo central do seminário vem falar da relação do Estado com a Sociedade Civil.
Projeto Oficinas de Humanização da Saúde:
GVTR / CONE 2006.
O relatório do projeto encontra-se disponível na Diretoria do GVTR.
O documento é um registro de todo o processo desenvolvido conjuntamente com a Prefeitura de SP, por meio das discussões relacionadas á humanização da saúde e a visão de mundo das Religiões Afro-Brasileiras, frente ás questões étnico-raciais e religiosas.
Relatório de Progresso da Agenda de Compromissos de 2006.
A Iyalorixá Cristina Martins -- Secretaria Geral do GVTR, apresenta o conjunto de ações realizadas por o GVTR ao longo do ano de 2006, bem como seus resultados (cf Relatório de Progresso da Agenda de Compromissos / 2006, disponível na Diretoria Executiva do Grupo).
Agenda Política de 2007 e o fortalecimento da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde no Estado de SP.
O Babalorixá Celso Ricardo Monteiro / Coordenador Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde -- SP, passa a apresentar as metas e proposições do GVTR para o ano de 2007.
Tal programação foi construída a partir das conclusões das duas oficinas de monitoramento da agenda de compromissos de 2006.
De tais oficinas o GVTR trouxe desafios consideráveis para a continuidade do trabalho:
1.
É preciso Ampliar a participação do povo de santo nas ações políticas;
2.
Identificar atores / atrizes para protagonizar as ações locais;
3.
Qualificar a comunicação (no real sentido da palavra);
4.
Ampliar o debate sobre temas polêmicos, iniciando por a transformação das mesas do II Seminário Paulista da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde, em oficinas temáticas;
5.
Dar reposta á questões de clandestinidade dos Terreiros (conforme pendência da Agenda de Compromissos do GVTR);
6.
Estabelecer parcerias, considerando a adequação das linguagens, o respeito aos códigos e símbolos dos diferentes seguimentos representados nesta articulação;
7.
Informar, formar e capacitar atores (membros da comunidade de Terreiro) para que todos tenham acesso a direitos e executem seus deveres plenamente;
Em concordância com o planejamento estratégico, optou-se então por dar encaminhamento ás ações relacionadas á:
desenvolvimento institucional (do GVTR), fortalecimento das comunidades de Terreiro frente ás questões de intolerância religiosa, preconceito racial e racismo institucional e reconhecimento dos Terreiros como núcleos de promoção de saúde (por o Governo).
Entre as propostas para 2007, apresentam-se às diretrizes da Campanha de 2007, considerando que esta é fruto do II Seminário Paulista da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde, realizado em Novembro:
Campanha da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde: "
2007 -- Educação Permanente para Humanizar a Saúde».
Objetivo Geral
Fortalecer a atuação da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde, por meio de intercâmbio, troca de experiências, articulação política e estabelecimento de parcerias (entre as Comunidades de Terreiros e o Sus);
Estratégias e Cronograma:
Data Atividade
Mar.
A apresentação do relatório final do II Seminário Paulista da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde -- Novembro / 2006.
Mar / Dez.
Debate e oficinas educativas (capacitação e instrumentalização dos atores) sobre religião e ciência / conceito de saúde, com vistas para a discussão referente aos diferentes conceitos de saúde;
Mar / Set.
Realização de encontros / seminários municipais em cidades núcleos ou potenciais núcleos da Rede, tendo Educação Permanente como eixo central, para ampliação e fortalecimento da Rede, de forma que estes seminários contribuam com a realização do III Seminário Paulista da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde.
Municípios:
São Paulo / adjacências;
Campinas / Hortolândia;
Baixada Santista: Santos e Peruíbe;
Araraquara / região, além dos núcleos já existentes da Rede.
Set.
Disponibilização de texto base sobre Religiões Afro-Brasileiras e Educação Permanente em Saúde, a partir dos encontros / seminários municipais;
Mar / Set.
Continuidade do mapeamento referente á Mostra de Experiências em Religiões Afro-Brasileiras e Saúde da população Negra, conectado aos Oito Objetivos do Milênio;
Out.
Devolutiva das propostas cogitadas (implantação, acompanhamento, monitoramento e avaliação) por o II Seminário Paulista da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde.
Realização do III Seminário Paulista da Rede e da II Mostra de Experiências em Religiões Afro-Brasileiras e Saúde e sobre Saúde da População Negra (Combater a Aids, a Malária e outras Doenças).
A campanha (cf. agenda definida anteriormente), em fase de negociação, deve juntar esforços de diferentes municípios, entre eles os núcleos da Rede de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde já existentes e os municípios em processo de sensibilização.
Comunidades de Terreiro e Gestores dos devidos municípios deverão pactuar as estratégias possíveis para execução das ações propostas, conforme possibilidades e agendas políticas, sendo que ao GVTR -- proponente, em parceria com OBRAF / Organização Brasileira de Apoio Filantrópico caberá subsidiar e implementar o trabalho, na forma como ele for pactuado.
Pretende-se, portanto, ampliar a parceria existente entre os Municípios de São Paulo, Piracicaba e São Roque e simultaneamente estabelecer parceria (ampliando a Rede), com:
* Coordenadoria dos Assuntos da População Negra -- SEPP / PMSP.
* Secretaria do Verde e do Meio Ambiente -- Prefeitura de SP.
* Assessoria de Políticas para Promoção de Igualdade Racial/AEPIR -- Prefeitura de Araraquara.
* Coordenadoria da Igualdade Racial -- Prefeitura de Santos.
* Conselho da Comunidade Negra de Peruíbe.
* Secretaria Municipal de Saúde -- Suzano.
* Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo.
* Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (diferentes setores).
* Ministério da Saúde.
Relatório Financeiro do GVTR.
Encontra-se disponível no Grupo de Valorização do Trabalho em Rede, o Relatório Financeiro referente ao período Janeiro -- Dezembro de 2006.
O documento sob responsabilidade de Valter Gelde Martins apresentado na plenária, reuni os gastos de todo ano realizados por a instituição sendo um total de R$ 2.506, 04 direcionados, integralmente á estrutura do trabalho prestado por o Grupo.
O relatório foi distribuído na reunião para apreciação de todo os participantes.
Encaminhamentos.
Definir responsabilidades da Agenda / 2007, com os municípios:
agendar reuniões de trabalho com cada um dos governos municipais e núcleos da Rede, para definir papéis e outras questões relacionadas á campanha.
Plenárias:
que elas sejam realizadas na cidade de São Paulo, a cada dois meses.
Que a memória da plenária e a agenda política do GVTR seja amplamente divulgada o quanto antes;
Que o Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de SP, seja acionado imediatamente quanto á realização de tais ações, conforme o já pactuado.
Carta Compromisso.
A o término da atividade, Ronaldo Almeida assinou publicamente a Carta Compromisso do GVTR para 2007.
Iyalorixá Maria Cristina Martins
Secretária Executiva do GVTR.
Membro da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde -- Núcleo São Paulo.
Número de frases: 147
Copacabana está em festa.
Os fogos já foram e os primeiros shows do ano começaram.
De aqui, o olhar é para o alto.
Um cara grande está em cima de uma cadeira.
Câmera numa mão só, ele estica o corpo todo e fica na ponta dos pés.
Gira o tronco para frente e para trás, a fim de registrar o que acontece no palco e -- também -- a reação da platéia.
O cara não olha para o visor quando filma, é o que chama primeiro a atenção.
Parece confiar no olhar do olho (e não da lente) para enquadrar banda e público.
O cara olha para baixo, olha para cá.
Abre um sorriso, estica a câmera em direção à areia e pergunta:
«E aí, quer filmar também?».
Confiar a câmera a um desconhecido foi o primeiro gesto de Nilsão que vi.
O desconhecido no caso era eu.
Nilsão filmava já há algum tempo (é o que vim a saber depois) os shows da turnê dos Los Hermanos, banda cujo vocalista -- Marcelo Camelo -- é meu irmão, como o sobrenome não permitiria omitir.
Portanto, o movimento de me oferecer a câmera não era assim tão perigoso e eu, bem ou mal, não era um completo estranho.
Mas Nilsão, naquele já distante 2004, não sabia daquele elo entre a gente.
Muito menos eu.
E foi por não saber que, provavelmente, ganhei assim, de cara, tanta simpatia por ele.
Após aquela noite de conversa sobre tudo e qualquer coisa (mas também sobre o interesse comum por cinema), Nilsão me chamou para ajudá-lo no roteiro e na edição das tantas imagens que registrara da banda.
Cheguei a assistir a uma parte do material bruto, mas, por completa falta de organização, acabei não dando continuidade ao projeto.
O caso é que o documentário «Ventura» acabou sendo editado e já foi exibido em algumas capitais do país, sobretudo em cineclubes.
Vi «Ventura» e me impressionei.
Nilsão optou por entrevistar os fãs da banda em conversas improvisadas, muitas vezes em imagens fora de foco, toscas mesmo.
A banda é o segundo plano do filme, e só aparece para dar ainda mais vida aos fãs (e não o inverso, como o óbvio sugeriria).
O filme pulsa sinceridade de um jeito estranho, e se vale -- de algum modo (que honestamente tenho dificuldade de explicar) -- da total falta de comprometimento formal e clássico que Nilsão estabelece com as imagens.
* * * " Mas quem é Nilsão!?"
Nilsão é Nilson Primitivo, Primitivo Gonzales ou só Nilson mesmo.
Começou a se envolver com o audiovisual apenas aos 27 anos.
Hoje, com 40, é considerado um dos maiores realizadores independentes do país.
Independente, alternativo, marginal ...
são muitos os rótulos que já foram atribuídos a Nilsão.
A maioria por conta dos seus métodos de filmagem e montagem não-convencionais, que vão desde a revelação de negativos numa banheira à montagem do filme na própria câmera.
Isso mesmo, Nilsão não revela os negativos em laboratório e, muito menos, monta o filme em alguma ilha digital:
-- Comecei com a banheira.
Depois evoluí prum tupperware.
Fiz assim porque é muito caro mesmo.
Os negativos também são todos dados.
Eu acabo gastando muito pouco.
Para ter uma cópia do filme, eu pego carona em alguma telecinagem de algum filme de amigo, ou filmo direto da parede mesmo -- explica Nilsão, numa conversa adiada por meses, mas que finalmente aconteceu semana passada.
Mas e para editar, como é essa história de editar na câmera?
-- Eu filmo montando.
O que aparecer apareceu, cara.
Até porque o mais legal disso é que é quase um jogo, entendeu Thiago?
É meio para ver o que acontece.
É lógico que eu sei o que eu gosto, a gente conversa antes do figurino e de coisas que me interessam, mas sempre sai muito diferente, e eu já fico prevendo esse diferente.
De ficar com cor, de ficar um lado mais revelado que o outro.
Dar uns fades nuns lugares que eu não estava prevendo.
E eu assumo tudo.
Os filmes de Nilsão também são conhecidos por as colagens de áudio e por a ausência de som direto.
Os atores muitas vezes dublam uma fala ou -- em momentos mais radicais (que não são poucos) -- interpretam algum poema ou frase que Nilsão lhes pede para ler.
Tudo isso é «jogado» na pista de áudio e ajuda a emprestar sentido nos propositalmente obtusos filmes do cineasta.
O modo como ele lida com o som talvez seja uma das grandes marcas das suas obras.
Segundo o que diz, muitas vezes, a motivação de rodar um filme vem de ter ouvido a música de algum amigo:
-- Eu tenho uns amigos que fazem música instrumental completamente fora do mercado e que acho interessantíssimas, muito convergentes com o que eu quero dizer.
Mas, assistindo aos seus filmes, não é tão fácil entender o que se vê na tela -- aquilo que Nilsão quer dizer.
Ele mesmo parece saber disso.
Em este documentário / entrevista dirigido por Christian Caselli (outro famoso cineasta independente, alternativo, marginal ...),
o próprio Nilsão afirma enxergar uma linha tênue que divide a inteligibilidade das suas obras.
Já dentro da nossa conversa, ele diz:
-- Eu gosto de assumir essa dificuldade.
Acho que, a partir do momento em que tu assume sua fraqueza, você acaba transcendendo ela.
Você não fica resistindo à própria fragilidade.
Agora, por outro lado, não deixa de ser uma técnica também.
Nilsão realmente parece ter a consciência de que dificultar a compreensão da narração (porque há sim um enredo em seus filmes) é uma técnica.
Não raro, é possível ouvi-lo falar sobre alcançar o impossível, de sonhos, de loucura, de Porto dos balões (" Mas balão não tem porto!"),
daquilo que não se pode ver.
Ou, ainda, divagar sobre ligações de coisas que -- em princípio -- não combinam, como, por exemplo, o áudio e a imagem de seus filmes.
-- Gosto do insight.
Quando junta lé com cré.
Em o fundo, cara, eu mesmo não faço nada.
Eu pego um verso que eu gostei, um ator que fala bem.
O cara fala o verso que eu gostei.
Vou juntando uma coisa com a outra.
Não tem nada meu original.
Não tem nenhuma frase saída da minha cabeça.
Não vem de dentro para fora, vem de fora para dentro, entendeu?
Antropofagismo dadaísta
Em uma espécie de mistura de poesia dadaísta com antropofagismo modernista, Nilsão parece ser uma esponja, que absorve, digere, corta e cola aquilo que ouve na rua.
-- Outro dia eu escutei um rabicho de conversa.
Depois, escutei um rabicho de áudio no rádio.
E eu formei uma frase que tem um verso lindo.
«Atravessando o deserto dos caminhos, um grito abandonou meu peito», sacou?
E não era nada disso.
Fui eu que achei, «ih, isso parece não sei o quê, isso parece não sei o que lá ...».
De uma certa maneira fui eu que fiz, mas não fui eu que fiz, sacou?
Não tive uma idéia e falei assim, «vou escrever uma frase genial».
Eu escutei meio errado.
Achei, «atravessando o deserto dos caminhos ...»,
mas era outra coisa.
Era atravessando «outra coisa» dos caminhos.
E depois, «um grito abandonou meu peito».
Eu pensei, «porra, é lindo!».
Os olhos brilhando por trás das hastes pretas de lentes grossas dos óculos e a singeleza com que fala " porra, é lindo!"
contrastam bastante com o que faria sugerir aquela figura de quase 1,90m, barba por fazer e cabelo despenteado.
«Faria sugerir» já é uma fala sob um viés estereotipado e é de fato reconfortante que Nilsão consiga quebrar isso logo num primeiro contato.
Depois de muito pouco tempo, mesmo as tantas tatuagens desbotadas (ele mesmo tatua em si próprio algumas) não fazem mais imagem prévia.
Ao contrário, começa-se a entender melhor os dizeres de algumas de elas, como o «Sonhador» cravado em forma de garrancho em seu antebraço.
Sonho que ele mesmo não sabe definir com o quê.
Mas o cinema parece o ajudar a descobrir:
-- Encontrar o cinema, mesmo que tardiamente, me deixou fascinado.
Pensei, «por aqui eu consigo me comunicar, expressar um pouco o que eu estou sentindo».
Senão você fica só recebendo informação, né cara?
Se você só recebe e não transmite, você fica sem a sua liberdade, né cara?
Você fica só levando.
Assim, pelo menos, você devolve um pouco.
Zé do Caixão em 16mm
Nilsão não gosta de filmar em digital, e cita Amilcar de Castro como exemplo:
-- Perguntaram para ele por que não fazer as esculturas em alumínio, que é muito mais fácil.
Ele fazia tudo em ferro, uns monólitos maravilhosos.
Ele respondeu assim, «porque o alumínio não tem caráter».
É um pouco isso, sabe?
Ou pelo menos, o digital não tem o caráter que eu quero, sacou?
É por isso que Nilsão filma a maioria dos seus filmes com uma Bolex 16mm (emprestada) da época da 2º «Guerra Mundial --» um Fusquinha 56, uma coisa de relojoeiro», segundo ele.
Foi se valendo da sua preciosidade que Nilsão ligou para Paulo Sacramento, produtor do novo longa de José Mojica -- o Zé do Caixão --, e pediu para participar das filmagens:
-- Soube por o jornal que estavam produzindo o filme do Zé do Caixão.
Para mim, como Griffith, Orson Welles, Chaplin, ele é um dos fundamentos do cinema.
Eu tinha um rolinho só de Bolex, três minutos.
Liguei para o Paulo e me convidei para participar das filmagens.
«Primeira cena do Zé do Caixão depois de 20 anos, eu vou lá e filmo», pensei.
Mas daí eles me arrumaram mais negativos, uns sete ou oito rolos.
O Paulo me disse que o orçamento estava todo fechado, que eu não tinha como ganhar nada.
Mas tudo bem, né?
Ele disse que pode usar as minhas imagens como making of do DVD oficial, uma coisa dessas.
E eu também pretendo fazer um filme próprio com as imagens que fiz.
Se tudo seguir como programado, «A Encarnação do Demônio» deve sair no segundo semestre deste ano.
Um filme carregado de expectativa, pois fecha a trilogia idealizada por Mojica e iniciada, em 1964, com «à meia-noite levarei sua alma».
Além disso, o longa ainda traz as últimas cenas rodadas por Jece Valadão, que faleceu durante as filmagens.
Para Nilsão, a espera ainda parece ser maior.
Por quê? Quem explica agora não é ele, e sim o filho de José Mojica, Crounel Marins, em diário de bordo à época da gravação:
Foi proposta uma seqüência que necessitava de apenas mais um ator, que interpretaria o prisioneiro tatuado morto por Zé do Caixão e que vem assombrar o funerário.
Tentamos contatar o ator já escolhido para o papel, mas, não foi possível.
De repente, o Paulo teve uma daquelas idéias que só a pressão faz surgir.
Lembrando que neste filme contamos, por vários dias, com a presença do cineasta experimental Nilson Primitivo, que tomou imagens em 16mm para um documentário, resolveu convidá-lo às pressas para o papel.
Ele era imponente, quase 1,90m, e tinha muitas tatuagens por o corpo.
Mas, como chegar para alguém numa noite de sábado chuvosa e propor algo como:
«Você quer filmar hoje com o Zé do Caixão?
Teremos apenas que pintar seu corpo inteiro, usar uma maquiagem que só sairá totalmente em alguns dias, deixá-lo careca e trancá-lo por algum tempo num caixão.».
Foi mais ou menos desta forma que o Sacramento abordou o Nilson por o celular.
A resposta, imediata, foi antológica:
«E eu tenho que pagar quanto?».
Tínhamos o nosso ator, sem preparação especial para a cena, mas, com a disposição de um jogador de futebol que, do nada, tivesse tido uma chance para jogar a final da Copa do Mundo.
* * * Gosto, presente, passado e dinheiro
Nilsão não gosta de quase nada que vê atualmente no cinema.
Ele combate ferrenhamente a forma atual dos filmes e a falta de disposição dos cineastas em pensar sobre aquilo que estão enquadrando.
Acha a maioria das imagens um híbrido de TV com esporte radical.
Sempre quando começa a falar mal de alguma obra, porém, dá um corte em si próprio, comentando que é muito leviano julgar quem não conhece.
Em esse momento, ele parece começar a fazer um outro movimento, o de olhar para trás com igual senso crítico.
-- Tem uns discursos da década de 70 que nêgo fica querendo resgatar que não tem mais nada a ver, o cinema como formação da subjetividade, como queria o pessoal da Nouvelle Vague, querendo mudar o mundo por o cinema ...
Aquilo era uma coisa diferente, porque o cinema era a televisão do planeta, era o YouTube.
Hoje em dia não é mais, não tem tanto poder.
Tem ainda o cinema americano, né cara?
Mas tudo é tão louco, né?
Em a Praça da República vendem sete DVDs a R$ 10,00.
Tudo lançamento.
Não saiu aqui no Brasil ainda.
É muito barato.
E é claro que eu acho isso tudo ótimo -- comenta o cineasta que, embora santista, morou no Rio boa parte de sua vida e, há apenas um ano, mudou-se para a cidade de São Paulo.
O curioso é que Nilsão se utiliza muito pouco dessas novas tecnologias que -- de certo modo -- enaltece.
Ele mal tem os seus filmes convertidos em DVD e, por só gostar de filmar em película, faz pouco uso das facilidades de produzir em digital.
Quando chega a este ponto, a conversa acaba levando à pergunta inevitável:
com tantos filmes experimentais, que mal passam no cinema, como esse cara vive, dá pra ganhar dinheiro com o que faz?
-- Se eu fosse outra pessoa, sim.
Mas do jeito que eu sou, não.
Mas também não estou muito preocupado com isso.
Acho que a gente está fazendo uma coisa muito mais importante que trabalho.
O trabalho é uma coisa que a gente troca por dinheiro.
Para pagar o condomínio ali.
Aqui, você está tentando descobrir por uma investigação científica um desespero seu, sabe?
Acho que quem ganha dinheiro é quem chega em casa, janta, vê um jornalzinho, vai para cama e dorme.
Quem fica rolando na cama até às 6 da manhã sem saber por que não vai ganhar dinheiro.
É mais provável que essa pessoa faça um grande filme -- diz Nilsão, que em muitas vezes completa o pagamento do aluguel do apartamento em que vive passeando com cachorros ou consertando máquina de lavar:
-- É menos chato.
Você tem uma relação mais lúdica com a coisa.
Não fica querendo pagar o condominio através daquilo.
* * * Bom, a idéia aqui foi fazer um retrato do Nilsão (ser humano que, inegavelmente, admiro), muito mais até do que falar sobre os filmes de ele.
Número de frases: 175
Mas quem não viu as suas obras na Mostra do Filme Livre ou no Festival do Rio do ano passado (lugares em que foi homenageado), ainda tem a chance de assisti-las dia 2 de fevereiro, no projeto «Desvio -- Variações Possíveis», no Sesc-Rio, às 21h.
às vezes tenho a sensação de ser aquele cachorro engraçado da infância de todo mundo que tenta desesperadamente morder o próprio rabo correndo em círculos.
É que reiteradas vezes, em todos os debates, seminários e rodas de conversa de que participo, quando o assunto é algum problema que assola esse pedaço continental de planeta que é a terra brasilis, concluo que a grande culpada dos horrores que assisto cotidianamente é a falta de educação.
Faço parte de uma elite privilegiada ...
Sou filha de pais críticos e engajados, freqüentei uma escola pública com profissionais gabaritados (faz tempo já), fui à universidade, desenvolvi ao longo da vida o gosto por a leitura e por o conhecimento.
Mato Grosso do Sul está perto da marca dos 20 mil casos notificados de dengue (até 06 de fevereiro eram 17.300), a epidemia já é uma realidade e ao acordar num dia pra lá de chuvoso me deparo com um pote cheio de lindas pedrinhas coloridas se enchendo de água na varanda.
O que para mim é um hotel cinco estrelas pra mosquito e doença, para a criatura que cuida da minha casa é só uma coisinha à toa que ela esqueceu.
Olho por a janela da cozinha e tem uma pequena laje formando um espelho d' água porque meus adoráveis vizinhos (de razoável poder aquisitivo) arremessam por a janela pequenas porções de seu lixo e isso entope o escoamento ...
A essa altura o leitor já deve ter percebido que o humor desta que redige está muito azedo.
É que são sete da manhã, chove muito, já liguei para a síndica pedindo providências quanto à laje, esvaziei o pote dos horrores e depositei em local coberto, dei bronca no filho que ficou só olhando e nem se mexeu, meu café saiu fraco demais, fala-se em anistia para a Zé Dirceu e companhia e, por mais que um quarteirão inteiro de moradores mantenha suas casas protegidas contra a dengue tomando os cuidados elementares da higiene, um único filho da mãe que não leva a sério o que vê na TV (ou não tem capacidade cognitiva pra entender que não adianta reclamar da inércia do governo sem cuidar do próprio quintal) pode mandar todo mundo para o hospital e alguns a óbito!
Trabalho num Centro Cultural e o presente que a administração anterior me deixou foram três caçambas repletas de lixo, uma pasta da pior pornografia no único PC da unidade e a sensação de que Arnaldo Jabor estava certíssimo em sua crônica da semana passada.
A natureza sobrevive a todas as coisas, eliminando por o caminho o que a impede de seguir seu curso natural.
Assim foi com os dinossauros, os meteoros gigantes e o que mais a ciência descobriu.
A bola da vez é o ser humano, que contaminado por o vírus da ignorância destrói e arrasa sem sonhar que pode ser a próxima (bem próxima mesmo) espécie extinta.
Número de frases: 14
Pode parecer bizarro para a maioria das pessoas dizer que uma das séries cinematográficas mais identificadas com a ficção científica não é classificada como tal por os críticos mais puristas.
Para boa parte dos especialistas, faltaria às duas trilogias de Guerra nas estrelas especifidades para inclui-las naquela classificação.
Faltaria, basicamente, ciência, a busca por o conhecimento para sustentar as proezas tecnológicas imaginadas nos anos 70.
O argumento é que todo o cenário espacial pode ser substituído por equivalentes low tech sem causar prejuízo à epopéia dos Skywalker.
Algo que a série de livros iniciada com Eragon -- que até já foi adaptado para o cinema -- de autoria do jovem Christopher Paolini, parece tentar provar, ao trocar os sabres de luz por espadas comuns, naves por dragões e ainda assim manter quase intocado o núcleo da saga jedi.
Segundo esse ponto de vista, mesmo sendo sinônimo de FC para milhões de fãs, a obra mais famosa de George Lucas deveria ser etiquetada como fantasia tecnológica, e seria mais aparentada dos escritos de J.R.R Tolkien que dos textos de H.G. Wells.
Sempre que a questão é levantada na presença, física ou virtual, de cultuadores de FC, mobiliza opiniões entusiasmadas.
Desde o final de 2007, esse tão controverso gênero fronteiriço ganhou um novo representante literário para alimentar mais discussões:
Hegemonia -- O herdeiro de Basten, livro escrito por Clinton Davisson e lançado por a editora Arte e Cultura.
Apesar do nome do autor não dar pistas -- ele foi batizado em homenagem a um físico americano vencendor do prêmio Nobel --, trata-se, sim, de uma obra nacional.
Davisson nasceu em Volta Redonda, formou-se em jornalismo por a Universidade Federal de Juiz de Fora, de Minas Gerais, e voltou ao estado do Rio de Janeiro, mais exatamente à cidade de Macaé, onde trabalha como jornalista e cartunista.
Ele já havia se aventurado na FC em 1999, ao lançar um livro que misturava futebol e futurismo, Fáfia -- A copa do mundo de 2022, mesma proposta da coletânea Outras copas, outros mundos publicada um ano antes.
Mas Hegemonia é uma aposta mais ambiciosa.
A idéia básica acompanha o autor há mais de 30 anos, desde que tinha apenas cinco anos de idade, e, segundo informaçõe nos textos de apresentação da obra, a produção do texto consumiu sete anos:
no ano 2000, uma versão prévia da trama ficou em terceiro lugar no concurso promovido por uma revista especializada no gênero, a Sci Fi News.
Todo esse trabalho foi feito para estruturar o livro que se pretende o primeiro não de uma, mas de duas trilogias -- e essa é apenas mais uma semelhança com aquela história ocorrida há muito tempo, numa galáxia muito distante.
Já que estamos voltando no tempo, vamos dar uma recuada de meio milênio para entender o título da obra.
A história começou com o filósfo italiano Nicolau Maquiavel, em 1513.
Após ter servido como secretário de estado numa experiência republicana em sua cidade natal, Florença, o pensador foi expulso da região quando os Médici retomaram o governo.
Em o exílio, ele escreveu sua obra mais famosa, O príncipe, um texto marcado por o pragmatismo que dá conselhos a um soberano hipotético sobre as reais condições por trás da conquista e da manutenção do poder.
Mesmo país, quatro séculos depois, alguns dos conceitos maquiavélicos foram atualizados por outro filósofo, Antonio Gramsci, nascido na Sardenha.
Fundador do Partido Comunista Italiano em 1921, apenas cinco anos mais tarde ele acabou sendo encarcerado por o governo fascista que tomou conta da Itália.
Em a cadeia, foram produzidas suas teses mais conhecidas, postumamente reunidas nos Cadernos do cárcere, entre elas as que davam a receita para um novo ente alcançar o poder:
o «moderno príncipe».
A diferença básica entre as idéias de um pensador e outro é que o florentino falava a uma pessoa física;
já o sardo imaginava um organismo coletivo que deveria garantir as condições ideais de controle social, ou seja, da conquista da hegemonia.
«A hegemonia é a capacidade de um grupo social de assumir a direção intelectual e moral sobre a sociedade, sua capacidade de construir em torno de seu projeto um novo sistema de alianças sociais, um novo bloco hitórico», esse é um conceito gramsciano citado logo no início do livro nacional.
O escritor fluminense criou sua obra entre esses dois pólos, o dos soberanos de fato e o de uma estrutura coletiva, ambos buscando manter a direção intelectual e moral de suas sociedades.
O ente coletivo, o «novo príncipe», é representado por nada menos que um planeta inteiro, Dison, um mundo cercado por uma concha que o torna inexpugnável.
Seus habitantes se denominam simplesmente da Hegemonia e, de fato, assumem o controle de toda uma galáxia.
O poderio bélico e cultural dos disonianos é fortíssimo, porém é possível perceber que se trata de um império atravessando o período de decadência, com vários de seus cidadãos se alienando da vida real em busca fugas na realidade virtual, por exemplo.
Apesar de toda a influência que possui, a Hegemonia atual parece ser apenas uma sombra do que foi a geração que fundou tal império em tempos antigos;
uma casta de seres que, literalmente, tinha o poder de criar mundos.
Não apenas Dison como os outros quatro planetas do sistema solar em que se passa a história foram construídos por esses misteriosos fundadores.
Isso inclui Elôh, o mundo do protagonista do livro, Ron Ger Schowlen, um príncipe na tradição maquiavélica do termo.
Ron, o herdeiro do subtítulo do livro, passou dez anos naquela capital do império se preparando para se tornar um verdadeiro cidadão de Dison.
Uma grande frustação o afasta desses planos e o faz voltar àquele planeta periférico, mais especificamente ao reino de Basten, governado por seu irmão bem mais velho, Shodan.
A história do livro é narrada por os pensamentos do príncipe, gravados num equipamento acoplado a uma poderosa armadura de combate que é o equipamento padrão entre os disonianos, a derma.
Desde o início percebemos que isso não é sinônimo de uma versão isenta dos fatos, já que o rapaz tem a possibilidade de editar a gravação de tais memórias, cortando trechos indesejados, por exemplo.
Mesmo assim, o registro pessoal, e um tanto improvisado, se torna a base para historiadores de um futuro distante analisarem os fatos que estariam por provocar uma verdadeira revolução no sistema da Hegemonia.
De início, os registros dão conta do tédio do herdeiro na volta ao lar -- uma cidade gelada habitada por humanóides, assim como ele próprio, totalmente albinos -- e de uma confusa e mal resolvida relação com o seu casal de irmãos.
A situação muda quando surge em Basten um grupo de gelfos, pequenos seres marsupiais, pedindo auxílio para defender sua distante vila do cerco de dragões.
Sim, dragões, do tipo que voam, cospem fogo e ainda por cima falam -- existe até mesmo um dicionário do dialeto das criaturas nos apêndices do livro.
A partir daí, Hegemonia torna-se uma história clássica de jornada e de como ela vai modificar o protagonista, jogando por terra vários de suas idéias pré-concebidas.
Como a tecnologia dos planetas periféricos é muito inferior à de Dison, as enormes distâncias do planeto Elôh são vencidas lentamente, com o auxílio de enormes, mas comparativamente rudimentares, barcos e carros de combate.
Ron tem assim a oportunidade de analisar com ceticismo científico a bizarra geografia de seu mundo natal e os costumes dos vários seres que o habitam, desde guerreiros anfíbios até burocráticos insetóides.
Essa lenta construção de cenário e de personagens é o melhor do livro.
A narrativa de Davisson deixa o leitor tão envolvido nos diferentes aspectos sociais, religiosos e culturais daqueles povos a ponto de mal se perceber que é apenas na metade da obra, mais precisamente na página 129, em que ocorre a primeira cena de ação da história.
É quando Ron Ger faz uso das lâminas de prótons, armamento embutido nos antebraços de sua armadura, um cruzamento entre os sabres de luz dos cavaleiros jedis e as garras de adamantium do mutante Wolverine.
De este ponto em diante, acaba a fase picaresca e o modo aventureiro passa a ser dominante.
O embate entre os gelfos, auxiliados por os guerreiros comandados por Ron e Shodan, contra a raça dos beligerantes dragões é sangrenta e acarreta várias baixas de ambos os lados do front.
Em a maior parte das vezes, esta segunda metade do livro consegue manter qualidade semelhante à primeira, pois as descrições dos armamentos e as estratégias adotadas são vívidas o suficiente para manter o interesse.
É só na última missão, algo anunciado como sendo uma tarefa muito mais difícil que todas as desventuras anteriores, em que o ritmo cai.
Em pouco mais de 20 páginas, está tudo solucionado, com um desfecho um tanto deus ex machina que pode deixar um sabor anticlimático.
Ainda mais se o trecho comprimido entre as páginas 247 e 259 for comparado com o cuidado com que o escritor vinha conduzindo a trama até aquele momento.
Como não poderia deixar de ocorrer numa publicação de forte inspiração maquiavélico-gramsciana, antes de chegar ao fim dos combates, vamos perceber que há muito de manipulação e dissimulação no conflito.
O melhor é que o autor não força a mão em didatismo ou pedantismo ao se utilizar de tais conceitos.
Clinton Davisson consegue em Hegemonia o raro feito de produzir uma obra que, ao mesmo, tempo diverte o leitor, com uma história honesta e eficiente, e ainda explora temas profundos, que, infelizmente, não costumam ser matéria-prima para o entretenimento de massa.
E ele prova que só não o é por falta de vontade de outros criadores, o casamento pode ser feito, sim, de maneira muito mais simples que sonha nossa vã filosofia.
Não é preciso, e talvez nem mesmo seja desejável, que o leitor seja um especialista em ciências políticas ou um físico teórico para se divertir com a linguagem simples e com todas as subtramas do livro.
É bem verdade que de um cartunista seria de se esperar uma dose maior de humor no texto, o que aproximaria o livro nacional de obras como as séries Discworld e O guia do mochileiro da galáxia, respectivamente de Terry Pratchett e de Douglas Adams.
Talvez, passado o peso da estréia da saga com Hegemonia -- O herdeiro de Bastem, o autor se solte mais nos próximos cinco volumes previstos.
Mas há outros detalhes ainda mais urgentes para se resolver nos próximos capítulos.
A edição do primeiro livro certamente merece elogios, a capa, por exemplo, de autoria do ilustrador, quadrinista e escritor Osmarco Valladão, deve ser a mais bonita já produzida para uma obra nacional de FC.
Vai ser muito bom ver outros trabalhos de ele estampando as demais edições da série.
Porém, na parte de revisão de texto, a Editora Arte e Cultura precisa melhorar bastante.
Ao longo do texto há vários lapsos que poderiam ser evitados, como hífens ausentes, como em «bem vindo» na página 38, ou sobrando, «anti-matéria», página 248;
e expressões truncadas e redundantes, a exemplo de «teorias variadas variando», da página 205, ou» a resposta para a pergunta ( ...)
não foi respondida», na página 249.
Substituir a fonte do texto também poderia ser uma boa idéia, a utilizada neste livro é bastante carregada, parece que todas as páginas foram escritas em negrito, o que, às vezes, torna a leitura um tanto desagradável.
Em os apêndices do livro, além daquele já comentado dicionário da língua dos dragões existe um interessante glossário para ajudar o leitor a entender vários dos termos exóticos empregados ao longo do texto.
A questão é que se pode notar algumas ausências nos verbetes.
Um de eles é referente à raça de uma das personagens mais interessantes do livro, a falastrona capitã Marla Trillina:
não aparece naqueles textos detalhes sobre os merfolks, seres anfíbios de grande importância para os eventos narrados neste primeiro volume.
Por outro lado, há entradas que dizem respeito a acontecimentos que só serão vistos com o desenrolar da dupla trilogia.
Curiosamente, isso torna parte do texto perigosa para quem não gosta de ter contato com spoilers.
Caso você se enquadre neste grupo, faria bem em evitar os termos «Brubraker»,» Brian Brubraker «e» Drallak».
Considere-se avisado.
E é só com o desenrolar da saga que poderemos avaliar se o autor vai dar conta de desenvolver todas as pontas deixadas soltas no capítulo inicial.
Ainda há muito o que se responder, como a origem de alguns nomes de personagens, de deuses, de regiões, de conceitos teóricos e até de objetos que são muito próximos a nós para surgirem, sem explicação, num universo aparentemente tão distante e futurista.
Será nesses livros também que veremos se o escritor fluminense vencerá o desafio de cruzar a fronteira dos gêneros da FC e da fantasia, da ciência e da magia, e assim fazer justiça às palavras do veterano escritor Jorge Luiz Calife, que assina o prefácio da obra:
«Clinton Davisson consegue uma união perfeita entre a ficção científica hard e a espada e magia.
Se fosse a obra de um autor norte-americano ou europeu, Hegemonia -- O herdeiro de Bastem já seria uma realização notável.
Aqui entre nós, enfrentando as dificuldades que todo autor brasileiro enfrenta, esta obra é quase um milagre a ser celebrado».
A se conferir.
Serviço:
O livro custa R$ 42,90 nas livrarias Cultura e Saraiva, tanto nas respectivas lojas de todo o Brasil, quanto on-line.
Mas a livraria Antígona on-line (www.antigonalivraria.com.br) está com preço promocional a R$ 30.
Um trailer do livro pode ser visto em http://www.youtube.com/watch?
v = cZUKEkn9avg
Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.
Número de frases: 91
Foi preciso ligar a TV para escrever esse texto.
Não só uma vez na semana, não só uma vez no dia, não só uma vez na hora.
Foi preciso ligar a TV por toda a vida para conseguir ter o mínimo de segurança para «chutar» certas «idéias» nas linhas escritas logo abaixo.
Sim, porque se tem uma coisa que eu fiz na minha vida foi ver e ouvir -- por um tempo difícil de contar -- luz e som serem convertidos e reconvertidos em ondas eletromagnéticas.
Tudo dentro de um pequeno (agora, nem tanto) caixote.
Dito isso (e foi importante dizer, porque ...
é, porque é importante saber o quanto eu gosto de TV para seguir esse texto), vamos ao sucedido.
Foram algumas zapeadas até sossegar.
O mais curioso:
parei num programa que nunca havia visto outrora.
E aqui não é desculpa de quem caiu, assim, «por acaso», na novela das 20h da Globo e acompanhou, assim,» por acaso», uma longa cena da Regina Duarte em ação.
De fato, se tivesse tempo e conhecimento prévio, não perderia um capítulo de Páginas da Vida.
Explico.
A cena
Parei na Regina Duarte fazendo cara de «eu tenho medo».
Enfim. A eterna Helena de Manoel Carlos estava reclamando com a professora sobre o igual direito que sua filha, portadora de Síndrome de Down, teria, assim como todas as crianças, de ver seus desenhos apresentados na reunião de pais.
O caso é que a menina não tinha feito desenho algum no ano letivo e que, na verdade, preferira outras atividades, como brincar e conversar com os colegas.
«Mas como é isso, minha amiga!?»,
pergunta Regina / Helena à professora.
E emenda:
«Minha filha tem sim direito de mostrar os desenhos hoje.
Porque minha filha é normal.
Porque, você, que é professora, deveria ter incentivado a produção, porque eu vou te processar, você está perdida, acabou, fim da linha pra você, cara professora ...».
A professora ficou de boca aberta.
Nada podia falar.
Sim, ela seria demitida e, claro, Helena / Regina / Manoel, com o seu discurso certo, é verdade, mas um tanto simplista e prático, aplicaria mais uma lição em moldes não muito distantes da moral capenga seguida por uma certa classe-média alta do Leblon (bairro-paixão do autor).
Foi assim sempre.
E, para mim, sempre seria.
Novela do Manoel Carlos (e Regina Duarte) é sinônimo de ditame de conduta, não tem jeito.
Não tinha.
Porque o que aconteceu depois foi realmente surpreendente:
ainda disposta a queimar a professora em praça pública, Helena agora segue para a sala da diretora e fala tudo -- diz que assim não podia, que assim não dava e que sua filha nunca mais pisaria naquele colégio.
E mais:
que aquela professorinha podia se cuidar, porque iria ser processada em tudo quanto é instância.
Em o que -- e aqui é a grande virada, nunca vista por mim em novela alguma -- a diretora responde:
«Mas Helena, entenda, sua filha é muito bem tratada aqui nessa escola.
Ela estuda aqui há anos.
Não há motivo para isso tudo.
Você sabe, existem professores com um pouco de dificuldade de lidar com isso mesmo.
E digo mais, acho que nunca havia te contado isso, mas desde o começo, os pais da escola pedem para que sua filha seja retirada da classe, sob o pretexto de que ela atrapalharia o ensino das demais crianças.
Fomos nós, diretores e professores, que sempre bancamos a continuidade do estudo da sua filha nessa instituição.
Sobre a professora, me dê um tempinho, tenho certeza de que, com uma boa conversa, tudo será resolvido».
Grande momento.
E agora, o que Helena vai responder?
Pasmem. Ela responde «tudo bem».
Acalma-se, admite a precipitação e recua em todas as ameaças.
A novela acaba alguns minutos depois.
Entra aquela turma falando e se emocionando com alguma história emocionante.
Volta a moral lebloniana, voltam Regina e Manoel.
Mas eu, assim como Helena na cena, também sei rever e perdoar.
E aquela cena me fez pensar -- alguma coisa mudou no jeito de Manoel Carlos contar suas histórias.
A ausência de maniqueísmo na atitude de Helena, a ausência de perversidade total e indiscutível na professora, a ponderação da diretora, tudo apontou em favor da construção de personagens mais sólidos, menos fakes (no pior sentido da palavra " falso "), densos, ambíguos, como dificilmente acontece no mundo novelesco atual.
A TV sempre me traz grandes surpresas.
E o próximo texto será sobre «O Aprendiz», incrível programa (que eu também nunca tinha visto) coordenado por o mega-empresário Roberto Justus, na TV Record.
Número de frases: 54
O Frevo faz 100 anos.
Mas o gênero já existe desde os meados do século XIX e tem sua origem na quadrilha, tango brasileiro, maxixe e polca.
Já nos idos de 1860, era comum por as ruas do Recife, em Pernambuco, o desfile de bandas militares ou civis e a palavra efervescência já era usada para designar a euforia do povo que se lançava atrás do cortejo.
A escolha da data comemorativa, dia 9 de fevereiro, deve-se ao fato do termo Frevo aparecer pela primeira vez num artigo do Jornal Pequeno de Recife, atualmente, o Diário da Manhã, no ano de 1907.
A matéria retratava com entusiasmo a manifestação popular que vinha alcançando cada vez mais notoriedade na capital pernambucana.
O nome Frevo deriva-se das palavras ferver e efervescente, que popularmente são conhecidas como «frever» e «efrevescente».
O Frevo lembra ainda confusão, rebuliço e agitação popular.
Como o enigma do ovo ou a galinha não se sabe quem veio primeiro:
o Frevo como gênero musical ou o Frevo como dança, que em Pernambuco chama-se passo.
Até os meados do século XX, existia muita rivalidade entre as bandas e clubes carnavalescos que terminava, na maioria das vezes, em pancadaria com dezenas de feridos e até casos fatais.
Os desfiles, então, contavam com a presença de capoeiristas brutamontes, verdadeiros acrobatas que munidos de pedaços de pau inibiam os mais briguentos e valentões.
Para enganar a polícia, os capoeiristas, aos poucos, começaram a inventar passos, criando uma coreografia própria para acompanhar a «onda» dos cordões carnavalescos.
Com o passar do tempo os cacetes e bengalas foram substituídos por sombrinhas coloridas.
Hoje, o Frevo originário das ruas de Pernambuco tomou o Brasil e o mundo.
Muitos compositores da MPB, mesmo não sendo pernambucanos, já flertaram com o gênero.
A propagação do Frevo como gênero musical é favorecida em muito por a sua moderna harmonização e a constante evolução nos passos da dança.
O Frevo tem tantos passos quanto a criatividade do passista permitir.
Para comemorar o centenário de uma manifestação popular tão querida dos brasileiros, a Prefeitura do Recife além de promover projetos durante o ano sobre o Frevo, está pleiteando junto ao Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) que o Frevo seja reconhecido como patrimônio cultural.
Esse ano vai «frever»!
Número de frases: 19
Não me lembro de muita coisa da época em que freqüentei os bancos escolares.
Acho que sempre fui um pouco apagado e muito, muito introspectivo e obediente.
Em a verdade, acredito que eu não incomodava o professor em quase nada.
Era um «bom» aluno, portanto.
Não me lembro de quase nada ...
mas algumas coisas sempre marcam.
Mexendo bem no baú das minhas vagas memórias, resolvi dar vida a um momento.
Freqüentei pouco o Jardim de Infância.
Apenas um semestre.
Não gostei, ou como os adultos disseram na época:
«Não me adaptei».
Por isso, meus pais pediram a um primo recém-formado em professor que me alfabetizasse em casa.
Conheci o mundo das letras e números com um professor só meu e em casa!
Porém, muito antes, eu já havia feito uma outra descoberta que considerava ainda mais fascinante:
com algumas canetas e lápis coloridos, descobri o mundo do desenho.
Pintar, desenhar, rabiscar livremente, copiar desenhos ou dar asas à imaginação ...
ficava horas a fio fazendo isso!
Descobri nuances, misturas de cores, fiz experimentações e aprendi técnicas diversas praticamente sozinho.
«Como desenha bem», diziam uns.
«Esse menino vai ser artista quando crescer», diziam outros.
Um dia fui para a escola ...
A minha expectativa era grande e o medo do novo tomava conta de mim.
Quanta gente!
Crianças com as mães, crianças correndo de um lado para o outro e crianças observando tudo, como eu.
Um prédio enorme e uma «tia» que não era minha parente, mas com quem logo de cara me afeiçoei.
De tudo que vi, do que mais gostei foi da minha cartilha.
Que cartilha bonita!
Cheia de desenhos!
Percebi instantaneamente que faltava uma coisa:
o colorido que eu sabia dar.
A partir daí, criei um ritual só meu.
A cada página, depois dos exercícios mecânicos da cartilha (p + a = pa;
t + o = to;
pa + to = pato), eu coloria tudo com muito gosto e prazer.
Como era bom!
Eu imaginava estar fazendo um grande favor ao «dono» do livro.
Afinal de contas, coitado, ele não devia ter canetas coloridas ...
era tudo tão simples, tão preto e branco!
Até que uma vez a professora, que era minha «tia» favorita, me disse:
-- Luiz, você está abusando das cores!
Tá pintando até as palavrinhas ...
assim não dá, meu filho ...
Isso já é demais!
Preste atenção:
a partir de hoje, você só pinta quando eu mandar.
Tá bom?
Fiquei triste, pois, pra mim, aquela cartilha já era a minha preciosa obra de arte.
Um pensamento me ocorreu:
Número de frases: 48
«Será que a minha tia gostava mais do mundo em preto e branco?"
Durante entrevista coletiva, concedida antes da cerimônia de entrega da Ordem do Mérito Cultural, nesta quarta-feira (07/11), em BH, o ministro Gilberto Gil reconheceu a necessidade do governo buscar uma solução mais justa para o problema das rádios comunitárias do País.
Logo após a cerimônia, ocorreu a abertura da Teia 2007.
Durante o intervalo entre estas atividades, as autoridades permaneceram presentes no palco, quando Roberto Emanuel, da Rádio Constelação, ajudado por alguns amigos, conseguiu entregar ao ministro duas cópias de um documento sobre a emissora, perseguida e fechada por a Anatel como milhares de outras.
«Conforme informação do Prof. Valdir de Castro Oliveira, da Escola de Comunicação da UFMG e do próprio responsável por a emissora, Roberto, fiscais da agência estiveram no dia 13/03/2003, na Rádio Constelação, a qual é operada por deficientes visuais, agredindo-os fisica e moralmente."
http://www.midiaindependente.org/pt/red/ 2003/03/249674.
shtml O ministro, que havia, muito gentilmente, se deslocado de sua cadeira para a extremidade do palco, abaixo da qual se encontrava nosso anônimo herói, entregou uma cópia ao Presidente Lula, a seu pedido.
Cego, negro e condenado por o «Estado oligárquico e autoritário» (Marilena Chauí) em que vivemos, Roberto Emanuel cumpriu dois anos de pena por o delito de usar seu direito de ouvir e ser ouvido.
Tinha de comparecer a cada bimestralmente à Justiça Federal.
Estava também em prisão municipal, não podendo se ausentar de BH, por mais de 15 dias, sem se comunicar com este órgão.
Presidente da Aliança Nacional dos Deficientes Físicos (Anadefi), ele coordenava a única emissora que se tem conhecimento no planeta, operada por portadores de deficiências, ou melhor, portadores de talentos especiais.
A o discursar, no final da abertura, Lula confessou que tem uma grande dívida com as emissoras verdadeiramente comunitárias!
Coincidência ou não, é o que defende o manifesto produzido por a -- Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária do Rio Grande do Sul -- Abraço-RS.
Salientou sua estranheza por o fato de que somente se divulga que elas derrubam avião, como se as outras (comerciais, educativas, legislativas ...)
fossem imunes a esta possibilidade.
O presidente também afirmou que criou um Grupo de Trabalho para resolver este problema.
Foi efusivamente aplaudido!
Há uma gravação, na qual o presidente insiste durante a campanha, ser «o defensor número 1 das rádios comunitárias», coisa em que acreditávamos e não nos esquecemos de suas promessas, conforme áudio disponível em http://www.noturnafm.com.br/audio-multimidia/player-01.
m3u Mas, lamentavelmente, para um grande número de petistas e militantes de partidos mais à esquerda, comprometidos com a luta por a democratização, a impressão atual é que o poder lhe fez esquecer de elas até o dia de ontem, agindo de forma totalmente adversa ao que se dizia ser.
O que o Presidente não disse foi que este Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) foi criado por ele em 2005 e encerrado naquele mesmo ano, mas o relatório final permaneceu engavetado por meses entre o jogo de empurra do Palácio do Planalto e o Ministério das Comunicações, um colocando a culpa no outro por o atraso.
O FNDC -- Fórum Nacional por a Democratização da Comunicação registrou esta embromação:
O movimento das rádios comunitárias formado por o FNDC, Abraço, Amarc, Abccom, Farc, SJPDF e MNDH protocolou no Palácio do Planalto, dia 24/01/2006, o relatório produzido por o Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) de Radiodifusão Comunitária.
O texto foi concluído em agosto de 2005 para ser entregue ao presidente Luís Inácio Lula da Silva.
Sob diversos argumentos, entretanto, continua retido no Ministério das Comunicações (Minicom).
Passados cinco meses, o movimento cansou de esperar que o documento chegasse oficialmente à Presidência da República e o levou até lá.
O relatório, segundo as entidades, precisa ser tornado público para dar início ao debate entre o governo e a sociedade civil.
http://www.fndc.com.br/internas.php?
p = noticias & cont key = 8942
O Presidente também não disse que houve um outro Grupo de Trabalho coordenado por o Ministério das Comunicações, em 2003, cujo relatório também foi negligenciado.
Também houve um grupo trabalhando para preparação da I Conferência Nacional de Radiodifusão Comunitária, morrendo de esperança e frustração na praia do Palácio do Planalto.
Muitos de nós já têm dificuldade em acreditar que essa dívida será realmente paga ...
Não que não o queiramos, conscientes de que contribuímos substancialmente para sua eleição e reeleição.
Como é difícil constatar que nossa esperança vem se transformando em medo e nos cansando de tanto esperar, como afirma a direita!
Reconhecemos os méritos relativos deste governo em relação aos anteriores, mas, o setor de comunicações parece ter sido entregue de porteira fechada para o inconstitucional oligopólio da mídia.
Agradecemos a gentileza da atenção que nos é dispensada, sem qualquer resultado concreto que nos assegure não termos sido usados e abusados por nossa boa-fé!
A dívida que Lula tem para com nós implica em dívidas pessoais para dezenas de milhares de pessoas.
Dívidas materiais e morais.
Seria faltar com o respeito, omitir, não a dívida, mas a vida perdida por a companheira Maria da Conceição Oliveira, graças à truculência da Polícia Federal contra uma pobre dona de casa.
Seu crime foi ousar ir além de ser mero receptáculo da mídia mercenária e tornar-se agente da comunicação, transmitindo ao seu mundo local, o que pensava das coisas.
Deu, como muitos de nós temos dado, a vida por uma rádio livre, por nossa particular Rádio Utopia, que, mais dia, menos dia, transformaremos em realidade.
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/ 2005/08/327717.
shtml Para pagar esta dívida, o Estado teria de pagar a dívida de todos que somos prejudicados por esta injustiça, a exemplo de Clementino do Santos Lopes, um dos Coordenadores Gerais da Abraço e José Guilherme Castro, Coordenador Nacional de Comunicação da entidade e Secretário Geral do FNDC -- Fórum Nacional por a Democratização da Comunicação, os quais, como tantos outros, preferiram arriscar tudo para se dedicar a esta luta insana contra o oligopólio existente no setor, para o qual trabalha a Anatel -- Agência Nacional de Telecomunicação e o " Ministério das Comunicações.
«O homem sensato se adapta ao mundo;
o insensato insiste em fazer exatamente o contrário.
Portanto, todo o progresso depende dos loucos." (
George Bernard Shaw) Muito pouco vai adiantar para estes insensatos, loucos, subversivos, revolucionários, heroicamente irresponsáveis com interesses particulares e absolutamente engajados na conquista de um bem maior, que seus filhos e netos venham a receber uma homenagem póstuma da Ordem do Mérito Cultural, como a que merecem os descendentes de Dona Maria da Conceição Oliveira, ironicamente esquecida, nesta quarta-feira.
Apesar de tudo, ainda temos fôlego para insistir na possibilidade que Lula nos acena com o reconhecimento desta dívida!
Mas precisamos de ações concretas neste sentido, especialmente o reconhecimento do valor destas dezenas de milhares que sacrificaram sua poupança popular, seu tempo, sua vida familiar, sua estrutura mental, etc., para combater um Estado a serviço de uma minoria privilegiada.
Temos interesse n, Mais Uma Vez, buscar uma solução para este problema.
Quando se fala muito num sistema público de comunicação, gerido por o Estado e por o governo, as rádios comunitárias, com todas suas deficiências, naturais, por sua origem no seio dos excluídos, vivenciam esta experiência.
Sistema público gerido por o público ...
Não em todas, mas naquelas que já conseguem perceber outra forma de existir fora do compromisso político-partidário, religioso ou comercial.
E não seria também culpa dos governos que as demais sofram deste problema, já que vem sendo negada, peremptoriamente a autorização para que elas existam legalmente?
De a mesma forma que a miséria contribui para que o adolescente busque seu primeiro emprego no tráfico de drogas (e, talvez o último!),
a falta de dignidade em que o Estado coloca aquele que quer operar uma rádio comunitária, promove a deturpação do sentido ético destas emissoras e ele é impedido de conhecer os princípios registrados no Código de Ética da Abraço.
Portanto, mesmo as rádios que não «são verdadeiramente comunitárias», prestam um serviço social inestimável, afrontando um Estado opressor, quando praticam a desobediência civil, consciente ou não, porque acabam fortalecendo o movimento em geral e ajudam a dispersar a perseguição.
Assim, Lula poderia dar uma demonstração inequívoca de que está realmente falando sério, concedendo, imediatamente, anistia para os condenados, com a devolução dos equipamentos apreendidos.
Isto não depende de mais ninguém!
Apenas de ele!
Depois deveria estabelecer um convênio com a Abraço e outras entidades do setor, iniciando um processo de formação para cada emissora em funcionamento, sem exceção, qualificando-a para que cumpra o Código de Ética desta entidade, bem como demais demandas para o bom desempenho desta atividade.
E, então, somente após um ano dado para adaptação, com acompanhamento destas organizações, iniciaria um justo processo de repressão àquelas que se recusarem a respeitar tal padrão de qualidade.
Recursos econômicos devem ser destinados para o melhor aparelhamento das que atingirem a qualificação mínima a ser estabelecida em comum acordo com o governo, bem como para conseguirem entrar por a porta da frente na era digital.
Em paralelo, a legislação deve ser mudada, compreendendo-se comunidade num sentido mais amplo e aumentando a potência do transmissor e, assim, seu alcance.
Quem sabe até transferindo o cuidado com as rádios comunitárias para o Ministério da Cultura ...
E não se deve esquecer de colocar as televisões comunitárias em sinal aberto, também submetendo-as a um processo análogo, conforme resultado do I Fórum de Televisões Públicas.
Tudo de todos!
E não apenas de alguns ...
O que queremos é apenas o mesmo tratamento dado aos capitalistas do setor, onde impera a pirataria, a impunidade e a complacência da agência que deveria agir com transparência, eqüidade e probidade.
http://redeabraco.org/rede/nt240407/anatelacoita. html
Queremos um gordo quinhão das verbas publicitárias dos três níveis do Estado para veículos comunitários como rádio, TV, jornais e outros que atuam fora do padrão industrial e pasteurizado dos grandes.
Lula tem o privilégio de poder realizar o sonho de muitos Pontos de Cultura:
ter uma emissora de rádio e uma de TV em sinal aberto ...
E, certamente, há uma correspondência no sentido de que cada rádio e TV verdadeiramente comunitária deverá ser também um Ponto de Cultura, produzindo cultura de ponta! (*) (*)
Heitor Reis é militante do movimento por a democratização da comunicação, engenheiro civil [www.heitorreis.fr.fm], articulista [www.abn.com.br e www.reforme.com.br/kitnet] e membro do Conselho Consultivo do Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida [www.cmqv.org] Nenhum direito autoral reservado.
Esquerdos autorais (" Copyleft ").
(*) Termo cunhado por José Guilherme Castro Uma vez Madre Teresa disse:
«Sabemos que o que fazemos é apenas uma gota no oceano, mas se não tivéssemos feito essa gota faltaria».
E foi justamente com esse espírito que começamos a fazer o Abaixo Assinado, tentando fazer nossa parte para ter um mundo melhor, um Sergipe melhor.
Já que o Colégio Atheneu faz parte da história de Sergipe porque não começar aqui uma nova história de luta por uma sociedade melhor, começando por um Atheneu melhor.
O jornal é feito por alguns alunos mas é feito para toda comunidade escolar, por isso nos ajude a fazer essa gota crescer e se tornar um oceano. (
www.uniblog.com.br/jornalabaixoassinado) Esse texto eu postei no blog do jornalzinho que estar na sua sexta edição e obteve nessas seis edições absoluto sucesso perante a comunidade escolar do Colégio Estadual Atheneu Sergipense que sentia carência em informações e de uma entidade de dentro do colégio que lutasse por os nossos direitos como escola pública.
O jornal é completamente independente de qualquer tipo de facção política partidária e de qualquer organização ligada ao governo.
Até mesmo o Grêmio estudantil do colégio não tem nenhuma participação no jornal, justamente para não haver qualquer dúvida da nossa imparcialidade.
Seria importante que todas as escolas também tivessem seus jornais independente, pois essa é uma forma de consolidar nossa democracia.
Número de frases: 84
Este texto não é uma crítica ou uma resenha.
É apenas uma nota comemorativa.
Recebi o disco ontem.
É um SMD.
A aparência é tosca, mas o conteúdo (musical e visual) é supimpa.
Sou fã desses meninos há muito tempo.
Alguns de eles apareceram -- na minha vida -- primeiro tocando na sempre ótima banda do Lucas Santtana.
A identificação tinha a ver também com um gosto comum por barulheira radical / brilhante.
Eram umas das poucas pessoas com quem eu podia conversar sobre a obra do meu grande ídolo Arto Lindsay no DNA (ou sobre Arto tocando com John Zorn -- por favor vejam este vídeo!)
Hoje -- resumindo muito a trajetória -- Ricardo e Marcelo são 2/3 da banda que acompanha Caetano em Cê (o outro 1/3 é Pedro Sá), e com Benjão (que já tocou com Carne de Segunda, Totonho e Os Cabras, Flu e mais uma pá de gente boa) e Bubu (que já tocou com os Los Hermanos, entre várias outras nobres atividades) formam a banda De o Amor.
De o Amor:
existe nome melhor para um coletivo musical que na página do MySpace classifica seu estilo como " other /dub/experimental? (
Só compete com Brisa do Mar:
assim se chamava o grupo hardcore que meu irmão Helder formou com o Lui -- o da capa de O Passo do Lui -- no início dos anos 80;
mas essa é uma outra longa história que não tem nada a ver com esta minha singela nota comemorativa ...)
Para mim a classificação correta poderia ser simplesmente música pop, feita com muito amor e com a dose certa de esquisitice que o pop de hoje (vide até Britney Spears) tem que ter.
São apenas cinco músicas.
Tudo sai por cinco reais (o preço está impresso na capa) -- isto é:
1 real por música.
O que é uma verdadeira pechincha (tratando-se de produto não-pirata).
E o consumidor não tem como não ficar satisfeito.
Por muitas razões, entre elas:
O refrão de Modelo Americano é perfeito para cantar junto:
«o modelo americano é bonito e penteado / o modelo americano não é novo, é usado».
Por trás, várias guitarras meio reggae /ska/fricote de vez em quando engasgam maravilhosamente em efeitos psicodélicos também meio jamaicanos-carnavalescos.
Vão é a canção que mais martelou na minha cabeça depois da primeira audição.
Tem letra de auto-ajuda punk (e o que foi o punk, hoje fazendo 30 e poucos anos, além do melhor movimento de auto-ajuda de massa -- doA-it-yourself!--
já produzido por a arte moderna?):
«aonde está aquilo que não é / para onde vai o algo que passou».
O som lembra Pere Ubu, ou aquilo do Pere Ubu que deu no Sonic Youth.
Quem gostou de Cê, vai se esbaldar com Vão, nem que seja por o amor aos monossílabos.
Santo do Deserto é trilha sonora ideal para reportagens sobre a perdição norte-americano na guerra do Iraque (caramba, estou exagerando!
mas é tudo por uma causa politicamente correta:
é para vender o disco ...):
a letra tem momentos poéticos que deveriam ser imediatamente vertidos para o árabe por o nosso encantador-tradutor de Os Poemas Suspensos, o " Alberto Mussa:
«eu quando vejo uma duna / não vejo mais nada / não vejo ninguém».
Cântico tem uma das rimas mais ricas da história da música popular brasileira:
caralho com aquário (um alerta: não sei se entendi as letras direito -- mas transcrevi o que ouvi, e gostei a pampa da transcrição ...
rsrsrsrs). Não preciso falar mais nada.
Mas vale a pena ver detalhes da gravação nestes dois vídeos:
aqui e aqui.
Meu Coração parece música baiana de carnaval de meados dos anos 80, perdida entre algum LP da Banda Reflexu's e outro dos Novos Bárbaros (ou Laranja Mecânica?
não sei escolher ...)
Mas ainda mais relax.
E com um final ótimo, carimbó-pós-Pinduca ou novos-novos baianos.
Tudo isso para mim é motivo de orgulho, quase pessoal.
Mas fiquei ainda mais orgulhoso quando li a ficha técnica (quem disse que SMD não tem ficha técnica?)
e me deparei com o seguinte crédito:
«Gravado por Leonardo Couto e Antônio Carlos da Conceição».
Leonardo e Antônio Carlos aprenderam a gravar música e a pilotar softwares de edição musical no Ponto de Cultura do CIDS, que ajudei a criar em Vargem Grande.
Foram alunos do Chico Neves (produtor de Rappa, Lenine, Paralamas, Skank e muita gente mais), do Laufer, do LC Varella (excelente técnico de som e companheiro de viagem no projeto Música do Brasil, isso só para citar algo que vivi perto de ele).
As gravações do De o Amor aconteceram no estúdio que montamos por lá com o trabalho voluntário de muita gente (dá para ver o estúdio nos vídeos linkados acima) e que anda de vento em popa (agora também com aulas de TV Digital interativa).
Os garotos de Vargem Grande aprenderam direitinho -- podem gravar qualquer disco.
Não é que vale a pena se meter nesses projetos de educação altamente tecnológica e popular?!
Número de frases: 54
O clima praiano do show «Começo, meio e sempre», protagonizado por Cleudo Freire na segunda noite do projeto Quarta Musical * (20/9), deu as boas vindas ao público desde a porta:
a areia da praia espalhada na calçada, e que também cobriu o palco da Casa da Ribeira, causou certa estranheza nas pessoas que aguardavam a hora de entrar no teatro.
A primeira impressão aumentou a expectativa:
«o que será que vão aprontar essa noite por aqui?»,
alguém perguntou baixinho.
Enquanto a platéia se acomodava, o palco esfumaçado e levemente climatizado por a iluminação de Ronaldo Costa já dava uma noção que o espetáculo seria simples e bonito de se ver.
Em a última fileira, o diretor do espetáculo, João Júnior -- impávido e imóvel -- só observava o resultado do trabalho.
Um a um, os músicos foram tomando seus lugares:
Jorge Lima na bateria e programação eletrônica, Jr..
Primata no baixo, Diego Brasil (guitarra), Paulírio Casa de Chapéu (percussão), todos descalços com calças de algodão cru e camisetas pretas.
Cleudo Freire (voz e guitarra) completa a formação com sua ' tradicional ' discrição e figurino contrário ao da banda.
Tímido e com sua apurada consciência musical de sempre, o compositor começou seu show ao entardecer:
«Há quanto tempo não passamos um dia juntos?»,
disse lembrando do hiato entre este show e a apresentação anterior.
«Faz um bom pedaço», completou.
O roteiro de «Começo, Meio e Sempre» se passava em 24h, de um crepúsculo ao outro, progressão temporal marcada por a luz e por o tom das letras -- todas do próprio Cleudo.
Eletro-orgânico
A banda deu conta do recado, Jorge Lima acertou a mão nas programações eletrônicas e Cleudo apresentou uma nova roupagem ao seu «Zambê Crossover» -- título do primeiro CD.
Rearranjou algumas canções antigas que fizeram a alegria do público, e mostrou músicas do segundo disco já em fase avançada de gravação / produção.
Em o fim das contas, ficou a nítida sensação que ainda falta voz ao cantor para acompanhar a incrível proposta sonora -- Cleudo é um tímido confesso.
Também deu para perceber que a fusão do orgânico com o eletrônico está bem amalgamada numa música moderna que preserva suas referências.
Show simples, bom de ser ver e ouvir.
Detalhes:
os desenhos projetados no cenário eram do filho do Cleudo, que chegou a recitar o poema «Meu tempo é quando» de Vinícius de Moraes e cantar música em hebraico durante a performance.
* saiba mais sobre o projeto Quarta Musical no blog Ruído Muderno::
Número de frases: 25
Cleudo Freire publicou o «Glossário Potiguar -- Papo Jerimum» (2ª edição lançada recentemente por a Editora Sebo Vermelho), um livreto com rimas bem humoradas recheada por expressões que ' só ' existem aqui.
Um dos grupos teatrais de maior expressão do cenário nacional, o Folias comemora 10 anos de vida com ousadia e traz à cena a tragédia grega «Orestéia».
Em o espetáculo, a trupe propõe reflexões críticas acerca do modelo de democracia instaurado no mundo ocidental, traça paralelos com a história dos países latino-americanos e do próprio movimento teatral.
Por Patrícia Rocco
Foto Joana Mattei Com reflexões nada ingênuas sobre questões existenciais, políticas e sociais, o grupo Folias chega aos 10 anos e nos brinda com uma proposta que salta aos olhos:
«Orestéia -- O canto do Bode».
E foram longe ...
Escolheram a tragédia de Ésquilo (obra-prima do mundo grego, escrita no século V a.C.) para -- numa riquíssima versão do clássico -- fazer uma reflexão sobre a criação da democracia (surgimento do Estado grego), sobre como esse modelo influenciou a formação do continente latino-americano e toda a violência que se seguiu borrando de sangue e luto grande parte de nossa história.
Conduzida ironicamente por um simpático palhaço (interpretado por o excelente ator Dagoberto Feliz) de sorriso doce, expressão amável e olhar melancólico, a montagem surpreende.
A o adentrar o Galpão do Folias, o espectador é surpreendido por um cenário sombrio, com paredes descascadas, restos de cenografia e poucas -- por vezes, velhas -- cadeiras para sentar.
Antes mesmo da peça começar, surge o primeiro paralelismo simbólico entre a tragédia grega e as tristes condições em que vivem os países latino-americanos e (por que não?)
o fazer teatral no Brasil.
Essa salada é apimentada ainda com ingredientes de muita criatividade, originalidade e força cênica.
Durante todo o espetáculo, somos convidados a romper os muros da convenção e decifrar as inúmeras metáforas propostas por a inteligente montagem de Marco Antonio Rodrigues e Reinaldo Maia.
Tente imaginar Agamêmnon e Palas Atena numa possível referência ao populismo;
Clitemnestra e Egisto na encarnação exacerbada da terrível face da tirania e Orestes, a democracia.
Soma-se a isso o desafio da leitura às analogias e inserções feitas a todo o instante como a citação da carta testamento de Getúlio Vargas ou mesmo o bizarro radinho de pilhas tocando músicas de Roberto Carlos ...
Orestéia é uma crítica ácida às mazelas humanas em muitas esferas de suas manifestações.
Em este trabalho, os foliões da rua Ana Cintra destilam uma verborragia cortante e inundam a platéia com indagações sobre o papel do artista na sociedade, o fenômeno midiático da espetacularização das artes, a manipulação da informação e do poder, além da vergonhosa participação e contribuição dos veículos de massa neste processo.
O que não faltam são inserções estéticas e verbais como referência ao período do populismo, às atrocidades cometidas por a ditadura em nome da democracia (anos 50 e 60), à poesia triste da volta dos exilados (anos 70 e 80) e, por fim, o processo de redemocratização.
Aqui a promessa política nunca cumprida de um mundo mais justo e do poder mais próximo ao povo (últimas décadas do século XX).
E é em meio a esse desfile de fatos caóticos que palhaço-corifeu relembra, brada e emociona ao entoar o grito denunciativo de alguns dos mais tristes acontecimentos da história latino-americana.
«Quem poderia negar-me agora o direito de recordar estas verdades? ( ...)
As milhares de vítimas da ditadura Argentina, torturadas e assassinadas por os generais de plantão em defesa da democracia. ( ...)
A prisão, a tortura e o assassinato de milhares de brasileiros por o golpe militar de 1964, alegando a defesa da família, da tradição e da propriedade. ( ...)».
Em outro momento, de olhos semivendados e, em tom debochado, sugere:
«Em a balança da Justiça, o prato da aprendizagem desce para aqueles que sofreram».
Impacto Estético -- Além da experiência da linguagem dramática muito bem explorada por os afinados atores, o espectador de Orestéia é surpreendido também por o impacto estético que a peça propõe.
O espaço cênico é surpreendente com elementos cenográficos compostos por aparatos que nos remete ao caos, a escassez de recursos.
E, mais uma vez, o tom denunciativo surge em meio à criatividade que permite, por exemplo, a concepção de um narrador que empunha um ventilador e segue em cena borrifando água para mostrar os ventos que levavam as naus de Agamêmnon rumo à Tróia.
Os célebres personagens de Ésquilo são desconstruídos esteticamente e aparecem em cena ora como maltrapilhos guerrilheiros cansados do combate, ora desnudos, ora revitalizados por os ares revolucionários dos anos 60 em suas roupas à la Hair, ora como nossos contemporâneos de terno e celular em punho.
Mas, a concepção da rainha Clitemnestra, interpretada por o ator Danilo Grangheia, é, sem sombra de dúvida, a menina dos olhos do espetáculo.
Com um figurino exótico e expressões que transitam entre a elegância, tons monocórdios e gestos exagerados, a monarca rouba a cena em atuação que enche o palco e a alma da platéia.
Os olhos pintados de negro reforçam a idéia do espírito maligno da monarca, destaca a expressão dissimulada e os olhares fulminantes que lança sobre seus subalternos, incluindo aqui os espectadores que ela também tenta seduzir, utilizando-se de excelentes recursos dramáticos, a fim de conquistar apoio em seu julgamento.
A entrega do ator ao personagem e o resultado que consegue com Clitemnestra são dignos de reconhecimento além aplausos.
Durante o julgamento do crime de matricídio cometido por Orestes para vingar a morte do pai Agamêmnon brutalmente assassinado por a esposa traidora, Clitemnestra, o público é envolvido na cena e decide -- por meio do voto -- o destino de Orestes.
A deusa Palas Atena surge como símbolo de Justiça e Sabedoria e toma frente do tribunal, instituindo assim a democracia.
Mas, surpreendentemente, o resultado do julgamento é idêntico ao da obra original, não dependendo da contagem dos votos.
E aqui está o pulo do gato!
Em esta encenação a opinião popular é o que menos importa, já que a decisão está sempre nas mãos divinas dos poderosos.
Alguma semelhança com Brasil de ontem ou de hoje?
Com este brilhante espetáculo, o Folias nos leva a inúmeras e ricas leituras.
Uma dessas possibilidades está na reflexão sobre o papel da tão cultuada democracia e de que forma ela violenta seus cidadãos.
Violência moral, intelectual, material, física.
De que forma contribui para a manutenção da desigualdade e da contradição num país que abriga taxistas engenheiros e prostitutas diplomadas?
Entre tantos questionamentos propostos, a peça nos presenteia também com momentos de pura beleza poética.
A velha canção de Noel Rosa nos toma de assalto quando o simpático palhaço-narrador toca sua sanfona e, com lágrimas aos olhos, cantarola a letra de «Pierrô Apaixonado».
A troca de cenário ao som de «Fim», do poeta português Mario de Sá-Carneiro, é igualmente tocante e forte.
Após três horas e meia diante de uma verdadeira obra de arte teatral, vem a escuridão.
Com ela o silêncio e o instante do aplauso.
E nós permanecemos ali.
Atônitos.
Orestéia é a celebração da arte exercida em sua máxima potência.
Teatro de discussão política e do aprendizado de como resistir no sonho «sem ceder à sedução de uma vantagem».
Transformador.
Imperdível!
Elenco:
Atílio Beline Vaz, Bira Nogueira, Bruna Bressani, Carlos Francisco, Dagoberto Feliz, Danilo Grangheia, Flávio Tolezani, Gisele Valeri, Nani de Oliveira, Paloma Galasso, Patrícia Barros e Zeca Rodrigues
Orestéia -- O Canto do Bode * *
Em cartaz no Galpão do Folias * *
R. Ana Cintra, 213 -- Santa Cecília -- ao lado da estação Sta.
Cecília do metrô.
Tel. (11) 3361-2223
5 as.
e 6 as.
às 20hs -- R$ 10,00 -- promocional
Sáb. às 20h e dom.
às 19h -- R$ 30,00
censura 14 anos, 70 lugares, 190 minutos (com intervalo de 10 min.)
Número de frases: 69
Até 04/11 (Respondida no dia 16.01.08)
Em entrevista exclusiva para divulgar o DJ Set que fará na cidade de Miguel Pereira / RJ [26.01], o premiado e «multi-gênero» Dj Dolores fala sobre o novo disco [1 Real, ainda não lançado no Brasil], musicalidades e processos criativos, sobre a apresentação do dia 26, além da trilha sonora que irá compor nos próximos dias em Miguel Pereira, para uma montagem de teatro.
Você disse numa matéria feita por o Jornal do Commercio/PE (10.01.2008) que «música tem vida própria, é só segui-la».
N ´ outro momento, a mesma matéria diz que nunca o «rótulo de world music» se encaixou tão bem num disco como no caso de 1 Real.
A Folha de São Paulo (26.12.2007) compartilha da mesma opinião a respeito do seu trabalho, de um modo geral, situando você na categoria de «Dj Globalista».
Entre o «rótulo de world music»,» globalista " e a música com vida própria, o que é o seu novo trabalho?
DJD.
Sem dúvida, eu só sigo minha intuição.
Rótulos não são importantes se você está numa posição de criador.
Ao contrário da diversidade sonora do disco, as letras tratam especificamente das mazelas urbanas do cotidiano de Recife, cidade que você diz ser o «centro das atenções neste disco» (Jornal do Commercio/PE, 10.01.2008).
Como foi universalizar nas músicas suas impressões sobre este centro das atenções?
DJD.
Sou um cidadão do mundo que mora no Recife, então toda a música -- e os demais pontos de vista sobre o mundo -- é conseqüência da experiência de estar vivo e circulando por aí.
Publicada na semana passada, no site português cronicasdaterra.
com, uma nota diz que 1 Real te mostra «mais músico, produtor e escritor de canções e menos DJ».
Isto para você é fato, em relação aos dois álbuns anteriores?
Qual seria a essencial diferença do Dolores em 1 Real?
DJD.
Sim, ele tem razão.
Em este disco -- o mais pessoal -- fiz quase todas as composições sem parceiros, além de arranjos e produção.
Tentei compor canções, muito difícil para mim que venho de uma praia mais experimental.
Você mencionaria vantagens e desvantagens entre lançar um disco por um selo internacional e por um nacional?
DJD.
Lançar discos é muito trabalhoso.
O bom seria fazer a música e disponibilizá-la gratuitamente.
Mas já que temos de lançar, que seja com parceiros que se preocupam com a divulgação, distribuição.
Estar num selo gringo me livra um pouco de todo o trabalho que envolve lançar um disco.
Os selos brasileiros andam mal das pernas ...
O lançamento do disco está agendado para o mês de fevereiro na Europa, por onde você fará uma série de shows em países como Portugal, Holanda e França.
Sua apresentação em Miguel Pereira / RJ será uma prévia do lançamento do disco no Brasil?
O que há preparado para este show de véspera de carnaval?
DJD.
Aí vou fazer um dj set.
A tour é com minha banda:
música eletrônica ao vivo.
Quem for à Miguel Pereira / RJ vai dançar coisas que nunca ouviu falar.
Minha idéia de dj é servir de «traficante» de música:
levar ao público o que eles gostariam de dançar mas nunca tiveram oportunidade de conhecer.
Um outro motivo te leva à Miguel Pereira, que é a criação da trilha sonora de Hotel Medeia -- 3 performances da meia-noite ao amanhecer, da companhia teatral Zecora Ura, que desenvolve obras e processos artísticos numa ponte entre o Brasil e o Reino Unido.
Como se deu a parceria?
DJD.
Estou envolvido por acaso.
Mas há algo mais verdadeiro que o acaso?
Como será o processo de composição desta trilha?
Alguma dinâmica específica em conjunto com o elenco e a direção de Hotel Medeia?
Já sabe algo sobre as performances, ou tudo será descoberto na hora?
DJD.
Não faço idéia nenhuma.
Estou mantendo a mente aberta para o que me oferecerem.
Você foi vencedor do Prêmio TIM de Música 2006, na categoria de melhor disco de música eletrônica, e do BBC Awards 2004 (Inglaterra), com o troféu Club Global da Radio One.
Em que aspectos estes prêmios foram importantes pra sua carreira?
E para a música eletrônica brasileira, de um modo geral?
DJD.
É muito bom ser reconhecido mesmo que se trabalhe numa cena híbrida, que está ligada a estilos diferentes, pouco homogêneos.
Gostaria de dizer mais alguma coisa?
DJD.
O disco nem saiu ainda.
Só em fevereiro.
+ Dolores
www.djdolores.com www.djdolores.blogspot.com
Número de frases: 60
www.myspace.com/djdoloresaparelhagem * Radiocom
O último domingo (23) é uma data histórica para Pelotas e para os movimentos sociais dessa cidade.
A Rádio Comunidade FM -- que, em 12 junho, completa 5 anos -- dá um grande passo para disputar a hegemonia na comunicação levando suas ondas sonoras para a internet.
Agora é só clicar www.radiocom.org.br e se deliciar com a programação da Rádio Comunidade FM104.
5: muita música popular brasileira de qualidade, debates, entrevistas e notícias.
A RádioCOM é uma emissora comunitária que está posicionada sempre ao lado dos trabalhadores e junto dos movimentos sociais.
Um pouco de história
A história da RádioCOM iniciou em 1998, a partir da iniciativa de algumas pessoas e sindicatos de trabalhadores de Pelotas.
Tomaram a frente do projeto o Sindicato dos Bancários de Pelotas e Região e o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias e Cooperativas da Alimentação, o STICAP.
Estes sindicatos, ao observarem a necessidade da democratização dos meios de comunicação no Brasil e o seu papel enquanto entidades que representam os trabalhadores das suas categorias específicas e, mais do que isso, a luta geral dos trabalhadores na dimensão da política de caráter solidário e classista defendida por os princípios dos quais ambos são signatários no âmbito da sua organização nacional através da Central Única dos Trabalhadores -- Cut, definiram um calendário de encontros para iniciar a construção de uma rádio comunitária de caráter popular em Pelotas.
Desde as primeiras reuniões, ocorridas no Sindicato dos Bancários, que foi o «berço» da RádioCOM, definiu-se que seriam seguidos os princípios que regiam o movimento nacional de rádios comunitárias, através da sua associação:
a Associação Brasileira de Rádios Comunitárias (Abraço).
Iniciou-se aí um processo de trocas de experiências com reuniões abertas à comunidade e que, ao longo do tempo, foram agregando mais sindicatos de trabalhadores, movimentos sociais e pessoas da comunidade.
Entre os setores que compuseram o «mosaico» inicial da experiência da RádioCOM estavam, além de representantes de diversos sindicatos, o movimento hip-hop, artesãos, músicos, ambientalistas, estudantes, curiosos, jornalistas, movimento negro, radialistas excluídos das rádios oficiais etc..
Um dado interessante é o de que, por o fato da iniciativa de construção da emissora haver partido de sindicatos de trabalhadores, poderia haver o risco da emissora assumir um caráter de «rádio sindical», porém desde o início o projeto orientou-se na perspectiva de um meio plural, aberto as iniciativas existentes na comunidade.
Os primeiros desafios do processo de construção da emissora eram a parte legal, o financeiro e o caráter da emissora.
Os sindicatos mobilizaram-se e estabeleceram uma política de cotas para que fossem comprados os equipamentos.
Paralelo a isso realizaram-se as discussões para a definição da potência da rádio, localização, modelo de gestão e conteúdo de programação.
Decidiu-se que a emissora teria como princípios a luta por a liberdade e democratização dos meios de comunicação, dar voz aos movimentos sociais que são geralmente excluídos da imprensa oficial, ter programação voltada para a informação e educação, valorizar a cultura local e popular e proporcionar a participação da sociedade na emissora.
O período de discussões para a criação da RádioCOM durou de 1998 até 2001, com reuniões e debates acerca do tipo de música que deveria e que não deveria tocar, de como seria a programação informativa, os programas etc..
Em 1999, após duas assembléias gerais abertas à comunidade e divulgadas com edital público nos jornais locais, foi realizada a fundação da Associação Cultural Rádio FM de Pelotas -- RádioCOM.
Logo a seguir, com a legalização da associação, deram-se os encaminhamentos de envio de documentação ao Ministério das Comunicações com pedido de liberação de um canal de Rádio Comunitária para Pelotas, o que até hoje não foi deferido.
A RádioCOM teve uma primeira experiência no ar, algo como uma pré-estréia, ao transmitir ao vivo do pátio do antigo Instituto de Ciências Humanas da UFPEL, um evento organizado por o movimento negro de Pelotas:
foi o 1º Encontro da Consciência Negra, que ocorreu no dia 18 de novembro de 2000.
Os «rádiocomunitários» transferiram para o local todo o aparato de equipamentos da emissora para a realização da transmissão.
O detalhe curioso é que a antena foi instalada no alto de um bambu, que foi tirado do varal de secar roupas da casa dos pais de um dos membros da rádio.
Em o dia 12 de junho de 2001 a Radiocom entrou no ar e, agora, também está na internet.
Número de frases: 27
Onde a cultura é livre!!!
Almir Eduardo Melke Sater é o artista campo-grandense que foi mais longe no mundo da música.
Sua primeira apresentação na cidade aconteceu aos 12 anos na extinta Rádio Cultura.
Montou a dupla Lupe e Lampião, com o amigo Maurício Barros, tocou com o grupo chileno Água, participou da banda Tapyara e começou a virar profissional quando foi convidado para acompanhar Tetê e o Lírio Selvagem a partir de 1979 num show em Cuiabá.
Uma década depois, o garoto que cresceu com a cara suja de manga e jogando bola nos campinhos campo-grandenses se tornava um verdadeiro fenômeno da música popular brasileira.
Com a aparição na novela «Pantanal», em 1990, o país inteiro caiu nas graças daquele que se transformou no maior violeiro do Brasil de todos os tempos:
Almir Sater.
Com dez álbuns solos na discografia e centenas de shows lotados por todas as regiões do país, o músico de 51 anos tem um jeito todo especial de conduzir a carreira.
Participou de sucessos (O Rei do Gado) e fracassos (Ana Raio e Zé Trovão) dramatúrgicos.
Ano passado aceitou o convite para atuar mais uma vez como ator em Bicho do Mato.
Queria se aproximar do público jovem.
Com algumas músicas na trilha sonora da novela, resolveu enfim, depois de um hiato de nove anos, produzir um novo disco:
Sete Sinais!
O seu show, no entanto, não muda e Almir não parece se incomodar com isso.
Para ele, mais importante que uma música nova no repertório é agradar a pessoa que pagou para escutar suas canções de sucesso.
Dono de um jeito manso de falar e um toque de Midas que transforma o caminho em que passa em paisagem mágica, Almir define o estilo de música produzida por ele e outros compositores de sua geração como folk brasileiro.
Em a entrevista (feita após o seu show em Campo Grande, em maio de 2007), Almir explica porque não muda de show, como encara o mundo da Internet hoje em dia, fala dos parceiros Paulo Simões e Renato Teixeira, relembra o tempo em que as gravadoras eram poderosas, garante que está largando os compromissos que não têm a ver com a música, revela que pensa em gravar um novo disco instrumental e elege Geraldo Espíndola como um dos músicos que mais admira.
Escute esta entrevista Aqui!
Rodrigo Teixeira -- Como você situaria esta música campo-grandense produzida por você e artistas como Paulo Simões, Geraldo Roca, os Espíndola ...?
Almir Sater -- É diferente de tudo.
Tem influência do folk americano, da música paraguaia, andina e esta mistura é bonita.
Nossa música não é para o comércio.
As pessoas se emocionam nos shows que faço.
É uma música para a alma.
Ninguém faz igual.
O Renato (Teixeira) parece um pouco com a gente.
Quando ouvi pela primeira vez pensei «não estamos sozinhos no mundo».
RT -- Mas é uma música que ainda está para ser descoberta.
As -- Espero que não descubram nunca.
Em o momento que você vira moda aí enche o saco.
Toca o dia inteiro e você não agüenta mais.
Toda moda acaba também.
Então o bom é estar paralelo.
RT -- O Jayme Monjardim afirma que você é um fenômeno porque é sucesso mesmo estando fora da grande mídia.
É difícil se manter no auge?
-- É difícil.
O Jayme Monjardim me ajudou muito a atingir este sucesso.
«Pantanal» foi um divisor de águas.
Consegui que a minha música fosse escutada, junto com a minha imagem, com o cenário do Pantanal.
Encaixou tudo.
É que nem acertar aquela bola que bate na trave antes de entrar.
RT -- É verdade que na época você estava querendo abandonar a carreira?
As -- Não.
Tinha feito o Rasta Bonito nos Eua e recebi um convite para ir morar lá para montar um som só instrumental.
Em o último show em Fortaleza o Sérgio Reis me ligou falando da novela.
«Se lembra da novela que não rolou na Globo?
Vamos gravar aqui no Pantanal?».
Meu produtor falou que estava louco de não ir.
Mas só se vai para os Eua quando está ruim aqui.
Quando está bom você não sai.
Disse para o empresário «Agora vai ficar bom, vou ficar um ano no Pantanal tocando viola e ainda ganhar».
Foi realmente uma sorte a novela fazer sucesso e todo mundo que participou parece que tem aquela estrela pantaneira iluminando até hoje.
-- Você vai voltar a gravar um disco instrumental?
As -- Estou pensando em fazer um.
Mas não toco mais como antigamente.
Antes tocava melhor porque tocava o dia inteiro.
Mas depois que você casa e tem filho já tem a preocupação com a família e vai te tirando o tempo da viola.
Os gênios da música faziam as grandes composições sempre até os 22 anos.
Depois tem que cuidar de filho e fica diferente.
Sinto hoje que toco pior.
Tenho mais macetes.
Estou pensando num instrumental mais para o caipira e para estas coisas da fronteira.
-- E qual foi a motivação para gravar o «Sete Sinais»?
-- Não tinha pensado em gravar.
A gente faz muito show e é desgastante.
Para fazer um show você ocupa três noites dormindo em ônibus e tudo corrido.
Quando me convidaram para fazer a novela «Bicho do Mato» fiquei na dúvida, mas achei legal porque senti que a criançada já não me conhecia mais.
E novela é um jeito de se aproximar do público jovem.
Me pediram algumas músicas para colocar na trilha.
Gravei cinco músicas para escolher uma, mas pegaram as cinco e falaram que iam lançar as músicas no disco da novela.
Entrei no estúdio e em 20 dias fiz meu disco.
Aí fiquei esperando meses e nada.
O pessoal não sabia se iria lançar ou não o disco da novela e então «já que não vão lançar lanço eu».
Fui a São Paulo e mixei o disco às pressas no tempo que tinha sobrando e lancei.
-- O «Sete Sinais» completa a trilogia que começou com «Terra de Sonhos e Caminhos Me Levem»?
-- Mais ou menos.
É o mesmo clima, mesma banda.
O Terra de Sonhos é um disco experimental.
Tinha acabado de montar um estúdio semiprofissional em casa.
E experimentamos, tipo «vamos fazer um disco aqui e tocar a vontade?».
O Caminhos Me Levem é um disco mais sujão, mais bruto.
Mas tem emoção, tem peças e momentos bonitos.
O Sete Sinais, em relação ao Caminhos, é mais fino.
O repertório mais trabalhado.
Nós ficamos umas duas semanas tocando este disco no Pantanal.
Entrei no Mosh (estúdio) em São Paulo, gravei umas faixas com violão de 12, mas não era aquilo.
Queria uma outra sonoridade.
Aí resolvi montar um disco em casa porque senti que precisava de tempo.
E em estúdio normal passou as seis horas já tem um cara com o violão esperando para entrar e gravar.
Fica muito impessoal.
Achei que gravando em casa, mesmo que perdesse um pouco de qualidade, a gente ia ganhar em clima.
-- E como nasceram as músicas do disco?
-- As sete faixas em parceria com o Paulinho (Simões) foram feitas desde 2000, na passagem do milênio.
As músicas foram feitas na base do violão.
Estava no Pantanal com o Simões e eu com um violãozinho pequenininho.
A gente ficava conversando e as músicas foram nascendo.
Ter composto no violão muda a concepção e ficou um disco mais folk.
Acho que é um dos meus melhores discos.
Você vai ouvindo e depois de um tempo vicia.
Ele é quase unanimidade.
Tem uns dois amigos que «gostaram mais ou menos».
RT -- A canção «Três Toques na Madeira» tem a ver com o «Pagode Bom de Briga».
São músicas onde você conseguiu dar uma continuidade àquela música mais caipira?
-- Estas duas músicas são críticas humoradas.
Porque fazer crítica mal-humorado não dá.
Já tá tudo tão difícil, se a gente entrar com mau humor aí pesa muito.
Toda crítica para cutucar uma pessoa tem que ser com um sorriso na cara, senão vira briga.
E sinto que «Três Toques» tem uma levada bem raiz e uma música simples.
A letra é engraçada e bate muito com o que a gente acha do Brasil neste momento.
O meu parceiro Paulo Simões é o grande responsável por esta mensagem.
RT -- O Paulo Simões está mais ativo neste disco.
«Sete Sinais» marca um retorno desta parceria?
As -- Se estou mais tempo em Mato Grosso faço música com o Simões.
Eu preciso de presença física para compor.
Não sei compor me mandando uma letra por carta e eu fazer a música.
Gosto mais de ficar conversando e trabalhando.
É muito feliz o nosso processo de criação.
Se estou na Serra da Cantareira componho com o Renato (Teixeira) que é meu vizinho.
Se o Simões aparecer lá a gente faz música junto.
Então é muito de onde estou.
Os dois são maravilhosos.
Cada um tem um estilo e um jeito de trabalhar.
O Simões está mais presente no Sete Sinais porque fiquei mais tempo no Pantanal de 2000 para cá.
Em 2000 estava morando lá e ele ficava com a gente.
Nada pensado.
Não sou um cara de planejar.
Sou péssimo planejador.
As coisas têm que acontecer espontaneamente.
Aí uma luz acende e você enxerga.
-- Atualmente como é lançar um disco novo no mercado?
Antes tinha todos aqueles programas para fazer, tinha uma trilha ...
-- Eu saía com o divulgador da gravadora no carrinho de ele correndo rádio por rádio.
Hoje é, sei lá eu, o purgatório.
Você não sabe o que está rolando.
Tá uma coisa perdida.
Tenho dó das pessoas que estão começando uma carreira musical.
É difícil.
Tem que ter muito talento e muita paciência porque não tem caminho para você mostrar o seu trabalho.
O que despontam são coisas de compreensão fácil.
Musiquinha engraçadinha que fala da bundinha e tal.
Um trabalho mais rebuscado precisa de um pouco mais de tempo para entender, ouvir e acho que as pessoas e os meios de comunicação não têm mais este tempo.
Ainda bem que tem a Internet que você baixa música e todo mundo é dono de tudo e ninguém é dono de nada.
RT -- Em o Youtube você tem mais de 150 mil acessos.
Como você analisa a questão da tecnologia?
Você não tem um site oficial por exemplo.
As -- Me constrange ficar falando de mim num site.
Quem tem que falar do artista são as pessoas que gostam do artista.
Senão vira aquela coisa de vaidade, tipo «ah eu sou isso e aquilo».
Não sei falar do meu trabalho.
O que é, que estilo ...
Então o que vou falar num site?
Não tem o que falar.
As pessoas que gostam e tem tempo falam entre eles, metem o pau, falam bem, falam o que quiser.
Mas no momento que é um site oficial tenho que me responsabilizar por aquilo.
E não quero me responsabilizar por mais nada.
Aliás, to largando tudo na minha vida que não tem a ver com música.
A não ser os filhos que não dá para largar.
Mas acho maravilhosa a internet.
Mudou o mundo do disco e da música.
RT -- O CD vai acabar?
As -- O CD não vai acabar.
O que está acabando são as gravadoras.
Aquela pessoa que comandava o artista no chicote.
Antigamente para você gravar um disco custava uma fortuna a hora de estúdio.
Um estúdio custava milhões de dólares.
Hoje com qualquer dolarzinho você monta um estúdio razoável em sua casa, grava o disco e lança na Internet.
É democrático.
O disco daqui a pouco não vai ter mais aquele negócio para você carregar.
Vai estar tudo virtual, você baixa a música, monta a capa e faça o que você quiser.
Baixa uma, baixa duas e paga porque o artista vive disso.
Isto até impede um pouco o pirata.
Agora pode ser que o cara baixe e não pague também, mas tudo bem, as gravadoras também não pagam.
-- Você está fazendo o mesmo show há uns sete anos.
Como é inserir músicas novas neste contexto?
-- Eu não tenho um show novo e show velho.
Meu show é o mesmo a vida inteira.
Pode entrar uma música e sair outra ou dar mais ênfase no instrumental.
Este show sintetiza o meu trabalho, com músicas de vários discos.
E funciona em teatro, praça, exposição, som bom ou ruim e tocamos de costas, dentro d' água, pendurado ...
É um show que está na mão e agora é que sinto que ele está bom.
Então vai ser o mesmo show a vida inteira.
Não tem o que inventar.
Um show instrumental não dá mais.
Já tentei e me pendem sempre as mesmas.
«Chalana», «Violeiro Toca», Tocando em Frente» ...
Vou brigar com meu público, contra o sucesso e não vou tocar a música que a pessoa pagou para ouvir?
Se for para cantar só o que eu quero a gente canta lá em casa.
RT -- É mais campo-grandense que reclama disso?
-- É mais quem vê meu show todo dia.
Em Campo Grande é o Paulinho (Simões), meu amigo Zé Alfredo, minha mãe que fica falando ' você fica cantando o mesmo show ` mas ela vai a todos os shows.
Os músicos também reclamam, mas digo ' pô agora que está gostoso este show '.
-- Quando você deve colocar as músicas do «Sete Sinais» no show?
As -- Tocar o repertório novo é outra coisa.
às vezes jogo no ensaio e sinto que ele flutua um pouco.
Não está na mão.
Porque este disco novo praticamente foi feito em estudiozinho caseiro e por partes.
Fizemos a base, depois cada um fazia seu instrumento.
Tudo devagarinho.
Então a banda toda não tocou neste disco.
Foi mais eu, Nadinho (baixista) e Rodrigo (irmão de Almir).
Mas já estamos tocando «Em o Rastro da Lua Cheia» porque senti que era a melhorzinha que saía no ensaio.
Tem que estar gostoso de tocar.
Não dá para tocar só porque é música nova se ela está «flutuando» e o groove ainda não está legal.
RT -- Quando você chegou neste «som do Almir Sater»?
Em discos mais antigos você flertava com muitas tendências diferentes e até com um som mais pesado.
-- Eu não sou sertanejo.
Eu sou pop.
Eu sou roqueiro.
Não escuto música sertaneja em casa.
Escuto violeiro pontear a viola e não tem nada a ver com sertanejo.
Violeiro é instrumentista, é bandeira brasileira ...
Escutar o Tião Carreiro pontear uma viola é rock ' n roll.
Sempre gostei deste som mais de pegada.
Sempre gostei de violão de 12, por exemplo.
Em o meu segundo disco tem o «Boieiro do Nabileque» que tem tudo a ver com o «Sete Sinais».
Acho que os meus discos tem a ver um com o outro.
O mais diferente é o Cria que tentei fazer um caminho mais pop e foi um resultado razoável.
RT -- Você concorda que modernizou a maneira de tocar e deu um passo a frente no som da viola de 10 cordas no Brasil?
As -- A música caipira e os violeiros eram de uma geração.
E cheguei de uma outra geração, com outro tipo de tendência, com um pouco de influência do rock ' n roll, música folk, música andina e passei a tocar viola trazendo estas influencias.
E mostrou-se as mil possibilidades da viola.
O próprio Tião (Carreiro) ficou encantado e achou bonito o som e com coisas que ele nunca pensou em fazer.
Sou um cara que chegou cabeludo numa época que tinha uma diferença dentro da mesma gravadora.
Tinha um selo que era só sertanejo e outro que era popular.
Ninguém sabia onde me colocar.
Um falava «é sertanejo» e o outro «é popular».
Perguntei qual era a diferença e qual que eles pagavam melhor.
Para a sertanejo era 50 % menos e eu disse «então sou popular».
Em a época, se tinha um royalty de 10 % para o sertanejo era 5 %.
Era discriminado mesmo e só tocava na madrugada.
Eles se vingaram, entupiram as rádios e agora tem que agüentar os caras.
-- Como você analisa a influência paraguaia na música brasileira?
As -- A primeira fusão da música do Paraguai com a brasileira foi Chalana lá na década de 40.
Música paraguaia é simples, mais emoção.
Ela pode passar para a gente aquele sentimento mais simples, tocar aquelas coisas que permitem cantar umas letras mais íntimas.
Trem do Pantanal é uma guarânia com a influência paraguaia, mas a harmonia de ela é toda blues.
E o blues em compasso ternário fica gozado.
Nunca gostei de tocar guarânia imitando o jeito paraguaio.
É sem graça.
Agora é bacana trazer aquela emoção da fronteira do toque da música paraguaia para o nosso som.
Nós crescemos ouvindo isso e faz parte da nossa cultura.
Música ao vivo em Campo Grande é na churrascaria com grupo paraguaio tocando.
Isto foi importante.
Mas não sei se esta música vira sucesso.
Ela já é sucesso.
Este rasqueado, esta música sertaneja, ela tem muita influência da música paraguaia, os mariachis ...
RT -- O Renato Teixeira fala que os artistas de MS são os cantores de uma nova era.
As -- O Renato e o Geraldo Roca têm falado muito que a gente faz um som folk.
Eu concordo.
Acho que é o folk brasileiro, com influência do folk norte-americano, paraguaio, andino ...
É o nosso folk.
É muito mais do que sertanejo.
O folk brasileiro é o Roca, Simões, eu ...
O Geraldo Espíndola compõe canções maravilhosas com influência da música paraguaia com um jeito de ele.
Ele é uma das pessoas mais completas que conheço.
E é folk total.
Já viu ele fazer sambinha?
Não faz.
Alguém desta nossa geração toca samba?
Ninguém. Então nós estamos muito mais para o centro do Brasil, mais voltado para o mundo do que para o Brasil mesmo.
Nossa influência aqui é mais para fora do que para dentro.
RT -- De costas para o Atlântico e de frente para o Pacífico ...
-- Em o Mato Grosso do Sul estamos de frente para as estrelas.
Almir Sater / Discos Solos
1981 -- Estradeiro
1982 -- Doma
1985 -- Instrumental I
1986 -- Cria
1989 -- Rasta Bonito
1990 -- Instrumental II
1992 -- A o Vivo
1994 -- Terra de Sonhos
1997 -- Caminhos Me Levem
2006 -- Sete Sinais
Escute os discos do Almir clicando Aqui!
Três Toques NA Madeira (Letra) (
Paulo Simões/Almir Sater) De essa maneira ...
De essa maneira ...
Tá muito pouco três toques na madeira
Novo milênio e a gente na rabeira
Bola da vez na ciranda financeira
Em o desce que sobe que ladeira
Montanha russa à moda brasileira
Maior limpeza
Venderam tudo até a prateleira
Abriram a bolsa e bateram a carteira
Esse câmbio que sobe que desce que vem
Para a cima da gente que nem um trem
Gente fina a mamata já cansou
Fim de baile, fim de show
Feliz de quem curtiu
Um bis pra quem bailou o velho rock n ´ roll
Mas que moleza
Chega novembro e a fauna brasileira
Vai lá na praia e se espicha numa esteira
Junta Natal, carnaval, só doideira
Ressaca «marvada» só dá quarta feira
E até a Pascoa tem muita saideira
Por gentileza, se a rataria
Pular fora da banheira
Olha a fineza
Chaveia a porta e não deixa a luz acesa
Iluminando a vastidão desta pobreza
Sem eira nem beira e vivendo feliz
Sambando na escola delícia de País
Gente fina esse clima desandou
Horizonte pretiou
Êeeh boi vem agua aí já trovejou
Mas que beleza
Tá muito tarde pra por a ratoeira
Nossa riqueza
Tá navegando no mar da globalheira
Com tanto ricaço e madame que luxa
Tanto que aspira
Que estica e puxa
Opera daqui, conserta de ali
Acaba outdoor do Rei do bisturi
Êeei, hei
A coisa tá feia
Nem adianta três toques na madeira
De essa Maneira,
Vou me manda
Lá para as " banda pantaneira "
Eu digo, bye bye
Hasta luego
Número de frases: 325
arriverdecci Eu digo, bye bye Por baixo, o mangue;
por cima, o asfalto, que atravessa rios e pontes.
Pontes que ligam a cidade, que conduzem as pessoas.
Um grupo, um duplo, um triplo, um único.
A terceira edição do Festival Coquetel Molotov, em Recife, conseguiu reunir no nordeste um grande público em torno de moda, cinema e música internacional, com a facilidade da Internet.
Realizado no teatro da UFPE, a terceira edição do festival Coquetel Molotov ofereceu pluralidade na feira cultural:
música com representantes de selos do nordeste e do sudeste (Peligro, Mudernage, Xubba Musik, Fábrica de Estúdios e Amplitude), leitura (Fanzine Lado [R], HQ's e a revista Giro Cultural) e moda com uma forte tendência retrô -- presença marcante de estilistas pernambucanos e suas próprias confecções. (
Varal, Tresfulanas, Brechó de Bolinha).
Entre as criações, até surgiram contestações científicas (" Não!"
ao rebaixamento de plutão) e brincadeiras políticas nas camisetas e adesivos bem humorados (" Vendo meu voto, tratar aqui!")
de um grupo de artistas de Olinda.
Independência e multifuncionalidade
Essa mistura de assuntos, temas e canais deram cor, tom e forma ao festival, que ainda proporcionou rodas de conversas sobre empreendedorismo cultural, Ordem dos Músicos x Liberdade Artística, mídias e, claro, música do Brasil e do mundo.
«Acho louváveis essas discussões, no entanto falar empreendedorismo cultural e ordem dos músicos é chover no molhado, não é mais nenhuma novidade.
A pauta agora é ' o que é e o que faz um festival independente? '»,
questiona Marcelo Toledo, estudante do curso de " História da UFPE.
«Independente de quê?
já que estamos aqui pra ouvir bandas fora do circuito comercial, mas pra isso precisamos da colaboração das grandes corporações para viabilizar o evento?!»,
completa já deixando a pergunta no ar.
Discussões à parte, a multifuncionalidade do festival estava presente até mesmo nos espaços.
A mesma sala de exibição dos curtas-metragens na programação da tarde, à noite vibrava ao som das guitarras distorcidas do genuíno rock brasileiro.
Destaque para a banda paulistana Debate:
«um rock desgovernado, onde cada idéia faz parte de um grande discurso sonoro», definem os próprios integrantes.
Música para ver e ouvir
Música no teatro.
Um lugar inusitado pra se dançar rock, mas um bom lugar para apreciar os experimentalismos das bandas.
Se em alguns shows brasileiros como Móveis Coloniais de Acaju (DF) e as Backing BallCats Barbis Vocal's a brecha entre os assentos era pequena para a euforia do público, as cadeiras foram um bom refugio para ouvir com atenção o beatbox inacreditável do Spleen (França) e a melodia angelical de timbres infantis das duas irmãs Cocorosie (Eua).
Fechando o festival um deleite para olhos e ouvidos:
os cinco integrantes da banda instrumental de Chicago, Tortoise -- que mais pareciam dez em cima do palco tal a amplitude da música -- mostrou a combinação de rock e programações eletrônicas sofisticadas, tudo sincronizado com projeções psicodélicas.
Sem dúvida hipnotizante!
Em os dois dias de eventos mais de 16 grupos, entre eles 4 internacionais, se apresentaram nos palcos do Coquetel Molotov.
A descentralização da música internacional do eixo Rio-São Paulo é o diferencial do Coquetel, que começa a despontar como um novo pólo do circuito, antenado o Nordeste brasileiro com o que está sendo produzido e ouvido nos palcos undergrounds do mundo.
A verdade é que poucos shows internacionais chegam por aqui, e Recife, com o Coquetel Molotov está quebrando essas fronteiras invisíveis e escancarando moda e atitude.
Número de frases: 33
São poucos os DJs que podem falar com tanta propriedade sobre música como o Tahira.
Ao longo de sua carreira ele dedicou muito tempo para pesquisa de ritmos brasileiros, latinos, africanos e suas misturas e influências nas mais diferentes vertentes.
De a MPB á House Music, passando por o funk, soul, nu-jazz ...
Está tudo ali no cardápio do DJ Tahira.
Em esta entrevista ele fala com o produtor Tiago Barizon sobre carreira, mercado e, claro, música.
Barizon.
Net -- Tahira, conta prá gente como foi que você começou sua carreira.
O que foi que te direcionou para a música e mais especificamente para o trabalho como DJ?
Tahira -- Desde pequeno sempre gostei de musica.
Quando tinha uns 10 anos o break pegou no Brasil.
Fiquei bobo de ver os bboys dançando.
Aí vi o filme Beat Street (que falava um pouco da historia dos guetos de New York e a cultura hip hop.
Grafite, DJ, MC e bboys).
Foi fatal.
Pirei. Demorou um pouco.
Cinco anos mais tarde comecei a me inteirar na cultura DJ.
Barizon.
Net -- Qual a importância de sua temporada em Londres para sua formação profissional?
Tahira -- Música, com certeza.
Ver como um país de primeiro mundo dá importância para a cultura.
Como a população consome e respeita quem trabalha com isso.
O público lá entende muito de música.
Todos os estilos musicais têm seu espaço, uma noite semanal e um programa de radio.
As minorias musicais são fortes e estáveis.
E a maioria das pessoas é eclética.
Uma noite vão ouvir dub, na outra jazz, e na outra samba.
Assim vai.
Barizon.
Net -- Seus sets são conhecidos por serem elegantes, charmosos, sem deixar de serem empolgantes e dançantes.
Quando foi que você começou a se dedicar ao Nu Jazz e fazer essa pesquisa de ritmos latinos, africanos, brasileiros ...?
Tahira -- Londres foi um tapa na cara ...
A realidade batendo na porta.
Mas minha pesquisa já vem de antes.
Desde 97 acompanho o cenário jazz da Europa.
Em essa época o acid jazz tradicional estava em decadência, e aí começaram a aparecer as misturas do jazz com outros estilos.
Isso foi o pontapé inicial para tudo que vemos de Nu-Jazz atualmente.
E nessas misturas apareceram produtores com fortes influências dos ritmos latinos, africanos e brazucas.
Aí percebi que algo novo estava rolando.
Foi aí que começou minha pesquisa nessas áreas.
Tudo que é novo tem referência no passado.
Todo estilo novo é uma mistura de outros.
Para fazer música nova tem que saber de música antiga.
O novo não vive sem o velho.
Barizon.
Net -- Quais foram suas influências?
Tahira -- Putz ...
Muita, muita coisa diferente.
Meus primeiros discos foram uma coletânea de trilhas sonoras de seriados de ficção cientifica, o álbum do Van Halen 5150 e um do Modern Jazz Quartet, For Ellington.
Por aí já dá pra ver a salada que eu gostava. (
risos). Quando pequeno gravava os shows do Free Jazz Festival que passava na Globo.
Lá conheci Courtney Pine, Yellow Jackets, Raul Mascarenhas, Lounge Lizards, Cama de Gato, Dianne Schurr e muitos outros.
Depois com o lance do Break tive contato com sons tipo Kurtis Blow, Afrika Baambataa, Ice T, Chaka Khan, e no começo nos anos 90 foi o contato com os primórdios da House.
Ainda quando ela tinha forte influência da música negra.
Bomb The Bass, Simon Harris, S Express, Todd Terry etc etc..
Talvez essas foram as influências iniciais que me levaram ao caminho da cultura DJ.
Barizon.
Net -- Você já viajou por muitos países mostrando seus sets ecléticos e com muita música brasileira.
Músicas que muitas vezes não são populares aqui no Brasil.
Como você pode medir a aceitação da música brasileira fora daqui, através de sua experiência, por exemplo, na Ucrânia e Estônia?
Tahira -- O ritmo da música brasileira é muito forte.
Impossível ficar parado.
O mesmo com a música latina e africana.
Os europeus e americanos tem muita curiosidade porque é algo exótico para eles.
O engraçado é que o que é hit aqui não é lá.
Com exceção de alguns artistas.
Mas basicamente o ritmo dita as pistas estrangeiras.
Batucada, maracatu, samba jazz, forró, instrumentais antigos e as misturas brasileiras feitas no nordeste de Afro-Funk-Brazuca são fulminantes lá fora.
Aqui o chato é que tem que ficar tocando hits conhecidos para o povo cantar.
Lá, como eles não sabem a língua eles querem é dançar.
Barizon.
Net -- Já faz algum tempo que o acesso à música e às ferramentas de produção foi facilitado, principalmente com a internet.
Um aspecto positivo foi a abertura de um novo mercado e uma nova forma de distribuição para artistas emergentes.
Como você sentiu isso?
Tem coisas boas surgindo na cena?
Tahira -- A melhor coisa que aconteceu para a música foi isso.
Democratização. Antigamente tínhamos que ficar a mercê de uns manés só porque eles tinham mais grana e poderiam ter acesso a esse tipo de informação.
Agora é tudo igual.
Quem é bom se destaca.
E aquele rico que tinha exclusividade de acesso à informação tem que mostrar seu valor.
Caso contrário, tá fora.
Tem bastante coisa por aí.
Acho que ainda estamos na fase de transição.
Digo que existe um delay com a Europa de uns 4 anos.
Demorou, mas o preconceito por parte de músicos está acabando.
E os produtores (os DJs ainda não) estão ficando ecléticos e perceberam que para fazer musica é preciso um pouco de background em outros estilos.
O povo tá sacando ...
De aqui a dois anos o negócio vai ficar bom.
Pode ter certeza.
O Brasil vai ser uma fonte de música muito rica de novo.
O mais legal na parte dos músicos é que a molecada que toca instrumentos hoje é fã de St. Germain, Aqua Bassino, A Tribe Called Quest, Jazanova.
A molecada já entende a linguagem.
Não é como os músicos antigos que são fãs de Led Zeppelin (nada contra os fãs de Robert Plant, pelo amor de Deus!!
Eu também gosto.)
querendo fazer som de DJ para ganhar dinheiro.
Só vai sair b * * *
mesmo.
Barizon.
Net -- Como toda revolução, aspectos negativos puderam ser percebidos também.
A banalização do acesso é um de eles.
Qualquer um pode juntar em pouco tempo um vasto repertório e tocar na noite.
Todo mundo quer ser DJ.
Isso atrapalha aqueles DJs que fazem um trabalho sério de pesquisa ou o próprio meio acaba separando os bons dos maus profissionais?
Tahira -- O problema do Brasil é cultura.
O povo daqui não tem.
Então não sabe peneirar o que escuta.
Fica a mercê das modas de verão.
Ouvem até enjoar, aí quando aparece outra joga fora o que ouviu (fala que é uma m * * *)
e vai pra outra ...
Os DJs são a mesma coisa.
Mas a própria história mostra isso.
Em a noite esses DJs não tem durabilidade.
DJ sem personalidade é trocado por outro igual.
Eles vivem de influência e não de competência.
Independente de moda, os bons ficam.
É lógico que esses DJs temporários atrapalham um pouco, mas nada demais.
Barizon.
Net -- Em sua opinião, o que falta no cenário musical brasileiro?
Quais os entraves para os artistas e músicos que querem conquistar com um trabalho que tenha qualidade?
Tahira -- O povo adora copiar.
É incrível.
Ninguém quer inventar nada.
Um exemplo básico:
toco no Sarajevo.
Um lugar que sempre tem bandas tocando, todo dia.
Cara, não aguento mais ouvir bandas tocando música brasileira e o baterista cair no drum ' n ' bass.
Cara não se liga.
Isso já se esgotou.
Já vai fazer uns oito anos que isso foi criado.
Cheeeeeeega!!
De preferência crie, se for copiar copia logo, mas não depois de 5 anos, né?
Barizon.
Net -- O que o Alexandre Tahira ouve quando está em casa e quer descansar um pouco, sem pensar com sua mente musical?
Tahira -- Cara, gosto de um pouco de tudo.
Tava ouvindo um «The Best of» do Henri Mancini.
Muito bom.
Escuto a Antena Um bastante, a programação mudou um pouco, tá bem melhor que antes.
Ah! O álbum da Leslie Feist novo é bem gostoso de ouvir.
E nesse exato momento tô ouvindo o álbum do Toco, um artista brasileiro que está sendo lançado por a Schema (selo italiano).
Muito bom, samba tradicional.
Mas sem cair nos standards.
Por enquanto é o melhor artista que ouvi de música brasileira fazendo som tradicional.
Barizon.
Net -- Se não fosse por a música, o que você faria profissionalmente que o deixasse igualmente satisfeito?
Tahira -- Cara, sou fotógrafo também.
Fiz uma exposição por a Caixa Cultural há uns 3 anos.
Adoraria me dedicar a trampos autorais nessa área.
Barizon.
Net -- O que podemos esperar do DJ Tahira?
Quais os projetos, quais os planos?
Tahira -- Outra tour em 2007.
Começar a fazer música.
E me envolver mais no quesito de descobrir novos talentos na música.
Por enquanto é isso.
Fora as cartas na manga que nunca podemos revelar!
heheheheheehe ...
Links:
http://www.barizon.net/content/view/ 229/5/
Número de frases: 157
http://www.myspace.com/djtahira http://www.drumbass.com.br/ebs/ www.tramavirtual.com.br/david do pandeiro
Visitas às «tias» baianas na Rua de Sant ' anna, junto com o pai;
missas, com a mãe, onde se cantava as ladainhas;
visitas à casa do seu tio Juvenal e sua tia neném, em Madureira, freqüentada, entre outros, por Donga e Pixinguinha, e a participação na adolescência, às escondidas da mãe, nas rodas de batucada.
Esta trajetória fez de David de Araújo, o David do Pandeiro, um músico tão versátil.
Samba, coco, embolada, martelo, samba-de-roda, batuque, samba-sincopado, jongo, catimbó ...
suas composições podem passear por muitos dos inúmeros ritmos brasileiros.
Começou sua vida musical cantando em programa de calouros na Rádio Mayrink Veiga.
Trabalhou como ritmista profissional em gravadoras e participando em conjuntos de «samba-show».
Entre 1948 e 1950 participou do conjunto do Herivelto Martins.
Mas o que de fato o projetou foram as escolas de samba, onde atuou como pandeirista-malabarista e compositor.
Sua vida nas escolas de samba começou na Paz e Amor, de Bento Ribeiro, como Pandeirista-show e, depois como compositor.
Quando a Paz e Amor acabou, foi para a Acadêmicos de Bento Ribeiro, onde formou dupla com Dimas do Pandeiro (seu aluno).
Por volta de 1954, a dupla mudou-se para a União de Jacarepaguá, e para a Mangueira, aproximadamente em 1957 onde formaram trio com Humberto.
Em 1961, foi para o Império Serrano, como pandeirista-show e como compositor.
Em a Império Serrano disputou e ganhou o samba-enredo dois anos seguidos:
Rio dos Vice-Reis, em 1961, com Aidno Sá e Mano Décio da Viola.
Em 1962, com Aidno Sá e Guaraciaba, Rio de ontem e de hoje.
Permaneceu no Império até 1963, quando saiu e foi para a Portela, a convite de Natal.
Em a Portela, junto Candeia, Casquinha, Picolino, Casemiro, Arlindo e Jorge do Violão, criou o conjunto Mensageiros do Samba, que gravou um LP em 1966, por a Polygram.
Lado 1:
1. Esta melodia (Bubú / José Bispo);
2. Canção da Liberdade (Candeia);
3. Sinhá ...
Sinhá ... (Candeia / Casquinha);
4. Foi ela (Candeia) 5. Mensageiros do samba (Arlindo / Jorge do Violão)
Lado 2:
1. Gota d' água (Candeia);
2. Mulata (Davi / Casquinha);
3. Mudei de opinião (Casquinha / Bubú);
4. Lenços brancos (Picolino);
5. Se eu conseguir (Casquinha / Picolino);
6. Popurri * em Homenagem à Velha Guarda:
Com que roupa (Noel);
Se você jurar (Ismael / N. Bastos/F. Alves);
O orvalho vem caindo (Noel / Kid Pepe);
Leva meu samba (Ataulfo);
Implorar (Kid Pepe/Germano Augusto/Gaspar) *
Mantive a grafia original do disco.
Em 1973 muda-se para Olaria e para a Imperatriz Leopoldinense, onde cria o conjunto T.B. Samba que, além de participar de inúmeras gravações, grava um LP em 1974.
por a Copacabana,
Lado 1:
1. Eu e o Play-boy (Jayme Silva/Luiz Pereira);
2. Tia carola (José Maria da Silva/José Martins Pinto);
3. O mesmo blá blá (Cezar Saraiva da Silva / Pedro Malta Rainho);
4. Crime do galinheiro (José Maria da Silva/Luiz Alberto Chavão de Oliveira/Pedro Malta Rainho);
5. Ninguém jantou (Geraldo Barbosa);
6. Nêga do pé de pilão (David / Jorge Muniz Cortez Filho)
Lado 2:
1. Meu belo tema baiano (Cezão / Pedro Rainho);
2. A velha (Oliviel Laves de Oliveira/Darcy Gomes do Nascimento);
3. Aodociaba (Oliviel / Darcy);
4. Cai neblina (David / Angelino Gomes do Rosário);
5. Fim de folia (Jacinto Antônio de Souza Filho);
6. Rei do morro (Aldecy Reis Pereira/David
há mais de doze anos, David do Pandeiro está na Velha Guarda da Portela.
Participou também da «Casa da Mãe Joana, uma» das pioneiras da atual onda de revigoramento do samba.
Ao longo de sua carreira, teve o prazer de percorrer todo o Brasil, em temporadas musicais, especialmente nos anos 50, em turnê por o Norte, Nordeste e Sul.
Além de apresentações internacionais suas e também da Velha Guarda da Portela.
Foram as viagens por o Brasil que despertaram em Davi a veia de pesquisador da história e dos ritmos da cultura popular brasileira.
O disco Tudo Azul foi um marco para a Velha Guarda.
David só lamenta que o grupo, nesse disco, não pôde contar com o Manacéa nem com o Alberto Lonato e o Osmar do Cavaco, que já tinham falecido.
«Eles não tiveram a chance de ver esse disco.
Mas lá de onde estão, eles estão vendo» ...
Um depoimento de Davi do Pandeiro é um valioso testemunho da história do samba.
Suas composições também, por vezes, cumprem esse papel, como é o caso de Em o Tempo do Zeppelin, cuja letra vai como fecho desse texto:
Em o Tempo do Zeppelin
Samba de versos -- Autor:
Davi do Pandeiro
Em o tempo do Zeppelin
Em Oswaldo Cruz
O samba raiava assim
Em a chácara do Seu Napoleão
Paulo, Caetano e Rufino
Batiam o samba na mão
A Portela foi nascida
Com alegria e muita luz
De o conjunto carnavalesco
Escola de Samba de Oswaldo Cruz Com as cores azul e branco
Venceu o concurso do Zé Espinguela
Que tem o seu nome escrito
Em o livro Paulo da Portela
Em o tempo!
Quem nos faz é o capricho
Heitor dos Prazeres rebatizou
E mudando para vai como pode
Em o primeiro concurso se consagrou
De tanto mudar de nome
Para a melhor, ficou mais bela
Hoje é Gremio Recreativo
Escola de Samba Portela Em o tempo!
Consagrada no passado
Festejada no presente
A Estrada do Portela
Emprestou seu nome à gente
Paulo acendeu a chama
E o bloco de fama nos deu à luz
Assim nasceu a Portela
Em o bairro de Oswaldo Cruz
Em o tempo!
Em aquele tempo, compadre
O samba era mais divertido
As nossas pastoras sambavam
Em o terreiro de chão batido
Me contaram que naquele tempo
Não havia malandro cuzcuz
Mas havia valentão de fato
Mané Bambambã lá de Oswaldo Cruz.
Número de frases: 108
(Em a foto acima, DJ Patife, que tocou na tenda " Marky& Friends ": drum ´ n ´ bass em crise?)
O texto que segue depois deste longo parágrafo era para ter sido publicado em tempo real, logo depois do término do Skol Beats, que rolou em São Paulo dia 13 de maio.
Escrevi o trecho que segue em negrito abaixo assim que voltei da balada, já com o dia claro, por volta das 7 da manhã do domingo, Dia das Mães, quando alguns atentados do PCC já rolavam e poucos tinham a dimensão do perigo naquele momento.
Por «n» motivos não consegui postá-lo antes, o que foi até bom para eu refletir um pouco mais sobre o evento.
Não mexi no conteúdo do trecho original, mas acrescentei outras reflexões numa espécie de nota de roda-pé *.
Espero que vocês se divirtam assim eu me diverti fazendo isso.
Eis:
Acabo de chegar do Skol Beats no hotel onde estou hospedado, ao lado do Sambódromo do Anhembi.
Subi até o quarto, mas as batidas ainda ecoam vindas das tendas.
O frio é cortante, o cansaço, irritante.
Só deu tempo de tirar os sapatos, porque haja pés e pernas para agüentar essa maratona a que qualquer atleta se renderia.
Resolvi fazer esse texto para o Overmundo, na urgência, na correria.
Um relógio aqui me avisa que em 24 minutos minha senha expira e posso nem conseguir enviá-lo.
São 7h49 da manhã.
Cheguei aqui ontem, às duas da tarde, vindo de Bauru e não foi possível parar antes, mesmo com as pedras das tendas chutando os pés, mesmo com a falta de um assento -- ou de um «chill out» como costumam dizer -- e mesmo com o frio, frio mesmo, daqueles paulistanos, não foi possível parar.
Ora por o ofício, ora por o lazer (ou será que, nesse caso, os dois são um só?).
Agora, faltam 14 minutos e meus pés latejam.
Corpos e mais corpos estendidos por o caminho à espera de uma pneumonia.
Comprei uma toca para não entrar na lista.
Marky, novamente, inconteste.
O drum ' n ' bass está em crise?
Prodigy, o inferno!
A impressão é que todos (até os DJs das outras tendas) pararam para ir ver.
Formigueiro humano.
Ache um atalho para fugir.
Os caos parece tomar conta, tudo sob descontrole.
Agora, faltam 7 minutos.
Ainda tem gente lá, em pé, deitada, de ponta-cabeça.
O dia amanheceu cinza, como mandam a marginal e o Tietê (que é bem diferente do Tietê lá das bandas do interior) aqui ao lado.
Cinco minutos.
Encontrei o Patife junto com o Azambuja, vulgo Márcio Negri, um camarada de Bauru, saxofonista de primeira linha, que iria acompanhá-lo no show junto com Bocato e cia.
Demais ver o Azambuja voando por aí.
Quantas e quantas baladas com o Sindicato do Jazz, em Bauru.
Agora, ferrou!
Começou a piscar um relógio maior na tela.
Faltam dois minutos, falta 1 e 57. Tenho que enviar.
Espera!
* Nota de roda-pé:
Bem, o " Espera!"
era eu falando com mim mesmo e com o computador, mas não teve jeito, a senha expirou mesmo antes que eu concluísse.
Cubro o Skol Beats desde 2004 e este ano, ao entrevistar o produtor-mor da festa, Bazinho Ferraz, uma frase de ele me fez refletir sobre o assunto.
«Quando acaba o evento, já começamos a trabalhar para o ano seguinte.
E o mais difícil é saber o que Vai Ser tendência no ano que vem», disse ele explicando a escolha de atrações de cada edição.
Em esses três anos que acompanho o festival, ouço reclamações dos iniciados na música eletrônica dizendo que o festival não contempla todos os estilos (que aliás são incontáveis).
A principal «rixa» que percebi -- mas que aos poucos vem se desfazendo e as escalações deste ano ajudaram nisso -- é entre os fãs de drum ' n ' bass e os de psytrance.
Afinal, um evento que tem uma tenda para DJ Marky (papa do d' n ' b) e amigos já mostra, nessa disputa, para que lado tende.
O estranho é que nos últimos anos ouço falar da crise do drum ' n ´ bass, do fim do sucesso de Marky e cia.
Mas sua tenda foi, novamente, das mais disputadas o tempo todo.
Afinal, Marky é pop, não se trata mais de uma tendência e sim de um fato:
está no topo.
Fico imaginando a dificuldade da produção para fazer a escalação das atrações a cada ano.
Afinal, o que é tendência aqui no interior de São Paulo agora, muitas vezes, já passou por a capital.
Por sua vez, o que é tendência agora na capital já passou por a Europa etc..
Como então agradar quase 60 mil pessoas?
Só mesmo com um leque gigantesco de atrações.
Ainda assim há o risco de errar.
Afinal, quem determina o que é uma tendência?
Para mim, eu mesmo digo.
E para você quem diz?
Número de frases: 59
A Fundação Carlos Gomes é a Instituição Governamental responsável por a política cultural de música no Estado do Pará.
Mantenedora do terceiro mais antigo estabelecimento de ensino musical criado no Brasil, o Instituto Carlos Gomes.
A fundação vem fomentando o ensino técnico e científico da música, formando profissionais e instalando estabelecimentos de ensino musical, visando à formação de instrumentistas, cantores e regentes.
Consciente da importância da musica como instrumento de educação, socialização e cidadania, a fundação vem desenvolvendo ações que, além de diminuir a exposição de crianças e adolescentes a situações de risco social, ainda destacam o Pará no cenário artístico nacional e internacional.
As contribuições sociais, culturais e artísticas deste trabalho, nos dão a certeza de que esta Instituição é, inegavelmente, um ícone na região amazônica.
Música na Praça
O projeto Música na Praça é uma iniciativa da Fundação Carlos Gomes que visa levar música às praças da cidade.
Um dos objetivos do projeto é permitir o acesso do público a apresentações musicais de grupos das mais variadas formações, com repertórios que podem ir do erudito ao popular, prezando assim por o respeito à diversidade das manifestações artísticas e musicais.
Com uma periodicidade de quatro concertos ao mês, o projeto Música na Praça também busca contribuir para a de formação de platéias, para a educação através da música e para o desenvolvimento da arte musical na cidade de Belém.
Interiorização
O Projeto de Interiorização fomenta o desenvolvimento da Educação Musical no Estado, e já atingiu um universo de 101 localidades, num total de 8.700 alunos atendidos.
Este projeto não só preserva a Banda como tradição cultural, mas desenvolve uma política de educação musical em todo o Pará, incentivando a criação de escolas de música, e utilizando a educação musical como instrumento de socialização.
Em o período de 1997 a 2002, o Projeto de Interiorização foi incluído como executor do PLANFOR (Plano Nacional de Qualificação do Trabalhador), sendo o único Projeto de Educação Musical Profissionalizante para comunidades carentes incluído num programa nacional deste porte.
Concertos Didáticos
Realizado em parceria com a SEDUC, SECULT e o Theatro da Paz, é uma ação que acontece quinzenalmente, com concertos às 10 e 16 horas no Theatro da Paz, sempre obedecendo ao calendário escolar.
Os concertos são realizados por professores e alunos do IECG, e contam como atividade curricular, proporcionando aos estudantes do ensino fundamental e médio a oportunidade de freqüentar eventos culturais.
Este é um projeto que desenvolve uma postura ativa na defesa e preservação do patrimônio histórico, e contribui para a formação de platéia para música erudita e popular no âmbito educacional.
Música na Escola
Este projeto visa transformar a escola em espaço cultural para o resgate, incentivo e divulgação da arte e da cultura, através do ensino de fundamentos musicais que possibilitem o inter-relacionamento humano, propiciando assim a valorização cultural.
Realizado em parceria com a SEDUC, o projeto tem como finalidade a formação de novas platéias, possibilitando aos alunos da Rede Estadual de Ensino acesso a informações na área musical.
Os eventos acontecem no período de março a novembro nas escolas da região metropolitana de Belém.
Os concertos são de caráter didático, realizados por grupos musicais formados por alunos e professores do IECG.
Escola Comunidade
Projeto executado em parceria com escolas públicas e associações comunitárias que objetiva a disseminação da cultura da paz entre os jovens.
O Escola Comunidade possui caráter social-educativo, e visa descentralizar o ensino da música, expandindo-o para a periferia urbana da região metropolitana de Belém, educando crianças e adolescentes, utilizando a música no resgate da cidadania, direcionando os alunos para novas perspectivas de vida.
O público alvo são crianças e adolescentes na faixa etária de 6 a 18 anos, atendidas em cinco Pólos de Musicalização, com cerca de 3.000 alunos.
Projeto Orquestra
Criado para atender aos alunos do curso de Bacharelado em Música, o Projeto Orquestra, objetiva preparar músicos para atuarem em orquestras profissionais, ampliando o conhecimento da literatura musical sinfônica, proporcionando o desenvolvimento técnico no instrumento, e aprimorando o trabalho em grupo.
Com metodologia voltada para a leitura e análise de grandes obras, prepara também regentes de orquestras.
O projeto também atende alunos dos cursos técnicos das escolas de música de Belém, os integrantes da Orquestra do Theatro da Paz, solistas e coralistas.
Sua concepção e docência são realizadas em parceria com o Trinity College of Music da Universidade de Cambridge.
Número de frases: 31
http://www.fcg.com.br/
Em um artigo entitulado «Novos ricos da música» o filósofo, cantor e compositor Henry Burnett avalia o surgimento de novas divas da MPB e o papel que estas ocupariam no panorama atual da música popular.
Para tanto, procurar fazer ponderações acerca da estratégia de condução da carreira dessas intérpretes.
Tomando dois exemplos, constrói uma espécie de espectro, entre as que se prendem a um canone clichê de fácil assimilação (Mônica Salmaso, cantando Chico Buarque em seu Noites de Gala, Samba da Rua (Biscoito Fino, 2007) e outras que apostam numa veia mais autoral, flertando com um pop sofisticado, sem atingir a qualidade da tradição na qual parece querer se vincular (seria o caso da cantora Céu).
Burnett cria o conceito de ouvinte de elite, um público consumidor de MPB, que a mantém como um nicho aristocrático, produto refinado que marca status social (este novo ouvinte talvez pudesse ser confundido com a idéia de " novo rico ").
A MPB não fala hoje para todo mundo como na década de 60, tornou-se um segmento de mercado, acomodado a um modelo bem comportado, sem potencial transgressor, que se prende a repetir certo canône.
O autor como pressuposto a idéia de que hoje o potencial de transformação social estaria confinado ao rap.
Burnett ataca a sofisticação do trabalho de Salmaso e do grupo Pau Brasil por dar «ao seu público novas razões para achar rap coisa de pobre».
Para ele, ouvir Chico Buarque por a interpretação de Salmaso seria uma forma de renovar nossa incapacidade para o reconhecimento do novo.
Por outro lado, critica Céu por sucumbir também aos anseios de um mercado hierarquizado.
Para Burnett as novas divas poderiam continuar a «linha evolutiva» da MPB (" o movimento natural da música popular com seus novos ritmos e artistas, frutos do seu tempo ") na tentativa de «refletir seu tempo em canção».
Como fazer isso?
O autor não oferece uma resposta, mas cita «Brasileirinho» de Maria Bethania como uma aula acerca da essência perdida do país. (
É interessante lembrar que esse trabalho de Bethânia foi utilizado, com sucesso, por a professora de filosofia Vânia Correa Pinto numa escola estadual do Rio de Janeiro para promover uma investigação sobre a identidade cultural do país).
O importante para ele é que o conceito de " qualidade musical não seja considerado um bem de elite ":
seria preciso devolver a MPB ao povo.
Burnett, de passagem, ataca os bem intencionados programas da rede Globo de antropologia musical, que serviriam para manter as coisas como estão (e desconsidera a contribuição positiva de programas como Som Brasil e Por toda a minha vida ...) ...
Ataque rápido, que serve para construir seu «quadro negativo», mas que não se fundamenta nem aponta para qualquer caminho reformador.
O artigo de Burnett demonstra certa urgência -- que já aparecia nos textos do Coletivo MPB alguns anos atrás, A morte e a morte da canção e Chega de Saudade) em promover uma cruzada para resgatar as virtudes místicas da canção:
seria uma necessidade reconhecer o lugar e a qualidade da MPB dentro de um quadro maior da cultura, assim como, resgatar o potencial transformador de nossa música popular.
Confesso que não deixo de enxergar aí certa nostalgia platônica, como a presente na tentativa do poeta Paulo Martins, protagonista de Terra em Transe de Glauber Rocha, de unir Beleza e Justiça, em seu gesto suícida e patético de sozinho tentar resisitir ao golpe conservador de Porfírio Diaz.
Sua sede de absoluto oculta uma inconfessa ânsia por privilégio e poder, que faz parte do autoritarismo de uma perspectiva filosófica que acredita ser capaz de determinar teleologicamente a direção da História.
Os pressupostos da arte engajada e voltada para um populismo iluminado foram questionados de modo radical neste filme de Glauber.
Provavelmente esse tipo de excesso de expectativa faz parte mesmo do lugar importante que a MPB ocupa no imaginário nacional:
mesmo os tropicalistas ao denunciarem o Complexo de épico de nossa canção popular não deixaram de traduzir este mesmo complexo.
Isso também faz parte da filosofia que em seu movimento de questionar o saber de forma radical não pode se furtar ao impuso de ocupar um lugar privilegiado para além do saber.
É dificil resistir ao impulso de ser também Paulo Martins, e este desafio continua importante quando se pergunta sobre o lugar da arte, especialmente da música, em nossa cultura.
A MPB possui mesmo uma perspectiva republicana, de preservar certo bem comum, já que, para funcionar, prescinde de algum tipo de concepção sobre o «ser do Brasil».
A possibilidade de algum conceito desse tipo é hoje cada vez mais infundada.
Se a MPB é hoje um segmento de mercado e não mais reflete esperanças utópicas de transformação épica provavelmente isso se deve a possibilidade de acesso a meios mais prosaicos de fazer política.
Como a democracia caminha na direção do desejo popular, a diversidade de gostos e etiquetas para a música que se produz no país deveria ser percebida como um sinal positivo.
O que, para alguns que conhecem profundamente a MPB, pode, a primeira vista, surgir como redundante, pode servir para que novas gerações entrem em contato com uma tradição que é rica e precisa ser constantemente reiventada e reafirmada.
O lugar mítico da MPB em nossa cultura depende disso.
Estas novas leituras podem também trazer um potencial político insuspeito.
Em a década de 70, para diblar a censura, Chico Buarque se lançou como intérprete cantando canções de outros compositores no dico Sinal Fechado.
Cantar uma composição da década de 30 como Filosofia de Noel Rosa no contexto político da Ditadura trazia naquele contexto um sentido novo para a antiga canção.
Pode ser mesmo um ato político retomar o repertório de tempos menos prosaicos quando existia maior esperaça utópica e a distância entre público e privado era menor.
Olhando para o passado podemos aprender também a ter esperanças num futuro diferente.
Caetano Veloso cantando hoje, com sua banda de rock, D esde que o samba é samba, aponta para a mesma direção que o Skank com seu iê-ie-iê em Uma canção é pra isso ...
As esperanças no rap como forma redentora que poderia resgatar o potencial crítico e de transformação social da música popular me parece um exagero que não tem grandes razões de ser.
É verdade que hoje a tendência é falar do país de forma prosaica quando se trata de política e que, para isso, a formula que consegue ser mais direta é o rap, contudo, não faz sentido resgatar os ideais puristas da canção engajada e tentar iluminar o rapper com as mais novas teorias produzidas nos guetos intelectuais franceses ou em suas sucursais brasileiras ...
Tomar a força do rap como um a priori inquestionável é problemático e simplificador:
a complexidade deve ser sempre caminho para questionamentos mais amplos e dar menos espaço para racionalizações reificantes.
A qualidade musical não pode ser considerada um bem de elite, contudo, se a música pretende ter um amplo potencial transformador, não pode se confinar aos que possuem ouvido músical.
Os que esperam redenção por meio da música não compreendem aqueles que não vêem o mínimo sentido nessa espera, ou que, utilizam a canção para se divertir de modo descomprometido.
De a mesma forma os fundamentalistas se comportam diante da religião ou da filosofia.
Hoje existem muito mais pessoas dispostas a ser mais tolerantes e dar de ombros diante desse tipo de pretensão essencialista.
Em o começo de seu artigo, o professor Burnett cita uma fala de Arthur Nestrovski, que avalia que o cancioneiro de Tom Jobim deveria ser colocado lado-a-lado das obras de Clarice Lispector e Guimarães Rosa nas nossas bibliotecas.
Não é possivel discordar da fala de Nestrovski, o problema é como promover essa valorização.
A briga para que determinada forma de cultura ocupe «certo lugar» privilegiado, aponta para uma disputa territorial que é pouco construtiva e não faz muito sentido numa sociedade que se quer democrática e conversacional.
Burnett poderia dar uma contribuição mais interessante se ao invés de prescrever algo que deveria ser, tentasse descrever a importancia da música popular para se pensar o país utilizando-a para este fim.
Acredito que seria mais rico exaltar exemplos do que ele considera ser formas bem sucedidas de canção e porque as considera assim:
acho que nesse aspecto conversacional a filosofia no ensino médio pode forçar a academia a olhar em volta e dialogar também.
A perspectiva de Burnett poderia então parecer mais simpática e construtiva se tomasse uma forma positiva, de encomio justificado a importância da MPB.
Em este caso, suas canções são seus melhores argumentos na tentativa de aproximar desejo popular e bem comum, fazer rimar Democracia e República.
Número de frases: 55
Pra não ir tão longe no tempo vou citar alguns artistas geniais dos anos 80.
A poesia forte e crua do Cazuza, o lirismo e a veia punk de Renato Russo, o sarcasmo inteligente e critico do Lobão, a irreverência consciente do ultrage a rigor, o rock junkie vivo do hanoi Hanoi, pra não falar outros ...
O que esses artistas tem em comum?
Eu diria que o que os une é o caminho que os levou a fazer algo com essência, verdade e inteligencia.
Esse pessoal todo citado esteve nos becos sujos, nos bares encardidos, nas festas de magnatas, nos grandes eventos e nas bocas de fumo.
Esse pessoal todo moldou um caminho de vivência, ladeados por grandes autores literarios e por gente do mal e do bem.
Puderam cavar bem suas estruturas mentais, suas emoções, com o proposito quase sem querer de serem capazes de produzir canções fortes que, mesmo com o tempo voraz, ja conseguiram a vida propria e falam por si.
A o contrario da chamada nova geração, cpm 22, detonautas, forfun, e outras não menos ruins, que nasceram empunhando uma guitarra nobre e esqueceram de sentir o cheiro e o odor que esta na raiz do rock and roll de verdade.
Ganharam os instrumentos e fecharam os livros.
Tem estudios em casa mas não conhecem as ruas.
Em a minha crua e pifia opinião, acho que essa é a gota dagua que divide os eternos dos que não serão nada menos que poeira perdida na estrada.
Eu quero é rock!!!
Número de frases: 12
Viva a verdade
Nem bem o sol esquenta o sertão do Ceará e seu Genésio Rodrigues, vestido em sua bata branca e óculos de aro dourado, abre as portas do Bar e Lanchonete Cinelândia.
Há 33 anos tem sido assim, de seis da manhã à meia-noite o Cinelândia domina o centro comercial da cidade do Crato e, não há um, entre os mais de 100 mil habitantes, que não saiba apontar a direção do Bar.
O prédio em estilo Art Nouveau, erguido por os idos de 1945, possui três andares.
Em aquela época ainda era o Grande Hotel, paragem obrigatória de viajantes dos estados vizinhos que iam até o Crato para comprar e vender mercadorias.
Com o declínio do comércio local, o térreo foi cedido ao Bar Glória.
Conta seu Jesus Rodrigues da Silva, de 88 anos, que ali era local de políticos, intelectuais e boêmios.
«Já naquela época, os homens vinham até aqui para discutir política e conversar sobre qualquer coisa».
E as mulheres?,
pergunto." Não, mulher não entrava, ficavam passeando do lado de fora».
Foi-se o Bar Glória veio a Barbearia Siebra, onde até o Rei do Baião Luiz Gonzaga fez barba, cabelo e bigode.
Até que, em 1974, seu Genésio, vindo do Rio de Janeiro, deu a vez ao Cinelândia.
«Em o Rio, eu trabalhava num bar na Cinelândia, não sabia que nome dar ao negócio, tive a idéia de botar esse e todo mundo gostou».
O Cinelândia ainda guarda o charme dos bares de antigamente, seu balcão de um azul desbotado por o tempo e por a flanelinha de seu Genésio estende-se de ponta a ponta.
Os bancos brancos não deixam dúvida que já sustentaram muita gente e as mesas e cadeiras de madeira, quadradas e compactas, são quase surreais em sua leveza e conforto.
O cafezinho feito numa cafeteira de 1982 é o produto mais vendido -- em média trezentos por dia -- e segundo os freqüentadores, por apenas 0,50 centavos, você pode tomar o café mais gostoso da região.
Além do cafezinho, lá também se vende coxinha de galinha, pastel, sanduíche misto, caldo de carne, e as vitaminas de abacate e mamão fazem parte do cardápio que há anos permanece o mesmo.
São as ditas rotinas das cidades de interior.
A freguesia
Quem passa por o Cinelândia não vai se fartar apenas de suas delícias:
o Bar está estrategicamente fincado entre a Praça Siqueira Campos e o «Calçadão» -- uma rua apenas para pedestres composta por lojas comerciais, pavimentada por pedras, repetindo desenhos assim como os de sua xará famosa.
A região é ponto de encontro na cidade, mas o que mais se vê por ali são homens aposentados, transitando entre a praça e o bar à procura de uma boa conversa pra passar o tempo e, ao mesmo tempo, fazê-lo durar um pouquinho mais.
Esse cenário faz parte de uma cultura que permanece em algumas cidades do interior:
a resistência dos espaços masculinos na cidade.
Em grupos, ou pares -- raro ver algum homem solitário -- eles se esparramam por os bancos da Praça e do Cinelândia e se deixam ficar pela manhã batendo papo.
Algumas mulheres aparecem, mas não ficam por muito tempo.
Elas estão ali de passagem ou à espera de alguém;
tomam um café ou água:
pedem, consomem, pagam e vão embora.
Os freqüentadores de ali têm em sua maioria mais de 50 anos, são de classes sociais variadas, orgulham-se de suas cabeças brancas e não perdoam ninguém.
«Aqui a gente sabe das notícias antes de elas irem para a internet», me diz Manoel Soares Martins, um juiz aposentado.
«Aqui eu me sinto muito bem, conheço todo mundo, conversamos sobre política, resolvemos os problemas da cidade, do Brasil e do mundo;
nem a vida alheia escapa " fala sorrindo.
Deputados e Senadores.
Em o Bar e Lanchonete Cinelândia todos se conhecem por nome e sobrenome.
A primeira pergunta que me fazem é se sou daqui e filha de quem.
Depois da resposta positiva e de dar o nome de meu pai, eles abrem um sorriso, certificando-me de que acabo de ser admitida.
Em a mesa, além de mim e de Allan, o fotógrafo, estão quatro senhores.
Eles são alguns dos integrantes do conhecido «Senadinho».
«A gente ficou conhecido como senadinho por estar todo dia aqui reunido discutindo política, o nome pegou, tivemos a idéia da placa para oficializar» conta seu Manoel Martins, fundador do grupo que já dura nove anos.
Segundo o «Senadinho», o Cinelândia é o ibope da cidade, uma espécie de termômetro na época de eleição e parece que todos ali concordam com essa afirmação.
Até mesmo para a escolha do Judas na Semana Santa, é posta uma urna ali.
Contrariando as opiniões que brasileiro não gosta de política, não ouvimos outra coisa e se no Cinelândia há um «Senadinho» a Praça logo adiante é a «Câmara», lugar dos ditos» deputados».
«Mas que fique bem claro -- me diz seu Manoel -- aqui não existe nenhum Renan».
Além dos deputados e senadores, várias personalidades passam e passaram no Cinelândia.
Zé Bedeu, que de tão famoso na cidade possui até comunidade no Orkut, figura entre as estrelas, mas não faltam nomes nacionalmente famosos nessa constelação.
Cantores têm aos montes:
Luiz Gonzaga, que fez show na sacada do segundo andar, Altemar Dutra, Cauby Peixoto, Orlando Silva e Nelson Gonçalves que tocou violão e ainda bebeu uma cachacinha.
Castelo Branco deu uma passadinha ainda presidente, Tasso Jereissati, Cristóvam Buarque e Ciro Gomes.
Sobre ele, seu Genésio conta uma história que se tornou famosa no Bar:
«Era umas cinco da tarde e Ciro vindo de uma passeata, parou aqui pra cumprimentar o pessoal.
Meu irmão e mais três fregueses estavam no meio de um campeonato de porrinha;
ele entrou e ninguém deu bola, concentrados no jogo.
Aí ele disse: '
que inveja tenho de vocês, não posso mais fazer isso ` e meu irmão ainda levantou os olhos disse: '
pois é ', e continuou jogando: '
um, dois, três ... '
Ciro saiu todo desconfiado."
O tempo passa, o tempo voa.
Mudar de mãos parece ser o destino do Cinelândia.
Seu Genésio que comprou apenas o direito de comercializar no edifício, ou como diz o pessoal por aqui, a «chave», viu seu negócio ameaçado.
Meses atrás o prédio foi novamente vendido, acompanhado de uma notícia bombástica que afirmava que o Cinelândia iria ter um fim, deixando a todos aflitos.
A preocupação dos freqüentadores é compreensível, já que vários edifícios históricos foram postos abaixo ao longo dos anos, tanto por seus proprietários, como através da administração pública.
Assim nos conta Ulisses Germano, professor de artes, que uma rua inteira, composta por belíssimos casarões do séc..
XIX adornados por azulejos portugueses, foi destruída pra dar vez à uma avenida.
«E tudo isso por quê?
Para abrir uma rua», indigna-se o professor.
«O desrespeito por a memória da cidade e dos cidadãos não é exclusivo do Crato, em todo o Brasil e no mundo vemos isso acontecer», esclarece Renato Dantas, colaborador do IPHAN, Instituto do «Patrimônio Histórico e Artístico Nacional --» Isso se deve às pessoas acharem que o antigo é ultrapassado, é velharia;
não percebem que lugares como esse preservam a identidade local, reúnem os cidadãos, formam hábitos sociais, numa sociedade onde a regra é a perda de valores;
em lugares como esse a tradição é permanentemente renovada».
Fátima Bernardes, só que mais simpática.
Entretanto, a nova proprietária, Idalina Muniz, garante que isso é apenas boato:
«Nós temos a intenção de conservar a fachada e fazer algumas mudanças para dar uma cara anos cinqüenta ao bar e permitir um espaço para a livraria que queremos colocar».
Em toda a cidade vemos em construções de diversas épocas e estilos isolados, uma pequena amostra das belezas arquitetônicas perdidas.
«A insensibilidade atrelada à ignorância gera feitos dessa natureza», define o prof. Ulisses.
Ele e seus alunos da nona série do ensino médio vêm catalogando os edifícios históricos do município, através de fotos e entrevistas, «dessa forma, espero que eles compreendam a importância da preservação de construções antigas para a história de eles e da cidade», reitera o professor.
A mensagem foi captada, pelo menos por a estudante Danniely Brito, que com um sorriso no rosto nos conta como foi reunir as informações pedidas por o professor:
«no começo, quando eu cheguei, estava com um pouco de medo;
no bar só tem homens aí pensei que eles podiam me destratar, mas a simpatia do pessoal me conquistou, me trataram muito bem e disseram que eu era uma Fátima Bernardes, só que mais simpática», sorri orgulhosa.
Danniely segue falando da importância histórica do edifício e das várias perdas que a cidade já sofreu, «a sociedade de hoje está tão fútil que não sabe valorizar sua história, todo lugar tem uma história e se destruir a história, tudo não vai passar de lenda, algo abstrato, as novas gerações têm direito de saber de onde vieram».
A gente também pensa assim, garota!
Número de frases: 81
E aí Seu Genésio, sai mais um café?
Diz-se quem em Brasília não há nada para se fazer, e que por isso as pessoas bebem.
É verdade.
As pessoas bebem bastante em Brasília.
E ainda assim, por vezes parece até que todo mundo preferiu passar a sexta-feira à noite em casa vendo filmes alugados.
Brasília pode ser uma cidade tediosa, mas seria injusto dizer que os brasilienses não dão seu jeitinho.
Talvez a dificuldade de se arranjar o que fazer possa ser razoavelmente explicada por a estratificação das opções de diversão -- alguma coisa a ver com aquilo que o pessoal chama de tribos urbanas.
Brasília tem muitos bares, dos botecões ' pé sujo ` onde não se pode comer (sob risco de vida!)
e se encontra cerveja por dois reais (como o lendário e mal falado Desfrut, na 313 sul), até os botecos de ' playboy ', onde uma decoração pretensamente bacaninha se une a preços realmente salgados.
É a estes segundos que o pessoal mais abonado cheio de pretensão gosta de ir.
Bons exemplos deste tipo de bar são o Azeite de Oliva e o Concentração, ambos na Asa Sul.
Há também, perto da UnB, o chamado «Quadrilátero da Bebida» -- um bloco comercial repleto de bares baratos freqüentados por estudantes e jovens artistas.
Em o «quadrilátero» estão localizados os famosos bares Pôr-do-Sol, Meu Bar e Capela, que costumam estar lotados quase todos os dias.
Existem alguns bares ' intermediários ' que caíram no gosto dos jovens, como o da distribuidora de bebidas Piauí.
A cerveja não é cara e por lá se encontra todo tipo de gente;
jovens descoladinhos mesa a mesa com pagodeiros, hippies reggaeiros, velhos motoqueiros, bebedores em geral, homens e mulheres de meia-idade (bons pagadores de cervejas gratuitas para garotinhos e garotinhas que agüentem seu papo), gente de todas as idades.
Ninguém pode negar que na capital do Brasil tem bar para todos os gostos, bolsos e preconceitos.
Para além dos bares, outra coisa que o brasiliense adora fazer, quando não está vendo filmes alugados em casa, é ir ao cinema.
O Pier 21, na Avenida das Nações, de frente para o Lago, é o grande point do público de cinema mais geral.
Em os finais de semana, a fila é quilométrica, são várias salas passando as últimas estréias do cinema hollywoodiano e o último filminho brasileiro da moda.
É muito caro, como quase tudo em Brasília, mas as salas são realmente boas.
O Pier 21 é um espaço comercial a céu aberto com ares de shopping center (revisitando o hoje decadente «Gilberto Salomão» da geração anterior) e conta com outras atrações para a vida noturna.
Logo na entrada, existem dois bares que ficam bastante cheios com o pessoal mais velho, em geral, mas que gostam de parecer ser diversão para todos.
Há um bocado de bares e restaurantes que valem à pena no Pier 21, desde que se tenha dinheiro para freqüentá-los.
Os cinemas são também responsáveis por a lotação dos shoppings da cidade.
Crianças, adolescentes, famílias e casais freqüentam os shoppings para ir ao cinema ou por vezes somente para ' dar uma volta ' e olhar vitrines, muitas vezes sem comprar nada.
É, quando o tédio aperta, o brasiliense se vira.
A cidade conta com mais de 10 shoppings (sendo talvez uma das cidades com mais shopping centers per capita no Brasil)!!!
Para um público de cinema mais específico -- o pessoal mais ligado no cinema alternativo e fora-de-circuito, os p.
i. m.
b. a.
s, pseudocults ou aspirantes a produtores de cinema que ainda não migraram para o Rio ou para São Paulo -- Brasília oferece cinemas como o da Academia de Tênis, o Cine Brasília (o último cinema de rua da capital a resistir à sanha imobiliária de Edir Macedo), e o do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), locais que também oferecem exposições e shows interessantes.
Aliás, a parte cultural da cidade têm crescido muito, contando inclusive com o Açougue Cultural T-Bone, local que promove shows grátis e eventos afins.
O brasiliense também gosta de dançar.
Em geral o roteiro da galera inclui uma ida ao bar para um ' esquenta ` antes da festa, como em qualquer outro lugar do Brasil.
Mas aqui os lugares têm públicos mais específicos -- você bebe no mesmo bar da sua «galera» e depois vai para a mesma balada da sua «galera», sem grandes promiscuidades estilísticas ou musicais.
Há lugares que tradicionalmente têm programações específicas em certas noites, como as noites de samba ou as noites de forró -- a exemplo do Arena, no Setor de Clubes.
Existem as boites de ' playboys ` e ' patys ', onde se pode ouvir desde música eletrônica mais ' mainstream ', até funk e música pop.
O Gates Pub, tradicionalíssimo, tem noites temáticas que vão do dance ao rock alternativo (como se pode ver nesta matéria feita por Daniel Cariello para o Overblog).
A balada underground do pessoal do rock alternativo conta com dois nomes fortes, o Landscape (no Lago Norte) e o Espaço Galleria, no Conic.
Há também a Orange, no Lago Sul, que havia sido um importante nome do circuito da música eletrônica e hoje em dia está mais voltada para a música indie.
Existe também o circuito do pessoal do trance, que se sustenta em raves em clubes ou fazendas nas áreas circundantes da cidade.
Para quem não é de festa (ou para o dia em que não tem nenhuma festa prometendo ser boa), é sempre possível aliar a cerveja do final de semana com um boa partida de sinuca.
A capital possuí desde lugares cheios de mesas tortas e clima suspeito, como o Barzão (na 504 sul), até locais como o Strangers Snooker Bar (cujo dono era jogador profissional) e que tem um público variado.
Em a falta de tudo, o pessoal se reúne para comprar bebidas e passar a noite ouvindo o som do carro e batendo papo na Praça dos Três Poderes, atrás da Esplanada, coisa que a polícia não curte muito e tem tentado inibir.
Outras opções incluem a casa vazia de alguém, a Ponte JK, e até mesmo beber na frente do supermercado ou na Pracinha da Palato (antiga pracinha do Rock and Roll).
Existem também alguns programas e passeios para quem aprecia o sol e a luz do dia, como uma ida ao Parque da Cidade ou ao Parque Olhos DÁgua, ou um passeio na Feira Hippie da Torre de TV (os dois últimos foram tema de minhas recentes matérias para o Guia Overmundo).
Para os brasilienses mais apaixonados ou excêntricos até mesmo um passeio entre os pilotis dos blocos das Asas Sul ou Norte já consiste num programa «válido», mesmo que um tanto» silvícola».
Enfim, há muitas opções de diversão e entretenimento em Brasília, embora estas mesmas sejam um tanto extratificadas e nem sempre primem por a diversidade ou originalidade.
A programação de teatro da cidade é quase sempre muito cara, e poucos são os brasilienses que costumam prestigiá-la.
Acaba-se indo quase sempre aos mesmos bares ou às mesmas boates, aos mesmos cinemas, vendo as mesmas pessoas, fazendo os mesmos programas;
enfim, vivendo nos «guetos sociais» que são tão habilmente estimulados por a distribuição social da cidade.
É possível não se morrer de tédio em Brasília, mesmo que algumas pessoas digam que «lá também não se vive».
Viver em Brasília é para quem gosta.
Não tem jeito.
Lista de lugares citados na matéria (em ordem de citação):
Bares:
Desfrut -- Fica no comércio local da 313 Sul.
É um botecão «pé sujo» em todos os sentidos, desde a cerveja (você conhece a Santa Cerva?)
barata servida em mesas de metal até as comidas que ficam mofando sobre o balcão.
Dizem que seu banheiro feminino é localizado no centro da terra, logo ao lado da cozinha que é o próprio inferno.
Como era de se esperar, não tem página na internet e muitos de seus freqüentadores nunca precisaram saber o que era um email.
Azeite de Oliva -- Localizado na 403 Sul, é um dos bares com decoração bacaninha e preços um bocado salgados, igual a tantos outros do DF.
Há quem diga que não há nenhuma diferença entre eles.
É claro que há.
A cor da parede muda um pouco de bar para bar, e as piadinhas do cardápio (salgado) e da decoração (geralmente imitando algo que já existe no Rio, São Paulo, Búzios, Floripa, etc ...)
são um pouco diferentes!
Concentração -- Localizado na 209 Sul, é um bar bastante parecido com o Azeite de Oliva, sendo apenas um pouco mais novo e um pouco mais vermelho.
Não encontrei nenhuma página do bar na internet.
Pôr-do-Sol -- Um dos mais famosos bares do «quadrilátero da bebida», na 408 Norte.
Não tem página na internet, mas quase qualquer pessoa que tenha sido universitária e com pouca grana no DF o conhece.
Meu Bar -- Vizinho ao bar «Pôr-do-Sol» na 408 Norte, é quase parte indivisível deste (ou este primeiro, parte indivisível do Meu Bar.
Tanto faz).
Assim como seu bar irmão, não tem página na internet.
Capela -- Fica também no «quadrilátero da bebida» e já foi tema de uma matéria da Ana Cullen aqui no Overmundo.
Distribuidora de bebidas Piauí -- Localizada na 403 Sul (ao lado do Gate's Pub), é um point tradicional daqueles que querem beber cerveja barata em meio a todo tipo de gente.
Não é recomendável confiar muito na cozinha do local, mas a cerveja é honestamente gelada.
É claro que eles também não tem (ainda) uma página na internet.
Barzão -- Localizado na 504 sul, à beira da sempre decadente via w3 sul, o Barzão abriga todo tipo de gente (ou todo tipo de gente que gosta de cerveja e sinuca, ambas baratas, e não se importa com os ambientes que freqüenta).
O lugar é perigoso, e há realmente todo tipo de gente por lá, inclusive tipos bem desagradáveis e perigosos.
Mas, por outro lado, é o melhor lugar para se jogar sinuca a 25 centavos a ficha enquanto se bebe cerveja barata.
Stranger's Snooker Bar -- Com dois endereços, 513 Sul e 706 Norte, o Stranger's é por excelência o melhor lugar para os jogadores de sinuca sérios de Brasília.
Não é um lugar que prima por a sofisticação, mas também não é um boteco.
A cerveja tem preço honesto, as mesas -- bem conservadas -- valem o preço cobrado por seu uso e o ambiente e atendimento são bem agradáveis.
Se o seu lance é sinuca, o Stranger's é o seu lugar.
Cinemas:
Cinemark (do Pier 21) -- Salas excelentes, filmes famosos, preços exorbitantes.
Cine Academia (na Academia de Tênis) -- Salas excelentes, público intelectualizado (ou pretensamente intelectualizado) e antenado, preços salgados e uma localização meio elitista.
Vale a pena conhecer, mas não é para todo mundo.
Cine Brasília -- O mais tradicional cinema de Brasília, sobrevivente da devastadora onda de transformação de cinemas em igrejas da rede de Edir Macedo.
Há uma excelente matéria sobre o Cine Brasília aqui no Overmundo.
CCBB -- Um dos melhores espaços para exibição de documentários e filmes de arte em Brasília.
Bons preços, público bacana e coordenação da programação com exposições e eventos fazem do lugar uma grande pedida.
Em este link você encontra informações sobre a programação de cinemas do CCBB.
Espaços Culturais:
Açougue Cultural T-Bone -- Localizado comércio da 312 Norte.
Como diz Daniel Cariello em sua matéria para o Overmundo sobre o T-Bone, «Era apenas um açougue, mas virou um importante espaço cultural da cidade.».
Não consigo pensar em melhor forma de definir o lugar.
Espaços para Shows e Festas:
Arena -- Localizado no Setor de Clubes Sul, o Arena é um espaço variado que serve a várias «tribos» da capital -- cada uma em seu dia certo, com uma freqüência até incomum (para Brasília) de " misturas tribais "
Gate's Pub -- Tradicionalíssima casa noturna brasiliense (fica na 403 Sul, logo ao lado da distribuidora de bebidas Piauí) que toca desde o dance até jazz e bossa nova, passando por o rock independente e por os alternativismos vários que fazem a cena musical / festiva de Brasília.
Landscape Pub -- Fica no Lago Norte.
É lugar dos alternativos e «indies» de Brasília, independente de quais sejam suas alternativas.
Esta matéria do Guia Overmundo fala mais sobre minha visão pessoal do lugar.
Espaço Galleria -- Localizado no subsolo do Conic, o Espaço Galleria é um espaço de música independente que é ponto forte da cultura GLTTB de Brasília, e também ponto de encontro de várias tribos.
As festinhas que rolam por lá são bem loucas.
Se esta é a sua praia, vai fundo.
Orange -- O velho reduto da cena eletrônica de Brasília fica no em a altura da QI 11 do Lago Sul, no lendário centro comercial Gilbertinho (onde o Legião Urbana deu seu primeiro show).
Hoje o espaço abriga algumas festinhas indies bacanas, mas é caro e pouco central.
É um bom lugar para variar do circuito Galleria-Landscape.
Esta matéria, como você pode ver, não dá muitas respostas à questão abordada.
Isso é plenamente proposital.
Não estamos aqui para terminar a conversa, e sim para iniciá-la.
Se você é de Brasília, ou conhece a cidade, este é um bom momento para manifestar o que você gosta de fazer em Brasília para não morrer de tédio.
Diga os lugares aos quais gosta de ir, seus programas prediletos, e aquilo que você não gosta também.
Diga se concorda ou discorda daquilo que eu disse.
Vale tudo.
A palavra agora está com vocês.
Vamos bater um papo sobre o que é viver e se divertir em Brasília, mesmo que seja só para afastar o tédio.
Número de frases: 119
(Matéria escrita em colaboração com Patrícia Nardelli) Um dia resolvi digitar a tag moda no Overmundo.
Apareceram 14 ocorrências.
Fiquei curioso.
Uma manifestação cultural que cresce com uma rapidez incrível ter tão poucas citações é estranho.
Tá na hora de escrever sobre moda por aqui!
Pra isso, fui mergulhar nas estatísticas pra buscar um pouco de embasamento e encontrei dados bem relevantes.
De acordo com a pesquisa O Mercado de Moda no Brasil -- Vestuário, Meias e Acessórios Têxteis, produzida por o Instituto de Estudos e Marketing Industrial (IEMI) e por a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT), com o apoio da Agência de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil), o mercado de moda no Brasil produziu, só em 2004, 5,6 bilhões de peças, gerando US$ 15,9 bilhões e 1,1 milhão de empregos.
São números mais do que respeitáveis.
Especificando mais um pouco, descobri que a região Sul concentra 86 % do volume da produção nacional de moda, junto com o Sudeste.
Isso significa que o assunto é coisa muito séria por aqui, certo?
Pois é.
Tão sério que é curso de nível superior.
A graduação em Tecnologia em Moda e Estilo, oferecida por a Universidade de Caxias do Sul (UCS), é um bom exemplo.
Lá os alunos são preparados pra administrar processos de produção, analisar fenômenos sociais relativos à moda e estilo, além de desenvolver técnicas de marketing.
Ou seja, uma formação completa pra trabalhar nesse mercado em expansão.
Mas pra poder divulgar o seu trabalho, é preciso que esses profissionais tenham espaços pra mostrar o que fazem.
E uma bela oportunidade é o Mix Bazaar, um dos eventos de moda mais tradicionais do Rio Grande do Sul.
A função começou onze anos atrás como um evento pequeno numa casa noturna e foi ganhando profissionalismo, até se estabelecer como referência pra estilistas de todo o Estado.
A última edição, realizada nos dias 12 e 13 de agosto, celebrou o aniversário do evento, com a presença de um grande número de expositores e muitos shows.
Essa relação da moda com a cultura pop, especialmente a música, é um dos aspectos mais legais do Mix.
É só circular por os estandes pra ver a quantidade de camisetas de bandas e criações inspiradas no universo musical.
Inclusive o slogan de uma das marcas que estavam expondo, a Palco, é Música para vestir.
Definição perfeita para o espírito da feira.
Mas as principais atrações dessa edição ficaram por conta do desfile de comemoração aos 11 anos do Mix Bazaar, em que onze estilistas foram convidados a representar cada ano do evento.
Nomes que vem se destacando no cenário gaúcho, como Najua Saleh, Rafael Körbes, Karen Raíssa e Vitória Cuervo, mostraram seus trabalhos a partir de interpretações da história do Mix.
Outro ponto alto foi o Bazaar de Talentos, que tem o objetivo de incentivar novos estilistas na criação e design de moda no Rio Grande do Sul.
Foram 58 inscrições de alunos de cursos de moda e universidades do Estado, restando 14 para o dia do desfile.
De esses, só três foram premiados:
os trabalhos da Helen Roedel, da Daniela Kreling e da Helena Cerski.
Aluna do curso de Design de Moda e Tecnologia, da Feevale, a Helena é o típico caso de novata que teve uma grande chance graças ao Bazaar de Talentos.
Trabalhando com pesquisa de tendências e ajudando na criação de roupas, ela foi ganhando experiência pra participar pela primeira vez de um concurso.
E já foi premiada logo de cara.
O tema do seu desfile, a Cultura Amish, chamou bastante atenção.
«Li uma matéria sobre os Amish e achei muito interessante, fui atrás de mais informações e fiquei muito instigada com o modo de vida de eles.
Imagina. Pessoas que vivem até hoje no século XVIII!»,
conta a Helena.
«Enfim, me apaixonei por o tema e desenvolvi o trabalho.
Para o concurso, eu adaptei o tema para o verão de 2007, seguindo as tendências de moda».
E o resultado dessa premiação é uma motivação pra seguir por esse caminho.
«Considero o Mix Bazaar muito importante para a moda do Rio Grande do Sul, pois é onde está a vanguarda, o «diferente», isso sem falar no baita incentivo que eles dão pra nós, estudantes de moda, realizando um concurso tão bem organizado, sério e profissional», reconhece.
Instigado por o tema do desfile da Helena, perguntei se ela achava que a moda brasileira tinha uma identidade nacional, com características próprias:
«Acho que a moda brasileira evoluiu muito, em pouco tempo.
Estamos no caminho, mas acredito que ainda não temos uma identidade, com exceção da moda praia, que é ditada por o Brasil.
Sofremos muita influência da Europa e ainda nos baseamos muito no que eles fazem».
Aí, quando já estava quase fechando o texto, ao navegar por o Banco de Cultura descobri a música Brasileiros Invadem o Mundo da Moda, da banda paraense Cravo Carbono.
E um dos versos é justamente Brasileiros invadem o mundo da moda / Pra talhar seu tudo tudinho igual.
Pronto. Fechou todas.
Será que eles têm razão?
Será que não existe originalidade por aqui?
Número de frases: 49
Está aberta a discussão, pra quem quiser se manifestar.
«O traço todo da vida é para muitos um desenho da criança esquecido por o homem, mas ao qual ele terá sempre que se cingir sem o saber.
Pela minha parte acredito não ter nunca transposto o limite das minhas quatro ou cinco primeiras impressões.
Os primeiros oito anos da vida foram assim, em certo sentido, os de minha formação, instintiva ou moral, definitiva».
Massangana -- Minha Formação, 1900.
A formação que Joaquim Nabuco teve quando criança no Engenho Massangano, observando as crueldades proferidas por a escravidão no seu dia-a-dia, despertou em ele a sensibilidade de uma pessoa ímpar.
Desmistificar e traduzir todos fatos e atos d' um homem tão inteligente, aguçado e diferenciado, que viveu num período de grande turbulência na história do Brasil, não será uma tarefa fácil, mas resolvi incluir isso como um dos maiores desafios que irei ter em minha jovem vida acadêmica.
Um sonho e o projeto
Estou produzindo, documentando e já filmando um documentário sobre a ação do jornalismo de Joaquim Nabuco, uma das pessoas mais influentes do século XIX, no Brasil.
Todos os crimes cotidianamente cometidos naquele momento, anexando a crueldade que estava cravada no país, a toda desigualdade envolta por seus olhos, Nabuco trataria de acentuar e arduamente trabalhar por meio de diversos argumentos e / ou ações que o tornaria, com o passar do tempo, um dos mais importantes combatentes da escravidão, senão o maior em terra Brasileira.
Eu poderia pegar vários recortes e idéias diferentes para fazer uma reflexão sobre a pessoa ou vida de Joaquim Nabuco (1849 -- 1910).
Entretanto, prefiro dar ênfase para um assunto que pouco foi discutido nos meios acadêmicos.
E, é por este faro / ato, que mergulho bravamente num mar de pesquisas e na ventura mais gostosa, que irei tentar traduzir grande parte desta vida jornalística e ação do jornalismo de um dos homens mais graduados deste país.
Irei resgatar o Nabuco jornalista e como foi a sua luta usando este meio por uma grande e nobre causa.
Joaquim Nabuco -- Homem de Imprensa
Nabuco escreveu contra a ação da igreja -- impulsos de sua juventude -- na campanha maçônica de 1873.
Escreve também contra os bispos e o catolicismo com artigos defendendo a liberdade religiosa.
A capacidade de observar o desfecho político no Brasil e no mundo, fez com que Joaquim Nabuco ganhasse notoriedade.
A sua busca foi moral e esperava de ela o princípio da modernidade, das reformas, e em seus textos proclamava estes questionamentos.
Ele usou os artigos jornalísticos como meio para ampliar suas forças, combatendo a escravidão e principalmente tentando organizar ' com idéias ' as reformas que o País precisava.
Seus artigos tinham um foco principal e atingiam diretamente aos oposicionistas de libertação, políticos e grandes latifundiários.
Em este aspecto travou uma grande batalha.
Para isso, podemos neste pensamento constatar também, a sua trajetória jornalística.
A experiência de Nabuco ficou condicionada apenas num único tema -- A Abolição.
Foi sob este objetivo, que ele revelou-se um homem das letras e sua qualidade de jornalista, um árduo guerreiro por a valentia que desbravou em palavras, discursos e escritos jornalísticos, sendo chamado por muitos como -- Homem de Imprensa.
Os primeiros artigos aconteceram na coluna do jornal A Reforma (Jornal acadêmico -- saindo da faculdade de direito), foi seu primeiro contato com o Jornalismo.
A Actualidade, Jornal do Commércio, Revista Brasileira, A Época, O Paiz, Jornal do Brasil, La Razon (jornal uruguaio), A Gazeta de Notícias, foram jornais que escreveu e colaborou durante sua vida.
Escreveu alguns folhetins, O Globo e opúsculos como:
Por que continuo a ser Monarquista -- o dever dos Monarquistas, O erro do Imperador, O eclipse do abolicionismo e Eleições liberais e eleições conservadoras.
O primeiro aspecto da sua «ação» está marcado por a sua colaboração em 1875, no O Globo, como folhetinista e na sua presença na Época, revista fundada com Machado de Assis, de efêmera duração.
Teve presença na Revista Brasileira, em cuja redação nasceu na Academia Brasileira de Letras.
Os textos de Nabuco por determinado tempo, estenderiam-se-por colunas e colunas do Jornal do Commércio (maior periódico da época) tratando sobre diferentes temas -- direito público, o jurista e o literato, sendo atraído por curiosidades estéticas do homem moderno.
Como correspondente em Londres para o Jornal do Commércio, assinou com o pseudônimo de «Freichutz».
A ligação profissional com o jornal teve início na data de 7 de janeiro de 1882.
Foram 89 cartas, daquela data até 31 de dezembro de 1884.
Um trabalho exaustivo para a época.
Em a América do sul seu texto teve grande prestigio.
Como correspondente para o La Razon (escreveu ao mesmo tempo ao jornal do comércio).
Porém, só foi correspondente por razões financeiras.
Nabuco exercia a profissão por ocasião de sua estadia na cidade luxuosa (Londres) não por afeto ao tema.
Em o jornalismo Quincas o Belo, como também era chamado, manteve sempre o ideal liberal.
Por toda vida prezou por a independência dos Jornalistas.
Ele foi homem de imprensa por a necessidade de ampliar seu campo de ação, buscar outro instrumento para a sua campanha doutrinária.
Fixou em seus artigos jornalísticos o seu pensamento político-liberal.
A imprensa para Nabuco teve aspectos bem característicos, um literário, doutrinário, estético, outro combativo, orientador, patriótico.
É interessante salientar que para ele a preocupação doutrinária, a sistematização dos princípios, o empenho de convencer por a idéia, por a razão, por o pensamento, no jornalista preciso, objetivo, sintético, concludente, não ficou de um modo geral em Joaquim Nabuco.
Pois, em muitos de seus artigos e textos, Nabuco era ' obrigado a trabalhar ' com escritos do cotidiano, no jornalista comum, por razões de seu editor no Jornal do Commércio.
O uso do meio no combate para um bem maior
A abolição em Nabuco apenas o fazia vibrar na paixão que cria o grande jornalista.
Entre os anos de 1885 a 1888, a sua ação jornalística foi feroz de combate incisivo, anos que se firmaria com os seus dotes de argumentador estilista, irônico e ferino.
Joaquim Nabuco e André Rebouças criariam O Abolicionista -- Órgão da Sociedade Brasileira Contra Escravidão.
Foi um jornal que teve efêmera duração, circulando mensalmente durante um ano.
As amizades que Quincas conquistaria em suas viagens, durante o período de ostracismo da política brasileira, viria ele a receber com méritos o reconhecimento dos ingleses por a causa que divulgava.
Nabuco ganha lugar como membro da Anti-Slavery Repórter.
Escreve para o jornal da British and Foreign Anti-Slavery Society, como membro correspondente, fazendo contato com outras sociedades abolicionistas e expandindo para o mundo seu pensamento.
Em este momento, Nabuco estaria próximo ao auge do reconhecimento.
Em a coluna de O Paíz, quer assinando artigos, quer publicando a sessão parlamentar, quer enviando correspondências do estrangeiro, junto com os escritos no Jornal do Commércio e em seus textos na British and Foreign Anti-Slavery Society seria a fase aguda da campanha abolicionista, na imprensa Nabuco revelou-se o batalhador ativo, vigoroso, eficiente em artigos e comentários que qualificaram as suas brilhantes qualidades jornalísticas, que intensificou com defesas em questão da abolição da escravidão no Brasil.
Em toda a campanha de imprensa por a abolição, o autor de ' O abolicionismo ' revelaria as suas belas qualidades de polemista, porque os golpes lhe vinham de vários os lados, as injúrias choviam sobre ele, os doestos o alvejam sem medida.
E, foi no jornalismo, onde o homem dos grandes discursos encontrou o éco da pregação arrojada.
«Não posso negar que sofri o magnetismo da realeza, da aristocracia, da fortuna, da beleza, como senti o da inteligência;
e o da glória;
felizmente, porém, nunca os senti sem a reação correspondente;
não os senti mesmo, perdendo de todo a consciência de alguma coisa superior, o sofrimento humano, e foi graças a isso que não fiz mais do que passar por a sociedade que me fascinava e troquei a vida diplomática por a advocacia dos escravos».
O Abolicionista -- O Abolicionismo, 1883.
à tona do direcionamento humanista e sociológico para o desenvolvimento da campanha abolicionista nos artigos e discursos de Nabuco, teve seu foco principal na modificação da sociedade brasileira, com o sonho de ampliar a liberdade e condicionar a igualdade de oportunidades para toda população.
Nabuco não pensava em apenas acabar com a escravidão, mas também dar condições para que o ser humano tivesse oportunidade de trabalhar, estudar e viver de uma forma mais digna.
Nabuco e o sonho de uma imprensa livre
Para Joaquim Nabuco a imprensa não poderia jamais ter um elo com qualquer partido político.
Quase todos movimentos da imprensa brasileira, foram na época, com mais ou menos moderação, abolicionista.
Em as suas colunas vinham os que aderiram ao movimento e desejavam juntar sua voz ao coro que cada vez mais crescia, sob o fascínio da palavra quente, ardorosa, arrebatadora de Joaquim Nabuco.
Porém, outros como descreve Nabuco, consolidavam outros pensamentos:» ...
o interesse de vários jornais em noticiar a venda de escravos, fazer propaganda de anúncios, retratar sempre a figura menosprezada do negro, usando palavras para abasta-los e incluir-lhes uma identidade ( ...)
era usada também à imagem do negro de calça frouxa, descalço e com gorro na cabeça para retratar sua imagem».
Nabuco proclamava, que os artigos jornalísticos teriam de ter suas palavras direcionadas para a sociedade, para a liberdade intelectual e para a defesa da igualdade social.
Com este pensamento, tratou de ampliar sua ação e concretizar o sonho de ter seu próprio jornal, tentativa, que infelizmente foram por água abaixo.
«Este o homem atualíssimo, de palavra e de idéias tão moças que dificilmente o imaginamos nascido há quase cem anos ..."
Gilberto Freyre em discurso à Câmara dos Deputados.
20 de maio de 1947.
Os artigos jornalísticos na última fase de pregação por a campanha são admiráveis por a forma de serenidade e cultura.
São obras duradouras, que fogem do efêmero jornal e hoje podem ser lidos como verdadeiro deleite intelectual e com utilidade de ensinamentos que perdurariam nos dias atuais.
É sobre essa atualidade jornalística, sobre os fatos de um jornalismo preciso e contundente, que hoje os escritos de Joaquim Aurélio Barreto de Araújo insistem em cativar e deslumbrar muitos e muitos estudiosos.
Espero que o documentário (projeto para minha graduação em jornalismo) possa dar força ao coro de Nabuco e traduzir a ação humanista que o jornalismo nunca deveria ter perdido como no decorrer desta nossa história.
Número de frases: 82
Copa do Mundo.
Não existe período mais oportuno para se ter orgulho da nossa nação.
E a ficha realmente caiu na terça (13), na estréia da seleção brasileira na copa da Alemanha.
Bandeirinhas flâmulas nos vidros laterais dos carros e nas sacadas dos apartamentos, cachorrinhos poodles trajando verde e amarelo.
Tudo respira e expira futebol.
Voltando à terça, particularmente achei ' legal ` o jogo contra os croatas.
A sensação de ver Ronaldinho Gaúcho dominando a bola e driblando quatro branquelos sem ao menos olhar uma vez seguer para a gorduchinha, é estonteante.
Sem falar do tiro certeiro, de perna esquerda, do eficaz atacante Kaká -- o gol mais comentado nos tablóides dos quatro cantos do mundo.
De a pra comparar quando, num show da Nação zumbi, já no finalzinho, eles voltam para o bis tocando ' De a lama ao Caos '.
Maravilha.
Pois Bem -- Se o assunto no mundo inteiro é futebol, aqui no Giro Cultural não poderia ser diferente.
Reunimos duas paixões numa só matéria:
Música e futebol.
A idéia aqui é criar uma seleção de craques pernambucanos da música.
E a escolha ficou a cargo dos ' comentaristas ` que mais entendem desse ofício, no estado:
jornalistas, produtores e articuladores culturais.
Então, vamos deixar de ' embromation ' e partir para a escalação.
O goleiro, assim como o baterista, trabalha com as mãos e os pés (essa frase é digna de uma redação escolar do primeiro grau).
Jogando na dianteira, sempre atento aos 21 jogadores em campo é nessa posição que a jogada começa a ser armada.
Nada de frangueiros aqui no Giro Cultural.
Trocando a bola por as baquetas, o baterista da Nação Zumbi Pupilo é a minha escolha para vestir a camisa número um.
Para completar a cozinha, ou melhor, a parte da defesa da nossa seleção, foram escolhidos os zagueiros:
Junior Areia (baixista do Mundo Livre SA) e Emerson Calado (percussionista do Cordel do Fogo Encantado).
Segundo Guilherme Moura do site Recife Rock, a primeira opção é considerado o melhor baixista do cenário, «desde dos tempos da banda Cavalo do Cão».
E para completar, «segurando a onda lá trás e batendo forte», está o outro zagueiro escolhido por o produtor do Rec Beat, Gutie.
E na Lateral?
«Tem que ser grande e bom para aparar a galera».
Defendendo essa teoria, Paulo André (produtor do Abril para o Rock / Astronave) escolheu Gilmar Bola 8, tambor da Nação Zumbi.
O centroavante é Otto, de acordo com análise técnica de " José Teles.
«Otto além de ter um físico de um Dario Peito de Aço, não consegue ficar parado, e seria muito bom como cabeceador, afinal não é por acaso que ele é conhecido como o Bicho que Pula», acredita o jornalista.
Já Bruno Nogueira, da Folha de Pernambuco e colunista do Giro, escolheu o cantor e compositor Alceu Valença como meio de campo da seleção musical:
«eu nem sei o que faz o meio de campo», disse.
A gente perdoa o pobre jornalista.
Ele tem até o fim da copa pra aprender, pelo menos, as posições dos jogadores.
O outro meio-campista é Zé Guilherme por ser um músico " Multi-uso, que joga tanto recuado, quanto no ataque.
O cara é produtor, baixista, faz turnê na Europa e colabora em diversos trabalhos», palavras do jornalista Jarmerson Lima, do coletivo Coquetel Molotov.
Bola na Rede -- São os atacantes que recebem mais atenção da torcida.
Em a música não é muito diferente.
São eles que ficam na frente e quando algo da errado, eles são os primeiros a levar a culpa.
Então, vamos completar nosso time de «Craques da Música» com os atacantes.
O vocalista da Mundo Livre SA, Fred 04 que, de acordo com o jornalista Renato L do Diário de Pernambuco, foi selecionado por se movimentar muito bem em vários temas, ao contrário do Ronaldo na estréia do Brasil, e traz contundência e poesia no modo de cantar, ops, de jogar.
O atacante do ' meio ' foi escolhido por o apresentador Roger de Renoir (Sopa Diário) por ser estratégico e agressivo.
Além de colocar o bairro do Alto Zé do Pinho no Ranking Mundial da música.
Sem medo, Canibal (baixista e vocalista do Devotos) é nosso segundo atacante.
Para encerrar, o cantor e compositor Silvério Pessoa completa o time.
«Ele tem habilidade para jogar em várias áreas da música -- do tradicional ao eletrônico.
É um centro-avante completo», defende o jornalista Marcelo Pereira do Jornal do Commercio.
Espero que todos os músicos, presentes nesta nossa seleção, saibam valorizar e defender a musica de Pernambuco com muita garra, sabedoria e gingado da mesma forma que a Seleção Brasileira de Futebol.
Mesmo com todos os perrengues que envolvem o campo da música no estado.
A idéia aqui é torcer por um futuro melhor para ambas as partes.
Em o futebol e na música já somos campeões.
Participe -- Agora é com você, caro internauta.
A escolha do décimo primeiro jogador, que será o capitão desse time vai ser feita na internet.
Mande um email para redação@girocultural.com dizendo quem você escalaria para esta tarefa.
Justifique sua resposta em apenas uma frase.
A melhor resposta ganha um cd do Zé Cafofinho e «Suas Correntes Um pé na meia, outro de fora», recém lançado na praça.
Escalação
Oficial -- Pupilo (por Eduardo Martins) --
JUNIOR Areia (por Guilherme Moura) --
EMERSON Calado (por Gutie) --
GILMAR BOLA 8 (por Paulo André) --
OTTO (por José Teles) --
Alceu VALENÇA (por Bruno Nogueira) --
ZÉ Guilherme (por Jarmerson Lima) --
FRE D04 (por Renato L) --
SILVÉRIO Pessoa (por Marcelo Pereira) --
Número de frases: 66
Canibal (por Roger de Renoir) Ela escreve, pinta, modela, esculpe, desenha, atua, educa e cria quatro filhas.
Escreve coisas assim:
«O silêncio criou raízes dentro das palavras.
A tarde emudeceu, coloriu de pálido o contorno das árvores.
O respirar das folhas era azul ..."
Atualmente ela está coordenando uma oficina de reaproveitamento de lixo -- a arte do reaproveitamento.
É um trabalho que vem fazendo com muita competência há mais de dez anos.
Já é uma referência em Cuiabá.
Seu lema nesse trabalho sempre foi:
não descarte, faça arte.
E ela o faz muito bem.
Ensina a fazer e contribui para o desenvolvimento de vários talentos que suas oficinas têm revelado.
Ela é uma artista que se preocupa com a questão do ambiente urbano, propõe saídas para várias partes, faz questão de afirmar que faz a sua parte e que cada um deveria fazer a sua.
Ela quem?
Quem é ela?
Anna Marimon é seu nome.
Multiartista. Gaúcha de Santa Maria, mãe de quatro filhas muito lindas.
Anna tem uma história muito interessante.
Faz parte do novo Mato Grosso, oriunda do Rio Grande do Sul como já disse, veio para cá em 1974 no auge da política de incentivo do governo federal para a ocupação de terras na amazônia brasileira.
A grande maioria desses migrantes ocupou a região norte do Estado de Mato Grosso.
A família dessa artista ficou em Cuiabá.
Aqui Anna cresceu, desenvolveu seus múltiplos talentos e até hoje vive uma história bastante singular.
Antes de continuar esse texto refleti muito sobre uma questão que incomoda muita gente.
Confesso que me incomodou muito também nos últimos quinze anos de minha vida profissional.
Em esse período trabalhei em programas de rádio, dirigi programas de tv e escrevi para muitos jornais, mas nunca escrevi uma linha sobre o trabalho de Anna, que cobrava, cobrava ...
nem uma reportagem.
Por quê? Por o simples fato de ela ser minha companheira, minha mulher, minha parceira em inúmeros trabalhos, me auxiliando em praticamente tudo que fiz nesses dezessete anos de vida em comum.
Eu sempre respondia que achava chato escrever sobre alguém tão próximo, que uma matéria jornalística perderia em credibilidade, etc etc.
Com o surgimento do Overmundo vi uma janela aberta, quis voar e concluí que seria um bom momento de jogar para fora toda e qualquer hipocrisia e assumir de vez que posso escrever sobre ela sim, falar de sua vida, de suas lutas, de seu cotidiano, de seu trabalho, enfim, escrever sobre tudo sem medo de me expôr ou achar que estou puxando a farinha para meu saco.
Pensei com mim que antes de ser minha mulher ela é uma pessoa, individual, una, inteira, partida.
Como qualquer um, também sujeita às delícias das imperfeições, sujeita a erros e falhas, mas também sujeita a acertos.
Em uma das discussões nas reuniões para a formatação do Overmundo alguém colocou:
e agora, somos uma trupe que está repleta de artistas e animadores culturais, e nossos trabalhos?
Quem vai escrever sobre nós?
Poderemos escrever sobre o que fazemos?
Falar de nós pode ser crível, ter credibilidade?
Por que não?
Eu te pergunto e estou a fim de encarar ou provocar essa discussão.
Nunca acreditei nas ditas imparcialidades, na neutralização de nossos sentimentos.
Ora, somos seres elétricos, sujeitos ao arrepio das emoções, sujeitos a escolher entre isso e aquilo.
Não dá para se esconder por trás de um texto que busca ser neutro.
Nunca vi essa neutralidade, encaro como balela de editores ou donos de jornais e outros veículos.
Eles é que ditam para que lado pender.
Bom, vamos lá.
Anna faturou o grande prêmio do 1º Salão Jovem Arte Matogrossense, em 1975, evento que se iniciou como o mais importante da história das artes plásticas de Mato Grosso que vivia um período de fertilização dessa arte com o trabalho de animação cultural que Aline Figueiredo e Humberto Espíndola estavam fazendo.
Anna era uma figura muito estranha para os padrões da época em Cuiabá.
Usava roupas coloridas com seus longos cabelos louros, quase sempre de tranças, em seus inúmeros passeios por as ruas tortas de Cuiabá, uma proto-metrópole amazônica pantaneira que se anunciava nesse grande sertão.
Ela chocava os olhares mais pudicos das senhoras roliças e morenas de Cuiabá.
Anna Marimon pulsava futuros no final dos anos 1970 em Cuiabá, com seus olhos verdes faiscantes.
Ela conta assim:
«Sofri duramente um bloqueio dos matogrossenses na época.
Existia uma resistência que não era assumida, não era tão perceptível, mas existia.
Minha linguagem não se adaptava ao que pretendiam na época, pois buscavam uma identidade local e minha pintura era surrealista demais para se enquadrar nisso.
Depois desse Grande Prêmio no 1° Salão daqui, rolou uma tendência de valorização dos ícones locais, de valorização do imaginário regional.
Não cabia aquilo no meu trabalho."
Faturou ainda dois prêmios Funarte e participou, como artista convidada, da 5ª Mostra do Desenho Brasileiro em Curitiba, na década de 80.
Em 2006, depois de muitos saltos e sobressaltos na vida, Dona Louca é a personagem que está em voga na vida de Anna.
«Dona Louca, você tem que se preservar!"
Repete o refrão da música que compus, em parceria com Capileh Charbel, numa homenagem a ela.
O personagem da música parece ser ela mesma quando a vejo passando entre os figurinos que cria e produz, espalhados por a nossa casa, dançando silenciosos como fantasmas.
Explico, ela produz figurinos para as performances do bando, onde atua como intérprete e, pasmem, ela está compondo também (coisa jamais pensada em sua vida):
uma série de bulas.
Explico, são músicas que criamos a partir de letras baseadas em fórmulas de produtos químicos e suas estranhas nomenclaturas.
O poeta cuiabano Aclyse de Matos, que é professor universitário e um inveterado piadista, afirma que são como composições tipo ' ready-made musical ', à la Andy Wharol.
Acabou se tornando o lado mais experimental do grupo " Caximir.
«Em esse intervalo de trinta anos, após faturar o Salão Matogrossense em 1975, minha arte saiu da tela e alcançou outros suportes, passei a utilizar todo tipo de material para compor meus trabalhos.
Utilizo canos de PVC, telhas quebradas, cacos, musgos, cimento, lágrima, cerveja, vômito, bonecas Barbies roídas por os cães e componho paisagens de um caos que vivenciamos quando o mundo todo passa a priorizar o consumismo exacerbado.
Tem que prestar atenção, a vida no planeta está se exaurindo!"
Anna não consegue definir seu trabalho mas arrisco dizer que são esculturas, quase-totens que levantam questões que afligem a humanidade.
Uma a uma vão surgindo obras que se parecem com cenários-paisagens de um pós-caos, criadas com restos de coisas consumidas, como restos da devoração de uma sociedade voraz que não consegue conter a gula e se auto-consome.
Ela continua narrando os seus roteiros, uma viagem por a memória:
«Fui estilista, atuei como educadora e finalmente (re) surgiu o Caximir, depois de dez anos de separação do grupo.
Aí me libertei totalmente e finalmente encontrei os parceiros certos para experimentar uma liberdade criativa que me levou até mesmo a compor uma espécie de música que sempre foi o meu desejo mais secreto e que jamais imaginei realizar».
Anna carrega em suas entranhas o dom da oralidade como poucos, ela é pura vibração nos recitais que realizamos por aí, nos bares, nos shows, nas festas, nas rodas festivas.
Ela sabe tudo de Fernando Pessoa, conhece bastante de T.S. Elliot, tem também na ponta da língua uma infinidade de histórias do imaginário popular russo, árabe, persa, europeu, enfim, é uma exímia contadora de histórias, está sempre narrando.
Parecia uma Sherazade nas mil e uma noites em que esteve ao lado das filhas que a ouviam e resistiam para não dormir.
Marimon mãe repousa ao lado de Talita, Isabella, Marianna e Anna Carolina, as Marimons filhas.
Em o colégio são as Marimbondas.
Marilindas.
A composição «Dona Louca» acabou virando título de um monólogo escrito por Anna e esse escriba que tenta vos convencer do direito à parcialidade produzida por as emoções que pulsam sobre esse (con) texto.
É sério, não é tarefa fácil descortinar aquilo que está à luz.
Uma vez por ano escrevemos e produzimos alguma coisa para o teatro, mini-temporadas, nada comercial, são experimentações que fazemos para acalmar nossas inquietações e o desejo que comungamos de fazer teatro, mas teatro dá um trabalho danado e nunca conseguimos dar continuidade.
É interessante como ela (quase sempre estamos sem empregada doméstica e é ela quem segura a maior barra) desenvolveu um método para decorar e ensaiar os textos:
enquanto limpa a casa, cuida das roupas e prepara a comida, aproveita para decorar e ensaiar os textos.
«Sempre sonhei com o teatro.
Esses dois monólogos que fiz, interpretando Fernando Pessoa na minha primeira vez com o palco só para mim e depois na pele da Dona Louca em «Um dia de Kafka», foram dois dos momentos mais felizes de toda minha vida, onde coloquei toda minha vontade e verdade».
Nossa casa está mais parecendo é com um museu de artes.
Esculturas e pinturas espalhadas por toda a casa.
Livros, desenhos, lixo seco, tesouras, tantas tintas, tantas folhas em branco, tanta vida por viver, tantos afazeres.
Várias artistas numa só:
essa, a compreensão que chego ao resumir esses feitos de uma mulher que está sempre ali ao meu lado, acompanhando meus movimentos, meus sons, meus escritos, meus filmes, meus silêncios, minhas sombras, minha falta de paciência.
Número de frases: 91
Sei lá, acho que é o amor, essa coisa esquisita que ninguém sabe como lidar.
Saxofonista, produtor e arranjador, João Theodoro Meirelles, conhecido como J.T. Meirelles, foi decisivo na construção do estilo que se convencionou chamar samba-jazz.
Meirelles foi um dos representantes do Beco das Garrafas, juntamente com uma geração de ouro formada por Sérgio Mendes, Luiz Eça, Dom Salvador, Tenório Jr., Raul de Souza, Paulo Moura, Edison Machado, Airto Moreira, Wilson das Neves, entre outros.
Em 1964, no mesmo ano em que escreveria o arranjo do sucesso «Mas que nada», de Jorge Ben, Meirelles reuniu Manuel Gusmão (baixo), Luiz Carlos Vinhas (piano), Dom Um Romão (bateria) e Pedro Paulo (trumpete) e formou o conjunto Copa 5.
Com ele, produziu o álbum O Som que, juntamente como Edison Machado É Samba Novo, representou uma espécie de guinada desses instrumentistas em relação à bossa nova.
Meirelles faleceu no último dia 3 de junho, aos 67 anos.
* & * Já passou da hora de discernir o samba-jazz da bossa nova.
E nesse caso, é preciso considerar alguns critérios históricos e formais, para não confundir, como se vê por aí, alhos com bugalhos.
São contextos bastante diferentes, e discografias idem.
Pena que algumas reavaliações como esta se iniciem somente através de enviesadas interpretações estrangeiras, como foi, por exemplo, com o funk carioca e o metal do Sepultura.
No caso do samba-jazz, foram os djs ingleses que primeiro se renderam ao vigor da música intrumental brasileira da década de 60, levando-a para a pista de dança, o espaço anti-bossa nova por excelência.
E embora o célebre Beco das Garrafas concentrasse boa parte dos artistas ligados aos dois movimentos, existem diferenças radicais entre eles.
Por exemplo, considerando a economia do instrumental e da interpretação um fator precípuo na constituição formal da bossa nova, evita-se a confusão entre ela e o samba-jazz.
Pois economia não designa adequadamente a música de Dom Salvador, Tenório Jr., Raul de Souza, Paulo Moura, Airto Moreira, Wilson das Neves, Pedro Paulo, entre outros.
Pelo contrário. Edison Machado até cunhou um termo distintivo, o «samba no prato», para designar o som que produziam:
muitas vezes barulhento, dinâmico, aberto aos improvisos, lembrava mais os ataques da Orquestra Tabajara, do que as sutilezas harmônicas dos arranjos de Tom Jobim e Roberto Menescal.
Portanto, o samba-jazz não é «filho indireto da bossa nova», mas uma espécie de desenvolvimento de vertentes instrumentais da música brasileira:
os lundus alucinados da música de barbeiros, os choros da banda do corpo de bombeiros de Anacleto de Medeiros, as orquestrações de Radamés, Maestro Gaya, e a já citada orquestra de Severino Araújo.
Trata-se, portanto, de depreender o ingrediente secreto que diferência o samba-jazz da bossa nova, o torna uma corrente autônoma, e até mesmo contrária, embora contígüa em muitos aspectos (sentir-se à vontade no paradoxo é fundamental para compreender o mundo, dizia o geógrafo Milton Santos ...).
O som não é o disco-marco do samba-jazz;
esse título cabe a Edison Machado é samba novo, realizado um ano antes, com arranjos de Moacir Santos.
Mas pode ser abordado literalmente como um disco de perfeita síntese do samba com o jazz.
De o samba, a levada em 2/4 maliciosamente marcada no tempo fraco, que torna o improviso uma tarefa para iniciados.
De o jazz, a liberdade harmônica, o espaço para o improviso e a estrutura de arranjo.
Este aspecto sintético pode ser conferido nas seis faixas do disco, todas compostas por Meirelles.
No entanto, O som faz algo mais do que a mera síntese:
ele cria um vocabulário de tramas, texturas e dinâmicas que, por sua variedade, se distancia da regularidade com que se construía o arranjo dos discos de bossa nova (os de primeira hora, claro ...).
E ai, percebe-se mais uma diferença:
enquanto a bossa era influenciada por a suavidade enxuta do cool jazz, o samba-jazz estava mais antenado no bebop e no hard bop de Miles, Coltrane, Mingus ...
O enfoque é, obviamente, mais concentrado nas cores e no improviso do que na canção propriamente.
Em a cozinha, por exemplo, o diálogo entre Dom um Romão e Manuel Gusmão admira por as variações contínuas, mesmo quando se trata de repetir o tema principal.
O piano de Vinhas cria desenhos melódicos e harmônicos com uma liberdade jamais experimentada (e desejada) por os bossanovistas, variando do balanço marcado até os arroubos dissonantes mais inesperados.
Meirelles e Pedro Paulo também variam conforme o clima, ora conferindo estabilidade aos temas, ora criando solos mais agressivos e «expressionistas» (como, por exemplo, no primeiro solo de Meirelles em " Solitude ").
Esta combinação de inflexões apolíneas e dionisíacas, criada por músicos conscientes das possibilidades de seus respectivos instrumentos, confere ao samba-jazz uma singularidade inalienável na história da música feita no Brasil.
Tomar O som como exemplo é apenas uma homenagem ao recém-falecido J.T. Meirelles, pois poderíamos nos referir também ao já citado Edison Machado É Samba Novo, a Embalo de Tenório Jr., a Impacto de Hector Costita, a Rio 65 Trio e muitas outras obras-primas da mesma época.
Em todos eles, a segurança na execução, a ousadia nas harmonias e no improviso, um balanço indescritível, uma concepção de arranjo e dinâmica absolutamente originais, que não descartava a produção de uma massa sonora, muitas vezes ruidosa e dissonante.
Absolutamente divergente da suavidade descartável, ainda hoje praticada e, pelo visto, eternamente identificada à bossa nova. (
Número de frases: 37
Bernardo Oliveira) Em o coração do Brasil existe uma cidade quente, eqüidistante mil e quinhentos quilômetros dos portos de Itaqui (MA) e de Santos (São Paulo).
Para o Norte ou para o Sul lá estão eles, os mil e quinhentos quilômetros que sonham com a ferrovia, a Norte-Sul, que teima em não passar por aqui e chegar até à bela paisagem de Porangatu (Goiás), onde um tupi-guarani batizou o que viu no horizonte:
bela paisagem.
Outros que pisaram depois, muito depois, por aquelas bandas, no rastro dos bois e das foices e enxadas, inventaram histórias que viraram lenda, como a paixão de um bandeirante por uma bela índia, de nome Angatu.
Toda história de amor para atravessar o sertão do tempo, de língua em língua, ainda mais por a tradição oral, precisa ser apimentada por a impossibilidade de vivê-la no prosaico dos dias para chegar aos nossos ouvidos.
O bandeirante pagou com a vida a ousadia de ter se encantado com as belas paisagens da índia, mas deixou a sua frase de efeito para instigar a nossa imaginação e as histórias que contamos:
Morro por Angatu.
Simples assim, Por Angatu, Porangatu.
Belas, a paisagem e a história de amor.
A primeira vez que rumei ao Norte de Goiás foi para Porangatu.
Cinco intermináveis horas de Br-153, buracos aqui e acolá também, as manobras de videogames no volante para fugir às extravagâncias perigosas dos caminhoneiros com planilhas de horários «quase» impossíveis de serem cumpridas, e o meu olhar atento e ávido daquela paisagem fugindo aos olhos no correr da estrada.
Aquelas faixas de mata de cerrado ao longo da estrada, em alguns pontos revelando ainda manchas preservadas, embrenharam dentro de mim com aquela profusão de sucupiras roxas, ipês amarelos e outras maravilhas da nossa rica flora do Planalto Central.
Essa paisagem das estradas que me levam ao Norte, GOs e Br, e os rios com seus nomes fazendo cócegas na língua, nos ouvidos e na imaginação, pedem sempre a minha visão com o clamor das estações.
E gosto de me entregar a elas com a curiosidade diversa do calendário.
E toma viagem!
Dizem que a primeira impressão é a que fica.
E Porangatu foi me possuindo como um namorado encantador, primeiro de ouvir falar e depois com aquele flerte de imaginação, um quê de será?
E foi uma chegada de jeito, calorosa.
Não sei, mas existe sim, e na pele a gente sente, uma linha em que um calor diferente lambe o corpo e a alma pouco depois de Uruaçu.
Em as primeiras vezes cheguei a comentar:
sentiu? É a linha, a onda, o sol do Equador irradia aqui, está beijando a minha pele.
Depois descobri o calor de dentro das casas, dos abraços, dos reencontros sempre festivos, de sorrisos largos, o calor humano porangatuense.
Aquele calor que sente falta da gente.
Penso que o namoro longo já me permite a indelicadeza de algumas confidências.
Imaginei uma cidade diferente, talvez não tão próspera e nem tão bonita e acolhedora à primeira vista.
De cara, a bela paisagem da Lagoa Grande -- uma lagoa natural, formada por minas d' água que brotam no centro da cidade que abraça esse recanto visual -- refrescou a minha alma e os pensamentos que sacolejaram Br adentro, que nem estava tão esburacada quanto me pintaram.
Senti-ma própria bandeirante diante daquela paisagem.
Angatu despertou o bandeirante dentro de mim, chamando-me por o olhar.
Aquele misto de calor, beleza e afetividade das pessoas grudou em mim, definitivamente.
Circulo por a cidade com desenvoltura, como um da terra, retribuindo os cumprimentos, parando numa porta ou em outra para conversar, saber das novidades, tomar café, explorar os quintais, comer manga ou aumentar a coleção de plantas da região que crescem viçosas no meu quintal -- lembranças vivas dessa história de amor, e também me desculpar com uns e outros por a passagem rápida, sem tempo pra visitas.
As histórias da cidade e das pessoas já sei de cor, e gosto de contá-las com o entusiasmo de alguém que se apaixonou e quer dividir a grandeza da visão sentimental.
A bela paisagem da cidade está sempre renovada nas fotografias, atualíssimas.
De a Lagoa Grande, com as ondulações matizadas por a luz do sol coando a água e os efeitos da chuva, nas várias estações e em horas diferentes do dia;
noites enluaradas beijando a gente desde o fundo do espelho daquelas águas que deram amplidão à minha vista;
o vai-e-vem das bicicletas, que daria um belo documentário daquela gente em movimento -- Porangatu deve ser a cidade brasileira com o maior número de bicicletas;
os namoros adolescentes nas enseadas e bosques que vi nascerem às margens da lagoa;
a elegante arquitetura do movimentado Centro Cultural compondo um cartão postal da alma dentro da paisagem urbana.
E Nossa Senhora da Piedade, a padroeira, encontrou morada no coração devoto dessa gente.
O Centro Histórico, na região do Descoberto, é um convite à calma e à atenção.
É só chegar ali para um sentimento inexplicável desmantelar o relógio dentro da gente.
As janelas olham sem curiosidade, no correr tranqüilo da vida de dentro das casas.
A bela Igreja Matriz Nossa Senhora da Piedade impõe-se na paisagem, no centro da praça onde um cruzeiro expõe-se ao infinito do céu e da fé.
E o sino no escanteado da igreja lembra nos badalos o dobrar da vida nas missas, nos batizados e nas passagens desta existência.
Em a Sexta-Feira da Paixão a Procissão do Senhor Morto arrasta milhares de fiéis que saem da porta da velha matriz e percorre as estações da Via-Sacra adornadas por a fé na simplicidade das portas das casas.
Flores, toalhas de linho, velas, rezas no cair da noite e no seguir da procissão.
Depois, a multidão em cortejo se dispersa para voltar a se encontrar às margens da Lagoa Grande, onde acontece a encenação da Paixão de Cristo, espetáculo que mistura fé e arte popular há quase 25 anos.
Inesquecível o badalar do sino no fugidio lusco-fusco do fim da tarde e cair da noite, naquelas horas de entremeio em que tudo pára e o coração do mundo serena dentro do peito, no recanto da Praça Velha onde janelas e mangueiras se entregam ao sussurro do vento.
Inesquecível e mágico também numa crônica de Rubem Braga, que ouviu a história de um sino de ouro e burilou essa imagem numa crônica em que as palavras atiçam a luz dos diamantes.
E Rubem Braga vai tecendo o enredo com maestria, a história de um sino de ouro que ouviu não sabe de quem e num lugar que não lembrava ao certo, se Uruaçu ou Porangatu -- a igreja está lá, mas o sino ...
E me vem a imagem do menino do magistral cronista que diz que a coisa mais linda do mundo deve ser ouvir um sino de ouro.
Também na Praça Velha um charmoso coreto pede contemplação do cenário, ladeado por frondosas e generosas mangueiras.
As casas antigas, com suas janelas, gente simples, cachorros despreocupadamente felizes e livres, e as tradições do Poço dos Milagres.
Reza a lenda que o feitiço brejeiro da região é tomar água do poço para se encantar por inteiro.
Garanto: não tomei da água e o encantamento foi irremediável.
Não há antídoto e nem quero.
Quero mais é continuar rumo Norte, em todas as temporadas, com os agitos do carnaval, a magia do teatro sob a lona de um circo -- todo ano, em novembro, a cidade recebe os deuses do teatro no TENPO, a Mostra Nacional de Teatro Porangatu --, as cirandas do povo, aquelas imagens de uma gente rara com suas bicicletas, o brilho da lagoa, o tempo parado no Descoberto da minha alma, naquele lugarejo do interior dos meus Brasis, o meu bandeirante gritando um desejo de Angatu.
Que bela paisagem comem as minhas palavras!
* * * Distante 400 quilômetros de Goiânia, Porangatu fica na divisa do Estado do Tocantins, no corredor da Belém-Brasília.
Número de frases: 58
A rádio comunitária no interior fluminense e até mesmo no Brasil vem crescendo muito, com isso vem empregando muita gente e dando oportunidade a quem sonhava a entrar no mundo da comunicação.
Com o crescimento das rádios comunitárias (RadCom) no interior do estado do rio de janeiro vem ajudando a divulgar a cultura de nossa região, ao contrario das rádios comerciais da região que buscam ganhar altos lucros em cima disso, a rádio comunitária beneficia por exemplo atores de teatro em divulgar gratuitamente seus espetáculos, abre espaços para associações de moradores a reivindicarem problemas em suas comunidades para melhor bem estar da população local que muitas das vezes esquecidas por os governantes e etc.
A rádio comunitária veio pra ficar e empregar muita gente da comunidade.
E na nossa região contamos com boas e ótimas rádios como a da cidade de Cantagalo (Rádio Comunitária Anunciação 105,9 Fm), de Cordeiro (Rádio Mágica 105,9 FM) e de Bom Jardim (Rádio Alternativa 104,9 FM).
Cada um desses municípios conta um veiculo de radiodifusão voltada para população de cada cidade e eu como locutor e produtor da Rádio Anunciação FM de Cantagalo sinto muito orgulho de participar e fazer acontecer dessa paixão que é o rádio pra mim ...
Vale a pena ressaltar que muitos profissionais do rádio brasileiro começaram dando estágio ou trabalhando em RadCom para avançar em emissoras maiores, afinal de contas ninguém começa por cima.
E quando esses profissionais ficam desempregados voltam a procurar à acolhedora e Humilde Rádio Comunitária.
Temos lembrar que o trabalho em conseguir uma pequena emissora é muito grande, devido a grande burocracia que a anatel e o ministério das comunicações exigem para que se tenha uma Rádio legalizada no país, então muitos diretores de emissoras radiofônicas já passaram muitos constrangimentos para que hoje possam emitir o sinal de suas rádios.
Em Cordeiro o presidente da Rádio Mágica FM Helênio Sally passou por situações parecidas, quando ele começou sua rádio em 1998 ele não tinha nenhuma autorização para que pudesse executar o sinal de rádio, nessa época nem se quer existia a lei das RadComs.
Ele só conseguiu autorização em 2005 e nesse tempo de autorização ele foi preso por duas vezes, já teve todo o material de sua radio apreendido e sofreu repreensão do dono de uma grande rádio comercial da cidade de Cordeiro, e nem por isso desistiu de seu sonho, Helênio Sally com apenas 10 % de sua visão enfrentou todos os seus obstáculos e hoje se encontra na batalha de abrir uma TV comunitária na pequena cidade Cordeiro e eu coloco fé e acredito nessa vitória um dia.
Espero que vocês tenham gostado da matéria e se alguém tiver duvida ou interesse no assunto pode me enviar um e-mail, bruno105fm@hotmail.com.
Abraços, Bruno Caputo.
Número de frases: 12
O vCard é um arquivo eletrônico de dados, num formato de padrão internacional.
É um valioso meio para o relacionamento de pessoas e empresas.
Os vCard ´ s são frequentemente anexados em mensagens de e-mail, mas podem ser trocados de multíplas maneiras, através da internet.
Eles contêm informações do tipo:
nome, endereço, números de telefones, URL ´ s, logotipo, fotografia, e até arquivos de áudio.
As informações transferidas por vCard ´ s podem facilmente ser adicionadas em agendas eletrônicas e diversos outros tipos de address books.
Este procedimento é comumente conhecido como Intercâmbio de Dados Pessoais ou Personal Data Interchange (PDI).
Número de frases: 7
(http://www.vcardbase.com) Kazadi -- Contribuição Bantu na cultura brasileira
Kazadi wa Mukuna nasceu na República Democrática do Congo, em Kinshasa onde fez seus estudos primários e secundários.
Depois foi para os Estados Unidos da América completar seus estudos na Universidade da Califórnia em Los Angeles onde fez doutorado em etnomusicologia.
Veio para o Brasil em 1974 na USP onde concluiu seu segundo doutorado em Sociologia (1977).
Atualmente é Professor Titular na Universidade Estadual de Kent, em Ohio.
Está no Brasil há 3 meses a convite do Centro de Estudos Culturais Africanos e da Diásporas da PUC/SP com apoio da FAPESP.
Kazadi participou do Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros em rodas de prosa e oficinas de música africanas.
Com muita sabedoria fala da contribuição Bantu na música e em toda a cultura brasileira.
Explica como o Brasil foi lotado de negros com navios transportando milhares de escravos que entravam aqui transferindo assim sua cultura para o Brasil.
Segundo ele, a descoberta do ouro requeria mais escravos bantus porque eram fortes e obedientes e até considerados dóceis por os europeus.
Estes ficavam nas minas por 7 anos e depois eram vendidos para trabalhar em outras regiões nas plantações por todo o Brasil.
Essa distribuição influiu na cultura de modo geral e mais na música atual com a linguagem do som que é comum na linguagem africana e pode ser notada na lingüística.
Para Kazadi, tudo o que se quer saber da música africana está na linguagem:
desde a melodia, ritmo, harmonia, os tons, a ginga que vem da língua.
Ele tem a preocupação com a música religiosa que é foneticamente ensinada e assim as palavras perdem o sentido.
A diversidade das melodias vem da situação em que o africano foi forçado a aprender outras línguas como o português, espanhol, francês e até mesmo o holandês, porém manteve a estrutura sintática da sua língua que produz o ritmo da sua música.
Por isso, o que prevalece nas músicas criadas por os Africanos é o conceito da organização ritmica africana que nunca vai se perder por onde estiver.
Argumenta Kazadi:
-- O conceito de organização rítmica é baseado sobre a crença dos africanos que cada padrão rítmico tem buracos, que são preenchidos por outros padrões que também têm buracos.
O resultado final é o entrelaçamento dos ritmos numa tapeçaria rítmica.
Enfim, o movimento chave de dançar dos bantos é diferente dos sudaneses.
Kazadi acentua que não se pode dizer que tudo veio da África, há muitas coisas que foram criadas aqui com elementos africanos, se diz que veio da África é basear no sentimental e não científico.
É o resultado da cultura não ser estática e evoluir com o tempo.
A oralidade africana existe mais no Brasil:
está no bate-papo, no som, na alma do indivíduo, no mito e nas histórias.
Em a oficina ele canta músicas africanas e uma em especial, «Senzenina», da África do Sul, é um lamento que traduz:
«O que fizemos para sermos tratados assim?
Só porque somos pretos?
O que fizemos para sermos tratados como animais?"
Senzenina, Senzenina.
Wabulele afe ... Sine sebu
É uma canção saudosa que leva bem próximo à dor da escravidão.
Kazadi considera importante separar o conceito de filosofia da existência entre africanos e europeus, pois isso faz parte e sustenta a oralidade ou ancestralidade no sentido de não se limitar ao momento, tem raízes.
Esse conceito se projeta aos dias atuais:
o europeu herdou a filosofia:
eu penso, eu sou (físico e individual).
O africano diz eu pertenço, portanto eu sou, no sentido (físico e conceitual);
minha existência só tem significado enquanto eu e você estamos;
eu sou porque você é, estou aqui porque você está.
Resumindo diz:
-- O racismo chegou ao Brasil logo depois da abolição, é minha opinião.
Em o início o português não tinha motivo para se assustar, pois ele veio atrás de riquezas e não para ficar, deixou a família.
Mas chegando aqui se assustou e o resultado?
É só olhar em volta a miscigenação.
Quantos pretos têm no Itamaraty?
Quantos ministros pretos ou índios?
Em o Brasil não existe racismo?
Sobre a religião africana que sobreviveu no Brasil, garante ele ser a sudanesa que deu base à maioria como Orixás, Yemanjás e outras.
A religião Bantu é diferente, ela criou a ancestralidade limitada.
Não se pode chamar um ancestral que não é da família e exemplifica:
-- Em a minha família quando meu pai invoca nossos ancestrais, minha mãe não participa, ela é de outra família.
Imagine aqui no Brasil se nem conhecem a linhagem qual ancestral se chama?
Não se pode chamar quem não se conhece.
E continua:
-- Bantu invoca os ancestrais por os nomes identificando diretamente.
Meu pai me carregava no colo para invocar os ancestrais assim como meu avô fazia com ele.
Kazadi conclui que o que acontece hoje no Brasil com a música, a religião e outras manifestações é uma mistura de preto, catolicismo, costumes indígenas repondo vácuos.
A fala de Kazadi conclui com a interrogação:
-- Por que o brasileiro prefere ser chamado de negro em vez de afro-descendente?
O que acontece, não entendo!
Termina citando o professor " Kbengele:
Número de frases: 61
«Todos somos afro descendentes porque a África é o berço da humanidade." --
Houve um tempo em que escola pública era sinônimo de ensino de qualidade.
Hoje, a realidade é outra bem diferente.
Os baixos salários desestimulam os profissionais da educação a atuarem na rede pública e a formação dos filhos de quem depende das escolas municipais e estaduais está literalmente na corda bamba.
A faixa, flagrada na porta de uma escola estadual em Araguaína, é uma demonstração clara disso.
Quem pintou a faixa, claro, não sabe escrever corretamente.
Mas o flagra deixa uma grande dúvida no ar e motiva alguns questionamentos.
O erro é de quem pintou a faixa ou de quem encomendou o serviço?
O pintor apenas reproduziu uma frase que escreveram pra ele?
Quantos educadores da escola leram a faixa enorme que escancara a palavra cidadãos grafada incorretamente?
Número de frases: 10
A escola está formando mesmo «cidadões» assim há tantos anos?
Certo dia entrei no Orkut e deparei com um sapeca e invasivo scrap-spam convidando para assistir ao espetáculo Os Miseráveis, em cartaz no Teatro do Ator, ali na praça Roosevelt.
Certamente os responsáveis por esta divulgação (pouco ética, vamos combinar) não sabiam para que pessoas estavam mandando e acabaram caindo no scrapbook (ou livro de recados, para os anti-anglicismos) de alguém com a coragem de assistir àquele espetáculo que se definia como uma superprodução não-musical, com «linguagem de videoclipe», da história de Victor Hugo.
Também, não pude resistir ao argumento de que parte do elenco estava na mini-série A Pedra do Reino, que ainda nem tinha estreado (e que já havia enchido o saco -- não agüentava mais ver a cara do Suassuna na tevê, e olha que eu nem assisto tevê).
Mas vamos à peça.
Confesso que gosto (e bastante) do musical Les Misérables, sucesso da Broadway e que reinaugurou o teatro Paramount sob o nome de Abril, livrando-o da sordidez e decadência do cinema pornô e do teatro infantil.
E confesso também que fui ao Teatro do Ator com a expectativa maldosa de ver uma versão não-cantada e com sérias restrições orçamentárias deste musical.
Não tem como negar que existe sim uma grande influência do musical de Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil (também criadores do Miss Saigon que estréia por aqui nas próximas semanas), sobretudo nos figurinos e na concepção visual de algumas cenas, mas chega a ser um exagero falar que é uma cópia (talvez Gerald Thomas possa afirmar, mas eu não me atrevo).
As soluções cênicas são eficientes e nada inovadoras, até porque inovação não é uma exigência do público do espetáculo e tampouco uma preocupação da produção.
Mas se a peça se propõe a contar a história do protagonista Jean Valjean ela consegue, subretudo graças à figura do narrador com falso e forçado sotaque francês que encurta todas as passagens do texto.
Por outro lado, este dinamismo (deve ser a tal da linguagem de videoclipe -- que de linguagem de videoclipe não tem nada) não permite à montagem explorar nenhum dos personagens com profundidade.
É tudo tão rápido e mastigado que fica praticamente impossível enxergar os conflitos de Valjean, compreender o sofrimento e obsessão que levam o inspetor Javert ao suicídio ou o amor pueril da jovem Cosette por o ingênuo, apaioxonado e revolucionário Marius.
Esta linguagem é tão frenética que chega a mostrar apenas 5 ridículos minutos de revolução, como se esta fosse citada apenas porque não pode ser ignorada.
Impossível de não se lembrar daquele website em que as histórias dos filmes são recontadas em apenas 30 segundos e interpretadas por coelhos.
O elenco é bastante irregular, com atores dos mais variados níveis, que insistem em falar alto, mas tão alto, que em vários momentos me lembrava dos encontros anuais de minha família portuguesa.
Vai ver que eles estavam preocupados com a famosa velhinha surda da última fileira que todo mundo que faz teatro já ouviu falar na hora de projetar a voz.
Número de frases: 16
Só não sabia que ela era tão surda assim.
Meia Noite. Em a mesma hora em que a alma de Zé do Caixão foi levada em A Meia Levarei sua alma, a 3X4 (FABICO / UFRGS) estava conversando com o seu criador.
Nada mais apropriado do que a madrugada para um encontro com o maior nome do cinema de terror no Brasil.
José Mojica Marins nos recebeu poucas horas depois da sua chegada a Porto Alegre.
O encontro se deu no saguão do hotel em que ele estava hospedado.
Prestes a lançar Encarnação do Demônio, filme que completa a trilogia iniciada com seus dois primeiros filmes, o cineasta, entre um cigarro e outro, fez o que sabe de melhor:
contar histórias.
(Entrevista realizada em Porto Alegre, Maio de 2007, porJulia Aguiar, Leonardo Kluck e Thiago Reck)
3x4 -- Como você define a morte?
Mojica -- A morte é o grande mistério do planeta.
Possivelmente, até se descobrirem que haja vida em outras galáxias ou em outros planetas, ninguém terá realmente a verdade sobre a morte.
Eu sou uma pessoa que lida muito com o sobrenatural e com coisas místicas.
Sobre a morte, eu acho que já falei, por baixo, entre televisão, rádio, jornais, revistas, mais de mil vezes.
Eu sempre parto de um princípio:
não dá para ter uma explicação.
Eu já discuti com várias pessoas, pastores, padres, pais-de-santo.
Mas como a pessoa vai explicar algo se ninguém voltou para falar?
Porque, nossa, seria manchete no mundo inteiro.
É um enigma!
Você sabe que nasce, de onde você vem, mas para onde você vai depois da morte?
O corpo sabemos que os vermes consomem.
E a nossa essência, essa inteligência, esse ego, esse eu dentro da gente?
Em a minha maneira de pensar, eu vejo o nosso planeta como um satélite experimental.
E jamais alguém morreria e voltaria pra cá.
A essência, a alma, não volta.
O que fica na verdade é aquela força que a gente tem, positiva, que por um bom tempo fica na terra.
Como o próprio ' são ', descobriram, faz o que, uns dez anos, que o'são ' de Dom Pedro estava preso, aqui no nosso sistema solar, no planeta.
E aí soltaram a voz de Dom Pedro, entre tantas vozes.
Então ficamos também presos, por 20, por 30, 50 ou por 100 anos.
Uma espécie de essência nossa, positiva -- não a alma.
Ela fica presa.
É quando as pessoas dizem:
«Eu vi tal imagem da pessoa que morreu».
Eu nos meus cursos, nas minhas palestras, ensino como falar com os mortos.
Eu sei falar.
3x4 -- Como falar com os mortos?
Mojica -- Não é bem nas palestras, é mais nas aulas que eu faço, nas oficinas de cinema.
O pessoal vai querendo saber muito sobre cinema, sobre planos futuros.
Mas entre as pessoas que eu ensinei como falar com os mortos, houve quem enlouqueceu, houve quem morreu e houve quem normalmente é meu amigo e hoje fala: "
Você tá certo, eu vi quem eu queria ver».
Teve gente que quis ver a esposa e viu a esposa.
Teve mulher que quis ver o marido e viu o marido.
Houve quem quisesse ver o filho.
E é o que eu falei, você vê a imagem.
Você fala mas ela não te responde.
Ela vem daquilo que eu chamo fé.
A fé é uma força que vem de dentro do nosso ser.
Seria o nosso subconsciente.
Acreditar em algo.
Então não é o problema de ver uma imagem da Virgem, ou de Cristo, e pedir a coisa a ser feita.
Você pode pegar um cigarro e normalmente pedir para o cigarro.
Você tá com uma dor de cabeça, olha para o cigarro e acredita que esse cigarro vai parar sua dor de cabeça.
Se não é uma doença pesada, como câncer, com certeza você pondo na cabeça que esse cigarro vai, você pede.
É o seu subconsciente pedindo, e o cigarro vai fazer um milagre.
Vai passar sua dor de cabeça.
E aí você olha:
«Nossa, é um talismã!».
Não, foi a sua cabeça que fez isso.
Então quando eu ensino a falar com os mortos, eu ajudo a pessoa a matar uma saudade.
De repente de um filho, de uma pessoa amada.
Você vai rever ela, até sorridente, porque você vai pensar num momento feliz com a pessoa.
E a pessoa vai aparecer para você.
Você vai falar, ela vai estar sempre sorrindo.
Depois passa.
É um minuto.
É o tempo que a sua mente agüenta.
As pessoas que fizeram a prova chegaram no máximo a um minuto, um minuto e cinco.
É de 30 segundos a um minuto e cinco mais ou menos, que você vê a imagem, bem nítida.
Aí você matou a saudade.
Em o dia seguinte você está bem porque viu a pessoa, e sabe como vê-la outra vez.
Então o segredo da morte está nisso.
Você quer rever a pessoa e quem sabe no futuro se juntar a ela.
Aí você passa a ter coragem de enfrentar a dor da morte.
Essa experiência serve para isso:
dar coragem para enfrentar a dor da morte.
3x4 -- Você é espírita?
Mojica -- Não eu não sou espírita.
Eu, Mojica, acredito que uma força bem superior a todos nós, chamada de Deus, criou o homem, e o homem criou o diabo.
Jamais Deus criaria o diabo.
Por que ele, com tanta força, ia pôr uma força negativa para nos insistir a fazer coisas imorais, ou seja, as tentações?
Então o próprio homem criou o diabo.
Mas aí nasceu o espiritismo.
Nasceu uma série de religiões.
Em a verdade, por temerem a coisa mais forte que existe sobre o planeta:
a morte.
Ela mete medo.
Será que a morte -- a gente já viu tanta gente morrer sorrindo -- não dói?
Será que a morte é suave?
O que acontece quando morremos?
Como eu falei, não voltamos para cá, morremos, podemos ir pra uma ala, para, sei lá, um mundo paralelo, para uma outra dimensão.
Mas jamais voltaríamos para a terra.
Jamais entraria aqui quem morreu.
Ele vai realmente para um outro plano, não tem mais nada a ver com a terra.
Então tudo o que você vê é imagem.
Eu já vi.
Quando morreu minha mãe, por uma, duas, três vezes, eu achei que estava ficando louco.
Mas aí uma amiga minha, que morava na minha casa também, um dia ela olhou.." Seu Mojica, você tá vendo o que eu tô vendo?».
E era a imagem de ela da maneira que ela fazia.
Ela vinha no meu quarto me abençoar, e partia, normal.
Nós só vimos ela fazer aquilo.
Então, a essência de ela tinha ficado.
Aí, eu falei:
«Não. Agora eu posso dar uma explicação.
Não estou louco.
Não está voltando coisa nenhuma!».
Você vai falar e ela não vai te ouvir.
É a mesma coisa que essas experiências que eu faço.
A pessoa vai ver a imagem, mas ela não vai te responder.
Então sabemos que são milhões de pessoas com a missão de desvendar a morte, mas ninguém chegou lá.
Há livros, há filmes, há vídeos, tudo que é forma da morte, mas ninguém está falando a verdade.
3x4 -- E a sua experiência de quase morte?
Em 76, é de conhecimento público, eu tive uma parada cardíaca de quatro minutos.
Meu coração parou.
Fui dado como morto.
Se não fosse essa parada cardíaca dar dentro do hospital, eu não estaria aqui para falar com vocês.
Em esses quatro minutos o que eu senti foi dor.
Muita dor.
Procurei retratar em Demônios e Maravilhas o que eu vi.
Somente o branco.
Todo mundo quer fugir das trevas, eu de repente me vi no branco, queimando.
Era branco para todo lado.
Areia queimando, queimando.
Dor. Eu não parava de gritar.
Voltei a mim, com uma massagem que fizeram, e voltei gritando.
Então, para mim, eu fui testado.
Uma época, o Sílvio Santos fez um programa só para testar quem teve parada cardíaca.
Eu encontrei 100 pessoas.
E todos eles sentiram o que eu senti:
dor. Muita dor.
Então, sobre a morte:
dói. Não sei quanto tempo a pessoa vai ficar com a dor, mas que dói, dói.
Como se diz, depois não se sabe para onde vai esse espírito.
Ainda não está escrito.
Em a minha concepção de vida, se você tiver uma energia fraca, eu acho que essa energia vai se unir a outra, e vão se juntar a uma energia forte.
Vamos citar um nome, que a energia de ele jamais morreu, e ficará para sempre, cada vez maior.
Leonardo da Vinci.
Com a inteligência supra de ele, com certeza ele ficou.
Morreu o corpo, mas a essência ficou, e com isso vai se juntando mais.
Buda, Cristo, não sei se foi uma invenção.
Eu sou católico de formação, mas não sei se foi uma invenção.
Pode ser que Cristo não tenha sido o que a gente tanto venera.
Hoje me fizeram uma pergunta na televisão sobre esse novo planeta.
Ele não será um planeta legal, se não entrar política, se não entrar um pouco de corrupção lá dentro.
Então é um planeta que vai começar, mas nunca vai ficar na inocência, tem que ter os dois lados.
O pecaminoso, e o lado bom, para ter um equilíbrio.
Se não, não tem razão.
Se todo mundo fosse bonzinho não seria legal.
Então existe o mal.
O bem combate o mal e há uma razão para existir.
3x4 -- Mas o Zé do Caixão vê diferente a morte.
Mojica -- O Zé acha que a morte é a extinção do seu corpo.
Então para que ele não morra, está procurando um filho perfeito.
Ele acredita só na força da mente.
Ele não acredita em Deus, em espíritos, no diabo.
Só na força da mente.
Então ele acha que se encontrar uma mulher que pense como ele, que não ame, mas que não odeie, e realmente tenha um pensamento firme, seja inteligente, e nascer um filho de ele com ela, ele jamais morrerá.
Através desse filho, de netos, ele vai sobreviver, porque realmente é a essência de ele, a inteligência de ele que vai ficar.
O resto ele acha normal.
Por isso, se ele tivesse um filho, como agora nessa última fita que eu fiz, ele não teria medo da morte.
Agora por que?
Porque ele engravida sete mulheres, e uma de elas tem que dar certo.
Em a primeira [à meia noite levarei sua alma] ele pegou a noiva de um amigo de ele.
Matou o amigo e estuprou ela, esperando ter um filho.
Mas ela se suicidou.
Aí ele ficou mais esperto.
Em o Esta Noite ele passou a seqüestrar mulheres, a testar a inteligência de elas, até achar a mulher perfeita.
Ele acha, mas a mulher morre na gravidez.
3x4 -- Por que Encarnação do Demônio foi feito só agora?
Mojica -- O Encarnação era para ser feito em 1967.
O roteiro foi escrito em 66, logo após o Esta Noite.
Mas por problemas da ditadura, uma série de coisas, a fita foi barrada, e só foi realizada no ano passado.
Ainda em maio agora eu vou gravar mais uns dois dias de detalhes:
faca varando o coração, olhos, detalhes de um olho de barata, e tal.
Eu uso numa menina 3000 baratas.
Coisas que ninguém nunca fez.
Então eu faço questão de dizer para o mundo todo que não é computador, não é trucagem, é real.
Eu preparei a moça, para a ela enfrentar 3000 baratas.
Afogo ela numa pia, ela não morre, jogo ela no chão e é barata para todo canto.
Tinha 70 pessoas na equipe.
Foi a fita mais cara da minha vida e a maior equipe.
O máximo que eu tinha trabalhado era com 15 pessoas.
De essa vez foram 70. Os melhores do Brasil.
Fizeram Carandiru, Central do Brasil, Cidade de Deus, tudo que há de bom.
Esses elementos, na hora das baratas, ninguém ficou perto.
Só ficou eu e a menina.
Nem os atores quiseram ficar por perto.
Todo mundo com botas até aqui.
Vieram de casacão, fecharam a camisa.
E eu e ela fazendo.
E a cena foi feita.
Ninguém acreditava.
Parecia que a fita tinha terminado para a menina.
Deu uma crise.
Ela tinha subido para tomar banho, quando de repente, eu não fiquei satisfeito e fui buscá-la.
Disse: «Você vai ter que fazer outra vez».
3x4 -- O Zé do Caixão é um cara super revoltado, fala coisas que são super agressivas, ataca símbolos importantes para os cristãos.
Chega a arrancar a coroa de Cristo.
Por quê?
Mojica -- O Zé é um personagem revoltado né ...
Josefel Zanatas é o Zé do Caixão.
Foi filho de funerários, foi discriminado na escola, conseguiu uma esposa e foi para a guerra.
Voltou desesperado.
Chegou e foi encontrar a noiva sentada no colo do prefeito.
Matou a noiva, matou o prefeito, e só foi absolvido porque era negócio de guerra.
De ali nasceria uma revolta com ele.
E ele passaria a só valorizar a inocência da criança, que é pura demais.
Então há muita coisa que vai se entender melhor com o Encarnação.
Em o final da trilogia vai se entender toda ideologia e filosofia de ele.
O Zé pensa o seguinte:
«qual o problema de morrer 100 pessoas inúteis para que milhões de seres humanos sejam salvos?"
Então ele vai nisso.
Ele acha que se encontrar a mulher com quem possa ter o filho perfeito vai estar realizado.
Ele mata, mas apenas quem cruza o seu caminho.
Ele segue a reta de ele, e mata só quem cruza o caminho.
Se não mexem com ele, ele também não vai fazer porra nenhuma.
Você vê no à Meia-noite:
ele estuprou a esposa do melhor amigo para conseguir um filho.
Ele não iria matar o médico, se o médico não se metesse com ele.
Se ele raptasse as sete mulheres no Esta Noite e ninguém se metesse, não iria matar ninguém.
Tem toda uma lógica.
E o Encarnação, como na época eu achei que ia fazer em 67, no ano seguinte, eu estava tranqüilo porque todo mundo ia entender, vendo as três fitas juntas.
O que vai acontecer agora:
o pessoal vai ver o Encarnação e vai querer ver o à meia-noite e o Esta noite para entender.
E o Encarnação vai dar explicação para todos problemas que ficaram sem resposta.
Eu tinha um problema de censura em cima, e não podia detalhar determinadas coisas, senão os caras me seguravam.
Deu zebra de eu começar a fazer o Zé exatamente quando nascia a ditadura.
Agora com o Encarnação eu posso morrer sossegado, porque eu deixo uma série de explicações.
Mas mesmo assim eu estou escrevendo um livro, de como seria a continuação do Encarnação, para deixar mais explícito, para que não haja confusão após a minha morte, para não acharem que o Zé do Caixão era um ser paranormal.
3x4 -- Então que palavra define o Zé do Caixão?
Mojica -- Ele é um homem persistente, ele vai naquilo que acredita.
Passam-se 40 anos e ele continua atrás do que acredita.
Eu acredito muito na persistência, defendo isso demais e quero morrer defendendo.
Eu vi muitos amigos meus, que tinham tendência para serem grandes cineastas, desistirem após a primeira queda.
Eu que não tinha força nenhuma, não tinha grana, acreditei, bati, fui chamado de louco, fizeram o que fizeram com mim.
O Eugênio [Puppo, Produtor] está agora escrevendo um livro sobre minha vida.
Tem o Maldito, mas o Maldito tem muita coisa ...
os caras fizeram com mim 400 entrevistas, mas pegaram gente que me odiava de morte.
Inverteram. Quem me ajudou, passou a ser vilão, quem era vilão, no livro parece ser herói.
Também ridicularizaram minha família com coisas que não tem nada a ver.
Todas as pessoas que eu tenho como testemunhas do que eu vivi, eu estou passando para o Eugênio entrevistar, para que seja um livro autêntico.
Para que tudo que eu falar, tenha quem confirmar.
3x4 -- E o sacrifício que você fez por o Zé do Caixão, a história das unhas por exemplo?
Mojica -- Eu diria que eu fiquei aprisionado a um personagem, para ter credibilidade no mundo todo.
Eu sabia que as unhas eram um sacrifício.
Tinha que fazer o escambau para segurar aquelas unhas.
Mas as unhas eram a marca.
Se eu cortasse, perdia força do personagem.
E eu acho que a minha missão com as unhas chegou ao fim.
O mundo inteiro conhece.
Tem um livro para ser publicado por os franceses, e tem um livro agora por os americanos, que deve sair no final desse ano ou começo do ano que vem.
E tem três brasileiros escrevendo também.
Independente do Eugênio, tem mais dois.
E eu resolvi escrever minhas memórias.
Se der tempo, vou escrever.
Se tudo correr bem, eu pretendo lançar também no ano que vem.
Porque eu escrevia crônicas para um dos maiores jornais de São Paulo, que era o Estado de São Paulo, depois o Diário de São Paulo e várias revistas.
E essas crônicas, tudo o que eu escrevia era baseado em fatos reais meus.
Eu hoje, juntando todas essas crônicas, pondo em ordem cronológica, está quase toda minha vida contada.
Com alguns trechos de 2006, 2007, eu estou com as minhas memórias completas.
Então eu pretendo lançar.
Eu acho que as pessoas vão saber muito mais a meu respeito do que sabem até agora.
Inclusive, sempre fizeram entrevistas, mas perguntas que eu queria que fizessem, nunca perguntaram.
Cada historinha do passado que eu fiz tem uma história, como eu cheguei a fazer a fita.
Não é que eu peguei assim e fui fazer.
Hoje, o Eugênio está indo atrás de toda a história da história, uma história que vira outra história.
Então há muita coisa que de repente o público não sabe, ficou só naquela narração que veio do Maldito.
Daí em diante as pessoas só ficaram naquilo.
3x4 -- Quem é José Mojica e quem é do Zé do Caixão?
Existe essa separação?
Mojica -- São muito separados, não tem nada a ver.
Eu estou hoje novamente casado.
Fui casado muitas vezes.
Perdi duas esposas fantásticas, fui divorciado.
Tenho sete filhos, possivelmente terei o oitavo.
Três homens, quatro mulheres.
onze netos, nove homens, duas meninas.
E já estou esperando mais.
Então eu estou realizado.
O Zé ainda está procurando uma mulher.
Eu fui um homem considerado, no passado, um dos mais mulherengos de São Paulo.
Chegava a dormir com três, quatro mulheres juntas, na mesma cama.
Mas nada tem a ver, a gente muda.
Claro que eu sempre vou estar querendo a mulher.
Em o lugar do homem, a companhia de uma mulher.
Mas hoje eu não sou aquele homem.
Hoje eu vou por a mulher que me entenda.
Em o passado eu ia mais por a beleza.
Tive mulheres lindas e inteligentes, e tive mulheres lindas e burras, de tudo.
Eu acho que a coisa mais bacana, tanto para uma mulher quanto para um homem, é ter alguém que compreenda, que entenda, e queira ou não, eu acho que fui avançado uns 40 anos nessa questão.
3x4 -- De que forma você foi tão avançado no tempo?
Em 48 eu fiz um filme chamado A Luz dos Olhos Meus.
Eu falava no transplante de córnea, e em 48 nem se sonhava com isso.
Eu explicava que a fulana tinha uma paixão tão grande por um cara, que o cara ditou e ela escreveu um livro.
Ela era rica, e lançou o livro, comprou os exemplares e fez o cara ficar rico.
Pôs na cabeça que ele precisava fazer um transplante -- que só ia aparecer depois de 40 anos.
Ele fez o transplante, e ela deu os próprios olhos para ele.
Aí ele veio a enxergar, conheceu outra mulher e deu um pontapé na bunda daquela que fez ele ficar rico e voltar a ver.
Ele ficou com a outra.
E eu tentava provar, nessa fita, eu tentava pôr algo que eu achava ser a ignorância humana.
Levar por a embalagem e não por o conteúdo.
Só que naquela época não tinha plástica.
Hoje não existe mais homem feio nem mulher feia.
Com dinheiro você faz o rosto que você quiser.
Em a minha época não tinha isso, quando eu escrevi isso.
Eu tava falando para o Eugênio:
eu estava avançado muito tempo.
Quando fiz Finis Hominis havia um grande crítico, que hoje é o cara que faz os festivais internacionais em São Paulo, que dizia:
«Mojica tá muito avançado o Finis».
Eu falava das igrejas todas, e não tinha igrejas, quem dominava era o catolicismo.
Depois foi aparecendo.
Foi, foi, aí surgiu o bispo Macedo.
E apareceu igreja que não acaba mais.
Hoje dá uma tristeza, quando a gente olha São Paulo.
Eu moro no centro.
São Paulo tinha 350 cinemas no centro, hoje tem um único cinema.
O centro de São Paulo tem um único cinema!
O resto é tudo telão de coisas pornográficas.
Então só tem um cinema, 350 acabaram.
A maioria virou estacionamento ...
não, a maioria virou igreja, a outra parte estacionamento e supermercado.
E o resto tudo igreja.
E vai tendo igreja para todo canto.
Me perguntam porque eu faço televisão.
Eu faço pra divulgar o cinemão.
Eu não quero que o cinema acabe, o cinema é uma viagem.
Você entra naquela tela enorme e dá a impressão que você é de lá.
É muito bonito.
E aqui o povo ainda não sabe o que vai vir por a frente.
Você vai ter a terceira dimensão sem óculos.
É muito bonito.
Você olha, você tem a impressão que a moça, você vai querer dar um beijo e tem a impressão que ela está te correspondendo.
Eu falo porque eu vi isso em São Francisco.
Mas por uma razão que não se entende os militares não deixam sair isso, nem lá, nem aqui.
Mas já temos o cinema terceira dimensão.
Se você subir, você vê se o cara tem careca.
Se ela estiver de saia e a pessoa abaixar para ver a calcinha, vai ver.
Todo lado que você olhar, vai ver um ângulo diferente.
Parece que estão trabalhando nisso.
Três dimensões é três câmeras, não.
O que eu vi em São Francisco eram seis câmeras.
Aí dava toda essa coisa.
E já estavam trabalhando com o cheiro, que também foi proibido.
Se aparecesse uma mulher com perfume você ia sentir.
Se era forte, você ia sentir o cheiro, mas tudo isso foi brecado, porque eles acham que isso destoa as pessoas.
Mas vai chegar uma hora que isso vai ser liberado, porque a evolução está muito grande.
Com a internet, com o computador, então isso vai ser liberado.
E o cinema não vai acabar.
3x4-Como você aprendeu a fazer cinema?
Mojica -- Sabe que eu tenho uma linguagem única, né?! (
Número de frases: 349
Continua: Faça Download De a Entrevista Completa Aqui) Tempos de melancolia, os atuais.
Diferente da cantada por Daltrey e Townshend, a minha geração marca seu rodapé na História com crassa indiferença, assistindo ao decorrer dos seus dias como às novelas das quais não perde um capítulo:
de forma impassível.
Vivemos uma inédita era de amplo acesso à informação, em que qualquer área do conhecimento pode ser explorada mediante um curto acesso à web;
que paradoxo, portanto, notar o desinteresse consensual de jovens por qualquer tipo de conhecimento que não aquele que poderá ser imediatamente útil às suas conquistas pessoais.
Perdeu-se o valor do abstrato, do raciocínio subjetivo -- se, hoje, Caetana, 16 anos, recorre a um aforisma zaratústrico, é somente para mascarar a futilidade de um fotolog com ares de erudição.
Antes eu estivesse falando sobre a juventude humilde, sem posses, incitando-a a dispensar horas em bibliotecas públicas, gastando o pouco do dinheiro ganho no aluguél semanal de livros, num processo indispensável de aculturação.
Não, não chego a tanto.
Falo, infelizmente, da jovem burguesia ociosa da qual faço parte, cercada de computadores, enciclopédias e grandes obras da literatura na mesma sala de estar onde aconchega o traseiro, por horas, em frente à televisão.
Tem-se mais conhecimento sobre a lua, a tantos quilômetros acima de nossas cabeças, do que sobre o cérebro humano, tão incluido a elas;
de ele, têm origem as profundas mudanças sociais, as ilimitadas belezas mundanas, os mais nobres altruísmos e as mais desumanas crueldades.
Não é menos do que triste, então, vê-lo sendo cozinhado, por dias a fio, diante de um computador, entretido na nutrição insaciável do ego adolescente à garfadas de recorrentes bobagens.
Toda imaginação é tolhida de forma a focar-se em maneiras de se projetar nessa nova vida virtual.
Quando foi que a realidade tornou-se desinteressante
ao ponto de ser substituida, aos poucos, por novas formas de relacionamento, de socialização?
Não vejo melhor reflexo da desesperança atual vigente entre meus semelhantes do que a importância atribuída a essa falsa estrutura social, em detrimento da ainda pulsante vida extra-tela.
Repenso a última constatação;
em detrimento da vida extra-tela?
Essa, a que chamei pulsante no último parágrafo, seria uma alternativa melhor à virtual?
Deparo-me, aqui, com uma questão filosófica, fadada a descambar para o âmbito da opinião pessoal.
Quando resolvem pisar o mundo, por o que o fazem meus companheiros?
Os vejo, reincidentemente, a desperdiçar tempo, mente e corpo em festas cujo objetivo parece-me ser conseguir sobreviver a elas.
Apreciador que sou de uma boa cerveja e da ocasião em torno de ela, não me chamem puritano, mas é de erguer as sobrancelhas a quantidade de álcool e tantas outras mazelas incorporadas a corpos tão jovens e de tão iminente potencial.
Potencial esse prematuramente tornado ínfimo por a cegueira de juízo e inteligência causada por tantas noites de auto destruição.
A desilusão de uma época faz, da minha, uma geração na sarjeta, tal qual suas idéias e um possível futuro.
Filosófica ou pessoalmente falando, a cadeira ao computador parece, agora, segura de tal forma que não sei onde há mais intensa vida:
nos dedos ao teclado ou nos pés ao mundo.
Encaro meus amigos com otimismo de boutique;
deixo-os confortáveis com a situação, tão dormentes que já estão a ela.
Mas, andando na rua sob chuva, sigo o caminho da água no asfalto.
Espero, na sarjeta, encontrar nossos sonhos e objetivos.
Número de frases: 31
«This is my generation, baby."
Com a frase «Um espaço de portas e mentes abertas para o mundo contemporâneo», o anúncio da CPFL Energia, localizada na cidade de Campinas-SP, relacionado ao seu espaço cultural, resgata através do traço, a transmissão dos princípios de uma cultura que se difundiu na década de 1960 e 1970, a hippie.
Um momento histórico, marcado por a transição musical e artística, onde, de uma forma geral, a psicodelia fazia parte do cotidiano dos jovens responsáveis por os questionamentos morais da sociedade.
Inicialmente, parece conveniente esclarecer que a revista Bravo!
é caracterizada por ter como pauta as artes plásticas em geral (pintura, escultura, gravura, fotografia), o cinema, a música, o teatro, a dança e a literatura e outras manifestações culturais.
É também conhecida, por o seu público, como uma publicação de bom padrão gráfico e editorial.
A publicação é conhecida por as análises aprofundadas dos assuntos por ela abordados -- a exemplo do que acontece quando da Bienal de São Paulo, do Festival de Cinema de Gramado e outros eventos artísticos.
Há ainda a presença de um caderno de ensaios críticos, no qual já escreveram Olavo de Carvalho, Ariano Suassuna, Jorge Caldeira, Reinaldo Azevedo e outros articulistas.
Descrever a revista parece conveniente para esclarecer que tipo de público é seu alvo, pois com uma grade rica em programação teatral, de cinema, show musical, lançamentos de livros e críticas, parece óbvio entender que seus leitores são pessoas com interesse por as artes de uma forma geral.
E, como contracapa da edição nº 113, de janeiro de 2007, encontrei o anúncio do Espaço Cultural CPFL.
Aqui utilizo o pressuposto adotado por Arheim em sua obra Intuição e Intelecto na Arte, onde:
«a percepção e o pensamento precisam um do outro.
Complementam mutuamente as suas funções.
Supõe-se que a tarefa da percepção se limite a reunir a matéria-prima necessária ao conhecimento.
Uma vez que o material tenha sido agrupado, o pensamento entra em cena, num nível cognitivo supostamente superior, e faz o processamento.
A percepção seria inútil sem o pensamento;
este, sem a percepção, não teria nada sobre o que pensar."
E deste ponto, inicio a análise:
leitura visual, argumentação histórica.
Atendo-se a leitura visual e aos princípios de design, ao centro encontra-se uma imagem extremamente rica de elementos visuais e emblemáticos.
Em cima, uma alusão a uma frase de um escritor inglês, embaixo a descrição do espaço cultural e ainda mais embaixo marcas das instituições e empresas que a apóiam.
Todos unidos por o fundo amarelo.
De cima para baixo, da esquerda para a direita, inicia-se a leitura com a frase «Um espaço de portas e mentes abertas para o mundo contemporâneo».
A frase remete à célebre frase:
«Se as portas da percepção fossem limpas, tudo apareceria ao homem como realmente é:
infinito», de autoria do escritor inglês William Blake (1757-1827).
Esta frase foi resgatada na história algumas vezes.
Inicialmente por o escritor Aldous Huxley (1894-1963), para dar nome a um de seus livros mais conhecidos:
«As Portas da Percepção».
E, deste livro, originou o nome de uma das bandas mais conhecidas de rock ´ n roll de todos os tempos -- The Doors, em português, as portas.
Em uma única frase foram dissecados vários contextos, o poético de Blake, o psicodélico de Huxley e o musical, não menos psicodélico, dos The Doors.
A [re] apropriação da frase num novo contexto parece indicar que na instituição cultural portas e mentes já estão abertas.
Esclarecendo que está disposta a aceitar novas propostas e fomentar a cultura.
Analisando a figura em si, o fundo, com raios marcados por as nuances de amarelo, realça os elementos que a compõe.
A imagem requer cautela e um olhar atento às suas informações, que parecem se subdividir em categorias artísticas:
música, clássica ou não, literatura, meio ambiente, urbano e natural.
Sentado em cima de uma caixa de som, a figura humana confortavelmente toca sua guitarra.
Com cabeça reclinada para o lado esquerdo, tênis e cabelo crespo, sua camiseta possui na estampa a fotografia de um concerto.
Sobreposta à fotografia, há a aplicação transparente de uma partitura.
Através dessas técnicas de computação gráfica trabalhadas na foto, a compreensão dos detalhes ganha uma visibilidade mais demorada, mas não menos importante.
Já encostada à caixa de som, elemento quente (numa análise cromática) e central, uma mulher de cabelos longos lê atenciosamente o livro que segura.
Em a capa, em foto, o perfil de outra mulher de pele clara e olhar distante.
Em o casaco da mulher que lê, a fotografia trabalhada e mascarada de um homem, onde a cor em si se destaca mais que seu olhar sério e compenetrante.
A o centro, em meio a notas musicais, saídas de som, cores quentes:
um homem.
Seu olhar está voltado para cima, suas mãos dentro do casaco.
Tudo indica que parece pensar e observar a borboleta à sua direita de asas preenchidas com teclas de um piano clássico.
A outra borboleta, que invade o limite da caixa de som, tem no preenchimento de suas asas partituras com linhas distorcidas em ondas e o rosto de uma jovem bonita de olhos claros e sobrancelha marcante.
Interessante notar ainda que o trecho da caixa de som invadido por o desenho da borboleta parece derreter.
Em uma observação em diagonal, da parte superior esquerda até chegar à logomarca da CPFL, no canto inferior direito, observa-se que todos os desenhos se formam através de uma única linha.
Um fio condutor?
Energia elétrica e cultura assim associados?
Energia e cultura assim conectadas?
Acredito que sim.
Especialmente por a frase que inicia o texto do canto inferior esquerdo:
«A CPFL não gera só energia, gera também cidadania e cultura».
A figura remete a vários aspectos históricos, como o movimento psicodélico em especial.
Frase publicitária e imagem combinam-se num jogo de exibir solos já explorados e férteis para a criação.
Jimmy Hendrix e Janis Joplin exibidos discretamente, astros do rock que morreram jovens por uso abusivo de drogas, ambos aos 27 anos.
Resta a pergunta:
«Por que um centro cultural traz à tona como elementos-chave de sua publicidade símbolos psicodélicos?».
De este questionamento, acabo por concordar com Feldman:
«a linguagem da arte implica desenvolver técnica, crítica e criação, e, portanto, dimensões sociais, culturais, criativas, psicológicas, antropológicas e históricas do homem».
É preciso um olhar atento para a arte.
O observador que percebe a relação entre tantos detalhes e o todo, a partir da quantidade de informações disponíveis, vai além.
Para Arhheim:
«Há aqueles que são atraídos principalmente por o que distingue uma coisa de outra.
Outros enfatizam a unidade na diversidade.
Ambas as abordagens resultam de atitudes pessoais e culturais profundamente assentadas.
Levadas a seus extremos dão origem, no primeiro caso, a pessoas que apreciam a atomização e a alienação de uma forma quase sádica e, por outro lado, àqueles que, ingênua e indriscriminadamente, tudo abarcam em sua totalidade.
Se estiverem dispostos a prestar atenção uns aos outros, farão com que nos aproximemos mais da verdade».
Número de frases: 71
Em 6 de abril de 1930, num seringal do rio Juruá, em Carauari (AM), nascia José Ribamar do Nascimento, o mestre Zé Preto.
Filho de nordestinos, mãe maranhense e pai cearense, ele se mudou para a capital amazonense ainda pequeno, dois anos depois.
Em 6 de abril de 2008, a Secretaria Municipal de Cultura (Semc) de Manaus planeja dar a Zé Preto um presente de aniversário:
uma apresentação ao lado dos colegas Duda, Mário Jorge, Xerxes e Melchíades, com sonorização profissional, da qual se espera que saia um CD (embora ainda não haja recursos para a prensagem e distribuição).
Um reconhecimento merecido do talento do mestre cantador de Boi mais antigo da cidade;
uma comemoração especial dos seus 78 anos, a ser financiada com parte da verba conquistada no «Prêmio Culturas Populares 2007 -- Mestre Duda 100 Anos de Frevo», concedido por o Ministério da Cultura (Minc) ao projeto» Encontro dos Mestres dos Bois-Bumbás de Manaus:
contando e cantando a história».
O folguedo de boi em Manaus possui um dos registros mais antigos dessa manifestação no Brasil:
o relato de Robert Avé-Lallemant na obra Viagens por o Norte do Brasil, publicada em 1859.
O documentário Boi bumbá de Manaus, brinquedo de São Jo ão, dirigido por o antropólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Sérgio Ivan Gil Braga, conta que, no final do século XIX, o então governador Eduardo Ribeiro (que hoje dá nome à principal avenida do centro de Manaus) trouxe à cidade famílias maranhenses.
Com elas, a tradição do auto do boi foi se espalhando por os bairros centrais, especialmente a Praça 14, onde nasceu o Caprichoso (boi que migrou para Parintins e hoje domina, ao lado do Garantido, o Festival Folclórico mais famoso do estado).
Em as décadas de 30 e 40, Zé Preto, Duda, Mário Jorge, Xerxes e Melchíades eram destaques em apresentações juninas realizadas em clubes e comunidades de Manaus.
O boi amazonense, então, ainda não havia se transformado em espetáculo-mercadoria.
Era apenas tradição vivida no cotidiano, que não precisava de patrocínio da Coca-Cola ou de apoio governamental para se realizar.
A língua do boi, a mesma que provocou os desejos de grávida de Catirina e que fez o pai Francisco matar o animal predileto dos donos da fazenda, era a fonte de financiamento da brincadeira popular.
As línguas bovinas de pano tinham o mesmo destino atual das gravatas dos noivos paulistas, ao fim das festas de casamento:
eram cortadas e vendidas em pedaços às famílias por cujas casas a festa passava.
Os bois de Manaus não morreram, mas perderam força -- e, nesse processo, seus cinco mestres mais tradicionais também perderam espaço.
Em o ano passado, a prefeitura identificou 20 grupos de boi na cidade, sendo 12 de eles «garrotes» (modalidade na qual brincam apenas crianças e adolescentes).
Os bois crescidos mais famosos da capital -- Corre Campo, Brilhante e Garanhão -- se esforçam, atualmente, por seguir o estilo dos Bois de Parintins, deixando as ruas (e seus protagonistas) de lado e apostando todas suas fichas no show de arena."
É uma pena que os bois de Manaus tenham aderido a Parintins.
Lá é uma grande festa, mas nós não devíamos ter abandonado a nossa», lamentou mestre Zé Preto.
«Em as casas, para cantar em aniversários, os velhos mestres ainda são chamados.
Mas nós percebemos que eles estavam excluídos do espetáculo, por isso resolvemos trabalhar na busca por novos palcos», explicou Alvatir Carolino, coordenador de Patrimônio Cultural da Secretaria Municipal de Cultura, um dos idealizadores do projeto premiado.
A iniciativa da prefeitura, que tem o aval da Associação de Grupos Folclóricos do Amazonas, da Associação de Grupos Folclóricos de Manaus, da Associação Liga Independente dos Grupos Folclóricos do Amazonas e da Associação Movimento Bumbás de Manaus, é simples, mas eficaz:
ela se traduz no apoio a encontros entre os cinco mestres cantadores, com locação de sonorização e iluminação, divulgação na imprensa, agendamento de espaços públicos (como anfiteatros e auditórios) e na distribuição de recursos para reparo e confecções de indumentárias e para o transporte dos mestres.
As apresentações conjuntas têm como cenário a mesa de bar, com direito à imprescindível cerveja gelada, não cenográfica.
Os mestres contam histórias dos bois, cantam toadas antigas e tocam instrumentos de percussão, como pandeiro, roçar, tamborim, matraca e tantã.
São momentos de descontração e celebração da memória viva desses agentes culturais, nos quais diversas canções não registradas vencem mais uma batalha na luta contra o esquecimento."
Em o primeiro encontro que promovemos, no Parque dos Bilhares, eles cantaram durante quatro horas e meia, sem pausa.
Só repetiram duas músicas, a pedido dos meus pais, que chegaram atrasados e queriam ouvi-las», lembrou Alvatir.
Revitalização
Em 2006, a arena do Centro Cultural dos Povos da Amazônia, em Manaus, presenciou a tentativa de aposentadoria compulsória dos mestres Zé Preto e Melchíades.
Meio a contragosto, por sugestão dos organizadores do Festival Folclórico do Amazonas, eles tiveram o fim da carreira artística anunciada.
Um ano depois, durante o II Encontro do Patrimônio Cultural, realizado em novembro de 2007, estava em pauta a reinserção dos mestres de Boi nas apresentações do 52º. Festival Folclórico do Amazonas, que será realizado em junho.
Mais um sinal positivo da repercussão do projeto «Encontros de Mestres dos Bois-Bumbás removeme».
Em 2007, após 23 anos sem apresentações, o boi Luz de Guerra, fundado por o finado mestre Maranhão, foi recuperado por seu filho, mestre Xerxes -- outro resultado indireto do projeto.
Mestre Zé Preto também se prepara para, neste ano, colocar um boi novo nas ruas, o Estrela do Oriente."
Quando eu tinha seis anos, ganhei um garrote da babalorixá que morava em frente à minha casa, dona Isabel, que o pessoal chamava de Mundica.
Ela só fez uma exigência:
batizá-lo.
O nome era Beija Flor», recordou Zé Preto."
Setenta anos depois, em 2006, uma mãe de Santo do Maranhão deu à dona Emília (presidente da Federação Umbandista do Amazonas) um boi, para ela botar no Amazonas.
Novamente, ele já tinha nome certo:
Estrela do Oriente.
E eu fui escolhido para ser seu amo», completou, orgulhoso.
Zé Preto, que nunca havia saído do Amazonas, conheceu Brasília em 2006 e o Ceará, no ano passado, viajando para receber homenagens."
Toda minha vida eu dediquei aos bois.
Em junho, eu largava tudo para ir brincar de boi», revelou o velho mestre."
Mesmo quando casei, minha senhora não gostava muito, mas eu continuei.
Agora, depois da idade, ser reconhecido é muito gratificante», comemorou ele.
Para além do evento
Só em 2006 Manaus ganhou uma Secretaria Municipal de Cultura.
Em a Coordenadoria de Patrimônio Cultural, responsável por o projeto «Encontro dos Mestres dos Bois-Bumbás removeme», cinco pessoas trabalham apertadas, no local onde antes funcionava um banheiro.
O espaço, improvisado, simboliza os obstáculos que a equipe de Alvatir Carolino vem tentando transpor."
As políticas culturais de Manaus eram pautadas apenas nos grandes eventos.
Isto escondia várias manifestações culturais que não geravam um público tão grande, que não estavam nos meios de comunicação -- e que, portanto, nessa lógica, deixavam de ser interessantes para as políticas de governo», afirmou o coordenador.
O fato de ter sido uma das 40 iniciativas de instituições públicas eleitas por a Secretaria de Identidade e Diversidade Cultural do Minc para receber o «Prêmio Culturas Populares 2007 -- Mestre Duda 100 Anos de Frevo» representou, portanto, uma grande conquista.
Não tanto por o valor do prêmio, R$ 10 mil, que já está comprometido:
além da apresentação especial de abril (para a qual foram reservados R$ 3 mil), metade do dinheiro foi distribuído igualmente aos cinco mestres e, o restante (R$ 2 mil), utilizado na compra de instrumentos musicais (eles tocavam com instrumentos emprestados, difíceis de se conseguir nos fins-de-semana).
Foi importante, principalmente, por o significado simbólico e político."
Número de frases: 61
Espero que esse prêmio sirva para mostrar para os articuladores culturais, aí incluídos os editores dos cadernos de Cultura locais, que não apenas trazer para cá uma banda do momento é uma atividade de política cultural relevante», argumentou, satisfeito, Alvatir Carolino.
O Brasil Chapter é o maior Clube de Colecionadores de itens de cerveja, refrigerante e Afins do Brasil, e o único reconhecido por o B.C.C.A. (Brewery Collectibles Club of America), constituindo-se em seu Chapter & 147.
Fundado em Novembro de 1994, durante uma Reunião Anual do B.C.C.A. nos Estados Unidos, tem por finalidade incentivar o colecionismo de latas de cerveja ou refrigerantes e afins (rótulos, tampinhas, abridores, peças publicitárias, bandejas, canecas, etc.) entre seus mais de 250 sócios, que residem não apenas em grande parte dos estados brasileiros, como também em vários países da América do Sul.
Este incentivo se dá sob a forma de reuniões mensais, onde ocorre a compra, venda e troca de latas de cerveja e afins;
Leilões; Convenções Internacionais;
publicação de um Jornal Mensal, o Brasil Chapter News;
Forum em site;
troca de informações a respeito de lançamentos e raridades, tanto nacionais quanto do exterior;
contato freqüente com outras pessoas que compartilham o mesmo hobby;
visitas a cervejarias;
etc.
Desde de 1998, no mês de agosto em São Paulo, é realizada a Convenção Internacional de Colecionadores de Itens de Cerveja, Refrigerantes e Afins, onde reúnem-se centenas de colecionadores de todo o Brasil, além de vários colecionadores de diversos países da América Latina e da Europa.
Em o evento há espaço para exibição de latas e outros itens colecionáveis para compra, venda e troca;
um fantástico leilão, com várias latas raras (algumas atingindo a faixa de 1.000,00 dólares!),
bem como de outros itens colecionáveis;
farto almoço;
bebidas à vontade;
distribuição e sorteio de brindes;
venda de canecas;
etc.
Sem contar o lançamento anual de latas especiais comemorativas, desde 1995, sendo que a partir de 1999 estas latas foram postas à venda por a Kaiser nos supermercados Pão de Açúcar!
Foi não só a primeira vez que uma cervejaria lançou uma lata de um Clube de Colecionadores, como também que um fabricante de latas de alumínio fez uma edição especial deste tipo no Brasil.
Número de frases: 22
Informações -- http://www.lata.org.br/ A direita de hoje, acuada, é vítima do preconceito e enfrenta discriminação.
«A direita é a verdadeira minoria discriminada, e pior, sem nenhuma ONG pra defender».
É assim que a publicitária Paula (nome fictício) vê a rotina da direita brasileira.
Depois de décadas enfrentando forte hostilidade, o pensamento de direita (ou liberal, ou conservador) no Brasil se vê numa situação singular na história das sociedades democráticas:
precisa lutar contra o preconceito e a intolerância, dos outros.
Seja na vida profissional, na acadêmica e até mesmo na pessoal, ser de direta é aprender a pisar em ovos.
«Já perdi amigos, já quebrei muitos pratos com ex-colegas de trabalho.
Hoje, dependendo de quem está por perto, e se sei de antemão como pensam, evito falar em política», diz Paula, lembrando-se dos casos desagradáveis provocados por diferenças políticas.
O universitário D.V., que também pediu para não ter seu nome divulgado, tirou satisfação com um professor de esquerda na sua faculdade:
«Ele insinuou que George W. Bush estava por trás dos atentados de 11 de Setembro, o que não faz o menor sentido».
A discussão terminou na coordenação do curso, mas os dois acabaram se entendendo.
«Esses professores estão tão acostumados a dizer qualquer disparate impunemente que, quando confrontados, reagem surpresos», afirma D.V..
Ao contrário de outras democracias por o mundo, a direita brasileira foi expulsa do debate da sociedade.
A má-interpreta ção da ideologia conservadora, o desconhecimento das definições políticas e a falta de estudo seriam os fatores responsáveis para esse paradoxo, que não tem semelhança em nenhum outro país onde a democracia já é uma tradição.
«O termo ' direita ' é quase sempre interpretado como sendo um tipo de desinteresse por o social, uma tendência oligárquica egoísta», explica o advogado «Douglas Donin,» o país cresceu sem ter contato com um modelo verdadeiramente liberal, cresceram sempre à sombra de um estado paternalista, onipresente.
Eles não trabalham com a hipótese de haver bem, justiça e oportunidade que não seja dada por o Estado».
A solução para o problema passa por a educação, de acordo com Paula:
«A direita corre o risco de permanecer eternamente nessa posição se os valores que defendemos não forem inseridos didaticamente na sociedade brasileira».
Número de frases: 18
Quando me mudei para São Paulo, já faz um bom tempo, uma das coisas que mais me impressionaram foi que não tinha ninguém para jogar peteca por lá.
Parece até a história que uma vez me contaram sobre o Mário Henrique Simonsen, que nem sei se é verdadeira.
Quando ainda Ministro da Fazenda, em visita a uma comunidade na selva Amazônica, precisou fazer uma grande travessia de barco.
Para dormir, a praxe era pendurar uma rede no barco, enquanto o barco descia o rio noite afora.
Obviamente, ninguém da comitiva do ministro Simonsen tinha nenhuma rede, o que provocou espanto.
Um dos locais que viajava no barco comentou: --
Esse pessoal é todo estudado, vem da capital e não tem sequer a própria rede.
Vixe!
Foi assim que me senti ao descobrir que a peteca não era um esporte universalmente conhecido e praticado no Brasil.
Tal como o viajante, minha primeira reação foi indagar como pode uma cidade grande como São Paulo não ter à mão uma quadra para jogar peteca!
A inquietação só passou quando finalmente percebi que a peteca é um esporte regional no Brasil.
Um esporte que está se espalhando por vários estados, mas que ainda assim não conquistou nem o Rio de Janeiro (há boatos de que conquistou Niterói!)
nem São Paulo.
Cuidado.
A peteca mencionada aqui não é uma trouxinha de pele de animal, cheia de terra sagrada (ou da cinza de algum antepassado) com penas de galinha da angola espetadas no orifício central.
Essa peteca também pode ser divertida e útil, mas a que me refiro é a peteca " profissional ":
um pequeno e achatado segmento cilíndrico, feito de borracha, com quatro penas de plástico cuidadosamente encaixadas, formando ângulos retos entre si.
Em outras palavras, trata-se de uma peteca «racionalizada», que evoluiu para aperfeiçoar suas qualidades aerodinâmicas.
É claro que a peteca é uma atividade que pode ser desenvolvida tanto no quintal da casa da avó como na praça da cidade.
No entanto, a peteca esportiva, enquanto tal, é um esporte com regulamentação própria, que possui federações estaduais e regulamentos extensos e seríssimos, aliás.
Assim, para jogar peteca como esporte é preciso de uma quadra, com marcações oficiais.
De cada lado, um ou dois jogadores se enfrentam, dependendo da modalidade.
De o mesmo jeito que o tênis, quando há somente um jogador de cada lado, utiliza-se a marcação central da quadra.
Quando em duplas, vale a quadra inteira.
Tudo sem raquete, a peteca é essencialmente um jogo em que só se usa a mão.
Para provar o que estou dizendo, seguem as dimensões da quadra de peteca, bem como principais regulamentos, para quem quiser exprimentar:
-- 15m x 5,5m para os jogos de simples e de 15m x 7,5m para os de duplas --
A altura máxima da rede é de 2,43m para o masculino e 2,24m para o feminino.
-- Cada jogo é composto por três «sets», cada um terminando no que ocorrer primeiro, 12 pontos ou 20 minutos de peteca em jogo.
-- Quem saca, tem 30 segundos para converter o ponto, sob pena de ter o saque revertido.
Outro fato é que qualquer clube esportivo ou de lazer que se preze em Minas Gerais tem uma quadra de peteca.
Se o clube é bom mesmo, vai ter várias, inclusive dentro de ginásios cobertos.
Qualquer pessoa acostumada com essa realidade esportiva naturalmente ficaria desconsolada em descobrir que esse tipo de infraestrutura só existe em algumas poucas partes do Brasil.
Em esse sentido, a razão por a qual escrevi esse texto, além de matar um pouco a saudade do esporte, é que ando intrigado sobre práticas esportivas «alternativas» no Brasil, ou mesmo esportes praticados apenas regionalmente por aqui, sendo genuinamente brasileiros ou não.
Há, por exemplo, relatos da prática de badminton no Piauí.
Será que além da peteca, existem outros esportes regionais com suas federações próprias, regras e inúmeros praticantes ou será que a peteca é um dos poucos exemplos de prática esportiva que se profissionalizou?
Outra questão, mais específica, é mesmo sobre a origem da peteca.
Fazendo uma pesquisa rápida por a internet, há gente que atribui a origem da peteca esportiva a Minas Gerais, identificando o esporte como legitimamente mineiro (e tendo a Federação Mineira de Peteca sido criada em 1985).
Há também os registros da prática por os povos indígenas no Brasil, muito antes da chegada dos portugueses.
E por fim, relatos sobre a Olimpíada na Antuérpia, em 1920, quando os atletas brasileiros teriam supostamente assombrado os Europeus ao brincar com o curioso objeto entre as provas, provocando interesse por a estranha prática.
Em o mais, há pelo menos um site indicando que o esporte já chegou também à França.
E quem se interessar, pode até assistir à final do campeonato brasileiro de peteca no YouTube.
Fica assim lançado o convite.
Quem souber de mais esportes regionais por o Brasil, espero que não se acanhe e conte um pouquinho aqui no Overmundo.
E se alguém aqui no Rio de Janeiro souber onde é que se joga peteca por esses lados, por favor me mande uma mensagem.
Retribuo com dicas sobre pão-de-queijo.
Número de frases: 46
«Ajeite a sua bunda e comece a cagar ouro ou acabarei com você!».
Quem disse isso?
General Hartaman em «Full Metal Jacket».
Me lembrei de Kubrick, afinal, é incrível:
para ser Fuzileiro Naval no Brasil é preciso sorrir.
Segundo o Edital, " o mínimo exigido é de dez (10) em cada arcada, hígidos ou tratados.
Tolera-se prótese dental, desde que o inspecionado apresente os dentes naturais exigidos».
É, um sorriso.
Nós sorrimos.
Nós fazemos propaganda de adesivo para dentaduras.
Nós somos tratados como cavalos.
O nível de escolaridade exigido é o 1º grau.
O salário inicial é de seiscentos reais.
como se não bastasse:
dentes; é preciso ter dentes.
Isso me lembra a escravidão, me lembra um cowboy olhando os dentes dos cavalos.
É, estou nostálgico.
Nostalgias revoltadas.
«Born Te o Kill "; veremos um trecho do Sargento Hartman que, para mim, é uma das melhores cenas do filme.
Mas, o filme de Kubrick é outra realidade;
os de lá nascem para matar, os daqui para sorrir, e sorriso com dentes naturais, 10 em cada arcada.
Isso mesmo, cabe lembrar:
não se admite Fuzileiro Naval com dentadura.
O mais genial está por vir.
Vejamos a outra parte do Edital:
-- Para a apresentação nos órgãos de formação, os candidatos deverão levar:
-- cinco aerogramas;
-- duas agulhas de costurar;
-- um apontador para lápis;
-- cinco aparelhos de barbear (descartável);
-- uma borracha bicolor;
-- um cortador de unhas;
-- um creme de barbear;
-- um creme dental grande;
-- um caderno universitário;
-- uma caneta esferográfica (azul /preta/vermelha);
-- dez cabides;
-- cinco cuecas;
-- um desodorante;
-- uma escova dental;
-- duas escovas para sapato;
-- duas escovas para graxa;
-- um metro de elástico;
-- um fio dental;
-- duas flanelas (tamanho médio para limpar metais);
-- uma graxa para calçado marrom;
-- uma graxa para calçado preto;
-- dois lápis;
-- um pincel para barba;
-- um polvilho anti-séptico;
-- um polidor de metais;
-- uma dúzia de pregadores de roupas;
-- uma régua plástica;
-- um retrós de linha branca;
-- um retrós de linha verde musgo;
-- dois sabonetes;
-- uma saboneteira;
-- uma barra de sabão comum;
-- uma barra de sabão de coco;
-- um par de tênis para corrida (não precisa ser novo);
e -- um ferro de passar roupa.
(grifos meus)
Por os meus grifos, pode-se encontrar a função dos dentes, como também, a dos petrechos mencionados;
quem não comprar isso, esqueça.
Estará eliminado.
Passemos a ficção.
Veremos, agora, um dos trechos do Sargento Hartman se apresentando aos fuzileiros navais dos Eua:
-- Seus pais tiveram filhos?
-- Sim, senhor!
-- Aposto que se arrependeram.
Você é tão feio que parece uma obra-prima de arte moderna!
Como se chama gordão?
-- Leonard Lawrence, senhor!
-- Lawrence do quê, da Arábia?
-- Não, senhor!
-- Parece o nome da realeza.
Tem sangue azul?
-- Não, senhor!
-- Você chupa pinto?
-- Não, senhor!
-- Aposto que chupa como um aspirador!
-- Não, senhor!
-- Não gosto do seu nome.
Só veados e marinheiros se chamam Lawrence!
A partir de agora, você é Gomer Pyler!
-- Sim, senhor!
-- Acha que sou bonitinho, acha que sou engraçado?
-- Não, senhor!
-- Então pare de sorrir!
-- Sim, senhor!
-- Quando quiser, querida!
-- Estou tentando senhor!
-- Eu lhe dou três segundos, exatamente três segundos para tirar esse sorriso idiota do rosto, ou vou arrancar sua cabeça e foder o seu crânio!
1 ... 2 ... 3!
-- Não consigo evitar, senhor!
-- Porra nenhuma!
Ajoelhe, seu merda! ...
Agora se estrangule! ...
Com a minha mão, imbecil! ...
Não puxe minha mão, é para se estrangular!
Incline-se e se estrangule! ...
Parou de sorrir?
-- Sim ...
senhor.
-- Porra nenhuma!
Não estou te escutando!
-- Sim, senhor!
-- Ainda não estou te escutando, parece uma garota!
-- Sim, senhor!
-- É o bastante.
Levante-se! ...
Ajeite a sua bunda e comece a cagar ouro ou acabarei com você!
-- Sim, senhor.
Sim senhor, acreditem, a «genialidade» está publicada no Diário Oficial da União, Nº 219 de 16 de novembro de 2006.
Número de frases: 114
Diogo Costa.
Imaginem: é véspera de Natal, e falta luz no seu bairro.
Será preciso vigiar o forno com uma vela na mão?
As bebidas esquentarão nas geladeiras, os pisca-piscas ficarão inúteis, a tevê e o som permanecerão mudos, as crianças em alvoroço e os adultos em desespero?
Por favor, chamem os técnicos!
Esse é o argumento de «Acende a Luz», um filme de 20 minutos da cineasta Luciana Bezerra, que terá o seu próprio bairro como locação, o Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro.
Em a estória, os técnicos chegam, mas não dão conta do problema.
Então, os moradores os mantêm como reféns:
não saem do morro enquanto não derem conta do recado.
Perguntei se a idéia veio de uma experiência de fato, e Luciana disse:
«Veio. A os 13 anos amanheci 24 de dezembro sem luz e foi uma agonia.
Mas não foi nada como está no roteiro, a não ser o nome dos personagens, que emprestei de vários vizinhos.
Estou doida para vê-los assistindo ao filme».
Agora, tornem-se crianças.
Uma Kombi está passando na porta de suas casas e o alto-falante grita:
«Alô, garotada, o carro do troca-troca está passando, garrafa velha, bacia velha, panela velha, o moço troca por picolé, pintinho e pipa».
E todos vocês se juntam apressados atrás de garrafas e de tudo mais que acharem que possa ser trocado.
Essa é a estória de «Picolé, pintinho e pipa», curta-metragem de 15 minutos, dirigido por Gustavo Melo, realizado neste ano também no Morro do Vidigal, a partir de outra experiência de infância, vivida por André Santinho, que co-roteirizou com Gustavo Melo, e fez a direção de arte.
«Ele é um morador aqui do Vidigal, e também morou na Rocinha, onde viveu essa história com os amigos de diversas maneiras, trocando esses objetos por picolés, pintinhos e pipas».
Mudemos então de ambiente para a Vila Margarida, em São Vicente, na baixada Santista, pra conhecermos, na favela México 70, a popular Maria Capacete, uma senhora negra que recebeu esse apelido dos adultos e crianças do local, por conta do penteado estilo «black power» que usava.
Em as portas das moradias precárias, ficamos sabendo que ela chama-se Maria Félix, é sergipana e tem uma bela história de vida, na qual inclui-se uma paixão, um filho que lhe foi tirado e o gosto por o forró.
Trata-se do curta-documentário «Maria Capacete», co-dirigido por Victor Luiz dos Santos e Eduardo Bezerra, jovens moradores da México 70. Victor me confessou que ele também mexia com a senhora, quando criança, mas hoje, aos 20 anos, ao ter a oportunidade de realizar um curta-metragem, resolveu falar sobre» Maria Félix, «pra mostrar que ela merece respeito».
Luciana Bezerra, Gustavo Melo e André Santinho são do «Nós do Morro», grupo com vinte anos completos na área teatral e que mantém desde 1997 um núcleo independente de formação cinematográfica.
Já Victor Luiz e Eduardo Bezerra são das «Oficinas Querô», de Santos, projeto que nasceu em 2006 do longa-metragem» Querô», e que fornece oficinas para jovens sem grana no bolso, mas com talento pra mostrar e se desenvolver.
Já no segundo ano, as oficinas mantêm o módulo básico e, no avançado, preparam-se para a criação de uma produtora.
Juntam-se a eles mais pelo menos 200 núcleos independentes de formação em cinema, espalhados por o país, produzindo conteúdo em dramaturgia e documentários, e se organizando em iniciativas como o FEPA (Fórum de Experiências Populares em Audiovisual), que já se reuniu por três vezes com o intuito de pensar a metodologia dos cursos, a continuidade dos núcleos e a distribuição dos produtos.
Um diálogo em primeiro plano.
«Queremos trampo» é um dos tópicos do site das Oficinas Querô.
E foi pensando em ele que fui assistir à aula «Economia do Audiovisual: Impactos do Digital», com Manoel Rangel, Diretor-presidente da ANCINE (Agência Nacional de Cinema), no Departamento de Cinema, Rádio e TV da USP, no último dia 06 (que pode ser buscada aqui).
De forma inteligente, Manoel Rangel pulou o assunto «meio digital» e apresentou a finalidade da ANCINE:
criar ambiente para a expansão do audiovisual brasileiro, que está aquém de seu real poder, tanto em cinema quanto em televisão, esta última, a parte mais rentável do mercado, com um filão pouco explorado:
a tevê por assinatura.
Passando por assuntos como regulação, fiscalização e medidas de incentivo ao mercado (com cobranças de retorno), Manoel Rangel disse também que é preciso desenvolver dois aspectos para o crescimento do Brasil na área:
aprimorar a dramaturgia, que deve buscar o conteúdo que o público brasileiro quer ver, sem que isso implique erroneamente em menor qualidade;
e otimizar as estratégias de produção e distribuição desses conteúdos brasileiros.
A aula foi aberta para debates e, no final, o professor Gilson Schwartz colocou:
pode o Brasil, com sua produção independente nas periferias, equiparar-se à Índia e à Nigéria, que ultrapassam a produção dos Eua?
E Manoel Rangel explanou que a Índia é um mercado específico, em que o forte sempre foi a veiculação audiovisual por o cinema, e com uma proposta diferente, da Índia para a Índia, interrompendo-se as exibições, por exemplo, para a apresentação de uma dança ou um show;
enquanto que, na precariedade da indústria da Nigéria o que aconteceu foi o florescimento de uma indústria de produção de vídeos para consumo local.
Mas " aqui no Brasil, nós temos um grau de consolidação da indústria cultural, de [maneira] que não existe um caminho da margem, eu acho, o caminho da margem é um caminho possível como margem, será margem o tempo inteiro.
O nosso problema é o centro da via principal, o centro da via deve ser ocupado com medidas de fomento, com medidas regulatórias, com medidas de desenvolvimento.
É esse o arranjo que a gente vai procurar fazer».
Coloco a fala de Manoel Rangel acima apenas para ajustar nosso pensamento, pois como não entendo de mercado e finanças, retorno a outro aspecto pontuado na aula como importante para o desenvolvimento do audiovisual brasileiro, e com qual os núcleos independentes podem contribuir:
o diálogo com o público, trazendo conteúdo brasileiro.
Contribuição que deverá ser, penso eu, não de forma oposicional -- «nós podemos falar o que vocês não podem» -- mas de forma dialógica -- «nós temos uma ampla gama de estórias que necessitam ser contadas».
E elas têm forte empatia com o público.
Segundo Gustavo Melo, depois do filminho pronto «descobrimos por aí que esse carro atravessa o Brasil, com o troca-troca de outros objetos» e também eu notei isso assistindo ao curta com moradores do Capão Redondo e Cotia, em São Paulo, e também em Campo Belo, Minas:
o espectador sempre relembra suas travessuras, de quando trocaram a grade do forno da mãe por um pintinho, ou o motor velho da geladeira, ou que os pintinhos sempre morriam.
Com imagens que se alternam em grande-angulares das ruas e becos do Vidigal e primeiros planos das crianças protagonistas, como se dissessem «abram os olhos para essa estória», o curta também opera um jogo simbólico de retirada das garrafas de bebidas do bairro, mas o moço da Kombi sabe que na próxima semana encontrará outras.
Após uma das exibições domésticas que fiz, o filho de um amigo me disse:
«Tio Rinaldo, sabe aqueles chicletes pra parar de fumar, não tem de eles pra parar de beber?"
E eu perguntei:
mas por quê?
E ele:
«pra vocês três».
Em o caso:
a mãe de ele, o pai, e eu.
Assim como " Picolé ..."
que em junho último recebeu no «Festival Visões Periféricas» o prêmio da Associação Brasileira de Documentaristas e curta-metragistas do Rio de Janeiro, «Maria Capacete» também saiu do «3° Festival de Jovens Realizadores de Audiovisual do Mercosul», no mês nove, em Vitória, com o Troféu Caleidoscópio, mais um prêmio em dinheiro por ter sido o preferido do Júri popular.
E segundo Joaquim Eduardo Teixeira, um dos produtores das Oficinas Querô, o curta " ganhou quatro prêmios em cinco festivais em que foi inscrito.
E um ótimo termômetro da receptividade do público em geral, é que logo após a exibição, as pessoas vão atrás de Victor Luiz e Eduardo Bezerra para parabenizá-los, questioná-los e pedir cópias do filme».
Mesclando as falas de Lizete, D. Carmem, Sr. Bolinha e de outros moradores com as de Maria Félix, como se ela os tivesse respondendo (" o quê cês tão cochichando aí, eu não gosto de cochicho, não "), o «Maria Capacete» tem similaridade com várias outras comunidades do Brasil, onde uma pessoa tida como desigual torna-se alvo de chacotas.
Portanto, essa identificação torna a obra também um material de reflexão, sendo esta a diretriz da própria produtora que idealizou o «Oficinas Querô», a Gullane Filmes, que já emplacou os sucessos» O ano em que meus pais saíram de férias», «Carandiru», e» Bicho de sete cabeças», por seguir o desafio de " agregar às suas produções a máxima qualidade artística ...
em filmes que, além do entretenimento, levam ao público reflexões sociais relevantes "
Luciana Bezerra, que já foi premiada com o curta «Mina de Fé (no Festival de Brasília de 2004)», com» Acende a luz " fará parte da aposta de Cacá Diegues na auto-representa ção dos núcleos independentes.
O curta será um dos cinco episódios do longa-metragem «Cinco vezes favela -- agora por eles mesmos», projeto supervisionado por o cineasta, que foi revelado por o» Cinco vezes favela de 1961», um dos clássicos do Cinema Novo.
Segundo ele, em seu blog, " esse interesse por a cultura popular e seus modos de fabricação sempre esteve, em várias ocasiões, presente em nossa cultura oficial, desde a produção erudita do modernismo até a mais recente politização de nossos teatro, literatura, música e cinema.
Mas a novidade é que agora as ' periferias ' não desejam mais serem representadas e pretendem se tornar porta-vozes de elas mesmas."
E diz mais:
«O novo cinema que vai nascer disso será certamente a grande próxima novidade do cinema brasileiro».
Os outros quatro episódios do longa virão da Cidade de Deus, com o apoio da CUFA (Central Única das Favelas);
da Maré, com o Observatório de Favelas;
da Parada de Lucas, com o AfroReggae;
e da Lapa, com o Cinemaneiro.
Uma visão do meu quintal
«Acende a Luz»,» Picolé ..."
e «Maria Capacete» nascem das experiências de vida dos próprios realizadores.
E assim também percebeu Marina Grau, de Buenos Aires, dos curtas que assistiu no «Festival de Jovens Realizadores de Audiovisual do Mercosul», deixando no blog do evento a sua fala registrada:» ...
Todos têm algo para contar e são influenciados pelo meio em que vivem:
família, amigos, o bairro ...».
E vêm pensando nisto os próprios professores dos núcleos, como Luciano Coelho, do Projeto Olho Vivo, de Curitiba (PR), que diz:
«Em o início a gente sentia falta de um referencial teórico, mas com o estímulo de ver como as coisas funcionavam na prática, preservamos o que achamos mais importante:
não desvincular o aprendizado do repertório de vida das próprias pessoas «(em reportagem do tablóide» Kinooikos», destinado à produção dos grupos, no " 18° Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo ").
Perguntei então para Luciana Bezerra se para ela criação e experiência de vida estão ligados.
Ela disse que sim, " mas isso não quer dizer que se tenha sempre de falar do próprio universo.
Acredito que todos os roteiristas ou escritores com talento imaginativo podem desenvolver estórias que tenham vivido ou não».
Fiz a mesma pergunta para Gustavo, que certa vez havia dito que o importante da profissão audiovisual é poder «dar a visão do meu quintal», e ele respondeu:
«vejo e acredito que a experiência de vida precisa ser a sua criação.
Eu acho que o'pulo do gato ' de cada um está nessa descoberta, olhar para a sua rua, para o seu vizinho e para o seu bairro e perguntar para si:
quem sou eu, onde eu me encaixo e como posso usar tudo isso para o bem da minha vida, do meu trabalho ou da nossa produção artística.
Independente do entorno ser pobre ou rico, você precisa pegar aquilo e transformar».
E também questionei Joaquim Eduardo, das «Oficinas Querô», se essa junção, vida e criação, também lá é presente:
«Sim, muito.
Vários dos roteiros elaborados por os jovens acabam surgindo das idéias, acontecimentos e / ou questionamentos da infância.
Os mais recorrentes são os do cotidiano ...
do dia-a-dia das comunidades, da violência etc ...
Nossa função é apenas dar informações, que no caso são as ferramentas para a criação.
Em o primeiro momento, os textos dos jovens carregam muitos ressentimentos com a sociedade, injustiças entre outros, são pesados, mas logo após as primeiras semanas, naturalmente os textos vão mudando e um novo mundo vai descortinando.
Mais alegre ou consciente, na maioria das vezes.
Em o final do módulo de roteiro, os textos são escolhidos de forma democrática por eles para dar continuidade às suas produções.
Mas já na votação, os mais violentos quase não são votados».
Mas com palavras não sei dizer.
Mas e os outros núcleos dos duzentos que se espalham por o Brasil?
Continuarão na margem?
Essa é a preocupação do FEPA, que na sua primeira reunião, em junho, no «Festival de Visões Periféricas», elaborou a Carta da Maré, que reivindicando medidas de apoio aos grupos e de distribuição das produções, foi dirigida ao Ministério da Cultura, e já conquistou junto ao órgão um edital de fomento de produção digital, destinado exclusivamente aos alunos integrantes ou egressos de projetos sociais.
Têm ainda como aliados:
o site «Kinooikos» elaborado por a Associação Cultural Kinoforum como espaço para exibição das obras na internet;
o já citado " Festival de Jovens Realizadores de Audiovisual do Mercosul ";
o Canal Futura, que, de semestre em semestre, recebe turmas de jovens para o projeto «Geração Futura», dando-lhes oportunidade de aprenderem sobre o universo da produção televisiva;
e por aí se vai ...
Porém, encontrei no texto «Acabou a oficina, e agora?»,
do site Kinooikos, a preocupação de Christian Saghaard (coordenador das " Oficinas Kinoforum de Realização Audiovisual ") com a inserção dos alunos no mercado de trabalho.
Diz ele que " Para os jovens participantes de oficinas audiovisuais que decidem continuar o processo de aprendizado e se inserir no mercado profissional audiovisual, muitas vezes a questão da expressão é o maior problema.
A maioria dos jovens que participaram dessas oficinas estudaram em escolas públicas, que muitas vezes não oferecem um ensino de qualidade.
Outros abandonaram os estudos muito antes de completar o ensino médio.
Não é somente para ler e escrever que muitos desses jovens sentem dificuldade, mas também para conseguir uma boa expressão oral, que é de extrema importância nos procedimentos da produção audiovisual».
E Luciana Bezerra, que hoje ministra no «Nós do Morro», em turmas que recebem 120 jovens a cada novo ano, a oficina» Entrega ao olhar cinematográfico», diz que a criação poderia ser melhorada, caso a maioria dos alunos tivesse o hábito da leitura.
Assim, termino sugerindo aos grupos, para o melhor entendimento dos problemas com a escrita e a aquisição do gosto da leitura:
o livro de " Sírio Possenti:
«Porque (não) ensinar gramática na escola», que diz, em certa altura, que nenhum escritor escreve um texto pensando em gramáticas, e sim em outros textos;
também o «Gramática da fantasia», do italiano Gianni Rodari, em que o autor propõe e analisa modos de inventar estórias;
e, finalmente, «A norma oculta», de Marcos Bagno, do qual trago abaixo um trecho, por ser revelador e conciso:
«O conhecimento eficaz do ' bom português ` não vai garantir que um indivíduo deixe de ser discriminado por outros critérios de avaliação, que compõem uma ' gramática normativa não escrita ':
a cor da pele, o sexo ou a orientação sexual (assumida ou presumida), o modo de se vestir, a compleição física, a procedência geográfica (explicitada ou suposta), a zona de residência, a opção religiosa, a impostação de voz em sua correlação com os papéis sociais atribuídos aos gêneros masculino e feminino (ao homem cabe falar ' grosso ` e impositivamente;
à mulher, ser delicada e condescendente), os sinais exteriores de filiação do falante a conjuntos de atitudes não convencionais (e, portanto, não ' cultos ': muitos brincos na orelha, barba comprida, piercings, tatuagens, cabeça raspada, cabelos e / ou unhas pintadas de cores ' extravagantes ' etc.), o ter ou não ter automóvel (e a marca do automóvel), entre tantas outras coisas ..."
«Conhecer a ' norma culta ' não poupará o / a falante de ser avaliado / a também (e às vezes até principalmente) por essa grade de critérios quando ele / ela se encontrar em situação de assimetria de poder social, cultural e econômico."
Número de frases: 126
E " A própria negação do preconceito lingüístico -- que qualquer criança pobre sente na pele e na alma ao abrir a boca numa sala de aula -- é a prova mais do que eloqüente de que, para tais pessoas, as coisas têm de ficar mesmo como estão."
Em o carnaval, Orfeu, condutor de bonde e sambista que mora no morro, apaixona-se por Eurídice, uma jovem do interior que vem para o Rio de Janeiro.
Ela está fugindo de um estranho fantasiado de Morte.
Como no drama grego, o amor dos dois desperta o ciúme de Mira, ex-noiva de Orfeu.
A peça estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 25 de setembro de 1956.
O primeiro ato da peça surge em 1940 em Niterói, na casa de Carlos Leão:
o poeta estava lendo um livro sobre Orfeu e começa a escutar a batucada que vem do Morro do Galeão.
Tem a idéia de um Orfeu sambista de grande beleza interior, em busca de sua Eurídice, desejado por as mulheres e invejado por os homens.
O segundo ato só foi escrito em Los Angeles, seis anos depois.
O terceiro ato perdera-se num viagem de volta ao Brasil, foi reescrito em 1953, com o apoio do poeta João Cabral de Mello Neto.
A peça foi premiada no concurso de IV Centenário do Estado de São Paulo e o texto foi publicado na Revista Anhembi.
Em 1956, Orfeu da conceição é montada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com elenco predominantemente de negros.
Seria na estréia um acontecimento:
a primeira vez que um negro pisava no palco do Teatro Municipal.
Orfeu era interpretado por Haroldo Costa;
Eurídice era Dirce Paiva;
Léa Garcia fazia Mira e Cyro Monteiro era Apolo.
Os cenários foram de Oscar Niemeyer.
Lúcio Rangel e Haroldo Barbosa apresentaram Tom Jobim a Vinícius, dando início à fértil parceria entre os dois.
As músicas da peça eram Se todos fossem iguais a você, Lamento no Morro, Um Nome de Mulher, Mulher sempre Mulher, Eu e o meu Amor e a valsa Eurídice, feita em Paris, em 1953 para a filha Suzana.
O texto de Vinícius de Moraes chega ao cinema com o filme Orfeu do Carnaval, uma produção franco-ítalo brasileira de 1958.
O produtor do filme, Sacha Gordine, exige que a partitura original da peça inclua canções inéditas.
Surgem O nosso Amor, de Tom;
Felicidade, de Vinícius e Tom;
Manhã de Carnaval, de Luís Bonfá; Samba de Orfeu, de Bonfá e Antônio Maria.
A direção do francês Marcel Camus conquista a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1959 e o Oscar daquele ano como melhor filme estrangeiro.
Em o filme de Cacá Diégues, o título é só Orfeu.
«Baseado na peça Orfeu da Conceição de Vinícius de Moraes, mantém pontos de aproximação e distanciamento, que está muito mais próximo da ordem do diálogo do que de uma lei de pura e simples repetição, se é que isto é possível», no dizer de Carlos Bernardi.
Para Bernardi, Orfeu de Cacá Diégues não é mera passagem do drama teatral para o cinema:
«Nada obriga o casal grego, uma vez consolidada a mudança para um morro do Rio de Janeiro, na década de 1950, a permanecer no mesmo morro, mesmo porque os morros já não são mais os mesmos.
Podemos falar de Orfeu sem mencionarmos suas outras encarnações na grécia antiga e na peça de Vinicius.
Cada encarnação, ao mesmo tempo, respeita as diferentes formas e significados históricos do amar e do sofrer, revelando a especificidade e singularidade do contexto em questão e, igualmente, algo da condição humana que é atravessada por o desumano».
Em 1983, a GRES Estácio de Sá faz de Orfeu, de Djalma Branco e Caruso, o samba-enredo campeão do Carnaval, na voz de Fernando do " Peter Thomaz "
Em o verso apaixonado de Orfeu
Reina uma mulher somente sua
Por este amor maior que o envolveu
Enlouqueceu e vagou por a rua
Em o amor ferido de Aristeu
E o feitiço de Mira
A amante abandonada
A dama negra a ele apareceu
Levando para sempre a sua amada
O morro emudeceu
Explode a dor no peito de Orfeu
E o poeta apaixonado
Canta ao céu desesperado
O grande amor que perdeu (
Oh! Lua)
Lua, oh!
Lua Musa amada, branca e nua (bis)
Quero lhe beijar e lhe dizer:
Sou seu
E você dizer sou toda sua
Desceu do morro
Enfeitou sua tristeza
Fez seu reino de beleza
De as mágoas do seu coração
E este menestrel moderno
Procura até no inferno
A voz de sua razão (
e vai)
Vai aos orixás do Candomblé
Demonstrando sua fé (bis)
Cai na orgia
Porém nada mas fascina
A o Pierrô sem Colombina
Em a sua alucinação
Morreu Orfeu
Vencido por o mal (bis)
Mas há sempre
Um Orfeu no Carnaval
Marcus Vinicius de Melo Moraes nasceu em 19 de outubro de 1913 no Rio de Janeiro.
Estudou direito no Rio e Literatura em Oxford.
Ingressou na carreira diplomática em 1943, carreira que acabaria trocando por a de músico profissional, tornando-se expoente da Bossa Nova.
Poeta, foi destacado letrista.
Suas parcerias com Tom Jobim, Baden Powell e Carlos Lyra são emblemáticas daquele movimento musical, clássicos da música popular brasileira.
Em os anos 60, compôs os versos para canções como Chega de Saudade, Insensatez e Ela é Carioca, parcerias com Tom Jobim, Samba em Prelúdio e Canto de Ossanha, com Baden Powell, e Você e Eu, com Carlos Lyra, entre outros sucessos.
A partir de 70, Vinícius iniciou a parceria com o violonista Toquinho, com quem compôs Tarde em Itapoã, Regra Três e Como é Duro Trabalhar.
Como escritor, lançou diversos livros de poemas:
O Caminho para a Distância (1933), Forma e Exegese (1935), Ariana, a Mulher (1936), Cinco Elegias (1943), Poemas, Sonetos e Baladas (1946), Para Viver um Grande Amor-Prosa e Poesia (1965), e Para uma menina com uma flor (1966), em prosa.
Vinícius morreu aos 66 anos, no dia 9 de julho de 1980, em sua casa, no Rio de Janeiro.
A editora Cia. das Letras editou a biografia Vinicius de Morais, O Poeta da Paixão de José Castello.
Número de frases: 82
http://www.tanto.com.br/viniciusde-morais.htm Uma figura esse Pablo Capilé!
Atrevido, impetuoso, estrategista, pensa o tempo inteiro, irrequieto, agitado, magrelo, polêmico, não teme pagar mico, odiado por muitos, ele incomoda muita gente, mas parece não estar nem aí.
O cara é obcecado, um workaholic, entre nós:
viciado em trabalho.
O cara não pára, já saimos na porrada muitas vezes.
Em o bom sentido, é claro.
Com nossas verves impetuosas.
Nossos gritos de angústia.
Por a vontade de fazer uma porrada de coisas diante da inércia insana que paralisa o mundo.
Conversamos sobre várias coisas, como a cena musical alternativa, Festival Calango, mercado, bandas matogrossenses, perspectivas do Espaço Cubo, um instituto cultural que vem mexendo com as estruturas do Mato Grosso.
Ah! Falamos também de algumas picuinhas locais, que, pelo visto, acontecem em todo lugar.
Acho legal expor essas coisas, sem papas na língua, sem meias palavras, para acabar com as hipocrisias que fazem muito mal ao mundo.
Como está o Espaço Cubo hoje, como está configurado?
O Espaço Cubo, além de estar trabalhando numa parceria com a Central Única das Favelas (CUFA-Cuiabá), que está dentro do nosso espaço físico também, está incorporando um núcleo de planejamento que é o Empório da Notícia, que foi uma empresa de assessoria de imprensa e que agora está se reciclando e se transformando em núcleo de planejamento do Espaço Cubo.
Então, nessa sede aqui da Presidente Marques, a gente vai ter o administrativo financeiro e os trabalhos ligados principalmente à música.
São os três pilares do Cubo Mágico, o Estúdio Cubo de Ensaio, Cubo Eventos e o Estúdio Cubo de Gravação que são os captadores de recursos da demanda que foi criada dentro da música.
Essa demanda tem uma frente de trabalho que é um grupo de apoio à música, a Volume, que é a nossa frente de ação política que organiza a Semana da Música, que participa dos fóruns de música, que discute política pública, que pensa em qualificação, que pensa em profissionalização.
Então, a Volume vem dentro dessa perspectiva, e essas três frentes de mercado que estão dentro do Cubo Mágico, captam recursos para investir principalmente na Volume.
E agora com esse novo núcleo de planejamento a gente está pensando no quê?
Como a gente já tem um segmento praticamente consolidado, já existe uma demanda, o que precisa mais a gente conseguir é efetivar o nosso administrativo-financeiro.
E o Cubo Card, está pegando?
Tá pegando!
O Cubo Card hoje é a grande sacada da parada, porque ele tem duas grandes perspectivas:
ele tem a perspectiva de inserir os novos quadros, que o cara que está começando não tem muita experiência, mas ele quer estar vivendo essa movimentação alternativa, e ele precisa receber alguma coisa também.
Então, ele começa a receber o Cubo Card antes de receber o salário, porque hoje a gente conseguiu um avanço de conseguir pagar um salário, hoje esses doze que formam nosso núcleo duro, recebem trezentos reais por mês.
Em a prática de vocês, se você tem uma função mais destacada, você iguala o salário?
Você iguala!
Acaba que não é nenhuma função mais destacada, você consegue fazer com que essas prestações de serviço tenham o mesmo valor e o mesmo peso dentro da estrutura.
A idéia é todo mundo conseguir receber o que é necessário pra você poder dormir, comer, tomar banho e se vestir.
E o Cubo Card gera emprego.
Em o momento em que ele consegue fazer com que o cara assine um contratinho com o número «x» de Cubo Cards mensais, isso vai ser trocado por horas de trabalho de ele, isso já vai estar gerando emprego.
O cara pega a tabela de valores, e ele usa aqueles créditos em cima da tabela de valores.
Então o nosso administrativo-financeiro tem um valor «x» por mês que ele pode utilizar, se o cara fizer um pré-agendamento do Cubo Card e não tiver estourado o valor «x», porque senão a gente quebra a banca, ele pode usar naquele mês.
Então você já tem uma conta no Cubo Card?
Tem dinheiro pra fazer funcionar hoje ou está sendo uma troca de serviços?
O número de Cubo Cards que a gente tem hoje é o número do nosso patrimônio.
A gente tem cinquenta mil em patrimônio, então a gente tem cinquenta mil Cubos Cards rodando.
Em capital, isso?
Não, em prestação de serviços!
Você cria prestações de serviço, você cria estruturas.
E quando você cria aquela prestação de serviço, você tem um valor para aquela prestação de serviço, então você pode aumentar o seu caixa de Cubo Card. Por exemplo, a gente incorpora o Empório da Notícia, a gente entra com cinco novas máquinas, com três novas impressoras, com novo scanner, você aumenta dez mil Cubo Cards na história porque você aumentou o seu patrimônio, então o Cubo Card acaba sendo proporcional ao patrimônio que você tem.
E se você vende um serviço aqui de três mil reais, como que esse dinheiro é convertido em Cubo Card?
Ele entra para o administrativo-financeiro, e o administrativo-financeiro tem que subsidiar as contas das estruturas que a gente tem.
Então no momento que aqueles três mil entraram aqui, e você pagou sua conta de luz, vocês pagou a conta de telefone, você pagou os trezentos reais de cada um, você manteve a condição do nosso caixa de Cubo Card não diminuir, porque se você não consegue pagar as contas, algum patrimônio você vai perder.
Porque você tem que vender, e você perde aquilo ali e acaba acontecendo que você tem que diminuir o número de Cubo Card, e diminuindo o número de Cubo Card, você diminui a prestação de serviço e oxigena menos mercado.
E onde a gente tá chegando?
Por exemplo, a gente tem cinco pessoas que moram sozinhas e que estão dentro do núcleo, então nós já estamos com um roteiro de onde os voluntários e a galera do núcleo duro pode tomar banho, pode dormir, etc..
Pode alugar dvds, porque tem crédito que pegamos como patrocínio dos shows, pizzaria, bares, restaurantes, hotéis, etc..
E tudo isso está envolvido dentro do Cubo Card.
E com o poder público também já está funcionando legal, principalmente com o Mário Olímpio, secretário de Cultura de Cuiabá, que é um cara que tem uma leitura legal.
Ele já assimilou o Cubo Card. Como ele disse:
«Velho eu não vou mais dar grana pra vocês, eu vou comprar os Cubo Cards, porque eu pego três mil reais e libero pra vocês.
Em vez de eu só liberar pra vocês, eu pego os Cubo Cards, porque dá próxima vez eu não preciso pagar o cachê do Vanguart.
Essa é a contrapartida do Cubo Card, porque quando eu quiser um show do Vanguart, eu pego e invisto o Cubo Card no show do Vanguart."
E você transfere esse valor do show do Vanguart que ele paga em Cubo Card para quem?
Uma parte de ele vai para o Vanguart?
Não vai para o Vanguart porque o Vanguart já recebe outras prestações de serviço, porque o Vanguart grava de graça, etc, e no momento em que eles gravam de graça eles depositaram o crédito de eles naquele nosso fundo onde eu vou vender o show de eles e vou trocar.
Em a verdade ele não gravou de graça, é uma troca, ele pagou em Cubo Card. Pra gravar o CD de eles como a gente gravou, teve que ser uns quinze shows, e nesses quinze shows a gente faz o que a gente quiser com esses quinze shows, se um dos caras que estão recebendo o Cubo Card quiser vender um show do Vanguart, ele tem um daqueles quinze shows pra vender.
Como está rolando no Calango:
como a gente não paga cachê, todas as bandas estão recebendo em Cubo Card. E dentro da cidade do rock esse ano, vai ter o cardzinho, então o cara com esse card vai poder comer, vai poder beber, vai poder alugar um quarto se ele quiser concentrar os Cubo Cards ele vai poder tentar juntar os Cubo Cards da banda toda e pagar uma passagem de avião caso um tenha que vir de avião, ele pode alugar um quarto duplo, ele pode vim aqui ensaiar antes do show de ele e pagar no Cubo Card, ou ele pode querer fica mais três dias aqui e gravar umas faixas e investir Cubo Card nas faixas que ele gravar.
Vamos falar do Calango, o Calango é um evento consagrado aí já, em poucas edições e já conseguiu um espaço fantástico no País inclusive, já é visto, já é notado, já é referência também.
E aí, e o Calango?
O Calango é nossa grande força motriz, eu digo nem nossa, eu acho que grande força motriz desse mercado alternativo que existe aqui em Mato Grosso porque é a ação que mais consegue fazer gerar emprego, que gera renda, que mais movimenta grana e que mais envolve aquelas pessoas que estão diretamente ligadas a essa movimentação.
O Calango esse ano vem principalmente para conseguir manter o que foi no ano passado, que foi um puta de um festival.
A gente trabalhou para conseguir fazer o que a gente não conseguiu fazer no ano passado mas não pensando em aumentar demais, só pegar algumas coisas que a gente iniciou, na verdade potencializar os embriões que foram plantados ano passado.
Por exemplo, em 2005 a gente transformou o Calango, na parceria com A Fábrika e com a Samba de All Stars, num festival de artes integradas, só que ali a gente plantou um embrião, e esse embrião ainda estava muito pautado na estrutura dos três organizadores.
Em aquele momento, como a gente estava começando ainda, não tinha idéia de como podíamos montar subnúcleos.
Tipo, como fazer com que essas artes integradas caminhassem de forma independente?
A gente se baseou bastante no que a gente já tinha ali dentro.
Esse ano a gente montou núcleos específicos, mesmo não tendo o edital ainda, que era um dos nossos planos no ano passado, ter um edital específico para as pessoas, por exemplo, o cara das artes plásticas que quiser trabalhar dentro do Calango ele vai ter lá o valor «x» e ele apresenta esse projeto junto com um projeto que vai para a secretaria estadual, e na hora que aprova já é aprovado diretamente aquele editalzinho de cada uma das frentes.
A gente ainda não conseguiu fazer esse edital mas já abriu um edital informal.
Algumas pessoas envolvidas com literatura, artes plásticas, artes cênicas, música e audiovisual já apresentaram projetos, e alguns desses projetos foram aprovados, outros cortados porque a gente ainda não tem dotação orçamentária pra fazer vários projetos muito bacanas dentro de cada um dos segmentos.
Como é que anda a procura de bandas matogrossenses disputando o acesso ao Calango?
A gente não conseguiu ter um avanço do ano passado pra cá.
As bandas já estabelecidas, elas se estabeleceram ainda mais, só que a gente não teve o aumento do ano passado.
Pode-se falar num retrocesso?
Não, não um retrocesso.
Quem tava no meio termo, se solidificou, o Fuzzly, o Revoltz, o Caximir que continua aí até hoje, o High School que acabou agora, não curto o som dos caras, mas assim, era uma banda redondinha, o Macaco Bong que é uma banda foda.
E tem um monte de banda seguindo Fuzzly, porque Fuzzly é uma banda foda.
O The Melt tá se posicionando melhor, mais presença, tocando legal.
Só que eu acho o seguinte, para os três últimos Calangos, a gente ainda estava naquele conflito da identidade, de que bandas vão participar?».
Mas o último não, o último a gente resolveu esse conflito e as bandas alternativas foram que participaram.
Mas ainda tinha Strauss ali, nada contra Strauss, mas ao mesmo tempo que não é nada contra Strauss, é tudo contra Strauss, porque tem menos tempo de estrada que o Caximir, por exemplo, mas o Caximir tá sempre ali junto, A Fábrika tá ali, tá pensando na parada, taí o Overmundo, e se tem uma banda que não tinha muito a ver com o perfil do festival no ano passado foi Strauss.
Nem falo por o Contingente Imigrante, porque Contingente Imigrante foi classificado nas prévias, então se classificou nas prévias é outra história, é democrático!
E independente da banda ser ruim, no meu ponto de vista a banda tem que ter músicas autorais.
De o ano passado pra cá o Espaço Cubo precisou concentrar no seu administrativo-financeiro, porque senão corria o risco de perder mais três anos, demora pra se recuperar, isso causa o retrocesso.
Então o que aconteceu no meu ponto de vista da cena:
ao mesmo tempo que vieram mais produtores, nessa lacuna, vieram vários agentes.
Só que esses agentes acabaram estabelecendo ações bem menores.
Em os quatro primeiros anos do Cubo, a gente metia um show atrás do outro, o público aumentou pra caramba, em tudo que é show dava 700 pessoas, banda pipocando no Calango ano passado.
Mas do Calango do ano passado pra cá, a gente resolveu pagar conta, já fizemos quatro anos de difusão e fomento, e tá na hora da gente pagar todas as contas que a gente fez.
«Vamos pagar as contas, vamos arrumar a casa» e nesse vamos arrumar a casa, surgiu a Amostra Grátis, surgiu a Ascum, veio o Espaço das Tribus, veio o Cachorrão, mas eles não conseguiram lincar essas ações, para potencializar realmente o surgimento de novas bandas e o aumento de público, porque eles não conseguiram perceber que eles tinham que se alinhar estrategicamente, que existia uma clara diferença de conteúdo programático entre o Espaço Cubo e essas outras frentes.
Pra mim não existia uma «treta» é conteúdo programático, é diferença de meta.
Vamos falar dessa «treta» aí, sem medo de falar, vamos falar de «picuinha» mesmo, picuinha local, por exemplo.
A gente está aí conseguindo inserções nacionais importantes e sempre caímos aqui nessa questão ...
Para mim, tem dois níveis do que a galera não entende:
picuinha local pra mim é ir lá no Orkut colocar uma foto minha abraçado com o Bush, isso é picuinha local;
mas conteúdo programático dentro de uma discussão é eu arrebentar de «tretar» com o Eduardo Ferreira a minha vida inteira, desde que eu comecei na fita eu tô brigando com o Eduardo Ferreira, a gente briga e desbriga, briga e desbriga, mas com a consciência clara que a gente briga por divergência de método, a gente se ameaça até de sair na porrada, mas o pensamento principal é isso, isso e isso!
E conteúdo programático é uma discussão que eu tenho muito aqui dentro do Cubo, porque uma coisa que a galera tem muita dificuldade de entender em relação ao Cubo é que o Cubo quer uniformizar a coisa toda, até os caras quando estão dentro da parada vêm com esses argumentos de " mas você não está querendo uniformizar?"
Só que, na minha leitura, é que existe uma diferença muito grande naquela discussão do «cada um é cada um» e na discussão da «leitura política», no momento em que você tem uma leitura política sobre determinadas coisas.
Em o meu ponto de vista não cabe o «cada um é cada um», o cada um é um lado pessoal, que não cabe eu saber o seu, e nem o Eduardo saber o meu.
Um lado pessoal que é de vocês e é meu, mas no momento que transpõe pra um lance público, a gente está debatendo política, a gente fala de trabalho, de ação!
Então, se eu não concordo com você, eu vou para o «pau» com você, não é porque você é diferente de mim que eu vou respeitar o que você é, eu vou contestar politicamente até onde eu acho que eu devo, porque a gente só avança se batendo!
O avanço, ele vem dessa contestação, dessa dialética, desse processo de «vamos tentar entender», então eu acho que o que faltou para a galera era eles entenderem que eles formavam um grupo político, o Cachorrão, com a Ascum, com o Espaço das Tribus, com a galerinha que montou o Amostra Grátis, assim eles formavam um grupo político, eles não souberam se unir como um grupo político porque eles acabaram de tornando autofágicos, eles foram se destruindo, assim acabou.
O Cachorrão já «tretou» com meio mundo por causa de umas picuinhas nada a ver.
O Espaço das Tribus não sai daquele «copia e cola».
A Ascum não caminha, todo mundo que era pra ter se unido num método diferente do Espaço Cubo acabou que não conseguiu preencher essa lacuna que o Cubo deixou esse ano.
Então pra mim não é um retrocesso, e isso tudo que eu falei é para explicar porque nesse ano não triplicou o número de bandas em relação ao ano passado, porque nós demos um freio de mão!
A gente pensou «velho, já tem gente produzindo no local, vamos articular um nacional, vamos difundir isso nacionalmente».
Não é à toa que os reflexos disso são claros, hoje nós temos bandas rodando o Brasil inteiro, hoje nós somos a cabeça da ABRAFIM, hoje no Circuito Fora do Eixo a galera toda respeita a gente pra caramba.
Gurizada sendo chamada pra debate, para a palestra, pra festivais no país inteiro, pra participar de seminários, então a gente conseguiu mostrar que na cena cuiabana existe um nível de organização e de tecnologia «fodíssimo».
Só que a própria cena cuiabana não conseguiu dar continuidade, não conseguiu dar a continuidade que deveria ter dado naquele processo de impulso que rolou nos quatro anos.
Mas dez trabalhos hoje consolidados em Cuiabá e saindo, já vai dar um caldo ...
É, hoje eu vejo umas oito bandas que ...
assim, o que aconteceu diferente na curadoria, na curadoria do ano passado a gente chamou aqueles grupos envolvidos, «e aí, vamos discutir?»,
esse ano ficou mais fácil, porque a maioria vai se inscrever nas prévias e quem já está dentro, já sabe que está dentro!
Quem está dentro, é Caximir, é Venial, que se destacou bastante nesse processo aí, podia ser Carrascos, Gorempire, mas os caras não querem, convidei, mas eles não querem.
Revoltz, Fuzzly, Vanguart, Macaco Bong, a gente já tem mais ou menos claro quais as bandas que teriam condição ...
E o pessoal de fora?
Vem o Astronautas, que é uma banda de Pernambuco, vem o Superguidis de Porto Alegre, vem o Sinestesia de Tocantins, vem o Coveiros de Rondônia ...
A gente vai valorizar muito o Circuito Fora do Eixo, vem bandas de dezesseis estados diferentes, vem muita banda boa, cara!
Vem o Porcas Borboletas de Uberlândia que é uma banda muito bacana, de Goiânia vem o Sangue Seco ...
De Mato Grosso do Sul, não vem nada?
De Mato Grosso do Sul nenhuma banda mandou material, não nos procura, eu não sei o que acontece.
Cara! Eu tenho uma leitura hoje, que é o seguinte:
eu acho que o Waguinho [produtor cultural de Campo Grande que morou, durante o ano de 2005, em Cuiabá.
Produziu alguns shows na cidade e abriu uma loja com produtos dirigidos ao público roqueiro, mas desistiu e voltou para Campão] atrapalha a movimentação, eu acreditava que ele era o cara, mas hoje eu já acho que ele atrapalha!
Ele é um cara que centralizou muito em ele a coisa toda ali, é pouquíssimo estratégico, pouco ágil, então acabou que viciou o pensamento da cena naqueles pouco contatos que ele tem.
Eu acho que ele é até um cara bem intencionado, só que ele acaba por ser um cara só, não sabendo abrir pra novas pessoas que possam fazer daquela cena uma cena forte, porque eles têm condições de serem muito maiores que a gente!
Como que Cuiabá consegue dar um banho em Campo Grande?!
Você não vê banda tocando em Campo Grande, não vê festival em Campo Grande, e lá eles curtem muito mais que a gente, a galera que organiza é tudo rock ' n ' roll, curte a parada!
O público curte mais que o nosso ainda, é um público mais «indie» ...
e eu queria trazer talvez o Dimitri Bells, mas não é uma banda que representaria Campo Grande.
E voltando a falar do Calango, vai rolar o Plasticalango, onde a gente vai pensar em artes plásticas na visão do artista de rua, do grafiteiro, do cara que faz o extênsil.
Pensar em artes plásticas nessas perspectivas, que não é o Clóvis Hirigaray, que não é o Adir Sodré, pra também conquistar um espaço pra essa nova cara que seria a das artes plásticas.
E no Calango in Vídeo, é a gurizada que já vinha trabalhando com a próxima cena ali, mas junto com a galera da CUFA com comunidade no cinema, trazendo o Felha que é um cara da CUFA do Rio pra estabelecer alguns debates desse sentido.
Por fim tem o Comunicalango que é um pensamento que agora estamos questionando:
como que a gente vai conquistar a mídia?
Em a verdade a gente já vem discutindo há um tempo, por que as pautas de cultura são como merda para os editores?
Por que a gente ainda não conseguiu vender compromisso?
Você não consegue vender, você não consegue ter um núcleo estratégico vendendo para os caras.
Número de frases: 141
Os caras são insensíveis ...
Em a era da informação veloz, as idéias criativas são tão importantes para a economia quanto para o capital ou para os recursos naturais.
As pessoas prosperam ao transformar idéias e emoções em produtos como sites da Internet, softwares ou livros.
O indivíduo criativo é aquele que constantemente se renova, vencendo obstáculos e superando barreiras.
Para Barron, o indivíduo realmente criativo está sempre pronto para abandonar antigas classificações e buscar novas possibilidades.
A pesquisa de Mackinnon, com escritores, arquitetos, engenheiros, matemáticos, médicos, cientistas e físicos, chegou à conclusão que os indivíduos criativos, a fim de resolverem os conflitos pessoais, foram levados desde cedo a estruturar o próprio ego e criar defesas por as atividades criativas.
Para se compreender uma expressão de criatividade recorre-se a diversos modelos de referenciais e informações.
Observamos, então, que há os códigos utilizados por o artista e os códigos utilizados por o espectador.
Os artistas só são criativos à medida que ousam inovar.
Suas inovações podem se distinguir em dois aspectos.
O mais evidente relaciona-se com as inovações técnicas e o mais sutil com as visões mais inovadoras.
É com o segundo aspecto que Joseph Campbell pretende relacionar a realidade com o metafórico, pois a percepção a que o artista e o místico estão expostos é a mesma.
É a realidade da própria verdade do artista levada ao consciente através do místico, sendo decodificada nas diversas formas de expressão da arte.
O fato da natureza do artista e a natureza do universo serem aspectos da mesma realidade, explica suficientemente a integração criativa da descoberta e do reconhecimento que alerta o artista para a possibilidade de composição reveladora na qual a realidade interior e exterior podem ser vistas como a mesma coisa.
A ordem do universo e a ordem do indivíduo são equivalentes.
A arte como um todo nos apresenta um espectro amplo de conhecimento, propondo recursos que seduzem a inteligência, pois as expressões criativas estão além de tudo que se rotula como cultura.
Partindo-se deste pressuposto de que a arte é um meio de expressão do conhecimento criamos um conflito com o conceito moderno de arte, onde esta deixa de ser um saber específico para ser um divertimento ou um acessório social.
Diante disso, a arte de nossos dias passou a ser um deslumbramento por o imediato, a obsessão por o novo ou o consumismo descartável como modo de vida.
O inconsciente moderno presente na arte contemporânea implora por o novo, não por o «novo» no sentido de original, no sentido rápido e descartável.
A expressão criativa passou a ser uma mera diversão, deixando para o segundo plano a parceria com o conhecimento.
Paradoxalmente, a arte contemporânea limitou sua expressão ligada ao saber.
O artista não precisa dominar o conhecimento, mas precisa estar ligado a um bom patrocinador ou um organizador de eventos ou um simplesmente um captador de recursos.
As grandes edições literárias e as grandes exposições nada mais são do que empreendimentos que visam atender a indústria do entretenimento.
O raciocínio apresentado nos parágrafos anteriores pode parecer sombrio, mas nós escolhemos nossos caminhos e não seremos simplesmente devorados por a cultura do «fast food».
É difícil aprender a ser constantemente criativo?
A adversidade abre a possibilidade para o aumento da percepção de novas situações.
A personalidade criativa passa, então, a ser mais receptiva às informações, aceitando o risco de errar com segurança.
Em outras palavras:
o adverso é um terreno fértil para semearmos nossas expressões de criatividade.
Segundo C. Rogers, a criatividade motiva o indivíduo a exprimir suas potencialidades nos mais diversos campos, seja por a intuição ou, num sentido mais amplo, por a auto-realiza ção, que reforça sua capacidade de efetuar modificações ou adquirir novas aprendizagens.
Em «Psicologia da Criatividade», Maria Helena Novaes refere-se a diversos autores que realizaram estudos sobre os traços da personalidade criativa, de entre os quais eu destacaria os seguintes itens:
a inteligência, a percepção, a flexibilidade de pensamento, originalidade, a persistência, a curiosidade intelectual, a autoconfiança, a capacidade de renovação, dar expressão à experiência interna, a persistência, a capacidade de elaboração e avaliação de idéias originais, a independência de pensamentos, a aceitação de si mesmo, a capacidade de imaginação, a engenhosidade e o espírito de humor.
Vale ressaltar que o indivíduo que busca a criatividade em si deve estar pronto para abandonar o convencional e escolher novos caminhos.
Partindo desta afirmação, devemos procurar o elemento inicial para trilhar o interesse por o novo:
a autoconsciência.
A consciência dos seus próprios sentimentos e atitudes, assim como a percepção que os outros tem de você, podem influenciar de tal forma, que eles funcionam em seu beneficio.
Em outras palavras, a autoconsciência pode ser ampliada, utilizando informações ao seu respeito, vindas da própria reflexão, além da colaboração das pessoas do seu convívio, pois a comunicação estabelece vínculos e o vínculo forja um relacionamento satisfatório.
A ampliação da autoconsciência torna-se possível ao entrar em contato com seus sentimentos, emoções, pensamentos, interpretações dos acontecimentos referentes à sua vida e a identificação de suas intenções.
Para ampliar a consciência dos seus atos, procure observar suas atitudes e os impactos causados por elas.
As emoções oferecem os motivos que nos levam a tomar determinadas atitudes e, sufocá-las, privamo-nos das referidas informações.
Reprimi-las não vai afastá-las e pode permitir que estas cresçam despercebidas no caso da raiva.
Controlar as emoções significa compreendê-las e usar essa compreensão para modificar as situações em seu beneficio.
Devemos analisar os pensamentos automáticos que explodem espontaneamente, pois não existe, nessas expressões, qualquer tipo de autocensura.
Esses pensamentos podem ser irracionais ou levar a um raciocínio distorcido que modificam sua percepção da realidade.
Aprendendo a evitar o raciocínio distorcido, você terá melhores condições de conseguir maior domínio sobre seu pensamento e de controlar suas emoções.
As avaliações dos seus pensamentos automáticos podem ser feitas ao se evitar as impressões equivocadas conseqüentes de um raciocínio distorcido, mas recorrendo ao significado que este lhe trará.
Evite pensamentos destrutivos, não se antecipe às intenções alheias, nem estipule as regras de como as outras pessoas devem agir para atenderem à sua expectativa e não superestime um acontecimento.
Isso se dará através de uma reflexão consciente dos seus pensamentos.
Em a medida que nós recuamos diante de qualquer tipo de experiência emocional, nós inibimos nossas habilidades criadoras.
Contrariamente ao que muitos de nós acreditamos, o desenvolvimento da habilidade criadora não é mero processo mental.
Em a verdade, o intelecto tem muito menos a ver com ela do que possa parecer à primeira vista, apesar do fato de haver a necessidade certa destreza técnica para dar continuidade ao processo criativo.
O elemento que se soma aos pensamentos automáticos é a intuição.
O fluxo intuitivo funciona de forma plena quando encontramos o equilíbrio emocional.
Portanto, a capacidade intuitiva depende do desenvolvimento emocional do individuo.
Quando nos expomos com nossos pensamentos e idéias sem nos concentrarmos no desenvolvimento emocional, nós corremos o risco de bloquear o fluxo intuitivo.
Isso ocorre, pois tememos que nossas idéias sejam rejeitadas ou consideradas descabidas, dando-nos a sensação de vulnerabilidade.
De a mesma forma sentem-se àqueles que nos apresentam suas idéias, por isso deve-se usar a sensibilidade na resposta, apoiando e incentivando a continuarem trazendo idéias novas.
A o adquirirmos equilíbrio emocional, percebemos que a aparente adversidade pode nos abrir a possibilidade para o aumento da percepção diante de novas situações.
A personalidade criativa passa, então, a ser mais receptiva às informações, aceitando o risco de errar com segurança.
Em o ambiente de trabalho, procure receber a crítica como uma ampliação da consciência de suas atitudes e dos trabalhos a serem realizados, pois aquilo que pode não ter sido percebido por você, será mais fácil de ser encontrando ao dividi-lo com outros.
A busca por uma ajuda externa é uma forma de se constituir a auto motivação, pois nada pode ser mais desmotivante do que enfrentar uma situação sozinho.
Sendo assim, procure formar um grupo de relacionamento reciprocamente motivador, chamado por Hendrie Weisinger, autor de Inteligência Emocional no Trabalho, de «Time de Ouro».
Você pode escolher entre seus amigos, familiares e companheiros de trabalho utilizando os seguintes critérios:
o que desejadeles, saber como obter uma motivação necessária mantendo o melhor relacionamento possível e saber retribuir a motivação, pois sem reciprocidade, o relacionamento não iria durar muito.
Adquirida a automotivação, recorremos à ampliação da criatividade propriamente dita.
Como mencionamos anteriormente, nós utilizamos, nesses casos, à técnica para dar continuidade ao processo criativo.
Nós chamamos essa técnica de «BRAINSTORM», que é usada para se encontrar um número considerável de opções, pois estas oferecerão melhores chances para se encontrar a solução mais eficaz.
O objetivo do «brainstorm» é fazer com que se exprima as idéias à medida que elas ocorram.
A o traduzirmos literalmente «brainstorm» para «tempestade cerebral», percebemos os sentidos mais amplos desta expressão, nos dando a impressão de que este método deixa fluir uma torrente de idéias sem autocensura, desbloqueando do medo excessivo do absurdo para se atingir as soluções originais.
Inicialmente transcreva os pensamentos assim que eles ocorram e não se prenda ao julgamento dos méritos de cada idéia.
Incentive o pensamento livre sem nenhum tipo de censura.
Mesmo que as idéias pareçam desconexas deixam o caminho aberto para todo tipo de solução criativa, além de ser mais fácil estas idéias trazerem algo inovador do que se partíssemos de um ponto medíocre.
A o dar espaço para um número ilimitado de idéias, pois quanto mais idéia propuser, mais idéias novas provavelmente virão.
Por fim use as idéias como catalisadores para outras idéias, combine-as, desenvolva-as e procure idéias opostas, de forma a mantê-las em fluxo.
Quanto à solução de problemas, Alex Osborn, criador da técnica do brainstorm, distingue as seguintes fases:
1.
Descoberta dos fatos:
definição do problema, posição do indivíduo face ao problema e preparação.
2.
Descoberta das idéias:
produção das idéias, desenvolvimento das idéias e aperfeiçoamento.
3.
Descoberta das soluções:
avaliação, controle das soluções por tentativas e a escolha da solução mais conveniente.
Outro aspecto importante a considerar no desenvolvimento da criatividade é o relacionamento do pensamento individual ao coletivo.
A técnica do brainstorm deve estimular de uma pessoa a outra, sendo que o grupo converge para idéias específicas, reduzindo a quantidade e a variedade de idéias, chegando a um consenso.
Entretanto, o indivíduo criativo é um pensador independente e sua criação tem marcado o seu cunho pessoal e nem sempre a condição de grupo seria recomendável.
Deve-se levar em conta todas as circunstâncias para se optar por a condição de grupo ou a de individualização.
Para Dominico de Masi, autor de «O ócio criativo», o carisma é um elemento essencial nos processos criativos em grupo.
Metaforicamente, ele vê a criatividade como uma poção feita de muitos ingredientes:
conscientes e inconscientes, racionais e emocionais.
É uma mistura de fantasia e concretude.
Para obtê-la, num grupo, são necessários diversos fatores.
Um clima de entusiasmo (tanto uma motivação individual quanto a consciência de que se trata de uma missão coletiva) e uma liderança apaixonante, carismática.
A seguir, veremos como realizar abordagens mais abrangentes, desenvolvendo um raciocínio flexível para questões de qualquer ordem.
Em o processo criativo a flexibilidade é relevante, pois os conceitos rígidos restringem a liberdade de criar.
Formas
De Analisar As Questões Relevantes
Formas de visões:
Visão Restrita ou Visão Bidimensional
Visão Criativa ou Visão Tridimensional
Forma Prática Para Explicar Os Conceitos Bi & Tridimensionais
«Para entender este conceito utilizaremos um exemplo simples que representará uma metáfora destes conceitos:
pegue uma folha de papel, coloque uma cartolina e uma batata cortada ao meio.
A face cortada será encostada no papel em frente à cartolina.
Imagine estes como dois seres com visão bidimensional, ou seja, enxergam apenas o plano da folha.
Porém, a batata teria a capacidade de enxergar tridimensionalmente, mas está limitada por as regras da sociedade bidimensional.
Retire a batata do papel e dê uma perspectiva de espaço para esta.
Teoricamente ela teria a visão tridimensional dos fatos, dependendo apenas de sua interferência no mundo bidimensional.
O que seria essa interferência?
Pode-se dizer que representaria o estímulo interno ou externo por o questionamento do aparente ou do óbvio ou ainda da verdade constituída."
Exemplos De as Visões Restrita E Criativa:
Bidimensional
/ Tridimensional
Absoluta / relativa
Direcionada / Diversificada
Dogmatica / flexível
Fanática / Ecumênica
Número de frases: 118
Radical /
por Vânia Medeiros e Nilton Lopes
Por Ronald Augusto
Linguagem de perturbante experimentação, uma poesia de invenção como a de Arnaldo Xavier (1948-2004) pode ser examinada não só no que toca à estranheza da fissura aberta por ela em partes ou no corpus de determinado sistema literário.
Vale dizer, dentro de um traçado de rupturas inaugurado por o alto modernismo e que, desde então, parece ter se constituído no cânone da contemporaneidade, o que Arnaldo Xavier injeta de novo em tal corrente sangüínea?
Temos aí, um ponto.
Por outro lado, este exame nos permite compreender também um pouco do caráter e das imposturas desse sistema mesmo que, desde sua condição normativa e dogmática, manteve ou mantém, com relação às transgressões de Arnaldo, uma atitude, no mínimo, defensiva.
Portanto, sem receio, sem fazer favor a ninguém e satisfeito por não ser confundido com os medíocres beletristas com lugar garantido em antologias temáticas:
«todos [estes que] a tudo o seu logo acham sal» (Sá de Miranda), Arnaldo Xavier desbordou do molde para o qual parecia talhado.
Para desgosto do poeta e estudioso da literatura negra, Oswaldo de Camargo, Arnaldo não se inseriu «claro e negro» no continuum daqueles criadores que lograram «falar negro-poeticamente».
Arnaldo não aceitou a idéia de que a contrapartida aos esforços criativos de suas fabricanções, seria ele assumir -- em atenção à expectativa de alguns dos seus leitores e antes que fosse tarde -- um posto de honra nesta sorte de linha sucessória.
Em a economia da visada diacrônica, não há uma próxima chance, nem uma segunda escolha.
Xavier teria um lugar assegurado ao lado de, por exemplo, Solano Trindade, Adão Ventura, Oliveira Silveira, Cuti e Éle Semog, seus companheiros naturais no âmbito adequado.
Entretanto, o poeta pede «vistas» críticas ao que parecia ser o coerente passo-a-seguir do seu percurso textual.
E questiona a falsa dicotomia incrustada nas opções que se lhe apresentam virtualmente, ou seja:
1) entrar na idade do bom senso como mais um poeta negro afirmativo;
ou 2) ficar condenado à incomunicação, haja vista a aporia sugerida por os grafismos e signos que escolhera como forma de linguagem.
Não tanto por a companhia, Arnaldo Xavier declina do convite-invectiva feito por Oswaldo.
O fato é que sua linguagem, já francamente experimental desde os primeiros anos da década de 1970, pressupõe o poema como uma fatura sígnica cuja existência não pode se justificar apenas para servir às necessidades de certas interpretações, por mais bem intencionadas que elas sejam.
A impressão de «pura curiosidade» e de fracasso comunicativo que Rosa da Recvsa (1978), um dos seus primeiros livros, desperta em Oswaldo de Camargo -- o crítico e entusiasta, par excellence, de uma literatura negra, competente, mas convencional, inserida no panorama antológico das letras brasileiras, resume algo sobre o tipo de recepção que acabou prevalecendo entre os detratores de Arnaldo Xavier.
Mas, não havia só os imperitos inimigos se pronunciando a respeito.
Muita gente admirava ou admira, propõe leituras novas e divulga a poesia do transnegressor.
De outra parte, Arnaldo nunca fez questão de defensores.
Aliás, ele não se defendia.
Pelo contrário, mais atacava do que qualquer outra coisa.
Arnaldo pautou criativamente os seus críticos retranqueiros.
Os opositores é que se viam obrigados a tomar uma posição frente às intervenções sincrônico-valorativas do autor de LudLud (1997).
Arnaldo Xavier inventou os seus detratores.
A bem da verdade, diria-se-que jamais existiram, tão grande era a mediocridade com que se espojavam, mas a arena formada sobre o ideário estético e étnico-político de Arnaldo Xavier, engendrou um ambiente e este ambiente -- como disse Ezra Pound a propósito dos diluidores da sua época -- é que conferiu a eles uma existência.
Ainda que volátil.
A bossafro da poesia verbal e não-verbal de Arnaldo Xavier questiona, às gargalhadas, a dimensão estrita e estreita da poesia dos seus pares, onde se verifica a tolerância pós-moderna a limitar-se com o politicamente correto, fusão que, ao fim e ao cabo, resulta em puritanismo de fast thinkers.
Arnaldo, intelectual e militante negro (em sentido forte), isto é, avesso a qualquer tipo de afundamentalismo, não professava a profissão do líder galvanizador.
Uma figura possível para o paraibano Axévier é a do autor cuja obra e reflexões críticas estão tensamente imbricadas no debate referente aos dilemas de uma vertente negra na literatura brasileira.
Mas o «odi et amo» de Arnaldo Xavier com relação a esta questão, se define mais por uma atitude problematizadora e metalingüística do que por uma afirmação concludente e, de resto, interessada em legitimar tópicos identitários por meio de uma prática literária entendida como testemunho de verdade étnica.
Para Arnaldo, literatura negra é um debate que não deve ser lacrado, assim, às pressas.
Exceto, talvez, do ponto de vista acadêmico, é algo que não tem de ser resolvido.
Um poema de verdade não admite solução.
Consciência de linguagem requer um severo sentido de auto-ironia.
Arnaldo era radical, um poeta radical.
Identificava, a um só tempo, questões de forma e de fundo.
Feito Yeats, não separava o dançarino da dança.
O gesto radical se projeta sobre a linguagem.
Não há linguagem desprovida de pensamento.
E o pensamento instala o mundo entre parênteses justamente para melhor pensá-lo.
A poesia de Arnaldo Xavier é a transnegressão dos limites representacionais da linguagem, fronteira exusíaca entre mundo e signo.
A o propor novas expressões negras, numa espécie de transe intertextual onde colaboram tanto a logopéia de Muniz Sodré, quanto a fanopéia de Spike Lee, Arnaldo propõe, em fim de contas, novos e vastos pensamentos sem fios.
Com efeito, sua poética repercute no seu pensamento conferindo-lhe um viés experimental, inoportuno e negativo.
Algo vivo.
Axévier era o dissenso via intersemiose, o desarraigamento de si, o solapar das evidências ferreamente construídas sobre retóricas da identidade, não raro erísticas, e, por sua vez, pavimentadas por tensões históricas retidas num pano de fundo utópico.
Arnaldo torceu o gasnete à eloqüência pictórica do conteúdo, suas palavras exorbitaram iconicamente o contorno dos sintagmas, viraram desenhos sintéticos do seu pensamento-arte.
Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961.
Poeta, músico, letrista e crítico de poesia.
É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) e Confissões Aplicadas (2004).
Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature:
a special issue, vol. 18, n0 4, Baltimore:
The Johns Hopkins University Press (1995), Dichtungsring -- Zeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2006, colaborações em diversos números, poesia verbal e não-verbal) www.dichtungsring-ev.de.
Poemas publicados em Brasil / África:
como se um mar fosse mentira, São Paulo:
Ed. Unesp, Angola:
Chá de Caxinde, 2006.
Artigos e / ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura:
Babel (SC / SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA), Caderno Cultura do Diário Catarinense (SC), Suplemento Cultura do jornal Zero Hora (RS);
Revista Dimensão nº 28/29, tradução de poema de e.
cummings (MG);
Revista AT (MG);
Revista Roda Arte e Cultura do Atlântico Negro (MG);
www.slope.org; www.cronopios.com.br;
www.clareira.naselva.com, entre outros.
Assina os blogs:
www.poesia-pau.zip.net, www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com. É integrante do grupo os poETs:
Número de frases: 69
www.ospoets.com.br. às vezes buscamos valores em terras distantes, quando os mesmos valores estão em nossos quintais.
Passamos por eles, esbarramos em eles, e mesmo assim não os notamos.
A o ler sobre um cara chamado Valentim da Fonseca e Silva, descobri que ele foi responsável por diversas obras no Centro do Rio de Janeiro.
Conhecido como Mestre Valentim, esse mestiço nascido em Minas Gerais por volta de 1745, filho de um português tratador de diamantes e de uma escrava, por volta de seus três anos de idade foi levado por seu pai para Portugal, onde viveu até os 25 anos.
Estudou o ofício da Torêutica (arte de trabalhar com metais, pedra, esculpir em madeira) e retornou ao Brasil para viver no Rio de Janeiro, abrindo em seguida sua própria oficina.
Ganhou fama como arquiteto, escultor e decorador e devido ao seu talento, apesar de ser um mestiço, passou a ser muito requisitado na capital do Vice-Reino.
Em esta época quem mandava por aqui eram os portugueses, mas o cara quando é bom não tem jeito e Valentim venceu.
Mas o que isso tem a ver com nossas vidas?
Bem, para quem gosta de História esse sem dúvida foi um marco da arquitetura na cidade do Rio de Janeiro.
Graças a Deus Valentim veio parar por essas bandas.
Amigo do Vice-Rei Luis de Vasconcelos, mudou o visual da cidade ao construir o Passeio Público -- quem não conhece o Passeio Público?
O cara fez obras, melhorias e decorações em diversas igrejas:
Nossa Senhora do Monte do Carmo (na Rua Primeiro de Março), Nossa Senhora de Monserrat (Mosteiro de São Bento), Igreja da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora da Conceição (Av..
Rio Branco), e por aí vai.
Efetuou também a construção do Chafariz das Marrecas, infelizmente demolido para ampliação do Quartel da Polícia (sem comentários) -- porém, as belas estátuas da Ninfa Eco e de Narciso (graças a Deus) foram conservadas e levadas para o Memorial do Mestre Valentim no Jardim Botânico.
E mais, o Chafariz do Lagarto (Rua Frei Caneca), Chafariz da Pirâmide na Praça XV, pertinho de quem chega ou sai do Rio por as Barcas.
Ele está ali, imponente, maravilhoso.
O chafariz servia à população da cidade e era utilizado como aguada das diversas embarcações que chegavam ao Rio.
Podemos ainda observar parte das escadas que flanqueiam o chafariz (tombado por o Patrimônio Histórico).
Sente-se ali e imagine os oficiais, marujos e comerciantes, subindo ou descendo as escadas.
O que eles traziam?
E quando iam embora o que eles levavam?
Como saber?
E assim é hoje em dia com os milhares de passageiros das Barcas, todos os dias.
Nada mudou.
O Mestre Valentim faleceu por volta de 1813 e sua sepultura ainda pode ser visitada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, de onde era membro.
A o Mestre Valentim, o meu muito obrigado.
É isso, o resto é história.
Número de frases: 28
Pedro Moreira Filho -- Niterói / RJ
Ivo Pitanguy, Julio Iglesias, Michael Schumacher e seu Pedin.
Essa é a lista de pessoas que eu sei que possuem uma ilha.
Os três primeiros eu não conheço pessoalmente, mas já vi suas ilhas em revistas, com suas casas chiquérrimas e seus barcos luxuosos.
Já o seu Pedin virou meu amigo depois de alguns minutos de conversa e uma dose de cavalheirismo que eu achei linda linda linda.
Já fazia algum tempo que um fotógrafo amigo insistia para irmos fazer uma matéria «na ilha do cara».
Mas nunca dava tempo, sempre aparecia outra coisa pra fazer.
Até que um dia deu certo.
Chegamos na margem da maior lagoa do Mocambinho, zona Norte de Teresina e de lá já avistamos a casa.
Gritamos, buzinamos e nada do homem aparecer.
Voltamos no dia seguinte, bem cedo, e tivemos a sorte de ver o danado saindo de canoa.
Chamamos e ele, meio desconfiado, veio até nós.
Achou meio estranho esse negócio de entrevista, de gente desconhecida ir na casa de ele, mas topou.
Disse que ia resolver uma coisas e voltou uns 20 minutos depois.
Em a beira da lagoa, eu, o fotógrafo e mais uma amiga.
Ele se aproximou e encostou a canoa para a gente subir ...
mas quem disse que a corajosa aqui conseguiu?
Entrei na canoa e tremi tanto que ele me mandou descer pra não virar a canoa com todo mundo dentro.
Deu meia volta e levou meus amigos para a ilha, eu fiquei com a maior cara de tacho, triste e desapontada por não ter ido.
E foi aí que o cavalheirismo do pescador me surpreendeu.
Ele deixou os dois, voltou pra me buscar sem eu pedir e colocou uma tábua no meio da canoa para a eu sentar, de um jeito que não tinha perigo de cair, mesmo que eu continuasse tremendo (sim, eu tremi de medo de novo!).
Eu atravessando a lagoa e tentando esquecer aquela musiquinha «se a canoa não virar, olê, olá, eu chego lá».
Enfim chegamos e ele começou a contar sua história.
Vive sozinho na ilha há quase dois anos, depois que a mulher o botou pra fora de casa.
«Eu gosto de tomar umas pingas e ela ficava zangada demais.
Aí um dia a gente brigou e ela mandou eu sair e não voltar mais, senão ia mandar me prender.
Falou até com a delegada!
Aí a delegada me chamou pra conversar e perguntou se eu tinha para onde ir, eu na hora me lembrei dessa ilha, porque sempre ficava por aqui quando saía para pescar.
Disse para a ela que como eu sou pescador tinha que viver era junto dos peixes, aí me mudei», revela.
A casa do seu Pedin não tem nada do luxo das casas dos seus companheiros donos de ilha -- o Schumacher, o Pitanguy e o Julio -- mas ninguém pode reclamar de que chegou lá e não tinha onde sentar.
Pense num lugar que tem sofás por todo lado!
Contei uns oito ou dez, só fora da barraca, dentro também tem.
Por falta de educação, de bom senso ou sabe-se lá por qual motivo, é impressionante a quantidade de sofás e colchões que são jogados nas lagoas de Teresina.
Seu Pedin recolhe todos os que consegue e leva para a ilha.
É em eles que ele recebe os amigos pescadores que descobriram um lugar ótimo para fazer festas.
«Vem todo mundo para cá, a gente toca violão, come peixe assado na hora e toma cachaça e montila.
É bom demais, fica um monte de canoa ' estacionada ' aqui perto.
Os pescadores agora só querem comemorar aniversário aqui na ilha, eu sempre recebo com prazer, é um jeito de ter companhia», revela, mostrando seu lado promoter e despertando nas duas repórteres uma vontade danada de festejar um aniversário lá também.
E solidão, seu Pedin?
Não sente, não?
«Agora eu vou sentir mais, porque meu menino que mais vinha me visitar morreu tem pouco mais de um mês.
Os outros quase nunca vêm aqui, de família mesmo era só ele que tinha mais atenção com mim.
Há pouco tempo, quase que ele ganhava um vizinho.
Um outro pescador se separou da mulher e ia ocupar a ilhota que fica bem próxima da de ele.
«Eu já tinha até me animado, mas aí arrumaram uma casa pra ele e ele resolveu ficar na terra mesmo.
Ia ser bom se ele viesse porque eu ia ter com quem conversar».
E de energia elétrica?
Televisão? Não sente falta, não?
«De isso aí não.
Gosto do meu sossego aqui, de ficar de noite só ouvindo os barulhos da noite mesmo.
É fresco aqui, não faz nem calor.
Fico na minha rede e me balanço até dormir.
Não gosto de negócio de televisão, não.
Quando eu ainda era casado era mais um motivo de briga, porque a mulher queria ver diabo de novela toda hora».
Quando perguntamos se ele já tinha levado alguma namorada para conhecer a ilha, ele riu e ficou sem jeito, mas contou uma história engraçada.
«Eu queria trazer a mulher aqui, e ela com um medo danado da canoa, com medo de morrer, de cair na lagoa e se afogar.
Eu disse para a ela: '
Mulher, deixe de ser besta, que se você tiver que morrer afogada vai morrer lá na sua casa, engasgada com um copo d' água '».
E ela veio, seu Pedin?
«Veio nada, um medo monstro de se afogar».
O pescador afirma que não tem planos de deixar a ilha.
Não comprou, não alugou, não pediu emprestada, mas se sente dono do pequeno pedaço de chão onde já plantou feijão, mandioca e amendoim e construiu sua cabaninha.
à sombra do angico branco lindo e imponente que dá sombra e enfeita seu pequeno mundo, ele diz que ninguém vai tirá-lo de lá.
«A prefeitura pode é mandar em Teresina todinha, mas lá na terra.
Aqui na minha ilha, não.
De aqui eu não saio».
Número de frases: 66
Jukebox é a revista que saiu das cinzas da Mosh, aquela que talvez tenha sido a melhor publicação recente de quadrinhos nacionais.
Com um ótimo mix de quadrinistas fazendo histórias sobre rock, a Mosh se tornou rapidamente sinônimo de quadrinho nacional criativo e de qualidade.
Foram 12 números publicados entre 2003 e 2006, todos excelentes.
Durante esse período, já era possível observar uma evolução na revista, que ia se tornando mais organizada a cada número.
Após o fim, Renato Lima, um dos editores da revista, organizou e lançou rapidamente a Jukebox, que é de certa forma uma evolução ainda maior da Mosh.
Sem abrir mão dos quadrinhos, a Jukebox traz também matérias, entrevistas, colunas e até ensaios fotográficos, tudo relacionado a música e HQ.
Algumas dessas seções já haviam aparecido na Mosh, mas aqui essas idéias foram expandidas e melhoradas.
Deixam de ser um bônus para ser uma parte tão integral da revista quanto os quadrinhos.
Falando em eles, é bom ver que continuam com a mesma qualidade de sempre.
A nova revista traz a mesma mistura de estilos que sua antecessora, com artistas que já haviam aparecido na Mosh somados a alguns novos colaboradores.
É de se lamentar a ausência do trabalho de Fabio Lyra, um dos preferidos dos leitores, mas felizmente isso não compromete o nível de qualidade das histórias publicadas.
Um dos pontos nos quais as duas publicações mais diferem é no projeto gráfico.
Enquanto a Mosh apresentava um estilo um tanto careta, na Jukebox a diagramação, a disposição das páginas e as cores são uma atração à parte.
A revista está muito mais bonita e gostosa de se ler com essas mudanças, além de passar uma impressão mais profissional.
Não era nada que aparentasse ser necessário, mas depois de ver algumas páginas da revista, fica claro quanto trabalho é colocado em ela e quanta diferença isso faz.
A Jukebox não apenas continua o que havia sido começado por a Mosh, como profissionaliza a idéia e a leva para um outro nível;
é um exemplo a ser seguido por outras publicações nacionais.
Imperdível para quem gosta de quadrinhos e música.
Já foram lançados dois números da revista, e o terceiro sairá em breve.
Os exemplares custam R$ 3,00 e podem ser adquiridos em lojas especializadas ou por a internet, no Submarino e no site da Comix.
Número de frases: 20
O site está previsto para ir ao ar junto com o terceiro número, mas enquanto isso é possível acompanhar as novidades através do fotolog em http://www.fotolog.com/revistajukebox/.
Tenho em mãos três discos de artistas conhecidos por as performances em palco, às vezes, muito mais do que por o resultado musical de suas empreitadas:
Karine Alexandrino (Querem acabar com mim, Roberto, de 2004, independente), Repolho (Vol. 3, de 2005, independente) e Rogério Skylab (Volume V, de 2005, encartado na revista Outracoisa).
Ouvindo o disco da cearense Karine e lendo a seu respeito é que veio a idéia dessa pauta:
como não conhecia muito sobre a artista, a principio fixei-me apenas no lado musical e, depois, ao saber da relevância de suas performances, pensei que o melhor é quando o lado musical, excluindo aí todo o lado extra-musical (importante, obviamente, mas quase impossível de captar em disco), fica também privilegiado, diria até independente desse outro.
O que, definitivamente, é o caso de Karine Alexandrino, com seu mix anos 60, brega e eletrônico.
Seu disco de 2004 é, pelo menos na minha perspectiva, injustiçado.
Trata-se de uma belíssima coleção de canções, com letras inspiradas e arranjos bem resolvidos, que passam bem até mesmo sem a imagem da artista (que, inclusive, ilustra a bela capa, com um clima anos 60 bagaceiro, e o encarte).
Logo de cara, a música «Mulher Ioiô» não só cria uma interessante imagem para a personagem da canção (" um ioiô vagabundo / de barbante barato e sujo "), como a artista simula um sotaque indefinível, porém nitidamente estrangeiro (latino?
Americano? Italiano?).
Algo, nessa simulação, é transportado do universo performático para dentro do disco -- o sotaque percorre quase todo o disco, criando um incomodo, acredito, e uma questão na cabeça do ouvinte.
O disco consegue outros pontos altos, como em «Amor e glória é só boato», com uma introdução à Raul Seixas/Odair José (escolha, desde aquele lugar onde esses dois artistas se encontram) e voz fanha (" para de se preocupar com mim / faça um curso de inglês "), ou na versão da música de» Yoko Ono, Kiss Kiss Kiss», ou mesmo na infame «O Elefante», de Robertinho do Recife, brilhantemente resgatada e, digamos, salva.
Em tempo, e para justificar minha empolgação com a musica de Karine, nunca assisti a um show da artista, ficando apenas com os comentários a respeito -- e, a se tirar por as músicas, o show realmente deve ser muito bom.
No caso do Repolho, com seu Vol 3, temos um bom exemplo de banda performática que consegue colocar o lado musical de seu trabalho à altura de seus shows.
De essa banda não apenas vi alguns shows, como tive a oportunidade de acompanhar a preocupação do quarteto com a performance.
No entanto, nos atenhamos, como no caso de Karine, ao lado musical.
Não só nesse CD, mas em todos os discos, a banda consegue trazer isso que chamei de incomodo, de estimulo ao ouvinte, para dentro das canções.
«Benga na alemanha», uma das minhas prediletas, faz uma mistura inusitada:
marchinha de banda alemã, com a linha de baixo executada em trombone e batida eletrônica, cantada com sotaque alemão falsificado.
Mais uma vez, o sotaque serve aqui como elemento extra-musical (por serem do interior de Santa Catarina, serão os músicos alemães?),
além de, nesse caso, ser muito divertido.
Outro bom exemplo é a canção «Não fui eu», que traz como personagem um psicopata (a música é cantada em primeira pessoa) e toda sua trajetória assassina, incluindo aí, a dúvida a respeito da autoria do crime e o final em que o, digamos,» eu-lírico " da canção realmente enlouquece, balbuciando coisas ininteligíveis.
Você quase pode imaginar o personagem encarnado no vocalista e emoldurado por o arranjo de teclado de Júpiter Maçã.
Outra canção que merece destaque, «Meu coração é assim mesmo» é uma falsa balada jovem-guarda, falsa canção romântica, pura ironia (exacerbada por o arranjo desencontrado):
«Meu coração é assim mesmo / volta e meia ele se lembra / e se esquece de você / Mas também quando se lembra ...».
Em o último caso, Rogério Skylab, apesar de nunca tê-lo visto em ação -- a não ser numa canção executada no programa do Jô Soares, há algum tempo --, é notório o aspecto performático do artista, patente, inclusive, em sua bizarra figura (nesse Volume V o artista aparece travestido na capa, quase irreconhecível).
O disco, lançado por a revista Outracoisa, infelizmente, fica aquém de sua fama em cima do palco.
Os resultados musicais que Skylab consegue estão entre algo como o metal (em sua versão mais «new ") e letras escatológico-adolescentes, sobre mortes de animais fofos e entes queridos, que tem seu ápice na iggypopiana / édipiana» Semana Passada ":
«Semana passada / Esquartejei meu pai / Botei sua cabeça na sala de jantar».
Em termos líricos, o artista acerta na música «22x2 = 43», em que brinca com a relação entre o ideal de perfeição matemática (no caso uma matemática aleatória, digamos,» errada ") e o ideal de perfeição insípida da bossa-nova.
É, talvez, o único momento do disco em que Skylab põe algo em xeque, fato que pode, inclusive, empatar com suas performances ou seu visual.
Curioso é o discurso do artista, em entrevista à própria revista, falando sobre a caretice musical de seus contemporâneos -- o que destoa de sua prática, extremamente tradicional, muitas vezes óbvia.
Para finalizar, é bom saber que há artistas que se preocupam com sua performance, com suas músicas, visual e apresentações, que pensam em seus projetos de uma forma completa, sem, é claro, privilegiar um lado sobre o outro -- o que torna essa matéria um tanto imprópria, já que é quase impossível dissociar alguma coisa, a não ser com um objetivo analítico, como foi o caso.
Número de frases: 33
Em minha defesa, o que posso dizer, é que, por a distância, ou mesmo impossibilidades financeiras, comuns ao mercado alternativo, podemos nunca ver um desses artistas ao vivo, o que faz com que seja interessante pensar esses discos para além do artista, como produto independente do todo que eles concebem.
A criação de ateliês para o desenvolvimento de atividades de artes plásticas nas escolas propicia às crianças e aos jovens estudantes a possibilidade de expressarem-se num ambiente adequado, que atenda às necessidades específicas das atividades desenvolvidas.
O atelier de artes plásticas é um ambiente que estimula a criatividade, o pensamento crítico, a disciplina, além de facilitar o desenvolvimento das atividades artísticas.
Sua adequação deve incluir a colocação de pias, mesas compridas, cavaletes, prateleiras além de bancos e cadeiras adequadas.
Deve, também, dispor de uma grande diversidade de materiais permitindo, assim, ao educando, a possibilidade de expressar-se utilizando variados meios, suportes, texturas e enriquecendo seu repertório de conhecimento.
A existência de local adequado, adaptado, planejado, é propício para o desenvolvimento de qualquer atividade, e no caso das artes plásticas, é ainda fundamental.
Os PCN's (Parâmetros Curriculares Nacional), apoiados na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, LDB, orientam para que as aulas de artes sejam desenvolvidas na própria sala de aula como as demais disciplinas, entretanto, não se opõe a criação de ateliês, espaços destinados exclusivamente para as atividades de artes plásticas.
A existência destes ateliês motiva e desperta o interesse do educando para as atividades artísticas.
O ambiente artístico proporciona a desinibição, estimula a criatividade, além de oferecer toda a estrutura necessária para a realização das atividades.
Essas atividades, porém, necessitam de uma maior atenção quanto à estrutura que irá dar suporte para as suas execuções.
O universo infantil deve ser estimulado, desafiado, confrontado, para que possa enriquecer-se nas suas próprias experiências.
A o aluno deve ser oportunizado a maior diversificação de materiais, suportes, técnicas e situações-desafio, objetivando o seu crescimento.
Oferecer-lhe sempre os mesmos materiais, as mesmas manipulações, é não gerar um ambiente estimulante que permita a exploração de novas soluções, é atrofiar a criatividade, reduzi-la a desenhos e soluções caricaturais que não revelam o verdadeiro potencial do educando.
A busca destes objetivos deve envolver situações desafiadoras, principalmente, quanto ao uso de materiais e suportes novos que propiciem não só um maior conhecimento prático, mas que permita a utilização e manipulação de várias linguagens artísticas.
De o suporte simples, bidimensional, para suportes mais elaborados onde possam explorar a tridimensionalidade;
tintas que permitam uma nova exploração técnica, como o Nanquim, podem contribuir para a descoberta de novas possibilidades de expressão.
A tinta acrílica ou a tinta a óleo, usada sobre tela, propiciará um maior prazer em descobrir-se pintando;
suas utilizações permitiram não só atividades mais prazerosas como estimularão a criatividade, despertando o interesse da criança para a produção contemporânea de arte.
Número de frases: 18
Evoé Brasyl!
A voz que chega agora é a da nossa Enguaguaçu, guaruya -- Itapema -- Baixada Santista SP -- em nova conexão «OVERMUNDO».
Vou tentar linhas abaixo descrever um pouco da cena cultural que está rolando em Santos e região, aqui tomada de vez por o audiovisual (cinema e vídeo);
os novos diretores, o importante papel do festival de curtas-metragens «Curta Santos» e o sucesso do projeto «Oficinas Querô».
Não é de hoje que Santos e região são berços de grandes poetas, escritores e artistas -- lugar de trabalho também para outros tantos viajantes do começo do século XX.
Mas esse status de cidade cultural declinou depois de um certo período de decadência e degeneração do centro da cidade, em especial nas décadas de 70, 80, 90. Atualmente sobrou apenas o cine Roxy, restando por a cidade o império dos Fast-shops blockbusters.
O Festival Santista de Teatro Amador, no entanto, sobreviveu firme e forte.
E algo parece querer pegar impulso:
restauros e iniciativas turísticas pontuais.
Porém, a questão da moradia e dos cortiços foi excluída do debate e permanece, até agora, como embate não resolvido.
É nesse caldeirão que o cineasta Carlos Cortez filma em 2005 o longa-metragem «Querô», baseado na obra do dramaturgo santista Plínio Marcos.
Para o elenco promove uma pretensiosa seleção e oficina de atores desenvolvida com jovens da comunidade nos moldes de «Cidade de Deus», onde foram lapidados talentos que, até então, não haviam tido nenhuma oportunidade parecida.
Muitos agarraram a idéia de seguir como artistas e produtores.
As oficinas continuaram após o filme e se fortaleceram institucionalmente em parcerias.
Este tipo de iniciativa é preciosa, pois faz surgir revelações como Maxwell Nascimento;
garoto que ganhou a seleção para o papel do protagonista «Querô».
Com o seu talento, ele acabou arrematando vários prêmios, representando o filme como melhor ator em importantes festivais e desbancando atores de peso, realizados e globais.
Com o reconhecimento obtido, Maxwell se mantém firme na profissão de ator trabalhando agora no elenco de Malhação, da TV Globo.
As oficinas estão a todo vapor, com turmas básicas e avançadas na produção audiovisual em vídeo.
Anualmente, eles produzem diversos curtas que são exibidos no Festival Santista.
Alguns filmes alcançam eventos nacionais apontando diretores talentosos como «Samuel de Castro» (" Torto " -- 2006), prêmio formação do olhar no 17° festival Internacional de Curtas de SP.
A dupla Eduardo Bezerra e Victor Luiz também se destacou com «Maria Capacete (2006)», vencedor do festival de jovens realizadores do Mercosul, melhor curta no 5° Curta Santos, melhor vídeo Curta Mogi.
Esta rapaziada já está se virando e trabalhando para a produtora Gullane Filmes, TVs e outras mídias, além de estar se organizando para abrir a sua própria produtora.
Fica claro que o maior e digno papel das oficinas é dar um forte sentido de cidadania, formação de caráter e auto-estima para aqueles jovens que a elas se identificam.
Mas todo este material gerado por as oficinas não teria tamanha visibilidade se não fosse a existência do Festival nascido da lição de vida e dedicação ao cinema deixada por Maurice Legeard, cineclubista de Santos e agitador cultural:
sua história desencadeou a criação do Curta Santos, Festival que começou tímido em suas primeiras edições e foi corajosamente levado à frente por Toninho Dantas, mantendo-se apenas com a mostra competitiva regional a tradicional mostra Caiçara.
Em os anos seguintes, o Curta Santos levou também a mostra estadual, que premiava filmes paulistas.
Em a última edição, o Festival entrou definitivamente para o Circuito Nacional, com filmes e vídeos de todo o país, diretores presentes com todas as mordomias de um bom festival, muita integração e descontração entre todos os cineastas que compareceram.
Passaram por lá o festivo «Alê Camargo» «Calango «e o simpático» Luís Carlos Bigode " Lacerda, então júri.
Depois da projeção das melhores produções brasileiras antes da mostra Caiçara, fica evidente como é fundamental a experiência aberta para os artistas e produtores regionais.
Eles têm ótima oportunidade de ver filmes consistentes e, como contrapartida, podem mostrar seus vídeos para um cinema lotado e possuído por público caloroso.
Isto é de fato real;
este ano participei do festival com o documentário «Emoções em Paquetá», que trata justamente da questão dos cortiços, moradia no centro de Santos e cidadania representada por uma líder comunitária, a Sra..
Samara Faustino.
Para a minha felicidade e de outros que vibram com o cinema-verdade, o pessoal do Paquetá foi em peso ao Cine Roxy e delirou ao se ver na tela grande.
Assim que surgiu o título foi como um grito de vitória:
estamos aqui!
Depois da sessão, recebi os comentários do genial cineasta " Beto Brant:
«Que heroína é aquela mulher!
Que onda aquela molecada ao delírio ao se ver na tela.
Gostei demais da manifestação, mesmo contra os «psius» caretas de alguns " malas ";
depois da sessão fiquei lá fora olhando prá mulher guerreira, o filme é demais, o jeito de filmar e revelar a batalha daquela mulher.
Oxalá o filme corra o mundo ..."
E o Beto tinha razão, depois surpreendendo até a mim o vídeo foi selecionado para a mostra competitiva do tradicional Festival Nacional de Vitória Cine-Vídeo, em sua 14° edição.
Não só o «Emoções» mexeu com a platéia e freqüentou outros Festivais mas muitos outros trabalhos da mostra Caiçara também;
antigos diretores como Dino Menezes e Vinícius Giacomini (do vídeo " Lovi Stori ") trouxeram novamente um roteiro interessante.
Apesar de eu sentir falta de planos mais «cinematográficos» (mesmo com o esforço do empenhado ator Danilo Nunes), outro que surpreendeu por a consistência e montagem foi «Paralelo», de Rubens Nobre.
Houve, ainda, algumas tentativas um tanto televisivas feitas por produções independentes ou estudantes de comunicação.
O curta vencedor foi «Maria capacete», que se sobressaiu por a sua espontaneidade e roteiro, apesar do uso de uma linguagem formal.
O diretor destaque foi merecidamente, por o segundo ano consecutivo, o criativo Lucas Iannuzzi, de «Circular» (2006) e «Eu acredito em qualquer coisa / você acredita em qualquer coisa» (2007).
Ele trabalha numa linha de ficção totalmente autoral e intimista, com recursos de produção mínimos ou quase toscos e com enquadramentos ousados.
Suas narrativas quase sempre focam a rotina estafante e o estilo de vida alienado e de consumo;
com poucas palavras ou quase nenhuma, Lucas ganhou os louros da crítica e chega forte junto aos grandes curta-metragistas brasileiros.
Com o vídeo «Circular», participou este ano do prestigiado» Curta Cinema», Festival Internacional de Curtas do Rio.
O diretor ainda promete um terceiro trabalho a ser produzido no próximo ano, que completará, segundo ele, uma «trilogia».
Em essa procura da integração dos novos talentos, o que vale é a soma de todo o processo de construção do meio audiovisual acompanhando os valores sociais de nosso meio.
Oxalá pessoas e instrumentos de formação de opinião figurem como um importante elo do cinema nacional e não apenas como símbolos de status do meio!
Somando-se as forças poderemos levantar maiores vôos ...
Número de frases: 58
Eu tava pensando aqui com meus botões, pesquisei rapidinho e, bem, é isso aí.
Agora é só em 2014 mesmo, porque, sinceramente, a não ser que surjam uns camaradas supimpas nos próximos quatro anos, a seleção tá mal.
E bota mal nisso.
Só 10 dos 23 jogadores da seleção têm, teoricamente, condições de jogar mais uma copa.
Isso em termos de idade, é claro, e considerando que, para além dos 32/33 anos, já era.
Então.
O que temos de resto?
Além desses apáticos?
Bem ... não muita coisa, pelo menos não por agora.
Abaixo da lista das idades do jogadores que foram convocados, pus uma lista rápida de outros brasileiros promissores e / ou que já têm algum destaque.
Nada que seja lá muito animador não.
Tudo bem, não criemos pânico.
Mas vejam bem:
em 90, com todo o fracasso, o time ainda sabia que tinha Bebeto e Romário (que não jogou a copa por contusão) para 94.
Em 94, tinha o Ronaldo no banco, o Cafu novinho (!),
aquele timaço do Palmeiras que ganhava tudo, Rivaldo surgindo ...
fora aquelas promessas que nunca foram para frente, tipo Sávio, Juninho Paulista etc..
Em 98 a coisa era meio modorrenta, mas, de qualquer forma, em 2002 já começava a rolar a boa fase de Robinho, Diego e companhia.
Então, de certa forma, talvez seja hora de acender o sinal amarelo.
Basta lembrar que o melhor do Campeonato Brasileiro do ano passado (que foi muito ruim, por sinal) foi o Tevez ...
e que mesmo o time do São Paulo foi campeão do mundo com jogadores já razoavelmente velhos (Mineiro, Rogério Ceni, Amoroso, Danilo, Grafite etc).
Enfim, vejam só:
Os convocados (por ordem da idade que eles têm hoje):
Cafu -- 36 anos
Roberto Carlos -- 33 anos
Rogério Ceni -- 33 anos
Dida -- 32 anos
Zé Roberto -- 32 anos
Juninho -- 31 anos
Mineiro -- 30 anos
Ricardinho -- 30 anos
Gilberto -- 30 anos
Emerson -- 30 anos
Ronaldo -- 29 anos
Cris -- 29 anos
Gilberto Silva -- 29 anos
Lúcio -- 28 anos
Juan -- 27 anos
Júlio Cesar -- 27 anos
Ronaldinho Gaúcho -- 26 anos
Cicinho -- 26 anos
Luisão -- 25 anos
Adriano -- 24 anos
Kaká -- 24 anos
Fred -- 22 anos
Robinho -- 22 anos
10 jogadores vão ter até 32 anos em 2010.
o Gilberto Silva e o Cris terão 33 anos, mas duvido que joguem.
Sobre o Ronaldo é melhor nem comentar.
Agora, sinceramente, eu duvido que o Adriano consiga continuar enganando todo mundo por mais quatro anos.
Por outro lado, sem o Cafu para servir como contraste, duvido que a gente continue achando o Cicinho tão bom ...
E o resto?
E os não-convocados?
Primeiro os jogadores que já jogaram na seleção mas não foram para a Copa:
Também por ordem de idade:
Marcos Assunção -- 30 anos
Belletti -- 30 anos
Edmílson -- 30 anos
Roque Junior -- 29 anos
Alex -- 28 anos
Kléberson -- 27 anos
Anderson Polga -- 27 anos
Renato -- 27 anos
Ricardo Oliveira -- 26 anos
Luís Fabiano -- 25 anos
Elano -- 25 anos
Júlio Baptista -- 24 anos
Alex (zagueiro do PSV) -- 24 anos
Maxwell (lateral esquerdo do Ajax) -- 23 anos
Diego (ex-Santos) -- 21 anos
A coisa tá preta:
o Diego não joga nada há anos, o Júlio Baptista é uma piada, o Elano tá jogando na Turquia, Ucrânia ou um troço qualquer desses, o Luís Fabiano é um Obina que deu certo, o Renato é o filho do Zinho com o Silas.
O Alex (ex-cruzeiro) nunca foi essa Brastemp e já vai ter 32 anos em 2010 ...
Roque Júnior, Edmilson, Belletti etc vão estar muito velhos ...
o que sobra?
Só jogadores de defesa que nunca foram nada de especial ...
fora que dá pra continuar com Juan e Lúcio.
Vamos então para alguns jogadores que se destacaram e / ou que mostraram potencial:
Caçapa (zagueiro do Lyon) -- 30 anos
Edu (meia do Valência) -- 28 anos
Lincoln (meia do Schalke 04, ex-Atlético Mineiro) -- 27 anos
Roger (Corinthians) -- 27 anos
Danilo (meia do São Paulo) -- 27 anos
Grafite -- 27 anos
Deivid -- 26 anos
Geovanni (aquele que era do Cruzeiro;
está no Benfica) -- 26 anos
Ewerthon (meia do Zaragoza, ex-Borussia Dortmund) -- 25 anos
Gabriel (ex-lateral do Fluminense, tá jogando no Málaga) -- 25 anos
Gomes (goleiro do PSV) -- 25 anos
Maicon (lateral direito do Mônaco) -- 25 anos
Fábio Rochemback (volante do Middlesbrough) -- 24 anos
Thiago Motta -- 24 anos
Dudu Cearense -- 23 anos
Ibson -- 22 anos
Nilmar -- 22 anos
Vagner Love -- 22 anos
Rafael Sóbis -- 21 anos
Carlos Alberto (Corinthians) -- 21 anos
Diego Tardelli -- 21 anos
Jô (Corinthians) -- 19 anos
Arouca (Fluminense) -- 19 anos
Ânderson (meia-atacante que era do Grêmio, tá no Porto) -- 18 anos
Lenny -- 18 anos
Kerlon (o'foquinha ', meia do Cruzeiro) -- 18 anos
Alguém consegue se entusiasmar com esse pessoal?
Eu gosto do Danilo, mas ele serve mais para o Flamengo do que para o Brasil ...
de resto, o Gabriel (ex-Fluminense) jogou bem por um tempo ...
o Arouca idem.
Lenny, Anderson e Kerlon têm potencial mais para 2014 do que para 2010.
Nilmar, Vagner Love, Carlos Alberto, Deivid etc são brincadeira de mau gosto.
E se o Ibson acabar na seleção eu vou rir muito.
Duas objeções possíveis a tudo isso:
a) ainda temos Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Adriano etc. b) ainda vão surgir novos talentos.
respostas:
a) Adriano é brincadeira.
Ronaldinho Gaúcho e Kaká sozinhos não formam time, ainda mais porque jogam em posições razoavelmetne parecidas.
Nenhum dos dois chega perto de ser ' líder ' de qualquer coisa.
b) qual a probabilidade de eles surgirem, serem vendidos dois meses depois para o futebol turco ou para a segunda divisão de Portugal, sumirem por alguns anos e depois voltarem, falidos e marrentos, para jogar no campeonato Paulista (alô Diego, Roger, Carlos Alberto etc)?
Enfim
Dado o histórico absurdo da CBF, provavelmente a seleção brasileira de 2010 vai ser:
Dida (já como goleiro do ilustre Shaktar, da Ucrânia), Cafu (experiente lateral reserva da Cremonese), Juan, Lúcio, Maxwell;
Zé Roberto (incansável volante do Corinthians), Júlio Baptista, Kaká, Ronaldinho Gaúcho;
Robinho e " Ronaldo Fenômeno (" prestes a dar mais uma volta por cima ").
Técnico: Sérgio Noronha (mas pode ser o Joel Santana também).
* * * O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo.
A proposta é construir um panorama da participação do Brasil na Copa da Alemanha, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país.
Número de frases: 127
Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag Especial Copa, no sistema de busca do Overmundo.
A prosa da vida inteira de Manuel Bandeira
Ultimamente, o que mais tenho feito na vida é bestar.
E com toda a fineza da conjugação e o bom humor do verbo preferido de Manuel Bandeira:
bestar. E o melhor de tudo, bestando com a prosa viva e inteligente de Bandeira, o velho bardo que nos legou uma vida inteira de poesia, mas também uma prosa deliciosa de se ouvir, mesmo agora, vinda lá dos confins do século passado.
E tenho bestado em todos os sentidos da palavra com Manuel.
Assim, fico besta de pura admiração, de ver o quanto a prosa de Manu é instigante, divertida, bem-humorado e instrutiva;
e ando bestando de vagabundear mesmo, indo ao léu das coisas, ao sabor do vento, sem compromisso e nem grandes preocupações na minha inquieta navegação por o mundo da leitura.
Digo: é uma das melhores coisas do mundo bestar com Manuel Bandeira.
Um livro atrás do outro;
vários livros ao mesmo tempo.
Depois de reler a poesia de Bandeira, enveredei por a prosa, aquela que de tão boa não poderia mesmo ficar confinada aos arquivos dos velhos jornais.
Penso com certa inveja boa na delícia dos leitores que acompanharam Manuel nas colunas dos jornais, assim como fiz com o goiano José J. Veiga, o nosso grande modernista, autor de A Hora dos Ruminantes, Sombras de Reis Barbudos e Os Cavalinhos de Platiplanto -- que me fizeram cativa da arena das palavras encantadas de Veiga.
Recortava com um prazer lúdico as crônicas de J. Veiga, publicadas no Diário da Manhã, jornal onde trabalhei no final da década de 80.
Imagina escrever para o jornal e comentar algum detalhe das crônicas de Bandeira?
E ele responder!
Uau! às vezes, o comentário de um leitor rendia crônicas impagáveis do poeta, como uma em que manifestava sua simpatia por a poesia concreta -- ao contrário de Drummond que, categoricamente, torcia o nariz para os concretistas e dizia que nunca viu tanto esforço de teoria para justificar uma bobagem.
Existem presentes que parecem cair do céu, de tão bom.
Pensei que ia dar um trabalho danado escarafunchar em sebos Brasil afora reminiscências dessa prosa de Bandeira, como as crônicas de Província do Brasil -- que tem também edição recente da Cosac & Naif.
E já estava disposta a futricar uma enciclopédia à cata de um estudo de Manuel Bandeira sobre versificação em língua portuguesa.
E não é que ganhei de presente há pouco mais de um ano Seleta de Prosa, Manuel Bandeira (Editora Nova Fronteira -- 1997).
Em 592 páginas o mundo «pensamenteado» de Manuel Bandeira equivale a um doutorado em artes, desses muito bem feito.
Além de proporcionar uma viagem por a história da arte brasileira, o homem me aguçou uma vontade de ir beber na fonte de tanta gente interessante que perscrutou com sua inteligência e lanterninha esclarecedora daqueles detalhes capazes de iluminar uma vida.
E Bandeira soube como ninguém abrir janelas para revelar em sua prosa cotidiana o Brasil de todas as artes.
E com a consciência de que a função da crítica é ser esclarecedora, evitando tanto quanto possível o jargão de vanguarda.
Não hesitou o nosso poeta em chamar a atenção do amigo Mário Pedrosa, que assinava uma seção de crítica no Jornal do Brasil, para que escrevesse para o homem da rua.
Pedrosa ficou meio enfezado com o puxão de orelha, devolveu algumas ironias e Bandeira incisivo, no ponto nevrálgico, sem perder a linha do fino humor que afiava os dentes em Manuel.
E como mordia elegantemente!
E assim seguiu Bandeira o itinerário de uma prosa para ficar batucando na cabeça e na emoção do leitor, sem se afastar um milímetro sequer do rigor estético de profundo conhecedor de artes e da Língua Portuguesa.
A prosa de Bandeira é essencial para se compreender melhor o Brasil, os nossos artistas, as obras que compõem o painel profundo de nossa alma e identidade.
Sou meio compulsiva e baratinada para leituras.
Começo vários livros ao mesmo tempo, misturando gêneros, autores e épocas.
E vou seguindo ou recuando ao sabor da prosa que me agrada ou me inquieta mais.
E nesse amontoado de livros Manuel Bandeira e Mário de Andrade têm lugares cativos.
A primeira prosa de Bandeira me aliciou os ouvidos no Itinerário de Pasárgada, onde o nosso poeta de rosas e estrelas destrinchou com aquela delicadeza de imagens e pensamentos que conhecemos tão bem em sua poesia a vivência artística e o seu processo criativo.
Que trilha!
A o percorrer lucidamente a memória de seu itinerário, raspando funduras da alma, Bandeira revela o mundo de sua criação poética e passeia amorosamente com sua lanterninha de observador e estudioso por os fatos e personalidades que o influenciaram e ajudaram a construir o universo de um dos nossos maiores poetas de todos os tempos.
Em a trilha da prosa de Bandeira, reli, claro, o Itinerário, leitura fundamental para qualquer pessoa que se interesse não só por cultura, literatura, artes plásticas ou que tenha pretensão ao ofício da escrita, mas por o Brasil.
E Bandeira, sempre sintonizado com o homem da rua, revela o Brasil para os brasileiros.
Esse é um legado da prosa de Bandeira que se incorpora ao nosso patrimônio.
E está ao alcance da mão, nos livros.
Depois de comichões -- logo esquecidos -- provocados por o Itinerário de Pasárgada vieram os da correspondência de Mário de Andrade para Manuel Bandeira -- e minha admiração cresceu com o trabalho criterioso do poeta na edição das cartas do amigo.
E aquelas menções nas cartas sobre artigos e crônicas, como uma em que Bandeira comentava os poemas de Oneida Alvarenga -- então aluna de Mário de Andrade e incentivada por ele a se dedicar à poesia, me fustigaram o desejo de conhecer essa prosa pensamenteada do poeta.
Cada crônica é uma aula de Brasil, porque o circunstancial em Bandeira é valioso.
E Bandeira atualiza o Brasil para além do século em que viveu e produziu a sua obra.
Arqueólogo da nossa alma mergulhou no fundo do poço dos nossos primórdios para resgatar das sombras das verdes matas a nossa produção artística.
Depois de uma aula de Bandeira só me resta enfiar a viola no saco e humildemente procurar ler, o mais rápido possível, por exemplo, Gonçalves Dias.
Que homem instigante foi Gonçalves Dias para o seu tempo e para o Brasil que o sucedeu no cordão do nosso ideário de uma arte nacional.
O homem da rua pode até desconhecer um verso de Drummond, mas com certeza já ouviu e até recita trechos dos sonoros versos de " Canção do Exílio:
«Minha terra tem palmeiras / onde canta o sabiá».
A poesia atravessando de caravelas a corrente sanguínea das gerações para aportar mansamente nos nossos ouvidos cheios de ruídos da barulhenta e fragmentária «pós-modernidade».
Entre uma poesia e outra, os altos e baixos da saúde precária, o ofício de professor, a predileção comovente por as janelas e por as ruas, Bandeira estudava.
E estudava muito.
E estudava com dedicação e esmero metódico de historiador.
Lia relatórios, documentos de sacristia, livros e mais livros de historiadores de outros tempos e de além-mar e escrevia cartas para estudiosos e bibliotecas mundo afora.
E Bandeira não se contentava apenas com a pesquisa documental e livresca, ele viajava.
Interessava-se por arquitetura, música, balé, pintura, violão, desenho, escultura e conversas do homem da rua.
E o melhor de tudo, era um incansável operário da palavra.
Lia um livro, escrevia sobre ele.
Via um quadro, uma escultura, um desenho e lá ia Bandeira escrever as suas impressões sobre a obra e o artista.
Não importava se um livro novo de Mário ou de Drummond, uma tela de Portinari, um mural na parede de um bar, um estudo sobre Mallarmé -- e esbanja o seu francês!--
e outro sobre Gonçalves Dias, um encadernador obscuro, um desenhista, o balé de Nijinski -- ele viu deuses dançando!--,
um encontro casual com Rosa.
Bandeira interpretando o Brasil e de um jeito impossível da gente esquecer.
A o escrever sobre Guimarães Rosa, por exemplo, confessava que ainda não havia lido Grande Sertão, porque andavam dizendo que ele tinha inventado língua nova e que não gostava de língua nova.
Mas depois se rendeu ao sertão de endoidecer de Guimarães.
E falou das labutas de Rosa com texto para jornal e outras delícias e arremata com uma cantiga para acariciar a genialidade de Rosa:
«Depois de ler você a gente fica com vontade de cantar aquela musiquinha ...
Eu sou pobre, pobre, rema ré ..."
Quem é que esquece isso?
E apesar dos pulmões comprometidos por a tísica (tuberculose), da qual felizmente se curou, o homem tinha fôlego e tenacidade.
Em os Estudos Literários lá estão Apresentação da Poesia Brasileira, das produções dos catequistas da Companhia de Jesus aos modernistas, sem esquecer os poetas bissextos, aqueles que publicavam esporadicamente.
E Bandeira investiga verso a verso a autoria das Cartas Chilenas (Tomás Antônio Gonzaga x Cláudio Manuel da Costa), chegando à conclusão em sua prova de estilo favorável a Gonzaga.
Um magnífico estudo sobre Mário de Andrade, o animador da cultura nacional, e vários outros pontuais sobre questões recorrentes no autor de Macunaíma, como a questão da fala brasileira.
Entre outros estudos de fôlego, só para citar alguns, versificação em língua portuguesa, os pintores holandeses no Brasil, Ouro Preto e um primoroso perfil de Aleijadinho.
E Bandeira era um leitor muito atencioso, a ponto de descobrir deslizes em Proust.
Ele também nos apresenta um genial artista pernambucano chamado Manuel Bandeira.
Epa! E não é elogio em boca própria.
Pelo contrário, Bandeira revela o trabalho de um xará, desenhista cujos traços são cobiçados por o poeta -- também amante do desenho.
Bandeira chega a afirmar, forçando o traço, que trocaria toda a sua versalhada romântica por seis desenhos do outro Manuel.
Em essa prosa de Bandeira, bairristamente, notei apenas uma incorreção histórica, quando menciona a capital de Goiás, na crônica O «Nosso» Saint-Hilaire, em que fala das viagens do naturalista francês por o sertão brasileiro.
Talvez, quem sabe, culpa da fonte de pesquisa (textos de Saint-Hilaire) ou pequeno lapso do poeta -- coisas da pressa de quem escreve para jornal, tropeços de revisão, lá está «Boa Vista, então capital de Goiás», que nunca ouvi falar, quando na realidade queria se referir a Vila Boa de Goiás, antiga capital da Província e do Estado, hoje apenas Goiás -- também conhecida como Goiás Velho --, patrimônio da humanidade.
Em as suas prosaicas escrevinhações Bandeira debruça o olhar sobre a imensa janela do Brasil de seu tempo e de outros tempos e vai lustrando o espelho de nossas artes e artimanhas.
Muito bom viajar com Bandeira por as crônicas da Província do Brasil, ouvir a sua sensível Flauta de Papel perenizada nas páginas dos jornais e segui-lo nos vôos brasileiríssimos de Andorinha, Andorinha (publicação póstuma, organizada por Carlos Drummond de Andrade), com aquela vontade de um de seus versos batendo asas de andorinha no corpo da gente, passar a vida à toa, bestando, bestando com a riqueza nossa de sua prosa que também dá em poesia.
Número de frases: 84
Curitiba já foi conhecida por causa dos topetes que parte de suas moçoilas decidiram usar quase que como um uniforme, há alguns anos.
Já o topete que está em voga por esses dias na cidade vai estar na cabeça de rapazes que costumam chegar à capital paranaense em determinadas épocas do ano.
Em a verdade, dependendo do bar ou show onde você estiver em Curitiba, em qualquer época do ano vai dar de cara com esses rapazes com seus topetes em plena forma, ligados numa música inspirada no rockabilly e que também empresta elementos do punk.
Eles são psychobilly -- fãs de um estilo musical que existe da fusão do rockabilly com punk, letras inspiradas em filmes trash de terror e ficção científica.
Uma turma espalhada por o Brasil que aproveita o feriadão de outubro para dar um pulo em Curitiba e curtir o show de suas bandas preferidas no Psychobilly Fest, festival cuja décima segunda edição acontece agora, nos dias 13 e 14 de outubro, com as bandas Ovos Presley, Kães Vadius, Sick Sick Sinners, Chernobillies, Capotones (DF) e Big Nitrons (SP), The Brown Vampire Catz (Londrina-PR), The Rising Scum, Voodoo Stompers (SP) e Freak Phantoms (Londrina-PR).
Vem gente de todo canto do Brasil encontrar os psycho curitibanos.
Em a capital paranaense estão alguns dos principais grupos brasileiros do estilo, além de dois festivais muito importantes -- o Psycho Carnival é o outro.
Em a festa de outubro, este ano não tem convidado estrangeiro.
«Se a gente fosse depender de banda gringa a cena de psychobilly hoje tinha morrido», argumenta Vlad Urban, um dos produtores.
«Psychobilly é muito mais que banda gringa, e ir num festival de psychobilly significa muito mais que ir ver shows.
É encontrar uma galera que tem os mesmos interesses, que gosta do mesmo tipo de música e que geralmente vive numa realidade diferente.
Fiz inúmeros amigos graças aos festivais de psychobilly», complementa.
O perfil este ano é de um encontro de gerações, diz o outro produtor, Wallace Barreto, que criou a mostra em 1996 -- desde a quinta edição Vlad subiu na barca e foi ele quem deu uma internacionalizada nas duas produções, por conta dos contatos feitos nos shows de sua antiga banda Os Catalépticos, referência nesse circuito, que encerrou as atividades este ano.
A previsão para 2006 dá conta só de " estrangeiros de outros lugares do Brasil ":
são esperadas umas 300 pessoas.
O pessoal vem num pique que não sofreu o menor abalo com o susto do ano passado, quando, no show da segunda banda, o bar foi tomado por fiscais e policiais e embargado.
«Fomos para outro bar e deu tudo certo.
O pessoal ainda se divertiu», lembra Wallace.
«O legal é que é uma grande família, independente do porte do festival, tem uma identidade da cena, o que era também uma das nossas intenções."
Para facilitar a produção, em breve os produtores vão também tentar leis de incentivo.
«Queremos fazer algo mais legal ainda.
Ano que vem é edição 13, número bem emblemático para o rock ' n ' roll», adianta ele, que este ano tem apoio da rádio 91 Rock, Chinaski Bar, Livrarias Curitiba, Dr Rock, Hotel Brasília, Olsen e da produtora Pavement.
O começo
O primeiro Psychobilly Fest foi no Bar do Meio, um desses lendários bares «podrera» freqüentado principalmente por os punks em meados da década de 90 -- depois foi o Beatnik, já como palco para as bandas locais.
«Em a época era tudo na base da carta, fanzinão, e a gente já tinha o Transilvânia Express (N.R um programa de rádio para os fãs do estilo) e Os Catalépticos.
A intenção era fazer algo com perenidade», conta Wallace, lembrando que os festivais não passavam da terceira edição e ele queria um que fosse além da décima.
«Fazer algo não só para a gente, mas para as outras gerações, e que unisse a cena."
Wallace é acostumado a essa vida.
Toca em outras duas bandas importantes, a Ovos Presley e a Mecanotremata, além de ainda fazer parte da Psycho Classics.
Ele conta que mesmo sem as facilidades da internet, quando o festival nasceu já havia uma intensa troca de informações.
«A galera entrou no clima.
Foi algo bem mais do punk.
Tinha um pessoal descolado e o topete era a diferença, as afinidades sonoras eram grandes.
Era mais apolítico, mas bem cultural».
Se espalhando
E Londrina, que desde o começo teve representantes ativos nessa conversa, agora vai ter seu festival também -- ele já ganhou a divulgação de Wallace, que se mostra orgulhoso ao perceber as crias surgindo, fazendo valer toda trabalheira.
«É o Hellvelion, para aproveitar outro período de festas».
É o psycho avançando.
«Tem uma cena muito forte, com festivais também em São Paulo e Belo Horizonte.
E tem o Psycho Carnival, filho direto do Psychobilly Fest que nasceu em 2000.
Ele é até mais fácil para o pessoal de fora vir, por causa do feriadão», comenta o músico-produtor.
Agora Wallace está também com um estúdio e uma produtora, a UndeRockCwb, que já tem parcerias com vários bares e no domingo, promove uma mostra competitiva de bandas, no Porão Rock Club, mesmo lugar do festival.
A o final de cinco eliminatórias, um grupo ganha a gravação de um disco, e os demais, horas de ensaio no estúdio.
Wallace também está sossegado quando o assunto é espaço.
«Eu não tenho do que reclamar, desde o Lino's sempre tive lugar pra tocar.
É só se adequar à situação:
se tem boa vontade não tem equipamento, se tem equipamento falta boa vontade, é assim e a gente vai levando.
Mas o pessoal das bandas também é meio acomodado, quer só chegar e tocar.
Não, tem que panfletar, tem que se empenhar», ensina.
E tem outra coisa:
«Se está rolando no Faustão ou sei lá onde, não é a questão.
Não importa se tá bombando na imprensa, isso é psicológico.
Em esse sentido sou bem punk."
P.S.: Bom, então, só pra lembrar:
dias 13 e 14 de outubro, tem Psychobilly Fest XII.
Em o Porão Rock Club (Rua Carlos Cavalcanti, 1188), em Curitiba.
Em a sexta-feira, além do Ovos Presley, tocam Sick Sick Sinners, Chernobillies, Capotones (DF) e Big Nitrons (SP).
Em o sábado tem The Brown Vampire Catz (Londrina-PR), The Rising Scum, Voodoo Stompers (SP) e Freak Phantoms (Londrina-PR) e Kães Vadius.
Telefones para informações:
(41) 9951-0289, 9202-2410, 9156-7573 e 3324-8678.
Entrada:
antecipado a R$ 15 ou pacote para os dois dias a R$ 25.
à venda nas lojas Plan 9 (Omar Shopping) e Dr. Rock (Shopping Metropolitan).
Em a hora é outro preço.
E pessoas de outras cidades podem adquirir ingressos através de depósito em conta corrente.
Número de frases: 65
Informações sobre hotéis podem ser adquiridas na sessão últimas notícias do site http://www.underockcwb.mus.br/.
O Overmundo é o que poderia se chamar de espaço de expressão e expressividade construído e se construindo simultaneamente.
O legal é que as pessoas estão entrando, instigadas por amigos, colegas de trabalho ou turma e estão encontrando um universo inteiro à sua disposição.
Universo verdadeiramente criativo.
Morei em Tiradentes por um ano.
Lá eu conhecia proximamente de mim o padeiro, a esposa do padeiro, o vendedor de santos (que era meu vizinho, S. Roberval), o padre, a benzedeira, o delegado e o prefeito.
Esse espaço de cá, aparentemente frio e eletrônico, sem emoções, possui esse tamanho, o de uma cidadezinha de dez mil habitantes (Tiradentes tem cinco mil e quinhentos segundo o último censo).
A sensação que se tem é a de que conseguimos atingir mais gente do que realmente temos ao redor, se nos propomos ao conceito de reunir e dividir nossos saberes e sonhos, trocando-os com os outros.
Em uma cidade pequena, nosso voto tem mais valor, podemos exigir mais os direitos e temos deveres mais nítidos e precisos.
O Overmundo é uma cidadela dessas, que permite a discussão, a troca e até mesmo a realização do sonho de, pequenos que somos, nos tornarmos grandes em nossa unidade.
De que vale um terno de congadeiros sem capitão, cantorias, instrumentos, suor e dedicação.
Listado está aí a liderança, a praxis, os meios, a alma e o trabalho!
Eu faço música, o outro escreve poemas, aquela nos ressalta um povoado e suas características mais fortes.
Somos juntos uma cidadela que divide os saberes para possuirmos nossa força não numa escala de mercado que ostenta e busca somente o valor do dinheiro por ele mesmo.
Disse «somente» pois o dinheiro também tem valor, mas não pode ou deve ser nosso objetivo maior.
A troca sim, esta vale por si só se está a serviço, em prol, a favor de nossa populaçãozinha de dez mil Overmundenses.
Um abraço a todos!
Fabio " Campos A desinformação, enquadramento manipulatório por excelência, é uma arma intelectual, cujas conseqüências podem ser extremamente perigosas."
«Philippe Breton» Desempregado, 45 anos, publicitário, procura emprego."
O título poderia ser o pequeno anúncio de jornal recortado.
O jovem promissor, responsável por as incríveis criações que tornaram os nossos sonhos de consumo mais sofisticados, foi demitido no processo de reestruturação de pessoal de uma famosa agência de publicidade.
Dezenove anos de exclusividade.
Foram muitas desculpas, festas de despedida e um acordo indenizatório abaixo do desejado.
O homem retorna ao lar.
O porto seguro ganha novos contornos na família, fruto de um casamento de 21 anos.
A mulher, funcionária pública;
a filha, estudante de publicidade, e o filho adolescente compõem o quadro de pessoal vitalício.
O homem jurou fidelidade eterna diante do padre, celebrou cada nascimento, consagrou a felicidade na construção de uma intimidade densa ...
Os primeiros dias, o homem descansa dos tantos anos sem férias, deixa a mente livre para absorver os ruídos cotidianos, compra um carro novo, procura um advogado trabalhista para garantir o que é devido, busca o filho na escola, caminha na rua sem destino e sem horário ...
Mas os dias passam ...
A recolocação no mercado de trabalho parece inalcançável, surgem pequenos bicos.
O homem se retrai, sente um misto de vergonha e autopiedade.
Os amigos evitam seus telefonemas, a família tenta ampará-lo, mas o homem prefere os longos silêncios ...
Responde a todos os anúncios que não limitam a idade.
Já não escolhe emprego.
Seguindo conselhos de um casal amigo, o homem visita uma igreja «moderna» e é irremediavelmente seduzido por as cores de argumentação do pastor.
O rebanho sente-se seguro longe do «mundo».
As relações com o exterior são examinadas com cuidado e as verdades desveladas ganham traços de ficção:
mergulhos em piscinas de sangue, coroando as celebridades;
resgate de possuídos;
ruas de esmeralda e ouro para os convertidos;
pregações de ex-marginais testemunham a permanência de alguns símbolos da caridade mundial nas profundezas do inferno;
dízimos recompensados em dobro ...
A família o acompanha.
Freqüenta os cultos para fortalecê-lo, sente a integração com a comunidade de muitos que também passam por momentos difíceis.
O resgate da auto-estima e a prosperidade são cultuados nas intermináveis correntes.
O Senhor mostrará o caminho, o que estão passando é apenas o deserto do Senhor ...
Meses ...
Os bens são esgotados na sobrevivência.
O sobrado, os dois carros, as jóias ...
O patrimônio da família é ressecado no deserto divino.
A família batizada se transforma num exemplo a ser seguido, o homem desempregado é apenas um modelo de provação.
O promissor publicitário, acostumado à manipulação das palavras e imagens, deixa-se corromper nas palavras subliminares, perde a alegria e a capacidade de criação.
Tudo existe por determinação do Senhor!
As palavras divinas ...
O caminho da fé ...
O homem abandona os entretenimentos:
deixa de ouvir músicas, ler seus livros, assistir aos filmes do «mundo» ...
Toda arte é comprometida com as intenções do demônio, todas as pessoas que não freqüentam a Igreja estão fadadas à condenação divina.
O ex-publicitário passa os dias agradecendo a Deus por ter sido iluminado, já não procura emprego, não percebe a própria exclusão.
As palavras do instrumento de Deus ganham destaque em sua solidão, suportam seu afastamento, fragmentam suas emoções e percepções familiares.
A lucidez de sua filha, que deseja um futuro promissor, e as vãs tentativas da esposa de encorajá-lo a procurar a fé em si mesmo são o estopim para o grande rompimento.
A Igreja ou o mundo;
o senhor ou o demônio;
o inferno escaldante ou as ruas áureas do paraíso ...
A separação é articulada com muitas mutilações:
não foi por falta de amor ou outra pessoa ...
Ele perdeu a alma!
Encontrei, por acaso, mãe e filha na esquina.
Tinham o semblante entristecido e pareciam se amparar mutuamente.
A mulher expôs com lágrimas sua separação;
a filha, vacilante, sussurrou com a voz trêmula:
«Hoje o encontrei.
Estava com o olhar vidrado, parecia um louco ...
Não reconheci meu pai naquele homem ..."
Cruzei a rua com as tantas percepções, tropeçando nas ausências que as duas sombrearam na narrativa.
Espantada com os tons de surrealismo que costuravam a realidade.
As duas eram personagens dramáticas do absurdo e o roteiro prosseguia na fé incondicional do homem.
Os testemunhos eram reais, mas não havia argumentos para confortá-las.
Em o caminho do dia-a-dia, perdi o sorriso ...
Número de frases: 80
São Paulo, segunda feira, oito horas da noite, região central.
Saio da aula na faculdade de Ciências Sociais na rua General Jardim e vou até uma papelaria na Cesário Mota para tirar cópia de um texto.
Como há várias folhas e apostilas aguardando na fila (ou pilha) sua vez de ganharem um par idêntico, vou passar o tempo no sesc consolação.
Continuo por a Cesário Mota, dobro a Consolação e entro imediatamente na Maria Antônia, sigo e entro à direita na Dr. Vila Nova.
Entro na sala (que insistem em chamar hall) de convivência e está ainda no início uma apresentação do Edvaldo Santana, o que para mim foi uma boa surpresa.
Um bom músico, poeta popular e das popularidades, acompanhado de seu violão e de um outro músico com vários instrumentos de percussão que eram tocados um a um.
A uma certa altura da apresentação, o artista fala de quando pegava o trem da linha variante para ir ao trabalho e começa um som meio samba, meio blues que fala deste cotidiano, passando em música por as estações de Trinidad, Itaim, Calmon Viana, Itaquá, Aracaré, Engenheiro Goulart e Mané Feio.
Provavelmente, muitos dos que estão ali nunca passaram por estes locais de parada, morada e descanso.
Eu conheço um pouco.
Já ambientado, pego uma revista para saber da programação do mês.
Vejo uma matéria que trata da cultura popular frente às novidades tecnológicas e o perigo da massificação, perguntando:
sobreviverá a cultura popular?
Continuo ouvindo o Edvaldo enquanto vou pensando:
sobreviverá?-- sobrevive!--
revive!-- transforma!
Ver o Edvaldo ali, tão simples quanto bom, é uma prova disso.
No entanto, isto ainda não é o bastante.
Fico com o tema da matéria na cabeça.
às nove saio, faço o mesmo caminho só que no sentido inverso, pego minha cópia, sigo para a faculdade e, já desencanado da aula onde há uma discussão teórica sobre o capitalismo monopolista de Estado, aceito o convite de um amigo para uma cerveja.
Meia hora num papo leve, agradável e levanto, cumprimento -- «até amanhã» -- e sigo para a Praça da República onde entro no metrô, depois no trem e depois no meu apartamento, em Itaquera.
Outro «Ita» bem distante, assim como Itaquá, Itapecerica etc.
Com o tema ainda na cabeça, lembro de várias coisas, desenvolvo raciocínios durante o caminho.
Tenho em minha cabeça que se trata de um paradoxo:
de um lado há os que vêem estas novas tecnologias apropriadas neste processo de massificação das culturas transformando tudo em comércio ou vendendo um tipo único, padrão, de comportamento e cultura;
de outro, há quem enxergue estas novidades, principalmente a internet, como uma forma de democratização da informação e expressão.
Em este último caso, uma das maneiras de viabilização seria o incentivo estatal para ampliação desta participação.
Sem querer entrar na questão de «a quem serve o Estado?»,
digo que é preciso criar formas de ampliação da participação «por baixo» -- entendendo o «por cima» como sendo os conglomerados que detêm a maior parte dos meios de comunicação --, estimulando a expressão popular, a cultura popular ou os modos regionais, pois a cultura se faz no dia-a-dia, em nossas experiências, no que temos em comum.
A valorização da vida cotidiana é fundamental como estratégia de resistência a possíveis tendências de padronização, pois a troca, o conhecimento das tecnologias só faz as experiências aprimorarem, sem perder sua originalidade e peculiaridades.
Poderia citar inúmeros exemplos em que, mesmo sem acesso às tecnologias, o povo inventou, improvisou e adaptou.
O povo é criativo, e não acomodado.
Vive numa corda bamba:
abre espaços, improvisa, usa do «jeitinho» em meio às condições de vida que lhe é imposta.
Imagine este mesmo povo tendo condições reais de participação.
A ação dos movimentos populares, neste sentido, mostra-se fundamental.
Assim como o Edvaldo segue por a variante de Itaquá com rap, pagode, salsa, rock, reggae, xote, coco e blues, sigo eu por as variantes de idéias na observação e vivência das ruas do centro e da periferia.
Segue também você seus caminhos variáveis e outro acolá.
Todos variando, desviando da estrada massificada e buscando, criando ou reinventando alternativas de percursos a quem nos acompanha.
Melhores alternativas, porque reais e vivas.
Número de frases: 39
(publicado no sítio Recanto das Letras e citado no blog Pula o Muro) Vamos à PARTE 2 da entrevista HUMBERTO ESPÍNDOLA:
O Dono DOS Bois!
Se você não leu ainda a PARTE 1, a hora é está!
A conversa rendeu duas noites de muito trabalho para decupar o bate-papo.
Por isso, dividi a entrevista em duas partes.
A conversa abaixo está sem cortes e como rolou naturalmente o encontro.
Com vocês, Humberto Espíndola (parte 2)!
... em termos culturais o grande momento que se espera para o Brasil é do casamento do interior com o litoral.
Porque o Brasil foi um país litorâneo colonizado.
Até o que existe de mais interior que é Minas Gerais, a cultura barroca mineira acontece porque o ouro lá foi um ouro debaixo da terra, um ouro de minas.
Então teve de ser demorado para cavar e deu tempo de surgir um Aleijadinho, de fazer todas as igrejas barrocas, de construir a civilização mineira.
O nosso ouro não!
Foi um ouro de aluvião.
Um ouro rápido de 50 anos que apareceu em Goiás, Mato Grosso e Cuiabá e acabou.
Ficou a solidão.
A borracha foi a mesma coisa na Amazônia.
Ficou a solidão.
O vazio.
Então se espera que esta geografia brasileira com a sua população, com as coisas que sobraram do seu mito, com a sua curtição, com a sua reflexão solitária de interior de Oeste, ela venha a dar esta contribuição e realmente se case com o litoral.
Seja recebida por o litoral.
Aí surge esta filha que é a verdadeira cultura brasileira que todos nós torcemos ainda como uma utopia.
Em este sentido nossa parte de artes plásticas e musical nós fizemos.
Nós temos pouco a pouco dado a nossa contribuição.
O Amazonas também.
Nós estamos querendo emplacar os nossos bugres.
Um dia vamos emplacar tudo isso.
-- Você acredita nisso?
Vai.
Porque o caminho é este.
Nós não somos um bando de bugres?
Nós temos emplacado alguma coisa?
Historicamente nós existimos.
Podemos não existir provisoriamente, agora, por enquanto.
Não sermos visto porque não há um interesse político de nos ver, nem um interesse político local em nos projetar.
Não foi visto esta importância cultural.
Você está se referindo ao MS ou ao Brasil?
De os dois lados.
Porque tinha que ser dos dois lados.
Agora, alguém tem que provocar?
Porque na minha área quando saí com a minha obra debaixo do braço e fui aos lugares certos, que eram os salões e críticos de arte, fui aclamado e premiado.
Agora. Passou o meu tempo.
Existe um tempo de currículo.
Saí do anonimato a um tipo de generalato, que foi a Bienal de Veneza.
Depois disso veio para mim o vazio igual a crise do ouro.
E tive que voltar, reflexionar e construir uma coisa sólida.
Ou teria que me mudar e vocês nem estariam falando com mim hoje.
Faria igual ao Roberto De Lamonica que mudou-se para Nova Iorque, morreu e deixou a obra lá.
Considerado um dos maiores gravadores do mundo saiu de Ponta Porã aos 16 anos.
São opções que você faz na vida.
Eu não.
Gosto da opção que fiz.
Gosto de ver toda esta arte dos dois estados que ajudei a botar adubo com a minha mão, que ajudei a colher as flores e mostrar estas flores.
Então esta coisa de sair de Campo Grande e trocar de Capital quando veio a Divisão que estava escondida, que ninguém pensava que ia acontecer e o Geisel faz a divisão, o que aconteceu?
Em Cuiabá que achava que perder o Sul do estado era um desastre econômico, porque só aqui iria crescer e que eles iam ficar só com mato.
Teve um impacto dramático.
Os vultos históricos, Dom Aquino, Pedro Celestino, Candido Rondon foram todos cobertos de preto.
Parecia uma peça de Shakespeare na hora que Julieta morre.
Em o outro dia a cidade amanheceu de luto.
Isso teve um impacto em mim.
Eu estava lá.
Quando aconteceu a divisão você morava em Cuiabá.
É isso?
Eu estava morando lá na minha Capital do nosso Estado.
De repente ela não era mais.
Tinha uma outra Capital.
A minha cidade estava lá.
Como que ia pedir demissão do serviço e sair que nem um louquinho para vir aqui soltar foguete em Campo Grande, hastear bandeirinha, correr nos pés do Harry Amorim e falar me dá um espaço, me dá um espaço ...
Será que as pessoas reclamam isso de mim?
Não. Mudei para cá dois anos depois.
Estava de volta ao meu estado, com as pessoas cheias de ambição e, vi isso, os espaços tomados.
Espaços que antes a gente tinha começado.
Como um esquecimento.
como se a História não valesse nada.
como se Mato Grosso do Sul tivesse começando também naquele momento.
Foi a grande confusão na busca da identidade que na verdade a identidade existe desde que você nasce.
É a sua história.
A identidade do Mato Grosso começa no Sul.
Aí eles procuraram uma identidade que vinha simplesmente do rompimento.
Uma identidade a partir da canetada que o Geisel deu e dividiu este estado.
Que só meia dúzia de nomes sabiam.
E ficou com este nome de Mato Grosso do Sul de teimoso.
Então o que te revoltou foi a maneira e não a divisão em si?
Foi a maneira.
E é esta maneira satírica que está na minha obra.
E deveria ter mudado para Mato Grosso do Norte?
O Mato Grosso não quis se chamar do Norte porque sempre foi Mato Grosso.
Porque ele iria mudar para Norte?
Nós é que não deveríamos ter sido chamados de Sul.
Em a época você achava isso também ou foi posterior?
O Geisel pensou melhor que todo mundo.
Ia ser Estado de Campo Grande.
E aí meia dúzia de pessoas daqui que sabiam ficaram com medo de deputados de Dourados e Corumbá de terem ciúme do nome Campo Grande e isso criar alguma coisa que o Geisel voltasse atrás.
Porque todo mundo tinha medo de milico.
Então não queriam nem contrariar.
Mas eles tiveram algumas reuniões secretas e ' para agradar então Corumbá e Dourados tem que tirar o nome de Campo Grande '.
Porque seria maravilhoso.
Aqui é uma terra de campos grandes.
E seria capital Campo Grande.
E é a cidade mais poderosa, ela é um terço do estado.
É igual Buenos Aires para a Argentina hoje.
Não tinha nada demais o Estado ser chamado de Campo Grande.
Mas não.
Quiseram acomodar a situação e inventaram este Mato Grosso do Sul.
O Geisel deu uma de Pilatos e falou ' bom, então lavo as minhas mãos '.
Mas também não desagradou ninguém e foi uma coisa que rapidamente concordaram e acertaram com o ministro.
Quem são estes políticos que você está se referindo?
Eram os nossos coronéis.
Não vou falar o nome de eles.
Estão todos vivos.
Só morreu o Paulo (Coelho Machado).
Mas todos eles tiveram esta importância do nome ter ficado assim como Mato Grosso do Sul.
Hoje não ligo mais.
Sempre fui mato-grossense e não estou nem aí.
Sou aquele que não fala do Sul para ninguém.
Você se desgastou quando abraçou a causa de mudar o nome de MS para Estado do Pantanal em 1999?
Me desgastei.
Claro. Mas fiz.
Tive coragem de assumir.
Sempre fui um homem de cultura.
Faz parte da história o meu desgaste.
Não sou imortal.
Como você analisa este movimento para o 1 % do orçamento da prefeitura de Campo Grande para a cultura?
É uma conquista que vai ser conseguida porque não tem como evitar.
É igual a uma criança.
Você engravidou?
Esta criança vai crescer no seu útero.
A não ser que você aborte.
Mas não tem como você abortar um filho, principalmente se é um filho da cultura.
Quanto se esperou esta gestação?
A gestação longa que vem há 40 anos.
Ela não vai ser abortada mais.
Não tem mais jeito!
Tomara que nasça um gêmeos, trigêmeos e que possa aparecer algo que nos levante uma bandeira.
Quantas vezes nós temos tentado ser alguém para o Brasil?
Encontrar a nossa linguagem para contribuir na cultura brasileira.
Quando fui secretário busquei o plano de identificação ameríndia e depois o Zeca fez os festivais em Corumbá com esta visão de integração da América do Sul.
O André Puccineli não desmanchou esta idéia.
Porque é uma idéia vitoriosa.
Predestinada. É uma idéia da História.
Porque a história também começa a se escrever e depois ela se torna irreversível.
É como uma semente que é lançada e ela vai brotar.
São coisas da nossa história que vem lá dos tempos pré-colombianos.
Que é a nossa posição.
Estes rios, os povos mbaya e guaicuru, eles já tinham um destino de misturar as tribos, de fazer um comércio entre os Andes, estas terras e o litoral.
Já tinha tido uma Peabiru, que saiu de Machu Pichu e foi até São Vicente, isto antes de Cabral chegar.
São coisas que estão escritas na Terra como marcas, escrituras.
Elas vão acontecer mais cedo ou mais tarde, porque nós dentro do tempo da história não somos ninguém.
Não é nada 40 anos de Bovinocultura.
Vai depois que eu estiver morto há 50 anos, analisado por algum crítico de arte do futuro, ' pô o cara levou quatro décadas fazendo isso ' e vai fazer uma análise.
Os erros e os equívocos acontecem.
A crítica de arte também não é infalível.
Mas existe a História.
E a história ela marcha determinada.
Mais cedo ou mais tarde os fatos históricos se revelam.
Ainda hoje estão procurando a tumba de Jesus e os Novos Evangelhos, tem dois mil anos.
Mas a História é implacável.
Ela chega lá e levanta os fatos.
A História é o berço do artista!
É a nossa única salvação porque a gente sabe que está fazendo alguma coisa e que um dia não vai ser esquecido.
Porque a arte é imortal!
A arte é imortal.
E se você é um bom artista.
Se você sabe que o que está fazendo presta.
Você tem que ter confiança em você.
Por isso, que a história resolve para você.
Eu não estou preocupado com a minha fama agora.
Eu to preocupado com o meu padrão de vida, em viver bem, com a minha a saúde, com a minha pintura, com o que eu vou deixar para a posteridade.
Como está a sua situação hoje?
O seu metro quadrado custa R$ 8 mil.
É verdade?
É.
Claro que às vezes você tem que fazer abatimento, a prestação ...
Sou um dos poucos artistas (de MS) que tento manter um padrão de mercado.
Em a hora que estou sem dinheiro, vou num banco, faço empréstimo para não vender o quadro mais barato do que é porque seria um desrespeito com aquilo que eu propus.
Demora muito a ser criado o mercado de arte e tem que ser mantido.
Para surgir galerias como surgiu, a presença da Mara Dolzan quando ela chegou aqui ela fez um trabalho em cima do mercado de arte, suspendeu o preço.
Agora, os artistas, nós, somos muito provincianos.
Os artistas da terra viveram sempre com muita dificuldade.
Muitos tiveram que vender quadro para pagar a conta de luz.
Isso não é só aqui.
Em Cuiabá também.
Outros para sustentar pequenos vícios, suas cervejadas, suas cachaças ...
Que ninguém é de ferro.
Isso é normal.
Em o passado também na boemia francesa Picasso também pagava a conta do restaurante com desenho.
Mas lá dava.
Vou eu aqui fazer isso e sair sem pagar a conta para ver o que acontece com mim.
Não adianta ser Humberto Espíndola nesta hora.
Senão eu usaria tudo na permuta aqui.
Que seria meu sonho.
Eu consigo algumas vezes.
Mas eu deveria afinal meu dinheiro é a minha arte.
Deveria estar vivendo pelo menos mais confortavelmente, ser capas de trocar imposto de IPTU por obra de arte, isso deveria ser todo o direito do artista.
E deveria ser também um conceito político.
Afinal de contas a categoria artística é tão pequena dentro da sociedade que não tem nada demais se ela fosse mais bem reconhecida.
(toca celular) ...
Vamos acabando ...
O que mais que você não entendeu da Divisão?
Entendi um pouco mais ...
Eu pintei algumas coisas da Divisão por aqui, mas aqueles quadros dramáticos ...
Foi um rompante ...
Graças a Deus porque senão ela não teria tido este sentido.
Teria ficado fria.
Qualquer co-pintura que tenha o elemento da alegria pode ficar palhaça.
Você acha que o boi hoje ainda representa aquele símbolo que você elegeu na Bovinocultura?
Ainda é e cada vez mais forte.
Em aquela época eu o via como um símbolo regional.
Tinha uma inversão de valores.
De certa forma eu via o boi como alguma coisa que tinha embrutecido a nossa sociedade.
Hoje eu o vejo de uma forma que enriqueceu a nossa sociedade.
Eu satirizava que a sociedade que vivia das ' benesses ` do boi não via estética plástica neste animal.
Então eu o pintei de certa forma que depois eu fui estudar melhor a sua estética.
Isso aconteceu também com o aperfeiçoamento das raças.
Em estes 40 anos do nelore do boi do tucura nós saímos para o nelore de milhões de reais que estão nos leilões e que todo mundo fala que lindo.
Aparece na televisão cheio de luzes e cores.
É um boi-show para o leilão-show.
Tudo isso mudou também.
Hoje uma pessoa que cria gado fala ' ai que vaca linda, que touro maravilhoso '.
Em o tempo que eu comecei ninguém achava bonito e nem queria saber de botar um boi na parede.
O cavalo tinha o direito de freqüentar a parede, mas o boi não tinha.
Então era essa uma das minhas batalhas estéticas.
Buscar, devolver este status de beleza ao animal que é belo e que a História da pintura o consagrou.
Que outras civilizações no passado o compararam e fizeram o símbolo de Deuses é porque certamente o acharam bonito.
Em a história da mitologia indiana a vaca é a mãe do universo, por isso que a Via Láctea chama-se Via de Leite porque é o leite que espirrou da teta da vaca que pariu o universo.
Aqui não.
A vaca era um animal rude dos campos que roubava o tempo e que criou um bando de fazendeiros, mas que são hoje os avós de uma sociedade mais requintada.
É um pessoal que juntou dinheiro e consolidou o homem na terra e politicamente este estado.
Tudo veio do boi.
Hoje o MS tem 30 % de residentes de fora do estado.
Isso até a década de 80 eu acredito que era o inverso.
Em este sentido estamos começando a ter o sul-mato-grossense de verdade.
E agora?
O sul-mato-grossense está aí para ser definido.
Eu acho que tem muita gente faltando porque é um estado difícil.
Quem é o sul-mato-grossense?
Ele está num período de transição.
Temos que nos definir melhor.
Nossas raízes, nossas bases foram plantadas.
Agora, estamos naquele período da estiagem.
Temos que esperar para ver o que vai acontecer.
Se as chuvas serão boas, se a safra vai ser bem colhida, se os frutos não vão ser mirrados ...
Estamos indecisos porque também existe a mídia nacional.
A influência da globalização.
Tudo isso são fatores fortes que não podemos isolar e nem podíamos prever a 40 anos atrás.
Um movimento musical forte.
Que uma rede de televisão ia entrar na casa de todo mundo e tirar o sentido que nós tínhamos de isolamento.
Nos tirou.
Quer dizer. Os de fora chegaram até nós.
Mas nós não fomos até os de fora.
É verdade que você está indo morar no Rio de Janeiro?
Sempre sonhei em ter um ateliê no Rio de Janeiro.
Tenho em Campo Grande e Cuiabá.
Picasso teve ateliê por a França inteira.
Ficar só em Campo Grande é difícil.
Quero reduzir meu espaço aqui, dividir este espaço com o Rio, pintar e circular um pouco.
Uma coisa é se mudar e outra coisa é montar uma base por lá ...
Pretendo montar esta base.
Tenho meu escritório de arte aqui que é o meu escritório de produção.
Que é uma coisa que to trabalhando com projetos culturais e leis e que é uma saída para a cultura e para as artes.
Uma saída técnica de trabalhar fora do governo e ter como você colaborar, prestar serviço numa coisa que entendo.
Também não vou jogar isso por a janela.
Afinal vivi minha vida inteira aqui e não vou deixar Campo Grande.
Uma base com estrutura e um relacionamento forte com a sociedade.
Isso existe e é definitivo.
Agora, quero abrir novas portas para mim.
Tem artista que abre a porta, simplesmente sai de casa, e bate a porta para trás.
Não vou fazer isso.
Mas quero abrir outras portas.
Estas cobranças que me fizeram antes, pretendo agora dar satisfação. '
Porque que ainda você está aqui? `
ou ' porque não foi para os Eua? '.
Não sei.
Nunca tive estes planos.
Tive um plano de trabalho que realizei.
Agora me sinto mais libertado deste plano de trabalho, meu olhar está voltado para o futuro.
Embora esteja com 64 anos.
Aquela bíblia ali não tinha antes em sua sala.
É.
Realmente voltei as minhas raízes religiosas e me ajudou muito neste sentido de me tornar mais espiritual.
Mais seguro.
Sinto Deus mais próximo da minha vida.
Mas o que aconteceu para voltar este lado mais religioso?
Sempre fui, mas andei por várias religiões.
Fui monge do Rajneesh, recebi sânias, estive na Índia, fiz meditação transcendental, trabalhei com o Maharishi (Mahesh Yogi) que foi o guru dos Beatles, depois fui para a Seicho-em o iê, comecei a estudar candomblé ...
Agora descobri mais uma vez Jesus na minha vida.
E tenho com muito orgulho.
Só que você sofre muito preconceito das pessoas se você se tornar crente, devoto.
As pessoas querem ver só você ir à missa fazendo pose, vestido bem arrumadinho, passar aqueles 40 minutos lá escutando mais ou menos uma coisa ou outra e ir para casa correr para seus afazeres, suas cervejas, churrasquinho, cinema, seus pecados ...
Então é mais bonito do que ler a Bíblia, ou pensar em Jesus ou falar seriamente sobre o Evangelho.
Para as pessoas é isso.
Agora, o fato de ser artista para mim só melhorou.
Porque antes não tinha várias musas e hoje a minha musa começa a ser Deus realmente.
Uma coisa mais sagrada.
Encontrei uma posição mais sagrada para a minha cultura e é por isso que eu estou mais calmo.
E por isso acho que a minha pintura está mais bela e mais madura e mais espiritualizada.
Porque é o meu caminho.
É o caminho do espírito.
A arte é a espiritualização.
A estética é algo do espírito.
Não é da matéria, que é a plástica.
Mas a essência, aquilo que ela passa, que vem de dentro, e muita gente não consegue, que às vezes faz uma arte engessada, borrões que não conseguem passar nada para ninguém.
Em este ponto não sou nada modesto.
Acho que faço uma grande pintura porque ela tem alma.
A entrevista se encerra e começamos a conversar.
Pergunto então, " Até que ponto a Aline Figueiredo é responsável por o que saiu de seus pincéis?"
e o Humberto desanda a falar.
Resolvo religar o gravador, pois é uma ' provocação ' importante ...
Humberto -- ...
ela influenciou para eu ser artista.
O nosso encontro me fez optar por a arte.
Primeiro porque ela pintava.
E o dia que ela entrou na minha casa e viu minhas pinturas, foi quando ela me conheceu, ela falou ' encontrei quem estava procurando '.
Ela voltou e queimou todos os quadros de ela.
Isso no início de 1966.
Este fato forte de ela falar ' você é o pintor que estava procurando, porque eu pintava para fazer movimento.
Para carregar a bandeira, agora achei o pintor '.
Em este momento teve o divisor de águas.
Ela passa a ser mais teórica.
E eu passo a cumprir na prática aquilo que ela viu de talento.
Então ela foi super importante como companheira, como decisão, pacto ...
Não podia fazer um pacto de sangue sozinho.
Fiz com ela.
De ficar aqui, permanecer, jogar, projetar o estado ...
Isso foi uma coisa que nós começamos juntos.
Claro que depois a vida vai colocando distanciamento.
Os fatos históricos vão acontecendo.
Ela foi permanecendo mais em Cuiabá, foi se tornando mais escritora, mais pesquisadora e eu fui por os meus caminhos.
Mas você acha que dentro da Bovinocultura a Aline Figueiredo estava segurando a sua mão no comando do pincel até que ponto?
Ela nasceu no Pantanal.
Tinha a experiência vivencial da vida rural.
Os pais fazendeiros.
Vi todos os problemas que ela teve com a família para ser crítica de arte, para ter um namorado artista, ela enfrentou um milhão de coisas e vi bem a sociedade do boi o que era com o artista.
E de ali mesmo pude fazer as minhas críticas.
Dentro de casa, da própria família, do meu próprio noivado.
Saí com as críticas e com os temas todos.
Porque ela foi uma pessoa que saiu do Pantanal para ser crítica de arte.
Um fenômeno.
Eu saí de uma família de gaúchos, funcionários públicos, para ser o principal pintor do Estado.
Mas era assim que estava escrito.
Você é o verdadeiro fazendeiro deste estado.
Já me chamaram, porque aqui morou os principais fazendeiros neste quarteirão.
Só se eu for como o Drummond, fazendeiro do ar, os meus bois são de pano.
Seus bois vão ficar para sempre e os bois deste pessoal aí vão sumir.
Não é?
É.
De uma certa forma sou fazendeiro.
Carlos (parceiro de Humberto) fala alguma coisa relativo à Aline Figueiredo e Humberto volta ao assunto ...
Humberto -- A Aline foi o aplauso que precisava.
Em uma terra que ninguém entendia, se não a tivesse para falar ' ai que lindo, que maravilha que você está fazendo ', não teria ido adiante.
A obra de arte só existe entre duas pessoas.
Entre o que faz e o que vê.
Se não existir estas duas pessoas, não existe arte.
Então nós no meio daquela solidão, daquele marasmo cultural, éramos nós dois.
Falo em relação à Aline no sentido de ela instigar o artista Humberto.
Não estou falando que sem a Aline o Humberto não seria Humberto Espíndola.
Não é isso!
Acho que sem o Humberto Espíndola a Aline não teria escrito ' A Propósito do Boi '.
Que ela considera o principal livro da vida de ela.
E nem por isso é um livro de arte sobre a minha arte porque nunca permiti que ela fizesse por o fato de ela ser minha esposa para evitar falatório.
Não precisa.
Fui descoberto por outros críticos, não foi só ela a minha crítica.
Todos os críticos brasileiros me elogiaram.
Ela foi a minha companheira.
Em os momentos difíceis, na Bienal de São Paulo que precisei gastar fortuna para montar aquele ambiental, ela me ajudou.
Ela era aquela companheira.
Mas não para dar palpite.
Número de frases: 366
Eu que a Um fenômeno interessante tem movimentado a cena cultural matogrossense nos últimos anos:
o surgimento de núcleos coletivos de atuação, produzindo e distribuindo conteúdo criativo.
A tendência de agrupamento de pessoas em torno de projetos coletivos parece que tem sido uma reação aos velhos modelos de negócios que por muito tempo estimularam os comportamentos individualistas ditando os princípios norteadores do maisntream.
Esses modelos se mostram ineficientes diante do novo quadro que surge:
uma explosão de novas possibilidades de transmissão, de distribuição, enfim, da criação de novos espaços para a difusão da produção de conteúdo que se expande cada vez mais e que, naturalmente, busca encontrar eco.
A Fábrika é um coletivo multicultural que surgiu em Cuiabá, no ano de 2005, com o intuito de atuar em rede com produção criativa, distribuição e formação de pessoal, visando a implementação de um mercado local e a inserção de obras e pessoas no mercado global com capacidade de auto-gestão e sustentabilidade.
É uma rede de trabalhadores da arte e da criação, formado por pessoas que assumem a produção cultural como um modo de vida.
Idéias e produtos sendo criados dentro de uma perspectiva de mudança dos velhos modelos de negócios e gestão.
Auto-gestão sempre foi fundo das questões desse grupo de trabalho que viu, a partir do desenvolvimento de novas ferramentas na web, possibilidades de conectar experiências e compartilhamento da criação de conteúdos.
A prática do grupo sempre foi a de trabalhar com estruturas abertas, seja no conceito de obra artística, seja na concepção de novos modelos de comportamento social, baseando-se nos princípios de liberdade de expressão e responsabilidade política e social.
A união de dois companheiros, Eduardo Ferreira e Claudio Oliveira, somados a André Balbino, Capileh Charbel, Paola Zanetti, Rodrigo Agnolon e Thiers Ferreira, foi a maneira encontrada para viabilizar o início do negócio, provocando a fusão entre a agência de publicidade, Trup Design e a A&G Intermídia, que tinha como foco a produção cultural.
Já no primeiro ano de atuação, em 2005, A Fábrika conquistou importante papel na cena cuiabana.
É preciso ressaltar que as pessoas envolvidas já mantinham intensa atividade cultural na capital matogrossense desde os anos 80 (com Eduardo, Capileh e André, do núcleo Caximir, um dos pilares de sustentação da arte urbana em Mato Grosso, que começava a ensaiar os primeiros passos naquela década).
Logo no princípio o coletivo conseguiu viabilizar parcerias importantes como com o Espaço Cubo, na produção do Festival Calango, ano em que, literalmente, repercutiu em todo o país e teve participação de público recorde na história do evento com cerca de 12 mil pessoas em 3 dias de intensa movimentação cultural.
A Fábrika trouxe seu comportamento multicultural para dentro do Calango ampliando as ações do festival para outros segmentos artísticos como o audiovisual, literatura, skate, cultura hip hop, performances, exposição documental da história dos mais de 20 anos de rock em Mato Grosso, enfim, deu grande contribuição para o Calango.
Em esse mesmo ano, 2005, A Fábrika conseguiu recursos do Fundo Estadual de Cultura para a produção de um vídeo-documentário:
«Uma vida sobre as águas», na ordem de R$ 37.000,00;
prestou muitos serviços para projetos culturais de terceiros na produção de design gráfico, web design, produção de spots para rádio e vídeos para veiculação em TVs;
o faturamento no ano foi de R$ 95.666,92.
Apesar de um quadro de pouco crescimento econômico no país em 2006, o negócio experimentou um impulso para que a iniciativa continue:
o faturamento global do coletivo atingiu a marca de R$ 122.385,50.
Além do núcleo inicial, hoje, somam-se ao grupo (sempre de maneira informal -- free), Talita Marimon, na coordenação do segmento A Fábrika de Estagiários, o artista gráfico performático, Arthur Monteiro, na área de design e projetos;
Anna Marimon, atriz, poeta, artista plástica, coordenando a Fábrika de Reciclagem, um segmento que está sendo desenvolvido para atuar com oficinas de reaproveitamento do lixo seco em comunidades de alto risco social;
Verônika Boskov, produtora cultural;
Aclyse de Matos, poeta e professor universitário;
Juliano Moreno, poeta e produtor cultural;
Carol Capellani, produtora cultural e Antonio Sodré, poeta e livreiro.
Segundo um dos coordenadores d' A Fábrika, " Claudio Oliveira:
«A estrutura foi e está sendo pensada em função de um coletivo onde todos recebem por todos os trabalhos, tendo ou não participado dos mesmos.
A intenção é valorizar o coletivo."
Claro que a distribuição do faturamento acontece de forma regular entre os integrantes que assumem um compromisso de mobilizar sua força de trabalho em prol do projeto.
Artistas ou produtores culturais que entram com apenas um projeto, utilizando a estrutura e o pessoal da iniciativa, também entram no sistema de divisão horizontal, quebrando a idéia de hierarquia.
Um grande laboratório está sendo criado, a «Sexta-Freak Experience», onde A Fábrika quer servir como base, estruturada tecnologicamente, para elaboração e desenvolvimento de projetos culturais.
A Sexta-Freak é um projeto de convivência criativa e experimental que consiste em abrir as portas do espaço físico e toda a estrutura com a finalidade de receber pessoas interessadas em desenvolver projetos culturais, fazer som, criar arte, desenhar, ler livros, elaborar estratégias de ação cultural, discutir políticas para a cultura, políticas de distribuição, tecnologia, direitos autorais, enfim, um campo para vivências.
Terreno aberto para explorar a fértil criatividade que as novas gerações vêm mostrando.
A partir dessas experiências, a iniciativa está abrindo novas frentes de trabalho para formar agentes e disseminar a prática de ações coletivas.
Em esse sentido, A Fábrika, está se consolidando como núcleo agregador e gerador de forças capazes de atuarem livremente e de se tornarem centro também.
Praticando a autonomia e retransmitindo esse modo de operar as relações, procura fazer o papel de multiplicador de ações de auto-gestão e cooperação entre grupos e pessoas.
Em esse princípio todos são núcleos e também estruturas orbitais, onde cada iniciativa possa ser centro ou estrutura de apoio a outras iniciativas.
Deixa-se agregar e atrair agregados dependendo dos movimentos, que são circunstanciais.
A sustentação do negócio vem da atuação na área de comunicação, com o marketing cultural e a propaganda, de bens e eventos culturais para clientes-parceiros que o negócio atende como forma de manter a sua viabilidade, enfim, é a forma encontrada para bancar a estrutura como base para as ações culturais que são os objetivos estratégicos.
É onde a iniciativa quer chegar como meio absoluto de auto-sustenta ção.
A outra fonte de captação nesses dois anos de existência do coletivo, são os recursos advindos do poder público através das leis de incentivo à cultura com projetos culturais dos seus próprios membros.
Essa é uma das qualidades da iniciativa, a especialização em elaboração e realização de projetos culturais, seja desenvolvendo seus vários produtos autorais, ou oferecendo estrutura -- suporte logístico, consultoria e apoio técnico -- para outros grupos e pessoas.
A visão dos coordenadores é de buscar auto-sustentabilidade, criando, produzindo e fazendo circular produtos que possam gerar receita para essa cadeia produtiva conectada em rede, ou seja, criando mercado.
A Fábrika de Letras, editora do coletivo, num ano de atividade conseguiu colocar em circulação três livros de autores matogrossenses, sendo que um de eles, o livro de contos «8 ito», foi viabilizado no sistema de parceria com a editora do coletivo Arcada Dentária.
Os livros eunóia e Deus de Caim, foram editados com recursos do Fundo Estadual de Cultura.
A novela «eunóia» captou 5 mil reais e Deus de Caim, 27 mil reais.
Ambos editados com tiragem de mil livros.
Vale ressaltar que estão circulando bem dentro de um contexto mais alternativo:
«eunóia» já ultrapassou a marca dos 800 livros vendidos e Deus de Caim já vendeu cerca de 300 livros (foram lançados em setembro no Festival de Literatura da América do Sul, Literamérica, no estande do Overmundo).
8 Ito, o livro de contos, de Danilo Fochesatto, acaba de ser lançado, parceria citada acima com o Coletivo Arcada Dentária, também com recursos do Fundo Estadual de Cultura, na ordem de 5 mil reais.
O site Overmundo tem sido um dos veículos que está conectando possibilidades criativas dentro dessa nova perspectiva do negócio.
A estratégia de distribuição dos livros lançados por o coletivo busca nessa relação com o site uma circulação em rede por vários estados brasileiros, através dos contatos gerados, e vendas diretas por a internet.
O livro «eunóia» está disponibilizado para download gratuito na seção Banco de Cultura do Overmundo, em Creative Commons, o que vem somando para a divulgação do autor e da obra.
De os integrantes da Fábrika, todos são colaboradores freqüentes do site.
O estúdio da Fábrika é responsável por a edição final do programa de rádio que é um produto criado por usuários e administradores do site, tendo à frente, Marcelo Rangel de Aracaju (SE) e Eduardo Ferreira de Cuiabá (MT), que é um dos criadores-coordenadores do coletivo.
A perspectiva advinda da relação com o Overmundo abriu a percepção dos coordenadores do negócio para trabalhar com estruturas abertas, utilizando ferramentas tecnológicas da chamada web 2.0. Desde então o planejamento é pautado dentro da idéia do direito autoral aberto, permitir que os produtos gerados estejam abertos para experiências compartilhadas.
Todos os produtos gerados são disponibilizados em Creative Commons, o modelo de propriedade intelectual adotado.
A internet tem sido fundamental, numa escala crescente, para a iniciativa.
Outro exemplo disso foi a relação de mercado criada entre o compositor / criador da Fábrika, o violeiro André Balbino, que estabeleceu relações virtuais-reais com uma artista plástica brasileira em Milão, na Itália, a paulistana Malú, que resultou na comercialização de cinco músicas suas, criadas sob encomenda, para ambientação sonora do Museu de Arte Contemporânea de Milão, na Itália.
As músicas foram gravadas e mixadas no estúdio da Fábrika e enviadas, aprovadas, negociadas e pagas via internet.
A abertura de novos mercados com a utilização de novas tecnologias, que propiciou a audição da música de André Balbino (acabou produzindo encantamento a ponto de encomendar mais daquela musicalidade), por exemplo, é fato, no presente concreto.
Outros produtos do coletivo são:
CD do grupo Caximir (esgotado);
CD do grupo osviralata (em fase de produção);
evento anual (está indo para a segunda edição) reunindo protagonistas locais da arte urbana:
a Semana da Arte Urbana;
vídeo documentário Uma vida sobre as águas;
dois romances originais do escritor Ricardo Guilherme Dicke em fase de produção;
monólogo teatral, Dona Louca, escrito por Eduardo Ferreira e Anna Marimon e interpretado por Anna;
Mix no MISC, realização Fábrika de Estagiários e Jovens Arteiros;
além de vários projetos audiovisuais em fase de viabilização de recursos para realização.
Parcerias:
Bienal de Música Contemporânea de Mato Grosso;
programa de rádio em Overmundo;
Coletivo Literário Arcada Dentária; Jovens Arteiros;
escritor Ricardo Guilherme Dicke;
jornalista e escritor, Lorenzo Falcão;
Banca do Sodré na UFMT;
Revista Sina; Rádio Comunitária do CPA (109.5 Mhz);
Casarão Cinema e Vídeo, que está realizando co-produ ção do vídeo «eunóia», adaptação livre da novela homônima de eduardo ferreira, com custo zero, aproveitando o período ocioso (em janeiro e fevereiro cai a quantidade de produções comerciais) da produtora -- em tempo:
A Fábrika e o Casarão Cinema e Vídeo estão preparando o lançamento de um edital instituindo um concurso de roteiros para jovens realizadores que queiram produzir seus vídeos, com as empresas disponibilizando equipamentos e pessoal para a realização de três curtas;
Samba de All Stars, grife alternativa;
Vishi, outra grife que está entrando no mercado com camisetas temáticas;
grupo performático Caximir;
projeto literário Palavra Aberta, com Juliano Moreno;
o trabalho performático-poético musical do poeta Aclyse Matos, em projeto denominado " Cachorro Molhado ";
A Fábrika está e sempre estará de portas abertas para novos parceiros, uma vez que o projeto prevê uma estrutura totalmente aberta, servindo também como base jurídica de apoio a projetos e artistas.
A Fábrika de Estagiários é o núcleo onde se desenvolve o exercício para a formação e qualificação de novos agentes atuantes.
Produção de vídeo, eventos, laboratórios criativos nas áreas de fotografia, literatura e design gráfico, editoração, oficinas de Hqs, produção de rádio, estudos e pesquisas, são atividades que a iniciativa utiliza como uma grande oficina, um centro de formação.
A experiência acumulada da maioria dos integrantes do coletivo dá o respaldo para esse fim.
De entre os coordenadores, o jornalista Cláudio Oliveira, está ministrando aulas no curso de comunicação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), reforçando a vocação dos integrantes do projeto para o exercício do ensino.
Outros agentes do coletivo estão sempre atuando com palestras e oficinas de arte-educa ção.
O negócio está em fase de expansão e vem agregando novos valores para a sua continuidade.
Todos os integrantes são unânimes em afirmar a viabilidade do empreendimento e acreditam, com toda a convicção, que o caminho é investir em tecnologia, participar dos processos de produção colaborativa e compartilhar experiências cada vez mais abertas na busca de novos modos de operar negócios.
Acreditam que a circulação e o acesso ao bem cultural é o novo paradigma desses novos tempos que apontam para uma consciência global onde os centros se deslocam de um lugar a outro em tempo real.
Todos são vizinhos virtuais.
Não há distância que separe mais.
Número de frases: 99
É possível sim, compartilhar experiências criativas de qualquer ponto geográfico planetário, aqui e agora.
A afirmação de que o romance Bar Don Juan, de Antônio Callado, desmitificou a luta armada pode até parecer verdadeira, mas para que isso aconteça, faz-se a priori necessário -- além de bloquear algumas das quase infindas possibilidades de interpretação tanto do mito quanto da utopia -- reduzir a idéia de luta armada a uma única perspectiva ficcional da qual se utiliza o autor.
Mas existem tantas interpretações quanto o número de leitores.
Se ainda quisermos aprofundar o tema, podemos fazer coro com os que acreditam que cada leitor é um co-autor em potencial.
E, levando em conta uma espécie de caricatura de «revolucionários» na caracterização dos personagens, pode surtir um efeito mais absurdo ainda acreditar que o livro de Antônio Callado seja capaz de abranger todos os segmentos e aspectos da luta armada no Brasil no final da década de sessenta e início dos anos setenta.
Isso não significa diminuir ou colocar em xeque a estética de Antônio Callado, mas -- pelo contrário -- provocar novas formas de olhar e interpretar a partir da variedade de outros elementos que sua obra suscita como possibilidade de representação, considerando que
«para ler tanto o mundo quanto os textos de modo suspeito, é preciso elaborar algum tipo de método obsessivo.
A suspeita, em si, não é patológica:
tanto o detetive quanto o cientista suspeitam em princípio que certos elementos, evidentes mas aparentemente sem importância, poder ser indícios de uma outra coisa que não é evidente -- e, baseados nisso, elaboram uma nova hipótese a ser testada."
A estrutura ou espinha dorsal ou, ainda, o que muitos chamam de pretexto é simples.
Trata-se de um grupo de intelectuais de esquerda da Zona Sul que, tendo como ponto de referência o Bar Don Juan, tentam organizar um esquema revolucionário capaz de integrar o movimento brasileiro com os guerrilheiros bolivianos, juntando-se às forças de Che Guevara.
Tudo isso se dá simultaneamente ou em torno de João e Laurinha, casal que foi torturado por a polícia.
Ficção ou realidade?
Será possível uma leitura ingênua do Bar Don Juan, no sentido de se fazer uma interpretação desvinculada da história?
A todo momento, entendendo a ficção como uma produção do espírito, surge uma determinada ação, um colocar-se diante de algo que sugere como uma prova material, como um rastro, uma pegada.
De aí, uma espécie de tentação de buscar uma trilha, um caminho ou um atalho para o ponto de chegada.
Mas muitas das vezes caímos numa armadilha e aquilo a que supomos ser ponto de chegada é ponto de partida.
É dizer que o conjunto de esforços ou procedimentos utilizados na interpretação da obra e a obra mesma como o tema que explora acabam numa dicotomia.
De um lado, o mito paradisíaco da sociedade sem classes e, do outro, a utopia da revolução em prol desta sociedade do paraíso terreno.
Mas convém distinguir, conforme Herkenhoff, entre o mito e a utopia, bem como, a imaginação intencional da fantasia «solta».
O mito é um sucedâneo da realidade, que consola o homem daquilo que ele não tem:
seu objetivo é esconder a verdade das coisas, é alienar o homem.
A utopia, pelo contrário, é a representação daquilo que não existe ainda, mas que poderá existir se o homem lutar para a sua concretização.
O mito nasce da fantasia descomprometida, com a única finalidade de compensar uma insatisfação vaga, inconsciente.
A utopia fundamenta-se na imaginação orientada e organizada.
É a consciência antecipadora do amanhã.
Em este sentido, estão aqui estabelecidos dois marcos.
Em um extremo está colocado o mito e, no outro, a utopia que -- apesar de ser considerada um não-lugar -- aqui se firma como uma referência.
A começar por o título do romance, Bar Don Juan, estamos diante de uma sugestiva presença que se impõe:
o mito de Don Juan.
Tudo bem que o nome Don Juan não pode passar de uma mera alusão ao lendário personagem espanhol em virtude de ser conterrâneo do velho Andrés, o proprietário do bar.
Mas a princípio esta informação torna-se irrelevante.
Existe um conceito donjuanista que perpassa todas essas explicações, caso contrário, alheio à esfera desse mito, o nome Don Juan a partir do romance não tem significado algum, exceto o de ser o nome de um bar que poderia se chamar qualquer coisa apenas como forma de dar «nome aos bois».
Afora a idéia de que o conceito do personagem Don Juan tenha se originado de um fato real narrado por a Crônica de Sevilha, além de ter servido de inspirações para diversos autores, tanto no teatro quanto na poesia, passando por a música e por o romance, sem esquecer que na filosofia tem uma posição de destaque em Nietzsche, convém observar que:
» ... ele é também um ser de ruptura, que corrompe o ciclo de troca e da circulação das mulheres (deseja-as todas) e do dinheiro (recusa-se a pagar suas dívidas).
Mito do desejo e da morte, que se apoiaria sobre uma base arcaica trazida à luz por a psicanálise (o deflorador sagrado, o duplo e sua culpabilidade, a relação entre Eros e Tânatos), o mito de Don Juan traduziria a mais profunda obsessão do homem, a de unidade e de união, ante a realidade da divisão dos sexos e a ruptura entre o tempo vivido e a eternidade postulada."
Isto posto, independente da intenção ou não de Antônio Callado ao intitular seu livro, alguns elementos aqui se insurgem aludidas ao mito, considerando que a trajetória dos personagens de Bar Don Juan está repleta de tentativas de ruptura, o desejo e a morte são presenças constantes, a vida dupla e o sentimento de culpa e, de uma forma ou de outra, a busca da unidade.
Em uma outra perspectiva, o mito também se sustenta do Comandante Che Guevara como o líder revolucionário capaz de mudar a América Latina, dando continuidade à Revolução Cubana e varrer de vez o continente do capitalismo através de sua teoria de «foco insurrecional» ou «foquismo» que elegia o campo como o terreno fundamental da luta armada.
Em diversas passagens, temos Lênin, Trotsky, Marighela, Prestes e outros personificando o mito do guerrilheiro salvador.
Esses no plano mais imediato, mas não convém esquecermos do fato de que há uma menção a Moisés, o homem da terra prometida e, ainda, uma outra figura mítica e quase onipresente que é São João da Cruz.
Faz-se interessante observar a presença da montanha nesses personagens.
No caso de Che Guevara, a Sierra Maestra e Santa Cruz de la Sierra.
Moisés recebe a tábua dos dez mandamentos no Monte Sinai e, por sua vez, São João da Cruz prega a subida ao Monte Carmelo.
Seria demasiado absurdo afirmar que os freqüentadores do Bar Don Juan não o concebem como uma espécie de Olimpo para elaborar seus planos quixotescos em prol de uma guerrilha rural?
» ... Aquella eterna fonte está escondida
que bien sé yo do tiene su manida,
aunque es de noche.
( ...) El corriente que nace desta fuente
bien sé que es tan capaz y omnipontente,
aunque es de noche.
( ...) Aquí se está llamando a las criaturas,
y desta agua se hartan, aunque as escuras,
porque es de noche ..."
Apesar das cartilhas marxistas terem gerado uma tremenda crítica aos «socialistas utópicos», por aqueles que se diziam» socialistas científicos», as palavras de ordem eram «revolução socialista»,» ditadura do proletariado», além de muitas outras para, enfim, se chegar a uma «sociedade sem classes», ou seja, o comunismo.
Se a utopia é aceita como «a representação daquilo que não existe ainda», bem como aquilo que» poderá existir se o homem lutar para a sua concretização», aqui nesse romance ela se manifesta -- tendo em vista que o momento histórico no Brasil -- a partir da história de um grupo de intelectuais de esquerda da Zona Sul do Rio de Janeiro que não vê outra perspectiva de derrubar a ditadura militar e chegar ao socialismo.
Mas essa possibilidade de derrubar a ditadura em direção ao socialismo, enfraquecida sua legalidade após o Ai-5 em 1969, somente é visualizada numa luta clandestina que se fortalece na idéia da luta armada.
Equivale dizer que a utopia como um não-lugar aqui está representada por o vazio e esse vazio é o lugar que existe para ser preenchido como uma forma de ação.
Mas entre o mito e a utopia existe um abismo onde uma realidade se real-iza.
É dizer que muitos dos conceitos tanto se esvaem como se formam e se reformam na medida em que os acontecimentos acontecem como sucedâneos de ações que determinam o rumo das coisas que não estão previstas, como uma espécie de efeitos colaterais.
Podemos aqui tomar emprestado para a figura do mito que, assim como a filosofia, carrega a idéia de princípio e, para a figura da utopia, o conceito de finalidade, ou seja, a condição primeira como uma pedra de fundação, o ponto de partida e, no segundo momento, o ponto de chegada como a justificativa redentora do vir-a-ser.
O que parece notório é que aqui, no processo de real-ização como fenômeno, acontecimento, o mais importante historicamente é o meio, a travessia do rio e não as margens e num certo percurso já nem mesmo interessa de onde veio ou para onde vai.
Considerando o amadorismo e a inexperiência daqueles que compõe, conforme o autor, a esquerda festiva, tem-se aí a falta de espaço livre para o acontecimento, há quase que uma crise entre o urbano e o rural.
O acontecimento mesmo, como o ideal revolucionário, trata-se apenas de um pretexto para os pequenos acontecimentos de periferia.
Em meio a esse elenco onde se confundem atores com personagens, desfilam seres (ou não-seres) quase que asfixiados por a subjetividade onde a guerrilha é camuflagem de uma guerra pessoal.
Para Mansinho, os princípios revolucionários de tomar da burguesia o que ela expropriou da classe dominada, princípios esses que regem sua necessidade de assaltar bancos para garantir financeiramente a luta em prol de mudar o país, são totalmente esquecidos e já não interessa mais a finalidade de patrocinar a revolução.
Como uma espécie de coisa em si, o que importa é o meio, é o prazer do assalto, assim como o prazer de conquistar sexualmente as mulheres e já não importa se é Dorinha, Mariana, Karin ou qualquer outra.
No caso de Geraldino, estamos diante do protótipo do ex-padre, aquele que se supõe rompendo com os dogmas da cristandade, embora não faça outra coisa senão inventar um Cristo mutante com macacão de operário sujo de graxa, a tentativa de conseguir um substituto ideológico para sua fé partida ao meio e, numa possibilidade historicizada, pode-se fazer uma analogia a atitude muito comum entre os partidários e coadjuvantes da teologia da libertação muito em voga na época.
Se levarmos em conta a afirmação de Marx de que num sistema capitalista não existe a possibilidade da arte a não ser como uma forma de investimento ou como instrumento embelezador do regime, Murta não passa de um cineasta medíocre, artista sem obra, a divagar e propagar o sonho apocalíptico do que poderia ser se tivesse sido e vira protagonista de um drama onde ele interpreta mocinho e bandido ao mesmo tempo.
Gil, por sua vez, procura a realidade através da literatura, como se essa não fosse outra coisa que um script dos acontecimentos, ou seja, a história como um roteiro a priori e não como registro.
Um intelectual que, no pior dos sentidos, conforme Sartre que não concebe o escritor que não seja engajado, sobrevoa tranqüilo por sobre a tempestade dos acontecimentos.
O que lhe interessa é Mariana que, diga-se de passagem, tem como marca maior em seu papel a de ser objeto de desejo e disputa entre Gil e Mansinho.
Aniceto é o símbolo da coragem bruta, o selvagem místico, no sentido mais estreito da compreensão, ou seja, selvagem por perceber o mundo sem a mediação da razão e místico por acreditar que forças mágicas são capazes de explicar e definir o mundo, bem como, de protegê-lo.
Joelmir, o ex-sargento, agora o camponês contemplativo, no meio do mato, às margens do Miranda, alimentando a idéia de um amor universal, ao lado de Valdelize.
Há muito não tem contato com os «revolucionários», não recebe sequer uma notícia, mas guarda o terrível segredo diante do mundo:
tem as armas para a revolução.
Como diz o autor, " só nessa altura da vida Joelmir descobria de que eram feitas as pessoas por dentro:
de perguntas».
Enfim, tirando uma passagem rápida de Paulino, o incômodo e neófito marxista que, depois de citações de Bakunin, Bernini e outras coisas sobre couraçado Potemkin, mais-valia e revolução, é levado por os policiais por uma banal e estúpida confusão de bêbados no bar, resta-nos uma atenção ao casal Laurinha e João que -- conforme observado anteriormente -- prestam-se ao desempenho do papel-refer ência do romance.
Se, num primeiro momento, para Laurinha era muito interessante e havia o desejo de também ser presa e se submeter aos interrogatórios, ou seja, realizar as suas «bodas com a revolução» em que os chamados «subversivos» enganavam e ridicularizavam a estupidez dos inquisidores.
Agora, tudo mudou de figura quando ela é estuprada por o policial torturador que, por ironia do destino, tem o nome de Salvador, um fantasma que se instala entre o casal.
Mas a única coisa que lhe interessa é João que, por sua vez, cria num determinado momento uma quase obsessão em relação ao homem que torturou e estuprou sua mulher.
A o reconhecer a insignificância de seu problema particular em relação à grande causa coletiva, concentra-se em outras atividades, uma espécie de rei Arthur em Excalibur que, diante da relação entre sua mulher Guenevière e o cavaleiro Lancelot, recorre a uma justiça aristocrática onde o monarca não pode se comportar como o marido traído.
Mas existe uma aproximação muito maior entre esse João e San Juan de la Cruz, seu homônimo e inspirador.
Conforme o próprio Antônio Callado -- por a boca do velho Andrés -- Don Juan se torna a afirmação de Deus contra o ateísmo, mas ele se insurge justamente para dizer que Deus existe, caso contrário, não haveria tamanha desgraça na Espanha onde o generalíssimo Franco demonstra o seu poder:
«San Juan de la Cruz plantou Deus no chão.
Deus é o cedro que ele plantou e que ainda vive no jardim do convento de Granada. ( ...)
Quer dizer que, transformando poesias populares de amor em poesias de amor a Deus, San Juan foi um místico marxista, que pôs a religião com os pés na terra, o amor começando entre o homem e a mulher para depois virar amor de Deus."
De um lado, João faz o percurso da subida ao Monte Carmelo e, ao mesmo tempo, uma releitura do poema Noche escura, em que San Juan de la Cruz inicia a busca da perfeição, mas essa é uma busca onde o mérito é passar por o caminho da negação espiritual como a possibilidade da união com Deus.
E João é mais ou menos isso.
Apesar de ser o personagem mais sincero naquilo que acredita como a revolução, num certo sentido, o mais organizado, o mais politizado, também carrega com si esse amor que tem os pés na terra.
É como se para ele a revolução não pudesse existir sem esse amor, da mesma forma que parece ser impossível dizer que ama se não luta por a revolução, pois ela se realiza em ele.
A procura é mero pretexto para estar fazendo, sentir-se incluído.
Não é por acaso a fala de Gil quando afirma ser «menos hermético do que o símbolo de João», ao acreditar que» a revolução brasileira existe mas ainda lhe falta o inimigo».
A essa altura, já podemos dizer que o mito e a utopia se confundem, ou seja, há a necessidade de uma coexistência para que ambos se afirmem.
Se de imediato alguns apregoam que o romance de Antônio Callado se propõe a desmitificação da luta armada, é mister que -- pelo menos, num primeiro momento -- esta já seja admitida como mito.
Em uma proposta de mediação dialética para a tentativa mais politizada de compreensão, a utopia pode ser considerado como a antítese ou a contradição do mito.
De aí, surge um novo problema ou uma nova forma de enfoque:
«Se o mito é uma fala despolitizada, existe pelo menos uma fala que se opõe ao mito, é a fala que permanece política.
É preciso, neste ponto, voltar à distinção entre linguagem-objeto e metalinguagem.
Se eu for um lenhador, e se nomear a árvore que abato, qualquer que seja a forma da minha frase, falarei a árvore, e não sobre ela.
Quer isso dizer que a minha linguagem é operatória, ligado ao seu objeto de um modo transitivo:
entre a árvore e mim, não há nada além do meu trabalho, isto é, um ato:
eis uma linguagem política;
apresenta-ma natureza somente na medida em que vou transformá-la, é uma linguagem através da qual ajo o objeto:
a árvore não constitui para mim uma imagem, mas, simplesmente, o sentido do meu ato."
Mas Antônio Callado, do ponto de vista político, por muitas das vezes, parece também se colocar no livro como personagem, confundindo entre os personagens e os sujeitos «reais» ou real-izados, tomando emprestado a voz da descrença, num existencialismo niilista onde nada é conseqüente.
Não significa que eu me atenha ao sentido vulgar do niilismo e sequer do existencialismo, mas me parece que a postura niilista-existencial no autor não se trata da negação de um apriorismo, muito pelo contrário, seu niilismo existencial tem o cheiro de alguém de desconfia de algo apenas por ter deificado uma idéia matricial desse algo, ou seja, essa revolução é uma farsa porque para se fazer a revolução é necessário ...
De aí, despeja uma série de alegorias como, por exemplo, no momento em que Joelmir fala da diferença entre carnaúba e carandá se justificando a João o seu «esfriamento revolucionário».
Ele afirma que, como aprendeu no norte, a carnaúba:
» ... dá cera para guardar na árvore a água, que é pouca.
Aqui no Pantanal água sobra.
Por isso é que a carandá não dá cera, não é mesmo? ( ...)
Assim são as coisas.
A gente dá á carnaúba ela não faz mais força, vira carandá, largada aí por os campos.
Revolucionário sem ocupação não dá mais cera não, João.
Os guerrilheiros da gente aqui virou tudo carandá."
Em um certo sentido, parece interessante estabelecer uma dialética que possa colocar em contradição o mito e o homem, o homem e o revolucionário.
Che Guevara é revolucionário porque é o Che Guevara ou é Che Guevara porque é revolucionário?
Mas aquela máxima de Che de que hay que endurecerse pero sin perder la ternura, fica resumida agora no fato de estar puxando o guerrilheiro El Moro, ferido em combate na Bolívia, no lombo de um burro, quando esse diz:
«Comandante, me deixe por favor.
Me largue aqui.
Não é possível atrasar a marcha com um burro inútil montado num mulo.
Não é próprio de um capitão de guerrilhas pôr em risco a vida de todos por causa de um aleijado.
E o Comandante, afagando o pescoço do mulo, não se sabendo bem a respondia ao Moro ou se falava ao mulo:
A gente precisa endurecer, mas sem perder a ternura."
Não há aqui a pretensão de uma palavra final, considerando que o tema suscita inúmeros questionamentos, principalmente, levando em conta as possibilidades diversas de se ler o Bar Don Juan.
Capciosas ou não, podemos até encerrar com algumas perguntas:
onde estão os limites entre a realidade e a ficção?
Número de frases: 128
O romance de Antônio Callado lido por um brasileiro que conhece minimamente a história é o mesmo livro lido por alguém que sequer conhece o Brasil?
Em o primeiro dia da edição do Festival Tangolomango da Diversidade Cultural em Fortaleza, realizado nos dias 11, 12 e 13 de outubro, já se deu pra ter uma idéia do que seria aquela mistura.
Em uma roda com mais de 60 pessoas, grupos do Ceará, Rio de Janeiro, Brasília e Recife entravam na ciranda e apresentavam uma palhinha do que traziam para o escambo artístico dos próximos dias.
A proposta seria criar um espetáculo coletivo depois de dois dias de intenso intercâmbio em que a apresentação de cada grupo seria desconstruida para ser remodelada conjuntamente.
Mestre Cachoeira acompanhou tudo com olhos atentos e mãos inquietas.
Seus dedos não paravam de chafurdar o pandeiro, sempre a tira colo.
Integrante do Grupo de Bacamarteiros de Beato José Lourenço, grupo de tradição popular de Juazeiro do Norte (Ceará), Mestre Cachoeira era o mais antigo da roda.
Os 76 anos de vida na roça e briga com o gado lhe deram força para cantar e tocar feito menino danado.
«Depois de 76 anos, agora que eu tô vivendo a mocidade.
Pra trás eu não gozava nada, só vivia só em casa trabalhando, lutando com o gado, e hoje em dia eu tô conhecendo o mundo.
Agora, eu tô viajando, vendo a beira da praia», fala sobre o grupo de Juazeiro em que brinca de danças como Maneiro Pau e o Bacamarte.
Foram essas brincadeiras da cultura tradicional do Cariri cearense que Mestre Cachoeira e os mais de 10 integrantes do grupo de bacamarteiros trouxeram para a ciranda Tangolomango desses dias.
Em a outra ponta etária está Antônio Neto, 13 anos, integrante da Banda de Lata de Todas as Cores.
A banda, de Fortaleza, é um projeto da Associação Curumins e faz parte do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil.
Neto, antes de se apresentar, ficou nervoso, sem saber o que iam achar do som de seus instrumentos reciclados e preparados por os próprios meninos e meninas da banda.
Dois dias antes, o companheiro de Neto e também músico, Gutemberg de Matos, 14 anos, havia previsto:
«A gente vai ficar é perdido, porque vamos ouvir cada coisa massa, vamo ficar encabulado, ficar impressionado, mas também tomara que eles fiquem impressionados com a nossa cultura também».
Entre as latas coloridas e os bacamartes, outros tantos grupos se entrelaçavam ao longo das dinâmicas que logo viraram ensaios coordenados por os curadores do festival João Artigos e Sidnei Cruz.
Além do Grupo de Bacamarteiros e da Banda de Lata, vieram do próprio Ceará:
Dona Zefinha (Itapipoca), Tambores de Guaramiranga (Guaramiranga), Dr. Raiz (Juazeiro do Norte).
Também desembarcaram por aqui de outros estados, Cia..
Aplauso (Rio de Janeiro), Irmãos Saúde (Brasília) e Media Sana (Recife).
No meio de tudo, Neto parecia viver a mocidade de " Mestre Cachoeira.
«Não sou muito de falar, mas quando é pra brincar, eu brinco, eu esqueço que sou tímido.
Eu me esqueço de mim, dos dias que eu era menino de rua, vivia trabalhando.
Eu esqueço disso e boto para a frente», fala do alto de suas canelas finas, lembrando da sensação de tocar.
A brincadeira logo se tornou termo corrente para se referir aos momentos de diversão artística na preparação do espetáculo.
A idéia de «brincadeira», aliada ao conceito, fundamental na concepção do festival, de» generosidade intelectual " começou a revelar a postura que o espaço exigia.
«A generosidade não é só dar, é saber receber.
A gente vai trabalhando pra que esse lugar da generosidade se instaure.
E aí a brincadeira tá nesse lugar.
Se você gosta de jogar bola, você pode jogar bola em qualquer lugar do mundo, você só tem que chegar ali e entender qual é o código, trazer o que você tem de material da sua mala e jogar uma pelada em qualquer lugar do mundo.
Isso é generosidade, ver o que tem de igual e botar na roda o seu tesouro, a tua habilidade», fala João Artigos.
Orlângelo Leal, membro da banda cênica Dona Zefinha, aproveitou o mote que lhe dei e resumiu:
«Se você chegar para Mestre Raimundo Aniceto, se você chegar para a Mestre Aldenir ou Mestre Miguel ou outro grande Mestre do Cariri, no Ceará, e perguntar se ele é artista, ele vai dizer que ele é um brincador.
As pessoas que fazem tradição popular, na verdade elas se divertem, elas brincam e o que eles fazem é um brinquedo, por isso que se diz brincantes.
E a maioria das pessoas que brincam é pessoas de terceira idade.
E nós trazemos isso pra dentro do nosso trabalho, essa energia do brincar, porque se eu me divirto, eu contagio as outras pessoas que é o que no teatro vai chamar de energia, estar intenso, estar todo em cena, é brincando, porque se você emana energia, essa energia chega nas pessoas e essas pessoas brincam com ti.
Essa é a melhor brincadeira, é quando todos se divertem.
Se nós conseguirmos brincar juntos no Tangolomango e essa energia chegar no público no sábado, isso completou o ciclo da brincadeira, essa brincadeira séria».
O festival encarna esse espírito para Marina Vieira, diretora do evento.
«Existe um prazer de trocar, um prazer muito grande de você descobrir o outro que é realmente o sentido de festival, de reunião de pessoas pra dançar, cantar, apresentar-se.
Isso é a coisa mais forte que eu vejo.
É um festival de fato, é um festival como seriam aqueles festivais medievais.
Não é um festival com premiação.
Em o final, o resultado é uma grande festa, porque é a festa que mostra que é possível que as pessoas troquem e mostrem as coisas juntas», explica Marina.
Uma colcha livre de retalhos
«A proposta é de criar, fazer uma criação colaborativa, como se fosse um software mesmo, um código aberto, abre-se seu espetáculo e transforma aquilo numa criação colaborativa pra criar uma única coisa feita de vários pedaços como se fosse uma colcha de retalhos que se encaixasse», diz Marina.
A fala de ela dá uma idéia do espírito tangolomango em que universos distintos se entrecruzam.
A metáfora do código aberto, do software livre, alia-se a artesanal colcha de retalhos.
A própria produtora do festival, 1001 imagens, é também responsável por a mostra Criei, Tive Como.
Em a roda do Tangolomango, mais que compartilhar palco e formar duetos nas composições alheias, é preciso entregar-se ao outro, desconstruir seu espetáculo e criar algo novo, coletivo.
«O povo chega querendo saber qual é, essa é nossa cultura. '
Calma gente.
Vamos ver o que que tem o outro e abrir um pouco a escuta, deixar essa parada te influenciar pra saber a partir dessa coisa que você ver, que você sente o cheiro, o que isso vai te produzir, porque isso é riqueza '», diz João.
De Recife, Igor Medeiros veio com seu grupo Media Sana.
Em a mochila, um aparato tecnológico com notebooks e datashow para as apresentações que misturam áudio e vídeo.
Diante da diversidade, não se encabulou.
«A gente usa tecnologia pra poder fazer nossa crítica sobre TV e outros aspectos como economia e ecologia.
É interessante você ver que o tipo de postura, atitude da gente, eu pelo menos encaro como um tipo de manifestação mais na linha desses grupos que estão trabalhando aqui também.
Tem um lado de arte resistência, tem um lado de crítica e uma vontade de interagir entre si», disse em meio ao ensaio final.
Esse ano o festival deixou pela primeira vez o Rio, deu uma esticada até Fortaleza e também chegou em Recife (26-28/10), antes de seguir de volta ao Rio, onde se encerra com espetáculo no Circo Voador, dia 4 de novembro.
Essa vinda ao Nordeste tem o objetivo de ampliar ainda mais o diálogo entre experiências diversas no campo da cultura popular.
Campo este que ganha no próprio festival o questionamento de suas fronteiras, colocando lado a lado grupos diversos como o Grupo de Bacamarteiros de Beato José Lourenço e o Media Sana.
Bacamartes e pifes ao lado (ou dentro como melhor define o nome do festival) de notebooks e datashow.
Apesar de não dar as mãos na roda, entro na ciranda:
observo, ouço e escrevo.
Em parceria com o Tangolomango, o Overmundo cobrirá as três fases do festival, trazendo uma visão particular de cada evento, compartilhado as experiências.
E, quem sabe!,
cobrindo o show final em alguma cidade, já que este pobre overmano não pôde comparecer à festa no sábado, justamente o momento ápice do festival.
Fico devendo essa.
Número de frases: 71
Por enquanto, fica a informação de que por aqui o Anfiteatro do Centro Cultural Dragão do Mar lotou até a tampa.
Quando cheguei no cinema pra assistir ao cultuado filme Canibal Holocausto e soube que os ingressos tinham acabado meia hora antes da sessão começar, percebi que o cinema fantástico tem seu público.
E bastante, por o jeito.
Tanto que ao invés de passar no Cine Santander Cultural, que tem apenas 93 lugares, o filme deveria ser passado numa sala com o dobro da capacidade, no mínimo.
Esse exemplo serve bem pra ilustrar o clima do II Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, iniciativa pioneira no país.
Se o sucesso já foi grande na primeira edição, a superação foi alcançada nesse ano.
Filmes ainda mais fantásticos e a melhor novidade:
uma mostra competitiva de curtas, com produções do Brasil inteiro, além de uma mostra com os melhores da Mostra de Ilha Comprida, de São Paulo.
Variedade (com qualidade)
Como já havia acontecido na primeira edição, a seleção de filmes internacionais foi muito feliz.
Em uma sessão temática, extraída da série para a TV chamada Mestres do Terror, puderam ser vistos filmes como Jenifer -- Instinto Assassino, do Dario Argento, Marcas do Terror, do Takashi Miike e Lenda Assassina, do John Landis.
Em as sessões «avulsas», obras como o já citado Canibal Holocausto, do Ruggero Deodato, O Pacto dos Lobos, do Christophe Gans e Planeta Proibido, do Fred M. Wilcox, filme de 1956 protagonizado por o Leslie Nielsen -- pois é, ele mesmo, fizeram bastante sucesso entre o público.
De o lado nacional, uma atração de peso:
os filmes do José Mojica Marins, o Zé do Caixão, cineasta homenageado.
Clássicos como A Meia-Noite Levarei sua Alma, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver e O Despertar da Besta foram exibidos em vários horários, que era pra ninguém ter a desculpa de não conseguir ver as produções do homem.
Ele que não veio ao festival receber a sua homenagem justamente por estar em pré-produ ção do filme Encarnação do Demônio, que fechará uma trilogia iniciada lá nos anos 60.
Em o seu lugar, veio a filha e cineasta Liz Vamp, nome artístico da Mariliz Marins.
Ela recebeu o troféu «O Inominável de Ouro» em reconhecimento à obra mais do que significativa do pai.
«Temos muitos cineastas talentosos, mas sem a devida atenção.
Está na hora de nós, brasileiros, valorizarmos nosso próprio produto», comentou.
Talentos nacionais (fazendo bonito)
Foram exibidos ótimos filmes na mostra competitiva, como Historietas Assombradas (para crianças mal-criadas) (SP), do Victor Hugo Borges, uma animação muito legal, sensível e impactante ao mesmo tempo.
Ou então Noturno (SP), do Daniel Salaroli, filmado como os clássicos do cinema mudo, com uma fotografia belíssima.
Mas a maior revelação pra mim foi Vinil Verde (PE), do Kleber Mendonça Filho.
Eu poderia escrever um texto inteiro só sobre ele, mas daí perderia o caráter de cobertura do festival a que me propus.
Por isso, direi apenas que é o melhor curta que vi nos últimos anos -- se não o melhor que já vi em todos os tempos.
Fotografado com uma Canon EOS 35mm e depois editado num Mac G4, é uma experiência e tanto, cujo resultado ficou espetacular.
Não por acaso, esses três acabaram empatados na decisão do Júri Oficial e dividiram o prêmio.
Já no Júri Popular, o Historietas Assombradas (para crianças mal-criadas) levou a melhor.
Provavelmente por a empatia que animações -- e essa em particular -- geram, creio eu.
Para a próxima edição, a tendência é o festival crescer ainda mais, talvez até com produções internacionais competindo.
O importante é acreditar no potencial que o cinema fantástico tem.
Ou, como disse a «Liz Vamp,» os cineastas de terror precisam perseverar».
Número de frases: 33
Convenhamos que, com o apoio de festivais como esse, as coisas ficam -- pelo menos -- um pouco mais fáceis.
Deus fez nascer no Brasil dois tipos de homem:
os que tem pistolão, e os que têm dois anûs -- conceito mais conhecido nos banheiros públicos como:
cús. Por que as pessoas insistem em colocar um acento no pobre cú?
Deve ser para que o cu possa se sentar.
Mas, voltando ao assunto insuportável e extremamente delicado -- percebam como vou tratar o assunto com delicadeza, é enfim impressionante como, no Brasil, você vale sua construção social de cordialidade.
Olha que o Sérgio Buarque dizia isso desde caralhos e bolinhas.
Esse assunto é delicado porque as moças costumam se ofender.
Geralmente as moças dizem:
«não é bem assim, tem espaço no Brasil para quem é realmente bom».
O problema é que ninguém mais pode trabalhar nessa josta de país se não conhecer alguém na instituição a qual pleiteia uma vaga.
Assim, os concursos lotam.
Como nas empresas só ficam os que têm pistolão, o restante da população corre para os concursos públicos.
O site Overmundo é um tanto elitizado, assim, veremos moças diversas retrucar esta pobre colaboração.
Vão dizer que eu sou um incompetente frustrado!
De fato, sou isso mesmo, porém, não deixa de ser verdade tudo que eu disse acima.
Insuportável foi ver a oficialização do Pistolão após a vitória-maluca do PT.
Após essa vitória-maluca, o Lula convidou todos os amigos fracassados em eleições -- sendo o exemplo mais gritante, o Humberto Costa.
Impressionante, após essa vitória-maluca Lula convida gentilmente Humberto Costa para o ministério.
Por isso digo, a vitória-maluca foi mesmo muito maluca.
Enquanto tudo isto acontecia, Diego Mainardi descia a lenha em Lula na sua coluna de extrema direita disfarçada de vanguarda niilista e descompromissada -- nunca vi sujeito mais compromissado que Diogo (já falei Diego e Diogo porque esqueci se é Diegou ou se é Diogo).
Em as entrelinhas do discurso de DiEOgo Mainardi (eita nome complexo de burguês), parecia que esse nobre jornalista queria dizer:
«votem em Alckmin, ele é muito bom».
Porém DiEOgo, o que é isto?
Outra indicação?
Outro pistolão?
O problema não é o Lula, o problema é a necessidade endêmica de indicações políticas nesse país.
Estou utilizando exemplos macrocósmicos!
Porém, pensemos aqui na quantidade de vezes que ficamos para trás em nome de uma boa amizade, ou mesmo, de uma boa bunda.
E as seleções de Mestrado e Doutorado que ocorrem nesse país?
Os senhores já vislumbraram algo mais nebuloso?
É simples:
quanto mais você joga, mais chance tem de acertar.
Eles julgam provas de humanas com notas do tipo:
7,3 -- e dizem que ainda conseguem fazer análises objetivas da subjetividade -- que coisa-maluca igual a vitória-maluca do PT.
O país anda cheio de coisas-malucas igual a vitória-maluca do PT.
É como se de repente tivéssemos declarado guerra a racionalidade.
Os europeus fizeram isso porque lá, havia um excesso da razão -- fruto da exaltação Mas aqui no Brasil não, pelo amor de Deus, há de se clamar por a razão -- o homem é complexus, diz Edgar Morin.
Somos sapiens e demens.
Há de se prezar por o sapiens, nem tudo aqui pode ser tão maluca quanto a vitória-maluca do PT.
Eu não tenho pistolão, logo, ficarei desempregado ou, terei que me conformar em subempregos.
Recentemente falei com uma doutora em química que era recepcionista de uma clínica de olhos.
Não tive dúvida, perguntei:
-- A senhorita elabora esses poderosos colírios?
-- Não -- disse ela admirando minhas penas alvas de ganso.
-- E o que faz?
Quen!
-- Eu atendo telefone, passo fax, essas coisas.
-- E para que serviu seu doutorado em química?
-- Eu posso fazer concursos públicos.
-- Está estudando?
-- Sim.
Estou estudando porque quero que o Estado sustente toda a população brasileira.
Igual Stalin tentou fazer em seu velho sonho.
-- Você é doutora em química ou em história?
-- Sou doutora no amor -- nesse momento começou a tirar a roupa.
Acho que chega, não é preciso contar o que aconteceu entre este nobre ganso e a doutora em química.
Agora preciso me acalmar, afinal, quem refresca cu de pato é lagoa.
Número de frases: 58
Um dos meus programas favoritos aos sábados é curtir parte do dia no SESC Pompéia, em São Paulo.
Pela manhã, quando minha carteira de usuário está em dia e o exame dermatológico idem, tento queimar as calorias adquiridas no rodízio de sushi e sashimi da noite anterior, nadando entre quarenta minutos e uma hora na piscina.
Depois de uma chuveirada, me dirijo ao aprazível restaurante bandejão do Pompéia e, como todo taurino que se preza, me ponho a observar o ambiente.
Observo, observo e me deleito com o espetáculo de diversidade e convivência harmônica que se desenrola naquele local.
Em a mesa adiante, uma família silenciosa de japoneses -- talvez descendentes.
A o lado, uma bela loira tatuada compartilha um pedaço de torta com seu namorado negro.
Crianças correm perigosamente por entre adultos e suas bandejas e ...
idosos, muitos idosos.
Subitamente, como me é peculiar, altero o roteiro da minha reflexão e começo a lembrar do modo cruel como parte da mídia e do público costuma tratar roqueiros com certa idade.
Muitos dos comentários são carregados por doses de menosprezo e sarcasmo.
Por outro lado, acho que nunca li um crítico de música não-pop anglo-saxônico chamar Ravi Shankar de o'dinossauro da cítara ', com aquele tom pejorativo e agressivo de cadernos culturais.
Em o mundo do samba, os integrantes da velha guarda das escolas são, aparentemente, tratados com respeito e reverência.
Não é raro encontrar algum (a) jovenzinho (a) rockista expressar -- de maneira explícita ou velada -- indignação quase fascista ao se deparar com algum cinquentão que ainda se diverte nos palcos empunhando sua guitarra distorcida.
Será que os ' pobrezinhos ' Paul McCartney, Mick Jagger e Bob Dylan ainda estão nessa só por dinheiro?
O prazer dos velhos rapazes ganha contorno de ofensa aos olhos da criatura de 18, 20, 30 e poucos anos, que pelo visto acredita estar imune à ação deletéria do tempo e da possível visão discriminatória dos meninos (as) e da sociedade dos anos 2040, 2050.
Alguns podem dizer:
«Mas, rock é música de jovem».
Tá, até pode ser.
Não vou me aprofundar nisso agora.
Porém, amigos antenados, com o avanço da medicina nas últimas décadas, a média de vida das pessoas na atualidade é bem superior àquela dos cidadãos dos anos 1950.
Portanto, está na hora de rever certos conceitos.
E assim caminhamos nós, seres humanos, sempre a pavimentar os caminhos futuros do nosso próprio sofrimento.
Número de frases: 22
O cinema norte americano ficou morno depois dos atentados de 11/09. Todo mundo é bonzinho e luta em prol da democracia.
O maniqueísmo infelizemente voltou a imperar e isso enche o saco.
Felizmente ainda existe vida inteligente em Holywood que não se verga ao peso de uma postura politicamente correta e esteticamente ultrapassada.
Um bom exemplo é «Obrigado por fumar», dirigido por Jason Reitman.
O filme é bom porque respeita a inteligência do espectador ao mostrar as engrenagens da indústria da manipulação pública e o jogo escancarado do loby profissional nos States.
O personagem principal é o lobista Nick Naylor, um sujeito que dá nó até em pingo dágua.
Afinal, alguém tem que fazer esse trabalho.
Até mesmo um assassino de crianças merece uma defesa competente, pelo menos é o que garante a Constituição -- essa é uma das lições que ele tenta ensinar ao filho -- e se você consegue vender cigarros, bem, então você basicamente vai conseguir vender qualquer coisa.
O cara é um ás da retórica.
Enche linguiça, inventa dados, faz jogo duplo e dá estocadas certeiras nos seus adversários.
Mas, principalmente, transmite calma e confiança.
Isso é o principal.
Em o começo do filme, quando ele se apresenta, diz algo mais ou menos assim:
«Sabe aquele cara que pega todas as mulheres?
Pois é, sou eu."
Pausa." Dopado de crack."
O argumento de que todos merecem uma defesa justa é, em si, óbvio, plausível e coerente.
Mesmo que seja uma indústria que mata milhões por ano?
Mesmo assim. A lei vale para todos.
Uma das diversões de Nick Nailor e dos seus amigos do «Esquadrão da morte» -- lobistas dos setores bélico e alcólico -- é comprar dados e disputar para ver para qual setor mata mais gente por ano.
Qualquer ponto de vista, por mais sórdido e imundo que seja, pode ser defendido com competência.
O que está em jogo, no final, não é a moralidade da questão, mas a habilidade dos argumentadores.
Por isso os lobistas do tabaco são bem pagos.
Para te dizer que isso de cancer no pulmão, efisema e tuberculose são exageros dos cristãos reprimidos.
Que fumar um cigarrinho aqui outro ali não faz mal -- e se fizer, e daí?
Cada um tem o direito de exercer sua liberdade o jeito que quiser, desde que não perturbe o vizinho -- pelo menos era essa a definição de democracia segundo minha professora da quarta série.
Por essas e por outras vale a pena conferir " Obrigado por fumar." Os fumantes vão sair do cinema com um sorrisinho indisfarçável no canto da boca.
Afinal, todo mundo merece uma defesa justa.
Número de frases: 28
Charme Chulo lança o primeiro videoclipe do grupo e promete novidades ainda este ano
O lugar para dar início a conversa não poderia ser outro:
o palco.
É, ali mesmo, no local onde eles se sentem mais a vontade que o Charme Chulo concedeu a entrevista.
Entre uns acordes e outro, entre umas checagens de som e os últimos preparativos no camarim antes da apresentação, a banda falou sobre o mote naquela noite agradável da capital paranaense.
E não se trata de um bate-papo qualquer:
era o lançamento do primeiro videoclipe oficial da banda.
A música «Mazzaropi Incriminado» é o carro-chefe do segundo disco independente do grupo que mistura rock com viola caipira.
A expectativa de todos para ver o clipe era tamanha, que quando o «play» foi dado, o silêncio reinou na casa de shows Era Só O Que Faltava.
Enquanto a banda se preparava no palco num outro ambiente, o clipe foi passando sob o olhar atento do público.
Com o término dos dois minutos da música com a ajuda dos calorosos aplausos, o Charme Chulo começou a dar os primeiros acordes do show de lançamento do clipe que contou ainda com a participação do grupo curitibano Heitor & Banda Gentileza.
Em a estrada há mais de três anos, Igor Filus (vocal), Leandro Delmonico (guitarra e viola), Peterson Rosário (baixo) e Rony Jimenez (bateria) passaram a mensagem do grupo no palco para a tela.
A rodoferroviária de Curitiba foi o local escolhido das filmagens para ilustrar a história e assim, apresentar o quarteto que agora se consagrou definitivamente com estes integrantes.
«É a primeira imagem oficial da banda com esta formação.
É atual.
Sem contar que trabalhamos com a melhor música do álbum», conta o vocalista que dispensa apresentações em suas performances dançantes nos shows.
As filmagens foram feitas em duas madrugadas da rodoferroviária da capital.
Mas o leitor pode estar se perguntando por que um horário de pouco movimento já que este local de dia é frenético.
Foi proposital e a mensagem que o grupo queria passar está bem clara no clipe.
«Gravar neste lugar foi bacana, porque fizemos uma paródia do povo brasileiro.
Esse ' vai e vem ' na rodoviária, uma espécie de angústia, melancolia.
Afinal, todos nós somos o Mazzaropis.
É o querer mudar de vida e a rodoviária conseguiu mostrar isso», reforça Igor.
O clipe veio tarde, afinal o segundo álbum do quarteto foi lançado em dezembro de 2006.
O vocalista acredita que isso não foi problema, muito pelo contrário, foi o tempo certo para conseguir captar todos os detalhes que videoclipe necessita.
«Sendo o primeiro clipe deste CD pode-se dizer que demorou.
Mas foi legal, porque achamos as pessoas certas para gravá-lo», reforça o músico que lembra da equipe da Destilaria do AudioVisual que fez este trabalho.
Mas Igor, Leandro, Peterson e Rony sabem que é a hora afinar a viola e cair na estrada.
Com um disco bem aceito por o público e crítica e agora com um videoclipe novo na praça, o quarteto sabe que este ano promete consagrar a banda de vez e deixa um recado para os fãs.
«Tem muitos shows na bagagem, inclusive fora do Estado.
A intenção é firmar este trabalho para que no segundo semestre possamos gravar o terceiro disco do Charme Chulo», avisa o violeiro Leandro.
E lá se vão os «Mazzaropis» de Curitiba desembarcar em outras rodoferroviárias deste Brasil ...
Myspace do grupo:
www.myspace.com/charmechulo Site:
Número de frases: 34
www.charmechulo.com.br * por «Karla Gohr» Vivei juntos, mas não vos aconchegueis demasiadamente.
Pois as colunas do templo erguem-se separadamente.
E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro."
Gibran Khalil Gibran Longe de ser somente um processo histórico e social, a supressão do feminino criou uma espécie de sombra no inconsciente coletivo feminino, ou seja, a Deusa ferida no âmago da estrutura feminina manifesta-se através do fenômeno do feminino sombrio.
Em o contexto individual, a perpetuação desta parte desconhecida, machucada ou reprimida, dá-se através da transgeracionalidade, ou seja, de padrões psicológicos negativos e até destrutivos, que irão atrair situações e pessoas energeticamente compatíveis, criando e recriando problemas não assumidos, que são transferidos inconscientemente nas famílias de uma geração de mulheres para a geração seguinte.
A escritora Clarice Lispector certa vez disse que " a mulher não tá sabendo, mas ela tá cumprindo uma coragem.
A coragem da mulher é a de não se conhecendo, no entanto prosseguir, e agir sem se conhecer exige coragem».
A mulher paga um altíssimo «preço emocional» por causa desse prosseguir, sem buscar a raiz de seus medos, sem curar seus traumas e bloqueios e muitas vezes a mulher limita setores importantes da vida em função das limitações do seu próprio «eu», como por exemplo os setores profissional e amoroso.
A mulher comum, ao longo do século passado, iniciou um importante processo de auto-percep ção onde viu-se reprimida no âmago da sua feminilidade, inferiorizada no seu papel social e desconhecida na sua própria sexualidade.
E iniciou um processo de liberação.
A principal atitude das mulheres foi a chamada revolução sexual:
as mulheres queimaram sutiãs, vestiram calças, tomaram anticoncepcional, foram trabalhar ...
e escravizaram a si mesmas, por o motivo de que em nenhum momento deixaram de ser mulheres, ou seja, tentaram uma liberdade de ser fazendo tudo o que os homens faziam (sexo livre, trabalhar fora, independência), porém o interior das mulheres continuou carregando a sombra da Deusa:
as mulheres desenvolveram atributos importantes, porém não curaram as feridas da alma feminina ...
Como disse Clarice, a mulher prossegue sem se conhecer ...
pois todo aquele movimento feminista não deu às mulheres a autonomia mais necessária de todas que é a libertação das pendências e dependências emocionais que fazem com que até a mais bem sucedida das mulheres sofra por determinados «amores».
São várias as chagas da deusa ferida e cabe a cada mulher a tarefa de reconhecê-las e curá-las.
As deusas são atributos femininos riquíssimos de significado, porém, muitas vezes, para que esses atributos fluam positivamente em nós torna-se necessária uma viagem interior, visitando as faces dessas deusas, reconhecendo quais foram feridas em algum momento de nossa vida, quais não foram feridas mas estão de certa forma «reverberando» alguma ferida familiar e ainda estão vivendo um padrão negativo -- a sombra, à espera de resgate e salvamento.
E o que acaba acontecendo com muitas mulheres desavisadas por aí afora?
Uma espécie de cura ao contrário, a mulher atrai um parceiro perfeito para toda a sua «inhaca interna», ele ativa e alimenta suas sombras, seus medos, e suas deusas doentes são ativadas ...
e a mulher começa a ser magoada e sofrer e não consegue entender porque sempre isso, não reconhece que está alimentando um câncer emocional, muitas vezes perdendo a noção de limite e tentando fazer aquilo dar certo, num verdadeiro massacre interior ...
Saber de suas sombras é o primeiro passo para sair do círculo vicioso ...
reconhecer uma Atena ferida que tem medo de lidar com seus sentimentos e sua sexualidade e que vive só o racional da vida, muitas vezes escondendo-se atrás de um papel profissional ...
reconhecer a chaga de uma Hera, que vive um pretenso casamento perfeito, mas delega o poder pessoal ao marido e vive a vida de ele como se fosse a sua ...
até ser traída ...
e depois ainda recusa-se a perder o papel de esposa, convivendo com as traições de Zeus ...
reconhecer uma Deméter ferida, aquela que vive só para os filhos e que faz até do marido um filho, depois ressente-se quando estes crescem e vão embora, aquela que nutre toda a família, mas não busca sua auto-realiza ção, sendo ela própria a maior carente da relação.
E a chaga de Afrodite então nem se fala, a mulher que por necessidade de «amor» e atenção aceita ser objeto sensual e sexual, vive muitas vezes o papel de amante, mas gostaria mesmo de ser a esposa, de ter um homem que a honrasse, e quando o tem, ainda acha que tem que garantir sua feminilidade sendo a mais bonita e mais sensual a todo momento e a qualquer preço.
A sociedade alimenta muito esse papel de Afrodite, através de ditames de beleza impostos, como a beleza padronizada por peitos e bundas esculturais (de silicone) e abdomes secos (de lipoaspiração), sem falar que agora a mulher não se dá mais o direito de envelhecer, enrugar e tornar-se uma anciã, e aí, dá-lhe reposição hormonal!
Será mesmo que tudo tem que ser firme até a hora da morte?
E onde fica o espaço e o direito à diversidade humana?
Enquanto a indústria da beleza forçada fatura milhões com toda essa insanidade, será que a mulher que se submete a tudo isso, está realmente ganhando o que espera?
Tem amor de verdade?
Tem segurança emocional?
Satisfaz-se em somente aparentar o que na verdade não é?
E quem não têm grana pra manter toda essa beleza plastificada?
Vai viver insatisfeita, infeliz?
Olha, já vi gente fazendo empréstimo pra pagar o silicone e a lipoaspiração, mas por dentro continuam inseguras, deprimidas e ainda por cima endividadas.
E continuaram compensando suas carências emocionais com comida, o que significa que em pouco tempo o resultado de suas lipoaspirações foi por água abaixo.
Mulheres ...
por favor, honrem-se de verdade!
A primeira cirurgia deve se a plástica interior, ficar bonita por dentro, ficar poderosa por dentro, ficar firme por dentro.
Realmente, prosseguir sem se conhecer exige coragem, mas decidir conhecer-se e mudar-se exige mais coragem ainda.
Coragem para se reformular, recomeçar, transformar, reeditar, de dentro pra fora, o que é muito diferente se sair se «recapando» por aí.
Ainda bem que neste exato momento muitas mulheres estão tendo este yinsight, de perceber que são muito mais do que julgavam ser, que não são apenas um corpo a satisfazer padrões, ou uma profissional workaholic, ou uma esposa, ou uma mãe, ou uma amante, ou uma vítima dos acontecimentos, e que o conjunto das faces da Deusa só vai existir em equilíbrio se a cura de determinadas sombras for realizada.
A mulher que buscar o reconhecimento das suas forças interiores e a integração dos atributos das deusas provavelmente vai parar de culpar a vida ou seus amores fracassados por a sua infelicidade.
Ela vai resgatar seus pedacinhos de mulher, vai aproveitar e reciclar o que deve ser valorizado e vai se dar conta do que deve amadurecer e deixar morrer ...
como a Grande Mãe faz na sábia natureza.
E assim pode surgir um novo modo de Ser, da onde pode surgir um jeito de amar novo, descentralizado -- o que não significa superficial.
Mas para ter um relacionamento genuinamente novo, tem que primeiro poder:
muitas mulheres nas suas condições atuais devem se questionar a respeito:
«Será que sou capaz de ter uma postura diferente, um amadurecimento emocional, ou só estou carente e com medo de ficar sozinha?"
E dependendo da resposta, antes de quererem amar e serem amadas, devem buscar primeiro o setor de capacitação.
Não é papo de Rh, é buscar a capacitação para poder relacionar-se bem com o ser amado sem torná-lo eixo condutor da sua própria vida, coisa que muita mulher acaba fazendo sem querer, porque vive na sombra das deusas e projetando a suposta solução desse vazio interior no companheiro.
Esse jeito de amar descentralizado consiste em manter o «gráfico da vida» equilibrado, dividido em fatias mais ou menos parelhas, sem separar fatias grandes demais para algo ou alguém, evitando assim a desilusão.
Quando constatamos que realmente tudo que faz parte da vida é transitório e que não podemos segurar nada nem ninguém pra sempre com nós, conseguimos perceber que a única permanência da vida somos nós mesmos.
E então percebemos que este eu mesmo que nos acompanhará eternamente vive melhor se aprender a crescer, a se auto-conhecer, a curar suas feridas, a perdoar, se perdoar e libertar-se de medos e limitações antigas ...
A mulher deveria pensar que, se ela está destinada a conviver com si mesma, na alegria e na tristeza, o ideal é que ela faça isso com a maior consciência possível, o melhor é que ela esteja inteira e não esperando ser completada por uma metade que na verdade não lhe pertence.
As pessoas não se pertencem, elas podem apenas se aproximar muito e interagir, ser companheiras e amarem-se, mas a individualidade do outro é um fato intransponível que deve ser aceito, como aceitamos que precisamos de ar para respirar.
Amar é lindo, mas quem sabe amar de um jeito lindo?
Só quem está muito consciente, muito íntegro, muito amoroso e desta forma, ama.
A cura do feminino na vivência do amor envolve uma tomada de consciência de que talvez aquilo que pensamos ser amor seja outra coisa qualquer que nos acomoda e nos conforta em nossas limitações.
Envolve também a constatação de que para mudar nossa vida e o que não dá certo em ela, só mudando a nós mesmas, sanando feridas, colocando um ponto final nos sofrimentos antigos e orgulhos feridos que não servem pra mais nada.
Os relacionamentos amorosos vão dar um salto quântico quando a mulher e o homem amadurecerem de verdade, porque envelhecer não é sinônimo de crescer, carência não é sinônimo de amor e estar junto não é sinônimo de amar.
Ir em busca da sabedoria da Deusa é a caminhada ancestral da mulher rumo ao amor por si mesma.
Número de frases: 65
Há muito ainda para ser plantado no solo fértil da Deusa e somente com a própria taça transbordante a mulher poderá brindar o amor junto com o homem.
Arquitetura Kitsch.
O kitsch foi um ramo do modernismo brasileiro, um «estilo» arquitetônico comum na década de 60/70 produzido geralmente por leigos, inspirados na arquitetura moderna buscavam dar ares arrojados para edificações simples através de inovações plásticas nas fachadas.
Surgiam aqueles mosaicos em forma de raios, «Vs se cruzando», desenhos angulares, etc., normalmente em azulejo amarelo e preto.
Ficou conhecido popularmente de «estilo raio-que-o-parta».
Em Belém há muitos exemplares dessa arquitetura.
Em a minha opinião é errado pensar que arquitetura é somente produto de arquitetos.
Arquitetura é tudo aquilo que serve de abrigo ao homem, da mais simples maloca de palha ao mais luxuoso arranha-céu.
Tudo é arquitetura.
A maior parte da arquitetura brasileira é produzida sem arquitetos.
Esboçar na areia uma planta ou uma fachada é fazer arquitetura.
Em uma terra em que bons arquitetos são considerados precipitadamente por a maioria como «artigo de luxo» nasce uma arquitetura muito especial.
A casa da foto, não sei se é produto de arquiteto, engenheiro, etc ...
mas ilustra o que considero como a típica arquitetura urbana brasileira.
Não a critico!
pelo contrário, na verdade para mim ela é um ícone do valor que representa.
Ela não seria um Neo Kitsch?
Número de frases: 17
Meu primeiro contato com a obra de Nelson Leirner ao vivo foi difícil:
numa exposição coletiva do MAM, no Rio, vi as dezenas de fotografias de bebês fofinhos da fotógrafa neozelandesa Anne Geddes transformadas e interferidas por os desenhos um tanto agressivos de Leirner.
Confesso que não gostei.
Embora também não goste dos bebês fofinhos da Anne Geddes, ver assim aqueles bebês rosados enfeitados por o grafite obsceno do Leirner foi um choque.
E não foi só para mim:
a apropriação que o artista fez dos bebês da Anne Gueddes foi censurada por o juizado de menores do Rio de Janeiro em 1998, o que provocou manifestação da classe artística e uma ampla discussão sobre a censura nas artes.
Nelson Leirner é um artista que tem como motor de sua obra a polêmica e a provocação.
Durante o regime militar ele se recusou a participar das bienais de 69 e 71. E, em 1974, criticou o mesmo regime com sua obra A Rebelião dos Animais, que recebeu o prêmio de melhor proposta artística do ano da Associação Paulista de Críticos de Arte.
Só pra contrariar, no ano seguinte apresentou à mesma associação, sob encomenda, os troféus da premiação da APCA -- nxero!
Foi recusado.
Sem os militares no poder, Nelson aponta sua metralhadora para os ícones da sociedade de consumo.
Mas sem perder o humor irônico e a militância política que caracterizam seu trabalho.
Humor que está claramente presente na sua exposição Vestidas de Branco, que está no Museu da Vale, em Vila Velha, até dia 28 de setembro.
Segundo a divulgação dos organizadores, Nelson começou a pensar a exposição Vestidas de Branco a partir da observação das noivas que usam o belo espaço do Museu da Vale como cenário para seus álbuns de casamento.
Começou, portanto, pelo lado de fora do Museu.
O que ele faz na exposição é colocar para o lado de dentro do Museu, com o tempero crítico da ironia bem humorada, o próprio casamento.
Logo na entrada do Galpão de exposições um imenso tapete vermelho, ladeado por estranhos convidados, nos leva ao casal de noivos no altar -- e ambos os noivos têm caras de macaco!
Observados de perto, os convidados são centenas de pequenas imagens de santos, divindades, bichinhos, personagens de histórias infantis e dos quadrinhos, carrinhos de brinquedo etc..
Tudo arrumadinho obsessivamente por ordem de tamanho e cor, formando um visual colorido e múltiplo de sentidos.
A noiva-macaco, no altar, segura um buquê de bananas.
A exposição Vestidas de Branco é uma releitura de Leirner da sua própria obra:
tanto as caras de macaco quanto a procissão de entidades populares são elementos recorrentes no trabalho do artista, que nessa exposição ele recicla em outros sentidos.
Em a sala seguinte do Galpão de Exposições o visitante se depara com as outras etapas da festa de casamento preparada por Leirner:
um gigantesco bolo enfeitado com mais imagens populares está no centro da mesa preparada para os convidados.
A orquestra é simbolizada por estantes de partitura com as carinhas de macaco.
Mas Leirner não se limita à cerimônia:
a banca de jornal, obra também já presente em outras mostras, demarca a passagem dos noivos para a rua, rumo à lua-de-mel.
Ao lado de ela, o próprio artista, reproduzido em tamanho natural, lê um exemplar do Jornal do Não Artista, distribuído na banca.
O jornal tem a seguinte manchete estampada:
Noiva encontrada dormindo em museu.
E é por meio de ele que tomamos contato com o personagem Alaíde Rodrigues, a tal noiva dorminhoca, e sua inusitada história, que é, ao mesmo tempo, um passeio por o universo conceitual de Leirner.
O Jornal é uma obra gráfica do artista que podemos levar para casa (meu exemplar está aqui, esperando a valorização para ser vendido num futuro leilão!).
E a viagem em lua-de-mel começa no carro recortado em madeira preta, que traz em seu rastro as panelas de barro tradicionais de Vitória.
Ainda em lua-de-mel, o casal passa por a praia e por o campo, ambientes onde o artista comprova, mais uma vez, sua extraordinária capacidade de apropriação de ícones de consumo, ao expor junto a obras originais as suas criações de designer para uma rede de lojas de decoração, tais como sandálias e pratos.
E a viagem termina nas camas que abrigam as três noivas:
uma para cada face do casamento:
no meio a noiva virginal e, ao lado de ela, a noiva mãe e a noiva erótica, ladeada por objetos fálicos inusitados.
Três faces da reprodução da família, que se multiplica no berçário e na representação do presépio, colocado bem em frente às noivas.
A exposição termina numa autêntica barraca de camelô especializada em bolsas.
Cada uma das bolsas pode ser uma história diferente.
Ou o conjunto das bolsas é a conclusão de Leirner sobre a fronteira entre o mundo real, do consumo e da reprodução familiar, e a fantasia a que a idéia do casamento, com seus rituais e vestidos brancos ainda hoje nos remete?
A o visitar uma exposição como a do artista Nelson Leirner muita coisa nos vem à cabeça.
A maior parte do tempo, diante de qualquer uma das obras ou do conjunto de elas, nos perguntamos sobre o significado de tudo aquilo.
E a resposta é uma só:
cada um que se depara com uma exposição assim pensa algo.
Impossível passar incólume à provocação do artista.
Colamos em cada elemento da exposição / instalação um significado, ou vários, de acordo com o nosso próprio jeito de sentir e entender o mundo.
O maior mérito de Leirner é fazer rodar a nossa cabeça em busca da festa de sentidos que sua obra provoca.
Muito além da brincadeira de descobrir os materiais cotidianos que ele utiliza e como ele de eles se apropria.
Curiosa sobre isso, decidi perguntar a algumas pessoas que trabalham no museu sobre o sentido da obra ali exposta.
Perguntei primeiro a uma das recepcionistas contratadas e ela me disse que o que ela achava do trabalho é que o artista fazia ali uma grande crítica ao consumo.
A segunda pessoa com quem conversei foi o vigilante Breno.
Para ele a exposição é uma reflexão sobre as várias faces do casamento.
Analisa que ali estão representados a felicidade inicial compartilhada na cerimônia e na festa, as dívidas com a viagem de núpcias, o amor, o sexo e a maternidade, que, ao mesmo tempo em que representa a felicidade completa da família, também representa a definitiva âncora do casal no mundo do consumo em busca da manutenção do lar.
Além de manter a ordem no recinto, o vigilante Breno sabe o que diz!
O depoimento mais intrigante, porém, foi o de uma outra recepcionista, que não me deixou gravar a entrevista, nem me disse seu nome.
Quando perguntei o que ela achava do trabalho do artista, disse sem pestanejar que tudo aquilo é uma afronta.
Diante da minha cara de espanto ela explicou:
ele -- o artista -- colocou santos, bichos e demônios (referindo-se às imagens de entidades da umbanda que compõem a exposição) cultuando macacos, como se fossem humanos.
Para ela o ser humano não veio do macaco, e colocá-los como humanos, cultuados, segundo ela, por aquelas representações de demônios e bichos peçonhentos como cobras, lagartos e ratos, era uma afronta à criação divina.
Notando o tom radical de sua própria resposta, ela se emendou com a frase pérola da exposição:
se bem que a gente pode ver tudo de outra maneira.
Por exemplo, as cobras ali na frente:
às vezes acontece da gente convidar para a nossa festa, sem saber, umas cobras ...
Indiferente a toda e qualquer explicação, o menino Leonis, de quatro anos, identificava fascinado os brinquedinhos coloridos, bichos e Mickeys Mouses de Leirner.
A entrega da criança à obra do artista é mais uma prova de que ela tanto pode provocar quanto fascinar -- ou as duas coisas ao mesmo tempo -- a quem se depara com sua obra.
Número de frases: 66
Lembram do «Super Trunfo»?
Carros velozes, tanques de guerra, caminhões, motocicletas ...
Pois agora é possível jogar com um outro tipo de objeto:
Bandas De o «BROCK».
41 bandas e / ou artistas nacionais ganharam cada qual uma cartinha, devidamente ' letrada e numerada ', cabendo aos Mutantes o título de «Super Trunfo».
Siglas
Abaixo, um pequeno glossário para que todos entendam o significado das siglas das cartas:
TPM -- Taxa de Perda de Membros
O número corresponde à quantidade de integrantes que saíram, morreram etc..
Quando se trata apenas de um cantor que já foi desta para melhor, obviamente a pontuação é máxima.
Vence quem tiver o número Menor.
IDLT -- Índice de Degradação ao Longo do Tempo
O número corresponde às transformações Negativas que a banda sofreu com o passar dos anos.
Quanto maior a nota, mais a banda Piorou;
portanto, vence quem tiver o número Menor.
PDB -- Proporção de Discos Bosta
O número corresponde à proporção de álbuns ruins na discografia da banda.
Quanto maior o número, pior o resultado.
Desta feita, por óbvio, vence quem tiver o número Menor.
QDA -- Quociente de Desafinação ao Vivo
O número corresponde à variação de qualidade que uma banda tem do estúdio para os palcos.
Quanto maior o índice, mais picareta são os instrumentistas e cantores.
De novo, vence quem tiver o número Menor.
Ih -- Importância Histórica
O número corresponde ao significado histórico de cada banda ou roqueiro.
Não tem nada a ver com qualidade, mas sim com a capacidade de influenciar outros músicos, bem como de mobilizar toda uma geração, entre outras façanhas.
Em este caso, vence quem tiver o número Maior.
Outros Indicadores
Abaixo, os itens talvez «auto explicativos», mas que merecem comentos:
Letras
Qualidade das letras Compostas por a banda ou por o roqueiro.
Não adianta gravar um repertório ótimo mas só compor bostas.
Vence quem tiver o número Maior.
Melodias
É a capacidade da banda ou do roqueiro de não apenas Tocar, mas fazer arranjos bacanas e produzir melodias criativas.
Em esse caso, mesmo sem saber compor direito, uma banda pode ter nota alta quando grava versões criativas de músicas alheias.
Vence quem tiver o número Maior.
Pose
Trata-se da «pose» da banda, mesmo.
Criação de factóides, defesa de bandeiras por puro marketing, discursos rebeldes fora de contexto, palavrões para fingir rebeldia na terceira idade, entre outras merdas.
Obviamente, vence quem tiver o número Menor.
As Cartas
Para jogar, basta recortar a tela de seu monitor e colar num papel almaço, cartolina ou sulfite -- favor usar cola «Pritt» ou duas gotinhas de «Tenaz».
Número de frases: 43
Visualize todas as cartas (e as respectivas pontuações) neste post do meu blog.
Em o início do séc..
XX, a cidade de Barbacena, a 160 km de Belo Horizonte, abrigava um dos primeiros hospitais psiquiátricos do Brasil.
O hospício da cidade recebia milhares de pacientes, que chegavam lá a bordo do famoso «Trem de Doidos».
Muitas décadas depois, um outro «trem» surge para mostrar como a questão da saúde mental deve ser tratada no Brasil, mas dessa vez não se trata de uma locomotiva.
É o Trem-Tan-Tan, grupo de música formado por portadores de sofrimento mental do Centro de Convivência de Venda Nova, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Dirigido por o músico, poeta, educador social e produtor Babilak Bah, o grupo surgiu a partir de uma oficina de percussão que o artista ministrou no Centro em 2001.
Depois de um tempo trabalhando com os pacientes, surgiu a idéia de registrar a música que eles estavam desenvolvendo.
Para isso, 37 dos 70 participantes da oficina foram para um estúdio gravar o CD «Trem Tan-Tan», que contou com a participação de músicos convidados, como Roger Moore e Rita Medeiros.
Lançado por a Prefeitura de Belo Horizonte, o álbum teve distribuição independente.
Foi assim que a oficina virou um CD e agora é um grupo musical, atualmente formado por oito pessoas.
«O Trem acabou extrapolando a proposta da oficina, se transformando num grupo autônomo, que decide a divisão de tarefas, compõe músicas, escreve letras, faz shows», conta Ana Paula Novaes, coordenadora do Centro de Convivência e produtora do grupo.
Já o nome surgiu durante uma conversa entre os músicos, quando um de eles disse que a turma era um «trem de doido», expressão tipicamente minera.
De aí para Trem Tan-Tan foi um pulo.
«Achei interessante também a ligação com o trem que transportava os loucos para Barbacena», explica» Ana Paula.
«Em a música não sou diferente de ninguém "
Em o caminho para a sala onde os músicos ensaiam, é possível ver quadros e esculturas feitas por os pacientes.
Subindo as escadas, dá até para sentir a vibração dos tambores no chão.
A maioria ali não sabia tocar nenhum instrumento antes de grupo, e por isso é possível perceber como o contato com a música foi importante para Rosilene Leandro, Olavo Rita, Edson Oliveira, Gilberto da Rocha, Mauro Camilo, Carlos Ferreira, Alexander Evangelho e Isaura da Cunha.
Quase todos os participantes do Trem guardam lembranças terríveis do processo de internação, nos tempos em que os problemas mentais no Brasil eram tratados com choques e doses cavalares de medicamento.
Em uma das músicas do CD do grupo, chamada «Vozes do Manicômio», a integrante Isaura da Cunha, ou Dona Isaura, como é conhecida, conta um pouco de sua experiência na» prisão " que eram os hospitais.
Apesar de terem marcas emocionais desse tempo, eles gostam de falar sobre suas experiências musicais.
Ainda um pouco tímidos, começam a contar como é participar de um conjunto musical e se apresentar em shows.
Rosilene, a principal compositora do Trem Tan-Tan, diz que já escreveu mais de 60 músicas depois que participou da oficina.
«Antes eu ficava incomodada com música, achava que era tudo barulho.
Nunca imaginava que estaria aqui, tocando e ainda por cima compondo», conta.
Edson faz questão de destacar que para a convivência em grupo é necessário muito respeito e esforço.
«É preciso também muita coragem para pensar sobre si mesmo, para se encontrar».
O olhar de Mauro, o trompetista da turma, é comovente.
Quando ele fala, transborda saudosismo, talvez de uma vida que deixou para trás, junto com filhos e netos, quando precisou ser internado.
Ele é o único do grupo que já tinha experiência como músico, pois tocava numa banda que se apresentava em bailes de casamento e formatura.
Há muitos anos Mauro não colocava as mãos num saxofone, até que começou a participar do Trem.
Ele fica emocionado ao contar como foi a primeira vez em que experimentou o sax novamente.
«Em o grupo eu pude encontrar meu som de novo.
Em a música eu não sou diferente de ninguém», explica.
Gilberto, o falante e divertido do grupo, mostra que, mesmo sem nunca ter tocado um instrumento, sempre teve uma forte ligação com a música.
Ele guarda vários cadernos com as letras de suas canções preferidas, e faz questão de mostrar cada um de eles.
As páginas, com uma escrita confusa, já estão um pouco gastas, de tanto serem usadas.
Cada caderno é usado para um estilo diferente:
sertanejo, rock samba, etc..
«Mas sou fã mesmo é de jovem guarda.
Gosto demais da Perla», explica.
Em a hora de falarem a respeito de suas preferências musicais, a Jovem Guarda e as músicas românticas dos anos 60 e 70 fazem muito sucesso.
No entanto, entre os gostos aparece de tudo:
Isaura, a mais velha da trupe, gosta de música erudita e clássica, assim como Alexander, que aponta sua preferência por Vivaldi, além de Paulo Sérgio e Alcione.
O samba é citado por a maioria, e até Padre Zezinho é apontado como um favorito.
Para a maioria dos músicos, que nunca tinha pisado num palco, realizar shows têm sido uma aventura satisfatória.
Alexander conta que na primeira apresentação sentiu muita ansiedade «Nossa, eu passei um aperto, senti até minhas pernas tremerem», conta.
Os shows serviram também para reaproximar muitas famílias, já que os maridos, esposas, filhos e netos foram assistir às apresentações do grupo.
Todo mundo sambou
Babilak Bah destaca que desde o início do projeto nunca se viu como um professor do grupo.
«Sempre me posicionei como um facilitador.
E percebi o potencial do Trem logo de cara.
Eu já sabia que ia dar samba», afirma.
E deu mesmo.
O mais novo trabalho do grupo é o projeto «Samba, Loucura e Feijoada», onde tocam músicas próprias e de outros compositores, sempre acompanhados por um convidado.
«Em o primeiro CD trabalhamos uma sonoridade mais experimental, que também carregava muito da minha pesquisa da época.
Agora o meu objetivo como diretor é deixar que o trabalho de eles seja cada vez mais autoral, e percebi que a questão do samba era forte no grupo.
A partir daí começamos a trocar informações sobre o samba no Brasil e buscar uma sonoridade nesse sentido.
O projeto é resultado dessas ações», explica Babilak.
Para coroar a boa fase que vive o grupo, eles foram convidados para participar no projeto «Loucos Por Música», que acontece no Rio de Janeiro e em Salvador.
Idealizado por as produtoras culturais Lana Braga e Jane Ribeiro, o projeto realiza shows em que a renda é destinada para instituições de apoio ao portador de sofrimento mental.
A iniciativa é apoiada por o Ministério da Saúde e patrocinada por a Petrobrás.
O Trem Tan-Tan se apresenta no Teatro Castro Alves no dia 2 de agosto, acompanhado por shows de Toni Garrido, As Chicas, Margareth Menezes e Luciana Mello.
Já no dia 15 é a vez do Rio conhecer o trabalho do Trem, que se apresenta no Vivo Rio, com shows de Beth Carvalho, Chico César e João Bosco.
A luta antimanicomial
A experiência do Centro de Convivência com o Trem Tan-Tan mostra que existem iniciativas bem sucedidas no Brasil no trato da questão psiquiátrica.
A política de saúde mental no país, instituída por a lei nº.
10.216, pretende acabar com os hospícios, que na década de 70 contabilizavam mais de 100 mil.
Hoje em dia são cerca de 40 mil, que fazem parte de uma rede onde o foco principal está na des-hospitaliza ção e reintegração social dos pacientes.
Para isso, é necessário fortalecer as iniciativas que envolvam ações de inserção e intervenção na sociedade, contribuindo para a diminuição dos preconceitos associados aos pacientes.
Esse papel é exercido por os centros de convivência, que em Belo Horizonte são nove, divididos por regionais.
Ali, o portador de sofrimento mental não recebe atendimento médico nem terapêutico, mas realiza atividades culturais e trabalha a convivência num espaço público, fortalecendo seus laços sociais.
Contudo, mesmo com os avanços, cerca de 20 mil portadores de doença mental ainda vivem em hospitais psiquiátricos, por não ter para onde ir.
Em Minas, são 1,5 mil pacientes nessas condições.
Para saber e ouvir mais:
myspace.
Número de frases: 77
com / tremtantan Jornada nas Estrelas, Jedies, X-Men, Franz Kafka, Pablo Neruda.
Nomes que normalmente figuram como assunto em mesas de seminários ou encontros de fãs de quadrinhos e ficção científica começam a ganhar cada vez mais espaço no caderno de rimas de alguns MC ´ s.
Foi-se o tempo que as canções do bom e velho Rap (ritmo e poesia, vale a pena lembrar) falavam apenas de pobreza, racismo ou violência policial.
As últimas movimentações do cenário trazem a tona novas abordagens e ampliam as fronteiras do estilo que, muitas vezes, sofre com a repetição.
Pra quem já é chegado no universo dos gibis, Inumanos remete diretamente a uma raça humanóide que ganhou vida nas páginas do comemorado desenhista Stan Lee (também criador dos X-Men, Homem-Aranha, entre outros).
Em o hip-hop, Inumanos virou uma sigla (Inteligência Natural União Maior Através de Núcleos Originários do Subterrâneo) por a qual atende a dupla DJ Babão e MC Aori.
A referência ao HQ americano serve como dica para a enxurrada de citações que permeiam as letras e a estética do grupo oriundo do bairro da Lapa, Rio de Janeiro.
A dupla cometeu em 2005 o disco Volume dez, uma coleção de composições que mostram como o ambiente do MC, principal influência na escrita, pode ir muito além do bairro onde se vive ou das regiões por onde circula.
Em «Monstros L.a.p.a» o MC projeta suas violentas habilidades de rimador num personagem dos quadrinhos:
«rapper Hank MCoy fera de pêlo azul
minha dentada dói do meu domínio não há recuo
preso entre minhas presas seus ossos se esmagam
preso entre minhas presas sua pele se rasga
minha língua é elástica, minha saliva soda cáustica
de dia mero escriba à noite criatura fantástica "
Hank MCoy, nome do X-Men Fera, é um mutante conhecido por o contraste entre a aparência bestial e uma inteligência muito acima da média.
Imagem perfeita para descrição de um MC chegado a destruir seus oponentes em batalhas de rimas improvisadas.
O ápice dessa estética nerd foi alcançado com o vídeo da música «Polegar opositor».
O clipe, dirigido por Cadu Macedo, mistura animação e seriados japoneses no melhor estilo Changeman para contar a história de uma invasão protagonizada por seres extra-terrestres.
Enquanto patos do espaço pousam sobre uma cidade japonesa, provavelmente Tóquio, a letra martela a idéia de civilização:
«Sei que evoluímos pouco pra dois mil anos
Continuamos a mercê de desastres naturais ou de ditadores insanos
Mas talvez alguém ainda tenha planos para o que chamamos de humanidade
Talvez o estado permanente de calamidade seja momentâneo
Esqueça o que tem no bolso me mostre o que tem no crânio
É como respirar:
um ato espontâneo "
O clipe concorreu, e perdeu para um vídeo do Marcelo D2, na disputa da MTV.
Mas levou o caneco no Hutúz rap festival.
Ponto para os Inumanos!
Nem só de cariocas é formado o time de nerds do rap.
São Paulo conta com nomes de peso nessa seleção de rimadores peculiares.
Um dos pesos mais pesados é o Mamelo Sound System, o grupo se auto-define como «Entidade sônica urbana movida a batidas, rimas & a vida».
Um dos principais conceitos operados por o Mamelo é o afro-futurismo, uma vertente de ficção cientifica com referências à cultura negra.
Musicalmente o encontro se dá entre o aparato tecnológico e os tambores afros, o resultado final é a chamada batucada digital.
A música «Assim falou Sun Ra», do álbum Velha Guarda 22, cita o jazzista doidão num clima totalmente futurista.
Rodrigo Brandão abre a música com o seguinte verso:
«O espaço, a fronteira final:
essa é a missão da astronave M.
Sound System, surfando prateada por a parte sideral do hemisfério,
em stereo.
Marte é a próxima parada, camarada."
Mais a frente, Lurdes da Luz emenda:
«10-9: há vida além desse planeta e não é preciso que ninguém me prove.
8-7: minhas conquistas, listadas em tópicos, cabem num disquete.
Foi pouco um lugar ao Sol, vou além do Sol, desse quintal, além do virtual, para a real."
O teor nerd é abertamente declarado no refrão de " Manifesto ":
«De o Be-bop ao Hip-hop em freqüência dread-lock
Estilo Antipop que renova o seu estoque
Mamelo Sound System Funk tropa de choque
Dropa mais ciência que o Senhor Spook "
Mais do que um grupo de rap o Mamelo se apresenta como um conceito, ou entidade, que caminha entre a boêmia e o universo nerd.
Em o pacote, além dos beats e rimas, é interessante se ligar nos links oferecidos por as referências que, muitas das vezes, são reveladas no apelo visual que gira em torno do grupo.
Fica um rastro de cultura pop em cada passo dado por essa rapaziada.
Por último, mas não menos nerd, temos Fábio Luiz.
Conhecido como Parteum, o MC comanda um dos microfones do grupo Mzuri Sana.
Além de trabalhar com produção musical (produzir e gravar sozinho muitas de suas músicas) e operar toda parafernalha digital que compõe os estúdios contemporâneos, Parteum ainda ataca como designer e videomaker.
Toda essa articulação deixa para trás a ainda clássica imagem do rapper como uma figura ignorante, e, ou, limitado a caminhar apenas por o seu ambiente de origem.
A letra de «Dragão mimado» deixa essa idéia bem clara:
«Eu enfio o mundo inteiro num disquete, abro a sessão e aumento o som fazendo «rap du bom», lutando como Qui-Gon, entenda.
A Força está com mim onde quer que eu vá.
Em uma festa em San Diego ou numa van perto da Arapoá».
Qui-Gon Jinn é um dos Jedies de «Guerra nas Estrelas», e a tal Força o poder que torna os Jedies guerreiros especiais que lutam em defesa de objetivos nobres.
Aliás, citar filmes parece ser uma das especialidades de Parteum.
«Estranho no Ninho», «Operação Dragão»,» Talentoso Ripley», «Mágico de Oz e Kill Bill» são alguns dos títulos referidos nas letras do paulistano.
Em o campo das artes visuais surge o nome de Van Gogh.
Em a literatura Neruda, Kafka e Machado de Assis.
Te a bom, ou quer mais?
O tal compromisso em retratar a realidade vem sendo dignamente rasgado com a ampliação das fronteiras do real para além do que é vivido por o MC.
Não quero cair nesse papo de evolução, mas o rap dá um passo a frente a partir do momento que, assim como outras formas de expressão artística, abre espaço para a fantasia.
Talvez esteja no refrão de «Força da sugestão», música do próprio Parteum, a melhor definição para essa boa onda:
«Forma, símbolo, imagem.
Ultrapassando a margem.
Fascinação, viagem.
Número de frases: 74
Literatura». Conversa com a pessoa que lê é um precioso achado para mim.
Tem sido, sim, como pensado inicialmente, uma forma de divulgar meu livro para a venda, já que é uma edição de autor e a distribuição sou eu mesmo quem faz.
É, no entanto, além desse instrumento eficaz, que a cada encontro promove a venda de cinco, dez, 15 exemplares até, uma conversa gostosa sobre como cheguei a escrever a história, como se construíram as personagens de ela, como as pessoas que já a leram a estão recebendo.
O entusiasmo das pessoas sobre esse processo de criação, edição e distribuição da minha primeira novela, O dia do descanso de Deus, só não é maior que o meu, que aumenta a cada novo encontro.
E eu tenho aprendido um pouco mais sobre a importância do ato de ler, que já sabia de Paulo Freire nos dizer que é uma forma de perceber o mundo.
É também uma forma bonita de conhecer pessoas que estão no mundo para o bem, que de ele querem o que pode propiciar de melhor, que é uma vida simples, de amizade espontânea e sincera entre pessoas que acabam de se conhecer ou mesmo de intensa apreciação em que se re-significam e melhoram as próprias antigas amizades e laços outros de relações.
Em essa caminhada que iniciamos em junho leitores e eu, a mais recente ocorreu na Biblioteca Comunitária mantida por o Clube de Mães do Bairro Cristal, no dia 16 de agosto último.
Um encontro mais ainda positivo porque com pessoas que também escrevem e publicam.
Uma conversa amigável, curiosa e elucidativa sobre os processos de criação de todas nós, as pessoas que escrevemos e lemos.
Nem chá com cuca e bolinhos faltou, numa verdadeira academia de escritores que se sabem mortais e, com certeza, pessoas comuns e iguais em direitos de ler o que queiram e escrever e divulgar o que pensam importante para si e para as atuais e próximas gerações.
Tanto que o Clube de Mães do Cristal, já tendo recebido o Prêmio Açorianos de Literatura por incentivo à cultura na cidade de Porto Alegre, também produz publicações de registro das histórias da vida do Bairro Cristal, através da linguagem de fotonovela na publicação Memórias de um lugar.
Esta publicação resultado da oficina do Coletivo Catarse contratados por o Projeto de Descentralização da Cultura da Secretaria da Cultura de Porto Alegre.
Também encena peças de teatro a partir de roteiros próprios, promove a convivência através da leitura por contação de histórias para crianças e pessoas com deficiência na própria Biblioteca Comunitária ou em vilas populares próximas de ali a que o acervo de ela é levado por associadas apoiadoras, militantes solidárias à causa da leitura.
E ainda promove e mantém na própria sede, da rua Curupaiti, 915, oficinas de artes diversas para públicos de todas as idades.
Entusiasma o carinho da acolhida do Clube de Mães do Cristal que proporcionou naquela tarde de encontro em que, nem frio, nem chuva fina intermitente impediram três dezenas de pessoas de estarem em lugar tão adequado para uma emocionante, agradável e estimulante tarde de boa prosa.
Número de frases: 15
O Tropicalismo na música gaúcha
Rogério Ratner O Tropicalismo foi um movimento musical importantíssimo ocorrido no final dos anos 60, que concentrou músicos de diversos locais do Brasil, mas muito especialmente baianos e paulistas, e revolucionou a Música Popular Brasileira.
Os gaúchos também tiveram a sua cena tropicalista, com algumas características próprias, como veremos a seguir.
O trabalho destes músicos (compositores, cantores e instrumentistas) gaúchos sempre teve, desde os anos 60 -- e mantém até hoje -- uma importante influência na música feita no Rio Grande do Sul a partir de então, embora esta influência algumas vezes não seja percebida imediata e explicitamente, mesmo em face da «normalização» operada em relação a alguns elementos estéticos então invocados, tornando-os ínsitos ao próprio idioma procedimental da moderna música urbana gaúcha e do rock feito aqui.
Cumpre dizer, inicialmente, e falando-se em termos mais gerais sobre o movimento como um todo em nível nacional, que seu impacto e importância não foi apenas de ordem estritamente musical, mas talvez, na mesma medida, de cunho ideológico e comportamental, como tentaremos demonstrar.
Diversamente do que ocorreu em relação aos vários estilos existentes na música brasileira feita até então, o Tropicalismo não se constituiu num ritmo específico, valendo-se do hibridismo e da fusão como seu ideal estético.
Com efeito, o lundu, o samba do início do século 20, as marchinhas de carnaval, o choro, o samba-canção, o sambolero (elementos presentes na estética da chamada «Época de Ouro» ou «Velha Guarda», cujo paradigma foi fixado por os artistas ligados à Rádio Nacional), a bossa nova, os ritmos chamados regionais -- que podemos exemplificar com o baião, o xote, a milonga, o frevo, a música caipira, a toada mineira, etc., embora sejam naturalmente fruto de várias fusões de elementos e ritmos diversos, inclusive» estrangeiros «(tal como tudo que é feito em música popular no mundo, se nos detivermos mais acuradamente nas origens de cada novo» tipo «estilístico), parece claro que os podemos definir como estilos musicais com significativas especificidades, tanto que isto já está inserido e consolidado em nossa linguagem (o que, sob o prisma de uma interpretação psicanalítica» lacaniana», provavelmente seria encarado como muito simbólico).
De fato, quando invocamos tais estilos musicais, associamos automaticamente em nossa mente várias músicas que exemplificam cada um, ainda que, repise-se, a pesquisa musicológica venha hodiernamente apontando para a inconsistência da noção de «pureza» de ritmos -- assim como a ciência moderna vem indicando a fragilidade das noções cientificistas ou pseudo-científicas de «raça pura ou superior», utilizadas como escopo para a prática dos maiores crimes já noticiados em todos os tempos.
Realmente, tudo que foi criado na história humana é fruto da fusão de elementos novos com outros já existentes -- mesmo que determinados traços presentes em determinada cultura tenham suas origens desconhecidas por quem posteriormente faz uso de eles, o que também, de outro lado, não impede que, aos poucos, a mistura de elementos redunde na consolidação de uma forma específica, objetivamente reconhecível enquanto tal.
Em relação ao Tropicalismo, contudo, a situação é diferente da verificada quanto aos ritmos e estilos que mencionamos, uma vez que os mentores do movimento não desprezavam as manifestações ancestrais que referimos, e tampouco o rock, tanto em sua feição psicodélica, quanto em seu viés jovemguardista, embora fizessem uma leitura muito particular de tais elementos.
Realmente, o Tropicalismo não pode ser traduzido como um ritmo específico, como ocorre em relação aos tipos que enunciamos, não apresentando uma «batida diferente», tal como pode-se identificar claramente na bossa nova, por exemplo.
Em a verdade, ao invés de um ritmo específico, a única definição «musical» que caberia ao Tropicalismo seria a de um caldeirão sonoro, de uma fusão incandescente, onde diversos elementos circundantes são reputados válidos.
São refutados, contudo, por os tropicalistas, aqueles envoltos no sectarismo e na caretice (sendo de destacar que, evidentemente, o significado efetivo destes termos variaria bastante, conforme as preferências pessoais de cada integrante da cena -- e também de acordo com a necessidade de seus criadores no sentido de fustigar o «bom gosto» do público universitário «pequeno-burgu ês», a quem, nos parece, era mais incisivamente dirigida a mensagem tropicalista, ou ao público» burguês, antípoda deste, e dependendo, ainda, do momento histórico e do contexto factual).
A postura aberta adotada por os integrantes do grupo, e ao mesmo tempo incisiva e provocadora, não causou poucos escândalos, pois os tropicalistas adotaram condutas que implicavam em várias «afrontas» -- ao menos eram reconhecidas como tal por os opositores desta estética -- à cena musical vigente no final da década de 60 no Brasil:
misturavam música erudita de vanguarda com música popular;
mesclavam a bossa nova, a marcha-rancho, o samba, o baião, e o que mais fosse, a elementos da jovem guarda e do rock psicodélico;
traziam muitas vezes «respeitabilidade» a uma música que, para o público universitário e «engajado» (e mesmo para a sua antítese, o público burguês de classe «A» e «B ") era mero lixo ou» música de empregada ";
resgataram (claro que sob uma ótica muito particular) elementos da tradição musical brasileira, especialmente aquela ligada aos artistas da Época do Rádio (dos anos 30 aos estertores dos 50), que em significativa medida haviam sido considerados «ultrapassados» e cafonas por alguns artistas ligados à Bossa Nova (embora seja bem verdade que vários artistas bossanovistas -- inclusive um dos principais, João Gilberto -- não tenham adotado uma posição sectária em relação a tal herança: prova disso é que hoje quem melhor resgata tal repertório para o novo público é o próprio João, logicamente que sob seu próprio prisma e de acordo com sua própria estética;
e não é demais ressaltar que o grande ídolo de João Gilberto é Orlando Silva, a «voz de ouro» dos tempos da Rádio Nacional).
Em termos mais estritamente musicais, é certo que o Tropicalismo trouxe informações novas para o universo da música popular brasileira dos anos 60, por obra principalmente de arranjadores e maestros tais como Rogério Duprat, Júlio Medaglia, Damiano Cozella, entre outros, ligados à música erudita de vanguarda (ou seja, à música que vem desde a Escola Vienense de Schoenberg e Alban Berg -- com a qual os baianos travaram contato inclusive mediante o magistério do maestro alemão Koellreutter, que morava na Bahia nos anos 60 e ministrava aulas na universidade livre de Salvador, bem como de Walter Smetak, passando por a música aleatória de John Cage e chegando à música eletrônica de Stockhausen, de entre outros elementos).
Contudo, se lançarmos um olhar de maior fôlego sobre a história da MPB, poderemos vislumbrar que a inclusão de elementos eruditos já estava de uma certa forma incorporada ao seu universo.
De fato, a MPB, desde que começou a ser gravada em discos de 78 r.
p. m., ainda nas primeiras décadas do século vinte, sofreu uma grande influência de elementos pinçados no âmbito da música erudita.
Com efeito, muitos sambas, especialmente os sambas-canção, e também os boleros, os tangos, etc., ao serem registrados em acetato ou vinil comumente eram revestidos com arranjos que incluíam orquestras ou orquestrações para violino ou outros instrumentos normalmente mais associados à música erudita.
Embora este elemento erudito presente nos arranjos não chegasse a ofuscar o elemento «nativo» (violões, bandolins, cavaquinho, etc., e o próprio cantor), é inegável que desempenhava um importante papel no conjunto dos elementos reunidos.
Aliás, este elemento erudito, na concepção das gravadoras, vinha justamente trazer «civilidade» e «respeitabilidade» ao elemento «nativo»,» polidez «ao» bruto».
Em que pese o conceito que havia por de trás deste «banho civilizatório» a que era submetido o elemento popular, é inegável que inúmeros arranjos feitos à época eram de grande qualidade e realmente representavam um acréscimo ao conjunto da obra.
Isto deveu-se ao talento de grandes maestros e músicos incumbidos da elaboração de arranjos orquestrais, tais como o gaúcho Radamés Gnatalli e o próprio Tom Jobim.
Pixinguinha, um dos decanos do choro e da MPB, a seu turno, também foi maestro e arranjador.
Em relação à Bossa Nova, embora boa parte dos arranjos das canções tenha dispensado a presença do elemento orquestral, não se pode esquecer que Tom Jobim era de formação mezzo popular, mezzo erudita, e foi muito influenciado por os impressionistas (Debussy, Stravinsky, Ravel, entre outros compositores).
O certo é que as primeiras gravações da Bossa Nova contaram com arranjos de orquestra, inclusive aquelas que inauguraram o movimento, que ganharam arranjos do próprio Tom Jobim.
Em este sentido, realmente, a incorporação de elementos da música erudita de vanguarda no universo da MPB por o grupo tropicalista -- embora todo o seu caráter «selvagem», cômico e anárquico, daí sua originalidade e novidade, não pode ser considerada como o momento de nascimento do intercâmbio entre a» alta cultura», representada por a música clássica, com a «baixa cultura», representado por o elemento popular.
De fato, a fusão entre o erudito e o popular, enquanto postura e prática estética na história da música popular brasileira já estava consolidada, até mesmo se considerarmos o período anterior à Bossa Nova.
De outro lado, em muitos arranjos tropicalistas chama a atenção o destaque para a guitarra psicodélica, cujo maior exemplo é a pilotada por o indomável Lanny Gordin, mas também por o não menos talentoso Sérgio Dias, dos Mutantes.
E, também merecem ser destacados, neste âmbito, os gaúchos Luis Vagner (da banda Os Brasas), Mimi Lessa (da banda Liverpool, e depois do Bixo da Seda), Cláudio Vera Cruz (das bandas o Succo, Saudade Instantânea, e depois, do Bixo da Seda), seus contemporâneos, entre outros.
A guitarra psicodélica, tão importante na configuração dos arranjos tropicalistas, também já vinha pontificando no cenário musical brasileiro da época, pois na cena da Jovem Guarda vários artistas e bandas contemporâneas da Tropicália, e outros ligados mais intimamente ao rock psicodélico (a partir do Sgt.
Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Beatles, mas também sob a influência de inúmeras outras bandas que trilharam este caminho, tais como Beach Boys, Jefferson Airplane, Zombies, Traffic, etc.) se valeram de tal expediente.
Mesmo se considerarmos isoladamente o período próprio da Jovem Guarda, encontraremos vários exemplos de fusão do psicodelismo com a MPB, tal como vemos em algumas canções dos Incríveis, de Eduardo Araújo, de Ronnie Von e dos Brasas, de entre outros, embora tal aspecto tenha sido mais episódico do que preponderante no trabalho destes artistas, ao menos no período anterior ao advento do Tropicalismo.
Aliás, não é ocioso lembrar, neste passo, que boa parte dos artistas da Tropicália, especialmente os instrumentistas que participaram das gravações e apresentações, mas também os próprios Mutantes, tinham origem na jovem guarda e no rock psicodélico.
Outrossim, a fusão entre «o regional e o universal» representa o princípio básico e o mote maior do Tropicalismo.
A intenção era a de que a música pudesse retratar, em sua estrutura, letra e arranjo, a realidade da sociedade brasileira, ao mesmo tempo moderna e atrasada.
Em verdade, a música brasileira feita antes da Tropicália em certa medida também soube bem harmonizar a tensão entre o «nacional e o estrangeiro».
De fato, a Bossa Nova, por exemplo, em sua primeira fase, que alguns apontam como «intimista» (feita por Tom Jobim, João Gilberto, Nara Leão, Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra, entre outros), resultou, em linhas gerais, da fusão do samba ao cool jazz.
Posteriormente, mais para o final dos anos 60, no que se poderia apontar como fase «extrovertida», a bossa nova misturou o samba com o bebop, no chamado» sambajazz «ou» bossajazz».
E também gerou um outro derivativo, em que se constituiu a música de protesto ou engajada (produzida por gente como Edu Lobo, Chico Buarque, a mesma Nara Leão -- artista-camaleoa e inteligentíssima, que também se juntou aos tropicalistas, mais tarde, Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, o próprio Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, esse enquanto letrista), na qual foram evocadas a temática rural, os ritmos nordestinos, o samba de morro, a moda de viola, a canção «praieira», etc., fundindo a sonoridade gestada na primeira fase da Bossa Nova com elementos» regionais».
De fato, a própria música engajada, cujo caráter «nacional e popular», e, sobretudo,» autêntico», era inquestionável para o público universitário que a defendia com unhas e dentes, também decorreu de um hibridismo mal-disfar çado, pois reunia elementos diversos, inclusive «estrangeiros», ínsitos à Bossa Nova, que lhe deu lastro.
Outro craque em «internacionalização» da música brasileira é o grande Marcos Valle, que, inicialmente vinculado à Bossa Nova (inclusive, após a fase inicial, à bossa engajada), soube como ninguém mesclá-la ao soul, ao funk, à psicodelia, etc., especialmente nos anos 70.
Esta música de protesto surgida a partir de compositores e cantores ligados à Bossa Nova, para todos os efeitos, veio a ser apontada como a grande antítese da estética tropicalista.
Assim, nos parece que, quando o Tropicalismo fundiu o samba e outros ritmos brasileiros ao rock, ou a elementos vindos do universo deste, em termos de ideário estético e prática musical, não chegou a romper com o que já ocorrera na MPB.
Não seria absurdo dizer que a Tropicália substituiu o jazz, enquanto elemento principal de fusão apropriado por a Bossa Nova, por um ritmo mais recente surgido no horizonte da música pop internacional, elegendo o rock como o elemento «estrangeiro» da fusão a ser ressaltado.
Aliás, como já aludimos no início, a «pureza» da música brasileira não passa de um mito, muito mal construído, aliás.
Mesmo «decanos» como Pixinguinha tinham influências variadas, inclusive da música erudita e do jazz.
De fato, o processo de formatação da música brasileira é muito semelhante ao caminho da música popular americana:
ou seja, a grosso modo, a passagem do spiritual ao blues, que, misturado ao ragtime e a elementos europeus, e, ainda, com o boogie-woogie, foi dar no jazz e também resultou no rhythm & blues, que mesclado ao country e ao folk foi dar no rock, que também incorporava o gospel, o que foi dar no soul e depois no funk e ad infinitum.
A música popular brasileira, na mesma trilha, nada mais é do que a fusão de elementos europeus, negros, mestiços e americanos (do Norte e do Prata).
É evidente que não ignoramos o fato de que a fusão que o Tropicalismo levou a efeito entre os vários elementos destacados anteriormente (ritmos regionais + rock + música erudita de vanguarda -- nem sempre todos ao mesmo tempo, bem entendido, entre outros) tenha resultado em algo particular.
O que nos parece é que, em termos estruturais, a canção tropicalista é de estrutura volátil.
Se pudéssemos fazer um paralelo, digamos assim, culinário (e o fazemos com o único objetivo de tentar traduzir nossa visão em termos imagéticos, não à guisa de piada), a Tropicália estaria, em termos da consistência «física» de suas canções, mais para o mingau do que para bolo -- considerando-se o bolo, naturalmente, a bossa nova, o samba, o rock, e outros ritmos mais ou menos «consolidados» a que aludimos no início.
De fato, quando ouvimos um disco tropicalista (vamos considerar, por hipótese e apenas para efeitos da exposição, que ainda nunca o tenhamos escutado), a «aventura» é semelhante a de alguém que se perde numa selva fechada, ficando «às cegas», pois nunca poderemos» adivinhar " com precisão o que virá na próxima faixa.
Realmente, pode ser que seja um rock, um frevo, um samba, uma bossa, um tango, etc., mas naturalmente sempre com algum elemento de «estranhamento» no arranjo ou na letra.
Efetivamente, toda a idéia que tentamos formar em torno de um conceito do que seria a tal «essência» da canção tropicalista -- vale dizer, algum elemento próprio e geral que pudesse ser encontrado imutavelmente em todas as canções, se desfaz rapidamente, ao ouvirmos qualquer um dos discos lançados por os artistas de tal movimento.
Com efeito, quando parece que afinal estamos conseguindo «captar» e traduzir em termos de algum conceito o que seria o âmago da «canção tropicalista», nossa construção teórica não raro se desfará na próxima faixa, pois teremos que acrescentar que a Tropicália é» isto, e mais aquilo, e mais aquilo», mas ao mesmo tempo também teremos que reconhecer que não é exatamente «aquilo e mais aquilo e mais aquilo».
Em este sentido é que falamos em volatilidade da canção tropicalista, o que abre a possibilidade de que músicas de ritmos completamente diferentes venham a se abrigar em sua legenda, justamente por o enorme elastecimento que se verifica em sua definição.
Mas, sem embargo, também não seria improvável que chegássemos à conclusão de que músicas de outro universo estético apresentam diferenças marcantes em relação às do Tropicalismo, quando tentamos fazer o movimento inverso de comparação.
Realmente, não é apenas em face da diversidade de ritmos e elementos que eram usados que se dava essa «inconsistência» (também poderíamos falar em " inconstância "), uma vez que o experimental, o fugidio, o aleatório, o espontâneo e o cerebral eram inerentes à composição tropicalista, tornando-a de fato uma mistura particular, embora cambiante.
Em face disto, reputamos que não é à toa que Caetano Veloso, em sua autobiografia «Verdade Tropical», conceitua a canção tropicalista como canção-colagem, ou seja, há na composição uma sobreposição de diversos elementos, mas não a sua efetiva fusão num novo produto» autônomo " e bem individuado.
Ocorre, em realidade, mais a justaposição de várias informações e elementos do que propriamente a fundição numa unidade harmoniosa enquanto tal.
Melhor dito, parece não ter havido a intenção por parte dos compositores e arranjadores Tropicalistas em consolidar o resultado da fusão;
ao contrário, a idéia parece ser mesmo a de deixar os elementos em suspenso, justapostos, até porque o caráter de estranhamento trazido por a reunião de elementos absolutamente inesperados por o ouvinte é um dos efeitos desejados.
De fato, o elemento erudito, no mais das vezes, é incorporado nos arranjos como elemento de estranhamento, ou mesmo com fins humorísticos, o mesmo valendo para a guitarra psicodélica.
Realmente, como nos esclarece Caetano:
«Em vez de trabalharmos em conjunto no sentido de encontrar um som homogêneo que definisse o novo estilo, preferimos utilizar uma ou outra sonoridade reconhecível da música comercial, fazendo do arranjo um elemento independente que clarificasse a canção mas também se chocasse com ela.
De certa forma, o que queríamos fazer equivalia a «samplear» retalhos musicais, e tomávamos os arranjos como ready-mades».
Em verdade, nos parece que, a fim de melhor compreendermos a questão referente à estrutura da canção tropicalista, deveremos lançar mão de vários elementos teóricos «importados» de outras artes, tais como a poesia de vanguarda e as artes plásticas (Concretismo, no primeiro caso, e Construtivismo, Abstracionismo e Tropicalismo no segundo).
Tais elementos advindos de outras searas artísticas parecem ter sido decisivos nesta conceitualização que Caetano faz, pois a estrutura da canção tropicalista está mais aparentada à do ideograma chinês (cultuado por os concretistas, de entre outras práticas poéticas por eles valorizadas), e à das instalações (especialmente de Hélio Oiticica) e pinturas abstratas, do que propriamente a uma forma consolidada no âmbito musical, pelo menos se considerarmos o paradigma então vigente.
Ou seja, a idéia que subjaz à construção tropicalista é a de reunir elementos difusos, a partir de um outro prisma que não-necessariamente o do tempo-espaço no sentido cartesiano.
Não obstante tais ressalvas, ainda assim nos parece que a canção tropicalista revela-se como uma variante das fusões então já havidas e praticadas na MPB.
Em este contexto é que reputamos que o Tropicalismo constitui fusão lato sensu, mas não strictu sensu, justamente em face do caráter volátil de sua estrutura.
Contudo, embora tal distinção seja importante, não nos parece implicar em que o Tropicalismo possa ser excluído, enquanto processo de criação, da prática fusional já instituída no âmbito da MPB, tal como referimos anteriormente, ainda que se trate de fusão em caráter amplo.
Número de frases: 79
Como é duro ser esperto!
Estou nesta semana tentando trocar meu carro usado por outro usado.
Mais novo, claro, essa é a intenção.
Como quase todo brasileiro, já aprendi que aqui não se faz revisão em carro.
Só levo o carro em oficina mecânica, tanto faz se de ponta de esquina ou concessionária, quando o carro pára de andar ou quando claramente está ameaçando me matar.
Fora isso, levar o carro para a revisão é pedir para um «esperto» (ah, como é sabichão, o imbecil!)
inventar defeitos e peças a serem trocadas, às vezes até deixando de lado os defeitos reais, se forem muito baratos.
Então, aí estou eu andando com um carro velho, popular e fodido atrás de atravessadores que tentam me empurrar um outro carro velho (pouco menos velho que o meu), popular (tanto ou mais que o meu) e fodido (pouco menos fodido que o meu) -- ao menos assim espero, caso os espertos não consigam me vender um carro detonado.
Lembrem-se, este é o sonho diário de todo atravessador:
comprar barato um carro extropiado, dá-lhe uma guaribada e vendê-lo caro para um otário.
Assim, eu, um típico otário (em matéria de carros, e em quase todas as outras também), tenho que, durante vários dias, tentar ser esperto, bancar o esperto, falar com espertos e tomar cuidado com os espertos;
muitos dos quais, aliás, acham que eu, que estou bancando o esperto, sou um esperto que vai mesmo lhes empurrar um carro fodido ou roubado.
Bom, no meio dessa espertice toda (em que o melhor é não parar para pensar o quanto tudo isso é idiota, e o quanto essa espertice / desconfiança generalizada infernizam pequenas necessidades do dia-a-dia), surge um daqueles típicos «entendidos» brasileiros que circulam nestes lugares recheados de espertos, e diz que o negócio de carros tá muito mal, a Fiat dá prejuízo no mundo inteiro, exceto no Brasil, por causa da contínua grande venda do ultra-desatualizado Uno, e a Autolatina está há muitos anos às portas da concordata -- entre outras manchetes do semanário econômico plantado na sua cabeça.
Enquanto isso, ao lado de minha outra orelha, um esperto inventa ainda mais defeitos para o meu detonado carro 1000, além da coleção que ele já acumulou em seus 120.000 km rodados sem manutenção, e eleva o seu próprio carro usado, e pouco menos detonado que o meu, à qualidade de «a oportunidade do ano», o impecável.
Fico impassível como a arte do aparentar civilidade mesmo na luta por a sobrevivência do caos brasileiro me ensinou.
Que enfiem a Fiat, a Autolatina, o meu carro, o carro de eles, todos no rabo!
Ou no cú, se preferirem.
Mas nada digo e agradeço com o meu falso sorriso cordial, já típico da cínica civilidade à brasileira.
Saiu caminhando e vou até a esquina tomar uma Coca-cola (só tem coca na porra do carrinho de cachorro-quente com salsicha barata e velha, que logo serei obrigado a comer também por falta de opção).
De qualquer modo, esfrio um pouco a cabeça (o que é pura força de expressão, já que o sol de 3 da tarde tá de rachar) e entro na loja seguinte, de encontro ao próximo esperto.
Vou pensando:
«Preciso achar o carro mais novo possível e mais inteiro, para a eu ficar o maior tempo que der com ele, sem precisar de oficinas e de novas trocas com novos espertos».
Torno-me, num exato momento como este, um típico brasileiro:
consolo-me ao ver um «quase nendigo» na calçada e ao lembrar que eu estava naquele dia abonando falta na empresa com atestado falso, comprado de um ainda mais «esperto» do que a maioria desses espertos que vivem à volta com carros.
Penso, desse modo, que pelo menos estou na vantagem e não tão mal quanto poderia estar.
Até me animo por instantes:
Viva o Brasil nosso de cada dia!
Agora escrevo com urgência para ver se esse Brasil apodrecido volta para o lado de fora de minha cabeça.
Mas lembro, entristecido, que ainda estou com meu velho e fodido carro na mão.
Terei, então, mais alguns dias de brasilidade plena -- para a só depois poder de ela me afastar ao máximo.
Número de frases: 30
Correndo! ... De o primeiro raio de sol ao cair da noite, muita coisa acontece na vida de uma quebradeira de coco babaçu.
Mas foi neste curto espaço de tempo, entre uma alvorada e o entardecer, que o cineasta Marcelo Silva conseguiu relatar não somente as dificuldades cotidianas destas mulheres, mas também a trajetória da líder sindical Raimunda Gomes da Silva, personagem central do vídeodocumentário Raimunda, a quebradeira, representante do Tocantins na 3ª edição do DocTV, que será lançado oficialmente no próximo dia 13, na capital Palmas.
Para quem não sabe, Dona Raimunda, como é conhecida, viajou continentes representando a causa das mulheres extrativistas.
Por seu histórico, ela recebeu muitas homenagens -- uma de elas prestada por o Senado Federal -- e integrou a lista de mil mulheres, de todo o mundo, concorrentes ao prêmio Nobel da Paz de 2005.
Hoje, Dona Raimunda é aposentada.
Vive modestamente, mas com certo conforto, no município de São Miguel do Tocantins, na mesma região isolada onde trabalhou, chamada de Bico do Papagaio, divisa com o Maranhão.
Ela ganhou manchetes, foi ao Canadá, França, China e Estados Unidos, mas, de maneira contraditória, algumas quebradeiras de coco desconhecem quem seja ela.
E o mérito de Raimunda, a quebradeira é mostrar, de modo subjetivo, a causa deste anonimato da líder sindical entre algumas das quebradeiras que estão na ativa.
O vídeo não se limita à trajetória de Dona Raimunda, muito menos ao reconhecimento alcançado por ela, se livrando das amarras de uma videobiografia tradicional.
Enquanto narradora do documentário, Dona Raimunda relembra o tempo em que percorria babaçuais, coletando e quebrando coco.
Ilustrando seu relato, o vídeo mostra como é, atualmente, um dia de trabalho de quebradeiras que vivem isoladas, entre os pequenos povoados e as matas que lhes servem como local de trabalho.
Para este grupo de mulheres -- raimundas anônimas, não existe acesso à informação, consciência política nem organização sindical.
O dia passa rápido e tem que ser dedicado inteiramente ao trabalho, caso contrário elas não conseguirão comprar o pouco de farinha e café que lhes serve de alimento.
Em este contexto, não é de se estranhar que estas trabalhadoras, privadas de muita coisa -- inclusive de conhecimento, nunca ouviram falar da líder sindical que deu visibilidade à sua causa.
Além da crueza do trabalho das quebradeiras, o vídeodocumentário de Marcelo Silva ensaia uma discussão sobre os sangrentos conflitos agrários na região do Bico do Papagaio.
Em este momento, o ponto emocional é a declamação, por o músico Zeca Baleiro, do poema A morte anunciada de Josimo Tavares *, de Pedro Tierra.
Seguindo a mesma linha, Silva anuncia que seu próximo documentário será sobre o homem que pode ser considerado o primeiro ecologista do Tocantins, o promotor de Justiça Leônidas Duarte, que expulsou madeireiras multinacionais do Bico do Papagaio, na década de 1940.
A intenção do cineasta é dar visibilidade a um idealista que, também, não alcançou o reconhecimento local merecido.
* Amigo de Dona Raimunda, Josimo Moraes Tavares era padre.
Ativista, ligado à Teologia da Libertação, ele foi assassinado em maio de 1986, quando subia as escadas que levavam à secretaria da Comissão Pastoral da Terra em Imperatriz (MA).
Foi percorrendo o Brasil para denunciar a morte de Josimo e os conflitos agrários da região que Raimunda começou a ganhar notoriedade.
NA França E Estados Unidos
Seguindo a trilha da própria personagem título, em março, o documentário se torna alvo de olhares estrangeiros.
Serão expostas no Museu de Arte Moderna da cidade de Marselha, dia 7, e no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, dia 18, as fotos do francês Rodolph Hamadi, captadas no período de filmagens do documentário, retratando o cotidiano das quebradeiras.
Em a seqüência, no dia 30, a exposição segue para Nova Iorque, onde será exposta no Liceu de Arts, uma escola francesa tradicional.
Em cada cidade, ocorre simultaneamente a exibição do filme.
Em duas exposições, serão realizados leilões das fotos para arrecadar fundo para as quebradeiras.
Em meio a uma programação extensa, haverá, em Marselia, um jantar também em prol das trabalhadoras.
Marcelo Silva acredita que, além destes benefícios pontuais, outros poderão surgir com a sensibilização do público europeu e norte-americano.
«Já está acontecendo, mas não estamos anunciando nenhum benefício porque estamos aguardando as confirmações», adianta ele.
Quem São As Quebradeiras
Em os estados do Maranhão, Tocantins, Pará e Piauí, estima-se que um contingente de quase 300 mil mulheres vive de coletar o coco babaçu, nativo da região.
De sua amêndoa, extraem o óleo vegetal, com o qual cozinham e produzem sabão.
De a casca do coco, fazem lenha;
da palha da árvore, cestos.
Nada se perde.
Mas elas só utilizam para si o excedente da produção.
O trabalho de coleta e quebra do coco é árduo e penoso, senão pouca será a amêndoa comercializada no final do dia.
Para alcançar resultados, elas se juntam em grupo ainda na madrugada e adentram matas e fazendas.
A mão-de-obra infantil se faz bem vinda.
Sentadas embaixo das palmeiras de babaçu, com um machado entre as pernas, apóiam o coco sobre a lâmina e batem em ele com um porrete.
O movimento é preciso e se repete automaticamente até o cair do dia.
Para continuar tendo acesso aos babaçuais, mulheres como Dona Raimunda lutam por a aprovação da Lei do Babaçu Livre.
Quando conseguirem, nenhuma cerca farpada, em nenhuma fazenda, poderá ser empecilho para o seu ganha-pão.
Quem É Dona RAIMUNDA
Dona Raimunda, 66 anos, é uma mulher baixinha e corpulenta, de traços fortes.
Com um linguajar simples, ela mescla temas cotidianos e toca em feridas sociais em seus discursos, esteja em comunidades agrícolas ou palácios de Governo, sem perder o tom diplomático.
Nunca estudou, mas é uma líder nata, de visão política apurada.
Nasceu em Novo Jardim (MA), filha de agricultores pobres, numa família de 10 irmãos.
Casou-se aos 18 anos, mas, em meio a uma relação difícil, decidiu abandonar o marido 14 anos depois e criar sozinha os seis filhos, trabalhando como lavradora.
Em a sua constante migração à procura de serviço, chegou ao Bico do Papagaio, região desasistida ordem moravam 52 famílias.
Para levar trabalho comunitário à região e proteger os moradores das ameaças de grileiros, começou a mobilizar a criação de sindicatos rurais.
Em sua trajetória, foi responsável por a Secretaria da Mulher Trabalhadora Rural Extrativista do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) e uma das fundadoras da Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (Asmubip).
Número de frases: 53
Hoje, Raimunda está em seu segundo casamento, com o também aposentado Antonio Cipriano, e adotou seu sétimo filho, Moisés, órfão de um líder sindical assassinado na década de 1990.
Tem Cinema no Ginásio!
O Ginásio São José mantinha um regime de internato, semi-internato e externato.
Todos os garotos tinham uma rígida e digna educação.
Muitos eram filhos de pessoas importantes como banqueiros e políticos do Rio de Janeiro.
Vários alunos vinham de outras regiões.
Para oferecer uma boa distração, a diretoria, encabeçada por o irmão Albano Constâncio, providenciou a reforma do salão nobre para a inauguração do Cine São José.
Uma cabina foi construída para a instalação de um projetor sonoro de 16mm que passou a ser operado por os próprios irmãos.
Segundo o Prof. José Maria do Amaral Rezende (ex-interno), os alunos de regime externo tinham que pagar a entrada (contribuição) para ver os filmes.
Já os alunos internos tinham os preços das entradas incluídos na matrícula.
Ao contrário do Cine Limeira, os filmes eram livres e vinham sem cortes, contudo, tinham que ser liberados por os irmãos.
Clássicos como, Quo Vadis, Suplício de uma Saudade, Átila, o Huno;
Tico-Tico no Fubá e as comédias de Jerry Lewis vinham da Rede de Colégios La Salle.
Um detalhe acrescentar:
os alunos da Escola Profissional não podiam participar nos campeonatos de futebol dos internos.
Seus campeonatos eram realizados separadamente.
Embora causasse um certo desconforto, isso era uma norma do Ginásio».
Entre os alunos, um se tornaria conhecido em todo Brasil, através da música «Tá Todo Mundo Louco».
Seu nome era Sílvio Brito, natural de Varginha, que aos 10 anos, já tinha se apresentado no Cine Limeira.
Por algum tempo, o Cine São José ficou inoperante.
Mas, em meados da década de sessenta, voltou a exibir filmes para os alunos.
fonte:
Revista do Cinema Machadense (de minha autoria).
Como não consegui colocar a revista inteira nem no word e tampouco no pdf, vou colocar os artigos aos poucos.
Número de frases: 24
Para discorrer sobre o trabalho de Tito Oliveira é preciso salientar a palavra-síntese de seus conceitos:
densidade. Em suas pinturas, desenhos, instalações, experimentos fotográficos ou em qual mais sua percepção evocar no extraordinário universo das artes plásticas, este sempre percorrerá um caminho metafísico.
Regido por penumbras soturnas, contidas na complexidade de sua própria arte, na sexualidade, nas culturas elitizadas e populares, nas disparidades étnicas e sociais, na simbiose que projecta a biogenética, na identidade nacional ou em seu espelho refletido na condição humana.
Por meio de insinuações, em sua maioria subjacentes e emersas através de ópticas figurativas, elucidadas apenas por solitárias apreensões de seu pensamento, que constrói formas alusivas e suficientemente belas para envolver a hostilidade espectadora de sua obra;
este é o enunciado de um criador imergido num laboratório infinito de linguagens, assumido nas mediações do pós moderno e do minimalismo, e tomado por uma louvável dificuldade para a exploração de um segmento único.
Tito exprime, pictoricamente, anatomias peculiares em cores quentes, sem dispersar-se da angustia que permeia sua produção, seja na submissão do óleo, ou na veemência acrílica, o artista evidência precisão técnica constante.
Existe uma espécie de vácuo na coloração e nos elementos aplicados em sua pintura, isso é perceptível também na ausência dos mesmos, quando o artista se submete a criações subjetivas.
As pinceladas são rastreadas por impressões de impactos violentos, pacificados por a exuberância da sensualidade exclusivamente feminina, predominantes em suas superfícies.
Em os traços desenhados, quase que primitivistas, percebemos o paradoxo de uma ingenuidade meticulosa e destemida de maiores comprometimentos com a forma exata, inquieto em suma, com uma avassaladora interferência na recordação, pois não abdicar de suas provocações, muitas vezes confundidas com frívolas malevolências, é uma constituinte que desequilibra algumas idéias de valores, deslocam nossas retinas, nossos sentidos e, sobretudo, nossa história.
Que assim seja!
Que todo manifesto artístico seja consistentemente projetado!
Que não sejam todos os autores ausentes em suas idiossincrasias.
Que seja eternamente preciso militar e não ser subserviente de determinadas tendências.
É preciso proclamar vanguardismo como fizeram os movimentos europeus que, segundo seus próprios autores, guiavam a cultura de seus tempos, estando de certa forma à frente de eles.
Muitos destes movimentos acabaram por assumir um comportamento próximo ao dos partidos políticos:
possuiam militantes e acreditavam que a verdade encontrava-se com eles.
Tito não pertence a uma geração de grandes manifestações artísticas, não apenas em seu país, mas num mundo em que este já não existe há muito tempo, também não impõe verdades, apenas sugere, e ainda assim, projeta-se como um soldado movido por uma valentia admirável e que precede os demais membros de sua tropa.
É inevitalvel, para a atual geração de artistas, desperceber a relevância do dadaismo de Marcel Duchamp, artista que além de contribuir intensamente para os fundamentos da arte conceitual, afirmou:
«Apenas o artista, enquanto artista, contém o discernimento de qualquer objeto como obra de arte».
Expressão impelida por a afirmação do filósofo grego " Theodor Adorno:
«Não há, no mundo contemporâneo, nenhuma criação artística desprovida da discussão sobre a mesma».
Tito, a exemplo de muitos artistas contemporâneos, foi nitidamente iniciado por o segmento pictórico, destacando-se em trabalhos extraordinários como «Expansão», O Homem, a Naúsea e a Porta de um Quarto» e «Parto Biotecnologico», apresentando também, uma fusão entre o expressionismo e o pós modernismo nas obras» Nascimento Manchado «e» Noivos», onde o artista manifesta sua angustia familiar e o temor da responsabilidade matrimonial.
Entretanto, Tito admite uma espécie de oscilante estagnação criativa e, consequentemente, amplia suas retinas para maiores possibilidades em explorar outras formas de expressão.
Estabelecendo experimentos em séries.
O artista passa a construir ocupações que dialogam com os meios pré definidos e intervenções que pontuam questões diversas, trabalhando o tempo tematicamente em torno da frágil memória para formar um registro do efêmero na vida presente.
O compreendimento de pensamentos, enquanto construções de possibilidades que nos permite enunciar reflexões, é selecionado através de múltiplas temporalidades que ousam tecer ideais com fragmentos de experiências.
E nos espirais do tempo, o artista tangência muitas repetições de ações do homem, nas praticas de domínio de sua natureza, sob seu próprio bem estar.
Em os suportes Tito Oliveira sugere sofisticação, o real valor de uma iluminação preparada ou de uma especificidade.
Navegando numa esfera com rupturas que beneficiam apenas a suposta soberania dos que muito possuem -- justapondo suas concepções a inexorável injustiça para os que de pouco provém e oprimidos se tornam, manipula suas imagens e nos desafia a observar, com clara evidência, nossa imparcialidade social.
Pensando como se não bastasse tamanho fatalismo Schopenhauriano em suas insinuações metafóricas, o artista se presta ainda, a referenciar a austeridade milenar do catolicismo, na série Pejorativismo do Traço Ortodoxo.
Onde concebe o experimento de um novo suporte, suscita uma investigação do desenho e evoca a capacidade de interpretar conceitos, em analogia a «antropofagia» dos distúrbios sexuais de uma religião que transgride o monoteismo e se impõe imperiosa.
Tito ressalta consequências atrozes para o cidadão comum, desprezadas por a ausência de lucidez das autoridades politicas, intelectuais e até mesmo artísticas, que estabelecem uma nação inerte diante da depreciação dos direitos humanos.
Desta forma, galopa um artista mais voraz que jocoso, encontrado em sua origem e consciencioso de seu papel, caráter e propostas.
Paris -- 16 / 07/ 2007
Giles Lambert é francês, Antropólogo, colecionador de arte, morou no Brasil durante 16 anos e conheceu o trabalho de Tito Oliveira na VIII Bienal do Recôncavo, em 2006.
Número de frases: 35
De aí por diante passou a pesquisar o artista, a ponto de escrever um texto sobre o mesmo.
Número de frases: 1
sofro desta especie de ansiedade o gosado que graças a internet consegui me informar sobre da doença que com alguns especialistas, olha aqui em porto alegre por exemplo não tem muitos grupos de ajuda sabe, pois os que tem a burocracia é tão grande para fazer parte tipo o do hospital de clinicas tentei de varias formas mas só via saude publica ou se for recomendado por um medico de lá, a poucos dias recebi um email do Grupo Aporta é bom tem uma psicologa e uma medica que tentam nos ajudar, o dificil desta doença é ter receio de quando teremos outra crise, estou me tratando com uma psiquiatra e os remedios graças a deus estão dando certo, mas se voces lerem a bula ficarão apavorados o quão fortes são mas sendo para melhorar e não ter mais crises faço tudo juro, é muito dificil de enfrentar esta doença e as causas que elas nos provocam, se tiver alguem que tenha o mesmo problema por favor entre em contato pois acho que conversando sobre o problema e discutindo alternativas talvez possamos nos ajudar obrigado Salve parceiros e parceiras de palco!
De asfalto!
Estamos no corre da construção do Encontro Nacional de Juventude Negra.
Uma correria que vem sendo feita a mais de um ano e que estamos em previas de sua realização (27, 28 E 29 De Julho / 2007) Será muito importante poder contar com jovens negros e negras nesse processo, pois independente da região onde estamos e de suas diferenças, o genocídio dessa parcela da juventude brasileira vem se dando de forma alarmante e nós, que estamos no topo da cadeia alimentar desse sistema racista, machista e capitalista, precisamos criar formas de responder nacionalmente, das bases para cima, a toda violência racial a qual estamos submetidos.
Por isso venho mais uma vez nessa lista, chamar nossos irmãos e irmãs para correrem por esse objetivo.
Em os anos 90, o Hip-Hop Brasileiro teve o grande papel de levar as favelas brasileiras, as comunidades periféricas, nossa auto estima fazendo com que negros e negras assumissem sua cor e seu papel na sociedade, levou a conhecimento de todos sobre nossas lideranças, nacionais e internacionais (Malcolm X, Stive Biko, Angela Davis, Dandara, Zumbi, Abdias do Nascimento, Clementina de Jesus, etc) Lançou nacionalmente nomes que direta ou indiretamente influenciou na vida de nossa juventude como Racionais MC ` S, DMN, Sistema Negro, Comando DMC, Charylaine, Lady Rap, Mv BILL, Nega Gizza, GOG, Cambio Negro, Pose Mente Zulu, ParteUm, Clan Nordestino, etc., principalmente os anônimos que sempre estiveram segurando os alicerces do movimento sendo linha de frente desse processo todo.
As Posses e fóruns de Hip-Hop espalhados por o Brasil que mantiveram e continua mantendo o movimento vivo resgatando esses valores e repassando a nova escola a importância de preservar nossa história, O Hip-Hop fez de seus elementos a válvula de escape para nossa juventude se expressar e resistir a tudo isso.
Em a minha visão está na hora do Hip-Hop Nacional mais uma vez cumprir seu papel que a conjuntura nos coloca:
Precisamos REAJIR A Violencia Racial!
Por Todos Os Meios Necessários!
Mostra a nossa sociedade que não é coincidência ser barrado em locais onde invisivelmente consta a placa Proibido A Entrada De Negros/Negras, ver irmãs morrendo por abortos mau feitos ou ainda induzidas a praticar a esterilização em plena idade fértil, estarmos no topo das estatísticas relacionadas ao genocídio institucionalizado, desemprego, assistência a saúde, moradia, educação, cultura, falado em cultura, vocês mesmos virão que, quando o estado viabiliza algo a nossa categoria artística, os boys gelam, ficando estéricos na mídia e nos ataca pois não estão acostumados a ver o povo tomando de assalto o que é seu por direito.
Precisamos nos organizar nos espaços onde nossa juventude se encontra e deixar de vez por todas a idéia de que um irmão preto morto, na proporção que isso vem ocorrendo, é uma coincidência do destino!
É GENOCIDIO Mesmo!
A resistência de garantir nossa entrada nos espaços de formação garantidos por o estado como universidades, cursos profissionalizantes, etc., Não é por incapacidade nossa não!
É O Medo da Ascensão DOS Pretos E Pretas nos Espaços De Poder!
Por essas e tantas outras questões que influenciam diretamente nosso dia a dia, peço a todos os guerreiros e guerreiras de plantão para assumirem essa demanda!
Fazer mais uma vez dos palcos, nosso mecanismo de mobilização em massa de todos que não toleram mais essa situação vivida nas periferias brasileiras.
De se organizar nos seus espaços convocando nossa juventude ao ENJUNE trazendo sua reflexão sobre os temas que o encontro se propõe a discutir, produzindo pré-encontros regionais e estaduais, formando fóruns de juventude negra para por em prática as resoluções vindas da própria juventude ...
É desse jeito!
Eixos de debate do encontro:
I -- Cultura --
Violência, vulnerabilidade e risco social --
Educação IV -- Saúde
V -- Terra e Moradia --
Comunicação e Tecnologia
VII -- Religião do povo negro
VIII -- Meio ambiente e desenvolvimento sustentável
IX -- Trabalho --
Intervenção social nos espaços políticos
XI -- Reparações e ações afirmativas
XII -- Gênero e feminismo --
Identidade de gênero e orientação sexual --
Integração social de portadores de necessidades especiais
Temas discutidos separadamente com uma perspectiva juvenil para nossa sociedade.
Posterior aos debates e aos direcionamentos feitos ao Poder Publico, 3º setor e para a própria juventude executar, estaremos formando os fórum permanentes de juventude negra para por em prática nossas resoluções e cobranças junto a esses setores governamentais e não governamentais.
Não existe um modelo de construção de uma articulação grandiosa como essa.
Principalmente se é pautada e administrada por a própria juventude marginalizada, Por isso, dia após dia, vamos aprendendo com os erros e acertos do processo.
E a cada dia também vamos vendo, percebendo e confirmando como é necessário esse tipo de mobilização para estancar essa sangria descarada promovida por várias frentes racistas, de todos os lados contra nossa juventude.
Percebemos como é importante e urgente dar uma resposta a tudo isso!
Independente da sigla que carregamos em nossa militância diária, precisamos responder de prontidão e de forma coletiva à toda violência racial a qual estamos submetidos.
Como nossa gente diz nas letras, aqui não é cinema nem novela, não tem maquiagem!
O bicho pega!
De viela a viela, em cada canto da cidade!
Por isso trutas, venham com nós construir essa nova trincheira de resistência!
Maiores informações:
Lista de discussão
http://br.groups.yahoo.com/group/ ENJUNE /
Em Breve -- Website
Honerê Al-amin Oadq
Posse Hausa Minha família Minha Base --
Minha centralização Política
Enjune -- Uma resposta coletiva a violência Racial!
011 9832-1582
oadq@hotmail.com www.possehausa.blogspot.com Encontro do Interior Paulista
Campinas, 28 de abril de 2007 8:00 hs -- Sindicato dos Metalúrgicos
Rua Dr. Quirino, 560 --Centro Campinas Pré ENJUNE Abc -- 5 E 6 De MAIO 2007
Projeto Meninos E Meninas De Rua -- São Bernardo
Rua Jurubatuba, 1610 centro -- São Bernardo -- Parada Lauro Gomes de Troleibus sentido Ferrazopolis.
Passeata
Em Repudio A o GENOCIDIO De a Juventude NEGRA 05 De Maio
Concentração As 15:30 Em o Projeto Mm De Rua
Também Previstas Manifestações Afro-culturais
Processo Estadual -- São Paulo
1,2 E 3 De Junho DE 2007 Em o Ginásio do Anhembi SP -- Capital
Encontro Nacional De Juventude Negra Enjune
27, 28 E 29 De Julho Em LAURO De Freitas Bahia
Número de frases: 66
Informe-se Sobre Seu Estado» ...
sempre uma coisa metida na outra,
sempre uma coisa metade da outra,
sempre uma coisa reflexa da outra,
sempre a mesma coisa descarrilhando
à margem da margem da margem
de outra coisa " -- E. Spínola
Em sua passagem por o Recife, o Tangolomango foi bastante contagiante.
Em o último domingo, muita gente foi ao Teatro do Parque para assistir a um espetáculo único, síntese de dois dias de intercâmbio entre grupos da cidade e visitantes do Ceará, Bahia, Janeiro e Distrito Federal.
Composto por uma espaçosa estrutura de vários ambientes, o Teatro do Parque foi uma ótima escolha para receber o Tangolomango e sua proposta lúdica e interativa.
Tradicional e querido espaço público mantido por a prefeitura do Recife, o prédio art noveau de 1915 abriga hoje o cinema mais barato do Brasil:
R$ 1.
A chegada do evento, com toda a sua dança, música e circo transportaram o local para um outro tempo, mais alegre e colorido do que o normal.
Sinal de que comunicação, intercâmbio e outras formas de convivência, se postos em prática, podem mesmo transformar.
E olha que eu estive lá como mero observador.
Que dirão os artistas, produtores e demais integrantes do staff, algo em torno de 180 pessoas?
Uma parte do grupo está nessa dinâmica de criação e improviso desde o dia 11 de outubro, quando começou a primeira etapa do evento, no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza -- como mostra matéria de Pedro Rocha aqui no Overmundo.
Outra parte pegou o bonde andando, na sexta passada, em Recife.
Foi quando a trupe de fora encontrou os daqui.
A programação oficialmente teve início às 18h com um cortejo do Pátio de São Pedro ao Teatro do Parque, mas a dinâmica já vinha desde cedo, no hotel onde todos se hospedaram.
Essa é a primeira edição do Tangolomango fora do Rio de Janeiro.
De acordo com a idealizadora e diretora geral Marina Vieira, a expansão tem a ver com o espírito de troca, produção compartilhada, e generosidade intelectual buscado desde o início por o evento.
Claro que cada região ficou uma «cara» diferente.
Marina diz que no Ceará ficou mais forte a cultura popular;
no Recife, os grupos urbanos;
e no Rio, a vocação circense.
«Os grupos moldaram cada evento», afirmou Marina, durante a dinâmica de sábado.
Eu confesso:
bastou uma olhada na programação para aumentar a vontade de estar lá.
A escolha das atrações «locais» por parte da produção foi extremamente feliz.
Fazia tempo que não assistia ao Balé Afro Majê Molê (Olinda), o grupo de hip hop Êxito d'Rua (Recife) e a Associação Recreativa Carnavalesca Afoxé Alafin Oyó (Olinda).
Três coletivos instigantes, periféricos, de ideologia bastante definida, e vontade visceral de se expressar.
Por si, já é algo significante todos eles terem sido selecionados por um projeto nacional, recebendo reconhecimento, cachê e visibilidade, para representar a cultura da cidade onde vivem, na própria cidade em que vivem.
Aliado à troca de experiências para montar um espetáculo com grupos de outras cidades, todo este processo significa a força e a valorização que raramente existe por aqui.
O Tangolomango se tornou algo ainda mais especial por a presença do compositor popular Ferrugem, um dos mestres do coco feito em Olinda.
Desde quando ouvi seu recém-lançado CD, o primeiro em 50 anos de carreira (ele começou a cantar com 7 anos), esperava o momento de assisti-lo ao vivo.
Não imaginei que fosse uma ocasião assim, tão especial para o próprio artista.
«É muito bom estar aqui, porque se eu já era conhecido, agora vou ficar mais», disse Ferrugem, orgulhoso, pois ele será o único a representar Pernambuco no Tangolomango -- Rio de Janeiro.
Atenção para a presença do DJ Rossilove no grupo que acompanha o mestre, formado por jovens músicos dos subúrbios próximos ao Sítio Histórico de Olinda.
Atualmente, eles desenvolvem o projeto experimental Raízes Elétricas, com cavaquinho, flauta, percussão e programações.
Apesar de habilidoso compositor (é autor de 217 músicas), o maior talento de Ferrugem é a técnica vocal.
«Com cinco anos já cantava coco.
Em o colégio onde estudava tinha uma quadrilha que quando eu cantava, explodia.
Minha mãe não deixava eu ir para o coco, mas eu fugia.
Quando eu chegava lá, meu pai estava, que também cantava coco, e daí eu estava coberto.
Em o outro dia, já me levantava cantando.
E não parei mais de cantar», conta.
Até hoje ele canta espontaneamente por onde passa, impressionando as pessoas que param para prestar atenção.
Durante a conversa que tivemos, Ferrugem fez questão de dizer quem foram seus mestres:
Manuel Faria, Valdemar, Zé Pretinho, Luis de Marcílio, Benedito Grande, Boquinha do Torreão, Ingüento, Calu Calado e Tonho.
Entre os «de fora» estiveram a Cia..
Aplauso (RJ), Cia..
Dona Zefinha (Itapipoca, CE), o grupo Mais de Mil (Salvador, BA) e os Irmãos Saúde (Brasília).
Enquanto os conhecia, se revezando no palco, me dei conta de quanta arte interessante é feita no Brasil, a despeito da mídia comercial e negligente.
A dupla de palhaços Irmãos Saúde é simplesmente genial.
Como é bom ver gente jovem atualizando essa tradição circense!
Os meninos do Mais de Mil, que representou uma feira popular da Bahia na entrada do teatro, foi fonte de alívio ao me fazer constatar que existe algo mais na Bahia do que a insuportável axé music.
Ouvi algumas críticas de conhecidos que estiveram no Tangolomango, e concordo com algumas de elas:
1) O tempo para cada grupo poderia ser melhor distribuído.
Por exemplo: os impagáveis artistas da Dona Zefinha fizeram um show à parte, aliando circo, teatro e excelente música.
O problema é que eles ficaram muito mais no palco do que o Maje Molê e o Alafin Oyó, que fizeram apresentações arrasadoras e emocionantes, só que breves demais.
2) É verdade que objetivo do evento é experimentar o diálogo entre culturas, mas talvez a conversa precise ser mais afinada -- o cortejo de sexta-feira foi apontado como redutor do tempo necessário para a criação coletiva do espetáculo.
Apesar de terem a mesma origem de cultos afro, os toques de afoxé e maracatu são inconciliáveis, ou seja, se tocados simultaneamente haverá um atropelo rítmico.
Marina Vieira disse que a entrada de Recife no circuito por sua rica diversidade cultural.
«Há muito tempo que recebemos projetos daqui.
Em o ano passado chamamos o Maracatu Leão Coroado para se apresentar no Rio de Janeiro, e assim começou um namoro com Pernambuco, que mostrou vários outros ritmos.
Como não havia como levar todo mundo para o Rio, e também queríamos trazer o Tangolomango pra cá, essa foi a oportunidade».
E revelou que, para o ano que vem, os planos são ainda mais ambiciosos.
«Queremo fazer uma edição latino-americana.
Apesar de ser outra língua, a troca pode ser positiva.
Seria como essa experiência aqui em Pernambuco:
são culturas diferentes, mas que parecem ter convivido por uma vida inteira.
Cada uma tem a sua identidade.
Não queremos pasteurizar nada, queremos somente que as identidades conversem, que as culturas dialoguem, que haja uma multiplicidade.
Nossa proposta não é só dar visibilidade.
É promover a troca».
O Tangolomango chega ao Rio neste fim de semana.
O show está marcado para o dia 4 de novembro, no Circo Voador.
A os cariocas, um aviso:
Número de frases: 79
se preparem, pois no ritmo em que estão, será uma apoteose da cultura brasileira.
Apesar de tudo o que me aconteceu em 1964 -- o golpe militar, a morte do meu pai, 22 dias depois e uma séria crise de depressão, de ali a 5 meses -- foi muito mais feliz a minha passagem por o Instituto de Educação Professor Alberto Levy, onde refiz a quarta série (1963), e completei o curso colegial clássico (1964/1966), do que os quatro primeiros anos do ginásio, que cursei no Alberto Conte.
Entretanto, e talvez por isso mesmo, sempre que perscruto a memória em função desse nosso almejado livro, sobrevém reminiscências dos tempos vividos no ginasial.
Esta é mais uma de elas:
Fui levado a prestar exame admissional no Colégio Estadual Professor Alberto Conte (que se situava a onze km de minha casa), por que o meu irmão mais velho já estudava lá, havia dois anos.
Em aquele tempo as escolas públicas ainda tinham moral para exigir, dos alunos, a aquisição de um fardamento escolar completo.
O do Alberto Conte era quase um enxoval:
terno cáqui, meias e camisas brancas e gravata preta.
Os ternos eram confeccionados em brim, para o ginasianos, e em casimira, para os alunos do curso colegial.
Tinha até um uniforme de ginástica:
calções vermelhos, camiseta regata branca e meias e tenis brancos.
Aliás, naquele tempo, os tenis eram brancos *.
A exigência da utilização desta farda era rigorosa:
sem uniforme a gente não assistia aulas, nem adiantava insistir.
Mas, como as roupas se sujavam, havia, pelo menos, um dia por trimestre, em que os uniformes eram dispensados para que recebessem um «trato».
Em uma sexta feira fomos avisados que o uniforme seria dispensado na próxima segunda.
Para voltar para casa, pegávamos o bonde, que saia do Largo Treze de Maio, em Santo Amaro e se dirigia ao centro, atravessando a região onde hoje é a Avenida Ibirapuera até a Praça João Mendes (descíamos na metade do caminho, na parada " Pedro de Toledo ").
Em esse dia, voltamos para casa no mesmo bonde, eu, meu irmão e mais três amigos de ele e fui testemunha do desafio que, entre si, fizeram, e que pode ser assim resumido: --
Vamos ver quem é macho para ir para a escola de calças curtas na segunda-feira!
Em o dia azado lá estavam os quatro machinhos mostrando as pernas peludas no pátio e nos corredores do Colégio.
O que comentar sobre isto?
Apenas o óbvio, o que qualquer adulto, mesmo não sendo educador, cocluiria sem esforço:
eles estavam, muito, querendo chamar a atenção sobre si mesmos.
A direção do Colégio, no entanto, escandalizada com tamanha «ousadia» -- nunca vi uma coisa tão tristemente ridícula, parecia que tinham cometido um crime!--
resolveu «punir severamente» os meninos com três dias de suspensão e.. acreditem, se puderem, a vice-diretora percorreu, com eles, todas as salas do colégio para, com um sermão «em regra» desmoralizá-los (sic), de maneira exemplar, frente os demais!
Inesquecível a cara de felicidade, o sorriso com todos os dentes, que meu irmão ostentava ao ser entronizado, com os outros colegas, em minha classe.
Um ar vitorioso de quem atingiu completamente seus objetivos.
Acho que eles nunca imaginaram que a direção do colégio pudesse servir-lhes de contra-regra, Iluminando e ampliando o palco, tão idealizado por eles durante todo o final da semana.
Quanto à vice-diretora, não me lembro das bobagens moralistóides que, certamente, disse.
Mas, ainda que muda ficasse, ainda assim mereceria pendurar no peito uma plaquinha com os dizeres:
«Orgulho-me de ser uma idiota!" * parece que não são mais.
Ano atrasado percorri, uma a uma, todas as lojas de calçados do centro (e dos shoppings) de Teresina e não encontrei um único exemplar de tenis branco, nem de outro número, nem de modelo feminino que fosse.
Número de frases: 32
O ready made de Marcel Duchamp, a antropofagia de Oswald de Andrade e a construção de uma identidade artística brasileira.
Não há dúvidas que Duchamp é um dos maiores artistas do séc..
XX. Suas atitudes e gestos desmistificaram a arte e provaram que arte e vida podem se relacionar antecipando o conceito de bricolagem que chegou até a música pop na forma de «do it yourself» que é a origem da verve do punk rock.
O ready made pressupõe uma incorporação de algo não artístico que é trazido para a esfera do artístico por o simples gesto do artista, que escolhe e delibera sobre o que é e o que não é arte, mas o próprio ready made não é arte, já que seu objetivo é a ironia e a crítica.
Quando Duchamp desce a arte de seu pedestal etéreo para o chão da vida, a arte se «democratiza» como previu Walter Benjamin e, o que veio a se chamar música pop, de um jeito ou de outro, legou o espírito duchampiniano e nos chegou com as vantagens e desvantagens da reprodutibilidade técnica.
Esta incorporação de elementos não artísticos se desdobrou, na arte contemporânea, em incorporação de elementos de outras obras para comporem as novas obras, promovendo um rico diálogo entre os artistas e caracterizando a arte moderna e contemporânea por o meta-discurso.
Quando, no final da década de vinte, Oswald de Andrade propõe uma antropofagia artística, há uma desmistificação da idéia segundo a qual construir uma identidade nacional seria retomarmos apenas os primeiros habitantes dessa terra:
os índios.
Partindo desta proposta, Oswald cria o conceito de antropofagia, no qual nossa cultura devora o estrangeiro e, a partir dessa incorporação (um corpo que devora o outro), há uma constituição artística autêntica.
Os índios brasileiros nunca praticavam antropofagia para se alimentarem, mas sim com a intenção de incorporar o inimigo, reconhecendo suas virtudes e desejando obtê-las por meio deste ato.
Este seria o principal traço de uma cultura tipicamente brasileira, o colonizado devora o colonizador:
na arte os papéis se invertem.
Como disse «Tom Zé,» a bossa nova inventou o Brasil e teve que fazer direito».
É esta a grande inovação que a geração da ditadura nos legou:
Em o auge da repressão, o espírito da modernidade artística chega à música pop / popular brasileira e, desprovido de bons modos, devora os estrangeiros, incorporando suas virtudes do modo mais brasileiro.
Oswald tinha razão:
a brasilidade sempre esteve no canibalismo, o Brasil é junção, mistura, incorporação, numa palavra:
antropofagia. De o mesmo modo que, por exemplo, o congado mineiro tem ritmos africanos para louvar Nossa Senhora do Rosário [os santos europeus convivem com orixás africanos] Gilberto Gil e Os Mutantes utilizaram guitarras elétricas para os puristas da M.P.B no Domingo no Parque:
chuva do mesmo bom sobre os caretas.
Sempre fomos miscigenação, sempre fomos inclassificáveis como disseram Arnaldo Antunes e Chico Science.
O tropicalismo traz a antropofagia da esfera da literatura / filosofia para a cultura de massa, incorporando elementos da música pop do hemisfério norte, e traduzindo-os numa nova linguagem.
A partir daí a música pop / popular brasileira aprendeu a devorar.
A tropicália, no final dos anos sessenta, inicia o banquete proposto por Oswald de Andrade.
Já a década de oitenta quase não devorou, apenas engoliu e, nos anos noventa, temos uma retomada da antropofagia.
E assim o tropicalismo ensinou:
decifra-me, ou te devoro.
Incorporação de tudo o que pulsa, que vive, do rock aos regionalismos, da inovação absoluta da bossa nova de João Gilberto, até o iê iê romântico mal deglutido da jovem guarda.
O Virna Lisi, grupo mineiro, pioneira e magistralmente propôs um rico diálogo entre rock, samba e experimentações fonéticas, o que antecipou e, sem dúvidas, influenciou propostas artísticas bem sucedidas comercialmente, como os Raimundos, e bem sucedidas artisticamente, como o movimento Manguebeat.
Chico Sciense emblematicamente simbolizou o movimento com a parabólica fincada na lama do manguezal.
E os pernambucanos do Manguebeat reinventaram a música pop / popular do Brasil devorando os estrangeiros e divulgando a cultura do mangue para o mundo.
Essa marca da modernidade deixada por Duchamp nos legou a atitude característica do contemporâneo:
a paródia, a apropriação, o diálogo, a arte que fala de si mesma.
O Brasil soube incorporar estes elementos de forma única e podemos senti-la por toda parte.
Desde, por exemplo, as experiências de djs que utilizam trechos de canções da black music norte americana até Adriana Calcanhoto, que confeccionou uma música utilizando somente fragmentos de canções de Caetano Veloso para criar uma nova canção intitulada «vamos comer caetano».
Se a música baiana tem como característica principal, além das percussões, a guitarra elétrica;
se os músicos do clube da esquina dizem amar os Beatles e se a bossa nova incorporou elementos do jazz e vice versa, isto significa que o Brasil dialoga de igual para igual com o hemisfério norte, ao menos em termos artísticos e, no século vinte, acompanhou plenamente as vanguardas mundiais.
O manifesto da poesia pau-brasil de Oswald de Andrade foi escrito no mesmo ano do manifesto surrealista de Breton, 1924.
O movimento tropicalista delineou os caminhos da música brasileira e abriu portas para experimentações abalando os pilares da conservadora cultura de massa.
Essas ousadias nos proporcionaram incríveis propostas artísticas, desde bandas como Secos & Molhados que até mesmo inspiraram o que veio a ser o grupo Kiss, a partir da famosa recusa de Ney Mato Grosso em participar, até a pulsante atmosfera contemporânea de bandas e artistas independentes que optam por o risco, por a autenticidade, por a independência eminentemente criativa, devorando o que lhes interessa da cultura de massa e transformando isso em boa música pop / popular.
Para exemplificar cito artistas que estou ouvindo ultimamente e que endossam meu argumento:
O Vanguart de Cuiabá, O Seychelles de São Paulo, o borTam, Pedro Morais e Batucanto de Belo Horizonte, entre tantas outras ...
Número de frases: 41
texto publicado originalmente no jornal «O Cometa Itabirano em Julho de 2008».
Por: Gabriela Cuzzuol em 25 de julho de 2007.
Os detalhes da trajetória de Adriana Falcão, são tão diferentes que poderiam ter sido extraídos de um de seus livros de ficção.
Carioca, criou-se em Recife e voltou para o Rio, quando, depois de se formar em arquitetura resolveu passar a vida fazendo algo de que gostasse, ou seja, escrever.
Embrenhou-se por o universo da publicidade, até que Guel Arraes, diretor humorístico, pegou um de seus textos e resolveu utilizá-lo em teatro.
Tempos depois, os dois adaptariam para tv e cinema, O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, que acabaria sendo um divisor de águas do cinema nacional.
Mais uma vez, fez o «caminho inverso», tendo se firmado primeiro como roteirista, cronista e então embarcando para literatura.. Em 15 anos de carreira são 13 livros, 2 adaptações para cinema, uma peça de teatro e três séries para Tv, entre as quais A Grande Família no ar há 7 anos e quarta maior audiência da emissora.
Em esta entrevista Adriana fala de sua trajetória, planos futuros e de «Sonhos de Uma Noite de Verão», adaptação de Shakespeare» bem abrasileirada " assinada por ela:
Gabriela Cuzzuol:
Você é arquiteta.
Como enveredou por a literatura?
Adriana:
Bem, para começar eu detestava muito arquitetura, não tinha nada a ver.
Aí conheci o João, que largou o curso e foi fazer teatro.
Fui com ele, mudamos para o Rio e eu comecei a escrever diálogos.
Os atores de teatro gostavam e começaram a usar em peças.
Gabriela Cuzzuol:
Já imaginava poder viver de arte?
Adriana Falcão:
De forma nenhuma.
Para qualquer menina brasileira era inimaginável viver qualquer forma de arte, imagine para uma que vivia em Recife!
Eu sou carioca, mas fui criada lá!
Então, trabalhava como redatora publicitária e me considerava bem feliz por poder ao menos, viver de escrever!
O João (Falcão-esposo e sócio de Adriana), começou a trabalhar com isso profissionalmente encarando, inclusive as dificuldades da profissão.
Eu, colaborava, mas vivia de publicidade.
Gabriela Cuzzuol:
Sim. E da redatora a roteirista ...
Adriana:
Pois é.
Fui convidada a escrever umas crônicas para a " Veja São Paulo, entre 1994 e 95." O Guel (Arraes) gostou e pediu para usar.
Paralelamente, o João trabalhava com teatro e os atores gostavam dos diálogos que eu escrevia.
Então foi assim.
Até hoje sou especialista em diálogos, Em a «Grande família» por exemplo, é essa a minha maior função e quando tenho que fazer adaptação para roteiro trabalho com um roteirista do lado.
Gabriela Cuzzuol:
E com o Guel Arraes você adaptou «O Auto da Compadecida»?
Adriana:
Sim, foi.
O Guel é um grande amigo e fizemos boas coisas juntas.
Acho inclusive que um texto meu ter caído nas mãos de ele, foi uma grande sorte minha.
Gabriela Cuzzuol:
E o desenvolvimento da sua carreira passa por a do João Falcão, seu marido?
Adriana:
Sim, sem dúvida.
Fizemos e ainda fazemos muitas coisas juntas.
A adaptação da «A Máquina» para teatro é de ele a para cinema foi a parceria, a «Comédia da Vida Privada» e «A Grande Família» também Em o momento estamos adaptando o meu livro «A Comédia dos Anjos» para cinema.
Somos casados há 19 anos e muito próximos.
G.C:
Adriana, ainda falando de cinema, na sua opinião se fazem poucos filmes no Brasil?
Adriana:
Pouquíssimos. Acho que nós estamos vindo de um período negro no cinema nacional, anos e anos sem produção nenhuma, estamos recomeçando todo um trabalho.
João e eu sempre estivemos muito próximos a todo o processo de produção de filmes, no ' A Máquina " por exemplo acompanhamos tudo bem de perto, e acho inclusive que o processo se parece bastante com o de Tv.
G.C:
E isso é ruim?
Adriana:
Não necessariamente.
Existe esse preconceito de que diretor de Tv não pode fazer cinema porque fica com cara de Tv e isso não tem nada a ver.
O cara que está ali fazendo Tv há 20 anos tem todo um conhecimento técnico que pode e deve ser aproveitado.
O Jorge Furtado, tem como elemento básico no currículo a experiência em Tv.
O Guel também agrega as duas coisas e tal ...
acho isso muito válido.
São inclusive dois grandes diretores, que juntam a experiências em veículos diferentes.
G.C:
Ainda tratando de cinema, você acha que faltam roteiristas?
Adriana:
Faltam, sobretudo bons.
Acho que como passamos muitos anos sem produzir cinema, só agora as pessoas estão se interessando em estudar roteiro, aprender a fazer, se interessando mais aprimorar, investindo nisso.
Eu acho que falta um pouco de formação, ou melhor que a formação é algo recente.
O Guel costuma dizer que difícil no cinema brasileiro não é diretor, mas roteirista.
Não é todo dia que eu olhe um roteiro e ache realmente surpreendente.
É difícil de encontrar.
G.C:
você as chances para estes novos roteiristas?
Está mais difícil começar?
Adriana:
Nossa, muito.
É muito complicado porque você tem que dar sorte.
Eu sinto as vezes que as pessoas tem até uma certa má vontade em ler um roteiro de alguém que está começando, sabe?
Você tem que contar com a sorte de fazer um bom contato, do roteiro cair nas mãos certas, e aí vai ...
Eu costumo dizer que tive muita sorte na vida, conhecer o Guel inclusive foi uma de elas ...
Eu não estaria aqui hoje se não fosse por sorte.
G.C:
Então você acha que era o seu caminho?
Adriana:
Tenho certeza de que em todo o caminho o importante é a persistência.
Se você quer, se acredita, batalha porque um dia vai.
Como eu coloquei, há a necessidade de novos roteiristas.
Em a «Grande Família» trabalhamos com uma equipe de 7 pessoas que vieram da Oficina da Globo e tem dado muito certo.
G.C:
O mercado de cinema necessita de maior produção?
O mercado precisa de mais produção, o país tem que filmar mais.
Eu acho um prazer ler roteiro de iniciante porque é bom você ver algo novo, diferente, então leio tudo o que cai na minha mão e acho que não é favor.
E tem ainda a ver com minha filosofia de «devolver a vida o que ela me deu».
Acho que tenho muita sorte não apenas no profissional, mas também no pessoal, tenho duas filhas lindas, um casamento bacana, uma profissão que amo.
Então tenho mais é que me sentir honrada em poder ser gentil com as pessoas, ...
não acho que seja favor não.
Acho que o nosso cinema precisa de novidade, o nosso país precisa de gente nova, preparada e boa fazendo cinema.
G.C:
E falando de literatura Adriana, você acaba de lançar uma releitura de Shakespeare.
Como surgiu a idéia?
Adriana:
A Editora Objetiva me ligou e falou que tinha o projeto «Devorando Shakespeare», por o qual eu, Veríssimo e Jorge Furtado adaptássemos as obras que preferíssimos do autor.
Aí, fiquei nervosa duas vezes:
primeiro por ser tratar de Shakespeare, segundo por estar ao lado do Veríssimo e do Furtado, que são dois ídolos para mim!
Eu pensei:
Nossa, olha a responsabilidade!
Vão digitar Veríssimo, Furtado e Shakespeare na Internet e lá estarei eu, ao lado de eles!
E para piorar, eu não sou profunda conhecedora da obra de ele, há outros autores que conheço bem, mas ele não!
Gosto e tudo, mas sei o básico.
G.C:
E como foi a opção por o «Sonhos de uma åNoite»?
Adriana:
Pois é, eu gosto muito de realismo fantástico, aquela coisa meio Gabriel García Marques, Vargas Llosa e tal ...
Então, pensei em fazer o «Sonhos» por ter essa coisa meio mágica, meio surreal, de quatro noites que parecem uma e no fim é tudo um sonho.
G.C:
E a idéia da estória se passar no Carnaval da Bahia, foi simples?
Adriana:
Não, foi bem complicado.
A idéia da Objetiva era de adaptar o roteiro para uma realidade bem brasileira, então eu pensava, até que achei que esse negócio de quatro noites que parecem uma poderia acontecer no Carnaval da Bahia.
G.C:
Já esteve lá?
Adriana:
Sabe que nunca!
Ouço falar, os artistas vão e me contam e acho até que nós vemos tanto por a Tv que nem precisa ir para saber como é (risos) ...
G.C:
O " Sonhos ..."
ironiza essa cultura de celebridades.
Coincidentemente, você e João Falcão não são comumente vistos na mídia.
É temperamento ou opção?
Adriana:
Acho que os dois.
Eu sou mais caseira, até porque ando trabalhando demais e quando tenho um tempinho, prefiro curtir a família, reunir os amigos em casa e tal ...
João é mais de tocar um violão, confratenizar aqui mesmo.
É mais a nossa ...
G.C:
Em o Comédia dos Anjos (seu best seller), você trata das relações familiares.
Acha que isso manifesta um traço cultural latino?
Adriana:
Totalmente. Eu e João estivemos na França, enquanto fazíamos a adaptação do livro para cinema, e reparamos em como essa relação é diferente lá.
Essa coisa do filho em casa aos 30 anos chega a incomodar os pais ...
Aqui nós choramos quando eles vão embora.
G.C:
Ainda falando sobre o «Comédia ...»,
você diz que ele foi inspirado na sua mãe.
São pessoas que te inspiram ou vem mais de situações diversas?
Adriana:
Olha tem umas pessoas bem engraçadas que acabam por ser referência.
Tenho um cunhado por exemplo, de quem me lembro quanto estou escrevendo o «Agostinho da Grande Família».
Tipo, ele não tem aquele estilo malandrão, meio irresponsável ...
mas o jeito «figura» do Agostinho é todo de ele.
Algo que vi na rua, algo que me contaram ...
na hora de escrever, vai tudo!
G.C:
Você tem livros publicados para o público infantil e infanto-juvenil.
Resolveu escrever para este filão por achar que há carência de mercado ou sua forma de narrativa tem elementos que facilitam o contato com esse público?
Adriana:
Olha, eu acho que o mercado infanto-juvenil tem uma produção muito pequena.
Há muitas coisas para crianças e adultos, mas poucas para aquele período entre uma fase e outra.
Mas também acho que meu estilo de escrever tem essa característica de reinventar as coisas, repensar ...
isto facilita tudo, as coisas mais simples.
G.C:
E os próximos projetos, quais são?
Adriana:
Bem, João e eu adaptamos para cinema o «Comédia dos Anjos», que está em fase de produção e terá a Marieta (Severo) como protagonista.
Se tudo der certo será lançado em 2008.
Estou terminado uma oficina de diálogo, no Teatro Poeira no Rio, que me demandou bastante energia.
Em o fim do mês, quero tirar uns 10 dias para me concentrar apenas na «Grande Família» e depois pensar em futuro com calma.
Número de frases: 166
Bom é quando o nome diz tudo.
Quem vai assistir a um «Instantâneo» no Teatro João Paulo II, aqui em Teresina, vai sabendo que não deve ficar pensando no que pode aparecer no palco.
Porque ficar especulando é perder tempo e bom mesmo é ver a coisa acontecendo.
É ver os artistas criando, improvisando e fazendo tudo ali, na frente da gente, sem tempo para correções, ensaios.
As idéias já fervilhavam na cabeça do bailarino Marcelo Evelyn, o diretor do teatro, desde que ele chegou da Europa, onde morou por muitos anos.
«O Instantâneo é um projeto querido, que eu comecei a pensar porque eu gosto muito da idéia de improvisação, acho importante usar o improviso como forma de trabalhar idéias e de desmistificar essa idéia do espetáculo pronto, do produto pronto», comenta.
Em Amsterdã, antiga morada de Evelyn, os espetáculos de improvisação são comuns e existem grupos que trabalham só com isso, ele conta que há projetos como o «Instantâneo» em alguns teatros da Europa, mas por aqui é novidade absoluta.
O bacana é que o projeto foi pensado para misturar as diversas tribos de artistas.
Não é como uma jam session no teatro, reunindo vários músicos tocando coisas diferentes.
«É mesmo improvisação, temos dois encontros nos dois dias anteriores à apresentação só para que as pessoas se conheçam e possam experimentar algumas coisas.
O que tem acontecido é um cruzamento entre artistas de linguagens diferentes.
Estamos tentando fazer não só com músicos, ou só com atores ou só com bailarinos.
O que queremos ver é como cruzar a dança com o teatro e com a música e de que forma nós podemos trabalhar as ferramentas dessas três artes juntas.
Eu sinto que elas estão se fundindo», explica.
A informalidade das apresentações e das linguagens em cima do palco chega à platéia e acaba por aproximar o artista do público.
Já se nota uma grande participação de quem assiste -- participação de conversar, gritar, elogiar, criticar, tudo ali em voz alta, enquanto os artistas estão no palco.
O bairro Dirceu Arcoverde, onde fica o teatro, é na periferia de Teresina e a grande maioria dos moradores de lá não tem o costume de ir ao teatro.
A diversão se resume a assistir TV e ir a um ou outro show de forró ou baile de reggae.
«O'Instantâneo ' tem chamado muito as pessoas para cá.
A cada semana notamos que vem mais gente e isso dá um gás novo pra nós.
Em as primeiras quatro semanas tivemos públicos de 100, 150, 200 e 278 pessoas, e a maioria é gente daqui de a comunidade.
Eu vejo isso como uma vitória;
e fico feliz porque já ouvi de algumas pessoas que estamos chegando a um nível social, ultrapassando o artístico, porque estamos conseguindo tirar esse público da frente da TV por uma noite que seja e dando a eles a oportunidade de ver outra coisa», comemora o diretor.
Ás quartas, quando acontece o «Instantâneo», o teatro não cobra ingressos.
É mais uma forma de tentar atrair o grande público.
Marcelo Evelyn revela que muitos moradores da região nunca tinham entrado num teatro, acabam gostando do que vêem e com isso voltam mais vezes.
A formação de platéias é um dos objetivos do Teatro João Paulo II, que está funcionando também como centro de criação.
«Todo artista deve querer experimentar "
Evelyn quer que o «Instantâneo» aproxime mais os artistas das diversas áreas.
Ele diz que com cada grupo ou pessoa trabalhando isoladamente os resultados vão continuar demorando muito para aparecer.
«A verdade é que a gente não tem patrocínio, as leis não são lá muito organizadas, os artistas acabam não sendo só artistas porque não conseguem viver só da arte de eles.
Acho importante a gente ter essa idéia do ' fazer ', da ação».
As experiências de trocas entre os artistas têm sido ricas.
O diretor comenta que no caso dos atores é interessante observar a interação durante os espetáculos porque eles não estão muito acostumados a dialogar com outras áreas.
«De repente o ator se vê dançando, o músico se vê atuando.
Acho importante que o artista, mesmo o'iniciado ', que já tem um grupo, uma carreira, tenha um espaço para experimentar, para arriscar em outras coisas, ver novas possibilidades e crescer com isso».
Os artistas que querem participar do «Instantâneo» entram em contato com o Teatro e agendam a data, já existe uma lista de interessados e a direção da casa tem tentando encaixar todo mundo.
Além de atores, músicos e bailarinos, o espaço está aberto para artistas plásticos, poetas, profissionais de iluminação, enfim, quem tiver alguma coisa para mostrar e estiver disposto a dividir o palco e interagir com outras pessoas.
«Eu acredito muito nesses cruzamentos, e o nome do projeto quer dizer exatamente isso. '
Instantâneo ' é o feito na hora, como uma coisa solúvel, que é só misturar ali para dar certo.
Como um cafezinho que a gente toma para sair para trabalhar», arremata.
Número de frases: 41
Pernambuco tem o que comemorar este final de ano, pois pela primeira vez, uma série é produzida no estado atraés do primeiro núcleo de dramaturgia numa Tv.
Os atores são todos locais valorizando o nosso mercado das artes cênicas, além de possibilitar uma ampliação na produção local de vários profissionais, seja no campo técnico ou artístico.
A idéia inovadora partiu do Diretor e Roteirista de Cinema Ademir Paulo (premiado por o filme " O Outro no Guarnicê 2006 ") e por a TV Nova Canal 22, dirigida por o comunicador Pedro Paulo que aceitou a idéia e vai investir na dramaturgia.
Número de frases: 3
A Série Diário De Maria também será exibida nacionalmente por a TV Genesis em Brasília e transmitida para todo país e parte da Europa por a tv a cabo.
Sócrates não gostava de livros.
O filósofo grego resmungava que, por culpa dessas novas tecnologias, crias diretas da equivocada invenção do alfabeto, os jovens deixariam de usar a memória, entregariam esta responsabilidade a caracteres inanimados e nunca mais seriam capazes de evocar o conhecimento por si próprios.
Assim, Sócrates parecia temer o objeto livro.
Ele preferia confiar no conhecimento virtual dos confins do espírito.
Tanto foi assim que nunca deixou nada escrito.
Tudo que sabemos de ele vem do relato de seus discípulos Platão e Xenofonte.
No decorrer dos séculos, o artefato livro inspirou um fascínio assustador no imaginário popular.
Mesmo quando ainda não tinham o formato por o qual hoje o conhecemos, esses objetos passaram a ser intimamente temidos e admirados como os sumos portadores dos mistérios profundos do mundo.
Rolos e códices de pergaminhos sagrados, manuscritos com fórmulas proibidas da alquimia, tábuas ancestrais de argila ou terracota e suas revelações dos mais baixos segredos do homem e do universo eram meticulosamente soterrados em porões de mosteiros.
Pouquíssimos sacerdotes tinham acesso a esses registros.
Durante séculos, incunábulos amaldiçoados no Index Librorum Proibitorum foram aniquilados e queimados, às vezes junto com os autores e leitores.
Reverência ao livro
Percebe-se que essa intuição temorosa de certa forma perdura até hoje.
Quando crianças, em plena primavera, temos uma relação aberta e dessacralizada com textos e livros.
Sem o mínimo de cerimônia, debochadas, indisciplinadas e displiscentes, riscamos, desenhamos nas margens, rasgamos, colamos, picotamos as figuras.
Uma delícia.
Se a obra torna-se desinteressante, desprezamos, amassamos, jogamos fora.
Mas quando num dia de verão acordamos adultos, passamos a ter uma postura mais reverencial perante o objeto livro.
Muitos consideram um sacrilégio riscá-lo.
Quando o fazem, preferem lápis, fingindo que num futuro eventual pretendem apagar as anotações que um dia pareceram importantes.
Adultos são inibidos e constrangidos.
Tratam o livro como uma peça sagrada, inviolável.
Como bem observou a pesquisadora Maria Helena Martins, isso ocorre porque, sem dúvida, desde os pergaminhos mágicos, há ainda uma forte tradição de culto ao suporte.
Além de criar uma adoração ao artefato, essa mística cartorial nos faz acreditar que o que está impresso em livro é verdade selada e carimbada.
Não sem malícia, o poeta e violeiro Catullo da Paixão Cearense, quando mostrava a alguém os seus manuscritos, dizia que depois de impressos ficariam melhores, e ao saírem em livro estariam excelentes.
Mas talvez tenha chegado a hora de pensar o texto menos como um artefato e mais como um acontecimento.
Barthes fala da necessidade de colocarmo-nos dentro da produção, não dentro do produto.
Novas leituras iconoclastas se fazem necessárias para que possamos nos libertar da adoração ao objeto para submergir, sem obstáculos, nas profundezas do texto.
Paulo Freire ensinava que o ato de ler não se refere apenas às palavras.
Lemos a cidade, as pessoas.
Lemos o mundo.
Mas, mesmo quando a leitura está restrita ao livro, o fato é que não lemos apenas com os olhos.
Lemos com o paladar, com o olfato, com o tato.
Quando nos dedicamos ao texto, o corpo inteiro está mobilizado na leitura.
Nossos músculos lêem com nós, nosso fígado se contrai, os rins se ajeitam, a pele se arrepia, o estômago se contorce.
McLuhan dizia que as tecnologias são extensões do corpo humano.
Assim, o garfo seria a continuação de nossas mãos;
o pneu, a extensão de nossos pés;
a roupa, a extensão da pele, e assim por diante.
É uma visão muito perspicaz.
Todo artefato tecnológico é evidentemente cultural, pois nasceu de anseios humanos, foi feito por os (e para) os humanos.
Precisamos sempre saciar o apetite dos anseios da alma perante nossa frágil biologia.
Assim, descobrimos que podemos acoplar uma pedra à mão e triplicar a potência da pancada.
Depois, aprendemos a lançar o apetite através de um arco e assim alvejar uma presa.
Mais tarde, transformamos em telefone os nossos delírios telepáticos.
Construímos o avião com nossa vontade de voar.
Burilando a roda quadrada
Mas o computador ainda está em sua pré-história, quer consideremos seus processos internos, quer a estrutura física de seus equipamentos.
Assim como houve um tempo em que os vasos sanitários eram quadrados, os computadores ainda não estão adequados à anatomia humana.
Poucas coisas são tão desconfortáveis aos nervos e músculos quanto a combinação de mouse, teclado e monitor.
Ainda estamos burilando a roda quadrada.
Talvez por a pressa em vender um produto inacabado, talvez por a fome do público que salivava sonhando a Internet, comemos tecnologia mal-passada e admitimos os maus-tratos às vértebras.
Essa auto-flagela ção não ocorria, por exemplo, com nossas velhas tias datilógrafas.
Isso porque, entre diretos de esquerda e cruzados de direita em suas Remingtons, as pugilistas alternavam os esforços repetitivos da datilografia com exercícios variados, pois se ocupavam simultaneamente em colocar papel, ajeitar o carbono, girar o botão de deslize de folhas e acionar o braço do carrinho.
Hoje em dia não há digitador que não tem, teve ou terá uma lesão por esforços repetitivos, ou pelo menos uma tendinite.
Ler um texto num monitor, então, nem se fala.
É ridículo.
Cansa as vistas em minutos.
Entretanto, persiste um grande equívoco nas críticas às narrativas da era da Internet.
Pierre Lévy observa que considerar o computador apenas um instrumento a mais para produzir ou ler textos significa negar sua fecundidade cultural própria.
Primeiro, ele argumenta que o hipertexto é análogo à estrutura de pensamento:
sempre estamos nos deslocando em memórias e idéias no decorrer da leitura linear.
Mas o que se articula no computador, e que provavelmente será sua grande ruptura, são as narrativas estruturadas em rede.
Se a escrita alfabética estabilizou-se sobre e devido a um suporte estático, não é um despropósito questionar se o desenvolvimento de um suporte dinâmico, como são as redes de computadores, não poderia naturalmente reinvidicar a estuturação de novos sistemas de escrita.
Estaríamos então num tempo de reconfiguração mental, cujo objetivo é integrar o espírito do homem ao labirinto sináptico da Intenet -- extensão tecnológica de nossos próprios sistemas nervosos.
Lévy chega a entusiasmar-se, como se acabássemos de saír da escrita pré-história e a aventura do texto estivesse apenas começando.
como se acabássemos de inventar a escrita».
Em eXistenz, o cineasta canadense David Cronemberg sonhou a história de um grupo que joga um vídeo-game com conexão orgânica.
Para entrar no ambiente virtual, os jogadores primeiro fazem uma cirurgia para ligar o cabo do equipamento diretamente na medula.
Quando começam a jogar, todos os sentidos biológicos são «transportados» para dentro do jogo -- ou melhor, a realidade sensorial externa é substituída por a realidade virtual interna através de estímulos eletrônicos diretamente enviados ao cérebro que mimetizam em todo o corpo a ambientação, os sons e o cheiro do jogo.
Aqueles jogos tridimensionais com capacete parecem pré-histórico, pois em eXistenz o vídeo-game é vivenciado fisiologicamente por a visão, tato, olfato, audição e paladar.
Durante as peripécias do jogo é possível caminhar na rua, ir a um restaurante, comer um besouro exótico e experimentar seu gosto, sentir suas perninhas roçando na língua.
Este filme, como todos do Cronemberg, é repleto de ambigüidades, pois depois de algumas idas e voltas, nem o espectador nem os personagens sabem direito o que é realidade e o que é virtual, pois ambas são idênticas.
Surge aí um infinito novelo filosófico que, evidentemente, esse ensaio não pretende desembaraçar.
Apesar de ainda ser pura ficção científica, e apesar de ainda necessitar de exaustivos debates sobre bioética, passo-a-passo essa parece ser a tendência de desenvolvimento dos jogos eletrônicos que, por sua vez, têm influenciado decisivamente o paradigma de recepção da tecnologia digital.
A geração anterior de «analfabites» talvez não esteja preparada para isso.
A atual geração lida com mais naturalidade com computadores, conexões em rede e intervenções cirúrgicas no próprio corpo.
Quando as pessoas estarão dispostas a conectar a própria alma na Internet, a fazer downloads de sonhos, a transitar nas mentes de multidões, eis uma boa questão.
Portanto, num exercício de ficção científica nada despropositado (lembremo-nos que muitas banalidades cotidianas de hoje não passavam de loucas utopias no passado) poderíamos reordenar as reflexões anteriores para sonhar um sistema biotecnológico profundamente integrado à fisiologia humana, pronto para estabelecer com a literatura em rede uma conexão aberta e dessacralizada, capaz de aniquilar o culto ao objeto e proporcionar a total imersão nas vísceras do texto.
Efetivando a utopia simbiótica de McLuhan, essa biotecnologia faria os textos fluírem não para uma superfície de um objeto exterior, mas diretamente para o pensamento.
Como numa alucinação transcendental, de olhos fechados, repousados numa velha poltrona no jardim, deixaríamos as células do corpo deliciarem-se na fagocitose das texturas de narrativas tridimensionais e mergulharíamos nas experiências exponenciais das articulações do texto em toda a sua plenitude.
A partir desse novo paradigma no conceito de memória, num atrevimento insolente, poderíamos sugerir que desta vez estaria sendo levado a efeito a utopia de Sócrates.
Número de frases: 83
Com a extensão de nosso sistema nervoso em rede, poderemos finalmente, em tributo ao desejo do filósofo, ler o conhecimento não através de um suporte físico, mas virtualizado nos recantos do próprio espírito.--
Boa noite Roberto.
-- Boa noite.
-- São cinco reais.
-- Pô velho, cinco reais me quebra.
Dá pra fazer por três?
-- Não dá.
Mas pode deixar que eu ficarei até às 4 da manhã.
-- Só quero ver ...
Como está hoje?
Cheio?
-- Ainda não.
O grupo começou a tocar há uns quinze minutos ...
É sempre assim que começam as noites no clube Democráticos, reduto do samba de gafieira na Lapa, que chega a reunir 600 pessoas todas as quintas.
O guardador de carro jogo duro e sorriso farto se chama Roberto Antunes, que trabalha há três anos no mesmo ponto na altura da rua do Riachuelo, 91, sempre de quarta à sábado.
Roberto que trabalha como pedreiro de manhã também curte o samba da casa, mas prefere ir aos domingos, quando rola o baile da terceira idade.
Nunca consegui um desconto.
Roberto é irredutível quando o assunto é dinheiro e sabe fazer isso com um sorriso no rosto.
Além de tudo, ele sempre está lá quando eu volto.
Droga. Com cinco reais a menos no bolso, me dirijo para a entrada do clube democráticos, onde dezenas de pessoas fazem uma social antes de subirem para o samba.
Em a entrada, a diversão é olhar as cocotas passando pra lá e pra cá e tomar a promoção «três por cinco», três cervejas por cinco reais na barraquinha do Leonardo.
Leo, como gosta de ser chamado já virou um personagem da Lapa, mesmo com pouco tempo no ponto, quatro anos, não tem ninguém que passe por ele e o não cumprimente.
«O cara é uma figura lendária do lugar.
Pode perguntar por a Lapa pra ver só», afirma o estudante de letras Gustavo Marinho, no beco do Rato, há sete quarteirões do clube.
Como ele mesmo gosta de frisar, «O marketing da pessoa faz a propaganda, né família?».
-- Ô se faz.
Agora me dá uma outra cerveja, aquela lá do fundo.
O concorrente direto de Leo na guerra das louras tem nome de tenor, Valentim Pavaroti, que trabalha no ponto há três anos.
Conhecer boas histórias da Lapa ajuda a atrair fregueses e isso ele faz muito bem.
Basta comprar a uma latinha que ele conta todas as histórias.
Agora, se não comprar ...
ele conta da mesma maneira!
«As histórias que mais acontecem aqui são de pinguços.
Gente que bebe a noite inteira e passa vergonha depois, como um sujeito que quis imitar desenho animado e descer o corrimão da escada escorregando, mas caiu da escada de cara no chão», apontando para a escada secular do clube, fundando em 1863.
Em as horas vagas Valentim deixa de lado as cervejas e sai por as noites da Lapa filmando com a sua câmera " VHS.
«Se eu pudesse ter registrado tudo que eu já vi por aqui ...
a Lapa dá um filme por dia», conta Pavaroti que gosta de planos longo do burburinho boêmio do bairro sem interagir com os personagens.
Praticamente um documentarista adepto do cinema direto.
Deixo o cinema de lado e me concentro no vai-e-vem de mulheres bonitas que passam por a entrada.
Têm de todos os tipos:
louras, morenas, baixas, altas e uma categoria toda especial:
gringas. Mira Stefanyak é ucraniana e está no Rio fazendo intercambio na área de relações internacionais.
Essa é a sua primeira vez no samba.
Veio com a amiga e gatinha Natalie Vassalho, que estuda comunicação social na PUC."
Eu gosto daqui porque é algo genuinamente carioca.
As pessoas vêm para dançar e se divertir», afirma a jovem.
Perguntou se ela costuma vir com o namorado para o samba.
Ela responde sorrindo que não tem namorado.
Diz a lenda que o Democráticos começa e termina relacionamentos amoroso.
Então rapazes, se ouvirem de suas namoradas que elas vão só dançar com as " amigas no Demo ..."
fiquem de olho, pois a possibilidade de sua cabeça começar a coçar no dia seguinte é grande.
A história do clube
Subindo as centenárias escadas do clube, o espaço impressiona por o pé direito alto e por os seis janelões que davam para antiga fabrica de cerveja que hoje virou um complexo residencial no coração da Lapa.
mais de 700 apartamentos foram vendidos em menos de 2 horas horas, antes mesmo de sair do papel.
Novos tempos, mas isso é um outro assunto.
A pista ainda estava vazia com poucos casais dançando.
A banda Anjos da Lua tocava as primeiras canções de uma noite que sempre acaba às quatro da manhã.
Hora perfeita para conhecer a história e o interior do clube com Sr. Hugo Cunha, diretor e um dos mais antigos sócios do clube.
Em o subsolo, ele aguardava batendo um prato de macarrão à meia noite.
Perguntou se eu gostaria de acompanhá-lo.
Recusei a gentileza;
afinal macarrão, dançar e cerveja não são uma boa mistura.
O local onde Hugo costuma trabalhar era muito silencioso, contrastando com a festa que acontecia lá em cima.
O único som vinha do radinho de pilha e do chiado do aparelho auditivo que ele usa.
-- O barulho te incomoda?,
perguntou. Afirmei que não.
Roger, o fotógrafo que me acompanhava na reportagem, perguntou se o aparelho auditivo estava com problema, pois o seu avô também tinha um parecido, mas que não emitia barulho.
Hugo perguntou qual era o modelo que ele usava, pois o seu era analógico, mais antigo, tirando o aparelho do ouvido para que nós pudéssemos observar melhor.
Pesquisando, fui descobrir que existem duas categorias básicas de modelos de aparelhos auditivos:
Os retroauriculares, aqueles que se encaixam atrás da orelha, e os intra-aurais, que se adaptam dentro do ouvido, mas naquele momento um único pensamento pairava sobre a cabeça era:
«Que porra de papo é esse sobre modelos de aparelhos auditivos?!»,
a noite estava ficando muito estranha.
Após terminar de comer ele acendeu um cigarro, recosta na cadeira e pergunta na lata: --
O que você quer saber?
-- Vamos começar por a origem do clube e depois a gente vê no que dá, respondo.
A história do clube, como não podia deixar de ser, tinha no seu enredo jogo, samba, carnaval, portugas boêmios, abolicionistas e nossa Senhora da Gloria para honrar o sincretismo cultural do Rio de Janeiro do final do século XIX.
O ano era 1867 quando três boêmios portugueses ganharam na loteria da época um prêmio no dia do aniversário da Santa.
Para agradecer a padroeira por a bolada que acabaram de receber, eles fundaram o «Clube dos Democráticos» naquele mesmo ano.
Durante os 140 anos o clube teve algumas sedes por a cidade, mas na década de 30 se estabeleceu na rua do Riachuelo onde permanece até hoje.
Pausa para um cerveja e uma visita na galeria dos beneméritos do clube.
Em a sala de chão quadriculado, Hugo continua a contar as façanhas do clube e dos fundadores.
Segundo ele, vários integrantes eram abolicionistas e usavam o clube para reuniões secretas na luta contra a escravidão e por a democracia.
Os rostos sisudos nos quadros não fazem jus «ao mais antigo clube em funcionamento do País» que agitava os carnavais no centro da cidade junto com as agremiações Tenentes do Diabo e os Fenianos.
A agremiação fazia muito sucesso por os desfiles, que misturavam critica social, luxo e criatividade, ao levar para o desfile o primeiro carro alegórico do carnaval carioca.
O Cordão da Bola Preta, um dos mais famosos blocos de carnaval da cidade, que arrastou 200 mil pessoas no carnaval de 2006, surgiu de dissidentes do Clube Democráticos.
A conversa com Hugo estava muito boa, mas não viemos aqui apenas para relembrar o passado.
Acima de nós, a pista pulsava no ritmo do samba.
Subindo em direção ao salão principal passamos em frente da cozinha, onde as cozinheiras Rosana e Isaura Trajano preparavam os recheios dos pastéis de carne.
As duas se divertem ouvindo os sambas.
O cheiro de pastel tomava conta do ambiente.
Segundo elas, é o que mais sai.
O segredo para tanto sucesso elas não contam, mas basta observar a quantidade de garrafas de cerveja vendidas para ter uma idéia da combinação dos deuses, pastel e cerveja;
cerveja e pastel, o casal 20 do Democráticos.
Em o bar perto da cozinha, separado apenas por uma grande cortina escura, está Alcir, o gerente do caixa, trabalhando com mais dois ajudantes que servem cervejas sem parar.
Alcir trabalha na casa há 20 anos e conheceu de perto o ostracismo que o clube viveu durante os anos 80 e 90, antes da revitalização da Lapa.
Muita atenção nessa hora leitores.
Vou fazer uma pergunta que nenhum dono de bar, botequim, camelo, restaurante e adega gosta de responder.
Sorriso aberto e cara de inocente e " lá vamos nós ":
-- Oi Seu Almir tudo beleza?
Viu a vitória do Flamengo?
Dia movimentado hoje, né?
Quantas cervejas vocês costumam vender nesses dias?,
disparo.
Como um bom (mau?)
político ele responde que não está vendendo tanto assim como eu penso (bar lotado);
que não pode falar desse assunto sem autorização da direção do clube, que o Flamengo vai mal das pernas, etc ...
enfim, ficamos sem um número oficial.
Mas, o que seria uma reportagem sem a investigação dos fatos?
Perto do palco existem duas pilhas de engradados, uma de cada lado do palco, com duas caixas cada uma, próximo ao outro bar existe mais uma pilha.
Agora vamos a multiplicação, cada engradado tem espaço para 24 cervejas, agora multiplique por seis.
São 144 cervejas vazias e ainda tinham muita noite pra rolar.
A arte de dançar sem consumir sua parceira em pé Depois do momento investigações etílicas vamos para a pista ver a essência do clube, a arte de dançar a dois.
Em o Democráticos, você tem que dançar.
Não precisa saber dançar bem, nem ter ritmo, mas você tem que dançar para vivenciar de forma plena a experiência do lugar.
Diferente de uma noite numa boate, rave ou baile funk na gafieira existe toda uma regra, mesmo que ela não seja dita.
A abordagem na dama, como a galera oldschools diz, deve ser um convite, esticando a mão em sua direção.
Passo um completo;
agora você vai iniciar seu bailado de forma que não deixe a moça constrangida, evitando situações que lembrem os homens das cavernas na tentativa de copular com as fêmeas, no meio da pista já é um bom começo.
Dançar junto é como se fosse um jogo de perguntas e respostas.
O homem pergunta a mulher responde.
Pode soar machista para as feministas de plantão, mas é o homem que deve conduzir a parceira.
Sorry ladies.
Fim do segundo set, os músicos vão beber cerveja na entrada do clube, enquanto parte da multidão continua dançando ao som do DJ e a outra metade vai para o bar.
Em frente do carrinho de pipoca devorando glutonicamente um saco de pipoca salgada está o cavaquinista e um cantores do Anjos da Lua, Eduardo Galloti.
Ele estava de mau humor, o Fluminense tinha acabado de perder para o Flamengo naquela noite com dois jogadores a mais que o adversário.
«O Flamengo não fez nada naquela noite para merecer a vitória.
Só fez cera», lamentava.
Quando o Anjos da Lua se reuniu por a primeira em 1998 no antiquário e bar Empório 100, a idéia era tocam sambas que relembrassem os grandes grupos vocais que fizeram muito sucesso na primeira metade do século XX como:
Anjos do Inferno, Bando da Lua, Quatro Ases e um Coringa e outros.
O próprio nome do grupo é uma homenagem a esses conjuntos.
«A minha idéia era criar um grupo de músico-cantores, que tivesse esse clima despojado e tocasse de bossa, de improviso.
Não temos um repertório fixo.
Quando tá cheio como hoje, nós tocamos para galera dançar.
Mas ... você viu a tesoura voadora do Obina?
Criminosa ..." -- É Galloti vi sim, fazer o que, né?
Respondo. Mais umas cervejinhas e os músicos estão prontos para mais uma sessão.
De volta ao salão, puxo assunto com o músico Roberto Santamarta, freqüentador assíduo das noites de quinta.
Ele que também toca por as noites da Lapa e falou da informalidade e interação da banda com o público.
«Aqui as pessoas chegam para dançar, mas querem ouvir um bom samba, um pouco mais sincopado.
Posso vir sozinho que me sinto em casa».
Depois de tomarmos uma cerveja nos despedimos e cada um foi para um lado da pista de dança.
Depois de passarmos boa parte da noite conversando sobre o lugar, chegou a hora da diversão.
Roger estava de olho numa morena, muito bonita, que dançava na pista.
-- É chegado o momento de nos separamos caro amigo.
Agora é cada um por si, disse brincando.
-- beleza.
Nos vemos quando terminar esse set, respondeu.
Enquanto Roger ia para perto do palco tirar umas fotos de sua musa, fiquei procurando alguém para dançar, quando reencontrei Natalia, a estudante de comunicação, na pista e sozinha.
-- Vamos?
Perguntei estendendo a mão.
Dançamos durante um bom junto, mas só ficamos nisso.
Senti que não aconteceria algo a mais.
Paciência. Despeço-me e vou procurar o Roger, que nessa altura já deveria ter usado todo o cartão digital da câmera na menina.
De longe vejo o flash e caminho em sua direção.
A o aproximar vejo um rapaz com a camisa do Flamengo indo em sua direção e fala alguma coisa no seu ouvido que eu não consigo entender por a distância e barulho.
A cara do Roger é de poucos amigos.
Acelero o passo, já pensando que a menina estava acompanhada e que o cara sentiu ciúmes e, ao mesmo tempo, bolando uma resposta que desfizesse o mau entendido.
Quando eu consigo chegar o rapaz já tinha voltado e, para minha surpresa, dançava com uma outra menina.
-- o que houve?
-- Cara, você não vai acreditar nessa história.
Essa figura surge do nada dizendo que é ator de malhação ou algo do gênero, e me pergunta porque eu estava fotografando ele, é mole?
Caímos no riso e ele me mostra as fotos da musa e em apenas uma o nosso amigo wannabe actor aparece.
Roger disse para o rapaz que se for o caso ele corta a cabeça de ele da foto.
As pessoas estavam curiosas com a nossa presença.
Roger virou a sensação do lugar, pois pensavam que ele era um daqueles fotógrafos paparazzo que trabalham na noite.
Por onde ele passa se ouvia:
«Tira uma foto da gente?»,
até na porta do banheiro pediram.
Olho para o relógio que marca quatro da manhã.
O grupo tocava a última música e ainda tinha gente dançando.
Por os cantos casais aproveitando os últimos momentos antes que as luzes fossem acessas e acabasse com a privacidade.
Cansados, descemos a escada em direção a saída.
Em o caminho nos enchem de filipetas de eventos que vão acontecer na Lapa.
Vários taxistas aguardam na porta as pessoas que descem sambando.
Roberto, o guardador de carros, aguarda sorrindo perto do carro.
-- Não falei que estaria aqui.
E ai?
Foi bom?
-- Foi ótimo Roberto.
Semana que vem estamos ai.
Sigo para Laranjeiras para deixar o Roger em casa.
O túnel Rebouças está fechado.
Tenho que fazer o caminho mais longo para minha casa.
O dia está amanhecendo.
Paro na padaria e tomo café com leite e um pão na chapa para rebater toda aquela cerveja.
Em casa, ponho o relógio para despertar às 9 horas.
O dia será comprido no trabalho, mas nada que óculos escuros e aspirinas não curassem.
Número de frases: 187
Gostar de ler é estar em permanente dívida com tudo aquilo que você deixa de ler, e deixamos de ler muito mais que tudo aquilo que lemos.
As minhas dívidas de leitura são minhas mais sérias dívidas, porque simplesmente não saldarei a maioria de elas, por mais que me esforce e tente, por mais que me abandone para além do mundo e das coisas.
Tenho graves dívidas e não as citarei aqui por serem vergonhosas demais, e já é bem a hora de se ter vergonha por não ter lido certos livros, certos marcos vertiginosos.
Os livros não lidos estão por toda parte, são o mar.
Ao contrário daqueles que naufragam, imagino-me jogando um pouco da água desse mar para dentro do meu bote salva-vidas, com uma pequena lata, na esperança de afundá-lo, de aforgar-me e de perder-me.
Vã esperança, que na maior parte do tempo deixo-me descansado a observar o céu monótono, satisfeito, aparentemente, com a pouca água que consegui juntar.
Tirando o sal, filtrando, elaborando, bebendo o tempo todo dessa mesma água.
Paguei minha dívida com a poesia de T. S. Eliot, cujo belo volume com toda sua produção poética comprei recentemente numa livraria que tinha uma moça muito bonita atrás do balcão.
Não sei se eu teria levado o livro para casa se ela não tivesse me atraído, mas sei que livros entram em nossa vida devido a certas conjunções de coisas que não devemos desprezar.
Dedico-me agora a ler os versos e deparo-me, finalmente, depois de anos de descaso (essa é uma palavra bem precisa), com «A Terra Desolada», vasta.
Incrível a capacidade que os livros têm de perdoar.
Incrível como estão lá, depois de todos esse tempo em que os ignorei, os versos magníficos, luminosos, por entre os quais vou revelando-me.
Em algum momento da vida achei que abriria livros de Eliot inutilmente, em busca da poesia que teria desistido de mim, deixado-me entregue ao vazio de sempre.
Achei que seria tarde demais e que páginas em branco seriam o que me restou daquilo que negligenciei.
Não posso esperar que as poucas (e boas) coisas que li até agora venham a me redimir de tudo que rigorosamente deixei para lá, passando ao largo, ao sabor da minha incapacidade de abrir certas portas e adentrar certas salas de pés descalços, encantado.
Não posso esperar que certos versos ou parágrafos inteiros estejam lá para sempre, como Eliot, esperando que eu resolva arrumar aquele tempo que eu invento não ter para trazê-los à minha mínima luz, aquela luz que acendemos sob o cobertor quando todos estão dormindo e não queremos acordá-los.
Número de frases: 16
Quero que ler pela primeira vez essas tantas páginas ignoradas, até abandonadas, seja como um reencontro.
Criado em 1984, o Brazilian Day é a festa de celebração da independência do Brasil para os brasileiros que moram no exterior.
Acontece em Nova Iorque todo início de setembro.
Até aí tudo bem.
Fantástico!
É uma grande oportunidade de vender a imagem do Brasil, certo?
Certo!
O problema é que a imagem do Brasil ficou ainda mais prostituída depois da comemoração de 2006, no último dia 3 de setembro.
A começar por Sandy e Junior!
O garoto faz questão de mostrar todo seu talento na guitarra, com os riff's mais batidos do mundo.
Um inovador.
Um ídolo brasileiro.
Depois, Leonardo cantando «Sinhá Moça».
Ouviram?! Sinhá Moça!
PQP! Estamos comemorando a independência e o cara vai cantar uma música da escravidão!
É o total non-sense.
Lastimável. Sem contar nas outras modas que ele cantou, com as Maria Breteiras (nem arrisco chamar de ' cowgirl ', porque os americanos ririam [ainda mais] da nossa cara) dançando no palco.
É a cara do Brasil, realmente.
Depois aparece o Xororó pra cantar «Cerveja», o que não impressiona nenhum pouco, já que temos um presidente pinguço.
A cara do Brasil, mais uma vez.
Com Babado Novo acontece o que já era esperado:
as brasileiras bundudas dançando axé.
Se não tiver bunda, não é Brasil.
E, de novo, a cara, digo, desta vez a bunda do Brasil.
E pra finalizar, com chave de ouro, CALYPSO!
Sim, a banda que já vendeu mais de 6 milhões de cópias no Brasil, descontando a pirataria.
Quanta emoção!
Chimbinha, o concorrente direto de Júnior na guitarra.
Joelma, a moda do Brasil.
Trajes impecáveis.
Em o Brasil todo mundo se veste como ela.
É isso que eu pensaria sobre o Japão se visse uma japonesa vestida assim.
Não, por favor, não me obriguem a dizer que ela é a cara do Brasil.
Pelo menos desta vez não levaram a bateria da Portela.
É o fim dos tempos.
O Brasil, definitivamente, não sabe se vender.
Eu ainda nem comentei a respeito de André Marques e Fernanda Lima estarem apresentando.
A apresentadora ainda diz, com orgulho:
«Sabiam que o Brasil é o quinto maior país do Mundo?».
Francamente! É mais fácil dizer que somos quase o quinto pior do mundo economicamente.
Serginho Groisman, outro convidado, deseja que «todos realizem seus sonhos na América».
Não sei se largar um diploma universitário pra trabalhar de faxineira e pedreiro seja realmente um sonho para os brasileiros que vão para os Eua.
Em todo caso, se o seu sonho de vida for virar camelô nos Estados Unidos, é só ligar para (212) 809-4900 que eles te disponibilizam uma barraquinha de bugiganga, pelo menos durante o Brazilian Day.
Em o fim das contas, os brasileiros presentes no evento não me deixam mentir.
Com exceção de meia dúzia de gatos pingados no meio de 1 milhão de brasileiros, não se via a tão calorosa festividade.
Acho melhor nem começar a comentar sobre a intromissão da Rede Globo na organização do evento.
Viva a política do Pão & Circo, onde a população morre de fome e os palhaços somos nós mesmos.
Pra quem ainda duvida:
Número de frases: 48
http://www.brazilianday.com Não me desespero ao ver o qt ainda tenho que conhecer por a frente, o mundo é fascinante, o universo é por demais ...
o desepero vem com o tanto que hei de conhecer sozinho ... =
/ ... sem ter com quem compartilhar ...
as pessoas querem o óbvio, oq naum vejo graça alguma.
Quero estar sempre aprendendo algo novo, amo o conhecimento.
em relação ao que viria pós vida, acho que é tudo uma questão de fé, vc é oq vc pensa ser.
Se acreditas fielmente que haverá vida pós morte, haverá, e vice-versa.
O sentido da existência é a fé ...
por isso sigo a minha, acredito que minha satisfação vem com oq conheço e acabo por me fascinar, e se um dia os valores e a moral já existentes me empatar de viver algo lindo, dou minha vida por consumada.
por enquanto insisto em escalar os pêlos do coelhinho para ver oq há lá fora, como funciona a mágica ...
Número de frases: 10
A o ver o ganhador do lançamento de disco pular de alegria, meu pai disse que quando um homem pulava daquele jeito queria, dentro de si, atingir os céus e ver o topo do Olimpo, morada dos deuses.
Mas, como ao homem só é possível soltar-se do chão por alguns instantes, o pulo era em vão, uma tentativa canhestra de tornar-se, ele também, um deus.
E, assim como uma ave que tem as asas cortadas conserva o hábito de agitá-las como se pudesse ainda voar, os homens, de vez em quando, pulam como se pudessem ser deuses.
Número de frases: 3
Lembro-me disso justamente eu, que tenho os olhos vazados e agora os abro por mero hábito, quando desperto.
Em o último sábado, 14 de setembro, foi lançado da Livraria Cultura de Porto Alegre o livro Retorno de Ulisses, Paula Mastroberti -- Ed. Rocco.
Durante os últimos dois meses, acompanhei o diário de produção do livro postado por a autora em seu site.
Confesso que estava ansioso para ter os livros em mãos, após ver a grande pesquisa que Paula fez para remontar a obra de Homero e contextualizada nos dias de hoje.
Então, não podia ser diferente, sábado pela manhã fui comprar meu exemplar e trocar algumas palavras com a autora.
Li a adaptação em poucas horas e tive minhas expectativas superadas.
Recentemente repeti a leitura de Ficções (Jorge Luiz Borges), no qual consta o conto Pierre Menard, autor de Quixote.
Em este conto, em que o narrador ensaia sobre o fictício autor Pierre Menard e sua adaptação contemporânea para o Quixote de Cervantes, é perceptível a crítica feita por Borges às adaptações de obras clássicas valendo-se de superficiais máscaras estilísticas contemporâneas.
Concordo plenamente com o autor argentino, no entanto é preciso diferenciar as adaptações estilísticas, ausentes de novos conteúdos, das obras que se apropriam de uma temática universal -- como a busca por a identidade de Telêmaco -- e conseguem retratar sob uma nova perspectiva realmente válida o tema em questão.
O livro «Retorno de Ulisses» se encaixa no segundo caso.
Apropriando-se do enredo da Odisséia, Paula apresenta o conflito de desmantelamento da família contemporânea, cada vez mais minada por projetos individuais e relações efêmeras.
Como protagonistas a história apresenta Penélope -- mãe -- Ulisses -- pai e Estéfano filho adolescente em busca Deve ter reparado que o único nome que não consta na Odisséia é o do menino.
Convenhamos, ficaria muito estranho um Telêmaco de 18 anos nos dias de hoje, não acha?
Assim como a história de Homero, o filho ganha o mundo a procura de seu pai e passa por as mais diversas situações.
Paralela a tragetória de Estéfano, ocorre a discussão sobre o artista, a arte, o público e a crítica.
Em vésperas de lançar sua nova exposição, a nova Penélope, além estar em pé de guerra com o filho adolescente, tem que lidar com as habituais questões de vaidades que circundam o meio de criação da em geral.
Contudo, mesmo com este belo e bem construído enredo, totalmente coerente com a proposta de remontar a clássica busca de um filho por sua identidade, o que mais me chamou atenção na obra foi grande delicadeza com que o narrador retrata cada pequeno conflito nos quais os personagens se encontram.
Situações realmente simples como a vergonha de se levantar da cama ao após uma noite na casa de um estranho.
De fato, detalhes como estes só poderiam ser retratados numa literatura feminina.
É muito provável que eu tenha passado batido por outras questões que «Retorno de Ulisses» aborda, mas fica aqui a dica de leitura desta válida adaptação para que outras interpretações sejam construídas.
Número de frases: 20
A Poesia de Drummond e uma Reflexão
sobre nossa " Referência Cultural
«Chega!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Minha boca procura a ' Canção do Exílio '.
Como era mesmo a ' Canção do Exílio '?
Eu tão esquecido de minha terra ...
Ai terra que tem palmeiras
onde canta o sabiá!" (
Carlos Drummond de Andrade Europa, França e Bahia
Alguma Poesia, 1930)
A sedução por o lamento do poeta, ao deter-se no verso «Meus olhos brasileiros sonhando exotismos», do mesmo poema a que alude a epígrafe, obriga o pensamento a pousar no árido terreno da discussão sobre nossa tão maltratada cultura.
E o verso " Eu tão esquecido de minha terra ..." ficou ressoando, eterno, impiedoso, solene, na memória até constituir-se num manifesto de coragem na fala que, decerto, destoaria;
«tão esquecido de minha terra?».
Algo parecia ressoar que não deveria ser assim ...
Entretanto, foi preciso enxergar uma situação que, da mesma forma, era angustiante:
também não lembrávamos a «Canção do Exílio» e, na extensão, não ouvimos falar de Antônio Nóbrega, nada sabemos do Boi-Bumbá, Câmara Cascudo é um nome que nos diz muito pouco e nossos ouvidos refinados não permitem a realização de uma embolada nordestina.
Ficamos esquecidos de nossa terra!
A observação de uma realidade circundante permitia uma dimensão maior do problema:
vivemos uma fase que comemoramos o Halloween, mas não sabemos nos aproximar dos festejos do interior do Brasil.
Nossa cultura perdeu-se em deslumbramento de outros contextos, que alguém tratou de julgar para nós como sendo a melhor referência.
Vivemos o que pode ser chamado de submissão cultural.
Forte?
Não, não tanto.
Vejamos: quantas e quantas vezes fomos impelidos a desprezar um valor cultural nacional em favorecimento a uma atitude de deslumbre frente a uma variável de exotismo estrangeiro?
Somos, na melhor das hipóteses, patriotas de ocasião.
Sabe aquele que chora quando o hino nacional é tocado ao anteceder dos jogos de Copa do Mundo ou em Olimpíadas?
Em esse momento, sentimo-nos brasileiros.
E enfeitamos as ruas de bandeiras verdes e amarelas, e vestimos camisas verde-amarelas, e lavamos a nossa alma de patriotismo, e até sabemos a letra do hino de cor ...
Mas, quando tudo se acaba e temos que voltar à nossa vidinha rotineira, esquecemos a «Canção do Exílio» ...
Ou, ainda, deixamos as virtudes se negarem na «hora em que os bares se fecham», como nos alertava o poeta.
Esse modelo de submissão cultural a que nos limitamos cerceou-nos, sobretudo, a visão de país que deveríamos ter.
A verdade é que não conhecemos o Brasil;
não conhecer no sentido do desrespeito às tradições culturais do nosso povo.
Esse desrespeito, via de regra, é fruto da não-aceita ção de uma variável diversa àquela que a mídia propaga.
Ou poderia ser dito diversa àquela proferida por o dominador, como pudemos observar nos textos dos cronistas do descobrimento, que versam, em boa parte, sobre a questão do desrespeito às tradições culturais e intelectuais de um povo -- basta lembrar a visão do índio como destituído de saber, de tradição e de cultura, a reforçar a discriminação dos valores do povo conquistado, nas inúmeras cartas e nos relatos da época do descobrimento.
É nessa mão que estamos:
aceitamos ser um povo que não valoriza sua cultura, simplesmente porque não a conhecemos ou, o que é pior, rejeitamo-la sem ao menos nos dar o trabalho de experimentá-la e, daí, fazer um juízo de valor.
Aceitamos simplesmente.
Não brigamos, não exigimos, não fazemos nada ...
E há tanto o que fazer.
O mesmo Drummond nos arrebata em outro de seus versos:
«Um grito pula no ar como foguete», e parece-nos que essa é a medida da nossa atitude:
precisamos gritar!
Talvez um grito sutil que se inflame a partir desse texto e provoque algumas pessoas a pensarem a conscientização de nossa cultura.
Que essa provocação mostre que cada cidadão tem uma parcela de responsabilidade nessa contribuição a nos apontar a prioridade de revalorizar a cultura do nosso país.
O prazer, a honra e a satisfação de amor à pátria devem ser bandeiras, não de um discurso panfletário, mas de um compromisso levado ao extremo, quase como a propor, como também o dissera o mesmo Drummond, uma releitura do hino nacional:
«Precisamos descobrir o Brasil!
/ Escondido atrás das florestas, / com a água dos rios no meio, / O Brasil está dormindo, coitado.
/ Precisamos colonizar o Brasil.».
E esquecer de vez essa tendência abominável de depreciação aos nossos valores.
É preciso fazer das nossas considerações a necessidade maior de manter sempre vivos os nossos lamentos, não tristes -- mas carregados de seriedade e de esperança em acender desejos de que o conceito de identidade cívica seja examinado com olhos de admiração e respeito.
Número de frases: 52
O Bar do Desespero
Em o bar do desespero toda cerveja acalma, toda cachaça desinibe e todo whisky consola.
Em o bar do desespero toda historia é verdade e toda verdade é triste.
Em o ar sempre existe uma lucidez vagando e um possível sonho misturado a uma fumaça inebriante.
Há também o total desengano e a sensatez do quem não se corrigira jamais.
Existe uma mulher que dança com o espelho de olhos fechados, que sorri alto e sem a atenção de ninguém.
A mulher se mistura ao professor desolado por o sonho perdido, a frustração do que poderia ser e não foi, um amante do alcool que faz do mesmo seu confidente.
A música do desespero traz a contradição do sorriso.
Um desesperado que sorri pode parecer louco, porém, um desavisado diria que a alma tão cansada de ser enclausurada, sufocada e reprimida, aproveita um cochilo do corpo pra poder sambar com um copo de pinga na mão.
Então ela divaga por os cantos, canta alto e sem vergonha.
Ela canta e dança como se ninguem a estivesse olhando!!
A meia luz que enfeita o bar do desespero é confundida com os raios da esperança.
As almas que dançam lado a lado sorriem de seus corpos semi-inertes, que nem se dão conta de tamanho espetáculo.
Um habitue da casa dança á moda russa e bate os pés no chão, e, ao seu lado, a garota embriagada bebe outra dose e beija o dançarino absurdo.
É o paraíso perfeito dos que não acreditam nos céus.
É a medida perfeita dos que não tem limite nem pressa.
Em o bar dos desesperados o desespero é enganado, e, por uma fração de tempo incerta, tudo é misturado com alegria, prazer e consenso.
Em o balcão do bar do desespero as historias são infinitas.
A garota triste confidência seu amor impossível, chora livremente e confessa que o medo do tempo lhe da calafrios.
A ruiva tatuada sorri o riso do abismo e confessa que a próxima tentativa será derradeira.
Mas existe uma musica que hipnotiza os passageiros da noite.
O som que seria eterno.
A contradição do retrato vivo.
Dá-se fim a noite e o bar do desespero assiste seus convidados voltando paras suas vidas e anti-vidas.
O dançarino absurdo anda devagar, a garota vai cambaleando com seu copo, o sol rasga a face de todos que voltam para seus mundos, e, do outro lado da rua, passa um ônibus lotado e um cachorro que não desconfia de absolutamente nada ...
Número de frases: 25
Unindo memória e tecnologia, o Projeto «Quem chorará por nós», realizado através da Lei Rouanet e o Petrobrás Cultural 2004/2005, foi até o interior de Mato Grosso do Sul registrar as lembranças de 3 idosos do Povo Terena, da aldeia Limão Verde, no município de Aquidauana.
O material recolhido constituirá um audiodocumentário, que será distribuído a bibliotecas públicas e escolas indígenas de MT e MS.
O Projeto «Quem chorará por nós» leva esse nome por ter como um dos temas principais uma manifestação denominada Saudação Lacrimosa, ou Choro ritual, realizada por povos indígenas brasileiros.
Sobre essa temática os entrevistados relembram momentos em que o choro ritual aconteceu dentro da comunidade Terena, ou que simplesmente ouviram falar."
Acontecem em momentos de tristeza e alegria -- quando alguém querido chega na comunidade, ou parte para sempre.
Em esse momento, os velhos lembram de tudo o que a pessoa viveu», explica Isac Dias, um dos entrevistados.
Outro assunto tratado no documentário é a dança do Kohixoti Kipaé, a dança da ema, ou dança do bate-pau, como também é conhecida.
Esses dois temas são narrados por os entrevistados no decorrer das gravações, que se intercalam com a música da dança e uma saudação lacrimosa gravada na aldeia, no ano de 1974, por o indigenista Antonio João de Jesus.
Um dos fatos que envolvem o registro desse «derramamento de lágrimas» é o de que, por ser uma manifestação espontânea, os velhos não sabem «se no futuro, existirá entre os mais novos a saudação lacrimosa, que presenciaram durante a infância», afirmou Lourdes Gabriel.
Os entrevistados acreditam também que a utilização da tecnologia é uma forma de imortalizar informações que ainda não foram registradas, além de possibilitar que os outros povos indígenas conheçam tradições e costumes dos Terena, podendo assim estabelecer um intercâmbio de informações.
Para a sua realização, o projeto conta com a participação de Jhonatã Gabriel, na produção, Leandro Dias, responsável por a distribuição do material e Anita Leocádia, índia Terena, responsável por o contato com a comunidade e traduções, além de Naine Terena que idealizou e coordena o projeto.
Número de frases: 11
O Espírito Santo vive um efervescente momento de produção audiovisual.
O crescente número de curtas-metragens produzidos por essas bandas são a prova concreta dessa evolução.
A diversidade de assuntos, formas, realizadores e recursos também reforçam a afirmação.
Só que ninguém sabe disso.
Mas essa vocação para o anonimato não vem de hoje.
Por volta de 1920, no município de Castelo, um relojoeiro, usando sucatas, criou uma máquina que filmava, revelava e projetava.
Ludovico Percise fundava o cinema capixaba.
Documentou o dia a dia da região e também fez filmes de ficção.
Utilizava atores e técnicos não profissionais, e produzia até faroestes.
Nosso precursor inventor registrou seu projeto na Biblioteca Nacional, mas sem condições de desenvolvê-lo, acabou esquecido, incompreendido e não reconhecido.
Em 70, o cineasta, critico e historiador carioca, Alex Viany, dirigiu um curta-metragem sobre o Ludovico, chamado O Sonho e a Máquina.
Ninguém sabe dos negativos desse filme, e a última cópia que se conhece está incompleta, e precisa urgentemente ser restaurada.
Existe e tem história
Em a segunda metade dos anos 60, tempo de agitação cultural e política, alguns talentosos jovens elegeram o cinema como meio de expressão.
Com recursos próprios, essa turma produziu uma série de curtas bem bacanas, como Kaput, de Paulo Torre e Ponto e Virgula de Luiz Tadeu Teixeira.
Eles utilizavam uma câmera 16mm, e quase sempre enfocavam temas relacionados com a repressão política.
Com a chegada do Super 8, na década de 70, e do vídeo, em 80, o audiovisual tornou-se instrumento de registro.
A maravilhosa e crescente facilidade de acesso à câmera trouxe a banalidade para a linguagem, através do registro de eventos familiares, cenas cotidianas e do exercício constante do olhar.
E exercitar a linguagem era o objetivo de um grupo de realizadores ligados à Universidade Federal.
Nascia a lendária turma do Balão Mágico, conhecida por as experiências audiovisuais e por o comportamento nada convencional.
Ainda em 70, rolou por aqui uma produção fértil de documentários.
Festas religiosas, etnias e folclore faziam parte do repertório desses cineastas.
Destaque para Orlando Bomfim Netto, que produziu uma série sobre a cultura popular do Espírito Santo, que nessa mesma década, tornou-se cenário de longas-metragens de ficção.
A Vida de Cristo, com Fernanda Montenegro no papel de Samaritana, foi rodado em São Roque, então Santa Teresa, com total participação da população local.
O ator e produtor capixaba Jece Valadão filmou em Santa Leopoldina uma adaptação de Canaã, de Graça Aranha.
Transformou o romance sociológico num faroeste espaguete, bem em voga na época.
Paulo Thiago também baixou por aqui pra filmar Sagarana, o Duelo, em São Mateus.
E outro ator capixaba de sucesso, o Joel Barcellos, presença marcante em vários filmes do Cinema Novo, também veio filmar o seu Paraíso no Inferno.
Em os anos 80, o polêmico jornalista e crítico de cinema Amylton de Almeida foi sucessivamente premiado por os bons documentários que dirigiu para a TV Gazeta, afiliada da TV Globo.
Destaque para o excelente São Sebastião dos Boêmios e para Lugar de Toda Pobreza, esse último uma produção independente que mostrava a relação dos moradores do bairro de São Pedro com o lixão a céu aberto.
Em a década seguinte, Luiz Trevisan mostrou em Cuba o documentário Cachoeiro em Três Tons, dedicado à família Sampaio, um autêntico clã de compositores cachoeirenses.
O designer gráfico Ronaldo Barbosa levou para os Estados Unidos e Japão a vídeo-arte Graúna Barroca.
Tempos depois, uniu-se a Arlindo Castro e Hans Donner e realizou TV Reciclada.
Todos filmes premiados.
Tinha ficção sendo produzida em Super 8, em vídeo, e tinha ainda a produção experimental do multimídia Nenna B, incluindo um documentário com o escultor Franz Krazjberg.
Coisas que ninguém entende
O presidente Fernando Collor de Mello extinguiu toda a legislação e os órgãos de apoio e fiscalização ao setor cinematográfico.
A época ficou marcada como um período de obscuridade para o cinema brasileiro, e o Espírito Santo surgia como uma luz no fim do túnel.
O Bandes criou uma carteira de financiamento destinada aos projetos culturais, que contemplou sobretudo a área cinematográfica.
Num momento em que a produção de longas no país praticamente zerou, a imprensa nacional voltou seus olhos para o estado, e atribui a alcunha Pólo de Cinema do Espírito Santo.
Lamarca, Vagas Para Moças de Fino Trato, Fica Com mim e a primeira ficção do capixaba Amylton de Almeida, O Amor Está no Ar, foram produzidas através dessa linha de financiamento que, não importa o nome, deu certo.
Mas que mesmo assim, hoje, está interrompida.
De qualquer forma, a produção não parou.
Dois cursos de realização promovidos através de uma parceria estado / Minc, e a criação da lei de incentivo à cultura da cidade de Vitória, Rubem Braga, foram fundamentais para a nova cara que tomava o audiovisual capixaba.
Os filmes diminuíram de tamanho, cresceram em quantidade, e acima de tudo se tornaram locais.
Realizados aqui, por gente daqui e para o mundo.
Um dos primeiros foi Marcel Cordeiro e seu 16 mm Passo a Passo com as Estrelas, premiado no Rio e na Itália.
Fizeram filmes e ganharam prêmios também Ricardo Sá, Luiza Lubiana e Glecy Coutinho.
Em a virada do século, surgiu uma nova geração produzindo curtas como Macabéia, Olhos Mortos, Mundo Cão e Céu de Anil.
E também uma moçada experimentando em vídeo, como o pessoal da produtora Mirabólica.
Sincretismo audiovisual
O panorama atual é o seguinte:
O Tião Xará, cineclubista nos anos 70, tá finalizando seu primeiro curta.
Orlando Bonfim, documentarista, termina sua ficção.
A Luiza Lubiana, oriunda dos 80, tá captando pra filmar o primeiro longa baseado numa lenda local, e pré-concebido como um delírio visual.
O Ricardo Sá, seu contemporâneo, monta seu último filme, de teor político.
De a galera que no começou nos 90, veio Saudosa, falso documentário de Erly Vieira Jr e o Fabrício Coradello.
Carlos Augusto, capixaba radicado na Dinamarca, veio a Vitória pra filmar João, que fala da perda da inocência do garotinho de mesmo nome.
E vêm por ai filmes que se passam no ônibus, no motel e no corredor.
Têm ainda videomaker iniciante se destacando no Festival do Minuto, a rapaziada de Guarapari fazendo vídeos de terror, e o pessoal do Cine Falcatrua, que merece um capítulo a parte.
Isso sem falar no Seu Manoelzinho, de Mantenópolis, com seus badalados faroestes.
E no agricultor Martin Boldt que dirige ficções faladas em pomerano (dialeto que hoje só existe nas montanhas do estado).
Os dois fazem filmes em VHS, com atores e equipe não profissionais, que nem o Ludovico Percise quase 80 anos atrás.
O cinema da gente é assim.
Independente, sofrido e mutante.
Os realizadores passeiam por os gêneros, as gerações se encontram e as linguagens se chocam, num sincretismo audiovisual, que não tem particularmente uma cara capixaba.
Tem várias, as várias caras do Espírito Santo.
A cara das várias etnias que compõe esse pedaço de terra.
E a cara urbana da gente misturada e confusa com a busca de uma identidade que se modifica em moto perpétuo.
Número de frases: 69
Não estraga a festa, ô levado.
Deixa essa galhofa de lado
porque é traço, fosse texto, tava borrado
Teje intimidado!
O micro-texto da mini-reportagem sobre a denúncia feita no blogue Novae está agora ampliada de duas ilustrações, o que fiz a partir do debate de edição aí em seguida do texto.
Não quis eu reproduzir a íntegra da denúncia feita lá aqui porque não se trata, para mim, apenas do fato, que é público e de jornal, ainda de que de imprensa não grande, mas a relação disto com a liberdade de manifestação da arte.
O mascote é o único que não pode andar armado na festa.
A autoridade, cão de guarda na esquina, extrapola a função de vigia da ordem e, demente, assume a touca da polícia política.
É censura à comunicação de idéias, censura à criação do chargista, que é um artista.
Número de frases: 9
Como Vai " Mato Grosso ...
DO SUL»?
Autor:
MS noticias
Data: 03/06/2004
O empresário e publicitário Roberto Duailibe, que nasceu em Campo Grande em 1934, na época em que, segundo ele, a 14 de Julho praticamente a única rua, defendeu no Palácio Popular da Cultura, a mudança do nome do Estado para «Pantanal», marca que, na sua avaliação,» já vale alguns bilhões de dólares», sozinho, sem ter substituído «Mato Grosso do Sul».
Pantanal, lembra ele, é pronunciável em qualquer língua, em qualquer lugar do mundo.
Duailibe compara a força do nome «Pantanal» a marcas como Coca-Cola, Microsoft, Chevrollet, que também vale bilhões de dólares.
«Está enraizado.
Está no nível de conhecimento.
Em o comércio, nas corporações.
Nome é de grande valor», afirmou.
O nome «Mato Grosso do Sul» para a divisão, na opinião de Duailibe, foi muito importante.
«Mas já causou muitos prejuízos.
Está na hora da população criar coragem para mudar o nome», defendeu.
Observa que há marcas, rótulos que «não pegam», embora reconheça que nunca houve um esforço do Estado para divulgar o atual nome, providência que foi assumida mais por o setor da carne.
Lembra que sempre que Mato Grosso tem governador forte, como foi Dante de Oliveira, Mato Grosso do sul desaparece da mídia no cenário nacional.
Para ele, a população do Estado já está madura para aceitar a mudança do nome para Pantanal.
Trata-se, segundo ele, de um «nome que está crescendo espontaneamente» e «está vindo como grande criação histórica da atual geração».
Considera que com a mudança o Estado passaria a ter identificação clara.
«Não seria Mato Grosso de baixo», disse, lembrando chegou-se, à época da divisão, a falar em São Paulo do Oeste, que também seria um desastre, na sua opinião.
Ecologia -- Um dos pontos que Duailibe destaca ao defender a mudança do nome do Estado para «Pantanal» é o fato de haver aqui um importante santuário ecológico mundial.
Argumenta o publicitário que hoje é dado um valor muito grande à temática ecológica.
Argumenta que hoje as duas grandes causas dos Estados Unidos são a reeducação do Islã, que é controversa, e o entendimento de que água doce é bem da humanidade, entendendo que não existiria soberania nacional sobre as águas.
«Isso mexe com nós muito de perto, já que temos a Amazônia, Pantanal, o Rio São Francisco», apontou.
Trata-se, na opinião de Duilibe, de um problema planetário.
«Nós temos a graça de ter muita água.
E não tiramos proveito disso, afirmou.
«E marca Pantanal, gravada na mente de milhões, propicia oportunidades.
Vão lembrar da água, do pôr do sol, das estrelas, das pessoas.
Tudo isso pode ser transformado num tema, em memória, e em Comunicação a capacidade de deixar na memória é fundamental», emendou, avaliando que só existe atributos positivos.
Duailibe disse que trouxe filmes de divulgação de vários países e de outros estados do Brasil, como Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Sul, para mostrar a importância de dar efetividade à marca.
«A coisa da marca não se dá espontaneamente», disse.
Indagado sobre o fato de pessoas que moram em regiões que não estão no Pantanal, como moradores de Três Lagoas, não se sentirem à vontade com o nome do Estado sendo «Pantanal», Duailibe disse que» essa questão da distância é falsa».
«Quem mora nas proximidades do Monte Everest, tem orgulho de estar próximo.
Em os Andes é a mesma coisa», comparou.
«É mais questão de boa vontade», declarou.
Fonte:
Número de frases: 38
MS Notícias Um espetáculo para percorrer o Brasil.
Essa é a proposta da peça A Maravilhosa Estória do Sapo Tarô-Bequê, do escritor amazonense Márcio Souza, que o grupo Ciganu's -- Teatro e Dança, de Araguaína, estreou no sábado, 26, no auditório da Faculdade Católica Dom Orione, com a presença do autor.
Segundo Wilamas Ferreira, produtor e diretor, o êxito na estréia deixou o grupo de sete atores e dez técnicos muito feliz, pois enfrentaram um árduo trabalho de oito meses de preparação.
«São atores que representam pela primeira vez e tiveram que conciliar durante todo o tempo de ensaio a vida privada e a artística, além da tensão da estréia.
Isto os tornou vencedores», revela Ferreira.
Mesmo antes de encerrar a temporada de três meses em Araguaína, a peça deverá ser levada a Colinas do Tocantins no dia 6 de junho.
Posteriormente, será a vez do público de Palmas e também Campo Grande (MS), onde as negociações estão avançadas, prestigiar o evento.
Em a capital tocantinense serão dez apresentações.
Mas as pretensões do grupo Ciganu's não param por aí.
Está na mira, como já aconteceram em outras oportunidades, representar nos palcos de várias capitais brasileiras.
«Essa é a proposta», diz Ferreira sem conseguir disfarçar o entusiasmo.
A empatia entre o autor e o grupo surgiu tão logo Márcio Souza recebeu a gravação de laboratório das primeiras cenas, durante a negociação dos direitos autorais, e foi um estímulo para a empreitada.
Aliás, informa o diretor, Souza foi muito simpático ao liberar completamente os direitos autorais para um contrato de um ano, com opção de renovação para mais outro.
Logo que travou conhecimento com o trabalho do grupo, o escritor deixou claro sua vontade de participar da estréia.
Ferreira confessa que não perdeu tempo, mobilizou os 21 patrocinadores e trouxe-o para ficar cinco dias na cidade, onde além da estréia também participou de oficina de artes com leitores.
A programação no sábado foi variada, com a participação de um grupo de índios da aldeia Xambioá-Karajá que apresentou vários rituais e danças étnicas antes da peça.
A o final, Márcio Souza autografou seus livros para o público.
Ainda no palco após a peça, ao lado dos atores num bate-papo com a platéia, Márcio Souza foi categórico em reconhecer a qualidade da montagem e evidenciar que o trabalho artístico do grupo não tem mais qualquer degrau a conquistar e está pronto para viajar por o país.
CIGANU ' S
A história do Ciganu's é um relato da persistência que é a marca registrada de quem faz cultura no Brasil.
«Desde o início tudo foi muito difícil, mas nunca desistimos», diz convicto Wilamas Ferreira, presidente do grupo.
Criado em 1987, a montagem da peça de Márcio Souza é também um presente aos 20 anos de existência do grupo.
E o próprio nome, conforme revela Ferreira, tem tudo a ver com a vida do grupo.
«Quando íamos representar em outras cidades, por a falta de dinheiro para a viagem, pedíamos carona na estrada.
Parecíamos um bando de ciganos.
Entre nós mesmos comentávamos isso com muito humor», relembra sorrindo.
«De aí para rotular o grupo não custou nada».
Passados 20 anos, o nome ainda continua apropriado ao grupo, mas agora por as constantes viagens encenando país afora.
A peça Frei Mulambo, com o patrocínio do projeto Br em Movimento percorreu 30 municípios, sendo cinco de eles capitais.
Muitos outros trabalhos foram encenados, incluindo, além de peças teatrais, dança, teatro de bonecos e performances com poemas de autores regionais e nacionais.
O volume de trabalho aumentou tanto, diz Ferreira satisfeito, que o grupo viu-se obrigado a formar novos atores, abrindo as portas das artes cênicas para talentos que representam já em seu primeiro trabalho um autor consagrado como " Márcio Souza.
«É muita responsabilidade, mas estamos muito felizes», conclui.
Elenco
Jackson Brandão -- Tarô-Bequê
Paulo Egito -- Cainhamé
Gil Araújo -- Urubu rei
Tuanny Tupi -- Moça Juruti
Loids Morena -- Dona Mucura
Katiele Ferreira -- Cobra Surucucu
Número de frases: 39
Rochinha -- Indiazinha
Qual o valor histórico daquilo que você se dedica a estudar?
De a escolha do tema à conclusão do trabalho, um projeto de pesquisa é (ainda para muitos estudantes) mais do que a garantia de um diploma para ostentar, mas a oportunidade de atingir reconhecimento e se tornar uma referência sobre o assunto estudado.
Mesmo assim, diante da parcialidade semi-materna com que o estudante-pesquisador trata sua própria tese, existem momentos em que o reconhecimento desta importância, ainda que indiretamente, extrapolam a nota máxima e os elogios de uma banca examinadora.
Em a última semana, a jornalista amazonense Michelle Portela vivenciou um momento de grande emoção ao ver a importância histórica de seu projeto evidenciada para todo o país, ironicamente, justo onde a intelectualidade costuma despejar críticas e construir análises quase sempre negativas.
Desta vez, porém, os meios de comunicação de massa por meio da exibição da minissérie Amazônia, da Rede Globo, ao representar o início da organização sindical dos seringueiros do Acre, na década de 1970, dedicou todo um capítulo ao jornal alternativo chamado O Varadouro, criado por os seringueiros como um porta-voz dos considerados «pobres da Amazônia», retratando na tela o amplo impacto socioeconômico culminando com a fúria assassina despertada nos patrões seringalistas.
Emocionada, a autora do trabalho «O Varadouro -- Jornalismo Alternativo, categorias e representações sociais no Acre», via uma a uma as pessoas que entrevistou no Acre (claro, aquelas ainda vivas) fazendo as inevitáveis e ora divertidas comparações físicas entre a adaptação do personagem real, ao padrão global dos atores disponíveis.
«Desde o início da minissérie eu sabia que todos iriam aparecer, mas foi enorme a emoção de ver, mesmo ficcionalmente, o Elson Martins na ativa com máquina fotográfica em mãos, entrevistando Wilson Pinheiro na assembléia de fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais», afirma Michelle, destacando o primeiro como o jornalista responsável e idealizador de O Varadouro, e o segundo como importante líder sindical, além de muitos outros.
Com a grande imprensa controlada por o poder econômico dos seringalistas, O Varadouro não só foi responsável por mostrar à sociedade a dura realidade de seringueiros, como contribuiu para mudá-la.
«O jornal contribuiu para a organização do movimento social rural em torno dos sindicados, um marco para a organização do povo acreano, pois a partir dos sindicatos, o Acre passou a viver uma intensa fase de transformações sociais», afirma Michelle, enfatizando que as lutas de seringueiros, posseiros e colonos deixavam de individualizadas e passavam a ser coletivas.
Entre os reflexos desta mobilização social, a jornalista explica ainda que o movimento indígena juntou-se aos demais liderando o movimento contra o avanço indiscriminado da exploração madeireira e agropecuária no Acre, logo após a decadência econômica dos seringais.
«Essa resistência conjunta ficou conhecida como a Aliança dos Povos de Floresta, que lutava conta a ganância dos ' paulistas '», conta.
E eram os paulistas retirantes
O Varadouro teve um papel importante na construção de uma identidade local, repercutindo e reforçando a identificação popular dos «invasores» madeireiros e criadores de gado, chamados de «paulistas», isso independente do lugar de onde vinham.
Os «paulistas» buscavam por meio da violência a propriedade de terras acreanas, e este aspecto histórico permite ao trabalho sua maior ousadia.
«Até me arrisco na pesquisa a chamar parte desses paulistas de ' retirantes ', já que a política de ocupação da Amazônia (Operação Amazônia, 1966), além de terra para ricos, oferecia subempregos aos excluídos do sul e sudeste do Brasil», observa, atribuindo um termo geralmente adotado aos nordestinos que estigmatizados migraram para o sudeste.
Sobre a autora
Mostrando um interesse ávido por conhecer a região em que vive, a investida ao Acre nasceu da vontade da autora em resgatar suas origens, como neta de acreanos, Michelle Portela morou por três anos em Rio Branco onde trabalhou no jornalismo televisivo e vivenciou inúmeras experiências de mobilização social.
De volta ao Amazonas, utilizou o estudo sobre o jornal O Varadouro para concluir especialização em «Desenvolvimento Sustentável, Políticas Públicas e ' Comunidades Tradicionais ' na Amazônia», oferecido por o Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA).
A iniciativa se alinha à produção incipiente de alguns jornalistas amazonenses que, cansados de uma produção onde o regionalismo é apresentado de modo estigmatizado que reforça uma visão exótica sobre si mesmo, ao contrário, começam a sair a campo além de sua confortável fronteira para produzir conteúdos com uma análise de país a partir de uma leitura amazônica.
Uma proposta alternativa para uma população que ainda busca seus referenciais de desenvolvimento em países de primeiro mundo, e, diante da falta de esforço em conhecer este continente chamado Brasil, permite que apenas a televisão construa um conhecimento que sedimenta como definitivo.
Desta vez, o balanço da minissérie foi tão positivo quanto à emoção despertada, mas quase sempre não é assim.
Número de frases: 22
Conheça a Amazônia.
há pouco mais de dois anos, quando o cineasta Luciano Coelho teve a idéia de levar atividades de audiovisual para a comunidade, ele não imaginou que num futuro tão próximo teria a produção que tem hoje -- inclusive com selecionados e premiados em importantes mostras.
Muito menos que um ano e pouco depois, teria 14 produções, entre curtas, documentários e até um longa-metragem.
Pois essa é a história do Olho Vivo, um projeto que não é um mero exercício antropológico de acadêmicos «pesquisando» pessoas sem sair de dentro da biblioteca.
Tudo começou em 2003 dentro do projeto Residências Rebouças, criado por a Fundação Cultural de Curitiba -- a Secretária Municipal -- para dar um up grade no bairro Rebouças, e que prestigiou várias propostas culturais interessantes -- algumas de elas conseguem andar com suas próprias pernas agora que o apoio público está parado.
Entre estas está o projeto Olho Vivo que, em junho, lançou outro produto:
uma coleção de DVDs com quatro caixas contendo os trabalhos feitos até agora.
Cada unidade está sendo vendida a R$ 20.
A idéia surgiu, conta Luciano Coelho, um dos idealizadores do projeto, de uma conversa com o outro dono da idéia, Marcelo Munhoz.
A vontade era criar um espaço que envolvesse efetivamente a comunidade com o audiovisual através de oficinas com preços subsidiados.
«A gente acreditou de verdade que o audiovisual, mais ainda com o digital, é uma ótima ferramenta de reflexão sobre nossa realidade.
Ainda mais no caso de Curitiba, que tem uma imagem muito manipulada por a mídia e governo como um espaço urbano perfeito», diz ele, sem se importar com a ironia de que, desta vez, vieram de uma instância de Governo que ajudou a construir essa aura de cidade de primeiro mundo, as primeiras verbas.
As primeiras oficinas foram Realização de Vídeo e Arte Sociedade e Audiovisual, com o intuito já no nascedouro de misturar arte e reflexão social.
Outra missão era sempre encerrar cada curso com um documentário.
As turmas do primeiro ano fizeram:
Cidade em Branco (16 minutos sobre os grafiteiros que renderam o prêmio de melhor direção no Festival de Vídeo de Curitiba em 2004);
Vila das Torres (sobre a favela na região central de Curitiba que dá fundos para a PUC, selecionado para o 15º Festival Internacional de Curtas de São Paulo em 2004) e Papel de Catadores (sobre as pessoas que trabalham recolhendo o lixo para reciclar, cada vez mais presentes com seus carrinhos de madeira improvisados por as ruas de Curitiba, que seguiu em 2003 mesmo para o Videolab Festival).
Esta foi a produção dos alunos de Coelho.
Os de Munhoz fizeram Feio, selecionado para Festival do Minuto de Curitiba, 15º Festival Internacional de Curtas de SP e 11º Festival Mundial do Minuto;
e Irritart, que também fez o mesmo caminho.
Isso tudo foi feito enquanto uma outra idéia era colocada em prática, o da criação de um Núcleo de Pesquisa e Produção, com alunos -- que se concretizou em 2004.
O grupo selecionado recebeu uma preparação mais aprofundada e cada um escolheu uma área de atuação -- câmera, produção, edição, fotografia.
O primeiro trabalho feito por este grupo já mostrou bem o tom que se pretende nas criações.
Preto no Branco -- Negros em Curitiba é um longa-metragem digital que trata da presença dos negros em Curitiba.
«Curitiba que se acha uma capital de perfil europeu, que celebra tanto suas variadas etnias e não fala do negro.
Fomos ver como vivem esses 20 % da população curitibana, ouvir suas histórias -- aquelas que a cidade parece não ver.
Esta é uma questão séria aqui, pois parece que não existe negros na cidade», pontua Coelho.
«A diversidade de olhares, já que nossos alunos vêm de todas as classes sóciais e econômicas e diferentes idades, é que enriqueceu as aulas e os documentários», completa o professor.
Em 2005, o apoio público foi parcial e mesmo assim rendeu outros documentários e um primeiro trabalho de ficção, Achados e Perdidos.
Também foi feito o segundo título do núcleo, Sem Tempo Pra Brincar, sobre a exploração do trabalho infantil.
«Jamais imaginei que teria tanto material, até porque fazer pequenos documentários de dez minutos era exercitar.
Teríamos o Preto no Branco, como um carro chefe digamos.
Mas percebemos que a gente podia fazer bons documentários com pessoas inexperientes», diz Coelho, ressaltando que toda a produção ganhou exibição numa parceria que inclui Universidade Federal do Paraná e Cinemateca de Curitiba.
A temática-alvo lançada aos alunos por os professores sempre foi procurar olhar para uma Curitiba que não se vê, num convite à reflexão usando a arte como meio.
«Os trabalhos acabaram se focando espontaneamente na comunidade da periferia no Minha Vila Filmo Eu, (foto) projeto que ganhou apoio da Petrobras para ensinar adolescentes da periferia de Curitiba a produzir audiovisual», conta.
Em o começo o projeto pôde oferecer cursos gratuitos, já que tinha apoio público.
Agora, a luta está um pouco mais solitária, já que atualmente a Fundação Cultural deu uma parada nas verbas e não se sabe se o apoio vai continuar.
Como não é o jeito desse pessoal ficar esperando, o Olho Vivo foi bater em outras portas.
Uma que encontrou aberta foi a do Pontos de Cultura -- projeto do Ministério da Cultura.
É com ele que os projetos seguirão a partir deste segundo semestre.
A proposta, agora sim, é levar oficinas de vídeo para a periferia, mais especificamente, a Vila das Torres -- que foi o tema de um dos primeiros documentários e do Minha Vila Filmo Eu, apoiado por a Petrobras.
«Foi uma experiência fantástica que vai poder continuar.
Eram crianças sem nenhum contato cultural, pois é difícil sair de ali.
E foi incrível a mudança que notamos durante o curso, ano passado.
Em as aulas, com a família ...
e foi muito emocionante a noite de exibição», diz, referindo-se a uma sexta-feira em que o documentário foi mostrado na Cinemateca de Curitiba.
Agora Coelho e sua equipe comemoram o Ponto de Cultura e a chance de dar continuidade à proposta no segundo semestre.
Só que os (bons) projetos não param nessas cabeças de olhos tão vivos.
O Núcleo ganhou também outro tipo apoio da FCC, para produção de vídeo digital por a ótima idéia de ver como estão, no presente, os antigos armazéns de secos e molhados de Curitiba.
«Estamos na fase de pesquisa da Antiga Curitiba de hoje, como eles sobrevivem com o comércio moderno», conta.
Daqui a pouco, garante, eles vão encarar os projetos mais ambiciosos, como um filme de longa-metragem.
Por o que se viu até agora, talento e disposição não faltam a esta equipe.
Serviço:
Para saber sobre o projeto e comprar os DVDs acesse:
Número de frases: 54
www.projetoolhovivo.com.br Será que Augusto Comte, que se tornou o papa da física social e do positivismo, tinha razão ao dizer que «tudo é relativo»?
Será que o tempo se inclui nesse rol de relatividade?
Sim, porque o tempo parece empurrar o espaço de nossas vidas, na base de chutes e petelecos com uma ferocidade cada vez maior.
Tem-se a impressão de que os segundos, minutos e horas estão correndo como funcionários que sentem os momentos finais de uma exaustiva jornada de trabalho-não se pode tirar totalmente a razão de eles, ou como maratonistas;
parece que as divisões de tempo fogem, suando em bicas e com taquicardia de ejetar o coração do peito, para tirar seus pais da forca.
É um assunto muito discutido e flexível.
Há aqueles que defendem a tese de que tal sensação de um «tempo expedito» é psicológica:
quando enfrentamos momentos desagradáveis, o tempo se estica como um elástico infinito.
Por outro lado, quando estamos vivenciando momentos prazerosos, o tempo se encolhe como esse mesmo elástico infinito, só que cortado por um invisível alicate invejoso e contrário a qualquer modalidade de hedonismo.
Faz sentido?
Até faz.
Dez minutos de namoro equivalem a um flash de máquina.
Outros quinhentos já são dez minutos de espera numa fila.
Quanto à espera em filas, é curioso notar que, as crianças, embora portadoras de faculdades imaginativas extraordinárias, impacientam-se tremendamente com esse fenômeno, e por isso perguntam quando voltarão para casa, se a tarefa que está sendo cumprida por os pais ainda vai demorar muito, etc..
Já um adulto consegue se valer de artifícios para suportar com uma certa resignação os mais ou menos longos períodos de tempo gastos em filas e outros sacrifícios semelhantes.
Podemos dizer que, nos adultos, a capacidade de abstração é mais treinada, graças à maturidade.
Outros dizem que não seria possível um aumento do passar do tempo-certas tautologias são difíceis de se evitar-, já que o planeta continua girando com a mesma velocidade, embora alguns cientistas venham defendendo a tese de que o movimento de rotação da terra em torno de seu próprio eixo pode ter sofrido alguma alteração.
Por quê? Já li em algum lugar uma tese doida-será doida de fato?
que põe como causa desse efeito um leve deslocamento de inclinação, provocado por o peso acumulado até aqui-sim, porque a superfície do globo está entupida de construções de todos os tamanhos e pesos, bem como de pessoas, igualmente de todos os tamanhos e pesos.
Uma terceira «corrente» propõe a idéia de que, de nas últimas décadas, temos cada vez mais atividades, ou seja, as 24 horas continuam as mesmas, quietinhas dentro do círculo do relógio ou do quadrado display dos digitais, mas ocupamos essas 24 horas com uma quantidade de tarefas que as pobres horas não dão conta;
seria necessária uma prorrogação, e até mesmo um golden goal, e ainda assim, muita coisa ficaria para o dia seguinte.
O «não deixe para amanhã o que pode fazer hoje» constitui uma tarefa cada vez mais árdua de se cumprir.
Vivemos sob o signo da velocidade:
tudo tem que ser rápido, dão-nos mil tarefas, nós mesmos arrumamos uma série de atividades de lazer com as quais nos deleitamos.
Antes, era o tempo dos cavalos, das carruagens, das cartas que demoravam meses para chegar ao destinatário.
Hoje um e-mail chega numa caixa-postal num segundo, temos as pontes aéreas, o metrô, o trem bala, carros que atingem mais de 100 quilômetros num piscar de pneus.
Enquanto isso, Cronos ri, bebericando em vinholadas com Baco, porque para os deuses, não há tempo, ou melhor, há todo o tempo do mundo, com um bônus do tempo do universo.
Seja o que for, parece que há algo de podre no relógio da Dinamarca;
algo está acontecendo com o tempo.
Que fazer?
Organizar uma junta composta por matemáticos, físicos, relojoeiros e geriatras?
Bater palmas para Comte?
Sinceramente, não sei.
Estou sem tempo para pensar sobre isso agora.
Até mais.
Número de frases: 35
minha carência por cantoras poderosas foi devidamente suprida no último fim de semana.
fã de clementina de jesus, elizeth cardoso, alcione, aracy de almeida, elza, maysa, maria bethânia, como me contentar com a doçura exagerada, com o repertório insosso, com as maneiras standard que acompanham esse inesgotável manancial de «cantoras ecléticas», esta verdadeira sangria desatada que assola nosso país?
ora uma luísa dionísio aqui, uma ana costa acolá, e ainda assim fica difícil não perceber o fio de mesmice que atravessa nossas jovens cantoras ...
e seria muito injusto se eu citasse a cantora sem situá-la no seu devido contexto.
capitaneado por o instrumentista brasileiro benjamin taubkin, o grupo américa contemporânea reúne músicos de diversos países da américa latina:
o saxofonista e flautista alvaro montenegro (bolívia), o incrível violonista aquiles baez (venezuela), o percussionista luis solar (peru), o multi-instrumentista e cantor carlos aguirre (argentina), o rabequista siba (brasil), o percussionista ari colares (brasil) e o contrabaixista christian galvez (chile).
o grupo, que lançou seu primeiro álbum em 2006 (américa contemporânea -- um outro centro), produz uma sonoridade efusiva, polirítmica e, sobretudo, contemporânea.
friso o «contemporâneo» por os mesmos motivos que levaram benjamin a formar o grupo:
a necessidade de investigar a música que se faz hoje na américa do sul, essa reserva inesgotável de ritmos e sonoridades tão diversificadas quanto desconhecidas por nós, brasileiros ...
mas falemos dessa sensacional e surpreendente cantora colombiana, lucia pulido.
o canto profundo de lucia confere ao espetáculo um tom dramático peculiar, que quebra a supremacia dos músicos, essa raça narcísica por definição ...
ela é daquelas cantoras que se agigantam no palco e nos comovem até a medúla com sua voz inexplicável, sua força interpretativa, sua sensualidade austera ...
carregando ora um chocalho, ora um par de baquetas que utiliza em seu próprio corpo, lucia leva o público às lágrimas com «panguito lando», no pout-pourri» canto de vaqueria / el gavilán «e na música de abertura do espetáculo,» carmelita, adiós».
lágrimas que são extraídas não por obra de um virtuosismo educado, mas, supreendentemente, por um timbre pessoal e intransferível que evoca cantos tradicionais, música árabe e jazz.
lucia não só interpreta de forma diferenciada, explorando entonações incomuns, como também foi presenteada por a natureza com um timbre de voz agridoce, que varia de um sussurro rascante, até o grito característico dos cantos de aboio, muito comuns no centro-oeste brasileiro.
não vou explanar a carreira de lucia, pois não a conheço.
mas recomendo vivamente o acesso ao seu site, www.luciapulido.com e também a compra de todos os seus discos.
pra quem compreende a carência a que me referi acima, eis um bálsamo e um alívio ...
Número de frases: 18
Os excessos da propaganda eleitoral no meu bairro podem prejudicar alguns candidatos nesta eleição.
Afirmo isso com conhecimento de causa e até mesmo com uma certa dose de indignação.
A propaganda eleitoral é uma ferramenta útil tanto para os políticos quanto para os eleitores.
Os políticos mostram as suas caras para seus possíveis eleitores e estes também têm uma grande oportunidade de conhecer seus possíveis candidatos.
Assisti algumas vezes o horário eleitoral, que não é nada democrático, pois a única opção que me resta é desligar a tv e confesso que a melhor parte é a da tela azul.
Que silêncio gostoso ...
Pior que o horário obrigatório eleitoral da tv são os tais carros de som.
Esses não têm jeito.
Aqui em Boa Vista já estamos até acostumados com eles, pois mesmo sem eleições o que mais encontramos por as ruas são carros com verdadeiras caixas amplificadas de dar inveja a qualquer equipe de som profissional.
Estou falando dos carros de passeio, esses que ancoram em postos de gasolina e fazem seus bailes.
Mas ultimamente tenho ficado irritado mesmo é com os excessos cometidos no meu bairro.
Vejam vocês que todos os dias centenas de santinhos são colocados na minha caixa de correio.
Se esses papéis tivessem o mesmo valor de seus nomes estaria me sentindo honrado, isso mesmo, honrado em dividir o meu lar com várias autoridades celestiais.
E não para por aí, todos os dias são os mesmos candidatos ...
Se dependessem dos votos de meus cachorros, coitados, esses políticos teriam 0 % da preferência, pois é só cair um pobre santinho que os bichos o devoram como carne ensangüentada em águas de piranha.
Não são nada religiosos!
Mesmo com uma rigorosa política com relação às propagandas eleitorais ainda acredito que os excessos continuam ocorrendo.
Devido a isso acabei criando um processo seletivo para me auxiliar na escolha dos meus candidatos e de quebra, hoje, sou considerado um colecionador.
A o final de cada dia recolho todos os santinhos da minha caixa de correio.
Faço vários montinhos com as caras iguais.
Já dá até pra jogar bafo.
Vou juntar santinhos até a última hora e sem dúvida nenhuma após uma rigorosa contagem em todos os montinhos, irei escolher o candidato do menor.
Se algum curioso me perguntar agora se já tenho candidatos pra essa eleição, prontamente digo que não.
Mas os montinhos estão crescendo ...
Número de frases: 24
Marcelo Perez
Toninho Vaz é jornalista e autor das biografias de duas importantes figuras da cena contracultural brasileira:
Paulo Leminski e Torquato Neto.
Esta entrevista com o jornalista foi realizada por e-mail, em 11 de janeiro deste ano e teve continuação em 19 de janeiro, também por e-mail.
1) -- Toninho, você participou ativamente da contracultura durantes os anos 60 e 70?
-- Sim, na condição de jornalista desempregado e perseguido, não me restava alternativa a não ser trabalhar por baixo do pano, escondido da censura e dos «homens».
Criei e participei, em Curitiba e no Rio, de vários jornais e revistas da chamada «imprensa nanica», como eram conhecidas estas iniciativas de romper o silêncio imposto por a ditadura.
Publiquei textos e poemas em folhas avulsas e espalhei por as cidades.
2) -- Para você, quem são os maiores ícones deste movimento no Brasil?
-- Aqueles que continuaram trabalhando, experimentando e fazendo a cultura não imposta por o governo ou por o establishment.
Em várias modalidades, José Agripino de Paula, Hélio Oiticica, Torquato Neto, Caetano Veloso, Paulo Leminski, Raul Seixas, José Celso, Jorge Mautner, Rogério Sganzerla e uma legião de iluminados.
3) -- A poesia marginal se caracterizou no Rio de Janeiro por produções coletivas mimeografadas.
A produção de Paulo Leminski também era assim?
-- Não.
O Leminski teve a sorte de produzir impressos numa cidade sofisticada e conhecida por o seu parque gráfico, como é Curitiba.
Seus primeiros trabalhos publicados, ainda como edição de autor, eram ricos estética e graficamente.
Vide Polonaises e o álbum branco da Zap, requintados produtos que em outras cidades sairiam em mimeografo.
O Paulo era apaixonado por o avanço da tecnologia e da publicidade.
4) -- Quais as influências, não só literárias, mas comportamentais de Leminski?
-- Jesus Cristo, Maiakovski, Bob Dylan, Lennon e Alice Ruiz, com sua constante consciência feminista.
5) -- Por que podemos dizer que Leminski era extremamente ligado à contracultura?
-- Porque ele não fazia a cultura oficial.
Seus primeiros livros foram editados por ele mesmo e estavam sempre sob suspeita de entidades reguladoras da moral e dos bons costumes.
6) -- Você está prestes a publicar um livro sobre um dos mais importantes pontos de encontro da contracultura carioca?
-- É isso.
Estou terminando de contar a história do Solar da Fossa, folclórico casarão colonial que havia em Botafogo antes de existir o shopping Rio Sul.
A pensão tinha 85 apartamentos e entre 1964 e 1971 abrigou uma verdadeira legião de talentos contraculturais:
Caetano, Leminski, Gil, Paulo Diniz, Paulo Coelho (no momento que conhecia Raulzito), Ítala Nandi, Cláudio Marzo, Tim Maia, etc ...
O livro vai sair por a editora Record.
7) -- Que outros locais também atraiam a contracultura brasileira?
-- A praia, as dunas da Gal, o posto 9 em Ipanema e os botequins de Copacabana.
Shows de rock.
8) -- A relação entre contracultura e uso de drogas sempre foi estreita.
Qual a explicação para este comportamento?
-- Estava sendo cada vez mais difícil ser feliz.
Este mundo, um hospício, fugi por os furos do vício.
Este é o trecho de um rock de Paulo Leminski.
A maconha, que hoje está sendo usada como remédio, naquela época já era.
9) -- A contracultura já foi definida como a oposição juvenil contra o regime tecnocrático.
Como você a definiria?
-- Esta definição é interessante.
Mas existem outras que podem dar uma idéia política do acontecimento.
Se você não tinha interesse que o seu ato cultural fosse enquadrado por os militares, qualquer ato seria contracultural, ou seja, fora da chancela oficial do governo (e vou bater na madeira três vezes).
10) -- Hoje, passados mais de meio século desde que os primeiros beatniks surgiram, a contracultura parece estar bastante integrada à tecnocracia e muito diluída para representar uma oposição tão grande como era no passado.
Qual sua opinião sobre o assunto?
-- Não existe mais necessidade e nem possibilidade de movimentos de contracultura.
Pelo contrário, a época é de globalização.
O mundo de George Orwell chegou.
Somos todos replicantes e Deus está morto.
A Terra e a natureza selvagem já estão no catálogo virtual do homem, que continua rompendo os espaços das galáxias.
Diante disso, você pode se descabelar ou apenas ler um poema de Walt Witman.
Vai depender da sua sensibilidade.
11) -- Os anos 70 ficaram famosos por a permissividade sexual.
Afinal, tinha-se a pílula, mas não existia a AIDS.
Nós, que nascemos depois da camisinha, gostaríamos de saber mais sobre as transas que rolavam naquela época.
Ou seja, explica o Amor Livre no Solar da Fossa, por exemplo.
-- Quando se diz que nos anos 60 houve uma revolução nos costumes e no comportamento, estamos falando numa convergência de fatores raros e excepcionais.
Assim, à explosão dos meios de massa, rádio e televisão basicamente, veio se juntar a explosão do rock e o fim da rotina horizontal das famílias.
Os jovens foram informados de tudo (não me pergunte o quê, certo?)
e deixaram o cabelo crescer;
decidiram sacudir o corpo com o rock and roll, experimentar o prazer das drogas e outras cositas mais.
Diante das liberdades conseguidas a tapa, as mulheres puderam igualar sua libido ao referencial masculino de prazer e sexualidade.
Elas fizeram uma revolução sexual.
O homem que conseguiu ser parceiro das mulheres neste processo de transformação, certamente cresceu como homem e se beneficiou deste momento.
Como conseqüência, temos o amor livre e a amizade coloria.
Era o fim do pecado.
12) -- A palavra desbunde supostamente surgiu na esquerda, para designar quem largava a luta armada.
Entretanto, começou a designar quem se encaixava no padrão da contracultura.
Qual a relação entre esquerda e contracultura no Brasil?
-- A esquerda no Brasil refletia influências da revolução russa, chinesa ou apenas marxista, com base na divisão de trabalho, etc..
O foco era a liberdade política e suas conseqüências no socialismo da economia.
O prazer, o investimento hedonista, as águas de Eros, estas tinham o estigma do pecado, eram considerados desvios típicos dos porras-loucas e desbundados.
Embora utilizando os mesmos meios da contracultura, no que tange a clandestinidade, a esquerda (clandestina ou oportunista) fazia o papel da formiga na fábula com a cigarra.
Hoje sabemos que -- sem remorso -- é possível ser formiguinha durante o dia e cigarra à noite.
A terceira via é ser cigarra o tempo todo e foda-se o mundo.
Também sem remorso.
13) -- Você conheceu alguém que se autodefinia desbundado?
Quem?
-- Quase todos da minha geração foram desbundados ou tiveram momentos de desbunde.
O Mautner, o Caetano, o Zé Celso, o Raul Seixa, Leila Diniz, Elke Maravilha são pessoas desbundadas -- e creio que nenhuma de elas negaria isso.
O professor Timothy Leary era desbundado.
14) -- Conte um pouco sobre o Solar da Fossa.
O local era bem ao estilo sexo, drogas e rock and roll?
Eles pagavam aluguel?
Conte um «causo» legal.
-- Agora você pode pegar aquela convergência de fatores referida ai em cima e colocar tudo dentro de um casarão.
O resultado é que ali estavam porras-loucas, revolucionários, cabeludos, destemidos, grandes talentos e garotas espetaculares que não tinham medo de transar.
Para melhor apreciar e entender o fenômeno da contracultura brasileira, o Solar deveria ir para a lâmina do microscópio.
Todos os vestígios típicos dos anos 60 vão aparecer nos 85 apartamentos da pensão Santa Teresinha, como era o nome oficial.
Pelo menos nos três primeiros anos (dos oito de existência) todos pagavam aluguel, depois o esquema foi se alterando e, nos dois últimos anos, ninguém pagava aluguel.
Ficaram famosos os passeios da Maria Gladyz, completamente nua por os corredores do Solar, talvez sob o pretexto de fazer «laboratório de teatro».
Audácia e ousadia eram impulsos comuns entre estes jovens.
Como diz o Roberto Talma na abertura do meu livro:
«Em o Solar da Fossa -- onde havia um grande elenco de mulheres bonitas -- se você não tivesse alguma literatura, um pensamento filosófico atualizado, uma conversa definida sobre arte, você não comia ninguém."
15) -- Hélio Oiticica parecia querer ligar a sua arte, altamente contracultural, diga-se de passagem, com o conceito de marginal.
Entretanto outras pessoas, como Waly Salomão, se incomodavam com o rótulo de poeta marginal.
Qual sua opinião?
-- Não era só o Waly que implicava com esta pecha.
Conheço vários poetas que consideram o termo pejorativo.
Eu gosto do conceito de marginal.
Ele trás um estigma muitas vezes desconfortável porque é excludente, é verdade, mas mesmo assim me agrada.
Número de frases: 101
A imagem de Michael Moore nunca mais será a mesma depois do documentário canadense " Manufacturing Dissent -- Uncovering Michael Moore (fabricando Polêmica -- Desmascarando Michael Moore), de Debbie Melnyk e Ruck Caine.
Pelo menos essa é a avaliação do diretor-fundador do É Tudo Verdade -- Festival Internacional de Documentários, Amir Labaki (http://www.itsalltrue.com.br/ 2007/ index.html).
«Não se trata de mais um pertardo da direita contra o diretor de ' Fahrenheit 11 de Setembro '.
More acaba de ser ferido por fogo amigo».
E ainda bem que é amigo e não deve está pretendendo ascensão midiática.
«Quando começamos este projeto, esperavámos fazer um documentário que celebrasse Michael Moore», diz Melnyk citado por Labaki no caderno Eu & do Valor Econômico deste final de semana.
«Mas descobrimos certos fatos sobre os documentários de ele que desconhecíamos.
Acabamos desapontados e desiludidos», confessam os documentaristas, que não sei se estão em começo de carreira, mas parece que só agora deram de cara com esse mundo cruel e comedor de criancinhas.
O que seria então se a dupla fosse atrás da dica de uma professora de redação lá do 3º período -- A psicanálise dos contos de fadas (Bruno Bettelheim)?
Eles iriam ver que Chapeuzinho Vermelho é o retrato de uma sapequinha saliente.
É uma leitura que ainda não tive coragem de terminar -- hahhaha
De entre os casos em que a montagem teria ido além daquela que toda produção pede está «Roger & Eu (1989)».
Labaki escreve que Moore firmou seu nome entre os documentaristas americanos com seu retrato da insensibilidade corporativa da Genral Motors, simbolizada por seu então CEO Roger Smith, quanto ao fechamento de uma fábrica em Flint, Michigan.
«Como satiriza o título, o eixo dramático do filme é a impossibilidade de Moore confrontar-se pessoalmente com o executivo."
«Fabricando Polêmica» comeceria por aí com sua, sempre amiga, diga-se, desconstrução de consensos.
A verdade vale por si mesma, não tem preço e muito menos ressentimentos quando não se tem o espaço aspirado.
Então, segundo um colaborador de Moore da época, o cineasta teria registrado não uma, mas duas entrevistas com Roger Smith, que se revelou sempre atencioso e colaborativo.
Número de frases: 17
Como os depoimentos não teriam servido ao roteiro de Moore e ao personagem que iria montar, as conversas foram insensivelmente descartadas da edição final.
A Feirinha de artesanato de Tambaú fica em frente ao Hotel Tambaú, um dos hotéis mais famosos de João Pessoa, e deu origem ao maior circuito de bares de cidade.
Vai descer para a feirinha?
Quando não se tem programa nenhum para as noites de sexta ou sábado em João Pessoa, e a vontade de sair persiste, inevitavelmente a pessoa acaba dando uma passada na Feirinha de Tambaú, nem que seja só pra ver o que está acontecendo por lá.
«É uma área legal e democrática, pra todos os gostos, tribos, raças e sexos.
Todo mundo convive pacificamente, patricinhas, mauricinhos e o pessoal roqueiro, por isso acho legal o espaço.
Outra coisa: é uma área muito bem localizada na cidade, um point certo para as baladas de sábado», elogia Lilia Alves, 24, assessora de comunicação.
Todo mundo que sai na noite de João Pessoa tem uma história de amor e / ou ódio com a feirinha.
Isso já rendeu até uma comunidade no orkut chamada «Vá a Feirinha mas não me Chame».
«Sou um freqüentador.
Já fui mais assíduo, mas ainda vou lá.
Acho que caiu um pouco a infra, principalmente pra quem via aquilo como um lugar alternativo.
O espaço pra se deslocar era maior, geralmente tinha uns shows lá e ficava menos no esquema de boteco.
Agora só tem boteco e boate ou um arremedo de boate, porque é boate que põe banda cover pra tocar.
Ah, mas os banheiros são mais legais hoje!»,
ironiza João Cassiano, 26, músico, freqüentador antigo da feirinha.
Ironias à parte, o fato é que as noites de sexta e sábado por lá são lotadas.
Tem de tudo para todos os gostos.
Apesar das pessoas ficarem mesmo é andando por as ruas apertadas que formam o circuito entre as ruas Olinda, Coração de Jesus e Targino Marques, a coisa ferve, tem boate, forró pé-de-serra, música eletrônica, rock, comida regional, choperia, uma diversidade que atrai muita gente.
O barulho é grande, mas a vizinhança que tanto reclamou acabou se acostumando.
Calcula-se que mais de 3 mil pessoas circulem nas noites de fim de semana naquela área.
O histórico de agitação da feirinha é antigo e vem dos anos 70 e 80, quando havia uma espécie de feirinha hippie, onde vez ou outra aconteciam shows de bandas alternativas, geralmente MPB e rock.
Em os anos 90, em meio a um projeto de reurbanização da orla, os calçadões em frente ao Hotel foram redesenhados e ganharam alguns quiosques que seriam para os artesãos.
Até que no início a propostra deu certo, mas o desinteresse por parte de alguns artesãos foi ficando mais evidente e alguns quiosques foram virando ponto para se tomar uma cervejinha e comer alguns tira-gostos caseiros.
O mais famoso desses bares foi o Bar de Ricardo, o barbudo, ex-hippie, roqueiro, fã de Jimi Hendrix que começou a trazer a galera para o bar para ouvir seus CDs.
As quintas-feiras eram clássicas.
Som alto e muita cerveja.
Alguns bares começaram a surgir na Rua Coração de Jesus e a partir daí tudo foi numa sequência rápida e justificável por o número de turistas na cidade, que começou a aumentar e despertar o interesse dos empresários que já estavam de olho na área.
Diversos hotéis e pousadas se localizam perto da Feirinha, o que aumenta o número de turistas.
Muita gente fica circulando de um bar para outro.
A paquera acontece na rua mesmo, que fica tomada de gente, limitando a passagem de carros, que por sua vez -- e apesar a dificuldade -- insistem em passar por ali com o som no volume máximo.
Muita gente ama, muita gente odeia ir à feirinha, mas não há como negar:
todo mundo vai.
Pra quem chega na cidade e não sabe pra onde ir, não há dúvida:
dê uma passada na Feirinha -- você vai se achar por lá.
Veja o que rola no circuito de bares, boates e restaurantes:
Café Empório -- bar aberto com música eletrônica -- ocasionalmente DJs fazem sets ao vivo;
Atelier -- bar aberto com música eletrônica -- DJs fazem set ao vivo;
Incognito -- bar fechado com DJ e shows de bandas cover;
Ks -- bar aberto com forró pé-de-serra;
Porto das Francesinhas -- bar fechado com show de bandas cover;
Zodíaco -- bar fechado com show de bandas cover;
Osaka -- restaurante de comida japonesa;
Bebe blues Come Jazz -- bar aberto com sinuca e xadrez -- som mecânico com blues, jazz e rock;
Mundial Lanches -- lanchonete;
Elektra -- boate GLS;
Tempero da Goma -- tapiocaria -- cozinha regional com inovações na receita ponto de paquera GLS;
Companhia do Chopp -- bar aberto com voz e violão;
Almir -- bar e lanchonete aberto -- com sinuca;
Tratoria -- restaurante com cozinha italiana;
Barracas da Feirinha de Tambaú -- artesanato, praça de alimentação com comidas regionais e uma série pequenos barzinhos onde rolam CDs e DVDs de rock, reggae e rap.
Onde fica:
Começa em frente ao Hotel Tambaú e segue por as redondezas.
Acesso de ônibus -- Linha Tambaú 510 / 511.
Estacionamento nas ruas do bairro e na orla.
Número de frases: 55
Retornou a Belém, a artista Keyla Sobral, escolhida por o Instituto de Artes do Pará para representar o Estado num projeto de intercâmbio entre o IAP e a Kunsthaus de Wiesbaden -- Alemanha.
Trata-se de uma bolsa de pesquisa e experimentação em que o artista permaneceu ao longo de 60 dias no exterior, além de montar uma exposição no local.
Em este mesmo período um artista alemão, Thomas Sturm esteve em Belém realizando seu trabalho.
Keyla levou o projeto intitulado «Memories» e produziu uma gigantesca gravura, marca registrada de seu trabalho, além de exibir um vídeo e uma foto de memória do clube dos alemães, ponto de partida para o cruzamento dos dois lugares (Belém / Alemanha) que marcam a relação conceitual deste trabalho.
O trabalho que se pauta no resgate da memória da cidade, apresenta numa linguagem artística marcada por o hibridismo o «Clube dos Alemães, (1908)», construído em Belém e que era freqüentado somente por imigrantes alemães, onde se encontravam e confraternizavam seu vernáculo.
Este clube foi apagado da paisagem urbana sem nenhuma ressalva, assim como muito dos locais que fazem parte da história e memória da cidade de Belém.
Como afirma Giulio Carlo Argan (História da Arte Como História da Cidade), é uma catástrofe cultural a perda no breve decorrer do tempo do patrimônio histórico e artístico.
O trabalho é uma forma de discutir a questão da descaracterização da cidade, que hora está em ruínas, ora é ausência total destes patrimônios, levando um fragmento de outrora para o berço dos imigrantes que o erigiram.
O trabalho levou para dentro da galeria de Wiesbaden um recorte fotográfico do «Clube do Alemães» atrelado a uma imensa gravura aderida à parede da galeria.
O desenho que tomou forma a partir da visualidade da paisagem alemã, por a vivência, por a pesquisa e por o exercício do olhar.
A imensa gravura gera uma relação de entrelaçamento e / ou confronto com a imagem fotográfica, por a relação de tamanho, linguagem e significado.
Uma abstrata e a outra (a imagem fotográfica), a mais pura emanação do referente, de um corpo real, que se encontrou ali um dia.
Sem dúvida é um resgate da história alemã, um pequeno fragmento da história de seus imigrantes na cidade que outrora fora o centro do país.
A repercussão do trabalho foi extremamente satisfatória para a artista que vivenciou o cotidiano da arte na Alemanha, além de visitar museus e ateliers de dezenas de artistas ao longo de várias cidade da Alemanha, além de uma rápida passagem na Suíça, na cidade de Basel.
A artista retorna a cidade e logo deve falar ao público sobre sua experiência, além de mostrar centenas de registros, fotos e novidades sobre o sistema de arte lá fora.
Número de frases: 15
Quando fui assistir ao filme «Os Doze Trabalhos», numa quarta-feira, a platéia do cinema se compunha de apenas quatro pessoas.
E isto já contando com mim e com um amigo que me acompanhava.
A princípio, fiquei indignado com o fato de um filme nacional de boa ter um público assim tão reduzido.
Depois, no entanto, refletindo sobre o conteúdo do filme compreendi melhor o que havia acontecido.
«Os Doze Trabalhos» conta a história de um jovem, ex-detento da Febem, que com a ajuda de seu primo consegue um emprego de motoboy.
Ou melhor, vislumbra este trabalho como perspectiva para fugir do movimento cíclico que tende a lançar ex-detentos novamente no mundo da criminalidade.
O enredo, então, corresponde à narrativa desse primeiro dia de trabalho no qual o protagonista precisa cumprir a meta de realizar doze entregas com sucesso.
Sim, há uma alusão aos «doze trabalhos de Hércules».
Inclusive, o nome do protagonista é uma referência ao mito grego.
Mas, nesse aspecto, o filme surpreende o espectador que inicialmente pôde ter sua expectativa norteada por a analogia com a mitologia grega.
E além desse fator surpresa, o filme também possui uma tensão, um suspense bastante original que advém da incerteza de que o ex-detento irá conseguir realizar seus doze trabalhos ou irá, a qualquer momento, dar vazão à violência latente que traz contida num olhar demasiadamente sério para um jovem da sua idade.
Em esse sentido, o filme parece cumprir o seu papel artístico junto ao espectador que passa não somente a olhar o ex-detento com certa desconfiança como, também, a duvidar que ele será capaz de cumprir suas tarefas.
Porém, mais que isso, a julgar por o pequeno público que estava presente à sessão de cinema e ao pouco tempo que o filme ficou em cartaz, sou levado a concluir que ele conseguiu também, nisso, realizar seu propósito estético:
o de passar despercebido, assim como a profissão de motoboy que ele se dispôs a retratar.
Convenhamos:
embora os motoboys desempenhem um papel importante, economizando o tempo de muita gente, o fato é que ninguém deseja essa profissão para si.
Até mesmo porque, como mostra o filme, nos meios profissionais em que circula, o motoboy é quase como uma espécie de entidade, um ser invisível e, não raro, indesejado quando ousa sair da sua invisibilidade para interagir com os «humanos» ocupadíssimos.
E essa mesma perspectiva social parece se refletir na sua atuação no trânsito, onde se movem rompendo as limitações normais impostas aos demais veículos.
E assim se movem também como entidades, invisíveis e, não raro, indesejadas quando interferem no campo de visão dos «humanos» estressados, apressados e ocupadíssimos.
No entanto, se por um lado os motoboys passam por seres invisíveis, cuja profissão, eles, abraçam diante da falta de perspectivas no mercado de trabalho, por outro lado eles estão cada vez mais presentes na cidade de São Paulo.
E o filme menciona isso, assim como o fato dos inúmeros acidentes e mortes muito comuns nesta profissão que se caracteriza, por um lado, por a invisibilidade social e, por outro, por a precariedade de condições.
Mas, apesar do filme mostrar o dia a dia da profissão de motoboy, esse não é o único tema e nem talvez o principal, pois, através da narração do protagonista, vemos uma série de destinos pessoais bastante interessantes e complexos que estão para além das entregas.
Mas, por a variedade de destinos que são narrados, entre uma entrega e outra, o espectador pode ficar com a impressão de que o tratamento dado a esses temas foi superficial.
No entanto, a meu ver, trata-se de uma coerência estética com o tema do filme.
Afinal de contas, o motoboy está ali apenas para entregar de modo que o seu encontro com «o outro» se dá por pequenos instantes.
Assim, o que ele vê dessas outras vidas (e o que nós vemos através do seu olhar) são apenas lampejos de uma história maior que ele não irá efetivamente tomar parte.
E, nisso, possivelmente nossa sina se encontra com a de ele.
Número de frases: 27
Fizemos (Daniele Ramalho e eu) umas leituras sobre o livro do «Jorge Amado O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá», livro muito interessante que aborda para crianças a história de um amor impossível, incompatível.
O amor de um gato que era para todos na floresta feroz e mal-humorado com uma jovem andorinhazinha.
O romance se desdobra na primavera e finda com um final infeliz:
A andorinha acaba se casando com um «andorinho» e deixa o gato.
A o final, o gato se dirige para o ninho da cascavel, que ele expulsara da floresta, mas agora segue cabisbaixo, solitário, sem amor, buscando a última chance para tal desenlace triste.
O encontro com a mortal inimiga.
E assim acaba o livro.
Para isso, compus 2 musicas infantis, uma mais animada, representando o gato e outra mais delicada, a da sinhorinha andorinha.
É isso aí.
Seguem as letras.
Gato Malhado (
Fabio Campos)
Era um gato malhado
que tinha olhos pardos
tão feios e maus
Isso era o que achavam
os bichos que davam
opinião geral
Quando era jovem corria
por entre telhados
e coisa e tal
Miava canções de amor
para a Lua tão cheia
era um sentimental ...
Ah!
seu gato malhado
Ah! não seja malvado
Ah! seu gato moleque!
Ah!
pare de assustar!
Ah!
seu gato malhado
Ah! não seja malvado
Ah! seu gato moleque
pare de assustar!
Dizem que o gato malhado
havia engolido
o pobre sabiá
E que uma pomba rolinha
virara petisco
para o seu jantar
Falam más linguas que o gato
roubara os ovinhos prá se alimentar
E que arranhava os focinhos
de todos os cachorros que vinham brincar
Ah! seu gato malhado
Ah! não seja malvado
Ah! seu gato moleque!
Ah!
pare de assustar!
Ah!
seu gato malhado
Ah! não seja malvado
Ah! seu gato moleque
pare de assustar!
Só que o tal gato malhado
não era o malvado que diziam ser
Era sim um preguiçoso,
molengo deitado ao sol a viver
Nem bem sabia ao certo
o que se dizia por o matagal
Nunca fizera maldade somente botou
cascavel prá correr
Eu sou o gato malhado
Não eu não sou tão malvado,
Sou meio mal humorado
mas não vou te assustar
Eu sou o gato malhado
Não eu não sou tão malvado,
Sou mal-humorado
mas eu não vou te assustar
miau!
Andorinha Sinhá (
Fabio Campos)
Andorinha pequenina
tão novinha, menina
sinhorinha a voar,
Andorinha Sinhá Delicada bicudinha
namoradeira de asas
passarinha apaixonada
Andorinha Sinhá Olhos brilham como estrelas
Asas piscam o coração
Andorinha derradeira
da primavera e do verão
Foi-se o outono foi-se o inverno
Quem foi se apaixonar
por você?
Abraços,
Fabio Campos Memorial Serra da Mesa
A cidade de Uruaçu está situada no norte do estado de Goiás, a 282 km da capital e é a única cidade banhada por o lago de Serra da Mesa, considerado o segundo maior lago artificial do mundo.
Uma pequena cidade do interior goiano com cerca de 33 mil habitantes, onde o povo sonha e tem apoio cultural na administração da prefeita Marisa Santos Pereira Araújo.
Não é natural uma cidade pequena com uma visão cultural tão abrangente e iniciativas culturais não comuns nas cidades interioranas, pois o retorno na mídia de obras dessa natureza pode ser a longo prazo e os ideais de politicagem requerem resultados rápidos.
Com a construção da Hidrelétrica de Serra da Mesa houve um grande impacto ambiental e social em toda a região atingida por o alagamento.
Muitas famílias perderam suas terras indo para as cidades próximas, grande parte do cerrado e sua história ficaram debaixo das águas.
O objetivo do Memorial é resgatar a historia da região e promover a educação ambiental se tornando um centro de referência da cultura goiana, especialmente da região de Serra da Mesa.
Os gastos serão cerca de R$ 4 milhões e o Memorial ocupa uma área de 20 mil metros quadrados, próxima do Lago Serra da Mesa e da rodovia GO-237, que liga Uruaçu a Niquelândia.
Além dos recursos próprios a Prefeitura buscou o apoio de diversos Ministérios, entre os quais os do Turismo e da Integração Nacional, de Furnas e da Mineração Anglo American, através da lei Rouanet e também recursos de emendas parlamentares.
Toda parte técnica é feita por o Instituto Trópico Subúmido da Universidade Católica de Goiás.
Em linhas gerais a idéia é baseada no «Memorial do Cerrado», localizado no campus 2 da UCG, em Goiânia que hoje se tornou ponto turístico da capital, sendo também considerado um dos mais significativos complexos científicos e culturais de Goiás.
O projeto estimula a geração de novos ofícios como oficinas artesanais, paisagismo voltado para os parques temáticos e cerâmica;
incentiva a pesquisa fundamental, aplicada e experimental e também o estudo do valor medicinal dos fitoterápicos;
e ainda favorece o intercâmbio organizacional, científico e cultural com diversas instituições como:
fundações, ONGs nacionais e internacionais, universidades, institutos de pesquisa e governos.
A pedra fundamental foi lançada no dia 1º.
de Julho de 2006 e será aberta no dia 1º.
de Julho de 2106, 100 anos depois do seu lançamento oficial.
Dentro da lápide foram colocados uma bola de futebol porque era época da Copa do Mundo;
aparelho celular (sem bateria);
artesanato local (terços e outros);
1 litro de pinga Serra da Mesa;
jornais do dia;
publicações de autores uruaçuenses e assinaturas e frases de centenas de pessoas que estiveram presentes na festa de lançamento da pedra fundamental.
A entrada do Memorial é por um suntuoso pórtico criado por o arquiteto Louis Bernard Tranquillin (in memorian), com frases e desenhos que contam a história local desde as primeiras ocupações humanas em torno da cidade.
Em este pórtico os desenhos feitos com pedras da região narram numa seqüência histórica os rios, garimpeiros, índios, enfim os primeiros habitantes da região de Serra da Mesa.
Os desenhos e as frases são de criação da artista Larissa Malty (Velha do Cerrado) e em letras monumentais se pode ler:
Os índios navegaram nesses rios;
E se fez riqueza de ouro e pedras;
E dessa água se tirou o alimento;
Em esse rio o gado matou sua sede
O homem gerou a luz;
E a partir de ele ainda hoje contemplamos a natureza compreendendo sua história
Este memorial será o ponto de encontro da cultura regional e toda manifestação folclórica terá suporte para se apresentar como o Chimite, a Catira, as Rezadeiras, o Caxá, o Vôzinho, quilombolas e outros.
As cidades como Niquelândia, Nova Iguaçu de Goiás, Goianésia, Santa Rita do Novo Destino, Porangatu, Alto Horizonte e mais algumas apresentarão suas manifestações folclóricas em datas alternadas.
As escolas particulares e públicas e as universidades podem contar com o Centro de treinamento ou Centro Cultural que tem um auditório para 300 pessoas com estrutura suficiente para atender a todos os tipos de clientes e eventos.
Em um grande museu cuja arquitetura lembra um dinossauro estarão expostas todas as espécies de animais existentes no cerrado goiano.
Esses animais são conservados por o processo chamado «taxidermia» com orientação e técnica criada por o professor José Hidasi de Goiânia.
Também nesse museu poderão ser apreciadas todas as pedras da região, espécies da flora e toda a história do homem do cerrado será contada em detalhes através da exposição de fósseis pré-histórico.
Uma gruta mostrará como o homem primitivo vivia na pré história.
A aldeia indígena representa o povo timbira que foi para o norte de Goiás, hoje Tocantins se dividindo em muitos tribos como os krahôs e outros.
Inclusive parte do material que compõe as cabanas foi confeccionado por os índios krahôs.
O espaço recriado conta a história do povoamento de Goiás, especificamente Uruaçu.
Em a fazenda tradicional podemos ver engenho, carro de boi, fábrica de farinha, alambique, monjolo, curral e enfim tudo que caracteriza uma fazenda antiga auto sustentável.
Em datas especiais como Semana do Folclore e outras, o visitante poderá ver o engenho moendo cana, o carro de boi carreando, a confecção de farinha de mandioca, o monjolo socando, o alambique produzindo pinga, o curral com bois, o galinheiro, chiqueiro de porcos e outros.
Existe também um espaço para as fiandeiras, contadores de causos, tecedeiras e todas as manifestações regionais.
Em a cidade cenográfica os prédios representam a antiga Santana do Machambombo, hoje Uruaçu.
Construções como a Casa Baiana, a primeira cadeia, uma topografia de 1940 e a primeira escola de Uruaçu decorada com carteiras, mesas, palmatória e cadernos e livros da época.
Todos esses espaços são mobiliados à caráter e foram montados baseados em fotos antigas e depoimentos dos primeiros moradores como a casa do Coronel Gaspar Fernandes de Carvalho.
A Capela de Santana que foi a primeira igreja da cidade está reconstruída em tamanho original com cruzeiro e tudo.
Em esse largo estará representada uma casa e a forca de Trairas.
Para que tudo seja como era antes foi construída também a vila com casinhas de adobe, jirau de pau e um bordel representando o antigo (Fôia) da cidade de Uruaçu.
Este bordel é decorado com móveis antigos, perfumes que as cortesãs usavam para atrair dinheiro e homem, destacando as famosas bacias esmaltadas onde se lavavam.
Em datas especiais atrizes representarão as damas no famoso «Fôia» Essa representação se faz no sentido de mostrar como no passado os pais usavam o bordel como um local para ensinar aos filhos os primeiros contatos com as mulheres.
A casa sede da fazenda tradicional foi inspirada em construções de fazendas antigas da região como a casa da Dona Nina que é antiga moradora da região de Urualina, município de Uruaçu.
Tudo foi construído sem perder nenhum detalhe:
o assoalho de tábuas, a bica dágua com o monjolo e o telhado com telhas comuns coletadas em taperas da região.
Essas telhas segundo os mais antigos, as primeiras foram feitas nas «coxas dos escravos», só depois de muitos testes foi inventada a forma de madeira chamada» galape».
O quilombo apresenta de forma explícita como os escravos fugitivos viviam em casebres de taipa (ripa e barro), aglomerados num local pequeno entre serras e ainda um espia no alto para vigiar o abrigo.
Ainda no Memorial há uma área de camping, espaço de lazer e de complemento às atividades culturais.
Também um deck utilizado como ponto de observação e de pesca esportiva.
O Reitor Wolmir Terezio Amado da Universidade Católica de Goiás, afirma numa entrevista ao jornal Diário do Norte:
-- () ...
Esse memorial, que será único na região toda por suas especificidades.
Será original porque agrega valores à parte do turismo e do lazer, além de indutor da atividade econômica.
O próprio Lago de Serra da Mesa vai desempenhar esse papel.
E assim continua:
-- Não tenho dúvida de que o museu ao lado do Serra da Mesa não é solitário.
De o ponto de vista da gestão, trata-se de um investimento importante.
Ele agrega as pessoas da própria região e também de outras regiões e cidades, além de outros estados.
O lago é uma possibilidade de lazer que vai agregar a questão cultural do museu.
Ele chama a atenção por ser um diferencial da cultura.
Ele ainda será capaz de firmar a questão da identidade nas pessoas que vivem na região.
Lá elas verão traços da sua própria história.
Quando nós fomos para o Lago de Serra da Mesa a gente sabia que não estava simplesmente ajudando a fazer um museu, mas buscávamos o desenvolvimento social, cultural e econômico de toda região.
E isso fez com que nos integrássemos numa iniciativa bem pontual, porém somada com outras ações numa visão global.
A interação com a comunidade se faz desde a construção:
os doadores são pessoas mais velhas que com o olhar emocionado rememoram o passado e sentem a necessidade dessa participação na construção desse local que guardará suas lembranças.
Em esse momento surgem os causos e a participação é efetiva.
A artista plástica Neiry Celestino que faz acabamento e pintura das esculturas representativas de cada ambiente do Memorial considera importante esse resgate no sentido de mostrar aos povos do presente e do futuro o cerrado e seus habitantes desde a pré-história que enriquecerá o modo de pensar e de agir de todos.
Esse Memorial será a maior atração turística de Goiás, um local bonito, atraente e de grande valor educacional e cultural.
Seu Caxá muito entusiasmado diz do Memorial:
-- Já istô quase cum 90 anos e nunca imaginei podê vê um trabaio desse, é muito interessante, aqui os minino vão saber como nois mais antigo vivia.
O sentido do Memorial é levar para crianças e jovens de forma concreta o modo de vida do homem primitivo desde o índio, o agricultor, o marceneiro, o carreiro, a tecedeira, a benzedeira e outros.
Essa memória preservada poderá formar cidadãos conscientes de seu papel com si mesmo e com a natureza.
Esse espaço é privilegiado com a visão do lago que de um lado mostra o progresso com a geração de energia elétrica e de outro a visão da memória do homem do cerrado, da historia que ficou debaixo das águas incluindo as matas, os animais e as pedras.
Todos os que trabalham no Memorial já participam de uma aula a céu aberto, são curiosos e assim interrogam e ajudam no resgate da história.
A importância do Memorial repercute nos atos, nas falas do pedreiro, do marceneiro, do caminhoneiro que carrega o material.
Os trabalhadores do sofisticado ao mais simples em seus comentários vão juntando frases e formando uma grande história sobre o passado do homem.
Destelhando uma tapera de 130 anos atrás o trabalhador braçal comenta:
-- Essa casa véia me faz lembrar do meu avô.
Nóis levantava muito cedo pra moer cana, fazer melado e rapadura.
O trabaio era duro mas a gente era feliz.
E assim ele vai relatando aos colegas fatos interessantes e despertando também outros causos que marcam o modo de vida do homem há décadas atrás.
Todos que passam por o Memorial se emocionam e voltam no tempo marcando assim a sua verdadeira intenção.
Em a hora de ajudar a pintar as musas de cerâmica em tamanho natural os alunos do PET (Programa de Erradicação do trabalho infantil) participam e ali eles vão comentando e aprendendo a preservar sua identidade.
A velha senhora se alegra diante da visão do tear e manifesta o desejo de tecer nos dias de apresentação.
Professores visitantes do Rio de Janeiro deslumbrados diante da visão do memorial entre si discutem e um comenta:
-- Quando ouvi falar do Memorial nunca imaginei numa obra desse porte, pensei num pequeno museu.
Mas estou sem palavras diante da grandeza dessa obra.
Número de frases: 188
Mestre Jeronimo (JC) -- Capuera Iconoclasta
Prelúdio:(afinando a ' bateria ' para o jogo)
Somos brasileiros, não somos europeus portugueses!
Mas, no Brasil, malandro;
mandinga; macumba;
vadio; capoeira;
etc., ainda é termo promovido em dicionário de ' língua portuguesa ` como sendo «coisa ruim» e atitude de " gente que não presta."
O governo aprova ' o jogo ' para manipular a mente e oprimir o povo brasileiro.
Portanto, estou escrevendo e gingando de maneira não convencional com o intuito de protesto;
para adicionar na educação do nosso povo;
e promover a cultura do povo brasileiro de forma autêntica fortalecendo a identidade cultural da nação brasileira.
-- dá licença, pra fazer o'jogo '!
Ladainha --
Iêê. eu prefiro ser essa metamorfose (iconoclasta) ambulante ...
Mestre é o termo que define um Ser que se torna numa pessoa feliz!
Capoera (kaa-poera, capoeira, capuera, kapuera, etc.) é uma palavra que na ação gera uma situação de Família -- sinônimo de Quilombo.
Família é sinônimo de trabalho.
O trabalho que dignifica o homem, e gradua o Mestre!
Um «e$cravo» é aquele que paga aluguel, condomínio, imposto de renda, taxas pra banco e para o governo, etc..
Portanto é sinônimo para definir quem é um capuera.
O «mestre» é a palavra usada para identificar um profissional prestador de serviço.
Como por exemplo:
mestre-de-obras; mestre-sala;
mestre-de-bateria; mestre-de-capoeira, etc..
O professor da escola, universidade, etc., já foram no Brasil outrora ' apelidados ' de mestre por os alunos.
Chula -- [
Mestre Jeronimo, quem foi o seo meste ...
e o meste do sinhô?]
Toda regra tem exceção.
Eu, por exemplo, não sei nem o nome de minhas bisavós.
Tenho respeito por os M estres que me inspiram pra graduar a vida, meu pai e a mãe, por exemplo.
O resto, de gente profissional, mestre, que me educou, são tantos.
-- Iêê ...
viva meu Mestre, camará!
Corrido -- ... '
porto de lenha tu nunca serás liverpol ... '
Muitos nordestinos foram parar na Amazônia à força ou ludibriados com falsas promessas de que iam ficar ricos, etc., na época que o feitor escravi ava o povo brasileiro com as mentiras da borracha.
Meus avôs, me foi falado, eram do Recife, Ceará, Paraíba e Sergipe.
Mas, não se pode dar muito crédito para as afirmações dos pais e avôs imigrantes, pois, no geral, quando não tinham a grana pra fazer por exemplo, a certidão de quem nasceu, depois de um tempo inventavam qualquer coisa pra registrar, etc., e escapar da multa e «outr US 500» ainda em uso para discriminar contra o próximo.
Portanto, nem idade certa lá no norte a gente, do povo, pode dizer que sabe na real pra responder quantos anos tem. (!).
Minha mãe, que ' já foi ', nasceu na cidade do porto flutuante.
Meu pai, é mais um «joão da silva» parido num lugar qualquer lá no interior da selva que veio de ' canoa & cuia ` pra tentar a sorte na cidade de Manaus.
Eu nasci no ano da revolução cubana e fui criado e educado com muito amor por a minha família.
Cresci ouvindo o pai, ' ladainhando ` esse verbo: '
filhu, esse sistema num presta, eu num istudei, mas tu tem qu ' istuda. '
Gingando a minha educação escolar em Manaus, eu fiz o primário no Grupo Escolar Ribeiro da Cunha e o ginásio no Instituto de Educação do Amazonas.
Concluí o segundo grau na Escola Técnica do Amazonas.
Era um aluno aplicado!
Com uns 14 anos comecei a vadiar na capuera na rua com os cumpade de infância.
Meu vizinho conhecido como «mão-de-paca (o quinho) me chamou pra ver uma» coisa nova " que ele tava aprendendo com uns curumim do bairro vizinho.
Passamos a treinar entre nós mesmos, todo dia, escondido da mãe, depois da escola, na rua, becos, quintal, beira de praia de rio, etc..
Quando ouvíamos falar que tinha um capuera novo na cidade a gente ia lá ver quem era o fulano.
Entre «babas & peladas» que eu dizia para a mamãe que ia jogar com a camaradagem, fui vadiar muitas veses levando o canivete pra «escrever mandinga».
Nunca sangrei ninguém, nem fui furado nessa vadiação.--
Laroiêê!!!
Eu e o cumpade quinho ficamos em seguida sabendo que a cidade tinha duas academias de Capoera.
Passamos a visitar as rodas que faziam e ficou evidente que os mestres-de-capuera disputavam entre si (seus egos!)
e com seus alunos.
Estes não eram nenhuma exceção à regra.
Pois são tantos que ainda disputam a ignorância X arrogância em rodas promovendo um jogo irresponsável que enlameia a reputação da Capoeira.
-- ... dei meu nome agora eu to ...
ai ai ...
num cortejo militar ...
Gingando a vida no quartel, tínhamos na Polícia do Exército um treino de karatê no programa que diziam que serviria para defesa pessoal.
Existia também uma disputa entre os karateca e os capueristas da cidade.
Eu não falava pra ninguém na tropa que era capuerista pois era o único que gingava nessa turma.
Um dia durante o treino me vem o instrutor e diz que queria ' me testar ` pois ouviu falar que eu era um capuera.
Tentei negar mas não deu pé.
A galera vibrava com a roda improvisada no meio do campo aberto de futebol, na selva.
Pra encurtar, eu ginguei, o cara fez posição de karatê, mandei um ' espirra sangue ', o faixa-preta ficou olhando meu movimento como se tivesse hipnotizado, e levou nos lábios.
Dei o golpe sem maldade e esperava que ele fosse responder à altura do que graduava na cintura.
Ele então falou: -- '
karate não bate, só demonstra! '
Bom, eu não sabia disso, não era karateca profissional!
Inclusive, eu boêmio, tinha chegado de uma seresta às 2 da matina e acordado às 5 pra ir para o quartel e tava ainda «meio ligado» e como aprendi a gingar na rua, a gente não pensa em repetir golpe treinado de academia, mas, o instinto é quem dita as regras do jogo, deu no que deu.
-- ... madeira de lenha, na selva cai bem ...
Com a moral pra baixo na frente dos alunos o karateca disse que eu tinha que lutar de novo.
Resultado do jogo, ele levou mais um rabo-de-arraia no lombo e quando eu ia aplicar uma rasteira certeira ' na altura ' que ele subia com um pontapé de karatê, resolvi não abusar da sorte de soldado derrubando o cara e, mandiguero, só marquei o golpe.
Em seguida, dei um Iêê pra finalizar a disputa, e saí fora.
A galera aplaudia e o professor ficou sem poder revidar o golpe pra provar que karatê era bom pra soldado se defender.
A partir dai fiquei sabendo que o karatê não foi mais usado como a disciplina de treino de defesa pessoal da tropa.
-- falou o mestre ' pastinha ':
«quanto mais capoera sabe, melhor para o capuera ... '
Em a época que eu gingava a Capoera na rua, também comecei a treinar vôlei dentro da quadra.
Disputei vários campeonatos estudantis e inclusive com a Seleção Amazonense.
Durante o serviço militar fui convocado para a Seleção Brasileira de Vôlei do Exército.
Foi a primeira vez que viajei num avião e saí de Manaus «para ver o mundo», pois, na Amazônia dos anos 70 ainda éramos um povo meio que ' isolado ' do resto do Brasil.
Treinamos no Rio, na Urca, e disputamos o campeonato nacional em Fortaleza.
Sagramos o time do Exército campeão e fui convocado para a Seleção Brasileira das Forças Armadas.
Voltei para a Manaus pra esperar a passagem pra ir treinar no Rio pra disputar o campeonato mundial na Grécia.
Mas, como era o único soldado no time dos oficiais ...--o
e leitor, o paisana, já adivinhou o que rolou nesse jogo?!
É isso aí, fui discriminado por os da «clas e uperior» na roda do vôlei militar.
Quiçá, esse jogo foi feito à semelhança daquele de os capueras que foram lutar na guerra do Paraguai.
Estes, quiçá estão ainda esperando a devida indeni$ação do serviço prestado gingando de recruta e disputando tiros por a pátria.
Mas, não fiquei «à toa» esperando acontecer nenhum milagre, de feitor!
-- pois, quem sabe e faz a hora, não espera acontecer ...!
Foi porventura inspirado por o som do birimbau e improvisando com acordes no refrão de «arueira» do Geraldo Vandré que acabei me tornando um músico profissional.
Sou um mestre-de-artes e professor de música.
A partir dos 15/16 anos comecei a estudar o violão com um professor particular e em pouco tempo já estava fazendo seresta e festa com o pessoal do grupo de jovem da igrejinha da rua.
Fui também membro fundador do Coral do Teatro Amazonas e fiz um curso de teoria musical e flauta-doce no antigo Conservatório de Manaus com um velho pianista húngaro (ex-aluno de Bella Bartok) que lá vivia nesta época.
Como em Manaus o conservatório não graduava ninguém pra ser profissional, não tínhamos uma orquestra sinfônica, ele falou que eu tinha talento e ouvido e se quisesse graduar pra músico profissional teria que ir para o sudeste e tocar um instrumento de arco.
Mostrou a foto do contrabaixo e do cello, eu achei a do baixo mais interessante, e defini aí o jogo.
O'Ser ` capuerista é um cara mandiguero que improvisa com idéias pra sobreviver.
Pois, pra sair de Manaus, não tendo pai rico, através do conhecimento do meio cultural e político do Teatro Amazonas inventei que tinha que ter um ' Apoio Escolar ` para poder estudar música fora de Manaus.
A razão do ' jogo ' pra ser publicado no Diário Oficial era que eu me tornaria um bolsista do estado que serviria de base para compor a futura Orquestra Sinfônica do Teatro Amazonas.
Responderam à minha ..."
chamada " --?!
-- e lá vou eu, por esse mundão afora ...
A VORTA A o Mundo
Ainda no período da Ditadura Militar ' o vento me soprou ' pra fora de Mana US (uma cidade com " zona franca ") pra gingar meu sonho de ser um músico profissional.
Estudando música em Brasília, fui umas vezes ver o'movimento ` da academia de capoera dos mestres ' gato ` (da BA) e do mestre ' tabosa ' na W4.
Via o pessoal do mestre Adilson no Sesc da W13 passando pra gingar a aula, enquanto eu tinha que dar (*) aula de música pra poder sobreviver.
Passava por despercebido olhando a vadiação na Roda da Torre.
Não queria me envolver com capuerista pois estudando música tinha vergonha de dizer que gingava, particularmente vivendo naquele meio social que preconceituava a cultura do povo.
Estava o Brasil no período final da ditadura militar e após concluir o curso de música na Escola de Música de Brasília não voltei para a Manaus.
Cheguei na rodoviária do Rio com a muchila e instrumentos de trabalho.
Já estabelecido no Rio, correndo atras do jogo, fiz um outro curso de música na UniRio e trabalhei em outra (*) orquestra sinfônica.
Um dia quando malhava na beira-mar conheci um pessoal ' peneirando ` na praia.
Deu saudade da vadiação da rua.
Pedi licença, e fui gingar algumas vezes com eles.
Eram «motoristas de patroa» e porteiros, outros assalariados, a maioria de São Cristóvão que trabalhava no Leblon e nas horas vagas fazia a ' terapia ' gingando na praia.
Em o Rio, em pouco tempo de ' ralação ` eu já era considerado um músico e compositor muito talentoso, diziam uns e outros, do meio artístico do clássico, jazz e popular.
Tocava minhas composições em shows de bares e fiz uns programas de radio.
Lembro-me de um comentário do Egberto Gismonti a uns amigos ' do meio ' dizendo que como eu não tinha o tal de «pedigree» -- (?!)
ou seja, não era «filho de bacana», tinha que sair braza pra poder ser reconhecido.
E lá fui eu de novo mundo afora, improvisando agora numa ladainha do seo Tom Jobim que diz que: '
a entrada do artista brasileiro é a porta de saída do galeão '!
-- (* Desde que saí de Manaus ministrei aulas de violão e flauta-doce e toquei na noite pra sobreviver, pois o apoio escolar que recebia deu pra pagar a passagem aérea, o resto eu tinha que (mestre!)
improvisar gingando profissionalmente por conta própria pra poder viver.) -- (*
Trabalhei durante uns 20 anos com o contrabaixo nas Orquestra da E.M.B. e do Teatro Nacional de Brasília (agora Cláudio Santoro);
na Orquestra Jovem do Estado do RJ;
e na Opera House Orchestra e outras orquestras em Sydney, na Austrália.) --
Iêê ... vamU s ' imbora, camará!
Tentei em vão conseguir um navio cargueiro para chegar à Europa sem ter que desembolsar toda a grana que tinha.
Porem, arranjei grana suficiente pra pagar uma passagem de ida no avião.
Vadiando com a muchila de uns 40 kilos nas costas, contrabaixo, baixo, violão, e outros «500» depois de vadiar em Madri fui de trem pra Paris.
Em a França, trocando idéias musicais numa roda de conhecidos, eu tava querendo falar de Mozart e outros «trocentos» de música clássica, quando me pergunta o europeu:
-- Jerônimo, você toca o atabaque?
-- Fiquei de cara!! (?!)
Como eu vinha do Brasil tinham interesse na minha cultura de raiz.
Imagina que até o fato de ter nascido no ' norte ' me fazia agora sentir orgulhoso de ser brasileiro, pois antes, me preconceituavam até de «índio» em Brasília.
Em a Europa eu então me senti orgulhoso de ser um capuera e pela primeira vez ginguei passando um chapéu na rua, o que nunca me passaria por a mente de fazer no Brasil pois na época artista que fazia arte na rua era no geral discriminado.
Depois de 1 ano na França fui viver na Alemanha.
Em Munique, entre outros idiomas que estudei antes de sair do Brasil fui estudar o deustsch na escola.
Depois, comecei a vadiar num parque da cidade com o'miti ', um capuera de salvador que tava chegando à Europa.
Lá por tantas ele se deu conta de que eu já tinha o fundamento do jogo, pois, me conheceu como músico, eu não falava que era isso ou aquilo capoera.
Eu o ajudei a montar um grupo de alunos nos treinos que fazíamos.
Passei 2 anos vadiando profissionalmente como artista em diversas situações na Alemanha e visitando outros arredores da Europa.
Então, me separei da esposa e o'vento cigano ' me soprou para a Austrália.
Chegando em Sydney, idealizei evoluir um Quilombo baseado nos ideais revolucionários de Palmares, visando a educação e a graduação da família.
Pedi ' licença ' ao Povo Aborígine pra introduzir o Ritual da Capoera na praia de Bondi {bond-ai e, em seguida, toco o didjeridu, pra certificar o meu respeito, já que estando na terra dos outros fui fazendo roda e workshop com a cultura do Berimbau para o povo australiano.
O povo australiano não tinha idéia do que era Capoera.
Eu comecei semeando ' mandinga ' do marco zero.
A partir de 1987 e fiquei durante 1 ano dando aula e fazendo roda só com os alunos que iniciaram a gingar com mim.
A partir de 1990, outros capoeras começaram a se estabilizar na Austrália e a promover aulas e eventos.
Atualmente, a Capoera na Austrália é uma atividade conhecida e praticada em todas as capitais do país e outras partes do continente.
A Roda pioneira da Austrália que eu iniciei em janeiro de 1988 em Bondi Beach, na frente do Bondi Pavilion Community Centre, continua servindo a comunidade.
É nesse centro cultural que eu ministrei minhas primeiras aulas.
E a maioria dos capueras que agora vivem ou passam em Sydney já foram gingar com nós na Roda da JC ' S -- Mestre Jeronimo Capoeira Angola School.
Em 1993, comecei a gingar as classes pioneiras de Capoera para as crianças australianas.
Minha filha, Marina, que em agosto de 1990 me iluminou a vida com sua chegada, foi o motivo da inspiração para este jogo.--
Saravá, Natureza Mãe!
Durante estes anos gingando profissionalmente no continente «down under» escrevi 2 livros, produzi vários CDs, Vídeo, e eventos com o produto cultural da Capuera que presto serviços para a comunidade.
Profissionalmente falando, ainda não graduei um professor da JC ' S pra prestar serviços com o título de ' mestre-de-capuera ` apesar de ter alunos aplicados.
Pois, se essa profissão é uma coisa ainda sem definição social resolvida no Brasil, imagina ' caetano ', imagina ... '
chico ` gingando nesse " papo seo pra lá de marakesch ..." --
gingando de ' mestre ' no sistema social da Austrália, que é o oposto do Brasil, imagina, e leitor, se queremos lá esse jogo desorganizado.-- (?!).
Imagina ...
que pra graduar capoera com mim ' seja lá aonde 4' (for) tem que gingar no ' Regulamento da JC ' S '.
Aluno da JC ' S tem que estar apto para gingar e graduar profissionalmente com pelo menos 2 idiomas, o materno e o idioma da ' língua capuera '.
Mas, sugiro, e dou exemplo no jogo do ' faz o que digo pois é o que faço ', que queiram se certificar com no mínimo um jogo de (4 + 1) uns 5 idiomas pra provar que virou mestre mesmo, NA Real!
Em 1997 inventei a «Rod @ Virtual» -- ou, Capoeira Internet.
O fato de eu me sentir meio que ' isolado ` do resto do mundo vivendo na Austrália me inspirou para o jogo.
Muita gente na época não entendeu o sentido do ' movimento ` e «muitos» (!)
até criticavam o meu trabalho e diziam que «essa rod @ do JC» não vai longe.
Bom, inveja e falta de talento, acrescentado com a ignorância que ginga no desrespeito ao próximo, isso não é uma novidade, existe em todas as profissões e outras funções sociais.
Dizem também os ' mais sábios ' que:
«árvore que tem fruta boa tem muito morcego à volta ...».
Pois, a roda de mestre JC, tem dende, dá fruto na real!
A Roda Virtual que idealizei continua servindo o propósito da comunicação com a mídia gingando pra acrescentar mais educação para a gente evoluir o jogo e os capueras.
E, de fato, minha idéia original serve agora também de inspiração pra muitas variações de Rod @ que estão gingando no Brasil e no mundo afora.
A minha pagina original ainda está na internet.
Agora até parece uma «peça de museu virtual» --o que conscientemente eu preservo na forma original do que eu desenhei usando os programas de web dos anos 90.
Serve para que as gerações do presente e futuro vejam a evolução do jogo, e a diferença do produto profissional das rodas virtuais do ano 2000.
-- galo cantou, chegou a hora ...
me dá meu chapéu, já vou m ' imbora ...
Fazem mais de 20 anos que eu imigrei pra outras praias, continentes.
Gosto de improvisar na vida e como me apelidam de ' mestre ', pra me certificar, eu me ofereço minhas «férias» prolongadas, com o intuito de também fazer uma experiência que todo imigrante sonha realizar, ou seja, tentar viver no seu país de origem depois de ficar tanto tempo «surfando» em outras praias.
Estou gingando no Brasil a partir de meados de 2006, e, já inclui mais experiências neste período, como por ex., o produto cultural de mais uma produção fonográfica em selo independente num CD de MPB com minhas composições originais.
Em seguida, fiz também uma ' chamada ' ao Programa de Difusão e Intercâmbio Cultural da Secretaria de Incentivo e Fomento à Cultura do Ministério da Cultura do Brasil e graduei nesse jogo.
Profissionalmente fui selecionado para divulgar a cultura brasileira, a Capoera, na Europa.
Portanto, autorizo que seja publicado o que aqui relato da minha história, pensamentos de vida, depoimento, etc., em meios de comunicação, livros, etc., e por outros, escritores, etc., e outros que queiram adicionar conteúdo para o que promovem do que gingam para inspirar o povo para se educar, bem viver, e graduar na vida sendo um vencedor.
Peço com respeito, que me sejam respeitados todos os direitos do autor, etc., na forma de lei, profissionalmente, etc., e que qualquer modificação feita no texto, tradução, etc., seja realizadas a partir da minha autorização.
-- adeus, adeus boa viagem ...
Espero que tenham tido uma boa leitura nessa roda.
Saravá!
Mandigueramente,
Mestre Jeronimo Capoeira -- ' Iconoclasta JC '
Jerônimo Santos da Silva Cidadão Brasileiro/Australian Citizen
Pãe. Capuerista.
Músico. Escritor.
Compositor. Produtor Fonográfico
Número de frases: 203
http://www.myspace.com/mestrejeronimo A história começa assim:
um grupo de pessoas acostumadas a fazer teatro juntas percebe uma linha de trabalho em comum.
A partir daí nasce a vontade de seguir um rumo coletivo, voltado para o resgate da dramaturgia brasileira.
O primeiro passo é a encenação de três peças do Plínio Marcos.
O grupo segue fazendo o seu trabalho até que surge a idéia de montar dois espetáculos do Nelson Rodrigues, Boca de ouro e O Beijo no asfalto.
Pra isso, a busca por um espaço alternativo, um desejo antigo de eles, cresce ainda mais.
A solução vem com a descoberta de um depósito, ideal para os propósitos do grupo.
De aí para a escolha do nome Depósito de Teatro foi um pulo.
Núcleo de Formação de Atores
De lá pra cá são quase dez anos de um teatro engajado, que entre outras coisas gerou uma escola dentro da sede do grupo.
«Ela foi criada com o intuito de manter o Depósito;
os alunos pagavam uma mensalidade e com aquela mensalidade se pagava o aluguel.
Só que com o tempo isso foi se tornando muito mais vital do que simplesmente pagar o aluguel», conta a atriz Maria Falkembach, uma das fundadoras do grupo.
«A escola de teatro fez com que a gente sistematizasse o nosso conhecimento e tivesse que determinar, em função disso, o perfil do ator do Depósito de Teatro».
Chamada de Núcleo de Formação de Atores, a escola tem objetivos bem definidos sobre a formação dos alunos.
«As pessoas que fazem teatro no Depósito saem com uma marca, um tipo de atuação que tem relação com essa idéia de identidade brasileira».
E à medida que mais turmas iam se formando, o grupo via que a escola era vital, pois aqueles alunos davam vida para o espaço, numa reciclagem de pessoas e idéias.
Além do Núcleo de Formação de Atores, o Depósito conta também com núcleos de Pesquisa Cênica, Dança e Circo.
Hoje eles funcionam basicamente por causa das montagens do grupo, mas a idéia é torná-los mais profissionais daqui para a frente.
Troca de experiências
Em 2005, o Depósito participou do II Encontro Nacional da Redemoinho -- Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral, realizado no Galpão Cine Horto, espaço do grupo Galpão, em Belo Horizonte.
A experiência foi muito importante para os gaúchos.
«Percebemos que tem muita gente na mesma situação que nós, um grupo teatral que faz pesquisa e não tem a visibilidade que o marketing esperaria, porque não temos ator global e coisas do tipo».
E é em função de questões como essa que a Redemoinho vem se desenvolvendo, com a discussão de políticas públicas e do fazer teatral.
«Uma forma esperada é através de leis de governo que criem fundos e pensem nesses pontos que fazem formação e pesquisa, que fazem a arte de uma outra maneira que não a do mercado».
Planos
E essa outra maneira passa necessariamente por um teatro social.
Prova disso é a implantação de um Ponto de Cultura na Vila Santa Rosa, no bairro Rubem Berta, zona norte de Porto Alegre, financiado por o MinC através do projeto Cultura Viva.
O objetivo é retomar o trabalho desenvolvido por o Resgatarte, iniciativa extinta por falta de verbas.
«A idéia é construir um espaço e criar um centro cultural lá dentro, que seja administrado por o Resgatarte.
É um grupo só de negros, que tem um trabalho muito interessante de valorização da negritude».
O projeto tem oficinas de teatro e outras atividades que possam mobilizar a comunidade a se envolver com figurino, cenário, produção e divulgação, pra dar autonomia pra que os próprios moradores da Vila Santa Rosa possam continuar o trabalho depois.
«É um projeto de dois anos e meio que vai nos consumir bastante, mas é um verdadeiro sonho, porque achamos que é preciso estar junto da comunidade».
Pra aumentar a realização do Depósito, só mesmo atingir o reconhecimento em outros lugares do Brasil.
«Este ano a nossa grande mobilização é para sair de Porto Alegre», revela a Maíra.
Número de frases: 35
Pra quem vive sempre em busca de um teatro realmente brasileiro, nada mais natural do que abrir caminhos por o país afora.
«OMB NãO!" Ato em São Paulo Pró-REFORMA
1º de Maio / 2006 (9h)
Praça De a Sé
Cheira a podre.
A maioria dos escritórios da famigerada Ordem dos Músicos do Brasil estão fedendo, mofados, sujos, escondendo atrás de suas escadas as sacolas com o lixo de décadas de submissão a um complô que a tomou para si desde os idos 60's do século anterior.
De o milênio anterior.
É velha, radical, obsoleta, autoritária ...
e enruste no seu dossiê milhares de problemas causados exatamente aos que se dispõe a representar:
os músicos do Brasil.
Convenhamos, a existência dessa entidade nos moldes como vem funcionando até aqui é um insulto ao atual estado da história brasileira, uma deformidade endêmica a nos tornar reféns de uma situação que há muito temos desejado mudar.
Por quanto tempo mais ainda iremos conviver com isso aqui no país?
Não já passa da hora de darmos um basta definitivo a esta agressão dos nossos direitos, estes inclusive respaldados por a nossa constituição?
Semana após semana abarrotam nossa caixa de correspondência os apelos de colegas dos mais diversos estados em busca de apoio contra a violência estatutária da ordem, empregada por desmandos e ações repudiáveis, bastando para tanto uma manifestação pública contrária aos seus atuais dirigentes ou defensores, numa clara referência ao uso de métodos ultrapassados, obtusos, antiquados, impensáveis nos dias de hoje, herdados dos tempos do regime militar, quando éramos obrigados a nos calar e silenciar.
Mas agora não.
Chega!
Não dá para permitirmos mais os abusos dessa instituição enferma, caduca, cheia dessa rabugice que se sabe indesejável por considerável parcela de seus filiados, muitos desejosos senão de sua extinção, ao menos de sua substituição por um novo órgão com diretrizes mais progressistas.
Que não se tolere a partir daqui a intransigência e os malefícios trazidos por a OMB à classe que diz defender, numa cartada mentirosa aplicada para surrupiar seus sócios através das imposições medievais de sua cartilha.
Não! Não cabe mais entre nós esta anomalia tal qual se apresenta no momento:
impostora, extorsiva, corrupta, dilapidadora, soberba ...
e indesejada.
Basta!
Não merecemos isso.
Precisamos nos mobilizar para fazer valer nosso sentimento de indignação.
Vamos nos articular juntos enfim, para então fazermos uma discussão prática, envolvente, criteriosa, que após elucidar a postura equivocada da OMB perante a sociedade, finalmente lhe dê o golpe de misericórdia.
Já qualquer um pode ver como é berrante a agressão que vimos sofrendo, justo assim, dessa forma desoladora que vai de encontro aos mais básicos ideais de liberdade que a maior parte dos músicos brasileiros dizem defender.
Pois foi por isso que resolvi te escrever hoje, para saber de ti se examinados os seus princípios e condições, além dos motivos e razões (alguns citados aqui), poderemos nos dar as mãos para investirmos nessa luta.
Número de frases: 27
Foi bastante concorrido o lançamento do livro «ABD 30 Anos -- Mais que uma Entidade, um Estado de Espírito», ocorrido no dia 14 de junho no estande da ABD Goiás no Empório Sebrae-Fica de Cinema e Vídeo, durante o 9º Fica.
Estiverem presentes ao lançamento abedistas históricos como João Batista de Andrade, Silvio Da-Rin e Joel Pizzini.
O editor da Revista de Cinema, Hermes Leal, presidente do Instituto Cinema em Transe, responsável por a edição do livro organizado por Maria do Rosário Caetano, e o documentarista Beto Leão, presidente da ABD-GO e diretor de Comunicação do CNC, comandaram a noite de autógrafos.
Há 34 anos, no emblemático dia 11 de setembro de 1973, nascia na Jornada Nordestina de Curta-Metragem, a Associação Brasileira de Documentaristas.
Enquanto no Chile o então presidente Salvador Allende era deposto por os militares, uma parte significativa de intelectuais e artistas brasileiros realizava em Salvador, Bahia, a reunião de fundação da primeira entidade associativa de representatividade nacional do cinema brasileiro.
A ABD passou por a ditadura militar brasileira, por a quase extinção no início dos anos 1990, e hoje se tornou uma marca onde estão cineastas da mais nova geração do cinema brasileiro, os que fazem os primeiros curtas e longas-metragens e depois viram grandes diretores, dando início a uma nova geração que começa a surgir.
Em o regime militar, quando foi fundada, a entidade fez-se trincheira dos que defendiam a democratização do país e queriam documentar aspectos da realidade política e social brasileira.
A maior conquista desta geração foi a Lei do Curta (exibição de um curta brasileiro antes de cada longa estrangeiro), aprovada em 1979.
Em esse período de quase duas décadas e meia, a entidade formulou diversas políticas que se tornaram vitais para o exercício da atividade cinematográfica e audiovisual no país.
Em 2003, a entidade comemorou trinta anos de uma longa história ligada ao cinema brasileiro, de forma madura e formosa como uma balzaquiana, mexendo com a memória e com o desejo de todos, nas palavras de seu então presidente nacional, Leopoldo Nunes.
Para comemorar a importante data, os abedistas reunidos na 30ª Jornada de Cinema da Bahia decidiram criar o livro «ABD 30 Anos -- Mais que uma Entidade, um Estado de Espírito».
A mineira Maria do Rosário Caetano é uma pesquisadora importante a serviço do cinema latino-americano e, de entre eles, claro, o cinema brasileiro.
É autora de trabalhos notáveis como Cinema Latino-Americano -- Entrevistas e Filmes e Alguma Solidão e Muitas Histórias:
A Trajetória de um Cineasta Brasileiro, sobre João Batista de Andrade, coordenador do Fica.
Número de frases: 14
Ação Negra por um novo mundo possível -- I
É já um tempo demasiado longo este em que as diferenças são submetidas à opressão, à negação, à exclusão, à discriminação, à hipocrisia, ao descaso.
Uma condição absolutamente injusta.
Iníqua.
É hora, já, de lutarmos todos por a superação deste tempo.
É urgente a luta de homens e mulheres que emancipe de fato as diferenças, que instaure a igualdade de direitos, que inaugure as necessárias relações solidárias, fundamentos da construção de um mundo novo possível.
A sociedade que dá fim à exploração do trabalho e põe os frutos da produção coletiva à mesa de todos os produtores só pode ser finalmente conquistada com a destruição do capitalismo.
E esta condição requer o reconhecimento, hoje, da igualdade de direitos entre todos os seres humanos.
É a luta por a conquista da igualdade de direitos e oportunidades que informa de maneira consistente e consciente o combate contra a sociedade de classes imposta por a dominação capitalista.
Em nosso país, o modo de produção escravista realizado por mais de três séculos deitou fundas as raízes da iniqüidade em toda as relações sociais formadoras da nacionalidade.
Elas ainda hoje permeiam o conjunto da vida social brasileira como se revela no retrato trágico da exclusão por a discriminação racial.
A exploração do trabalho de milhões de seres humanos aprisionados em África [
chamados escravos por os traficantes e proprietários, de negros por a elite colonial e européia, de gentios por a ideologia dominante que lhes permitia a escravização do semelhante e a ele outorgava a condição de mercadoria ou mão-de-obra]
ergueu fortunas, riquezas, países, impérios, na América e na Europa.
Aqui foi concedida alforria aos senhores, desobrigados da manutenção da posse e da indenização devida a trabalhadores e a todas as gerações escravizadas da etnia vilipendiada.
A farsa colonialista da Abolição aprisionou nas faldas e sopés de morros, nas matas, nos grotões e beiras de estrada a multidão expulsa sem meios das lavouras e minas.
Sem mais ferros, chicotes e senzala, agora à mercê do modo de exploração do trabalho no processo de industrialização ainda incipiente.
A o imigrante branco, o império deu a terra.
Produzida a subsistência, a renda restante começaria a alavancar aqui o processo mercantil necessário à produção fabril inglesa de matriz ou filial ...
[ou francesa, ou alemã, ou belga ...]
O novo modo de reproduzir a existência submeteu de forma cruel homens e mulheres africanos ou afrodescendentes, crianças, jovens ou velhos.
Nenhuma reparação, sem qualquer indenização.
Sem chão, sem casa, sem posto de trabalho [nem eira ou beira].
A modernidade só vai encontrar o Brasil tardiamente, já no limiar do século 20.
O novo milênio, inaugurado por o século 21, é um tempo de necessárias e urgentes definições.
...
A hora exige radical defesa das liberdades públicas, do respeito à diferença e da igualdade de direitos.
Em a teoria e na ação, no Brasil e no Mundo.
É por esta razão o nosso compromisso com o combate ao racismo, por as reparações com ocupação democrática do território, por a extinção da sociedade de classes.
...
A globalização constitui-se numa estratégia de acumulação que, operada a partir destes governos «nacionais», impôs a eliminação de todos os meios de proteção do trabalho e do desenvolvimento das economias nacionais.
Produziu a transformação dos valores culturais, ideológicos e econômicos a partir destes oligopólios.
A conseqüência é a dilapidação do mercado nacional e desestruturação do sistema produtivo de cada país, a aniquilação das culturas locais, a sonegação dos direitos, corroendo progressivamente as bases de um conceito de nação.
...
A estrutura política reflete este caráter antidemocrático das elites locais.
Ainda que formalmente republicana, federativa e democrática, a organização política brasileira é extremamente patrimonialista, centralizada e autoritária.
Somente a unidade popular poderá quebrar esta história.
...
O modo de proceder do indivíduo antecede à existência da coletividade, eis que a coletividade resulta de indivíduos que se orientam por os mesmos objetivos, idéias e práticas.
Nosso pressuposto é conquistar o regramento das ações do indivíduo para que este faça crescer a coletividade e não o individualismo, a arrogância, a prepotência, a intolerância, o centralismo e o personalismo.
O respeito ao conhecimento e à produção coletivas significam que o projeto não pertence a um indivíduo, mas sim à coletividade.
É fundamental a constituição de referências permanentes que articulem as lutas populares, partidárias, institucionais e culturais, que integrem a militância social e militâncias partidárias.
Nossa ação nos espaços que ocupamos deve realizar a conversão das teses para a vida, superando os limites burocráticos, implementando políticas que façam, de fato, avançarmos no nosso projeto, emancipando os trabalhadores, superando a discriminação, fortalecendo os movimentos, combinando tese e prática, discurso e fazer cotidiano e ação institucional.
Assim, nós, cada um, constituiremos os parâmetros que balizem ações permanentes, que prefigurem no presente a sociedade nova do mundo que queremos revolucionado por as idéias de reparação,
fim da iniqüidade, igualdade de oportunidade e direitos ...
Número de frases: 45
(trechos do artigo Ação negra por um novo mundo possível) Sarcástica e auto-referencial, a cantora e compositora Ângela Ro Ro confessava, em 1980, em seu disco Só nos Resta Viver:
«Meu mal é a birita».
Para a felicidade dos fãs da cantora, a voz de Ângela não foi diluída junto com o gelo num copo de uísque, o que pode ser conferido em Compasso, seu primeiro CD de inéditas em seis anos.
O disco, lançado por a Indie Records, acompanha o novo ritmo de vida da artista que está 50 quilos mais magra, sóbria -- há sete anos --, sem fumar e cheia de idéias e entusiasmo.
Tanto que em setembro gravou o primeiro DVD de sua carreira em espetáculo realizado no Circo Voador, no Rio de Janeiro, com participação de Luiz Melodia, Alcione e Frejat.
Ro Ro assina a produção de Compasso, uma prova de que a fase autodestrutiva de drogas e escândalos ficou para trás.
Para alegria dos fãs, no entanto, o senso de humor e a boa música de Ro Ro continuam em forma.
Em a canção que dá título ao trabalho, ela brinca com o fato de ter abandonado a bebida e estar tomando somente água para se lubrificar e mirando a mente em algo producente e deixando o «ar me respirar».
Os versos da música são marcados por os acordes da guitarra de Zepa e da bateria de Rafael Barata.
A composição é de Ro Ro em parceria com Ricardo Mac Cord, o tecladista que acompanha a cantora há mais de 15 anos e que se tornou seu parceiro na maioria das 13 canções, todas assinadas por ela.
Também levam a assinatura de Ro Ro e Mac Cord o rock Contagem Regressiva, o reggae (isso mesmo, Ro Ro gravou seu primeiro reggae) Dá Pé!,
os sambas-canção Sem Adeus e Loucura Maior, o bolero Arranca Essa Flor e o blues Nossos Enganos.
Outro velho conhecido, o pianista, arranjador e produtor Antônio Adolfo, é o parceiro na belíssima balada Chance de Amar, letra da cantora.
«Todo tormento tem um fim» -- lembra, oportunamente, a balada.
A dobradinha remete aos tempos de Se Você Voltar, blues no qual os dois dividiram os créditos no disco Simples Carinho, de 1983.
Adolfo é figura fundamental na obra fonográfica de Ro Ro, tendo produzido discos como Escândalo (1981), A Vida É Mesmo Assim (1984) e Eu Desatino (1985).
Riqueza rítmica
O disco tem também a compositora Ana Terra, com quem Ro Ro compôs o sucesso Amor, Meu Grande Amor, registrado em seu CD de estréia (Angela Ro Ro, de 1979) e ainda hoje presença constante nas rádios.
Em Compasso, Ana Terra comparece com a letra romântica da balada pop Paixão, um melô no melhor estilo do disco Só nos Resta Viver.
Sozinha, Angela Ro Ro compôs Menti Pra Você, Bater Não Dói!,
e Não Adianta!,
na qual mistura sonoridades nordestinas, deixando a música com cara de baião.
A riqueza de ritmos prova que a cantora não tem medo de se arriscar.
E na entrevista distribuída em CD por a Indie -- por conta dos ensaios para a gravação do DVD que estavam tomando todo o tempo da artista --, Ro Ro avalia o seu trabalho:
a fartura de ritmos foi intencional.
«Estou ficando espertinha», brinca, admitindo:
«De aí pra ficar normal, é um pulo».
Ela chama a atenção para o romantismo de «lobo uivando na estepe» da faixa Bater Não Dói!,
em que diz chorar a morte do filho que não tem.
Ou do blues " Nossos Enganos.
«Estou mais romântica do que nunca.
Até nas faixas não aparentemente românticas, estou romântica."
Para ela, Chance de Amor é a melhor harmonia do disco.
«Adolfo é um sábio.
Ele está no meio da plenitude», elogia.
«O meu crescimento como profissional está impresso neste disco.
Fiquei pilhada ao me multiplicar em cantora, compositora e produtora, mas valeu», resume.
Ro diz se sentir bem adolescente, a ponto de gravar um rock selvagem com direito a erro de concordância.
«Muita coisa primária, como adolescente fazendo som na garagem.
É imaturo, cru, espontâneo."
E completa:
«Tenho uma alma de jazz, uma saudade de samba, mas o meu estado de espírito é rock ' n ' roll».
As novas criações, garante a artista, são apenas um «punhado» do que ela andou fazendo ao longo desses anos sem gravar.
O disco, segundo ela, tem músicas de 2002 pra cá.
E algumas que foram compostas enquanto ela assinava o contrato com a gravadora.
«Fizemos uma primeira seleção de 17 faixas e consegui chegar a 13 com muito esforço.
Isso me dá muito orgulho porque são 13 músicas de qualidade, não teve aquela história de precisar colocar uma regravação ou uma mais fraquinha só pra encher, sabe como é?»,
gaba-se, afirmando ter pelo menos outras duas dúzias de canções «feitinhas», prontas pra gravar.
Que venham novos discos.
Disco:
pause Compasso pause
Artista: Angela Ro pause
Gravadora: Indie Records pause
Preço médio:
Número de frases: 54
30 reais A energia do casal Sanada é sentida logo no primeiro contato.
Vera é falante, esbanja simpatia e, como charme adicional, carrega um sotaque sulista.
Yuri é um pouco mais calado, mas nem por isso menos alegre e decidido.
Juntos, eles trouxeram ao Japão, por a segundo ano, o Nipo Cine Brasil -- Mostra ABN-Amro de Cinema Brasileiro.
A bagagem, desta vez, veio recheada com algo especial:
o primeiro corte, ou seja a primeira versão, do documentário Mundo Nikkei, filmado durante o ano passado no Brasil e no Japão.
O filme trata da história da migração japonesa para o Brasil, incluindo o movimento dekassegui e é uma das várias obras que, pegando carona na comemoração dos 100 anos do desembarque da primeira leva de japoneses no Brasil, pretende analisar o fenômeno e suas conseqüências.
A equipe, na grande maioria das vezes resumida ao casal, viajou durante vários meses por o arquipélago colhendo histórias para o filme.
«Filmávamos nos intervalos entre as apresentações do festival», relembra Vera.
Realmente, a dupla esquadrinhou o território japonês, de Hokkaido a Okinawa.
Além disso, coletaram imagens no Brasil num total de 7.000 minutos de filmagens.
«As viagens foram complicadas», conta a produtora, «mas o mais difícil foi o processo de edição», diz.
De fato, vê-se claramente que o casal não poupou esforços em conseguir um bom material para o seu filme.
Eles mergulharam para revelar uma bela formação rochosa que pode ser a primeira ocupação humana do arquipélago japonês, descobriram uma família que se descobriu herdeira de um patrimônio histórico do povo Uchinanchu, etnia da província de Okinawa e mostraram histórias de sucesso de brasileiros conhecidos e desconhecidos no Japão.
«A mídia só mostra os problemas», conta Yuri, que, como Vera, acredita que o documentário pode aproximar brasileiros e japoneses.
Também é a opinião de um espectador japonês que assistiu a sessão de Mundo Nikkei no sábado, dia 30, em Toyohashi.
«Vivo numa cidade que tem mais de 100,000 habitantes, é a segunda maior concentração de brasileiros no Japão e há muitos problemas», explica ele que acha que o filme pode ser um importante elo para que brasileiros e japoneses possam conviver em harmonia e com alegria.
Ainda inacabado, o filme veio para o Japão exatamente para que os espectadores pudessem contribuir com sugestões.
Em a platéia de Toyohashi, uma senhora sugeriu mudanças numa cena e o mesmo tem ocorrido em outras exibições.
Aliás, a coluna também contribui:
apesar de ser boa a intenção de abarcar o máximo de temas e estórias na obra, uma enxugada no filme seria excelente porque abriria espaço para que os temas fossem mais aprofundados.
Um exemplo disso está na seqüência em que um jornalista visita um danchi para conferir uma denúncia de que o lixo estava sendo abandonado por brasileiros.
A idéia, segundo o diretor, era partir de um problema para mostrar como os próprios brasileiros estão procurando agir positivamente na busca de soluções.
No entanto, a estória acabou sendo abordada de forma apressada, de modo que passa despercebida a intenção do realizador.
Além disso, apesar de como cineasta entender a necessidade de dar visibilidade aos patrocinadores na obra, em alguns momentos a publicidade é agressiva demais o que pode, inclusive, soar mal junto ao espectador.
Aparadas algumas arestas, Mundo Nikkei pode se tornar um importante veículo num momento em que brasileiros e japoneses andam se estranhando.
O filme, que tem estréia prevista para o fim deste ano no Brasil, voltará ao Japão em 2008, quando poderemos conferi-lo em alta definição e, certamente, bastante alterado após os debates e a interação com público aqui do Japão.
Publicada originalmente em Alternativa
Assista entrevista em vídeo com os produtores do filme.
Número de frases: 29
... não caia na conversa desse pessoal de Natal
Você é jornalista, músico ou produtor cultural e sempre quis conhecer Fortaleza, mas nunca teve oportunidade.
Sugiro então que venha para Feira da Música (www.feiramusica.com.br) agora no início do mês de agosto, 9 a 12, e aproveite para conhecer a cidade.
Mas não faça como um colunista de uma revista obscura que circula em Natal que veio passear em Fortaleza conheceu as tranqueiras e escreveu o seguinte sobre a cidade:
«Vou ao estádio Castelão e assisto à monótona pelada Ceará X Ferroviário.
Placar: 0 x 0. Depois dou uma volta por a orla marítima e encontro um show de humor em cada barraca de praia.
Em uma volta despretensiosa por a praia de Iracema, descubro que também no item turismo sexual nós perdemos feio para Fortaleza.
São dezenas e dezenas de meretrizes acompanhadas de toda aquela escória européia.
São inúmeros bares, inferninhos, boates e restaurantes para lá de suspeitos.
Ponta Negra fica no chinelo.
Paro numa banca de revistas e compro o «Diário do Nordeste», um dos principais periódicos do lugar.
Muito pior do que o Diário de Natal e a Tribuna do Norte.
Aliás, outra coisa que eu não perdôo é o que os cearenses fizeram com o forró.
Aquilo devia ser considerado crime inafiançável, um atentado contra o pudor cultural do país."
E conclui:
«Fortaleza, a capital de Mossoró» *.
Pois bem, quando estiver em Fortaleza você não precisa ir ao Castelão só para assistir pelada, não precisa ir à orla só para assistir humorista, não precisa ir à Praia de Iracema só para freqüentar inferninhos, não precisa ir a banca só para comprar o Diário do Nordeste e não precisa vir à Feira da Música só para ouvir forró eletrônico.
Pois na Feira da Música até tem forró, mas não tem só isso, tem o melhor da produção de música independente feita atualmente no país.
De quebra você ainda vai assistir shows de artistas de Cabo Verde, e da França, e vai conversar com gente bacana de todo o mundo.
Em Fortaleza até tem peladas, humoristas, inferninhos, Diário do Nordeste e forró, mas não vá fazer como esse colunista de Natal que tem um péssimo gosto e consegue freqüentar todos esses lugares ao mesmo tempo numa só viagem.
Peça umas dicas boas que nós damos.
Assim você conhecerá Fortaleza, a capital do Ceará e não de Mossoró.
* para ler o artigo completo do colunista de Natal acessar o seguinte link:
Número de frases: 23
http://www.revistafoco-rn.com/outraspalavras.htm Eu estava em Manaus, lá por volta de 1997, quando ouvi Chimbinha pela primeira vez.
As rádios locais só tocavam brega paraense.
Logo a sonoridade característica da guitarra, em todas as músicas, chamou a minha atenção.
Era um dedilhado barroco, cheio de floreios, mas muito claro e seguro.
Anotei o nome de alguns dos artistas, para procurar os CDs.
Em aquele tempo, ainda havia muitas lojas de discos, que vendiam os produtos oficiais, com encarte e ficha técnica.
Percebi, em todos eles, o crédito para o mesmo guitarrista:
Chimbinha. Como estava fazendo a pesquisa para o projeto Música do Brasil, e minha próxima escala seria Belém, resolvi procurar o cara.
Foi fácil:
todo mundo nos estúdios paraenses sabia onde encontrá-lo.
Chimbinha me deu de presente seu CD solo, chamado Guitarras que Cantam, hoje uma raridade que deveria ser relançada para os fãs conhecerem suas origens.
Era um disco de guitarrada, claramente herdeiro das invenções dos mestres Vieira e Aldo Sena, que foram muito populares em toda a Amazônia no início dos anos 80, antes da febre da lambada.
Sou fã de guitarrada -- então foi fácil ficar fã do Chimbinha.
As músicas Dançando Calypso e Em a Levada do Brega, que abrem o Guitarras que Cantam, estão entre as minhas favoritas de todos os tempos.
Elas aparecem tocadas ao vivo num dos episódios do Música do Brasil que passou na MTV e na TVE.
Fiquei fascinado com a movimentação musical em Belém, ainda totalmente desconhecida no sul do país.
Escrevi o seguinte texto para o livro de fotografias do " Música do Brasil:
«O brega, se ninguém ainda percebeu, é rock.
Digo mais:
é o mais amado e duradouro estilo do rock brasileiro.
Tudo começou com a jovem guarda, e sua adaptação do rock internacional para o gosto popular nacional.
Quando Roberto Carlos colocou em segundo plano as guitarras elétricas e se transformou em cantor romântico acompanhado por orquestras, a fórmula inventada por a jovem guarda se descentralizou, primeiro passando por o Goiás de Amado Batista, depois por o Pernambuco de Reginaldo Rossi, até chegar ao Pará do ex-governador Carlos Santos, também cantor brega, autor de dezenas de discos.
Hoje Belém é a capital do novo brega.
Centenas de CDs são lançados anualmente, a princípio para um consumo regional, mas que começa a atingir também o público nordestino.
Os músicos locais já nem chamam o que fazem de brega, dizem que é «calipso», música mais» sofisticada».
O marco do nascimento do calipso -- não tem nada a ver com a música de Trinidad e Tobago -- foi o sucesso Ator Principal, lançado por Roberto Villar em 1996.
De lá pra cá, os discos do novo brega de Belém são produzidos com maior cuidado, as guitarras são dobradas, e o ritmo se acelerou.
Algumas pessoas se destacam no meio da profusão amazônica de novas estrelas.
Chimbinha, com 23 anos, tocou guitarra em mais de 200 CDs, só em 1997.
É uma das maiores revelações entre novos músicos brasileiros de qualquer estilo, sendo herdeiro direto das invenções de Renato dos Blue Caps -- que criou o chacumdum da guitarra brega ao ser obrigado a tocar num disco de bolero, sem saber tocar bolero -- e das guitarradas de Vieira.
Mas a revelação mais pitoresca de toda esta cena paraense é Wanderley Andrade, auto-intitulado «o ídolo louro do brega».
Quando pedi que resumisse sua história musical, ele me deu a seguinte aula sobre as fronteiras do pop brasileiro:
' Posso falar alguma coisa?
Legal, porque a nossa música paraense de hoje é uma mesclagem do ritmo calipso com o twist, na onda de Jerry Lee Lewis.
A gente deu muita sorte, porque hoje essa mesclagem, graças a Deus, roda em dezessete estados brasileiros.
Essas ondas todas aqui não têm nada de ridículo.
É um papo dez, é uma mistura de Nina Hagen, com aquela onda dos Sex Pistols, do Pink Floyd, do Dire Straits, e aí eu peguei o Pepeu Gomes daqui de o Brasil e fizemos essa onda:
o negócio é sério.
Sempre gostei de Elvis a Morengueira. ' "
mais de um ano -- talvez dois anos -- depois de nosso encontro paraense, Chimbinha e Wanderley Andrade foram convidados para tocar na festa de lançamento do Música do Brasil, que aconteceu no então chamado Tom Brasil, em São Paulo.
Isso num palco que também apresentou Siba e vários mestres de Nazaré da Mata, pré-Fuloresta do Samba.
Era um tratamento de choque para a platéia paulistana, já um debate sonoro sobre o que é tradição musical no Brasil.
Chimbinha, ao ser convidado, disse que queria se apresentar com sua nova banda, a Banda Calypso.
Ouvi a fita demo e não achei nada demais.
Já teríamos Wanderley com o brega cantado.
De o Chimbinha, eu gostaria de ouvir uma guitarrada, mas ele insistiu tanto que desembarcou em São Paulo acompanhado por Joelma, que eu não conhecera em Belém.
Dei uma entrevista para a Trip, dizendo que Chimbinha era um dos melhores guitarristas brasileiros (tentando incentivar sua carreira de guitarreiro) e recebi seus agradecimentos por o elogio através de alguém que tinha contato com ele no Pará.
Outras notícias que chegavam de Belém eram de que Chimbinha tinha deixado de atuar como músico de estúdio e passado a se dedicar inteiramente para a Banda Calypso.
Fiquei com pena:
achava que bandas como a Calypso havia muitas, que o que faltava mesmo no brega era um instrumentista criativo como Chimbinha, capaz de dar uma sacudida boa nas fronteiras mais conformistas do gênero.
Então perdemos o contato.
Só muito tempo depois comecei a ouvir falar do sucesso da Banda Calypso no Nordeste, sucesso cada vez impressionante e cada vez mais nacional.
Quando a popularidade ficou indiscutível, no final de 2005 e sem nenhum apoio de gravadora, é que a Calypso começou a aparecer na TV em rede nacional, onde vi Chimbinha novamente já com seu topete louro.
Fiquei alegre por descobrir que ele finalmente conseguiu o que queria.
Em 2006, eu já estava trabalhando no Central da Periferia.
Queríamos fazer um programa em Belém, contando um pouco a história da música periférica local, do brega ao cibertecnobrega.
A presença da Banda Calypso no programa era fundamental, mas estávamos com dificuldade de organizar a gravação por causa de sua agenda lotada de shows, e de viagens de show para show, de segunda a segunda.
Resolvi ligar para o Chimbinha, para explicar o programa (que ainda não estreara).
Era a primeira vez que conversávamos desde 1999.
Achei que ele poderia nem se lembrar de mim.
Mas a conversa foi fácil, como se nunca tivéssemos parado de nos ver.
O telefonema, de madrugada (a hora mais fácil para encontrá-lo), durou horas.
Chimbinha me contou tudo que havia acontecido desde a festa de lançamento do Música do Brasil.
Falou de como perdeu todo o dinheiro que acumulou como músico de estúdio para manter a Banda Calypso nos seus primeiros anos, quando não tocava em nenhuma rádio nem era contratada para nenhum show.
Ele mesmo percorria todas as rádios de poste (que têm alto-falantes espalhados nos postes das ruas de Belém) pedindo para suas músicas serem programadas.
Foi por causa de um desses alto-falantes de rua que um organizador de shows de Marabá, de passagem por Belém, ouviu a Calypso e convidou a banda para uma série de apresentações no sul do Pará.
De lá é que seguiu para Pernambuco, onde passou meses fazendo show diários por uma ninharia.
O sucesso aconteceu aos pouquinhos, entre vários momentos de desespero.
Falei do Central da Periferia, disse que o importante para a gente não era mais uma apresentação da Calypso, pois -- naquele momento isso já tinha sido visto em muitos programas de TV.
Desejávamos contar a história da banda, de que periferia ela tinha vindo, como batalhou por o sucesso.
Seria ótimo se a Regina Casé pudesse ir com ele para Oeiras, sua cidade natal, para conhecer onde passou a infância.
Chimbinha argumentou que a viagem de barco até Oeiras demoraria muitas horas, que não daria tempo.
Eu respondi que a produção poderia tentar alugar um jatinho.
De o outro lado da linha:
«avião eu tenho, o problema é que lá não tem pista de pouso."
A ficha caiu:
logo descobri com quem eu estava falando -- não era mais aquele garoto de 23 anos só com uma guitarra na mão.
Meses depois, recebi o convite -- através de um email da minha amiga Meg, comunicadora paraense que hoje trabalha com a Calypso -- para ir na casa de Chimbinha e Joelma em São Paulo.
Seria um jantar para poucas pessoas, uma comemoração do lançamento do CD e DVD Banda Calypso por o Brasil.
Depois de ultrapassar a poderosa barreira de seguranças do condomínio Alphaville, cheguei numa mansão luxuosa, com colunas na porta.
Dentro, só a família, os compositores e músicos que trabalham com a banda, o pessoal que cuida da agência pernambucana que vende os shows, e alguns amigos, como Zezé di Camargo.
Joelma e Chimbinha trouxeram um chef de Santarém -- o melhor da culinária paraense, segundo o casal -- para preparar o jantar com peixes frescos que chegaram na sua bagagem.
Mesa posta, Chimbinha veio me apresentar cada prato.
Ele falava sobre detalhes da vida de cada peixe (" este aqui gosta de nadar perto das pedras "), que não eram os peixes óbvios de todo restaurante amazônico.
Perguntei curioso, achando que era um hobby biológico:
«mas como você sabe isso tudo?"
A resposta veio natural, não era nada para causar espanto:
«ora, eu vendia peixe na feira com meu pai."
Nova ficha caiu, dessa vez com peso de toneladas.
Meus olhos lacrimejaram, pensei com mim contendo o choro:
«outro dia ele vendia peixe na feira, agora está aqui numa mansão num condomínio em São Paulo, de um extremo a outro da injusta estrutura social do país, quase sem escalas, totalmente na marra ...
que símbolo incrível das mudanças por as quais o Brasil está passando!"
Pensei no Lula, que dorme hoje no Palácio da Alvorada, para incômodo de muita gente (incômodo parecido com aquele que gera o sucesso da Calypso ...)
Mas há diferenças:
a ascensão política de Lula é produto ainda das alianças entre vários grupos sociais diferentes, com o apoio decisivo de elites intelectuais da USP, por exemplo.
Chimbinha se fez sozinho do lado de lá do cultural divide, sem gravadoras, sem televisão, sem elogios da crítica -- eu mesmo, já fã, não tinha dado importância para a sua banda.
Outros artistas das chamadas classes populares, para atingir o estrelato precisaram do apoio de mediadores de elite (mesmo «Cartola» " precisou " de Sérgio Porto ...) --
agora meu anfitrião estava inaugurando um outro caminho para o sucesso de massas, direto, sem o aval de ninguém do «centro».
Essa é uma novidade e tanto para a cultura brasileira.
Que bom que as tais «elites» estão perdendo o controle.
Chimbinha, também emocionado, me contou mais de sua história -- a época que morou com sua mãe numa invasão em Belém, os maus tratos quando -- aos 13 anos -- tocava guitarra toda noite num cabaré e pedia para sua mãe para não voltar mais lá, mas sabia que não podia largar o «emprego» pois a família dependia daquele trocado para comer.
Eu disse que ele deveria fazer um filme com essa sua história de vida.
«Não -- Chimbinha respondeu, não precisa, ele -- apontando para Zezé di Camargo -- já contou essa história no filme de ele, é a mesma coisa.
Quero que o meu filme comece quando já está tudo bem, tudo alegre."
Os melhores amigos de Chimbinha em São Paulo são Zezé, Leonardo e Bruno (de Bruno e Marrone).
Isto é:
metade do PIB musical brasileiro hoje.
Interessante que tenham se encontrado e que tenham amizade tão forte.
São biografias semelhantes, e também ascensões sociais meteóricas.
Leonardo trabalhou com plantação de tomate quando criança.
Hoje são essas pessoas que alegram a vida da maioria dos brasileiros.
Mas o sucesso não serve de blindagem contra o sofrimento e a dificuldade de ter que lidar com uma situação que sempre -- repito:
apesar do sucesso -- insinua cruelmente que ocupam um lugar que não lhes é devido, que deveria ser ocupado por músicos com formação de «qualidade».
Chimbinha passou o jantar me agradecendo por estar ali, por ter aceito o convite, por ter apoiado sua carreira, por ter colocado sua banda na televisão.
Eu dizia que a televisão é que tinha que agradecer, que eu não tinha feito nada, que se ele tivesse seguido meus conselhos nem haveria a Banda Calypso ...
Mas entendi o que estava em jogo, além do nosso respeito mútuo.
Como diagnosticou certa vez, com muita precisão, a Regina Casé falando sobre os motivos para fazermos o Central da Periferia, num momento em que não estávamos nem um pouco confiantes nas virtudes / necessidade do programa -- ela dizia algo mais ou menos assim:
«o fato dessas músicas viverem esse sucesso popular todo e não aparecerem na mídia, cria uma sensação de irrealidade para tudo, é como se o sucesso fosse um sonho facilmente convertido em pesadelo, como se todo mundo naquele show tivesse tomado uma droga pesada;
eles sabem que não precisam da mídia para fazer sucesso, mas o sucesso sem estar na TV -- espelho importantíssimo para a cultura popular contemporânea do Brasil -- parece oco, virtual;
é incrível que a mídia, sendo aparentemente tão virtual, ainda tenha esse poder de conferir realidade às coisas ..."
O pessoal que cuida da empresa que vende os shows da Calypso me confirmou:
«às vezes chegamos numa cidade lá no interior do Tocantins -- o show está lotado com o nosso público, mas o cara que aparece na TV e que não juntaria 100 pessoas tem o melhor cachê, o melhor camarim, é recebido por o prefeito ..."
Questões simbólicas e não tanto ...
O que o novo sucesso popular brasileiro, criado à revelia da mídia, ainda busca na mídia é a legitimação, o selo de que é mesmo sucesso e se possível «cultura».
Uma situação que conheço bem por acompanhar a história do funk:
sempre tratado como caso de polícia (reuniões sempre na secretaria de segurança, nunca na de cultura), mesmo sendo o ritmo mais popular na cidade ...
É evidente, mais que evidente:
o sucesso por si só não traz respeito.
Em o final do jantar sentamos ao redor de um piano de cauda branco (igual ao do Elton John, igual ao do Leandro Lehart), para ouvir as músicas do próximo disco, o décimo da banda, que só foi lançado em 2007 mas já estava em gravação.
Eu perguntei:
«mas como vocês já estão gravando se mal acabaram de lançar o CD / DVD ao vivo?"
Chimbinha me explicou seu modelo de negócios, do qual é criador (muito criativo) e mestre:
«mas este disco já está todo vendido para um supermercado, 500 mil cópias -- não precisa mais ser trabalhado."
Os compositores estão presentes.
Não compõem apenas para a Calypso, mas também para Calcinha Preta e várias outras bandas que fazem o Brasil popular de hoje cantar e dançar.
São nomes como Beto Caju, Edilson Moreno, Elias Muniz, Edu Luppa, e o arranjador -- desde o tempo do Guitarras que Cantam -- Helinho Silva.
É uma turma que fica internada num estúdio, morando num hotel em São Paulo, enquanto o disco está sendo produzido.
É já um outro tipo de relação com os compositores, contratados por as bandas para escrever seus próximos sucessos.
Todos são trabalhadores do pop:
parece que têm o método para o sucesso de massa, para a canção que vai agradar a maioria.
Imagino que a Motown também funcionasse assim.
Eu ia escutando as novas músicas e já podia ouvir as multidões cantando aos berros nos futuros shows lotados.
Já repeti várias vezes aqui que não tinha muito interesse por a música da Banda Calypso, gostava do Chimbinha guitarreiro ...
Então valorizava mesmo o aspecto antropológico do sucesso, um sucesso bem diferente daquele que a indústria fonográfica tradicional produzia no Brasil.
Mas este CD, o Volume 10, eu gosto, pra valer.
Musicalmente. É um hit perfeito atrás do outro.
Há poucas canções melhores de se ouvir no rádio do que Mais Uma Chance, cantada por Joelma e Leonardo.
Quando ouço na rua, meu dia se alegra e saio cantando junto.
A situação de amor descrita na letra também é cativante, no seu narcisismo calculadamente desamparado e espertamente ingênuo:
«meu amor se eu fosse você, eu voltava para mim, eu viria me socorrer».
Um dia, quando um cantor chique fizer uma versão, todo mundo vai achar bacana ...
Mas é preciso tempo:
o popular muito popular só se torna elogiável quando sua popularidade é coisa do passado, não é mesmo?
A fórmula pop da Calypso amadureceu.
É um estilo, objeto claramente identificável.
A voz de Joelma tem calor e graça -- entendo bem porque todas as crianças são apaixonadas por ela.
E a guitarra do Chimbinha continua a tal.
Ele me disse que ainda pretende gravar outro disco de guitarrada.
Nem precisa:
não há necessidade do Chimbinha me provar mais nada.
Mas que seria bom ouvi-lo novamente em gravação solo, por puro divertimento, ou por egocentrismo meu, isso seria:
fecharia um ciclo completo em minha vida.
Mas de qualquer maneira:
Salve Chimbinha!
Salve Joelma!
Os músicos mais populares no Brasil hoje!
Quando vão ganhar a medalha do mérito cultural?
Número de frases: 167
Em a rua onde o diretor de arte Rui Amaral mora, os postes são pintados ou desenhados até uma altura na qual normalmente vemos apenas propagandas no estilo «trago a pessoa amada em três dias».
Por ali, as lixeiras também não são monocromáticas e um muro colorido abraça uma biblioteca.
Grafiteiro há cerca de 30 anos, Rui faz em sua vizinhança no bairro da Lapa o que gostaria de ver por toda São Paulo, arte na rua.
«Podemos usar o espaço urbano como suporte para fazer arte e todo mundo pode ganhar fazendo a cidade ficar mais bonita», argumenta.
O sonho de Rui Amaral é colocar em prática um projeto de formação de diretores de arte para a cidade de São Paulo.
A idéia é criar núcleos em diversas regiões da capital para oferecer oficinas de arte de rua.
Patrocinadores doariam as tintas e articulações com as subprefeituras definiriam os espaços a serem pintados, grafitados ou desenhados.
«Os espaços são públicos, a cidade pertence ao povo.
O ideal seria que todos participassem de seu processo de urbanização», diz.
O projeto já foi registrado como uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) e se chama Artbr Social Clube.
Em o momento, grupos de trabalho ainda estão sendo formados para estruturar e tirar do papel a proposta.
Mas enquanto amadurecia a idéia da organização, Rui começou a testá-la através das oficinas de graffiti que ministra há quatro anos no Senac de São Paulo.
Em ela, os alunos têm aulas teóricas e práticas sobre aplicação de tinta e spray e medição de espaços.
Porém, o que o Rui professor tenta mesmo passar a seus aprendizes é uma nova maneira de olhar para o meio urbano.
«Quando você pensa na composição de um jardim, por que você não pode pensar num banco criado ou pintado por um artista?
Com certeza seria um banco mais bonito, mais para a cima.
A arte deve ocupar o espaço urbano e o graffiti tem a ver com isto também, pode ser inserido neste processo de urbanização».
Produção coletiva
Com seus alunos, Rui organiza uma produção coletiva.
Todos fazem desenhos, que depois são unidos numa composição única, num rolo de papel canson (especial para desenhos).
Em uma segunda etapa, a turma vai para a rua e aplica o projeto num local cedido por a subprefeitura ou por a iniciativa privada.
De acordo com Rui, a idéia é pensar o espaço como um todo, não apenas como uma parede.
«Em a primeira turma, pegamos uma biblioteca detonada e pensamos em todo um processo de paisagismo.
Arrumamos suas goteiras, pensamos em como as cores das paredes internas podiam proporcionar um ambiente mais agradável e fizemos um painel na fachada», explica.
Para o segundo grupo, o projeto foi ainda mais desafiador, ao ser aplicado na favela Jaguaré, também na zona oeste de São Paulo, onde vivem cerca de 14 mil pessoas.
O objetivo era tornar mais lúdico um parquinho numa praça da comunidade.
E os barracos próximos também ganharam cores e desenhos.
«Foi um grande aprendizado para mim e para os alunos.
Articulamos o projeto com os líderes comunitários locais e integramos os meninos do graffiti de lá na pintura».
Como o curso do Senac é pago (R$ 380), Rui conseguiu com alguns amigos patrocínio para jovens da comunidade Jaguaré participarem da turma.
«Cada um teve sua matrícula bancada por uma pessoa e assim puderam participar de todo o processo.
Foi uma maneira rápida e simples de inclui-los no curso sem muita burocracia».
Em as demais turmas, os alunos pintaram centros de ensino e, com o apoio da prefeitura, ganharam as paredes de algumas estações da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CTPM) da cidade.
Em o lugar do tradicional cinza, as cores tomaram conta.
É na simplicidade que está o segredo das coisas.
O poder público não tem grana para deixar aquilo legal e eu, como professor de uma oficina de graffiti, consigo fazer um trabalho bacana com uma aula paga e com patrocínios de empresas de tintas».
«Arte pública "
A proposta da OSCIP de Rui Amaral é expandir o que ele faz no Senac para diversos bairros da cidade através de patrocínios, que propiciem ajuda de custo para os alunos.
«E não é apenas em graffiti que pensamos.
Podemos melhorar o nível profissional do cara que cuida do jardim da cidade, ensinar arte para o que pinta os postes apenas de cinza.
A idéia da Artbr Social Clube é fazer as pessoas produzirem arte pública».
A organização terá espelhos em algumas regiões da cidade e, em cada um de eles, formará grupos para intervenções locais.
«Cada bairro tem sua personalidade.
Não tem sentido eu formar um moleque aqui na Lapa para ele ir pintar no Campo Limpo.
O projeto deve respeitar e se adequar ao perfil do local onde estiver inserido, vai ser uma curtição e a cidade vai ficar bem mais bonita», idealiza Rui.
E o diretor de arte não tem dúvida de que a cidade vai aceitar bem os muros e postes coloridos que ele imagina por os bairros.
«O graffiti nem sempre tem uma boa aceitação porque é ilegal, mas acredito que a população queira ver a cidade pintada com murais e painéis bem feitos.
Se tivermos pessoas bem preparadas para ocupar os espaços o trabalho será bem aceito».
Graffiti x poder público
Rui tem uma longa experiência em arte de rua e sabe como lidar com os eventuais contratempos com a prefeitura e até a polícia para conquistar espaços por São Paulo.
É de ele, por exemplo, o painel que ilustra o famoso «buraco da Paulista» (túnel que interliga as avenidas Paulista, Rebouças e Doutor Arnaldo).
Para manter seus desenhos no local há cerca de 30 anos, Rui precisou de muita persistência e negociação com o poder público.
Ele começou a pintar o buraco quando Paulo Maluf foi prefeito de São Paulo pela primeira vez, no começo da década de 70.
Durante o mandato de Mário Covas, a pintura permaneceu no local, mas quando Jânio Quadros assumiu a prefeitura da cidade, em 1986, o muro foi pintado de cinza.
Por um tempo, Rui e seus amigos desenhavam e a prefeitura apagava.
Em o mandato de Luiza Erundina, a prefeitura começou a desistir da briga.
«A Paulista ia fazer 100 anos e perguntei se podia fazer um painel.
A prefeitura aceitou e ainda me deu um fundo azul.
Então pintei todos os personagens.
Uns quatro anos depois, o Maluf voltou ao poder e apagou tudo.
Fiquei louco, o desenho estava bonitão ...».
Foi então que Rui começou a negociar com a prefeitura, com a secretaria de Cultura e a de Patrimônio histórico, onde encontrou o apoio do então " secretário Marcos Faerman.
«O Marcão resolveu tudo, disse que o trabalho tinha uma representação e que tinham que deixá-lo ali.
Pintei tudo de novo em 94 e, como tive aval do Patrimônio Histórico, ele foi incorporado ao acervo da cidade».
Agora o grafiteiro inquieto luta novamente com a prefeitura para pintar os postes da cidade.
«Em a minha rua, os vizinhos já apóiam o colorido.
Os funcionários da prefeitura chegam para pintar tudo de cinza e tem gente que sai de casa para reclamar», comenta Rui e finaliza, " O graffiti é assim mesmo, totalmente ligado ao ativismo, à cidadania.
Ele tem uma força muito grande de comunicação.
A gente começa brincando e, quando vê, percebe que tem um instrumento muito forte nas mãos.
Número de frases: 69
Mas precisa saber usar o instrumento e é para isto que trabalho».
Em o ano de 2004 se pensou uma proposta para a visualização e socialização de vídeos independentes no Amapá.
A proposta partiu de uma iminente carência em nosso estado com o que diz respeito ao incentivo na produção áudio-visual e até mesmo para a visualização deste material.
Assim surgiu o Festival de Imagem em Movimento -- Fim.
Augusto «Tuto», da equipe do festival, nos fala mais detalhes sobre como começou:
«A idéia partiu do DCE da UNIFAP, que levou adiante a proposta do projeto de cinema experimental e em 2004 ocorreu o primeiro Fim.
Em esta ocasião o festival recebeu filmes de outros locais como Belém e Moçambique.
Foi um festival bem doméstico e com o público bem reduzido, mas foi uma experiência muito válida."
Ao todo foram 18 trabalhos convidados, 7 da mostra competitiva, além de 5 do Amapá.
Em o ano seguinte o festival entrou no Guia Brasileiro Festivais de Cinema e Vídeo e a equipe do festival se informatizou melhor.
Foi aí que os resultados melhoraram, a equipe do festival recebeu 13 trabalhos convidados, 17 na mostra competitiva e 7 do Amapá.
Um número animador se comparado ao ano anterior.
Além disso, o público passou a ter uma boa referência do festival, passando a se interessar mais por o seu formato, participando das exibições e produzindo cada vez mais vídeos.
Alexandre Brito, um dos coordenadores do festival, nos fala mais destes resultados:
«Em 2004 se observou, no caso amapaense, a exibição de vídeos que já existiam antes do festival e por algum motivo estavam engavetados, pois não encontravam espaço para divulgação nem nas TVs abertas e nem nos festivais, já que este último nem existia.
Com o festival de 2005 já se começou a verificar coisas novas produzidas em 2004 e em 2005, ou seja, material que foi produzido entre o 1º e o 2º Fim.
Resultado maior pôde ser visualizado agora, onde se observou um boom na produção local de material de 2005 e 2006, tanto que quase a metade da programação foi com vídeos amapaenses, de 35 vídeos na mostra 16 são daqui."
A inclusão do festival no Guia Brasileiro Festival de Cinema e Vídeo foi importante, já que hoje todos os festivais que estão em sintonia com o Guia possuem o contato do Fim.
Com isso o festival se tornou uma referência, pois agora outros grupos sabem que no Amapá existe um agrupamento que está fomentando o audiovisual local em sintonia com outros centros.
Mas para que se alcançassem estes resultados positivos foi preciso muito esforço.
Eles lembram que a 2º edição do Fim sofreu algumas alterações de caráter funcional, já que a Unifap não apoiou o festival como deveria.
Como resultado disso «o festival hoje é patrocinado por os seus organizadores e apoiadores e não tem nenhuma ligação institucional, governamental ou partidária», afirma Tuto.
Importante ressaltar que em suas duas primeiras edições (2004 e 2005) o Fim tinha caráter competitivo nas categorias Curta metragem, 1 minuto, vídeo publicitário e documentário e estas recebiam premiações.
Em sua terceira edição, realizada nos dias 23, 25, 26 e 27 de dezembro, o Fim fez uma chamada aberta para quem quisesse enviar o material.
Tuto comenta o resultado da iniciativa:
«O que me surpreendeu foi que com isso nos recebemos muito mais vídeos que nos anos anteriores, principalmente os daqui de o Estado, tanto que este ano tivemos que fazer três dias de festival. ( ...).
Fizemos também uma intervenção no Delta do Matapí em Santana.
Em o dia 25 fizemos uma mostra na Fortaleza de São José de Macapá e nos dias 26 e 27 foram no Centro de Convenções Azevedo Picanço, onde concluímos as exibições com público recorde e com mais vídeos do que previsto na programação oficial, já que alguns chegaram após a conclusão do material de divulgação."
A equipe do Fim atua não somente no período dos festivais, que geralmente se dão em dezembro, mas procura acompanhar o processo fomentando a produção do audiovisual com oficinas e palestras, ministradas principalmente por Alexandre Brito.
Eles possuem um acervo de mais de 100 filmes e com isso criaram o Fim itinerante, que vai ao Bairro do Novo Horizonte, na cidade de Santana, na Praça da Bandeira, na própria Unifap e com isso novas portas foram se abrindo, já que os vídeos são bons, o público quer assistir e há um interesse em exibi-los.
Recentemente, a equipe do Fim fez uma nova parceria com a Unifap.
Trata-se de um projeto chamado UniVERcinema, onde serão feitas exibições nos Campi da Universidade em municípios como Oiapoque, Calçoene, Santana e Laranjal do Jarí.
E leva o seu projeto para além da exibição de vídeos.
Alexandre diz que " o Fim trabalha o viés político, já que trás em seu bojo temas como a democratização dos meios de comunicação.
Também trabalha o lado cultural, pois salienta as formas de trabalhar registros que manifestem a identidade local em sintonia com outros centros e é uma manifestação técnica com o que diz respeito ao tratamento de fotografias, áudio e vídeo».
Em a exibição de sua terceira edição o público pôde verificar a evolucão do festival.
A programação estava repleta de bons vídeos como Mazagão Velho e a Festa de São Tiago (AP), Movimento Humonetário (SP), Esperança (AC).
Os que mais se destacaram no último dia foram O Vaso e Mukifo, os dois com produção, direção e edição amapaense.
Percebeu-se que cada vez mais o Fim se firma como uma referência na área, já que muitos acabam concluindo seus vídeos por a perspectiva da mostra.
Iniciativas como esta que fomentam a produção cultural, a discussão política e técnica usando como instrumento o audiovisual são dignas de bons resultados e se constitui numa atitude plausível.
A equipe do Fim pretende fazer com que este processo cresça a cada dia e convida outras iniciativas que queiram entrar em contato por o http://www.fim 2006.
blogspot. com / ou por o imagem.Movimento@gmail.com. E não esqueça:
o Fim é só o começo.
Número de frases: 43
(explico o fuxico: desde o dia 1º que eu fiz essa matéria e o Adroaldo briga com mim que ela tinha que ficar lá no bloguinho quase não lido de ele.
Eu bati pé e disse que tava devendo ela pra cá porque já tinha feito a apresentação do livro e a entrevista com o autor.
Ele só concordou hoje, quando aleguei que é matéria ainda inédita (quase, né?).
Eis os fuxicos (levinhos, levinhos) da noite do Descanso de Deus.
1º de Junho, 2007 A programação do lançamento foi simples.
Um ambiente acolhedor, a conversa em tom sussurado como se saísse dos livros expostos nas prateleiras da Livraria direto para as mesas de Café da Palavraria, na Vasco da Gama, 165, do simpático Bom Fim, bairro tradicional de Porto Alegre, de onde surgiu, ainda no milênio passado, a saga do Exército de Um Homem Só, do hoje imortal Moacyr Scliar.
O estreante em publicações Adroaldo Bauer, mais conhecido na cidade como vereador e sindicalista Adroaldo Corrêa (o nome todo do homem é Adroaldo Bauer Spíndola Corrêa) parecia calmo, mas um tremelico das mãos e a prosa mais pausada que de costume denunciavam o nervosismo de calouro.
Chegaram pessoas para o programa -- antes da hora -- e o homem mudou de figura.
Começou a personificar o escritor que já ia sendo então.
Conversou alegre com Wladymir Ungaretti, seu chefe no primeiro emprego de jornalista, na Rádio Continental, ainda em 1975.
Chegou Janete Schneider, sua colega no atual ofício de Técnico em Comunicação Social da Prefeitura de Porto Alegre, onde é funcionário público.
-- sou cega e estou enxergando mais que o ceguinho fingido aí, disse carinhosamente a colega para quebrar o gelo.
Quando chegaram João Antônio, Rui Fank e Tarcízio Cardoso, esse pilotando bravamente uma cadeira de rodas, ficaram todos na mesma mesa, de vez em quando alcançando um bom chileno cabernet sauvignon ao escriba, que cuidava tanto de não deixar o cálice cair à mesa quanto das letras que rabiscava nas dedicatórias.
A perna do Adroaldo bambeou, eu vi os olhinhos de ele brilhando e piscando rápido por trás dos óculos, à chegada de Flávio Koutzii, acompanhado de Sônia Pilla.
Adroaldo abraçou forte o ex-deputado petista Flávio, beijou Sônia.
E se derreteu em agradecimentos.
Não cabia em si de contentamento.
Felicidade deve ser o nome daquilo.
E fez-se a fila!
Não era muita gente ainda, nem longa a espera, que seria menor se Adroaldo não quisesse escrever mais um capítulo a cada dedicatória.
Fosse a um conhecido de longa data, fosse para um novo amigo daquela hora.
Raul Carrion chegou apressado, dizendo na entrada que já estava de saída «para a assembléia do Orçamento Participativo da Leste, tu sabes camarada, é a luta».
Em a hora do autógrafo, o deputado comunista esquecera o livro que já comprara antecipado, como dezenas de outros que, solidários, asseguraram a publicação da primeira novela de Adroaldo Bauer.
Providenciou célere um outro exemplar a diligente Cristina.
Peninha, o Lordsir Cabreira, com muito cabelo como sempre, mas já algo brancos, quase mata Adroaldo de saudável inveja.
Não fosse o Penaxo, o Ruben Marsicano, irmão da Gleide, ligar para saber da localização da livraria, a conversa ia ser de instituto de beleza de ali em diante.
Penaxo, amigo desde a adolescência de escritor já quente na noite fria, chegou logo em seguida, mais calvo, o que impediu Adroaldo de enfiar aquele boné horroroso de ferroviário russo que ele adora usar e que a companheira Cristina, pouco antes chegada com a filha do coração Maria Amélia Vargas (a revisora do livro de ele), trouxera solicitamente numa sacola para proteger o homem do frio na saída (que acabou sendo só onze da noite, porque a Carla e o Carlos, polida mas firmemente como convém a proprietários de um local de freqüencia pública como a Palavraria -- Livraria-Café, foram conduzindo os remanescentes convivas até a porta de saída para fechar o estabelecimento.
-- Isso aqui é uma Livraria, um Café, falou o cientista político Jorge Branco, sorvendo quase rindo o penúltimo gole de uma cerveja.
Branco foi dos que chegou mais cedo e, com quase certeza, fazia uma horinha para pegar de ali a pouco o jogo do Inter por a recopa, às 11h30 min.
Bom, teve muito mais gente:
o Cícero e a Vera, o João Paulo, o Cléber, a Denise Pereira, a Dóris Oliveira, o Alpheu Godinho, a Ita, o Jorge Vargas, a Rosane Scherer, do Jornal Fala Brasil, que fez as fotos do ágape (Ops!).
Tem gente amiga do Adroaldo Bauer que vai ficar brava com mim porque esqueci do nome ou de citar aqui, mas tenho que terminar a matéria senão fica maior que o livro do homem e vamos ter que publicar em papel.
Eu podia ter dito lá na primeira linha que foram vendidos até agora 358 exemplares da edição de 1000 mandada rodar por o próprio autor na Proletra, sob as bençãos do Shimite.
Mas aí ia ficar parecendo notícia.
E, se fosse notícia, tinha saído no jornal, não é?
Você não estaria lendo aqui no Overmundo.
Já no meio-fio, ajudando a levar o escritor feliz até uma condução que seria guiada por a Cris, o Luís Heron, também sócio do empreendimento cafeíno-literário, desafiou:
seja humilde, camarada, você agora é só mais um leitor como eu.
Faça mais bons textos para nos contar boas histórias como estas, porque acho que acertastes a mão.
Evoé!
Saravá que já me fui!
Juliaura Ubá
madrugada de 1º de junho de 2007.
Número de frases: 43
O jeito moleque, sempre sorrindo, meio negro, meio índio, já são características desse artista multifacetado que é a cara de Roraima.
Misto de escritor, poeta, filósofo, jornalista, músico, compositor, (ufa!)
outras coisas mais, Eliakin Rufino é o que se pode definir como o camaleão da cultura roraimense.
«Eu sou um caboco preto metido a índio, como diz o compositor amazonense Guto.
Em a verdade eu sou um cabocrioulo.
Meu bisavô era um preto pernambucano que casou uma índia da etnia Mhura, na floresta amazônica.
Além da bagagem cultural, do estudo, da pesquisa, eu tenho uma herança genética africana», revela.
Contemporâneo do jornalista Vladimir Herzog, entrou na Faculdade de Jornalismo em 1975, aos 18 anos, na Universidade Federal de Goiás, em Goiânia.
Em aquele mesmo ano, Vlado é morto por a polícia política, e a família de Eliakin, temendo por seu futuro na profissão, fez com ele desistisse no curso.
«Cortaram a mesada e eu abandonei o curso, mas não abandonei o jornalismo.
Aqui em Roraima, além de escrever artigos eu já produzi e apresentei programas de rádio e de televisão.
Fui o primeiro a criar um programa radiofônico para tocar a música de Roraima e da Amazônia em 1987», conta.
Sua verve jornalista permaneceu incólume e durante dez anos (1988-1998) escreveu artigos de opinião para jornais impressos de «Boa Vista,» É neste conjunto de artigos, mais de 300, que está a minha reflexão filosófica sobre a realidade roraimense», diz.
Muito embora lecione Filosofia, Arte e História para adolescentes do Ensino Médio há vinte anos, Eliakin diz que não enveredou por a carreira docente.
«Eu não escrevo teses, eu só escrevo tesões», faz questão de dizer.
Com forte influência do Modernismo e do Tropicalismo, junto com os amigos Zeca Preto e Neuber Uchôa, criou o movimento Roraimeira, em 1984, que por quase duas décadas influenciou e revelou artistas nas artes plásticas, culinária, literatura, dança, fotografia e, claro, na música.
O trio Roraimeira -- como ficaram conhecidos os três artistas -- lançou dois CD's:
Roraima (1992) e O canto de Roraima e suas influências indígenas e caribenhas (2000).
«O Roraimeira foi um movimento que pretendia ajudar na construção de uma estética local, esboçar nossa fisionomia cultural, criar nossa certidão de nascimento, nossa identidade.
Creio que conseguimos muito.
Recentemente a banda Garden, composta por garotos que fazem rock, gravou uma das canções ícones do movimento (Cruviana, de Neuber Uchôa).
As novas gerações passaram a ter o movimento como uma referência fundamental», regozija-se.
Mas Eliakin é inquieto, não consegue ficar inerte ao que acontece em sua volta e, ao mesmo tempo em que compunha com o trio, enveredava por uma carreira solo, que se mantém sólida até hoje.
De esse trabalho nasceram Amazônia Legal (1997) e Me toca (1998), CD's que acabaram por alavancar sua carreira musical, proporcionando um maior alcance de sua obra por a Amazônia e no resto do país.
Algumas de suas composições já foram gravadas por artistas da Amazônia que hoje fazem sucesso em nível nacional.
O paraense Nilson Chaves gravou a música Tudo índio e a amazonense Eliana Printes incluiu Madrugada em seu CD O próximo beijo.
Além desses, vários artistas locais e regionais têm entre suas gravações alguma composição de Eliakin.
«Não, creio que eu sou fundamentalmente um poeta.
Um poeta / letrista.
De esses que fazem letra de samba.
Um desses herdeiros de Vinicius de Moraes.
Tenho mais de uma dezena de parceiros e alegra-me pertencer a esta tribo da qual fazem parte Fernando Brandt, Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Aldir Blanc, Fausto Nilo, Waly Salomão, Antonio Cícero e tantos outros que escrevem coisas para se cantar.
Entre eles destaco Paulo César Pinheiro, que eu mesmo produzi sua vinda até Roraima para inaugurar a Casa do Poeta em setembro de 2001.
Música mesmo é com meus parceiros, agora poesia, eu tiro de letra», define.
E foi com sua veia poética que Eliakin transformou o Estatuto da Criança e do Adolescente numa grande poesia, que foi transformado em livro e distribuído por todo o país.
A obra fez tanto sucesso que a companhia de balé Estagium, de São Paulo, o transformou num grande espetáculo, onde 50 crianças recitam todo o texto durante o show.
Eliakin, que há cerca de 20 anos faz shows de música e poesia por todo o país, agora é um cinquentão.
Como ele mesmo diz, foram «50 voltas ao redor do sol».
E, como não poderia deixar de ser, falando em Eliakin, ele já escreveu e musicou um poema com esse título (leia abaixo).
Em julho deve sair seu terceiro CD solo Eliakin em Porto Alegre -- ao vivo, gravado num dos shows da turnê que o artista fez por o país, dentro de um projeto patrocinado por o " Banco da Amazônia.
«Estou no mundo pra fazer poesia.
Música e poesia.
A atividade artística criadora me remoça, me recicla, me renova.
Sofro e rio junto com meu povo.
Optei por viver na cidade onde nasci.
Como diz Thiago de Mello: '
estou no centro da praça, estou no meio do povo, piso firme no meu chão, sei que estou no meu lugar, como a panela no fogo e a estrela na escuridão '.
Espero fazer muita arte nos próximos 50 anos», vaticina.
50 voltas ao redor do sol
Eliakin Rufino 50 voltas ao redor do sol
na cabine de comando
50 voltas e eu quero é mais
continuar girando
ao redor do sol
50 voltas ao redor do sol
só poesia na bagagem
eu vou cantando por a via-láctea
não tem volta essa viagem
ao redor do sol
planeta terra é minha nave-mãe
eu sou seu fã eu sou seu filho
o universo é minha aldeia mas tenho toda a minha tribo
Número de frases: 62
ao redor do sol --
Sons repercussivos
Djalma Correa nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais no ano de 1942.
Sua formação musical foi em Salvador onde estudou percussão e composição nos seminários da Universidade Federal da Bahia com professores como Walter Smetak, Hans Joachim Koellreuter e outros.
Foi nessa época que aconteceu a entrada no palco do primeiro grupo experimental de música popular com o show «Nós por exemplo» no Teatro Vila Velha com Djalma Correa, Betânia, Gil, Caetano, Gal Costa e Tom Zé.
Foi a porta de entrada para convites e muitos shows.
O grupo foi para São Paulo e Djalma continuou em Salvador com suas pesquisas.
Djalma Correa lembra que quando chegou à Bahia soube da existência de uma lei antiga proibindo tocar tambor nas igrejas porque era cultura negra, existia um toque -- o batacotô -- que foi banido e era proibido em qualquer lugar e não se podia nem pronunciar esse nome, era um chamado de guerra.
E conta:
-- Em as minhas pesquisas descobri o documento que proibia o toque do tambor e ainda que eles fossem queimados.
O batacotô foi usado durante as revoltas porque era um toque de luta!
Criei então a releitura do toque que não tinha registro, fiz a trilha sonora, ou seja, uma síntese dos toques.
Etno-musicologia foi um trabalho de Djalma Correa documentando os candomblés da Bahia.
Esse acervo ainda não publicado conta com 10 mil slides, 30 mil pés de fitas gravadas (filme super-8) e ainda a parte manuscrita.
Ele não quer comercializar esse acervo e pretende dar um destino a ele, mas não sabe ao certo o que será e diz:
-- Não posso comercializar, são documentos de confiança coletados em sessões de terreiros e comunidades baianas e de todo o Brasil.
Djalma Correa propôs uma releitura desse acervo com a Universidade e teve o apoio do Instituto Goethe e a partir desse apoio se formou o grupo «Baiafro» com 3 percussionistas.
Com isso despertou o interesse geral crescendo resultando no Movimento Integrado Baiafro, e diz:
-- Foi uma releitura séria e verdadeira, envolvendo mães de santo e comunidades baianas.
desse Baiafro foram exportados muitos artistas.
Sorridente Djalma comenta:
-- Imagine você que tenho a carteira de músico com o número 1526!
Um pouco desse trabalho de pesquisa ele fez um «CD Room Brasil Afrodescendente» enriquecendo com depoimentos de estudiosos do assunto como Ney Lopes, Abdias Nascimento, Muniz Sodré, Mary Del Priore, e Raul Lody, entre outros.
A carreira musical de Djalma Correa é uma sucessão de acontecimentos bons, viaja todo o planeta mostrando seus sons percussivos.
Agora tem uma pesquisa com os sons dos sinos.
-- Os sinos têm sons diferenciados, quero pesquisar esse som que faz parte da história do Brasil, toda cidade tem seu sino e seus sons que identificam:
chamados, velórios, casamentos, missas, reuniões, etc.
Para essa pesquisa ele pretende conhecer várias localidades brasileiras que tenham sinos com sons diferenciados.
Djalma se orgulha de ter vestido a camisa da " música espontânea ":
-- É uma meta um pouco complexa, pois não é improvisada, é um momento sem limite e pode tomar qualquer caminho dependendo do conhecimento que o outro tem, é como tirar a roupa em público.
É uma música que nunca vai se repetir, portanto não tem ensaios.
Sua «música espontânea» já foi dividida com grandes nomes como Patrick Moraz, Stênio Mendes e tantos outros.
Outra formação de percussão que Djalma destaca é a que aconteceu no 1º. Festival de jazz Montreaux de São Paulo com 1 pianista e 18 percussionistas, foi a primeira vez que se juntaram sons do piano e da percussão.
Brinca dizendo:
-- Pela primeira vez eu trouxe a cozinha para a sala
Continua pesquisando e compondo e seu trabalho é sempre voltado à linguagem da percussão.
Sua definição da percussão no Brasil:
-- O Brasil não é o berço da percussão, porém me baseio no triângulo que se formou com o negro, o índio e o branco.
Essa trilogia percursiva no Brasil é única no mundo, é uma fusão maravilhosa que varia de acordo com a cultura de cada região.
Exemplifica como encontrou em Portugal bem viva a tradição do Zé Pereira que foi a primeira que viveu ainda na infância.
Djalma afirma que a percussão surgiu na África e depois para o mundo, acredita que todo ser humano passa por o aprendizado da percussão:
-- A batida do coração no útero da mãe é um som da percussão, os 9 meses no útero materno são a primeira escola de qualquer ser humano!
Segundo ele, nos tempos ancestrais o poder mágico da percussão era das mulheres que se encarregavam dos rituais enquanto o homem caçava e pescava, a mulher era divinizada porque tinha o poder de parir filhos.
A situação mudou quando o homem descobriu que se ele não copulasse a mulher não paria, e nessa evolução ela perdeu um pouco.
Mas a percussão feminina existe em todo o mundo e confirma:
-- Acho que a percussão requer sutileza, carinho, a mulher é a mais adequada.
Em o Encontro de Culturas de São Jorge Djalma Correa conviveu com grupos de todo o Brasil e teve a surpresa de encontrar mulheres kalungas que batem a «bruaca ou buraca», uma espécie de caixa feita com couro de boi para transportar mercadorias em lombo de burros.
Ficou muito emocionado em conhecer mais essa forma de percussão, e mais ainda quando foi presenteado por Juliano Basso, organizador do evento, com uma bruaca.
Sobre ter reconhecimento de seu trabalho no Brasil, ele sorri e fala:
-- Ah, santo de casa não faz milagre!
Mas o objetivo principal do meu trabalho se faz sempre na multiplicação, tenho contribuído no que posso, principalmente no efeito multiplicador e minha percussão está em todo o mundo.
Fica pensativo e conclui:
-- Mas é assim mesmo, continuo com a música espontânea e não gosto de ensaio, assim se mostra a alma de verdade.
Djalma Correa se preocupa com o destino da percussão:
-- O modismo do tambor traz o distanciamento da sutileza do tambor e do que é realmente a percussão.
Djalma Correa é reconhecido por as pessoas nas ruas e com muita simplicidade fala com todos e tenta passar o que sabe, transmitindo com sabedoria segredos de um mestre da percussão.
Discografia de Djalma Correa:
Salomão --
The New Dave Pike Set and Grupo Baiafro in Bahia / MPS 1972
Bendengó -- Gereba / 1973 -- Fontana --
Jorge Ben e Gilberto Gil / 1975 -- Philips
Qualquer Coisa -- Caetano Veloso / 1975 -- Philips --
Caetano Veloso / 1975 -- Philips
SMETAK-Walter Smetak / 1975 -- Philips
GIL E Jorge (OGUN Xangô) -- Gilberto Gil & Jorge Ben / 1975 -- Polygram
Doces Bárbaros-Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa/1976 --Philips
Otalia De Bahia -- Otalia da Bahia / 1976 -- RCA --
Chico Buarque / 1976 -- Philips
Africabrasil -- Jorge Ben / 1976 -- Philips
Morte De Um Poeta -- Alcione / 1976 -- Philips --
Otalia da Bahia / 1977 -- RCA *
Candomblé -- Djalma Corrêa / 1977 -- Fontana *
Batucada Em o 4 -- Djalma Corrêa / 1977 -- Philips
REFAVELA-Gilberto Gil / 1977 -- Philips
Toquinho Tocando -- Toquinho / 1977 -- Philips
Bicho -- Caetano Veloso / 1977 -- Philips
Filho De o Povo -- Walter Queiroz / 1977 -- Philips --
Raul Seixas / 1977 -- WEA --
Nara Leão / 1977 -- Philips
Alhos Com Bugalhos -- Almôndegas / 1977 -- Philips --
Norma Benguel / 1977 Elenco
Refestança -- Gilberto Gil / Rita Lee / 1978-Som Livre
Vital Farias -- Vital Farias / 1978 -- Polydor --
Zeze Mota / 1978 -- WEA
Barranqueiro -- Marku Ribas / 1978 -- Philips
Chico BUARQUE -- Chico Buarque / 1978 -- Philips *
MPBC -- BAIAFRO -- Djalma Corrêa / 1978 -- Philips
Patrick Moraz -- Patrick Moraz / 1978-Polydor
Gilberto GIL A o Vivo Em MONTREAUX -- Montreaux ' 78 / 1978 -- Elecktra-WEA --
Abril Cultural (serie) / 1979 --
Maria Bethânia / 1979 -- Philips
Nightingale -- Gilberto Gil / 1979 -- WEA
Realce -- Gilberto Gil / 1979 -- WEA --
Raimundo Sodre / 1980 -- Polydor
Kleiton & KLEIDIR -- Kleiton E Kleidir / 1980 --
Alcivando Luz / 1980 -- Disco Independente
Coisa De NÊGO -- Raimundo Sodre / 1981 -- Ariola
Que QUI Tu Tem Canário -- Xangai / 1981 -- Estúdio de Invençoes
Revolta DOS Palhaços -- Francisco Mario / 1982 -- Libertas
Maria -- Maria Bethânia / 1988 -- BMG Ariola
Passion -- Peter Gabriel / 1989 -- Universal --
Peter Gabriel / 1989 -- Universal
Brasil -- Manhattan Transfer / 1990 -- Atlantic
Canta Brasil:
GREAT BRASILIAN Songbook, & 1 -- Compilation / 1990 -- Polygram
Canto De o PAGÉ -- Maria Bethânia / 1991 -- Polygram
Shaking The TREE -- Peter Gabriel / 1991 -- Universal --
Manhattan Transfer / 1992 -- Rhino
Samba SOLSTICE -- Marcio Montarroyos / 1993 -- Black Sun Records
Gosto De Brasil -- Nonato Luiz / 1993 -- Milestone --
Compilation / 1995 -- Blue Jackel
Retratos -- Francisco Mario / 1995
Barro Oco -- Maria Bragança / 1998 -- Disco Independente
Senhora DEL Mundo -- Collegium Musicum de Minas / 1999 -- Disco Independente
A Origem-Collegium Musicum de Minas / 1999 -- Disco Independente
Aquilon -- Corciolli, Djalma Corrêa, Maria Bragança / 2000 -- Azul Records
Número de frases: 116
A Musica Brasileira deste Seculo Por Seus Autores E Interpretes -- Djalma Corrêa / 2000 -- SESC SP
Brasileiro é apaixonado por carro, uma rede de postos de gasolina inclusive explorou essa idéia numa campanha, homens em especial são fascinados.
Claro que há exceções, mas desde pequenos somos programados para tal, ganhamos carrinhos dos mais diferentes tamanhos, formatos e funcionalidades;
enquanto que as meninas ganham bonecas:
Meninos são programados para terem carros bonitos e velozes, enquanto as meninas a serem bonitas e férteis.
Apesar da falta de condições da população em geral em propriamente ter um carro, a cultura do carro é forte no Brasil, incentivada por figuras como Paulo Maluf e suas obras que restringem ou totalmente negam o transporte coletivo.
Portanto, mesmo que não cheguem a ter, a grande maioria deseja um carro.
Eu sou um sujeito peculiar, e para tal queria um carro que refletisse minha personalidade.
Meu gosto variou um pouco ao longo dos anos, mas algo que acabou colando foi o amor aos carros antigos nacionais:
Fusca, Variant, Dodge Dart, Rural, e por aí vai.
Além do gosto que tenho por história, creio que há uma forte dose de nostalgia, pois esses eram os carros que povoavam minha infância.
Quando finalmente me senti em condições de ter um, comecei a buscar meu carro.
Olhei vários:
Fuscas, Variants, TLs e Escorts conversíveis entre eles.
E foi então que de presente um Del Rey caiu em meu colo.
Nunca tinha sequer contemplado um Del Rey, e foi quando decidi pesquisar um pouco a respeito de ele.
E na verdade, Del Rey é um dos carros mais importantes da indústria automobilística brasileira.
O sonho (ou ilusão) de muitos ingressantes no curso de Desenho Industrial é projetar carros.
Basta ver a quantidade de modelos e ilustrações de carros que vemos em exposições de faculdades.
Depois cai a ficha:
Não há espaço no mercado nacional.
Em a verdade há, mas é super restrito.
Eu tive esse sonho, mas ele não durou até o vestibular.
Um colega de faculdade meu que era fascinado por o assunto e desenhava como ninguém acabou trabalhando numa empresa que fabrica acessórios para carros pré-existentes.
Vejamos algumas grandes marcas nacionais:
Puma, Miura, Troller e Gurgel.
Qual o espaço que elas ocupam hoje no mercado?
Puma e Miura sumiram depois da abertura desenfreada de exportações, fato que combinado com o massacre das grandes montadoras ajudou a colocar a lápide sobre a Gurgel.
A Troller, que surgiu depois desses eventos, está por aí, mas atentendo a um nicho, que enquanto a moda de carros grandes durar, na verdade é bem grande.
Nossa paixão por carros é tão grande que pagamos caro por recursos que nunca usamos.
Montadoras internacionais e transnacionais como Honda e Citröen colam adesivos alardeando " 100% Brasileiro ";
o que é uma grande enganação:
Civics, Vectras e Megánes não são carros brasileiros.
Robôs instalados aqui e operados por homens chamados Jurandir podem montá-los, mas de onde veio sua criação?
É o mesmo que dizer que o Código da Vinci é um livro brasileiro só porque foi impresso aqui.
Quais são os carros de linha que vemos hoje que são projetos 100 % brasileiros?
Eu na verdade diria nenhum.
Mesmo um carro como o Celta, que foi de fato projetado aqui na verdade segue regras de marca pré-estabelecidas por os escritórios internacionais das montadoras.
Nem quando nos concedem a honra da criação temos a liberdade para inovar.
E mesmo quando é o caso, é para modelos básicos da linha.
De aí a importância do Del Rey, um carro com o mérito de ser o primeiro carro a sair com trio elétrico de série no país.
Confesso que minha pesquisa pode não ter sido perfeita, portanto posso estar errado ao dizer que ele foi o único carro top de linha 100 % projetado no Brasil;
e se eu realmente estiver errado, digo que no mínimo foi o último.
Engana-se quem pensa que o Santana é um projeto nacional, ele, apesar de ter uma cara brasileira própria, é derivado do desenho do Passat alemão;
o mesmo ocorre com o Opala, um filhote do Opel Rekord.
Desde então somos sujeitos a projetos alheios, que são trazidos diretamente ou levemente reestilizados para atender particularidades de mercado.
Creio ser uma extensão do que disse no meu texto anterior:
A necessidade de validação internacional.
Não acho que é tudo culpa de montadoras malignas.
O brasileiro parece não confiar nos próprios projetos, adora um importado, talvez porque adore uma gambiarra na hora de fazer as coisas.
Como a cultura tuning, que para mim é uma série de gambiarras industrializadas.
Embora eu reconheça que alguns projetos envolvidos nesse esquema tuning sejam de fato projetos, a maioria é na tentativa e erro, ninguém senta para pensar a respeito do que quer fazer no carro, não há um objetivo.
O que acho mais interessante é chamar tudo isso de carros personalizados.
Desde quando colar num carro produzido em massa um monte de peças plásticas e luzes produzidas em massa é torna-lo único?
Algo único é algo pensado e criado, não algo juntado.
Sentar e pensar não é fácil.
Pensar num carro, uma máquina complexa cheia de partes móveis que se mal projetada pode matar pessoas deve ser muito difícil, e curvo-me ante aqueles que conseguem fazê-lo bem.
Graças a problemas enraizados culturalmente e de políticas idiotas que trazem a tecnologia pronta ao invés de incentivar seu desenvolvimento, ficamos nessa situação, onde até copiando os chineses se saem melhor:
Está para chegar aqui o Chery QQ, uma cópia do Chevrolet Spark.
E nós vamos comprar.
De aí veio meu orgulho por o Del Rey, que apesar de tudo isso que disse acabei abrindo mão.
Como falei, são poucos aqueles que conseguem ter um carro, muitos apenas usam um carro (há uma enorme diferença).
E sendo que adoramos gambiarra, o carro estava cheio de elas, era economicamente inviável deixá-lo da maneira que eu gostaria:
O mais original possível.
Em o final, fiquei com um Ka, projetado por um americano.
Bônus:
Número de frases: 66
Vídeo da primeira propaganda do Del Rey.
O Brasil se despediu na última quinta-feira de Wanderley Taffo Júnior (foto), popularmente conhecido como Wander Taffo.
Nascido em 17 de maio de 1954, Taffo iria completar 54 neste sábado.
Considerado um dos maiores guitarristas do país, Wander Taffo estourou na década de 80, com a banda Rádio Táxi, fazendo muito sucesso com a música ' Eva '.
Taffo também tocou em bandas como o Made in Brazil, Joelho de Porco, Secos e Molhados, Gang 90, além de acompanhar vários artistas, como Roberto de Carvalho e Rita Lee.
Atualmente Taffo era um dos sócios da Em & T -- Escola de Música e Tecnologia, na capital paulista (fundada em 1997 com o nome de IG & T -- Instituto de Guitarra e Tecnologia), e considerada a maior escola de música da América Latina.
Além disso, Wander Taffo era bastante conhecido e considerado por publicações internacionais, como a Guitar Player, considerada uma das melhores revistas especializadas no mundo.
Segundo informou a acessória de Taffo, no último sábado ele havia sentido dores abdominais, sendo submetido à exames de eletrocardiograma e ecocardiograma, não sendo detecdado nenhum problema.
Mesmo assim os médicos solicitaram novos exames.
Em a manhã de quinta-feira (14), o músico, paulistano da Pompéia, saía de sua casa para realizar tais exames, quando sofreu uma parada cardiorespiratória diante de sua esposa, que culminou em sua morte.
Wander Taffo era conhecido por manter seu visual de ' Herói da Guitarra ' com seus longos cabelos e inseparáveis óculos escuros.
Participava de projetos sociais, distribuindo agasalhos e alimentos para moradores de rua do centro de São Paulo.
Porém Wander Taffo não queria sensacionalismo em cima destes projetos, então pedia para que as ações fossem creditadas à Em & T.
A primeira banda de Taffo, ' Memphis ', formada em 73 costumava tocar em bailes, mas não chegou a vingar.
Em os anos 80 ingressou na Rádio Táxi, que fez muito sucesso com músicas como ' Amor de Verão ` e ' Garota Dourada '.
Depois disso, deixou a banda para seguir carreira solo, sendo acompanhado por os irmãos Andria e Ivan Busic, lançando o disco «Wander Taffo».
O tecladista Marcelo Souss chegou para fazer parte desta brincadeira, nascendo assim a Banda Taffo, que chegou às paradas de sucesso com o disco «Rosa Branca», tendo como grandes sucesso as faixas» Me Dê Sua Mão e Sonhos Rock n`Roll».
Taffo tinha planos para reunir novamente a banda em 2008, planos que foram interrompidos por a sua morte.
Taffo recebeu o prêmio Sharp de Música, na categoria ' Revelação Pop Rock Masculino ', por a gravação de um solo em Los Angeles, no ano de 1989.
A morte prematura de Wander Taffo abre uma enorme lacuna no mundo da música brasileira.
Com seu bom humor, dedicação e talento indiscutível, Taffo inspirou e influenciou milhares de músicos, nos mais diversos estilos.
O corpo de Wander Taffo foi velado e sepultado no Cemitério do Araçá, no Sumaré (Zona Oeste de São Paulo).
Ele deixou a mulher Mônica Lima, 37, e dois filhos (Lívia, 26, e Lucas, 13).
«Entre músicos, chamar Wander Taffo de guitarrista brilhante sempre foi pleonasmo.
Pouquíssimos brasileiros foram tão longe como ele em técnica e sensibilidade.
Somou arte, destreza e bom gosto em seu instrumento.
Qualquer que fosse a banda, era fácil saber que era ele na guitarra.
Criou um timbre, um peso e uma escala inconfundíveis." --
Ricardo Feltrin, editor-chefe da Folha Online
«O rock and roll está chorando.
Pessoalmente, era um grande amigo, um grande cara.
Ele me havia emprestado um baixolão para a gravação do meu acústico.
Sempre carinhoso e prestativo, perder o Wander é algo realmente prematuro e lamentável." --
Lobão, músico
Número de frases: 34
Megaphone Tabloid Provavelmente a cena mais fértil do Brasil hoje, Goiânia foi a sede da Trash -- 3ª Mostra Goiana de Vídeo Independente, que aconteceu nos dias 15,16 e 17 de setembro.
Trash -- 3º Mostra Goiana de Vídeo Independente
Em a capital do estado de Goiás, no centro geográfico do país, foi realizada a 3ª mostra de vídeo independente da cidade.
A 1ª Mostra Goiana de Vídeo Independente aconteceu em 1999.
Desde a primeira edição o evento tem caráter não-competitivo e começou a ser espaço para obras que jamais haviam chegado aos olhos e ouvidos do público.
Em 2005 foi realizada a segunda edição da mostra que teve 79 vídeos exibidos vindos de São Paulo, Santa Catarina, Janeiro, Rio Grande do Sul, Gerais, Bahia, Distrito Federal, Paraná, Tocantins, interior de Goiás e, principalmente, da própria Goiânia.
Esta edição teve a presença de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, que ministrou um workshop que resultou no curta «As Injustiçadas», exibido na Trash deste ano.
O que era a intenção dos organizadores, e que se comprovou na prática, a Trash em 2006 foi um espaço de veiculação de trabalhos autorais totalmente descompromissados com os formatos comerciais pré-estabelecidos.
Os filmes
Hoje em dia a máxima «uma idéia na cabeça e uma câmera na mão», o clichê dos clichês da produção independente, pode ser considerada em seu extremo.
Qualquer pessoa tem acesso a uma câmera, todos os computadores já vêm com programa de edição de vídeo e qualquer vídeo tem acesso a mostras como a Trash.
Claro que existe uma seleção prévia, mas pudemos assistir a filmes profissionais e amadores feitos por pessoas de todas as idades, até eu mesma tive vídeo na mostra (Pombos Comem Carne, que pode ser visto no www.facadaleitemoca.blogger.com.br ou no youtube.
com /user/facadaleitemoca).
Foram vídeos de Goiânia, claro, Distrito Federal, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Paulo, Janeiro, Rio Grande do Sul, Espanha e Estados Unidos.
Em esta edição, além dos vídeos de vários estados, foi possível ver videoclipes independentes.
Uma maratona com o melhor e o pior do gênero.
Uma oportunidade de ver Afonso Brazza, o cineasta-bombeiro de Brasília, que fez sucesso com seus filmes de ação, falecido em 2003.
Em " Gringo não perdoa, mata!"
é possível experimentar seu roteiro cheio de floreios, quase sempre desconexos, e suas mortes espetaculares, perfeitas para os adoradores de faroeste.
A clássica animação de Otto Guerra «Rock e Hudson -- Os Cowboys Gays», com os personagens de Adão Iturrusgarai, também foi apresentada na mostra.
Ah, e um grande número de filmes de Ivan Cardoso.
Ivan Cardoso
Foi possível assistir a muitos filmes de Ivan Cardoso, criador do gênero Terrir e grande homenageado da Mostra.
O «Segredo da Múmia» e sua recente continuação «O Sarcófago Macabro», seu documentário» O Universo de Mojica Marins «e o» Escorpião Escarlate " foram exibidos dispersos em várias sessões.
Porém todo o destaque foi dado à chamada premiere de seu mais novo filme «Um Lobisomem na Amazônia», apesar do filme já ter sido exibido em mais de dez festivais mundo afora, segundo o próprio Ivan Cardoso.
O filme traz no elenco Danielle Winits, Evandro Mesquita, uns tantos outros globais, Sidney Magal, como um sacerdote inca, e Paul Nachy, o mais famoso lobisomem espanhol.
A aparição de Sidney Magal no filme é o momento de maior frisson dos espectadores, o que causou espanto em Ivan Cardoso, que havia convidado para o papel o cantor Cauby Peixoto, que não tem feito mais aparições públicas e recusou.
Ele afirma que chegou a achar que o papel de Magal, que canta uma profecia inca para a personagem de Danielle Winits, seria um verdadeiro fracasso.
Quem quiser saber mais sobre o filme, que deverá entrar em circuito comercial no fim deste ano, é só entrar no site oficial:
http://www.umlobisomemnaamazonia.com.br.
Momento polêmico do bate-papo com o público foi quando Ivan Cardoso defendeu que só é possível fazer cinema em São Paulo ou no Rio de Janeiro, onde estão as grandes produtoras e todos os laboratórios de manipulação de película do Brasil.
Ele defendeu que não é viável comercialmente fazer cinema nos interiores porque não há estrutura nem profissionais em quantidade suficiente.
Algumas pessoas ficaram bastante incomodadas com a defesa do diretor, mas estávamos num mostra de vídeo, formato absolutamente democrático e que não foi escolhido por acaso por os organizadores do evento.
Então, qual era realmente o problema?
Bastidores
O público da mostra era dos mais jovens que eu já vi num evento desses.
Os organizadores até brincaram:
«estamos criando o público do amanhã».
E parece mesmo que é isso que está acontecendo em Goiânia.
Gente jovem produzindo vídeos e com espaço para exibi-los.
Montando suas bandas e com lugar para divulgar.
Goiânia tem dois dos festivais independentes mais importantes do Brasil:
o Bananada e o Goiânia Noise.
Os dois produzidos por os mesmos organizadores da Trash e que são também a turma da Monstro Discos.
Para quem não conhece, a Monstro Discos é dos mais importantes selos de música da atualidade, agora entrando no mercado europeu.
Em as barraquinhas dos expositores no lado de fora da sala de exibição podia se encontrar muitos ilustradores da cidade, grande parte de eles fazem parte do grupo da Voodoo, nova revista de quadrinhos, também produzida na cidade.
Em o editorial da primeira edição os voodoos explicam a que vieram:
«Preste bem atenção:
esta é uma revista movida a ódio.
Não aguentamos mais artistas plásticos cheios de opinião, publicitários engomadinhos, cineastas que nunca fizeram um filme, webdesigners analfabetos e quadrinistas cujo sonho é usar um nome em inglês pra desenhar super-herói vagabundo lá na gringa.
Estamos de saco cheio!
E por isso resolvemos fazer Voodoo!».
Shows
Em o finzinho da programação do sábado foi realizada a festa Trash, com bandas de vários estados.
Destaco o show do Rock Rockets que conseguiu botar para quebrar, num show muitíssimo empolgante.
Tocaram também Macakongs 2099, de Brasília, com um show hardcore de responsa, Os Legais, de Santa Catarina, Morangos Mofados, do Rio de Janeiro, e a banda local Johnny Suxxx and the Fucking Boys.
Em o domingo os participantes do workshop sobre o Terrir, ministrado por Ivan Cardoso, mostraram o seu trabalho e houve apresentação de vídeos até às 18h.
Ufa! Uma programação e tanto.
Agora é só aguardar a próxima.
Número de frases: 59
A o ler os textos do Rodrigo Almeida sobre o disco do Caetano Veloso e o do Rogério Duprat, ambos de 1968, lembrei de um outro disco lançado no mesmo ano, que não teve o alcance desses dois, mas que também tem uma grande importância na música feita no Brasil na época:
o único disco da banda gaúcha Os Brasas.
Maior nome da Jovem Guarda no Rio Grande do Sul, Os Brasas é uma banda bastante peculiar.
Formada no começo dos anos 60 com o nome The Jetsons, se mudou pra São Paulo em 1966, onde gravou no ano seguinte o seu primeiro registro, um compacto simples com as músicas Vivo a Sofrer e Lutamos para Viver, já com o nome definitivo.
Durante esse período, participaram do programa «O Bom», no Canal 9, com apresentação do Eduardo Araújo, além de terem sido convidados a integrar a Banda Jovem do Maestro Peruzzi, uma aposta no talento dos rapazes.
A formação contava com o Luis Vagner na guitarra e vocal, o Anyres Rodrigues na guitarra, o Franco Scornavacca no baixo e o Eddy na bateria.
Em 1968, saiu o único disco dos Brasas, por a gravadora Musicolor / Continental, inédito em CD até hoje.
Tanto que só foi circular por as gerações mais novas através de uma cópia em CD-R com esse registro e mais alguns compactos, por iniciativa de uma loja musical conhecida por as raridades em Porto Alegre.
O disco original tem as seguintes faixas:
1.
A distância (Oriental Sadness) (Anyres -- L. Ransford)
2. Beija-me agora (Fernando Adour -- Márcio Greyck)
3. Um dia falaremos de amor (Tom Gomes -- Renato de Oliveira -- Luiz Vagner)
4. Quando o amor bater na porta (When love comes knockin ' (at your door) (Tom Gomes -- Sedaka -- C. King)
5. Meu eterno amor (Tom Gomes -- Luis Vagner)
6. Que te faz sonhar, linda garota (What makes dream, pretty girl?) (
Anyres -- M. Garson -- J. Wilson)
7. Pancho Lopez (G. Bruns -- T. Blackburt)
8. A o partir, encontrei meu amor (Em o fuimos) (Osvaldo -- Hugo)
9. Benzinho, não aperte (Tom Gomes -- Luis Vagner)
10. Theme without a name (Clark -- Davidson)
11. Não vá me deixar (Tom Gomes -- Luiz Vagner)
12. Sou triste por te amar (Tom Gomes -- Luiz Vagner)
O álbum abre com A distância, um cover dos Hollies, fato bem comum na Jovem Guarda, como comprovam trabalhos do Renato e seus Blue Caps, por exemplo.
Mas é na segunda faixa, Beija-me agora, que começam os méritos da banda.
Trata-se de uma balada com clima psicodélico, numa melodia poderosa e vozes muito bem colocadas.
Um dia falaremos de amor é a típica música falada, que o Roberto Carlos eternizou em clássicos como Não quero ver você triste, com sons de violino e pianinho comandando.
Quando o amor bater na porta, cover dos Monkees, ficou superior à original na minha opinião, tamanha a qualidade dos músicos.
Meu eterno amor se destaca por os vocais trabalhados com perfeição, resultando numa bonita balada.
Que te faz sonhar, linda garota traz a guitarra característica do Luis Vagner, bem marcante durante toda a faixa.
Pancho Lopez, conhecida na voz do Trini Lopez, ganhou uma versão totalmente debochada, com direito a gritos em espanhol, dignos dos mais autênticos mexicanos.
A o partir, encontrei meu amor é uma faixa curiosa.
Versão de uma música da banda uruguaia Los Shakers, foi gravada também por o Renato e seus Blue Caps, porém com outro nome (Te adoro) e outra letra!
Vale ouvir as duas pra comparar.
Essa aqui tem uma ótima harmônica no começo, ao contrário do órgão que inicia a versão do Renato.
Benzinho, não aperte é a típica música bonitinha de Jovem Guarda, com letra adolescente e bem humorada.
Theme without a name é totalmente instrumental, coisas que os Brasas sabiam fazer com maestria.
Não vá me deixar é uma psicodelia das boas, com uma guitarra que marcou época e influenciou muita gente.
O álbum fecha com Sou triste por te amar, mais uma bela composição da dupla Tom Gomes e Luis Vagner, que aparece com cinco faixas no total.
O sucesso que poderia acontecer não chegou a se concretizar, pois no ano seguinte a banda acabou.
O caminho mais curioso -- e interessante -- sem dúvida foi o do Luis Vagner, que mergulhou no reggae e se tornou um dos músicos mais respeitados no estilo, além de ter ajudado a moldar o samba-rock, ritmo tão em voga hoje em dia.
Isso sem falar nas composições de ele que grandes artistas da música brasileira gravaram.
Por exemplo, a incensada Sílvia, 20 horas, domingo, gravada por o Ronnie Von num dos seus discos psicodélicos e regravada por a banda gaúcha Video Hits em 2001, é de autoria de ele.
Que tal?
E mesmo assim, é estranho pensar que na época tinha gente que torcia o nariz pra eles.
Ou nas palavras do meu pai, alguém que presenciou o surgimento dessas bandas nos anos 60, " Os Brasas eram meio mal vistos por muita gente.
Bandas como o Som 4 -- que tocava basicamente covers de Beatles -- faziam mais sucesso entre o pessoal».
Explica-se:
além de terem se formado num bairro de classe média baixa, (coisa que fazia diferença numa época de festas e shows em clubes tradicionais, por mais que hoje soe elitista e até descabido), eram uma banda local, e como se costuma fazer em lugares de caráter provinciano, o que vem de fora é sempre melhor.
Ouvindo o som de eles fica difícil conceber isso, mas acontecia.
E talvez aconteça até hoje, mesmo que em outra escala.
Tenho certeza que pessoas de outros estados têm exemplos parecidos pra dar.
Número de frases: 52
Certo? à redação da Revista Piauí
Queridos amigos:
Em primeiro lugar quero afirmar que estou convencido que vocês estão no caminho certo, isto é, desde o primeiro número podemos dizer que já temos uma revista com personalidade própria, as ilustrações em estilos variados, o tamanho diferenciado, a diagramação leve e agradável apesar do volume de texto ...
trata-se, porém, partindo deste princípio, de frizar que, no conjunto, piauí deixa muito a desejar quanto ao conteúdo.
E não se trata de criticar este ou aquele artigo, claro que alguns excelentes, como o da Danuza Leão e o belissimo ensaio fotográfico, e outros nem tanto ou até um pouco menos que isto.
Todos, entretanto, bastante bem escritos, «autorais» como parece ser a proposta da revista.
Em a propaganda vocês dizem que piauí é feita para que a gente tenha um mês para lê-la, mas eu não pude deixar de pensar em retrucar que teremos menos de meia-hora para esquecê-la a manter-se a revista nestes moldes.
Está faltando uma dosimetria, que, a meu ver, cabe aos editores (o fato de não ter editorial não implica na ausência de editores, não é não?).
Falta o que se costumava chamar «artigo (s) de fundo» ou «piéce de resistance», uma daquelas reportagens inesquecíveis de» O Cruzeiro «ou entrevista de» O Pasquim " dos tempos em que o Paulo Francis ainda morava no Brasil.
Algo que faça «quem gosta de ler» ficar com vontade de ler mais.
Repito, náo se trata de uma crítica a este ou àquele «piauilista» mas ao resultado final que me deixou, sinceramente, uma sensação de profunda irrelevancia.
A promessa de «esgotar o assunto» muitas vezes transformada em «esticar a falta de assunto».
Mas, mesmo assim, aguardo ansioso o próximo número, esperando que sustancialmente melhor que o primeiro!
beijos e abraços
Número de frases: 14
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
É incrível
É incrível
É incrível
A quantidade de bestialidade estampada aos sábados a partir das tantas da tarde
na deusa azulada, na minha deusa azulada ...
sentado, programado, acomodado
acostumado a desistir, a não agir
A instantaneamente sorrir frente ao estimulo azul
feitiço de minha amada ...
Oh amada Minha,
transforme Minha realidade decadente em bonita, formosa e bucólica novela das seis
Quero sinhazinha e sinhozinho, mucama e preto-véio
personagens da abolição
quero sentar e estimular minha autodestruição
Autofagia, Antropofagia reflexiva ...
em plena era da vida pré-definida ...
Prolongada e assistida por meios esternos
talvez extraterrenos ...
Número de frases: 19
Comecei minha viagem por os Cliffs of Moer, na Irlanda, joguei o olhar por sobre a relva, uma gaivota passou sacolejando, e o mar estava tão vazio de reflexos, quase sólido, o sol se escondeu nas nuvens;
fui para Positano correndo, muitos frêmitos no mar na beira do cubismo improvável das construções que entornam no vazio, o sol fez prismas oblicos no canto do olho;
corri para Palermo e embora estava quase escuro, ainda deu para ver o lusco fusco do porto sujo, uma nesga de vermelhidão cheia de pixels pretos;
era hora de ir para o leste mas Viena estava quebrada;
Moscou ainda reluzia esbranquiçada;
em Kiev só deu para chegar até porta do bar mas estava fechada;
depois foi Pequim, nem tem;
Tóquio não achei direito ou não entendi onde fica;
Sydney e os ventos quebravam as vistas;
Positano já fazia noite quando te capturei de volta e ninguém nas ruas;
Paris toda acesa;
Paraty chovia e não fiquei esperando.
Loucura de segundos.
Carreguei o banquinho para o telhado e fiquei esperando:
meio falso aquele pôr do sol de verdade.
Número de frases: 15
Pobre pequeno príncipe que não conhecia o http://www.earthcam.com
O sol intenso durante os dias, o céu estrelado e o luar nas noites formavam o cenário ideal para o Festival de Verão de Maués, cidade a 260 quilômetros de Manaus, capital do Amazonas.
O festival marca a abertura oficial da estação que produz opostos às imagens amazônicas que circulam o país e o mundo.
Começou a época das praias de rio, do esporte praticado na areia e dos reis da praia, tudo adequados ao modo de vida da região.
Se por aí o que rola é pegar a estrada para encontrar as melhores praias, aqui o lance é ligar o motor de popa e subir o rio Maués Açú.
A vida em Maués não é nada monótona.
A cidade vive sobre intensa agitação causada por as constantes festas realizadas no município, via de regra parcerias entre a prefeitura e a Ambev, empresa que explora o guaraná a 40 anos, e que há cinco aceitou abrir mão de R$ 10 milhões em incentivos fiscais.
O acordo mudou o planejamento da cidade.
O dinheiro foi distribuído para os setores de Turismo e Cultura, proporcionando a criação e incentivo às festas populares.
Foram ampliadas as manifestações religiosas, como o Festival da Vera Cruz, comunidade católica localizada à outra margem do rio, e «pagãs», Festa do Guaraná e Festival de Verão.
Estas duas últimas festas são os grandes eventos do município e recebem os maiores recursos -- que cobrem a vinda de atrações nacionais como Jota Quest, Araketu e Ivete Sangalo-, divulgação e que, por isso mesmo, atraem maior público.
São milhares de visitantes vindos de cidades vizinhas, de Manaus e de outros estados, especialmente do Pará -- de acordo com a Secretária de turismo.
O Festival de Verão de Maués, realizado nos últimos quatro anos durante o feriado da «Semana da Pátria», marca oficialmente o início da estação na cidade.
Em essa época, a rápida vazante dos rios e a escassez de chuvas aceleram o aparecimento dos bancos de areia, as praias de rio.
Em o mesmo compasso vem a cultura de praia e todas as suas relações simbólicas.
Aqui está aliado o universalismo alcançado por o biquíni ao localismo da ornamentação do mesmo biquíni com artesanato de origem Sateré-Mawé, grupo indígena dominante no município.
A Garota Verão do Festival de Maués, Josely Medeiros, 17 anos, desfilou com um biquíni de cor laranjada, que contrastava com a pele morena e os cabelos negros e lisos, tão típica quanto exótica.
«Represento bem a região, considerando os aspectos do meu tipo de beleza.
Não tenho descendência indígena, mas de ribeirinhos sim, com certeza», disse.
Josely foi declarada vencedora a partir dos critérios de desfile, beleza, simpatia e bronzeado -- este, confesso, me surpreendeu, mas é perfeitamente compreensível.
«Esse era meu sonho desde criança, porque pretendo seguir carreira de modelo.
Também quero continuar estudando e, nesse ano, vou fazer vestibular para Direito», disse a nova musa da cidade.
A morenice de Josely é exatamente o oposto da vencedora do ano passado, Denise dos Santos Lopes, 18, branca e loira, que disse ter aproveitado a temporada de musa.
«As pessoas da cidade passam a tratar você de um modo diferente, mais especial.
Aproveitei para conhecer mais pessoas e estreitar minha relação com outros».
As duas musas de diferentes verões, uma loira e outra morena, caracterizam bem a formação social da cidade.
Entre a população, há predomínio de caboclos, com seus olhos puxados e pele morena;
mas também há brancos de sardas, atraídos há tempos por a movimentação do capital em torno do guaraná.
Aos poucos, a festa de verão, toma ares de cultural e familiar.
A empresária Fátima Sherer levou os filhos para o Festival nas quatro noites de festa.
«Assim, a gente pode aproveitar para pegar uma praia também.
A gente aqui na cidade gosta muito essa época, porque tem chance de aproveitar esse visual lindo que são as formações de praias de rio.
O pessoal também ganha dinheiro, tem gente que vai lá para a Vera Cruz (praia da comunidade na outra margem do rio) para vender churrasquinho, cerveja», diz.
Turista de primeira viagem na região, o visualizador gráfico Raphael Maia elogiou a localidade.
«Fiquei muito impressionado com esse visual da cidade, que incorporou essa vida de praieiro.
Toda a infra-estrutura que eles tem é voltada para praia», disse, referindo-se aos hotéis, restaurantes, etc..
Durante os dias do festival, essa cultura de praia se torna um superespetáculo, com um grande palco instalado na praia para a apresentação das bandas -- interrompida a cada chuva de verão (afinal, é praia).
Em esse ano, foram mais de 60 horas de música ao vivo na praia Ponta da Maresia, com a participação do cantor e compositor baiano Ricardo Chaves, como atração nacional -- outro da turma dos surpreendidos.
«Me chamou a atenção o visual da cidade e da praia.
Para mim, que venho de uma região litorânea, é maravilhoso poder conhecer as praias de rio.
A praia, o rio, a lua compõem um visual muito bacana», afirmou.
A multidão que lotou a praia da Ponta da Maresia foi contagiada por o axé.
Enquanto muitos pulavam na areia, boa parte do público preferiu ancorar seus barcos e lanchas em frente à praia, de onde assistiram ao show.
Em tempo, o Festival de Verão de Maués teve investimento de R$ 400 mil, recursos da Prefeitura e da Ambev, mas precisa ter o formato rediscutido, principalmente, quanto ao retorno que traz ao município.
O evento -- por ser grande, atrair turistas e atrações nacionais -- aumenta a auto-estima da população, mas apenas superficialmente.
Efetivamente, fica muito pouco e não existem políticas públicas eficazes sobre o uso comum da localidade.
Não há salva-vidas ou atendimento de saúde, nem conscientização ambiental, por exemplo.
Após a pirotecnia, a praia está suja, a orla contaminada.
Os prejuízos em longo prazo serão tão notados quanto os benefícios, porém mais desastrosos.
Número de frases: 49
Há algum tempo venho desenvolvendo o projeto de um livro em decomposição.
É um livro com um formato e aparência comuns mas com prazo de validade.
Isso significa que a capa, as páginas e a costura vai se decompondo dentro de um período de tempo mais ou menos determinado.
Esse tempo vai variar de acordo com as condições de armazenamento e manuseio e, principalmente, em função do tratamento prévio do papel com a aplicação controlada de bactérias, fungos e reagentes químicos num processo que venho chamando de ' anti-conserva ção '.
Afinal, qual o tempo de vida de um livro?
E mais:
o livro pode ser um objeto de arte ou é apenas o suporte preferencial de um conteúdo artístico, literário?
Mas então qual o tempo de vida de uma obra de arte?
Talvez séculos no caso de uma escultura e alguns minutos no caso de uma performance.
E o tempo de vida torna a obra menos ou mais artística?
Além disso tem a questão de cunho sócio-econômico que permeia a produção editorial como um todo:
porque, num país com altos índices de analfabetismo, o livro custa tão caro?
O livro, sem dúvida, desde a idade média pelo menos, ou mesmo antes, ocupa um lugar de destaque no imaginário humano como um símbolo de poder e conhecimento, ou seja, como um objeto que atesta e comprova o status social daquele que o possui.
Mas o advento da tecnologia vem colocando em cheque diversos valores de nossa cultura e modificando hábitos centenários.
O livro, durante séculos, manteve-se como objeto sagrado de acúmulo e transmissão de conhecimento, indispensável no entrecurso de uma civilização que se estruturou de forma basicamente escrita.
Tem sido assim pelo menos desde Guttemberg.
Com o surgimento do chip em meados do século 20, a impressão em papel passa competir com o silício no armazenamento e transmissão do conhecimento.
Mas, antes de representar a derrocada do livro, talvez o chip tenha transformado o livro numa espécie de objeto de fetiche.
A rigor ele não é mais tão necessário, tão imprescindível, e no entanto nos apegamos a ele de tal forma que continuamos a considerá-lo mais prático para leitura, temos a necessidade tátil de manuseá-lo, muitas vezes identificamos até seu cheiro.
Apesar de podermos armazenar todo o conteúdo de uma biblioteca dentro de um simples disco rígido, apesar de termos hoje acesso gratuito e irrestrito a alguns dos principais acervos literários da humanidade e às principais obras ao alcance de um simples download, apesar da economia e praticidade prometida por os novos modelos de e-books, continuamos adquirindo livros, ocupando um espaço significativo em nossas estantes, lutando contra traças e fungos e relutando em emprestá-los até para os amigos mais próximos.
Pensando nessas questões iniciei minhas pesquisas com reagentes químicos (que me valeram algumas queimaduras e irritações na pele), fiz um curso de conservação de livros (que me causaram certo constrangimento com o professor, depois de explicados meus propósitos) e comecei minha colônia particular de cupins, fungos e bactérias (que me custaram parte da mobília e a corrosão de um relacionamento sólido).
Mas enfim, tudo por a arte!
Resolvi publicar aqui no Overmundo trechos desse work in progress -- antes que todo o papel se acabe!--
provisoriamente intitulado Livro em Decomposição:
Número de frases: 24
http://www.overmundo.com.br/banco/livro-em-decomposic ão Grupo cria Fórum de Investimento Privado em Cultura
fonte: GIFE -- Rodrigo Zavala
O GIFE, a Confederação Nacional da Indústria (CNI), por meio do Sesi-Nacional, o Serviço Nacional do Transporte (Senat), Instituto Itaú Cultural e o Ministério da Cultura lançaram na última terça-feira, dia 24 de abril, o Fórum de Investidores Privados em Cultura.
Em caráter permanente, a iniciativa pretende gerar orientação e um maior alinhamento para a atuação das empresas no campo cultural, além de possibilitar a articulação com políticas públicas do Estado.
Em o evento que deu origem ao Fórum, realizado no Instituto Itaú Cultural, em São Paulo, estavam presentes na platéia os maiores usuários da Lei Rouanet no país, entre outros atores representativos do investimento em Cultura, tal como representantes centrais do poder público.
«O debate serviu de insumo para um trabalho de planejamento, que orientou a criação do Fórum.
Este tem o objetivo de aprofundar e acelerar a transformação social brasileira a partir da Cultura Nacional, buscando constantemente equilibrar os interesses privados e públicos na utilização de incentivos fiscais para o setor», afirmou o presidente do GIFE, Hugo Barreto.
Para o ministro da Cultura, Gilberto Gil, a expectativa é que o Fórum seja uma instância de formulação e execução compartilhadas de políticas para o setor, nos moldes ao já praticado por o Comitê de Patrocínio das Empresas Estatais, coordenado por a Secretaria de Comunicação Social (Secom) do governo federal.
«Um espaço para a formação de entendimentos, onde a noção republicana de política pública, daquilo que ultrapassa a esfera estatal e a privada, se consolide, floresça, frutifique», argumentou.
A agenda do grupo, segundo os temas apontados por o ministro Gil, é extensa:
há o Plano Nacional da Cultura, as políticas de investimento na inclusão social por a cultura, a consolidação de conteúdos audiovisuais de qualidade, a execução de um programa contundente de livro e leitura, projetos de inovação, de entre outros.
«Os desafios da gestão de ações culturais são muitos e estão em constante processo de mudança.
Este é intenso e as leis de incentivo à cultura têm um importante papel a desempenhar, seja na perspectiva de política pública, seja sobre responsabilidade social, ou mesmo do estímulo e qualificação da produção do país», defendeu a gerente de Cultura do Sesi, Claudia Ramalho.
Todas as ações do grupo que coordena o Fórum, a cargo de representantes do GIFE, Sesi, Senat, Instituto Itaú Cultural e do MinC, serão consensuadas com os demais integrantes por vias, a princípio, virtuais.
No entanto, já está programado um evento de reunião com todos os participantes para meados do segundo semestre deste ano.
O secretário de Política Nacional de Cultura do Minc, Alfredo Manevy, chegou a dizer que se trata de um momento histórico, de um novo ciclo.
«É uma política que cabe ao ministério liderar, mas que cabe ao país como um todo.
O mercado será um capítulo importante a ser agregado ao Plano Nacional de Cultura, que conterá estratégias estruturantes e estruturais nas políticas do setor, tal como sua implementação e avaliação, com controle social».
Mercado -- Além das políticas compensatórias tradicionais, em que o Estado subsidia o acesso à produção e consumo, o mercado pode e deve ser um instrumento de cidadania cultural, na opinião do ministro.
«Afinal, a cultura gera renda, empregos e felicidade no Brasil e no mundo e tem sido um dos setores que mais cresce na nova economia mundial», defendeu.
A o argumentar sobre suas conclusões, o ministro Gil citou um recente estudo da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).
Segundo o levantamento, o setor cultural representa 5 % do Produto Interno Bruto (PIB) dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne 30 países desenvolvidos.
O percentual oscila nos países em desenvolvimento entre 3 e 5 %.
O mesmo estudo mostra também que, embora seja variável entre países, a geração de emprego por o setor é grande.
Em o Canadá, por exemplo, a Cultura ocupa 5 % da mão de obra;
nos Estados Unidos, 4 %;
e pode chegar ao expressivo 17 % de toda a força de trabalho da " África do Sul.
«O setor cultural no Brasil conta com 290 mil empresas culturais, responsáveis por a massa salarial de R$ 17,8 bilhões anuais.
Além disso, os trabalhadores recebem, em média, 5,1 salários mínimos, contra a média de 3,1 dos demais setores.
As atividades culturais movimentaram uma receita líquida de 156 bilhões de reais, 7,9 % de toda a economia brasileira», demonstrou o ministro, com base em pesquisa inédita realizada por o MinC.
Para Hugo Barreto, a visão consensual do grupo que compõe o Fórum é a de que a Cultura desempenha um papel fundamental para a construção da identidade do que é ser brasileiro, e, consequentemente, para uma inserção favorável do país numa economia global.
«Para isso, é necessário não só ter um alinhamento maior entre as agendas dos investimentos privados no setor cultural, como também entre estes e as políticas públicas da área, em particular com um Plano Nacional de Cultura, que tenha perspectiva de mais longo prazo», acredita.
http://www.gife.org.br/redegifeonline noticias.
Número de frases: 33
php? codigo = 7574 Villa Boa de Goyaz
Goiás, minha cidade ...
Eu sou aquela amorosa
De tuas ruas estreitas,
Curtas, Indecisas,
Entrando, Saindo,
Umas das outras.
Cora Coralina
Início do século XVIII.
Expulsos de Ouro Preto por os portugueses, os bandeirantes paulistas, aventureiros em expedições mais ou menos oficiais, adentram como nunca os sertões do planalto central da América do Sul, à procura do cobiçado ouro.
Empurravam para oeste a linha do Tratado de Tordesilhas, que dividia as terras do Novo Mundo entre portugueses e espanhóis.
Os reflexos da Serra Dourada reaparecem nas lembranças de Bartolomeu Bueno, o filho.
Quarenta anos antes, por volta de 1680, ele por ali havia passado com o pai, de mesmo nome e alcunha, Anhangüera.
Com cerca de 300 homens e incentivado por o Capitão-General de São Paulo, Rodrigo César de Menezes, Bartolomeu Bueno vaga durante cerca de três anos por regiões, inclusive onde hoje se ergue Brasília.
Intrigas, mortes, decepções, deserções, cansaço.
Nada o desanima.
Finalmente, com menos de um terço de seus homens e 73 anos de idade, após percorrer mais de 200 léguas, reencontra o Rio Vermelho e a desejada Serra Dourada.
Conta a lenda que Bartolomeu Bueno passou a ser chamado de Anhangüera, Diabo Velho, na língua dos nativos, quando, para forçar os índios Goyases a lhe indicar outros locais do rio fartos de ouro, teria usado um estratagema.
Ateando fogo à aguardente colocada numa bateia, disse aos índios que da mesma forma atearia fogo aos rios, caso eles não lhe indicassem os veios auríferos.
A partir daí, pouco ou nada mais se sabe desses índios, que tinham o corpo adornado com folhetas de ouro e na época do encontro com Bueno já se encontravam em extinção.
Mas, nas bateias ávidas, o ouro resplandece.
Inicia-se a corrida ao precioso metal.
Corre o ano do Senhor de 1727.
Bueno ergue uma capela dedicada à Nossa Senhora de Sant'Ana.
É nomeado Guarda-mor das minas dos Goyases, sem saber que iria morrer pobre, apesar de ter ajudado Portugal a incorporar ao futuro território brasileiro alguns milhões de quilômetros quadrados e a exportar mais de 170 toneladas de ouro.
Logo o pequeno arraial recebe o nome de Villa Boa de Goyaz, em homenagem ao descobridor.
Por volta de 1740, sua população, mais da metade composta de escravos, já atingia seis mil habitantes.
Em 1748, a Capitania de São Paulo é desmembrada em mais duas, Mato Grosso e Goiás.
O primeiro Capitão-General, Dom Marcos de Noronha, Conde dos Arcos, (1749-1755), transforma a vila em pequena capital.
Luiz da Cunha Menezes (1778-1783), faz o caminho inverso de Bueno.
Vindo da Bahia através do sertão, após governar Goyaz, onde elaborou o Prospecto de Villa Boa, de 1782, passa ao governo das Minas Gerais e em 1784 manda erguer a Casa de Câmara e Cadeia de Ouro Preto.
Começam a se interligar os destinos das duas vilas.
Ambas capitais de Capitanias, posteriormente substituídas por capitais jovens e planejadas, Belo Horizonte e Goiânia.
Hoje, igualmente, Goiás e Ouro Preto são bens inscritos na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco.
Mas, por aquela época, o Rio Vermelho, antes pródigo, torna-se avarento e os resultados da exploração do ouro decaem fortemente.
Em 1772 chega à cidade o Capitão-General Dom José de Almeida Vasconcelos, Barão de Mossâmedes.
Entre todos os governadores enviados por a coroa portuguesa, ele é o mais culto e de maior prestígio junto ao Rei de Portugal.
Pela primeira vez merecem atenção a instrução pública, o reagrupamento e conseqüente apaziguamento dos índios e o início dos trabalhos na lavoura, uma vez que a produção do ouro começava a diminuir.
Edifícios públicos são erguidos, ruas são pavimentadas e construídos os chafarizes da Carioca e de Cauda.
Um longo período de estagnação que adentrou o século XIX, provavelmente colaborou para manter as características da cidade, modesta e encantadora, único testemunho intacto da arquitetura bandeirista, embrião e precursora de duas cidades planejadas e destinadas à ocupação do centro geográfico do Brasil:
Goiânia, em 1934, como futura capital do estado de Goiás e Brasília, em 1960, como a moderna capital federal.
É nesta situação que, entre 1819 e 1825, a encontram os viajantes europeus Saint-Hilaire, francês, Pohl, austríaco e Burchell, inglês.
Este último, exímio desenhista, nos legou magníficas ilustrações da cidadezinha emoldurada por a Serra Dourada e por os morros do Cantagalo e Dom Francisco.
Saint-Hilaire e Pohl, por sua vez, deixaram interessantíssimas anotações, não apenas da flora, mas também de personagens e seus costumes.
Verifica-se que esses costumes, algumas vezes apontados como decadentes por a distância da civilização, de uma forma ou de outra, em sua essência, permanecem atuais.
Em certas passagens, as descrições desses sábios do início do século XIX poderiam estar sendo lidas num jornal de nossos dias.
Vejamos a curiosa conversa entre Saint-Hilaire e o 8º Capitão General da Capitania de Mato Grosso, Dom João Carlos Augusto d' Oeynhausen Grevenberg, que já havia deixado Villa Bella da Santíssima Trindade, capital de Mato Grosso, para assumir o governo de São Paulo, onde se encontraram.
Comentando sobre as dificuldades de se governar em tão longas distâncias, d' Oeynhausen relatava que " na vida administrativa de um Capitão-General havia três fases:
febre com delírio, febre sem delírio e prostração.
O General partia para sua capitania sem conhecê-la, sabendo unicamente que se tratava de um território novo, onde tudo estava por fazer;
traçava grandes planos para debelar o atraso e a miséria;
pensava imortalizar-se arrancando aquelas vastidões da barbárie em que se encontravam.
Era a febre com delírio.
Chegado ao seu governo, percebia imediatamente que aqueles planos concebidos em Lisboa ou no Rio de Janeiro não eram aplicáveis no interior do Brasil.
Procurava reformá-los, conformá-los com a realidade, cheio ainda de entusiasmo.
A febre sem delírio.
Os desenganos, a indiferença total com que eram recebidos seus planos de reformas, acabavam por vencê-lo.
Caía na prostração geral, no ritmo sem tempo das capitanias do interior».
O sábio francês anota ainda que, nas várias vezes em que jantou no Palácio do Governador, junto com outros convivas, sempre havia vinho à mesa.
Entretanto, somente no primeiro dia o Governador ofereceu-lhe um copo e apenas os dois provaram do vinho.
Em as outras ocasiões a garrafa ficava apenas ornamentando a mesa.
Lembra ainda o francês que na mesma oportunidade uma bandeja de esplêndidas uvas moscatel foi inutilmente cobiçada por os convivas.
Ele mais uma vez foi o único favorecido e achou-as excelentes.
Observou que esses eram artigos caros e escassos.
Quando chegava um novo Capitão-General havia momentos de terror entre os homens casados, pois os Capitães, sem exceção, chegavam solteiros.
Até que ele escolhesse sua amante, todos os homens ficavam em sobressalto.
O mesmo Governador, Fernando Delgado (1809-1820), apresentando duas crianças a Saint-Hilaire, comentou:
«o senhor acha que eu poderia me casar com a mãe destas crianças, com a filha de um carpinteiro?"
E era apenas o indício do triste fim de Fernando Delgado.
Deixando a Capitania, antes de embarcar para Lisboa, entre a dúvida de levar a filha do carpinteiro ou não, acabou pondo fim à própria vida.
Saint-Hilaire observou, assim como Pohl, a extrema habilidade dos artesãos de Villa Boa, fato que pode ser comprovado até os nossos dias.
Os trabalhos em cerâmica, madeira e palha demonstram a habilidade e a capacidade de assimilação da arte indígena e do negro.
Assim, o escultor maior de Goiás, Antonio Joaquim da Veiga Valle, sem nunca ter deixado a Província, produziu entre 1840 e 1860 aproximadamente, o maior e mais belo acervo de arte sacra do Centro-Oeste, podendo ser admirado no Museu de Arte Sacra, hoje instalado na antiga Igreja da Boa Morte.
Essas verdadeiras obras-primas da estatuária brasileira somente foram reconhecidas recentemente, apesar de Veiga Valle ter sido notado pela primeira vez pouco antes de 1950.
A habilidade das doceiras também faz parte da tradição da cidade.
De os alfenins -- delicados doces de polvilho e açúcar em figura de flores, animais -- de dona Sílvia, no Largo do Chafariz aos doces cristalizados de Cora Coralina, na ponte da Lapa.
A alma da poetisa e doceira, também tardiamente, quando ela já tinha 70 anos, extrapolou fronteiras, e hoje faz parte da vida de Goiás;
a Casa Velha da Ponte, guardando sua história, é hoje um dos museus mais visitados da cidade.
Essa velha casa, barco centenário ancorado às margens do Rio Vermelho, velho documentário de passados tempos, tem resistido aos homens e intempéries.
Em a enchente do dia 31 de dezembro de 2001, milagrosamente sofreu poucas avarias, mesmo com as águas lavando seu interior, com uma fúria que tantos estragos causou nas vizinhas edificações.
Poucas são as cidades no Brasil que mantiveram intactas tanto sua fisionomia, expressa por a arquitetura dos séculos XVIII e XIX, seu traçado urbano espontâneo, sua paisagem natural envoltória tal qual a encontraram os bandeirantes, como suas tradições cotidianas.
Festas, música, culinária e o bate-papo na calçada ao final da tarde.
As pedras irregulares dos calçamentos, em calma centenária, sustentam a pressa dos pés descalços dos farricocos na grande procissão do Fogaréu, na quarta-feira santa.
Dezenas desses encapuzados, seguidos de centenas de fiéis carregando tochas, com as luzes da cidade apagadas, em noite de lua cheia, saem à procura do Cristo em centenária tradição, única a persistir no Brasil e cujas origens se perdem em Portugal e na Espanha da Idade Media.
O centro histórico torna-se palco para a dramática encenação e na frente de cada igreja representa-se um ato da paixão de Cristo.
Assim a descreve a poeta goiana, Augusta Faro Fleury de Melo:
... Tochas num jogo de fogo / de batuques doloridos / de ritmos cansados do humano corcel / Serpente de Fogo / clamas de longe / lembranças e séculos / Encapuzadas memórias / quase correm /percorrem/esse tempo / sem tempo.
Mesmo os sinos, a informar missas, mortes, casamentos, cada um com seu som e badalar característicos, são percussionados em tradição, que passa de pai para filho.
O sineiro atual da Igreja de São Francisco de Assis, conhecido como «Zé Tachinha», é filho de Zé» Prego», que antes de ele, por longos anos, cuidou dessa atividade.
De a mesma forma a tradição musical, que nos trouxe excelente acervo do passado, continua nos dias atuais, produzindo intérpretes e compositores do mais alto quilate.
Em a pintura, Goiandira do Couto, utilizando uma inimaginável quantidade de cores extraídas das areias coloridas da Serra Dourada, reproduz as praças e becos de Goiás.
O apego às tradições, entretanto, não significa algo estático e saudosista, simplesmente.
Pelo contrário, a cidade responde com vibrações intensas não apenas no dia-a-dia, mas também quando sua auto-estima coletiva é solicitada.
Veja-se o caso do recente título de Patrimônio Mundial, outorgado em dezembro de 2001.
Ao contrário das demais cidades históricas brasileiras, cujas solicitações foram oficiais, em Goiás tudo partiu de iniciativas da própria comunidade, que induziu as instituições governamentais a fazer a solicitação.
A partir daí, grandes obras têm sido levadas a cabo, não apenas por o governo, mas também por empresas e organizações não-governamentais.
Merecem ser citadas a substituição da fiação aérea de energia elétrica e telefone por rede subterrânea e a conclusão da rede de esgotos sanitários.
Esta, com a conseqüente despoluição do Rio Vermelho.
Com a tragédia de 31 de dezembro de 2001, quando as águas do Rio Vermelho, em rápida enchente, destruíram considerável numero de edificações à sua margem, a cidade uniu-se e conclamou os organismos governamentais, inclusive a Unesco, em grande esforço de reconstrução.
Hoje quase tudo foi reerguido.
Paradoxalmente, a área atingida está agora melhor do que antes, em sua maior parte.
Explica-se isto por o fato de que, entre as edificações destruídas por as águas, encontravam-se algumas que destoavam grandemente do conjunto, por razões diversas.
Durante a reconstrução buscou-se a recomposição de sua originalidade.
Isso se deu graças ao grande acervo de fotografias antigas existente, possibilitando assim, às instituições encarregadas da preservação, indicar as características a serem adotadas no restauro.
Também já não faz parte das lembranças da cidade um outro chuvoso dia de 1937, quando o Governador Pedro Ludovico, de forma traumática, transfere a capital do Estado para Goiânia, cidade nova e para isso construída.
Entretanto, não resta dúvida que essa dolorida decisão propiciou a preservação do que hoje conhecemos.
De suas praças, por exemplo, encadeadas por becos e ruas tortuosas, instaladas em ambas as margens do rio Vermelho, o que faz com que sejam ligadas por as pontes do Carmo, da Lapa, da Nova e da Cambaúba, todas de madeira, além de duas mais recentes, em concreto.
E assim, do século XXI, podemos observar como se adaptaram ao cerrado brasileiro, distante e inculto, em lenta e persistente viagem, atravessando oceanos, quer de água ou de vegetação, em caravelas ou carros de boi, trazidos por os bandeirantes paulistas, o urbanismo e a arquitetura que praticavam os portugueses no século XVIII.
Villa Boa de Goyaz, sombreada por os ipês de flores amarelas e aromatizada por o cheiro do pequi e do cajazinho, aninhada em carinhoso abraço da Serra Dourada, entrelaçada por o Rio Vermelho que lhe deu a vida, mas que vez por outra sai de suas margens, raivoso, a cobrar o que lhe retiraram das entranhas.
Villa Boa de Goyas, a antiga capital, por tradição, volta a ser Capital nos últimos dias do mês de julho de cada ano.
A partir de 25 de julho, aniversário de sua fundação, o Governador volta a ocupar por alguns dias o Palácio construído por o primeiro Capitão-General.
Referencias Bibliográficas:
Coralina,
Cora. Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais.
São Paulo, Ed. Global, 1985.
Melo, Augusta Faro Fleury de.
De o rio de Janeiro a Goyaz, a viagem era assim ...
SAINT-HILAIRE, Auguste de.
Viagem à Província de Goiás.
Belo Horizonte, Ed. Itatiaia;
Paulo, Ed. Universidade de São Paulo, 1975.
Número de frases: 121
Um Território Cultural quase Desconhecido, nesse país chamado Brasil
O Território Cultural Brasileiro é algo que precisa ser descoberto com uma certa urgência.
Todos sabem que ele existe e que tem mercado mas falta os garimpeiros, daí os mais ignorantes ficam criando slogans absurdos como «a prata da casa» ou «artista da terra», pra identificar o cara que tem um valor danado (e prata não vale nada), um talento pra muitas gerações e que além disso não é de Marte, nem de Saturno, é daqui de o planeta terra.
Para explorar o território cultural brasileiro é preciso ter coragem, ter visão de mercado, de investimento a médio e longo prazo, prazo suficiente para lapidar as preciosidades artísticas e culturais espalhadas por todo o território em questão, formar público e acabar de vez com aqueles que alimentam o estado da desconfiança, que exigem que todos comprem discos, telas, filmes, espetáculos, etc., mas quando você pergunta se ele tem tais produtos a decepção é grande por que o cara não tem nada!
Não vai a shows, não vai ao teatro e nunca comprou sequer, um cordel.
Tais pessoas representam uma grande área de areia movediça neste território cultural ainda desconhecido.
Quando falo do povo desta região, lembro de seres que vieram de lá, como a nossa Zabé da Loca, a maior tocadora de ' pife ' (pífano) da Paraíba, garimpada por o fotógrafo e produtor cultural Ricardo Peixoto (Agência Ensaio), a partir do Sítio Tungão no município de Monteiro, em 2000.
Outros nomes como Cachimbinho e Mousinho, que estão recebendo toda a produção do Valber Santos (Casa de Cultura Livardo Alves) com financiamentos do Fundo de Incentivo a Cultura-FIC, Lei Augusto dos Anjos -- do governo do estado da Paraíba, também vieram do distante território.
Andei conversando recentemente com duas pessoas que conseguiram sair de lá, o cantor e compositor Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, que no exato momento em que eu escrevia essa coluna, mostrava toda sua performance no Maracanã, na abertura dos Jogos Pan-Americanos, no Rio de Janeiro, e me disse que, lá no Território Cultural Brasileiro tem tanta novidade que só mesmo as autoridades para o «desenvolvimento cultural» não conseguem ver.
Em outra conversa descontraída com o ator José Dumont, no ponto de cultura do Folia de Rua, ouvindo atentamente a fala pausada do ator, noto toda sua preocupação com o escoamento da produção cultural e a falta de um planejamento que proporcione maior acessibilidade aos profissionais do setor.
É claro que avançamos muito!
em João Pessoa está sendo erguida a Estação Ciência, Cultura e Artes, um mega projeto arquitetônico assinado por Oscar Niemeyer, dotado de torre / mirante com restaurante e terraço panorâmico com visão de 360 graus, auditório com 518 lugares, um anfiteatro para 300 pessoas, lojas de artesanato e lanchonetes, salas audiovisuais para exposições permanentes, salas de convenções e um belíssimo espelho d' água.
Tudo isso poderá ser utilizado a serviço do território desconhecido e a partir daí, quem sabe, possamos nos encher de orgulho toda vez que, ao ligar a tv, dar de cara com um Chico César cantando na abertura do Pan, da Copa ...
o'neguim ' que tava lá na cidade de Catolé do Rocha, Paraíba, onde mantém a instituição filantrópica Beradêros, que cuida da meninada de lá e até já levou a garotada pra visitar a Europa.
Já faz um tempinho que não falo com o Chico que antes de se tornar famoso protagonizou um dos maiores movimentos na Universidade federal da Paraíba -- UFPB, exigindo mudanças nos serviços do restaurante universitário, fazendo greve de fome.
Os paraibanos sempre tiveram orgulho dos seus artistas e sempre souberam compreender suas posições políticas, sem forçar a barra, como aquela atitude de um determinado grupo político ligado a empresas de comunicação que acusou, julgou e condenou a cantora Elba Ramalho, tirando-a até, do desfile do bloco Muriçocas do Miramar, por sua posição contrária a transposição das águas do Rio São Francisco.
Esquenta não Elba, pois até os puxa-sacos precisam mostrar serviço.
Voltemos então ao Território Cultural Brasileiro, por que veio de lá o nosso humorista mais famoso, o Nairon Barreto, que ficou conhecido como Zé Paraíba e Zé Lezin, um legítimo personagem matuto paraibano que já fazia muito sucesso antes mesmo de sair do território desconhecido e ser contratado por a Rede Globo.
Lembro bem que o Empresário Henrique Lara (Projecta) foi um dos primeiros parceiros do humorista, eu também andei dando minha forcinha ao cara, que costumava ir lá no meu trabalho, onde a gente fazia um pouco do material de divulgação dos shows do Nairon.
O humorista é um dos que acreditam na organização do turismo com a arte e a cultura, para que os talentos ocultos finalmente sejam revelados ao mundo.
Acho que o sonho do Nairon Barreto pode virar realidade a partir da Estação Ciência, Cultura e Arte e também, do Centro de Convenções de João Pessoa, um complexo gigantesco com 19.346m2 de área para feiras e exposições, um centro de congressos com 13.641m2, teatro com 3000 lugares, passarelas cobertas, heliponto, praça do relógio de sol, estacionamento para 1900 carros e ônibus, espelho d' água com fontes e um lago de 15.000m2, tudo isto numa área total de 342.000 m2 e que vai garantir a preservação de mais 111.483 m2 de mata nativa e 230.517 m2 de urbanização de jardins, ruas e passeios.
Foi o Nairon quem disse:
«Um país do tamanho do nosso, com toda essa biodiversidade ...
no mesmo dia tem um lugar no Brasil que neva e outro que faz um calor de 40 graus.
Temos o turismo ecológico, o turismo de ciência como o Vale dos Dinossauros em Souza e a Pedra do Ingá.
Falta organizar isso tudo para que dê certo».
Então, Nairon, parece que estamos chegando lá, apesar do abandono em que se encontram o Vale e a Pedra, recentemente denunciado por o jornalista e produtor cultural Carlos Aranha, estamos chegando, mas cabe também aos artistas e agentes culturais ampliarem suas redes, organizarem-se juridicamente, ocupar todos os espaços possíveis -- físicos e de discussões de políticas culturais e do terceiro setor, só assim, aliados (também) ao turismo, iremos descobrir o Território Cultural Brasileiro, tão produtivo, tão rico mas tão ignorado.
Número de frases: 27
Nilson Sótero-Divulgador Cultural-Mundi
Apenas filmes chineses (ou quase).
O padrão não foi intencional, mas depois de montar inadvertidamente esta grade temática, achei divertido.
Saindo de manhã de casa, fui obrigado a ir diretamente ao cinema sem almoçar, tapeando o estômago apenas com alguns pães de queijo.
Tudo começou com:
Solstício de Verão -- Unibanco Arteplex 12:30
A seção começou exatamente no horário, e estava «acompanhado» por dois amigos presentes na sala, mas em diferentes lugares pois cada um chegou num momento diferente.
O filme é o que recebeu minha nota mais baixa até então na mostra 2 em 5;
uma decepção.
A copia enviada também não ajudou, a qualidade era péssima.
Para piorar minha situação, calculei errado sua duração e percebi durante a seção que chegaria atrasado no próximo filme.
Considerei abandonar o filme antes do final (algo que jamais fiz na vida), e sõ não o fiz pois estava sentado bem ao centro da fileira, e eu teria que atrapalhar várias pessoas para ir embora.
Aguentei até o final e depois corri para chegar com 20 minutos de atraso em:
O Ano do Peixe -- Cine Bombril 14:00
Mesmo estando atrasado deu pra pegar o filme num ponto bom, e num lugar razoável.
É aqui em que dou uma pequena trapaceada no Dia do Dragão.
É um filme Estado-Unidense, mas rodado inteiramente em Chinatown.
Uma adaptação da versão chinesa de Cinderela é um filme leve e divertido, talvez tenha dado uma nota maior do que ele merecia (4 em 5), estou em dúvida até agora, algo que mesmo em dúvida fiz questão -- ao sair exigi uma cédula de votação, que os funcionários da mostra demoraram um pouquinho para conseguir, mas o fizeram (em retrospecto eu simplesmente deveria ter me abstido de votar, não tendo visto o filme todo, não posso avaliá-lo 100 %).
Foi bom ao menos me sentir satisfeito com o filme que estava vendo, e agora tinha bastante tempo para fazer uma refeição de verdade, que eu gostaria que fosse comida chinesa, mas não sei de nenhum restaurante razoável na região, então acabei por comer um macarrão italiano mesmo.
Ainda com tempo, comprei ingressos extras para o filme surpresa do dia, que veria com uma amiga.
Depois do intervalo hora de me dirigir para:
Perdido em Pequim -- HSBC Belas Artes 17:20
De essa vez propriamente acompanhado por um dos amigos que estavam em Solstício de Verão, ainda esbarrei com uma ex-professora na fila.
Meu lugar não era dos melhores, mas dava pra passar.
Entre meus amigos ultra-cinéfilos o Belas Artes é a sala mais odiada, e começo a entender porquê.
O filme é satisfatório, e agora há um novo intervalo para outros encontros com conhecidos e debates sobre a mostra antes de fechar o Dia do Dragão.
Lust, Caution -- CineSesc 20:30
O tal filme surpresa.
Quando minha amiga me convidou para vê-lo achei uma coincidência felicíssima, pois assim manteria meu padrão do dia.
O primeiro filme que vejo que está previsto para estrear.
Abri uma exceção pois não sei se terei outra oportunidade de vê-lo acompanhado e porque os preços da mostra são um pouco mais camaradas que os de cinema normal.
Considerando o horário e a direção (Ang Lee) eu esperava uma seção movimentada, mas não completamente lotada como de fato estava;
com direito a bronca depois de um único comentário meu feito durante os créditos iniciais.
Aqui não houve um erro no cálculo da duração, eu simplesmente sequer a olhei, e depois de perceber o quanto o filme era longo me arrependi de não ter insistido para assisti-lo no bar, onde poderia esticar as pernas à vontade (minhas costas ainda estão sofrendo).
Número de frases: 34
Apesar dos problemas com as legendas eletrônicas no início da seção, posso dizer que esse foi o melhor filme que vi na mostra até agora, nota 4 convicto ....
vou remar para o Rio de Janeiro para poder chegar lá e nunca mais poder voltar " ¹.
Uma vez, estava com os meus livros expostos no ICBA, quando veio um cara falar com mim:
-- Eu também escrevi um livro e estou procurando um lugar para lançá-lo, você indicaria algum?
Sugeri a ele que fizesse na Tom do Saber ou na midialouca, dando-lhos respectivos contatos.
Um tempo depois, li no jornal que um novo escritor baiano estaria lançando um livro na Tom do Saber, mas, por a foto do jornal, não o reconheci.
Nem lembrava do nome.
Fui ao lançamento, olhei o livro, me interessei e fui falar com o autor, que, quando me viu, falou com mim como se já me conhecesse.
-- Você que me indicou o lançamento do meu livro aqui, lembra não?
Lembrava apenas que tinha indicado para alguém, do diálogo no ICBA, mas não de ele, nem da sua fisionomia.
Alguns dias se passaram e recebi um telefonema de um amigo, perguntando se eu tinha o interesse de trabalhar numa agência de propaganda, por o período de três meses.
Chego pra trabalhar no primeiro dia e o cara do livro era um dos redatores da agência, Ismar Nascimento, que também é o vocalista da banda baiana Cissa Guimarães.
Trabalha do meu lado.
Seu livro é de Haikai, poesia japonesa, de textos curtos, como:
Velhice --
Hein?
Não escutei
O que disse
Não sei se são os 30, para muitos ainda sou jovem, mas não me vejo mais em alguma banda.
Ficar posando ao lado de outras pessoas para a foto de banda me tem parecido constrangedor, assim como estar num palco.
Hoje eu desconfio de qualquer banda que apareça na capa da frente do disco.
Outro fator que me fez perder a vontade é o de ter de sair de casa pra ensaiar.
Como os meus amigos estão nos 30, todo mundo trabalha e só pode ensaiar à noite, até tarde da noite.
E pior do que ensaio é dia de show.
Carregar a bateria para o elevador, do elevador para o carro, do carro para o palco, do palco para o carro, do carro para o elevador, do elevador para a casa ...
Encheu o saco.
Já gravar, não, é diferente.
Gravar é massa.
Se for só pra gravar, me chame que tô colado.
Contanto que seja pra gravar sem ensaiar.
Ensaia na hora.
Banda, ensaio, criar conta no myspace, tirar foto, carregar instrumento ...
Se a missão é se comunicar, achei melhor escrever.
Cheguei ao Rio de Janeiro para o lançamento do livro, 07 de agosto.
Copacabana, dia de luz, festa de sol e um barquinho a deslizar no macio azul do mar².
Me instalei e liguei para a Dudare, baixista da banda baiana Cof Damu.
Gravaram um disco, fizeram shows por Salvador, assinaram com um selo carioca que vai distribuir o disco e foram todos morar no Rio de Janeiro.
Estão lá desde maio deste ano.
Em a véspera da viagem, disse a ele que a fórmula do sucesso, quando se vai morar com uma banda, era seguir três regras:
1) Manter a casa sempre limpa e arrumada.
2) Ter plantas na casa.
3) A três não posso falar, mas tem a ver com plantas também.
-- A gente se encontra onde?--
perguntei, ao telefone.
-- Em a Praça do Lido, sabe onde é?--
disse ele.
Não sabia, mas descobri.
Nos encontramos na tal praça, que é em Copacabana, e fomos para o apartamento em que a banda está hospedada, ali do lado.
Por o que observei, só o item 3 estava sendo seguido.
Em a sala, uma mesa com três notebooks e dezenas de cabos conectados e entrelaçados;
uma televisão com um videogame (com mais cabos emaranhados);
um sofá com guitarras, violões, baixos, teclados e diversos instrumentos de percussão, emaranhados;
e uma vista para diversas janelas do prédio vizinho.
Outro móvel que chama a atenção na sala é o freezer.
-- Era um freezer, mas virou armário -- disse Verônica, voz, flauta e violão da banda.
É de ela também as composições da banda.
-- Em a verdade, era armário, mas a geladeira quebrou e então a gente fez ele de geladeira, e quando a geladeira consertou, a gente voltou a fazer ele de armário, só que depois, tudo que a gente colocou dentro, mofou.
CDs, DVDs, revistas, livros e outras coisinhas mais ...--
explicou Dudare.
Agora estavam «desmofando» o freezer para que ele volte a ser armário.
Em a cozinha, um fogão com diversas panelas ainda gordurosas do miojo da noite retrasada;
uma pia cheia de copos e pratos, igualmente engordurados (quase pedi uma esponja) e uma geladeira.
Abri a geladeira.
-- Essa geladeira, semana passada, se alguém fosse abrir, todo mundo tinha que sair do raio de cinco metros, pois na sala dava pra sentir o fedor -- disse Daniela, produtora da banda.
A geladeira quebrou, coisas apodreceram e, quando deram conta, já era tarde.
Em o fundo, um quartinho onde o baterista Cláudio montou sua bateria, e o banheiro externo, que estava no nível de limpeza da casa.
Dentro desta, dois quartos e outro banheiro, tão desencorajador quanto o externo.
Me garantiram que na casa não tinha baratas, pois, do jeito que estava, nem as baratas queriam ficar ali.
-- Por outro lado, acho que novos tipos de insetos estão sendo criados.
Cada dia vejo um diferente -- disse Verônica.
Pagam 1800 reais por mês de aluguel e tiveram um custo a mais de 150 reais com a geladeira, «que não ficou 100 %», segundo Verônica.
Uma diarista custa 50 reais.
Tem tempo que não chamam uma.
Um estúdio de ensaio custa 30 reais a hora.
-- Ensaiar é mais importante -- garantiram.
-- E como estão sustentando esses custos todos?
O rock tá pagando?--
perguntei.
A gravadora com que eles assinaram não garante o orçamento.
Sua tarefa é a de fazer a prensagem dos discos, o lançamento e distribui-lo para a imprensa, produtores e lojas.
Alguns membros da banda estão trabalhando em «trabalhos normais», mas todos não podem fazer isso, pois alguém tem que trabalhar de verdade.
Procurar casas de show, fechar contratos, produzir eventos, ter idéias para que a banda se desenvolva ...
-- Estamos vendo a possibilidade de vender acarajé -- disse, seriamente, Daniela, que também é a que melhor cozinha na casa.
Por sinal, todos disseram ter emagrecido muito.
Os shows ainda estão raros e, pra fechar as contas no fim do mês, vão «fazer barzinho», tocando músicas de outros artistas, porém com outro nome.
Não iriam usar Cof Damu.
-- E qual seria o nome?--
perguntei.
-- Bender -- disseram, em homenagem ao robô homônimo, que só pensa em dinheiro, no desenho animado Futurama, distração coletiva que tem salvado a banda do tédio.
Toda noite tem uma sessão de Futurama, cujos DVDs da primeira, segunda e terceira temporadas, milagrosamente, não mofaram no freezer.
Verônica reclama da falta de luz natural do apartamento.
As únicas janelas ficam de frente para o prédio do lado, deixando os dias escuros e sem inspiração.
Todos na casa estavam de preto.
-- E a convivência?
Como estão se agüentando?
Ficaram pensando, procurando a palavra ideal pra descrever como é conviver, de uma hora pra outra, com mais cinco pessoas completamente diferentes de você, num apartamento pequeno e mal iluminado.
Depois de muito pensarem, dizendo coisas vagas como «é difícil»,» é meio complicado», Dudare se adiantou e concluiu numa frase:
-- Rapaz, eu nunca imaginei que algum dia iria ver alguém da banda peidando na frente de Verônica.
Verônica concordou de imediato, dizendo que hoje em dia isso é normal.
Que, no começo, a bagunça a incomodava, mas que aos poucos aprendeu a suportar, principalmente com a ajuda de muita concentração interior, alem da fé no sonho.
A banda teve uma significativa exposição no jornal O Globo, com um texto elogiando o trabalho da banda e fazendo ligação com os Novos Baianos, banda que também saiu da Bahia e foi morar no Rio de Janeiro e blá, blá ...
Saí de lá com uma mistura de pensamentos.
Um sentimento de alívio, por mim mesmo, e uma demasiada atenção, por o fato curioso de que, no dia em que chego pra lançar meu livro, que tem como base o enredo «bandas de rock da Bahia», onde conto, entre outras coisas, algumas experiências minhas viajando com bandas em busca de alguma coisa, visito uma banda de rock da Bahia, no Rio de Janeiro, batalhando por todos aqueles sonhos.
Junto com o meu alivio, veio também um sentimento de admiração por eles, por ainda acreditarem no caminho do rock, de montar uma banda, compor músicas, gravar e sonhar que aquilo vai realizar aquela alguma coisa que se busca, mas que ninguém sabe o que é.
É preciso ter coragem, tanto pra seguir esse caminho, como para confessar que quer seguir esse caminho.
O lançamento do livro foi massa.
Revi muitos amigos, cariocas e baianos que estão morando no Rio.
Alguns de eles, personagens do livro.
Também conheci outros tantos, uns que já conhecia por e-mails, outros que foram a convite de outros e outros que conheciam algumas bandas em que toquei.
Junto com o meu livro, eu entregava de brinde, além dos lápis de cera, um exemplar do livro de Ismar, que tem um formato menor do que de um livro de bolso.
Um dia antes de eu viajar, na agência, ele me deu 32 livros e disse «entregue para quem você quiser».
Pensei «vou entregar pra quem comprar».
Vendi exatos 32 livros.
Caymmi morreu uma semana depois de minha volta a Salvador.
Mary, mulher de Dudare, que também está morando no Rio, ficou pirada por o fato de Caymmi ter sido enterrado lá:
-- O cara só cantou a Bahia, só falava do mar da Bahia, tudo era o mar da Bahia, e vai ser enterrado no Rio?
Não me conformo -- queixava-se.
Estava pirada.
Disse que deviam mudar o nome da Av..
Dorival Caymmi, em Itapuã, para a Av..
Xuxa Meneghel.
Liguei para a Paulinho, dono da midialouca, pra falar da morte de Caymmi e do lançamento do livro.
Paulinho também está morando no Rio, mas, justamente, na época do lançamento, ele estaria por um tempo em Salvador.
Ele tem um acervo pessoal, que se transformou num museu muito bem apresentável, sobre o roqueiro baiano Dorival Caymmi, outro que saiu da Bahia e foi morar no Rio de Janeiro.
Em seu acervo, constam discos autografados, cartazes de filmes, cartas e desenhos feitos por o próprio Caymmi.
-- O prédio onde moro, no Rio de Janeiro, é do lado do prédio de ele.
De o meu apartamento dá pra ver a sala do apartamento de ele -- disse Paulinho.
Ele descobriu que era vizinho de Dorival quando viu alguns quadros e reconheceu ser desenhos de Caymmi e achou que se tratava de um outro fã, até que depois soube que se tratava do próprio quem morava lá.
-- Não tive coragem de ir lá.
-- Onde fica o apartamento?--
perguntei.
-- Em a Praça do Lido, sabe onde é?
Enquanto isso, no livro de Ismar:
Retorno a Itapuã
Sob a sombra do coqueiro
Vou passar
O dia inteiro (
1) Doze badaladas, de Coelho e Dirceu, por Jorge Cabeleira e o Dia em que Seremos Todos Inúteis.
Número de frases: 138
(2) O barquinho, de Menescal e Boscoli, por João Gilberto (outro roqueiro baiano que foi morar no Rio de Janeiro)
Certa vez li um comentário do Fabrício Carpinejar dizendo que o livro Até o dia em que o cão morreu (Daniel Galera) seria uma obra que definiria a geração dos anos noventa.
Agora chega aos cinemas, com grande apelo da mídia, o filme Cão Sem Dono, gravado com direção de Beto Brant.
Respeito muito o trabalho do Galera, no entanto, Até o dia em que o cão morreu, assim como o filme Cão Sem Dono (Brasil / 2007), não passa perto de definir a geração de noventa.
A narrativa do romance retrata a visão limitada de um jovem de classe média e da falta de um sentido para sua vida, a solução para o problema é a proposta de viagem para o exterior apresentada por a personagem Marcela ao final da história.
Contrapondo o filme ao livro, percebi o filme ainda mais vago que a história original.
O cachorro Churras, ícone fundamental da história escrita, é meramente um figurante na versão da película.
Momentos de reflexão do protagonista são deixados de lado, diálogos apresentados de forma simplória e a excelente cena do passeio noturno de moto foi descartada.
Em entrevista à TVERS, escutei um representante do Clube do Silêncio (Co-Produtora de Cão Sem Dono) afirmar que se trata de um filme seco, assim como a narrativa do livro.
Bem, não podemos confundir seco com largado.
Em uma das cenas iniciais, a personagem Marcela diz:
«Vou deixar meu telefone aqui.
Se estiver afim, liga.».
Não se deixa passar um «estiver» assim, quando estamos tratando da fala de Porto Alegre.
Quanto mais seco -- entenda-se por seco:
sem elementos extras, como efeitos de luz, som e etc..-- mais devem ser cuidados detalhes de representação, pois é nisso que o público foca a atenção.
O filme de Beto Brant conta com algumas cenas de representações lamentáveis como as em que aparece Luiz Carlos V. Coelho -- porteiro Elomar.
Em a sua Crônica Falada (Programa Talk Radio -- Rádio Ipanema) Cardoso comparou a importância para o cinema brasileiro do personagem Ciro de Cão Sem Dono ao Lorenço, protagonista de O Cheiro do Ralo (Brasil / 2007), vivido por Selton Mello.
Comparação infeliz.
Selton Melo realmente consegue dar sentido para a expressão «filme seco».
O Cheiro do Ralo também é um filme com poucos recursos de som e luz, no entanto todos os atores representam muito bem, até mesmo o ilustrador e autor da história Lourenço Mutarelli.
Retornando à questão de representação da geração dos anos noventa, vi um filme neste final de semana que realmente merece este crédito.
Trata-se de outro cachorro, Alpha Dog (Eua / 2007).
O filme conta a história de como o traficante playboy Jesse James Hollywood saiu da sua tranqüila vida de adolescente classe média-alta para se tornar num procurado por o FBI.
Poderia ser apenas mais uma história de traficantes americana, mas o diretor Nick Cassavetes, consegue retratar o ritmo de uma juventude sem limites e ingênua a ponto de achar que um seqüestro não é nada de mais.
Destaco a cena da morte do «refém» -- que se torna amigo dos seqüestradores.
Em este momento é notável a falta de rumos e limites da geração de noventa, pois, sem saber ao certo o motivo, dois adolescentes matam o rapaz de apenas quinze anos com o qual se identificavam.
Gostaria de observar que na sou um profundo admirador do cinema americano, mas temos que perder a mania porto-alegrense de achar que podemos fazer arte de qualquer jeito e sempre nos considerarmos melhores.
Número de frases: 28
Mesmo Beto Brant e sua produtora sendo de São Paulo, sabemos que Cão Sem Dono tem essência porto-alegrense na produção.
Mais uma vez ocupar espaço pra falar de Casa Popular De Cultura, uma necessidade da comunidade artística que precisa de um local, um lugar para desenvolver seus dotes.
Uma Casa Popular De Cultura não precisa ser grande, precisa ser funcional.
É preciso descentralizar e isto não quer dizer, levar um grupo pra lá, trazer um grupo pra cá, não!
Descentralizar é atender as necessidades básicas do grupo respeitando tudo o que for decidido.
Uma Casa Popular De Cultura pode facilmente ser assumida por a comunidade, basta um pouco de coragem e empenho de indivíduos ou grupos dispostos a assumir com seriedade o papel de agente cultural e não somente o de agente político partidário.
Sinto que é preciso pensar tais espaços toda vez que vou coordenar a Semana da Arte NA Comunidade, iniciativa da Juventude Democrata e Jovens em Ação, quando reunimos milhares de jovens em pontos diferentes da cidade, nas periferias, levando música, teatro, dança e discussão cultural às comunidades excluídas do banquete promovido com dinheiro público que fica na mão de uma minoria que conhecemos muito bem.
Em estes encontros, em nossas conversas, ouvimos as pessoas que não tem com quem conversar sobre arte e cultura pois não existe hoje, oficialmente na capital paraibana um órgão ou uma assessoria de cultura, que se proponha a fazê-lo.
Também não estou querendo dizer que a iniciativa tenha que partir do poder público, mas que o mesmo pode tomar essa decisão por dispor de infinitas condições além do dinheiro público que deve voltar ao contribuinte.
Se tivéssemos uma Casa Popular De Cultura, teríamos um espaço para tais discussões.
Os espaços físicos estão ficando cada dia mais escassos;
já não temos o Ateliê Casa Velha, o Círculo Operário ...
já estivemos próximos de uma Casa Popular De Cultura, quando artistas, produtores e intelectuais se reuniam em torno de uma idéia chamada movimento cultural.
A revitalização de praças, atividade principal dos gestores municipais pode levar a instalação de uma Casa Popular De Cultura, se for pensada com alguém do setor.
De o jeito que é dito e feito, sob a vontade limitada de secretários de esporte que quando falam de esporte só pensam em futebol, vôlei e basquete, fica difícil!
Os antigos Centros da Juventude, também podem servir como Casa Popular De Cultura, basta que o gerente seja dado a prática e à discussão da cultura e não apenas um apadrinhado que chega pra fazer tudo que seu mestre mandar.
Os Centros Sociais Urbanos, famosos CSUs, também podem ser ocupados por a comunidade artística e ensinar aos gerentes como elaborar um plano de ação cultural para aquela determinada comunidade e não ficar apenas naquele chove não molha, de cursos vagabundos e inúteis que são levados para justificar os cabides de empregos.
A principal resistência em instalar uma Casa Popular De Cultura é o medo, medo dos gestores, de estar criando uma sociedade rebelde, dona do próprio nariz, o que não é verdade pois o artista é um indivíduo sensível que sabe dar a contrapartida, sabe ser parceiro dos homens de bem.
É bem verdade que aqui na capital paraibana, artistas e produtores tem avançado e grandes ações culturais e artísticas já ocupam espaços na cena nacional, como é o caso do Carnaval Folia de Rua e Muriçocas do Miramar, nossa prévia carnavalesca com blocos que chegam arrastar até 500 mil pessoas por as ruas da cidade.
O artesanato paraibano é outra realidade bem sucedida que movimenta milhões de reais a cada ano, são negócios que precisam ser discutidos em outros níveis e em outros segmentos, a partir de uma Casa Popular De Cultura que possa garantir a referência como selo de qualidade por que a qualidade é quase tudo no mercado que paga.
Há poucos dias eu participei de uma reunião no Gabinete Cultural onde a preocupação principal era justamente a qualidade.
Kaká Santa Cruz, Adeildo Vieira, Gláucia Lima, Escurinho, Beto Brito, Kennedy Costa, Lau Siqueira, Fuba, Cassiano Pedra, Alex Madureira e outros que estavam presentes eram unânimes, a conversa apontava para a capacitação de técnicos, roadies, iluminadores, produtores e tal ...
marketing especializado, jornalistas especializados, é isso aí!
Mas, e a continuidade?
O fomento?
Quem sabe se tivéssemos uma Casa Popular De Cultura, o processo não seria diferente!
Pense nisso você também, o fazer cultural não pode mais ser feito nas coxas, tem que ser encarado como produto, tem que ter mercado e o mercado é exigente, não compra porcaria, você compra?
Então estamos conversado.
Número de frases: 28
Os dias 1º e 2 de setembro possivelmente foram dois dos dias mais incomuns na história recente do redivivo Circo Voador.
Porque, e especialmente para gente jovem carioca, é automático o fato de associar o lugar a grandes e barulhentas platéias, o som sempre alto que vaza para a galera que instala-se junto às grades (do lado de fora) e a movimentação causada nas imediações.
Quem antes fazia tal associação e passou por lá para conferir o movimento nos dias 1º e 2 de setembro tomou um baita susto e o festival Sensorial / Minimal era a principal razão disso.
A iniciativa, ao que tudo indica, era juntar atrações que, através da música, provocassem todo tipo de sensação (primeiro dia) e sensação alguma (segundo dia).
Para tanto estavam lá, na sexta, o projeto de dub / reggae Los Sebozos Postizos e o post-rock do Tortoise e no sábado, o minimalismo, ou melhor, a ausência de sensações por conta de Adriana Calcanhotto, do rapper francês Spleen e do duo Cocorosie, o main act.
Raras são as oportunidades -- no Rio de Janeiro, no Circo Voador -- de se ver, ao vivo, música que destoe do (embora ainda frutífero) lugar-comum «baixo, bateria, guitarra e voz» e que leve a platéia a outros níveis de percepção.
Além disso, convenhamos:
não é todo dia que se pode ver bandas com duas baterias e dois xilofones (Tortoise), harpa e piano de cauda (Cocorosie) e um show de rap sem um DJ (Spleen).
Primeiro dia
Havia uma paz imperturbável em cada esquina da Lapa na sexta, dia 1º.
O clima fresco e a pouca chuva mantiveram a quantidade de pessoas em número razoável, sem as conhecidas multidões que geralmente habitam calçadas, botecos e casas de show do bairro.
Passava um pouco das dez horas e o movimento de bilheteria do Circo Voador era calmo como enterro de indigente.
A impontualidade, velha conhecida dos shows no Rio de Janeiro, atacava, impiedosa.
O material de divulgação dizia «22h em ponto», restava saber o quê começava pontualmente às dez.
Enfim, às 22h45 uma lona preta que cobria o teto da bilheteria do Circo foi retirada e começaram a surgir baterias (duas), uma, duas, três guitarras e um enorme telão ao fundo.
A banda carioca Binário inaugurou o evento mostrando durante quase hora e meia um proto-postrock caboclo, barulhento, calcado na repetição de acordes percussivos distorcidos, por vezes desconexo, perfeito apenas como trilha sonora das projeções (ruins) ao fundo.
Para fazermos aqui uma comparação pobre, o Binário é um «Pink Floyd júnior e sem classe».
A idéia, seja lá de quem tenha sido, de ocupar o espaço sobre a bilheteria foi ótima, exceto por o fato de que os Arcos da Lapa bloqueavam a visão de quem não estava na área delimitada (restrita por a segurança) em frente à entrada do Circo.
O Binário encerrou sua apresentação convidando o público a entrar.
Convite aceito, lógico.
Mais impontualidade.
Somente à meia noite e vinte Los Sebozos Postizos entraram no palco.
A banda, simplesmente a Nação Zumbi com outro nome, baseia seu repertório em versões (muito bem arranjadas) dub / reggae de músicas do repertório de Jorge Ben (jor).
Quando o coro de Os Alquimistas estão chegando ecoou pesado por o Circo, via-se que a noite prometia;
O homem da gravata florida arrematou e confirmou essa sensação.
Não há nada de profundamente errado com o projeto.
O clima evocado por os excelentes rearranjos das canções do Babulina é ótimo, com sérias chances de passar a excelente não fosse a voz chinfrim e desafinada de Jorge Du Peixe.
Aliás, durante toda a apresentação, o vocalista dos Sebozos / Nação opera um dispositivo que imprime efeitos à sua voz, disfarçando sua pouca potência vocal sem passar vergonha.
Uma hora depois e duas músicas a menos do que o planejado, os LSP encerraram e prepararam terreno para «Um show do caralho» nas palavras de Du Peixe.
Ele falava do Tortoise e eram uma e vinte da manhã.
A sensação geral era de que mais meia hora e a banda de Chicago atacaria.
Ledo engano.
Somente às duas e quinze da manhã é que banda se postou diante de algo menos que mil pessoas, não para um show, mas para um experimento estético.
É fato que certas coisas do rock, especialmente quando ele é executado ao vivo, evocam um curioso tipo de fetichismo.
De a forma que uma banda se organiza no palco, passando por a roupas de cena e instrumentos que usa -- sem falar das poses que faz -- tudo colabora (ou joga contra) uma banda diante do público.
Pode parecer idiota dizer isso, mas era perceptível entre a platéia a incredulidade diante do que estava sendo montado no palco.
Duas baterias -- montadas uma frente à outra, ambas em primeiro plano, dois xilofones, dois baixos, duas guitarras, teclados e o telão ao fundo.
O Tortoise é, em última análise, a evolução (natural) do Wall of Sound de Phil Spector, influenciado por o eletrônico e por o jazz (cool e avantgarde).
Pode-se sentir influências do Kraut-rock, mas pouca gente sabe do que isso se trata.
Quem esperava (boa parte da platéia, diga-se) por um show de rock «convencional» ficou a maior parte do tempo procurando a esperança por os cantos do Circo;
Aqueles (poucos, diga-se também) que sabiam o que estava porvir, no entanto, se deliciaram.
Reunindo canções encontradas na maioria de seus seis discos -- alguma ênfase no brilhante disco de 96 Millions Now Living Will Never Die -- o quinteto de Chicago, que reveza-se a cada música entre a penca de instrumentos em cena, tocou por quase duas horas para um público que passou do ansioso ao entediado rápido.
Em dado momento, e como reflexo desse tédio, entre uma canção e outra, surgiu entre a platéia quem gritasse em alto e bom som «Cadê a música???».
Estava ali, bastava um pouco de boa vontade para ouvi-la.
Fim do primeiro dia de festival, fim da parte sensorial do negócio.
Que venham os minimais.
Segundo dia
A paz e a tranqüilidade da véspera, por incrível que pareça, permaneceram no segundo e último dia do Sensorial / Minimal.
O público, bastante inferior ao de sexta, parecia ter intenções diversas daquele de um dia antes.
Enquanto no teatro Odisséia a festa de um ano do Mercadão Mistureba (?)
rendia uma imensa fila em frente ao 66 da Mem de Sá e, do outro lado da rua, no Estrela da Lapa, uma fila quilométrica se formava para o show do Bossacucanova, no Circo Voador imperava a tranqüilidade de um público pequeno e educado.
E o clima austero, ordeiro e pacífico da platéia traduziu-se em música pontualmente às onze e meia da noite.
Adriana Calcanhotto (violão, guitarra e cello) -- amparada por Moreno Veloso (violão, cello e pandeiro) e Domenico Lancelotti (sampler, violão e pandeiro) -- começou seu show num tom tão discreto -- bem próprio da cantora -- que até aqueles em frente ao palco demoraram a entender que tinha começado.
Era, pasmem, o início de um sábado quase zen na Lapa.
A platéia de pronto estabeleceu isso quando se arregimentou em cadeiras por quase toda a pista, em frente ao palco.
Calcanhotto, uma das mais criativas artistas brasileiras, não faz música barata, de apelo fácil, com etiqueta de preço.
Cercou-se de batidas eletrônicas -- ' operadas ' por Domenico em duas baterias eletrônicas MPC 1000 -- e comedimento vocal para fazer uma apresentação delicada e simpática.
Óbvio, e não haveria de ser de outra forma, arrolou canções conhecidas de seu repertório -- a quase infantil Assim sem você, seu hit Vambora -- e aproveitou para refazer Music, de Madonna e Tive Razão de Seu Jorge.
Tamanha era a serenidade entre o público e palco que, na volta para o bis, Calcanhotto disse «Vamos tocar a primeira porque ninguém ouviu» e alguém da platéia emendou com «Toca a segunda também!».
Risos gerais, da cantora e dos músicos, inclusive.
O relógio informava que faltavam vinte minutos para uma da manhã quando o rapper Spleen tomou o palco com sua banda.
Aliás, bom explicar como era a «banda» distinto rapaz:
Ben (guitarrista / baixista) e Tez, um sujeito fantasiado de figurante de A Vingança dos Nerds, o responsável por o beatbox (reproduzir batidas com a boca, em resumo).
«Rap sem DJ» soava promissor.
Com uma camiseta laranja-desespero e óculos de aro preto grosso que fariam Jô Soares corar de vergonha, Tez, de fato, era a banda.
Spleen? Um mero detalhe, cantando um rap até de bom gosto, pena que em francês.
O beatboxer (se assim for chamado) não só reproduzia batidas como fazia teclados, baixo, guitarras e vozes (principais e de apoio).
Impressionante, mas beatbox é como solo de bateria:
nos primeiros dez minutos é «curioso» e «divertido».
Meia hora depois, fica «entendiante» e «chato».
E foi durante quase meia hora -- de uma em que Spleen «cantou» -- que Tez brindou a platéia com uma sinfonia da técnica.
De «zen» para «chato».
Uma interminável espera e finalmente, por volta de duas da manhã, o duo americano radicado na França Cocorosie fez-se presente.
É difícil identificar que tipo de música afinal de contas fazem as irmãs Bianca e Sierra Casady.
Em a falta de termo melhor, tentemos «extravagante» ou um tipo de música que somente pessoas com dinheiro sobrando se dariam ao trabalho de fazer.
Porque colocar piano de cauda, harpa, canto lírico (para dizer «Somos eruditas ") junto com batidas programadas e brinquedinhos sonoros, desses de criança, que reproduzem sons de animais (para dizer» Somos avantgarde, a música é um brinquedo lúdico ") não engana mais ninguém.
Mas aí, já não é mais música.
«Elas fazem arte moderna», comentou um conhecido ator brasileiro que assistia ao show discretamente do alto das arquibancadas.
Diante da perplexidade do repórter, esse mesmo ator completou, para depois emendar com uma gargalhada repreendida por «pssss» irritados:
Número de frases: 79
«Mas é chato para a cacete!» ....
o homossexualismo?
Deus não condena nada.
Ele não é tirano ou vingativo, pois se fosse não seria Deus.
A primeira lei eterna:
Ele é Amor!
Então se Ele é amor, Ele não pode condenar.
O Amor é casado com a Compreensão.
Eternamente.
Dizem que a bíblia, uma escritura sagrada escrita por o homem, condena todas as bibas.
Mentira. Ela condena práticas e não pessoas.
Não se deve levar tudo ao pé da letra.
Moralismo antigo servia para os tempos antigos.
Precisamos adaptar a Palavra para a realidade atual.
Vamos dividir o Ser Gay das Práticas Gays.
Que raio é isso?
Ser gay, como a própria frase diz, é uma opção que você escolhe.
Nada na vida é imposto.
Tudo é uma questão de escolha.
Temos o livre arbítrio para ser e fazer o que quisermos, em qualquer tempo e em qualquer lugar.
Ser gay, sentir atração física e emocional por o mesmo sexo não é uma abominação.
É algo natural.
E existe desde os tempos mais remotos, entre os homens e também entre os animais.
Somos minoria?
Talvez, mas isso não importa.
Porque acima de tudo somos seres humanos.
O Filho disse:
«Amai-vos uns aos outros como eu vos amei».
O amor real e fraternal é a resposta para tudo nesta vida.
É o único caminho para a Felicidade.
Tolerância, Compreensão e Equilíbrio são a trinca para um alicerce seguro na existência e na evolução do homem, não importando quais sejam os seus princípios pessoais, morais ou religiosos.
Imposição e Egoísmo são as piores pragas que criamos para o entrave da nossa evolução.
Sempre queremos que as coisas sejam de acordo com o nosso bel prazer.
Dificilmente cedemos terreno para que o outro possa equilibra-se e adaptar-se em nossa sintonia.
Somos egoístas.
Todos nós.
Ser gay é uma opção.
De aí você vem me dizer que num belo dia, você «virou» uma flor e passou a distribuir o seu pólen purpurínico (!!)
aos quatro ventos. E ai você «virou» gay.
Ou que por causa do seu vizinho que te comeu aos treze anos de idade, você virou biba devido à trágica experiência vivida (que você adorou, com certeza).
E é claro que o seu «maldoso» vizinho hoje é casado, tem vinte filhos, vive uma vida normal e foi o culpado por a sua «degeneração».
Santa Vítima do Pau Ôco! Quanta bobagem «vitimêsca»!
Ninguém «vira» nada.
Pois para virar alguma coisa você tem que optar, tem que escolher se quer ou não ser ou fazer algo.
Concordo que muitas vezes o ambiente ou as pessoas podem influenciar em nossas decisões pessoais ao longo da vida.
Mas no final, sempre, é você que decide o seu caminho.
Deus lhe deu a vida.
Ele deu a você a chance de atingir a perfeição através dos seus próprios atos.
Quando você encarna numa vida terrena (por favor, não misture suas ideologias religiosas com a lógica dos fatos), é você que escolhe o caminho a seguir.
Existe sim a Lei de Causa e Efeito.
Tudo o que você plantou (escolheu), não importa em que plano ou situação, você um dia irá colher.
Se você é gay nesta vida é porque você assim o desejou, para enfrentar essa existência e aprender com as opções escolhidas.
E se o Plano Superior lhe impôs essa condição, é porque algo foi feito de sua parte em relação às pessoas com quem você conviveu, sendo que a sexualidade imposta passa a ser uma «provação».
Sobre esses detalhes estou sempre aberto a discussões.
Deus joga tênis enquanto você trepa com o vizinho.
Os anjos da guarda assistem o Telecine Premium enquanto você bate aquela punheta vendo a GMagazine.
Isto é, a Espiritualidade não se envolve com as questões sexuais escolhidas por cada um.
Ela usa a intuição e a consciência como elo de ligação entre o mundo superior e o homem.
Muitas vezes você sente a presença do Divino ao seu lado.
O Divino sugere o que pode ser feito.
Mas é você quem decide o que deve ser feito.
Temos o mau hábito de reclamar de tudo.
Somos sempre vítimas das circunstâncias.
Esquecemos que somos seres privilegiados.
Nenhum gay é desprovido de inteligência e criatividade acima do normal.
Estamos acima da média do resto do mundo -- isso também é um fato.
A capacidade criativa, de inteligência e de sobrevivência do homossexual deveria ser motivo de estudos intensos por os cientistas mais sérios.
Não existe biba burra (senão ela nasceria hétero, claro -- brincadeirinha!).
O problema é que usamos nossas capacidades internas para proteção e ataque constante à um mundo que julgamos a nos condenar.
O enrustido perde tempo em encontrar meios à todo instante para negar o que se é e o que se vive na clandestinidade.
Já alguns assumidos «assumem» demais, usando da extravagância, do sensacionalismo e do banal para «defenderem» aquilo que são.
E nesse jogo todo muitas vezes utiliza-se da palavra «pecado» para justificar a nossa incompetência para enfrentar a vida como ela deve ser vivida.
Por comodismo, alguém nos diz o que é imoral e proibido e nos conformamos em achar que somos a «escória» do universo.
É fácil sentir-se vítima.
É difícil erguer a cabeça e encarar os fatos reais e realizar o que deve ser feito.
O Cristo e seu Paizinho são usados como baluarte por algumas pessoas e instituições religiosas e fanáticas desprovidas de amor para maltratarem a «minoria», seja ela gay, negra, pobre, etc..
Usam uma palavra divina, porém defasada como arma para agredir àqueles que não se encaixam em suas realidades.
Onde está o «amar um ao outro»?
Onde está o «Deus é Amor»?
São frases que tornam-se perdidas no meio de letras miúdas.
Usam «Deus» para agredir os outros de maneira egoísta.
Usam «Jesus» para impor o seu egoísmo.
Não quero que você deixe de lado ou se revolte com a sua religião.
Desejo que você compreenda que todos nós poderíamos viver em harmonia se acatássemos a Verdade escondida dentro de cada um, implantanda por Deus.
Somos culpados por aparentemente não sermos aceitos numa sociedade que julgamos racista, homofóbica ou coisa que o valha.
Ao invés de procurarmos ser «normais» no sentido da boa convivência e do bom senso, não ...
muitas vezes buscamos o escracho, a «viadagem» como forma de protesto por sermos «diferentes».
Práticas Gays.
Seria tudo muito mais fácil se agíssemos com o próximo da mesma maneira que gostaríamos que ele agisse com nós.
Seria tudo tão mais fácil se ao encontrarmos alguém que nos interessasse, seja para um ato de prazer ou para algo mais profundo, usássemos do diálogo direto e sem rodeios para atingirmos o que julgamos ideal.
Seria melhor se em primeiro lugar respeitássemos o espaço do próximo e ensinássemos à ele como respeitar o nosso espaço.
Temos essa capacidade.
Mas não a utilizamos devidamente.
Claro, é difícil nos aceitarmos como somos -- assumirmos a nós mesmos -- e agirmos como gostaríamos de agir perante os outros.
Quando digo que deveríamos ser «normais», me refiro a um tipo de comportamento ideal e equilibrado, tanto para homos, quanto para héteros, não importa.
Seria tão mais fácil conhecer, conversar, namorar, dialogar, curtir, «casar» e viver em paz na medida do possível com quem quer que seja.
Mas não, afinal, temos o dom de complicamos tudo, sempre.
Transformamos tudo numa praça de guerra.
Criamos medos infundados.
Queremos tudo no imediato.
Pense bem.
Analise os seus atos.
Olhe ao seu redor.
Tem muito gay por ai que vive numa boa, sendo tolerado por a sociedade em que convive.
E isso nada tem em comum com posição social, formação religiosa, etc..
Tem à ver com o respeito e dignidade.
Você pode mudar o mundo.
Mas comece mundando o seu mundo.
Garanto que o Pai lá de cima vai-lhe dar a maior força para que você encontre o caminho dourado, de preferência ao lado de um ótimo companheiro, que esteja disposto a caminhar junto com você, com as suas limitações, com os seus defeitos e com as suas virtudes.
Faça da sua existência algo que valha a pena ser vivida.
Mude o seu prisma da visão do mundo para que as afinidades vibratórias que comandam o universo passem a conspirar à seu favor.
Pessoas com a mesma afinidade são unidas, como amigas, parentes ou amores.
Isso é outra lei imutável.
-- Você merece o que você pode oferecer.
Justo e simples
Se você é uma louca desvairada em busca de aventuras passageiras, é isso que você vai encontrar por o caminho até o dia em que você acordar.
Se você é uma biba sonhadora, aproveite o sonhos e transforme-os em realidade.
Se você é enrustido, pare de sofrer a toa e canalize sua energia para algo superior.
E se você é assumido, aproveite para soltar a franga no Carnaval e nas cavalgadas entre quatro paredes.
Em o resto do tempo, use a sua alegria de viver, a sua energia positiva e a sua garra para ajudar àqueles que não conseguem compreender um estado de espírito.
Assim, você vai se tornar uma pessoa melhor.
Os anjos vão estar ao seu lado para proteger e guiar da melhor maneira possível o seu caminho, sem interferir no seu livre arbítrio.
E o Fofo lá de cima estará cada vez mais contente e satisfeito por a sua evolução e progresso conquistado.
Para que você possa um dia voltar à perfeição dos primeiros tempos.
Olhar Em aquele Rosto Divino e dizer-Lhe em alto e bom som:
«Pai, obrigado por dar-ma chance de ser feliz ...
novamente!" Deus é Amor ...
Número de frases: 127
e pronto!
Uma idéia que nasceu em novembro de 2001 agora se concretiza.
O livro Continental -- A Rádio Rebelde de Roberto Marinho será lançado no dia 29 de novembro em Porto Alegre.
A idéia era escrever um livro sobre a Rádio Continental da Porto Alegre dos Anos 70 e encartar um CD com as gravações dos músicos gaúchos que a rádio produzia e rodava.
àquela altura, sequer sabia se as fitas existiam.
Poucas rádios preservam a sua história.
Ainda mais uma emissora que havia mudado de administração e de programação em 1980 e trocado de dono em 1986.
Mas a história da 1120 é especial.
O ex-chefe de operações da Continental, Francisco Anele Filho, o monsieur Anele, guardou as gravações dos músicos porto-alegrenses que rodavam nos anos 70 na Rádio Continental -- A Superquente.
Graças também a Júlio Fürst, o Mr. Lee, -- que foi o primeiro guardião das fitas -- um importante capítulo da história da música de Porto Alegre está preservado.
E volta a emocionar os ouvintes da Continental e ser conhecido por as novas gerações.
Com as gravações preservadas por Anele, um CD será encartado no livro.
Além da história ligada à música de Porto Alegre, a Continental vinha, desde 1971, num embate com a ditadura militar.
Dirigida por Fernando Westphalen, o Judeu, a rádio coleciona punições, ameaças da direita, e várias «visitas» são feitas por diretores e redatores à sede da Censura para explicações sobre os textos.
Uma história puxa a outra, e as entrevistas e buscas de documentos são feitas ao longo de seis anos.
Foram ouvidas 90 pessoas, algumas várias vezes.
Em Brasília, o Arquivo Nacional fornece boa documentação:
partes do arquivo do SNI sobre a rádio.
Em Porto Alegre, o Museu Hipólito da Costa oferece coleções de vários jornais de Porto Alegre, muitos fora de circulação.
Ex-funcionários e ouvintes têm algum material guardado.
A o iniciar o trabalho, queria saber que fim tinham levado as gravações originais da 1120. Não me conformava com o fato de que nunca mais iria ouvir aquelas fitas.
Enfim, assim como eu tenho as minhas lembranças da Continental, sei que milhares de outras pessoas têm as suas.
Então é hora de conhecer um pouco mais destas histórias.
De um tempo em que os jovens tinham ' a sua rádio ' com muito orgulho.
Espero que gostem.
Tanto quem conheceu como quem nunca ouviu falar da Rádio Continental.
Foi o que sempre desejei durante a realização do trabalho.
Parte dos textos e áudios estão em www.
continental 1120.
com. br..
Em o site também está disponível a Rádio Sem Fronteiras, com algumas gravações da Continental.
O lançamento do livro será às 19h do dia 29 de novembro de 2007 na Livraria Cultura de Porto Alegre.
Número de frases: 32
Acabei de procurar no Houaiss o significado da riquíssima expressão «uai» e vi que ela não existe no léxico formal da língua portuguesa.
Vou tentar uma aproximação:
Uai significa algo como a manifestação da banalidade da existência e da insignificância do ser humano diante da vastidão do universo.
Exemplo: " Parece que vai chover."
«Uai, nessa época ..." o que vale dizer:
«Não adianta chorar, a chuva vai molhar e é bom ir procurando um guarda chuva."
Ou então:
«Onde você estava ontem?"
«Uai, tava no boteco bebendo." Uai, nesse caso, revela a obviedade da resposta.
Ela é tão clara, tão límpida e cristalina, que necessita desse neologismo caipira para reafirmar seu conteúdo:
«É lógico que eu estava no boteco bebendo.
Onde mais estaria?
Afinal de contas sou um alcoolatra."
Uai pode ser usado em vários contextos, mas é como manifestação do óbvio latente e escancarado quer exprime seu mais profundo significado.
E exprime também uma espécie de consciência anterior a algum tipo de revelação -- até mesmo metafísica.
Se deus se revelasse para o matuto em todo o seu esplendor ele apenas responderia:
«Uai, eu já sabia."
É tipo de expressão que Alberto Caeiro -- o heterônimo de Pessoa que despreza complexas estrtuturas filosóficas em prol de uma natureza limpa e crua, cortada por árvores, montanhas e flores, gostaria.
E além disso, por ser formada exclusivamente por três vogais, a expressão é bastante musical e agradável aos ouvidos.
É estranho que até hoje não se tenha composto uma música popular cujo refrão fosse composto de uais.
Algo do tipo:
«Uai, meu amor, pra onde você vai?
Ai, ai ..."
Ué é a variante urbana do uai rural.
Significa mais ou menos a mesma coisa.
Agora, se me perguntarem porque uso o neologismo urbanizado e não sua matriz rural, respondo simplesmente:
Número de frases: 26
«Ué, porque é mais curto."
A Confraria dos Atores
Em busca de um teatro autêntico, seis artistas se uniram e fundaram no ano de 2004 a Confraria dos Atores.
O grupo vem aprimorando o contato entre o ator e a platéia, transformando essa característica numa das mais marcantes da companhia.
Em cada trabalho a presença do ator enquanto criador do processo cênico é marcante, sempre tentando aproximar o público do trabalho e transformá-lo em agente instigador da pesquisa.
A Confraria dos Atores, que em sua filosofia prega o teatro como instrumento de descobertas, pretende estabelecer com seu público uma relação de troca.
Ao passo que levamos materiais para que eles possam se questionar enquanto seres, a própria companhia se transforma ao receber de eles o estímulo necessário para estabelecer esse «ritual» cênico.
Em os últimos anos nosso estado experimenta um fervilhar de produções focadas na arte enquanto transformadora da realidade.
A Confraria dos Atores, inserida nesse contexto, apresenta espetáculos pautados na contemporaneidade, obras essas que extrapolam o nível do espetáculo, partindo para a visceralidade das sensações.
Outros Quintanas
A partir do convite do SESC Mato Grosso em 2006, através do projeto «Leitura de Movimentos», que tem a finalidade de fomentar a pesquisa, a reflexão e a produção da dança contempôranea, surgiu o espetáculo Outros Quintanas, um desafio para a Confraria dos Atores.
Sem qualquer formação na área de dança, os atores da companhia buscaram traduzir as sensações e os sentimentos, a livre expressão do corpo num conjunto cênico-literário.
A resposta do público foi tão positiva que a companhia se propôs a dar continuidade ao projeto, reformulando-o.
Hoje, o espetáculo é formatado para espaços abertos, tais como:
praças, parques, jardins, etc..
Como é característico do trabalho da Confraria dos Atores, o público é convidado a participar tomando café ou adentrando no espaço cênico com a mesma liberdade de um ator.
De a leitura, interpretação dos poemas e da pesquisa da vida do autor encontramos um ambiente característico do universo de criação de Mario Quintana:
sozinho num quarto, fumando cigarros, bebendo café, escrevendo à lápis, a poesia surge.
A trilha sonora original de Emanuel Vitor -- executada ao vivo -- foi composta a partir da relação dos poemas com as tonalidades das interpretações e o ambiente de encenação.
Utilizando violão e pandeiro surgiram os timbres e texturas das músicas que ora sublinham, ora pontuam, ora permeiam, ora dialogam, ora contrapõem o trabalho de Quintana e dos atores.
Em meio a esse ambiente que «outros quintanas» se apropriam da poesia para criar movimentos, impressões, sensações e paladares.
Ofertando poemas e musicando sentimentos a Confraria dos Atores apresenta sua leitura particular de Mario Quintana.
Ficha Técnica
Direção: Benone Lopes -- Elenco:
Benone Lopes, Karina Figueredo, Jan Moura, Talita Figueiredo -- Música:
Emanuel Vitor -- Produção:
Luciano Paullo -- Realização:
Confraria dos Atores
Não deixe de acompanhar nosso diário:
fotos, textos e outros pensamentos da Confraria dos Atores no Blog:
Número de frases: 30
www.confrariadosatores.zip.net
Nascido no Rio de Janeiro no fim do século XIX, o choro foi cultivado por grandes nomes da música popular, como Pixinguinha e Ernesto Nazareth.
Gênero musical em compasso binário e geralmente em três partes, cada uma em tonalidade diferente, o choro desenvolveu-se a partir da forma «chorada», que dá uma impressão de melancolia, de onde provém o nome.
De expressão quase sempre sentimental, o choro, também conhecido por chorinho, pode ser às vezes alegre e brejeiro.
Música repleta de modulações curiosas, passa do tom maior para o menor e vice-versa, e permite que todos os instrumentos que compõem o grupo tenham a mesma importância, sejam solistas ou acompanhadores.
Os instrumentos que formavam os grupos iniciais, chamados «chorões», eram violão, cavaquinho, flauta, bandolim, clarineta, pistão, trombone e um instrumento de sopro praticamente desaparecido, o oficlide.
Mais tarde admitiu-se o pandeiro, para marcar o ritmo.
Os chorões costumavam fazer longas serenatas por as ruas do Rio de Janeiro.
Em os bairros próximos ao centro começaram a proliferar os conjuntos.
O grande nome dessa fase foi o flautista e compositor Joaquim Antônio da Silva Calado, cujas polcas já antecipavam, em sua concepção rítmica e instrumental, o choro como gênero musical autônomo.
O choro dessa fase é lúdico, com campo livre à criação interpretativa e à improvisação.
Em a década de 1920 o choro adquiriu características próprias.
Inicialmente apenas instrumental, criaram-se depois peças vocais ligadas ao samba.
A forma intermediária entre os dois gêneros passou a ser chamada de samba-choro, de grande prestígio popular.
A música firmou-se e começou a aparecer em discos.
Mas aí começa também o gradual desaparecimento dos grupos amadores e o choro entra em decadência como forma de diversão musical.
Passa então a ser cultivado por profissionais que, além de gravarem discos, exibem-se em salas de espera de cinemas e nas orquestras dos teatros de revista.
Destacam-se nessa época Anacleto de Medeiros e Pixinguinha, entre outros.
A partir da década de 1930 o choro perdeu sua dinâmica como manifestação social, embora continuasse a ser cultivado por grupos isolados, de composição clássica:
um instrumento solista (flauta e bandolim), um centro de suporte rítmico e harmônico (cavaquinho) e outro de marcação e ornamentação harmônica (violão), o ritmo marcado por o pandeiro, pequeno e de pele natural.
Em as últimas décadas do século XX o choro voltou a conhecer a popularidade, com regravações de antigos sucessos e também a criação de novos grupos, principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo.
Número de frases: 21
Artigo publicado também no Portal EmDiv.
Todo mundo em Macapá já ouviu falar sobre o «Queimadão da Paz», encontro que ocorre nas terças e quintas-feiras, na praça pública Barão do Rio Branco, com inicio sempre após a meia-noite.
Você deve achar estranho jogar queimada de madrugada, mas é que o «Queimadão da Paz» não é apenas uma disputa ou uma brincadeira, mas sim, uma confraternização que reúne a comunidade gay da capital amapaense e acabou chamando atenção de toda a cidade.
Queimada é um jogo popular comumente praticado por crianças em ruas pouco movimentadas -- eu mesma já quase quebrei o braço fugindo de uma bolada há muito tempo.
Em a praça do Rio Branco, são traçados dois campos, a linha divisória são as sandálias, chinelas ou tamancos dos jogadores, é a metade de uma quadra de vôlei.
As equipes ficam cada uma numa das metades da quadra, um jogador deve arremessar a bola, de preferência bem forte.
O adversário tem que agarrar a bola, sem deixar cair no chão, caso contrário estará queimado e deve ir então para o «cemitério».
Vence a equipe que conseguir eliminar todos os adversários.
O Queimadão surgiu em maio de 2005, período em que já estavam ocorrendo os ensaios das quadrilhas juninas -- a presença da comunidade GLBTS também é bastante forte nas quadrilhas juninas, alguns entrevistados dizem que a afinidade tem a ver com a dança, as coreografias e tudo mais -- e foi idéia de um grupo que não participava das partidas de futebol realizadas após os ensaios.
Em este grupo estava Deo, cansado de ficar na reserva dos times da «pelada», resolveu aproveitar uma bola que estava sobrando e jogar queimada na quadra ao lado daquela onde rolava o futebol.
Deo, Biscoito, Carlinhos, Elton e outros começaram a se reunir para praticar o que ele, que perdeu alguns quilos jogando, prefere chamar de esporte, e também para bater-papo e se divertir depois dos ensaios.
O nome «Queimadão da Paz» tem relação com a antiga rivalidade existente entre as quadrilhas que agora é resolvida durante as partidas.
Eis a função apaziguadora das queimadas que logo atrairam novos adeptos, curiosos e torcedores.
E «Onde um bicha vai, as outras vão atrás», como diz Deo, 35 anos, consultor de vendas e estudante.
Um amigo chamou o outro e o Queimadão virou point, com direito a apoio policial para evitar problemas.
Apesar da grande presença de homossexuais, a queimada é freqüentada por um público bastante eclético e todos podem jogar:
homens contra homens, homens contra mulheres, homos, heteros, bissexuais, transgêneros etc..
As equipes são compostas geralmente por 12 pessoas em cada time;
aqui também vale a diversidade, não há regra para a composição das equipes.
As principais são:
Guarás, Lótus Negras, As Caralhentas e Os Gladiadores.
Os nomes dos times são tão irreverentes quanto o todo vocabulário utilizado entre a comunidade gay.
Os apelidos e gírias são berrados nas partidas (A Sabiá, A Vovó do Queimadão, A Mini-frasco, A Cupim e ainda A Secareli) e quem assiste acaba aprendendo o significado de palavras como:
aquenda, aqué, elza, mona, bofe, odara, edir etc -- dá até pra fazer um minidicionário.
Sobre a grande repercussão entre a comunidade gay, Deo acredita que o sucesso também tem a ver com a carência de points GLBTS em Macapá.
Ele acha que esta necessidade fez com que a comunidade tornasse o encontro numa das maiores «badalações» dos últimos tempos.
«A cidade cresceu, mas ainda faltam opções para atender as pessoas que gostam de curtir a noite durante a semana -- então as pessoas criam espaços, é por isso que aqui não tem apenas os gays, mas principalmente pessoas que querem curtir as madrugadas de terça e quinta».
Alexandre Haronovytt, o presidente do Movimento Gay do Amapá -- MOGAP -- diz que hoje o Queimadão alcançou um certo respeito porque a comunidade gay pôde se mostrar para a sociedade amapaense de uma forma diferente daquela já configurada por o senso-comum.
«Você pode olhar, aqui não tem ninguém se agarrando ou fazendo qualquer coisa que possa ser considerado vulgar, isso faz com que todo mundo mantenha um clima de respeito.
Todo mundo paquera normalmente sem deixar as pessoas constrangidas».
Outra característica interessante é o caráter filantrópico do Queimadão.
Durante os jogos, os organizadores arrecadam alimentos não perecíveis para serem doados para pessoas carentes.
Em algumas oportunidades eles também realizam eventos-extras para aumentar a arrecadação.
Um exemplo disso foi um torneio de queimada realizado dentro do Avestino Ramos, o principal ginásio da cidade, cobrando a doação como entrada.
Não deu outra, a casa ficou lotada, a mídia compareceu e tal.
As partidas da Praça Barão do Rio Branco atraíram também comerciantes informais que aproveitam o grande público para fazer um dinheirinho extra.
O fenômeno das queimadas repercutiu tanto que o evento já foi proibido de ocorrer no local.
Mas depois de alguma articulação a praça foi liberada, mas a organização e comerciantes se responsabilizam em manter o lugar limpo.
Mas nem tudo é perfeito:
a galera do Queimadão conseguiu o apoio do público, mas ainda se sente discriminada por as instituições que ainda não conseguiram assimilar a referência positiva que essa manifestação tem.
Por determinação do Ministério Público, os comerciantes autônomos não podem mais vender nas proximidades do point, após a meia-noite.
«A polícia até queria que a gente parasse de jogar queimada porque eles dizem que os ambulantes vão para lá por conta do nosso movimento, mas isso é uma questão que está fora do nosso controle», diz Deo.
O Queimadão tem uma diretoria, composta por pessoas comuns.
São pedagogos, estilistas, instrutores de academias de ginástica, estudantes, coreógrafos etc..
Profissionais que dividem seu tempo e que têm outros projetos na gaveta, assim como o «Queimadão Solidário», e que dependem de parcerias.
Deo diz que o objetivo é tornar o trabalho social ainda mais sólido, realizar competições oficiais, produzir mais eventos e o que mais vier.
Número de frases: 46
Há pouco tempo fiz uma oficina de um processo colaborativo e, no meu grupo, caiu uma atriz que passou por o CPT de Antunes Filho.
Durante todas as discussões ela insistia que aquilo que estávamos fazendo era inútil e que quando ela fazia Antunes, fazia muito mais sentido todos ficarem parados, um observando o outro, até que a cena viesse.
Aquilo ficou em minha cabeça por um bom tempo por dois motivos:
primeiro porque a menina era uma mala sem alça e acabou com a oficina para mim, e segundo porque eu não acredito que epifanias substituam as discussões coletivas.
Este momento «querido diário» tem tudo a ver com o espetáculo Prêt-a-Porter 8, em cartaz no Espaço CPT no SESC Consolação.
Desde que eu comecei a me interessar por teatro e a procurar por as peças no guia dos jornais, sempre vi esse tal de Prêt-a-Porter em cartaz, em diferentes edições.
E nunca vi nenhum porque me lembro de um amigo dizendo, lá na minha recente adolescência, que era chato.
Pois bem, agora que eu sou gente grandinha e já faz alguns anos que me meti com esse mundo de teatro, decidi conferir qual era a desse projeto que há tanto tempo ocupa seu espaço nos guias semanais.
Trata-se de uma pequena mostra de cenas criadas e dirigidas por os atores do Centro de Pesquisa Teatral do SESC e coordenadas por o velhinho Antunes Filho.
A o entrar no espaço o público encontra sobre as cadeiras (não consigo entender o porquê de serem numeradas, uma vez que são tão poucos lugares) o programa, que logo na contracapa traz uma citação de " Gilberto Freyre:
«Acredito que nunca ficarei completamente maduro nem nas idéias, nem no estilo, mas sempre verde, incompleto e experimental."
Inicia-se a primeira cena:
dois grandes amigos de faculdade se reencontram após muitos anos e, ao longo do diálogo, percebem o tamanho de sua amizade e da importância de um para o outro, mesmo apesar da distância.
Em a segunda cena, uma esquete cômica de duas amigas caricatas (que em alguns momentos beiram a boçalidade, mas conseguem nos tirar risadas) conversam sobre o Natal, sobre seus planos e esperanças.
Em a última cena, dois homens conversam sobre a beleza da morte, compartilham um com o outro seus planos macabros de como serão seus respectivos velórios e discutem qual a forma mais interessante para se morrer.
Depois de ver as três cenas, percebo que o que aquela chata de galocha da oficina tinha comentado acontece em todos os três diálogos.
Cada um traz dois personagens que ficam sentados e simplesmente conversam.
Os textos são ágeis, os atores realmente demonstram conhecê-lo e reagem com o timing ideal, há ótimas interpretações (ok, algumas nem tanto), mas praticamente não há ação.
As três cenas, não fosse a elaboração dramatúrgica, seriam certamente monótonas.
Após o primeiro diálogo, uma garota na platéia comenta com o namorado «É numa cena dessas que a gente vê quanto conhecimento eles têm!»,
um comentário fútil, reflexo da redoma de vidro que se estabelece em torno de Antunes, de seu centro de pesquisa e de tudo o que se produz lá.
Por não ter achado a cena nenhuma demonstração de conhecimento acima da média, as perguntas que me fiz foram outras.
Onde afinal está a tal pesquisa teatral proposta por o próprio nome do CPT?
Onde está o experimentalismo proposto por a citação de Gilberto Freyre na contracapa do programa?
Lembrando da insegurança irritante da chatonilda da oficina, pergunto mais:
onde está a ousadia e a coragem de se propor algo sem o medo de errar?
Qual o propósito de uma pesquisa que não vai além do que já está estabelecido?
Não acompanho de perto o trabalho de Antunes Filho e pode ser que eu esteja falando uma grande bobagem, mas o pouco que vi em cena nos últimos anos não reflete essa pesquisa e este experimentalismo propostos.
Não questiono a importância do diretor na história do teatro nacional, mas bem que gostaria de jogar uma pedra pra quebrar essa redoma ao seu redor.
Número de frases: 29
Seria bem bom vê-lo propondo inovações, questionamentos e provocações de verdade sobre o fazer teatral brasileiro contemporâneo, assim como continuam fazendo outros grandes nomes também «das antigas», como Zé Celso e Gerald Thomas.
Um frigobar revestido de folhas de jornal posta-se no canto da sala da Cooperativa Pirambu Digital.
Recortes de revistas com expressões como:
«Mais uma oportunidade para você estudar», «Produzindo»,» Avança Brasil», «Suas Idéias»,» Inovando», «Salvem o Planeta».
O frigobar é a «Sorveteria Zé de William», lá você pode pegar seu sorvete, refrigerante, achocolatado e, sem ninguém para cobrar, depositar um real na caixinha acima.
A idéia e o nome vêm de seu fundador no Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará (Cefet-CE).
Um empreendimento que não tinha nenhuma pretensão de dar lucros, mas apenas de transformar uma geladeira num símbolo de honestidade e cooperação.
Os jovens que agora geram a Cooperativa trouxeram essa idéia lá do Cefet-CE, além de um conhecimento apurado no desenvolvimento de softwares.
Trouxeram de lá para o Pirambu.
Jovens do Pirambu irão programar software
De aqui, a vista é uma das mais belas e simbólicas da cidade de Fortaleza.
Ao fundo, os luxuosos condomínios e hotéis da Beira Mar, um dos principais pontos turísticos da cidade.
Aqui perto, a Leste Oeste, praia conhecida por ser mais «popular», nos termos grosseiros:
«canelau». Estamos no Pirambu, um dos maiores bairros de Fortaleza com aproximadamente 350 mil habitantes.
É batata o «Pirambas» aparecer nos programas policiais.
O bairro traz na história o estigma de ser local violento, perigoso, principalmente para os moradores da Aldeota e afins -- parte reservada a gente rica de Fortaleza -- que daquele espaço muitas vezes só tem idéias televisivas.
Foi aqui que a gigante LG chegou em 2003 querendo investir R$ 2.600.000,00 (dois milhões e seiscentos mil reais) na formação de 120 jovens no desenvolvimento de software.
A multinacional entrava com o dinheiro e o Cefet-CE com a estrutura e corpo docente.
Mas como restringir o curso de uma instituição pública a jovens de um determinado bairro?
Há cinco anos já existia uma «filial» do Cefet no Pirambu.
A saída foi colocar no edital do concurso que as inscrições deveriam ser feitas no Cefet-Pirambu e que, talvez, as primeiras aulas acontecessem por lá também.
«O estigma do bairro foi a favor de ele nesse momento:
99 % dos alunos inscritos eram do Pirambu, poucos -- por questão do preconceito e do estigma -- vieram para o Pirambu para poder fazer a inscrição e a prova», conta Bruno Queiroz, de 21 anos, à epoca um dos 120 alunos do curso.
O curso durou dois anos.
Em o segundo semestre de 2005, vários já estavam em estágios ou mesmo efetivados em algumas empresas, quando o então diretor do Cefet-CE, Mauro Oliveira, chegou com uma idéia para os 120: montar um empresa de desenvolvimento de software no próprio Pirambu.
A intenção era não deixar o bairro perder o conhecimento que esses jovens tinham adquirido.
De os 120, 52 toparam.
«Quem não veio estava em outro estágio e teve medo dessa iniciativa empreendedora.
É difícil você deixar um emprego, um estágio que é certo, pra apostar numa coisa que está no zero ainda.
Em a época, eu estagiava, estava quase me efetivando, ganhava meu dinheiro no fim do mês, não tinha nenhuma preocupação.
As pessoas que queriam dirigir a cooperativa teriam que se dedicar 8 horas integrais e teriam que abrir mão de ter esse dinheiro no bolso, porque veja que todos esse 52 técnicos eram os donos da cooperativa, não tinha quem fosse nos pagar, nós éramos nossos próprios patrões, o dinheiro no fim do mês dependia de nosso próprio esforço», diz, com gestos organizados de gente de negócios, Bruno, atual diretor-comercial da cooperativa.
Em uma sala no segundo andar da sede do Cefet-Pirambu, eles começaram a se reunir e planejar a formação do Podes (Pólo de Desenvolvimento de Software).
Mauro Oliveira dava palestras e sugeria quais caminhos tomar.
De setembro a dezembro foi assim, até que em 12 de janeiro de 2006 estava inagurada a Cooperativa Pirambu Digital, no prédio do Emaús, ong católica que atua no bairro.
Além do Emaús, a cooperativa teve o apoio do Cefet-Pirambu e uma ajuda inesperada de um português (que pediu aos diretores para não ser identificado), que investiu 20 mil reais na estruturação da Pirambu Digital.
Logo no começo da Cooperativa, as demandas do mercado fizeram com que mais três empresas fossem criadas e viessem se juntar ao Podes:
Fácil (Fábrica de Computadores com Inteligência Local), Trevo (Treinamentos e Eventos) e Nega (Negócios e Administração).
Essas empresas dariam a autosustentabilidade da Cooperativa que partiria para uma série de projetos sociais direcionados à comunidade do Pirambu.
Entre eles:
Casa do Saber (reforço escolar), Pirambu Business School (onde funciona o Clec -- Centro de Línguas Estrangeiras do Cefet), Universidade do Trabalho (cursos preparatórios para os vestibulares de ensino médio e técnico do Cefet) e ...
...o Condomínio Virtual.
A idéia era disponibilizar internet a preços baixos à comunidade do Pirambu.
Em parceria com o provedor Fortalnet e com uma antena de alcance de 2 km de raio, a cooperativa conseguiu retransmitir a preço de custo internet banda larga para o bairro.
Preços imbatíveis!
Por apenas R$ 20,00 reais você pode ter internet em casa!
A idéia era:
alguns vizinhos se reuniriam, dividiriam os custos da antena que retransmitiria o sinal vindo da Cooperativa e, através de uma rede, compartilhariam a internet.
Então, estava criado o Condomínio Virtual.
Mas ..." Já tinhamos a internet, beleza, mas e as máquinas?
A gente fez uma pesquisa no começo do ano passado e vimos que tinha meio computador por quarteirão no Pirambu.
Então não tinha como ter a internet e não ter o computador», relembra Joviniano Junior, 23 anos, diretor-presidente da cooperativa.
A solução foi restaurar computadores doados -- 40 de eles doados por a rede de farmácias Pague Menos -- e disponibilizá-los aos condôminos.
R$ 10,00 reais por mês, depois de 10 meses, e o computador é seu!
Um síndico organizaria o condomínio, desde o convencimento das pessoas sobre a importância de adquirir internet, até a resolução de problemas de inadimplência.
«O síndico é aquela figura política do Condomínio Virtual, é aquela pessoa que vai chamar o seu Zé, a dona Maria para participar do Condomínio Virtual.
Entre a casa do seu João e do seu Zé tem a dona Maria.
O seu João quer internet e seu Zé também, mas a dona Maria não quer o Condomínio Virtual.
Como a gente tem que fazer uma rede para que todos os computadores tenham acesso a internet, a gente tem que passar o cabo por a casa da dona Maria.
Vai que a dona Maria não permite.
Então o síndico é aquela pessoa que conhece a dona Maria. '
Dona Maria, o seu Zé tem um filho que faz faculdade, é importante a internet pra ele, a senhora vai estar ajudando o filho de ele a se formar, porque ele precisa fazer pesquisa.
A senhora vai estar contribuindo para o crescimento tecnológico do bairro '.
De essa forma a gente cria um cenário político muito bacana entre os condôminos», explicita Bruno.
Assim foram criados três condomínios, dois no Pirambu -- um com quatro e outro com seis condôminos -- e outro no Álvaro Weyne, bairro próximo, com nove condôminos.
Desde março do ano passado, após a implantação desses três condomínios, a capacidade de expansão do projeto está esgotada, pelo menos em termo de oferta, porque a demanda está contabilizada numa lista com quase 100 pessoas na fila de espera.
Os principais problemas para a ampliação do número de condomínios, segundo os diretores da cooperativa, são os computadores -- as doações são poucas e muitas vezes as máquinas chegam avariadas -- e os custos de administração e suporte, como os treinamentos ofertados por a Trevo, empresa de treinamento da cooperativa, e os agentes digitais que são técnicos da ou formados por a cooperativa que dão suporte personalizado aos condôminos.
Outra dificuldade são os desníveis do Pirambu, um bairro costeiro.
Isso dificulta a transmissão do sinal que para acontecer precisa de «visada», ou seja, a antena no alto da cooperativa precisa estar» vendo " a antena no alto da casa do síndico.
Não havendo visada é necessária a compra de mais uma antena que ficará entre as duas outras e possibilitará que o sinal chegue à casa dos condôminos.
«Se a gente não conseguir alguma entidade que nos apoie, a gente vai passar a comercializar internet.
A idéia é, numa parceria com a Fortalnet, comercializar internet no bairro pra quem pode pagar e aí a gente custeia o Condomínio Virtual», diz Joviniano Junior.
Ele ainda enfatiza que o Condomínio Virtual é um projeto-piloto que só se efetivará com a parceria de alguma entidade que possa inclusive replicar a experiência em outros locais.
Os condôminos.
Um dos três condomínios fica na Avenida Pasteur, uma das maiores do Pirambu.
Uma das condôminas é Angelita Gonçalvez, de 33 anos, dona de um bar.
Participa do condomínio desde o surgimento e está prestes a adquirir o computador.
Entrou no condomínio pensando principalmente no futuro dos filhos.
«Eu só vejo mesmo o site do Padre Marcelo Rossi e do Reginaldo Manzotti».
O filho Samuel (18) e as filhas Edwirges (14) e Rita (12) são os que mais desfrutam das benesses do condomínio.
A Edwirges usa o computador numa média de três a cinco vezes por semana.
Antes, ia a uma lan house, uma vez por mês.
Em a internet, faz pesquisas da escola, busca saber a biografia de escritores e dados históricos.
Joga muito também e adora os sites IGuinho e o Portal da Turma da Mônica.
Rita usa basicamente MSN e Orkut.
A mãe fica preocupada com o conteúdo que a filha acessa.
Por isso fica sempre próxima para acompanhar a navegação.
Angelita deseja fazer um curso de digitação e saber como pode utilizar o computador para ter um maior gerenciamento sobre o seu bar.
«Eu não uso mais o computador porque não tenho instrução sobre ele.
A gente só se acostuma rápido com bate-papo, mas coisa boa demora».
Nenhuma de elas teve treinamento, não conseguiram marcar agenda com o agente digital.
Dona Angelita espera que seja em breve.
Este condomínio em particular está sem síndico temporariamente.
Carlinhos, o antigo síndico, era técnico da cooperativa, mas se mudou para trabalhar em São Paulo.
A internet também vivia caindo lá por problemas no sinal.
Hoje, os condôminos estão, como solução temporária, dividindo a Velox da casa do Carlinhos.
Outro condômino, Auricélio Correia, de 57 anos, comprou o computador há 3 meses, julgando ser essencial para o controle de estoque e de finanças de seu depósito, mas quando o adquiriu, descobriu que não era simplesmente comprá-lo, precisaria de outros programas.
A sobrinha de seu Auricélio, Gerusa Correia (23), é quem mais usa o computador.
O depósito possui um e-mail (dpcorreia@bol.com.br), mas ninguém o acessa:
«Nunca chega e-mail», explica.
Ainda não foi capacitada por o agente digital já que não dá para receber o agente no depósito.
O trabalho atrapalha o aprendizado.
Vai tentar agora ter a capacitação na própria cooperativa.
Os condomínios em geral enfrentam problemas desse tipo.
Outro, também no Pirambu, está sem internet, porque uma árvore cresceu e está atrapalhando o sinal da antena.
Apenas o do Álvaro Weyne funciona normalmente, segundo os diretores da cooperativa.
A tecnologia e o software livre
Os computadores, em sua maioria, saem da cooperativa com uma versão do Linux e com o OpenOffice instalados.
Alguns não podem sair com softwares livres, porque sua configuração -- muitos são feitos a partir de outros pcs inutilizados -- não suporta os programas.
Mas a grande maioria dos condôminos muda o sistema operacional.
«A maioria muda.
A gente não pode dizer, né? '
Você não pode mudar, vai ter que ser Linux '.
Existe o treinamento, o agente digital que vai lá tem conhecimento em software livre, só que esse morador já deve ter rodado por algumas lan houses e todas têm Windows, o colega de ele que tem computador em casa tem Windows.
Fica difícil você dar toda a assistência para o camarada ter Linux;
se nós tivéssemos isso como foco, se tivéssemos condições de gastar tempo e formação para que todos fossem em software livre, com certeza estariam», explica Junior.
Marcos Devaner, gerente de treinamento, diz que após a capacitação dos condôminos, os computadores migrarão para o Linux novamente.
A cooperativa nasceu com o intuito de difundir a tecnologia da informação no bairro, mas isso depende da sustentabilidade financeira das quatro empresas que rendem os lucros da cooperativa, hoje, com 30 técnicos -- mais 22 que trabalham dependendo da demanda -- e uma folha de pagamento que varia entre 10 mil e 15 mil reais.
Em o início, pensou-se no desenvolvimento por o Podes do «Helena», um software livre que seria comercializado a preços baixos aos muitos salões de beleza do Pirambu como ferramenta de gerenciamento dos estabelecimentos, mas há algum tempo ele está parado devido à prioridade dada aos serviços remunerados que dão sustentabilidade à Cooperativa.
Mesmo assim, Junior verbaliza o ideal:
«Quando você prende -- o direito sobre o uso do software, você exclui, naturalmente você exclui a comunidade ou quem quer que seja daquilo que você criou e aí quando você exclui você deixa de fazer inclusão digital, deixa de promover um desenvolvimento tecnológico e intelectual das pessoas», diz Junior.
A sustentabilidade
Os faturamentos mensais indicam que a cooperativa caminha para uma sustentabilidade.
Apesar de uma instabilidade na receita (em setembro faturou R$ 2.360,00 e em outubro R$ 23.414,00), hoje os 30 técnicos recebem R$ 500,00 mensais e os projetos não param de surgir, como uma universidade à distância em parceria com a Unopar (Universidade do Norte do Paraná), conversas com a Prefeitura de Fortaleza, a implantação de um laboratório para a formação de 50 jovens em parceria com a Brasscom (Associação Brasileira das Empresas de Software e Serviços para Exportação), a aprovação num edital do Ministro do Desenvolvimento Social no ano passado que ajudou na estruturação do laboratório de desenvolvimento de software e que tem a segunda parcela dos R$ 200.000,00 liberada agora.
«O condomínio virtual não existe sem a cooperativa.
O essencial aqui é o fato de nós que nos formamos não termos ido trabalhar na Aldeota ou em outros bairros chiques de Fortaleza e sermos felizes individualmente.
O diferencial é reunir todas essas cabeças pensantes para que no bairro elas possam criar projetos sociais, tecnológicos, econômicos, que beneficiem a si mesmos e a comunidade», conclui Junior.
Número de frases: 126
Por lá, as mudanças acontecem rápido, entre os dois dias de apuração, um laboratório inteiro foi desmontado e deslocado para outra parte do prédio, no espaço agora vazio, mais um laboratório de formação começava a ser montado, enquanto a antena da Unopar passava sendo carregada por o corredor da Cooperativa
Por diversas vezes ao longo dos anos, ouvi curioso um certo comentário: "
Há que existir vida após a morte.
Não teria sentido ser apenas esta existência!».
A princípio, pode parecer que nos julgamos importantes demais.
Afinal seria muito pouco viver uns cerca de 60 anos, sabe-se lá, e depois simplesmente deixar de existir, sem legados para a humanidade ou marcas na história.
Mas entendo esse comentário como resultado de vidas guiadas sob a perspectiva de uma felicidade futura.
Muitos condicionam o bem-estar à compra de um veículo, de um imóvel ou à ascensão profissional.
Dedicam o dia-a-dia a atingir esses objetivos, com muito trabalho e planejamento.
Olham sempre para frente, mas sem contemplar o pôr-do-sol no horizonte.
Não sobra tempo para quase nada, muito menos para ser feliz agora.
Enfim, chega o dia em que estão motorizados, com casa própria ou promovidos no emprego.
De tanto planejar, porém, há muito já sentem a necessidade de ir além.
Em a caminhada, constituíram novos sonhos.
Foi bom ter conseguido isto, mas agora querem mais.
Afinal, como diria «Raul Seixas,» eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e não posso ficar aí parado».
É correr atrás.
Temos de ser práticos e caminhar com firmeza, mesmo que nos percalços precisemos chutar alguns calcanhares ou aplicar rasteiras.
Assim, alcançaremos a felicidade.
Se não for nos próximos anos, será após a «passagem», em shangri-lá, no céu, no paraíso ...
Esse é o alento dado por qualquer das religiões.
A ciência diz que temos ciclos de vida que justificam nossa existência:
nascer, crescer, reproduzir e, por fim, morrer.
Não precisamos ser marcantes em nossa existência, mas apenas contribuir para a perpetuação da espécie.
Contudo, ninguém se contenta com esse encargo meramente biológico.
Por isso, alguém de inspiração poética estabeleceu missões mais nobres para cumprirmos:
escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho.
Seria uma vida plena, assinalada por o aprendizado e por a garantia de um presente e um futuro sustentável.
O questionamento do sentido da vida é inerente ao ser humano e encontra eco sobretudo nas artes.
Em a música brasileira, acho quem melhor retratou essa inquietação foi Gonzaguinha.
«Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo.
É uma gota, é um tempo que nem dá um segundo ...
Há quem fale que é um divino mistério profundo.
É o sopro do criador, numa atitude repleta de amor», diz, na canção O que é o que é.
Mais à frente, ele sentencia:
«Somos nós que fazemos a vida, como der ou puder ou quiser».
Uma verdade genérica, porém, a princípio, inquestionável.
Mas, amadurecendo aos poucos, tenho procurado me guiar por a sabedoria caipira de Almir Sater.
Hoje, eu também «penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha, e ir tocando em frente», guiando grandes e pequenos projetos, mas também sonhando, aprendendo a contemplar um céu estrelado, uma chuva fina, se emocionando com um bom filme ou desfrutando da presença daqueles que amamos.
Tudo sem o manto de grandes mistérios sobrenaturais.
E acho que apenas essa existência sobre a terra é suficiente sim, basta que sejamos dignos de ela.
Se vivermos 60 anos, serão mais de 21 mil dias -- um segundo em relação à eternidade, mas um período suficiente para desfrutarmos sem avareza das boas sensações, sem precisar empurrar os sonhos para uma suposta vida pós-morte.
Para apreciar a vida, falta entender que tudo é passageiro.
Incluindo a tão sonhada felicidade -- que " é como a pluma que o vento vai levando por o ar.
Voa tão leve, mas tem a vida breve.
Precisa que haja vento sem parar».
Boas ou más sensações, tudo finda e depois se renova.
Número de frases: 47
Nada, como nós mesmos, é eterno.
Começo o texto com um gelo na mão e um galo na cabeça.
Estou convencido de que um galo na cabeça é a melhor maneira de fazer um sujeito pacífico se revoltar.
E eu me revoltei.
Não agüento mais aquele tal do frescobol.
E, com o risco de tomar um pito da associação brasileira desse jogo (pois é, ela existe!),
explico o porquê da indignação.
O dia começou com a promessa de uma bela caminhada na praia.
Tenho feito isso há duas semanas, desde que descobri como é reenergizante andar à beira do mar.
É como se o mundo à sua volta não existisse.
É só você e o seu horizonte próprio, mais nada.
Ausência de sentidos total.
Pois é.
Foi já filosofando assim que eu me deparei no chão com a moeda de dez cruzeiros aí da foto.
Que visão.
Estava assoviando uma música do Dorival, olhando para as minhas pegadas na areia e achei a moeda.
Eu, dado a procurar algum sentido até quando o gosto do feijão daqui de casa está diferente, comecei a pensar:
«nossa, como a vida é, logo agora que estava assoviando uma música do Dorival, acho essa moeda.
Como o mar é mesmo misterioso, como guarda sempre as coisas bem guardadas.
Por que será que essa moeda veio aparecer logo agora?
Quanto tempo ela navegou sozinha em marés tão bravas.
E por que agora ela veio parar no porto seguro da minha mão?
Será o mar querendo me falar do meu futuro, será que o que eu vou viver já está guardado, será que tudo vai ficar bem, será ..."
pof! Pô, mó boladão na minha cabeça!
Que vacilo.
Olho, não falo nada.
Só me assusto.
Eram dois caras meio fortes jogando frescobol.
Pedem desculpa.
Não pedem perdão.
Só aquela desculpa mesmo, como de quem esbarra no outro no Centro da cidade.
Aquela desculpa de conveniência de quem vai ter de fazer isso ainda mais uma porção de vezes durante o dia.
Mal sabem eles que eu estava num momento de epifania com mim mesmo, entendendo as músicas do Dorival e a minha vida através daquela moeda de dez cruzeiros.
Profundo à beça eu estava, pô.
Bom, continuo meu caminho e minha cabeça dói.
O meu horizonte vai ficando sem graça e procuro outro -- dou meia volta em busca do que minhas costas não conseguiram ver.
O novo horizonte está todo sem graça também e minha cabeça agora está com um galo enorme.
A moeda ainda se encontra à minha mão.
O mar ainda navega ao meu lado e a melodia do Dorival ainda pode ser mal assoviada por o meu sopro fanho.
Eu não quero levar ao pé da letra aquela música do Dorival não, «Quem vem para a beira do mar, ai, nunca mais quer voltar».
Não, isso não vai ficar assim não!
Batendo pé de volta à base ainda passo por os meus agressores e os observo com a distância precavida.
São uns monstros batendo com uma raiva enorme naquela bolinha.
Que jogo é esse, rapaz?
Qual é o objetivo desse troço?
O plano até então era o seguinte:
escrever um texto para o Overmundo falando mal do esporte.
Ainda nem sabia ao certo o que iria escrever.
Mas a trinca Dorival, moeda e galo na cabeça me daria inspiração suficiente para seguir em frente.
Vim para casa andando e pensando sobre o que eu achava do frescobol antes da bolada na cabeça.
Assim, a gente sempre ouve aquela história, né, «o único esporte em que não há competição», o único esporte em que não há pontos»,» o único esporte em que o objetivo maior é ajudar o seu parceiro».
É. Sempre desconfiei dessa nobreza toda, sobretudo por a violência e virilidade com que o esporte é jogado.
Ao menos, nas areias aqui do Rio.
Tudo bem.
Já tentei jogar sim frescobol.
Como sou fera no pingue-pongue, achei que seria fácil.
Nem é não.
A raquete é muito pesada e o backhand é tarefa para o Sansão.
Desisti rápido e a única relação real que mantenho com o jogo é quando vou mergulhar no mar.
Sempre é bom ficar ligado na bolinha e nunca olhar para o chão.
Infelizmente, hoje baixei a guarda e a cabeça.
Dei mole.
Tentei enxergar nas linhas da minha mão e através da moeda de dez cruzeiros minha vida.
O mundo não te dá tempo para isso não, mané.
Lembro também de um caso interessante relacionado ao frescobol:
tem um gordão aqui na praia que joga muito.
Ele tem uma técnica toda peculiar de colocar a mão na cintura para segurar a barriga enquanto dá as raquetadas.
Ele é tipo o Roger Federer do frescobol.
Muito classudo.
Quando a bola vai para longe e os gandulas involuntários (você, eu, todos nós) a devolvem, ele sempre agradece de uma forma extremamente gentil;
caso seja uma menina na tarefa, ele ainda ressalta a gentileza, soltando um simpático «obrigado, meu amor».
Eu, triste e culpado por isso passar por a minha cabeça, sempre acho que essa deve ser a única hora em que o gordão diz isso para uma menina e a menina não fica com raiva de ele.
Poxa, que triste isso.
Calma um pouco.
Triste é o meu galo e agora é sobre ele que vou tratar.
Pesquisei aqui sobre o jogo.
A minha principal questão sobre o frescobol é esse papinho de que não há regra, do jogo ser amigável, essas coisas.
Para o azar da nação, antes de desvendar as regras, descobri que -- reza a lenda -- o jogo foi inventado em Copacabana, em 1945.
Ah! Então está explicado aquele muro feioso no bairro com os dizeres «aqui foi inventado o frescobol, esporte brasileiro, amigável, blá, blá blá *».
Nossa senhora!
Que coisa triste, como se não tivéssemos do que nos orgulhar.
Estou fora disso.
Esporte amigável é o escambau.
Até a quinta página do Google procurando por «frescobol» (não peçam a mim mais esforço de pesquisa, por favor, minha cabeça ainda está doendo), descobri que o site da Associação Brasileira está fora do ar.
O servidor deve ter tomado uma bolada.
Curiosamente, a melhor página para pesquisa é a da Federação Gaúcha.
O portal da Joana Prado é ótimo também.
Em a pesquisa por o Google ainda descobri que as regras do esporte se baseiam no espetáculo, que o que importa é o show dado mesclado a uma equação impossível de entender que pondera tempo da bolinha no ar x agressividade.
Quase o algoritmo dos overpontos.
Também tomei conhecimento de que o Cazuza tem uma música que se chama «frescobol» e vi que até um dos meus grandes ídolos, o Millôr Fernandes, criou uma frase em defesa do jogo.
Segundo ele, «é o único esporte em que realmente o que importa não é vencer».
Não, o que importa mesmo é combinar de acertar a cabeça de quem está passando, no caso, eu aqui.
Estou convencido.
Esporte amigável, democrático, avesso à competição coisa nenhuma.
Nunca tomei um murro na vida, poucas vezes fui agredido, até mesmo verbalmente, por alguém.
Agora estou aqui com um galo que mais parece que me meti numa briga.
Quero a retratação, quero a revolução.
Não entendo nada do Marx e, quando muito, li o Manifesto Comunista.
Lembro de que ele pregava a ascensão do proletariado e a queda da burguesia.
Pois é, lembro também de que a burguesia era dona das terras, aquele negócio de propriedade privada sem consultar o próximo, o lance de apropriação mesmo.
Ora meu deus!
Não é essa desigualdade que acontece na praia?
Aqueles sujeitos mandões demarcando espaços na areia como bem desejam e fazendo do espaço que era para ser também meu um campo de batalha, cujas armas são raquetes e as balas são bolinhas?
Eu aqui sou o proletariado, escrevendo em plena sexta santa humilhado por os burgueses do verão tardio.
Quero minhas terras de volta.
Eles estão nos enganando como fizeram na Revolução Francesa, bancando os bonzinhos na fachada de um esporte sem vencedor.
Há competição sim.
São eles contra a minha cabeça.
E eu tenho um plano.
Sou hippie demais para pedir a proibição do jogo.
Não acho que é assim que as coisas funcionam.
Nem vou mandar todos pegarem em armas e expulsar os jogadores da beira-mar.
Eu estou mais para o Gandhi mesmo.
O negócio é a revolução pacífica.
A idéia é a seguinte:
cada um de nós tenta se organizar em grupos de, ao menos, quatro pessoas.
Aguardamos um dia bem ensolarado e rumamos à praia.
Uma vez lá, escolhemos aqueles jogadores mais agressivos, nos enchemos de coragem e, em fila indiana (valeu Gandhi!),
vamos um a um nos metendo entre os jogadores, oferecendo nosso corpo à bolinha.
Posso garantir, dói um pouco, mas dá para sobreviver.
Acho quatro um número cabalístico, não é possível que depois de machucar quatro sujeitos os jogadores ou a própria comunidade praieira vai permitir que o bate-bola siga em frente.
Temos todo o poder em mãos.
Vejam só:
segundo o site da Federação Gaúcha de Frescobol, são 2 milhões de praticantes do esporte em todo país.
Pô, suponho que pelo menos metade dos que não praticam se incomoda um pouquinho ou, no mínimo, tem medo de tomar boladas quando vai à praia.
Bom, segundo os últimos dados no site do IBGE, somos aproximadamente 186 milhões de brasileiros.
Se apenas metade (só metade!)
do Brasil (menos os 2 milhões comprometidos com o frecobol) resolver topar meu plano, seremos 92 milhões contra 2 milhões.
E ainda tem mais.
Como são duplas (às vezes até trincas), o nosso inimigo está reduzido virtualmente a um milhão.
A proporção é de 92 para um!
Vamos prosperar!
Tenho certeza de que a imprensa toda ficará em nosso favor.
Duvido de que não queiram agradar tanta gente.
E jornalista adora novidade.
É só ver a incrível moda da altinha (é «altinha», não é» altinho», não sei da onde tiraram isso) aqui no Rio.
Para quem ainda não sabe, altinha é simplesmente bater bola (de futebol, esse jogo incrível) sem deixá-la cair.
Descobriram depois de décadas que o carioca curte brincar de altinha na praia.
Olha, não sou muito velho não, mas há pelo menos uns 18 anos, desde as minhas primeiras lembranças, o povo do Rio joga futebol desse jeito na areia.
Mesmo assim, a brincadeira virou pauta de janeiro de uns três jornais daqui, virou febre no Estado e símbolo da carioquice nossa de todo dia.
Agora, imagine você o que seria se 92 milhões de brasileiros resolvessem ir à praia para tomar bolada na cabeça?
Daria reportagem no New York Times e tudo.
Podiam até traduzir o título desse texto para dar de manchete:
A new trend in Rio:
Getting hit in the head with a ball.
Bom, agora, se por acaso todo o nosso engajamento der errado, eu tenho o plano B para chamar atenção da mídia e ainda lançar uma tendência para o próximo verão:
ir à praia de capacete.
* Um amigo acaba de dizer que a frase do muro de Copacabana é do Millôr.
Pô Millôr, frescobol??
Tem certeza???
Número de frases: 150
Quem vê o paulista Benedito Nelson Augusto dos Santos, 65 anos, deitado numa rede, falando manso aos fundos de sua residência, em Porto Velho, nem imagina que ele carrega uma extensa bagagem numa das mais antigas e tradicionais lutas do mundo, o Karatê.
Uma escolha que, para Kioshy, como é conhecido por seus alunos, o primeiro a receber grau de mestre no Brasil, fez e continua fazendo toda a diferença quando o assunto é arte marcial.
Foi com graduados mestres vindos do Japão ao Brasil, em 1957, como Chican Akamini (7º grau), Jiro Takaesu e Juichi Sagara que Nelson desenvolveu, em São Paulo, o aprimoramento da luta.
De lá pra cá, ele já conquistou diversos campeonatos e é hoje o único no país que tem o 8º grau.
Reconhecimento oferecido apenas por quem já passou ou freqüenta suas aulas.
Simples, o professor não se intitula melhor que ninguém, mas admite que seja preciso ter determinação para se vencer na vida como um guerreiro.
O mestre mora com mais doze pessoas num condomínio afastado 15 quilômetros da cidade, ao redor da floresta.
Todas as casas são no estilo japonês.
A primeira, por exemplo, foi construída em 2002 quando Benedito chegou à Capital.
Atualmente, o «Condomínio dos Samurais», como ficou batizado o local, possui quatro casas prontas e uma em construção.
Todos vivem num estilo diferente e seguem a psicologia de Gurdjieff.
Recentemente, Benedito Nelson iniciou aulas de Karatê na academia Atlethics, em Porto Velho, às terças e quintas.
O valor da mensalidade custa R$ 50 e qualquer pessoa pode praticar o esporte.
Em entrevista *, o professor-mestre conta como iniciou sua trajetória e por que escolheu a cidade de Porto Velho para viver.
Confira na íntregra:
Overmundo:
Quando o senhor despertou para o Karatê?
Nelson:
Eu era um malandro que admirava os outros malandros.
Até que um dia, presenciei um amigo que levou vários golpes de faca e me senti indefeso por não poder fazer nada naquele momento.
Foi quando procurei uma academia de judô, em 1957.
Lá, existia um lutador de boxe, Cláudio Rosa, que ninguém conseguia vencê-lo e perguntei a ele qual era o segredo.
Sabe qual foi a resposta de ele?
O Karatê, amigo.
Foi assim que me encontrei com os grandes mestres Jiro Tacaesu, Chican Acamini e Juichi Sagara.
Overmundo:
Seus professores foram japoneses.
O senhor aprendeu a falar japonês?
Nelson:
Sim, mas aprendi por a necessidade.
Hoje também falo inglês, pois facilita em minhas viagens.
Overmundo:
Qual é o estilo de Karatê que é ensinado e como são suas aulas?
Nelson:
Treino duas modalidades:
o Goju-Ryu e o Shotokan.
As aulas que ministro são para principiantes e graduados.
Os principiantes aprendem os primeiros movimentos de combate, como treinar as mãos e os pés.
Em três meses de aula já é possível alcançar os primeiros resultados.
Para graduados, apenas corrijo seus movimentos conforme pedido do interessado.
Overmundo:
Por que escolheu a cidade de Porto Velho para viver?
Nelson:
Para ficar mais perto da natureza e poder exercitar a consciência.
Lutador de Karatê tem que ter um nível de consciência para vencer qualquer obstáculo e isso só é possível com atenção.
Vim com um grupo de doze pessoas.
Moramos todos juntos.
Para as pessoas que não nos conhecem, é um estilo de vida completamente diferente.
Mas, para nós, um jeito de viver em união.
Overmundo:
Como é esse exercício de consciência e por que é considerado tão importante?
Nelson:
Depois de uma experiência com o Karatê, observei que vencer um combate não é importante se não existir o domínio de si.
E foi com esse propósito que procurei a psicologia de Gurdjeff, freqüentando a Escola do francês Marcelo Orange, no Rio, e a da madame Natali, em São Paulo.
Descobri com a prática da psicologia a minha compreensão de luta e combate se modificarem muito, aumentando meu grau de conhecimento.
Comecei a não dar importância para a vitória e nem me preocupar com a derrota.
E é esse o estudo que desenvolvemos, em grupo, aqui em Porto Velho.
O estudo de si.
Overmundo:
O senhor pertence a qual federação?
Por que?
Nelson:
Confederação Brasileira de Karatê (CBK), com sede em São Paulo.
Hoje são mais de 10 federações e, assim, o Karatê dividido não existe um vencedor, mas, sim, uma partícula de cada federação.
Nunca fui reconhecido como alguma autoridade, pois não é compatível a minha índole aceitar elogios ou prêmios.
Overmundo:
O que significa o Karatê para Benedito Nelson?
Nelson:
É uma luta para combate mortal, mas ao chegar no ocidente criaram o campeonato, onde não vale bater devido o perigo que tem cada pancada.
E foi assim que a juventude deu mais importância ao esporte, que não é nem 10 % do Karatê, em detrimento do combate real.
Overmundo:
Quando que um lutador é forte no Karatê?
Nelson:
Quando seus golpes de pé e mão acertam qualquer parte do ser humano e decide o combate, pois o lutador comum somente procura os pontos vitais.
Overmundo:
Qual a coisa mais importante para o homem?
Nelson:
É ter saúde e consciência, pois a sociedade não a tem, mas pensa que tem, por isso não a adquire.
Número de frases: 78
* Entrevista publicada originalmente no jornal Diário da Amazônia, dia 26 de janeiro.
Corumbá (MS) -- Igualito é um pequeno vira-latas, que junto a sua dona -- a argentina Alice -- atravessou a fronteira com a Bolívia e hoje corre e brinca por toda Corumbá.
Como bom vira-latas que é, tem uma marra só de ele.
Suas pernas curtas limitam as corridas no jardim da Praça Generoso Ponce, onde grupos de artesãos expõe seus trabalhos.
Mesmo assim Igualito -- outorgado como xodó oficial dos hippies e de todos que buscam o refúgio do jardim -- mantém sua rotina de exploração do terreno, pedindo aos mais atenciosos brincadeiras com leves mordidelas nos calcanhares alheios.
Acácia é uma garotinha loira de três anos e meio que adora passear de pés descalços.
Seu nome é uma homenagem a Cássia Eller e uma alusão a uma árvore muito conhecida por as suas lindas flores amarelas, que aparecem entre os meses de junho a agosto no Pantanal.
Todos os dias -- durante os festivais, Acácia, acompanhada dos pais, curte o espetáculo do por do sol às margens do Rio Paraguai.
Em seguida -- com a pilha recarregada -- a garotinha corre por o gramado do jardim.
É muita tentação para o pequeno Igualito.
Inquieto, ele usa toda a sua força para alcançar Acácia.
A tarefa é difícil, o que faz a menininha cair na risada.
Ele a alcança e com uma inconseqüente delicadeza e a derruba.
Choro que nada.
Hoje é o dia de Igualito cair de cansado e pedir arrego.
Quando os dois já estão de língua de fora, correm ao encontro de seus respectivos «pais».
Rodrigo, pai da pequena, faz questão de levá-la todos os anos ao Festival.
Afinal, foi aqui, em sua primeira edição, que ela foi gerada.
Filha do Festival e filha de um responsável casal de hippies.
Rodrigo largou uma vida cinza de vícios em São Paulo para celebrar o colorido de Bonito.
Vendendo colares, pulseiras, dread locks e tererês, o jovem de 28 anos ajuda família na capital paulista e se desanda em planos para a jovem Acácia.
E todos os anos a gente se encontra em Corumbá.
E de longe se reconhece, se cumprimenta, bate um papo sobre passado, presente e futuro.
É como se todos os anos nos conhecêssemos novamente.
E Acácia cresce e encanta.
Novos personagens aparecem e iluminam ainda mais a Praça, como Igualito.
E a vida nesses dias corre tranqüila, como o rio Paraguai lá no fundo da paisagem, onde todo dia é de festa, de alegria, de sorriso no rosto.
Número de frases: 27
Esse é o Festival América do Sul, de Corumbá, do Pantanal, de Mato Grosso do Sul.
Perdida numa manhã de muito calor -- os dias aqui são realmente ensolarados, o que, de modo geral e paradoxalmente, nos dá um bom motivo para crermos na «salvação da lavoura» --, a cena pode ter passado despercebida.
Era o último final de semana do mês de julho -- mais precisamente, dia 28, sábado.
A marola esportiva, acalentada por o Pan-2007, embalava a nação, apanhada de surpresa na confecção desse patriotismo estrambótico, encerrado em ginásios, quadras de tênis e arenas, muito distante de qualquer demonstração mais convincente de consciência cívica e bem próxima de uma arraigada falta de educação ou, admitamos, espírito olímpico, seja lá o que isso queira dizer.
Em a esteira dos jogos do Rio, o similar indígena.
Em aquele sábado estávamos todos em Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza, e assistíamos ao segundo dia dos Jogos Indígenas do Estado do Ceará, um evento anual, ainda bastante recente e que dura de quatro a cinco dias, reunindo cerca de dez etnias em torno de algumas modalidades esportivas.
Algumas mais tradicionais, outras menos.
A o primeiro grupo pertencem a pesca com tarrafa, cabo-de-força e corrida com tora ...
Futebol, triatlon e natação -- modalidades olímpicas, sem trocadilhos, aqui e na China -- também fazem a cabeça dos nossos peles-vermelhas.
Por trás deste texto escrito às pressas, um tanto pobre de informações e extremamente pessoal e por isso mesmo intransferível, a tal cena que, agora mais que antes, acredito ter passado em branco.
Sim, deve ter passado, todos muito ocupados saudando os vitoriosos, sacolejando-se ao som de forró espocado por as caixas de som de um carro estacionado próximo ou simplesmente sentados ou de pé vendo à distância tudo aquilo.
A cena, porém, é de uma simplicidade estarrecedora, de um feijão com arroz sem tempero, de um bocejo sem graça e de uma pobreza inigualável.
É uma coisa bastante comum, uma mulher e nada mais que isso.
Quero dizer, uma índia tapeba.
Tem vinte anos e um filho de um ano ou pouco mais que isso.
O nome de ele é Luís Carlos.
Acho que já falei o suficiente.
Leiam!
A cena
Curió nada, nada.
Em seguida pedala, pedala.
Depois: corre, corre.
Descalça, dispara na rua cujo calçamento cobre-se de pedras salientes, os pés velozes flutuando, asinhas nas laterais.
Dá uma volta completa no açude, corta as ruas, não olha para trás, apenas corre e corre.
As demais, índias e descalças como ela, no encalço.
Antes, sem touca, braçadas firmes, pernadas ainda mais, mira a bóia branca um pouco adiante, faz o retorno ainda na frente.
São três voltas.
Ou duas.
Ou tão-somente uma, já nem lembro.
Ali não há técnica alguma, apenas a força dos braços e pernas, e as de Curió eram tão fininhas, quase como as de uma criança, uma menina cuja vida era diariamente curtida debaixo desse mesmo sol.
às margens do açude, uma confusão de cores.
O pardo dos índios confundia-se com o queimado dos moradores da litorânea Aquiraz.
Tudo salpicado, aqui e ali, de branco e preto, mais este que aquele.
Havia aproximadamente mil pessoas.
Ou menos, não se sabe ao certo.
De as portas e janelas de suas casas, muitos moradores viam tudo com um entusiasmo pouco mensurável.
Alguns caras-pálidas, sentados nas calçadas ou encostados nos postes, pareciam divertir-se.
Havia cerveja e muita gente circulando.
Havia, inclusive, um carro da imprensa.
Finalmente os índios seriam notícia.
Em as águas verde-escuro do açude, uma das atletas estaca, parece afogar-se, movimenta os braços freneticamente até ser socorrida por salva-vidas.
Curió prossegue, faltam alguns metros apenas, não esmorece.
Sai da água sob aplausos, toma a bicicleta, empoleira-se e forceja os pedais, que imprimem uma boa velocidade à bike no começo da corrida.
Ela ganha distância, alguma vantagem para a parte final da prova ...
A corrida propriamente dita, sem tênis ou água mineral ou energéticos ou chinelo ou protetor solar.
Apenas a planta do pé contra os pedregulhos da rua mal calçamentada.
Carne e pedras.
Ela palmilha a distância, chega na frente.
Vence a prova, reticente.
O corpo suado, os braços moles, as pernas claudicantes.
Em torno de ela forma-se um círculo de curiosos, amigos ou não.
Alguém registra tudo com uma câmera digital.
Curió estica-se um pouco, tenta recuperar o fôlego.
Uma menina aproxima-se.
Traz uma criança nos braços, Luís Carlos.
A cria tem pouco mais de um ano e nenhuma roupa sobre o corpo.
Curió alegra-se ao ver o filho, que ensaia algo como um choro de fome.
Ela se ergue, dá alguns passos.
O fim da cena
No meio da rua, sob sol forte e aturdida com a algazarra dos competidores de outras categorias, afasta, devagar, a alça da blusa.
Ninguém repara, estão todos preocupados com o final da prova masculina.
O peito é agarrado por Luís.
Ela curva um pouco o próprio corpo, quer facilitar a sucção do leite.
O menino agarra o peito que, para espanto geral de ninguém, era farto.
Larga-o em seguida, vai brincar no chão enquanto a mãe aguarda o início da pesca com tarrafa.
Brinca com pedras, que fazem as vezes de carrinhos.
Eis a cena:
uma mãe amamentando o seu filho.
«Nunca treino antes das provas.
Só corro mesmo na hora, começo e não paro mais», confessou, minutos depois, Curió Texeira, índia tapeba.
De ali a pouco a prova masculina de natação.
Ninguém arredava pé da beira do açude.
Muitos aproveitaram para tomar uma cachaça, embalar-se num samba, assistir a tudo com lentes embaçadas, fora de foco.
Índios e não-índios.
Em tempo:
Eduardo e as vacas magras
O mais próximo da cultura indígena a que se tinha acesso eram uns cordões fabricados com sementes oriundas das tribos e vendidos por meninos como Eduardo, de sete anos.
Ele vive ali mesmo, em Aquiraz, e pertence à etnia Jenipapo-Kanindé, a anfitriã da quarta edição dos Jogos Indígenas do Estado do Ceará.
Estava acompanhado do avô, cuja idade não sabia informar.
Em aquela manhã, segundo o indiozinho, as vendas estavam bem ruins.
Número de frases: 80
Mesmo baixando o preço dos colares, não conseguira vender nada, e voltaria para casa de mãos abanando.
«Espera, já vamos», respondia meio brava diante de minha insistência para irmos empinar pipa no imenso terreno que ficava atrás do quintal de nossa casa.
Era uma área plana, de um chão vermelho de terra batida que pertencia à Igreja Nossa Senhora Aparecida, que também emprestava o nome para a Vila e à rua principal, onde morávamos.
De a cerca de dormentes de nosso quintal, à direita da extensa área, a gente visualizava um barracão onde havia algumas salas para as aulas descompromissadas da professora Lurdinha e para a catequese moralista da primeira comunhão da garotada de toda Vila.
Em os finais de semana de setembro, até 12 de outubro, Dia de Nossa Senhora Aparecida, o galpão virava palco para quermesse onde católicos pobres trabalhavam para a paróquia arrecadar dinheiro em nome das constantes reformas do prédio da igreja.
à esquerda da cerca, a gente via o campinho de futebol onde corríamos com nossa pipa, e duas casinhas de tábuas pretas bem miseráveis.
Lá moravam dona Zefa, a benzedeira, e o marido seu Salvador, sempre adoentado.
Em outra casinha, viviam os negros dona Maria, seu marido que tinha o nariz comido por a hanseníase, com os filhos Vado e Cida, todos alcoólotras.
Em o terrenão, havia também alguns balanços e outros brinquedos infantis, todos em estado precário.
Mas para nós, que nem asfalto e nem água encanada tínhamos em nossa periférica Vila, estava tudo, tudo muito bom.
Era nossa Disneylândia provincial que fazia fronteira com o nosso quintal, que por sua vez, era, sem eu saber, o meu mundo encantado de Monteiro Lobato com muitas árvores e até um saci.
Depois de ela colocar a pipa lá no alto, entregava-ma lata com a linha e eu ficava horas me deleitando manobrando a linha amarrada àquele brinquedo de papel colorido, destacado por o fundo azul do céu.
Pipa recolhida e voltávamos para casa, sempre à procura do «o que vamos fazer agora».
Eu adorava quando ela sugeria para fazermos suspiros.
Primeiro era quebrar delicadamente os ovos, separar as gemas das claras e batê-las em neve.
Juntar o açúcar já refinado no liquidificador e mexer até dissolvê-lo muito bem.
Acrescentar raspas de limão e pronto, a massa branquinha e deliciosa estava pronta para ser pingada na forma untada e ser levada para assar.
Essa era a parte mais difícil e transgredida, porque, a cada suspiro formado, dois eram surrupiados por colheres marotas que iam diretamente para as bocas ávidas por o doce cru.
Eu comia tanto, que depois de algum tempo começava a imaginar um delicioso feijão bem temperadinho.
Era o excesso de açúcar que pedia para ser combatido por o sal.
Aliás, em nossa casa pobre, sobrava açúcar e faltavam alimentos, mas apesar disso, nunca passamos fome controlada por doses igualmente controladas de arroz e feijão.
Ela também me buscou na escola, levou-me ao médico e às vacinas, me contou histórias, me fez tomar o gosto por a leitura apresentando-mo meu primeiro romance a ser lido e muito chorado:
«O Meu Pé de Laranja Lima», de José Mauro de Vasconcelos, um Paulo Coelho da época.
Mais tarde e já bem crescida foi a única de casa com quem mantive contato efetivo e afetivo.
Mais tarde e já bem mais tarde, longe de casa, do nosso quintal e do terreno da igreja que hoje abriga uma Loja do Mcdonalds, a casa paroquial da Vila e um supermercado, apesar de eu achar que nada mais me surpreende, lá vem à vida me surpreendendo e me colocando distante, muito distante de meu tênue porto seguro genético-emocional que ela sempre me significou.
Hoje tenho cada vez mais certeza que as relações humanas são como as linhas que seguram as pipas:
podem até arrebentar, mas nunca deixamos de sentir a sensação de bem-estar, respeito e segurança ao lembrarmos de pessoas especiais que um dia nos causou tanta alegria e muito amor.
«Espera, já vamos!»,
ainda a ouço dizer, enquanto o tempo vai enrolando as linhas de nossas vidas.
(Em homenagem à minha irmã Bete que quase atravessou a fronteira, vítima de erro médico.
Ela fez aniversário dia 23 de feveiro, o qual mereceu ser muito, muito comemorado).
Número de frases: 31
Chegou no terminal a uma hora da madruga, talvez menos.
O corpo um pouco inclinado para frente, bigode amarelo, rosto surrado cor cinzas.
Eu estava no terminal para mais um episódio da série Cadeiras com Rodas.
Fiquei olhando.
Sentou num dos bancos de cimento do terminal, fechou os olhos e começou a cambalear levemente numa pequena elipse.
Sabia quem era.
Como não?
Valter di Lascio.
Poeta. Como não?
Freqüentador do Centro de Humanidades da UFC, da Uece, dos bares do bairro do Benfica, da Praia de Iracema ...
Vendedor chato de livretos de poesia sempre a lhe abordar em momentos inconvenientes.
Bis
Coito COM
Champagne Poesias
De VALTER Di LASCIO.
«Como não!?
Aquele paulista que vive no Dragão do Mar a vender aquelas xerox.
Algo como ...
Um poeta marginal!
Isso. Um poeta marginal a andar por as ruas de Fortaleza em pleno século XXI».
De 48 anos.
O universitário que foi para a Bahia, visitar uma figura, acabou ficando 15 dias na cada de ela.
Depois mais 15, foi bater em Ribeirão Preto.
O curso de História na UNESP correndo ...
Mais quinze dias não vão fazer diferença.
Minas ... Há nove anos em Fortaleza.
Sabe-se lá como chegou aqui ...
Passando agora, uns tempos, em Jericoacoara, reduto de turistas do mundo inteiro.
Dizem ...
que um dos homens mais assaltados em Fortaleza.
Coisa de 50 vezes.
Levam papéis, alguns livretos, desodorante, escova de dente, algumas poesias recém escritas.
Morador do Terminal de ônibus do Papicu há algum tempo.
Lugar seguro em Fortaleza.
Por ali, no terminal, chegam alguns, quando se finda um dia e insiste em começar outro.
Fuma feito uma caipora.
O bigode não nega.
Bebe socialmente diariamente, tentando dar conta das demandas da street high society fortalezense.
Dois meses sem beber por motivos de ordem médica.
Valter di Lascio.
Como não?
Tinha que entrevistá-lo.
Como que você vê sua condição de poeta marginal?
Acredita nesse estereótipo?
Quem colocou esse estereótipo não fui eu.
«Ah, porque você dorme no terminal».
Durmo no terminal porque eu não tenho grana porra, só por isso.
Se tivesse grana, claro que eu não ia tá dormindo no terminal.
Quero escrever, não tenho condições de escrever legal.
Quero trabalhar não posso.
Tô querendo estudar não posso.
Como que eu vou estudar no terminal?
Não tem condições.
Tô querendo trabalhar num projeto que são contos, fiz alguns contos e tal, mas pô, não tem condições, porra.
Eu mal durmo.
Eu cochilo, não durmo ...
Isso é uma conseqüência da própria cultura oficial porra.
Se os caras não têm o hábito de ler, como toda hora eu tô escutando:
«não gosto de ler», «vixe, tem que ler?».
Quer dizer, se as pessoas não gostam de ler, não vendo.
Se não vendo, não tenho como me manter.
Tenho que tá na rua.
Que nem agora, quero ir embora para a Jeri.
O que acontece?
Passo a noite, o que eu consigo de grana?
com si de grana pra chegar no terminal comer, comprar cigarro, o básico.
De manhã faço a merenda, no terminal, lógico, óbvio e vou para a rua.
Vou para a Universidade, fazer cópia ...
Enfim, vou fazer o que eu tenho pra fazer.
O que me sobra no dia seguinte é a grana pra refazer o material, às vezes não dá nem para almoçar.
A tua poesia é de subsistência?
Total, total ...
Por mim eu não venderia dessa forma que eu vendo.
Por mim eu venderia o produto final, ele completo, o livro.
O livro com 130 poemas, ilustrado, do jeito que foi feito.
Como tu produz esses livretos?
É feito num computador a matriz.
Eu pago pra fazer, amigo meu faz, o que tiver mais fácil no momento.
Se tiver dinheiro eu mando fazer, porque é aquela coisa às vezes o cara pega dinheiro pra fazer, na maior boa intenção.
Porém, no entanto, o cara estuda, o cara trabalha, o cara tem a vida de ele.
Eu não posso ficar no pé de ele cobrando:
«Porra, você já fez?
Quando você me entrega?».
Pô, o cara tá fazendo de graça, na maior boa vontade, e eu ainda vou ficar pegando no pé?
Não é legal.
Tenho que pagar.
Eu fui fazer agora o cara me cobrou 1,50 por página.
Depois que eu mandei fazer o cara chegou pra mim:
«Porra, por que tu não falou com mim?».
Como é que eu vou saber?
Eu não vou ficar perguntando de um por um, «você pode fazer?»,
«você pode fazer?».
Então é feita a matriz no computador, depois tirado xerox.
Custeado por mim.
Quais os pontos que tu mais vende?
Não tem os pontos que eu mais vendo, são os únicos que eu vendo.
É Universidade, Ponte Metálica e Dragão do Mar.
Existe alguma coibição no Dragão do Mar?
Existe.
Eu não tenho autorização.
Agora que a segurança tá pegando no pé.
Cheguei de Jeri agora, preciso vender, eles não tão deixando.
Só pode vender na praça, se não for na praça eles vêm pegar no pé.
Só nos bancos, ali eu posso vender.
Debaixo do planetário eu não posso, próximo do cinema eu não posso, debaixo da passarela eu não posso.
São dependências do Dragão do Mar.
Onde é o limite, onde termina o Dragão do Mar e onde começa?
Não sei, aliás nem eles [seguranças] sabem, é ordem superior, é ordem do chefe ...
Eles não questionam nada.
O que você acha desse tipo de proibição num ponto cultural?
Totalmente imbecil.
Se eu não posso vender um livro num centro que se diz de arte e cultura, porque eu não tenho a suposta autorização, eu vou vender aonde?
Porra, no show do Calcinha Preta?
Ou no Castelão em dia de jogo Ceará e Fortaleza?
Não tem cabimento porra, invés de ser proibido devia ser incentivado.
Quando eu converso isso ai com turista, o cara fica dizendo:
«Porra, não pode», se espantam.
Por que que não pode?
Vai perguntar pra ele porra.
Nêgo vende o cacete a quatro lá, mas tem autorização.
Não sei que porra de autorização é essa.
Pra botar um crachazinho no peito?
Não tem cabimento porra ...
A tua relação com Fortaleza é opressora?
Ah sim, me incomoda.
Eu não agüento mais viver em cidade grande, isso também em outras cidades grandes.
Eu não consigo mais viver nessa neura.
Em os meus textos, tu vai ver que tem toda uma temática urbana.
Eu não consigo me imaginar escrevendo cordel, seria uma violência, seria eu massacrar o cordel.
Então as informações que eu trago são outras, são influências urbanas.
Já tentou desistir da poesia?
Não, não pensei.
Por quê?
Você já pensou em parar de respirar?
Não.
Então, é a mesma coisa.
É uma coisa vital.
Não dá mais, chegou num ponto que não tem mais volta, agora é só continuar, onde vai dar não sei.
Pelo menos não vai ficar que nem a Ponte Metálica.
Espero que não, porque a Ponte Metálica é uma ponte surrealista, é uma ponte que não vai pra lugar nenhum.
E não é uma ponte na realidade, porque toda ponte implica que você saia de um ponto A para um ponto B. Tem início e fim.
Tá ultrapassando um obstáculo, né?
Essa ponte não, ela só começa, não termina.
Pra mim é um negócio surreal isso aí.
Então eu não quero que meu trabalho fique assim, também interrompido, então eu vou continuando ...
Essa ponte minha vai continuando, aonde vai chegar não sei e não tô preocupado.
O que eu quero, que fique bem claro, é paz e sossego, me deixar trabalhar sossegado, só isso porra.
Você tem compromisso com que valores?
É uma coisa que eu venho me questionando há muito tempo.
O que realmente é importante pra você?
Pra mim?
Pra você que eu digo pra todos.
Pra você também.
Pra você é importante terminar o curso de jornalismo, ter uma profissão ...
Não sei se você quer carro, casa na praia, cacete a quatro.
O que eu quero?
Não quero carro, não quero porra nenhuma, o que eu quero é trabalhar sossegado, ter um canto pra poder trabalhar, pra poder receber meus amigos, viver um pouco dignamente.
Não passar fome como eu passo, não passar sede como eu passo e isso não quer dizer luxo entendeu, continuo com minha havaiana no pé.
Não quero 10 calças como eu tinha antigamente, não quero uma porrada de livros, o livro pra mim é outro lance que eu mudei meu relacionamento com ele.
O que que adianta está com uma estante com uma porrada de livros apodrecendo lá se eu já li.
Então, se você me dá um livro, como já aconteceu e tem acontecido, então ...
se você tá me dando, não espere que ele fique na minha mão.
Não vai ficar.
Já li?
Já absorvi?
Eu passo para a frente, porque eu prefiro que ele passe para a frente do que fique parado na estante.
Quantas pessoas estão sendo privadas de ler enquanto ele tá privado na estante?
Pessoas que não têm condições de comprar o livro.
Isso é com tudo.
Eu tô cada vez mais querendo o mínimo.
* * * Pedi para que recitasse um poema (disponível em áudio).
Insinuou um cachê para a entrevista ainda com o gravador ligado.
Brincou. Queria receber em Euro.
De alguma forma tinha que ajudá-lo.
De alguma forma ia ter ganhos com a publicação do texto também.
Dei 5 reais.
Depois comprei mais dois livretos, por um real cada.
Encontrei Valter mais uma vez no terminal.
Ainda tentava interar o dinheiro da passagem para Jeri.
Reclamava que lhe faltava o que ler.
Entreguei-lhe um livro que tinha prometido.
Qualquer livro.
Escolhi uma edição de bolso de «Em uma fria» de Bukowski, sem atentar para a ironia do autor escolhido.
Depois, cruzei com ele mais uma vez nos arredores do Centro de Humanidades da UFC.
Três vezes em pouco mais de uma semana.
Como andava ...
Não o vi mais.
Foi para a Jeri.
Número de frases: 188
Por:
Eva Coutinho, criadora e editora da Revista Sintética.
21 de fevereiro de 2007 A estilista Glória Coelho sempre surpreende em todas as edições de SPFW.
A cada ano que passa seu estilo se confirma cada vez mais.
Ainda assim, ela consegue inovar, agradar e surpreender.
Em todas as coleções Glória faz um apanhado de diversas tendências aparentemente diferentes e consegue estabelecer relações surpreendentes entre elas.
Mesmo usando e abusando de referências antigas a estilista consegue manter seu estilo clean, moderno, com a pitada exata de futurismo.
Mas como será que ela consegue fazer isso?
Em sua coleção de outono-inverno apresentada na última edição do SPFW, em janeiro de 2007, Glória Coelho mostrou um desfile encantador.
A o vermos o release para saber o que ela havia usado de referência, a surpresa:
o século XV, o rock e até a pescaria estavam lá.
A o ver a coleção da estilista conseguimos depreender tais referências claramente, e mais uma vez nos surpreendemos por fazer tanto sentido!
Durante o evento, no lounge da Motorola, Glória Coelho prestigiou o público com uma palestra sobre o processo criativo de suas coleções.
Para esta, de outono-inverno, ela contou com a participação intensa de seu filho Pedro, que também é estilista.
Em um vídeo rápido a estilista mostrou que a parte inicial de sua criação é a pesquisa.
Glória mostra uma estante cheia de livros e referências.
Ela e Pedro mergulham nos livros e conseguem transformar itens do passado em peças de vestuário atual.
Isto só é possível porque Glória estimula a imaginação constantemente através da pesquisa e da leitura.
Durante a exibição do vídeo e da conversa que tivemos com Glória Coelho fica muito claro que não basta pegar um livro com boas imagens e chamar de «pesquisa».
É preciso ter a mente bem treinada todos os dias para conseguir estabelecer relações lógicas entre as diferentes referências.
Glória também participa intensamente da parte de construção dos looks.
Ela e Pedro fazem moulage (modelagem tridimensional, diretamente sobre o manequim) diversas vezes, inúmeras modificações, até chegarem ao resultado desejado.
Glória pensa detalhadamente em cada peça e nos acessórios também, que são criados sempre através de parcerias.
Em este desfile podemos ver uma série de jóias inspiradas em acessórios do Renascimento e dos punks da atualidade que são simplesmente um arraso.
Glória Coelho reforça a necessidade do estudo e da pesquisa para as pessoas que trabalham com moda, na área de criação e em outras áreas também.
Número de frases: 25
Portanto, se você quer trabalhar com moda, deixe a preguiça de lado e mãos à obra!
Li na edição de março do Jornal Fala Brasil, mensário da agenda cultural de Porto Alegre, esperei semana e meia e não vi em qualquer outro veículo da mídia associada ao poder local.
Ou eles acham o crime desimportante ou tão amorcegando, fingindo que a coisa aconteceu em outro planeta.
Azar de eles é que o mestre Danúbio Gonçalves é um conterraqueano dos mais qualificados da seara das Artes de por aqui e de alhures
E como Overmundo é mesmo um outro mundo, e eu até acho que nunca vou conseguir vaga de repórter, que cancelaram essa função aqui na terrinha, nesse mundinho de faz de conta, me engana que eu gosto e rosca frita, tô repassando para que a coisa não fique isolada das loisas, como diz a minha querida avozinha, já com saudade de mim que estou quase indo para a Beijing buscar meu chapeuzinho vermelho.
Desrespeito Memorial
por Danúbio Gonçalves (artista plástico)
Constatei há muito que um estudo de Aldo Locatelli (1961), pintado sobre superfície não identificada, trata-se de uma reprodução fotomecânica.
Impressa sobre papel colado em muro artificial com tijolos furados à mostra.
Como suporte uma chapa revestida com argamassa de dois centímetros.
Suporte constituído para colagem de uma reprodução, tendo sido pintada com pinceladas espessas em tinta branca, salientes da superfície colada.
Aparentando ingênuo recurso para impingir como um original de Aldo Locatelli.
Também as bordas dessa colagem pintadas em branco não correspondendo à cor reproduzida no fundo.
Conjunto instalado em montagem de madeira e apliques metálicos de extremo mau gosto.
Tombada ao acervo do MARGS (ano?)
e, provavelmente, faturada em misterioso valor ...
Agora, partes descoladas revelam esse truque fraudulento.
Estou denunciando tal substanciosa empulhação, exposta em dezembro de 2007, figurando entre obras autênticas do acervo do Museu!
Oportunidade que me possibilitou examiná-la detalhadamente com lente, confirmando tal suspeita.
Pois, até hoje (edição de março do Jornal Fala Brasil em que a denúncia está publicada), não apareceu alguém questionando esta fraude tão evidente, ou capacitado para acusar esse ilícito faturamento.
Número de frases: 20
Evidentemente seria santa ingenuidade deduzir que o estudo de Locatelli tenha sido doação de um desapegado amigo do MARGS (Museu de Arte do Rio Grande do Sul) ...
É, falta pouco tempo, fim de ano chegando e com ele um clima diferente começa a pintar, as ruas, lojas e casas começam a preparar para o período natalino e junto com ele o sentimento de amor ao próximo também aumenta.
Sendo assim, conforme os anos anteriores, devem aparecer poraí milhares de campanhas do tipo «Natal se Fome», não que devemos ser contra, pelo contrário ...
Mas uma coisa me deixa encucado:
Será que o pobre só se alimenta em dezembro?
Faço essa pergunta porque nunca vi nenhuma campanha Páscoa sem Fome, e muito menos 7 de Setembro sem Fome.
Taí, já que logo após o Natal vem o Ano Novo, que tal fazermos diferente?
Talvez com o povo alimentado-se melhor durante todo o ano o Reveillon de 2007 fique muito melhor.
Número de frases: 8
O Coletivo Entretantos [Marcus Vinícius + Rafael Massena + Renato Marianno] recebeu um incentivo da Secretaria de Produção e Difusão Cultural da Ufes para produzir uma publicação sobre o projeto de ações e intervenções urbanas multipliCIDADE, que foi realizado em meados de agosto, na cidade de Vitória, no Espírito Santo.
Inicialmente convidamos os artistas que participaram do multipliCIDADE e também alguns amigos, críticos, etc, para contribuírem com a nossa tão esperada publicação.
O nosso intuito é divulgar imagens e textos relacionados à prática da arte urbana, enfatizando iniciativas independentes, coletivos de artistas, ações e intervenções.
Sem fins lucrativos, a publicação será distribuída gratuitamente em locais que de alguma forma estejam ligados a ações artísticas e culturais em todo território nacional.
Portanto, convidamos amigos, curiosos e interessados a colaborarem com artigos, textos e imagens!
Enviem suas sugestões e colaborações para o e-mail do coletivo entretantos 2005@hotmail.com
Aguardamos!
Abraços,
Coletivo Entretantos.
* * * Confiram o nosso blog e site!!
Coletivo Entretantos
http://www.premiosparavoce.com.br/entretantos multipliCIDADE -- Ações e Intervenções Urbanas
http://www.multiplicidade 2006.
Número de frases: 13
blogspot. com
José Hamilton Ribeiro, o mais premiado jornalista do País:
74 anos de idade e 54 de profissão
«Eu sonhava em ser jornalista de guerra».
Logo que saiu da faculdade, o jornalista e cineasta Eloy Pires Ferreira desistiu do sonho:
«Era coisa de moleque.
Perigoso demais».
Passou a trabalhar com jornalismo agrícola, num programa aos moldes do Globo Rural.
Admirava o repórter José Hamilton Ribeiro, principal nome do matutino dominical da Globo.
Anos depois, descobriu que Ribeiro tinha sido repórter de guerra:
mais um motivo para a admiração.
Em a semana passada, Eloy foi acompanhar o bate-papo com o ídolo nas Livrarias Curitiba do Shopping Estação.
Depois de quarenta minutos de espera, Ribeiro chegou.
Sorridente, seu rosto não esconde as marcas da passagem do tempo:
74 anos de idade, 54 de jornalismo.
Este deixou as mais profundas.
Em a sua grande reportagem, ou na sua maior, pois as grandes foram tantas, e sete de elas receberam a maior honraria do jornalismo nacional, o Prêmio Esso, esteve no Vietnã, em março de 1968.
Durante a Guerra, e ao lado do fotógrafo Henry, correu em direção a explosão de uma mina para acompanhar os feridos.
Poucos minutos depois, fragmentos de outra explosão acertariam a perna direita de Ribeiro.
Em a revista Realidade, sob o título «Nosso repórter viu a guerra de perto», escreveu:
«Ouço uma explosão fantástica.
É um tuimmm interminável que atravessa os ouvidos de um para o outro lado, dá-ma sensação de grandiosidade.
Sinto-me no ar, voando, mas, ainda assim, com uma certa tranqüilidade para pensar:
-- A guerra é de fato emocionante.
Agora entendo como há gente que possa gostar da guerra."
Quatro cirurgias depois, Ribeiro conseguiu retornar ao Brasil.
Desde então, uma perna mecânica o acompanha, o que o levou a responder a pergunta mais estúpida já feita a ele:
«Se era difícil ser repórter com uma perna só».
A resposta, da qual se orgulha, sempre faz questão de contar:
«É mais difícil do que com duas, mas é mais fácil que com quatro».
Contou a experiência mais uma vez em Curitiba.
A jornalista Juliana Vines lembra já ter ouvido a história, também reproduzida em dois momentos no livro «O repórter do Século», seleção de oito reportagens de Ribeiro.
«Ele contou as mesmas experiências numa palestra que vi no interior do estado.
As mesmas e divertidas histórias».
São grandes histórias para jornalistas, alunos e público em geral.
Mas seus ensinamentos também são técnicos.
A maneira como transforma dados em texto fluído é uma aula àqueles que tem que escrever sobre números.
«Quando nasce, o brasileiro só pode esperar viver pouco mais de 50 anos.
Se for nordestino, a coisa muda, para pior:
quase não chega aos 40.
A idade média do brasileiro é de 54 anos -- a mesma da Suécia, no século XIX.
Só 4,3 % da população alcançam os 60 anos», escreveu em 1968 na reportagem «De o que morre o Brasil».
José Hamilton Ribeiro chegou há 27 anos no Globo Rural.
Seria uma experiência curta, que, a princípio relutou em aceitar.
Seria apenas por alguns meses, enquanto o Globo Repórter, programa onde trabalhava, não voltasse ao ar.
Apaixonou-se por o campo e está no Globo Rural desde então.
A reportagem do Vietnã é lembrada por os colegas de profissão como o seu maior trabalho.
A os 74 anos, Ribeiro tem uma opinião diferente:
«A melhor reportagem?
Com certeza será a próxima, de tantas que ainda farei.
Sempre espero que a próxima saia melhor», responde o senhor gentil que é a encarnação do jornalismo por excelência.
Número de frases: 51
Prepare a pipoca e curta cinema de qualidade na telona.
E o melhor:
sem pagar ingresso e ao alcance do mouse.
Grande ícone da produção de curtas brasileiros, Jorge Furtado acaba de lançar Rummikub no Festival de Curtas de SP.
Estrelado por Alice Braga, o filme traz a história de duas famílias de amigos que, num fim de semana chuvoso na praia, reativam uma antiga richa numa disputa de um jogo.
Enquanto isso, alheios às brigas dos pais, surge um casal de amantes.
Rummikub está disponível para exibição gratuita e na íntegra no Porta Curtas Petrobras.
Maior site brasileiro de exibição e catalogação de curtas-metragens nacionais, o Porta Curtas Petrobras comemora 7 anos de atividades presenteando os fãs do cinema nacional com a redigitalização do seu acervo.
Grande parte dos mais de 600 curtas do site já estão disponíveis com melhor qualidade numa tela de exibições maior.
O Porta Curtas utiliza a tecnologia de streaming, que torna mais leve e rápido o download e a execução de áudio e vídeo na web, pois permite visualizar os arquivos enquanto o download é realizado.
Número de frases: 10
Para conferir o novo curta de Jorge Furtado na nova tela de exibições do Porta Curtas Petrobras, acesse www.portacurtas.com.br Difícil explicar o Cravo Carbono.
De som tão multifacetado quanto o gosto musical dos seus integrantes, ele se situa numa espécie de zona do crepúsculo da música paraense.
Rock demais para o pessoal da MPB e talvez MPB demais para quem acha que o rock se faz apenas com guitarradas distorcidas e letras de pura ingenuidade juvenil.
Um mal comum nos dias que correm, onde rapazes tatuados cantam letras de amor enquanto dão piruetas em seus skates e posam para o vídeo da semana na MTV.
Mas entre o rock conformado a ser produto de massas e a fábrica incessante de ídolos pop, existe uma música brasileira subterrânea, subdesenvolvida por natureza e paradoxalmente sofisticada e pós-moderna, que busca entender a si própria a partir das contradições do lugar de onde surge.
Como o Cravo Carbono, que cogita unir o poeta Max Martins aos catadores de siri dos rios paraenses e mistura experimentações kraut-rock com guitarradas e poesia concreta com festa de aparelhagem.
«Embora tenhamos uma formação baixo guitarra voz e bateria e realmente bebamos do rock, entre diversas outras fontes, radicalmente não acho que o Cravo seja só uma banda ' do ' rock, feita para executar seus programas neste sistema operacional», vai explicando o vocalista e principal letrista da banda «Lázaro Magalhães,» Isso seria ferir nossas possibilidades de mobilidade.
Esse tipo de visão tem que implodir, porque não explica como os Mestres das Guitarradas podem andar no mesmo bando do Cravo Carbono e do Tecnoshow, nem as ligações do Mestre Laurentino com o Coletivo Rádio Cipó», por exemplo».
Lázaro não deixa de ter razão, já que essa confusão e essa interseção de estilos e maneiras de fazer música estão presentes não só na cena musical paraense, mas também na própria formação do Cravo Carbono, que de 1995 para cá contou com músicos das mais variadas procedências, do hardcore ao pós-punk, do rock progressivo à MPB.
Tanta gente junta, tocando tanta música diferente, só podia dar nisso.
E, segundo Lázaro, contribuir para uma tentativa de criar uma música pop amazônica.
«Sabemos que no Norte existe uma maneira de tocar guitarra que é genuinamente brasileira, responsabilidade do Vieira de Barcarena, inventor das guitarradas.
Mais ainda:
no som do Cravo, que tem uma formação até limitada, queremos mesmo é colocar em pé de igualdade o zouk com o blues, o carimbó com o rock, com o merengue, com o samba, com o tecnobrega, com as guitarradas, a música eletrônica e o que mais for audível no planeta», afirma ele.
Some-se a isso reminiscências de sua infância quase nômade nos anos 70 e 80, que explica o emaranhado de referências visuais e literárias retratado nas letras da banda.
Filho de pai militar, Lázaro cresceu entre Belém, Manaus e Rio de Janeiro, com direito a breves estadas no nordeste e em Corumbá, na fronteira do Brasil com a Bolívia.
«Eu tinha amigos filhos de paraguaios que escutavam rasqueado, polca paraguaia, Milionário e José Rico, Abba ...
E ainda havia aquela história de começar a ouvir música em trilha de novela.
Nesse meio tempo descobri a poesia.
Gosto do Drummond, do Pessoa, do Quintana, gosto da crueza dos punks.
Em as letras, a Belém que eu tenho na cabeça é um lugar que sempre vi muito ligado ao resto do Brasil:
uma metrópole de concreto maluca, maravilhosa, perversa e única, que cerca o bosque Rodrigues Alves e ignora curiosamente a floresta e a baía que sempre a cercaram, e cheia de personagens e histórias comuns a qualquer outro lugar do planeta», diz.
Ao lado do baixista Bruno Rabêlo, ex-guitarrista da banda de heavy-metal experimental Mohamed;
do ex-rock progressivo e agora homem da guitarrada Pio Lobato e do baterista Vovô, também baterista do projeto Cuba S.A., da banda Homem Sem Pecado e dos Mestres da Guitarrada, Lázaro acha que finalmente o Cravo Carbono encontrou um som para chamar de seu.
O estágio final de um processo que se iniciou de fato com o disco Peixe Vivo, de 1999, que apontava os caminhos que banda iria seguir de ali para frente:
a poesia concreta, as letras declamadas, o rock experimental e a aproximação com os ritmos amazônicos e caribenhos.
Principalmente as guitarradas, uma obsessão de Pio Lobato.
O resultado mais imediato desse processo é Córtex, o novo disco da banda.
Ao contrário de Peixe Vivo, gravado ao vivo em apenas uma tarde, é um álbum mais lapidado, menos «nervoso» e menos limitado musicalmente, nas próprias palavras do vocalista.
Talvez por o fato de ter sido gravado ao longo dos últimos três anos em estúdios improvisados na casa dos integrantes da banda, sem as pressões de um estúdio convencional.
De aí saiu um disco mais diversificado, liricamente mais interessante e apontando para novos caminhos sonoros.
O Cravo Carbono mudou para continuar o mesmo.
E segue confundindo a cabeça de quem separa a música em rótulos e prateleiras.
Para ver um webclip do Cravo Carbono no Overmundo clique aqui.
Para ouvir música também sem sair do Overmundo:
Número de frases: 35
A Marcha, Café Br, Supernada.
Você que está acostumado com grandes emissoras, milhões de pessoas recebendo o mesmo sinal, já imaginou algum outro modo de fazer televisão?
Com dez anos de existência a menor TV do mundo nasceu do sonho do mineiro, Francisco Dário, de se tornar apresentador de televisão.
A TV Muro foi criada em 1997 quando Francisco, popularmente conhecido como Chiquinho, achou no ferro velho um Link de tv.
Com uma televisão em preto e branco, uma câmera VHS e outros equipamentos improvisados, Chiquinho começou a gravar seus próprios programas inspirado na programação das grandes emissoras.
Chegando à cidade de Sabará, onde está situada a TV muro, nos deparamos com pessoas sentadas na calçada em frente um pequeno muro branco.
Chegando mais perto percebemos um buraco no muro com uma TV de 14 polegadas, era a «famosa» TV Muro.
Em aquele dia por volta das 19 horas estava passando seu programa de maior audiência, o Big Muro Brasil.
O programa foi inspirado no Reality show Big Brother Brasil e foi produzido para comemorar os dez anos da TV Muro.
Seus participantes eram pessoas da comunidade, familiares de Chiquinho e o seu cachorro.
Como você acha que se mede o IBOPE de uma mini TV?
Para medir o IBOPE da transmissão, Francisco usa de um artifício no mínimo curioso:
Através de um buraco feito no portão da casa, algum membro da família, normalmente sua mãe, observa quantas pessoas estão assistindo a programação.
Fazendo assim a contabilidade do IBOPE.
A programação é voltada para questões sócio-educativas, envolvendo saúde, educação e utilidade pública.
Há também denúncias do descaso do poder público e programas de humor, como a série de contos que relatava casos de assombração na cidade de Sabará.
Chiquinho, um homem simples, sem grandes conhecimentos técnicos, que com sua grande criatividade é um bom exemplo de pequenas iniciativas que contribuem para o desenvolvimento da comunidade.
Sua iniciativa já está colhendo frutos, a Petrobrás lançou este ano um documentário sobre a TV Muro, além de grandes participações nos programas da TV Globo.
Número de frases: 18
Teresina é uma cidade que possui muitos bares, mais poucos locais são destinados ao Underground, O bar chama-se na verdade Frank Bar, e fica localizado no Dirceu 2, Prox as Hortas.
O ambiente depende da noite, as vezes sujo e podre como o mais puro dos Black Metal e as vezes agradavel e doce como as mais belas melodias, de tudo se encontra por la, desde Punks, Metaleiros, Indies e ate AnarcosPlays e Patygirls, sem contar que tu pode dar de cara com o tão famoso Geovane Boca Louca pedindo um Realzinho ai pra comprar uma «Pepita».
O bar também oferece a opção de pousada para aqueles que residem em outros locais da cidade, podendo chegar na sexta a noite e so voltar para a casa na segunda pela manhã.
Número de frases: 3
Indicado pra todos sem faixas etárias, aparecam e divirtam-se porque Underground de verdade é so no Bar do Charlles.
Em um final de noite com um ar chuvoso, Guy Veloso abre as portas de seu belo apartamento para uma entrevista informal e descontraída, falando um pouco da sua história, carreira e do seu amor por a arte de fotografar.
Ellen -- Quando começou a fotografar?
Guy Veloso -- A os 18 anos por puro hobbye, mais depois a fotografia foi ocupando um lugar mais serio em minha vida a partir do momento em que comecei a vender fotos para museus e fazer exposições.
Ellen -- Qual a principal característica que destaca seu trabalho dos outros fotógrafos?
-- Tenho como tema principal à religiosidade isso já é um diferencial, outro diferencial é que eu faço tanto colorido quanto preto e branco, e um terceiro seria o modo como saio para fotografar, não de coletes, nem levo varias maquinas, lentes, aqueles zooms imensos, porque de certa forma isso acaba por intimidar a quem quero fotografar.
Vou com uma maquina uma lente pequena, essa minha maquina tem um design antigo, tanto que ninguém nem percebe que estou fotografando, e por isso acabo por me tornar um fotógrafo invisível.
Ellen -- De onde vem à inspiração para as suas fotos?
-- Eu acredito que a inspiração vem antes de tirar fotos, a inspiração vem no momento de escolher um tema.
Sempre gostei de estudar questões metafísicas, espirituais, esotéricas, então tenho isso muito com mim e eu passei a procurar isso nas outras pessoas, por isso escolhi o tema religiosidade e isso me inspira.
Ellen -- Qual das fotos que você já fez que te emocionou mais?
-- Bom na verdade as muitas fotos que mais me emocionaram, não são as mais conhecidas, nem entraram em exposições.
Como eu tenho um contato muito próximo com a pessoa que vou fotografar, por exemplo, eu fotografei uma senhora chorando e antes de fotografá-la eu fui lá conversei com ela, ela me contou a historia de ela, e os motivos por ela estar chorando, essa é uma foto que me emociona, ela nunca entrou em exposição e nem a tenho digitalizada no computador.
Agora das fotos mais famosas eu gosto de uma que é a da Nhá Pereira, que foi feita em Belém no ano de 91, que era uma senhora de 94 anos que era neta de escravos, que viu o cometa Halley em 1910, e que lembrava perfeitamente que o cometa era uma bola de fogo no céu.
Essa foto faz parte da Coleção Joaquim Paiva de Fotografia Contemporânea que é a principal coleção de fotografia particular do Brasil, das mais conhecidas é a que me tocou mais.
Ellen -- Você já ganhou vários prêmios, qual desses deu a você mais gratificação em ganhar?
-- O que me deu mais prazer o que me pagou melhor, foi a Arte Pará, não que esse tenha sido o mais importante mais na época foi o que melhor remunerou.
O mais importante foi Nikon Contest, Tokio-Japão, 1999.
Mas na verdade eu não acho prêmios tão importantes, já achei um dia mais hoje eu não acho tão importante.
Hoje eu acho que os museus que compram meus acervos são mais importantes que os eventuais prêmios, então eu diria que o meu prêmio hoje foi a Coleção de Fotografia de Portugal, do Instituto Português de Fotografia ter comprado uma foto, que a University of Essex Collection of Latin American Art (UECLAA) que tem uma foto minha em seu acervo.
Esses são os meus grandes prêmios, não premiações comuns, mais exposições, acervos em lugares prestigiados, isso é que considero prêmios.
Mais claro que um prêmio é sempre bem vindo, ainda mais se acompanhado por uma boa quantia em dinheiro, que me dê suporte para comprar mais maquinas, lentes, viagens, computadores, enfim uma quantia que me disponibilize melhorar meu equipamento de trabalho.
Ellen -- Quantas fotos tem em seu acervo?
-- Nunca contei, mais são muitas.
Por que eu sou um pouco compulsivo, então quando viajo geralmente faço 40 filmes, cada um com 36 poses, agora que também estou com uma digital, que não é um digital seria é uma maquina de uso pessoal faço mais 900 fotos.
Engraçado ano passado eu estava com a minha maquina digital no ano passado e eu acabei fazendo a melhor foto do círio com essa digital porque eu simplesmente a ergui em cima da corda, sem fazer foco nem nada, simplesmente bati, e acabou sendo a melhor foto, feita com uma foto semi-profissional.
Ellen -- Miguel Chikaoka, Walter Firmo e Fernando del Pretti, que são mestres na arte de fotografar fizeram parte de sua formação com fotografo, de alguma forma eles influenciam ou influenciaram em seu trabalho?
-- Claro.
Del Pretti foi quem me ensinou a parte técnica, o Miguel foi quem envolveu o lúdico que foi quem me fez entender que a fotografia é muito mais do que colocar imagens na parede, ele foi quem me deu a idéia de como se faz um ensaio fotográfico, quantas informações devem existir atrás dessas fotos.
E o Walter me ensinou os truques do colorido, de como fotografar em cores, técnicas de abordagem às pessoas, de como perder a timidez.
Então de cada um eu peguei um pouco, fora outros grandes fotógrafos que são meus ídolos.
Ellen -- Quando você começou a desenvolver seu trabalho como escritor?
-- Sempre gostei de escrever desde pequeno.
E eu tinha uns textos assim com uns 18 anos, que eu entregava para a namorada, outros para uma paquera, às vezes não davam em nada mais tudo bem (risos).
Em 1993 aos 23 anos, eu fiz o Caminho de Santiago de Compostela, que é uma rota medieval que vai da França até o final da Espanha, fiz a pé o mais tradicional possível.
Assim fiz um diário de bordo e achei interessante compartilhar, já havia outros livros sobre o assunto na época, mais não de uma pessoa comum que fez o caminho sem conhecer direito.
Os outros livros eram muito esotéricos, falavam muito da parte de magia que envolvia o caminho, por isso resolvi fazer o livro sobre alguém comum que fez o caminho de mochila nas costas, fotografando, passando por tudo aquilo.
Então foi o primeiro livro sobre o Caminho mais «pé no chão», o titulo do livro é Via Láctea, já tem uma editora querendo fazer a 5a edição, porque ele está esgotado no momento.
Ellen -- Seu trabalho como escritor te ajuda na hora de fotografar?
-- O trabalho de escritor me ajuda sim, nas legendas eu tenho a preocupação de colocar em baixo das fotos em que momento elas foram captadas, que data, quem são aquelas pessoas, para que no futuro isso vire um documento histórico e que não vires só uma obra de arte.
Eu quero que ao mesmo tempo em que a pessoa olhe aquilo com a emoção, que ela sinta a emoção da foto, eu quero que ela tenha também esses dados técnicos.
Ellen -- É difícil ser fotógrafo em Belém?
-- É difícil sim.
Porque eu ainda não consegui viver somente da fotografia.
Eu tenho um emprego público que sustenta esse meu lado artístico.
Hoje em dia eu já vendo muitas fotos, eu já ganho para expor, sou convidado para exposições e às vezes tem o cachê, mais ainda não consegui igualar o que eu gasto do que ganho estou quase chegando lá.
Ellen -- Maiorias dos seus trabalhos são em cima da religiosidade e em eles você consegue captar com excelência essas demonstrações de fé.
Em que momento você consegue captar essa «fé»?
-- Acho que uma foto tem que ser pensada.
Ao mesmo tempo embora pareça contraditório, eu fico completamente concentrado, eu fico sempre fazendo a leitura mesmo que eu não tire a foto, eu já estou como exemplo no círio, já estou com a leitura do fotômetro pronta para batê-la.
Para mim o principal é a concentração, eu fico 100 % concentrado, e eu fico muito perto das pessoas sentindo um pouco do que eles estão passando.
Eu já com si antever situações fotografáveis, e são nessas situações em que eu sinto que é a hora de bater a foto.
Número de frases: 52
Esteve recentemente em temporada no Auditório Lourival Batista, em Aracaju, às quintas e sextas-feiras, sempre às 19 horas, o espetáculo teatral «A Ordinária de Deus», uma surpreendente e agradável opção cultural para os fins de tarde em Aracaju.
O texto de José Luiz Nicácio é um monólogo, que naturalmente exige muito do ator, a direção foi de Isaac Enéas Galvão, e o talento, do eclético ator sergipano, Luiz Carlos Reis.
Uma viúva solitária, temente a Deus, fecha um pacto com o mesmo para, somente quando estiver sozinha, maldizer a ' nora ', namorada do filho.
Ela sempre agiu assim e sempre conseguiu seu objetivo:
supervisionar as namoradas do filho, infernizando-as, até espantá-las.
Entretanto, e ai está a grande sacada do texto, ela se vê agora diante de uma adversária linha dura, ' ordinária ', como ela mesma diz, que devolve na mesma moeda tudo o que lhe é ofertado.
Rica, fina, elegante, decidida.
Todas as virtudes que a senhora julga possuir, ela sabe que a outra já as tem.
É como se as duas fossem a mesma pessoa, só que em tempos diferentes, colocadas frente a frente;
ela com sessenta anos, diante de ela mesma, com vinte, provocando no público a dúvida sobre quem é mais «Ordinária», se a nora ou a sogra, se a experiência ou a jovialidade.
Subtende-se, com o transcorrer da trama, tratar-se de uma casa muito grande, com vários compartimentos, possuindo, inclusive, uma biblioteca onde o jovem filho costuma recolher-se.
Sendo a senhora viúva, herdou fortuna e usufrui de vida tranqüila, regada com o que há de melhor.
O cenário, realista, apresentava dois ambientes:
uma sala com duas cadeiras e mesa de centro sobre a qual se encontra a bandeja com o bule de chá e as xícaras, constantemente utilizadas por a senhora, além de um porta retrato com foto do filho.
É nesta sala que acontecem os diálogos entre a nora e a sogra (revezamento entre as personagens por parte do ator).
O outro ambiente é um santuário;
um altar com santo e velas sempre acesas.
É aqui, sozinha, rasgando a foto da outra, que a senhora, realmente, destila seu rancor por a nora.
Cenário de concepção simples permitiu que fosse montado rapidamente em qualquer lugar.
O figurino e a maquiagem do ator ficam a cargo do competente Hélio Santos, profundo conhecedor de estilos e épocas.
A concepção do espetáculo e a sonoplastia são do jovem André Luiz, que também opera a luz e o som.
A «Ordinária» de Deus é o terceiro monólogo protagonizado por o ator Luiz Carlos Reis em Aracaju, sendo o segundo seguido em que o ator interpreta uma mulher.
O outro foi a peça Os Olhos Verdes da Neurose onde uma mulher conversa com médicos imaginários.
Entretanto, não se pode dizer que o ator se repita.
Em absolutamente nada a megera sogra de Ordinária de Deus nos lembra a esquizofrênica mulher de Os Olhos Verdes da Neurose.
O ator apresenta total controle sobre a personagem.
O que se vê é um belíssimo trabalho de interpretação.
Para todos aqueles que gostam de teatro com qualidade e admiram a boa arte da dramaturgia sergipana, a «Ordinária» de Deus foi, sem soma de dúvidas, uma agradável opção para os fins de tarde em Aracaju.
Número de frases: 28
O caso está na novela.
Ana Cristina foi vítima de nosso elitismo.
Os gregos tinham consciência disso.
A comunidade é um fato e não distribuir a renda é criar violência.
Os liberais sem liberalismo agem como se o mundo fosse de proprietários rurais livres e empreendedores que querem «liberdade» do estado Absolutista-Comunista, mas, com 2.000 favelas em São Paulo, como nos lembrou o governador Lembo no Jô, parece que seria impossível viver num mundo sem dar nada de graça a ninguém.
Porque de fato, pelo menos o imigrante miserável ganhou a terra, e o escravizado perdeu a sua.
A violência do Estado mínimo -- o RS deveria ter 11 mil policiais, mas tem a metade-se reproduz na violência de que os milionários estão isentos de impostos.
«Quase 14 milhões de brasileiros passaram fome em 2004."
Paulo Freire, quando foi secretário da educação de São Paulo, pensou que as escolas eram vítimas de depredação como uma resposta à violência quotidiana em que vive a população pobre deste grande centro urbano.
Ele não falou da violência simbólica, não ter um lugar na vida conceitual nacional, mas ela está em tudo isso.
Ou seja, existe um fato real de violência constante:
a violência da ausência, do elitismo, da concentração, da novela onde todo mundo é branco e anda de Mercedes (aliás a novela debate o caso, o Leblon se salva e " o resto da cidade faz promessa pra ver se chega vivo em casa ..."),
a violência da publicidade (todo morador de vila que conheço se sente o mais infeliz dos homens se não tem uma TV 29 polegadas ou um «som», ou um celular de câmera-sem isso você é ninguém) ...
É a força opressora da propaganda criando consumismo inútil que não melhora a vida de ninguém, e Estado mínimo onde as agora vítimas ganham isenções, o que faz faltar dinheiro para educação pública e conseqüente participação democrática ...
Como teremos controle público para que a democracia não se torne uma ditadura de comerciantes se o público é miserável?
Ausência simbólica, reação.
O pobre se torna ignorante remediável ou explorado romântico, nunca alguém vivo e ativo, com todas as necessidades que tem a classe média, shampoo, caneta e livro.
O revólver é sua marca de «entrada» como ator.
O povo não existe.
Paulo Freire também nos lembraria da necessidade de uma moral de fundo que dê valor às nossas ações.
Sem o cristianismo (longe das regras contra a carne) com sua idéia de caridade, não existiriam nem a vontade de vender, nem a redistribuição dos lucros, que mantém a paz.
Se você não tem interesse por as pessoas nem saberá o que elas querem comprar ...
É aí que a questão social se torna ética.
«Os presos ficam aí, ganhando comidinha de graça» me diz um jovem de 16 anos. (
4 mil em Charqueadas, onde poderia ter 1.500).
«É bom para a nosa imagem ter uma grande empresa no estado, mesmo se não pagar impostos;
gera empregos (?)
e dá confiança a outros negócios (?) "
diz uma amiga.
Não existe opinião pública.
Se ninguém tem interesse por o povo quem vai gerar informação para o bem do todo?
Se não existe o «público» deixemos o país ao abandono, façamos a gritaria ao redor dos investimentos de Lula em infra-estrutura, salvação de estômagos, redistribuição periférica da verba de cultura.
Infelizmente o Brasil não percebeu o seu elitismo, seu europeísmo ridículo, a forma como um Mercedes Benz ML 500 afronte um miserável com bicicleta.
Estamos fartos de teorias impostas hierarquicamente, de intelectuais sabe-tudo, de consultores de empresa, de gênios da nova era.
Se as pessoas estão reagindo ao abandono (" A bronca de eles não é somente contra os atos da polícia, existe uma insatisfação social», ou a guetização (" mataram 117 pessoas no Estado, o que dá uma média de 1,3 pessoas mortas por dia em ' confrontos "), a questão volta a ser de postura, moral.
A postura do medo do outro.
Número de frases: 36
http://afonsojunior.blogspot.com/ Nós, brasileiros, temos fama de ser extremamente sensuais, liberais, permissivos ...
Enfim, o resto do mundo nos vê como um povo mais do que chegado no forrobodó.
Mas essa fama é injusta.
Mal sabem eles, os gringos, o quanto somos conservadores.
Se soubessem que até nas dublagens de filmes nós substituímos os palavrões por expressões inócuas, ficariam horrorizados.
Sim, mostramos o corpo no carnaval.
Assim como mostrávamos antes das caravelas.
Talvez seja por causa do calor, sei lá, mas não é por vocação erótica ou maturidade sexual.
Afinal, quando uma gringa faz topless em nossas praias, a rapaziada do ' país liberal ' não cansa de olhar.
Eita povinho caipira, né?
De esse modo, claro que nosso mercado pornô nunca foi bem das pernas.
Os Eua, famosos por seu puritanismo, têm uma indústria altamente conceituada, com atores e atrizes famosos -- que vez por outra freqüentam programas televisivos e / ou são objeto de filmes de hollywood.
A coisa por ali é melhor inclusive nos filminhos amadores que caem na Internet.
Pamela Anderson e Paris Hilton aparecem em cenas da pesada, enquanto nossa Cicarelli foi para a água e se escondeu.
Mas vamo que vamo ...
Famosos no Pornô
O rótulo ' famoso ` é sempre subjetivo, tanto mais nos dias de hoje, com uns 450 reality shows anuais.
Guardadas as proporções e os quase infinitos valores semânticos da palavra ' fama ', pode-se dizer que não são mais somente os anônimos que estrelam filminhos pornôs no Brasil.
Tudo começou com Alexandre Frota, depois vieram Rita Cadillac, Vivi Fernandez, Marcia Imperator, Mateus Carrieri e Gretchen.
Eles estão, todos, no selo «Brasileirinhas».
Vejamos cada caso em separado:
Alexandre Frota
O pioneiro já participou de nada menos que seis filmes.
São eles:
«Anal Total & 10», «Invasão de Privacidade»,» 11 Mulheres e Nenhum Segredo», «Sexo Suor e Samba», A Bela e o Prisioneiro» e «Garoto de Programa».
Em este último, o mais recente, ele transa com a travesti Bianca Soares.
Rita Cadillac
Ela começou com «Sedução», atuando de forma convincente.
Seu segundo trabalho foi «Sexo no Salão», no qual somente fez entrevistas, sem fazer sexo.
Recentemente, estrelou «A Primeira Vez de Rita Cadillac».
A virgindade em questão diz respeito ao sexo com outra mulher;
no filme, a eterna chacrete realiza a façanha.
Gretchen
O resgate dos anos 80 repercutiu também no mundo do pornô.
O selo «Brasileirinhas» já anuncia em seu website o filme «La Conga Sex», estrelado por a cantora e mãe de Tammy.
Mateus Carrieri
Ele ficou famoso por sua participação na primeira ' Casa dos Artistas '.
Sua nova empreitada é o filme «Club Privê», no qual contracena com Pâmela Butt, Lana Starck, Cyane Lima e grande elenco.
Vivi Fernandez
Estrelou os filmes " Vivi.
Com. Vc «e» Carnaval «2006».
Ela já foi dançarina do programa do Gugu e também «Mallandrinha» (como eram denominadas as assistentes do comunicólogo Sérgio Mallandro, o do ' gluglu ').
Depois, participou do site «Dream Cam».
Márcia Imperator
Fazia o «Teste de Fidelidade», famoso quadro do programa do João Kleber.
Assim como Vivi Fernandes, Márcia também participou do «Dream Cam».
Em o pornô, já participou dos filmes «Fidelidade à Prova», Noiva Infiel» (os títulos fazem menções óbvias ao quadro televisivo) e " Sexo no Salão ";
o filme em que Rita Cadillac só faz entrevistas, mas Márcia atua com desenvoltura.
Outros
Todos esses nós chamamos de ' famosos ' com boa dose de benevolência.
Há muitos outros que se aventuram no pornô, mas não são figuras assim tão conhecidas.
A ver:
-- Zezinho, o anão do Pânico (aquele do ' Pedala, Tevez!),
no filme " Pânico nas Mulheres ";
-- Oliver, do «Teste de Fidelidade», no filme» Oliver, o Galã da TV ";
-- Márcia Ferro, rainha (?)
da pornochanchada, no filme " A Idade da Loba ";
-- Bianca Soares, travesti que participou da «Casa dos Artistas» e fez ponta na minissérie «Mandrake», da HBO, atua nos filmes» Sodomizada», «A Boneca da Casa e Garoto de Programa», contracenando com Alexandre Frota.
O Negócio Compensa?
Para a produtora, deve compensar.
Isso porque os filmes com ' celebridades ' custam a partir de 50 reais (alguns chegam a quase setenta).
Em geral, filmes pornôs custam quinze, vinte mangos (ou são baixados de graça).
Para os atores, seguramente compensa.
Por o que se divulga, os cachês são altíssimos, e não há grandes ' prejuízos sociais ', pois muitos de eles continuam freqüentando programas televisivos e outras produções.
Bianca Soares, por exemplo, já tinha feito dois filmes pornôs antes de participar da minissérie «Mandrake».
Claro que há muita resistência, não somente dos mais conservadores, mas também por parte de alguns ' artistas '.
É puro moralismo, nada além.
Aliás, essse conservadorismo seletivo é bem curioso.
Não é raro quando alguém, ao falar de algo sexual, tenta separar ' erotismo ` de ' pornografia ', como se esta última fosse um pecado.
De mais a mais, nenhuma dessas produções usa verbas públicas ou mecanismos de renúncia fiscal.
Número de frases: 70
Há bem menos ' pornografia ' em todos esses filmes juntos, do que em alguns esquemas para financiamento de filmes que rolam por aí.
Quando ouvi falar pela primeira vez que seria editado e publicado um livro sobre o futuro do livro, confesso que achei a proposta muito «metalingüística».
Mas curiosa.
O assunto era atraente, não obstante tenha me perguntado com base em quê seriam feitas análises, previsões e afirmativas.
Seriam meras especulações?
Então soube que os artigos seriam breves, textos não acadêmicos, impressões de diversas personalidades.
Não entendi o que se buscava com a publicação:
o que os editores pensavam sobre o assunto?
Teria o livro um lugar no futuro?
O que esperavam do resultado final da «meta-obra»?
A o ver o livro, de cara fiquei impressionada com o tratamento gráfico.
Lindo, lindíssimo.
A textura, impactante.
Digno de ser impresso.
Digno de reafirmar o gosto por um livro que se basta por seu formato, para além do conteúdo, das idéias.
E então me perguntei quem compraria o lançamento.
às vésperas do natal, ele é um excelente presente para amantes de livros.
Não só por o tema que aborda, mas por ele mesmo.
Por o fetiche de ter um produto cuidado, atraente, instigante.
Bom de tatear.
E só então fui ler os artigos e comentários.
Muito bacana o mosaico que se construiu.
Lembra um pouco uma colcha de retalhos.
Merece também uma alusão ao filme que leva este nome, estrelado por Wynona Ryder.
A obra cinematográfica é sobre uma mulher que está prestes a casar e concluir sua tese, e ganha de várias mulheres de sua família dois presentes:
um preparado -- a colcha, construída coletivamente -- e outro espontâneo -- um conjunto de histórias sobre paixões e envolvimentos.
Esses relatos, junto com o aparecimento de um novo homem em sua vida, levam a protagonista a dúvidas e reflexões sobre seus sentimentos, desejos e convicções.
Foi um pouco isso que aconteceu com mim ao ler «O Futuro do Livro».
Fui despertada por narrativas de pessoas apaixonadas -- por livro, por tecnologia, por idéias, por tato, por tudo que um livro é capaz de provocar.
Inicialmente foi tão limitado o meu olhar, que parecia não haver resposta diferente da que eu daria.
Ingenuidade e ignorância puras, claro.
A o meu ver, o livro seria algo muito mais amplo do que aquilo que hoje entendemos como tal.
As transformações se dariam não apenas na «embalagem», ou seja, em seu formato impresso ou digital, mas também seriam advindas das novas possibilidades de produção -- colaborativa e, de certa forma, voltando ao formato de folhetim, publicando, na internet, capítulo por capítulo, rascunhos sujeitos a alterações, seções desordenadas, como num RPG, com links e hipertextos.
Algumas obras continuariam sendo impressas, ocupando as estantes de bibliotecas públicas, escolares e universitárias, escritórios de intelectuais e pesquisadores, bolsos de viajantes e bolsas daqueles que pegam engarrafamento no ônibus.
O hábito da leitura em papel, assim como o de assistir a filmes em salas de cinema, não findaria.
Além disso, valeria destacar que obras literárias surgiram muito antes de Gutenberg, da invenção da prensa gráfica, que possibilitou a reprodução em grande escala.
Antes, eram manualmente copiados e circulavam por territórios, países, e até mesmo continentes:
primeiro testamento, segundo testamento, cartas dos tempos de navegação ...
Depois veio o livro como conhecemos hoje -- o tipo móvel, da era Gutenberg.
Em a seqüência, ao longo de mais de 500 anos, surgiram o rádio, o cinema, a TV, os periódicos, o telefone, o telégrafo, o fax, as fotocopiadoras, o scanner, a internet ...
E o livro continua aí.
Ora, por que diabos deixaria agora de existir?
Eis que a leitura traz muito mais versões possíveis.
O feliz mosaico é formado por 60 textos, de pessoas como Luis Fernando Veríssimo, José Mindlin, Ziraldo, Muniz Sodré, Marçal Aquino, Sérgio Amadeu da Silveira, Bob Wolfenson, Thomaz Farkas, Gilberto Gil, Claudia Constin, Pedro Doria, Heloisa Buarque de Hollanda, Ronaldo Lemos, Gilberto Dimenstein, Heloisa Prieto e outros 45 autores.
É bem verdade que senti falta de mais presença feminina -- menos de 10 artigos entre os 60 foram escritos por mulheres ...
Não se trata de feminismo barato.
Há tantas mulheres incríveis no campo de letras, na literatura, no mercado editorial, que não seriam necessárias as tão em voga «cotas».
Mas, a despeito das questões de gênero, a diversidade prevalece em O Futuro do Livro.
É evidente que há artigos melhores e piores.
É inevitável encontrar repetições de argumentos e visões.
Gutenberg é personagem comum dos diversos autores.
Quem busca um aprofundado estudo sobre a economia do mercado editorial, sobre arte, sobre tecnologia, não vai ter no «O futuro do livro» as respostas para suas perguntas, os argumentos de uma tese.
A busca, aqui, é por troca de idéias, por incentivo à reflexão, por o prazer de sentir a textura, o cheiro, o peso do livro.
Por a provocação do pensamento, por o entretenimento, por o mais puro e genuíno deleite.
Abaixo, algumas pílulas e fragâncias do livro:
«Onde é que vamos deixar riscada, com nosso lápis, a frase que vai marcar nossa vida?"
Ziraldo «Livros são meios e não fins.».
«Charles Cosac
«A quaisquer antigas pretensões de sacralidade do material em que sempre se imbricava o saber, a rede eletrônica responde, não necessariamente com desencanto do mundo -- tal qual ressoa na repetição do argumento weberiano --, mas com o encantamento da técnica».
«Muniz Sodré
«Tem gente que prefere os livros a outras mídias porque acredita na superioridade da chamada alta cultura européia com relação à cultura de massas.
Bobagem.
A ' alta ' cultura difundida por o livro e pela palavra escrita não apenas não é eterna como foi e é opressiva e elitista tanto quanto a cultura de massas é homogeneizante e emburrecedora.
Livros, desde este ponto de vista, oprimem por o excesso, por a falta ou por a superioridade que a chamada cultura ocidental atribui ao narrador com relação ao leitor e àquilo que é narrado».
Maria Alzira Brum Lemos
«Vá por mim:
abrir um sebo, portanto, é um negócio de futuro!"
«Marcelo Duarte» Se o título deste livro supõe alguma dúvida, vou logo dizendo:
Morre não!
Mas que mania é essa de anunciar a morte do livro!
Avião não matou navio;
ônibus não matou trem.
Elevador suprimiu escada?
Nem o duto, a hidrovia.
E o que temos:
pessoas e mercadorias sendo transportadas mais rápida e economicamente».
«Levi Bucalem Ferrari
«O objeto livro com toda sua fisicalidade é que possibilita a ligação afetica entre nós, leitores, e aquele mundo virtual, escondido em suas páginas."
«Kiko Farkas «Acredito que o livro como entendemos será mais arte que negócio».
«Ricardo Guimarães
«Chegamos à absurda legislação atual que impede um livro de entrar em domínio público antes de setenta anos após a morte do autor.
Setenta anos?
Sabe por quê? Para incentivar a criatividade.
Criatividade do autor que já morreu há setenta anos.
Nem Brás Cubas, o mais célebre defunto-autor, concordaria com tal incoerência».
«Sérgio Amadeu da Silveira
«Ler é beber da fonte da eterna inquietude».
«Gilberto Gil
«O que me preocupa é um mercado elitista que quer transformar o livro numa espécie de mico-leão-dourado».
Rodrigo Ferrari
Posfácio?
Como disse, quando soube da publicação, não entendi qual era o objetivo da obra.
Escrita esta mini resenha e já em processo de edição, resolvi perguntar a eles.
Otávio Nazareth, editor da publicação, revelou que a obra busca «valorizar o livro e a leitura».
Segundo ele, " o livro é despretencioso, não espera de forma alguma ser conclusivo e muitos dos autores são figuras relevantes para a atividade editorial mas não são especialistas, deram suas visões pessoais, muitas vezes poéticas sobre o assunto.
Por outro lado, isso atribui uma leveza à leitura que a torna acessível e prazerosa para um público mais amplo do que os interessados diretos no tema».
E o modelo também se deve à leitura do momento do livro:
«outro objetivo é dar uma amostra de que o livro resiste como um objeto e que pode e deve se relacionar com as novas linguagens.
Com esse intuito, desenvolvemos este projeto procurando agregar a ele valor estético e um acabamento que atribuíssem valor ao suporte e não só ao conteúdo, e uma linguagem fragmentada, que dialoga com as linguagens interativas, permitindo autonomia das partes sem que deixem de constituir um conjunto coeso», conta Otávio.
Não é à toa que a publicação valoriza tanto o belo.
O projeto nasceu já como parceria entre a Olhares e a Ipsis:
«soubemos que a Ipsis, com quem já tínhamos relação, completaria 60 anos.
Ela é especializada em imprimir livros de arte, então sugerimos a eles fazer este livro.
Como essas questões das novas mídias, novas linguagens e de que mudanças vão ocorrer no mercado editorial a partir disso inquietam todos os seus participantes, achamos que era um bom tema.
E eles toparam a parceria».
O projeto, que envolve 60 colaboradores, alguns designers, além dos diversos profissioanais normalmente envolvidos na produção de um livro, levou um bom tempo para chegar às livrarias:
«foram quase dois anos de processo.
Uma definição básica foi que ninguém seria insubstituível, porque sabíamos que muitos convidados podiam não ter tempo ou interesse de participar.
Chegamos a conversar com mais de 100 pessoas».
E o editor, o que pensa do futuro do livro?
«Pessoalmente, em relação ao suporte livro, acho que terá que dividir espaço com outras mídias mas para alguns usos, como leituras de lazer, romances, biografias etc, coisas de ler na cama, na praia, na rua, continua sendo uma tecnologia eficiente e acessível e deve se perpetuar por um bom tempo», conta Otávio.
E acrescenta:
«em relação aos conteúdos, independente do suporte, devem cada vez mais incorporar as formas de raciocínio estimuladas por as novas mídias que dominam hoje nossa vida.
Mesmo que seja um conteúdo editado, deve ter pitadas de hiperlinks, acontecimentos paralelos, eventos virtuais etc."
Informações extras e institucionais
De acordo com a equipe de divulgação do livro, o seu objetivo é " explorar variáveis culturais, tecnológicas, comportamentais e mercadológicas do tema, que vai de encontro às inquietações decorrentes da rápida evolução dos suportes eletrônicos.
Por outro lado, pontuar questões mais prementes, como as tendências de posicionamento do mercado livreiro, suas estratégias, seus tabus, e difundir essa discussão para um público amplo.
As participações são inteiramente livres e têm tamanhos variados, com a condição comum de ocuparem uma página dupla do projeto gráfico do livro, ilustrado por jovens designers da equipe da LEN Comunicação e Branding».
Ainda segundo os editores, 50 % da renda de edição sobre os primeiros 500 exemplares vendidos no mercado serão destinados à organização não-governamental Cidade Escola Aprendiz, que promove projetos-modelo de inclusão e cidadania através do aprendizado para crianças carentes.
Editora Olhares
Baseada em São Paulo, a Editora Olhares traz ao mercado editorial a proposta de transformar temas que envolvem história, memória e informação, procurando aliar formas originais de contar a história e um tratamento visual que vá ao encontro desses princípios e enriqueça a obra.
Sobre a Ipsis
A Ipsis é uma gráfica fundada há 60 anos, especializada na produção de livros de arte.
Preço sugerido:
R$ 58,00 O lançamento já aconteceu em São Paulo.
Infelizmente não deu pra publicar esse post antes.
Número de frases: 126
Mas o volume está nas livrarias.
Um dos primeiros textos que postei no Overmundo falava de minha admiração por o cinema de Ana Carolina e expunha mais precisamente minhas impressões sobre Mar de Rosas, que tinha assistido há 30 anos e naquele começo de ano (o texto é do dia 14 de janeiro de 2007), quando o filme acabava de ganhar o mercado nacional em DVD, lançado por a Videofilmes.
Assisti Mar de Rosas no ano em que estava entrando na universidade:
1977. Em 1982, Ana Carolina levou às telas outro filme que transformaria Mar de Rosas no primeiro de uma trilogia.
De as Tripas Coração provava que Ana Carolina gostava de batizar seus filmes com frases feitas e anos depois ela faria Sonho de Valsa.
Sobre os títulos de seus filmes a cineasta afirma que a idéia sempre foi reelaborar o repertório básico deste «patrimônio afetivo comum».
Os três filmes abordam explicitamente a condição feminina, apesar de tratarem de personagens em cronologias diferentes.
Enquanto Mar de Rosas mergulha na infância, De as Tripas Coração disseca a adolescência e Sonho de V alsa saboreia os prazeres da maturidade.
Se em Mar de Rosas o foco era a família, agora a escola e a igreja são os mecanismos sociais em debate.
A história de De as Tripas Coração se passa num colégio de freiras que está para fechar suas portas.
A narrativa é construída a partir do sonho de um interventor que chega ao tradicional colégio para encerrar suas atividades e, nos cinco minutos em que aguarda a reunião decisiva, adormece e sonha com todas as mulheres, entre alunas, professoras e demais funcionárias, que percorrem os corredores da instituição.
O filme se desenrola durante esses poucos minutos de sonho, quando esse homem se vê no cotidiano frenético da escola, ou melhor, no que ele imagina ser o cotidiano com todas aquelas mulheres:
professoras histéricas e invejosas, adolescentes rebeldes, descobrindo a sexualidade e vivendo num ambiente opressor, ele próprio componente das relações de poder que se desenvolvem ali.
Dina Sfat e Xuxa Lopes são as professoras;
Myriam Muniz e Nair Bello são as dirigentes;
Antônio Fagundes o interventor e o desejo personificado;
Ney Latorraca o padre;
Cristina Pereira a serviçal.
Maria Padilha é uma das adolescentes.
A exemplo de Mar de Rosas, em De as Tripas Coração a cineasta se empenha em expressar as contradições femininas, fazendo do filme um jogo de espelho em que o desejo das internas é mediado por o desejo do interventor, que por sua vez é mediado por a visão estética e crítica da cineasta que, diga-se de passagem, está longe de fazer tratados psicológicos como muitas obras com foco no feminino parecem ser.
O clima é exacerbado e delirante.
O humor do filme beira ao surreal, para não dizer caótico.
É impossível não se sentir incomodada com as imagens e cenas perturbadoras.
Confesso que me senti assim nos anos 80 e também agora, revendo o filme em DVD.
Há cenas inquietantes e marcantes como a da masturbação coletiva das alunas que comemoram cada orgasmo como se fosse um gol.
Mas hoje entendo melhor as imagens que nem sempre estão em sintonia com os textos e diálogos e com o tom em que às vezes são ditos.
Isto se explica com o fato da narrativa se passar dentro do sonho do interventor, que representa o desejo proibido das adolescentes.
Cristina Pereira -- atriz símbolo do cinema de Ana, ao lado de Xuxa Lopes e Myriam Muniz --, que protagoniza Mar de Rosas, está novamente em cena, mas não como Betina.
A Betina que «entre os mortos e feridos» de Mar de Rosas, conseguiu se salvar, parece aterrissar em De as Tripas Coração na personagem de Maria Padilha e também aqui sobrevive para «crescer e aparecer» em Sonho de Valsa, onde funciona como alter ego da diretora aos 30 anos.
Lembranças
Rever das Tripas Coração é reviver experiências que marcaram minha vida em 1982.
Em a faculdade, depois de fazer um comentário «negativo» de um filme de Ingmar Bergman na aula de cinema e ouvir do professor -- Hélio Furtado do Amaral -- um «quem é você para falar mal de um dos maiores gênios do cinema?»,
pensei seriamente em manter distância dos filmes.
Mas a paixão por a sala escura foi maior.
Ana Carolina contribuiu para o aprofundamento desta paixão.
De as Tripas Coração também.
Em os anos 70, a presença de mulheres por trás das câmeras era uma raridade no Brasil.
E a mulherada da minha geração se sentia orgulhosa de ver Ana Carolina emergindo como uma cineasta vigorosa e radicalmente autoral que insistia em apresentar questões femininas que a sociedade via como tabu.
Lembro-me bem do desconforto de ver Cristina Pereira recebendo uma aula particular de sexo.
E a cena de masturbação coletiva?
Agora, revendo o filme, achei ironicamente hilárias as seqüências de Ney Latorraca, travestido de padre, urinando por os cantos da escola.
E altamente provocadora-Y não mais chocante e ultrajante -- como nos anos 80 --, a cena em que uma aluna resolve satisfazer suas necessidades na igreja, em frente ao altar e em plena missa, bem no meio do sermão, sob os aplausos e gritos das colegas.
E eu, naquele tempo, ainda acreditava na Igreja Católica.
A ponto de passar as manhãs de domingo na paróquia do meu bairro, ajudando na celebração das missas.
Outra coisa que sempre me chamou a atenção na filmografia de Ana Carolina foi o deslocamento semântico em que os clichês verbais ou visuais ganham novos sentidos ao mudar de contexto para enfatizar as características dos filmes, pautado por chavões, lugares-comuns e figuras de linguagem.
Um exemplo:
ao se sentir pego para Cristo, o interventor toma o lugar do próprio no crucifixo.
É como se até Jesus se revoltasse diante de tanta lascívia que corre solta no colégio.
Sempre que penso em Mar de Rosas me lembro da frase que li há muitos anos num pára-choque de caminhão:
«De que adianta a vida ser um mar de rosas se eu não sei nadar?».
De das Tripas Coração guardo lembranças como tentar explicar o significado para uma amiga americana que estava passando algum tempo no Brasil no início dos anos 80.
Em vão. Somente anos mais tarde cheguei perto, usando «Fall over oneself», que na verdade seria mais» fazer de tudo».
E que tal Sonho de Valsa?
Propaganda do bombom?
Longe disso, principalmente quando se vê que o filme em questão mostra a heroína «Teresa» entrando por o cano».--
anos mais tarde me lembrei da cena assistindo Trainspotting, de Danny Boyle-Y, «engolindo sapo» e chegando ao «fundo do poço» -- expressões retratadas em seu sentido literal por as imagens no filme -- para perceber que deve encontrar sua identidade antes de tudo, livre do amor idealizado que lhe foi projetado como o sentido de sua existência.
O filme serve ainda para matar a saudade de três grandes atrizes:
Dina Sfat, Myriam Muniz e Nair Bello.
A primeira morreu de câncer aos 50 anos, depois de firmar sua personalidade sempre densa, dramática e cheia de sutilezas em filmes como Jardim de Guerra, 1970;
Tati, a Garota, 1973;
Álbum de Família e Eros, o Deus do Amor, ambos de 1981;
De as Tripas Coração, Tensão no R io e O Homem do Pau Brasil, todos de 1982, sendo que neste último interpreta a pintora Tarsila do Amaral.
Sem esquecer Macunaína, naturalmente.
Myriam Muniz participou de três filmes dirigidos por Ana Carolina:
Mar de Rosas (77), De as Tripas Coração (82) e, o mais recente, Amélia (2000).
Ela morreu em 2004.
Nair Bello, a grande humorista que faz o público rir como uma das dirigentes do colégio de De as Tripas Coração, faleceu em abril deste ano.
Recentemente assisti Amélia e devo confessar que minha admiração por esta excelente cineasta só aumentou ao longo dos anos.
Pena que Ana Carolina filme tão pouco.
Mas vale a pena se aventurar por a trilha nada batida dessa cineasta que soube desbravar o difícil mar do cinema brasileiro.
Filme:
De as Tripas Coração
Direção: Ana Carolina
Fotografia: Antonio Luiz Mendes
Elenco: Dina Sfat, Antônio Fagundes, Xuxa Lopes, Ney Latorraca, Christiane Torloni, Nair Bello, Othon Bastos, Alvaro Freire, Stela Freitas.
Produção:
Anibal Massaini Neto Roteiro:
Ana Carolina Duração:
100 min.
Ano: 1982
Distribuidora: Videofilmes
Preço médio:
Número de frases: 82
45 reais ...
Ou " Índio aos 35 ..."
Um dia, recebi um e-mail de um cara dizendo que estava fazendo um livro e que, pesquisando na internet à procura de material, chegou a esse blog.
Ele queria que eu liberasse um trecho de um texto meu para o livro de ele.
Era um parágrafo de um texto sobre um Ba-Vi na Fonte Nova, em que eu falo sobre o gol de Raudinei, aos 46 do segundo tempo, na final do campeonato baiano de 1994.
O livro de ele é todo dedicado a esse gol.
O nome do livro é " Raudinei aos 46.
Dava um bom nome para a biografia de Raudinei, se ele tivesse 46 anos.
Ele deve ter colocado no google «Raudinei» e saiu lendo tudo que achou.
Ele me explicou que o livro teria depoimentos de jogadores que atuaram naquele jogo, tanto do Bahia como do Vitória, do próprio Raudinei, de jornalistas que estavam naquele jogo e de torcedores, tanto do Bahia como do Vitória.
Era aí que eu entrava.
Respondi a ele que ficasse à vontade.
Ele agradeceu e, mês passado, soube que o livro de ele ficou pronto e estava à venda.
Comecei procurando na Siciliano do Shopping Barra.
-- Tem o livro que saiu do Bahia?
Um novo?
-- Livro do Bahia?!--
respondeu o vendedor, de uma forma que deu para perceber que ele torce para o Vitória.
Se mostrando irritado, ele se virou e saiu andando.
Fui atrás.
Ele foi andando em direção a outro vendedor, que estava mais no fundo da loja.
-- Chegou algum livro do seu time?
-- Hein?
-- O cara aí tá procurando um livro sobre o Bahia.
Não vou dizer que fiquei irritado com o atendimento do cara, mas por um instante pensei «que imbecil!».
-- É um livro sobre o gol de Raudinei, aos 46 -- falei só pra pirraçar.
O vendedor / torcedor do Bahia abriu um sorriso de um lado a outro da cara.
-- Saiu um livro sobre aquele gol?
-- Saiu -- respondi.
-- Porra, campeão, chegou ainda não ...
Eu pensei em dizer aos dois que eu era Vitória, mas não achei a brecha.
E Ba-Vi é uma coisa meio irracional.
O cara do Vitória iria se irritar por um rubro-negro estar querendo comprar aquele livro e o tricolor iria se irritar por o mesmo motivo.
Fiquei sabendo que o livro estava sendo vendido na Vídeo Hobby.
Lá, foi diferente.
-- Tem o livro do Bahia?
Os olhos do cara brilharam.
-- Livro do Bahia?!
Qual?
-- Um livro novo que saiu do Bahia ...
Eu ficava receoso de dizer logo de cara que era «um livro do gol de Raudinei».
Não queria passar por um fanático, muito menos tricolor.
-- Tô sabendo, não.
Vamos perguntar ali pr ' aquele rubro-negro sofredor descarado -- disse ele sobre o outro vendedor, que estava no fundo da loja.
-- Ô, vice, tá sabendo de algum livro novo que saiu sobre o tricolor campeão?
-- São Paulo ou Fluminense?--
respondeu o rubro-negro.
Eles tiveram um rápido jogo de provocações com «sou bi-brasileiro»,» sou primeira divisão, tenho estádio», «já disputei libertadores» ...
até que esqueceram de porra de Bahia e Vitória e se lembraram que eu era apenas um cliente.
O rubro-negro perguntou:
-- Que livro é esse, maluco?
É novo?
-- É, saiu esse mês ...
e soube que vendia aqui.
-- Aqui chegou não ...
Já tentou na outra loja?
-- Não ...
-- É um livro de quê do Bahia?--
perguntou o tricolor, com os olhos brilhando.
às vezes penso que torcedor do Bahia se comporta como mulher de malandro.
Imagino que se tivesse série D e o Bahia caísse (e a Fonte Nova estivesse viva), cada jogo seria um recorde de público.
Assim não tem presidente que não pense que merece o terceiro e o quarto e o quinto ...
mandato.
Mas o cara estava tão feliz que resolvi contar.
Já sofre tanto com o time que não me custava nada dar uma alegria para ele.
-- É um livro sobre o gol de Raudinei.
Putaquepariu.
O grito que ele deu e a comemoração que ele fez foram motivos suficientes para uma demissão sumária.
-- Só faz isso porque o gerente não tá aqui ...--
disso o rubronegro, enquanto o tricolor gritava como se comemorasse um gol: --
Um livro todo sobre o gol de Raudinei?!
Um livro todinho sobre o gol de Raudinei?!
Eu sorria e balançava a cabeça afirmativamente.
Saí de lá ouvindo ele comentar que " e esse livro do Barradão aí?
Tá encalhado, ninguém compra essa merda, ta aí tem um tempão».
O outro respondeu:
-- Oxe, vendi um ontem, seu otário ...
Mandei um e-mail para o escritor do livro, Luís Antonio Gomes, perguntando se tinha como comprar diretamente com ele ou se tinha em mais algum outro lugar.
Eu queria ter o livro.
Era a primeira vez que veria meu nome num livro.
Antes mesmo do meu livro.
Ele pediu para eu tentar na barraquinha do primeiro piso do Shopping Barra, onde finalmente achei o livro.
Dia 05 de março, eu resolvi lançar o meu.
Foi uma festa divertida.
Acho eu.
Sentei na cadeira e fiquei lá, atendendo aos muitos amigos e poucos desconhecidos que me pediam uma dedicatória.
Não lembro de muita coisa.
A sensação que tenho é de que eu não participei da festa.
Alguns amigos meus me disseram depois que tiveram a mesma sensação nas festas de casamento de eles.
Lembro de flashes.
E por causa do fotógrafo que estava lá, pude lembrar melhor quem estava na festa e, aos poucos, ir lembrando dos causos.
Um amigo que não via tinha mais de 10 anos apareceu por lá.
Em a foto dá pra ver bem eu perguntando «te conheço de onde mesmo?»,
«da oitava série, no Mendel», respondeu ele.
Guilherme, que por ser mineiro, tinha o apelido de Mineirin.
Teve uma namorada de um amigo, que conheço há um bom tempo, mas que eu não lembrava do nome.
Deu um branco na hora de escrever a dedicatória.
Ele comprou um livro e ela outro.
Eu arrisquei:
-- É para você mesmo?
Moleculei que podia ser para alguma amiga, e ela poderia ler a do namorado.
«Pruma amiga minha, Lais», diria ela.
Mas não, o livro era para a ela.
-- Ah, é que pensei que vocês, de repente, iriam ler o mesmo e esse era presente -- disse eu, para ganhar tempo.
-- Nãããããão, oxe, esse é pra mim.
Vai que a gente se separa -- disse ela, espirituosa.
Já estava me rendendo, já ia assumir «porra, me desculpe, mas deu um branco, como é mesmo seu nome?»,
mas, na hora, ela desviou sua atenção para falar com alguém que estava entrando na livraria, e, nesse exato momento, Cris passou.
De a cadeira, naqueles instantes em que se acha jeito pra tudo, estiquei a perna, cutuquei Cris, que parou e, quando olhou pra mim, eu lancei o olhar para a menina, fazendo alguma cara que ela entendeu na hora e disse, sem voz, só mexendo a boca, com sílabas espaçadas:
-- Lo-re-na.
PQP.
Alívio da porra.
Foi tanto alívio que escrevi «Para Lore, blá, blá ...».
O rock todo foi.
De a geração antiga e da nova.
De Mary, Michael e Gil, do Los Canos, até Luisão, da Penélope.
Muitos bateristas.
Tem uma foto que tem 5 bateristas juntos.
MárioJorge (Penélope e Úteros em Fúria), Rex (Retrofoguetes), Pedrão (Ladrão de Bicicleta), Macello (Maria Bacana e Os Culpados), Quinho, que veio da Inglaterra ...
Veio pra casar.
E casou, dois dias depois.
Quinho foi o baterista que substituí na brincando de deus.
Ainda tinha Brian, um baterista americano que montou um excelente estúdio de gravação aqui em Salvador.
Todos eles personagens do livro.
Aliás, o lançamento estava cheio de personagens do livro, inclusive o baixista Francisco, o tecladista Galeno, o guitarrista Xandão e o vocalista Ricardo Cabeça, pessoas que formaram a primeira banda em que toquei, a de reggae, Filhos de Jah.
Tem uma foto que mostra Morotó, guitarrista do Retrofoguetes -- que ganhou o troféu de melhor instrumentista por o prêmio Dodô e Osmar 2008 --, junto com o guitarrista Armandinho, filho de Osmar.
Vi a foto de um judeu e lembrei de ele.
«É mesmo, esse judeu estava lá», pensei ao ver a foto.
Reconheci ser judeu por as vestimentas.
Ele não entrou na fila e me interrompeu no meio de uma dedicatória.
-- Com licença, eu só queria te dizer que blá, blá ...
Não lembro de nada do que ele disse.
Fiquei observando a roupa, o kipá, ele, e só depois tentei entender o que ele estava dizendo.
Lembro vagamente que ele estava elogiando o livro.
Soube depois que ele ficou lendo passagens.
Pediu emprestado para alguém, mas não comprou.
Soube depois também que ele vai pra tudo que é lançamento de qualquer coisa.
De repente, vejo, entrando na livraria, ele, o dono do restaurante, o cara que me chama de Maurição (veja texto -- http://ricardocury.blogspot.com/ 2007/09/s pra destilar tenta relaxar-deixa se.html).
Eu o convidei pessoalmente.
Levei o convite que dizia «lançamento do livro de Ricardo ...».
Essa troca de nome não me incomoda.
O erro foi meu, que deixei a coisa passar.
Cris adora ir ao restaurante de ele só pra ouvir ele me chamar de Maurição, alem da comida ser muito boa.
Ele entrou na fila e, sempre que a fila andava, eu pensava «será que vai me chamar de Maurição?».
Não deu outra, levantei para dar um abraço em ele e:
-- Porra, Maurição, parabéns, o livro tá lindo.
Só pude dar risada.
E Gustavo, um amigo meu que também é amigo de ele por outro círculo de amizade, sabe da história e quando viu, do lado de fora da livraria, ele falando com mim, voltou na livraria (ele já tinha pego o seu livro) só para perturbar.
O pior foi que ele só fez piorar a situação:
-- E aí, Marcelão, tudo beleza?
Grande Marcelão, o livro tá lindo ...
Foi por pouco, mas quase que eu disse «é Maurição, seu idiota».
Depois do livro lançado, recebi muitos telefonemas e e-mails de amigos dizendo as mais diversas coisas:
«Já acabei, parabéns».
«Tô na página 102».
«Meu pai pegou pra ler».
«Meu filho pegou pra ler».
«Levei para a faculdade, uma amiga quer comprar um».
«Achei um erro de português no texto da barata».
Minha irmã me acordou pirada porque eu não fiz um texto falando de quando eu dançava igual a Michael Jackson quando era pequeno.
Alessandra comprou um e levou para a faculdade.
Uma amiga leu, gostou e depois foi descobrir que o marido de ela é personagem do livro.
Foi meu amigo no terceiro ano do segundo grau.
Pediu um por o delivery.
mais de dez anos também que não o via.
Quando recebi as fotos do fotógrafo, selecionei algumas e mandei para as pessoas que aparecem em elas.
Mas teve um cara que eu não reconheci quando o vi numa foto com mim.
Não lembrava quem era, mas lembrava que troquei algumas palavras com ele lá.
Uma semana depois do lançamento, fui ao cinema e encontrei com Serginho, baixista que toca com Ronei Jorge e os ladrões de Bicicleta.
Ele foi no lançamento.
-- Porra, estava querendo te encontrar.
Já li o livro e blá, blá ...--
disse ele.
-- Eu também -- respondeu um cara que estava do lado de ele, e que não conhecia ele.
Não estavam juntos.
-- Porra, você?
Estava te procurando, man ...
Era o cara da fotografia, João Victor.
Enquanto eu fazia o livro, recebia e-mails de pessoas dizendo «faça um livro».
Em o dia do lançamento, João Victor me disse que ele foi uma dessas pessoas.
Eu tinha o e-mail de ele guardado.
Depois do cinema, quando cheguei em casa, mandei as fotos.
Agora a pergunta tá sendo «vai fazer outro quando?».
Outra presença ilustre foi da fotógrafa Arlete Soares.
Se eu fizer mais livros, um, com certeza, vai ser a biografia de ela.
Jorge Amado disse que ela é o cão.
Já foi para Índia de carro nos anos 70, de onde saiu o seu livro «Caminhos da Índia», com prefácio de Jorge Amado, onde ele diz que ela é o cão, e de Pierre Verger, que foi seu parceiro e companheiro de trabalho na arte da fotografia.
Recentemente, Arlete foi protagonista de um documentário sobre a vida de Verger, chamado «Os Negativos».
O diretor desse documentário, Ángel Díez, disse que, desde 2002, tenta convencê-la a dar os depoimentos e só em 2007 conseguiu.
Já disse a ela que, então, no mínimo até 2011 ela vai ouvir meu pedido por a biografia.
Quando eu tinha 14 anos, Arlete ficou hospedada dois meses na casa de minha mãe, no meu quarto.
Ela estava no dia em que ganhei a minha primeira bateria.
Dormiu com ela no quarto por muito tempo, enquanto eu fui dormir com minhas irmãs.
Durante a sua estada lá em casa, Arlete me contou incríveis histórias sobre sua vida, sobre as pessoas que a rodeavam.
Fiquei muito tempo sem vê-la e fomos nos reencontrar justamente quando eu estava indo passar minha temporada no Vale do Capão.
Como minha casa ficaria vazia e Arlete estava de mudança, mais uma vez eu cedi meu quarto para ela.
E dessa vez com a casa toda, já que estava morando sozinho.
E, de novo, 14 anos depois, com uma bateria no quarto.
De entre suas histórias, gosto muito de uma que ela conta que, em 1983, estava em Paris com uns amigos brasileiros e resolveu ligar para um restaurante de um outro amigo brasileiro para reservar uma mesa.
-- Não, Arlete, hoje não -- disse o seu amigo dono do restaurante.
-- Como não?
Por quê? Como assim?--
Arlete não entendeu a recusa.
-- Ah, Arlete, não posso falar, senão é aí que você vai querer jantar aqui mesmo.
-- Ah, mas agora você vai falar.
Arlete tinha intimidade com ele.
O nome do restaurante era Dona Flor e ela foi a mediadora com Jorge Amado por a liberação do nome.
-- Olha, Arlete, eu vou falar, mas nem tente, pois você não vai poder jantar aqui hoje, tá ouvindo?
-- Tô.
Diga logo.
-- É que o restaurante tá fechado pra comemorar o aniversario de 40 anos de Mick Jagger.
-- Hein?
Arlete é fanática por os Rolling Stones.
-- É que o restaurante tá fechado pra comemorar o aniversario de 40 anos de Mick Jagger -- repetiu o dono do restaurante.
-- Ah, mas é agora que eu vou e reserve uma mesa pra quatro, que vou com três amigos.
-- Hein?
Não, Arlete ...
-- Não quero saber, eu vou ...
Ficou nessa lenga-lenga, mas Arlete não desistiu.
-- Tá bom, tá bom, mas pelamordedeus, Arlete, não traga a porra da máquina fotográfica.
Ele me implorou para que não houvesse imprensa, é uma coisa muita sigilosa, ele não quer exposição, só vem amigos e blá, blá, por favor, respeite.
Arlete foi e, claro, levou a máquina na bolsa.
O restaurante tinha dois andares e a mesa de Arlete e seus amigos era no andar de baixo, ao lado do banheiro, num canto.
Eram os únicos não-convidados.
Até aí, tudo bem.
O problema é que eram também os únicos não-fantasiados.
E o tema era Brasil.
Mas a verdade é que Arlete não precisava de fantasia para estar no tema Brasil.
Os três amigos de ela eram Nana, Danilo e ele, Dorival.
O Caymmi.
Sim, Dorival Caymmi, o baiano mais baiano do mundo, o do samba, o de Maricotinha, o de João Valentão, estava no aniversário de 40 anos de Mick Jagger.
Em Paris.
Erroneamente, isso não consta em nenhuma biografia de Caymmi.
Pior, nem nas de Jagger.
-- E Caymmi estava sintonizado com aquilo?--
perguntei a Arlete, quando pedi que me recontasse a história para que eu pudesse transcrevê-la aqui.
-- Totalmente.
Caymmi sempre foi muito ligado ao que estava acontecendo no mundo.
Ele sabia muito bem o que era rock and roll -- disse ela.
E, mesmo assim, a Bahia foi parar onde parou.
No meio da festa, Arlete ainda não tinha visto " Mick Jagger.
«Deve tá no andar de cima, mas uma hora ele vai ter que descer pra falar com os convidados daqui de baixo» -- pensou ela.
E ele desceu.
Sua mulher, Jerry Hall, estava fantasiada de Carmem Miranda.
Ele, de marinheiro.
Arlete foi ao banheiro e, quando voltou, seus olhos cruzaram com os de Mick, que perguntou:
«o banheiro é aí?».
Arlete afirmou e ele foi.
Quando ele voltou e passou por a mesa de ela, ela não resistiu e foi saciar seu desejo de fã.
-- Mick, eu só vim porque sou muito amiga do dono do restaurante, moro no Brasil e estou com convidados aqui e blá, blá ...
-- Fique à vontade -- respondeu Mick -- a festa é sua.
-- Tem outra coisa, Mick.
Eu sou fotógrafa e meu amigo pediu para a eu não trazer a máquina, mas você sabe como é, eu trouxe e tal e queria saber se você permite que eu tire umas fotos ...
-- Já lhe disse, baby, fique à vontade, a festa é sua -- respondeu, de novo, Mick.
O dono do restaurante foi para o lado de Mick Jagger ao constatar que ele liberou as fotos.
-- Tire uma foto minha com ele, Arlete -- implorava.
Mick Jagger foi apresentado a Caymmi e perguntou por Caetano, pois tinham se encontrado, recentemente, em Nova York, onde Caetano o entrevistou para alguma publicação brasileira.
-- Caetano Veloso -- dizia Mick, fazendo o sinal de «legal» com a mão.
Fazer 40 anos é uma data marcante na vida de qualquer pessoa.
Os 40 são temidos por muitos.
Existe alguma barreira imaginaria a ser atravessada quando se chega aos 40. Sempre quem faz 40 faz uma festa marcante.
É o meio da vida, por assim dizer.
Vi as fotos quando fui conversar com ela na sua editora.
Arlete é a única pessoa do mundo que tem fotos do aniversário de 40 anos de Mick Jagger.
Em Paris.
Com Dorival Caymmi.
De penetra.
Li o livro de Raudinei.
Gostei do livro.
Ele narra o dia antes do jogo, as manchetes dos jornais, a concentração dos jogadores, e vai indo até chegar o dia do jogo, o gol do Vitória, o bi, Bahia é bixa «que a torcida do Vitória gritava, inclusive eu, a confusão que teve no finzinho do jogo, a cabeçada a esmo de Souza, que caiu certinho na perna esquerda de Raudinei,» a perna boa», como ele mesmo disse na sua descrição do momento, que deu um chute certeiro e empatou o jogo, aos 46 do segundo tempo, dando o titulo de bi-campe ão baiano ao Bahia.
Li o livro apreensivo, o que me fez achar que o livro é bem feito.
O tricolor lerá com imensa satisfação.
Então eu tô pensando n, algum dia, fazer um livro sobre o último Ba-Vi da história da Fonte Nova.
Não foi final de campeonato, mas foi o último Ba-Vi da história da Fonte Nova, o estádio da Bahia e o seu principal clássico.
Nós, rubro-negros, teremos de agüentar Raudinei para sempre, mas isso os torcedores do Bahia terão de agüentar também.
O último Ba-Vi na Fonte Nova, o templo das glórias do tricolor de aço, foi vencido por o arqui-rival, o Vitória.
O último Ba-Vi na Fonte.
O mais gostoso foi o placar.
6 x 5. O jogo foi incrível.
O Bahia saiu na frente, o Vitória empatou e depois virou pra 2 x 1. O Bahia empatou e no finalzinho do primeiro tempo virou para 3 x 2.
Em o começo do segundo tempo, o Vitória empatou e depois fez mais dois deixando o jogo 5 x 3. Esse placar ficou até os 42 do segundo tempo, quando o Bahia fez o quarto e aos 45 empatou em 5 x 5.
Tinha tudo pra ser mais um jogo como o de Raudinei.
Hoje, com esse «plus a mais» de último jogo, mais ainda.
Porém, dessa vez, não foi assim.
Foram quatro gols de Índio.
O nome do livro poderá ser «Índio aos 35, aos 6, aos 25 e aos 47».
Em tempo:
Tem uma foto do dia do lançamento do livro, que é (acho que é) da leitora Karina M. Ela mandou um comentário dizendo que iria para o lançamento e que iria pedir uma dedicatória, mas que esta poderia ser apenas «Beijos, Cury», numa alusão ao texto de junho de 2006 -- http://ricardocury.blogspot.com/ 2006/06/ escrevo te estas mal traadas-linhas.html
Karina, se estiver me ouvindo, mande um e-mail para mim para que eu possa mandar a sua foto.Paracolorir@gmail.com
Acho que é você na foto.
Número de frases: 290
Vamos ver ...
A fome levava os primeiros homens a habitar o planeta a caçar animais para suprir essa necessidade orgânica.
Com armas rudimentares feitas a partir de pedras lascadas por atrito, eles lançavam-se a sorte ao enfrentar feras maiores e mais poderosas que eles.
Era necessário encontrar mecanismos que pudessem lhes ajudar nessa guerra diária por a sobrevivência.
Os registros rupestres encontrados nas cavernas de Niaux, Font-de-Gaume e Lascaux, na França e Altamira, na Espanha parecem indicar, segundo os estudiosos da História, uma das soluções encontradas por o homem primitivo para ajuda-lo a enfrentar o problema.
Segundo a hipótese mais aceita essas pinturas possuíam um certo sentido mágico que dotava seus executores com certos poderes de dominação sobre o animal desenhado.
A o esboçar o contorno dos animais nas paredes de argila das cavernas, acreditavam esses homens adquirir poder sobre os animais ali representados, o que facilitaria seu abate nos dias seguintes.
Com cores bastante reduzidas, sendo originárias da argila, do carvão e do óxido de manganês, que funcionava como um aglutinante quando misturado à gordura ou ao sangue de animais, representavam os animais ora isolados, ora em grupo ou sendo atacado por o grupo de homens.
De essa forma, a Arte nasce dentro de uma função pragmática, isto é, sendo utilizada para alcançar um fim não artístico.
Seu desenvolvimento e valorização existe só como meio para se alcançar uma outra finalidade não artística.
A o desenhar o animal na parede da caverna o homem criava uma função prática para o desenho ali realizado:
protegê-lo e dotá-lo de poderes contra a fera que ele teria que abater para suprir suas necessidades de alimento.
Quando entretanto, passa a domesticar os animais, a tê-los sempre a seu alcance, bastando para isso manter a manada, os desenhos feitos por esses homens perdem essa função mágica e passam a servir a outro fim.
A perda desse sentido mágico não acarreta o fim do ato de produzir imagens, somente sua produção assumi outra finalidade;
representar cenas do cotidiano da comunidade,
registrando fatos de sua época nas paredes de pedra e argila.
Número de frases: 16
Quarta-feira, 25 de abril de 2007.
Aproveito que não haverá aula na universidade para iniciar o levantamento de informações de uma pauta que caiu em minhas mãos.
Tema: Discutir a relação entre museus e turismo em Sergipe, dando um maior enfoque à capital Aracaju.
Por onde começar?
Procuro a lista telefônica a fim de confirmar os números para contato que me foram passados.
Folheio até a seção Museus nas páginas amarelas e encontro apenas um nome listado para a cidade de Aracaju.
Ligo para o número e o telefone toca sem resposta.
Havia tentado entrar em contato com o Memorial de Sergipe, mantido por a Universidade Tiradentes (Unit).
Decido, então, concentrar-me no Museu do Homem Sergipano (Muhse), que, por sua vez, é vinculado à Universidade Federal de Sergipe (UFS).
Entro em contato para saber se minha fonte, a professora Terezinha Oliva, poderia me atender naquele momento.
Resolvida minha dúvida, saio de casa às pressas:
são quase 16h e o museu fecharia dentro de uma hora.
O ônibus que pego está impossibilitado de entrar na avenida que me deixaria próximo ao museu.
Professores da rede estadual de ensino estão fazendo uma marcha por as principais ruas da capital sergipana, tentando alertar a sociedade sobre a precária infra-estrutura de que dispõem e os baixos níveis salariais.
De essa forma, tenho que caminhar por quase 20 minutos até finalmente avistar o Museu do Homem Sergipano (Muhse).
Museu do Homem Sergipano
O Museu de Antropologia, como foi denominado inicialmente, surgiu em 1978 como órgão suplementar da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (Proex) da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
A idéia da criação de um espaço museal partiu dos professores do antigo Departamento de Psicologia, Sociologia e Antropologia (DPS) da universidade.
«Esses professores desejaram expandir para o público as pesquisas que realizavam.
Isso num momento especial, porque foi quando o povo xocó estava lutando para ser reconhecido como índio», lembra Terezinha Oliva, diretora do Muhse desde novembro de 2004.
Foi somente no ano de 1996 que o museu passou a ocupar prédio próprio, localizado à Rua Estância, 228.
Até então, funcionava como um museu ambulante, pois somente realizava exposições de textos, documentos e fotografias, ou seja, produções que podiam circular.
Oliva define como frágil a relação entre museus e turismo em Aracaju.
«A gente ouve falar muito que o turismo seria uma das vocações de Sergipe, que tem crescido a divulgação do estado fora daqui, mas os museus ainda participam muito pouco ou quase nada desse movimento», define a professora.
Segundo dados encontrados no site do Muhse, em 2005 o museu recebeu um total de 10.571 mil visitantes.
Terezinha Oliva estima que, em 2006, este número subiu para 16 mil, sendo grande parte do público oriundo de escolas, por conta do projeto " Museu Escola.
Público para museu tem que ser acostumado, educado.
Como a gente não tem o costume de ter essa educação na família, então a escola tem que fazer isso», argumenta.
Pergunto à professora o porquê de não ter gente de fora do estado visitando os nossos museus.
Em suas palavras, " primeiro porque os guias não têm incluído os museus em seus roteiros, salvo, às vezes, São Cristóvão e Laranjeiras, porque eles já levam os turistas para lá.
Mas, em Aracaju, o turismo tem sido principalmente de sol e praia».
O que está sendo feito
Em aquele mesmo dia 25 começava a oficina «Museus e Turismo», de onde surgiu toda a idéia para esta matéria.
Ministrada por Tânia Omena, presidente da Associação Brasileira de Bacharéis em Turismo do Rio de Janeiro e professora efetiva da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), a oficina teria a duração de três dias.
A proposta de Omena era trazer para o campo da museologia o turismo como uma forma de sustentação e, para que isso aconteça, é preciso saber operacionalizar com a dinâmica do mercado.
Em a visão da turismóloga, «para buscar o mercado de turistas de viagem formal, você tem que aprender a negociar e a trabalhar com os operadores de turismo e aqueles que estão na atividade de recepcionar o turista».
Pergunto para Terezinha Oliva se ela me indica outra pessoa para falar sobre museus.
Ela me dá o nome de Verônica Nunes.
Em a universidade ...
Verônica Nunes é professora do Departamento de História (DHI) da UFS e coordenadora do curso de Museologia, atuando na organização de propostas de trabalho e orientando a elaboração de programas do novo bacharelado.
Em a tentativa de agendar uma entrevista, ligo para a professora de meu celular, mas o pouco crédito que eu tinha esgota e a conversa é interrompida sem nenhuma definição.
Só depois de recorrer ao telefone do DHI que marco com a professora na semana seguinte.
Em a sala em que atende os graduandos do curso de História, a professora logo avisa que não tem um estudo recente sobre quem visita os museus de Sergipe.
Porém, falando como uma profissional que trabalha com museus desde a época de estudante universitária, a hoje mestra afirma: "
É preciso que os profissionais de turismo percebam as potencialidades dos museus».
No entanto, Nunes admite que os museus dificilmente concorrerão economicamente com as praias, mas eles representam mais um atrativo para trazer turistas.
«Tem que se pensar numa proposta turística, mas que os patrimônios e os museus possam estar inseridos em ela, defende a professora.
O outro lado
Se o que aqui se propõe é fazer jornalismo, cabe ao estudante que vos fala buscar o outro lado da história, representado por Irma Barbosa, presidente do Sindicato dos Guias de Turismo de Sergipe (Singtur / SE).
Para ela, " existe uma excelente procura por os museus das cidades históricas de São Cristóvão e Laranjeiras.
Acontece que, nas datas festivas em que há um grande número de turistas em nosso estado, os referidos museus fecham suas portas.
Os turistas acabam ficando decepcionados».
Barbosa sugere que o Museu do Homem Sergipano e o Memorial de Sergipe poderiam fazer um boletim informativo para divulgação.
«Durante nosso 'city ', às vezes é difícil incluir no roteiro os museus, pois os turistas querem ir para o litoral sul logo depois».
Ela complementa dizendo que os museus deveriam trabalhar mais as informações com os guias.
Políticas públicas, parcerias privadas
Nenhum órgão público relacionado a Turismo investe no Museu do Homem Sergipano (Muhse) porque, segundo a diretora do museu, «legalmente, nenhum órgão estadual ou municipal pode investir num órgão federal».
As parcerias que ocorrem são pontuais, quando se deseja realizar eventos de objetivo comum, mas nada é destinado à aquisição de peças, por exemplo.
Porém, de acordo com Terezinha Oliva, a universidade tem comprado algumas peças."
Pouca, mas tem comprado», admite.
Nada exclui, no entanto, a possibilidade do firmamento de parcerias público-privadas para o investimento no Muhse.
«A gente já tentou ir ao encontro do setor particular, mas é meio difícil.
Ainda não há essa cultura de investimento em museus por parte de instituições privadas», lembra Terezinha Oliva.
De acordo com Verônica Nunes, o que falta são políticas públicas."
Deve-se pensar o turismo e inserir os museus dentro de ele», aponta a professora.
Número de frases: 65
Este texto não é uma reportagem, vou logo avisando -- embora tenha um certo teor jornalístico (deformação profissional, o que é que eu posso fazer?)
e portanto tenha mais a ver com o Overblog do que com o Banco de Cultura ou do que com o meu blog, que é voltado para a literatura.
Acontece que eu ando muito musical por esses dias.
E ontem, numa livraria, comprando meus Foucaults e Deleuzes (perdoem o modo doutorando -- ando insuportável), achei uma pérola rara:
um CD contendo os dois álbuns de Luiz Guedes e Thomas Roth, Jornal do Planeta e Extra, ambos do comecinho da década de 1980.
Comprei correndo.
Agora estou ouvindo Longe Demais.
Não é coincidência, nunca é:
foi tempo demais, longe demais desses caras.
O pessoal mais novo talvez conheça Thomas Roth de sua participação como jurado no programa Ídolos, do SBT -- mas perdoem.
O Thomas Roth compositor e cantor merece uma chance.
São 21 músicas onde imperam a batida forte da batera e solos deliciosamente simples (e com aquele jeitão " Led Zeppelin mais açucarado típico dos neo-hippies dos anos 1980 "), sem contar com os corinhos das backing vocals.
Mas isso não tem nada de depreciativo não, pelo contrário:
quem se lembra (e gostava) de A Cor do Som, por exemplo, vai achar esse CD no mínimo interessante.
A minha favorita é Ela Sabe Demais.
Música do álbum Extra, ela tem um sabor anos 80 indefectível -- e quantas recordações, overcolegas, quantas recordações.
Procurei fazer um trabalho básico de busca na Web antes de escrever este texto.
O CD saiu em 2002 e está (aparentemente) esgotado -- é o que diz o Submarino.
Mas eu comprei ontem novinho, na Livraria Cortez, na esquina das ruas Monte Alegre e Bartira, ao lado da PUC-SP.
Vale a pena correr atrás -- até porque a renda da venda do CD (apenas 20 reais;
pô, tá bem mais em conta que os salgados sessenta e tantos do último do Chico!)
está sendo toda revertida para a família de Luiz Guedes, que infelizmente nos deixou já há uns bons anos, vítima de complicações no fígado.
Vale muito a pena correr atrás.
Mesmo para quem não viveu os anos 80, ou para quem só conhece dessa época o bom e velho rock.
E agora está tocando São Paulo (coração do tempo).
Não é coincidência.
Número de frases: 26
Nunca é.
Mais que uma banda, a trupe músico-teatral Pangaio chacoalhou a Casa da Ribeira na noite desta última quarta-feira dentro da temporada do projeto Quarta Musical * -- em cartaz até novembro.
Atacando incautos com um batuque hi-tech, o percussionista Jorge Negão cercou-se de uma molecada interessada e apresentou (oficialmente) a nova formação da banda:
Allan Cedrak (vocal e performance cênica), Gabi Barbalho e Clara Pinheiro (backing vocal e performances), Pablo Jorge (bateria e flauta), Vitor Girafa (contrabaixo), Douglas (teclados) e Renata Marques (produção).
As letras irônicas e os experimentos sonoros continuam norteando o conceito, porém, para quem viu o antigo Pangaio em ação sabe que ainda há muitas arestas a serem aparadas.
O conjunto se movimenta bem no palco, mas precisa crescer musicalmente:
as vozes femininas merecem mais dedicação, os arranjos sofisticados às vezes se perdem na pancada básica do samba-reggae e alguns cacoetes como a performance do baixista também precisam ser evitados para não prejudicar o todo.
Elemento importante que ajuda a segurar o peso do groove ao lado dos percussionistas, o baixo teve problemas de mau contato no plugue / cabo (de tanto que o músico se mexe) que acabou embolando o meio de campo em muitos momentos com ruídos não planejados.
Teísmo, título do show, trouxe à tona o'hit ' mosquito, da finada Brebôte que Jorge também fez parte, mais repertório com velhas e novas composições das duas formações do Pangaio.
Além da música forte e da simpatia do trio de frente (Cedrak, Gabi e Clara), a performance ganhou força sobre humana com o figurino, a maquiagem, o cenário (uma grande teia feita com fitas VHS) e as projeções de vídeos.
Anotem o nome da banda e prestem atenção na próxima oportunidade, o novo Pangaio está em franca expansão.
Número de frases: 11
* saiba mais sobre o Quarta Musical no blog Ruído Muderno Por:
André Ricardo Robic * 6 de abril de 2007 Setembro de 1997: estava me preparando para defender a qualificação de minha dissertação de mestrado na Faculdade de Administração, empolgado com as novas tecnologias de bancos de dados, que permitiriam a volta ao relacionamento individual com o cliente.
O tema, ainda provisório, era, «O uso do database marketing no relacionamento com o cliente no mercado de moda».
Depois da exposição de praxe, enquanto defendia junto com meu orientador alguns pontos de vista da ciência que estávamos nos propondo a estudar, observava os membros da banca, que por sua vez me observavam entre divertidos, curiosos e impacientes.
Finalmente, veio a pergunta:
porquê eu me propunha a estudar o setor de moda?
Meus argumentos não foram capazes de convencer a banca, que decretou:
se eu quisesse falar sobre Moda, poderia atravessar a rua e ir para a Faculdade de Comunicação, do outro lado da rua.
Em a Faculdade de Administração só se falava sobre coisas sérias.
Minha dissertação acabou abordando o uso de bancos de dados no marketing de relacionamento, mas não especificamente na área de moda.
E a reação de um dos membros da banca, se hoje pode ser considerada quase uma aberração, naquela época fazia um certo sentido:
quando eu falava que dava aulas em faculdade de moda, ou então prestava consultoria em empresas de moda, aquele olhar divertido e curioso sempre me acompanhava.
Em algumas vezes até, as pessoas achavam que eu estava brincando.
A verdade é que nesses 10 anos a moda brasileira evoluiu muito, e hoje é considerada um dos mais importantes setores da economia, no Brasil e no mundo.
Mesmo assim, muitas pessoas ainda ligam a moda apenas ao estilismo, sem se dar conta da imensa cadeia de produção que compõe o setor:
fiação, tecelagem, química, lavanderias, confecção, eventos, marketing, pesquisa e uma série de outras atividades.
Como viemos parar aqui?
Essa relação direta da moda com o estilismo tem a sua razão de ser.
Além de ser a atividade mais aparente e mais glamourosa do setor, o Brasil tem uma longa história na área de moda, e o principal pano de fundo é justamente a área de criação.
Essa história é contada de forma completa, objetiva e muito interessante na pesquisa Moda e Identidade Brasileira, elaborada por Denise Pitta de Almeida em 2003.
De acordo com a autora, na década de 1920, ao sabor do modernismo e do crescimento econômico dos barões do café, os gostos eram profundamente identificados com a corte européia e de ela copiados.
Em 1927 ocorreu o primeiro desfile promovido por uma loja, a Mappin Stores, que se destacava por vender mercadorias importadas para a elite paulistana.
A bonança da década de 1920 foi interrompida em seu final, com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, que arrastou junto com si os barões brasileiros do café.
Mesmo assim, a moda brasileira continuou a crescer durante a década de 30: viu surgir Mena Fiala, a primeira estilista brasileira, que fazia adaptações dos modelos europeus ao clima brasileiro, e a loja de Madame Rosita, no centro de São Paulo.
Ao mesmo tempo, as revistas européias ganhavam suas edições brasileiras.
Em a década seguinte, o look de Carmem Miranda apresentou ao mundo o charme latino-americano, e a 2ª Guerra Mundial provocou o desenvolvimento da indústria brasileira têxtil e de confecções.
Em os anos 50, veio um grande avanço tecnológico com o governo JK e a implantação da TV Tupi, entre outros fatos marcantes.
Em a moda, surgiu Dener Pamplona de Abreu que, com seu trabalho e prestígio, favoreceu o desenvolvimento da primeira geração brasileira de costureiros:
Clodovil Hernandez, Guilherme Guimarães e, futuramente, Markito e Ney Galvão, entre outros.
Foi o início da alta costura brasileira e, nas palavras de Denner, «nossa moda é tropical, com tecidos leves e estamparias mais vivas».
Dener acertou em cheio o diferencial por meio do qual a moda brasileira evoluiria.
As grandes tecelagens passaram a promover a aceitação de seus produtos para um público que ainda desconfiava do produto nacional, e convidavam nomes da alta costura francesa e costureiros brasileiros reconhecidos para apresentarem à sociedades coleções com tecidos brasileiros.
Surgiram os grandes desfiles de modas promovidos por a indústria que, com a realização da primeira Fenit, no final da década de 50, inseriram o Brasil no mapa mundial da moda.
Foi muito importante a presença da Rhodia nesse cenário, reunindo artistas e costureiros em shows e eventos destinados a difundir a moda brasileira no Brasil.
Os anos 70 trouxeram o início da profissionalização no setor da moda, com a consolidação das butiques e o surgimento das primeiras grifes brasileiras Foram marcantes o Grupo Moda-Rio, primeiro núcleo organizado de estilistas, a marca Mr Wonderful e a estilista Zuzu Angel.
Em os anos 80, o aprofundamento da profissionalização viria por meio do lançamento das primeiras escolas de moda, do surgimento de uma nova geração de estilistas e de grifes de jeanswear, verdadeira paixão na época.
Os anos 90 começaram de uma forma bastante traumática para a moda brasileira, com a abertura comercial e a crise provocada por o Plano Collor, que provocou o fechamento de mais de 800 empresas e o desemprego de um milhão de pessoas no setor.
Mesmo assim, por mais paradoxal que possa parecer, esse foi o tempero para a finalização do prato que vinha sendo cozinhado há quase cem anos.
A explosão dos eventos de moda, o Mercado Mundo Mix, as modelos brasileiras fazendo sucesso nas passarelas internacionais, a moda ganhando status de preferência nacional e o charme do Brasil, fizeram com que o New York Times considerasse 2000 o ano da moda brasileira.
Os jornalistas estrangeiros, que finalmente concordaram em vir assistir aos desfiles da São Paulo Fashion Week, se declararam surpresos com a criatividade e a qualidade da moda brasileira.
Onde estamos?
O Brasil fatura anualmente US$ 32,9 bilhões, equivalentes a 4,1 % do PIB total brasileiro, exporta em torno de US$ 2,2 bilhões e tem 1,5 milhão de trabalhadores no setor têxtil e de vestuário.
Moda praia, roupas esportivas, lingeries e jeans são, de acordo com especialistas, os segmentos da confecção brasileira que mais encontram receptividade fora do Brasil.
Há pólos têxteis em estados como São Paulo, Goiás, Ceará, Janeiro, Rio Grande do Sul, Belo Horizonte, Paraná e Santa Catarina.
A Apex-Brasil tem dois projetos em andamento para promover e divulgar mundialmente a moda brasileira.
Um de eles, com a Associação Brasileira de Estilistas (ABEST), destina de R$ 12 milhões para promover e incrementar as exportações da moda autoral de diversos criadores brasileiros para mercados da Europa, América do Norte e Oriente Médio.
O segundo, de R$ 1,2 milhão, será realizado com o In-MOD, ramificação institucional do SPFW, e visa fortalecer a divulgação do evento e o reconhecimento da Marca Brasil no circuito internacional da moda, auxiliando também no incremento das exportações nacionais.
Existem mais de 80 escolas de moda e cerca de 50 eventos de porte são realizados anualmente em todo o Brasil.
De acordo com o site da Agência de Notícias Brasil Árabe, as coleções de estilistas brasileiros já fazem parte dos mais importantes desfiles internacionais de moda e ocupam araras de algumas das mais cobiçadas lojas de grife do mundo.
As portas do globo estão abertas para a moda brasileira.
As roupas fabricadas aqui chegam tanto em grandes redes da Europa quando em lojinhas da africana Gâmbia.
Por outro lado, quando se fala da moda brasileira, é impossível deixar de mencionar os calçados.
As sandálias Havaianas e Melissa são exportadas para diversos países, enquanto designers de calçados mais sofisticados, como Fernando Pires e Constança Bastos, têm suas criações exibidas por os pés das principais estrelas do circuito fashion.
Mas aqui é aqui mesmo?
Os números e os conceitos acima levam muitas pessoas e empresas a acreditar que existe uma moda brasileira assombrando o mundo, que mal pode esperar por as próximas tendências ditadas por os estilistas brasileiros que, por outro lado, alimentam a visão de uma indústria pujante, aquecida e em crescimento.
Pode não ser bem assim.
A questão da moda brasileira é bastante antiga, mas faz cada vez menos sentido num mundo globalizado.
A condensação do estilo de vida de um determinado local dentro de um conceito de moda pode ser muito bem-vindo, mas o aprisionamento desse mesmo estilo dentro de um ou alguns estereótipos pode se tornar um imenso equívoco.
Infelizmente, esse equívoco pode ser visto frequentemente em pequenos e grandes eventos internacionais destinados a promover a moda brasileiras, regados a mulatas, samba, caipirinhas, feijoadas e afins, num menu extremamente indigesto para o desenvolvimento de nossa indústria de moda.
Em entrevista a Alcino Leite, da Folha de São Paulo, quando perguntado se quando cria pensa em fazer moda brasileira, Alexandre Herchcovitch respondeu que nunca:
«A brasilidade do meu trabalho existe apenas por o fato de eu ter nascido aqui.
Tudo o que produzo já vem com a característica de ser o trabalho de um homem, judeu, descendente de poloneses e brasileiro, sem precisar que eu busque expressar isso ou aquilo».
Provocado por o entrevistador a respeito da existência de uma moda brasileira, Alexandre responde:
«Você acha que o Saint Laurent, ao criar, pensava em fazer moda francesa?
Duvido. E ninguém olha a roupa de ele ou do Lacroix e diz:
nossa, que moda francesa».
No que diz respeito à indústria rica e pujante, a questão é ainda mais complexa.
De acordo com a ABIT, o setor não deve registrar crescimento em faturamento em 2006, ano em que será registrada queda na produção física da indústria de confecção no Brasil.
Segundo a última pesquisa sobre Produção Física divulgada por o IBGE, a produção de vestuário caiu 6,78 % no acumulado do ano até setembro de 2006, comparado ao mesmo período de 2005, quando já havia sido registrada queda (2,67 %).
Já o segmento têxtil teve um desempenho um pouco melhor (2 %), mas ainda ficou abaixo da indústria de transformação, onde a produção cresceu 2,40 % até setembro, comparado com o mesmo período do ano passado.
O setor de vestuário também foi o que apresentou o maior número de demissões.
O nível de pessoal ocupado caiu 5,35 % entre janeiro e setembro, segundo pesquisa do IBGE que mede o emprego formal e informal nas seis regiões metropolitanas do País.
Só neste segmento, houve eliminação de 96 mil postos de trabalho até setembro.
Glorinha Kalil, define bem a situação da indústria da moda brasileira:
«Não há como negar:
a moda brasileira tem por parte da mídia uma atenção que nenhum outro país dá a esta indústria.
No entanto, essa visibilidade toda não resulta em benefício direto para o setor têxtil.
Ou seja: a moda brilha, mas não vende.
Ou melhor, vende muito menos do que se imagina por o ruído que provoca.
A razão principal para esse paradoxo é a falta de crescimento industrial do país e a redução do poder de compra do nosso povo embora alguns focos isolados já apresentem resultados melhores."
Ah tá!
Mas então, como eu faço para chegar lá?
Para o presidente da ABIT, Fernando Pimentel, um trabalho setorial, somado a mudanças macroeconômicas (redução da carga tributária sobre produção e investimento e realização de acordos internacionais com os principais mercados compradores de têxteis do mundo) podem fazer com que a cadeia têxtil brasileira saia da contramão e acompanhe o crescimento mundial.
Só para comparar a atenção e os investimentos direcionados para o setor, em recente reunião do ITMF (International Textiles and Manufacturing Federation), a Índia informou que 12 % do capital investido no país está no setor têxtil e de confecção, e até 2010 serão criados 25 parques têxteis que vão gerar mais de 12 milhões de empregos.
O Paquistão também já divulgou que o governo irá investir US$ 7,8 bilhões para criar mais empregos na área têxtil.
De entre todos os grandes players presentes na última reunião do ITMF, o Brasil (sétimo maior produtor do mundo) foi o único que não apresentou investimentos ou subsídios do governo específicos para a área têxtil e nem estimativas de geração de emprego.
Vale lembrar que, caso o Brasil conseguisse 0,5 % do mercado americano, nossas exportações mais do que dobrariam, alcançando 5 bilhões de dólares anuais.
Os empresários brasileiros devem capacitar a si próprios e aos seus colaboradores, preparando-se para cobrar do governo as atitudes necessárias para o desenvolvimento do setor.
Devem, ao mesmo tempo, investir em capacitação para gerir seus negócios de uma forma extremamente profissionalizada, para poder enfrentar a qualidade da concorrência na indústria da moda.
A era glauberiana, na qual bastavam uma máquina na mão e uma idéia na cabeça, acabou.
Pelo menos na indústria da moda.
André Ricardo Robic é diretor executivo do Instituto Brasileiro de Moda (IBModa).
Especializado em Pesquisa do Consumidor, palestrante, consultor e professor de cursos MBA em Estratégia, Marketing, Varejo e Moda.
Concluiu seu doutorado em 2003 na FEA / USP, dessa vez abordando os sistemas de informação no varejo -- de moda.
Bibliografia:
www.revistasintetica.com.br;
http://chic.ig.com.br; www.abit.org.br;
www.anba.com.br; www.apexbrasil.com.br;
www.fashionbubbles.com; www.mre.gov.br;
www.revistadoseventos.com.br; www 1. folha.
uol. com.
Número de frases: 101
br Uma História Verdadeira?
Ou Estória Não Bem Contada?
Primeira Parte
Hoje é mais uma sexta-feira de Novembro.
O Sol (ele mesmo!)
vai se escondendo por trás das nuvens cinzas e esfumaçadas de mais uma tarde na cidade de São Paulo -- fugindo da rotina de um dia árduo.
Sabe-se que o «Astro Rei» executa suas funções determinadas por os segredos universais, e para alguns, por este lado terrestre:
Brasil de Caipora, Macunaíma, estórias e crenças populares.
Alguém já aplaudiu um dia sem Sol?
E se o nosso amigo «esquenta moral» saísse de férias -- dez dias apenas -- sem avisar aos terráqueos paulistanos?
O que seria da farofa e do pagode, na Baixada Santista, Estado de São Paulo?
Podem ter certeza que o «Sistema Solar» ficaria na rotina, em órbita, e ouvindo milhões de críticas ...
Talvez palavrões computados nos «orkuts, blogs e iorgutes» da vida!
Segunda Parte
Eu sou brasileiro e antigo morador da metrópole paulista.
Não nasci aqui!
Gosto desse lugar e pretendo morrer cheirando fumaça, bebendo caldo-de-cana e comendo pastel e pizza!
Sei que o paulistano é pacífico, trabalhador, festeiro, amigo de todas as nações do mundo:
cosmopolita. Gosta de futebol, cerveja e churrasco nos fins de semana.
A praia é o seu programa preferido de sábado e domingo.
O programa «Sílvio Santos» é a segunda opção dominical!
Gugu, Raul Gil e Faustão -- na televisão -- brincam e brigam com os artistas.
E se a «Estrela Maior» -- o Sol -- não sair com aquela cara de primavera-verão?
Com a certeza das observações empíricas, posso afirmar que nossos amigos «Zé's ou Maria's» irão chiar:
«Pó» ... Esse cara chamado Sol é «forgado»!
Isso é hora de «pará de trabaiá e deixá a gente sem o calorzim»?
Agora as «minas não irão pegá» uma cor!
As academias vão " inchê a bunda de dinhêro!"
É bronzeamento artificial sacou?
«Demorô mano!"
E quem ficará " cum nós?"
Lá no pagode e geladinha (cerveja) não vai ter «mina» ...
Justo hoje que o futebol (será o Corinthians?)
ainda tem o risco de ir para a segunda divisão!
Terceira Parte
Imagine você (leitor ou crítico de texto) ...
Em uma praia paulista dos seus sonhos:
depois de duas ou três horas viajando;
engarrafamento; pedágio;
cinqüenta quilos de farofa e frango assado nas bagagens;
naquela lata velha parecida com um ônibus de turismo;
fretado por um assistente de atravessador de viagem e com 80 passageiros disfarçados em 45!
Parece a mesma cena surrealista vista por muitos brasileiros nos aeroportos, nos últimos feriados!
Talvez fosse um sábado!
Ou quem sabe:
domingo!
Se ainda tiver disposto a viver o texto -- ou pule para a próxima parte -- reze por a " sorte grande!"
O ônibus ...
Aquele em que você viajou no último parágrafo ...
Desceu a serra com os pneus carecas;
velocidade de 100 km/h;
licença rodoviária vencida e o motorista com o sono dos justos.
Será que R$ 30,00 (trinta mangos) -- cafezinho do policial -- na primeira parada técnica ou vistoria, não é um «puta» prejuízo?
E aquele som eclético (dentro do ônibus) marcado por um surdo, pandeiro, reco-reco, agogô, tantã e cavaquinho -- às vezes desafinado -- tocando o mesmo «Lá rá lá», e machucando os tímpanos do amigo e inimigo do verdadeiro samba?
Caro leitor ou crítico de texto:
só falta a cachaça com cinzano «pra» mandar um cidadão ao velório!
Será que São Paulo é o túmulo do samba?
Será que depois de todo o sacrifício narrado, o amigo Sol, tem o direito de deixar essa «moçada» à procura de outras praias?
Não é justo ...
Só rindo.
Desculpem!
Quarta Parte
Analisando o conflito e procurando fugir de qualquer situação constrangedora -- por entender que grandes ou pequenas estrelas não brilham quando existem nuvens de chuva -- a recusa à função de crítico, mensageiro de puxa-saco, e crítica ao criador do Universo, talvez seja sensata.
O Sol trabalha e brilha quando quiser!
Não será qualquer paulistano, paulistana, surfista, farofeiro, cervejeiro, rabista-de-galo de praia», desquitado, amancebado ou aventureiro do texto alheio (em leitura), que modificará as regras milenares.
O Sol é o Sol!
E só!
Sabe-se da existência de vozes descontentes debaixo de alguns coqueiros e palmeiras nas praias!
São sombras!
Talvez com pouca ou nenhuma fonte de luz!
Será que não são apenas turistas que detestam " pegá uma cor?"
E nesse lero-lero de lazer, os aprendizes de paulistanos comem jabá ao nascer e por do sol, na praia de fulano ou sicrano!
O sol brilha dias sim, dias não -- com um olho aberto e luminoso -- dando o tom de vida!
Viva a luz!
Número de frases: 74
Texto de Joaquim Falcão originalmente publicado no DCI
O modelo de negócios da indústria fonográfica não é competitivo com a Internet.
Preferiu o marketing do medo
Antes, a decisão de processar alguém era assunto restrito às partes, decidido dentro dos escritórios de advocacia.
Agora, não mais.
É evento de marketing comercial.
É como se a notícia do processo judicial fosse mais eficaz do que a sentença final do juiz.
Em esta semana, a poderosa Federação Internacional da Indústria Fonográfica (International Federation of Phonography Industry -- IFPI), de base americana, alugou salões no melhor hotel do Brasil, o Copacabana Palace, no Rio.
Contratou assessoria de eventos.
Colocou seguranças na porta.
Convocou a imprensa para dizer que os jovens brasileiros de 15 a 24 anos serão o alvo predileto de processos, por fazerem upload ilegal de músicas.
O presidente John Kennedy, da IFPI, não hesitou.
Em alto e bom som, chamou esses jovens de ladrões.
Disse textualmente, segundo a reputada agência Reuters:» ...
Eles estão roubando nossas músicas.
O que eles fazem não é diferente de entrar numa loja e roubar um CD».
Está inaugurado o marketing do medo.
O Poder Judiciário faz parte agora do marketing da repressão privada.
A partir daí, duas perguntas se colocam:
por que a indústria fonográfica precisa do marketing do medo?
Qual a eficiência desse marketing do medo?
A resposta não implica a adoção de nenhuma postura ideológica:
como anticapitalismo, antimercado, antiamericanismo, alternativismo, etc..
As respostas implicam apenas observar os fatos.
O primeiro fato é claro.
O modelo de negócios da indústria fonográfica é antigo.
Não é competitivo com a Internet.
Não se atualizou diante da inovação tecnológica.
Hoje em dia, defender esse modelo é ir contra a realidade da demanda.
É querer obrigar por o medo que o consumidor compre, por R$ 25, um CD que pode ser bem vendido por R$ 10 ou menos.
E que compre apenas no shopping e não no camelô na rua.
Ou que compre em loja on-line, por preço mais caro que nos Estados Unidos.
O brasileiro não tem salário para tanto.
De aí a opção imposta ao consumidor, aplicando-se o que pretende a IFPI:
não comprar a música, ficar surdo e mudo no País da música popular.
É reserva de mercado para uma indústria que ficou ineficiente.
Esse modelo de negócio está decadente em todo o mundo.
Uma das maiores cadeias de loja de distribuição de CDs no mundo, a famosa Tower Records, fechou as portas nos Estados Unidos.
Em o Brasil, as lojas de rua de CD estão fechando.
Resistem ainda com dificuldades algumas lojas nos shoppings.
Mas não é somente o antigo modelo de negócio da indústria de CDs que está em crise.
A crise é agravada porque a indústria ainda não inventou novo modelo de negócios que use lucrativamente a Internet para vender suas músicas.
Os sites que existem cobram aqui mais de R$ 2 por música e, nos Estados Unidos, cerca de US$ 0,99.
Ou seja, cobram o mesmo.
Querem cobrar aqui R$ 24 por 12 músicas baixadas, que são os mesmos 12 dólares lá cobrados.
Não há mercado com poder aquisitivo no Brasil para isso, ainda mais considerando que apenas 12 % dos brasileiros atualmente dispõem de conexão à Internet.
Esperamos que o marketing do medo seja transitório, sobretudo porque a experiência americana até agora demonstra que é ineficiente.
A importante entidade americana Electronic Frontier Foundation, analisando os casos judiciais nos Eua, diz textualmente:» ...
As vítimas dos processos não são piratas com intenções comerciais.
Elas consistem em crianças, avós, mães solteiras e professores universitários -- um apanhado dos milhões de fãs de música utilizando redes de peer to peer.
As ações, no entanto, não estão funcionando.
A utilização das redes peer to peer é mais popular do que nunca, apesar do fato das ações judiciais propostas serem conhecidas.
Depois de dois anos uma coisa ficou clara:
processar fãs de música não é a resposta para o dilema das redes de compartilhamento de músicas».
A solução, no entanto, já está ao alcance dos brasileiros.
Trata-se de mudar a lei atual, que é retrógrada e não compatível com o desenvolvimento da tecnologia.
A Escola de Direito da FGV defende o projeto de lei elaborado por a Associação Brasileira de Propriedade Intelectual (ABPI), que preserva os interesses comerciais das empresas fonográficas e os direitos autorais de todos, mas flexibiliza o download para fins educacionais, de pesquisa ou de prova judicial.
Em vez de acompanhar o marketing do medo e a conscientização do jovem por a repressão da americana IFPI, a Associação Brasileira de Produtores de Disco, representante da indústria fonográfica que o Brasil tanto precisa e que tanto fez no passado por a música brasileira, deveria sentar-se à mesa com representantes do Congresso, professores, economistas representantes dos consumidores e dos autores e tentar reinventar um direito autoral e um modelo de negócio mais consentâneo com a realidade musical e mercadológica do Brasil.
Mesmo porque, quem conhece um pouquinho do que seja mercado, sabe muito bem que inexiste na história jurídico-econômica um caso de sucesso no qual a repressão legal do passado venceu o modelo de negócios do futuro.
Número de frases: 59
É luta perdida.
Cantarole com este ExuCaveiraCover a musiquinha que encima este post.
Inevitável fazê-lo após ler o artigo que Ana Maria Brambilla escreveu para Jornalistas da Web a respeito da «barriga» que UOL tomou após publicar fotomontagem -- recebida num sistema de conteúdo colaborativo -- sobre o desastre com o airbus da Tam.
Este caso, para desgosto dos detratores do Jornalismo Colaborativo, não abalou esta prática webjornalística, tampouco colocou-a em xeque ou iniciou / estimulou um processo de crise.
Serviu sim, ao menos, para realmente clarificar dois importantíssimos pontos:
1) o que os portais têm praticado não é Jornalismo Colaborativo e 2) definitivamente, os webjornalistas -- se assim quiserem ser considerados -- precisam deixar de pensar com «cabeça de papel».
O que Ana Maria Brambilla * escreveu estimulou-ma defender meu ponto de vista a respeito destas e outras questões sobre Jornalismo Colaborativo, tema que pesquiso há um ano e meio.
A idéia inicial era escrever um artigo inteiro, formatadinho, todo enquadradinho.
Mas chutei para o alto *.
Passei a destacar alguns trechos do artigo e comentá-los.
Vamos numa espécie de brainstorm em ping-pong.
Siga a bolinha.
É preciso que haja o olhar do jornalista antes de um conteúdo ser veiculado.
Olhar esse que consiste em checagem de informações e edição.
É simples!
São duas funções que qualquer jornalista deve -- ou deveria -- saber desempenhar.
Principalmente quando se trata de UGC (user generated content ou, no português, conteúdo gerado por o usuário).
Esses dois processos justificam a importância e a necessidade do profissional no jornalismo colaborativo.
E foram esses dois processos que, claramente, foram negligenciados por a redação nesta trapalhada do UOL.
Coloquemos as cartas na mesa, correndo o risco de soar óbvio e repetitivo -- mas a repetição, por vezes, me parece necessária * *.
Operar num sistema colaborativo não significa automaticamente trabalhar num modelo webjornalístico colaborativo.
Uma vez que um webjornalista, num sistema colaborativo, não leva em conta as especificidades da comunicação interpessoal, não mantém ou estimula conversação entre as pessoas que estão produzindo material informativo, não compreende que opera, em seu cotidiano profissional, num espaço relacional, então não está seguindo alguns pressupostos básicos do Jornalismo Colaborativo.
Eis aqui algo que deveria, a esta altura, ser de fácil compreensão:
estes pressupostos reconfiguram o modo de apurar, organizar, produzir e publicar informação;
não tornam estes pontos desnecessários ou relegados a segundo plano neste processo.
O fato de que um portal -- que é o caso que estamos abordando aqui, espertinhos!--
solicita à audiência que envie textos, fotos e / ou vídeos sobre determinado assunto em pauta não configura prática intrínseca do Jornalismo Colaborativo.
Sendo mais condescendente:
ao menos, não deveria configurar.
Voltando ao normal:
tentar atrelar o Jornalismo Colaborativo a um simples «envie que será publicado -- toma uns tapinhas nas costas, quando muito» parece reduzir a potencialidade desta prática informacional, castrar seu alcance, depauperar sua importância no campo da Comunicação Social.
Ou então, atesta um desconhecimento de suas nuances, ocasionando assim um modus operandi perigoso, porque equivocado no trato de apuração, produção e publicação de material.
Temos então, um cenário reducionista que precisa ser confrontado.
às armas, pois!
Quando falamos em Jornalismo Colaborativo, é preciso compreender que há um trabalho em conjunto entre jornalistas e audiência a ser feito para viabilizar sua prática.
Ora, colaboração não pressupõe parceria?
A colaboração, nesta prática jornalística, pode e deve alcançar várias etapas de uma produção informacional.
Um trabalho de co-organiza ção, onde o webjornalista não mais se encaixa no papel de gatekeeper, devendo compreender que sua função pode ser sintetizada como a de cartógrafo da informação -- conceito que defendo em minha pesquisa.
Tentando simplificar:
o cartógrafo da informação é o profissional que deve, basicamente, além de selecionar, enquadrar e personalizar notícias, portar-se como um elemento de ligação entre comunidades ou agentes conversacionais.
Desculpe o ar professoral que este parágrafo vai assumir -- creia-me:
é passageiro.
Imagino que seja momento de explicar um tanto mais o que significam esses três verbos que listei ali em cima e que devem ser utilizados de forma complementar.
O conceito de seleção associa-se à análise do armazenamento do conteúdo, aos sistemas de buscas e ao trabalho de rankeamento -- uma ferramenta utilíssima em sites colaborativos.
O enquadramento -- um possível «substituto» para o conceito de hierarquização de informações em mídias massivas -- diz respeito à definição de pautas e valores-notícia de acordo com as preferências da comunidade participante de sistemas colaborativos.
A personalização possibilita que as informações -- ou aspecto gráfico de um site -- sejam recombinadas de diversas maneiras -- neste quesito encontram-se, por exemplo, agregadores de conteúdo como RSS e até mesmo a utilização de sistemas em mashup.
Tais verbos são eficazes em demonstrar a seguinte premissa:
a voz do jornalista colaborativo não pode ser única.
E falando nisso ...
Pensar papel é manter como norte a arrogância do jornalista como dono absoluto do poder de fala.
É não reconhecer no público o potencial de melhorar o nível de jornalismo, seja enviando conteúdos de qualidade, seja aguçando a capacidade do jornalista gerenciar um espaço editorial.
É ver o cidadão repórter como concorrente, não como aliado.
Reitero as duas facetas básicas do webjornalista que atua em sistemas colaborativos:
organizador de sentido e significado, além de agente interacional junto a outros participantes do processo comunicacional.
Para que possa cumprir a contento estes dois pontos, é preciso saber atuar em relação às estratégias cognitivas de publicação, às competências discursivas, aos processos de co-enuncia ção, aos elementos de organização de significados, às atividades em espaços relacionais e compreender como se dá a configuração do que podemos chamar de espaço público relacional.
Ufa! Calminha aí que não vamos ficar muito tempo no modo professoral.
Estas categorias de análise apontam, em linhas gerais, que o webjornalista colaborativo deve utilizar práticas discursivas que incentivem / estimulem a participação da audiência, sempre num trabalho de co-gerenciamento, de participação -- o que implica em respeitar a natureza da comunicação digital.
Como cartógrafo da informação, o webjornalista precisa ser mais do que um «organizador» de caminhos, de conteúdos.
Em termos de Jornalismo Colaborativo, podemos encarar este conceito como uma espécie de «atualização» -- valha o termo -- do jornalista.
Sabemos * * * que a prática jornalística é um «ofício de fronteira» e esta «fronteira» consiste, na verdade, numa anexação de outras atividades ligadas a novos meios de comunicação.
E quando falo em anexação, também estou falando em constituição de redes, de um «pensamento em rede».
Este é o território em que nós, webjornalistas, pisamos.
Essa é a nossa geografia a lidar.
Longe de mim achar correta a atitude deste cidadão-repórter zombeteiro.
Mas, infelizmente, espíritos de porcos estão por toda a parte.
E no ciberespaço também.
Quero dizer, com isso, que não apenas noticiários colaborativos online estão suscetíveis a receber informações falsas.
Em listas de discussão, foram lembradas as pegadinhas que o Cocadaboa costuma fazer com os «jornalistas patos», questionando assim o porque de tanto auê por conta da» barriga " que UOL tomou, uma vez que sempre haverá quem caia numa dessas.
Tais considerações pareceram conformistas e isso me preocupa bastante -- porque foram considerações de jornalistas que podem vir a julgar este um fato normal simplesmente «porque é corriqueiro».
Em estas mesmas listas, li que iniciativas como esta da UOL deveriam ser elogiadas porque a empresa aceitou correr o risco de lidar com Jornalismo Colaborativo.
Então o jornalismo pode ser reduzido a tentativa e erro?
O Jornalismo Colaborativo é algo que deve ser experimentado por os jornalões como um «projeto de risco»?
Então é guerra?
Não percam os próximos capítulos deste raciocínio em desenvolvimento.
* Ela é uma das duas pessoas nascidas no Rio Grande do Sul que eu respeito.
A outra é Tiago Casagrande, capo deste condomínio de blogs;
perceba que há realmente um motivo para tê-lo em alta conta.
* * Normal ...
* * * Mas a repetição, por vezes, me parece necessária.
* * * * Sabemos?
Mas o jornalismo não morreu?
Número de frases: 81
«Fazemos Teatro baseados na arte do ator.
Como uma forma de comunicação com o outro, inclusive aquele outro que está dentro de nós.
Como uma forma de comunicação, sensível, poética e poderosa, capaz de transformar realidades."
Cia Mínima de Teatro
O drama de caráter expressionista Não Conte a Ninguém revela um universo de desejos, no qual o protagonista não é correspondido como almeja por sua irmã, Maria.
Em este contexto de desejos frustrados, ele é aturdido por a sensação de poder e culpa em relação à irmã, originando dois universos em choque:
a realidade palpável e suas próprias alucinações.
A sutileza e beleza dos movimentos contrastados com situações de intensa visceralidade trazem à cena a poesia e o escárnio das relações humanas, sob a ótica da Cia Mínima de teatro.
A jovem e eclética Cia Mínima do Rio Grande do Sul -- que no ano 2006 foi contemplada com o Prêmio Myrian Muniz de Teatro (FUNARTE/PETROBRAS), resultando no espetáculo de rua Borogodô!--
tem como elo entre seus membros a formação por a Universidade Federal de Santa Maria.
A Mínima desenvolve desde 2003 uma sólida investigação em teatro, na qual a poética de cena é norteada por a potencialidade criativa do ator e seus desdobramentos, levando o grupo a incursões em diferentes estéticas que revelam, sempre, o sensível e o humano.
Em Não Conte a Ninguém as técnicas de contato-improvisa ção desenvolvidas por Steve Paxton servem como meio de corporificação da teoria do Sensacionismo de Fernando Pessoa.
De a união desses dois métodos surge um ator capaz de materializar suas sensações, ora por o mínimo, ora por o visceral.
O jogo dos atores norteado por um argumento dramatúrgico especialmente desenvolvido para o espetáculo deu origem a um texto rico em imagens, capaz de envolver e hipnotizar sinetesicamente o espectador.
«Não Conte a Ninguém é um espetáculo
completamente humano, desde a caracterização do ambiente onírico até a realidade do ciúme que permeia
as relações entre sujeitos que se desejam."
Gisele Secco Mais informação sobre a Cia..
Mínima de Teatro
Número de frases: 19
www.ciaminima.com.br ciaminima@ciaminima.com.br Crianças aprendem na escola a reciclar lixo e economizar água
Por Georgiana de Sá
O Projeto de Lei n.
º 1089/2007, em tramitação na Assembléia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), torna obrigatório o estudo sobre o meio ambiente e as conseqüências do aquecimento global, no ensino médio e fundamental das escolas públicas e particulares do Estado.
Conforme Maria da Conceição Ferreira, orientadora educacional da Escola Estadual Barão do Rio Branco, a medida é necessária para garantir a sobrevivência humana no planeta.
«Grande parte da população não tem consciência de ações diárias e atitudes que contribuem para a degradação ambiental».
Segundo ela, medidas simples de reeducação poderiam diminuir os impactos da ação do homem sobre a natureza.
Maria da Conceição lembra que os alunos da escola ficaram assombrados quando começaram a contar a quantidade de lixo que eram capazes de gerar.
«As crianças tiveram como para-casa somar quantos quilos de lixo a família produzia num dia.
Depois de multiplicarem isso para uma semana e um ano puderam perceber porque o lixo é um problema para a natureza», explica a educadora.
A professora de ciências Nancy Rebouças Julião, que leciona para a 5ª e 6ª série do ensino fundamental, se tornou responsável por o desenvolvimento de projetos de reciclagem na escola.
Passo a passo, a professora mostra aos alunos a importância da reciclagem do lixo na preservação ambiental.
«Fazemos um trabalho bem bacana.
Informamos às crianças sobre a importância da reutilização do lixo.
Os estudantes estudam conteúdos de ciências, os tipos de lixo que existem, para onde vão e como são produzidos», diz ela com entusiasmo.
A professora começa com uma explicação de como é feito o lixo e para onde vai.
Com caixas de leite, copos de iogurte e garrafas de refrigerante, as crianças criam brinquedos e objetos de uso e, dessa forma, aprendem a reaproveitar e evitar o desperdício.
«O lixo nem sempre é lixo.
Mostramos que a maior parte do que jogamos fora não é sujo.
Falamos também sobre os impactos do consumismo, das coisas que a gente compra sem necessidade e como podemos reutilizar embalagens em trabalhos artesanais».
Durante as aulas, professora e alunos expressam idéias e sugerem que haja não somente reciclagem, mas também novas formas de produção e comercialização.
«Em vez de copinho de plástico, o iogurte poderia ser vendido em embalagem de vidro para a gente lavar, voltar ao supermercado e comprar só o liquido», idealiza uma criança.
«Com o leite poderia ser do mesmo jeito», conclui outro colega.
Para completar os conhecimentos obtidos no ambiente escolar, os estudantes fazem visita ao aterro sanitário de Belo Horizonte e são motivados a pesquisar sobre os problemas do lixo na Capital.
Em o aterro, as crianças ficam sensibilizadas com a quantidade de lixo produzido na cidade.
Elas ficam atentas a todas as explicações e aos diferentes materiais encontrados.
É vidro, papel, plástico, metal e pneus.
«E agora professora, para onde vai o lixo?»,
pergunta um aluno.
Outra escola da Capital que está desenvolvendo projeto de educação ambiental é a Escola Estadual Caetano Azeredo, que vem se dedicando ao Projeto Semeando e orientando os estudantes a economizarem os recursos naturais.
Uma de suas alunas, Valesca Caroline Mathias, 12 anos, da 4.ª série do ensino fundamental, se alegra com que tem aprendido durante as aulas.
Valesca descobriu que pode economizar na hora escovar os dentes e passou a multiplicar os litros de água que consegue poupar por dia.
«Para escovar os dentes posso gastar até 12 litros de água.
Mas, se usar um copo de água para enxaguar a boca e fechar a torneira enquanto escovo os dentes, posso economizar mais de 11 litros de água», ensina Valesca.
Número de frases: 34
A frase do título veio solta, dita quase como uma homenagem.
Veio do mostruário de garrafas plásticas de amaciante recortadas, em formas de palavras marcadas por pontos.
Todas devidamente espalhadas na mesa.
Letras recortadas e unidas.
Letras pontilhadas por o reglete, pontos que acompanham as letras e dão possibilidade de leitura ao tato.
Deus está no meio de elas, entre Maceió, Alagoas, Brasil.
Entre o sem e o cem (" a preposição e o numeral», frisa ela, a criatura criadora).
Entre a vida e a criação.
-- Olha aqui Deus.
Deus me fez, hoje eu faço Deus.
Foi entre as suas peças de plástico de finalidade tátil que Maria José de Oliveira me recebeu.
Para falar da sua vida, da sua obra, com um sorriso no rosto e papéis e plásticos nas mãos.
As histórias são muitas, contadas com paixão e detalhes.
Os cordéis somam 14, desde que começou a escrevê-los, depois de perder a visão, aos 18. Além de eles, tem vários outros poemas «eruditos», como define;
mais um livro de técnica específica de matemática para cegos (uma inovação à época, segundo algumas fontes que acompanharam esse processo);
uma cartilha feita com os desenhos de plástico e as palavras em Braille e algumas peças teatrais, como «A conquista do novo reino», uma ficção sobre a vida de Abraão.
Católica convicta e fervorosa, formada em história e teologia, D. Mazé derrama seus textos desafiando a memória, com a certeza de quem sabe que faz cultura.
E com a tristeza de quem acredita que a verdadeira cultura está morrendo.
«Só existe no nome e nos papéis dos políticos», lamenta.
Os recortes em plástico ela começou a fazer há oito anos.
A cartilha, puxou logo para que eu visse e tocasse.
Contou que mandou sua criação para um congresso de cegos no Espírito Santo, e uma cópia foi parar em Brasília, onde havia sido aprovada por uma equipe de especialistas.
«O cego não vê a flor, mas na minha cartilha ele pega na flor», explica a senhora de voz grave e jeito doce.
Aliás, não posso cometer aqui o erro que cometi ao telefone e pessoalmente:
tratá-la de maneira formal.
«Não me chame de dona nem de senhora, senhora é para quem é casada», me avisa «a menina de seis anos que na verdade são sete».
Os anos são décadas, claro;
e a confusão é proposital.
A história é que Mazé não tinha documentos quando decidiu dar continuidade aos estudos, e a idade máxima permitida na escola era de 20 anos.
Lá, eram exigidos documentos, diferentemente da escola onde estudou em Pernambuco.
Ela já tinha 30, não quis perder a oportunidade e não contou conversa:
tirou a carteira de identidade com 10 anos a menos.
Hoje, a mulher nascida em São José da Lage (AL) e criada em Canhotinho (PE), para onde foi com oito anos de idade, mora numa casa construída com o suor do seu trabalho, «sem dever favor a ninguém», como faz questão de frisar.
Aposentou-se como professora do Estado.
Diz ter sido uma das fundadoras da escola estadual de cegos Cyro Aciolly, onde ainda atua como voluntária, organizando anualmente o casamento matuto nas festas juninas «como deve ser, cultural e religioso, e não com essas pornografias de hoje», diferencia.
Mora com Helena, uma mulher simpática que a acompanha há 28 anos e é também a única herdeira de Maria, que não casou e perdeu a mãe e o pai na adolescência.
Ela veio para Maceió na cara e na coragem.
E sem enxergar, num tempo em que deficiente visual era considerado incapaz.
Trabalhou «da roça ao gabinete do governador».
Os primeiros empregos na capital alagoana foram como doméstica.
Recebia só moradia e comida.
Mudou seu destino quando decidiu falar diretamente com o governador Major Luís Cavalcante, que a empregou.
O trabalho na imprensa oficial lhe permitiu publicar seu primeiro cordel sobre um fato histórico:
«O Incêndio no Mercado, de 1962», conta o dia em que o mercado público de Maceió pegou fogo.
Para transformar o fato em versos, foi no local conversar com os feirantes e ouvir da boca do povo o que se passou.
Maria escreve os cordéis em Braille, para que possa ler, mas nunca conseguiu publicá-los desta forma.
Seus escritos estiveram disponíveis apenas para os que podem ler com os olhos.
Hoje, estão esgotados.
E apesar de ser membro da Academia Maceioense de Letras e ter recebido até Comenda (" que antigamente era dada somente às famílias reais», orgulha-se), ao que parece -- e para sua tristeza declarada -- ninguém se preocupa em republicá-los.
Nem em Braille, nem à tinta.
Mas apesar a sua «estréia» como cordelista ter sido sobre um fato real, é na temática religiosa que Maria mais produz.
Não poderia deixar de ser:
tem curso de teologia no seminário, além do curso de pedagogia e catequese.
Passou 15 anos ensinando meninos para fazer a primeira comunhão na catedral de Maceió e mais cinco na igreja São Benedito, também em Maceió.
Estudou, em Canhotinho (PE), numa escola paroquial.
Seu cordel preferido é «Vítima do Dever, cuja» última edição (a 3ª) data de 1990.
Conta a história de um padre francês que sofreu o diabo para proteger um segredo de confissão, e é inspirado num livro homônimo.
Senhores vou descrever
Com bem pontualidade
Pois o valor dessa história
De empolgante verdade
É um dos maiores fatos
De toda humanidade
Em as 36 páginas que se seguem, uma história que Mazé me conta oralmente, sem rima, em cerca de 30 minutos, como se a França de 1819 (ano em que se passa a história) fosse repleta de homens do Nordeste, de cabras danados e sotaque carregado.
como se precisasse disso para, mais uma vez, crer na força do seu trabalho e me fazer crer no que fala.
Aliás, os momentos de narração são os únicos em que ela não interrompe o pensamento para dizer o que está lendo (enquanto fala, nas mãos estão as palavras de plástico):
«olhe, aqui é um cavalo.
Isso aqui é uma palavra com acento.
A maior letra em Braille é o E com acento», diz, pausando as respostas às minhas perguntas.
Maria José começou a escrever cordel após ficar cega, mas a paixão por a poesia popular vinha de quando enxergava o mundo com os olhos de fora.
Veio da tradição nordestina das feiras do interior, onde os poetas penduravam seus escritos em cordas, e recitavam para os compradores.
Quem se interessava, levava para casa.
Talvez toda a devoção a tenha ajudado a superar a perda da visão, e buscar nas histórias rimadas outras possibilidades.
Mas nada valeria sem a força interior, sem a sua capacidade de acreditar no seu potencial, como revelam os primeiros versos de um de seus cordéis mais clássicos, " Ou sou, ou deixo de ser ":
Com Deus tudo é possível
Também querer é poder
Quero e posso muito bem
Minha função exercer
Lutarei constantemente
Serei muito mais para a frente
Ou sou, ou deixo de ser
Eu tenho disposição
Boa vontade a valer
Coragem para emprestar
Para dar, para vender
Ainda me sobra coragem
Essa é a minha imagem
Ou sou, ou deixo de ser.
Foi trabalhando na imprensa oficial do Estado que aprendeu a imprimir seus cordéis (que também datilografava) e encaderná-los.
Vendia-os na feira, para poder pagar os estudos.
«Quando consegui o emprego, o pessoal dizia:
vá estudar não, você já tem emprego, não precisa.
Mas aí eu dizia que agora que eu tinha emprego era que ia estudar mesmo, porque podia pagar a escola».
Estudou no colégio São José, onde concluiu o 1º grau (atual ensino fundamental).
Quando terminou o segundo grau (ensino médio), não podia continuar a vida de estudante, porque não tinha curso superior à noite e ela trabalhava os dois horários na Sergasa (imprensa oficial).
Mais uma vez, tomou coragem e falou com o governador, à epóca, Lamenha Filho.
Isso foi em 1971, por as suas contas.
«Eu quero fazer vestibular e continuar estudando, mas não quero perder meu trabalho», disse, imperativa, ao homem que mandava no Estado.
Acabou ganhando emprego no seu gabinete.
Foi então que passou para o curso de história.
Ainda fez teologia no seminário arquidiciocesano.
E, mais uma vez, foi correr para o gabinete dos donos do poder, dessa vez para pedir para sair e exercer a profissão.
Agora, foi Suruagy que lhe ajudou.
A escola onde estudou o Braille foi extinta, e o governador lhe falou do novo projeto para a escola de cegos.
Foi a primeira professora da escola, onde trabalhou por 28 anos.
Ensinou religião, claro.
Maria fala da própria vida com certo cuidado, ora como se estivesse guardando histórias para futuros escritos, ora compadecida por as complicações da idade.
Prefere contar dos que já foram, dos fatos que renderam cordéis, como os casos de cura com medicina popular, algumas da sua família.
Também escreveu um outro, mais descompromissado, «A Garrafada do pai João», um» humorístico», como define.
Uma garrafada feita, nas suas palavras, com coisas que não existem:
Sete quilos de fumaça
Um metro da cor do vento
Cem gramas de honestidade
De um político cem por cento
Terra do rastro da alma
E o volume do momento
Sobre as histórias de cura, Maria conta que ela mesma ficou cega com três dias, o que fez com que seus pais a «entregassem» para ser afilhada de Virgem Maria e São José.
Recuperou a visão, para poder ver as cores do mundo e tê-las na memória após a segunda perda.
Atualmente, escreve sua biografia, também em cordel, não publicada e apenas recitada para mim.
Através do cordel, que conta ser mais antigo que a própria bíblia.
Senhor Deus autor da vida
A o teu lado noite e dia
E também com meus padrinhos
São José e a Virgem Maria
Com sua graça me dê
Inspiração para eu escrever
A minha biografia
Além deste, Maria prepara ainda um outro, onde deixa claro uma certa intolerância com as mudanças culturais.
«Falo que homem tem que se vestir como homem, mulher como mulher.
Esse negócio de homem vestir saia, mulher vestir calça, está tudo errado.
E padre tem que vestir batina».
Eu estava de calças, mas nem toquei no assunto.
Nem poderia.
Certas convicções, quando ditas por certas pessoas, não merecem ser questionadas, nem desafiadas.
E assim passou a tarde, caiu a noite e veio a chuva.
Maria pediu meu retorno.
Pediu para ajudá-la a republicar seus cordéis.
Chorou porque não tinha cópia de todos para me dar.
Falou que nada deveria ser entendido ao pé da letra.
Deus a fez.
E ela faz Deus.
Número de frases: 141
E quem sou eu para questionar as certezas dos versos?
Um acervo raro.
De uma importância fabulosa para a história do Maranhão.
Tão importante que despertou o interesse de nomes como os dos escritores João Lisboa, Gonçalves Dias e de muitos pesquisadores.
Essa obra que tanto furor causou nos intelectuais maranhenses nos séculos XVII ao XIX consiste nos manuscritos originais dos Livros da Câmara de São Luís, uma das mais ricas obras da história do Maranhão.
Os livros retratam aspectos do cotidiano da vida política, cultural e urbana do estado.
Um retrato dos hábitos e costumes do povo maranhense.
Em a época do Império, o poeta Gonçalves Dias foi contratado para enviar os originais da Câmara Municipal de São Luís ao Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, atendendo a um pedido do governo.
Porém, para a felicidade do povo maranhense, o escritor enviou somente 12 desses livros.
Pois, 131 anos depois, o engenheiro Luiz Phelipe de Carvalho Castro Andrés encontrou 166 originais dos Livros de Câmara.
O achado de Phelipe Andrés aconteceu em abril de 1982, num cômodo nos fundos de um prédio na rua da Paz, 588 (Centro), onde funcionava uma repartição da Secretaria de Administração do Município.
Em a época, o engenheiro Luiz Phelipe Andrés era coordenador administrativo do Projeto Praia Grande.
Vinte e três anos depois de ser encontrada, grande parte do acervo dos Livros da Câmara foi restaurada e transcrita.
A historiadora Márcia Mendes, que atuava como estagiária quando as obras foram encontradas, coordena hoje o trabalho de restauração, transcrição e digitalização de todo o acervo.
Os livros compõem um universo de 28.000 páginas.
O trabalho de limpeza e restauração foi realizado por funcionários do Arquivo " Público Estadual.
«Encontrar esses livros foi uma emoção danada.
Desde 1978 procurávamos por eles.
Nós sabíamos que eles existiam, fomos em todos os locais possíveis.
Foi quando surgiu a dica de um funcionário, de que nesse prédio da rua da Paz havia muitos livros velhos.
A primeira ação quando os encontrei foi mandar fotografá-los.
A gente parecia não acreditar», afirma Phelipe Andrés.
Parte do acervo restaurado está na biblioteca do Departamento de Projetos Especiais, órgão ligado à Secretaria Estadual de Cultura, sob a coordenação de Luiz Phelipe.
Uma outra parte dos livros está no Arquivo Público.
De os 166 Livros de Câmara, 12 são do século XVI e os demais do período entre os séculos XVII e XIX.
Já foram totalmente transcritos 89 desses livros.
A historiadora Márcia Mendes é hoje responsável por a digitalização e revisão dessas obras já transcritas.
«É um trabalho extenuante, mais extremamente valoroso.
Se nós não tivermos a preocupação em examinar o nosso passado, não poderemos projetar o nosso futuro», diz Márcia.
Em o acervo estão livros de Acórdãos, Receitas e Despesas, Termo de Visitas, Registro Geral, Fianças, Registro de Saída de Mercadorias, Entrada de Imigrantes, livro de Correspondência entre o Presidente da Província e a Câmara e o livros de Atas da Câmara.
Os temas abordados nos livros são os mais variados, desde a concessão de terrenos da Marinha até a proibição de lazer aos negros, passando por infração e sanção a moradores, remanejamento de pessoal, inspeção aos presos, compra de granito para o calçamento das ruas e convocação da comunidade para a festa de Corpus Christi.
Em o Livro de Registro Geral da Câmara, o então presidente da Câmara, Antônio Henriques Leal, em setembro de 1867, solicita que sejam feitos «os reparos nas ruas d' Alegria e Brigadeiro Falcão, que são destinados ao trânsito dos carros durante a festa de Nossa Senhora dos Remédios».
Alexandre Collares Moreira, quando no exercício da presidência da Câmara, ocupa-se em redigir uma ordem que versa sobre os festejos que utilizam o mastro:
«Resolve os encarregados de qualquer festejo, sejam obrigados a fazer os concertos (sic) dos buracos nas ruas e praças da cidade para colocação de mastros, coretos e arcos, devendo o fiscal de cada freguesia, que esses concertos, realizados por calceteiros».
Esses trechos podem ser lidos no Livro de Registro Geral da Câmara, que compreende o período de 1865 a 1871.
Grande parte dessa obra já foi digitalizada por a historiadora " Márcia Mendes.
«A intenção é publicar esse acervo, mas como não temos recursos para isso, após a revisão e digitalização vamos disponibilizá-los num terminal de computador para pesquisas e consultas», declara Márcia.
Passeio por o passado da Ilha
A o manter contato com os Livros de Câmara, o leitor é levado para um passeio impressionante por São Luís.
Em os livros, encontram-se detalhes dos costumes, da urbanização e da religiosidade bastante reveladores da formação do povo maranhense.
Sobre a compra das pedras para calçamento das ruas de São Luís, o presidente da Câmara, Nogueira de Souza, faz o seguinte relato:
«As pedras nesta ilha para as obras de alvenaria e calçamento são inconsistentes, ainda as do Itaqui tão afamadas por a duração das antigas calçadas.
Faz-se necessária a encomenda de 20.000 paralelepípedos de granito rijo do Porto (Portugal), para o calçamento da rua do Sol e a contratação de dois calceteiros europeus».
Esse trecho faz parte do Projeto de Lei 753, de 1º de junho de 1866, e solicitava a compra de granito português não apenas para a urbanização da rua do Sol, mas também de outras ruas e becos adjacentes.
Os serviços também teriam que ser realizados por profissionais europeus.
Em fevereiro de 1867, o presidente da Câmara, Antônio Henriques Leal, manda publicar o seguinte edital:
«Faz público que tendo de findar-se no 3 de março próximo vindouro o praso de um anno por que foi arredado o banheiro publico, edeficado ao lado do Caes da Sagracão, convida as pessôas que quiserem de novo arrendar a apresentarem suas propostas, a fim de preferida a que maiores vantagens offerecer ...».
Alexandre Collares Moreira baseando-se nos artigos 67, 68, 70 e 71 do Código de Postura solicita que a Câmara intensifique a repressão à brincadeira do Entrudo.
Esta era uma das mais tradicionais brincadeiras carnavalescas desse período e se assemelhava um pouco à brincadeira de sujar os foliões com maisena, que ganhou força no Carnaval de rua de São Luís.
«A necessidade de conffeccionar uma postura com penas fortes que por uma vez acabe com o nocivo divertimento denominado entrudo por a maneira por que é entendido.
Chamando a atenção da Câmara de alguns terrenos baldios existentes nesta cidade sem muros e cercas servindo de esconderijos e depositos, passada a ordem aos ficais de 1 a, 2a e 3a freguesia da capital».
Número de frases: 51
Um quadro no Fantástico, a edição contínua de volumes de filosofia vendidos a preços populares em bancas de revista, mesmo uma revista falando especificamente sobre o tema (Discutindo Filosofia);
o sucesso editorial de livros como O mundo de Sofia e Os Simpsons e a Filosofia (entre outros);
apontam para uma valorização (comercial) da filosofia.
É fácil perceber que nos últimos tempos o Brasil tem apresentado sintomas de uma ' vontade de filosofia ', que, parece ser algo incomum em nossa história.
O problema é saber como e por que ocorre esse fenômeno.
«Como» -- Sem dúvida a filosofia aparece nesses casos como mais um produto a ser vendido, no entanto, dentro de uma sociedade capitalista, não poderia ser de forma diferente.
O problema é se a qualidade de mercadoria não «destrói» a essência da filosofia:
o produto, para ser vendável, deve atender ao gosto médio, deve ser de fácil acesso e apresentar resultados imediatos em seu «uso».
Em esse sentido, a filosofia pode ser vendida como portadora de uma verdade redentora, como mais um misticismo decadente, uma fórmula mágica para ocultar os problemas. (
Alguns manuais de filosofia seguem essa perspectiva, misturando Platão, Paulo Coelho, Heidegger, Buda, Lao Tsé, Cristo e Candomblé, num sincretismo em que o não-pensar é o Nirvana).
Em outro caminho, a filosofia é vendida como um produto que «ensina a pensar».
Quem acredita nisso é como alguém que tenta justificar qualquer coisa com a mesma frase do manual de citações ...
Se alguém não sabe pensar é impossível que aprenda a ler, ou aprenda a falar.
Podem «esclarecer» ' mas a filosofia nos ensina a pensar corretamente '.
Se for assim, todos pensam errado e só o filósofo sabe pensar ' certo ':
já é tempo de admitir que a filosofia não tem nenhum acesso especial à verdade.
Se é assim, por que as pessoas se interessam por filosofia?
«Porque» -- As pessoas podem se interessar por filosofia na busca de auto-conhecimento.
Em esse sentido, a tradição filosófica é verdadeiramente fecunda:
de Sócrates a Agostinho, de Descartes a Hegel, de Nietszche a Freud ...
o mandamento que pede «conheça-ta ti mesmo» tem sido revisitado por o pensamento filosófico.
Porém, acho que, nessa direção a reflexão filosófica me parece tão pertinente quanto a literatura, a música, o cinema, etc..
A reflexão, o jogo de espelhos sobre a questão da identidade pode ser feito a partir de qualquer referencial em que a pessoa se reconheça:
a temática musical dor-de-cotovelo (de CPM 22 a Bruno e Marrone) faz sucesso porque existem pessoas que se reconhecem em sua mensagem.
Mas, então:
por que esse interesse por filosofia?
A filosofia surgiu em Atenas quatro séculos antes de Cristo, num contexto «democrático» nas discussões sobre o que deveriam ser as leis.
O debate político e jurídico colocou em questão a natureza, o bem, o justo, o belo, etc..
Esses temas deveriam ser entendidos por a razão humana:
os homens deveriam dialogar, questionar e buscar posicionar-se diante dessas questões.
Em verdade, essa necessidade de provar racionalmente por que uma idéia é defensável perpassou todo o desenvolvimento da cultura ocidental a partir de então ...
mesmo a religião cristã tentou equilibrar fé e razão, de tal forma que, diferenças filosóficas levaram a divisões dentro da Igreja e ainda hoje geram discussões.
O debate sobre questões éticas e políticas é uma necessidade constante da vida em sociedade.
Quando não desenvolvemos uma crítica desses termos acabamos por ter de aceitar idéias que são impostas de fora.
Em uma sociedade capitalista, não pensar esses temas é aceitar as idéias que vêm prontas do mercado, da mídia, da propaganda, etc..
Para não aceitar nenhuma ' idéia pronta ` é necessário perguntar:
«quem formula as ' idéias prontas ` no caso da filosofia?»,
«de onde vêm essas idéias ' impostas de fora '?».
Diria que essas idéias são ' impostas de fora ` e ' trivializadas ' por filósofos.
Filósofos que não estão preparados para o diálogo, que não querem debater a realidade a sua volta e, por isso, preferem a desprezar em nome de uma «verdade eterna e imutável».
O problema é que essa «verdade eterna e imutável» não existe em filosofia:
esse ideal platônico, que separa o mundo do saber e o mundo da vida, é também marcado por o autoritarismo de quem diz ter razão diante dos que são considerados «perdidos» em aparências.
O «Big Brother» não existe, nem algo fora da sociedade a quem pudéssemos atribuir todas as culpas:
quem são «eles», senão» nós " que deixamos de questionar e aceitamos a repetição desse sentimento autoritário?
Se «eles» não entendem o que «nós» filósofos queremos dizer é também porque «nós» insistimos em não ser um de eles:
falando difícil, num jargão inacessível, ou mesmo, em língua estrangeira (por vezes morta) fechamos a porta para o diálogo.
Devemos sim, estar abertos para pensar nossa realidade, como, por exemplo, faz Renato Janine Ribeiro, quando reconhece e pensa os limites do papel das novelas no debate ético na sociedade brasileira atual;
só com essa postura aberta podemos alcançar uma percepção mais sincera da função dos mecanismos de comunicação de massa, sem nos determos em preconceitos.
Acredito que a ' vontade de filosofia ' pode ser vista como um sintoma do processo de redemocratização.
A sociedade tem necessidade de pensar temas que antes não poderiam ser questionados diretamente:
uma das primeiras medidas da Ditadura foi retirar a filosofia do ensino médio.
Penso que o Brasil começa a se acostumar com a instituição da democracia e também desperta para a idéia de que precisa se reinventar enquanto sociedade também democrática:
a Ditadura não veio de Marte, nem a corrupção, nem a desigualdade social, etc.
A cultura deve ser questionada para que a sociedade possa buscar alternativas e caminhos de transformação.
Não acredito que a filosofia, tomada como produto de erudição ou como questionamento escapista, possa contribuir para a democracia.
A abertura para o diálogo, para pensar a realidade é o que deve ser valorizado:
se as pessoas têm essa abertura os filósofos devem responder à altura, ou seja, sem esconder-se numa erudição vazia ou no academicismo estreito. (
Felizmente, não existe hoje muito espaço para os que querem pensar a Filosofia com «f» maiúsculo, promovendo a " tirania da razão ").
Número de frases: 58
Os Posfácios e Prefácios de uma Viagem no Tempo
Impressões gerais sobre Macacos e Outros Fragmentos ao Acaso, de Jorge Moreira Nunes
Há muito tempo, queria ler um livro que falasse da minha cidade e que, em pelo menos um de seus parágrafos, contemplasse uma ficção fértil em nome de um Rio de Janeiro que eu vivenciei, que não está no imaginário da mídia massiva, tão múltiplo e tão além da praia de Copacabana.
Ironia ou não, esse livro existe, de certa forma, desde 1998, é de ficção científica e o centro de irradiação de sua narrativa é Copacabana.
Seu primeiro capítulo, Terraço, entra também na lista de ironias que experienciei para adotar Macacos e Outros Fragmentos ao Acaso como aquele livro instigante e capaz de concentrar as experiências paradoxais e conjecturas de uma ficção que cabe na cidade que amo, expandindo-a para todos os tempos e possibilidades.
É também uma viagem por o Inconsciente.
Um dos personagens mais bem elaborados por Jorge Moreira Nunes, o enxadrista Vlad, provoca o estranhamento e a empatia necessários para configurar o bairrismo ao avesso e a intelectualidade despretensiosa de botequim que dão o tom original do romance.
Ganhamos um amigo, daqueles cuja amizade não entendemos por que cultivamos, mas que não podemos jamais subestimar.
Os desconcertantes capítulos denominados Macacos possuem o mérito inegável de brincar com o inconsciente semântico do leitor ou, numa visão menos otimista, tocar a superfície adormecida desse oceano de possibilidades cuja linguagem certamente deve diferir da lógica habitual.
O projeto Macacos vai tendo sua significação e relevância esclarecidas pouco a pouco e, até as últimas páginas parece não ter outra função que não seja incomodar o leitor, obrigando-o a improvisar um novo método de leitura lúdico e participativo, e que dê conta de várias páginas de uma enorme seqüência de associações livres demais ou -- o leitor pode notar, desconfiado -- nem tão livres assim.
O segundo conto, Maelström, revaloriza o primeiro, mas dá também a impressão de que o todo do livro é uma obra caótica, formada apenas por fragmentos realmente ao acaso.
A espinha dorsal do romance, no entanto, o refúgio seguro do La Granada -- título dos capítulos que alinhavam com segurança os contos do livro -- escancara ao leitor um único objetivo por trás de toda a narrativa.
As diferentes formas de realidade representadas em épocas e temporalidades diferentes (que incluem também os contos Presente de Mãe, Saviana e Ourobouros) somam-se a uma desconstrução da linguagem cartesiana (Macacos) e a uma narrativa em primeira pessoa franca e intimista (La Granada), resultando num arsenal respeitável para a detonação de parâmetros mentais habituais, uma das funções mais nobres da ficção científica.
Mas o caos furtivo é apenas o primeiro passo para a obra descomunal de construção do Inventário de todas as possibilidades humanas.
Moreira Nunes, seu alter ego ou a primeira pessoa de Macacos ...
impressiona por a coragem, porque chega a um grau de vulnerabilidade ousado por poucos autores em plena narrativa literária.
Que escritor não se sente tentado a incluir posfácios e prefácios no meio de sua história para torná-la menos temerária, menos solitária e -- aí o grande perigo -- mais indecisa?
É preciso ler para entender e sentir como esse dilema se resolve.
Quando li a excelente resenha de Macacos ...
escrita por Romeu Martins no site Overmundo, já havia me esquecido do antigo desejo de ler um livro de ficção científica sobre um Rio de Janeiro mais improvável que o de costume e não menos fiel.
Corri de São Paulo para Copacabana.
O livro veio, então, como um prazer inesperado, matando uma vontade antiga de revisitar minha própria cultura por meio do seu reconhecimento numa obra audaciosa escrita por um carioca autêntico.
Serviço:
uma última surpresa do livro é o fato de ele ser distribuído gratuitamente a todos os interessados.
Cariocas só precisam passar na sede da editora e requisitar um exemplar, leitores de outros estados podem fazer o pedido por carta, telefone e e-mail e só pagam as despesas de postagem.
Differential Comunicação e Editora
Av. N. Sra..
Copacabana 330/ Sala 1201
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marcosmaynart@differential.com.br Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.
Número de frases: 32
Quando ele nasceu, o anjo torto, aquele mesmo do poeta Drummond, disse vai Apolônio ser um cidadão do mundo.
Morto em 23 de setembro de 2005, aos 93 anos, Apolônio Pinto de Carvalho era corumbaense, e nasceu em 1912 no Estado de Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul.
Socialista e figura legendária, sua trajetória de vida se confundiu com um roteiro de um romance épico.
Em esta última entrevista concedida com exclusividade em seu apartamento no Leblon, no Rio de Janeiro, em agosto de 2005, poucos dias antes de morrer, ao lado de sua companheira Renée de Carvalho, Apolônio fala do governo Lula, de Luis Carlos Prestes, da decadência do comunismo no mundo, da guerra civil espanhola e do sentimento de ter matado seres humanos, e dá um depoimento inédito sobre a Guerra do Paraguai e de sua amizade com o poeta Manoel de Barros, entre outros assuntos.
A entrevista foi concedida com exclusividade ao jornalista Bosco Martins (bonito@boscomartins.com.br), foi exibida por a Rede Pública de Televisão de Mato Grosso do Sul, através da TV Educativa Regional / MS.
Apolônio, uma breve biografia.
Quem é Apolônio de Carvalho?
Sou produto da minha época e tudo isso.
Quando me perguntam:
«Por que você foi se engajar na esquerda? ..."
A trajetória de meu pai era contra a ditadura e contra as violências da direita.
A trajetória de meu irmão, tenentista, também rompeu com os arbítrios e as coisas negras da chamada República Velha, da primeira República, da Proclamação da República, até 1930.
E também porque a minha geração não teve outro caminho, senão sentir os efeitos da Coluna Prestes!
Em 1929 houve maior crise da história do capitalismo.
Com terríveis efeitos sobre as vidas das populações.
Então nós jovens éramos a favor da justiça, da igualdade, do respeito humano.
Isso faz com que nós entremos na luta armada.
Depois na luta política.
Então passamos por os altos e baixos dos partidos.
Faço questão de falar um pouco das coisas positivas do Partido Comunista, porque muita gente fala olhando, só unilateralmente, para o lado negativo que não foi só do nosso Partido Comunista Brasileiro, mas dos partidos comunistas de todo o mundo.
Em 1935 você foi transferido preso para o Rio de Janeiro.
Como foi seu engajamento na Aliança Nacional Libertadora?
A os 20 anos eu era um patriota, democrata, um jovem acessível às pressões do movimento social no momento em que a vida política e a vida social do país estavam profundamente marcadas por os efeitos tremendos da maior crise cíclica da primeira metade do século passado, a crise de 1929, 1933 e 1934.
Então, como democrata, como patriota eu me engajo na ANL, por uma questão de ética e de respeito a amizades profundas para com alguns dos meus colegas, era tenente de artilharia em Bagé, RS -- o meu comandante era o major Costa Leite, um dos dirigentes da ANL, mas nas minhas viagens por o interior, através da vontade de conhecer o Rio Grande, porque é a terra de minha mãe e de meus irmãos, conheci um outro oficial, Rosa Rolin, que quis me engajar na ANL.
Fui conhecendo através dos documentos a Aliança Nacional Libertadora.
Seus objetivos, seus sonhos de um Brasil mais livre, mais justo e sobretudo ligado à grande massa da população.
Passava então a conhecer um pouco da realidade brasileira e seus profundos contrastes sociais e é justamente por isso que me engajei em ela, através de uma pequena manobra desses oficiais que me cercavam.
Havia em Bagé uma série de sindicatos operários muito ativos, sobretudo de influência anarquista e havia reuniões constantes desses sindicatos, que os companheiros que já estavam ligados à ANL queriam ganhar para a organização.
Então, a manobra de um de eles foi a seguinte:
«Nós fomos convidados para uma conferência especial sindical hoje, onde estarão presentes os melhores dirigentes sindicais e nós gostaríamos que você nos representasse.
Então eu fui assistir a essa conferência e eu passei a ser participante porque, num momento, um dos dirigentes anarquistas que já me conhecia dizia:
nós queremos ouvir a voz de um oficial do Exército que está aqui entre nós e que começa a conhecer nossos sonhos, nossos objetivos, nossas fraquezas e nossa vontade de mudar a sociedade.
Aí eu fui obrigado a falar e me engajei profundamente na ANL.
Então, eu me torno combatente da ANL, mas apenas como um democrata e patriota integrado num movimento social extremamente forte e também com diretivas políticas que chamavam o Brasil a elementos novos ligados à soberania nacional num País ainda profundamente dependente, como era o Brasil da época.
Em esta época você ainda não conhecia o Partido Comunista Brasileiro e isso só foi acontecer após 1936, 1937, quando a ANL foi «levada» à ilegalidade?
Nós fomos todos vítimas de uma repressão muito violenta, então não somente presos, como expulsos do Exército e como preso político, isso no RS, em Bagé, eu fui transferido com outros para o Rio de Janeiro, onde Getúlio Vargas, um pouco descuidadamente, nos reservava a condição de hóspede de honra na Casa de Detenção e da Casa de Correção.
Ali na prisão fiquei, junto dos companheiros que haviam participado do movimento de 35, no Nordeste e também no Rio, junto dos outros companheiros que eram combatentes da ANL em sua fase inicial, na fase áurea.
Aí eu fui conhecer o Partido Comunista e, ao mesmo tempo, me iniciaria um pouco na visão da realidade brasileira, das suas profundas contradições e como eu tinha sido, desde o meu período de cadete do Realengo da Escola Militar do Realengo, muito chegado à poesia, à literatura modesta, mas ativa, eu passei a estudar na própria prisão alguns problemas da nossa realidade econômica e social e isso me ajudou a pleitear, junto aos amigos ligados ao Partido Comunista, uma série de aulas, uma espécie de curso inicial para formação política como militante.
Qual é a sua visão de «Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos»?
É aquilo mesmo que ele conta, embora eu tenha certas divergências com Graciliano por uma razão muito simples:
nessa época, 1935, eu era um garotão de 23 anos, cheio de entusiasmo, passando a conhecer um pouco do que era o papel das classes sociais no Brasil, o papel dos trabalhadores no Brasil, os companheiros que me faziam conhecer um pouco da teoria própria das áreas de esquerda, embelezaram naturalmente os lados positivos, escondiam naturalmente os lados negativos, se é que o conheciam.
Mas eu era um apaixonado já por as idéias de renovação da sociedade, por as idéias do socialismo.
Então eu passei a inteirar-me com a idéia de uma sociedade nova, que a meu ver não deveria vir como foi tentado em 1935 e como eu tinha sido intentado antes, na Proclamação que Prestes fizera em nome do Partido Comunista, a 5 de julho de 1935, chamando os militares a uma ação violenta contra o Governo de Getúlio e a derrubarem o governo de Getúlio, eu passava a sentir o problema do socialismo através de uma floração de sociedades mais avançadas, com presença muito alta e muito ativa da população trabalhadora e não como um produto de violência, que da noite para o dia transforma as cores, a essência, e o sentido da vida e das coisas no Brasil da época.
Aí se deu o início de sua entrada ao PCB.
O Partido Comunista Brasileiro não era perfeito, mas enfeitou a minha vida com coisas muito bonitas, me convidou para ir para a Espanha e isso representou uma das coisas mais compensadoras, estimulantes e mais valiosas na minha trajetória.
Porque combater com uma República, agredida, por dentro e por fora.
Apoiada no povo.
E sobre ideais muito próximos dos que eram os ideais das forças de esquerda no Brasil.
Depois disso fui para a França e lá continuei as lutas contra a ocupação militar alemã, era a luta de libertação do povo francês sob a presença muito ativa também do Partido Comunista francês que também me ajudou muito a ser um participante nesse conjunto de combates, de ideais.
Tenho um grande carinho por o Partido Comunista Francês, mas também fui formado por a geração de comunistas dos anos trinta.
Estou no Partido Comunista, entre 1937 a 1967.
São trinta anos e pertenço à faixa comunista dos anos trinta.
Éramos profundamente religiosos nas nossas ligações partidárias, tínhamos os olhos fechados para aquilo que não fosse belo e luminoso no partido, acreditávamos em tudo que diziam os dirigentes e mantínhamos o mesmo espírito de críticos.
Aceitava aquilo que me parecia justo no partido com uma alegria extraordinária.
O Partido espanhol também foi um partido em que me apoiei, para participar ao lado do povo espanhol, na luta por seus direitos e por suas diversidades.
Quando volto para o Brasil, já em 1947, depois de dez anos no Exterior, encontrei um Partido Comunista que estava amplamente em liberdade, mas que gozaria dessa liberdade apenas por um período de meio ano.
Fui convidado por a direção do partido para estréia, provisoriamente, numa direção, também provisória, a União da Juventude Comunista.
Os jovens queriam vir para o partido, mas se chocavam com a natureza muito fechada e muito dura do partido com os militantes.
Virei o presidente e me identifiquei muito com essa função, mas só estive na frente da Juventude Comunista durante um mês, porque os generais não admitiam e a frente dos generais estava no governo.
Era o General Dutra.
Em 1947, a União da Juventude Comunista foi fechada com menos de um mês de existência.
O Partido Comunista entendeu mal esse gesto de arbítrio dos governantes.
Prestes teria dito:
«Fecharam a União da Juventude Comunista porque não têm força para fechar o Partido Comunista».
Em a realidade, a Juventude Comunista foi fechada no fim de abril com quase um mês de existência, mas o Partido Comunista seria fechado uma semana depois, a 7 de maio, por o próprio governo do General Dutra.
Então, um período diferente vai marcar a minha segunda militância.
É uma militância na clandestinidade, isolada da sociedade, porque o Partido Comunista entendeu muito mal as decisões do Supremo Tribunal Eleitoral, que apenas tinha cassado o seu registro eleitoral.
O partido pôde continuar a existir como uma organização recreativa.
Só não podia disputar as eleições?
Sim, mas o partido considerou que aquilo era o início, o anúncio de uma repressão violenta, caiu também numa clandestinidade elevada ao extremo.
O partido confundiu a pressão das direitas vinda do governo, então nós passamos a viver completamente desligados da sociedade, da família etc..
Foi um período muito duro, sem perspectivas e de possibilidades de ação e é isso que fez com que os anos cinqüenta ficasse conhecido como os anos de chumbo.
E ai a ação dos companheiros também foi dura?
Em relação ao Prestes, principalmente?
O companheiro Prestes foi responsável por essa orientação fechada e extremada, estava inteiramente identificada com ela, e o Prestes era uma figura excepcional no partido.
Ele era vontade suprema do partido.
Então, entramos num período de clandestinidade em que o próprio Prestes mergulha, e desaparece durante anos e anos, até que em 1958, Juscelino Kubitschek abre uma era nova, acha que o Partido Comunista pode ser reabilitado como organização política geral, desde que ele abandone alguns dos temas de seu programa.
Por exemplo: A ditadura do Proletariado e o caráter violento da Revolução etc..
Então o partido adquire uma espécie de similaridade, que vai de 1958 até 1960, que cresce, relativamente, com a subida ao poder de João Goulart, e também continua crescendo, mas de maneira isolada, depois de 1962, já com o governo presidencialista João Goulart, até 1964 quando vem o golpe de Estado.
E como que ficou sua cabeça depois que Prestes, esse mesmo Prestes, acabou convocando o próprio Partido a apoiar Getulio?
Você acha que foi um equivoco esse apoio a Getúlio?
Acho que não.
Era necessário unir ao momento dado todas as forças que podem trazer algo que seja um programa de mudanças da sociedade.
O Getúlio trazia -- ele estava cercado de forças muitíssimo conservadoras -- alguns elementos positivos e me lembro que ele tinha criado Volta Redonda, coisas novas para o Brasil, além de ter aberto caminho para a presença, embora sob sua tutela, da massa trabalhadora na sociedade e na política.
Era então necessário aproveitar esses elementos para um partido que começou, afinal de contas, pela primeira vez, a ter direito a falar legalmente para a população, unir as forças interessadas num mínimo de mudanças parciais necessárias.
O problema é que, até essa época, eu acho que o erro não era do Partido Comunista Brasileiro, o erro vem desde o Manifesto Comunista de Marx e Engels, o erro era querer a mudança da sociedade da noite para o dia, era querer a mudança da sociedade através de algo que seria utilizar uma crise política nas classes dominantes e, ao mesmo tempo, encontrasse as condições novas para mudar sem apoio efetivo e consciente da população.
Teríamos que fazer um imenso trabalho de consciência da população para, através de ele, implementarmos uma mudança sucessiva na sociedade brasileira.
Getúlio tinha certa afeição por o nazismo?
Não se pode dizer isso, seria catalogar sob um determinado prisma, uma figura histórica da história política brasileira e a maioria das figuras históricas, no caso Getúlio Vargas, são figuras que têm dois aspectos.
Duas partes.
Uma parte, que sobre a pressão do popular, que é o que há de positivo nas nossas tradições, o obriga a aproximar-se mais do povo para distanciar-se de outras faixas das classes dominantes e que eram profundamente retrogradas, inimigas dessa mesma população.
Outra parte da personalidade dessas figuras históricas, e ainda falando de Getúlio, era o fato de serem integrantes das classes dominantes.
Eram grandes fazendeiros de São Borja (RS), e de outras áreas do Rio Grande do Sul, e, portanto, estavam identificadas com os interesses gerais das classes conservadoras.
Então, de certa maneira, Getúlio jogou um pouco com a crendice popular, através de certas concessões -- o Salário Mínimo que instituiu a partir de 1941 -- mas ao mesmo tempo, vendeu, entregou o país à sanha de certos grupos financeiros da Alemanha, da Itália, dos Estados Unidos, que era o único imperialismo na sede neste momento.
Ao mesmo tempo, se prontificou a cercar-se de elementos profundamente reacionários, capazes de instalar um regime de terror contra os que faziam oposição a ele.
Em o sentido mais duro, mais acerbo, contra os mais cheios de perspectivas, contra o Partido Socialista, o Partido Comunista, os antigos Tenentes etc..
Getúlio foi, ao mesmo tempo, um homem que teve as condições de proximidade para o povo, relativa, que lhe dava a alegria de ser chamado o «pai dos pobres», e, ao mesmo tempo, um ditador, sanguinário, frio, diante das populações mais avançadas na sua consciência e que não aceitavam o seu regime, de aparência democrática, e de realidade autoritária.
Apolônio, ainda na prisão, você chegou a conviver com Olga Benário?
Estive preso no momento em que, era o ano de 36, a Casa de Detenção guardava o que havia de mais influente na esquerda, que seria o movimento comunista, isto é, os presos políticos que vinham de Natal, de Recife e do Rio de Janeiro.
De entre os presos havia a seção masculina e a feminina.
Em a seção feminina tínhamos Olga e outras mulheres muito valiosas vindas do Nordeste, tanto de Recife como de Natal.
Em esse momento eu conheci a Olga de longe, porque vivíamos numa separação muito rigorosa entre os presos e as presas políticas.
Dentro da mesma Casa de Detenção era como se fossem duas prisões separadas:
havia felizmente uma espécie de sobre loja, que as mulheres de vez em quando olhavam para o salão amplo, onde os presos políticos se reuniam.
Nós discutíamos os nossos cursos, etc. e daí era possível ver uma de nossas companheiras presas.
Houve um instante, eu me lembro como se fosse hoje, que pude sentir o contato de Olga olhando para a nossa ala masculina e, ao iniciar o mínimo de conversação, porque ela estava a uma distância de quatro metros e numa altura maior, eu ouvi de ela o seguinte:
«É preciso lutar, sem lutar não se consegue nada».
Eu vivi essa situação!
Porque ela estava na Casa de Detenção, quando foi arrancada e levada para o navio, para ser levada para a Alemanha.
Então nós fizemos um protesto muito grande, dentro dos limites, protestamos muito, porque sabíamos que ela estava sendo ameaçada.
Ela e a companheira de Arthur Herbert estavam sendo ameaçadas para serem mandadas para a morte, na Alemanha nazista, para a morte.
Nós fizemos uma gritaria enorme, protestamos por todos os meios, tínhamos somente esta possibilidade de falar para uma parte da população.
O filme sobre ela do Jaime Monjardim passa essa imagem de mulher revolucionária?
O filme é extremamente justo do ponto de vista da vida e da historia da Olga Benário e do movimento comunista da época.
Achei muito bom e muito positivo, e nós precisamos nos habituar melhor à força das críticas.
A crítica, afinal de contas, como tudo no mundo, tem dois lados:
um lado de verdade e um intencionalmente perverso.
Em a esquerda, há elementos extraordinários fundamentais para o desenvolvimento dos militantes, das instituições, do plano e da realização do trabalho:
a constatação das realidades.
A visão do que há de justo e injusto nessa realidade.
A crítica ajuda a corrigir os erros iniciais, a autocrítica, a preparar coisas novas, utilizando a experiência recebida anteriormente, abrindo caminho para o novo e o que há de mais positivo da nossa ação política e social.
Você saiu da prisão, é expulso do Exercito e segue para a Europa.
A o sair da prisão, eu me incorporo ao Partido Comunista, pois na prisão eu conhecera o Partido Comunista, através de uma dezena de antigos cadetes da Escola Militar do Realengo, através de eles vieram as primeiras lições da doutrina comunista, do marxismo em geral.
A o sair da prisão, no dia seguinte, me incorporei ao PC através de figuras muito bonitas de nossa cultura, como Aparício Torelli (o Barão de Itararé) e Otávio Malta, que seria depois um jornalista muito respeitado do jornal Última Hora.
Tinha havido uma reunião do comando central do Partido Comunista Brasileiro e nessa reunião tinha sido definida uma iniciativa.
Havia muitos oficiais, muito sargentos, muitos cabos, muitos militares que estavam expulsos do Exército, a República Espanhola estava assaltada por generais, por os príncipes da Igreja Reacionária Espanhola, era necessário, portanto, que alguém de fora, com forças de fora, suprisse essa defasagem de forças existentes em torno da República ameaçadas naquele momento.
Então, eu que na minha família já tinha um pouco de experiência de posições internacionalistas ...
Vai para as Brigadas Internacionalistas.
Eu era um jovem tenente, moço de 24, 25 anos.
Eu era tenente de artilharia e a Espanha estava com muito poucos oficiais e eu tinha todo um curso da Academia Militar do Rio de Janeiro.
Em essa época a Escola do Realengo não tinha a pompa militar da Academia das Agulhas Negras, era apenas a Escola Militar do Realengo.
Eu tinha todo um curso de oficial do Exercito.
Então eu passei na Espanha a ter funções sucessivas.
Além da função de comandante-chefe de uma bateria de artilharia, eu fui também encarregado de funções de comandante, coronel e mesmo funções de General se tivesse continuado por lá.
Você participou de muitos combates na Espanha?
Eu passei nesse período a estar presente a todos os combates da metade sul da Espanha.
Quantas pessoas você matou?
Ali a gente mata de longe.
Não vê as vítimas, porque nós atiramos a 6, 7, 12 km, mas a missão da artilharia era ajudar.
Sua consciência é tranqüila?
Sendo você um grande humanista, isso nunca te afetou?
O problema é o seguinte:
você está numa batalha não por o seu desejo de sobreviver, não por o seu desejo de se opor.
Você está por um ideal, do outro lado estão os inimigos desse ideal, do teu lado estão os partidários desse ideal, então você está numa luta em que, usando os meios que se dispõe, no caso eu era um oficial de artilharia, e a artilharia atira de longe.
Eu não via as minhas vítimas.
Mas tinha consciência que eu liquidava uma parte dos meus inimigos lá.
E aí você tem a consciência de que está lutando por algo, de um conjunto de razões a serviço do povo.
E, portanto, se é necessário resistir aos que ameaçam os direitos dessa população, você tem direito também de responder à violência desta parte da sociedade.
Tenho minha consciência muito tranqüila, porque você estava guiado por um ideal baseado na perspectiva de transformação de um mundo melhor do que aquele, com a visão de que você está naquela batalha para mudar o mundo, em busca de uma sociedade diferente.
Número de frases: 149
Veja segunda parte da entrevista na próxima edição.
Quarto branco.
Pequeno. Gelado.
Vazio. Janelas grandes e altas.
Cortinas transparentes.
Brancas. Uma cama estreita no meio.
Apenas ela.
Em a cama um corpo nu esparramado sobre o lençol fino de algodão.
De aqueles coloridos.
Flores. São pequenas.
Delicadas. A cor rosa muito clara.
Um daqueles lençóis comprados num hipermercado.
Tecido levemente áspero.
Um quadro expressionista.
Uma réplica barata do Grito.
Ao lado da cama uma grande caixa vermelha com papéis espalhados.
Anotações. Fotografias amareladas.
Antigas. Ela olhava para o vazio do teto.
Sentia-se estilhaçada.
Apenas uma lágrima escorregava por o seu rosto e parava no cantinho da sua boca.
Uma boca pequena.
Assim como os olhos.
Pequenos. Brilhantes.
Era o único brilho.
O dos olhos.
Não piscavam.
Em sua companhia apenas as lembranças.
Tão antigas.
Lembranças rasgadas.
Amareladas.
Em a mão esquerda segurava uma caneta.
Vermelha. Riscou sem querer o lençol.
Misturou-se com as flores pequenas que contornavam seu corpo.
Magro. Cintura fina.
Pernas compridas.
Cabelos avermelhados.
Médios. Não gostava de seus cabelos.
Crespos. Queria um café para derrubá-lo em cima das lembranças.
Não seriam mais amarelas.
Escureceriam-se.
Talvez, por alguma sorte, se apagariam.
A mão com a caneta se moveu.
Foi o único movimento.
Levou-o até a outra mão.
Vagarosamente levou a mão até o pulso.
Passou a caneta por ele com força.
Um risco vermelho foi se formando.
Parecia sangue.
Era o que queria.
Ver seu sangue manchando o lençol.
Aquela cama cheia de marcas.
Perfurada por lembranças.
Número de frases: 52
Borradas. Só queria esquecê-las.
Senti minha mente se partindo
como se o cérebro em dois se dividisse
Sulco por sulco -- tentei encaixar
Mas não ouve maneira de conseguir
Meus pensamentos tentei, em vão
Juntar uns aos outros
Mas sem sentidos se tornaram
Como bolas rolando no chão -- Emyli Dickinson (1864)
Daniel *, um jovem estudante universitário, levanta todos os dias às sete horas da manhã.
Não que seja escolha sua, mas ele tem que levar sua irmã ao colégio e não pode se atrasar.
Ela o chama uma vez, duas vezes.
Ele se revira na cama e diz que já vai se levantar.
Ela grita «Sete e meia. Vou me atrasar!».
Ele se revira, se mexe, passam-se dez minutos e acaba levantando.
O rosto amassado não esconde a vontade de permanecer deitado.
«Venha lanchar, enrolado!»,
grita a irmã.
Sentados na mesa, ela come um mamão, enquanto ele põe o iogurte no copo com toda calma, olhando para o lado e brincando com o cachorro.
«Daniel, rápido!».
Ela já está na garagem, com o capacete na cabeça, enquanto o irmão, já chegando perto da porta, volta atrás porque esqueceu de pegar a chave da moto, em algum lugar que não se lembra.
Hoje com vinte anos, Daniel descobriu há dois meses que possui DDA, o famoso Distúrbio de Déficit de Atenção, ou como tem sido denominado atualmente TDAH -- Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade.
Lara Telles *, psicóloga da família, diz ser a doença da moda «todo mundo tem DDA hoje em dia, isso só pode ser modinha».
Mas Ernesto Betelli, famoso neurologista da capital palmense, afirma não ter dúvidas que Daniel possui DDA.
A o chegar em casa, o universitário tira o tênis, joga num canto, tira a camisa, liga o computador que fica no seu quarto e acessa diversos sites ao mesmo tempo.
Abre a caixa postal, abre o Orkut, acessa um site sobre TV Digital, um sobre propaganda e mais uns nove ou dez sobre os mais variados assuntos.
Em sua cabeça passam milhões de informações ao mesmo tempo.
E é disso que ele reclama.
«Penso várias coisas ao mesmo tempo, e não consigo me concentrar numa só.
Tô aqui falando com você, olhando para você, respondendo à sua pergunta, mas acabei de pensar que tenho que olhar um site sobre diagramação e que minha mãe pediu para eu comprar carne para o almoço».
Onze e meia.
Hora de almoçar já que entra no trabalho ao meio dia.
Mas ele ainda está vendo tevê, acessando sites, ainda ouvindo música e ainda não tomou banho.
Hora da correria.
Maria, secretária do lar, que trabalha em sua casa, avisa que o almoço está pronto.
Daniel senta-se à mesa, se serve e começa a comer.
Em isso, sua namorada que almoça ao seu lado, fala para que ele pare de balançar as pernas.
Ele faz isso o tempo todo, e nem se dá conta do fato.
De repente pára, e volta a balançar outra vez, mas em segundos observa o olhar reprovador da namorada, e pára de novo.
Já são dez para o meio dia e Daniel ainda não tomou banho.
«É pra tomar em cinco minutos», diz a namorada, sempre preocupada com os atrasos do companheiro.
Meio dia e quinze, o tranqüilo rapaz sai do banho.
Chega ao trabalho meia hora atrasado, e isso não é mais novidade para seus colegas.
Sorte a de ele seu chefe chegar por volta das 14 H.
Sua tarde se resume em fazer certos favores, rever alguns processos e no mais fica navegando por a Internet até chegar seis horas da tarde, quando tem que ir embora.
E os efeitos do distúrbio de déficit de atenção sempre o perseguindo.
Sob prescrição médica, Daniel toma um remédio de tarja preta conhecido como Ritalina, o medicamento mais recomendado para o tratamento do distúrbio.
Sua função é estimular o sistema nervoso central ajudando na concentração.
E é disso que um DDA precisa, de se concentrar.
Quantas vezes estava assistindo uma aula na faculdade e de repente se pegava olhando para a parede, pensando em outras coisas, que não a aula.
E o esquecimento?
Esquece compromissos, tarefas.
E as chaves?
A chave da moto é sua maior inimiga.
Vive num lugar que ele nunca sabe qual é.
Um ponto positivo de um DDA:
pode ser muito mais criativo do que se imagina.
Só tem que saber canalizar seu pensamento para tal.
São quase sete horas da noite, hora em que Daniel devia estar chegando à faculdade, mas ele ainda está em casa.
A tevê ligada, o cachorro latindo para que brinque junto com ele, a namorada chamando para lanchar, a mãe telefonando para saber como estão as coisas.
Tudo se repete como na hora do almoço.
As pernas balançando, a namorada olhando feio.
«Ai, esqueci de fazer o trabalho da aula de hoje», diz com olhar triste, se recriminando.
«Esqueci de novo».
Isso é o que mais acontece com um DDA.
Começam fazendo dezenas de projetos, e no fim não concluem nenhum.
Daniel é um DDA, diagnóstico dado por um médico conceituado.
Quais recomendações recebeu?
Organizar sua rotina, usar uma agenda para auxiliar.
Tudo que começar a fazer, procurar terminar.
Resumindo:
buscar a reorganização de sua rotina.
Além, é claro, buscar um acompanhamento psicológico.
Afinal, o DDA (ou TDAH -- transtorno do déficit de atenção e hiperatividade), é um transtorno de causas genéticas, que aparece na infância e costuma acompanhar a pessoa para o resto da vida.
Mas por outro lado, não existe exame que comprove sua existência.
O que deve ser analisado é o histórico pessoal do indivíduo.
E não confundir os sintomas de um DDA com o de um ansioso, pois a especialista Ana Beatriz B. Silva, autora do livro Mentes Inquietas, que é esclarecedor sobre o que acontece na mente de quem possui DDA, afirma que se na infância não forem observados sintomas descritos, o que o adulto tem não pode ser chamado de DDA, e sim de outra coisa que deve ser analisada clinicamente.
E Daniel continua sua vida.
A essa hora deve estar em casa, acessando sites e mais sites, e quem sabe, se esquecendo de algo.
* Nome fictício.
O entrevistado preferiu não ser identificado.
* nome fictício para preservar a identidade da profissional.
Número de frases: 82
Imagens diante dos olhos e dentro da cabeça.
Cinema. TV.
Fotografia. Memórias.
Pensamentos. Sonho.
A Companhia Viladança traz ao palco um universo que transita entre imagens, no despertar de músicas cedidas especialmente por Milton Nascimento.
A trilha sonora guardada há 15 anos por o músico mineiro, e o movimento dos corpos dos dançarinos se encontram no Teatro Vila Velha, num espetáculo concebido e orquestrado por a coreógrafa Cristina Castro.
Criada em diferentes tempos e lugares, cruzando fronteiras através do ciberespaço, a montagem engloba referências artísticas, filosóficas, literárias e lúdicas que oferecem ao espectador a imersão numa infinidade de coisas que constituem (e também desconstróem) cada ser humano.
Aroeira -- com quantos nós se faz uma árvore é uma reunião de energias criativas diversas, que flerta com a ilusão ocupando olhos e ouvidos, ao passo que revela os mistérios do desejo e da imaginação.
A montagem estréia em Salvador no dia 16 de junho e segue temporada até 9 de julho, com apresentações de sexta a domingo, sempre às 20:00.
O processo para chegar até Aroeira -- com quantos nós se faz uma árvore começou há 3 anos, quando Milton Nascimento ofereceu à coreógrafa Cristina Castro uma trilha sonora chamada Cores e Vozes que havia composto há mais de 15 anos para um balé.
A primeira idéia de Cristina foi juntar a música de Milton à vontade antiga de trabalhar com o universo da fotografia, o que logo a fez mergulhar nas imagens evocadas por os sons da trilha.
De aí para expandir o conceito para as relações entre aquilo que se vê e o que fica guardado ou é criado na memória, foi um pulo.
Então, o minucioso processo de pesquisa envolvendo textos de pensadores, poetas, bate-papo com especialistas, fotografias, desenhos, quadros e HQ passou a ser prioridade na vida de Cristina.
Não demorou muito até ela sentir-se preparada para se entregar por inteiro a uma aventura totalmente nova, para a qual contou imediatamente com a cumplicidade de seus dançarinos:
um espetáculo multi-linguagem, criado por uma equipe de artistas muito especiais.
Além de Milton Nascimento, o time de criativos que assinam o espetáculo conta com a equipe de artistas gráficos Diogo Kalil, Franck Falgueyrac e Ian Sampaio, reconhecidos no meio de vídeo nacional e internacional por sua habilidade técnica e estética em produzir desenhos e animações.
O espetáculo traz ainda uma citação do texto Fábula da Fêmea Camafeu, de Fausto Fawcett, compositor de hits da música pop nacional como K átia, a Godiva do Irajá e Rio 40°.
A caixa de Milton
Receber uma trilha sonora diretamente das mãos de Milton Nascimento foi um verdadeiro presente para o Viladança.
A música original, chamada Cores e Vozes, foi gravada em 1991 e contou com a participação de músicos como Jacques Morelenbaum (violoncelo), Nivaldo Ornelas (metais) e Robertinho Silva (bateria), além do próprio Milton Nascimento no piano, voz e violão.
Porém, o compositor mineiro foi ainda mais longe, oferecendo a possibilidade de editar as músicas de acordo com o roteiro do espetáculo.
Este trabalho Cristina Castro confiou às mãos dos músicos Jarbas Bittencourt e João Meirelles, juntamente com o produtor musical Marcos Povoas, deixando-os como responsáveis por a edição final da trilha de Aroeira ...
Extrato de Aroeira
Aroeira -- com quantos nós se faz uma árvore é dividido em blocos distintos, com cortes estanques entre um e outro, revelando o que Cristina chama de «olhares», cada um representando uma forma de compreender -- e sentir -- a visão ou a memória.
As cenas referem-se a desejo, fantasia, saudade, caos, manipulação de realidades, associações sinestésicas e também à crítica ao culto da imagem.
A o evitar uma transição suave entre esses «olhares», Cristina pretende provocar a platéia a re-arrumar o espetáculo mentalmente, imprimindo à experiência suas próprias lembranças.
«Todos temos imagens dentro de nós.
A cabeça é uma caixa infinita e a relação entre o que se vê e a lembrança é sutil como uma renda», completa.
Em cena, Cristina optou por trabalhar mais com a energia e o vigor dos dançarinos, em contraposição à delicadeza das animações projetadas por Diogo Kalil, Franck Falgueyrac e Ian Sampaio e da poesia de " Milton Nascimento.
«Meu trabalho parte do atrito, da provocação e do desejo ...
a interação de linguagens, tendo como coluna central o movimento, rege a minha pesquisa no universo da dança contemporânea», afirma.
A diretora partiu das partituras corporais propostas por o grupo nas improvisações, a fim de trazer ao palco um pouco da subjetividade de cada integrante.
O resultado são movimentos fortes, com velocidade e destreza, explorando os limites dos corpos, que interagem e recebem interferência das projeções que se alternam entre evidenciar idéias e ocultar detalhes, criando uma penumbra que ativa a imaginação do espectador.
Dentro dessa proposta encaixa-se também a iluminação de Fábio Espírito Santo, que se articula com as malhas e projetores para favorecer os jogos de cor, luz e sombra.
A platéia é convidada a entrar numa caixa de memórias, representada por a estrutura do cenário concebido e executado por Cristina Castro, Fritz Gutman e Lorena Torres Peixoto, que desloca o enquadramento do palco, provocando uma mudança de perspectiva.
A cenografia utiliza cores claras, favorecendo as projeções, assim como o figurino criado por Luiz Santana.
Da mesma maneira que a equipe criadora, o público entrará em contato com as coisas que o olho diz ao cérebro, mergulhando numa esfera inebriada por as ilusões, ao mesmo tempo capaz de questionar a relação do ser humano contemporâneo com as imagens que incidem em seu cotidiano.
O espetáculo foi um dos três contemplados na mais alta categoria do Prêmio FUNARTE-PETROBRAS de Fomento à Dança.
A Cia..
Viladança conta com apoio do Fundo de Cultura da Bahia.
Número de frases: 40
Não sou produtor cultural.
Nunca escrevi um projeto, não fazia idéia até pouco sobre como funciona um programa de patrocínio.
Decidi então começar uma pesquisa localmente.
A prefeitura da cidade onde moro, Recife, tem o Sistema de Incentivo a Cultura (SIC), que aprova projetos em várias áreas diferentes.
De todas, concentrei meus olhares nos de música, por afinidade e por a quantidade de projetos.
Em o ano passado, a Secretaria de Cultura da Prefeitura da Cidade do Recife distribuiu, através do Sistema de Incentivo a Cultura (SIC), um total de R$ 329.947,48 entre 11 projetos ligados à área de música.
Fui conferir cada um dos projetos aprovados na edição anterior e eram quase todos para a gravação de CDs, com exceção do festival de música clássica Virtuosi.
Em o SIC, música não é apenas a área com o maior número de projetos aprovados, como é também a que tem os maiores valores.
Seguido de teatro, que em 2006 aprovou dez projetos.
Em o total, todos os aprovados somaram R$ 1,200,000 (um milhão e duzentos mil), que equivale a 1 % da arrecadação do município.
Parcela que ainda é considerado pouca para a maioria dos produtores, que defendem um recorte maior dessa arrecadação.
Isso não significa que, se aprovado, o projeto leva esse dinheiro.
O que ele ganha é o direito de dar a uma empresa -- um mecenas -- a isenção fiscal para que esse dinheiro seja revertido diretamente em cultura.
Alguns conseguem captar o que pedem, outros conseguem mais.
Uma parte considerável também não consegue, o que tem levado a secretaria em repensar essa lógica.
«Esse dinheiro viraria imposto arrecadado de toda forma, então talvez encaminharmos ele direto, a secretaria consiga garantir que os produtores possam fazer seus projetos», ponderou o secretário de cultura do Recife, João Roberto Peixe.
Para ter uma idéia de quanto representa este valor de R$ 329,947,48, consultei o técnico de som Leonardo Domingues, do estúdio Mr. Mouse.
Segundo ele, um disco com média de 12 faixas, gravado e mixado em estúdio, com uma prensagem de mil cópias, tem custo médio hoje de R$ 20 mil.
O que significa que com o valor total distribuído entre os projetos de música poderiam ter sido gravados, por exemplo, cerca de 17 CDs.
Para o SIC, custos de lançamentos devem ser suprimidos, o projeto tem que ter a cultura como um fim e também uma contrapartida social.
Então esse dinheiro é única e exclusivamente para o CD.
Os 11 projetos observados têm diferenças entre os valores específicos.
Os horários de gravação, por exemplo, estão custeadas entre R$ 40 e R$ 80, sendo o último valor cobrado por menos que quatro estúdios da cidade.
Os mais requisitados por os artistas que aprovam no SIC, o Fábrica e Mr. Mouse, têm valor tabelado respectivamente de R$ 70 e R$ 60, sendo sempre negociado de acordo com o cliente.
Os projetos apresentam também valores diferentes para a prensagem dos CDs, serviço que só é oferecido por duas empresas, ambas cobrando o mesmo valor de R$ 4.
Segundo as regras de pontuação do SIC, esses detalhes técnicos tem peso 1 na decisão da aprovação do projeto.
Para o secretário de cultura da cidade, «João Roberto Peixe,» não se pode padronizar todas as áreas, cultura é algo que tem uma flexibilidade muito grande, então não teríamos como ter todos os discos ou obras de arte feitas com o mesmo valor».
A garantia que a Prefeitura pode dar é estabelecer um limite de R$ 50 mil por projeto.
«Um projeto diferenciado requer um custo diferenciado por ser tecnicamente diferente, não temos como estabelecer critérios para isso», explica.
Apesar disso, existem subjetividades relevantes entre os projetos aprovados.
Enquanto o disco «Coque: Arrebentando Muros Invisíveis» pediu R$ 24.084,91 para um projeto que incluía ensaio, transporte e gravação de oito bandas diferentes, o disco «Maestro Ademir Araújo -- O Mestre da Banda» conseguiu quase o dobro, R$ 49.999,09 (havia pedido R$ 71,590,79).
Sem especificar transportes ou horas de ensaio, a única diferença entre os dois projetos é que o segundo previa o pagamento de direitos autorais no valor total de R$ 3 mil.
Observando os projetos concluídos, foi percebido que existe também um acumulo das funções propostas.
Muitas vezes o próprio músico é o projetista, captador de recursos e, principalmente, produtor musical e executivo do projeto do disco.
Situação que é comum na cadeia produtiva da música independente, quando as funções existentes no modelo de uma grande gravadora são suprimidas.
Em o Sic, juntas, essas funções somam cerca de R$ 10 mil em quase todos os projetos.
Uma outra subjetividade delicada diz respeito à contrapartida social proposta por os projetos.
Em quase todos os projetos referentes à gravação de disco, é oferecido a doação de uma parte da prensagem.
O grupo Sá Grama, por exemplo, destinou 150 cópias, de uma prensagem de 3 mil CDs, ao Instituto Social à Criança, presidido por a dama (sic) do Recife.
Já o CD «Onde o Amor foi Demais», que aprovou um valor de R$ 48.232, ofereceu a contrapartida na forma de» gerar empregos diretos e indiretos ...
porque a gravação vai ser feita em nossa cidade».
Levei a questão ao sociólogo, compositor -- já teve músicas gravadas por o ótimo Gonzaga Leal -- e professor da pós-gradua ção em sociologia da «Universidade Federal de Pernambuco Paulo Marcondes,» a contrapartida é válida, porque o CD é o material que o artista dispõe e, apesar de ser um produto estético, é também de mercado».
Marcondes fez questão de frisar que precisaria de uma reflexão maior sobre o assunto, mas atentou ao fato do pouco valor que um CD tem hoje, devido à crescente queda de vendas.
Em primeira instância, entretanto, ele opina que «seria mais válido que fossem determinados um número de shows pagos, gratuito para o músico que estaria abrindo mão de seu cachê, com a renda dos ingressos revertida para essas instituições porque hoje em dia o artista fatura verdadeiramente com o show e não com o disco».
Algumas contrapartidas interessantes que surgiram nos projetos diziam respeito a um trabalho aproximado à auto-estima de um bairro.
De novo, o CD do Coque (uma favela do Recife) chamou atenção, já que se destinaria a trabalhar a música sob uma nova abordagem.
Dizia assim:
«queremos tirar o bairro dos cadernos de política dos jornais e colocar nos de cultura».
Número de frases: 48
E nas suas cidades, como funciona esse processo de incentivo a cultura? '
Sementes da Revolta ' foi publicado como prêmio num concurso editorial.
O poeta Pedro Vianna lançou, no Colégio Ipiranga, o livro Sementes da Revolta, publicado como premiação do concurso de poesia promovido por a Fundação Ipiranga, no qual ele tirou o primeiro lugar.
Sobre o livro, o reconhecido poeta Antônio Moura escreveu:
' Em seu segundo livro, o poeta Pedro Vianna retoma, ou seria melhor dizer, prossegue num itinerário em que o espaço urbano é o espaço para a apreensão do fenômeno.
E aqui o fenômeno é o poema, que se manifesta ainda de maneira amorfa nos eventos e transforma-se em verbo.
E como uma metáfora ou duplo do espaço e tempo, aqui, urbano, o poema assinala a fragmentação como elemento determinante em sua configuração.
Desde a sua grafia, o poema tem, paradoxalmente, no fragmento a sua unidade:
a fragmentação visual, através do olhar que depara com o espacejamento fraturado do texto;
a fragmentação rítmica, que compõe um sonoridade em staccato ao longo de toda a leitura e, por último -- mas não menos importante na totalidade do poema -- a fragmentação psíquica a que o sujeito, tanto no interior da cidade quanto no interior do poema, está exposto.
Fragmentos de luz, de sombra, fragmentos do desejo, da repulsa, fragmentos do corpo, da mente, armando e desarmando jogos de montar e desmontar a memória, a infância, o cotidiano, a história, o mito, o silêncio e a palavra.
Este é um espaço onde a poética se desenrola através da acumulação de sentidos, numa voz lírica impessoal e indeterminada, num lugar onde ' Nem / a áspera língua do poeta /estendida/no/ chão / vazado das palafitas / como / cadáver das marés /anoitecidas/em/ círios / de embriaguez exaltada / traz algum / resquício de conforto / para a / triste / & / promíscua procissão / de almas / em convulsa monotonia.
Cenário onde a miséria social e a miséria anímica se fundem num pesadelo onde nada acena com um possível conforto.
Já havia assinalado em relação ao seu primeiro livro, Itinerário Interno, que, apesar de centralizado num eu lírico, o verdadeiro personagem do texto era o caminho, de fora para dentro, percorrido por um olhar transfigurador, que, a meu ver, é inerente a arte e a poesia.
Em este trabalho presente o itinerário interno continua, só que numa tensão ainda maior em que ' um movimento denso /construindo/cicatrizes/na arquitetura imaginária /do/tempo/perdido/amortece/os nervos / da cidade metálica /alimentando/a fúria dos barcos / entre aromas / & /carnificina/onde/a morte foi seqüestrada / por os espelhos / da / infância.
Uma fratura permanente na paisagem, nos objetos, no sujeito e na temporalidade que engloba a memória da infância lançada para o presente com todo o peso das coisas existentes, num ' horizonte encarcerado ', quase sempre provocante e hostil.
Número de frases: 16
Por estas bandas já passaram " Cacá Diegues (" Deus é Brasileiro "), Tisuka Yamasaki (" Gaijin II "), Geraldo Moraes (" Em o Coração dos Deuses "), que aproveitaram as belezas naturais para as locações de seus filmes.
Já a produção audiovisual genuinamente tocantinense ainda é uma criança, com alguns videoastas correndo atrás de parcos recursos para suas produções caseiras e poucos privilegiados, que conseguem bancar seus projetos com programas de apoio específicos, como é o caso do DOCTV.
Pois é chegada a hora de festejar o primeiro filme de ficção tocantinense.
«O Barulho da Noite», de Eva Pereira, já está na fase de pré-produ ção e tem lançamento previsto para o início de 2008.
A autora desta façanha tem apenas 30 anos, nasceu em Miracema, distante cerca de 80 km de Palmas, e tornou-se conhecida por produzir, roteirizar e dirigir vídeos institucionais, coordenar o projeto «Cinema BR em Movimento» no Estado, e por ser a idealizadora e coordenadora do «Cinema Paralelo».
Conheço Eva há muito tempo, e sei que revelar o Tocantins através deste filme é um desejo alimentado há três anos.
A o longo deste tempo, reescreveu várias vezes a saga da garota Maria Luiza, que vê seu mundo desabar com a chegada de um estranho ao sítio do pai.
Sim, é um drama, sem possibilidade de «final feliz».
Ao contrário dos filmes já citados, a proposta não é conquistar o público com belas tomadas no Jalapão ou outros pontos turísticos do Estado, mas mostrar a densidade psicológica dos personagens.
Afinal, o que faz uma mulher arriscar sua família por um desejo carnal, sem se preocupar com a filha mais velha, que acompanha a proximidade da tragédia com seu olhar assustado?
É uma das reflexões propostas por a autora.
Quem já leu o roteiro sabe que há cenas de traição e abuso sexual recorrentes no Cinema, mas há fortes componentes que o aproximam da realidade tocantinense e poderão cativar o público.
Alguns cineastas veteranos já se renderam ao projeto da iniciante.
«Cinema não é um ofício, mas uma paixão», escreveu Luiz Rosemberg Filho, em carta enviada a Eva logo após conhecê-la, no Rio de Janeiro.
«É um filme em que o universo da mulher é para ser pensado», disse sobre o roteiro.
A oportunidade de apresentar seu projeto a Rosemberg (" Crônica de um industrial "), José Joffily (" Quem matou Pixote?"),
o crítico de cinema Marcelo Ikeda, entre outros, deu a Eva a real dimensão do filme, que foi concebido para ser um curta-metragem, ganhou fôlego e será finalizado com cerca de 90 minutos.
Outro seduzido por a história e por a oportunidade de desenvolver um projeto inédito no Tocantins é o diretor de fotografia Willian Gavião -- que possui em seu currículo a direção de fotografia da minissérie «A Casa das Sete Mulheres (Globo, 2003)», da novela» América (Globo, 2005) «e participação no filme» Segurança Nacional (2006)», de Roberto Carninati.
Semana passada, ele esteve no Tocantins pela primeira vez, seduzido por o roteiro e por a persistência de Eva.
«Isso me faz acreditar muito no projeto e ter uma postura que não é só a da execução da direção de fotografia.
Também vim para somar e para contribuir no que eu puder ser útil para fazer com que ' O Barulho da Noite ' seja um sucesso», explicou.
Ao lado de Eva Pereira e dois produtores do filme, Luiz Melchiades e Luiz Carlos Teixeira, Gavião visitou possíveis locações, além de acompanhar a passagem de foliões do Divino Espírito Santo, do município de Monte do Carmo, por Taquaralto, na periferia de Palmas.
«Quando fomos visitar as locações em Lajeado parecia que o que eu tinha lido no roteiro estava ali, na minha frente.
Fiquei bastante impressionado com essas coincidências entre o que está no roteiro e o que temos a disposição na vida real», revela o diretor de fotografia, sobre a localidade distante 53 km da Capital.
Eva Pereira corre contra o tempo, pois o cronograma do projeto prevê as filmagens para o mês de setembro.
Até maio, a equipe estará completamente definida, incluindo diretor e atores.
Serão 50 empregos diretos e 100 indiretos, numa relação de cooperação com profissionais do audiovisual do Rio de Janeiro e do Tocantins.
Entre os atores, estão cotadas participações de nomes conhecidos nacionalmente, mas a idéia é, também, apresentar revelações tocantinenses, como a garota Ravelli Mamedes, de Miracema, que fez as fotos para o material publicitário do filme e poderá ganhar o papel de Maria Luiza.
Orçado em «R$ 2 milhões, O Barulho da Noite» está inscrito na Agência Nacional de Cinema (Ancine), já conquistou o interesse de duas empresas de grande porte e conhecidas por patrocinar produções audiovisuais, e ainda busca recursos no próprio Estado do Tocantins.
Já a empresa proponente do filme, a Virtual Produções, possui em seu histórico a realização de dois documentários contemplados por o programa " DOCTV:
«Cadê Profiro», (2004), do de Hélio Brito, e «Tocantins -- Rio Afogado», (2005), de João Luiz e Hélio Brito.
E a utilização de equipamento digital de ponta, com transfer para película, além de indicar a qualidade técnica do projeto, ainda facilitará a qualificação dos profissionais envolvidos na realização do filme.
Número de frases: 32
A primeira vez que vi uma performance do Montage por a internet, eles ainda eram uma banda praticamente desconhecida no cenário musical brasileiro.
De lá para cá, os caras apareceram em festivais de todos os naipes e mostraram que o mundo underground anda fervilhando, ao contrário do universo modorrento das grandes gravadoras.
Seguindo a trilha de artistas como CSS e Bonde do Rolê, é provável que o duo de origem cearense estoure primeiro no exterior, onde o negócio da música está encontrando melhores saídas para a questão da pirataria e do compartilhamento, para depois voltar ao Brasil como banda «internacional».
Daniel Peixoto, que forma o duo com Leco Jucá, deu uma entrevista por e-mail sobre o primeiro álbum I Trust My Dealer, androginia, internet e muito mais.
Mas, antes, abra o myspace da banda como trilha sonora:
Roberto Maxwell:
Primeiramente, conta como a cena de Fortaleza -- uma cidade meio fora do que é convencionado como circuito de novidades musicais -- teve (ou não) influência no surgimento de uma banda como o Montage?
Daniel Peixoto:
A influência da cidade veio na necessidade urgente que nós tínhamos de produzir algo diferente do que se faz normalmente ...
Eu reclamava da falta de opções culturais na cidade e tinha que tomar uma atitude e parar de reclamar.
Dai nasceu o Montage, da vontade de ser novo.
RM:
Sem querer entrar nessa idéia de rótulos, mas que tipo de som o Montage faz, na sua opinião?
DP:
Somos uma banda de música eletrônica e trabalhamos dentro disso todas as possibilidades sonoras que cabem.
Vamos do trip hop ao breakbeat.
Mas, como a guitarra é uma constante não nos incomoda dizer que somos uma banda de electro rock, com atitute punk ...
RM:
A imagem para o Montage é tão importante quanto o som, nas performances.
Quais são as influências sonoras e de imagem de vocês?
DP:
Adoramos The Cure, Sex Pistols, Slayer, Daft Punk, Marilyn Manson, Iggy Pop, Chemical Brothers, mas também coisas mais antigas, como jazz e blues ...
Nossas referências visuais são, também, uma salada.
Misturamos punk, skate, glam com o universo de Tim Burton e outras refêrencias do mundo pop.
Adoramos Pop Art, cinema, macumba ...
Nossas referências saem do campo musical.
RM:
Que importância teve a internet para o atual momento vivido por o Montage?
Muda a relação da banda com os fãs a partir do momento que vocês assinaram com um selo?
As músicas, antes distribuidas por download gratuito, vão sumir da net?
DP:
I mportância total.
Somos uma cria da internet e temos uma relação de cumplicidade com ela.
Talvez, por isso, tenhamos sido a banda convidada por o Second Life para lançar o simulador num show.
Fomos a primeira banda da América Latina a se apresentar virtualmente por lá.
Quanto às nossas músicas, elas continuaram disponíveis oficialmente para baixar, faz parte do nosso plano de dominação do mundo (risos).
RM:
O Montage tem se expandido para uma carreira internacional.
É possível que vocês integrem o grupo formado por o CSS ou Bonde do Rolê, que têm mais repercussão fora do que dentro do Brasil?
Aliás, você concorda com a minha avaliação de que essas bandas -- e, possivelmente, no futuro, o Montage -- são mais valorizadas fora do que dentro do Brasil?
Em caso afirmativo, por que você acha que isso ocorre?
DP:
Pois é ...
O Montage já conseguiu algo muito bacana nesse caminho, porque não precisamos ter o aval gringo para sermos aceitos no nosso próprio país, como rolou injustamente com o CSS, por exemplo ...
Seguimos nossa onda sem nos espelharmos no sucesso de outras bandas.
Essas duas bandas tiveram a grande sorte de contar com nomes grandes por trás, um apadrinhamento digamos.
Isso facilita.
Em o nosso caso, tudo é diferente porque funciona de uma maneira indepedente, nós mesmo somos os nomes por trás de tudo que fazemos.
RM:
Conta do novo álbum e do projeto de disco coletivo que vocês estão envolvidos.
Aliás, qual o sentido do lançamento de um disco físico na carreira do Montage, que é uma banda que já tem um repertório que está se consolidando?
DP:
Estamos dentro de uma compilação chamada Neofunk, que será lançado por a Som Livre, uma gravadora de peso aqui no Brasi.
Esse álbum será trabalhando também aí no Japão e conta com uma leva de artistas que são capazes de apresentar um outro país, além do samba ou bossa nova ...
O disco que estamos lançando é o primeiro completo depois de dois EPs ja trabalhados em 2005 e 2006.
Ele vem apenas como cartão de visitas, já que nossas músicas sempre circularam livremente por a rede.
Ele se chama I Trust My Dealer e conta com 13 faixas, metade de elas já estão por toda parte em alta qualidade para baixar.
RM:
Quais as propostas da banda para a divulgação do novo álbum dentro e fora do Brasil?
DP:
Começaremos por uma tour na Europa que contará com a visita e shows em sete países.
Depois, vamos contar com o trabalho do nosso selo brasileiro e aliar aos contatos feitos nessas viagens ...
E, claro, continuaremos promovendo e vendendo o disco por a internet.
RM:
A questão da sexualidade está muito presente quando se fala de Montage.
Você é um cara andrógino e de uma beleza que atrai homens e mulheres.
Como isso influência a sua visão de música e de artista?
Essa androginia, de algum modo, é parte da fórmula de sucesso do Montage?
Não me lembro de outra referência na música brasileira, a não ser o Secos & Molhados, mas a androginia «pega» no pop brasileiro?
DP:
Tem pegado, justamente por esse fator de nunca, desde Ney Matogrosso, algum artista se expor dessa maneira, provocando através desses elementos ambíguos.
Mas, isso se limita ao meu visual, uma vez que nossas músicas ou performances não exaltam uma opção sexual, por exemplo.
Falamos de sexo e pronto.
Prefiro deixar as pessoas pensarem e sentirem o que quiserem, o que conseguirem.
Nosso show tem esse fator sensorial muito forte, parece que estamos em transe ...
Número de frases: 75
Publicado originalmente em Alternativa Em a minha ignorância imaginava que a Literatura de Cordel fosse uma produção exclusiva de uma determinada região nordestina.
O mais distante de lá que vi esses livrinhos em impressão tipográfica e geralmente com capas reproduzindo xilogravuras foi, aqui no Rio, na Feira de São Cristóvão, o grande ponto de encontro dos nordestinos na metrópole sudestina.
Todos eles eram impressos lá por cima, Paraíba, Pernambuco, Ceará.
Mas nos últimos anos comecei a me interessar por o assunto e verifiquei, primeiro que o espaço geográfico original do cordel era bem mais amplo, pelo menos desde a Bahia até o Maranhão, e depois que existia uma produção fora do eixo nordeste (cujos exemplos mais recentes são o cantor e compositor Chico Salles, paraibano residindo no Rio e o xilogravurista Ciro, também paraibano e também morador daqui).
Jeová Franklin, um dos maiores pesquisadores e colecionadores brasileiros do assunto, além de cordelista (como se chamam os poetas do cordel), radicado em Brasília e que por coincidência conheci recentemente quando ele veio ao Encontro Nacional de Pesquisadores de Literatura de Cordel, acontecido aqui no Rio, na Casa de Rui Barbosa, diz que a xilogravura popular no cordel, está fazendo 100 anos (está lançando um livro sobre isso).
É lógico que o próprio livrinho de cordel deve ser um pouco mais velhinho:
Segundo Câmara Cascudo os primeiros foram editados em Pernambuco em 1873.
Não seria surpresa, portanto, que eles pudessem ter se expandido por o país.
Aqui mesmo no Rio de Janeiro existe a ABLC -- Academia Brasileira de Literatura de Cordel, mantida heroicamente por seu diretor Gonçalo Ferreira da Silva, com sede em Santa Teresa.
Esse intróito todo é para dizer que encontrei em Massambará, distrito rural de Vassouras, RJ, uma série de livrinhos de cordel, produzidos por os alunos da Escola Municipal Abel Machado, contando a história do local através da poesia.
Os livrinhos são a ponta visível de um projeto muito bonito desenvolvido por a professora e atual diretora da Escola de Andrade Pinto (outro distrito de Vassouras) Jussara Pereira de Almeida.
Jussara nasceu na cidade mineira de Águas Vermelhas, na Zona da Mata, quase na divisa com a Bahia onde a presença dos cantadores era uma tradição.
Seu avô tinha o hábito de escrever e recitar alguns versos no formato tradicional das sextilhas.
Professora de Língua Portuguesa, sempre gostou do tema e um dia começou a falar sobre o assunto em sala de aula e encantou os seus alunos de 5ª a 8ª séries.
O assunto acabou rendendo um papo sobre as diferenças regionais e gerou um incentivo em saber mais sobre a própria localidade de Massambará, o local onde viviam.
Os alunos iniciaram então um projeto de reconhecimento da comunidade, começando a percorrer a vizinhança, rompendo desconfianças e tomando depoimentos e ouvindo histórias dos moradores.
Alguns de eles vinham até a sala de aula para prestar seus depoimentos.
A o final dessa parte do projeto o registro desse material acabou adotando a forma dos livrinhos de cordel.
Logicamente o formato em sextilhas se mostrou muito difícil para os alunos que adotaram as quadrinhas, versinhos simples de produzir.
O projeto demorou perto de um ano letivo para a tomada dos depoimentos e organização do material mas no ano seguinte a Secretaria de Educação fez questão de imprimir as publicações.
Eis uma amostra de um dos folhetos, escrita por Michelle, Marcia e Rosilaine, alunas da escola:
Saúde em primeiro lugar
Massambará não tinha posto
Para o povo era um sufoco
Quem quisesse ia para outro lugar
Ainda bem que tinha a D. Aninha
Parteira que muitas vidas pode salvar
D. Aninha para quem conheceu,
Sabe que era uma grande criatura,
Por tantas maravilhas que fez,
Ajudando no nascimento
De os filhos de Massambará,
Que também são seus
Jussara realizou trabalho semelhante na Jardim Escola Peter Pan de Vassouras em conjunto com alunos e o orientador Leonardo Santos Corrêa e produziram o cordel Einstein, o cabeça do mundo, que foi premiado na feira de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Rio.
A Literatura popular como ferramenta auxiliar na Educação parece ter se desenvolvido muito nos últimos anos.
Uma editora do Ceará, a Tupynanquim, lançou recentemente o segundo volume de uma coleção com 12 folhetos, a Coleção Cancão de Fogo -- Literatura de Cordel na Sala de Aula, além de um livro Acorda Cordel na Sala de Aula de Arievaldo Viana Lima.
Um outro entusiasta do Cordel no município de Vassouras é o professor universitário na Universidade Severino Sombra, Simão Pedro dos Santos, formado por a UFRJ com tese sobre Cultura popular.
Com o nome artístico de Pedro Pernambuco ele escreve também cordéis e realiza oficinas de literatura com seus alunos utilizando o cordel como material de trabalho.
Pedro Pernambuco tem um programa de 2 horas de duração na Rádio Comunitária Interativa FM 98, 7 Mhz de Vassouras e reserva uma espaço para recitar poemas de cordel no programa.
A literatura de cordel e o seu formato em livrinhos pode ser uma grande ferramenta para divulgação da poesia, mas também para servir para a garotada se aproximar da literatura e do mundo editorial por conta da relativa facilidade de produzir e imprimir com suas próprias mãos o seu próprio material.
Quem souber de outras iniciativas educativas semelhantes em outra cidades do Brasil, por favor comente aqui neste post, ou colabore com novas matérias.
E me despeço com o que dois alunos de Massambará, Paola da Silva e Anderson T. da Silva, escreveram, há 7 anos atrás, na última quadrinha de seu folheto:
Mas muitas coisas aprendemos,
Mas muito ainda há para descobrir
Quem sabe um dia saberemos
Toda história do povo daqui ...
Número de frases: 46
«Não ter festa dás impressão que o mundo ficou sério "
Querem saber como foi o show do teatro Mágico aqui no Rio de Janeiro (13/04/07)???
Então leiam o depoimento abaixo:
O que dizer desse fim de semana com show do Teatro Mágico no Rio de Janeiro?
Se tem uma palavra com a qual eu posso resumir a experiênia única, essa palavra é:
«Raro» Não sei nem Como contar, mas vou tentar ...
E eu que passei a sexta feira inteira pilhada pra chegar logo a hora do show, mal sabia o que me esperava
Alias, sabia muito bem o que me esperava, só não acreditava que eu realmente estaria lá!
Só acreditei que eu estava lá quando cheguei!
De cara, ao entrar, vou direto pra ' Lojinha ' e garanto de uma vez só meu cd, dvd e camisa!
o/ Depois puxo Isac e Elton lá para a frente do palco, porque eu que não seria besta de ficar longe do melhor da festa!
Eu, de nariz vermelho e Isac com anteninhas de E.T.
Algum tempo de música e a espera de mêses vira espera de minutos.
Enquanto os meninos ficaram no chão, descolei um lugar ótimo, em cima de um banco -- ótima vista para fotos [heh]
Olho para trás, e o Odisséia [no mínimo] com lotação máxima!
Uma multidão de nariz vermelho, penteados engraçados, cartazes, caras pintadas ...
Um calor que Deus me livre!
A música para e começa a introdução de Sintaxe á Vontade [começo a gritar]
Um a um, os integrantes da trupe vão subindo ao palco, brincando e interagindo com o público
Então, ouço a voz do " Fernando Anitelli:
Sem horas e Sem dores ..." Aí então eu acreditei que estava lá mesmo!
«Vai, vai começar a brincadeira!"
A multidão grita, pula, canta todas as músicas e repete, palavra por palavra os textos junto com Fernando
Sob os olhos atônitos do Isac e do Elton!
«Caraca, todo mundo sabe todas as letras e os textos?"
E eu só ria, não tinha espaço para a outra coisa no meu rosto que não fosse sorriso!
Eu cantava, gritava, chorava e só ria!
As lindas bonecas Gabi e Lígia transitando o tempo todo entre o público, brincando com bolinhas de sabão, interagindo com as pessoas, fazendo chuva de papel com recados do Teatro Mágico!
Eu adorei aquele número com bandeiras e fitas ...
sensacional!
Peguei um papelzinho escrito:
«Será que a sorte virá num realejo?" --
Se virá eu não sei, mas já me considero sortuda demais em ter estado lá e compartilhado tantas coisas boas com essas pessoas raras!
E lembram das anteninhas de E.T. do Isac?
Foram parar com a Gabi, que catou as anteninhas da cabeça de ele -- hahahahaha
Fernando fez da garrafa de água uma grande amiga sua!
Em uma pausa ele pergunta:
Faz sempre esse calor aqui?
Tadinhos dos paulistinhas, derretendo com o calor do RJ -- e olha que mês passado estava bem pior
De quebra, um improviso:
«Rio 40 graus, cidade maravilha purgatório da beleza e do caos "
Entre músicas, brincadeiras e malabares, o público fica bestificado quando a Gabi sobe no pano e faz seu número de acrobacias ao som de ' A Fé Solúvel '.
Nem falo nada do número do Rober com a Gabi com o trapézio!
Fernando contou que dessa vez, eles ficaram muito felizes porque conseguiram montar todos os equipamentos aéreos aqui no Odisséia, coisa que não foi possível da última vez que estiveram aqui!
É muito dificil pra mim, como fã, tentar ser imparcial na avaliação do show -- foi tudo perfeito!!!
Eu vou puxar sardinha mesmo, porque eu não tenho do que reclamar!
Se eu puder reclamar de alguma coisa, vai ser só da ausência de algumas músicas ... [=
D] " Que o teu afeto me afetou, é fato!
Agora faça-mo favor ..."
Não vou contar tudo, nem tudo que eles cantaram, nem tudo o que aconteceu!
Primeiro porque o post vai ficar imenso e segundo porque contar alguma coisa já está sendo difícil -- rsrsrsrs
Mesmo porque, isso é uma coisa só para raros!
E também, quando você convida alguém para assistir um espetáculo, não conta o final da festa!
Vocês precisam ir para entender!
«E amanheça brilhando mais forte "
Em o ápice do show, rola ' O Anjo mais velho ' e então Fernando agradece o público e sai do palco!
A multidão começa a gritar e de repente vira o grito:
Ana e o Mar, Ana e o Mar ...
Como eles não voltaram logo para o palco, todo mundo começa a cantar:
Veio de manhã molhar, os pés na primeira onda ...
Fernando volta para o palco rindo:
okay, okay!
E faz um belíssimo discurso sobre o cenário independente da música brasileira, sobre o monopólio das gravadoras e sobre arte em geral!
Sob inúmeros gritos e aplausos, todos voltam para o palco e re-começam a música!
«A minha alma não cabe num anúncio de refrigerante
O meu anúncio não cabe na embalagem de refrigerante ...
Nananão, pra mim não!"
Fernando brincou com o iluminador o tempo todo:
Hoje você quer que a gente emagraça cinco quilos cada um, né?
Todo mundo diz que a iluminação de palco esquenta muito, mas a gente só teve noção do quanto, quando ele pediu para ver o público e a iluminação veio na gente:
esquenta mesmo!
Quando você ler na internet que no Teatro Mágico não existe barreira entre quem faz e quem assiste, pode acreditar!
As meninas brincam com as pessoas o tempo todo, Fernando desce no meio do público pra cantar por a segunda fez «Tudo é uma coisa só» e tudo vira uma grande festa!
«Acredito que errado é aquele, que fala correto e não vive o que diz "
Fim de show e Fernando avisa no palco que quem quiser falar com eles depois, eles voltarão ' suados, fedidos e molhados de xixi ' [rsss] pra falar com todo mundo que quiser!
Bobagem né?
Óbvio que eu esperei!
O engraçado de você ter esse contato pessoal com um artista, é que você tem dois caminhos:
Ou você passa a admirar dez vezes mais ou você fica com raiva do artista!
Eu por exemplo, nos shows que eu vou, [se tem a possibilidade] sempre espero pra ir no camarim e algumas vezes saí de shows achando o artista a antipatia em pessoa!
Mas não nesse caso!
Todos foram de extrema simpatia, mostrando que o que vemos no palco não é um personagem!
Brinco com o calor do Rj e Fernando diz que volta mais magro pra SP e ainda saio com a promessa de ele de que teremos mais Tm no RJ! [
o/] Infelizmente, não pude ficar mais no Odisséia, porque o Elton tinha que trabalhar no dia seguinte e faltou falar com algumas pessoas.
Saímos de lá depois das três da manhã e ás quatro já estávamos em casa!
Em o sábado, Isac não me deixou sair da casa de ele sem assistir ao meu DVD [:
D] E eu deixo aqui registrado, esse dia, como sendo um dia raro!
Sinto pena dos ' não raros ' que deram pra trás e não foram no show!
É um desses dias que jamais se repetirão!
E os paulistas que me aguardem, porque se a trupe demorar muito para voltar ao RJ, eu vou fugir pra SP!!!
Próximos Shows:
21/04/2007 -- OSASCO
29/04/07 -- São Caetano do Sul -- SP
05/05/07 -- Virada Cultural -- ANHANGABAÚ SP
12/05/07 -- Bragança -- SPlu
20/05/07 -- Recife
Detalhes: http://www.oteatromagico.mus.br
«Só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você ..."
Número de frases: 98
Ps: Se você não percebeu, tem link s espalhados por todo o post, principalmente de downloads [;)]
A primeira pessoa que me mandar um SPAM de Feliz Natal via
Orkut vai ser excluída da minha lista de amigos.
MUAHAHAHA!
Junto com as festas de fim-de-ano vem a falta de assunto.
Tinha sido terceiro dia seguido que eu abria a caixa de texto aqui e não encontrava nada interessante pra dizer.
Eu ia falar sobre o Esqueceram de Mim que vai dar na Globo no dia 24, mas isso já é tão manjado que nem vale minhas
palavras. Que tal falar sobre as reportagens iguais que os jornais fazem em todos os natais??
Bem, não sei se vocês são que nem eu, mas eu não gosto de essa
época de Natal / Ano Novo.
Principalmente por a repetição de reportagens sobre shoppings lotados, crianças pobres felizes,
lojas com as prateleiras vazias, papais noéis que vão perder
o emprego.
Tudo isso faz eu gostar Menos do Natal.
Fora o fato de me botarem em 500 amigos secretos e eu nunca saber o que comprar muito menos o que eu quero ganhar.
Aliás, justamente por a falta de assunto eu resolvi dar
uma remexida nas minhas memórias e lembrar de certas coisas
que eu já quis falar mas não consegui (por questão de momento,
espaço, ou porque eu esqueço -- isso acontece muito).
Enfim, percebi que meu acervo não é tão pobre assim.
Dá Pra Me
Ajudar A Decidir O Que Expor Aqui da Próxima Vez????
Opções:
-- A Propaganda do Fisk (aquela patética do menino poliglota) --
Teoria sobre ' O que é impossível de fato e o que não é ' --
O cúmulo do pau-em o cuzismo (será revelado no texto) --
A análise do meu horóscopo (é um diferente do que sai no jornal, analisei-o) --
Rogério Ceni: Fraude.
-- Brasileiro gosta mais de ídolos (atletas) do que de esporte.
+ + Para que servem os dias de natal?
Para falar sobre:
I Campeonato MULLET (e convidados) De Copas
Em primeiro lugar, pra quem não sabe, Copas é aquele joguinho
de cartas que já vem com o Windows.
Para jogar, necessita-se
de 4 jogadores (eu e mais 3 do computador).
É possível
selecionar o nome dos 4 participantes de cada partida e,
cansada de jogar contra a minha família, criei o I Campeonato
Mullet de Copas.
As regras do jogo são:
cada carta de copas vale 1 ponto. Quem
pegar a dama de espada leva mais 13 pontos.
Há 26 pontos por
rodada. Se alguém for tão ruim a ponto de conseguir os 26
pontos, há a regra (injusta) desses 26 pontos passarem para cada um dos adversários.
O objetivo é fazer Menos pontos.
A partida acaba quando alguém chega a 100, e ganha quem tiver o menor número de pontos no momento.
As regras do campeonato são:
16 participantes.
Quatro partidas na Primeira Fase.
Os vencedores se encontram na grande final.
Os perdedores se encontram no horrendo Torneio
De a Morte, onde os 2 últimos caem para a Segunda Divisão.
Para subir para a primeira divisão é bem simples.
Basta me mandar
um e-mail com o título «Malu é minha mestre» e explicar em até 5 linhas porque você merece disputar a próxima edição do Campeonato Mullet de Copas.
-- x-Y
Resultados:
1ª Partida -- 1º Flávia, 71;
2º Thaís, 85;
3º Ores, 102;
4º Amanda, 105.
2ª Partida -- 1º Lucas, 32;
2º Caio, 50;
3º Paulo, 60;
4º Daniele, 118.
3ª Partida -- 1º Lima, 42;
2º Netto, 74;
3º Tequila, 91;
4º Martha, 105.
4ª Partida -- 1º Luiza, 38;
2º Malu, 47;
3º Mateus, 72;
4º Vini, 103.
* Conseqüência:
Flávia, Lucas, Lima e Luiza fazem a partida
final. Amanda, Daniele, Martha e Vini disputam a repescagem.
Torneio
De a Morte:
1º Martha, 50;
2º Daniele, 76;
3º Vini,
104; 4º Amanda, 108.
* Conseqüência:
Vini e Amanda estão Fora da de o II Campeonato.
Se fuderam.
Final:
1º Lima, 33;
2º Flávia, 69;
3º Lucas, 80;
4º Luiza,
104.
* Conseqüência:
Lima é o campeão de I Campeonato MULLET De
Copas.
Número de frases: 96
Parabéns, cara -- embora tu nunca vá ficar sabendo, pois não lê isso aqui.
Ecletismo tanto de atrações, quanto de opiniões e de público.
Este é um retrato que pode se fazer do Abril Para o Rock em 2006, quando sua última noite pôde sintetizar o que realmente aconteceu em sua 14ª edição.
Nem tão decepcionante quanto a primeira noite, nem tão eufórica quanto a segunda.
Os bons e maus momentos proporcionados em mais uma edição do Abril Para o Rock já eram, sim, esperados.
Mas o que mais se espera de um festival como o Abril Para o rock hoje em dia, uma vez que já vimos suas fórmulas serem usadas e reutilizadas à vontade?
O público vai para o pavilhão do Centro de Convenções e já sabe que vai enfrentar uma maratona que começa quase no início da noite e que se estende até a madrugada.
Poucos agüentam e, mesmo sendo uma atração bastante aguardada, todos ponderam em resistir ao cansaço físico e auditivo, uma vez que se passa bastante tempo em pé, dançando, pogando e pulando num show que é numa véspera de segunda-feira.
Por isso, é totalmente compreensível ver que as bandas que se deram bem foram aquelas do meio da programação, se beneficiando por a maior quantidade de pessoas e por as tentativas de acertos do som.
Quem saiu perdendo nesse sentido foi Catatau e o Cidadão Instigado (foto).
Foram a segunda atração da noite.
O público ainda pequeno e em sua maioria pertencente àqueles que tinham madrugado para assistir ao emo-rock do Iupi.
Isso seria fácil de contornar, uma vez que o público que veio assistir ao show de ele sabia bem o horário que Catatau iria tocar.
O que ele não contava era com péssimas condições sonoras.
A acústica do Centro de Convenções sempre foi inimiga dos shows que passaram por lá.
O público sentiu isso quando não conseguia perceber em detalhes todos os minimalismos de guitarra, solos, teclados e efeitos que o Cidadão Instigado colocava.
Em um momento, ouvia-se mais o ruído de interferência dos equipamentos do que a guitarra de Catatau.
Problema que foi parcialmente resolvido depois do chute que ele deu em seu próprio case de pedais.
Mas o show não foi ruim assim.
Foram só por o aspecto técnico.
Porque por o lado musical, até quem não conhecia a banda adorou o som.
Chamavam «Os urubus só pensam em te comer» de blues-brega, «O pobre dos dentes de ouro» era um brega-rock, «O Pinto de Peitos» era uma música muito doida.
Todas definições aleatórias de um público que dançava conforme a música e não esbanjava palmas para reconhecer o talento deste cearense, cuja prova maior de seu bom show foi a boa venda de discos nos estandes espalhados por o pavilhão.
A noite do domingo reservou ainda mais exemplos como este.
De a dicotomia eclética entre o «conhecido» e o «desconhecido».
A banda Carfax, por exemplo, já havia conquistado um bom público na cidade e cujo fã-clube fazia questão de exibir suas camisas para mostrar que veio torcer por eles.
E, no show, fizeram questão de retribuir, mostrando esse «gosto antigo da novidade» que batiza seu disco com um pouco mais de peso nas músicas beirando o HC e o new-metal.
Logo em seguida, veio uma das atrações que foi uma das mais intrigantes do festival:
a francesa Camille, cujas únicas coisas que 90 % da platéia sabiam era que seu trabalho era original e que ela já foi vocalista do Nouvelle Vague.
Mas sem querer adivinhar o que se passa na cabeça das pessoas, deveria ser isso mesmo.
Sua música é bastante diversa, seguindo influências do jazz contemporâneo, pós-rock e música étnica oriental, fazendo com que leigos como eu só consigam lembrar de Björk, Mike Patton, John Zorn e Barbatuques.
Tanto teatral quanto musical, suas performances agitaram o público mais do que a música em si.
Estaria eu sendo maldoso?
Nem tanto.
Sua música não é «pop», não há refrões e quase ninguém estava ali acompanhando o que ela cantava.
Mas isso nunca foi empecilho para que alguém deixasse de curtir um bom show.
Pelo contrário, ela conseguia, apesar disso tudo, chamar a atenção dessa platéia e prendê-los até o final com a ajuda de seus dois companheiros no contrabaixo, acordeon e percussão corporal e samples de sua própria voz, que é incrível.
De gritos histéricos a palavras sussurradas, Camille soube como fazer o público gostar de sua música «desconhecida».
E se você acha que estou abusando do emprego dos termos «conhecido» e «desconhecido», pode aguardar porque eles ainda vão continuar aqui neste texto até o final para exemplificar o que pretendo dizer das demais atrações.
O Parafusa, que é bastante conhecida do público local também fez um ótimo show.
Impecável que ressalta o talento dos quatro rapazes.
Não há muito o que falar.
Quem já os viu ao vivo sabe disso.
Mas como a regra do domingo foi mesclar o conhecido com o novo, Lafayette & Os Tremendões veio para misturar um pouco as coisas.
Antes do show, muita gente ainda não sabia ou se perguntava quem danado era o Lafayette no nome da banda.
Famosos conhecidos de bandas ainda desconhecidas do grande público, que militam no circuito underground nacional, além do próprio tecladista Lafayette, coadjuvante e percebido apenas nas entrelinhas das fichas técnicas de discos.
No entanto, quando começa o show, no mesmo instante todos reconhecem o repertório e começam a cantar juntos as músicas do Rei Roberto Carlos.
O sucesso do revival de Roberto Carlos revela o quanto o Rei é querido por as gerações e quanto gostar de suas músicas é um fenômeno atemporal.
Em o primeiro solo de teclado e órgão do mestre Lafayette praticamente me arrepio ao ver aquele senhor, um dos ícones que definiu o som da Jovem Guarda, estar inteiro hoje em dia e numa posição de destaque no palco, sendo reverenciado por os jovens músicos da banda e por o grande público.
Estranho imaginar que este mesmo Lafayette estava anos atrás tocando em happy-hour de restaurantes e shopping-centers, ignorado por todos, tendo sido resgatado por o pessoal do Autoramas, Nervoso, Érika Martins e Canastra para tocar aqueles sucessos que ajudou a fazer.
Não era um especial de TV de Roberto Carlos, mas não faltaram participações especiais:
China, do Del Rey, banda que preparou o público recifense a ver o show dos Tremendões em Recife;
Rodrigo Amarante, do Los Hermanos / Orquestra Imperial, que muito emocionado ao ouvir o refrão de «O Portão», correu para abraçar e rever seus amigos no palco.
Impossível não se deixar levar por a emoção e por o som contagiante do rock jovem-guardista anos 2000.
Um dos melhores momentos foi quando Gabriel, do Autoramas, solta " vamos tocar agora a música que o Roberto Carlos não gosta mais de tocar ...
mas que o Lafayette gosta!».
Claro que ele falava de «Quero que vá tudo para o inferno», música banida do repertório atual do religioso Roberto Carlos.
E este show foi o ponto alto do Abril Para o Rock em termos musicais.
O que não deixa de ser inusitado para um festival ter como destaque numa das noites uma banda de covers.
Tal como aconteceu com o Rec Beat em 2005, quando quem não conhecia o Del Rey passou a conhecer e ajudar a consolidar sua fama e seu poder de atração das massas.
Mas ainda assim, em questão de público, é bem claro e evidente que as pessoas que estavam ali queriam ver uma grande atração, a maior da noite, com quem pudessem se esbaldar e cantar juntos.
Não, não foi a Orquestra Imperial.
Apesar do número de integrantes, fama e de seu repertório convidativo, a platéia essencialmente geração MTV queria ver mais do mesmo.
Ver aquilo que já consomem diariamente por a TV.
E a banda que mais se aproximou desses anseios foi o Cachorro Grande.
Em uma noite em que o conhecido e o desconhecido disputaram a atenção do público, a geração MTV aplaudiu entusiasmada mais um show do Cachorro Grande e ignorou sentando no chão o Maquinado, de Lúcio Maia.
Um projeto que, diga-se de passagem, é bem interessante em alguns momentos, mas que por a própria falta de apresentações ao vivo, poderia parecer mais uma grande jam-session em palco.
Momentos «viajados», guitarras, laptop e incursões dub psicodélicas e algo que chega no pós-rock também, por que não?!
Definitivamente um show para se assistir prestando atenção de verdade, como num teatro ou numa sala e não num palco de mais de dois metros de altura, onde o som e o público se dispersam e não dialogam.
E a maratona continua, restando ao Volver e Frank Jorge se unirem para derrotar o cansaço do público.
É de uma alegria imensa ver finalmente no Recife o grande Frank Jorge, cuja obra influenciou tantas bandas que aderiram a uma sonoridade sessentista e «gaúcha».
E ainda mais se tratando desta parceria com a Volver, banda que conhece quase decorada o repertório deste cara.
Foi outro momento ímpar do festival.
Chegando finalmente no final, encontramos um cenário bem de fim de festa.
O que mais, não é?!
Barracas sendo desmontadas, pessoas com cara de sono e ainda uma boa parte de resistentes que queriam ficar até o fim para dançar ao som da Orquestra Imperial.
Pois é, o que o energético misturado com Campari não conseguir, ninguém consegue.
Por incrível que pareça, por mais mercadológico e oportunista (assim como Fred 04 os definiu na Revista Coquetel Molotov) que seja uma proposta como a da Orquestra Imperial, eu gostei muito do show.
Eu já estava morto de cansado, não dancei nada, no máximo me mexia para não dormir por conta do cansaço, lógico, mas foi ótimo porque deu pra prestar mais atenção na música que estavam executando.
Li algumas críticas e estranhamente me surpreende o fato de que muitos não curtiram o repertório ou acharam algumas músicas desnecessárias.
Mas é aquilo mesmo.
É diversão, é farra.
É quase um carnaval fora de época.
Se esse show tivesse acontecido num lugar tipo o Clube Líbano e a cerveja fosse Bohemia, teria sido o melhor baile de carnaval que já fui.
Músicas divertidas, naipe de metais de primeira linha, sets de percussão, guitarras, belas vocalistas, cantores afinados e um repertório divertido onde rolou de «Maracatu Atômico» de Jorge Mautner a «Owner of a lonely» do Yes.
E foi muito bacana.
Sem querer comparar muito, mas acredito que a Orquestra Imperial deva ser o sonho de consumo de DJ Dolores para fazer com o Bloco Mega Hits tudo isso que eles já fazem.
Bem, foi isso.
Em 2006, o público, em sua maioria, pouco esteve em sintonia com as atrações do Abril Para o Rock.
E por isso é que podemos enxergar resenhas e opiniões tão diferentes de um mesmo evento e ver críticas que correspondem à opinião individual de cada um, até porque jornalistas que cobrem um evento estão ali também como sendo parte deste público.
Mas desde o anúncio da programação, todo mundo antevia o que aconteceria e todos eram unânimes em dizer:
«esse ano o evento vai dar menos gente».
E foi o que aconteceu.
Eventos como o Abril Para o Rock hoje em dia, apesar de sua grande importância, não representam mais o mesmo que há 14 anos, quando não havia espaço para bandas de rock tocarem no Recife.
Em o caso, o Abril Para o Rock inaugurou e forçou a cidade a também se abrir para o rock.
Hoje, a situação é diferente e, a cada final de semana, é possível encontrar bandas de rock tocando tanto em bares como ainda ao ar livre e o público ir selecionando melhor o que se quer ver, sabendo que existem diversos estilos e grupos que podem melhor lhe agradar ou não.
Ainda assim, mesmo formando fãs e cultivando uma cultura musical na cidade, o efeito agregador é diferente do que festivais nos proporcionam.
E quanto mais público, mais gente, mais a vontade de estar ali e comemorar vendo boas bandas.
Número de frases: 98
Seria apenas, no caso do Abril Para o Rock, não se deixar tornar vítima de si mesmo, uma vez que ele dependeu de grupos que sempre se alternaram em suas edições como Pitty, O Rappa e Los Hermanos para cumprir essa função de chamar muita gente e, conseqüentemente, trazer uma opção melhor para uma cidade ainda carente de shows interessantes.
O que tem em comum o diretor americano Quentin Tarantino e o italiano Sérgio Leone?
Em primeiro lugar, Sérgio Leone ainda hoje é fonte de inspiração para cineastas como Tarantino.
Em segundo lugar, sem nenhum dos dois imaginarem, eles são influência para o diretor roraimense Alex Pizano, que há pouco lançou o seu primeiro curta-metragem:
«Dívida Sangrenta».
«O curta conta a história da guerra das máfias guianenses e venezuelanas por o controle do contrabando de combustível e drogas na região.»,
diz Alex.
Com estilo faroeste moderno, o filme faz referência direta aos Western -- espaguete do diretor italiano Sérgio Leone e dos filmes do diretor americano " Quentin Tarantino.
«Um filme 100 % roraimense», como o próprio diretor disse.
Durante muito tempo nutriu uma ansiedade e curiosidade em saber como seria um filme lançado em Roraima.
«A minha paixão por cinema vem desde criança, sempre fui apaixonado por cinema como um todo mesmo, sempre foi o meu passatempo preferido, assistir a filme.
Eu era diferente de outras crianças que iam para a rua pra brincar.
Eu ficava assistindo a filme», diz " Alex Pizano.
Dívida Sangrenta " é o primeiro curta-metragem realizado em Roraima.
Uma produção de baixíssimo orçamento, mas com uma qualidade incrível.
O elenco do filme é formado por amigos de trabalho e com exceção de um ator, o restante do elenco é todo amador.
Nunca haviam feito nada parecido.
O que foi uma experiência interessante, pois até mesmo o diretor nunca estivera num set de filmagem de verdade.
Um filme que entrou para a história do estado, e que já tem garantido o seu destaque no cenário nacional.
Até então, alguns documentários já haviam sido realizados, mas nunca ninguém se aventurou a tirar do papel o projeto de realização de um filme de ficção.
Podemos dizer que Alex Pizano é precursor desta linguagem e a noite de estréia nos mostrou que ele veio pra ficar.
Alex Pizano é totalmente autodidata, sempre estudou muito sobre cinema, direção de cinema, diretores, sempre assistiu muito a making of de filmes.
«Quando eu vejo um filme eu analiso ele todo, tô ali assistindo, curtindo, mas tô analisando a parte estética do filme, presto muita atenção na trilha sonora, em tomadas, em efeitos, porque a parte técnica do filme me atrai muito também, e quando eu vejo uma tomada legal, eu sempre tomo nota pra ter uma referência depois.
As idéias não surgem do nada, tem que ter uma referência.»,
diz Alex.
Ele sempre leu muito livro sobre técnicas de filmagens, sobre cinemas, de como elaborar roteiro, e na sua pequena trajetória já fez de tudo um pouco, «igual a um diretor mexicano, Robert Rodriguez, diretor do» Sin City», e «A balada do pistoleiro».
Ele começou assim também.
Ele não foi atrás de nenhuma indústria, não foi puxar o saco de nenhuma indústria de cinema, tinha sua câmera e seu computador e filmava, editava, roteirizava, mas é claro que eu não pretendo ser assim, eu quero dirigir».
Em o seu próximo filme ele quer ter um especialista em fotografia, alguém para a edição, outro para a montagem, quer uma equipe completa, pois acredita que fazer cinema é um processo coletivo, não dá para fazer sozinho, ainda mais num estado sem recursos como Roraima.
Perguntei para o Alex como foi que surgiu a idéia do filme e ele foi rápido em me responder que levou anos até que realmente tivesse coragem de colocar ação nos seus planos.
«Eu sempre quis realizar um filme de faroeste, só que um faroeste moderno e então pensei, «a gente troca aqui os cavalos por os carros ...»,
concluiu, e assim saiu o filme «Dívida Sangrenta».
A história do filme que ele tinha na cabeça foi colocada no papel, não em forma de roteiro, mas em forma de história em quadrinho.
A própria história em quadrinho serviu como roteiro e como storyboard para conclusão do filme.
A duração do filme, de meia hora, consumiu um mês de filmagens em vários pontos da cidade.
«O filme é praticamente a custo zero, tive que usar muito da criatividade, como eu não tinha recursos financeiros pra realizar o filme, usei muito da criatividade mesmo.
O material usado para a filmagem foi apenas uma câmera mini dv, um computador que eu tenho lá em casa e um programa de edição que é o mais básico de todos, Windows Movie Maker.
De aí saiu o filme todo».
Os cinéfilos de plantão vão poder perceber a salada de gêneros a que o diretor faz referências.
E isso é um diferencial na sua produção.
É possível identificar tomadas semelhantes a filmes do gênero.
«O filme teve muita aceitação, por o fato de ser o primeiro filme feito aqui em Roraima, na verdade foi o primeiro passo e espero que sirva de motivação a outras pessoas, que realizem seus curtas, seus filmes, seus documentários.
A gente já tá com planos, de junto com a prefeitura realizar uma mostra de documentários regionais, quando inaugurar a nova sala de cinema aqui do SESC, cinema digital, esse estado vai estar voltado para as produções locais mesmo, pra fomentar mesmo a indústria», completa Alex.
Hoje, em Boa Vista, existe muita gente com roteiros prontos.
Só falta tirar do papel.
Ele disse ainda que " através da cúpula do RPG foi criado um grupo de roteiristas que se reúnem todos os fins de semana, e juntos elaboram roteiros pra curtas, longas, documentários, ficção, algumas empresas de publicidade já até se interessaram nos nossos roteiros, foi dado o primeiro passo."
Mas fazer cinema num estado onde a cultura é deixada de lado por o poder público realmente é muito difícil.
Em todo o estado de Roraima existe apenas uma sala de cinema, na capital, que exibe filmes do circuito comercial.
O SESC possui um auditório, que improvisadamente possibilita a população ter acesso a filmes, em sua maioria também do circuito comercial.
O Cine -- Br em parceria com o SESC exibiu uma diversidade de filmes nacionais e hoje o Projeto «A escola vai ao cinema» (também no SESC) tem ajudado na formação de platéia e divulgação do cinema nacional.
«Fazer cinema não é fácil, não é barato, tem que ter muita criatividade, investimento, patrocínio, porque o equipamento pra fazer filmagens é muito caro e aqui no estado praticamente nós não temos nada com relação a cinema», falta estrutura técnica mesmo», diz Alex.
Em 2004 foi realizada a capacitação do CINEDUC voltada a educadores e cineastas e este ano está prevista uma nova capacitação para roteiristas em linguagem cinematográfica, que será aberta ao público.
«É um começo e daqui para a frente, quem sabe, no futuro, possamos trazer diretores, cinegrafistas, diretores de fotografia pra contribuir com o desenvolvimento do cinema no estado.»,
diz Alex.
Alex Pizano, 27 anos, acadêmico de publicidade e propaganda, que como ele mesmo disse, «como não havia o curso de cinema, esse foi o mais próximo que eu pude chegar», dono da Produtora Al Produções e que, apesar de ser um estreante, já demonstra maturidade em seu discurso e capacidade na execução de seus projetos.
Ele sabe muito bem o que quer.
E o público presente na estréia o aplaudiu de pé, reconhecendo o talento e trabalho deste jovem diretor.
Ficha
Técnica:
Título:
«Dívida Sangrenta "
Direção: Alex Pizano
Produtor executivo:
Jean Carlos Farias
Número de frases: 64
Elenco: César Almeida, Miquéias Monteiro, Fábio Milhomem, Alice Cardoso, Naldo Manduh, Élcio de Abreu e Francisco da Silva.
A brisa da manhã tem algo de indizível, que nem palavras nem aquarelas são capazes de traduzir.
Em o Mercado dos Peixes de Fortaleza, na Avenida Beira-Mar, a brisa não é o único obstáculo na tentativa de uma representação pictórica.
Muito mais do que um quadro, a paisagem tem uma dinâmica própria.
Duas realidades perpassam o mercado:
a praia e a rua.
Ao longo de sua extensão, a calçada -- separada da praia por um desnível de alguns centímetros -- não só representa o urbano desbravando a natureza, confrontando o mar, mas, com seus boxes de concreto e sua organização, é o limítrofe de dois mundos.
Em os meus registros receei deixar de fora alguma impressão importante, mas tenho plena certeza de que, enquanto eu pintava meu quadro, meus personagens transitavam de um lado para o outro, entrando e saindo da moldura imaginária.
Em a calçada, eu me senti uma turista em Fortaleza, todo o tempo recebendo propostas de passeios de barco.
Em a areia, eu apenas observava.
Os pescadores descalços empurravam seus barcos em direção ao peixe de cada dia sob o Sol escaldante.
Só notei a diferença que isso fazia ao apanhar minha lapiseira que acabara de escorregar dos meus dedos, direto para a areia quente.
O meu passeio seguia até eu avistar um trio de estrangeiros conversando animadamente com um pescador, num barquinho.
Tentei imaginar de onde a brancura de eles provinha, mas o que mais me entretinha, para ser sincera, era como eles conseguiam se comunicar.
Pena que eu não os escutava.
Desprovida de meus óculos escuros, fui atingida por incômodos grãos de areia e, por instantes, só pude confiar no que ouvia.
Não foi de todo ruim.
Só assim prestei atenção no delicioso quebrar das ondas, na longínqua música que vinha de um barco e dos desagradáveis ruídos das construções dos arranha-céus da Beira-Mar.
Falando em Céu, havia um zeloso pescador pintando seu barco de um azul vivo, e a tinta, ainda molhada, brilhava tão vivamente, que não pude deixar de associar ao Céu.
Logo chegava o fim da linha e, conseqüentemente, a hora da calçada.
Confesso que peixes e frutos do mar em geral, prefiro-os vivos.
Mas cada um dos vendedores com os quais conversei -- salvo algumas exceções -- aumentou um tiquinho os meus conhecimentos sobre frutos do mar.
O primeiro vendedor disse os nomes de todos os peixes disponíveis na barraca de ele e eu perguntei quanto pesavam.
Concluí que ele tinha uma balança nos olhos.
Depois, claro, ao ver a precisão dos outros vendedores, percebi como a prática facilita as coisas.
Em esse ponto, já estava acostumada ao odor característico não muito agradável.
Logo aprendi que arraia se come cozida e desfiada, embora não tenha gostado muito da idéia.
Apreciei o último pedaço do tubarão exposto.
Era enorme e o exercício de tentar imaginar as outras partes se tornou mais interessante do que vê-lo inteiro.
Eu vinha observando os vendedores jogarem água e gelo sobre os frutos do mar.
Encontrei um rapaz paciente, que esclareceu algumas dúvidas.
A água, obviamente, era para manter os peixes frescos o máximo possível.
Quis saber, também, se os vendedores são pescadores.
Não são.
Em a verdade, eles compram dos pescadores.
Quanto aos camarões, esses vêm de fora e são vendidos por «atravessadores», intermediários entre os pescadores e os vendedores finais.
Tenho mais simpatia por os camarões.
Os peixes me encaravam, com os olhos inertes, os dentes ameaçadores e as línguas nauseantes.
Definitivamente, prefiro os camarões.
Os preços entre um box e outro não variavam muito.
Não vi muita diferença, aparentemente, entre os camarões de cativeiro e os do mar.
Mas o preço dos camarões do mar era mais que o dobro dos de cativeiro.
Segui meu caminho em busca de animais diferentes.
Porém, antes, fui apresentada a uma ova de peixe.
Eu já sabia que não seria bem o meu tipo.
Prestava mais atenção nas mãos do vendedor, das piabinhas para o dinheiro, do dinheiro para as ovas, das ovas para o troco.
Nem preciso dizer que nos breves intervalos ele não lavava as mãos.
Aliás, foi um hábito muito comum que presenciei -- ou a falta de um hábito.
Mas esse vendedor me conquistou.
Depois que percebeu que ova no leite de coco não me agradou muito, sugeriu as piabinhas fritas com baião-de-dois, farofinha e cervejinha.
O sorriso tão simpático e a satisfação de ele me convenceram de que se eu fosse comprar qualquer coisa, seria lá.
Vi várias lagostas, todas pequenas e sem cabeça.
Procurei, de box nbo, algum que tivesse lagostas com cabeça.
Quando vi lagostas grandes, achei que tivessem cabeça, mas não.
Fiquei refletindo se a diferença dos tamanhos das lagostas não seria fruto da pesca de animais muito novos.
Infelizmente, não conheço nada de lagostas.
Então, comecei a me realizar vendo bichinhos vivos.
Primeiro caranguejos, enquanto o vendedor de um box pechinchava, reclamando com o seu fornecedor -- um homem com caranguejos pendurados num cabo de madeira --, que havia uns vivos e outros não.
Para o meu deleite, deparei-me com um pôster muito didático sobre camarões.
Chamava-se «Garnelen Shrimp Rejer Crevettes».
Claro que eu não faço idéia do que significava, tive mais clareza ao ler «Scandinavian Fishing Year Book -- Hedehusene -- Denmark».
As dúvidas se dissiparam:
um pôster dinamarquês sobre camarões.
Pena que era só isso que eu conseguia ler.
Apesar do colorido dos camarões, a posição do pôster me mostrava muito bem uma árvore refletida no vidro que o protegia, e as pequenas legendas, não as li.
Mas se eu não contei errado, havia 56 tipos diferentes de camarões.
Alguns inimagináveis, mais parecidos com lagostas do que com camarões propriamente.
Deve ser um vício jornalístico dar nome aos bois, ou aos peixes e camarões.
Só que eu não me conformei com as denominações cinza, rosa e branco.
Preferi o pôster dinamarquês.
Mais divertido do que o cartaz, só os mariscos vivos.
Os mexilhões às vezes espirravam água, dando sinal de vida.
Mas interessante mesmo -- e novo para mim --, eram uns mariscos semelhantes a lesmas, a lambretas, com direito a antenas se mexendo e tudo.
Foi por aí que encontrei um vendedor espirituoso.
Ele me mostrou um encontro de «Lula com o povo».
Entenda-se:
ele balançava uma lula com uma mão e um polvo com a outra.
Ele me perguntou se eu já tinha comido lula, eu respondi que não.
Ele disse que eu não sabia o que era bom.
Eu menti dizendo que iria experimentar.
Provavelmente fui traída por o meu sorriso amarelo e o meu olhar de descrença.
Recapitulando meus recentes conhecimentos, voltei à praia mais uma vez.
Um senhor de expressão séria, cabelos acinzentados e cachimbo na boca olhava para mim e não pude deixar de rir.
Instantaneamente me lembrei do marinheiro Popeye.
Uma versão tupiniquim:
o meu Popeye era negro.
O sorriso nostálgico que eu ostentava foi arrefecido por a imagem de um garotinho -- certamente mais jovem do que eu nas minhas lembranças da época do marinheiro Popeye -- varrendo um barco.
Assim, aos poucos, fui voltando à realidade.
Subi na calçada, passei por dois estrangeiros, por uma mulher fazendo caminhada e me dei conta de onde estava.
O cheiro de peixe ainda estava no ar.
Olhei para trás, vi os boxes e as barracas e vi o meu quadro ali.
Tudo se passou num segundo, o derradeiro, para que eu percebesse.
Mas acho que a minha pescaria foi frutífera.
Número de frases: 93
Quase que literalmente.
Dizer que Brasília é referência quando se fala em música instrumental hoje já virou lugar comum.
Mas para aqueles que ainda associam a capital da república ao rock talvez isto ainda soe como novidade.
Em a verdade, Brasília possui conhecidos representantes em todos os gêneros de música em nível nacional, do rock ao sertanejo.
Mas para os que apreciam a música instrumental e o jazz, entendido aqui como o gênero musical que acata influência de praticamente todos os estilos musicais, mas se destaca por fundi-los com alta qualidade criativa, Brasília é um caso especial.
A qualidade de seus instrumentistas é reconhecida já de algum tempo.
A cidade já exportou músicos reconhecidos no cenário musical, como Hamilton de Holanda, Marco Pereira, Jorge Helder, Nelson Faria, Lula Galvão, André Vasconcelos, Gabriel Grossi, Sérgio Galvão, Adriano Giffone, Toni Botelho, Beth Ernest Dias, Piriquito, Kadu Lambach entre outros.
Músicos de excelente qualidade, mesmo optando por permanecer morando na cidade, também estão entre os melhores do país, como Renato Vasconcelos, Ademir Juníor, Paulo André, Roberto Corrêa, Reco do Bandolim, Jaime Ernest Dias, Dudu Maia e mais uma porção de gente boa, entre veteranos e jovens.
E como se não bastasse, músicos de excepcional qualidade surgem constantemente no cenário da música instrumental brasiliense.
A lista é tão extensa que o risco de ter esquecido muita gente é certo.
Me perdoem os não citados por desconhecimento ou lapso.
Clube do Choro, Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello, Cursos Internacionais de Verão da Escola de Música de Brasília, Feira de Música Independente são alguns dos eventos e locais onde têm surgido e brilhado grandes nomes da música instrumental nacional e local.
Outros dois eventos, ocorridos entre 25 e 27 de abril de 2008, por o sucesso que obtiveram, também podem adquirir status de regularidade e passar a integrar o calendário da musica instrumental em Brasília.
Foram eles o 1º Piri Jazz e o Capital Instrumental.
O primeiro teve lugar não exatamente em Brasília, mas em Pirinópolis, cidade próxima e frequentada por muitos brasilienses.
O 1º Piri Jazz contou coma participação de João Donato, Rosa Passos, Yamandu Costa, Duofel, SambaJazz Trio, Joatan Nascimento, Renato Vasconcelos e Marcelo Maia.
Um time de músicos consagrados que conferiu ao evento um excelente nível de qualidade e a presença de um grande público.
O outro evento, que ocorreu em Brasília mesmo, foi o Capital Instrumental com a participação de jovens estrelas da música instrumental brasiliense e algumas feras de destaque nacional.
Ademir Júnior, Amoy Ribas, Marco Pereira, Gabriel Grossi, Marcelo Maia, Hamilton Pinheiro, Nelson Faria, Gilson Peranzzetta, AQuatro, Juninho de Souza e Artur Maia criaram momentos mágicos que empolgaram o público, que também lotou o Teatro da Caixa nos três dias do festival.
O sucesso destes dois eventos comprova mais uma vez que Brasília é uma das cidades brasileiras que melhor acolhe a música instrumental.
Talvez seja possível dizer que este gênero tem na capital do país um dos seus melhores momentos.
Parece estar ocorrendo aqui um círculo virtuoso, no qual bons músicos criam boas escolas que formam bons músicos que com seu talento estimulam outras vocações musicais e continuam formando bons músicos, e assim atraindo mais público e produtores interessados em investir nesta área.
Como uma bola de neve, o movimento da música instrumental em Brasília cresce constantemente e desperta cada vez mais a atenção em nível local, nacional e até mundial.
Número de frases: 23
Em recente viagem à cidade de São Paulo, visitei o Museu da Língua Portuguesa, onde Gilberto Freyre (1900-1987) está sendo homenageado através da exposição temporária «Gilberto Freyre -- Intérprete do Brasil».
Assim, verifiquei, «in locu», a forma cuidadosa com que se vem buscando aproximar o público do escritor.
O cenário remete a uma casa.
Em um quarto, o visitante pode, por exemplo, abrir o guarda-roupa.
Posteriormente, pode adentrar a cozinha, deparando com geladeiras e fornos de microondas.
De essa forma, ao interagir com os diferentes espaços, com o mobiliário, com os eletrodomésticos e com a decoração de uma suposta moradia artisticamente representada-o público descortina facetas do autor de «Casa-grande removeme», Sobrados e mucambos» e «Ordem e progresso».
Materiais de pesquisa empregados em seus escritos, sua obra literária, suas correspondências, seus desenhos e suas pinturas se desvelam.
Até, então, o espaço restringe-se ao primeiro andar do museu.
Em a seqüência, vem o segundo andar, onde acontece a exposição permanente do Museu da Língua Portuguesa.
Ali se retrata a origem e a evolução da nossa língua.
Já no terceiro andar, ressurge Gilberto Freyre.
Fones de ouvido saem de maquetes de sobrados, permitindo a escuta de trechos de entrevistas realizadas por o escritor a fim de desenvolver a obra «Ordem e progresso».
Ouve-se a expressão do pensamento da população da época.
Certas declarações despertaram a minha atenção por serem inconcebíveis na atualidade brasileira.
De entre essas, destacam-se duas afirmações:
uma de que a escravidão deveria ter continuado e outra acerca do desejo de uma pessoa em não ver os seus filhos casados com «pessoas de cor».
Não se almejou esgotar estudo da obra de Gilberto Freyre.
Antes disso, buscou-se apresentar a vida e a obra gilbertiana ao público visitante.
Em esse sentido, em razão da visita, passei inclusive a conhecer e a apreciar algumas frases do escritor:
«O saber deve ser como um rio, cujas águas doces, grossas, copiosas, transbordem do indivíduo, e se espraiem, estancando a sede dos outros.
Sem um fim social, o saber será a maior das futilidades." --
Discurso proferido por ocasião da formatura como Bacharel em Ciências e Letras por o Colégio Americano Gilreath, 1917 " Não há experiência de corpo que não seja também experiência de alma, o contrário sendo também verdadeiro." --
«Tempo morto e outros tempos, anotação de 1925» " Creio que cada um deve ficar o mais possível no lugar onde nasceu.
Nada de muita emenda ao soneto da vida:
ou do destino, que é o mesmo." --
«Tempo morto e outros tempos, anotação de 1926» (Frase que surge aos poucos, ao ritmo do transcurso da manada -- Imagem 6)
«Todo brasileiro, mesmo o alvo de cabelo louro traz na alma, quando não na alma e no corpo ( ...)
a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro." --
«Casa-grande e senzala, 1933» " Sendo daqueles que seguem, quanto possível, o velho inglês orgulhoso de nunca ter procurado uma amizade ilustre nem se esquivado a ódio de poderoso, guardarei desta reunião a melhor das lembranças." --
Discurso proferido no Jóquei Clube do Rio de Janeiro, 1941 " Sou muitas vezes acusado de conservador.
Mas o que eu quero conservar no Brasil?
Valores brasileiros que estão encarnados principalmente nas formas populares de cultura, formas regionais, que dão um sentido ao Brasil." --
Número de frases: 32
Citação feita por Elide Rugai Bastos em «As criaturas de Prometeu» às vezes elegante como um samba cantado a uma Graciosa, outras furioso como um Bicho enjaulado estilhaçando vidro, Enock de Almeida Lima, o Seu Enock, é o sambista da rodoviária de Brasília.
Boina cinzenta, terno azul-marinho, na mão direita o cigarro torto, na esquerda o reco-reco.
Fala de dificuldades, canta às mulheres, agradece ao transcendente.
Enock andou com o samba, e o samba para si tomou, eu quero andar com o samba, igual ao Enock andou.
O senhor é de onde?
Eu nasci em Ipameri, Goiás.
Vim para cá (Brasília) em 57.
Eu, meu pai, minha mãe e meus irmãos.
Em 57 morei no Bandeirante, Cidade Livre ...
Candangolândia, bairro de Candangolândia.
Lá eu morei até 65.
Em 65 eu mudei para Sobradinho.
Estou até hoje em Sobradinho.
Moro lá, em Sobrado.
Desde quando o senhor escreve sambas?
Samba tá com seis anos ...
De seis a sete.
Ali na estação rodoviária mesmo, minha inspiração começou a vir através de pessoas.
Mulher, né? (
risos) Inclusive aí saiu o Maria Linda e o Graciosa.
Uma passou pra lá, eu botei o nome de Maria Linda, outra passou pra cá eu botei o nome de Graciosa.
Saíram dois sambas, quase numa hora só.
Aí de lá eu vim compondo ...
O primeiro que eu fiz na minha vida foi o Bicho, né?
Quem é o Bicho?
Eu achei que a vida me transformou num bicho.
Porque eu fui separado sem mais, sem menos ...
A mulher me largou e aí eu me transformei num bicho.
Comecei a beber, entendeu?
Eu via um bicho mesmo.
Aí saiu esse samba.
Já antes eu tentava fazer ele, mas não conseguia porque eu tive um acidente trabalhando.
Caí de um prédio, terceiro andar, passei muito tempo com amnésia.
Calculadamente mais de quinze anos ...
De quinze a trinta de amnésia, eu não contei.
Aí por a entrevista que eu tive no Correio Braziliense em 2001, me perguntaram sobre o passado e eu fui me recordando das coisas, inclusive me recordei do meu pai, que tava na memória, mas eu não lembrava direito.
Aí eu recordei tudo e a música, esse Bicho que eu tinha começado já veio na minha idéia e eu já saí cantando.
Já me considerei compositor a partir dessa, a partir de ela eu consegui fazer as outras.
Aí a inspiração vinha em momentos ...
Eu na rodoviária engraxando sapato ...
Por que minha profissão é engraxate agora.
Eu sou aposentado, mas preciso ganhar um trocadinho, né?
Aí eu tô lá trabalhando e vem a inspiração, de repente.
Agora o que tenho a reclamar é que lá em cima, além da inspiração, tem bom freguês, boa gorjeta, bons amigos ...
Lá em cima?
É, na parte superior da estação rodoviária, terminal Brasília.
Lá eu tinha minhas inspirações momentárias, rapidinho, beleza.
E muitos amigos.
Depois eu fui descobrir que tinha muitos inimigos também.
Por causa da inveja, né?
De essa inveja eu fiquei nervoso ...
Tinha um homem do vidro lá e aí eu quebrei o vidro.
Aí eles me botaram lá para baixo, na parte inferior, onde é frio, onde eu peguei reumatismo, entendeu?
Amizade eu não faço, inspiração não vem e o som perturba ...
Poluição sonora, poluição de fumaça de cigarro, de ônibus, de tudo.
Têm aqueles do tiner, os cheiradores de cola.
Eu trabalhava com cola e fui até obrigado a parar de trabalhar, porque eles pegavam para cheirar.
E outra coisa, aquilo me comprometia porque eles queriam saber onde eu arrumava.
Aí eu tive que parar de ser sapateiro.
Só estou mesmo engraxando sapato e fazendo samba ...
Quer dizer, cantando, porque fazendo mesmo, não.
A inspiração tá ruim.
Quantos sambas o senhor já fez?
Estou com 15 completos e em andamento tem uns seis.
Vem a inspiração dentro do ônibus, porque dentro do ônibus eu canto.
E de quê falam seus sambas?
A minha inspiração vem de pessoas, né?
Bicho em forma de pessoa, Jesus me inspira.
Mas, mais é mulher, né? (
risos) Porque mulher mexe com qualquer sentimento.
A minha ex-esposa, ela passa muito amor dentro de mim, que eu posso me inspirar.
Eu já fiz uns quatro para a ela, mais ou menos, uns seis ou quatro.
E eu vou seguindo.
Mas acho que eu continuando, trabalhando lá embaixo, de engraxate ainda, naquela plataforma não tem jeito.
Não sei se a inspiração vai continuar.
Quem o senhor gosta de ouvir?
O que eu gosto de ouvir é Martinho da Vila, porque Martinho da Vila já me tirou da fossa, né meu irmão? (
risos) E eu acho que eu me inspirei alguma coisa com as músicas de ele.
Inclusive a Graciosa é uma inspiração.
Fala até na Vila Isabel, que é justamente do Martinho.
De todos os sambas que o senhor tem, porque escolheu tocar estes sete hoje (na ocasião em que se apresentou, no Sarau da Primavera)?
Eu escolhi porque têm duas que são recitadas e as outras mais ouvidas ...
Todo mundo fala que são boas, aí eu escolhi elas.
Mais ou menos, quer dizer, não sei se são boas, mas eu acho que elas têm alguma coisa.
Quer dizer, para quem eu canto ...
Eles gostam, né? (
risos) Falam que são boas.
Além do ônibus, onde mais o senhor se apresenta?
Eu canto mais dentro do ônibus, na parada de ônibus ...
Em o bar da Marizete, na quadra 8 de Sobradinho, em frente à quadra 10.
De vez em quando a gente toca lá, tem o pessoal ...
Tem o Anselmo que tem um grupinho também, um grupo de seresta.
De vez em quando eu toco um reco-reco lá.
O reco-reco que eu tinha, que me roubaram, foi o reco-reco que o Anselmo me deu.
Ele me deu no dia de Natal.
Além do reco-reco, o senhor toca algum outro instrumento?
Toco.
Toco surdo, tan-tan.
Tudo do samba, percussão quase completa.
Por causa do acidente eu não toco bateria de pé, não toco mais cuíca ...
Eu tocava cuíca, pandeiro eu tocava muito também.
Número de frases: 101
* esta entrevista foi publicada originalmente no blog o balde.
«Eu sou Dionísio!"
Essa frase pronunciada por Téspis no século VI a.
c., na Grécia, mexeu com a sociedade daquela época, pois nunca nenhum membro do coro grego havia se pronunciado sozinho.
Em aquele momento nascia o Teatro.
E em plena rua.
Em Boa Vista não é difícil encontrarmos artistas experimentando as suas técnicas em sinais e praças da cidade, ousando como Téspis da Grécia Antiga.
Por aqui existem grupos que uma vez ou outra resolvem realizar o teatro na rua, montam literalmente um palco, iluminação, som e celebram esta arte para todos que se interessarem em parar para assistir.
Mas o teatro de rua mesmo não é uma prática nesta cidade.
Essa linguagem, muito bem trabalhada e conhecida por grupos como Tá na rua, do Rio de Janeiro e Grupo Galpão, de Minas Gerais, agora é que começa a despertar a classe teatral local.
Existe hoje na cidade apenas um grupo que desenvolve essa linguagem:
Locômbia, Teatro de Andanzas.
E curiosamente esse grupo é formado por dois colombianos e um brasileiro.
Beatriz Brooks, 41, Orlando Moreno, 45, colombianos e Shanti Ram, com cinco anos, o único brasileiro do grupo e filho do casal.
Locômbia, Teatro de Andanzas é um grupo tradicionalmente familiar, que desde 1986 resolveu sair por o mundo visitando diferentes culturas e sempre fazendo teatro.
«É uma filosofia de vida», como diz Orlando.
Eles já estiveram em lugares como México, Costa Rica, Canadá, Alemanha, Hungria, Slovenija, participaram de festivais na Suécia, Dinamarca, Índia, Moçambique, Nepal e toda a América Latina.
O grupo já mora há cinco anos no Brasil e já estão em processo adiantado para se naturalizarem no País.
«Já tá na hora de fixar residência, criar uma estrutura segura para nosso filho», como diz Orlando.
Boa Vista é privilegiada em ter essa trupe de saltimbancos interessada em dividir experiências com artistas locais.
A relação de eles com o Brasil surgiu em 1987 quando em turnê por a América do Sul, num festival na Argentina, eles conheceram um grupo de teatro brasileiro.
O Grupo de Teatro dos Afogados, de Hugo Hodas, um dançarino uruguaio que já morava em Brasília há muitos anos.
«Bom, já tínhamos contatos no Brasil, então fomos pra lá e paramos em Brasília através da nossa turnê.
Intercambiamos com Hugo Hodas.
Fizemos a oficina de ele de dança e em troca oferecemos nosso trabalho de mímica e pantomima para os dançarinos de ele.
Orlando disse que durante as viagens eles sempre encontravam um meio de intercambiar seus conhecimentos com a cultura local, o que tornava mais rico o seu trabalho.
Depois de Brasília foi a vez da cultura nordestina encantar o grupo.
Eles não conheciam o frevo, que logo foi agregado ao repertório do grupo.
«Nós, como viajeiros vamos integrando toda essa bagagem de técnicas ao nosso trabalho profissional.
Sofremos muita influência, principalmente da música.
Nosso espetáculo atual tem «Maria, Maria», de Milton Nascimento, o movimento da capoeira, a ginga, o Afro com o tambor e o batuque."
A o falar de patrocínio com ele, Orlando diz que " o grupo sempre foi autogestionário.
Em a Colômbia era muito difícil de encontrar apoio e sempre realizávamos as oficinas.
A vontade mesmo do grupo era conhecer outras culturas.
E íamos fazendo espetáculos passando os chapéus e muitas vezes os chapéus eram melhores que os cachês e íamos continuando nossa viagem.
Recebíamos convite pra realizarmos oficinas em escolas, universidades e depois íamos pra outras cidades.
Já estamos viajando assim há 20 anos.
Quando se viaja é muito difícil de conseguir patrocínio, pois nós não pertencemos ao lugar».
Tanto tempo viajando me despertou logo a curiosidade de saber como é a rotina dessa trupe familiar e sem pestanejar e com muito orgulho do que faz ele diz que " a nossa rotina é de teatro mambembe, de circo, de família onde se mistura tudo, a criação com a cozinha, com a mecânica, a convivência.
Dou aulas para o meu filho de inglês, português, espanhol, música.
Não encontramos uma escola integral pra ele.
Estamos preparando um novo espetáculo que ensaiamos em momentos livres, está na encubadeira.
Somos amantes de nossa arte, gostamos do que fazemos.
Só podemos fazer isso porque somos uma família, um casal com um filho.
Se existissem mais pessoas seria muito mais difícil.
Uma vez formamos um grupo com duas Kombi, inclusive com artistas brasileiros, mas não deu certo.
Muito gasto e pouca entrada.
Moramos aqui nessa casa com três cômodos, bem simples e vamos trabalhando.
Minha esposa dá aulas de Yoga e percebemos que essa cidade tem um mercado promissor.
E dinheiro não é tudo, o mais importante é a riqueza compartilhada.
O dinheiro vai chegar pra pagar as contas, nunca falta.
Desde que chegamos aqui nunca nos faltou nada».
A formação do grupo vem das ruas, da prática, da insistência e repetição de exercícios, qualidades que Orlando vê também no artista brasileiro, «o ator brasileiro é muito hábil, muito aberto pra receber informações».
Em a época em que o grupo surgiu, Orlando havia acabado de sair do ensino médio e como a Universidade estava fechada na Colômbia, ele e seus amigos resolveram dar continuidade ao trabalho teatral que já realizavam na escola.
«Nós não queríamos fazer o teatro de academia, o tradicional, Brecht, ou o de televisão, nós não fomos para a escola de teatro.
Queríamos fazer outro tipo de teatro e começamos a compartilhar com grupos maiores, aprendendo técnicas, e acho que quem quer fazer teatro deveria ir pesquisar com grupos.
Nós íamos pra cachoeiras, para as ruas, com pernas de pau, pra exercitar, confrontar o ator com o público, nas montanhas, naquela época era um teatro de compartilhar, se você quisesse aprender música era só procurar algum grupo que tinham a técnica e aprender com eles.
O teatro de grupo forte mesmo foi naquela época, hoje é o teatro de diretor.
Em a Colômbia muitos atores estão na televisão.
Eles deixaram o teatro de grupo e hoje estão completamente sem gestos, limitados».
E não é isso o que eles querem.
O grupo Locômbia continua pesquisando novas linguagens.
Eles estão ensaiando agora um novo espetáculo que conta as fases da vida de uma pessoa, com várias técnicas, pernas de pau, técnicas brasileiras ...
Conversamos também sobre a cena teatral de Boa Vista, e a observação feita por ele é de que aqui existe vitalidade, " está se criando um movimento muito grande de teatro de grupo, tem o Fórum Permanente de teatro, que nós não fomos ainda, mas ano que vem estaremos lá.
O seminário Estadual de Cultura realizado aqui foi muito importante para os artistas gritarem que existimos.
Agora os trabalhos, eles são experimentais, que misturam todas as técnicas.
Ainda faltam amadurecer, mas o importante é correr o risco.
Amadurecer, não tem um teatro profissional, precisamos é aprimorar as técnicas».
E por que Locômbia?
«Fomos barrados no consulado da Colômbia, em Brasília, 1992.
Era uma festa dos descamisados e eles disseram que só podiam entrar militares.
Em essa época, em 92 mudamos o nome do grupo de LATARIMA para a Locômbia.
Não queríamos pertencer a um país que nos fechou a porta, os consulados não servem para a nada, não apóiam em nada.
Locômbia é um país utópico, sem guerras, sem miséria, sem narcotráfico, é um país sonhado por todos os artistas, é um segundo andar da Colômbia ...
continuam com aquele mesmo espírito do início».
O grupo agora está de volta à Colômbia.
Vão visitar a família, pegar o restante de suas coisas e retornarão à Boa Vista.
De essa vez para ficar.
Ele lembra que " no início não éramos reconhecidos por a família, mas depois que saímos, demoramos bastante, e voltamos vivos, aí sim fomos reconhecidos como artistas.
Estamos indo pra Caracas e depois voltaremos para a Boa Vista já pra morar.
A idéia é montar uma sede, um espaço pra dar aulas de yoga, mímica, origami, ensaiar espetáculos.
E sempre nos apresentando por o caminho.
Esse é o nosso meio de sobrevivência».
Questionado sobre os motivos que ainda o fazem alimentar esse desejo de divulgar a arte por as ruas da cidade, me surpreendeu bastante quando disse que " mesmo morando aqui nunca deixaremos de viajar.
Precisamos sempre voltar, depois que se começa a viajar não dá pra parar.
A arte mexe com o coração da gente, é vital, não é por o dinheiro, é por as pessoas que assistem aos espetáculos».
Repertório:(ver site do grupo)
Mara Baraha O espetáculo Maha Baraha foi inspirado na Mitologia Hindu, na qual a Criação, a Preservação e a Destruição se combinam para criar a harmonia no Universo.
Conta-se a historia maravilhosa de um encantador de serpentes (representando o demônio Hiranakio) que rouba o mundo da sua protetora, a Mãe Terra.
Compassos em Silêncio
Esta peça foi inspirada nos encontros e desencontros da vida cotidiana, os quais são enfrentados de uma maneira poética, trágica e cômica.
Através das Mímicas de «Compassos em Silêncio», o grupo desenvolve um teatro sem palavras, utilizando uma linguagem não verbal e corporal com música ao vivo (Saxofone, clarineta e percussão) enriquecido com Máscaras, Origami e alguns objetos.
Odissi
A Dança Odissi é originária da região de Orissa, situada ao nordeste da Índia.
Faz parte do Culto ao Deus negro Jagannath, sendo uma representação de Vishnu, Deus que preserva.
As bailarinas do Templo, chamadas de «Maharis» ou «Devadasis», eram jovens que consagravam suas vidas ao Deus e ao rito cerimonial, sendo treinadas por o Guru ou Mestre do templo na tradição sagrada de contar historias da Mitologia Hindu através da expressão corporal e um rico vocabulário de gestos.
Odissi tem um caráter espiritual e estético, relembrando a simbologia da Yoga e a Meditação em que se busca a união entre a mente e o corpo para liberar o espírito.
A característica principal da dança é o Tribangui, correspondente a três dobras do corpo (na cabeça, no tronco e nos joelhos), formando sempre um triângulo com o corpo do bailarino, relembrando a linha sinuosa da estatuária em pedra dos templos hinduístas.
Combina-se a expressão dramática com uma refinada e sensual estilização de movimentos corporais suaves e fortes, busca despertar emoções no espectador.
Marcelo Perez
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E-mail: locombiateatro@yahoo.es
locombiateatro@hotmail.com Página Web:
Número de frases: 104
www.atomoservicos.com.br/locombiateatro Prestem muita atenção
Em este meu sábio latim.
É ouvir e apreender,
Tintim por tintim, O segredo e a magia
De esta comedoria,
Que começa bem assim:
Em os idos de 2002 para 2003, estava eu jantando animadamente na casa de meu pai quando o tradicional Arthur Moreira Lima interpreta Ernesto Narazeth foi subsituído sem que eu me desse conta por um som que não identifiquei de imediato.
Quando abocanhei o primeiro pedaço de peixe, ouvi uma voz que parecia brincar (ou brindar) com mim:
De curvina ou pescada,
Peixe-pedra ou camurim
Ou um peixe à sua escolha
Por melhor dizer assim
Se bem frescos, muito bem;
Congelados, bom também Pelo menos para mim
Prestei muita atenção.
O importante é o preparo
De esta iguaria popular
O famoso escabeche
De as bodegas do lugar
que com mimos e carinhos
Em ambientes bem limpinhos
Oferecem esse manjar
Tive certeza de que eu estava ouvindo alguém dando o passo-a-passo de uma receita.
A poesia das músicas que se seguiam me fez querer emprestado o álbum, que meu pai havia ganhado do pessoal da Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão numa de suas andaças por o Brasil.
Ouvi dia e noite todas as canções, com prejuízo do meu estômago, que se remoía a cada acondimentada.
Provavelmente, o grande problema do álbum Sotaque maranhense na arte de cozinhar, de Wellington Reis e José Ignácio, é justo o problema de te fazer salivar.
O tempero ou condimento
É a mão de quem cozinha.
Diz o dito popular
Por Sinhá Maricotinha.
O restante é ingrediente:
Uma planta, uma semente
Lá da horta da vizinha
Os anos se passaram e aquele sotaque não me saía da cabeça.
Fiquei curioso para saber se por acaso eu não estava perdendo outras delícias marenhenses de ouvir.
Então, aproveitando a deixa do Overmundo, resolvi procurar Wellington e José Ignácio para saber se havia algum projeto em banho-maria.
Wellington me respondeu prontamente, e fiquei feliz em saber que ele não estava me cozinhando, quando vi as respostas às perguntas que eu lhe havia feito por e-mail já na minha caixa postal.
Segundo o site que a dupla montou para divulgar o cedê, José Ignácio é ator, cantor, dançarino, pintor, compositor, designer gráfico e «performer» poético.
Wellington Reis é não menos que isso:
compositor, músico, poeta, produtor cultural, produtor de cinema, roteirista e fundador dos corais São João e da Universidade Federal do Maranhão (lê-se úfma).
Também criou o bloco «Vagabundos do Jegue,» na linha irreverência versus anarquia», segundo ele próprio.
como se bastasse, ambos são gourmets, sendo que Wellington se define por a seguinte tirada:
«Não existe carne de segunda!
E, sim, cozinheiro de primeira», lugar em que ele modestamente se enquadra.
Segue a entrevista para ser saboreada por os bons de garfo:
Overmundo:
Como é que foi que surgiu a idéia do cedê Sotaque maranhense na arte de cozinhar?
Você e José Ignácio já se conheciam?
De onde?
Wellington Reis:
A idéia surgiu assim:
quando criança, sempre escutava a minha mãe cantarolando musiquetas e, de entre as musiquetas, uma inventada por ela para fazer um mingau de araruta, por sinal, uma das minhas primeiras incursões na cozinha.
Mas, foi num dos momentos etílicos sociais com amigos de praia, lá para as cinco da tarde, em que o meu apetite mandou recado, que pedi um tira-gosto.
Quando me chega, especificamente, um sururu no leite-de-coco, me passei com vontade até a primeira e última garfada, com o conteúdo vindo a areia.
Estava tão ruim que fiz uma música, in loco, nominando-a «Sururu fuleiro».
Era o gancho que faltava!
Como bom maranhense, mas com jeito baiano na morosidade, aproveitei a maré de quarto e compus a primeira música sobre o Cuxá, aproveitando a idéia latente de fazer músicas com receitas.
Tão cedo não saí da metade d aquela que seria a segunda música, utilizando o Caruru.
Deixei a idéia dentro da minha «caixa de sapatos», uma espécie de cofre aberto das minhas intenções artísticas, aguardando, quem sabe uma boa parceria.
Decorrido algum tempo, Dona Zelinda Lima, maranhense e pesquisadora de mão-cheia, lança o livro Pecados da Gula -- comeres e beberes das gentes do Maranhão.
Cá com os meus botões, eu disse:
«Eis a parceira».
Conversei com a minha amiga escritora, e, quando já havia esquecido do convite feito, ela me apresentou três letras.
Busquei melodias e acertos nos poemas, mas debalde foram os meus esforços:
não encontrei a veia popular nas canções.
A caixa de sapatos estava ali mesmo.
Convidado para compor a trilha sonora do espetáculo teatral Viva El Rei Dom Sebastião, do teatrólogo Tácito Borralho, na primeira reunião, dei de cara com o Zé Ignácio.
Em a época, fazíamos parte da equipe da Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão.
Eu, como coordenador de Ação e Difusão Cultural e ele como Chefe de Gabinete.
Em comemorações aos aniversariantes do mês, já me deliciava com as saborosas iguarias preparadas por o competente ator maranhense.
Eis que surge a primeira pesquisa de campo com o elenco do El Rei ...
até a distante Cururupu, mais precisamente à Praia do Lençol.
Uma aventura em desventura:
onze pessoas, embarcação pequena, baia do tubarão, mês de setembro, vento e maresia fortes faz todo o elenco provar do desprazer de um naufrágio.
Mas, com El Rei e toda a sua corte de encantados ao nosso favor, conseguimos chegar ao nosso destino.
Em a volta, o medo e o respeito nos fazem aumentar o caminho e nos obriga a pegar um ônibus num lugarejo, beira de braço de mar.
Eu e o Zé, sentados no mesmo banco, começamos a trocar figurinhas.
Em pouco mais de duas horas, já sabia que ele gostava de cozinhar, inventar pratos, tocava violão, teclado e, às sabidas, arriscava composições musicais.
Claro, falei dos meus projetos e soube que o meu amigo, dublê de compositor, tinha uma intenção similar.
O espetáculo acontece e, algumas luas após, final de tarde, o meu novo e grande parceiro adentra a minha sala de trabalho e joga uma folha de papel sobre a minha mesa, dizendo:
«Tomas ... é isto que tu queres?"
Era uma letra com o título Mocotó.
Pra quem nunca tivesse preparado essa iguaria era ler o poema, ir para a cozinha e sair para o abraço.
Não.
Em a verdade, faltava uma coisa:
música. Eu disse:
«É e não é!"
Em aquele sublime momento, falei dos nossos ritmos -- que ele tão bem conhece -- da possibilidade de compor cada prato num gênero musical, etc..
Em o dia seguinte, mesmo horário, a letra de Cuxá estava em minhas mãos e, juro, passe de mágica a melodia veio à minha cabeça:
Cuida, menina,
Vai para o pilão,
Tem que socar com a mão.
Se não tiver
Pilão, meu amor,
Vai no liqüidificador!
(Vai no liquïdificador!)
Overmundo: Como é o processo de composição em cima de uma receita?
Você conhece outros trabalhos semelhantes?
Wellington Reis:
Então, como já citei anteriormente, solicitava ao Zé Ignácio uma letra -- por exemplo, «torta de camarão» -- para ser musicada no sotaque de zabumba.
Ele, sabendo preparar a comida, e conhecedor do ritmo, já versificava pensando, e, até mesmo já ia compondo, na marcação solicitada.
às vezes uma letra não se encaixava numa linha melódica que eu vinha desenvolvendo, aí então eu tinha que efetuar aquela cirurgia necessária, mas, tudo dentro do pensamento do parceiro.
E se eu não soubesse cozinhar, como iria fazer?!
Difícil, né?!
Talvez por esta razão, eu desconheça outros trabalhos semelhantes.
Apenas músicas isoladas compostas por monstros sagrados do quilate de Dorival Caymmi, Vinicius de Morais, Chico Buarque ...
as quais não deixaram de servir de estímulo ao nosso pensamento.
Overmundo:
Quem foi que selecionou as receitas para as composições?
Foi você mesmo?
Wellington Reis:
Eu selecionei as receitas baseado no que seria um banquete maranhense.
Portanto, não se trata de um álbum de comidas típicas maranhenses.
O cuxá, em vias de ser tombado patrimônio imaterial, é o único prato típico maranhense como eu o considero.
Overmundo:
Você cozinha?
Wellington Reis:
Minha mãe se aposentou no quadro do Estado como cozinheira -- das melhores!--
do Palácio dos Leões.
Meu pai, na mesma instituição, encerrou suas atividades funcionais como copeiro.
Desde criança, na década de 1960, com meus oito anos de idade, já freqüentava e desfrutava dos quitutes preparados para o deleite dos governantes.
Festas e mais banquetes, sempre tinha tortas de camarão, peixadas, os cuxás da vida, cremes de bacuri e cupuaçu, doces de espécie e tudo o mais capaz de acariciar o mais fino paladar.
Em casa, a festa era menor, mas o prazer era incomensurável, devido às altas doses de carinho que a minha mãe, ainda hoje, coloca na comida.
Só não aprendeu quem não quis.
É como costumo dizer:
«Não existe carne de segunda;
existe, sim, cozinheiro de primeira», que é como me considero.
Overmundo:
Qual a faixa do cedê que você mais gosta de comer?
Wellington Reis:
Gosto de comer todas, inclusive o estojo como sobremesa. [
rsrsrs] Overmundo:
Alguém já veio dizer a vocês que uma receita ficava melhor assim e não assado?
Wellington Reis:
Nunca ouvi nenhum comentário acerca do melhoramento e / ou aprimoramento das receitas contidas no Sotaque ...
Minto. Certa vez, numa fila de supermercado, fui argüido por um deputado federal maranhense -- cozinheiro ocasional, por ter colocado creme de leite como um dos ingredientes da Caldeirada de Camarão.
Para encerrar a conversa, disse-lhe que aquela era a minha caldeirada, a mesma que turistas, como ele, gostam de comer!
Fazendo uma perigosa analogia com o futebol, creio assim:
no Brasil, cada torcedor se considera um técnico.
Em a cozinha, basta saber acender um palito de fósforo, diferenciar sal de açúcar;
mel de limão, para se arvorar cozinheiro e sair inventando e mudando receitas.
Overmundo:
O que você faz quando não está compondo?
Você e o José Ignácio se apresentam em shows, eventos etc.?
Wellington Reis:
Quando não estou compondo;
estou criando formas de viabilizar as minhas criações.
Funcionário público, afastado temporariamente das minhas funções, adianto os meus projetos de vida para quando a «famigerada» aposentadoria se fizer presente, não me encontre de calça curta, esperando a morte chegar.
Em o mais, temos recebido alguns convites para shows e realizado poucos, devido à mediocridade dos cachês apresentados.
Só agora conseguimos arregimentar uma banda, com poucos músicos polivalentes, capazes de produzir um efeito sonoro parecido com o do álbum.
Logo, temos que pagar razoavelmente essa turma, não gratificá-los.
Overmundo:
O que você está fazendo agora?
Quais são os projetos que você está desenvolvendo?
Wellington Reis:
Pois é, Viktor, tenho trabalhado em outros projetos, senão vejamos:
tenho um bloco de carnaval chamado Vagabundos do Jegue, na linha «irreverência versus anarquia».
Estou compilando algumas músicas temáticas (já gravadas), como Invejoso, Caloteiro, Amigos do Alheio, Fofoqueiro, o Chato, e compondo outras mais para reuni-las num cedê, tipo Substantivos masculinos [rsrsrs], uma espécie de homenagem a essa turba especialíssima.
Em a mesma série estou compondo outras músicas na nossa «pegada» junina.
Dois livros -- Causos musicais maranhenses e Receitas perdidas nos Cafundós do Judas -- sendo escritos.
Com um parceirinho dos bons, estou compondo músicas para um cedê sobre meio ambiente, e, conversando com o Zé Ignácio sobre a possibilidade de compor um segundo álbum, talvez na mesma temática, utilizando outras receitas, completando o ciclo.
Atualmente, travo batalha com a edição do devedê / cedê do Sotaque ...
Como sempre, querendo fazer um trabalho qualitativo e esmerado, o orçamento ficou salgado.
Por conseguinte, o projeto foi elaborado por uma produtora da terra, que sempre busca o ótimo e o melhor para a realização dos seus trabalhos, e, completou a festa, deixando-o «incomível».
Em suma: aproveito as águas e as flores de abril para retemperar a idéia.
Overmundo:
Você tem fome de quê?
Wellington Reis:
Eu, particularmente, tenho fome de tudo que alimenta a alma.
Sinto um apetite voraz por coisas que deixam o meu coração mais feliz.
Overmundo:
Sua música alimenta o espírito?
Wellington Reis:
E como!
Especialmente o espírito apolíneo.
Abra o vinho e faça um brinde
Especial à boa mesa
Beba e coma com vontade
Inclusive a sobremesa
Eu que não fui convidado
Digo aqui muito obrigado
Número de frases: 181
E vou saindo à francesa O Festival América do Sul (FAS), que acontece há 5 anos, em Corumbá, Capital do Pantanal, nos proporciona descobrir muitos personagens da cultura sul-mato-grossense.
Em a 5ª edição do festival, que aconteceu este ano, entre 31 de abril e 4 de maio, ao visitar o Instituto Luiz de Albuquerque (ILA), que fica ao lado da Igreja Matriz de Corumbá, tive uma bela surpresa:
conhecer o pintor corumbaense Daltro.
Minha intenção era conhecer as obras da exposição «A porta ao lado», dos artistas plásticos dos países hermanos, organizada por o FAS.
Mas o cheiro de tinta fresca, que seduz inevitável e prontamente os amantes da pintura, chamou minha atenção.
Quando levantei o olhar, me deparei com uma sala repleta cores vibrantes e ao fundo, lá estava ele, compenetrado numa nova criação.
«Meu nome é Epaminondas Pedreira Daltro Júnior, mas Daltro fica mais fácil de dizer», disse o artista com imenso carisma e simplicidade.
Características que transpõe em seus quadros expressionistas que registram pescadores, lavadeiras, meninos, tocadores de violas-de-cocho, instrumento do folclore pantaneiro, famílias pantaneiras na festa do Banho de São João e outros personagens que surgem no seu imaginário.
Com maestria, pratica também o impressionismo ao retratar paisagens do Pantanal e lugares de sua cidade natal, a bela e antiga Corumbá, com seu patrimônio arquitetônico que dá asas à imaginação de quem tenta resgatar histórias que há muito tempo aconteceram às margens do " Rio Paraguai.
«Se não coloco o que vejo no quadro, enlouqueço», afirma.
E confirma sua verdadeira vocação, depois de ter exercido outras profissões.
Em uma das salas do ILA, Daltro promove oficinas de pintura para novos talentos, como o Adelino da Silva, 12 anos, filho de pedreiro e lavadeira, que procura na arte, um meio de melhorar de vida.
E Daltro investe no sonho do menino:
repassa minuciosamente suas técnicas para deixar ainda mais colorida a alma de Adelino.
«Pintando eu penso melhor», confessou ele, quando lhe propus uma entrevista.
E assim aconteceu:
entre quadros, cavaletes, pincéis e aquele aroma inspirador, Daltro contou sua história e fez uma reflexão sobre a situação do artista do interior de Mato Grosso do Sul.
Acompanhe a entrevista exclusiva:
1-Como iniciou seu contato com a pintura?
Daltro -- Sou de Corumbá mesmo, mas passei toda a minha infância no Estado do Rio de Janeiro.
Foi lá que eu tive o primeiro contato com a pintura por meio de um professor ucraniano chamado Basili, quando eu comecei ter aulas de desenho.
A partir de então me interessei por as cores e comecei a exercitá-las de uma forma autodidata.
2-Como você se descobriu pintor, depois de ter trabalhado em outras profissões?
Daltro -- Eu me descobri pintor por meio das diversas profissões em que atuei, que foram a de fiscal da Receita Federal, psicólogo e militar.
Houveram vários desencontros durante minha vida, mas eu acabei descobrindo minha verdadeira vocação.
Faz dez anos que abracei o trabalho de artista plástico com convicção.
3-Qual é o estilo das suas pinturas?
Daltro -- Em a paisagem eu prefiro trabalhar com o impressionismo, mas em temáticas do ser humano, nas quais tenho preferência por os temas sociais, eu tomo como base o expressionismo.
4-Quais foram os locais onde você já fez exposições?
Daltro -- Minhas exposições foram feitas apenas em cidades do Brasil, do eixo São Paulo -- Janeiro -- Bahia, mas eu tenho obras que foram adquiridas e levadas para a Itália, Japão e Alemanha.
5-Como você vê o cenário das artes plásticas em Mato Grosso do Sul, sendo um artista do interior do Estado?
Daltro -- As artes plásticas do nosso Estado é muito fértil, mas ainda falta mercado, falta organização e principalmente uma associação de artistas.
Por exemplo, aqui não existe nenhum sindicato de artistas plásticos.
Quando eu tentei me filiar a um sindicato, fiquei sabendo que os artistas sul-mato-grossenses são ligados a um sindicato de São Paulo, pois aqui não tem.
Em a questão do interior, aqui em Corumbá existe uma produção artística muito forte.
6-Como ocorre a relação entre os artistas de Corumbá?
Vocês trabalham de forma isolada ou existe uma união para promover a cultura do interior?
Daltro -- Eu lamento muito o fato de nós trabalharmos em ilhas.
Cada um fica produzindo no seu canto e nem sequer nos reunimos para conversar sobre as atividades artísticas que a gente desenvolve.
Falta amadurecimento dos próprios artistas.
Além disso, são poucos os artistas que vivem da arte.
Por isso é que a maioria acaba não se interessando em promovê-la.
7-Qual é a metodologia de trabalho que você realiza em suas oficinas de pintura?
Daltro -- Eu começo com o método de desenho que aprendi lá no Rio de Janeiro com meu mestre Basili, o desenho passo a passo.
É um método muito fácil e a partir de ele começo com o lápis de cor para o contato com as cores, depois aquarela, acrílico e no estágio final, passo para a tinta óleo.
A base do desenho é fundamental na pintura.
8-Como você visualiza a importância desta oficina em estar disseminando a pintura para as crianças corumbaenses?
Daltro -- Infelizmente este projeto não tem um caráter social, eu gostaria de desenvolver um trabalho que atendesse crianças carentes, crianças que não podem comprar material.
Mas na realidade acaba-se afunilando as aulas e não atinge-se adolescentes e crianças que não têm condições de pagar o curso livre, que é particular.
Eu ainda não consegui viabilizar isso junto ao município para atender crianças carentes em escolas municipais e estaduais.
O máximo que consegui foi a cedência desta sala aqui no Instituto Luiz de Albuquerque.
9-Você já foi surpreendido por novos talentos de Corumbá?
Daltro -- Sim.
Tem o Adelino da Silva, que é um aluno que está há um ano com mim e teve um desenvolvimento que me surpreendeu muito.
E a cada dia que ele faz aula, ele me surpreende ainda mais.
Acredito que assim como ele, aqui em Corumbá existam vários talentos que o tempo acaba deixando para trás.
Acabam reprimindo o talento e partem para outras profissões.
10-Existe o intercâmbio entre artistas daqui com os da Capital e outros municípios do interior?
Daltro -- Não existe, infelizmente.
O interessante é que parece que a distância entre Corumbá e Campo Grande são mais de 7 horas de viagem.
Tem um vácuo muito grande, eu não sei a que atribuir a isso.
Nem com a cidade vizinha, na Bolívia, que está próxima, não existe este intercâmbio.
Essa relação deveria ser mais intensa.
Existe a vontade que isso aconteça, mas faltam ações que promovam essa troca de experiências.
11-Qual é a situação das galerias do interior?
Daltro -- Não existem galerias no interior que exponham trabalhos permanentes dos artistas do interior, nem daqueles que vêm da Capital.
Se o turista ou as próprias pessoas da cidade que queiram conhecer o trabalho dos artistas locais, do Estado ou mesmo de artistas que estejam de visita ao município, não existe um local apropriado.
E isso a meu ver é uma falta grave.
12-Como é o público do interior sul-mato-grossense?
Daltro -- É um público exigente, mas não existe um mercado de arte em Mato Grosso do Sul.
O pessoal do interior é um público que conhece, que tem sensibilidade, intuição, principalmente na arte que remete ao Pantanal, mas não tem poder aquisitivo para comprar as obras.
13-Quais são os pintores de Corumbá?
Daltro -- Rubem Dario, Edson Castro, a Peninha, o Elker e o Jorapimo, que foi precursor da pintura modernista aqui no Estado.
Ele produziu muito e acabou abrindo espaço para outras vertentes.
Os temas regionais são muito abordados por os artistas corumbaenses, como lavadeiras, pescadores, paisagens do Pantanal.
O Jorapimo inspira muito a gente por sua luta, que iniciou há 40 anos, desde a época do Mato Grosso Uno.
Seu exemplo e persistência nos dá força, ânimo para continuar produzindo.
O meu grande anseio em Corumbá, é que sinto a falta de artistas na rua, pintando com o cavalete nas ruas, produzindo artesanato nas ruas, assim como acontecem em cidades litorâneas do Brasil.
É preciso organizar um festival para as coisas acontecerem neste sentido.
Uma cavalete na rua, uma telinha simples, sem precisar uma fundação de cultura organizar.
Se isso acontecesse periodicamente, quando chegasse a época do Festival América do Sul, a integração seria ainda maior, porque as pessoas da cidade já conheceriam mais de perto o trabalho dos artistas locais.
-- O que você pensa sobre a arte?
Daltro -- A arte tem que ser do povo, se ela sai de uma instituição ela acaba não atendendo as necessidades da população.
Por exemplo, a festa do Banho de São João de Corumbá.
Ela funciona muito bem porque são as famílias corumbaenses é que organizam o evento em suas casas.
As instituições públicas não têm uma participação direta na festa, elas apenas divulgam o acontecimento, e por isso ela funciona que é uma maravilha.
Eu acredito que ela funciona porque existe a espontaneidade e a naturalidade do povo.
Quando a política se envolve com as manifestações espontâneas do povo, elas perdem a sua essência.
O Banho de São João
Fundada em 1778, Corumbá concentra uma das maiores comunidades do candomblé e umbanda do País.
O rio Paraguai que passa à margem direita da cidade inspira e atrai todas as tendências religiosas.
Uma das manifestações locais de forte apelo popular é o sacro-profano Banho de São João nas águas do rio, à meia-noite, na passagem de 23 para 24 de junho.
O Banho de São João teve origem na Europa com o costume português do banho-de-rio obrigatório no dia do santo a partir do século 14.
Em Corumbá, conforme relato de historiadores, a tradição nasceu com os árabes por volta de 1882.
De acordo com o ritual a imagem do santo é levada em procissão até o Porto Geral, uma das referências históricas da cidade, para o banho que irá renovar as forças de São João e abençoar tudo o que se relaciona com as águas e com o homem.
A festa tradicional é uma das principais atrações turísticas de Corumbá, ao lado do ritual da lavagem das escadarias da Igreja Nossa Senhora da Candelária, construída em 1885, e a festa de Iemanjá, também à beira do rio Paraguai.
São manifestações religiosas únicas em Mato Grosso do Sul que expressam a predominância da cultura afro-descendente na cidade, com cerca de 70 % da população.
(Informações adicionais sobre a festa do Banho de São João foram tiradas do site: turismo.
news. com.
Número de frases: 99
br) Queridos amigos:
Os que me conhecem sabem de minhas convicções ateistas e devem até achar graça em que eu me disponha a discutir a natureza «Capital» da Fé que, considero, é vivenciada na minha amada Oeiras.
Certamente muitos vão pensar que a minha peroração possui natureza puramente laudatória sem nenhuma base na realidade.
Estaria, talvez, tentando retribuir todo o carinho e energia que esta cidade me transmite diariamente.
Há, no entanto, nesses julgamentos, um erro que eu espero poder demonstrar até o final deste artigo.
Fique claro que não conheço todas as cidades brasileiras que tem na religiosidade a sua maior referência.
Fique claro também, que não passei a vida procurando conhecer este tipo de cidades e fazendo comparações
Mas cidades como Aparecida do Norte, em São Paulo, e inúmeras outras em todo o Brasil e, em especial, no Nordeste brasileiro, em algumas já estive lá, e, em outras, ouvi muito falar de suas manifestações religiosas:
estas, também chamadas Cidades-Santuários, constituem o padrão das cidades religiosas no país (exemplo piauiense: Santa Cruz dos Milagres).
Nada com isto.
Oeiras nada tem a ver com Santa Cruz dos Milagres ou, mesmo, Aparecida do Norte.
Não há peregrinos em Oeiras, ninguém faz Romaria a esta cidade.
Trata-se, aqui, não de um santuário, onde se acorre em busca de algum milagre, não!
A fé, em Oeiras, é autóctone, aquela vivenciada por o seu povo, a cada dia, a cada evento do calendário religioso, em cada visita à casa do Divino Espírito Santo, em cada presépio montado por ocasião das festas natalinas
Anos atrás, passeando em Salvador com minha filha, então pré-adolescente, fomos visitar, na Sagrada Colina, a igreja do Nosso Senhor do Bonfim.
A quantidade de pessoas que, nos arredores, e até dentro da igreja nos assediou, tentando vender pulserinhas, chegou a deixar-me traumatizado, a ponto de sair corrido de lá.
Em a mais impressionante manifestação religiosa de Oeiras, a procissão de Bom Jesus dos Passos (na verdade, a única solenidade religiosa em que acorrem pessoas vindas de fora do município), onde mais de trinta mil fiéis participam, alguns, inclusive, pagando promessas, não se encontra um único santinho para vender.
Para o bem ou para o mal, Oeiras não comercializa a sua fé, o que, para mim, lhe confere autoridade sobre os tais santuários para os quais há um preço para cada um dos objetos «santificados» ali largamente comercializados e objeto de uma enorme propaganda a respeito dos milagres e das graças concedidas aos peregrinos.
Liturgia levada a Sério
O que, desde o primeiro contato, me encantou, nas cerimônias religiosas de Oeiras, é a pompa e circunstância com que, cada um dos eventos, é tratado, o que inclui até, em algumas de elas, a indumentária do povo.
Em a procissão dos passos, os fieis se vestem de roxo, o que chega a repercutir, nos dias que a antecedem, nos estoques de tecidos daquela cor expostos nas lojas.
Branco e Vermelho, pureza e ardor, são as cores predominantes -- muito interessante, e cheia de detalhes, é a festa do Divino Espírito Santo (Pentecostes) que ocorre 50 dias após a Semana Santa.
O Divino, representado por uma pomba trazida de Portugal no final do século XIX, juntamente com uma coroa e um cetro permaneceu, durante todo ano anterior à festa, numa casa, escolhida por sorteio.
Em esse período a Casa do Divino recebeu visitas diárias de devotos cujas presenças foram anotadas num livro.
Em o ano passado o livro de presenças recebeu mais de 35 mil assinaturas, mais ou menos o mesmo número de habitantes de Oeiras.
Anos atrás, a casa escolhida para abrigar o Divino foi a da família do atual Secretário de Cultura de Oeiras, Stefano Ferreira (aliás, também overmano).
Quando perguntei a ele se não achava um tanto invasiva a presença diária de devotos, a partir das seis horas da manhã, em sua casa ele não apenas negou, como afirmou que, quando o Divino saiu de lá, a família vivenciou um sentimento de perda, de vazio.
Em o dia da festa o povo veste branco e vermelho e bandeirolas nestas cores, mandadas confeccionar por a família em cuja casa o Divino se encontra, enfeitam as ruas por onde passa a procissão.
Para conhecer mais sobre ela, leia a Festa do Divino em Oeiras
Fogaréu O evento religioso talvez mais fotografado de Oeiras, a Procissão do Fogaréu, quando apenas homens, carregando lamparinas acesas, percorrem o centro histórico da cidade (tradição que também existe na cidade de Goiás) na Quinta-feira Santa permite, por suas próprias características, um pequeno comércio de lamparinas levado a efeito, em geral, por meninos.
Mas isto, é claro, nada tem a ver com aquilo que chamei de mercantilização da Fé.
Aliás, é interessante notar como duas cerimônias religiosas -- a de Goiás e a de Oeiras -- teoricamente as mesmas, podem ter interpretação tão diferenciada.
O Fogaréu de Goiás, vi na TV, tem a participação de homens vestidos de soldados romanos e caminhando em ritmo marcial;
representa a busca noturna (daí as lamparinas) com o objetivo de localizar e prender Jesus Cristo.
Em Oeiras, perde todo esse caráter repressivo sendo bons cristãos os participantes que entoam cânticos em louvor a Jesus Cristo.
Sem ter nenhuma certeza maior, considero mais plausível a interpretação goiana do evento religioso.
Importante lembrar que os oeirenses, espalhados por todo o Brasil, sempre que podem, visitam Oeiras, preferencialmente, durante a Semana Santa (que começa uma semana antes, na quinta-feira da fugida, que antecede os Passos do Bom Jesus, como disse, o principal evento do vasto calendário religioso de Oeiras).
Em esse período, aproveitando a presença maciça dos oeirenses nostálgicos, ocorrem importantes eventos culturais paralelamente aos de natureza religiosa.
Revendo muitos de seus filhos, Oeiras se renova.
Há outras efemérides importantes, como a procissão em louvor a Nossa Senhora da Vitória, Padroeira de Oeiras e do Piauí (15 de agosto) e a de Nossa Senhora da Conceição (8 de Dezembro), que, nos últimos anos, tem sido a data utilizada para a realização dos Festivais de Cultura de Oeiras.
Esta simbiose entre eventos religiosos e culturais é outro dos motivos por os quais esta cidade, Capital Brasileira da Fé, me encanta.
Número de frases: 41
Anote:
dos cerca de 186 milhões de brasileiros, 49 milhões têm acesso à Internet.
O número foi recém-levantado por o Datafolha, em pesquisa encomendada por a agência de publicidade F / Nazca, e revela um galope em relação a 2000, quando somávamos parcos 9,8 milhões de brasileiros na rede segundo o Ibope.
O progresso também foi sentido numa área em crescente expansão no Brasil, e no mundo todo:
a do conteúdo colaborativo.
Se antes ter uma página na rede era sinônimo de um cartão de visitas virtual, com uma ou outra notícia, uma barra de rolagem gigantesca e um design «linderérrimo» ao estilo tudo-em a mesma página com direito a gifs animados, agora as possibilidades são múltiplas e os horizontes, completamente interativos.
A Internet evoluiu -- e o usuário também.
De os 843 entrevistados que navegam por a rede segundo a pesquisa com 2.166 pessoas, 42 % já inseriram conteúdo no ciberespaço, na maioria das vezes voltado para sites de relacionamento (33 %) ou exclusivamente compostos por textos, notícias e histórias em geral (5 %).
Jovens entre 16 e 24 anos dominam 61 % da rede colaborativa.
Agora, um adendo:
a pesquisa foi feita com entrevistados a partir dos 16 anos.
Portanto, não computa os milhões de adolescentes na faixa etária dos 13 anos que sacolejam Orkuts, Myspaces e tudo o mais que puder fazer parte do elenco «tá tudo dominado».
Pensemos adiante:
se são os jovens que abocanham a web, incluindo aí a criançada, e se o conteúdo colaborativo é ainda uma novidade em expansão, o MSX do nosso Intel Core 2 Duo, imaginemos a revolução que se inicia.
Um grito, portanto, ecoa na Galáxia da Internet:
o da necessidade urgente de incluir digitalmente aqueles que infelizmente ainda não nascem imersos nessa nova realidade.
Segundo Fernand Alphen, diretor de planejamento da F / Nazca, em entrevista ao jornal gratuito Destak, a Internet tem ' alta ' penetração nas classes C, D e E, não sendo, portanto, «coisa de rico» como se pensava há um bem próximo outrora.
«Quanto mais periférica é a população, mais a internet aparece como uma solução de inserção social, de acesso ao entretenimento e à informação, porque é um meio muito barato», atesta.
Ok.
Mas e qual a forma de inserir de fato a população de baixa renda nesses números galopantes?
Como promover a inclusão social através da inclusão digital?
O One Laptop Per Child, computador de US$ 100 desenvolvido por uma ONG americana, é apenas um burburinho comercial da Intel, com respingos discretos no governo Lula, ou de fato será revertido na educação de tantas milhões de crianças?
E o tal do laptop popular?
Em um mundo onde a ONU estima que 19 % da humanidade viva com menos de US$ 1 dólar por dia, se US$ 100 já pode ser um exagero, imagina os R$ 1,8 mil proposto por nosso governo ...
Finalizo o post com a pergunta:
O que mais cresce no Brasil:
o número de brasileiros com acesso à Internet ou a desigualdade digital justamente proporcionada por esse crescimento?
Número de frases: 27
Pensai, professor, pensai.
Alguns residentes da capital Aracaju poderiam considerar a cidade de Lagarto como fim-de-mundo.
Não saberia dizer como eles considerariam o povoado Campo do Crioulo, habitat do duo Lacertae.
Além do fim do mundo, talvez.
O certo é que a dupla consiste naqueles fenômenos raros e únicos do meio musical, que brotam de lugares longínquos como Ituaçu / BA (Gilberto Gil) ou São Bento do Una / PE (Alceu Valença).
Deon Costa e Aldemir Tacer são daqueles que não teriam como fazer outra coisa na vida a não ser música.
E, apesar de já terem ido longe, continuam na luta pra expandir o som «campestre» e, ao mesmo tempo, intervir na comunidade que habitam.
há cerca de 15 anos, o Lacertae (que significa lagarto, em latim) era na verdade um trio, e o som, bem mais sujo e agressivo.
Mas desde o começo algo bem peculiar fazia o som dos caras sair do lugar-comum.
Eles simplesmente aboliram o baixo da formação da banda.
Segundo os próprios, eles até tentaram, e não gostaram.
Somado à guitarra hendrixiana mais a bateria no melhor estilo John Bonham, havia o vocalista, líder e principal articulador Paulinho.
Esse trio chamou a atenção de gente como Chico Science (que os convidou a Recife) e Dado Villa-Lobos, que lançou a banda nacionalmente na coletânea de seu selo Rock It, o CD Brasil compacto.
A repercussão foi gigantesca.
As dissonâncias distorcidas de Deon (que costumava mexer na afinação da guitarra sem nem saber exatamente o que estava fazendo) e a percussão que Paulinho fazia com escapamentos de carro, penico e coisas do tipo levaram o público do Abril Para o Rock em 1996 ao delírio.
Parecia o auge.
Mas, logo após, viria o declínio.
Depois de passar um tempo em Recife, ao que parece, o vocalista não queria mais voltar, apesar do apelo dos companheiros.
Mergulhado fundo nas drogas psicodélicas, Paulinho literalmente pirou e hoje em dia está longe da fúria em que entoava suas poesias no palco.
Parecia um fim triste para uma carreira meteórica.
Eis que anos mais tarde, a dupla remanescente renasce com um som renovado, e mais uma característica percussiva-inventiva.
Estreando o novo repertório no festival Rock-SE, em 98, o batera Tacer apareceu com um berimbau acoplado a uma pequena mesa-de-som a qual ele acrescentava efeitos, ao mesmo tempo em que tocava seu instrumento oficial!
As letras e o vocal de Deon continuavam numa linha puxada para a poesia, mas a raiva havia dado lugar à calmaria do Campo do Crioulo.
Os improvisos tornaram-se bem mais freqüentes e longos.
Foi nesse clima que o primeiro disco da dupla teve seu lançamento.
Berimbau de cipó de imbé (2002, independente) foi gravado num conservatório em Recife, e primeiramente, lançado num formato que remetia a um disco de vinil.
O relançamento no ano seguinte trazia -- além de uma bela remasterização -- a tradicional caixinha de acrílico e uma pequena modificação na ordem das faixas.
Um clássico absoluto!
Foi mais ou menos durante o período de feitura do primeiro álbum que o Lacertae se organizou ao redor de uma idéia chamada Casa de Cultura Zabumbambus.
Como os ensaios da banda costumam chamar atenção das crianças da região, mesmo informalmente, os dois começaram a dar verdadeiras clínicas musicais, colocando a gurizada pra tocar berimbau ou o que estivesse em mãos.
De simples idéia, o projeto se transformou em OSCIP -- Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, ganhou aprovação da Lei Rouanet, e até hoje a banda levanta fundos para construir a casa propriamente dita.
O novo CD do Lacertae foi lançado em 2005 por o selo Amplitude de São Paulo.
Intitulado A volta que o mundo deu, o disco rendeu um show de lançamento no SESC Pompéia e resenhas elogiosas na Folha de S. Paulo.
Mais recentemente, a Casa de Cultura Zabumbambus anda promovendo festas eletrônicas em Lagarto, onde Tacer atua como o DJ Beridrum, e também como guitarra e voz de uma nova banda, o Uni Campestre, que conta ainda com Gildécio Costaeira, artista plástico responsável por toda a arte do Lacertae nos discos, shows e site.
Para ouvir a música campestre e assistir matérias sobre a banda:
Número de frases: 35
www.lacertae.com.br A Contribuição da Universidade Católica de Goiás para a preservação da memória musical do Cerrado
O Instituto do Trópico Subúmido da Universidade Católica de Goiás, baseado num grande acervo sonoro contendo diversas manifestações culturais do Brasil Central, área dominada por o Sistema Biogeográfico do Cerrado e, de acordo com seus objetivos que visam o estudo do cerrado nos seus aspectos físicos e humanos, implantou no ano de 2.000 o Centro de Folclore e História Cultural.
De a implantação deste Centro, uma série de projetos começou a ser estruturada, de entre estes, o Projeto Sons do Cerrado, que tem como objetivo maior colocar à disposição da comunidade, na forma de CDs, as mais diversas manifestações culturais / musicais produzidas e resgatadas na região do cerrado.
Salvaguardar os diversos valores culturais é a principal tarefa desse projeto, que visa a recuperação e registro das manifestações folclóricas do cerrado através de relações mais solidárias entre o Homem e a Natureza, relações estas atualmente interrompidas por o avanço para áreas isoladas do capital financeiro e da tecnologia avançada.
O material que inspirou a implantação do Centro de Folclore e História Cultural do Instituto do Trópico Subúmido, vem sendo coletado desde 1971 por o Prof. Altair Sales Barbosa, e espelha uma grande diversidade cultural de áreas importantes da região do cerrado.
Acrescenta-se a este acervo sonoro, material coletado desde início da década de 50 em comunidades indígenas habitantes do cerrado, por o pesquisador Jesco von Puttkamer.
A partir de agora, o Sons do Cerrado irá disponibilizar alguns arquivos de sons, imagens e partituras deste projeto.
Número de frases: 7
Quilombo é uma palavra de origem quibundo que segundo alguns historiadores, significa:
«acampamento guerreiro na floresta», sendo entendido como divisão administrativa.
Em o período do tráfico de escravos para as Américas, existiam na África Meridional diversas formas de organizações dentro da região africana (reinos, estados, chefarias, hordas, sociedades de linhagem, etc.).
Afirmam alguns que Quilombo era uma forma em que alguns grupos africanos estavam se organizando socialmente, mas esse processo fora interrompido abruptamente por conta do tráfico negreiro, e aqui no Brasil os povos daquelas regiões tentaram reproduzir aquele processo dentro dos diversos Quilombos que aqui existiram.
Segundo pesquisas atuais, Quilombo era um «estado de guerra» estado vivenciado no Reino da Rainha Njinga em tempo de guerra com os portugueses.
A Rainha com toda a sua corte, vassalos e soldados, armava acampamento de guerra na floresta, prontos para o ataque ou contra-ataque.
Seja ordenamento político, acampamento guerreiro na floresta, estado de prontidão para a guerra, os Quilombos existentes no Brasil tinham as mesmas intenções e características daqueles de a região africana, ajustados a mesma situação.
Contemporaneamente, o termo Quilombo genaralizou-se e ampliou-se refletindo para nós toda e qualquer forma de Resistência.
Conscientizar o Jovem que a Paz é o Melhor Caminho, que o Verdadeiro Valor da Vida está nas Simples Coisas.
Que nos Pequenos Atos e Gestos como um simples Bom dia!
Boa tarde!
Seja feliz!
Muito obrigado!
Podemos mudar nosso Meio-Ambiente, nossa Vida, nossa Comunidade e nosso Mundo.
Resgatando assim os vínculos sociais de Proximidade, para Crescermos numa sociedade em que os Valores individuais sejam Respeitados, para nos orientar nessa difícil, porém, possível tarefa de estabelecer a Paz.
Através das nossas experiências nos guetos, favelas e palafitas de Salvador, principalmente no nosso tão Amado e Abençoado bairro Nordeste de Amaralina e Coutos no Subúrbio Ferroviário, onde presenciamos que a problemática da violência esta atuando de uma forma mais visível e complexa.
Que nós Jovens integrantes, formadores, atuantes e militantes do Movimento HIP-HOP Organizado da Bahia, que é um movimento sócio-político cultural e totalmente apartidário, resolvemos forma a Frente Quilombo Moderno onde trabalharemos as Artes, Esportes e a Cultura de Rua que estão vinculadas ao Movimento HIP-HOP.
Com o intuito de combater a pobreza e a exclusão social que são os caminhos para a prevenção da violência, num único e objetivo propósito de estabelecer uma Cultura De Paz, pretendendo realizar um trabalho Forte e Qualitativo.
Sabemos que existem mais de 32 milhões de brasileiros que vivem na mais absoluta condição de miséria.
Sem direito a saúde, educação, alimentação, saneamento básico e moradia digna e decente, ou seja, sem nenhum direito à cidadania.
Aqui, principalmente em nossas comunidades assistimos de tempos em tempos, no nosso dia a dia Futuros Artistas, Futuros Líderes e Talentos se perdendo no caos de um sonho, que foi massacrado por as necessidades primárias, que é ter:
uma vestimenta, um prato de comida e um lar para se abrigar das intempéries da vida.
Atuando assim, nos chamados sub-empregos e todas as formas imagináveis e inimagináveis da exploração do trabalho infanto-juvenil, para obter algum ganho familiar que não deixa de ser uma questão de sobrevivência.
Talentos que com uma vida tão sofrida e amargurada voltaram-se para o mundo dos desprazeres.
Se perdendo numa mesa de bar, numa boca de drogas, para assim conseguir eliminar as angústias de um cotidiano tão amargo.
Estamos cansados de vivenciar misérias e angústias, de ver nossa Juventude vivendo como indigentes, de vê-los roubando na tentativa de saciarem seus sonhos de consumo e até mesmo na busca da sobrevivência.
De vê-los caídos no chão tendo crises e ataques causados por a dependência do crack e de vê-los principalmente, perdendo suas Esperanças, seus Sonhos e Oportunidades de uma Vida Melhor e Feliz, de uma Vida Normal e Bem Sucedida.
Dentro de tais acontecimentos chocantes, perplexos e intolerantes.
Que nós Jovens do Movimento HIP-HOP Organizado da Bahia, moradores do Nordeste de Amaralina e Suburbio Ferroviario de Salvador.
Vimos à necessidade e tivemos pôr obrigação criar a frente Quilombo Moderno, que irá atuar como um diretório funcional e operacional das Artes e Culturas de Rua do HIP-HOP, na total compreensão que tais problemáticas, podem e deve ter um fim.
E que uma das opções para tal fim, esta no parâmetro do Movimento HIP-HOP.
Pois este, tem como finalidade dar Oportunidades para que o Jovem através de uma das suas atividades, seja na Musicalidade, na Dança, na Arte ou no Esporte.
Possa se conhecer e conhecer o Ambiente em que vive, e possa assim, se manter como uma Pessoa Superior cuidando do Bem Estar de todas as Coisas.
Fazendo isso, aceitando a responsabilidade por a Energia que ela manifesta tanto na sua atividade como Cidadão, quanto no Reino Sutil de se Auto-Conhecer como parte integrante do Reino Animal.
Para quando estiver olhando uma árvore, ela não possa ver apenas um acontecimento isolado.
Mas raízes, folhas, água, solo e sol.
Cada um de eles se relacionando com os demais e a árvore aflorando dessa relação.
E olhando para Si Mesmo ou para outra Pessoa, ela possa ver a mesma coisa.
Árvores e animais, humanos e insetos, flores e pássaros.
Para que em sua Superioridade, ela possa compreender e entender que sua Própria Energia tem parte nisso.
Que compreenda e entenda que vivemos num corpo e somos, portanto, Seres Sexuais.
E que nossa sexualidade, seja um veículo para Honrar e Respeitar a Vida de todos os Seres.
Que compreenda e entenda que vivemos em relacionamentos uns com os outros e somos, portanto, Seres Sociais.
E que cada relacionamento oferece-nos a Oportunidade de Dar e Receber com o Coração Aberto.
E de que nós participamos direta ou indiretamente, conscientes ou inconscientemente das estruturas que nos governam e de que somos Seres Políticos em Virtude dessa Participação.
Que ela finalmente possa compreender e entender, que Nossa Vida permite Contribuir para a Criação de estruturas que Respeitem a Dignidade e o Espírito de todos os Seres.
Compreendendo e entendendo essas Simples, mas, porém, Grandes Coisas.
Ela Respeitará a Terra como sua mãe, os Céus como pai e todas as Coisas Vivas como irmãos.
Cuidando De eles, ela estará Cuidando de Si Mesma!
Dando a Eles, ela estará Dando a Si Mesma!
Ficando em Paz com Eles, Ela estará Sempre em Paz com si Mesma.
Levar o Jovem ao contato direto com a Natureza do seu Ser, Criando assim, um Afeto Mútuo.
Fazer das Artes e Culturas do HIP-HOP, uma Fonte de Realização e Expressão do Viver.
Levando o Jovem a Amar, a Respeitar e a Cuidar do seu Meio-Ambiente.
De aí Amar, Respeitar e Cuidar do seu Semelhante como Parte Integrante desse Belo Quadro da Natureza.
Levando-o Sempre a afirmar com toda a sua convicção, sem nenhuma utopia que:
O Meio Ambiente Esta no Meio da Gente!
Nós Jovens do Movimento HIP-HOP.
E agora perante essa Frente que já aqui formada, vamos provar com Trabalhos e Concretizações, que não estamos simplesmente sonhando.
Não encaramos nossa política como um simples engodo.
Pois é de um Sonho e de um Pensamento Construtivo, que o Real e a Mudança Transborda e Surgi.
Vamos fazer nossa própria política e nosso próprio movimento.
Política essa revolucionária e armada.
Sim! Com as nossas melhores armas anti-violências.
Que é o Graffiti, o Rap e o Break.
E principalmente Nossos Sonhos e Desejos de Igualdade Social e Racial.
Que é o Bem Estar de Todas as Coisas!
Em esse contexto, a frente por o qual batizamos de Quilombo Moderno surge como uma Fonte de Formação e Informação, incentivando no Jovem o desenvolvimento de procedimentos que conduzam a Mudança de Valores, Hábitos e Atitudes em prol de uma Cultura De Paz.
É a forma que nós Jovens do Movimento HIP-HOP Organizado da Bahia e moradores do Nordeste de Amaralina, achamos para Contribuir na Melhoria da Qualidade de Vida de Nossos Irmãos, combatendo os abusos de drogas e sexuais e exterminando de vez com as ondas de criminalidades e violência, que vem defasando e destruindo, inúmeras famílias e inúmeros Sonhos de um Futuro Digno para os Nossos Jovens.
Como dizia o Poeta:
Número de frases: 70
Tudo Vale A Pena, SE A Alma Não É Pequena!
Uma das forças do teatro moderno:
criar uma solidão no meio de uma multidão.
O diretor russo, Stanislavski, foi um dos que buscou no ator essa conexão com si mesmo.
Entretanto, uma linha de aderência social capturou essa força e a domesticou como quarta parede:
a ilusão cênica.
Richard Wagner já havia afundado a platéia na escuridão, rompendo com os acenos da sociabilidade de salão, reascendendo no palco o mito.
Mas o movimento de isolamento a que se submetem atores e espectadoers, necessário à fabricação do imaginário, torna-se, po sua vez, um modo de consumo:
a contemplação.
Entretanto, em La Luna de Bernardo Bertolucci, dois adolescentes fazem sexo atrás das poltronas da platéia enquanto no palco executa-se uma ópera de Verdi:
as pulsões dos corpos reivindicam seus direitos e abrem outros espaços imaginários.
Grotowski e muitos outros trouxeram os corpos para o contato mais próximo, já que as demarcações entre criadores e público tornaram-se uma nova convenção social.
Novas armas para romper com os hábitos sociais.
Diferente disso, a cena invade a platéia e a platéia invade a cena.
Novos relacionamentos entre criadores e público.
E o ator, como se localiza nisso?
Grotowski rompeu com o ator cortesão:
o ator santo se despe, não para uma audiência, mas diante de uma audiência.
Diz, pensando em Artaud, que o ator é um supliciado na fogueira e que, de lá, emite estranhos sinais.
Um vocalista e guitarrista de uma banda de rock me surpreendeu e me fez repensar esse lugar do ator no palco.
O acontecido se deu no Teatro Marília, em Belo Horizone, no projeto Quarta Sônica -- rock independente -- (com curadoria do poeta e músico Gil Cevi), com a banda Wry (os caras são brasileiros mas vivem em Londres).
Mas, então, o que se espera de um vocalista / guitarrista de uma banda de rock?
Que ele toque para ou diante de uma platéia.
Armas da sedução, do artista cortesão ou de revelação, do artista supliciado?
Mario Bross, o vocalista e guitarrista, atravessa pelo meio, ao meu ver, tais oposições:
ele aproxima-se ao máximo, parace que olha para alguém e se oferece tocando fundo na alma.
Não faz nada de grotesco ou de exagero, não empunha gestos que excitam ou incendeiam a platéia.
Não realiza truques:
ele se oferece, só isso.
Apenas vai lá, frágil e diabólico, e toca pertinho da boca de cena.
E logo recua, dá as costas, vai para o fundo.
Rogério de Freitas, citando Blanchot, diz:
«é a distância que permite um encontro».
Fala ainda da diferença entre turistas e estrangeiros ...
Penso que Rogério fala do ato de ver, de passar ...
O performer (músico, cantor, bailarino, ator) se relaciona com a espectador como se fosse turista ou estrangeiro?
Isso conecta com o que diretor e fundador do Teatro Antropológico, Eugenio Barba, diz do performer:
este estrangeiro que dança diante de mim.
Richard Foreman, o genial encenador, criador de um teatro não-narrativo, pós-dramático, diz em Unbalancing Acts (Theatre Communication Group: New York, 1992) que o ator de suas performances não deve querer ser amado por a platéia.
Deve, em tudo o que faz, ofertar em segredo para uma única pessoa presente no espaço, como se somente aquela pessoa pudesse perceber:
«I want to see a performer who makes me feel I see what is happening inside his soul, but at the same time gives me the feeling that I may be the only one in the audience perceptive enough to pick up on it." [
1] Tudo isso me traz a imagem de Jéssica Azevedo, abrindo um grito mudo no meio da rua, fragilizando-se na cena de Fudidos, trabalho que realizei com Ricardo Júnior na Rua Guaicurus (região da baixa prostituição de Belo Horizonte), com os alunos e alunas da Escola de Artes Cênica/Belas Artes / UFMG, em 2004.
Falo de Jéssica porque trabalhamos já alguns anos juntos, mas cada um dos artistas, ali, se fazia possuir por os seus desenhos corporais como passagem para o campo das intensidades.
Estou falando de uma campo sensorial, que pode atingir os sentidos e não de códigos de comunicação teatral.
Richard Foreman lembra que o rigor (diria, a crueldade) do exercício cênico que abdica de todo a sedução é, estranhamente, erótico.
São traços de um teatro que não se vincula ao drama e que não passa por a comunicação, mas por os estados perceptivos que podem se abrir e por a capacidade de sofrer e causar afecções.
[1] " Tradução:
«Eu quero ver um performer que me faz sentir o que está acontecendo dentro de seu espírito, mas ao mesmo tempo me dá o sentimento de que somente uma pessoa na audiência percebe suficientemente para captar isso."
Número de frases: 48
Veja o blog de Luiz Carlos Garrocho:
Existem pessoas que jamais serão felizes.
Porque estas pessoas acham que podem saber tudo, conhecer tudo.
O problema está na arrogância de sua trajetória na vida.
Estes sujeitos realmente não sabem o que querem da vida.
Talvez venha daí o conceito léxico da palavra promiscuidade.
Conceito léxico ou aquele conceito que você retira do dicionário é de tal forma certo ao tecer sobre promiscuidade como falta de eixo, falta de fundamento na vida, porque os promíscuos são assim.
Totalmente sem destino e sem caráter ao que se refere a envolvimento emocional.
O que estes homens tentam expressar como «curtir a vida», de longe já se percebe que seu egoísmo é tanto, que só imagina como prazer aquilo que lhe dá satisfação e tão somente a ele mesmo.
Enquanto que curtir a vida no melhor conceito já encontrado é:
«Amar e ser amado em troca».
Não amar no sentido de «trepar», trepar não é amar, trepar é simplesmente sexo.
Amar é algo superior ao envolvimento físico.
Coisa, aliás, que os promíscuos nunca conhecerão.
Acredito que o ser humano como indivíduo emocional, está no limite de sua transição como sujeito que ama ao sujeito que só quer prazer -- aquele prazer egoísta e covarde.
Egoísta porque é incapaz de compartilhar prazer, covarde, porque não se envolve seriamente com ninguém, seja por medo de sofrer «novamente», seja por questão de natureza mesmo.
Em outras palavras, existem homens que não querem mais sofrer, e por isso mesmo se tornam frios, e acabam chegando ao nível da promiscuidade e outros que nunca foram sentimentais ou nutriram sentimento por ninguém.
Não existem mais modelos a serem seguidos, a não ser que tomemos como valores seres repletos de promiscuidade ou de mal caratismo (que, aliás, promiscuidade é subconjunto de um vasto conjunto maior chamado mal caratismo).
Não existem mais reflexos da virtude de homens corajosos, nem de guerreiros contra os erros ...
Filósofos mortos, não representam nada quando os reflexos de exemplos não são postos em prática.
O ser humano está morto, mas são zumbis que teimam em se manter ferindo e matando.
A pior forma de morte é aquela que você não sente a terra cobrir teu corpo.
Não critico a prostituição por necessidade.
Embora eu faça isso contra aqueles que não se acham que são putas porque apenas não cobram por seus parceiros.
Vida fácil? Não sei, tudo é uma questão de ponto de vista.
Agora eu vejo um temporal se formando quando alguém fala sobre beijar 5, 7, 9 pessoas durante uma só noite.
Pessoas, estas, diferentes, claro.
Não é estranho?
O que dizer disso?
O que pensar deste tipo de pessoa?
Para mim é sim «tipo de pessoa», já que não consigo imaginar alguém que distribui sua boca a tanta gente num curtíssimo período de tempo como alguém sério.
Mesmo que os promíscuos de plantão batam o pé ao dizerem que não podemos julgar a seriedade de um ser humano por a maneira como ele se relaciona «afetivamente» com outros seres humanos, promiscuidade é sim sinal (e um bom elemento para usarmos como fundamento prático e teórico) de alguém que não tem alicerces morais para ser reconhecido como alguém de caráter.
Quero deixar claro que caráter não tem só aquele que Não mata, aquele que Não rouba ou assalta, aquele que Não estupra.
Caráter não tem Também aquele que não é fiel, aquele que não sabe ser leal.
Adultério, promiscuidade é um desvio de comportamento e de caráter.
É assim que eu lido com esse «tipo de pessoa», praticamente como um criminoso -- dentro de limites, mas sempre visando colocar este» tipo de pessoa " como um ser humano que precisa de ajuda psicológica caso, este mesmo elemento, queira realmente se tornar alguém sério e de caráter.
Gente que não é séria é exatamente este «tipo de pessoa», alguém perverso que não respeita os limites do sentimento alheio.
Egoísta por imaginar que todos têm que ver o mundo sentimental como ele lida.
Ele lida como mundo sentimental da seguinte forma:
«Ninguém É De Ninguém, mesmo aqueles que querem se envolver apenas com um sujeito, que quer ter um relacionamento de qualidade e não de variedade.
Aqueles que querem ter este tipo de relacionamento são muitas vezes taxados por ' este tipo de pessoa ' como seres humanos que não sabem aproveitar a vida».
Apesar de não poder escolher, de não ter opção, quanto a meu desejo sexual, eu reconheço que os adeptos da tribo homossexualismo são em sua grande maioria, ou melhor, imensa maioria, adeptos também do termo e comportamento descompromissado do Experimenta.
Este termo muito levado em conta por ' sexólogos de plantão ` como ' necessário e importante para que possamos conhecer aquele que será nosso parceiro '.
Em meu ponto-de-vista (graças a Deus eu ainda consigo pensar por mim mesmo, ao contrário de grande parte da tribo) isso é uma bela desculpa para que possam ter seu «direito» de ser promíscuo reservada e preservada.
Sexólogos que justificam comportamentos de «ficar por ficar» como atos de experimentar para chegar a alguma conclusão sobre algum tipo de relacionamento mais duradouro, na realidade, estão apenas usando de seus diplomas tão alardeados para justificar o comportamento vil de uma sociedade promíscua e doente.
Não doente por doenças «biológicas», mas doente por doenças sociais, a doença da promiscuidade, da falta de respeito por o sentimento alheio e por todos aqueles que possuem um relacionamento sério.
Essa talvez seja uma «doença» pior que a propriamente dita biológica.
Sexólogos que justificam comportamentos de «ficar por ficar» como atos de experimentar para chegar a alguma conclusão sobre algum tipo de relacionamento, (relacionamento este que Nunca chega), muitas vezes acabam legitimando o ficar por ficar como comportamento permanente e definitivo, ao contrário de que seus discursos completamente suspeitos possam dizer.
Este tipo de relacionamento sério que poderia advir do «ficar por ficar» como ato de experimentar para chegar a uma conclusão gera desconfianças.
Desconfianças, estas, de que este «experimentar» realmente é uma experiência, mas acaba com o tempo revelando que isso é um comportamento definitivo e permanente e não provisório como gostaria de mostrar o tal ' profissional ' da área.
como se realmente fosse importante e necessário «experimentar» para encontrar o parceiro ideal.
Bem, isso me faz pensar o seguinte:
experimentar o quê?
O sexo, neste caso.
Para que alguém experimentará alguém sendo que relacionamentos baseados somente no sexo têm data de validade limitada (ou seja, não duram o suficiente) e o que o melhor tipo de relacionamento é aquele que não é descartável e sim baseado no sentimento e companheirismo?
Este tipo de «profissional» usa de sua formação acadêmica para formar opiniões alheias que determinado tipo de comportamento como algo legítimo, seja este comportamento próprio do «profissional» ou de outros.
Então, seus milhares de diplomas colocados na parede de seus «consultórios» tentam legitimar seus comportamentos como algo legal, bacana, honesto e simplesmente natural do ser humano.
É natural do ser humano agir conforme sua consciência.
É bom não misturar os assuntos.
Enquanto que o tal «profissional» apenas está usando de sua formação acadêmica para legitimar um comportamento que a ele lhe satisfaz.
É fácil alguém sendo veterinário dizer que o cão da raça dálmata que não possui as pintinhas pretas é surdo, porque o mesmo gen que determina a boa formação dos ossos do ouvido interno também determinam as manchas.
Então, ele é o mais aconselhado a falar sobre o assunto, mas muitos usam de seus «diplomas» como legitimadores de pensamentos particulares e razoáveis.
Está aí o perigo, é aí onde as «sementes da discórdia» são lançadas ao solo.
Sexólogos podem saber quase tudo sobre sexo.
Embora este «diploma» nunca lhes traga autoridade ou legitimidade sobre o melhor e mais perfeito campo que caracteriza o ser humano:
Os Sentimentos.
A capacidade de alguém amar alguém, de gostar de alguém, de ter carinho, dar carinho.
Sentir que em outra pessoa existe o calor, a atenção, o companheirismo, que pode sim ser dado somente por uma pessoa, e ser sim aceito por apenas uma pessoa.
Todas as justificativas de não se ligar a alguém, seja porque ainda não encontrou (porque está experimentando) seja porque não querem mesmo se ligar a ninguém vão por terra quando é afirmado, que aqueles que não se ligam a ninguém são promíscuos porque a promiscuidade quer dizer não saber o que quer, ou fora do léxico, incapacidade de ser fiel.
Incapacidade esta não no quesito não querer ou não desejar, mas relacionada à natureza da pessoa.
Aproximadamente assim:
Como você quer que um gato lata?
Sendo que quem late são os cães?
Existe aí uma incapacidade fisiológica do animal soltar um ruído que não é próprio de sua natureza animal.
De a mesma forma o promíscuo não é capaz de ser fiel.
Alguém promíscuo não é capaz fisiologicamente de ser fiel, por mais que ame alguém.
Existe um discurso pronto que diz:
«Quando eu amo, eu sou fiel."
Isso é uma imensa bobagem, visto que fidelidade em nada tem a ver com amor, tem a ver com natureza humana, natureza do caráter humano.
Então, para que alguém seja fiel a outro é necessário controle, é necessário costume, hábito.
Aquele que não pratica a fidelidade, não é capaz de mostrar fidelidade, quando «chegar» a pessoa ' certa '.
É como um vício.
Então, neste mesmo erro aqueles que defendem a «lei do experimenta» caem.
Costumo dizer:
«Não é porque eu não encontrei a pessoa certa, não é porque eu não amo meu namorado, ou parceiro, que eu devo ser infiel, ou desleal».
Porque ser infiel e desleal não é uma questão de amor, ou de amar, é uma questão de caráter, de natureza pessoal.
A não ser que a pessoa mude sua natureza, que se reforme quanto a seu comportamento sexual ele jamais conseguirá se ligar a alguém mesmo que o ame, e ser fiel.
Ele continuará sendo infiel.
A única diferença que existe entre «putas» e «promíscuos» é que trepar com promíscuos é de graça e que as «putas -- propriamente ditas» são espertas, cobram.
Beijar é bom.
Transar é bom.
Ficar por ficar desde que ambos saibam de ante-mão que não vai rolar mais nada depois, que não terá uma continuação é bom também.
Não por a atitude de ficar, mas por o caráter de ninguém estar sendo enganado ou trapaceado.
Não sou adepto do ficar por ficar, porque tenho consciência que -- no mínimo -- eu encontrei meu corpo num lugar melhor, para ser usado a favor da promiscuidade.
Também não digo que nunca fiquei por ficar, que nunca beijei por beijar, que não transei por transar.
Embora isso nunca tenha se tornado um hábito.
Ao contrário da maioria da tribo ter este comportamento, eu me reservo o direito de querer ser amado com qualidade e não por variedade.
Quem faz uso do «ficar por ficar», acaba correndo o risco e muito das vezes caindo na armadilha de se tornar um ser promíscuo.
Alguém que não sabe o que quer, alguém que não se contenta em ter apenas um amante.
Estes, mesmo que amem alguém (coisa que eu duvido), nunca conseguirão ser fiéis ou leais.
A não ser que encontrem uma pessoa tão promíscua quanto, daí o circo da promiscuidade se arma.
Onde ninguém é de ninguém, e «lavou tá novo», isso tudo cheira a esterco e a esperma seco.
Coisa de gente porca, claro.
Realmente é assim:
o mundo gay é um universo de promiscuidade entremeado por raríssimas exceções, onde eu e alguns outros são exceções.
Existem pessoas sim como eu que são fiéis, que não são adeptos do ficar por ficar como hábito e modo de vida.
Que preferem uma boa punheta (sozinho, por favor) que transar com um cara que nem sabe o nome.
Infelizmente muitos da tribo tem seu «próprio» conceito de fidelidade e lealdade, fazendo com que os reais elementos de um relacionamento sério deixem de existir.
É incrível, eu chego numa boite GLS, e estou do lado de um cara.
Você o escuta dizer:
«Veja quem chegou!" --
ele fala para aquele carinha que está usando boné.
«Quem?" --
diz o carinha de boné.
«Josias, ele é ativo, tem um pau de 24 cm, beija muito bem.
O único problema de ele é que tem mau hálito».
O tal do Josias entra e vai para a pista.
Saio para o banheiro, não por ansia de vômito, mas é que a cerveja está fazendo efeito.
Ouço um moleque de cabelos loiros falando para um mulato:
«Poxa, viu só, o Jô chegou."
«Ele é legal?"
«Ah, ele não é para você."
«Ué, por quê?" --
diz o mulato.
«Ele é ativo, tem um pau de 24 cm, beija muito bem.
O único problema de ele é que tem mau hálito."
Assim a festa toda você ouve 3, 4, 7, 10, 20 pessoas fazendo o mesmo comentário.
Caramba! Isso é algo muito desprezível.
Por quê? Por que o mundo gay é promíscuo.
Estão, muito naquela idéia de que ninguém é de ninguém.
Isso é algo insuficiente para minha cabeça, para meu modo de vida.
É isso que me deixa decepcionado em relação a tudo.
Falta de um modelo de ser humano, para que eu possa mudar meu conceito em relação a minha própria tribo.
Não vivo como um gay conforme o padrão que existe na sociedade.
Padrão este feito e produzido por os desprezíveis adeptos do oba-oba.
E ainda querem fazer parada do orgulho gay.
Não vou, claro.
Embora eu prometa que no dia quando eu descobrir que orgulho é esse que tanto têm para fazer uma parada ...
Eu vá.
Número de frases: 139
Fora isso, me desculpe, mas não estarei presente lá. (
Este post é um trecho do livro, ainda no prelo, denominado «O Samba e o Funk do Jorjão», cuja idéia central é esmiuçar e desconstruir alguns dos mitos, supostamente, criados em torno da história do Samba -- enquanto uma espécie de síntese da cultura do negro brasileiro, em geral -- mitos estes que, como ocorre com muitas outras ficções antropológicas montadas no Brasil, foram construídos por criativas comunidades de intelectuais, ao longo do tempo e com intenções, quase sempre, muito bem medidas.
Embora tenham sido baseados, claramente, em premissas equivocadas, infundadas ou mesmo deliberadamente falsas, infelizmente, estes mitos foram se cristalizando até se tornarem verdades absolutas, oficiais, por força de sua insistente reiteração (principalmente por certas vias acadêmicas).
Ao que parece, na maioria dos casos, a principal função destas mistificações, é dar sustentação a certos paradigmas da excludente sociedade brasileira, entre os quais aquele que tenta estabelecer -- sempre sem afirmar -- a existência de uma espécie de hierarquia cultural (ou mesmo intelectual), entre as raças ou classes no Brasil, que daria alguma legitimidade a desigualdade social predominante.
De entre estes eletrizantes mitos, o mais curioso talvez seja o do ' Berço do Samba ', que parece tentar comprovar -- na verdade, de forma extremamente sutil -- a velha tese racista de Nina Rodrigues sobre uma improvável supremacia dos negros bahianos (' sudaneses «supostamente maioria étnica na Bahia) sobre os demais (negros» Bantu», vindos de Angola para as fazendas de café do Vale do Rio Paraíba do Sul, certamente, maioria étnica no Rio de Janeiro desde, pelo menos, o início do século 19).
Entre outras fontes, recorri para esta parte do trabalho, aos escritos (em notas assinaladas) de Nei Lopes -- que gentilmente assina o prefácio do livro -- além de Muniz Sodré e Sérgio Cabral, o pai, especialistas que dispensam quaisquer comentários)
Com vocês então:
O Mito do ' berço do Samba
Não deu no jornal:
O dia em que um Samba foi cantado na Mangueira ...
pela primeira vez ... ' Quem cantou foi Eloy Anthero Dias, o'Mano Eloy ', um personagem legendário do samba carioca.
Morador de Madureira, na época, Mano Elói viria a fundar mais tarde pelo menos três escolas de samba (Prazer da Serrinha, Deixa Malhar e Império Serrano).
Foi ainda, segundo dizem, um respeitado pai-de-santo e, durante muitos anos, destacou-se como líder sindical dos estivadores do cais do porto.
» ... Mano Eloy cantou primeiramente na casa de Tia Fé e depois para os integrantes do Pérolas do Egito.
Era um samba do tipo partido alto em que se repetia o refrão e improvisavam-se versos.
O refrão dizia apenas o seguinte: '
O padre diz Miseré Misereré nobis '.
Em seguida, vinham as quadras improvisadas, quase sempre relacionadas com as circunstâncias em que o samba era cantado, Carlos Cachaça lembrou-se que, numa de elas, Mano Elói brincava com a dona da casa, inventando versos como «amanhã vou na casa de Tia Fé», rimando com» vou tomar ' café '».
O Samba de Partido Alto cantado por Eloy, principalmente por o fato de usar uma rima com ' café ', poderia ter algum remoto parentesco com o famoso ' Batuque na Cozinha ` que, por sua vez, já havia sido um conhecido Lundu de letra africana, meio cabalística, bastante famoso na Corte Imperial como ' Lundu do Pai Zuzé ` (este sim, matriz evidente do famoso e posterior ' Batuque na Cozinha ' (assinado por João da Bahiana).
Lundu do Pai Zusé (domínio público -- século 19) '
Batuque na cozinha, Sinhá num qué
Pru causa da crioula do Pai Zusé
Auê, Zambi ...
Zique ...
pá, Zique ...
pá, Zique ...
pá ...
Cadê pirigurê? (
caxinguelê) ... ' Batuque na Cozinha (João da Bahiana, século 20) '
Batuque na cozinha a Sinhá num qué
Por causa do batuque eu queimei meu pé ...
Eu fui na cozinha para a pegá cebola
E o branco com ciúme de uma tal crioula
Deixei a cebola, peguei na batata
E o branco com ciúme de uma tal mulata ... '
Existem muitos outros aspectos curiosos, instigantes mesmo, naquela primeira audição de Samba na casa da bahiana Tia Fé, na Mangueira dos idos de 1910, protagonizada, por o ilustre visitante Eloy Anthero Dias, um encantado Carlos Cachaça, e o pessoal do rancho ' Pérolas do Egito ', muitos de eles talvez futuros integrantes do ' bloco dos Arengueiros ', segundo consta, o núcleo formador da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira.
Embora eles sejam considerados hoje em dia fatos consumados e estabelecidos, que tal dar uma olhada em eles, sob outro ponto de vista?
Para começo de conversa, há na crônica sobre as origens do Samba, um inexplicável exagero na hora de se falar desta impressionante figura que foi Eloy Anthero Dias, o Mano Eloy.
O que se vê invariavelmente legendado em sua história, na época em que cantou pela primeira vez um Samba na Mangueira, é a sugestão de que ele era um ' bamba, exímio sambista, jongueiro, pai de santo e macumbeiro ', cheio de super poderes, um verdadeiro ' Superman ' negro.
Ocorre que este surpreendente Mano Eloy (com certeza um nome que merece mais notoriedade do que lhe dão os especialistas em Samba), por os dados até agora disponíveis, devia estar, no máximo, com 22 anos na ocasião descrita por Carlos Cachaça (que seria mais novo ainda que Eloy).
` ... Há 30 anos que Eloy Anthero Dias (agora aos 43 anos) ...
faz parte do Samba-essa dança que encanta e embala.
Durante este tempo, inúmeros sambas fez ele, inclusive ' Miserê ', ' Não vou lá no candomblé, ' Moro na roça ', e ' B com A ', estes tiveram retumbante sucesso '.
(Trecho de biografia de Eloy publicada por o jornal ' A Rua ', na ocasião em que foi eleito o primeiro cidadão Samba do carnaval carioca, em 1936)
Estando há cerca de sete anos no Rio de Janeiro e havendo ingressado no chamado mundo do Samba com cerca de 18 (portanto há apenas quatro anos antes desta sua ida à Mangueira), Eloy devia ser aquela altura, astuto sim, despachado, descolado;
um jovem prodígio até mas, experiente com certeza ele não poderia ser.
Não havia bagagem de vida, cabedal.
Havia muito chão ainda para o futuro ' bamba ' percorrer.
' ... Sambista nascido em Engenheiro Passos, no estado do Rio de Janeiro em 1888 e falecido em 1971, na cidade do Rio -- para onde viera com 15 anos de idade-( ...)
Mano Elói tornou-se o pioneiro do registro de cânticos rituais afro-brasileiros.
Em esse ano, com o Conjunto Africano, gravou um ponto de Exu, dois de Ogum e um de Iansã.
Seu companheiro nessa empreitada foi o já referido Amor.
O pioneirismo dos sambistas Amor e Mano Elói deve-se ao fato de eles terem levado para o disco verdadeiros cânticos rituais, executados e interpretados como autênticos pontos de macumba, com atabaques e tudo o mais '.
O fato é que, por alguma estranha razão, ligada talvez ao inusitado da situação (quem sabe talvez o fato de ter sido um desconhecido ' estrangeiro ` de Oswaldo Cruz, o verdadeiro introdutor do Samba, no tradicionalíssimo reduto da ' Estação Primeira '), nossos estudiosos acabaram deixando sugeridas na biografia de um Eloy ainda mal saído da adolescência, qualidades que ele evidentemente só iria ter muitos anos depois.
A precocidade de Eloy (a quem também Nei Lopes, de certo modo, atribui a introdução do samba na Mangueira, sob a forma de rodas de Batucada e de Pernada) e de outros grandes mestres do Samba, era bastante comum naquela época, quando os conceitos adolescência ou juventude eram um tanto diferentes do que são nos dias de hoje.
Mesmo neste caso há de se convir, no entanto que, se referindo àquela ocasião, os dotes posteriormente atribuídos a Mano Eloy eram certamente exagerados.
Deu até no Fantástico ':
O Quintal e a Sala da Tia Ciata
O outro aspecto, este mais instigante ainda, é que, se é fato realmente que na Mangueira de 1910 não havia ainda algo que se parecesse com o'Samba de Partido Alto ` trazido por Eloy (fato que explicaria a surpresa do menino Carlos Cachaça) a enfática afirmação da maioria dos estudiosos de que o Samba nasceu na Praça Onze, nos quintais das tais ' Tias Bahianas ', pode não passar mesmo de um mito, um episódio exagerado por a bibliografia.
Se as adjacências da Praça Onze fossem realmente o lugar onde se localizava o'berço do Samba ', porque cargas d' água o Morro da Mangueira, tão perto de ali, seria o último a saber, o único reduto a não participar da construção desta grande novidade que, em 1910 já deveria estar em franca e notória gestação?
Talvez tenha sido porque o que se irradiava da Cidade Nova para o Morro da Mangueira, não era ainda, definitivamente, Samba, e sim Rancho Carnavalesco.
É o que se pode deduzir por a lógica dos fatos, principalmente se destacarmos o emblemático detalhe da reunião na qual Eloy cantou o seu seminal Partido Alto, ter ocorrido, exatamente, na sede de um rancho, o'Pérolas do Egito '.
Pelo visto, era mesmo das bandas do Estácio e, principalmente, da roça de Oswaldo Cruz e adjacências (Morro da Serrinha) que chegavam os novos ingredientes, para engrossar o caldo do Samba que a esta altura, já estava borbulhando, quase no ponto, ali por volta de 1910 / 20.
De todo modo, mesmo sem se saber exatamente quem influenciava quem, a lista de precursores, Pais e Mães do Samba na época, pode ser bem mais extensa -- e variada -- do que aparece na bibliografia oficial:
... ' De todas as tias, a mais famosa e a mais importante foi Tia Ciata ( ...)
em cuja casa os pesquisadores asseguram ter nascido o samba carioca.
Seu verdadeiro nome era Hilária Batista de Almeida, uma mulata muito bonita, que chegou ao Rio de Janeiro por volta de 1870, com 20 anos de idade.
Instalada no Rio, Tia Ciata passou a ganhar a vida com um tabuleiro de quitutes baianos na rua Sete de Setembro. '
Talvez seja mais razoável se deduzir, portanto, que sendo a palavra Samba, por esta ocasião, talvez uma forma ainda genérica para se designar ' Chulas de negro ` ou, simplesmente ' Música de negro ', o que fermentava no quintal da Tia Ciata na verdade -- e eventualmente chegava até no Morro da Mangueira, sem atrair muito a atenção do povo de lá -- não era exatamente o Samba definitivo mas sim, uma das muitas formas de Samba que pipocando aqui e ali na cidade, disputavam uma hegemonia que estava para se cristalizar a qualquer momento.
O tal ' berço do Samba ` poderia estar aquela altura, em qualquer lugar.
Não havia uma estrela guia apontando para a ' Cidade Nova ', como muitos especialistas em Samba insistiram em afirmar.
Contudo, embora sendo um exagero muito oportuno e providencial, pode não ter sido tão gratuita assim a eleição da área da atual Praça Onze, por parte de nossos intelectuais, como o berço oficial do Samba.
Em as primeiras décadas do século 20 (num fluxo que, se inicia na segunda metade do século anterior) o lugar já se configurara como uma verdadeira colônia bahiana, congregando emigrados de diversos tipos, inclusive personalidades do candomblé e até mesmo alguns alufás maometanos, mal vistos em Salvador desde os tempos da última revolta dos Malês.
Situada ali, bem perto do centro da cidade propriamente dita, do centro mundano incrementado por a recente criação do boulevard parisiense que era a Avenida Central, no qual se situavam os ' points ' da intelectualidade carioca, esta colônia bahiana se prestava maravilhosamente bem -- embora de forma simplista -- como representação simbólica, uma espécie de microcosmo da cultura típica -- idealizada -- dos negros africanos na capital federal.
A o que tudo indica, no entanto, a julgar por o que nos demonstram certos antecedentes da história do Samba, este pessoal da Bahia estava muito mais ligado mesmo é na afirmação por aqui, de suas próprias tradições culturais, trazidas do nordeste, entre as quais preponderavam o candomblé e os Ranchos (Pastoris ou Lapinhas), principal paixão cultural destes bahianos.
» ... Carlos Cachaça não guardou na memória o ano em que ouviu samba pela primeira vez em Mangueira, lembrando-se apenas de que foi no tempo do Rancho Pérolas do Egito, tudo indicando, portanto, ter sido antes de 1910.
Mas não se esqueceu das circunstâncias em que o fato se deu ... '
Aliás, pode se considerar por isto mesmo -- e com certa propriedade até -- que, ao que parece, houve uma curiosa subestimação -- ou mesmo omissão -- do caráter essencialmente lusitano da herança cultural trazida por estes grupos de bahianos para a Corte do Rio de Janeiro, herança que possui traços muito evidentes na cultura primordial do Morro da Mangueira, como bem nos demonstra o ambiente encontrado por Mano Elói, nos idos de 1910, quando lá introduziu o gosto por o chamado Samba de fato.
A implantação destas tradições luso-bahianas no âmbito da cultura urbana do Rio de Janeiro foi, inclusive, o motivo de muitas disputas e demandas internas, entre os principais líderes desta colônia nordestina, das quais a mais empolgante talvez tenha sido a que poderia ser chamada de A demanda dos Hilários, desentendimento ocorrido entre Hilária Batista de Almeida, a famosa Tia Ciata e Hilário Jovino Ferreira, segundo dizem o introdutor do Rancho no carnaval carioca, na disputa por a criação de um destes grupos.
A referida disputa, de certo modo, separou os bahianos em duas facções rivais:
A da Cidade Nova (Tia Ciata) e da Gamboa (Hilário Jovino)
Além da eventual opção preferencial por o Rancho Carnavalesco, a julgar por algumas entrelinhas, contidas nos muitos relatos existentes sobre o assunto, o tipo de Samba praticado na casa da Tia Ciata -- a bem da verdade um reduto de certa elite negra, composta por geniais músicos e compositores profissionais, além de funcionários públicos bem sucedidos (o marido de Ciata, o médico João Batista da Silva, era chefe de gabinete do chefe de polícia do Governo de Wenceslau Braz) talvez fosse uma forma de Samba um tanto esnobe, impregnada ainda dos maneirismos estéticos dos diversos gêneros de música européia que andaram em voga no fim do Império, tais como o Schotisches, a Polka e a Mazurka.
` Embora fosse daquela mesma geração, Pixinguinha não era exatamente um homem de Samba.
Ele próprio contou que, nas festas descritas por Donga, não ia para o quintal: '
Eles (os sambistas) faziam seus sambas lá no quintal e eu os meus choros na sala de visitas.
As vezes eu ia no terreiro fazer um contracanto com a flauta mas não entendia nada de samba '.
Em o mesmo artigo, Sérgio Cabral comenta também que, um tal de Marinho que Toca, um cavaquinista, foi quem ensinou Donga a batida do Samba (provavelmente numa das festas na casa de Ciata), ou seja, já naquela altura, do mesmo modo que Pixinguinha, seu companheiro no grupo «Os Oito Batutas», Donga também não era ainda muito chegado ao ritmo do qual, logo depois, seria incensado como o suposto ' inventor ' (pelo menos em gravações).
O que se fazia na casa da Tia Ciata, portanto, era certo tipo de samba negro sim, mas, de certo modo, um tanto ' aculturado ', que já fora chamado antes de ' Lundu ` e tentava agora descolar de si o nome de ' Maxixe ', com o qual a mídia da época já ameaçava batizá-lo de vez, uma espécie de ' Bossa Nova da Belle «Èpoque», em suma.
O que se pode afirmar com certeza é que a receita de Samba tentada na casa da Tia Ciata, foi uma experiência de fusão musical que, pelo menos como Samba, não vingou.
A receita que o caldeirão não conseguiu cozinhar (ou o cozido que não apeteceu a negrada, ao ' populacho ');
uma forma de Samba que, não prevalecendo, foi se diluindo, amarelando com o tempo, abafada por a batucada avassaladora que o povo negro da Roça, liderado por o enorme poder de sedução e persuasão de figuras como Eloy Anthero, veio trazendo para as ruas da antiga Corte.
A o que nos parece, portanto, o Samba definitivo, aquele que emergindo por volta de 1920, se apossa rapidamente da cidade, só começa a tomar forma mesmo, quando o Jongo e outros ' batuques ` instalados nas roças atrasadas da periferia, começam a se espalhar, como água pura -- via cais do porto talvez -- por esta cidade já irremediavelmente partida ao meio por uma imensa e simbólica ' Avenida Central ` que, separando a população entre ' brancos ` e ' crioulos ';
remediados e desvalidos, parte também nossa música popular urbana em duas vertentes culturais quase inconciliáveis, que só se encontrariam para desfilar no Carnaval.
Reproduz-se assim, como num samba enredo improvável, o quadro de intenso apartheid que havia sido instalado na cidade do Rio de Janeiro por seu prefeito, o'smart ' Pereira Passo s, em 1906.
Por este viés, pode-se compreender também, e com maior rigor e clareza, a natureza de uma certa polêmica que opunha de um lado, o'samba ' Por o Telefone ` (aquele filho dileto do ' Maxixe `) e de outro, o'Samba de Partido Alto ` (o filho legítimo da ' Chula Raiada ') aquele que enfim, logo em seguida, açambarcaria de vez o título de Samba de fato.
Em um definitivo depoimento divulgado no livro de Muniz Sodré " Samba o dono do corpo ', Donga afirma enfático que a melodia de ' Por o Telefone ' foi copiada de um tema folclórico, muito popular na ocasião (uma chula, portanto) no qual ele inseriu versos, encomendados ao jornalista Mauro de Almeida.
O que conhecemos como o primeiro Samba gravado, não seria portanto nenhuma novidade.
Em a verdade nem o nome de ' composição ' original mereceria porque, não passava de uma simples paródia (coisa que aliás, segundo o mesmo Donga, era bastante comum naquela ocasião).
Podemos deduzir então que " Por o Telefone ', era uma chula-paródia, em ritmo de Maxixe que, algum esperto produtor (Fred Figner, da Casa Edison ou o próprio Donga), detectando o grande apelo comercial da palavra, resolveu batizar de ' Samba '.
É sintomático inclusive que, começando provavelmente a ser elaborado em 1910, este ' Samba de fato ' tenha tido que esperar quase 20 anos mais para ocupar, no carnaval, o lugar que as marchas, lundus e maxixes ocuparam, durante as duas primeiras décadas do século 20.
' ... O primeiro rancho carnavalesco em Mangueira chamava-se Pérolas do Egito, criado antes de 1910, ano em que surgiram o Guerreiro da Montanha e um outro cujo nome Carlos (' Cachaça ') esqueceu, mas que teria sido formado por os moradores do alto do morro.
Mais tarde, nasceu o Príncipe da Floresta, o mais famoso rancho de Mangueira, que adotou as cores verde e rosa.
Os negros Mangueirenses, no mesmo momento em que tentavam forjar a difícil mistura entre seus candomblés e macumbas com as dolentes marchinhas das Lapinhas, dos Pastoris e dos Ranchos dos lusitanos, devem ter ficado mesmo encantados com a astúcia e a picardia africana, angolana, contida nos ' Sambas de Partido Alto ' trazidos por Mano Eloy.
Segundo alguns autores, foi neste exato momento, quase em 1910, que eles, os Mangueirenses (junto com o pessoal da vizinha Praça Onze), foram irremediavelmente contaminados por o vírus daquele Samba jongado que vinha da Roça ' atrasada '.
Nascia o Samba de Fato.
Seu berço?
Alguma fazenda de café do Vale do rio Paraíba do Sul, provavelmente.
Ou, quem sabe?
Algum pátio de aldeia, próximo à Luanda, Angola.
De certo apenas isto:
O nosso velho Samba não nasceu na Praça Onze ...
E muito menos na Bahia.
Spírito Santo
Janeiro, 2005
Número de frases: 114
Em o Brasil, Nise da Silveira é considerada a introdutora da psicologia analítica, e aquela que irá fundamentar as bases para o trabalho arteterapeutico sem entretanto usar o termo arteterapia para o trabalho que desenvolvia.
Nise da Silveira inicia seu trabalho a frente da seção de Terapêutica Ocupacional do Hospital Pedro II, no Engenho de Dentro, e vivenciando o dia a dia do ateliê percebeu que os trabalhos de pintura e desenho dos internos eram uma manifestação espontânea que requeria maior atenção e estudo aprofundado e sistemático.
«O atelier de pintura me fez compreender que a principal função
das atividades na terapêutica ocupacional seria criar oportunidades
para que as imagens do inconsciente e seus concomitantes motores
encontrassem formas de expressão " (Silveira, 1981)
A produção de desenhos e pinturas do atelier aumenta
diariamente, apresentando qualidade artística impar;
logo artistas se interessam por a produção e passam a freqüentar o atelier como colaboradores.
Uma primeira exposição é elaborada em 1949 intitulada «9 artistas de Engenho de Dentro» exposta no MAM de S. Paulo.
Em o catálogo da exposição Nise faz referências a Jung e aos conceitos de suas teorias como por exemplo as mandalas.
Em 1950 ocorre o I Congresso de Psiquiatria em Paris, o Brasil envia 236 obras.
Já no II Congresso de Psiquiatria em Zurique, Nise da Silveira e Jung encontram-se publicamente, Jung faz questão de abrir a mostra brasileira percorrendo as cinco amplas salas tecendo comentários sobre as obras.
Jung se surpreende com a qualidade das obras brasileiras e intrigado questiona a Nise da Silveira sobre em que condições eram criadas aquelas imagens, Nise responde que procurava criar um ambiente acolhedor, sem coibições e onde se pudesse expressar livremente.
Em o
livro Imagens do Inconsciente Nise descreve:
«Mas eu não examinava as pinturas dos doentes que freqüentavam
nosso atelier sentada no meu gabinete.
Eu os via pintar.
Via suas faces
crispadas, via o ímpeto que movia suas mãos.
A impressão que eu tinha era estarem eles vivenciando «estados do ser inumeráveis e cada vez mais perigosos» (citado de Antonin Artaud) (Silveira,
1981) Nise da Silveira agrega as artes à base cientifica da psicologia
analítica e tranformar uma ocupação cotidiana em emoção.
Com genialidade criativa Nise reformula por completo o tratamento destinado aos pacientes do Hospital Pedro II.
Nise sustenta a exclusão dos métodos terapêuticos tradicionais empregados, como o eletrochoque e a lobotomia, e opera uma reformulação na Seção de Terapêutica Ocupacional.
Entretanto a Dr. Nise da Silveira
antipatizava-se com o termo «Terapêutica Ocupacional».
Para ela faltava-lhe algo:
faltava emoção. (
NISE, 1998, p. 29) Nise
rebatizaria a expressão «Terapêutica ocupacional» após
fato ocorrido no atelier:
«Foi quando certo dia um rapaz freqüentador da Terapia
Ocupacional, em vez de entrar numa das salas de trabalho masculino preferiu entrar na sala de atividades feminina atraído por as qualidades latentes que pressentia existirem num pedaço de veludo estendido sobre a mesa da sala.
Dirigiu-se à monitora Maria Abdo e perguntou:
«Posso com este pano fazer um gato?
«A resposta foi sim.
Então Luís Carlos começou a manipular o pedaço de veludo, dando-lha forma de um gato.
A monitora ficou surpreendida, mas não interveio, salvo na colocação dos olhos do gato, a pedido de Luis Carlos.
Completado assim o gato, Luis Carlos tomou um lápis e escreveu:
Gato simplesmente angorá
De o mato,
Azul olhos nariz cinza
Gato marrom
Orelha castanho macho
Agora rapidez
Emoção de Lidar Enquanto manipulava seu gato de veludo, com surpreendente habilidade,
Luis Carlos parecia feliz e disse:
Como é macio!
Sinto grande
emoção de lidar com ele em minhas mãos».
Essa expressão Emoção de Lidar foi ponto de partida para substituirmos o pesado título Terapêutica Ocupacional." (
Silveira, 1998)
Nise acreditava que o estado psíquico dos pacientes que
manipulavam o material expressivo de tintas, pinceis, argila, através
da pintura, escultura, e outras técnicas, instruídos por os
monitores e artistas, era dotado de forte carga emocional e afetiva.
Sendo esse pensamento o pressuposto fundamental da arteterapia:
que ao lidar com os materiais expressivos mobilizamos sentimentos e emoções.
Libertamos as amarras do sentir, dando corpo plástico a emoção e ao sentimento.
Partindo deste pressuposto a Arteterapia começa a sistematizar seus conhecimentos no Brasil, a partir da psicologia
analítica de Jung e do trabalho pioneiro da Dr. Nise.
Número de frases: 63
Texto extraido da monografia " Arteterapia e Criatividade Feminina / Um encontro Potencializador)
Mesmo correndo o risco de deixar transparecer meu, não desprezivel, lado cabotino, devido à insistência que me acorrem imagens do texto «Era uma vez um jardim da infância», de autoria da Leticia Möller, resolvi tentar, quase num exercício de exorcismo, acertar contas com aquele delicioso texto através da publicação das reflexões que fui fazendo desde o momento em que o li, pela primeira vez.
Um Conto De Fadas
Desde o «Era uma vez» do título, a jovem escritora nos declara que optou por encarar as suas lembranças como se tivesse vivido um conto de fadas.
E prossegue:
«Jardim de Infância, pequeno espaço de fantasia e aprendizado, mundinho feliz todo à parte.
É o Jardim da escola onde sempre estudei a concentrar a maior parte de minhas lembranças escolares felizes.
Três doces, belos anos em meio às tias, aos brinquedos do pátio e da salinha, ao coelho, às galinhas, à horta onde plantávamos e que nos permitia, cheios de orgulho, levar para o almoço de casa alfaces e rabanetes."
Junta-se, portanto, à idéia do conto de fadas, o cenário prefeito para que ele se realize:
o jardim da infância mais tradicional de um dos mais tradicionais colégios de Porto Alegre adrede preparado para isto mesmo:
encantar os pimpolhos.
Acho perfeitamente natural, nestas circunstâncias, que a Letícia, ao fixar a memória neste seu passado, nem tão distante, mas, seja como for, o seu passado o enxergue desta forma idilizada.
Natural, eu diria, mesmo para os olhos de quem procura enxergar a verdade.
E a descrição que faz é decorrência disto, desta conformidade com as lembraças que «^ vê» e nos transmite com riqueza de detalhes, com direito a toalinhas bordadas e brinquedos descritos à minúcia.
Se parasse por aí, ninguém poderia recriminá-la:
todos os elementos que ela mobiliza para a contar sua história são de uma autenticidade plena.
Acontece, no entanto, que a Letícia, não apenas escreve bem;
é uma artísta!
Alguém que, a tudo, e apesar de si mesma, precisa dedicar um segundo olhar para além das aparências.
Doces anos de Jardim, é verdade, mas que tanta doçura não engane.
Para uma menina tímida, sonhadora e um pouco medrosa como eu era, o Jardim podia revelar-se um território quase «hostil».
Até hoje eu me lembro, como se tivesse sido agora, da primeira vez em que li este parágrafo pois não consigo lê-lo sem reviver a emoção que senti naquele dia.
É que, depois de olhar para o magnífico prédio, as instalações, os coelinhos e outros bichinhos, a horta, as professoras tão dedicadas, os brinquedos, a preparação para as festas, o entusiamo das mães arrumando as filhas, todo este inegável encantamento, de repente, não mais que de repente, a nossa heroina, num ato de pura regressão psicanalitica, olhou para dentro da Leticia (então com quatro ou cinco anos) e viu que, na verdade, existia um fosso, um estranhamento entre a Leticia real e o conto de fadas criado para ela.
Este é o momento do texto que mais me encantou, a delicadeza com que ela é capaz de descrever esta grande, embora um pouco dolorosa, descoberta:
«Que tanta doçura não engane!"
Integridade: esta é, para mim, a palavra que melhor define o texto da Letícia.
Transpira integridade do primeiro ao último parágrafo e que foi resumido, magistralmente, por ela " -- Desejos de pintá-lo todo cor-de-rosa, passar a borracha em qualquer outra cor."
Número de frases: 27
Entre a vontade e a verdade, Leticia não teve escolha.
Especial para a Caros Amigos por Bosco Martins
Vanguarda primitiva
«Conceito de vanguarda primitiva há de ser a virtude de minha fascinação por o primitivo», Manoel de Barros.
A vanguarda primitiva é uma criação coletiva do poeta Manoel de Barros, do jornalista Bosco Martins e do poeta do portunhol selvagem, Douglas Diegues.
Surgiu inspirada numa conversa literária que quer transformar o grau de conhecimento a todos em índice de desenvolvimento humano, através da fascinação por o primitivo.
Não curralesca e nem esotérica, a vanguarda primitiva já rendeu algumas obras em seu caminho para as origens.
Kosmofonia Mbyá Guarani, registro literário-musical, da editora o morto q fabla, de Guilhermo Sequera, organizado por Douglas Diegues, traz o seguinte registro de Manoel sobre a obra:
«Ouvi os cantos, a voz, os murmúrios dos MBYA Guaranis.
Eles me transportaram para a fonte das palavras.
Me levaram para os ancestrais, para os fósseis lingüísticos, lá onde se misturam as primeiras formas, as primeiras vozes!
A voz das águas, do sol, das crianças, dos pássaros, das árvores, das rãs ...
Passei quase duas horas deitado nos meus inícios, nos inícios dos cantos do homem».
O programa «O outro lado de la fronteira», La Máquina de hacer, de Wáshington lphidio Cucurto, editado por a Editora Eloísa Cartoneira, em capa de papelão,» O poeta é um ente que lambe as palavras e se alucina», de Arlindo Fernandes, o Documentário da artista plástica Wega Nery, de Luiz Taques, a revista literária «Ontem choveu no futuro», também são obras da vanguarda primitiva, que combatem a má literatura.
«O Mandruvá», um site cultural que ficou só no sonho (sonhar faz parte da vanguarda primitiva), rendeu esta entrevista inédita e publicada agora por a Caros Amigos.
Feita as perguntas, o poeta responde escrevendo as respostas a mão, uma de suas formas de se expressar quando quer responder poeticamente.
Cláudia Trimarco -- Quais palavras / cores, fatos / fotos melhor explicam o Manoel de Barros? (
auto retrato)
Manoel de Barros -- Palavra:
parvo; cores:
o azul;
fatos: passei a vida tentando escrever em língua de brincar.
Minhas palavras são de meu tamanho;
eu sou miúdo e tenho o olhar pra baixo.
Vejo melhor o cisco.
Minhas palavras aprenderam a gostar do cisco, isto é, da palavra cisco.
E das coisas jogadas fora, no cisco.
Pra ser mais correto:
as coisas que moram em terreno baldio.
-- Como você define:
o Ser Poeta?
Se pudesse o que reinventaria?
-- Poeta é uma pessoa que luta com palavras.
Carlos Drummond escreveu:
lutar com palavras é uma luta vã.
Se eu pudesse reinventaria outro sinônimo para Poeta.
Poeta seria o mesmo que parvo.
É um sujeito que em vez de mexer com borboletas, pedras, caracóis, mexeria com as coisas úteis.
-- O que o Pantanal significa na vida do Manoel?
-- Pantanal é o lugar da minha infância.
Recebi as primeiras percepções do mundo no Pantanal.
Meu olhar viu primeiro as coisas no Pantanal.
Minhas ouças ouviram primeiro os ruídos do mato.
Meu olfato sentiu primeiro as emanações do campo.
E assim com os outros sentidos.
O que eu tenho de preciso são as primeiras emanações que Aristóteles chamaria de nossos primeiros conhecimentos.
-- A poesia extravasa ou explica seus sentimentos?
-- Eu acho que não explica nada mas extravasa as minhas primeiras percepções.
-- Quais são as três coisas mais importantes para você?
-- As três coisas mais importantes para mim são duas:
o amor e a poesia.
-- Como é o dia a dia do «Manoel»?
-- Tenho uma rotina quase militar.
Acordo às 5 horas, tomo um copinho de guaraná em pó, caminho 25 minutos, tomo café com leite, subo para o meu escritório de ser inútil.
Desço meio dia, tomo dois uísques, almoço e sesteio.
O resto é pra ouvir música.
E ver o dia morrer.
-- O andarilho é um poeta por excelência?
É assim que você se sente?
-- Andarilho é um ser que honra o silêncio.
Essa é uma qualidade de escol.
Ele não sabe se chegou.
Não sabe pra onde vai.
E gosta de rio, de árvore e de passarinho.
Andarilho é um ser errático -- igual a poesia.
-- Por que o Poeta se esconde da mídia?
-- Por temperamento?
Não tenho outra explicação.
Até não sei se me encontro mesmo.
Vai ver que me escondo para aparecer!
-- Como você vê a ação do tempo sobre o homem?
-- Em o meu caso, o tempo estragou mais ou meu corpo.
Não posso mais amar total.
Não posso mais correr, dar salto mortal, ver longe, nem ouvir longe.
Em a minha imaginação criadora o tempo não se meteu.
Sobre os outros homens, cada um tem sua carga.
-- Qual o futuro que você vê para a Poesia?
E o Planeta Terra tem futuro?
-- Não sei.
Acho que os cientistas estão furando tanto o planeta que não sei nada sobre o futuro.
Sou um homem de fé e acredito na terra para sempre.
Se a terra permanecer e os seres humanos não voltarem ao chipanzé, que Darwin diz que tomará -- se isso não acontecer a poesia permanecerá.
Mas, não sei.
Manyphesto da Vanguarda Prymitiva
por Bosco Martins
Vanguarda primitiva
Regresso ao futuro
Palavra-alma guarani
Chamas & orvalho
Origem própria original originalidade selvagem
A fala dos loucos dando flores
Todos os dialetos possíveis
Inventados encantados alucinados
Dialeto-rã Dialeto-pedra
Dialeto-fogo Dialeto-bosta
A beleza das coisas nunca vistas
Adivinhação divinação divinare
Em vez do plágio sutil
Vidência O aproveitamento de todas as ancestralidades desprezadas
Vanguarda primitiva:
os dicionários de pedra, de areia, de água, de árvore
O poeta lambe as palavras e alucina o idioma
Para que o idioma volte a dar encantamento
Um coração quente
Com um olho de pássaro
Você pode ver o mundo
De modo diferente
Vanguarda primitiva:
Amor sem data de vencimento
Invenção em vez de cópia
Bárbara e nossa como queriam rimbaud baudelaire oswald
Agora o andarilho
Lambe as palavras até que elas produzam uma alucinação que renova sentidos do mundo no coração.
Duas, três câmeras na mão e mil idéias fervendo na cabeça, nas veias, nos testículos, no corpo todo.
Depois de lamber as palavras
O andarilho caminha alucinado
Atravessa Paris Rio de Janeiro Oropas Nova Yorque e reaparece por encantamento na beira do Rio Paraguai ou na remota província de Campo Grande capital do Mato Grosso do Sul ao mesmo tempo.
Vanguarda primitiva:
o português mágico manoelês arcaico à imagem das máfias das academias de letras e de outras máfias letradas
Luz câmera poesia em ação
Em as margens do mundo onde o céu se confunde com as águas
O olhar de um pássaro é uma lente de panavision
Sem hollywood-money nos bolsos
O poeta lambe as palavras e o idioma se alucina para sempre
Uma luz torta
Uma luz rupestre
Uma luz vegetal
Uma luz de vanguarda primitiva
Uma luz diferente
Uma luz que não se pode comprar nas lojas da capital
Agora um andarilho pode ser oito andarilhos
Ayores guaranis terenas bororos xavantes kinikinau guatós
O amor o humor os paradoxos encantatórios
O vôo da palavra
O canto do peixe
O perfume do mistério
Vanguarda primitiva
Um mergulho no desconhecido
De as diferenças
Em o mistério da luz do Pantanal
De a amizade
Foi por insistência do Pena Branca, que tinha uma namorada de nome Parê e era apaixonada por o poeta, que me dei por introduzido no «manoelês archaico».
Como foca, na década de setenta, iniciei com uma geração de profissionais que me encantava e era mítica para mim, como o poeta.
Era o tempo do Diário da Manhã em Ribeirão Preto, de João Garcia, o Sombreiro, Luciano Lepera, o velho Santanão, Rubens Volpe, José Hamilton Ribeiro, Sérgio de Souza e Otávio Ribeiro, o Pena Branca, entre outros.
Quando vim trabalhar onde o Brasil foi Paraguai, em 1984, me enlacei de vez em minha amizade com o poeta e Stella.
Tornando-me um «embaixador» informal dos que vêm do «eixo» em busca de conhecê-lo.
Desta feita já se passaram o Zé Hamilton, o repórter de Santa Rosa de Viterbo, José Julio Chiavenatto, Bianca Ramoneda, globais, nosso amigo comum, Apolônio de Carvalho e, recentemente, Gilberto Gil, que desconhecia sua poesia e repisava a todo o momento um único verso decorado às pressas:
«Onze horas no lombo das águas».
«Linda essa idéia», dizia ele a todo o momento.
Como um combatente rosiano, lançou-lho poeta, o desafio:
«O ministro precisa praticar mais o ócio».
O bastidor dessa relação, que envolve pessoas conhecidas, deverá render um outro livro de vanguarda primitiva, mas esta é outra história.
A última parte da matéria, também uma exclusiva aos jornalistas Bosco Martins e Douglas Diegues, é a entrevista dada ao programa «O outro lado de la fronteira» e que será exibido no final do ano por a TV Educativa Regional do Mato Grosso do Sul, podendo ser acessada por os leitores do poeta, através do site www.tveregional.com.br. Há que se destacar que a entrevista também é uma raridade, pois o poeta não costuma dar entrevistas da maneira convencional e muito menos aparecer na televisão.
Douglas Diegues -- Explica pra nós poeta, essa história da humanização de todas as coisas, uma língua de brincar.
Manoel -- É um dialeto infantil.
Eu acho que eu passei a vida inteira brincando, por que todo mundo ri da minha poesia.
Riem quando compreendem.
Comecei a ler meus versos, são todos assim, quanto à razão, inclusive se você for raciocinar em cima do verso, pra procurar o sentido, num acha a idéia, porque a linguagem apaga a idéia, a metáfora destrói qualquer idéia.
As idéias depois se quiserem inventam.
Cria uma outra ficção a partir do poema, da frase.
Douglas -- Depois que você falou disso, comecei a ler e os versos parecem que tem perna mesmo.
Perna, sexo, boca ...
Manoel -- É a humanização que eu faço das coisas.
A humanização de todas as coisas.
E às vezes, a coisificação do homem.
A humanização das coisas, do tempo, por exemplo, aquela linguagem que eu fiz nesse livro aí:
«manhã de pernas abertas para o sol, e o sol a fecunda».
Quer dizer, é a humanização do tempo.
A manhã como se fosse uma mulher.
Tem um texto aí, que se chama pintura.
Eu pinto a lápis a história, uma metáfora.
Você repara que meus versos todos são humanização da coisa e ou coisificação do homem.
Tem um livro meu que chama «retrato do artista enquanto coisa», esse livro é pensado assim.
Lembra o livro do Joyce, «Retrato do artista quando jovem», só que eu botei enquanto coisa.
Douglas -- Conversando com o Bosco, ele apontou uma coisa interessante:
nós estamos no centro do Brasil ou no umbigo de ele.
Estamos entre as culturas ancestrais, dos índios, as culturas antigas e a modernidade.
E eu respondi:
sobretudo Manoel de Barros.
Depois que eu li Manoel, eu quis ir mais pra trás, ler os índios, pra ver se eu encontrava o Manoel por lá.
Manoel -- Risos.
É aquela história que nós inventamos do movimento de «vanguarda primitiva».
É uma vanguarda, mas é primitiva, que renova.
Ler a palavra, a poesia, renova a gente.
Se você entrar em contato com os primitivos, eles são nossa origem.
Então, o original vem das palavras, do contato que você tem com o primitivismo, que pra mim é sempre fascinante.
Inclusive andei e morei por lá, era uma questão só de fascinação.
Não tinha intenção de empregar na minha poesia, não percebia o quanto iria ajudar na minha poesia.
Depois dessa viagem que eu fiz por a Bolívia, Equador, Peru, que tive um choque cultural e comecei a mergulhar bem nessa questão.
Quando fui morar nos Estados Unidos, chego lá e como a conhecer Picasso, escutar Bach, Beethoven, vou conhecer pessoas que eram artistas de verdade.
Era jovem ainda, devia ter meus 27, 28 anos e coisa contemporânea e erudita causou um choque entre o erudito e o primitivo dentro de mim.
Eu passava a tarde inteira numa igreja do Século XIII, que foi transportada de avião pedra por pedra de uma cidadezinha da Itália e que foi construída perto de um parque.
A Itália tinha dinheiro e fazia coisas grandiosas.
Dentro da igreja tinha bancos, e o dia inteirinho até às 10 horas da noite, tinha algum padre tocando Bach, Beethoven, alguma coisa da musica barroca e eu me empolgava, por que era uma coisa que alimentava muito a minha sensibilidade.
Bosco -- Os poetas só gostam de música erudita?
Manoel -- Não, gosto de tudo.
Chico, Paulinho da Viola, tudo que toca, mas estou com meu ouvido meio enferrujado.
Bosco -- Está precisando usar caramujo para ouvir melhor?
Manoel -- Ainda não, pois é só um lado.
Bosco -- Te angustia envelhecer?
Manoel -- A gente envelhece mesmo.
Desde os cinco anos eu já era velho, por que uso óculos.
Desde os cinco anos descobriram e me levaram ao médico e receitaram óculos.
Pra longe.
Mas isso nunca atrapalhou a poesia.
Pra perto eu tiro os óculos.
Eu escrevo sem óculos na minha velha Olivetti.
Bosco -- É bom que se errávamos, começamos de novo.
Manoel -- Até que sou razoável, fiz um curso de datilografia lá no Rio.
Porque tinha um concurso público que exigia datilografia.
Treinei só um pouquinho e tomei bomba.
Bosco -- Concurso público era moda entre poetas, Drummond, Vinicius ...
Manoel -- Risos.
Era sim.
A Stella, minha mulher, também fez esse concurso.
Eu morei no Rio de Janeiro desde 1929, passei quarenta anos lá.
Emprego público tinha um bom salário, por isso todos queriam.
Bosco -- Sua obra poeta é autobiográfica, de personagens reais, quando os personagens vão se esvaindo, o que sobra para inspiração do poeta?
Manoel -- Sabe o que é Bosco?
É aquilo que conversamos sempre.
O meu conhecimento vem da infância.
É a percepção do ser quando nasce.
O primeiro olhar, o primeiro gesto, o primeiro tocar, o cheiro, enfim.
Todo esse primeiro conhecimento é o mais importante do ser humano.
Pois é o que vem por os sentidos.
Então, esse conhecimento que vem da infância é exatamente aquele que ainda não perdi.
Porque os outros sentidos fomos adquirindo porque era quase uma obrigação.
Era como um calço.
Porque tem os repentistas que são analfabetos e sabem fazer uma obra de arte, mesmo que não estudaram?
Não é verdade?
Fazem a poesia de eles sem nenhuma preocupação estética.
Todos têm que ler Homero?
Poesias têm que ter palavras, uma feira de idéias.
Douglas -- Suas influências estão naqueles que inauguraram a poesia moderna?
Manoel -- Em o meu caso sim.
Eu fui influenciado por os «faróis» da poesia:
Homero, Valéry e Baudelaire que reformulavam a poesia.
Eram muito instintivos, mas tiravam as coisas da infância também e eram gênios das palavras.
Com 18 anos Baudelaire fugiu para a África pra fazer contrabando num sei do quê
Douglas -- Mesmo com todas as angústias, você parece que é um dos homens mais felizes que conheci.
Você vive em paz?
Manoel -- É a questão do nascimento, da criação.
Eu acho que isso influi muito na vida.
Eu sempre tive uma vida muito tranqüila, porque fui criado no Pantanal com minha mãe, meu pai, meus irmãos, sem conflitos, com muito carinho, sem fome, sem notícia de que havia gente passando fome.
Tudo isso conta para que minha poesia tenha substância.
Bosco -- A editora Planeta já encomendou novo livro?
Quando vai para o prelo?
Manoel -- Estou trabalhando direto no meu próximo livro, que é o «Memórias Inventadas», agora terceira infância.
Douglas -- Beleza de entrevista no Estadão.
Manoel -- Tenho recebido muitos pedidos de entrevistas.
Nunca dou entrevista como essa para vocês.
Só respondo por escrito.
A última que eu mandei foi lá para a Curitiba.
Tem tido uma repercussão muito boa esse livro.
Bosco -- É que você fez esse livro com muito gozo, não é poeta?
Manoel -- Eu só faço com gozo.
Bosco -- É como se você escrevesse um primeiro poema.
O poema que abre o livro, Estreante, é muito vigoroso.
Nós estávamos comentando aquele trecho da " pancas ":
«fui morar numa pensão na rua do catete, a dona era viúva e mui vistosa e tinha uma indiana, que tinha pancas ..."
Manoel -- É uma expressão do português antigo.
Pancas era peralta.
Risos.
Douglas -- É bacana, começa bem erótica a «segunda infância».
Manoel -- Foi meu editor.
Eu mandei 16 poemas e ele falou:
«Vamos colocar esse na frente».
Eu pensei:
será que vai dar certo?
Ele tem a possibilidade pra vender o livro, pra que o livro seja aceito e esse poema parece muito bom.
Bosco -- São percepções não só da infância, mas também da sua adolescência, nada como recontá-las através da suas poesias.
Manoel -- O que aparece sempre é resultado de percepções, como se estivesse sentindo o mundo pela primeira vez.
Isso é provado por Aristóteles que dizia que o conhecimento que conta é aquele que vem por as percepções da infância, quando você está conhecendo o mundo e é esse que me alimenta até hoje.
É verdade que eu estudei, tenho conhecimento fora disso, tenho conhecimento de lingüística, estudei tudo.
Isso aí só importa para sua técnica.
Por que tem aquele poeta que diz que cultura é o caminho que o homem percorre pra se conhecer.
E o Sócrates fez esse caminho por a vida de ele e no final concluiu que tudo que ele sabia é que nada sabia.
Bosco -- Não é porque tinha uma Xantipa para atazanar seus pensamentos?
Manoel -- Você sabe que a frase de Sócrates procede.
Nós chegamos no fim da vida e não sabemos o sentido da vida.
Douglas -- A totalidade Manoel?
Só Deus?
Manoel -- É, nós não sabemos nada mesmo.
Podemos discutir coisas aqui outra ali, mas o sentido da vida é incompreensível.
Nós somos incompletos, nos sentimos incompletos.
Só podemos ser completados por o mistério.
Douglas -- Não tem sentido racional, é outro tipo de sentido.
Manoel -- Em a verdade não tem sentido nenhum mesmo, nós podemos dar sentidos.
Essa incompletude nós só podemos completar com o mistério.
Bosco -- Uma vez você falou pra mim que o mistério é a coisa mais real.
Manoel -- É a coisa mais real.
É real.
Douglas -- O mistério tem uma consistência de pedra pra você?
Manoel -- Tem sim.
Risos.
Bosco -- Você conversa com Deus?
Como é essa sua relação?
Manoel -- Acredito.
Não tenho esses troços não.
Sou um homem de fé, porque sou incompleto mesmo, eu preciso me completar através de uma fé.
É uma escapatória.
Tenho um irmão que é agnóstico, que não acredita em nada.
Agora eu não, eu sou assim.
Tenho necessidade.
Preciso desse amparo.
Grande parte da humanidade tem, os fundamentalistas, os árabes, todos têm crenças, pra se completar.
Eu acredito em Deus e conto isso pra todo mundo.
Douglas -- Você não tem vergonha?
Manoel -- Não.
Vergonha não, eu tenho é muito orgulho.
Eu acho que a religião completa a gente, é o meu sexto sentido.
Nossa fé é o sexto sentido.
Bosco -- Se Deus está no começo, a origem está lá perto de ele?
Aqueles que diziam que o poeta é um pequeno Deus, também tem razão, afinal o poeta cria esses encantamentos?
Manoel -- É o criador.
A natureza foi criada a partir de Deus.
O poeta é uma pessoa que mexe com a criação.
Prêmio é ter minha obra distribuída em todo país
A o completar noventa anos, no dia 19 de dezembro, o poeta Manoel de Barros, receberá, por a segunda vez, o Prêmio Nestlé de Literatura, por o livro Poemas Rupestres.
Foi seu irmão mais velho e o mais caipira de eles, Antonio Venceslau de Barros, que chamou a atenção do pai para a sua vocação.
Toninho aconselhou o pai que estava na hora de mandá-lo estudar no Rio, pois ele tinha o «dão» poético.
Se ganhar prêmios for mesmo referência para avaliação de um bom poeta, Manoel de Barros é o maior poeta em atividade do Brasil contemporâneo.
Todos os prêmios de poesia no Brasil ele já conquistou.
Incluindo dois Jabutis, e este mais recente.
Mas o poeta já nós adiantou que mandará seu filho mais velho buscar os cinqüenta e cinco mil reais.
O evento do prêmio ocorrerá ate o final de dezembro em São Paulo.
Casado há sessenta anos com a mineira Stella de Leite de Barros, o poeta tem três filhos, Pedro, João e Marta, e oito netos.
Apesar de gostar dos prêmios que dão dinheiro, esse, em especial, é mais legal, segundo ele:
«Porque além de dinheiro, terá uma edição especial que será distribuída para bibliotecas e escolas em todo o país».
Mais informações:
Número de frases: 330
www.boscomartins.com.br Virou lugar comum dizer que brasileiro tem memória curta.
Mesmo assim, a afirmação nunca deixou de ser verdadeira.
Fechando o foco na cultura, não é pequeno o descaso na conservação de arquivos das últimas décadas.
Isso está exemplarmente denunciado no último filme de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, «Cartola -- Música para os Olhos».
Frente a dificuldade em levantar material referente à época vivida por o sambista carioca, os cineastas incluíram na edição pedaços de película deteriorada, fotos quase destruídas, entrevistas com áudio repleto de ruídos.
Mas, como diz o ditado, pra que chorar sobre leite derramado?
Melhor cada um fazer o que está no alcance para, aos poucos, reverter a situação.
Em esse sentido, projetos que digitalizam e disseminam arquivos antigos -- do You Tube à Biblioteca Nacional -- vêm trazendo para a consciência coletiva uma perspectiva histórica nunca antes experimentada.
Uma dessas iniciativas é o Acervo RecorDança On Line, idealizado por a bailarina e pesquisadora Valéria Vicente.
Primeira experiência multimídia disposta a registrar digitalmente a memória da dança nacional, o site entrou no ar há pouco mais de 30 dias.
É uma documentação inédita na internet, e neste primeiro estágio oferece informações sobre a história da dança pernambucana entre 1970 e o ano 2000.
Aos poucos, o projeto foi ganhando adeptos:
Liana Gesteira, Roberta Ramos, Helena Sette, Marcelo Sena, Márcia Virgínia, Rejane Gesteira, Renata Pires, Roberta Ramos, Rozeane Ferreira, Tamisa Vicente, Carlos Ferrera, Duda Freyre, Lêda Santos e Andreína Vieira.
Artistas e pesquisadores do Recife, que tiveram como desafio encontrar estratégias para acessar os documentos e indivíduos que compuseram a história da dança local.
Pois até então não havia nenhuma instituição ou publicação que reunisse e preservasse essas informações.
Entre os registros mais antigos está a criação do Balé Armorial do Nordeste, em 1976.
É deste mesmo período a fundação da Escola de Frevo, por o bailarino popular Nascimento do Passo (1973), e a organização do que seria, a partir de 1977, o Balé Popular do Recife.
Para Liana Gesteira, coordenadora do acervo virtual, este é «um projeto dinâmico, que está sempre se atualizando, e disseminando histórias».
«Esta é mais uma conquista para preservação da memória em dança no país, pois vai propiciar que novas gerações possam conhecer uma parte da história artística brasileira, e fornece mais um instrumento de estudo na área da dança.
Pesquisar e organizar dados históricos não é apenas uma forma de divulgar informações, mas também um mecanismo de estímulo à reflexão e ao pensamento», diz a pesquisadora.
Em a noite de lançamento do site, houve um debate sobre a necessidade da criação de cursos universitários exclusivos para a dança, com participação de Marília Rameh, Coordenadora do Movimento Dança Recife.
É estranho de imaginar, mas atualmente, quem autoriza as academias de dança são técnicos formados em educação física.
Ou seja, pessoas que não tem em sua formação noções de arte ou história da dança.
E essa é somente uma das amarguras da dança brasileira, geralmente relegada ao universo das «artes cênicas» na programação cultural dos jornais e até mesmo aqui no Overmundo -- não há dança entre as categorias de postagem neste Overblog.
Mal comparando, é como se cinema e fotografia fossem a mesma coisa.
«Para entrar nas grandes discussões da sociedade é preciso ter visibilidade e respeitabilidade.
O reconhecimento do percurso histórico, das etapas que gerações de artistas da dança vem ultrapassando para se manter em atividade e sintonia com seu tempo e sociedade, legitima o trabalho dos artistas de hoje.
O reconhecimento impulsiona não só a auto-estima, mas a compreensão de que as ações individuais sempre fazem parte de um contexto maior», diz Valéria.
Antenado na importância da construção de acervos de dança no país, o jornal Diario de Pernambuco preparou uma série de duas reportagens que ocupou seu caderno cultural na data de lançamento do acervo, e no dia seguinte também.
«Falta informação organizada sobre a dança no Brasil, mas estão surgindo projetos como o do RecorDança.
Outros países, como Paraguai, Peru, e alguns da América Central, como Costa Rica e Honduras, também estão tentando escrever sua história da dança.
E a maioria das vezes isso parte dos artistas e não das instituições», declarou Sônia Sobral à repórter Tatiana Meira, autora das matérias para o Diario.
Sobral é gerente de artes cênicas do Itaú Cultural, e integrante da Red Sudamericana de Danza.
Além disso, a reportagem mapeou os acervos disponíveis atualmente.
Um de eles é o Acervo Mariposa, de São Paulo (site atualmente em manutenção).
«Concatenar as informações de dança é um ato de cidadania cultural que reafirma a necessidade da troca efetiva do conhecimento e da circulação dos bens culturais, ao mesmo tempo em que afirma a necessidade política e social em rastrear a dança ao longo do tempo», afirma Nirvana Marinho, na apresentação do Mariposa, que conta com uma videoteca com 700 fitas de dança.
Para o RecorDança, a palavra de ordem hoje é ampliar o acervo e intercambiar com experiências semelhantes no Brasil e no mundo.
Por isso, ele esteve presente no 25º Festival de Dança de Joinville, um dos mais tradicionais e importantes do país, participando do seminário História em Movimento:
biografias e registros da dança.
«Na medida em que suas atividades são de localização, catalogação e disponibilização de documentos sobre a dança na Região Metropolitana do Recife, o RecorDança facilita as pesquisas, lança pistas sobre possíveis conexões, bases mais palpáveis para poder se construir discursos, teorias, sobre as danças produzidas em Pernambuco e os focos de atenção dos artistas locais.
Até o momento temos pouquíssimos trabalhos teóricos sobre a arte da dança no Recife, apesar de ela ter uma história de vitalidade, criatividade e inserção na cultura local», avalia Valéria Vicente.
O Acervo RecorDança também pode ser consultado no formato CD-ROM, disponível em cinco instituições:
no Instituto Itaú Cultural (SP), na Videoteca Petrobrás -- Fundação Joaquim Nabuco (PE), na Biblioteca Pública Estadual Camilo Castelo Branco (PE), no Centro de Documentação Osman Lins do Centro Apolo-Hermilo (PE) e no Deutsches Tanzarchiv Köln (Alemanha).
Para acessar o acervo na internet, basta teclar na barra de busca o nome do coreógrafo, companhia de dança ou documento.
Para ter a lista completa dos arquivos, basta clicar em «pesquisar» com o campo vazio.
O RecorDança continua reunindo material, agora tendo seu acervo alimentado à distância -- de Brasília, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, ou onde mais seus pesquisadores estiverem.
Você também pode colaborar com a construção dessa memória coletiva com fotos, vídeos, e demais registros multimídia.
Número de frases: 47
Basta procurar a equipe do projeto, e assim fazer parte desse movimento por a reconstrução da história da dança.
Quer ter uma idéia da produção musical de Curitiba?
O programa Ciclojam é um canal.
Desde 96 o produtor Cyro Ridal faz um panorama da cena curitibana que resultaram em mais de 100 programas que incluem shows e entrevistas com bandas locais.
Não apenas por sua relevância cultural, o programa Ciclojam já se tornou referência na cidade como espaço para a produção musical independente feito por quem sempre se preocupou em pensar a cena e atuou em diversos veículos como a extinta Estação Primeira, TV e Rádio Paraná Educativa e Lúmen FM.
Os programas foram sempre veiculados em rádios e TVs que acabavam por não atingir um público mais amplo, principalmente fora do Paraná, servindo basicamente para mostrar aos próprios curitibanos o que estava sendo produzido, mantendo-os fora de outros eixos.
A jornalista Adriane Perin, uma das mais antigas e ativas colaboradoras do Paraná no Overmundo já havia comentado sobre os programas aqui, como uma primeira tentativa de lançar alguns tentáculo além dos limites do estado.
Mas, ainda assim, não era possível que as pessoas do lado de lá da fronteira tivessem acesso ao material.
Nada que a tecnologia não possa resolver.
Quem quiser saber e ver parte do que se produz de música em Curitiba pode conferir mais de 50 trechos do programa Ciclojam no site YouTube.
A o entrar no site, faça uma busca com a palavra «ciclojam» e entenda um pouco da cena musical curitibana.
Acredite, aqui também se faz música, boa música!
Número de frases: 12
Foram apenas 36 anos de vida para deixar marcas musicais e pessoais tão poderosas que muitos sustentam com convicção que ela foi a maior cantora da música popular brasileira.
Basta ouvir qualquer disco de Elis para se esquecer de todas as outras cantoras excepcionais da MPB.
Mesmo 25 anos após sua morte (completados nesta sexta-feira, 19 de janeiro), Elis Regina ainda mexe com as emoções de seu público fiel e conquista admiradores na nova geração.
Uma força invisível que a torna presente até hoje, na forma de interpretações magistrais de músicas que a fazem eterna.
Essa exaltação que ela incorporava ao cantar pode ser conferida na versão em DVD do programa Elis Regina Carvalho Costa, veiculado por a Rede Globo em outubro de 1980 dentro da série Grandes Nomes.
Essa edição é uma parceria da Trama com a Globo Marcas e da produtora Lereby (de Daniel Filho).
O projeto é de João Marcello Bôscoli, o primogênito de Elis, que começou a resgatar as imagens da mãe por o programa MPB Especial -- 1973, da TV Cultura, lançado em DVD em 2005.
Não se pode esquecer que Elis Regina Carvalho Costa foi gravado em 1980, quando os musicais da Rede Globo primavam por as cores exageradas, por o brilho e por as tradicionais coreografias do balé da emissora, numa estética para lá de comum nos especiais da época.
Mas Elis, seja no preto-e-branco do programa Ensaio, de 1973, seja na profusão de apetrechos visuais dos anos 80, sempre domina a cena e faz a platéia esquecer o resto.
O programa mostra que Elis Regina tinha o completo domínio de seu canto.
Mas também dominava bem o vídeo, fruto de sua experiência de anos como apresentadora, especialmente no clássico programa O Fino da Bossa (1965-1967), que lhe deu notoriedade nacional.
Em outubro de 1980, desfrutava de grande popularidade, com sucessos radiofônicos e uma seqüência de shows espetaculares:
Transversal do Tempo (1977-1979), Elis, Essa Mulher (1979) e estava em cartaz com Saudades do Brasil.
Em o palco em forma de picadeiro de circo, Elis entra brincando como se estivesse andando na corda bamba cantando Querelas do Brasil e desfila um repertório que tem como base o disco Essa Mulher.
A crise conjugal entre Elis e César Camargo Mariano, pais dos cantores Maria Rita e Pedro Mariano, acabou dando o tom do momento mais emocionado do especial.
Hoje considerada um marco na carreira da cantora gaúcha, a interpretação de Atrás da Porta, clássico de Chico Buarque e Francis Hime, pegou todos de surpresa -- até a própria artista.
Prevista por o roteiro para ser cantada num bloco chamado Amor -- entre Essa Mulher (de Joyce) e Cadeira Vazia (de Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves), a canção, cuja letra fala de um doloroso rompimento, levou Elis às lágrimas, emocionando o Brasil.
Outro momento impactante do show é a interpretação de O Bêbado e a Equilibrista, então já considerada um hino da Abertura e do retorno dos exilados políticos ao País.
Elis, que jamais escondeu sua indignação quanto aos desmandos da ditadura, deu à canção de João Bosco e Aldir Blanc um tom mais exaltado do que na gravação original.
Defendeu a composição com gestos e expressões faciais que tinham o claro propósito de instigar o público.
O especial também tem seu momentos de irreverência.
A o cantar a irônica Alô Alô Marciano não economizou caras e bocas para cutucar, como diz a letra, a high society, denunciando sua decadência e superficialidade.
Não por acaso, durante o número, a câmera mostra, um tanto desconcertada na platéia, a socialite carioca Carmen Mayrink Veiga, legítima representante da classe achincalhada por a composição de Rita Lee e Roberto de Carvalho.
Como o roteiro do programa também previa a participação de um convidado.
Elis escolheu o marido César Camargo Mariano, com quem cantou Modinha (Tom Jobim) e Rebento (Gilberto Gil).
O programa termina com Redescobrir, composição de Gonzaguinha, que resume a saudade do Brasil que Elis queria demonstrar, na qual a cantora, seus músicos e platéia fazem uma grande roda em volta do palco.
A valsa Fascinação pontua todo o especial.
Embora tenha as limitações técnicas de sua época, Elis Regina Carvalho Costa é um documento importantíssimo não apenas para fãs.
É um dos últimos registros ao vivo de uma cantora única e fundamental na música popular brasileira.
São 67 minutos de música e 15 de entrevista.
Bastidores
Quando Elis Regina recebeu o convite da TV Globo para fazer um especial da série Grandes Nomes, Marília Carneiro, diretora de figurino do especial, teve a idéia de colocar todos os músicos e a cantora entrando em cena vestidos com uma camiseta que trazia, sobre um discreto fundo preto, o desenho da bandeira do Brasil.
Com uma pequena diferença:
no lugar dos dizeres Ordem e Progresso, a faixa branca traria estampado o nome de Elis.
A censura não permitiu.
A ditadura militar, por mais que estivesse vivendo seus derradeiros suspiros, não poderia autorizar tal uso do pavilhão nacional.
Ironicamente, dois anos mais tarde, em janeiro de 1982, a artista se despediria do Brasil vestindo a camiseta, com a qual foi enterrada, em São Paulo.
Esta é uma das histórias que Daniel Filho, diretor do programa, conta na entrevista de 15 minutos que aparece como extra do DVD.
A entrevista / depoimento de Daniel Filho ganha qualidade de documento instantâneo ao revelar detalhes sobre os bastidores do programa.
O diretor também conta que Elis, uma tímida incorrigível, estava com medo de se apresentar diante de uma platéia composta por jornalistas e personalidades da cultura.
Como o show foi concebido dentro do formato de uma apresentação circense, com o público sentado muito próximo, ao redor do palco-picadeiro, a cantora sentiu-se insegura diante de tamanha proximidade.
Outro fator de ordem íntima que também teria colaborado para o clima de incerteza em torno do especial foi a crise conjugal que Elis e seu então marido, o músico e maestro Cesar Camargo Mariano, estavam atravessando.
«Eles estavam separados, mas ela fez questão que ele fosse seu convidado especial.
Depois do show gravado, nos reunimos na minha casa para vê-lo em fita.
Quando chegou o trecho em que eles se apresentam juntos, na música Rebento (de Gilberto Gil), percebi que os dois estavam assistindo de mãos dadas.
Então, deixei a sala.
Quando saíram de casa, estavam reconciliados.
Acho que a relação de eles teve uma sobrevida bonita depois disso, conta Daniel Filho.
Elis
Gravadora: Trama
Preço Médio: 50 reais
Saudades de Elis Elis foi uma das cantoras brasileiras que mais gravou.
Entre seu primeiro disco, Viva a Brotolândia, de 1961, e Elis, de 1980, o último que lançou em vida, foram 25 long plays (LPs).
Em 1982, logo após sua morte, foram lançados ainda Elis Regina -- Montreux Jazz Festival, com registros ao vivo de sua antológica participação no evento da Suíça, O Trem Azul, extraído de uma fita cassete gravada num dos últimos shows da cantora, e Elis -- Luz das Estrelas, resultado de um especial gravado para a TV Bandeirantes, em 1979.
Além de LPs, sua voz também aparecia nas lojas no formato dos compactos, minidiscos de vinil, uma verdadeira febre entre a juventude do começo dos anos 60 até meados da década de 70.
Foram mais de 30, entre simples e duplos, desde que começou a cantar profissionalmente em Porto Alegre, sua cidade natal, em 1956.
Elis também lançou vários novos compositores, que viam em sua afinada e potente voz a chance de mostrar suas composições, as quais ela escolhia a dedo, optando sempre por as letras de caráter mais emocional e, preferencialmente, com um toque politizado.
Que o digam João Bosco e Aldir Blanc e Milton Nascimento, três artistas que tiveram em Elis a melhor intérprete.
De a dupla, fez virar êxitos mais de uma dezena de canções, entre elas O Bêbado e a Equilibrista, que acabou por se transformar num dos hinos de protesto contra a ditadura militar.
De Milton, foram outras tantas, mas a mais emblemática é Canção da América.
Toda a vasta obra que Elis deixou nos seus 25 anos de carreira está atualmente disponível em CD, sem falar nos outros tantos tributos e participações especiais de ela em trabalhos de amigos.
Como Trem Azul, registro do seu último show, gravado em fita cassete por seu irmão e lançado logo após a morte da cantora.
Em ele, parece que Elis profetiza seu próprio fim ao dizer, com voz embargada " [ ...]
agora retiram de mim a cobertura de carne, escorrem todo o sangue, afinando os ossos em fios luminosos -- e aí estou por o salão, por as casas, por as cidades, parecida com mim.
Um rascunho.
Uma forma nebulosa, feita de luz e sombra.
Como uma estrela.
Agora eu sou uma estrela».
Mais DVDs
MPB Especial: Elis -- Em o programa Ensaio, da TV Cultura, gravado em 1973, Elis estava acompanhada de César Camargo Mariano (piano), Luisão Maia (baixo) e Paulinho Braga (bateria).
O especial, gravado em mono e preto-e-branco, tinha (e tem) música e entrevista juntos, foi conservado assim e também divididos na restauração.
Elis conta passagens importantes da carreira:
o primeiro encontro com Gil e Caetano (primeiro numa fita levada por Edu Lobo), o não-lançamento do iniciante Chico Buarque por a timidez atávica do compositor (que acabou lançado por Nara Leão), o programa O Fino da Bossa (feito com Jair Rodrigues), a relação com Jobim, Milton Nascimento e outros compositores importantes na carreira de ela.
Para lembrar os 25 anos da morte da cantora, a EMI colocou no mercado uma caixa com três DVDs.
A idéia do diretor, Roberto de Oliveira, foi criar documentários sobre Elis nos mesmos moldes da série Chico Buarque a partir de especiais exibidos por a TV Bandeirantes nos anos 70.
A caixa reúne diversas fases de Elis.
O primeiro DVD, Em a Batucada da Vida, vai aos primórdios da carreira de Elis.
O disco traz a cantora interpretando uma canção de Paul Anka em português.
O disco reúne ao todo 17 faixas com o melhor da primeira fase, incluindo um pout-pourri de composições de Baden Powell --
O time de músicos que a acompanha é um verdadeiro quarteto mágico, nas palavras do filho João Marcello Bôscolli, em depoimento extra, referindo-se a Luizão, Paulo Braga, César Camargo Mariano e Hélio Delmiro.
Doce de Pimenta, cujo nome foi emprestado da música de Rita Lee e Roberto de Carvalho em homenagem a Elis, batiza o segundo DVD.
Um dos maiores diferenciais aqui é a entrevista de rádio citada no início.
Em um momento de descontração total, Elis diz que Cauby Peixoto é seu cantor preferido e que «o artista que quer viver de vendagem de disco no Brasil tá ferrado» -- nada tão atual.
A trilogia se completa com Falso brilhante, nome do show de maior sucesso de Elis.
Número de frases: 84
O espetáculo -- com figurino exuberante e um certo clima circense -- estreou em 1975 e foi visto por cerca de 280 mil pessoas em 257 apresentações
Se você pensa que excentricidades eletrônicas são uma exclusividade da cena independente de games, melhor rever seus conceitos.
Algumas produções brasileiras feitas por a indústria oficial muitas vezes se destacaram, tal como os fan-games, por o humor -- só que, neste caso, involuntário.
O mundo encantado dos seres extra-terrestres com seus olhinhos arregalados e cútis esverdeadas rendeu quase tudo quanto é tipo de produto na cena cultural americana.
E inspirou um dos jogos mais canastrões feitos por aqui.
Area 51 que nada!
O mote é o ET mais mineiro de todos os tempos.
Incidente em Varginha, jogo de 1998 feito para PC, usa como gancho a celebridade extra-terrena do sudeste para levar ao público (mais) um jogo típico de tiro em primeira pessoa.
Com fases ambientadas em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, fica difícil não achar que o nome do jogo foi só uma jogada de marketing para ganhar notoriedade por aqui -- o game recebeu títulos no exterior que não mencionavam a cidade mineira.
Parte da aventura se passando em Varginha, contudo, livra o game de ser uma propaganda enganosa.
Quase dez anos após o lançamento, os gráficos, obviamente, não tem condições de competir com jogos de ponta feitos hoje em dia, mas não deixa de ser uma curiosidade -- por que não relíquia?--
conhecer o primeiro shooter feito no Brasil.
Foi um marco.
Até a primeira metade dos anos 90, quando a pirataria de jogos não atingiu os inacreditáveis 94 % do mercado em 2004 (dados da Abragames), existiam versões brasileiras de títulos gringos lançados com freqüência.
Começou há tempos.
O primeiro exemplar dessa espécie é Renato, o Aragão.
Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo era a estrela de Didi na Mina Encantada, game feito para o Odyssey 2 -- console dos anos 70 que pode ser resumido como um Atari fabricado por a Philips que não deu certo.
Parecidíssimo com o clássico Donkey Kong, o jogo só recebeu o rótulo de Didi em terras tupiniquins -- para resto do planeta, o personagem principal era o Pete.
Uma localização que não ia além de uma caixa adaptada para o mercado brasileiro, com o trapalhão estampado.
Como o Didi / Pete não passava de uns tracinhos beges na tela da TV, você podia até jurar que aquilo era a Hebe Camargo segurando uma marreta cravejada de diamantes da Daslu e ninguém teria como te contestar.
Ah, as adaptações ...
Antes era mais fácil;
maldita modernidade e seus gráficos-ultra detalhistas.
Pitorescas também foram as aparições da Turma da Mônica nos videogames da Sega -- Master System e Mega Drive.
A Tec Toy, que distribui no país até hoje os clássicos consoles da fabricante japonesa, simplesmente pegou três games com ambientação medieval-fantasiosa e colocou a baixinha dentuça no lugar do protagonista, um carinha chamado Wonder Boy.
Trocaram um personagem de armadura segurando uma espada por uma gordinha dentuça erguendo um coelho de pelúcia.
Ver o coelho duro que nem uma pedra, de cabeça para baixo, como se fosse mesmo uma espada, é, no mínimo, uma maravilha kitsch.
E matar dragões e monstros a coelhadas soa forçação de barra para o universo dos personagens de Maurício de Souza -- por mais que substituam uma princesa de algum castelo do jogo por a figura da Magali, ou o vendedor da loja por o Cascão.
Mas hoje em dia os jogos que melhor carregam alguma expressão de um suposto olhar brasileiro na indústria gamística são aqueles minigames mais simples, muitos de eles feitos em Flash, ou cujos links podem ser enviados por e-mail aos amigos.
E os risos que causam não são por acidente.
O Run Ronaldo Run, por exemplo, coloca nosso craque gorducho com a camisa amarelinha a fugir de inimigos malignos, como comidas engordativas e o argentino Crespo -- se chegar ao gol primeiro que o portenho, ganha.
Produtos à venda por um preço módico, como Mensalão, o Jogo, deixam escrachadas as possibilidades de instrumentalizar games para se levar as mais díspares mensagens e críticas.
Há ainda belas sacadas que farão marmanjos chorarem de alegria por os cantos, como o game Bola de Gude, com gráficos 3 D, multiplayer e opções de cenários e bolas.
Tudo para reviver a velha infância sem sujar a roupa por estar deitado no chão.
Enfim, games legais, com orçamentos adaptados à nossa realidade e que desenvolvem bem o conceito de jogo casual.
Sem contar que as dezenas de produtoras brasileiras com know-how para games em celulares e afins podem ser o embrião de uma indústria capaz de produzir games para PCs e consoles -- se é que isto é uma meta a ser alcançada.
Um passado pitoresco e um presente claudicante parecem dar lugar a um futuro promissor à indústria nacional de jogos.
Número de frases: 37
E mande o saudosismo para aquele lugar ...
Para que as Coincidências começassem a dar certo na minha vida, foi preciso que meu «pai João Palmas», mudasse nosso nome, de Sérgio e Celso, para Renato e Cincinato Palmas, e aproveitando o embalo mudou o de minha mãe, acrescentando Maria ao aPOLÔNIA de Morais.
Fê-lo pois pretendia nos separar de nossa mãe sem que ela soubesse.
E aos 8 anos de idade, saimos sozinhos do Rio de Janeiro, sob a responsabilidade do desconhecido motorista do onibus para Rio Negro no Paraná, lá outro desconhecido motorista nos levou até a casa de nossa tia.
Nasci no Antigo Estado da Guanabara, mais conhecido como Baía da Guanabara, no bairro de Copacabana, (na verdade nascemos num hospital quase sempre em outro bairro, mas sempre negamos esse fato) na Ladeira dos Tabajaras, Morro dos Cabritos.
Chamo atenção para a coincidência de tantos nomes indigenas indicarem minha provavel vinda para a região Norte!
Vejamos:
Copacabana, nome indigena;
Tabajaras, idem;
Rio Negro, Paraná.
De Rio Negro fomos estudar em Santa Catarina, no Alto PARAguaçu, município de ITAiópolis.
Reafirmando as Coincidências ou Sincronicidades faço minha as palavras da enciclopédia ambulante, o cambojano Dr. Egeu Laus, cujo pai se acreditasse em coincidência, batizaria-o de oMar Egeu!
«Só pra situar:
Alto Paraguaçu fica no município de Itaiópolis, norte de Santa Catarina, na divisa com o Paraná.
Itaiópolis antes das demarcações nos primeiros anos do século ficava no estado do Paraná.
Passou depois a fazer parte do Município de Mafra, antes de se tornar independente».
Mesmo indo para Santa Catarina, ainda estava no Paraná!
Esta fase ocorreu entre 1960 e 1965 quando voltei novamente para o Rio de Janeiro, ficando até 1983, vindo parar no Pará!
Em o Pará fui para um lugarejo chamado ITAporanga, municipio de Vigia, três anos depois fui morar em Arapiranga, bairro de Vigia, e dai vim para Cidade Nova, municipio de Anannindeua.
As Coincidências forçadas!
Meu irmão apesar de participar de 50 % de elas, diz que minhas coincidências são forçadas por mim, eu não mudo minhas convicções, mas coloco este texto aqui no Over apenas como entretenimento curioso.
Em a verdade minhas coincidências são maiores, quando entro na parte Capoeira.
Começarei a História desde o Inicio:
Em o final da Rua Siqueira Campos, morava uma bondosa velhinha de nome Maria das Graças, de cuja varanda via uma das subidas do nosso moro, e o imenso sacrificio de minha mãe, com 2 filhos nos braços (nosso «pai» nos abandonou com 3 meses) e as compras, escalar diariamente aquela ingreme subida.
Penalisada passou a esperar na varanda, e quando via minha mãe, chamava, nos recebia na sua casa, dava dinheiro pra nós, e comida para a mãe fazer, e assim foi por anos a fio.
Em a vinda para o Pará, (25 anos depois) fomos nos despedir, ela ja velhinha nos recebeu em casa.
Levei um susto, eram dezenas de kilos de comida em cima e embaixo da cama, geladeira entupida.
Fiquei com pena da empregada, vendo tanta comida se estragando.
De a varanda de sua casa, vendo por anos a fio, tanta miséria escalando com magras pernas a esperança de outro dia melhor, (no morro todas as noites são ruins) temeu a fome, tornou-se paranóia.
Pulo para o Alto PARÁguaçu, não sem antes explicar que:
Li em Machado de Assis que a india Pará (Rio) Guaçu (grande) viu o português Cara (peixe) Muru (gosmento, por causa da roupa de couro molhada parecendo barro?)
Guaçu (grande) saindo do rio, saiu gritando:
Caramuru Guaçu!
Já em Alto Paraguaçu, fui estudar na Escolas Reunidas São João Batista, ao lado da maior Igreja da America Latina construida por os Poloneses, a Igreja de Santo Estanislaw.
Estes 2 textos ai embaixo fazem parte apenas de raspão das Coincidências!
Antes de viajar para o Paraná, com uns 8 anos de idade, viviamos «presos» em casa, já que a mãe trabalhava e não podia deixar-nos na rua ao nosso bel-prazer.
Era ela sair por a porta, nós voavamos por a janela, e ai era rá ré ri ró rua, o dia todo, sempre de olho na pista, pra ver se não vinha o carro da RP, radio Patrulha.
Era só avista-lo, e mergulhar em desabalada carreira, por quaisquer dos caminhos que saem da rua em meio aos barracos.
Verdadeiros labirintos, quem entrar correndo num, sem saber aonde esta indo, pode terminar no cemitério.
Em aquele tempo a Polícia não subia o morro pra fazer reféns, e oque o bandido mais temia não era a Policia, mas sim a fama.
Bandido famoso não durava muito.
Dia vai, dia vem, eis que uma pipa, pandorga, papagaio, rabiola ou que outro nome tenha, papéis voadores controlados por uma linha, nos levou bem mais longe do nosso beco do que devia, e distraidos não vimos a RP chegar.
Fomos presos, enfiados na jaula metalica, e levados para um lugar chamado SAM, que nunca soube oque significava, mas que traduzo hoje para:
Serviço de Apavoramento de Menores.
A frente do prédio me lembro era de tijolos aparentes, lembrando aquelas construções londrinas, e lá dentro um pátio de 50x50, rodeado por um dormitório para uns 20 menores, um consultório dentário apesar de não ter visto um só atendimento, nos 3 meses em que lá ficamos.
Depois uma super lavanderia, ai um pequeno patio aonde tomavamos banho, com uma imensa cabine de avião, que caiu lá e não tiraram.
Em seguida vinha um murro alto com alguns buracos para ver-mos TV, cujo unico programa era vermos presos adultos tomando banho, ou sem fazer nada.
O muro alto findava no nosso refeitório, que era separado dos adultos por uma grade de cadeia.
Assim podiamos ver nosso futuro enquanto comiamos!
A noite, dormir antes dos outros nem pensar, assim pude ver um pouco do que foi mostrado no filme Pixote, um urinando na boca de outro que dormia.
Em os 3 meses, tempo permitido, que ficamos no SAM, não me lembro de ter conversado com ninguém.
Fomos transferido para um reformatório, com recepção gloriosa.
Eu, meu irmão e um outro, fomos colocados de frente para uns 15 moleques, enquanto um tipo Português de uns 50 anos, que provavelmente tinha sido laureado com louvor no Doi-CODI, nos vocifera a regra unica:
É Proibido Urinar na Cama!
Outra noite mal dormida, e de manhã o 1º Show.
Fomos perfilados no mesmo corredor da recepção, e de ali podiamos ver ele conferindo cama por cama, para ver se encontrava o desenho liquido de um mapa de qualquer Estado.
De Sergipe, Espirito Santo e similares a surra era pequena, mas Amazonas e Pará, doía na nossa alma a dor do infeliz.
Dormir nem pensar, noite vai, noite vem, e uma barulheira infernal de tampa de panela caindo na cozinha.
O nazista invade o dormitório e ordena:
Todo mundo pra fora!
A mesma fila de sempre bem de frente para a cozinha, o demonio vai, abre a porta e de lá sai o morto de fome.
Pego por o orelha, o capeta abre a tampa da lixeira que ficava ao lado da porta, e obriga o infeliz a comer 2 cascas de bananas, tira o cinto e repete o martírio.
Uma surra terrivel!
Deus foi bom para nós, pois 2 semanas depois nossa mãe nos achou.
A visita era só aos domingos, então na 1ª visita ela trouxe um bocado de frutas e biscoitos, que nos foi tomados assim que ela saiu.
Em este local o espaço de «lazer» era menor, de 10x10, e havia num dos cantos um pé de Carambola, entupida de elas, verde-amarelas, lindas, parecendo balõezinhos suspensos.
Mesmo morrendo de fome, todos ficavamos torcendo para elas adquerissem a côr Laranja-Podre, e ai podermos dar 2 mordidinhas nas «melhores partes»!
Um mês e meio depois estavamos fora deste Inferno!
Praia Vermelha!
Em a vinda para o Rio de Janeiro, saindo de Rio Negro no Paraná, ja com uns 15 anos e 2 semanas na estrada no caminhão do meu pai, (Ele quis economizar) chegamos a Praia Vermelha na Urca, no emprego da minha mãe, (Trabalhava para uma familia de sobrenome Brazil) umas 11 da noite e pra não incomodar dormimos embaixo do caminhão.
Recepção calorosa, sombra e agua fresca garantidas, uma vista lindissima do 13º e ultimo andar do Apartamento aonde moravam!
De lá avistava-se um jardim bem cuidado, frente a pequena e singela praia, contrastando apenas os 2 prédios do Exército de arquitetura e côr baixo-astral.
A familia Brazil era pai, mãe, filho uns 12 anos e filha uns 15.
A vida era boa, de manhã, praia, futebol, praia, almoço.
De tarde, futebol, praia e jantar, depois passear até ...
Em o futebol ou na praia quando sentia sede ou fome, saía correndo, o AP a 300 metros, abria a geladeira e «dava de pau» nas frutas geladas, da feira feita aos Domingos para durar até sabado.
Escrevi para meu irmão em Rio Negro, e ele nada satisfeito com o tratamento da Tia, disse-lhe do Paraíso aonde estava vivendo, que ele viesse o mais breve possivel.
Ele demorou, nesse meio tempo por causa de minhas lombrigas, a feira da semana acabava na 5ª feira, a relação com a familia deteriorou, e eles passaram a «esquecer» de deixar o dinheiro da carne, do onibus dos filhos, etc, numa forma de compensação aceita por a minha mãe.
O abre-e-fecha na geladeira tornou-se obcessão, forçando-os a uma medida drástica:
Me arrumaram um Azilo de Velhos pra morar!
Eu, o agora Renato, fui morar num azilo de velhos no Centro Espírita Allan Kardec, na Tijuca por uns 3 meses, aonde me tornei D ´ J das seções Espíritas!
De cara a «parayba mulher macho sim senhor» que cuidava dos 15 velhinhos, não gostou de mim, nem eu de ela, pra piorar os velhos jogavam 21 o dia inteiro, e eu não jogavam nem pedra na mangueira.
Pior dia era as noites de sabado, na unica TV pra meu azar no quarto de ela, o Programa com 99 % de audiência:
Tele-Catch!
Ela irradiando a luta, parecia estar parindo tamanha a gritaria:
Vai Verdugo e Pé-na-Cova, dá em eles Rasputin Barba Vermelha!
Seis da manhã eu já de pé, ia para a varanda olhar o movimento na rua, eis que certa manhã, surge ela:
LEILA, levando seus dois irmãos, Henrique e provavelmente Maria.
Se Cupido atira flechas, nas outras manhã virei São Sebastião, tornou-se obcessão tornar a vê-la, virou paixão, minha 2ª paixão com apenas 15 anos! (
A minha 1ª foi Elizabeth Wilrich em alto Paraguaçu-SC)
Foram 3 meses igual jacaré, e me livraram da tristeza de viver naquela masmorra.
Nem o sapo beijado por a princesa estava na posição ridicula de um maravilhoso jovem morando num asilo de velhos!
Visitar minha mãe só aos domingos, mesmo assim valia a pena, a praia só existe por causa dos cariocas.
Nos 1º domingos do mês minha mãe me dava um bom dinheiro, para que eu comprasse sabonete, pasta de dente e principalmente doces e biscoitos!
Comprava aos poucos de maneira que durava umas 2 semanas o dinheiro, e a Raimundona só de olho!
Enquanto o tempo passava, eu escrevia ao meu irmão que viesse, até pra me fazer companhia, e nada de ele conseguir sair de lá!
Até que no 3º mês a Raimundona inventou que eu estava roubando o dinheiro das ofertas, colocadas num barril com cadeado.
Eu não a desmenti, pois não aguentava mais aquela chatice, e assim voltei para o Apartamento na Praia Vermelha!
De surpresa meu irmão chega, sorte nossa ninguém da familia em casa, ih agora?
Não podiamos manter a porta do quarto da empregada fechado, pois eles poderiam estranhar, assim o jeito foi um ficar preso dentro do guarda roupa, enquanto o outro circulava.
No meio de semana era facil, a familia saía de manhã, e o filhos só voltavam de tarde, mas no sabado e domingo, faziamos revezamento!
Apesar de nossa personalidade ser bem diferente, por sermos gêmeos idênticos deu pra engana-los por umas 2 semanas, até que eles descobriram a patifaria.
O problema foi que «as Filhas das Frutas» agora acabavam na 3ª feira!
Descobertos, sustentar 2 lombriguentos, nem pensar, apesar de minha mãe já estar gastando todo o salário comos «esquecimentos», a solução achada foi:
Rá ré ri ró Rua!
Voltamos para o barraco, e Deus manda o teste definitivo:
Um Dilúvio-!
966-que derrubou só no nosso morro uns 15 barracos, incluindo o nosso.
Ai fomos morar nas lojas vazias do Shoping Center da Rua Siqueira Campos, ficando expostos como aves raras aos passantes por uns 3 meses!
Fim?
Quem dera, por causa dessa maravilhosa opção Editar, lembrei-me deste importante adendo:
Me sentia um zangão naquela pobre colméia, ai lembrei-me de que meu «pai» tinha me dado um endereço de um amigo motorista, para contato numa emergência.
Ficava no Flamengo na AV.
Rui Barbosa nº tal Apto.
tal. Subi e de cara tomo um susto, da sacada do prédio saia uma ponte que ligava a um morro escondido por a muralha de edifícios!
Ou seja:
Eles tinham um morro particular, só para eles.
Eu estava diante do futuro do nosso morro.
Minha mãe chegou na rua Euclides da Rocha 17 Morro dos Cabritos, em 1950 por ai, e esse lugar ja tinha dono, ela teve de pagar aluguel por o espaço aonde fez o barraco, mas em 1980 a Companhia Pires Santos se apresentou como dona, sabe deus como, Digo Deus Sabe Como, fêz acordo com a Igreja Católica, que prôpos a retirada das Ovelhas, digo dos antigos donos e moradores, via mutirão ou indenização para os que não quissessem participar do mutirão!
A probosta era uma Lei de Gerson Portuguesa com certeza.
Nós pagariamos um carnê de 24 prestações, e com este dinheiro nós iniciariamos a construção do condominio em mutirão!
Como quase todo o mundo trabalhava, mutirão só aos sabados e domingos!
Ai quem era amigo do apontador, assinava o ponto e ia para a praia.
Quem faltasse pagava multa, quem tinha um bom emprego preferia a multa, a perder a praia.
Atrasou a prestação, juros diarios, e o lugar aonde seria as casas, prometia fortes emoções:
O Ninho das Cobras!
Quem não topou o mutirão recebeu uma indenização ridícula, 7.000,00, dinheiro da época!
Voltando:
Bati na porta, e seu Ubyracy o amigo do meu pai me recebeu, e pediu que o esperasse na cozinha.
Eis que derepente surge um mordomo daqueles descritos nos romances de Agatha Crystie, de jaleco e tudo, um espanto.
Diz para a cozinheira que tem que fazer a janta do patrão, tira do bolso uma chave e abre o cadeado da geladeira, tira uma coxa de frango, uma cenoura e uma batata.
Simpatizou-se com mim, aproveitou o embalo e me deu uma ameixa sêca, provavelmente sobra do natal um ou dois meses antes.
Pois é, Seu Ubyracy era motorista do Presidente da Federação de Comércio do RJ!
Com todo o respeito, Sr. Mordomo, já servi coisa melhor as minhas visitas no meu barraco!
Fim?
Serafim!
Para a Minha Verdade só existe uma réplica A Mentira! (
Número de frases: 137
Leiteiro) Em o último dia do ano de 2007 uma estrela foi apagada do «cenário» em São Paulo, perdíamos um valioso dramaturgo, ator e diretor de teatro, Olayr Coan.
Um personagem sai de cena para não voltar, enlutando o meio artístico, porque não dizer, o Brasil.
Olayr Coan fez parte do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), dirigido por Antunes Filho, em Macunaíma, Romeu e Julieta.
Formado por a da Escola Dramática da USP.
Ministrava cursos de interpretação teatral na Escola de Atores Wolf Maya e na Fundação Armando Álvares Penteado -- FAAP.
O artista é autor de muitas peças como «A Língua Perdida»,» Onde Fica o Leste», «Papo de Anjo»,» O Bar», «Em Falsete»,» TV or Not TV», Estranho Amor «e» A Traída».
Dirigiu as peças «Cenas de Um Casamento», de Ingmar Bergman e» Oeste Verdadeiro», de Sam Shepard, com elenco formado por seus alunos da Escola Wolf Maya.
Como ator, em 1993, recebeu o Prêmio Shell de melhor ator com o monólogo «A Confissão de Leontina», de Lygia Fagundes Telles, interpretando a jovem Leontina, em apenas um ato, um dos contos mais famosos de Lygia do livro» A estrutura da bolha de sabão».
Brilhantemente atuou na peça «Toda Nudez será Castigada», Nelson Rodrigues, em 2006.
Um de seus últimos trabalhos, como autor e diretor foi a montagem da peça «Lua sobre o Tapete» que é a história de uma família que tem um pai violento que a abandona e todos os integrantes desestruturam-se.
Olayr dirigiu peças como «Veríssimo em Revista», de» Luís Fernando Veríssimo, Laranja Mecânica», obra de Anthony Burgess, o espetáculo «Drácula» -- experiência de rádio-teatro inspirada no clássico de Bram Stocker, no Teatro Cultura Inglesa, em São Paulo.
Olayr Coan dedicou mais de vinte anos à carreira artística, participando do filme «O Desmundo dirigido por Alain Fresnot junto com Osmar Prado, Caco Ciocler e Simone Spolado e na TV» As Pupilas do Senhor Reitor, um romance do escritor português Júlio Dinis, publicado em 1867».
Coan estava ensaiando a Peça «O Mala» uma comédia assinada por Larry Shue, com direção de Isser Korik.
Com estréia prevista para ontem, dia 04, em São Paulo, a qual foi adiada a partir do seu desaparecimento prematuro, com mais uma, entre tantas fatalidades nas rodovias brasileiras.
Olayr Coan faria 49 anos nesta próxima segunda-feira, dia 07 de janeiro.
Lamentável.
Número de frases: 16
É Arraial do Cabo.
De os 35 km de areia, uma praia foi escolhida para a história se passar:
Praia Grande, num comecinho de tarde.
Sol meio cinza, quente, água muito fria.
Final da faixa de beira-mar (ou início, depende de onde vem), barquinhos encalhados, muita gente concentrada olhando, moço vendendo empada, crianças correndo, dezenas de gaivotas voando bonito e aproveitando o recém-saído sol amarelo para se mostrar.
Algo está acontecendo.
Arrastão:
homens voltam do mar com enormes redes presas a seus barcos.
Redes que saem da água ainda sem peixe.
Todo mundo chega perto.
Todo mundo é pescador, mesmo se não for.
Todos puxam, comuns.
A rede é uma babel.
Vêm os bichos.
Uns enormes, dos quais aqui só se conhece o baiacu.
Quem é da praia vibra.
Gaivotas voam mais e mergulham kamikazes.
Agora, pescadores reais parecem brotar da areia, como que dizendo:
«agora é com mim.
São eles que pegam os peixes grandes.
Os pequenos ficam na mão das crianças, que, obviamente, ficam alucinadas quando o baiacu vira balão.
Duda, pescador, conta que todo dia, meio no começo da tarde, aquela agitação acontece, e é sempre na hora do arrastão.
«Só quando o tempo está muito ruim é que não dá pra fazer», ele diz, «Vem Duda, corre logo pra ajudar, chega de corpo mole, parece que não quer trabalhar», dizem pra ele.
Valdomir, morador da cidade há 40 anos, com pele e jeito de pescador, aproxima-se e fala mesmo antes da pergunta.
«Não sou pescador, mas conheço de ver.
Aqui, quem não vive da pesca não tem o que fazer.
Eu mesmo não trabalho na cidade.
Mas é uma vida tranqüila, com paz de não ter assalto».
Agora, qualquer pergunta.
«E a água, como está fria, é sempre assim?».
«Não, só de novembro a março, a água está fria porque é época de lula», explica, num raciocínio muito particular que faz pensar que a lula é a causa da água gelada, e não, sob lógica de senso urbano, conseqüência.
«É tubarão, é tubarão», gritam.
A lógica de senso urbano faz tremer, mas com a desconfiança de que dificilmente o pânico se valia.
Não valia.
Foi um baiacu que mordeu a mão de uma criança e agora não há o que fazer -- hospital e injeção.
Vida segue e os peixes já estão no caixote.
Os barquinhos voltam para o mar, não muito adentro, já que a rede, diferente da prática de muitos arrastões, fica instalada ainda na costa.
É hora de aprumar.
O moço da empada já foi.
Muitos peixes mortos no chão fazem uma imagem triste.
Os pescadores já não estão lá para ver, os barcos já fizeram sinal de avante.
As crianças correm, como sempre.
Número de frases: 42
Os turistas se diluem, no mar, na barraca, na areia e aqui -- pensando já como contar o que acabo de ver.
O samba tem a cara do Rio de Janeiro, certo?
Sim, tem.
No entanto, apesar de todo o glamour do samba carioca, o samba paulista tem sua importância e valor, um tanto esquecidos.
Mas, recentemente, essa história ganhou um importante capítulo que está mudando sua história.
É o Projeto «Samba da Vela».
Esse ritual que começou seis anos atrás, com cinco pessoas -- depois 15, 200 -- recebe hoje mais de 300 pessoas por apresentação num verdadeiro templo do samba, instalado há quatro anos na Casa de Cultura de Santo Amaro.
Digo, ritual porque todos os presentes ouvem as composições apresentadas em silêncio, verdadeira raridade para um ritmo que nos remete à dança e ao gingado nacional.
É quase impossível pensar em samba sem imaginar a Avenida de um Sambódromo todo iluminado e composto por um som tão ensurdecedor quanto encantador.
O começo
Em julho de 2000, alguns compositores anônimos de Santo Amaro, bairro da Zona Sul de São Paulo, reuniram-se, numa segunda-feira, para tocar e compor juntos.
Gostaram da idéia e toda segunda voltavam a reunir-se.
Assim, chamaram alguns amigos que divulgaram a idéia boca a boca.
Cada vez vinham mais e mais amigos, com isso novas parcerias foram criadas.
Surgiam novos compositores e com eles novos e criativos sambas eram escritos.
A partir daí, os idealizadores Paquera, Magnu Sousa, Maurílio de Oliveira e Chapinha fundaram o «Samba da Vela», que nada mais é que uma reunião de cantores e compositores os quais apresentam suas obras para uma geração pouco conhecedora do verdadeiro samba de raiz.
No entanto, não havia hora para parar, as reuniões duravam até a madrugada e como maioria das pessoas trabalha na terça-feira, havia um problema para resolver.
Então, Paquera teve a idéia de acender uma vela e o samba só pararia quando a vela acabasse.
Bingo! Todos ficaram satisfeitos.
Era o fim da saideira depois da saideira e da outra saideira.
O templo
Com o crescente interesse do público em freqüentar as reuniões, desde 2002, a Secretaria de Cultura do Estado cedeu a Casa da Cultura para o grupo realizar os encontros semanais.
O samba começa a rolar solto por volta das 20h30 e dura até a vela acabar, em torno das 23h30.
A entrada no Samba da Vela é gratuita, mas o público pode contribuir voluntariamente com valores simbólicos.
São cerca de 3 horas de adoração a esse ritmo brasileiro envolto num silêncio religiosamente cumprido.
Os únicos sons ouvidos são do cavaquinho, do pandeiro, do tamborim, do surdo ...
e das vozes dos cantores, é claro.
A mistificação fica em saber se o samba ou o silêncio é a prece do grupo.
E ao final da apresentação é servida uma sopa.
O Samba
As letras das canções tratam de amor, arte, política, educação, valorização à auto-estima e cidadania.
Mas também falam da desigualdade social, do desemprego e da violência.
Os compositores são na sua maioria jovens que conseguiram sair do estereótipo de vagabundos e violentos e passaram a ser idolatrados como artistas criativos e inovadores.
As canções Silêncio, Por Favor e Acendeu a Vela falam, exatamente, do encontro semanal do Samba da Vela.
Duas das músicas criadas e apresentadas no «Samba ...»,
Melhor para Nós Dois e A Comunidade Chora, foram gravadas por Beth Carvalho.
A o chegar ao evento, o convidado recebe o Caderno Oficial da Roda com as letras das canções que serão apresentadas.
O conceito desse projeto segue os passos dos sambistas do passado como Candeia, por exemplo, e ajuda a formar idéias, cultura e arte.
Em cerca de cinco anos de atividade, foram compostas 400 canções, devidamente catalogadas, de entre elas, 20 entraram no CD «A Comunidade Samba da Vela» da gravadora Pôr do Som que está à venda.
O CD
Esse disco foi gravado ao vivo no Espaço Cachoeirinha, em São Paulo, e tem músicas de compositores como Willian Fialho, Du Oliveira e Adriano Carollo.
O Álbum conta com participações especiais de Osvaldinho do Acordeon, da Velha Guarda da Camisa Verde e Branco e de Seu Nenê da Vila Matilde.
Destaque para a faixa A Comunidade Chora em que os participantes da roda semanal de samba colaboraram ao entoar um coro de 120 vozes.
As faixas do CD " A Comunidade Samba da Vela ":
1.
Irmãos de Fé 2.
Caminho da Lua Cheia 3.
Polivalente 4.
Não Merece Compaixão
5. Jurar, jurei
6. Minha Vida Melhorou
7. O Povo da Vela
8. Sinfonia de Pardais
9. Decisão
10. Vida
11. Madrinha
12. Jurei
13. Forrobodó
14. Ingratidão
15. Canto pra Nenê
16. Zumbi-me, Palmares
17. para a Vela não se Apagar
18. Com os Pés no Chão
19. A Luta
20. A Comunidade Chora
A vela
As apresentações no Samba da Vela estão divididas em três categorias:
rosa, azul e branca.
Dia da vela Rosa -- são apresentados sambas inéditos;
Dia da vela Azul -- são apresentados os sambas da roda anterior;
Dia da vela Branca -- são apresentados os sambas já conhecidos por o grupo.
De a idéia inicial de controlar o tempo da apresentação, o instrumento controlador da hora passou a ser mais um símbolo do projeto, a vela inspira os músicos nas composições dos sambas.
O filme
A SP Filmes está realizando um projeto de pesquisa sobre o samba de São Paulo, pois pretende fazer um documentário em vídeo sobre o tema que mostrará desde as raízes do batuque paulista até a idéia do Samba da Vela.
Em a Rede de Computadores
Em o site de relacionamentos Orkut já existem pelo menos cinco comunidades voltadas ao Samba da Vela, uma de elas com mais de 3000 membros.
Em elas, os usuários comentam as últimas reuniões, combinam encontros para as próximas e também divulgam os trabalhos dos artistas envolvidos no projeto.
Uma cidade como São Paulo apresenta uma gigantesca diversidade cultural e com isso, muitas vezes faltam (!)
opções de lazer diferenciadas.
De essa forma, um projeto tão original como esse vale ser visitado, nem que seja uma única vez, ao menos para conhecer.
Serviço:
Comunidade Samba da Vela na Casa de Cultura de Santo Amaro -- Praça, 434 -- Santo Amaro -- São Paulo / SP -- Fone:
Número de frases: 82
(11) 5103-2408. Fernando Almeida
Música, um instrumento musical, e ' santo remédio ' para muitas das situações humanas que contribuem para o estado de stress, violência social, depressão, etc, da sociedade humana.
Em uma fusão dos elementos musicais, do ritual e da técnica instrumental, por exemplo, a pratica do didgeridoo e do berimbau -- instrumentos que também simbolizam a cultura e os rituais do povo Aborigene, da Austrália, e do Brasil, podemos eleger um tema que leva a muitas ' vias ' -- para que possamos ter mais alegria, paz de espirito, e saúde;
educação!
Tocar e conhecer o instrumento, e a cultura do povo que este instrumento reflete, inclusive, serve:
para reduzir o stress do dia-a-dia;
para que se adicione mais educação social e cultura;
para elevar o nivel espiritual de nossa raça humana;
para facilitar a relação entre grupos humanos;
para que se produza música e arte com qualidade ...;
etc. A pratica do sopro contínuo, da técnica de sopro e meditação do didgeridoo, um instrumento musical e dos rituais do povo Aborigene da AU, desenvolve um estado físico e mental, espiritual, no ser humano.
Durante a pratica do didgeridoo o instrumentista passa por um estagio de meditação, a respiração contínua leva a este processo.
A pratica musical e ritualistica do instrumento berimbau, numa Roda de Capuera, por exemplo, também leva o ser humano a uma experiência musical fisica e espiritualizada.
Descrevendo, se a respiração contínua é parte escencial no processo que é usado para a pratica do didgeridoo, o berimbau tem em especial uma função multi ritimica.
Unindo estes aspectos culturais e a parte técnica dos instrumentos, podemos elevar o nivel de consciência do ser humano, do espiritual ao físico, e, adicionar para a educação social e artística.
Portanto, se a pratica musical e ritualistica do instrumento berimbau pode ser enriquecida com a experiência e o conhecimento do processo usado na técnica de sopro do didgeridoo, em contrapartida, o ritimo e a função do ritual do berimbau, a Capuera, pode acrescentar mais dinamica para a ' inspiração ' inclusive para a produção de sons que são usados para a pratica do ritual e do instrumento didgeridoo.
O autor do texto, Mestre Jeronimo, é brasileiro, tem a cidadania australiana, compositor, multi instrumentista, também pratica o berimbau e o didgeridoo, e tem uma grande experiência vivida nas culturas do Brasil e da Austrália, e outras.
* (O Mestre Jeronimo está no Brasil aonde produziu mais um CD de world, Enchente, inclusive usando os instrumentos citados, e está fazendo shows e workshops com base na sua experiência de vida -- www.myspace.com/mestrejeronimo).
Número de frases: 18
Tudo começou ainda na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, entre os anos de 1907 a 1912, quando maranhenses trouxeram do nordeste o bumba-meu-boi e as quadrilhas.
De lá pra cá, o Território Federal do Guaporé, que mais tarde se tornou estado de Rondônia, não parou de receber influências de diferentes localidades do Brasil.
«Pouquíssima coisa existia nessa época», lembra o carnavalesco e compositor Silvio Santos, que mora em Porto Velho há mais de sessenta anos.
O bumba-meu-boi -- que resgata uma história típica das relações sociais e econômicas da região durante o período colonial, criação extensiva de gado e escravidão -- ganha uma releitura e passa a ser caracterizado como boi-bumbá, que hoje tem grande força principalmente em Parintins, no Amazonas.
Mas foi em 1978, com a abertura da BR364, que começou a chegar gente de todo o Brasil, principalmente do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Traziam com si suas essências, cada um no seu estilo.
De rodeio e bailão à «lambadão» e tradições gaúchas.
Uma mistura só.
De esse modo, há seis anos, existe em Porto Velho o Centro de Tradições Gaúchas Ronda Crioula, entidade que reúne tradicionalistas e simpatizantes da cultura sulista.
Edgar Tonial, o'Patrão ' (nome dado ao presidente da entidade) conta que o Centro já existia no estado, mas ainda não havia sede própria.
«O nosso primeiro baile gaúcho foi realizado em abril do ano passado já no nosso espaço, que nos deu mais confiança para seguir em frente», diz.
Ele revela que o «Crioulão» ainda está em crescimento.
Aliás, quem diria, a galera da zona leste, no bairro JK, considerada quase sempre como ameaça de criminalidade à população, fortalece cada vez mais o espaço do reggae.
Seja com o bloco Jamaica, existente há mais de seis anos, que se apresenta na avenida todos os anos no carnaval.
Como carnaval é uma vez só por ano, por conta disso, existe o «Point Estrela Negra» (ou Bar do Reggae), que mantém suas portas abertas para quem gosta de curtir um som mais tranqüilo, mais envolvente.
É o que afirma o DJ Eric Marley, que anima a galera aos finais de semana.
«É legal você ver a galera cantando as músicas de Marley, todos curtindo numa boa», explica.
A estudante Maricélia dos Santos, 19 anos, também gosta da batida lenta e mora um pouco distante do «Point», mas isso não é problema, garante.
«Eu vim do Maranhão e, não tem jeito, curto reggae desde pequena e foi somente aqui, na zona leste, que encontrei esse movimento».
É da zona leste também que o ritmo brega arrasta multidões a casas noturnas aos finais de semana.
O Fuzark Bar, um dos mais movimentados daquela região, é um exemplo de Calypso, Wanderley Andrade e companhia tudo junto.
«A casa fica lotada e o público, pra variar, dança até amanhecer o dia», justifica a proprietária e empresária» Celeste da Costa.
«A música é fácil de ser compreendida porque conta a história de amores mal resolvidos, traições e culpas;
o público adora isso aqui», relata.
Como o Fuzark, existe o Papo D ´ skina (na zona sul) e o Toca dos Cobras (zona norte) todos com o mesmo diferencial:
tocar o ritmo que nasceu no Pará, o brega.
Assim, além de receber diferentes culturas, seja na música, na dança ou em qualquer outro estilo, Rondônia ganha porque recebe influências e costumes que acabam caracterizando um cenário próprio e autêntico.
Cultura pop popular.
Número de frases: 28
«Hoje, se eu quiser, posso comprar um apê, uma casa de bacana, um carro, tudo por causa do livro.
Eu cheguei em São Paulo com cem reais emprestados e tinha 2 opções:
alugava uma pensão e passava fome ou comia e dormia na rua.
Preferi ficar na pensão e passar fome.
Quando acabou a pensão, fui morar na rua, então passei fome e dormi na rua."
Pedro Lopes tem 35 anos e me disse que já chegou ao fundo do poço, mas reverteu a situação e «reaprendeu a viver».
Hoje não consegue separar sua vida pessoal de sua profissão.
É livreiro por opção, mas foi o ofício quem lhe escolheu.
«Vale a pena porque estou vivo até hoje.
Como não poderia valer?"
Luiz Oliveira Dias é um dos livreiros mais conhecidos de São Paulo e, talvez, o que está há mais tempo no mercado.
Me diz que é feliz como livreiro e, prestes a completar 88 anos, não escolheria outra profissão.
Quase se tornou um industrial, muitos de seus amigos são ou foram donos de fábricas de doces, mas se pudesse voltar atrás é bem provável que lidasse novamente com livros.
«Se o livreiro for inteligente, sobrevive."
Adriano Lima é um livreiro militante e apesar de afirmar que livreiro não é uma «classe» luta por uma causa e até foi preso por ela.
Com 16 anos no ramo, começou ainda muito jovem no comércio de livros e hoje, com 32 anos de idade, é o presidente da associação Via Libris, dos livreiros que ocupam a passarela da Rua da Consolação em São Paulo.
Minha intenção era entender como sobrevive um sebo num mundo onde a rede mundial de computadores conecta vendedores e compradores de tudo o que se possa imaginar, inclusive de livros usados.
A discussão sobre a informatização do formato de livro não vingou e o tempo provou que o «fim do livro» não vai acontecer com a popularização da internet.
Inclusive, nunca se produziu tantos livros como hoje.
A discussão pertinente então, gira em torno do comércio de livros por a grande rede e a sobrevivência dos sebos.
Talvez não tenha conseguido nenhuma resposta objetiva para a questão, mas conheci três homens apaixonados por livros e por sua profissão, a de livreiro.
Há dez anos no ramo, Pedro é polêmico e contraditório.
Seu sebo é extremante bem recomendado por uns e assustadoramente evitado por outros.
Em este período acumulou uma extensa biblioteca e hoje possui um acervo de 200 mil livros que ocupam o subsolo e térreo com endereço no Viaduto Nove de julho, Centro de São Paulo.
Identificado apenas por uma placa escrita «Sebo» e por os livros e discos espalhados por a vitrine e entrada do estabelecimento, é conhecido como Sebo 264, número do antigo ponto na Av. 7 de Abril, também no Centro de São Paulo e que hoje é ocupado por um antigo funcionário seu que compartilha da profissão de vendedor de livros usados.
Em breve, o 264 mudará mais uma vez de endereço, pois precisa de um espaço grande para organizar a grande quantidade de livros e montar um «espaço cultural» para shows, exposições, etc..
Enquanto isso, quem entra no sebo esbarra numa folha de papel colada numa estante com o aviso de «estamos em reforma», que reprime o visitante que queira passear por o labirinto de estantes e se perder entre uma infinidade de palavras.
Há cerca de dois anos entrei no sebo do Pedro por indicação de um conhecido em comum e fiz a tentativa de passar por o pequeno espaço entre o balcão e uma estante (nessa ocasião não existia o aviso de " reforma ") e tive a passagem interrompida:
«Estamos em reforma».
Como não vi nenhuma escada, martelo ou saco de cimento, insisti.
Pedro não cedeu -- Me fala o que você quer e se tiver eu pego.
-- Não tenho nada em mente, só quero ver os livros.
Pedro lambeu o molho do macarrão que acabara de comer num prato amassado de alumínio e me diz:
-- Se tivesse um concurso você ganharia.
-- De quê?
-- De chatice.
-- Ficaria em segundo lugar, porque o primeiro seria seu, fácil.
Hoje, encabulado, se diverte com a situação, me corrige dizendo que o prato era de inox (não de alumínio) e pede desculpas.
Disse que se eu avisasse que fora recomendada, teria sido mais cordial.
Pedro não tem paciência com quem «acha que o sebo é um oásis pra passar o tempo», por isso tem» fama de mau».
Quando o cliente reclama muito do preço faz cara feia, toma livro da mão do cliente, quando pedem algo que não tem ou simplesmente não tenha interesse em vender naquele momento manda para alguma livraria na Avenida Paulista.
Diz que não tem apego ao livro, mas não vende um livro bom para qualquer pessoa:
«Não vendo para quem não sabe o que está adquirindo, prefiro esperar a hora certa, vender para a pessoa certa, que vai ter o verdadeiro respeito por aquilo».
Acredita que sua fama é seu marketing.
«Se você escuta um cara dizendo ' o cara é chato, mas tem de tudo lá ' você não vai querer vir aqui?
Claro que vai!"
E é mais ou menos o que acontece com muitos dos clientes que se tornaram seus amigos.
Com um grande acervo de literatura beat, e contracultura em geral, muitos livros publicados nos anos 1980 por a Editora Brasiliense são «caçados» por os leitores de Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Willian Burrouhgs, John Fante, Charles Bukowski ...
E basta demonstrar um interesse em comum com o dono do sebo para a rudez se transformar numa boa prosa.
O 264 vive rodeado de pessoas, clientes com gosto em comum e ex-funcionários que muitas vezes comparecem para colocar o papo em dia e tomar uma cerveja, já que o frigobar nunca está vazio para os amigos.
Seu Luiz é dono do Ornabi, sigla para «Organização Nacional de Bibliotecas» e não lhe agrada que chamem sua livraria de sebo, o que para ele pode dar a impressão de algo sujo, mal cuidado.
Portanto o famoso senhor português é dono do Alfarrábio Ornabi.
Desde 1945 no mercado de livros usados, é considerado um dos mais antigos no ramo.
Até um ano atrás, sua livraria tinha entrada por a Rua Benjamim Constant --Centro Velho de São Paulo, uma região rodeada de sebos.
De frente para a movimentada rua, ocupava ainda um subsolo, o primeiro andar inteiro do antigo prédio e um mezanino só de livros jurídicos.
Com um acervo de cerca de 400 mil livros, as salas eram divididas por temas e levava os nomes de:
Santo Agostinho, Eclética, Platão, Mário de Andrade, Rui Barbosa, Fernando Pessoa, Euclides da Cunha e Luiz de Camões, a última, especializada em literatura portuguesa e uma das poucas que sobrevive no pequeno espaço que resta do Ornabi.
Antes de conhecer Seu Luiz, fui alertada por suas características conflitantes:
«um simpático senhor»,» às vezes tão mau-humorado.
Talvez tenha tido sorte, pois fui muito bem tratada e conheci o senhor simpático que ainda guarda muito do sotaque lusitano.
Depois da conversa com Seu Luiz, que também é chamado de Ornabi por alguns clientes, pesquisei na internet e vi que me contou sua história preferida:
quando chegou ao Brasil, em 1939, fugindo da guerra que estava por vir.
Com 20 anos de idade chegou a São Paulo, com uma pequena mala de mão, e a única referência que tinha era de um patrício de nome Vieira que seu pai conhecera em Portugal.
Em o mesmo dia em que chegou, caminhava sem destino por o centro de São Paulo quando se deparou com o letreiro «Livraria Lusitana», entrou e depois de uma conversa o dono do estabelecimento se apresentou: --
Meu nome é Vieira.
Emocionado, o jovem Luiz disse-lhe da recomendação de seu pai e às cinco da tarde já estava empregado como vendedor de livros.
Triiiiiiiiiimmmmm ...--
Luiz, vem cá atender, tem uma moça perguntando por um livro.
Inclinado, tenta chegar mais rápido do que as pernas poderiam acompanhar.
Está rouco e a conversa ao telefone acontece com certa dificuldade.
Pede um momento e vai para a prateleira de livros jurídicos.
Ofereço ajuda.--
Seria bom ¬, responde sem prestar muita atenção em mim.
Resmunga que o exemplar já foi vendido e retorna ao telefone para dar a notícia.
há pouco mais de um ano, vendeu oito mil livros jurídicos para um advogado e professor que vive na fronteira do Brasil com o Uruguai.
Todo o antigo mezanino deixou o Ornabi, com as estantes e um quadro de Rui Barbosa, um dos preferidos de Seu Luiz.
Hoje mostra com orgulho as fotos que o comprador mandou da biblioteca que montou em sua casa, com os livros comprados e, para a alegria do livreiro, lá estava o quadro de Rui Barbosa.
Enquanto faz negócios com um atravessador de livros, converso com a senhora dedicada que anda para lá e para cá, arrumando prateleiras, cuidando de livros e sempre querendo saber se Luiz precisa de algo.--
Ô Rrrrrita, me dá um copo d' água, minha garganta está muito ruim hoje.
Rita fala sobre o lado bom e o ruim da mudança da entrada que agora se dá por dentro do antigo prédio, na Rua Quintino Bocaiúva.
O movimento da Benjamim Constant, o barulho, as motos, os pontos de ônibus, tudo isso é muito tumultuado para um senhor octagenário, mas Dona Rita se lamenta que depois da mudança «ficou muito escondido» e que " precisa divulgar mais, né?
Diminuiu muito o movimento».
Pergunto a Rita se ela trabalha há muito tempo no Ornabi.
Tímida, ela sorri, um riso de criança, e diz que sim e quando quero saber onde mora Seu Luiz, com quem vive, muito mais tímida, porém com orgulho e um sorriso no canto da boca responde:
«Com mim, sou a mulher de ele."
Adriano, fala mansa, palavras muito bem articuladas, é atencioso com os clientes e cuidadoso com sua estante de livros na passarela da Consolação, espaço onde pode vender seus livros sem correr o risco de serem confiscados e de ser preso novamente.
Feriado de 7 de setembro de 2005, Rua Augusta, Paulo:
A Guarda Municipal ou como diriam os vendedores ambulantes, o rapa, entrou em confronto com os livreiros que ocupam as calçadas da rua.
Livros foram confiscados e Adriano foi preso por «crime contra a administração pública e resistência».
Há quase duas décadas os livreiros fazem parte do cenário plural da Rua Augusta.
Apesar das tantas mudanças com o passar dos anos, a rua é famosa por a circulação de boêmios e intelectuais, pessoas que circulam por os bares e cinemas são os compradores que fazem com que esse comércio das letras enriqueça a vida cultural da região e garantem a sobrevivência de uma profissão tão importante na formação da população, porque a «mercadoria» vendida, assim como o livreiro, está a serviço da informação e formação da sociedade.
O acontecido gerou grande discussão entre a população transeunte e clientela dos livreiros na região.
«Até os comerciantes ' oficiais ` da região entenderam a situação e nos apoiaram, porque nosso trabalho era sério e depois que nos organizamos, o local ficou ' limpo ' dos malucos que ficavam ali consumindo drogas e atrapalhando nossas vendas».
E foi mais uma vez como organizador que Adriano procurou ajuda e depois das manifestações por a liberação do comércio de livros usados na rua, chegou, junto com outros livreiros, a um acordo com quem os tirou de suas bancas:
a Subprefeitura da Sé.
Cerca de dois meses depois da retirada da Augusta, foi concedido o espaço público da passarela da Rua da Consolação para que se organizassem desde que cumprissem algumas regras para a manutenção do local.
Fechada desde abril de 2005, a passarela, que segundo Adriano, não consta em nenhum mapa da cidade e foi construída numa gestão do então prefeito Paulo Maluf, estava decadente, suja e sem segurança alguma para os transeuntes.
Ligando por um caminho subterrâneo um lado a outro da Consolação, quase na esquina com a Avenida Paulista, passam diariamente cerca de 30 mil pessoas que, hoje, ao invés do mau-cheiro e insegurança, passam por estantes de livros, exposições de artes visuais, manifestações musicais nos fins de semana e música ambiente durante todo o dia.
Pedro vendia artesanato e um dia, quando a falta de grana apertou, teve que vender um de seus seis livros, que o acompanhavam em suas andanças.
Uma senhora perguntou: --
vende?-- A senhora paga quanto?--
20 reais.
Levou. O livro?
«A idade da Razão, de Jean Paul Sartre». De esse dia em diante não parou mais, montou uma banquinha no Bexiga, um dos bairros mais boêmios de São Paulo e num ano já era um livreiro de sebo.
Em o começo do negócio viajava muito, por todo o país, atrás de livros raros e ainda hoje visita quatro ou cinco sebos por dia atrás de raridades e livros que possam atrair seus compradores.
Diz que gosta «de ir no sebo do vizinho, comprar livro de 10 reais que valeria 200 e evitar o de 200 que valeria 12, que é a coisa mais comum hoje».
Apaixonado por o que faz, Pedro faz questão de se divertir.
Se diverte lendo, vendendo, proseando ...
é um homem de verbos no presente com olhos no futuro, um homem de ação desde quando se movimenta rápido e gesticula com os braços magros «molengando» de um lado para outro até quando acha que vender livros é pouco e decide investir em shows e CDs de bandas de rock.
O Sebo 264 lançou 10 bandas e enquanto não esteve «em reforma», organizou shows para que as bandas se apresentassem.
Além da diversão, o tino empresarial do livreiro rendeu visibilidade ao negócio de livros e bons contatos e diz:
«basicamente no país inteiro me conhecem».
Atencioso com a literatura, já leu de tudo, pois diz que qualquer pessoa lhe interessa.
Atencioso também quando não tem o livro que o cliente procura e, como um desafio, enquanto não acha, não sossega.
Depois de dois anos veio o telefonema: --
Encontrei o livro.
Lá estava, numa tarde de sábado, um produtor de um canal de televisão, feliz da vida com seu almejado livro e de quebra mais uma meia dúzia -- nem tão raros -- que renderam um bom cheque nas mãos do livreiro.
Livreiro careiro assumido:
«É. Nunca neguei para ninguém, sempre vendi bons livros e caros, se é bom, tem que ter um preço, mas você também pode encontrar um livro bom e barato com mim, de um assunto que já passou de época, um escritor que não tá sendo cotado».
Seu Luiz não pensa em novidades, empreendedorismos.
A filha e os netos seguiram seus caminhos e apesar do carinho que Seu Luiz afirma receber de todos, não há espaço para o velho Ornabi em suas vidas.
Ainda sente prazer com o negócio, mas não existe mais o entusiasmo de outrora.
De o grande Ornabi com seis funcionários, hoje restam dois, que afirmam não gostar de ler, apesar da convivência com tantos livros, e um leitor especial e apaixonado por literatura como Seu Luiz.
O homem que resolveu se dedicar exclusivamente aos livros depois de passar por uma grande tristeza, a morte de sua primeira esposa, se diz satisfeito por tudo o que fez e faz da vida.
Em o pequeno escritório, uma mesa com um telefone, daqueles aparelhos antigos de disco, muitos papéis, livros ...
numa prateleira fotografias de sua filha Elza, psicóloga, de quem o pai mostra com orgulho um de seus livros publicados e dos três netos.
É ainda bisavô e «pai de criação» de um sobrinho de Dona Rita.
Em o balcão, matérias de jornal com fotos de Seu Luiz e o Ornabi de tempos passados.
Por toda a sala maior, Fernando Pessoa em retratos e poesias, mapas de Portugal, quadros com temas literários vindos diretamente de terras lusitanas e um belo quadro que retrata um Ornabi que vive forte nas lembranças de Seu Luiz e de seus clientes mais antigos.
Militante e organizador, Adriano ainda tem tempo de ser livreiro.
Sua estante é uma das mais organizadas.
Algo como «Não empreste livros, dê de presente» ou «literatura perturbadora» são mensagens espalhadas por suas estantes de livros.
Em a passagem é assim:
os nove livreiros que ocupam o espaço hoje dividem o ambiente com suas estantes, além de uma mesa com livros que foram doados e são vendidos, com lucro utilizado para os gastos de manutenção como material de limpeza, por exemplo.
Além das mensagens coladas nas estantes, Adriano deixa bilhetes provocadores em alguns livros.
Qual o critério?
Mexer com o leitor, gerar curiosidade, provocar, evitar equívocos e «vontade de dar uma bronca mesmo».
Adriano lembra que na época em que chegou ao país o reality show Big Brother Brasil muitas pessoas iam até a sua banca de livros procurar por o livro «1984», de George Orwell, alegando se tratar do programa de televisão.
Com certa indignação Adriano alertava os possíveis compradores sobre o verdadeiro conteúdo de livro, mesmo que algumas vezes viesse perder um comprador, e muitas vezes deixava mesmo de vender livros.
Além disso, alguns livros de que gosta e quer que outros leiam também recebem os bilhetes:
os livros do escritor americano Paul Auster são exemplos.
Aliás, Adriano se considera um «bom leitor», porém» caótico " diz que não possui uma diretriz, mas quando cita seus autores preferidos é possível desenhar uma:
cita autores pouco conhecidos como o austríaco Thomas Bernard, passando por romancistas clássicos Herman Melville e João Guimarães Rosa até os perturbadores Friedrich Nietzsche e Albert Camus.
Aliás, das vezes que vi Adriano trabalhando, sempre estava com seu banquinho próximo a estante de «literatura perturbadora».
Imaginativo, Adriano pensa sobre quais mãos os livros que estão em suas estantes já passaram e curioso com o ser humano, vislumbra por quais mãos ainda passarão.
Acredita que em São Paulo tem cerca de 500 sebos, somando os com espaços físicos e o que ele chama de nômades, livreiros sem ponto fixo.
Em a passarela não tem computador, aliás, Adriano não é nem um pouco entusiasta das novas tecnologias.
É amante de música erudita, mas no equipamento de som que deixa o ambiente na passarela ainda mais agradável é possível escutar Velvet Underground e descobrir que faz parte de sua discoteca.
O garoto que começou a gostar da leitura, como a maioria dos garotos, lendo «gibis», é hoje um apreciador e conhecedor de Histórias em Quadrinhos, se empolga com o assunto e quando lhe digo que me falta o número 1 do quadrinho» Os Invisíveis " e fica de me conseguir um exemplar.
Seus clientes são clientes «comuns», não se especializa em livros raros porque não acha que deva cobrar um valor muito alto num livro, não chegou a trezentos reais o livro mais caro que vendeu, portanto, bibliófilos não são seus principais compradores.
Se um dia vai ter um sebo?
Um espaço só seu?
«Talvez, no momento não tenho planos de deixar a associação.
Um dia, se as coisas caminharem para uma auto-organiza ção, sigo meu caminho, mas por enquanto não.».
Hoje, com acesso «liberado», caminho por entre os espaços apertados das estantes do 264 e, em cima de algumas caixas uma TV, lençóis, um cobertor e travesseiro, ao lado, uma pequena cozinha, no subsolo,» deu pane " ficou sem luz, o banheiro é lá em baixo, muito, muitos livros nas diversas salas e Pedro tem (quase) tudo catalogado em sua mente.
Normalmente Pedro acorda cedo e dorme tarde, é possível passar às 7 horas da manhã e o sebo estar aberto, muitas vezes 23 horas, meia-noite e ele está lá com as portas abertas para " vender, atender quem quer saber sobre livro, mas pra gastar com passatempo, tem a praça, a biblioteca, o boteco, eu to fora."
E assim sobrevive, vendendo livros na promoção a três reais «se levar 3 paga cinco, ou seja, cada livro sai por um real e setenta e cinco centavos» até raridades como uma primeira edição de «O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo», de Oswald de Andrade que vendeu por R$ 3.900.
Pedro não é muito fã de internet, mas graças a ajuda de um funcionário está catalogando aos poucos seus livros na página do 264 na web, a divulgação é boca a boca e ele não acredita que seus compradores vão deixar de freqüentar o espaço físico do sebo.
O bonde do tempo não pára e passa impiedosamente rápido para quem não quer, ou não tem mais pernas para acompanhá-lo, mas o senhor de cabelos esbranquiçados, olhos caídos e voz cansada segue lendo Eça de Queirós, seu escritor preferido e vendendo livros espertamente, com um preço proporcional ao interesse do leitor.
O método não muda, mas é preciso que o leitor suba as escadas do velho prédio, porque o antigo salão do Ornabi, no térreo, é hoje um bar, que mata outro tipo de sede que não a literária.
Número de frases: 160
Coração apertado quando compro meu ingresso, músculos do pescoço tensos na hora de procurar um bom lugar para sentar, e, finalmente a cabeça lateja quando a escuridão da tela dá lugar às primeiras imagens.
Bem, na verdade, posso dizer que entrei preparada:
já haviam me avisado que seria um daqueles filmes pesados, em que se derramam umas lágrimas e, já na saída, o assunto muda para os planos de hoje à noite.
E se não fosse assim?
Logo no início, assisti uma aldeia inteira ser destruída por rebeldes africanos e não resisti.
Mordi a ponta da língua, mordisquei o canto do lábio inferior direito, como faço quando tento segurar o choro -- e foi em vão.
Chorei, desabei na cadeira, e não consegui respirar, como se cada segundo de imagem me chutasse entre o coração e o diafragma.
De repente eu vi.
Vi minha mãe procurando proteger as duas filhas.
Vi meu pai correndo com peixes na mão.
Vi primos e primas sendo massacrados por uma guerra que nunca foi de eles.
Vi panelas de arroz sendo quebradas por botas ainda manchadas de barro.
Saí, fui ao banheiro, lavei o rosto, respirei, e voltei.
Agora, que já sabia como seria o filme, que tivesse a coragem de assisti-lo por completo, com todas as reações viscerais que viessem por a frente.
Enquanto os diversos personagens se desenrolavam, cheios de falsos interesses e agonizando com dúvidas, eu vi novamente.
Vi meu pai, desta vez tive certeza.
Sua aldeia, que só aparecia para mim em recordações de infância, entrou correndo e invadiu o cinema.
Seu nome, que não passava de menções passageiras, se concretizou frente aos meus olhos, e senti uma estranha sensação de lugar comum, como se, em alguma vida, ou sonho, já tivesse visto tudo aquilo.
Enquanto falavam mende, ouvi você falando com seus irmãos no telefone, e perguntando se estava tudo bem:
a mistura de inglês quebrado com palavras do dialeto que só vocês sabem.
Será que já procurei aprender algumas palavras?
Senti-me mal, fisicamente destruída, enquanto via os milhões de refugiados, entulhados em pequenos casebres ou longas fileiras por o árido terreno africano.
Nossa!
Nem de longe parecia aquela região tão bonita que vejo quando penso em Siera Leone.
Nem de longe lembra as sementes de cacau espelhadas por o chão, esperando secar, o cheiro forte que só a comida com óleo de dendê tem.
Nem de longe lembra as águas daquele riacho tão azul, tão azul que encantou até a mais resistente visitante daquela viagem que fizemos.
Sim, ao contrário do que temos feito todos estes anos, não posso mais chamar o país de Serra Leoa, não é seu nome de verdade.
Boakari não é nosso nome de verdade.
Será que já te perguntei antes?
Chorei novamente.
Desta vez não foi por o que passaram, mas a razão que passaram por tanto, em tão pouco tempo, e quais os motivos.
Foram dez anos, isto eu sei.
Você me disse.
Gostaria que tivesse me dito mais, me explicado por quê.
Mas hoje, percebo que nem você sabe.
É difícil entender porque Homens se voltam contra eles mesmos, porque a ambição de alguns consegue controlar as boas ações de poucos, e, o pior, como podemos viver com tanto e não fazer nada.
Chorei. Foi, mais uma vez eu vi.
Foi pior, porque vi meu avô sendo carregado, por quantos minutos?
Por quantas horas?
Foram dias?
Meses? Enquanto estávamos aqui, alheios às dificuldades do mundo, eles lutavam para sobreviver.
Ele, era carregado.
Te liguei quando cheguei em casa, e você me consolou.
Não deveria ter sido o contrário?
Você me falou algumas coisas que nunca havia dito, tentou novamente explicar o porquê da guerra, e, animado, mais uma vez me disse que a aldeia está sendo reconstruída.
Calafrios. Medo.
Enquanto você me falava, fiquei assustada, e finalmente percebi porque, mesmo diante de tanta fraqueza, diante de tanta violência, de tantos tiros, e machadinhas, vocês conseguiram sobreviver:
era pra ser.
E assim, termino este desabafo.
Não sem, mais uma vez, morder o canto do lábio inferior direito, e pensar em você.
Pensar na nossa família, e fechar os olhos:
quero lembrar é do cacau, do riacho, do dendê, e mais uma vez pensar que estamos todos juntos -- em casa.
«MENDE:
The Mende are a large West African ethnic (population approximately 2 million), speakers of the Mende language, living primarily in Sierra leone and Liberia».
Número de frases: 54
Para uma boa parte da população que mora em grandes centros urbanos, o cinema é algo comum, entretenimento acessível a qualquer tempo e lugar.
Mas para muitos outros, o contato com a magia da grande tela é fato raro e muitas vezes único.
É este público ainda intocado por a sétima arte que inspira mais uma vez o projeto Cinema no Rio.
Em sua terceira edição, o Cinema no Rio 2006 iniciou suas sessões itinerantes no dia 22 de julho e vai estendê-las até 22 de agosto, em municípios dos estados da Bahia e de Minas Gerais.
A bordo do barco Luminar, essa expedição cinematográfica, vai descer o Velho Chico, com um roteiro ainda mais extenso do que os apresentados nos anos de 2004 e 2005.
Ao todo, serão 26 localidades às margens do Rio São Francisco a receber uma diversificada programação, sendo 13 no estado de Minas Gerais e 13 na Bahia.
Nove dessas cidades já receberam o projeto -- Pirapora (MG), São Francisco (MG), Pedras de Maria da Cruz (MG), Buritizeiro (MG), Barra do Guacuí (MG), Ibiaí (MG), Ponto Chique (MG), São Romão (MG), Cachoeira do Manteiga (MG) -- as demais ainda serão contempladas -- Januária (MG), Itacarambi (MG), Manga (MG) e Mathias Cardoso (MG).
Barra da Parateca (BA), Angico (BA), Carinhanha (BA), Malhada (BA), Gameleira da Lapa (BA), Sítio do Mato (BA), Bom Jesus da Lapa (BA), Paratinga (BA), Ibotirama (BA), Morpará (BA), Barra (BA), Ibiraba (BA) e Xique-Xique (" BA).
«Desde a primeira edição do Cinema no Rio, em 2004, a minha intenção era promover esse extenso roteiro.
Vamos levar sessões de cinema gratuitas e em praças públicas não só nas cidades ribeirinhas em Minas, mas também da Bahia.
Nosso próximo passo será percorrer o trecho navegável e não navegável do São Francisco -- de Pirapora até a sua foz», alegra-se com a realização, o coordenador e idealizador do projeto, Inácio Neves.
Ainda segundo Neves, o objetivo do projeto é difundir a linguagem cinematográfica, em especial a produção brasileira, para um público formado, em sua grande maioria, por pessoas que nunca entraram numa sala de cinema, contribuindo, assim, para a democratização do acesso aos bens audiovisuais.
Além disso, o projeto revaloriza a experiência cultural coletiva e abre caminhos para a criação de novos públicos.
«O projeto faz chegar o cinema a populações carentes, privilegiando cidades que não têm cinema e cujos habitantes, na maioria, estão acostumados a assistir filmes americanos na televisão.
Então, essas pessoas tornam-se público-alvo do projeto», define.
Com duas edições realizadas (2004 e 2005) o Cinema no Rio já beneficiou cerca de 55.000 pessoas.
Para este ano a expectativa é de atingir um público de 100.000 pessoas.
«O diferencial do Cinema no Rio é que ele não ocorre em grandes centros e sim em regiões onde não existem salas de exibição.
«A visada então é mais que uma democratização cultural é também uma democratização social.
Além disso, o projeto não tira nada da cidade, pelo contrário, ele leva.
Contratamos mão-de-obra local e até mesmo um pipoqueiro para animar as noites de exibição, com distribuição de pipoca gratuita.
Tudo isso, mesmo que seja temporário, é uma forma de gerar emprego e renda locais, além do entretenimento», pontua Inácio Neves.
Em cada município, será exibido também um vídeo micro-documentário, totalmente gravado e editado nos locais de exibição por uma equipe de profissionais.
Cada comunidade que faz parte do roteiro do Cinema no Rio terá a oportunidade de se ver na tela.
Em o dia da projeção, uma equipe de vídeo com um câmera e um produtor, passará o dia registrando em vídeo digital os depoimentos dos moradores e imagens dos locais mais conhecidos.
à noite, antes da exibição do filme será projetado o resultado deste trabalho.
A idéia é propiciar ao público a oportunidade de expressar seu ponto de vista.
Todo este trabalho agregará valores regionais às sessões de cinema, dando a cada sessão um caráter singular.
A intenção é que futuramente todos os vídeos resultem num documentário e sejam exibidos em emissoras de televisão educativa e universitária.
Filmes
Para a programação de 2006 foram selecionados 11 títulos nacionais por meio de uma curadoria realizada por o idealizador e coordenador, Inácio Neves, e por o diretor de cinema, Helvécio Marins.
As projeções serão compostas por cinco curtas, e seis longas-metragens.
As exibições acontecerão em plataforma 35 mm e DVD.
De acordo com Marins, toda a programação foi pensada de forma a propiciar aos espectadores uma linguagem cinematográfica mais apurada e educativa, no sentido de explorar o lado artístico de cada produção.
Além disso, a temática de todos os trabalhos selecionados tem uma ligação com o cotidiano vivido por a comunidade ribeirinha.
Em a programação do «Cinema no Rio» 2006 " estão os curtas:
Nascente (ficção), com direção de Helvécio Marins;
Secos e Molhados (documentário), do diretor Armando Mendezz;
os curtas Curupira, Iara e Boto, da série de animação Juro que vi;
e os longas-metragens:
Cinema Aspirinas e Urubus (drama), de Marcelo Gomes;
O Caminho das Nuvens (Drama), de Vicente de Amorim;
Narradores de Javé (ficção), de Eliana Caffé;
Espelho D' água -- Uma Viagem no Rio São Francisco (drama), dirigido por Marcus Vinícius César;
A pessoa é para o que nasce (documentário), de Roberto Berliner;
e Aboio (documentário), da diretora Marília Rocha.
Serviço
Cinema no Rio 2006
22 de julho a 22 de agosto de 2006 Rio São Francisco -- Gerais -- Bahia -- Brasil
Realização: Muito Mais Promoções
Patrocínio: Banco BMG, Petrobras, Grupo Telemar (
Lei Federal e Estadual de Incentivo à Cultura) Apoio:
Instituto Telemar e Cemig
Assessoria de Imprensa Sinal de Fumaça -- A comunicação original
Telefax: (31) 3264-4404 --
E-mail: sfumaca@terra.com.br
Sérgio Stockler (31) 9143-1001, Ariane Lemos (31) 9751-0445,
Pollyanna Alcântara (31) 9752-4058 e Vinícius Barreto (38) 84025559
Outras informações:
Número de frases: 59
www.cinemanorio.com.br Assim como em outras cidades do Brasil -- vide «Upgrade do Macaco, A Urgência da Arte Urbana» -- o graffiti vive um momento excelente aqui em São Paulo.
Vou passar aqui meu depoimento (de fã) sobre a cena.
Acompanho o trabalho dos grafiteiros há muitos anos, a princípio de longe, simplesmente seguindo seus traços por as ruas, e recentemente mais de perto.
Essa aproximação foi possível graças ao que vou relatar agora.
Os espaços
A primeira coisa que me chamou a atenção para as mudanças que estavam acontecendo foi a abertura da galeria Choque Cultural, em 2004.
Apesar da proposta ser destacar artistas de várias áreas pouco usuais (como tatuagem), o graffiti tem sido seu destaque.
Conseguiram chamar a atenção através de iniciativas bastante criativas, como o recente ' intercâmbio ' com os artistas da galeria Fortes Vilaça (que representa Vik Muniz, por exemplo).
Outra coisa excelente:
a Choque Cultural mantém uma política de vender gravuras numeradas de seus artistas a preços acessíveis.
Pouco tempo depois, mais precisamente em Maio de 2005, abriu a excelente Grafiteria.
Comandada por dois artistas, Jey e Boleta, é mais focada no graffiti -- e vem fazendo um trabalho de muita responsa.
De cara, conseguiram bastante atenção com a exposição «100 Latas», em que 177 artistas transformaram suas latas de spray em objeto de arte.
Atualmente está em cartaz o grande Rui Amaral, com seus motivos alegres.
Outros que passaram por lá foram Highgraff, Titi Freak e Binho.
Outros espaços que abrem suas portas para o graffiti e / ou o pixo são a Most, a Grapixo e o espaço Basement (no Magenta Burger).
Recentemente aconteceu no galpão da Oficina Central a comemoração do Dia do Graffiti (27 de Março -- data da morte de Alex Vallauri), com Ozéas Duarte, Celso Gitahy, Claudio Donato, Daniel Melim, Chivitz, Jey, Boleta, Binho Ribeiro, Pato e Rui Amaral.
Mídia
A mídia vem dando bastante atenção a esses eventos, o que colabora para diminuir um pouco o preconceito e a confusão entre o público.
Para ilustrar, apenas nos últimos dois meses o graffiti paulistano esteve em revistas tão distintas quanto Marie Claire, Bravo, Viver Bem, Trip, Raiz e Revista da Folha (do jornal Folha de São Paulo), além de vários sites e guias culturais.
Também segue firme a revista Graffiti, editada por Binho Ribeiro, artista com uma atuação muito forte na cena paulistana.
Por outro lado, o caminho a ser percorrido ainda é longo, já que o público destes espaços ainda é basicamente uma certa minoria bem-informada (que tem se tornado uma minoria um pouco maior, pelo menos).
Publicações
Também tivemos recentemente o lançamento de três livros que movimentaram o ambiente:
O primeiro foi o'gringo ' Graffiti Brasil, por a editora inglesa Thames e Hudson, que deixou todos na expectativa.
É um excelente livro, com muitas fotos, e destaque para os textos:
nota-se que houve uma pesquisa séria antes de escrevê-los, e é interessante a comparação da cena brasileira com a do resto do mundo.
Como nota dissonante, sofreu críticas em relação à edição de artistas, tida como pouco abrangente.
Depois veio o livro " ttssss ...
a grande arte da pixação em São Paulo», sobre o pixo.
Organizado por Boleta, é um belíssimo trabalho.
Muito mais polêmico que o graffiti, o pixo bem que merecia uma defesa bem-feita.
As fotos são maravilhosas, palmas para o grande João Wainer.
Mais recentemente foi lançado um número especial da revista Imaginário, ligada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).
O volume traz o título «O Graffiti na cidade de São Paulo e sua vertente no Brasil -- estéticas e estilos».
Traz muitas fotos, alguns textos bons (especialmente no início), mas o resultado é um tanto irregular.
Repressão
Outro ponto que vem tendo altos e baixos é o relacionamento com o poder público.
Algumas frentes de diálogo, como a Coordenadoria da Juventude (inaugurada ne gestão Marta Suplicy e continuada na gestão José Serra) e a permissão que o Governo Estadual (gestão Alckmin) deu aos artistas para pintar os tapumes de obras do metrô são contrastadas por momentos de aumento da repressão (como a atuação da sub-prefeitura de Pinheiros) e a adoção de leis severas contra a street art..
Mas os grafiteiros não parecem se importar muito com isso, afinal a ilegalidade sempre foi responsável por a adrenalina ...
A gestão José Serra também pintou a cidade toda num tom de bege horroroso, uma cor de tédio que só se salva porque cria novas ' páginas em branco ' para os grafiteiros.
A cor é tão feia que se torna uma obrigação!
E então?
O mais importante disso tudo é que os artistas estão sabendo conciliar o namoro com o mainstream com sua atuação na rua, que é a essência do graffiti.
Todos os artistas concordam que o graffiti não é uma questão estética, mas que ele é justamente o Diálogo Com A Cidade, e que a utopia de apresentar arte livre e gratuita a todos não pode ser abandonada.
Acho muito bom que alguém que não é do meio possa acompanhar o movimento.
Sou fã desses caras, o trabalho de eles é uma das coisas que me orgulha na minha cidade!
Saiba mais!
Para quem estiver na cidade, qualquer passeio é uma entrada grátis numa imensa galeria de arte a céu aberto.
É só prestar atenção.
Aos poucos é possível até reconhecer estilos, figuras ...
uma hora a sensação é de que você está andando na rua e esbarra com um velho conhecido (onde antes havia só um muro branco sem graça).
Para quem estiver em outro lugar do Brasil, vale encomendar os livros, que são muito bons como introdução, ou xeretar alguns sites bacanas.
Dicas:
www.stencilbrasil.com.br (sobre os artistas do stencil, com vários links)
www.lost.art.br (fotógrafos responsáveis por grande parte das fotos do livro Graffiti Brasil)
www.artbr.com.br (site do Rui Amaral)
www.artsampa.com (destaque para o link ' bonecos / personagens ')
www.choquecultural.com.br (mostra as gravuras que eles vendem)
www.fotolog.com/grafiteria (resumo das exposições)
Número de frases: 60
www.acaravanadogeneralcluster.blogspot.com (meu blog, notícias e fotos dos grafiteiros com quem trabalho)
Enche os olhos e o coração do apaixonado por música brasileira ler no Relatório Final da 4ª Reunião da Câmara Setorial de Música da FUNARTE, diretriz A, que a linha de ação nº 1 é a «Campanha Nacional por os 2 % do orçamento federal para o MinC, com percentual destinado à Música como maior bem cultural do país».
Não são os 2 % do orçamento federal o que me enche os olhos e o coração.
Reconheçam com mim que é um barato, é de entusiasmar, é de expandir o fôlego pensar na música brasileira como sendo tratada, oficialmente, como o «maior bem cultural do país»!
Foi só por esse trecho, «a Música como maior bem cultural do país» que citei o documento e por a relevância que creio terem os documentos da Câmara Setorial de Música da FUNARTE em representar a posição oficial do Ministério da Cultura em relação à nossa música.
Uma outra informação mais próxima do tema que quero tratar aqui é que o ministro Gilberto Gil vem estimulando a formação de grupos que trabalham séria e transparentemente na formulação de projetos que articulem elementos de tecnologia informática para democratizar o acesso à informação, fomentar a produção e a troca cultural no Brasil, entre outras ações e propostas importantes e interessantíssimas que estão melhor detalhadas no artigo O Impacto da Sociedade Civil (des) Organizada:
Cultura Digital, os Articuladores e Software Livre no Projeto dos Pontos de Cultura do MinC, de Alexandre Freire, Ariel G. Foina e Felipe Fonseca -- um texto esclarecedor.
Uma das tecnologias cuja difusão tem sido bastante enfatizada em blogs e sites brasileiros a partir dessas iniciativas é a CreativeCommons, que «disponibiliza opções flexíveis de licenças que garantem proteção e liberdade para artistas e autores» -- um modelo de licenciamento autoral que permite ao autor gerenciar combinar modos de permissão para distribuição e utilização de sua obra, de forma que a obra tenha «alguns direitos reservados», à sua escolha, em vez de» Todos os direitos reservados " e pronto.
Lançadas essas referências, proponho as seguintes caraminholas:
* É realmente interessante para os brasileiros que somente alguns direitos sejam reservados sobre o «maior bem cultural do país»?
* Além disso, é realmente interessante para o Brasil que somente alguns direitos sejam reservados sobre o «maior bem cultural do país» enquanto ainda pagamos caro por os direitos autorais de tecnologias (hardware, software, protocolos) que suportam o escoamento de nossa produção cultural para agentes culturais que provavelmente irão ganhar mais que nós com o que é nosso no exterior?
* É realmente interessante para os músicos brasileiros que somente alguns direitos sejam reservados sobre o seu trabalho quando os países mais ricos do mundo ainda reservam todos os direitos sobre os produtos veiculados por sua indústria cultural?
* É realmente interessante para os músicos brasileiros que somente alguns direitos sejam reservados sobre sua obra enquanto ainda não há interesse e / ou meios para que somente alguns direitos sejam reservados sobre outros tipos de obras autorais?
Refiro-me aqui por exemplo ao preço caríssimo que os importadores de remédios pagam e cobram por as medicações cujas fórmulas não são desenvolvidas no Brasil (ainda que muitas vezes manipuladas com matéria-prima natural e exclusivamente brasileira), e entre vários outros exemplos possíveis em campos diversos.
Minha opinião:
temos que ser cuidadosos.
Sendo a música brasileira nosso maior bem cultural, é necessário que o Ministério da Cultura cuide de ela com muito carinho.
É carinho mesmo -- isso que sentimos por aquilo a que temos afeto, que ocupa um lugar especial em nossa história, influi incontestavelmente na maneira como percebemos o mundo e nos faz melhores, mais saudáveis de fato.
O conteúdo da Internet está à disposição do mundo todo, contudo não sabemos até quando assim será e como virá a ser gerenciado o acesso a esta informação no futuro.
Em vista de nossa desvantagem econômica e tecnológica com os países industrializados e levando em conta o histórico de nossas relações comerciais e estratégicas com estes países, creio que devamos desconfiar muito e assistir com distanciamento, calma e astúcia o desenvolvimento político e mercadológico de recursos que se nos propõem a liberdade como a CreativeCommons.
Podemos observar essa novidade antes de nos apropriarmos de ela para viabilizar a prática de uma generosidade e liberdade que somente um povo colonizado, escravizado e colonizado como o brasileiro almeja realizar.
Vivo numa cidade turística e percebo que como recebemos e agradamos o turista estrangeiro, até hoje parecemos justificar que escravo e índio também é gente que tem alma, inteligência, e que nós somos mestiços sim, porém devidamente civilizados, catequizados e à disposição de vossa senhoria, o colonizador.
CreativeCommons não é o caminho para a solução de nenhum problema brasileiro.
A licença não é flexível a ponto de oferecer uma modalidade que permita limitar a nacionalidade da permissão concedida, e sem bairrismo mas com muito amor próprio e respeito à história, protesto que se a algum país faltam liberdade e meios legais para doar algo mais ao mundo, não é o caso do Brasil.
Estamos muito distantes de dominar as leis e recursos que regem o desenvolvimento da Internet.
É necessário refletir que tais recursos pertencem hoje a nações que nos exploram desde 1500, e temo que o nosso Ministério da Cultura não possa cuidar bem de nossos interesses vez que tenha promovido e garantido ampla e gratuita disponibilidade de nosso produto cultural na rede.
Entendo que a CreativeCommons permite ao autor gerenciar o grau e o modo de permissão ao uso de sua obra, contudo a gente aqui não precisa ser exímio estrategista para saber como termina essa história de «deixa eu pôr só a cabecinha».
Suspeito e proponho a todos que tanto mais desconfiem quanto mais desejem a liberdade oferecida por o novo mundo virtual cujas portas se nos abrem, pois por as mesmas mãos e sob argumentos similares nos foram abertas as portas do paraíso onde entraram os nativos da América do Sul, cujo inferno estava no caminho.
Considerem a possibilidade de que o brasileiro colonial (" o sujeito que cortava o pau-brasil», segundo o historiador Evaldo Cabral de Mello) tenha derivado ao brasileiro contemporâneo sua servidão de modo que ainda hoje tomemos por privilégio que (o púbico e a indústria) estrangeiros se interessem e maravilhem por nossa beleza, nossa riqueza, quando bastaria que nos valorizássemos por o que somos.
Percebam que o renome do artista brasileiro convidado a se apresentar no estrangeiro cresce num salto absurdo aqui dentro, e que a qualidade da música brasileira recebe aplausos de reconhecimento muito mais calorosos quando somos noticiados de que ela está tocando lá fora.
Nossa música pode muito bem ser, sim, nosso maior bem cultural, mas não tem que ser nosso maior artigo de exportação (e Deus nos livre de que se torne uma gigantesca e valiosíssima oferenda).
A música que aqui se faz é algo que antes de vender, temos mais é que cantar, tocar, ouvir, desenvolver.
A herança de Luiz Gonzaga, de Cartola, das músicas indígena, negra e mestiça que nasceram aqui com nós deve ser encarada como patrimônio nacional, como tesouros a serem guardados.
Em sua musicalidade o brasileiro comporta elementos de linguagem e formas de inteligência que poucas culturas possuem, entendem ou dominam (quem já viu músico japonês, americano, europeu tocando samba e músico brasileiro tocando jazz sabe bem o que eu to falando).
Desconfio e proponho considerar que não seja agora o tempo de aderirmos a propostas que visem o compartilhamento disso que fazemos como só nós sabemos fazer, mas de aproveitarmos a oportunidade de ouvir atentamente o que essa música tem a dizer sobre nós, e extrapolar isso para algo que nos ajude a viver melhor na contemporaneidade.
Não acredito que a idiossincrasia de nossas melodias, síncopes rítmicas e de tudo o que excede o som puro na música brasileira aconteça à toa, e sim que tenha surgido como surge uma gíria no idioma do homem marginalizado:
para protegê-lo, codificar sua intenção, defendê-lo como um anticorpo das culturas de dominação (que de Maquiavel pra cá, vêm adocicando cada vez mais seu discurso, seu Cavalo de Tróia).
Outra coisa é no que tange ao músico em sua relação com a arte.
É tocante quando Rainer Maria Rilke, em Cartas a um jovem poeta, sugere a Franz Xaver Kappus que " confesse a si mesmo:
morreria, se lhe fosse vedado escrever?"
A mim me parece que também a música só se pode fazer por necessidade, mas que objeto representa, simboliza ou substitui a necessidade de fazer música para cada músico?
Entendo que o trabalho do músico seja movido por motivos intrínsecos, intimamente desvinculados da necessidade de remuneração financeira, contudo importa muito que caso queira e precise fazer de seu trabalho um objeto de venda o compositor tenha a liberdade de fazê-lo.
CreativeCommons não restringe a venda da música, mas sugere uma vulgarização de sua venda que nenhuma outra área profissional adota.
Não se engane quem acha que o artista não é um profissional, pois sob todas as perspectivas possíveis, ele é.
O artista estuda para aprender, trabalha para produzir e vende para a ganhar a vida.
Quanto à remuneração o artista tem algo em comum com o psicanalista:
não trabalha por o dinheiro, mas é imprescindível para o trabalho que haja um valor implicado.
Ora, por maior que seja a necessidade ou o prazer do agricultor em trabalhar a terra e as plantas, do médico em promover a saúde e do político em fazer política, todos vendem seu trabalho e os produtos que a partir de eles venham a ser disponibilizados.
É este o mundo em que vivemos, por mais que haja poesia.
Não me parece um bom negócio para a música brasileira que seja banalizada a venda de seu produto por um discurso e / ou tecnologia que não ofereça mais vantagem que a liberdade de mais generosamente doá-lo.
Eu mesmo penso que nacionalismo e extremismo muitas vezes são indicativos de raciocínio míope, mas desconheço discurso e tecnologia estrangeiros oferecidos gratuitamente ao Brasil que não visem extrativismo.
Não curto paranóia, mas gato escaldado tem medo de água fria.
Número de frases: 52
«Eu me lembro que na Europa, às vezes eles diziam: '
O passado arquitetônico
de vocês é pobre, é mais português do que brasileiro '.
E eu dizia: '
isso é muito
bom para nós, porque vocês vivem circulando entre monumentos, e nós estamos
livres pra fazer hoje o passado de amanhã '."
Oscar Niemeyer Documentar em apenas 90 minutos a história de um personagem centenário com mais de 800 obras é um desafio.
Parece que foi exatamente isto que estimulou o diretor gaúcho Fabiano Maciel e do produtor carioca Sacha a arriscarem o primeiro filme documentário de suas carreiras.
Uma provocação que resultou em A vida é um sopro, o relato da vida e das obras de Oscar Niemeyer, o melhor arquiteto que o Brasil já produziu.
O documentário, que está em cartaz somente em algumas salas de cinema do circuito cultural do país, mostra Niemeyer contando de forma descontraída sobre sua vida, seu ideal de uma sociedade mais justa e sobre como ele concebeu seus principais projetos.
Filmado durante o verão de 1998 e, posteriormente, nos anos seguintes antes de seu lançamento, A vida é um sopro dosou bem o distanciamento e estreitamento das relações com seu protagonista.
A história registrou a passagem do tempo para um homem em plena atividade na última década de seus 100 anos.
O documentário também incluiu obras que não estariam prontas se a montagem final do filme tivesse sido lançada antes.
Caso do Museu Oscar Niemeyer, inaugurado na cidade de Curitiba, em 22 de novembro de 2002.
As filmagens registraram a revolução na Arquitetura Moderna, com a introdução da linha curva e a utilização do concreto armado, e suas principais obras nas cidades de Brasília, Belo Horizonte, Ouro Preto, Janeiro, Paulo, Paris, Londres, Le Havre, Constantine, e Nova Iorque.
Também não faltaram depoimentos de figuras importantes como José Saramago, Eric Hobsbawn, Nelson Pereira dos Santos, Ferreira Gullar, Carlos Heitor Cony e Chico Buarque, entre outros.
Sem pretender inovar ou ser genial como o personagem-tema, o filme procura pautar a clareza das linhas e poesia de Niemeyer.
O maior destaque são questões metafísicas desse velho arquiteto pessimista, que acha que o tempo cósmico muito curto e tudo vai desaparecer.
Em suma, seja para refletir sobre a insignificância dos homens diante do universo ou seja para simplesmente poder conhecer as obras e a vida deste grande artista brasileiro, ainda vivo, A vida é um sopro é uma bela sacada de seus produtores.
Número de frases: 20
O ano de 2007 foi recheado de boas novas para quem não abre mão das velhas e boas revistas em quadrinhos.
Além de conferir as adaptações cinematográficas de Homem Aranha 3, Motoqueiro Fantasma, 300 de Esparta e de Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (considerando ou não as restrições das adaptações para o cinema).
Foram publicadas edições em quadrinhos de Transformers e X-Men 3 -- O Confronto Final, que por sua vez teve o caminho diferente dos filmes citados, após a versão cinematográfica foi lançado o HQ do filme.
Entre os dias 16 e 21 de outubro ocorre à esperada 5° Edição do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) de Belo Horizonte.
O maior evento de HQs da América Latina ocorre a cada dois anos e conta com convidados nacionais e internacionais, exposições, oficinas, palestras, debates, mostras de filmes e também a grande feira de quadrinhos.
Esse ano no FIQ serão homenageados o arquiteto Oscar Niemayer e a terra dos mangás, com uma programação temática, integrando a Semana do Japão.
O destaque desta edição é Giancarlo Berardi, que atua nas HQs desde do inicio dos anos 70.
Trabalhou por a Comic Art, foi convidado a trabalhar por a Marvel e recusou o convite.
Participou de curtas adaptações de alguns romances de Sherlock Holmes.
Inaugurou a minissérie Tom's Bar Criou a série Giuli Bai & Com o.
Berardi e Milazzo são fundadores da Parker Editore.
Atualmente, Giancarlo está completamente dedicado ao seu personagem, Julia, lançado em outubro de 1998.
A novidade desta edição já está mudando a cara da cidade, desde o dia 8 de outubro, a exposição itinerante do festival o FIQ-móvel, circula por as principais ruas da capital.
É uma forma inusitada e ilustrada para chamar o público a participar do 5° FIQ.
Em esta pequena mostra um ônibus, decorado com desenhos da quadrinista mineira Chantal, circula por os principais pontos de Belo Horizonte, ao mesmo tempo, o acervo de quadrinhos da Gibiteca da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH está sendo levado para outras bibliotecas e centros culturais da capital.
Durante o evento, O FIQ também circulará com convidados para outros cantos da cidade, além da Serraria Souza Pinto, onde o festival acontece.
Essa é uma boa oportunidade para as pessoas terem mais contatos com as historias em quadrinhos.
É importante lembrar que no Brasil temos uma grande ligação com os quadrinhos, há cerca de 102 anos foi publicada a primeira HQ no país, na revista «O Tico-Tico», que circulou até o começo da década de 1960.
Os primeiros exemplares eram histórias estrangeiras traduzidas e adaptadas por artistas brasileiros.
Nossos desenhistas logo começaram a criar os próprios personagens assim surgiram figuras nacionais, como Reco-Reco, Bolão e Azeitona, de Luís Sá.
Os cartunistas mais famosos investiram na criação de personagens infantis são:
da turma da Mônica, de Maurício de Sousa, a Turma do Pererê e o Menino Maluquinho, de Ziraldo.
Número de frases: 22
A entrada do festival é gratuita e a programação completa pode ser acessada no site http://www.fiqbh.com.br/
Dias 15 e 16 de julho quem visitar a 5ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis vai encontrar um espaço para desfrutar o mundo mágico da literatura infantil, tema da Mostra deste ano.
Sábado e domingo, no hall do Centro Integrado de Cultura (CIC), está instalada a sala de leitura da Biblioteca Barca dos Livros, um dos projetos em desenvolvimento da Sociedade Amantes da Leitura, organização sem fins lucrativos de Florianópolis voltada para o incentivo à formação de leitores.
Antes ou depois das sessões de cinema, crianças e adultos poderão se acomodar nas cadeiras, almofadas e tapetes dispostos no espaço e escolher à vontade entre os cerca de 400 exemplares à disposição.
Fora a sala de leitura, a Sociedade promove ainda a distribuição de livros para as crianças de escolas públicas e um bate-papo com a escritora Ana Maria Machado.
Em 2005 os Amantes da Leitura colocaram cerca de 300 livros à disposição e receberam em torno de 235 leitores de todas as idades no ambiente que montaram durante a 4ª edição da Mostra.
Este ano, a Sociedade, em parceria com o SESC / SC e a Mostra, participa também na distribuição de 8 mil exemplares de O Patinho Feio, de Hans Christian Andersen, às crianças que visitarem a Mostra com as escolas nos dias de semana.
«Os livros serão dados às crianças como incentivo à leitura e a formação de uma biblioteca em casa», diz a professora Tânia Piacentini, coordenadora da Sociedade Amantes da Leitura.
Traduzido por o escritor Tabajara Ruas, com ilustrações de Fernando Lindote, esta edição de O Patinho Feio foi editada especialmente em 2005 para comemorar o bicentenário de Andersen.
Número de frases: 9
Obs:
antes de tudo um pedido -- não deixem de abrir os retratos, ver suas imagens.
Talvez em pouco tempo estes motivos não mais existirão.
-- O Que Faz O DEKASSEGUI Brasileiro Em o Japão?
a) Os trabalhos penosos, ou ktsui;
b) As atividades sofridas, ou kikken;
c) As ocupações Sujas ou KITANAI
Satirizando, até de si mesmo, o próprio brasileiro nominou mais estas duas.
d) os serviços sacrificados, kibishi;
e) As lidas desagradáveis, kirai.
É bom lembrar que o imigrante japonês teve no Brasil o seu KKKK.
O empreendimento mais privilegiado da história dos povos, excluída a África.
Um misto de organismo de estado e organisação empresarial, uma face oculta.
A Perda do Sentido da Escolaridade.
A Perda da Referência Profissional.
«Além da série de fatos que contribuem para este
fluxo migratório, como por exemplo, as relações estabe-
lecidas entre os dois países anteriormente, soma-se a de-
manda por mão de obra que realizasse as funções rejei-
tadas por os japoneses». (
1) " Lili Kawamura.
«Após passarem vários anos no Japão praticando trabalho
braçal os brasileiros (dekasseguis) quando voltam não conseguem
emprego». (4)
Quem parte bacharel das ciências sociais, volta operário braçal;
quem parte graduado nas ciências humanas, volta operário braçal;
quem parte bacharel das engenharias, volta operário braçal.
De volta perdeu a experiência profissional e a referência educacional.
Por outro lado, neste período as atividades industriais aqui deram um salto cientifico-tecnológico.
Segundo a UEL, Univ.
de Londrina, estes os principais ítens da angústia quando chegam, quer no encontro com ex-colegas;
quer na convivência com familiares e notadamente na apresentação na busca de colocação empregatícia.
O Programa DEKASSEGUIS E A Globalização
O chamado caminho de volta se inicia em 1986, época em que começa a ser implantada no Japão a empresa de terceirização de mão obra, cujo objetivo principal é abrandar ou suprimir o alcance dos benefícios sócio-trabalhistas;
a vinculação / contribuição obrigatória com a previdência, porém sem o alcance desta;
a legitimação da diferença salarial por nacionalidade;
o não reconhecimento dos diplomas de graduação de nível superior dos dekasseguis brasileiros, nem sua validação.
A soma daquelas medidas visa exatamente a dar suporte à produção de baixo preço final às mercadorias direcionadas à exportação.
O trabalho barateado do dekassegui e o aviltamento da pessoa vêm dar ao Japão condições de entrar com vantagem no livre comércio globalizado.
O dekassegui brasileiro, obrigatoriamente, trabalha nas firmas terceirizadas e nunca no conglomerado multinacional.
Por ex. ele não chega a ser empregado da Toyota, embore trabalhe na feitura de peças da marca Toyota, e assim por diante.
As Doenças do Trabalho Sujo.
O Brasil Assume A Assistência Médica E PREVIDENCÍARIA.
«Em a volta, descortinada a ilusão de bem sucedido, o ex-
dekassegui, relata o médico psiquiatra Percy Galimbert, (re-
gião Londrina / Maringa):
«Após o retorno dos dekasseguis no Brasil, ocorreu o desencadeamento de sofrimento emocional
muito intenso no momento da primeira consulta, traduzido co-
mo:
manifestações somáticas, ansiedades, transtornos de hu-
mor, ansiedade, insônia, angústias, depressões, isolamentos, irritação, agressividade, alcoolismo, uso de drogas e distúr-
bios de percepção (como falsas percepções e idéias deliran-
tes, especialmente de caráter persecutório)». (
ver doenças profissionais, OIT, (2).
A violenta realidade transfere para o Brasil as depesas com o tratamento médico;
a responsabilidade previdênciária, assim como os problemas sociais gerados.
O Brasil que ontem foi reponsável, na imigração, hoje assume os custos sociais dos dekasseguis:
a) Os dois modelos de previdência japonês são de base acumulativa valor / tempo de contribuição.
Assim, com três anos, o dekassegui somente engorda o fundo previdenciário, mas não será alcançado por ele.
Aliás foi ele, o fundo, dos principais agentes de alavancagem da produção japonesa para o mercado globalizado.
b) Em o Brasil, por sua vez, tanto a previdência quanto assistência médica são antes de tudo universais, e o ano base contributivo foi fixado, por a Constituição, o ano de 1987.
O Programa dekassegui se inicia oficialmente em 1988, portanto todos já partiram ou partirão alcançados por a previdência social brasileira.
Para Leda Reiko Shimabukuro, coordenadora do Tadaiama,
«O custo social dos dekasseguis é muito alto.
De as pessoas que ajudamos, descobrimos que 30 % são ex-dekasseguis que não conseguem emprego. (
3).
Quem São Eles, Como Viviam no Brasil.
-- Quem são os brasileiros que foram para o Japão?
(Levantamento da UEL, na região Londrina / Maringá, 2000/2002);
38 % dos dekasseguis interrogados possuem curso superior;
76 % tinha o curso médio e ou universitário incompleto.
O dekassegui na convivência entre um passado recente e a realidade presente constitui uma das razões que os levaram a contrair as enfermidades psquico-emocionais, capitualadas como doenças do trabalho de grave alcance, no retorno ao Brasil. (
4) -- Como viviam estes brasileiros no Brasil -- (Segundo o médico psquiatra " Percy Galimberti).
-- «É fato que a maioria dos dekasseguis vivia bem no Brasil, com nível de conforto maior do que a grande maioria dos brasileiros não nikeys».
E compara, para melhor entendimento."
50 % da população brasileira ganhava entre 1 e 5 salários mínimos, enquanto 20 % da população nikey se situava nesta faixa, sendo que o restante (80 %) tinha renda muito superior (não declarada no consultório) " (5).
E ainda constata a pesquisadora " Lili Kawamura.
«Os nikeys que rumam em busca de melhores condições econômicas no Japão são, em geral, pessoas economicamente ativas de classe média urbana» (6).
O Salário Por o Trabalho Sujo
A alegação dos altos ganhos, do dinheiro fácil, do retorno com futuro garantido:
«Ir para o Japão não significa, no entanto, garantia de sucesso
financeiro. O salário, inicialmente atrativo, confronta-se com o alto custo de vida japonês.
O dinheiro remetido ao Brasil é proveniente das horas extras, estafantes " (7).
Agravante das doenças profissionais.
Japão:
A Nacionalidade Negada
Por 350 anos o negro brasileiro não teve pátria.
A lei lhe negava a nacionalidade brasileira e desconhecia a África como Pátria, isto para não gerar conflito no futuro.
Somente em 1835, um desavisado Chefe de Polícia da Bahia, causa uma " revolução ":
«O negro passa a ser considerado brasileiro, porém sem ter Direito de cidadão, nem privilégio de estrangeiro». (
8. Clovis Moura, Rebeliões nas Senzalas, cap. II, pag. 50).
Principio logo adotado por o Império e seguido por a República, que permanece.
-- E os filhos dos Dekasseguidos brasileiros no Japão?
-- Os que chegaram trazendo a idéia de similaridade, os nikeys
são considerados estrangeiros.
Até mesmo uma criança filha de estrangeiro, que nasça no Japão nestas circunstâncias é consi-
derada estrangeira " (9).
Lili Kawamura.
«Festejar Ou Refletir?
«Em o Brasil só negro luta, só negro lutou.
Não se tem registro
de lutas empreendidas por o não negro». (
10) Décio Freitas.
Por por mais de 80 anos, entre 1908 e 1990, a imigração japone-
sa, no Brasil, foi festejada, e elogiada cegamente, dentro da técnica da lavagem cerebral de comparar algo com si mesmo.
De o Programa Dekasseguis, as primeiras notícias dos maus tratos, entre 1986 e 1890, vão incomodar aqui aos parentes dos que foram.
Em o âmbito do Congresso Nacional surgem manifestações isoladas, algumas firmes.
De o poder Executivo nada se sabe.
Mesmo assim o Japão reage violentamente:
«1990, neste ano o governo japonês edita a Lei de Controle de Imigração, cuja vigência institucionaliza a imigração, permitindo
que japonês e seus cônjuges ou descendentes até a quarta ge-
ração possam exercer legalmente qualquer atividade (suja) por
um período relativamente longo, (2 a 3 anos). (
9).
A ponta social brasileira de matriz européia, a quém está vincu-
lado o poder de estado, mantém-se indiferente, como procedeu por todo o período da escravidão negra.
Em este período os nikeys entram em cena:
a Imigração Japonesa começa a ser pesquisada, a ser divulgada.
Em a última década parte considerável dos acadêmicos brasileiros começa a pesquisar e a divulgar tanto a Imigração quanto o Programa dos Dekasseguis, embora restrito àquele meio.
O povo a tudo desconhece.
Em o bojo social / popular o corpo nipo-brasileiro vem encontrando parceria na pessoa negra.
Neste particular a Capoeira, na sua negritude, vem tendo papel de destaque ainda que de forma não sistematizada.
O Mestre de Capoeira ingressa no Japão com seus valores, suas crenças, suas tradições (de ela Capoeira), no que pese a herança discriminatória, racial, herdada por o nikey;
no que pese a desconfiança secular do Mestre de Capoeira;
no que pese as restrições do Império Japonês.
Em este ano de 2008, o centenário da imigração japonesa aqui no Brasil, e só no Brasil, continua festejado cegamente.
As verbas na conta das Leis de Incentivo à Cultura irão irrigar as comemorações do crime institucional que caracteriza a Imigração Japonesa.
Sim, a Imigração Japonesa navegou na prática dos crimes ambientais, aos assassinatos de caipiras em SP / PR, e de capiaus nas veredas de Te o / BA, para lhes serem tomadas as terras:
das margens das ferrovias, e nas lapelas do Aquífero do Jalapão, hoje devastado, minguado, quase sem vida.
A imigração Japonesa está, em tudo, para reflexão e não para ser festejada.
«O atraso não foi o escravo, o mal foi a escravidão».
Caio Prado Jr.-- O mal não foi o imigrante japonês, o nocivo foi como se deu a Imigração Japonesa no Brasil.
...
...
Finalizando para não dizer que não falei de flores.
«Minha consciência perde a paciência
Com tanta ciência douta no que é banal
D' outra forma, o que não se aprende sente-se,
Que isso depende um mistério ancestral
Conscientemente, mente-se quando se prende
A consciência entre o bem e o mal
Peso da prosódia fatal, fado diferente
Em que se pese a pedra filosofal».
Renato Torres, Pedra filosoval
www.overmundo.com.br/caderno/pedra-filosofal Autor:
Andre Pessego, Colaborador do www.portalcapoeira.com
Notas do Autor:
(1) Lili Kawamura, pesquisadora, em Para Onde Vão os Brasileiros.
(2) Cibele Cristina Osawa, Enga.
de Alimentos, em critica, pesquisa
«Porco, Periso e Pesado, publicado na Revista de Saude Coletiva,
Phisis, V. 16. no..
I RJ, jun / jul 2006).
(3) Leda Reiko Shimabukuro, Coordenadora da Ação Social Tadaiama (
4) UEL -- Univ.
Estadual de Londrina, relatório pesquisa 2000/2002.
(5) Médico Psiquiatra Percy Galimbert, Livro em 7 capítulos
«O Caminho que o Dekassegui Sonhou, (Dekassegui no Yumê-ji)» (
6) e (7) Lili Kawamura, obra citada.
(8) Clovis Moura, Rebeliões na Senzala, cap. II.
(9) Lili Kawamura, obra citada.
(10) Decio Freitas, Palmares a Guerra dos Escravos.
Número de frases: 162
é a rádio que não nos ouve?
Por um tempo foi sonho de toda a banda ter sua música viajando por ondas sonoras, ouvir o comentário de um amigo que ouviu a sua canção, não sabendo ele por que caminhos percorriam uma canção ao sair das mãos dos autores até chegar ao dial de uma rádio.
Em Pernambuco não toca Nação Zumbi, Mundo Livre S.A., Luiz Gonzaga, The Dead Supestars, Mombojó, Mula Manca e a Fabulosa Figura, Ortinho, Cordel do Fogo Encantado ...
Vejam quantas bandas, e a diversidade dos seus trabalhos, algumas podem ser mais conhecidas, outras mais novas, outros já se foram, mas não adianta, nenhum de eles consegue espaço nas rádios em Pernambuco.
A o ver o Marco Zero de Recife lotado durante o carnaval, e assistindo a algumas destas bandas, podemos ver que há público consumidor, o problema está nos intermediários, não há movimentos eficazes para pôr o dedo na podridão que há em relação às concessões das rádios.
Acredito que há muita gente trabalhando e muitos debates em torno do tema, mas por vezes vejo que há uma descrença geral em torno da discussão das rádios, com as novas tecnologias surgindo, e com isso o surgimento de novas formas de divulgação da música, estamos acabando por desistir das rádios, penso que devamos explorar os mais diversos meios de divulgação da música, mas não podemos deixar de pensar nas rádios como um dos meios mais poderosos para propagarmos aos quatro ventos a nossa arte.
Este texto é um simples sopro, mas é do quase estático, do mínimo sopro que poderemos mover marés, e que o meu mínimo sopro possa contribuir para a mudança de rumo das nossas ondas sonoras.
Número de frases: 7
Participei de 2 apresentações do Jongo da Serrinha com a Capoeira em 1980 por ai mas como tinhamos que treinar fomos varios dias.
Em um certo dia o treino acabou por volta do meio-dia e resolvi entrar para conhecer o Centro de Vovo Maria Joana.
Entrei e dei de cara com ela sentada num banquinho em frente ao Gonga.
Me senti infinitamente pequeno não sei se tomei a benção ou ajoelhei so sei que a força da Energia de ela me abalou profudamente ate hoje não vi nada igual em pessoas que trabalham na Umbanda ou Candomble!
Me tornei escravo e amante do CaxamBu e me senti na obrigação de dar este meu depoimento.
Sou aluno do Lua-RASTA de Capoeira.
E so!
Leiteiro x-x-x
Ficamos muito emocionados com seu depoimento.
Realmente Vovó Maria era uma pessoa muito especial e sua energia emana na Serrinha até hoje mesmo após seu falecimento há mais de 20 anos.
Muito obrigada por o depoimento, vamos enviar para a neta de ela, Dely Monteiro, que ainda mora nesta casa que vc visitou.
Luiza Marmello (Jongo da Serrinha)
Desculpe incomoda-los de novo mas pesquisando o Jongo em suas paginas tive a impressão de que Darcy não esta mais entre Nos!
Estou certo ou errado?
Pesquisando o Jongo na internet descobri o valor e o poder energetico do Atabaque eu que trabalho a 30 anos com a Capoeira e não sabia!
Em os brasileiros somos muito desleixados com a Ciencia da Mae Africa, nossa porcentagem de sangue portugues fala mais alto-Faturar, Faturar, Faturar-e deixamos de nos aprofundar na Riqueza Cultural que Herdamos!
Me Perdoe MAE Africa me sinto velho para começar mas torço para que os bisnetos de voçes ai da Serrinha e de outros Quilombos por o Brasil afora o façam!
Axé, AXÉ muito Axé!
Beijos, VOVÓ, aonde a Senhora estiver!
x-x-x
Oi querido, o nosso Mestre Darcy, infelizmente já virou uma estrela, que brilha muito no céu dos ancestrais jongueiros.
Mas fiquei intrigada quando vc disse que já estaria velho para pesquisar os tambores.
Estas entidades maravilhosas que nos acompanham desde antes de nascermos.
Afinal, nosso coração é um tambor.
Vc não deveria dizer isso pois quem faz ou participa de qualquer atividade que tenham esses maravilhosos e seculares tambores, não se livra de eles jamais.
Já faz parte de vc.
Continue sua pesquisa.
Realmente vc tem razão quando diz que os tambores são vivos.
E têm seu poder energético.
Eles falam.
Beijo grande no seu coração e Muito axé para a vc.
Deus abençoe.
Luiza Marmello (Jongo da Serrinha)
x-x-x
Mas Deus sabe oque faz, foi preciso que os 2 subissem para que o Jongo crescesse tanto.
Darci me pareceu oque seria os Faraos para os egipcios, o cara com a ciência dos Deuses nasceu para ensinar Jongo e conseguia mesmo nos treinos que as crianças nos transmitissem a emoção dançando!
Tive sorte de ver o Jongo ai a noite no Terreiro da Serrinha com Vovó Maria dançando, ja tive o disco de Capoeira em que o Jongo fez parceiria e tenho o da Beth Carvalho ou Clara Nunes não sei com a presença da Vovó!
Com apreço Leiteiro!
Correspondência trocada com a Iluminada Sra. MARILU (LUIZA) MELLO, mas antes de conhecer Vovó Maria JOANA, conheci outras pessoasque tem um quê Especial que os diferem de seres humanos comuns, me fazem lembrar uma pasagem biblica sobre a Expulsão DE 250.
000 «Anjos» que se «ENGAMBELARAM» por as Mulheres TERRAQUEAS.
Corro O Risco mas vou afirmar que essa turminha ai embaixo «Toda descendentes daqueles» Pestes»!
Minha avó de criação Maria das Graças, Rubinho Tabajara, Lua Rasta, o Impressionante Bebeto MONSUETO, Nestor Capoeira, Peixinho, Toni, Zezé Mota, Doutor Paschoal Grannato, em São Paulo Mestre ANANIAS, Valdenor dos Santos, Carangueijo, Peixe de Guarulhos, Jaca, volto ao Rio:
Gilberto da Barra, Poeira, Camisa, Leopoldina, Neco, Ivan Watch Rodrigues, Vovó Maria Joana, Darcy do Jongo da Serrinha, JoãoPequeno da Bahia, e do Pará, Bira, Brás, Laica, e seu GUEDES de ITAPORANGA-Vigia, Pará!
Número de frases: 43
Achou muito então lembre-se que 250 mil anjos era a quarta parte da população da Terra na epoca!
Trabalhar com projetos culturais tem lá suas vantagens.
Em este fim de semana, por exemplo, fui incumbido da missão de ir à Conservatória, distrito de Valença (RJ), para acompanhar a 6ª edição do evento Noite da Bossa Nova, que acontece anualmente por lá e que, neste ano, teve show de Roberto Menescal e Wanda Sá.
Conservatória, apropriadamente conhecida como capital da Seresta, é um ótimo lugar pra quem gosta da música de nossos cantadores e seresteiros.
Suas casas emplacadas com nomes de músicas, seus restaurantes com comida caseira e música ao vivo, suas serestas semanais que agregam locais e visitantes numa espécie de procissão musical, enfim, são fatores tão aconchegantes que acabaram dando a este parágrafo uma cara de matéria de revista de viagem e turismo.
Mas minha intenção era falar da bossa nova, estilo musical surgido no berço da classe média carioca dos anos 1950 a partir de uma apropriação do samba por estes segmentos, e com alguma pitada do jazz norte-americano -- ou, como querem os que compram o discurso elitista, uma «sofisticação» do samba (este sim música popular, pois que produzido por as chamadas " classes populares ").
O nascimento da bossa nova está registrado nos sulcos do vinil Chega de Saudade, de João Gilberto, mais precisamente no jeito de tocar violão que este músico desenvolveu:
enquanto o dedão faz, nos bordões do violão, a marcação mais forte do segundo tempo do compasso -- característica magna do samba --, os outros dedos puxam as cordas agudas em ritmo sincopado.
Ou seja: as notas graves reproduzem o tempo do surdo, enquanto as agudas fazem as vezes de tamborins.
Esta adaptação do ritmo percussivo do samba para as harmonizações violonísticas foi essencial para a consolidação da bossa nova como estilo ímpar de execução musical, influenciando praticamente todos os gigantes do violão que surgiram posteriormente, como Baden Powell e seu também ímpar estilo (aproveito para recomendar, veementemente, especial atenção ao violão dos afro-sambas de Baden e Viníncius de Moraes).
Mas há um elemento extra, bastante arraigado ao estilo bossanovístico de se tocar e também importantíssimo para marcar a identidade sonora do estilo:
trata-se de cantar e tocar o violão bem baixinho, quase sussurrando.
O motivo disso é explicado por Carlos Lyra ou Roberto Menescal (não lembro qual dos dois) no filme Coisa Mais Linda:
é que naquele tempo a explosão da especulação imobiliária deu início a uma onda de construções de edifícios (que perdura até hoje) com apartamentos menores e com menos isolamento acústico.
A solução, para evitar as reclamações de vizinhos e chamadas policiais, era tocar e cantar cada vez mais baixo, o que logo se transformou em característica marcante.
Ou seja:
nada mais avesso à bossa nova do que o furdunço provocado por as rodas de samba nos botequins e lares da zona norte e dos subúrbios da cidade -- as mesmas rodas de samba que outrora serviram de argamassa para a construção do estilo musical que, ironicamente, ficaria conhecido como Música Popular Brasileira.
Número de frases: 17
como já cantava, o bom pernambucano ...
o mar ô ô o mar ...
só de olhar essa imensidão na Baía de Todos os Santos, já me acalma e manda o mau humor, para o inferno, de onde nunca deveria ter saído ...
Número de frases: 3
Em o final da década de 80, jovens da periferias da região do Grande Abc, Paulo, começaram a aderir à cultura hip-hop, inspirados no subúrbio de Nova York.
Estes guetos enfrentavam todos os tipos de problema:
pobreza, violência, racismo, tráfico de drogas e carências de infra-estrutura, educação etc.
Isso não é diferente nos subúrbio da região.
Jovens sem educação, emprego e perspectiva de vida, fizeram que o Grande Abc fosse um dos lugares mais violentos do Estado de São Paulo.
A cultura hip-hop veio ter seu «boom» nas cidades do Abc no início da década de 90, com o primeiro movimento musical de Diadema.
Junto com o hip-hop, cresceu o movimento de grafitti, danças de rua e o rap.
Maria Laudia de Oliveira, 46, Coordenadora do Centro Cultural Canhema, em Diadema, acredita que trabalhar a motivação dos jovens é a melhor forma de tirá-los da criminalidade.
«Eles já nascem com todo tipo de problema, não tem acesso à comida e nem a saúde, eles vão crescendo em torno de toda a miséria e chega um momento que não teremos mais controle», diz.
A pintura, o grafitti vem crescendo na preferência dos jovens, fazer desenhos retratando o dia-a-dia é uma das propostas do grafitti.
O grafiteiro Fabrício Zoneda, 25, de Santo André, trabalha com desenho de rua desde os 12 anos.
«O graffiti foi que deu rumo na minha vida, comecei colocar na pintura tudo o que vivi, nas alegrias e tristezas e hoje sustento meus filhos com os meus desenhos», diz.
Para estudiosos, o hip-hop é a «mãe» de todas as outras culturas de «gueto».
Em a região existe dois centros culturais voltados para o gênero musical, o Centro Cultural Canhema, que existe há sete anos na cidade de Diadema.
Aulas de break, dança de rua, artes plásticas e composição e rima (rap), são umas das atividades do Centro.
Segundo Maria Laudia, a proposta do Canhema (conhecido como a Casa do Hip-Hop) é trabalhar a cultura de um modo geral com os jovens.
«Quando foi criado o Canhema, o nosso maior objetivo era diminuir a criminalidade que era muito grande entre os jovens de Diadema, não é o ideal ainda, mas melhorou bastante do que era antes», conclui.
Com 25 cursos na sua grade, o Centro Cultural tem por volta de 160 alunos.
As inscrições para participar da ONG acontecem semestralmente.
Outro Centro cultural é o Posse Hausa, de São Bernardo do Campo, entidade com 13 anos de existência.
Coordenado por Honerê Al-amin Oadq, 29 anos, o objetivo do centro é levar a cultura do hip-hop e Afrodescendentes às periferias da cidade.
Para Honerê, a cultura do hip-hop já teve mais força na região.
«Houve uma perda de conscientização dos órgãos públicos em ajudar a cultura do rap, a música afasta os adolescentes do crime e das drogas», diz.
Fazem parte da Posse Hausa 30 pessoas, que ajudam na divulgação e na realização de atividades da cultura de rua.
O MC João Paulo Saturnino Ribeiro, 20 anos, vê o futuro do hip-hop no Grande Abc como um «pilar» de sustentação para os jovens.
«O rap, o hip-hop, o graffiti, o break, tudo é a produção da periferia, é contar o que se passa por lá e sem dúvida isso vai chegar nos grandes centros das cidades», diz.
Número de frases: 26
É tempo de nostalgia?
Acho que sempre foi e, na música, é bom re-visitar.
Eu tinha acabado de nascer, mas acho Sex Pistols tão «São Paulo» ultimamente:
inquieto e divertido.
O lendário álbum pirata dos «Sex Pistols»,» Spunk», foi lançado oficialmente em julho deste ano na Grã-Bretanha, mesma data do 30.º aniversário das primeiras gravações demo do grupo.
Em a terra da rainha, foi lançada ainda a versão em vinil, com tiragem limitada de mil cópias.
Mês passado, chegou ao Brasil por a Dynamo Records.
Com uma carreira curta, a banda deixou sua marca na história da musica mundial.
«Spunk», peça de colecionador, tem algumas curiosidades:
O álbum conta com a presença do baixista Glen Matlock (mais tarde substituído por Sid Vicious), muitos consideram Glen, o melhor músico da banda.
Este bootleg (disco não oficial) foi editado em 1977 e gravado em três sessões entre julho de 1976 e janeiro de 1977, pouco antes do disco de estréia, «Never Mind The Bollocks Here's The Sex Pistols», chegar às lojas.
Algumas das músicas de «Spunk» aparecem com títulos diferentes das que foram lançadas na estréia oficial dos Pistols.
Número de frases: 12
O clássico «Anarchy in The UK», no pirata é creditada como» Nookie, «I Wanna Be Me» vira «Just Me», faixa 4, e» God Save The Queen», por exemplo, aparece na faixa 7 como " Em o Future "
Com depoimentos, fotos e filmes, projeto reconstrói dias tensos,
42 anos após a deposição de " Mauro Borges.
«Meu filho, viemos morrer com você», disse Dona Gercina Borges ao ser perguntada por Mauro Borges Teixeira sobre sua ida ao Palácio das Esmeraldas, momentos antes da entrega do decreto de Intervenção Federal.
O depoimento de Mauro, que contém essa fala, e o de outros personagens, compõem o documentário Resistência.
doc.. A data de 26 de novembro de 1964 ainda resiste como memória viva, e consolida sua importância na história política goiana.
Em o próximo domingo, dia em que mais um ano se passa da Intervenção Federal em Goiás, o fato reafirma sua importância e necessidade de constante lembrança.
Com a preocupação de resgatar a memória desse episódio e de outros que marcaram a primeira metade da década de 1960 em Goiás, o Projeto Resistência.doc, dirigido por a jornalista goiana Carolina Paraguassú, narra momentos políticos desse período em nosso Estado.
Filme inédito -- O maior objetivo do documentário é apresentar ao povo goiano um período de sua história, ainda inédito no audiovisual.
A preocupação está em reconstruir não apenas a história da intervenção, mas também do Movimento da Legalidade em agosto de 1961 e o cotidiano do governo Mauro Borges, que firmou-se num amplo Plano de Desenvolvimento.
Foram gravadas mais de 40 horas de depoimentos de pessoas que viveram a época e participaram do momento, não só parentes e políticos do governo de Mauro Borges, como também historiadores, opositores e personagens de renome nacional.
Apesar da dificuldade de localização de material documental no Estado de Goiás, o projeto conseguiu reunir um valioso acervo ao estender a pesquisa a outros estados e arquivos, como o do Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional e Jornal do Brasil no Rio de Janeiro, onde foi encontrada uma iconografia sobre esse período em Goiás que não se encontra aqui.
Carolina Paraguassú aproveita para pedir a colaboração dos goianos:
«A o comentar com as pessoas sobre o projeto, pude perceber lacunas na divulgação de nossa história, o que me motivou a trabalhar com o maior cuidado no levantamento do acervo bibliográfico e iconográfico para realizar o filme.
Caso alguém tenha um acervo que possa contribuir para o filme, como fotos, filmes, arquivos sonoros, documentos, livros ou até mesmo com relatos, por favor, entrem em contato com a produção, pois contamos com o apoio de pessoas e instituições para que esse filme seja o mais completo possível», reconhece a diretora.
Dias tensos de 1964 -- O clima de conspiração e tensão política esteve presente em todo o processo de intervenção federal em Goiás, que atinge inicialmente a equipe administrativa do governador Mauro Borges e, finalmente, o alvo, o próprio governador.
Apesar de Mauro Borges ter apoiado a chamada «Revolução de 31 de março», passou a ser acusado de manter um governo com tendências comunistas e subversivas, incondizentes com a orientação da» Revolução».
Com essas acusações, o governo federal tentou intervir na administração do Estado de Goiás com a exigência de que Mauro Borges substituísse três de seus secretários, acusados de serem comunistas, pedido não atendido por o governador.
O próprio Mauro Borges passa por um processo incriminatório com a instauração de um Inquérito Policial Militar (os famosos IPMs, ferramenta autoritária muito utilizada após o Ato Institucional nº 1), marcado por várias prisões e torturas -- as primeiras em Goiás após o golpe de 1964, também lembradas no documentário.
Não obtendo resultado direto com o IPM, a chamada «linha dura» do regime pressiona o presidente Castello Branco para que depusesse Mauro Borges.
Em o dia 23 de novembro é impetrado por Sobral Pinto, como decisão unânime do Supremo Tribunal Federal, o primeiro habeas corpus preventivo do Brasil, em que é determinado e sustado qualquer julgamento de Mauro Borges por a Justiça Militar.
Um dia depois, além da publicação da decisão no Diário de Justiça, os jornais apresentam notas do encarregado por os IPMs Danilo Darcy de Sá Cunha Melo e de Castello Branco, indicando uma inevitável intervenção em Goiás:
«dia a dia se acumulam novas provas quanto ao propósito do Governador de Goiás em transformar o seu Estado num foco permanente de agitação».
Ao mesmo tempo, cerca de duas mil pessoas se concentraram na porta do Palácio das Esmeraldas para comemorar a vitória da resistência com o fim do processo do habeas corpus.
O presidente assina o Decreto de Intervenção Federal em Goiás, aprovado autoritariamente na Câmara e cumprido no dia 26 de novembro de 1964 com a substituição de Mauro Borges por o interventor Carlos de Meira Mattos, dia em que a Praça Cívica presenciou momentos de grande tensão e intensa mobilização popular.
Esta tensão, proporcionada por a movimentação de tropas e tanques Sherman em torno da cidade e por os estrondosos rasantes de aviões de caça a jato na Praça Cívica, enviados por a Força Aérea Brasileira;
e a intensa mobilização popular, marcada por a presença massiva de pessoas na praça apoiando o governador Mauro Borges, serão ilustradas no documentário.
Existiram vários fatores que levaram à deposição de Mauro Borges.
Essa diversidade de fatores está presente nos múltiplos discursos elaborados por os entrevistados do documentário, que enfatizam um ou outro fator e uma ou outra interpretação, cada qual construindo a sua própria visão da Intervenção Federal em Goiás e do período em que Mauro Borges esteve no poder.
Além de apresentar essas visões, reunidas nas entrevistas com jornalistas, estudantes e diversos personagens proeminentes do cenário político goiano e nacional na década de 1960, o documentário também reúne e revela um acervo histórico inédito no audiovisual goiano e nacional até então, com vasto material documental de entre jornais, fotos e filmes da época.
Mauro Borges -- Nascido em Rio Verde, Goiás, no dia 15 de fevereiro de 1920, filho de Pedro Ludovico Teixeira (fundador de Goiânia) e Gercina Borges Teixeira, Mauro Borges cursa a Escola Militar do Realengo e a Escola de Comando e Estado Maior do Exército.
Em 1951, foi nomeado, por o presidente Getúlio Vargas, diretor da Estrada de Ferro de Goiás, ficando até 1954.
Foi governador de Goiás de 1961 até 26 de novembro de 1964, dia em que foi deposto por o governo federal.
Foi, também, deputado federal (1959-1960 e 1991-1994) e senador da República (1982-1990).
Hoje com 86 anos, vive em Goiânia e tem colaborado com o documentário por meio de depoimentos, acervo pessoal e contatos.
Mauro Borges tem dito que o filme era a última coisa que faltava em sua vida.
Documentário -- O documentário como instrumento de investigação tem como etapa fundamental a pesquisa, que teve início em agosto de 2005 para a monografia de Carolina Paraguassú na Pontifica Universidade Católica do Rio de Janeiro, tendo como orientador o cineasta Silvio Tendler.
Já concluído o curso, a PUC-Rio apoiou o projeto cedendo o equipamento completo de filmagem para trazer do Rio e filmar durante um mês em Goiânia, período em que foram feitas imagens da 1ª fase.
Com a habilitação do projeto na Lei Municipal de Incentivo à Cultura, foi possível buscar recursos junto às empresas goianas, conseguindo patrocínio do Laboratório Padrão e da Tropical Imóveis.
Além dos patrocinadores e do apoio da PUC-Rio, o documentário recebe apoio da família de Mauro Borges, da Associação Brasileira de Documentaristas -- Seção Goiás, do Museu da Imagem e do Som de Goiânia, dos fotógrafos Evandro Teixeira (RJ) e Orlando Brito (DF), do Pepperoni Studio de Design, entre outras empresas, pessoas e instituições de Goiânia e de outras cidades.
A equipe é composta por profissionais da área de comunicação social, história, letras e artes visuais, estes são responsáveis por a digitalização e tratamento do acervo fotográfico, além da identidade visual do filme.
Com os depoimentos e acervos, será possível contar a história em cerca de uma hora e meia de duração.
Em fase de finalização, o lançamento está previsto para o início de 2007 e prevê a distribuição gratuita de 290 cópias em DVD para instituições da rede pública de ensino, bibliotecas e museus.
A equipe do documentário também acompanhou uma viagem de Mauro Borges até a cidade de Combinado, no Tocantins, antigo Combinado Agro-Urbano de Arraias, onde o ex-governador foi receber o título de cidadão combinadense por ter sido o construtor da cidade, que era pra ser um exemplo de reforma agrária, não fosse a interrupção do projeto com os militares no poder.
Entre os entrevistados, estão nomes como o próprio Mauro Borges Teixeira, Hélio de Oliveira, Eliézer Penna, Mauro Borges Filho, Ruy Rodrigues, Ubiratan Teixeira e Maria Dulce Loyola Teixeira, Irineu Borges do Nascimento, João Alberto da Costa Pinto, Hugo Brockes, Tarzan de Castro, Carlos Alberto Santa Cruz Serra Dourada, Valterli Guedes, Zuenir Ventura, Francisco Chagas Rabello, Eurico Barbosa, Aldo Arantes, Javier Godinho, Leone Teixeira Vasconcelos, Evandro Teixeira, Orlando Brito.
Número de frases: 45
Ainda falta colher alguns depoimentos, que vão esclarecer mais detalhes do período abordado.
Campanha eleitoral no Brasil é sempre lembrada à moda antiga.
Candidatos que iam de porta em porta, entravam nas casas, tomavam um cafezinho e perguntavam sem muita sutileza:
do que vocês precisam?».
Dentaduras, caixões, óculos, empregos, uma geladeira, ou a humildade suprema de pedir uma cesta básica em troca do tão precioso voto.
Hoje o TRE proíbe práticas desse tipo, mas essa cultura, infelizmente, ainda está bastante arraigada no imaginário popular, e em lugares onde a justiça demora a chegar, pode-se dizer com alguma certeza, que essa modalidade de campanha política ainda tenha seus adeptos.
A boa notícia é que o eleitorado brasileiro mudou.
Está mais culto, mais consciente, mais informado e mais exigente dos seus direitos, tanto individuais, quanto coletivos.
A cada novo pleito, aumenta o número de adolescentes dispostos a perder horas numa fila, em pleno feriado, em nome do bem comum da coletividade e de um futuro mais animador que irá beneficiá-los diretamente.
A tendência das novas campanhas eleitorais, é utilizar de forma cada vez mais direta, um veículo que é barato, abrangente e universal, e que justamente atinge em cheio esse eleitorado mais jovem que está disposto a trabalhar por uma causa, mas que se sente mais a vontade no seu próprio quarto:
A Internet.
Colaboração 2.0
A campanha de Barack Obama, candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, já nasceu pioneiro.
O site www.barackobama.com, não é apenas um local onde as propostas do candidato aparecem ao lado da foto da família.
Interatividade é a palavra de ordem pra quem pretende usar a rede de forma minimamente satisfatória, e a página de Obama cumpre essa determinação de forma tão determinante, que já é apontada por os especialistas como referência em relação ao que a Internet pode oferecer de benéfico para as futuras campanhas eleitorais no mundo todo.
Segundo a visão de alguns especialistas, a tendência de arrecadar partidários via on-line já chegou ao Brasil, de uma forma mais tímida, é verdade, mas, pelo menos, tateando suas possibilidades e inserindo a idéia do colaborativo no dia-a-dia dos eleitores.
Em o Estado da Paraíba, o pleiteante ao cargo de Prefeito da capital por o PSB, possui uma página na Internet (www.ricardocoutinho40.com.br) que, além de possuir os itens básicos de uma campanha (notícias diárias sobre o candidato, suas atividades e seus projetos de governo), busca interatividade com o eleitor que tem à sua disposição um canal de comunicação direto com a equipe do seu candidato.
Em um exemplo bem prático, os internautas já decidiram o nome da mascote da campanha, através de enquete disponibilizada na página, além de criar um jingle no estilo hip-hop que, depois de ser recebido por a equipe, foi decidido que se daria vida àquela música.
As contribuições dos internautas serviram de base para um clipe produzido por a equipe do candidato à reeleição, Ricardo Coutinho, com animações da mascote cantando e dançando.
Contribuições 2.0. Tudo disponível na internet.
Esse novo eleitorado não está mais disposto a perder horas preciosas assistindo programas de TV que são tão impopulares quanto monótonos.
Ele quer ser motivado por uma linguagem que atenda suas expectativas e por um veículo que ofereça a interação que tanto agrada essa gorda fatia da população, e que sem dúvida nenhuma, fará grande diferença nas futuras eleições.
Número de frases: 22
A entrada é por um túnel que nos remete a qualquer coisa menos o nosso mundo.
Chega a frustrar um pouco adentrar a sala do espetáculo e encontrar exatamente o que se espera:
um poço.
Mas enfim, ele está lá, escondido no cofre do Centro Cultural Banco do Brasil, feito especialmente para a montagem, com ambiente climatizado e duas atrizes muito bem vestidas de negro para em ele caírem.
E começa a Festa do Tchibum.
Os semblantes muito semelhantes fazem parecer que há apenas um personagem em cena, apesar da peça contar com elenco de duas pessoas.
E tchibum!
Levantam as atrizes da água pela primeira vez e dá-lhe coreografia no público.
O texto se vale de repetição.
Palavras desconexas.
Posições circenses dos atores.
Tudo bem desarticulado, para dar ainda mais sentido para o Tchibum.
E tchibum!
É notável que ali houve um trabalho físico como centro de tudo, antes mesmo da incorporação do texto.
Não falo como elogio, falo mais é com inveja mesmo, pois imagino o diálogo entre uma das atrizes e o segurança do CCBB:
-- Bom dia --
Bom dia, pra onde a senhora vai?
-- Eu vou para o ensaio da peça que vai estrear aqui.
Chama «O Poço».
-- Ah tá!
Por isso a toalha?
-- Isso.
-- Mas tem peça mesmo ou é só você nadando?
-- Não, tem peça mesmo.
-- Deve ser difícil, né?
Fazer uma peça dentro da água.
-- Nada, a gente tá adorando, nossa próxima peça deve chamar ofurô!
Ok, a última linha pode ser um delírio um pouco distante.
Mas dá uma invejinha, né?
Imagine você podendo montar uma peça em que, além de atuar (convenhamos, algo que está entre as coisas mais deliciosamente humanas do próprio ser humano) você também pode nadar.
Tchibum!
E elas foram fundo.
Parecem mesmo estar no lugar certo.
Quase como anfíbias, vão e vêm de dentro da água.
Encontram espaço para sorrir e para sofrer.
Mas parecem que ainda não estão no ponto.
Tchibum!
Há uma certa convicção ou impostação exagerada nas falas que faz crer que o corpo de ambas ainda não está no personagem.
O texto entra meio atravessado nessa história.
Mais uma vez senti falta da tecla mute em alguns momentos.
Talvez uma edição já resolvesse.
Fica, pelo menos pra mim, a sensação de que uma barreira foi superada.
Até mesmo o Centro Cultural Banco do Brasil, cujas ressalvas para o apoio à cultura valeriam outro texto, consegue dar margem para que se construa dentro das suas instalações um espaço realmente alternativo de apresentação.
Pra não dizer um meio alternativo.
Mas sabe aquele quê?
Aquela coisa que te intriga pra além das imagens do espetáculo?
Aquilo meio indelével que a gente procura para a cacete e de vez em quando até acha?
Pois é, foi isso que faltou.
Número de frases: 48
Tchibum! Dor de Mãe
Como dói, ver você assim
Pedaço de mim
Embalei em meus braços
Descansei seu cansaço
Meu corpo te alimentou
Meu calor te agasalhou
Acordei varias noites
Abriguei do frio que sentia
Enquanto dormia
Como dói, ver você assim
Desfigurado, jogado ao léu
Um gosto amargo de fel
Que tenho que provar
Toda vez que preciso te buscar.
Como dói, ver você assim
Sem enxergar a realidade
Vivendo uma prisão
Com a chave nas mãos
Mergulhado na ilusão
Como dói, viver assim
Sem noites dormir
Com os olhos no telefone
Sempre o mal pressentir
Com medo de seu nome ouvir
Viver a custa de calmantes
Em uma dor angustiante, constante
Em a esperança de um momento
Cansar-se do sofrimento
Ajuda então pedir
E deste suplicio sair.
Número de frases: 31
Em a sexta-feira, dia 15/06, fui pela primeira vez assistir Gaivota -- Tema para um conto curto, montagem da obra de Anton Tchekhov, dirigida por Enrique Diaz e encenada por boa parte da Cia. dos Atores.
Escrito no final do século dezenove, o texto é desses desafios absurdos para qualquer grupo que se proponha a realizar a montagem.
Em a fila, claramente identificávamos a classe teatral.
Não aquela que poderíamos chamar de «companheiros de classe», mas aquela que vemos à distância em palcos da cidade.
Palcos como este, do Sesc Pinheiros, por exemplo, que, neste caso, foi totalmente adaptado para a montagem, esquecendo (Graças a Deus) as poltronas acolchoadas e o formato de palco italiano.
Todos se acomodaram em três grandes arquibancadas montadas quase como uma semi-arena.
De lá, víamos um chão branco, vazio e sete atores sentados em cadeiras.
O que falar da montagem?
Minha primeira resposta seria «Não sei».
Tem coisa demais.
Imaginem tudo que gostaríamos de ver nas peças em cartaz, tudo junto, numa apresentação só.
Gaivota -- Tema para um conto curto é um latifúndio de sentidos, numa cidade com problemas de distribuição de eles por seus espetáculos.
Saí do teatro puto.
Parecia uma apresentação feita da classe para a classe.
Eles pressupõem em diversos momentos que já conheçamos a obra, e mesmo conhecendo, seria difícil apreender metade dos símbolos construídos por os atores numa primeira apresentação.
Sabe aquela sensação de quando você vê pela primeira vez Cidade dos Sonhos?
Chegam aquelas perguntas na cabeça «será que eu sou tão limitado assim?»,
«tudo bem, eu estou com medo, não entendi nada da história, mas meus sentidos foram profundamente afetados».
Aquele sei lá o quê de incômodo.
Fiquei assim por todo o sábado, quando resolvi assistir de novo ao espetáculo, o que me aclarou bastante as idéias.
Gaivota -- Tema para um conto curto é dessas peças em que se arrisca muito quem atua, sobretudo num processo colaborativo, pois a falta de chão é algo sempre presente.
Arrisca-se demais quem dirige, principalmente se esse se propõe a subir no palco e se jogar também, caso de Enrique Diaz.
Arrisca-se um monte também quem cede o espaço, já que o limite para o fracasso está sempre muito próximo.
Tudo é planejado pra pecar por o excesso.
Se a idéia é trocar de personagens, eles trocam inúmeras vezes e os personagens se confundem em diversos momentos (os nomes russos e o trabalho corporal mediano também ajudam bastante).
Se a idéia é usar simbolismo, tudo que está em cena, e é muita coisa, pode se transformar em gaivota.
Se a idéia é fazer metalinguagem, a radicalização é tanta, que a linha narrativa chega a ir para o espaço.
Fica aqui uma indicação ao Sesc, específica para esta montagem:
façam pacotes de desconto para quem quer ver mais de uma vez.
Não é uma obra pra ser compreendida de pronto, muito menos comendo pizza depois.
O aviso, inclusive, é dado ao longo da peça.
Algo didático.
Em o final das contas, no segundo dia fiquei mais aliviado.
Mesmo assim recorri ao texto, pra entender que os caras editaram o que bem quiseram, criaram falas mil, enfim, usaram basicamente o que interessava da linha central da narrativa.
Sem legendas para quem não leu.
Um risco imenso (se tivesse visto só uma vez, teria odiado), uma liberdade maior e uma peça pra ser vista e revista.
Sem pizza marcada pra depois.
Número de frases: 37
3,1416 ... caras de conteúdo a cada 4 pessoas Comemorações e lançamentos homenageiam autor
O Ano Nacional Machado de Assis promete um aumento de vendas da obra do escritor.
Apesar da imortalidade, Machado não vende muito e é ofuscado por os constantes lançamentos estrangeiros.
Entretanto, cem anos após a morte do Bruxo (como ficou conhecido), oito novas obras serão lançadas, trazendo novidade para quem já conhece o universo machadiano;
além de vários relançamentos, incluindo edições populares, para quem quer conhecer.
As homenagens serão muitas, em inúmeros ciclos de palestras.
Ao longo do ano, a Academia Brasileira de Letras discutirá seu fundador em seminários, palestras e mostra de filmes.
Em Paraty, a Flip também homenageia o autor.
Para completar, A Casa de Rui Barbosa presenteou os estudiosos do maior escritor brasileiro com um banco de dados, disponível em www.machadodeassis.net.
Em ele são encontradas informações sobre as alusões a diferentes temas feitas por Machado de Assis, em seus romances e contos.
Quem lê Machado
O perfil do leitor de Machado continua inalterado há tempos.
O estudante obrigado a ler os clássicos para a escola ou vestibular é quem mais compra do autor.
Fora ele, apenas quem percebe a importância de ler e reler os clássicos.
Para o gerente de livros da livraria De a Conde, Adriano Kneipp, a facilidade em traduzir livros estrangeiros é responsável por a preferência do consumidor por os lançamentos internacionais.
Uma pena, afinal, ler Machado de Assis é «essencial para entender a alma brasileira no momento da virada de século».
Logo é importante para todo brasileiro.
Releituras e novas coletâneas vêm saciar a fome do consumidor por lançamentos.
Entretanto, a grande responsável por levar Machado ao grande público é uma parceria firmada entre a ABL e o Ministério da Cultura.
Todos os livros do autor serão publicados por preços populares, entre três e cinco reais.
Número de frases: 20
Assim vai ficar fácil, e barato, conhecer melhor o nosso eterno Bruxo do Cosme Velho e, por consequência, a alma brasileira e a língua portuguesa.
Tendo como objetivos montar e apresentar um espetáculo com coreografias baseadas nos Orixás mais tradicionais do Candomblé, bem como acrescentar ao repertório mais uma dança popular da região, o Grupo Kizomba realiza o projeto «A Dança dos Orixás».
A cidade de Imperatriz, localizada no interior do Maranhão, com uma população de 230.450, é marcada por a diversidade cultural, pois grande parte de ela é oriunda de todas as regiões do Brasil e de outros países.
Por anos seguidos esta diversidade foi motivo de determinar a «identidade cultural» como uma falta.
Porém, nos últimos anos, enfim, a comunidade imperatrizense assume a diversidade cultural como característica inerente à sua cultura.
Mesmo diante das eternas dificuldades que o movimento cultural artístico da cidade tem enfrentado, é possível perceber que grupos, entidades e, até mesmo, artistas nas suas práticas individuais têm resistido.
Um exemplo é o Grupo Kizomba
O Grupo de Dança Popular Kizomba surgiu em agosto de 1997, a partir da idéia de apresentar, numa Feira de Ciências na Escola Jonas Ribeiro, um espetáculo cultural diferente.
A proposta, encabeçada por a Professora Maria do Amparo, era o de fazer um trabalho no qual resgatasse as tradições culturais da região, principalmente ligadas às raízes africanas.
Em o mesmo período, a Fundação Cultural de Imperatriz promoveu e desenvolveu o Projeto de Oficinas de Danças Típicas, o que contribuiu de maneira decisiva para a formação e aprendizado dos alunos / brincantes.
A culminância do trabalho se deu com a apresentação da «Dança do Cacuriá», dança marcada por a sensualidade contida no bailado e nas letras das suas músicas;
dança genuinamente maranhense, tem sua origem na Festa do Divino.
Devido ao sucesso da apresentação, o grupo passou a se apresentar nas atividades festivas da comunidade e a partir daí passou a estudar e ensaiar novas danças, inserindo no seu repertório a «Dança do Lili», o» Maculelê», a «Ciranda» e o «Divino».
Em o ano de 2004, através de oficinas musicais, o grupo deixou de se apresentar com som mecânico para, enfim, fazer apresentações ao vivo e criar suas próprias composições.
Hoje, o grupo é composto de 25 pares de brincantes, 07 músicos e 02 vocais, a maioria de ex-alunos e alunos da região da Grande Vila Lobão.
Em esse caminhar de formação, aprendizado e resgate permanente das danças populares, o Grupo Kizomba encaminhou no ano de 2006, um projeto para o BNB-Cultural, e foi aprovado.
Como contrapartida, serão 28 (vinte e oito) apresentações da dança para a comunidade imperatrizense.
O grupo ainda está em processo de ensaios, e paralelamente, agenda locais para as apresentações, como escolas e praças públicas.
E é nesse momento, que o grupo esbarra no preconceito de credo religioso.
A bem da verdade, os obstáculos iniciaram mais cedo.
Primeiro, foi convencer um pai-de-santo e os próprios brincantes que não era um culto às entidades, mas sim uma leitura estético-artística de uma manifestação rica em canto, ritmo, dança.
Depois de R$ 50,00 reais desembolsados para o pretenso pai-de-santo, e algumas reuniões junto aos brincantes e suas famílias, o obstáculo seguinte foi o local para os ensaios:
o Colégio Jonas Ribeiro tentar amenizar o desconforto de ensaiar em conjunto com a Igreja Assembléia de Deus, no mesmo prédio, ouvindo desconfortáveis comentários sobre o som dos atabaques.
Voltando aos locais de apresentação, as portas das escolas (locais originalmente determinados no projeto aprovado) estão se fechando quando perguntados sobre o que se trata, e a professora Amparo diz ser uma dança de orixás e ouve, de forma deselegante, que se trata de macumba.
Essa resposta tem se repetido, sobremodo, por onde Amparo passa:
«Como as pessoas são bobas;
como está sendo difícil elaborar o calendário.
E eu que pensava que o mais complicado seria conseguir dinheiro para isso», diz a professora Amparo, ainda abismada.
Para os alunos e ex-alunos, a dificuldade estava em convencer os pais sobre a dança, um pensar estético sobre os rituais do Candomblé:
«Minha mãe teve que vir aqui assistir aos ensaios alguns dias, para ter a certeza de que não era macumba», diz Patrícia.
Os ensaios continuam com professores / facilitadores de São Luís, Marcelo, Nêgo e Neto durante todo o mês de setembro, devendo estrear em outubro de 2007, no Teatro Ferreira Gullar, para convidados.
Número de frases: 31
Depois, se as portas das escolas continuarem fechadas, o grupo irá se apresentar em praças públicas na cidade de Imperatriz, cumprindo assim, não só com sua contrapartida, como também, e principalmente, com o orgulho de ser brasileiro e artista numa cidade tão árida e provinciana no interior do Maranhão.
Tropa De Elite, Osso Duro De Roer, Pega Um Pega Geral, Também Vai Pegar Você!
Ontem, na esquina de casa, um camelô estendia seus murais com capas de DVDs mal impressas.
Passei por ele sem me importar, era apenas mais um desses caras que atrapalham o nosso caminho por as calçadas.
Continuei rumo à sessão das 19h no Espaço de Cinema em Botafogo.
Trinta passos adiante parei e lembrei do recente caso Tropa de Elite:
o filme tinha vazado no pirata, e desde o início da semana estava sendo vendido nas ruas do Rio.
Titubeei um pouco, podia perder a sessão no cinema, mas acabei voltando para conferir os títulos que o camelô oferecia.
Cheguei devagar, olhando meio de longe, um pouco constrangido, confesso.
Ainda sou dessas pessoas que têm um certo pudor em ficar ali, cara a cara com o pirata.
Logo encontrei dois títulos nacionais:
Xuxa Gêmeas e Ó paí ó.
Perguntei se ele tinha Tropa de Elite, o rapaz branquelo, com cara de rapper zona sul, boné e bermudão Billabong respondeu:
-- Com certeza!
Tem sim.
Quis saber mais sobre o filme, como se só tivesse ouvido falar através do burburinho das ruas:
-- Ah, esse não é o filme que teve os armamentos roubados no Chapéu Mangueira?
-- É esse mesmo.
É com o Olavo da novela.
-- Que Olavo?
-- O Wagner, Wagner Moura.
-- Ah legal, então é esse mesmo.
Quanto é?
-- É cinco.
-- E a qualidade é boa?
-- É sim, é DVD mesmo, não é VCD não.
Mídia roxinha!
-- Tá completo ne?
Não falta cena não!?
-- Completo!
-- Beleza então, se a qualidade não for boa eu volto aqui amanhã e troco.
-- Tranqüilo, tá garantido.
E tava mesmo.
A qualidade realmente era perfeita, som e imagem de primeira, cartelas e intertítulos em inglês!
Só faltaram os créditos finais.
Em essa, o camelo parou pra olhar uma conversa meio estranha que seu companheiro de banca travava com um sujeito meio cara de PM à paisana.
Ficou ali, meio de esguelha, prestando atenção, e eu, ao lado, esperando o produto.
Parecia que a conversa alheia fechava alguma combinação.
Cutuquei:
-- E aê, tem o Tropa de Elite ou não?--
perguntei de novo, querendo sair logo para o cinema.
-- Tem sim.
Sai um Tropa aí -- disse o branquelo para o chapa.
O comparsa foi lá numa bolsa preta e pegou lá um plástico com uma folha mal impressa que trazia Tropa de Elite escrito com uma fonte meio «Linha Direta» e umas fotos não identificáveis que deviam reproduzir cenas do filme.
Dentro vinha o DVD da «mídia roxinha», abri pra constatar.
Me entregou logo dizendo:
-- Também tem aquele ali, com o «Lázaro Ramos, Ó pái».
-- Ó Paí ó, to ligado, esse eu já vi -- o que não era verdade, só para não estender mais a transação.
-- Também tem o Caixa Dois, sabe qual é?
-- Sei sim, mas hoje só quero o Tropa mesmo -- já quase íntimo do filme do Padilha.
Paguei e fui para o cinema pensando na tamanha facilidade com que aquele filme tinha parado nas minhas mãos por 5 pratas, menos que um big mac ...
no esforço que devia ter sido fazer tudo aquilo:
levantar a história com os Bopes, roteirizar em zilhões de tratamentos, reservar o espaço na agenda de caras como Tulé Peak (diretor de arte), Braulio Mantovani (roteirista) e Daniel Rezende (montador) -- não por acaso, o mesmo trio ternura por trás de Cidade de Deus --, e além disso, aprovar o projeto, captar, produzir, filmar, ter as filmagens paralisadas por o roubo de todo o armamento cenográfico, artefatos que protagonizam o filme do início ao fim, e ainda finalizar, negociar a comercialização, traçar uma estratégia de marketing, etc..
Uma trabalheira danada.
E depois de tudo isso, ver um pedaço mutilado do seu «filho» de 3 anos parar na mão de geral por 5 real (a versão que circula é que a cópia vendida por os ambulantes é o segundo corte do filme, que já estaria na 16ª versão da montagem).
É um caso inédito para o cinema brasileiro, e talvez para a Polícia também.
Um filme que desperta tal interesse do público, de forma tão espontânea, que ganha as ruas por a via da ilegalidade antes do seu lançamento nos cinemas, numa avassaladora «não-ação» de marketing viral, ou numa curiosa referência àquilo mesmo de que trata sua história.
O vazamento da cópia já está sendo investigado por a própria Polícia.
Haja metalinguagem cinematográfica!
Resta saber como isso vai repercutir daqui para a frente.
Vai ser bom ou não?
Quem pode ter certeza sobre o que o diretor José Padilha diz à " Folha de S. Paulo:
«que ninguém sabe o efeito que as vendas piratas terão sobre a bilheteria do filme, mas acredita na chance de não haver prejuízo à performance da venda de ingressos, já que, analisa, o público do DVD pirata é um e o dos cinemas, outro."
Ou será que o boca a boca vai fazer o filme estourar?
Vai virar reportagem do Fantástico?
Ganhar as páginas policiais dos jornais mais uma vez?
Mídia espontânea ou um baita furo pirata, ninguém pode dizer ainda.
O que dá pra comentar do lado de cá é que o filme é brilhantemente aterrador.
Um thriller que combina a crueza esquemática de Notícias de uma guerra particular e a cinematografia exuberante de Cidade de Deus.
Esse é só o começo de uma grande História que vem por aí.
Em breve, num cinema perto de você.
Número de frases: 71
É possível fazer um som de qualidade por meio de trabalhos independentes.
Temos bons exemplos em nosso país tupiniquim, ouvimos Lobão, Reação em Cadeia, Manitu, algumas produções de Pitty, Dead Fish, Ludov, Bokaloka, Tentasamba, Black Alien, Art Popular, Sorriso Maroto e o fenômeno da internet D'Blac k Atualmente o cantor mineiro Wilsom Sideral, após dez anos de carreia, se prepara para o lançamento do cd independente ' Dias Claros '.
Em o livro de visitas do site oficial do cantor, Sideral declara que a demora na divulgação do álbum tem uma justificativa, «por aqui tá uma correria para o lançamento, é muita coisa pra alinhar até colocar esse ' filho ' na rua, mas vai valer a espera, esse disco é sem dúvida o mais bem produzido da minha carreira», afirma.
Dizer que este é o cd mais bem produzido da carreira é uma declaração polêmica do cantor, tendo em vista que o musico já lançou dois cds por gravadora de grande porte, ' 1' e ' Em a Paz '.
Conheci o Sideral no começo da carreira, em 1999.
Acompanho a carreira de ele desde então, não posso discordar do Wilsom as melhores produções de ele estão nos trabalhos independentes.
Talvez seja o peso da indústria cultural, que faça os artistas (ressaltando que nem todos) tender mais para a busca do sucesso e ceder a pressão por o retorno financeiro das gravadoras do que para o lado de sua realização profissional.
É inegável que todos os artistas busquem o sucesso, mas questiono, do que vale o sucesso sem a realização profissional e pessoal da pessoa?
Quem quiser conferir a boa fase de Sideral no site está disponível a música de trabalho «Fugindo de mim» para ouvir e baixar.
A qualidade do áudio está muito boa.
Esse single faz lembrar o inicio da carreira de Sideral.
A antiga «fita demo» de ele foi gravada apenas com violão e voz, salvo a primeira versão de ' Eu estarei com você ', nesta faixa é utilizado piano.
É uma tendência mundial os artistas fundarem as próprias gravadoras.
Além de lançar músicas e álbuns de própria autoria, alguns proprietários dos selos independentes revelam novas bandas e lançam novos gêneros musicais.
Mesmo com o maior poder criativo, não se pode negar que o artista enfrenta problemas em meio à caminhada independente.
Como grande parte dos artistas que trilham as carreiras por conta própria, as maiores dificuldades encontradas por Sideral são os custos da produção do CD, à divulgação, o marketing e a distribuição do álbum.
Para suprir parte das dificuldades Sideral contou com o apoio da Lei de Incentivo à Cultura e com a ajuda de alguns patrocinadores.
Essa é uma boa dica para quem também trilha o caminho musical independente.
Número de frases: 18
Hola, Overminas e Overmanos!
Eis a novela gráfica «Um Outro Pastoreio», fruto de um trabalho de mais de 2 anos em parceria com ilustrador e designer» Everson " Índio Nazari.
Ele ficou com as tintas e traços (digitais e analógicos) e eu fiquei no comando das palavras.
O site da novela gráfica já está no ar.
Lá, é possível ver todas páginas do livro e conhecer o desenvolvimento do processo, com esboços, fotos e modelagem.
Há também um vídeo-teaser, editado ainda no início do projeto, e o esboço de uma trilha para o desenvolvimento de um audiolivro, criada por o produtor musical Negrinho Martins.
Fazemos uma releitura da lenda do Negrinho do Pastoreio, mais conhecida por a versão do escritor regionalista João Simões Lopes Neto, publicado no livro «Lendas do Sul, em 1913».
A esta trama inicial costuramos elementos da religiosidade afro-brasileira, lendas africanas e pencas de referências das histórias em quadrinhos.
Uma curiosidade:
o livro Lendas do Sul foi a primeira obra literária em português publicada por o Projeto Gutenberg, instituto que distribui gratuitamente livros e e-books na internet.
Ainda não há uma previsão para o lançamento.
Estamos em busca de editoras.
Acenda uma vela ...
este é «Um Outro Pastoreio».
Número de frases: 14
Sou Pernambucano.
Recifense, com muito orgulho.
Por isso aqui em São Paulo sempre quando promovo algum Evento Cultural como:
Caldo Groove, na Casa de Cultura Chico Science, Mercado Groove, no Centro Cultural Santo Amaro ou SP Mangue, este geralmente nas ruas do Centro de São Paulo, tento promover, exaltar e exibir nossa cultura, com grupos musicais de influencias «Rítmicas Pernambucanas»,» Danças», «Artesanatos, Comidas Típicas» e etc..
Já nas «TVS» de internet aqui em «Sampa», geralmente promovo debates que discutem sobre a» Cultura Nordestina», Imigração dos Nordestinos «para o sudeste e apresentações de grupos que são ou que têm influencias dos» Ritmos Nordestinos " como:
Metrô Sertão, Artefato MOSH, Zé Lima, Rock Moreira, Fernandes e Casamata e outras atrações, estas, já foram realizadas em «TVS» como:
TV Youtube, Tv Orkut, D + Tv, All Tv e etc..
Eu gosto de falar da nossa cultura e mostrar o quanto nós somos inteligentes e batalhadores, mostrando o que temos de melhor em termos Culturais, alguns já citados acima e outros como mostragens de pesquisas realizadas por o IBGE e outros órgãos do tipo.
Faço isso para valorizar o quanto nós somos, pois sabemos que problemas existem em qualquer cidade, mas para nós que somos nordestinos, a propaganda em geral tenta mostrar só o que temos de ruim, e está errado, pois se toda vez que fizessem isso e de fato mudassem alguma coisa para melhor, tudo bem, mas não, só falam, falam ...
Número de frases: 9
mas não dizem nada, gostaria de pedir a todos da nossa terra, a todos que moram em ela e a todos que admiram ela, para fazerem alguma coisa para melhorar e os que já fazem, só continuarem e não só aceitarem as críticas de certas pessoas poderosas que só falam, mas não resolvem nada, nós temos que ser bastante orgulhosos do nosso estado e se caso tiver algo que nos aborreça ou que nos deixem tristes, deveremos nos unir e procurar recursos, saídas para atenuar a nossa insatisfação, mas nunca só reclamar, reclamar e se acomodar no sofá ...
Rabecado Rabecado [
Independente, 2007]
O forró conseguiu seu lugar ao sol na MPB devido ao trabalho de grandes nomes como Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga.
Artistas de talento superior, estes mestres foram responsáveis por quebrar boa parte do preconceito que envolvia o gênero.
De lá pra cá, o ritmo nordestino passou por várias fases e hoje se apresenta diluído em duas horrendas versões:
o forró eletrônico e o universitário.
Felizmente, nem tudo está perdido como mostra o primeiro disco da banda recifense Rabecado.
O grupo apresenta, ao longo das dez faixas do disco, um bom trabalho onde os instrumentos característicos da música nordestina (rabeca, pífano, zabumba, triângulo) se unem a outros para criar uma sonoridade superior ao que temos visto ultimamente na maior parte dos artistas vernaculares.
O destaque fica por conta de faixas como «Viuvinha», onde um melódico bandolim finca sua presença, produzindo uma deliciosa musicalidade.
O repertório contempla músicas autorais que transitam entre as diversas vertentes do forró como o carimbó e o baião.
O Rabecado, como boa parte dos músicos atualmente, está lançando seu primeiro trabalho através da distribuição independente.
A confecção do álbum foi feita no formato SMD (Semi Metalic Disc).
Este novo sistema permitiu, segundo os músicos, uma redução de quase 80 % no preço final do disco que está sendo vendido a R$ 5,00.
Em esse primeiro trabalho, o Rabecado se assemelha bastante à sonoridade produzida por outro grupo pernambucano, o talentoso e já extinto Mestre Ambrósio.
Provando dessa forma que inovar com qualidade num estilo musical tão purista quanto o forró não é tarefa das mais fáceis.
Mas, isso definitivamente não é um problema e, ao final desse CD de estréia, percebemos que ainda há vida inteligente dentro dos arraiais urbanos.
Gilberto Tenório
gilberto@revistaogrito.com Informações:
rabecado@gmail.com
Número de frases: 20
www.rabecado.com Em os dias 16 e 17 de setembro foi realizado em Florianópolis o primeiro Barcamp brasileiro.
O evento reuniu cerca de 100 participantes no Centro Integrado de Cultura para uma «desconferência» sobre colaboração na World Wide Web.
Ou seja, para discutir iniciativas como o Overmundo e outras ferramentas participativas.
Em vez de especialistas palestrando, todo aquele com alguma experiência teve a chance de subir ao palco e relatá-la aos demais.
Os temas discutidos giraram em torno do hype da Web 2.0, jornalismo participativo, comunicação corporativa, negócios P2P, creative commons, bem como a apresentação de ferramentas colaborativas como o sistema de gerenciamento de conteúdo (CMS) Drupal, o aplicativo para criação de links multidirecionais Co-Link, o gerenciador de traduções Blogamundo, o Estúdio Livre e outros.
Veja algumas fotos.
Foi um sucesso, na avaliação de todos os participantes.
A maioria confessou o ceticismo inicial com a idéia de «desconferência», sem horários fixos nem palestrantes, na sessão de encerramento.
Eu mesmo disse que minha primeira reação foi pensar «isso é coisa de comunista» e esquecer do site, até a Maria Clara me incentivar a entrar na lista de discussão.
A o trocar e-mails com os interessados no Barcamp, notei que a maioria era de pessoas sérias, com experiência em colaboração na Web -- ou ao menos um genuíno interesse -- e algo a dizer.
Por isso decidi participar.
A grande surpresa é que, apesar da falta de uma organização centralizada, o Barcamp não foi muito diferente de uma conferência tradicional em seu formato.
As pessoas com algo a dizer subiram ao palco e apresentaram suas idéias.
Os debates foram tão civilizados quanto em qualquer outro evento, inclusive com o indispensável portador de incontinência verbal que interrompia a todo mundo.
Os «grupos de trabalho» se formaram espontaneamente, com discussões de alto nível.
Bem diferente de minha imagem inicial, de um bando de bichos-grilos fugindo do assunto o tempo inteiro para falar de qualquer livre-associa ção viajandona.
André Avorio, o facilitador do Barcamp, se mostrou um pouco desapontado com o fato de que, no primeiro dia, muita gente tenha esperado por decisões de cima.
De fato os participantes ficaram um tanto perdidos, mas creio que isso é natural num modelo de encontro bottom-up, novo para a maioria.
A meu ver, se auto-organizaram no menor tempo possível nesse contexto.
Em o primeiro dia aconteceram «palestras» mais ou menos tradicionais, com auditório cheio e especialistas no palco.
Porém, foi bom para cada um conhecer os interesses dos outros, o que facilitou a formação dos GTs no dia seguinte.
O número de participantes foi de entre 80 e 100, mais do que o esperado por a organização.
Inclusive, mais do que o primeiro Barcamp em Amsterdam reuniu, segundo André Avorio.
Relatos informam também que contamos com maior presença feminina.
É uma quantidade de gente comparável à de muitas conferências acadêmicas «oficiais».
Até maior.
É importante frisar que o Barcamp é um modelo de encontro open source, assimilável por qualquer interessado em promover algo do gênero.
Os organizadores do Barcamp Brasil se colocam à disposição para ajudar.
O fato de uma centena de pessoas desconhecidas viajarem por sete horas ou mais para uma conferência sem programação definida me parece fascinante.
Mais fascinante ainda, que essas pessoas se disponham a confiar em desconhecidos o suficiente para dividir um quarto com eles.
No caso dos organizadores, fascinante é terem confiado seu nome a uma imobiliária para o aluguel das acomodações, quando nada garantia a presença dos interessados.
Embora a mídia e alguns pesquisadores mais apocalípticos gostem de pintar o relativo anonimato da Web como um reduto para todo tipo de canalha e gente sem caráter, creio que experiências como essa mostram o contrário.
Assim como na vida real, a maioria das pessoas é de bem e, dada a oportunidade atrelada a um interesse pessoal, fica feliz em colaborar.
Número de frases: 33
Infelizmente, «notícia boa não é notícia», então em geral temos apenas os relatos negativos.
«De que serve um livro que não saiba levar-nos para além de todos os livros».
É o pensamento de Nietzsche que impulsiona a maioria das minhas leituras.
Gosto de pensar que ler um livro é um jogo, uma aventura que nos transforma, nos leva a enfrentar mistérios.
às vezes o que me atrai é o nome sugestivo, como esse Guerra no Coração do Cerrado, de Maria José Silveira, editado por a Record.
O título me atraiu por motivos óbvios.
Depois, lendo a apresentação, fiquei mais curiosa.
Já tinha lido alguma coisa sobre Damiana da Cunha, índia criada por brancos, que serviu de intermediária nos incontáveis conflitos entre seu povo e os portugueses na Vila Boa (Cidade de Goiás), do século 18.
Damiana da Cunha já tinha me impressionado por conta de suas habilidades sociais e sua força de guerreira «cayapó» -- grafia do livro.
Mas não passava de uma vaga lembrança das aulas de história no Lyceu de Goiânia nos idos dos anos 70.
A história de Damiana é puro material para romance:
a impossibilidade histórica de sua tentativa de fazer com que duas forças culturais em conflito pudessem viver em paz, a ambigüidade da personagem, a questão da impossibilidade da conversão e, sobretudo, a guerra de extermínio de povos indígenas.
Antropóloga e mestre em Ciências Políticas, Maria José Silveira -- autora de romances, contos e livros infanto-juvenis, tradutora e editora com passagens por jornais e agências de publicidade -- veio a Goiás buscar uma personagem de muita força para presentear o público com um romance histórico que conta histórias de uma protagonista da história, escrito com talento, simplicidade e beleza.
Impossível não se render à sensibilidade da autora para encontrar a história certa e transformá-la num livro gostoso de se ler.
Em o livro, Dom Luiz da Cunha Menezes, governador da Capitania de Goyaz na época em que Damiana nasceu, viu na adoção da menina uma estratégia para subjugar os caiapós, uma das tribos mais rebeldes da região.
Damiana era órfã e neta do grande cacique Angraíocha.
Dom Luiz transformou a criança num símbolo da possibilidade de convivência pacífica entre brancos e índios.
Convenceu o cacique de que Damiana teria um lar melhor no palácio do governo, onde poderia mostrar aos brancos o valor do povo indígena.
O acordo entre governador e cacique era ardiloso de ambas as partes.
Dom Luiz queria mostrar que um índio poderia ser civilizado.
O cacique pretendia usar a menina índia como espiã, para que aprendesse tudo sobre o inimigo e, no futuro, pudesse ajudar sua tribo na luta contra o povo que dominava sua terra.
Com este cenário, Maria José Silveira construiu um romance a partir da história.
Ela usou a imaginação para tentar entender o que se passaria na cabeça e na trajetória de Damiana, uma criança inocente cujo futuro seria transformado radicalmente ao ser usada como instrumento entre dois opositores num conflito histórico.
Em a bibliografia consultada por a autora, três livros trazem Damiana como assunto, mas dentro do aspecto histórico de sua atuação como mediadora na guerra entre índios e brancos.
Maria José preferiu fazer seu relato de forma literária, transformando história em ficção, pois seria a única maneira de entrar no mundo interno de Damiana, já que a heroína não deixou o relato de sua jornada.
Quem ler, certamente gostará.
Depois de devorar Guerra no Coração do Cerrado, arrisquei entrevistar Maria José Silveira, que elegantemente respondeu meus e-mails rapidamente.
O resultado das conversas eletrônicas é a entrevista que se segue.
Como nasceu Guerra no Coração do Cerrado?
Quais os principais detalhes da criação do enredo?
A idéia de escrever o romance nasceu de uma imagem:
a figura de Damiana -- índia cayapó / panará, criada durante alguns anos por um governador goiano -- saindo de Vila Boa de Goiás para ir buscar seu povo no sertão.
Algumas coisas me intrigavam:
o conflito radical que essa figura de mediadora entre a cultura ocidental e a cultura indígena implicava e a certeza de que, para funcionar como uma «ponte» entre os dois povos, Damiana teria que dominar dois códigos culturais completamente diferentes:
o dos ocidentais e os dos cayapó / panará.
Uma tal mulher, sem dúvida nenhuma, teria que ter sido extremamente interessante.
Mais ainda:
teria sido ela realmente uma heroína para os colonizadores e, portanto, uma traidora do seu povo que foi praticamente dizimado?
Esse conflito tinha a dimensão da verdadeira tragédia, no sentido clássico da palavra:
as forças sociais, muito maiores do que o indivíduo, determinando o resultado final de sua ação.
Achei que era uma história que deveria ser investigada mais profundamente, e que merecia ser contada.
A protagonista Damiana tem dilemas que pontuam toda a narrativa.
Foi um processo demorado o aperfeiçoamento ficcional dessa personagem histórica?
Meu desafio foi criar uma Damiana verossímil, mas não só isso.
Um dos problemas mais sérios que tive de resolver, por exemplo, foi o da linguagem falada por os cayapó / panará cuja cultura foi, de fato, a mais importante para a formação de Damiana.
Queria evitar a armadilha de colocar o indígena falando no português primário do estrangeiro que não domina a língua.
Esse «equívoco», cometido por vários autores, leva à representação do índio como intelectualmente incapaz.
Não passa por a cabeça de ninguém fazer o contrário, mas ponha um branco tentando se expressar tatibitate na língua panará e veremos como ele vai parecer um imbecil.
Esse tipo de detalhe acaba tendo conseqüências funestas, aumentando o preconceito que ainda hoje existe contra os índios.
A solução que encontrei foi fazer um narrador onisciente capaz de entender a língua panará e traduzi-la para o leitor em português correto.
A não ser num pequeno episódio, os índios no meu livro falam panará e são traduzidos por o narrador.
No entanto, para deixar claro as diferenças culturais também na linguagem, usei o artifício de fazer suas frases mais curtas, sincopadas.
Por outro lado, estamos tratando de um momento em que a cultura panará vivia uma fase de florescimento e luta, com pleno domínio de táticas e estratégia de guerra, ainda não contaminados por os brancos.
Procuro mostrar o grande orgulho que eles certamente teriam de seus costumes e tradições, de ser o povo cayapó, um povo guerreiro e conquistador.
Damiana, portanto, deveria se debater entre esses sentimentos:
de um lado, o orgulho de ser quem era;
de outro, a admiração por a cultura branca, justo a cultura que desprezava e odiava a sua.
Nunca saberemos, de fato, o que ela sentia e pensava, mas o importante em qualquer tipo de ficção é conseguir a chamada «suspensão da descrença» por parte de quem lê, fazendo o leitor «acreditar» que é «verdade» o que ele sabe perfeitamente que é uma invenção, «mentira».
Seja como for, os dilemas de Damiana podem ser entendidos perfeitamente por todos nós.
Se for verdade que pertencemos a culturas diferentes, somos, apesar disso, semelhantes e, no fundamental, iguais.
Foi difícil encontrar material de pesquisa sobre Damiana da Cunha?
Quais foram suas fontes?
Como foi aliar o material de pesquisa à criatividade emocional?
A história de Damiana e a cultura cayapó / panará já despertaram o interesse de alguns historiadores e antropólogos, tanto em Goiás quanto fora.
Não são muitos, mas foram fundamentais para o meu trabalho e estão todos citados no final do romance.
Ente os goianos, cito especialmente o livro do professor Jézus Marcos de Ataídes e os de Paulo Bertran, falecido o ano passado, um brilhante historiador que Goiás perdeu demasiado cedo.
A Vila Boa que o leitor encontra em Guerra no Coração do Cerrado existiu ou é puramente ficção?
Para ficcionalizar a vida da cidade, parti de informações históricas precisas, tiradas de vários autores, inclusive dos livros dos viajantes Saint-Hilaire e Pohl.
A cidade entorpecida por o marasmo colonial, o fim-de-mundo aonde as autoridades políticas chegavam para extrair de ali tudo que pudessem extrair sem nenhuma intenção de permanecer, a hipocrisia geral de uma sociedade muito contaminada por a idéia de ser um lugar de enriquecimento, as amásias escolhidas entre as raras e por isso super valorizadas mulheres brancas, o ódio e o desprezo ao povo indígena e a incapacidade de reconhecer seus direitos como primeiros habitantes daquelas paragens, tudo isso infelizmente existiu.
E não só em Goiás, como sabemos.
A sociedade colonial foi predadora em todo o canto do mundo por onde passou.
Transformar história em ficção era a única maneira de entrar no mundo interno de Damiana?
Essa é uma das grandes potencialidades da ficção:
ela nos oferece o caminho da subjetividade e, ao fazer isso, nos possibilita tentar entender as motivações, os sofrimentos e as alegrias de nossos semelhantes em momentos históricos diferentes.
A ficção e a pesquisa histórica são duas linguagens e dois caminhos que podem se complementar, levando a um mesmo ponto:
um melhor entendimento do que passamos para chegar até aqui.
Damiana foi uma índia brasileira e uma mulher que teve papel de destaque nos conflitos e tréguas da colonização de Goiás por os portugueses no fim do século 18.
Quando a senhora resolveu escrever o livro qual era a idéia:
retratar a hostilidade e incompreensão entre duas culturas?
Ou mostrar a força e determinação de uma mulher?
Meu interesse por o romance histórico nasce da crença de que é preciso entender os grandes problemas do presente em sua gestação.
Quando falamos do Goiás daquele tempo, estamos falando também do Goiás que veio de ali.
Estamos falando do homem que ainda hoje vive numa sociedade onde por todo lado campeia a intransigência cultural, a incapacidade de aceitar e entender o outro, o diferente.
A matriz do problema que levou os colonizadores brancos a dizimar o povo de Damiana permanece quase a mesma.
Não só em Goiás, como no Brasil, e não só no Brasil, mas em várias regiões do mundo, como lamentavelmente vemos todos os dias nos jornais.
Os interesses econômicos, que aliados à incompreensão, desprezo e ódio por o outro, levaram e continuam levando às guerras.
A senhora concorda que Guerra no Coração do Cerrado, apesar de ter sua ação em tempos distantes, tem um tema atualíssimo:
interesses econômicos?
Sem dúvida nenhuma.
E não só a questão dos interesses econômicos, mas também a permanente questão da intransigência cultural.
Até hoje, a incompreensão e o desrespeito aos direitos e à cultura dos índios brasileiros impregna nossa cultura.
Até hoje os remanescentes do povo da Damiana continuam acossados, ameaçados e suas terras cobiçadas por os madeireiros, mineradores, plantadores de grandes cultivos multinacionais.
Damiana foi realmente um símbolo da possibilidade de convivência pacífica entre brancos e índios?
Quem realmente se beneficiou da adoção de Damiana?
Os caiapós ou o colonizador?
Ao contrário:
Damiana foi um símbolo da impossibilidade da convivência pacífica entre brancos e índios numa sociedade como foi a sociedade colonial.
Quem se beneficiou, como já estava determinado por as forças sociais em ação naquele momento, foi clara e exclusivamente o colonizador.
O branco foi uma praga terrivelmente maléfica que caiu sobre os índios.
Apesar de ser criada por o homem-branco, Damiana tinha compreensão das características de seu povo indígena.
Isso a transformou numa mulher com uma visão diferenciada, que sabia buscar os aspectos bons de cada uma das raças.
É isso que encanta os leitores.
Damiana foi realmente uma heroína para os brancos e uma respeitada liderança para os indígenas?
Essa é uma das poucas certezas que podemos ter sobre Damiana:
para fazer o que fez, ela teria, necessariamente, que dominar os dois códigos culturais.
Para atuar como mediadora, teria que ser respeitada por os brancos e ser ouvida por os cayapó-panará.
A tragédia de sua história, no entanto, é que, por questões muito maiores do que ela, essa mediação só podia levar ao que levou:
ao extermínio e fuga do povo cayapó-panará, e à vitória cruenta do colonizador.
Damiana era uma feminista?
Seu livro mostra que, na vida pessoal, ela não fez concessões e casou-se com homens brancos que levou para morar na aldeia caiapó.
E nunca abriu mão da fé e dos rituais das crenças de seu povo.
Impossível usar a categoria feminista para a época e a cultura de Damiana.
Além de ser um anacronismo, em nenhum momento tive a intenção de tratar a questão a partir desse ponto de vista.
O que me interessa nessa história não é o papel de Damiana enquanto mulher, mas enquanto protagonista de um conflito definidor do passado que até hoje repercute em nosso presente.
Damiana tinha consciência de que era usada por os brancos e «se deixava levar» não por fraqueza, mas porque tinha certeza que a guerra contra os brancos era perdida.
Mas e a guerra do coração?
Quem venceu?
Será que meu romance responde a isso?
Deixo para o leitor essa resposta.
É muito interessante a forma como a senhora descreve a análise de Damiana sobre o ritual da Semana Santa, quando ela e Dom Tristão estão na aldeia, assistindo a um «ritual selvagem».
A senhora tem algo a dizer sobre isso?
Uma das questões que perpassa meu romance é justamente o que poderíamos chamar de «a impossibilidade da conversão».
Procuro mostrar como Damiana, desde pequena, para entender o que via tinha que «traduzir» para sua cultura os rituais da Igreja Católica, e os ensinamentos do Vigário que, diga-se de passagem, não era um catequista.
É importante ressaltar isso:
os jesuítas, que efetivamente tinham a preocupação da catequese na história do nosso país, não tiveram espaço na colonização de Goiás.
A o Goiás daquela época chegavam padres e sacerdotes cuja preocupação não era a «salvação das almas».
Em o meu romance, Damiana vê os ritos e crenças católicos como se fossem uma «versão» das crenças e rituais de seu povo.
Vê as semelhanças e não as diferenças.
Em essa cena a que você se refere, o que procuro mostrar é exatamente isso:
para Damiana, o «ritual selvagem», que o governador Dom Tristão abomina, tem uma grande semelhança com os» sacrifícios " dos fiéis na Semana Santa.
No entanto, sinto hoje que essa é uma parte que deixei um pouco ambígua no romance.
E é bom que fique assim.
Cada leitor pode fazer sua leitura e procurar entender, a seu modo, o conflito vivido por os indígenas e por os católicos de Vila Boa naquele momento.
Damiana da Cunha Menezes era uma personagem desconhecida da maioria.
E em seu livro a gente conhece a sua importância na história de Goiás e do Brasil.
Uma protagonista de histórias e da História.
Como a senhora avalia esse resgate?
Em a história de nosso Estado existe uma grande carência de heróis.
Não temos as figuras históricas libertárias que tiveram, por exemplo, vários outros Estados, como o Amazonas com Ajuricaba;
o Rio Grande do Sul com Anita Garibaldi;
a Bahia com Maria Quitéria;
Pernambuco, com Frei Caneca, só para citar alguns.
E no caso de Damiana, era pior ainda.
De o pouco que se sabia, ela era reivindicada como heroína da colonização, como a índia que teria abraçado a fé católica de tal forma que se dispôs a enfrentar o perigoso sertão para trazer seu povo para ...
ser exterminado.
Alguma coisa não «batia» nessa versão.
Achei que valia a pena investigar isso mais de perto, e espero ter conseguido passar uma outra visão dessa mulher que foi líder dos cayapó / panará num momento de grande significado histórico.
Já se disse, «infeliz do povo que precisa de heróis».
Bela afirmação utópica que afirma exatamente o contrário do que diz:
no mundo real, a história é tecida entre conflitos, lutas, desigualdades, injustiças.
Sem os heróis, onde estaríamos nós?
Título:
Guerra no Coração do Cerrado
Autora: Maria José Silveira
Editora: Record
Número de frases: 155
Preço: R$ 39,90
Recontando a história ...
Meus pais eram primos de primeiro grau ou primos-irmão, melhor dizendo.
Isto, no entanto, é só para explicar a origem da loucura ...
Dezesseis irmãos -- onze mulheres e cinco homens.
Muito dinâmica, minha mãe cuidava da casa, costurava e, às vezes, ainda dava aulas para as crianças da região.
Era também uma espécie de médica de toda vizinhança.
Tinha uma caixinha de madeira com medicamentos homeopáticos, que vinham do Rio de Janeiro e um grosso livro da Almeida Prado para se orientar.
Multiplicadora do tempo, ainda nos ensinava a moldar, com argila, diversos objetos para brincar e, quase todas as noites, nos contava histórias e estórias ao pé do fogão de lenha.
Eventualmente por as manhãs, ela ainda nos levava para nadar no açude e tomar o sol das manhãs.
Tivemos, portanto, uma infância bonita, com brincadeiras de roda, passeios a cavalo nos fins de semana para visitar os tios e primos que moravam nas redondezas.
O meu Curso Primário foi iniciado numa escola rural.
A os seis anos, aluna da D. Lourdes Eleutério Azevedo, também minha tia, fui com meus irmãos, para uma escola que funcionava numa sala cedida por um tio (meu querido tio Joãozinho).
Usávamos enormes carteiras, em que cabiam cinco, seis crianças.
Em uma só classe, se colocava aproximadamente vinte alunos de diferentes idades (as famosas turmas agrupadas, que existem ainda hoje na zona rural).
Fazíamos muitos exercícios para treino motor, mas nem comecei a ser alfabetizada.
A prefeitura da cidade de Araújos, em Minas Gerais, pagava a professora, fornecia giz e um quadro negro, «que não era verde».
A os sete anos meus pais alugaram uma casinha em Bom Despacho, a 160 km de Belo Horizonte, para que eu e meus irmãos pudéssemos estudar na cidade.
Tiza, uma das irmãs, tinha apenas 16 anos e cuidava da turma toda.
Os mais novos ficaram na roça com meus pais, e os mais velhos espalhados por colégios de freiras, onde tinham bolsa de estudos, ou em casas de tios, meio como domésticas e babás dos priminhos pequenos.
Meu primeiro dia na Escola Estadual Coronel Praxedes, apenas alguns dias antes do início das aulas, foi para fazer um teste para classificar os alunos conforme a inteligência.
Fiquei totalmente impressionada com o tamanho do prédio da escola.
Os alunos eram divididos em classe homogêneas, critério comum na época.
Binet deve ficar revoltado com o uso completamente desvirtuado de seus testes.
Em um dos exercícios -- que eu adorei e nunca me esqueci -- eu tinha que ajudar o coelhinho a encontrar a horta cheia de alfaces.
Com um bom desempenho, pude ficar na chamada primeira classe e a professora, Dona Célia Resende, era a melhor alfabetizadora da cidade.
O Livro -- A Cartilha de Lili era a coisa mais linda que eu já tinha visto.
Foi usado em Minas Gerais desde a década de trinta até a década de sessenta.
Recentemente, pude entender o seu papel doutrinador e machista e avaliar os seus efeitos em minha vida.
Em o segundo ano, a Professora era Dona Helena Batista -- era uma boa professora.
Muito séria, faltava-lhe, provavelmente, a amorosidade da antiga professora.
O que me lembro claramente foi de sua estratégia para decorarmos a tabuada.
A professora, nos minutos finais da aula, organizava uma competição em dois grupos.
Dois alunos de cada vez iam ao quadro.
Tive problemas porque da tabuada de seis acima, não quis mais decorar tudo (detesto decorar qualquer coisa!),
então eu tentava usar outras estratégias.
Por exemplo: eu invertia os números.
Em 6x5, eu lembrava de 5x6, e depois dava o resultado.
Perdi velocidade daí para a frente, quem decorava dava o resultado mais rapidamente.
Em a terceira série, uma outra Dona Helena, agora Lopes Cançado.
Era muito boa professora, talvez a melhor da cidade para esta série.
Em este ano, nossa escola estava sendo reformada e tivemos aulas em local improvisado, cedido por a prefeitura e que ficava perto da cadeia.
Isto nos dava um medo enorme dos «bandidos», que muitas vezes, ficavam do lado de fora tomando sol.
Nossa turma seguia junto desde a primeira série, mas nesse ano chegaram alguns alunos novos, acho que repetentes, não me lembro ao certo.
O assunto que estudei e que mais me encantou foi a respeito das regiões do Brasil porque me fazia «viajar», sem nunca ter ido mais longe do que Divinópolis, uma cidade vizinha e mais rica do que a nossa.
Em a quarta série, como nossa turma era considerada muito brilhante, a escola quis investir mais no grupo, permitindo que a professora, de que tanto gostávamos seguisse com nós.
Ficamos na mesma sala e com a mesma professora.
Em este ano, minha avó -- D. Maria Azevedo, como era conhecida -- morreu de câncer.
Éramos muitos netos de ela na escola, fomos avisados e fomos todos para sua casa.
Creio que isto aconteceu no mês de maio.
No meio do ano, alguém fez um livro da História e da Geografia do município de Bom Despacho, nossa cidade.
Como este era um dos conteúdos que devíamos estudar, todos os alunos da 4ª série tiveram de comprá-lo.
Minha irmã, mais velha do que eu dois anos, estudava em outra sala.
Minha mãe (meu pai não «apitava» quase nada) não tinha dinheiro e nos mudou de escola por causa disto.
Fomos para a recém inaugurada e também estadual Escola Chiquinha Soares -- a quarta série era um grupo diversificado de alunos transferidos das outras escolas.
Alunos novatos como eu e alunos repetentes, já entrando na adolescência, ou até mesmo já adolescentes.
Em a antiga escola, ainda no Coronel Praxedes, sempre às quartas-feiras, tínhamos um evento importante:
as aulas de música com o Professor Magela, que vinha cantar com nós os hinos pátrios e, vez por outra, ensaiar alguma música sacra para alguma celebração, como o Dia das Mães.
Em a nova escola, sequer tínhamos aulas de música.
Sentia-me triste e saudosa, apesar da professora, Margarida Cardoso Eleutério, ser bem mais jovem e minha prima de 1º grau.
Minha irmã e eu ficamos na mesma sala pela primeira vez.
A sala era muito estreita e apertada, quase um corredor.
E eu me lembrando sala do Coronel Praxedes, muito ampla e ventilada e no primeiro andar do prédio.
Meio caçulinha da turma, eu era bastante paparicada, mas minha tristeza por ter deixado minha professora e meus colegas para trás nunca foi embora.
A lembrança que tenho bastante nítida, deste final de curso primário, é que minha professora precisou faltar durante uma semana e foi substituída por Dona Luzia, a professora eventual.
Mais velha e muito séria, nunca a vimos sorrir.
Um dia, ela deu alguns problemas de matemática para resolvermos individualmente.
Não podíamos conversar com os colegas.
Como terminei rapidamente e comecei a fazer o que mais gostava em situações como esta -- uma atividade, que se tornou quase profissional e fonte de renda para a família em minha adolescência -- desenhar.
Quando a professora passou por mim, começou com a maior bronca e foi para a frente falando alto pra todo mundo ouvir.
Não me lembro direito, mas acho que até mostrou os desenhos para os meus colegas.
Ela foi andando lá para a frente com o meu caderno na mão.
Só depois que ela falou bastante descobriu que eu tinha feito tudo e certo.
Calou-se e foi olhar outros cadernos e devolveu o meu.
Durante todo curso primário eu fui uma aluna bastante tímida e nunca ou quase nunca brincava no recreio.
Gostava de bater papo com os colegas que também não gostavam de brincar, correr ou jogar.
Não fui uma aluna muito participativa durante as aulas, por o mesmo motivo.
Mesmo quando sabia a resposta para dar a professora, eu não o fazia, a não ser que ela perguntasse diretamente a mim.
De os 12 aos 14 anos, estudei num colégio interno da Congregação das Filhas de Nossa Senhora do Sagrado Coração, em Divinópolis, Minas Gerais.
Em este período, as freiras queriam me levar para o convento e foram muito atenciosas e extremamente carinhosas com mim.
Inclusive, foi a Madre Paulina, a superiora da casa, quem me comprou o primeiro soutien.
No entanto, eu já tinha meu namoradinho e elas nem desconfiavam.
Foi um período curto, mas muito importante para mim.
Em esta fase, comecei a superar a timidez, brincava e jogava no time de queimada.
Em o internato, líamos muitos livros sobre a vida de santos.
Santa Maria Goretti foi a mais explorada por as freiras, que queriam dar aulas de Educação Sexual, mas não sabiam como abordar o assunto.
Partiram desta triste figura para nos alertar a respeito dos perigos e sobre como devíamos nos cuidar, nos vestir para não provocar os homens, «que só querem aproveitar das mulheres».
O que mais me encantou, neste período -- eu não conhecia ainda -- foram os gibis do Pato Donald, Tio Patinhas, Mickey, Pateta, Metralhas e Zé Carioca e foi o que mais li nesta época.
A Turma da Mônica ainda não existia.
Duas colegas -- Víviam e Líliam -- duas irmãzinhas que eram de Belo Horizonte e tinham um monte destas revistinhas sempre as emprestavam para mim.
Boas coleguinhas, como gostaria de reencontrá-las!
Um outro fato muito marcante, neste período, foi o Golpe Militar de 1964, que eclodiu no final do recesso da Semana Santa, dando início a uma fase negra, muito conhecida de nossa história recente e a uma das ditaduras que caracterizaram esse período vergonhoso para toda a América Latina.
Meus pais, por serem mal informados ou ingênuos mandaram-nos -- a mim e a minha irmã -- para o colégio e as freiras nos botaram de volta no primeiro ônibus.
Não se sabia o que poderia acontecer e o estado de sítio havia sido decretado.
Os internatos já não estavam sendo bem vistos e estavam sendo fechados, como ocorreu em nossa escola.
Voltei para minha terra e fui estudar no Colégio Militar.
O que marcou o período foi meu primeiro contato com a Língua Inglesa e a lembrança de algum episódio importante no conflito entre Israel e vizinhanças, mais ou menos na época da Guerra dos Seis Dias.
Como queríamos compreender melhor o que era aquela guerra, pedimos algumas explicações ao nosso professor de OSPB -- Organização Social e Política Brasileira (a disciplina incluída no currículo por os militares como instrumento de doutrinação, mas felizmente alguns professores conseguiam fazer um trabalho bem interessante e muito filosófico).
Padre Vicente Rodrigues, nosso professor, mostrou-nos no mapa onde ficavam os países envolvidos e o porquê dos conflitos, aproveitando a oportunidade para falar também da Guerra do Vietnã (1965-1975), mostrando também no mapa aquele pequeno país.
Engraçado, eu sequer me lembro quem era o nosso professor de história naquela época.
Já quase no final do curso ginasial -- nomenclatura da época -- fiquei algum um tempo em Belo Horizonte, tentando trabalhar e estudar.
Fui aluna do Colégio Municipal do Bairro Salgado Filho.
No entanto, voltei para Bom Despacho porque minha mãe ficava preocupada e sempre pedia que eu voltasse.
Conclui a quarta série do ginásio no Colégio Estadual Industrial de Bom Despacho, que era dirigido por o escritor e jornalista -- o Professor Jacinto Guerra.
Em o ano seguinte, fui para o Colégio Estadual Miguel Gontijo, o mais tradicional da cidade, onde fiz o 1º ano do Ensino Médio -- Curso Normal ou Magistério.
Eu estudava na turma «mais adiantada» e a minha irmã na outra -- segundo os critérios adotados naquela época.
Gardner iria ficar arrepiado se lesse isto aqui.
Os fatos mais marcantes:
Padre Vicente, novamente dando aulas de OSPB.
Agora ele dava aulas de pura filosofia e espiritualidade, nos apresentando Tomaz de Aquino, Santo Agostinho, de entre outros.
Rosa Gontijo Azevedo, a professora de Didática, era também uma prima e excelente professora, que adorava alfabetizar e treinar alfabetizadoras.
Foi ela que nos falou pela primeira vez de Florestan Fernandes e outras brilhantes cabeças da educação brasileira.
Porém, acabei retornando para Belo Horizonte porque eu precisava trabalhar para, pelo menos me manter.
Fui para o Instituto de Educação de Minas Gerais, onde concluí esta fase -- o Curso do Magistério.
Trabalhava durante o dia, como caixa do mais antigo supermercado de Beagá e que hoje nem existe mais.
E, portanto, estudava à noite.
Em esse período, no inicio dos anos 70, a derrocada das escolas públicas já havia começado em conseqüência das políticas educacionais adotadas por os militares e nem o curso nem os professores corresponderam às minhas expectativas.
Mas, tenho boas lembranças de D. Terezinha Vasques, de Didática, e o professor Luís, de música, que era muito exigente, mas excelente professor.
Concluí o magistério em 1972 -- quando fiquei noiva.
Só voltei a estudar bem mais tarde.
Já casada, com uma filha de quatro anos e esperando o segundo filho.
Participei da seleção para a primeira turma do Curso de Estudos Adicionais para complementação do Magistério, com especialização em Educação Artística.
Para minha surpresa, passei em primeiro lugar.
Até que o curso começasse, eu já estava no sétimo mês de gravidez.
Teve o recesso de final de ano, dei a luz no dia quatorze de dezembro e acabei não retornando no início do novo ano.
Dois anos, em 1981, fiz a prova de seleção novamente e retornei em outra turma.
Desta vez, concluí o curso, do qual gostei muito.
D. Letícia, professora de Música e a professora de artes plásticas são as que meu coração escolheu para prestar uma homenagem nestas minhas lembranças.
Ano de 2007 -- já avó e a minha vida de estudante ainda não terminou.
Devo concluir Curso de Letras na UnB -- Universidade de Brasília no meio do próximo ano.
As lembranças já são muitas, cheias de peripécias e mudanças.
E, claro, serão narradas no momento oportuno.
Afinal, recontar a nossa história com amor é sempre iluminá-la.
Número de frases: 133
Itiquira mexe com minhas recordações de um tempo que vai longe.
Era ainda um garoto que vivia perambulando por as ruas de Guiratinga fuçando coisas:
«Menino, você tá inventando moda», como diziam na minha orelha, as mais velhas tias e tios.
Queriam dizer pura e simplesmente:
você está arrumando encrenca.
Um desses companheiros de encrenca da infância -- a gente nunca estava só nas travessuras, alguém tinha que ver, tinha que estar de prova de que aquela traquinagem realmente acontecera, a prova dos nove -- era o Silas.
Magrelo, alto, moreno de traços finos, Silas era o maior da turma, o que lhe dava um certo poder, é claro, mas além disso, ele era um cara que nos convencia a todos, portava um tal de bom senso que a maioria dos guris sequer imaginava existir:
as tias e tios diziam também, quase que de forma definitiva, que guri tinha «espírito de porco».
Mas o Silas era um guri do bem, respeitável, bom de bola, inteligente, dócil, preparado para nos proteger.
Um bando de pequenos animais afoitos, assim era nossa turma.
Silas era de Itiquira, ele falava bastante de lá.
Ficávamos imaginando a currutela de onde viera nosso herói.
Falava do rio que cortava a cidade, de como era bom nadar naquelas águas, as cachoeiras, os caminhos que serpenteavam cerrado adentro, cortando léguas e léguas de mata.
O futebol também despertava paixões na gurizada.
Todo jogo entre Guiratinga e qualquer uma das cidades vizinhas lotava o estádio municipal (na realidade um campo murado, campo de areia, mas era bem legal, os jogos eram emocionantes) e Itiquira era uma dessas grandes rivalidades.
O respeito não era obra do acaso, Guiratinga detinha um certo poder na região, sempre teve bons times.
As disputas eram muito boas.
Todas essas situações voltaram à minha cabeça ao entrar na cidade, exatamente às 18:30 h, num domingo em que a comunidade se deparou com o caminhão / sessão de cinema na praça circundada de bares, lanchonetes e pizzarias, via circuito Revelando os Brasis:
caminhão de sonhos e possibilidades de se difundir a produção audiovisual nesse país -- é importante que essas vozes ressoem por os nossos interiores rebaixando a geografia a meras circunstancialidades históricas.
O resto é balela.
O que importa mesmo são essas imaginações que pipocam por todos os cantos e rincões dessa nação brasílis e que buscam expressar suas emoções e idéias.
Essa foi a primeira entrada, em minha vida, nessa cidade, que tanto ouvi falar, nesse lugar que chego a reconhecer na pele, na superfície dos ambientes.
Tudo respirando memória.
Tudo transpirando sensação.
Deja vú. Pessoas parecidas, superficialmente, todas de uma origem semelhante à minha, sinto como que raízes me depositando nos braços de um passado nem tão remoto.
Tempo semente.
Algo me impelia ao mesmo tempo que muitas coisas impediam minha ida a Itiquira.
Lembro que ia jogar com o time Dom Bosco, treinado por o meu falecido primo, Brancão, treinador grande e gordo bonachão, abro aqui um parêntesis:
toda a gurizada gostava de ele, ele comandava as viagens pra jogar no interior e era muito legal.
Dois, três dias fora de casa tornavam os finais de semana como verdadeiros sonhos de aventura e liberdade, a bola conquistava essa liberdade, nenhum pai impediria o filho de ir defender as cores de alguma camisa numa partida nas cidades circunzinhas, como Alto Garças, Alto Araguaia, São José do Povo, Itiquira, Rondonópolis (que era o máximo da rivalidade), Poxoréo, Vale Rico e várias outras currutelas.
Mas, na única oportunidade que eu teria de jogar como titular, era num jogo em Itiquira e imagine só:
adoeci: garganta inflamada, febre e impossibilidade de viajar.
Até hoje sonho com essa partida.
Frustração. Ficou um gosto de Itiquira na boca.
Revelando os Brasis me proporcionou isso:
me revelou a velha e (des) conhecida Itiquira.
Gabriela, produtora e agente cultural, Antônio, motorista, e Ricardo, no comando das exibições, formam esse time itinerante, todos se ajudando, os meninos conduzindo, montando e desmontando a bela estrutura onde passam os filmes.
É um time vencedor, levam sonhos na bagagem, levam a magia que o cinema constuma proporcionar e lá em Itiquira não foi diferente:
as pessoas grudando os olhos na telona, se emocionando, rindo, fazendo gozações, estranhando, dividindo os sentimentos numa perspectiva comum, compartilhando.
Muito linda e digna a imagem do caminhão passando na auto-estrada:
Revelando os Brasis!
Segundo Gabriela, Itiquira arrebentou a boca do balão e foi o maior público que ela presenciou em suas várias viagens.
Realmente, a praça estava tomada de gente.
Gente de todo tipo, crianças, velhos, jovens enamorados, jovens de tudo que é jeito.
Uns mais adequados ao lugar, outros mais contemporâneos, se vestindo e se comportando como se estivessem em qualquer metrópóle.
Com a tecnologia mediando tudo, muita gente está se conectando e isso está gerando comportamentos mais universais, mesmos cortes de cabelo, roupas, consumo cultural, as pessoas tendem a se parecerem mais e mais.
As reações do público tiveram momentos bastante cômicos, a exemplo da cena em que a personagem toma banho numa bacia totalmente nua, uma cena normal dentro de um ambiente rústico retratando a cidade de trinta anos atrás, mas que provocou comentários hilários e outros também, carregados de preconceitos.
O fato de trabalhar com atores locais cria uma certa intimidade com os personagens, fica difícil separar as coisas, e, como sempre, a nudez nunca é recebida com naturalidade.
A praça repleta de pessoas de todas as idades, crianças, adolescentes, adultos e velhos, recebeu o impacto daquela sequência como um choque que percorreu todo o ambiente gerando uma agitação nervosa, sob os olhos arregalados de um rapaz que estava ao meu lado:
Nossa, ela mora aqui?
Como é que nunca a vi?
Risos nervosos diante da telona, pensei com mim, diretor corajoso e atriz mais ainda.
Gostei da ousadia.
Como disse o Manoel, roteirista e diretor, «arte tem que mexer com as pessoas, arte é pra incomodar!».
Manoel escreveu o roteiro, uma ficção, «O Quadro», ambientando na realidade de Itiquira de 29 anos atrás, quando ainda não havia sinal de TV na cidade, quer dizer, existia um aparelho de televisão que ficava há mais ou menos 20 km da cidade no local onde instalaram uma antena para captar o sinal, numa pequena casa, onde as pessoas assistiam coletivamente.
Em o filme, uma garota sonha em se tornar estrela de cinema e se vê na TV servindo de modelo para um artista plástico, que é a cena de abertura do vídeo, criando uma atmosfera surreal, o filme dentro do filme, parte de um sonho que a garota interiorana cultiva.
Engraçada a semelhança da situação no momento em que o filme era mostrado, pois Itiquira não tem sala de cinema (tristes Brasis) e o projeto Revelando os Brasis trazia aquele mesmo espírito ao proporcionar uma exibição gratuita e aberta para a coletividade.
Muitos aplausos ao final, um reconhecimento ao trabalho pioneiro que o Manoel proporcionou para a cidade.
Sua realização realmente mexeu com a estima dos cidadãos de Itiquira.
Manoel fez a traquinagem de agora.
Provocador, esse neto de português, casado com uma portuguesa, Maria Clara, que morou em Nova Iorque e não resistindo aos apelos do amor veio para Itiquira traçar novas rotas em suas vidas.
Ele estava em São Paulo e juntos foram para Itiquira construir uma nova história, a despeito dos apelos do mundo contemporâneo.
Manoel é pioneiro em matéria de tecnologia na cidade, teve o primeiro aparelho de videocassete, primeira câmera VHS, foi o primeiro cara a conectar a internet, primeiro lap top, primeiro PC e por aí vai.
Ele acredita que vive uma missão.
Que tinha que voltar para o lugar e ocupar o legado que a avó deixou como herança de quem propiciou a formação da cidade.
Seus avós estavam entre as primeiras famílias que plantaram sonhos no lugar.
Fomos para Cuiabá.
Achei inadequado o local do evento na capital, lugar central, no Misc, Museu da Imagem e do Som de Cuiabá.
Estratégia equivocada.
Funcionaria melhor numa praça ou algum bairro periférico.
Em o Misc, só vai a galerinha cult, o que foge totalmente da linha do projeto.
Gabriela me revelou que nas capitais a coisa não está funcionando bem.
De Itiquira para Cuiabá, do maior público para a frustração de ver apenas meia dúzia de gatos pingados numa sessão que buscava nos revelar olhares distantes e quase invisíveis, com algumas pessoas abandonando o local antes do final.
Diferente demais.
Em Itiquira pudemos sentir o arrebatamento da galera.
É preciso interirorizar as ações da política pública de cultura.
Não tem erro.
É uma forma eficiente de Revelar esses Brasis tão esquecidos.
O público comparece e se agita todo ante os mágicos pixels que se transformam em imagens e movimento.
O Brasil não tem salas de cinema.
O cinema mexe com as pessoas.
Comentário de um senhor que, aparentemente, não entendeu nada:
Ué ... já acabou?
Não, meu amigo!
Não acabou.
Esse filme tem mais é que continuar traçando novas rotas nesse imenso território que é seu, meu e de tanta gente.
Número de frases: 86
O sobrenome carrega a força da música brasileira fora do País.
Há 20 anos -- quando do lançamento de Morbid Visions (1986) -- os irmãos Max e Igor Cavalera pontuavam o início da discografia oficial do Sepultura.
Um divisor de águas.
Mais do que Sérgio Mendes, a bossa nova, ou o hype recente do Cansei de Ser Sexy, nenhum grupo ou artista solo do Brasil conseguiu até hoje a expressão que a banda mineira conquistou internacionalmente.
Sem os fundadores, agora o Sepultura caminha feito um gigante trôpego.
Mantém o respeito e o assento na mídia, porém a história muda radicalmente.
Em 2006, foi a vez de Igor (bateria) deixar o grupo -- a exemplo do que fez o irmão, 10 anos antes.
Em 96, Max Cavalera (voz e guitarra) teve saída conturbada depois de 12 anos à frente da banda.
Passou a se comunicar com o irmão apenas por telefone.
Para assuntos de família.
Nada além disso.
Hoje, o Sepultura perdeu os dois alicerces.
Max e Igor Cavalera se reencontraram, após 10 anos sem se ver, no último mês de agosto, em Phoenix (Eua).
Ambos já desgarrados do grupo.
Tocaram juntos Roots Bloody Roots e Attitude, clássicos da primeira fase experimental do Sepultura, num evento beneficente promovido por Max.
Em a passagem de som, Igor mal conseguia segurar as baquetas de emoção.
Os irmãos não evitaram o choro por a ocasião.
E o reencontro marcou a projeção de uma retomada musical juntos.
Hoje, eles sinalizam projeto novo para 2007, sem ainda dizer o quê.
De a bateria, Igor buscou inovar e recomeça a partir de uma carreira como DJ.
Que iniciou despretensiosa.
João Gordo fez um convite para o baterista discotecar no D-Edge, boate rock da noite de São Paulo.
A brincadeira virou compromisso sério e agora Iggor -- com um «G» a mais no nome artístico -- roda o País ao lado da mulher Laima Leyton.
Os dois programam juntos as bases que levam às pistas de música eletrônica.
Precoce, nascido em Belo Horizonte (MG), com apenas 16 anos Igor Cavalera gravou e lançou o primeiro disco do Sepultura.
Seu estilo, autodidata, pesado, visceral e criativo, só evoluiu notoriamente.
Cavalera é responsável por difundir uma «escola» técnica de bateria a partir de elementos tribais no rock.
A experiência é clara quando se ouve Chaos A.D (1993) e Roots (1996), os dois últimos álbuns do Sepultura ainda com Max.
Além dos 20 anos de Sepultura, Igor já tocou com Nailbomb, Strife e até com o Massacration -- banda de metal escrachado cujos integrantes são apresentadores da MTV.
É considerado um dos melhores do mundo com as baquetas às mãos.
Em o último mês de outubro de 2006, Igor esteve no Ceará Music, em Fortaleza.
Em pouco mais de meia hora de entrevista, ele foi sucinto.
Fãs no hall do Marina Park Hotel, a estafa de uma noite de discotecagem na madrugada anterior -- sob as olheiras de sono que os óculos escuros escondiam -- hora do almoço e vôo marcado de volta para São Paulo às 15h30.
Tudo «contra».
Igor Cavalera foi até paciente:
contou com gosto das primeiras aptidões em vida, os primeiros passos do Sepultura e, sobretudo, da nova experiência como DJ.
Um pouco de cada.
Pequeno, você já tocava tambor em partida de futebol.
Como foi isso?
Igor Cavalera -- Foi com seis, sete anos, que eu comecei a perceber que curtia mais bateria do que o resto das coisas.
Comecei com o lance de brincar com meus amigos, meus primos.
Ficar tocando.
O Max acompanhava?
Cavalera -- Também, também ...
Mas não tinha uma veia tão forte que nem eu.
Ele curtia, mas não era pirado.
Compramo umas peças (de percussão) e ficava brincando.
Levava para o jogo de futebol.
Meu pai era fanático e levava a gente para todos os jogos do Palmeiras (SP).
A gente ficava batucando lá.
Depois de um tempo fazendo isso, comecei a tocar mais bateria do que o lado mais percussivo mesmo.
E a gente começou a falar com meu pai, com minha mãe, para eu entrar em aulas de bateria numa escola em São Paulo.
Mas não gostei da aula.
Era muita teoria.
Não tinha muita prática.
Com sete, oito anos, é uma coisa errada você ensinar para uma criança esse lado teórico.
A criança, primeiro, tem que extravasar.
E tocar mesmo, meu.
Mesmo que toque tudo errado, tudo zoado.
Você tá sentindo a bateria.
Por esse lado, a experiência de ter aula foi meio negativa.
Por o fato de eu não curtir nada daquilo e nunca mais me interessar em tomar aula de bateria.
Mas foi positivo, porque pensei:
«vou ter que aprender, porque se eu for lá (na escola) não adianta porra nenhuma.
Eu mesmo vou me ensinar a tocar bateria».
Hoje, eu não colocaria meu filho na aula, se ele começasse a tocar bateria.
A não ser que ele quisesse estudar.
Você e Max quando crianças já eram bem unidos.
A morte do seu pai logo cedo contribuiu pra isso?
Cavalera -- Já era, meu.
Uma coisa meio de berço.
Perdi ele (o pai) com oito anos.
Unificou, mas ao mesmo tempo já era.
É um ano só de diferença (de idade, entre Igor e o irmão).
Fazíamos tudo juntos.
Desde curtir as mesmas coisas.
Os mesmos esportes, mesmos sons, tudo.
Então não foi isso que uniu geral, mas ajudou.
A idéia de formar banda vocês tiveram quando um primo levou vocês para um show do Queen, em São Paulo (1981).
A idéia era entrar num esquema grande como aquele que estavam vendo?
Cavalera -- Não, porque não existia, tá ligado?
Hoje em dia, acho que a molecada tem essa vantagem de poder estruturar a banda um pouco melhor.
Mesmo sem ter estrutura gigante, mas conseguindo várias coisas.
Em aquela época, não.
A gente queria tocar.
Não tinha uma visão de «vamo fazer uma banda para ser grande».
Tinha um sonho que qualquer moleque tem quando tá no quarto fechado.
De ser como o ídolo.
De tá ouvindo um som e falar «puta, queria tá num palco, tocando com essa banda».
Além disso, não.
Mesmo porque o mercado não dava abertura para isso.
Ter uma banda era uma coisa totalmente obscura.
Como eram os primeiros shows do Sepultura?
Cavalera -- Ah, era meio difícil.
Porque ninguém nem entendia.
Eram poucas pessoas que entendiam o que a gente tava fazendo.
Não tinha um movimento de metal forte.
Era uma coisa super underground.
Que poucos moleques conheciam.
E era isso:
a gente xerocava uns cartazes, uns flyers.
Espalhava com os amigos mesmo.
Não espalhava em lugares onde as pessoas não iam nem entender o que a gente tava falando.
Em umas lojas também ...
Isso em Belo Horizonte ...
Cavalera -- É.
O mais estranho é que, se o Sepultura tinha dois fãs, os dois eram fanáticos.
Não era aquela coisa de só dizer «ah, legal».
Então para a gente já tava bom.
A gente morava em Santa Tereza (bairro da zona sul de Belo Horizonte), e sempre se encontrava ali no Centro, perto da loja Cogumelo.
Com uns «mano metal».
E ficava lá curtindo.
Essa loja era um dos pontos em que a galera se encontrava para trocar idéia sobre música.
Mas não tinha um lugar de show.
Era o que pintava:
a gente conseguia alugar um lugar pequeno, se abria um festival de uma escola aceitando banda de fora a gente entrava também.
Logo na primeira turnê do Sepultura, com o Sodan (Alemanha), vocês já encontraram uma galera com a camisa da banda.
Vocês começaram a perceber que o Sepultura estava chamando atenção lá fora por a procedência ou que as pessoas respondiam bem, independente do lugar que vocês vinham?
Cavalera -- Antes disso, já tava bem forte.
O Sodan (banda principal da turnê) só veio a comprovar isso.
Um mês de shows e todos lotados com neguinho pirando.
Isso para a gente era um absurdo.
A gente tocava aqui no Brasil tipo duas vezes no mês.
Dois fins de semana.
Então, fazer uma turnê daquela dimensão foi um susto.
Tocando em tudo que era lugar e tudo lotado.
Foi a primeira vez que a gente pisou fora do Brasil pra tocar.
Não esperava, foi uma surpresa gigante.
A gente lia, na história, que a banda de abertura só se fode, ninguém conhece, nêgo joga tomate.
Então tínhamos a visão de que ainda não ia ser do caralho.
O Sodan já tinha tocado com várias bandas e nós éramos só mais uma que ia tocar ali, fazer um showzinho e nada ia acontecer.
E os caras foram engolidos numa turnê que era de eles.
Por uma banda super desconhecida.
Mas que já tinha os fãs muito fanáticos.
Isso assustou.
Qual foi a bronca mais difícil de segurar quando Max saiu do Sepultura?
Cavalera -- Foi uma coisa natural que aconteceu.
De se desentender mesmo, achar que um não tava certo e cada um seguiu seu caminho.
Não tinha uma bronca em si.
Mas não adiantava forçar uma situação.
Não tinha porque continuar.
Tinha alguns shows que eu já ia cancelar de qualquer jeito, porque minha filha tinha nascido.
Havia uns shows na Austrália e a gente ia chamar outro batera.
Eu ia ficar em casa.
Mas não rolou isso.
A gente cancelou todo o resto da turnê e foi para a casa esfriar a cabeça.
Hoje muita gente tem considerado o Dante XX (2006) como o melhor disco do Sepultura com o Derrick (Green, atual vocalista).
E você saiu da banda nesse momento.
Discorda dessa avaliação?
Cavalera -- Não consigo, nem antes com o Max, pensar «ah, esse disco é o melhor».
Consigo pegar várias músicas em cada disco e fazer uma compilação.
Não consigo ver que um disco só seja melhor que os outros.
Quando se afastou da turnê em 2005 já tinha decidido sair da banda?
Cavalera -- Não, eu tava querendo dar um tempo.
A decisão de sair veio justamente com o lance de calhar de eles não quererem dar esse tempo.
E eu precisar disso.
Puxar o freio de mão em tudo.
Mas já rolava essa história de DJ ...
Cavalera -- Era um lance mais de zoeira.
O (João) Gordo me chamou para tocar algumas vezes no D-Edge (boate), em São Paulo.
Faço scratches.
Toco com MPC também, que é um sampler, uma bateria eletrônica que fico fazendo uns beats em cima do disco.
O lado mais legal de discotecar é o que estou com fazendo com a Laima (Leyton), minha mulher.
A gente produz várias bases juntos.
Discoteca junto também.
É um tempo que para mim está sendo super válido.
De passar com ela, de viajar junto.
E fazer também uma coisa que eu curto, tanto quanto tocar bateria.
E seus filhos ficam com quem?
Cavalera -- Normalmente quem segura a onda é minha mãe e a mãe da Laima.
Faz bate-e-volta.
Adoraria vir pra cá e ficar pelo menos uns três dias de festival curtindo.
Mas a gente chegou ontem à tarde e tá indo embora daqui a pouco.
É esquisito ser apresentado como DJ agora?
Cavalera -- Em o começo era mais de zoeira, mas hoje em dia a gente consegue ter um pouco mais de seriedade nisso.
Encarar isso como uma coisa que, para mim, é super respeitável.
Vejo que não é só tocar os discos -- não só discotecando, mas tem os lances de fazer as mixagens.
Trato a pick-up como se fosse outro instrumento.
E acho 10 mil vezes mais difícil do que tocar bateria.
De arranjar as músicas, colocar no tempo.
É um desafio muito maior.
E mais prazeroso por isso também.
Depois de 20 anos eu procurei alguma coisa que me desafiasse.
E de certa forma você tem conseguido algum espaço como DJ ...
Cavalera -- É legal.
Lógico que tem todo o lado do nome, de ter feito o que eu fiz.
Mas o lance é do caralho porque você aqui (no Ceará Music), por exemplo, toca com DJ ´ s como o Patife, o Snoopy, DJ ´ s de fora.
Tem um pouco do lado do nome (Igor Cavalera), mas também o de mostrar o que a gente acha «novo» de música, hoje.
Então, é super válido chegar até aqui, encarar horas de vôo para fazer isso.
Algo dessa experiência como DJ vai ser aproveitado no projeto em que você está maturando com Max para 2007?
Cavalera -- Não tem nada certo.
Como falei antes, estou curtindo muito mais esse momento.
Pode ser que para mim no futuro, como músico, isso possa acrescentar.
O nosso estudo é bem vasto.
A gente está aprendendo a fazer várias coisas, de mexer mesmo com a música, de importar beats, fazer outras coisas.
Acho que isso já é super válido em qualquer experiência que eu tiver como músico adiante.
Por enquanto, essa história de DJ tem dado muito mais trabalho do que a gente imaginava.
Toma bastante tempo.
Tô sem previsão de fazer nada, além disso.
Lógico que pinta alguns projetos, convites de amigo, mas nada mais sério.
Para mim, o mais sério, hoje, é estar tocando com a Laima.
Você e Max passaram 10 anos afastados musicalmente.
Mas ainda tinham contato enquanto irmãos.
Como tem sido essa retomada musical?
Cavalera -- Só fui lá (em Phoenix, nos Estados Unidos) para cruzar com ele como irmão, calhou da gente tocar junto e o lance mais importante foi isso.
Se encontrar.
Independente da música, de bandas.
Minha mãe (Vânia Cavalera), hoje em dia, está curtindo muito mais a família, os netos.
Ela tá com bastante netos, então a gente vê isso na cara de ela.
Com todos os filhos juntos, esse lance do Sepultura vem bem depois da família.
O lance da marca de roupa (Cavalera), como anda?
Cavalera -- Fui um dos sócios por um tempo, depois vendi a minha parte.
E hoje em dia eu e a Laima desenhamos algumas peças para coleções da Cavalera.
É um lance legal pra caramba também.
Sempre gostei de estar envolvido com marca de roupa.
Então estou aproveitando o lado mais prazeroso da marca, de contribuir com desenhos, do que o (lado) de ser sócio.
Há 10 anos, você dizia que o fato de ser considerado «um dos melhores bateristas do mundo» dependia muito da evidência do nome do Sepultura.
E hoje?
Cavalera -- Acho que continua a mesma coisa.
Em as votações, principalmente nas revistas especializadas.
Mas não me vejo como o melhor baterista.
Lógico que tem algumas coisas que fazem você se sobressair sobre o resto.
Mas, normalmente, o baterista que está com uma banda em evidência, a galera já vota na banda inteira:
no vocalista, no guitarrista também.
Então, não levo tão a sério esse lance da votação.
É lógico que tem todo um outro lado da molecada que já toca e consegue entender a diferença entre bateristas.
Acho que, para quem é músico, em geral, vai mais por o feeling da banda de quem acha melhor.
Mas não tem como não curtir ser referência para quem está começando.
O fato de eu vir ao Ceará discotecar.
Já tinha vindo aqui para tocar com o Sepultura.
Número de frases: 230
Tudo isso é super importante.
As pessoas parecem atribuir o sucesso da cultura Hip Hop entre as massas devido ao fato assumido que Hip Hop é cultura negra.
É um engano, mas que eu posso entender, por o fato de que a maioria das pessoas envolvidas com o Hip Hop são negras.
Entretanto, quando você assiste a televisão, você não vê muito Hip Hop, ou até mesmo rap.
Só a MTV passa vídeos de rap, (mas não significa que os artistas são do real Hip Hop).
Assim, quando o telespectador casual caminha ao longo da «seção de Rap / R & B/Hip-Hop» do canal, o que aparecem são faces negras.
Então, é natural para o telespectador casual pensar que Hip Hop é cultura negra.
Eu estou aqui hoje para desafiar este mito.
E isso é justamente o que é:
um falso mito.
Seguramente, a maioria dos emcees expostos são afro-americano, mas e sobre o DJs?
E sobre os escritores de graffiti?
E sobre os b-boys e b-girls?
E sobre todas as pessoas que respeitam a cultura e seguem isto e amam isto?
E sobre as pessoas que contribuem para revistas de Hip Hop e zines?
Se pudéssemos contar todas essas pessoas, poderíamos ver facilmente que esse Hip Hop não é nenhuma cultura negra.
Não partiu como cultura de negro, ou, porque Hip Hop sempre foi sua própria cultura.
Me deixe dizer isso novamente, por via da dúvida se você não pegou isso:
Hip Hop sempre foi sua própria cultura.
Nem todos os pais e padrinhos do Hip Hop eram afro-americanos.
Os breakers originais eram negros e na maioria hispanicos.
O primeiro escritor de graffiti, Taki, era grego.
Falando de graff, «Visto» não é preto.
Eu poderia ir sem parar, mas seria bastante longo e chato, assim eu pararei um pouco por aqui com meu ponto que o Hip Hop é composto de raças diferentes, grupos étnicos diferentes, estilos diferentes, e culturas diferentes.
Hip Hop ainda é composto de todas estas coisas, como também grupos de idade diferentes, nacionalidades diferentes, e diretamente com pessoas diferentes.
Assim, você pode ver por que as pessoas no Hip Hop não estão agindo na cultura negra?
Você pode ver por que as pessoas precisam saber a verdade, que o mito da Cultura afro-americana é diferente de Hip Hop, embora os dois têm uma relação.
Cultura asiático-americana é diferente de Hip Hop, embora os dois têm uma relação.
Cultura hispânico-americana ...
etc.. Você sabe o que eu estou tentando dizer.
Hip Hop é sua própria cultura.
Número de frases: 31
por Daniel Tocha para o site www.consubter.rg3.net/ 2004 E aí, catitas!
Como vocês estão?
Dormiram direitinho?
Sonharam com o Alemão do Big Brother?
Acordaram amorosas já pensando naquele escovão no cabelo para fisgar o patrão?
Maravilha!
Bem ...
tomei uma chamada da Leila Santos num comentário sobre o meu " Corre, Porra!
Corre, Filho da Puta!»!
Tipo ...
ótimo receber uma crítica do tipo «Cara, esse seu comentário é uma bosta!»!
Bacana! Tchan e tal!
Mas não por eu gostar de tomar uma esculachada não.
que isso!
Sadô Masô eu deixo para galera que gosta do couro apertado, do cinto solto e da máscara de veludo!
Mas é bom estar ciente que, UHUL!,
há gostos diferentes espalhados por aí, né, minha chapa?
Imaginem se não existissem os maconheiros-" Pô, bicho!"
devagares para ouvir o som do Bob Marley (único reggae que eu curto!)
na praiana de gala, com aquele rolinho primavera de THC, deixando aquela marolinha no mar e fora de ele ...?
Imaginem se não existissem os metaleiros de calças apertadas!
Com colares parecidos com corrente de bicicleta!?!
Cabeludos até os 37 anos!
Ou aqueles grunges de 35 anos!!!!!!!!
Que isssssso, mermão!
Tu já viu um grunge de 35 anos?
É demais!
Pra você ser um grunge de 35 anos tem que ter começado a ouvir Nirvana já depois dos 20!!!
Porra! Polly wants a craker vestindo uma camisa de flanela xadrez e tênis All-Star!
COM 20 anos de idade!?
Demais!
O Playboy!
O Playboy é aquele cara que gosta das roupas de marcas usadas por a galera do surf ...
«Aí brou!
Altas ondas ontem do Kelly Slater ...
viu o cara finalizando aquele backside?
Mermão ... realmente o cara é o rei!"
Patrocinado por a Quiksilver, bonitão, sarado ...
«Pega quem ele quiser!"
Já pegou até a Gisele o matuto!
O playsson é odiado por aí!
Totalmente estereotipados como vagabundos, filhinhos-de-papai, que jorram dinheiro nas nights e pegam vocês gatinhas só para comer!
Mas que desgraçados!
Agora eu gostaria de ir de encontro ...
aos Cults!
Ah! Raça ruim!
Sinceramente, eu curto os roqueiros!
Curto os playboys!
«Mas porque, seu mala?"
Porque eles são sinceros!
O playboy vagabundo não gosta de fazer nada!
Mas até aí relax ...
se eu tivesse uma grana forte no banco talvez eu tivesse encostado.
Amor, você prefere ir a praia e ficar naquele bronze norótico ou prefere ficar com aquela cor de burrA quando foge?
Marquinha de bikini na cintura ou marquinha de artéria na panturrilha?
Claro, podem argumentar «saúde» ou «câncer», mas quem pensa nisso até os 25 anos?
Ah. que eu conheça ...
só filho de médico!
O roqueiro é viciado em rock ' n roll e pronto!
Eu sou viciado em música e sei o que é você gostar muito da parada ...
e talvez levar seu gosto um pouco mais além!
São sinceros!
Mas os cults são dose de aturar!
Sabe por quê? Por que [A Maioria, não todos, para eu não tomar outra chinelada!] [
d] eles têm que ser do contra sempre!
Acho que o fake-cult quer sempre menosprezar o mainstream!
Eu entendo bem o que é querer ser «autêntico», mas uma coisa é você só achar que uma coisa é boa se for underground!
«Backstreet boys (BSB) é um lixo!"
Opa, opa!
Já cantei em coral gospel sendo ateu ...
«Você cheio dos palavrões em coral gospel?"
O diretor do coral me perguntou qual era meu «elo com Deus» quando eu fiz audição e eu disse «Nenhum. Vim aqui pra cantar ... posso?».
Os caras do BSB cantam que nem sabiá do sertão, linda!
É só você ouvir os caras lançando um a capella cheio de elegância, cheio de acordes, frequências ressonantes ...
arrepia o mais frio dos seres humanos!
Podem dizer que as músicas são chatas, mas «um lixo» ...
é o cara que canta funk do morro desafinadamente!
Mas ele executa bem o trabalho dele.. botar as mulherada para fazer o que há de melhor.. rebolar!
Quem não gosta?
fake-Cult gosta de «Cidade dos Sonhos do David Lynch».
Eu, confesso!,
não entendi Nada do filme!
fake-Cult gosta de comentar sobre coisas em determinados lugares que ele tem certeza que Ninguém saberá o que é, mas se perguntado sobre «a força do sol na Indonésia em Dezembro» ou «as ondas nas diferentes estações do ano» ele acha que é coisa de vagabundo!
fake-Cult não respeita o fato de existirem pessoas que gostam de simplesmente vestirem o que todo mundo veste!
«Não tem personalidade» ...
nem sempre!
Tem muita coisa foda aí que é tão bacana, mas tão maneira ...
que todo mundo quer usar, ouvir, vestir, ser, estar ...
cada um na sua, né?!
Minha ignorância reside em entender porque há tantas farpas, tantas briguinhas, desavenças, e opiniões, como a minha de hoje!
haha Por aí!
Eu gostaria de expressar meu ponto de vista com relação ao seguinte fato ...
Eu acredito que as pessoas mais alternativas são muito mais preconceituosas do que as pessoas mais, digamos, normais, ordinárias ...
E finalizaria dando uma de Ghandi, o magrinho cabeçudinho:
Se todos nós achássemos os outros ridículos, mas não disséssemos que eles estão errados por «serem ridículos», a gente tava é muito solto por aí!
hahaha O texto ficou tão grande que eu não sei se perdi o fio da meada ou se eu nunca de fato o achei!
Número de frases: 96
Beijo na bunda!
Gostaria de chamar a atenção dos habitantes do Overmundo sobre um livro lançado em São Paulo e que, na próxima semana, será lançado em Brasília por a Editora Cultura, dirigida por a jornalista Mirian Paglia.
Refiro-ma Duas Vozes, escrito por Yara Gouvêa e Danielle Birck, que fala sobre o exílio e a militância política nos anos de chumbo.
Convidado para ler e comentar o livro, confesso que me identifiquei e me comovi com o testemunho dessas duas amigas que atravessaram um período dramático da história do Brasil e do mundo e sobreviveram para nos lembrar -- nessa época de tanto individualismo, cinismo e desilusão política -- de um tempo em que se acreditava na possibilidade de se fazer História e sacudir o mundo com idéias e sonhos.
O livro vale ser lido por revelar verdades sabidas sobre a História recente do país e outras não tão conhecidas sobre os bastidores da resistência, além dos conflitos e contradições experimentados por uma geração de jovens que ousou enfrentar a ditadura e dizer, alto e bom som:
não passarão!
Mesmo à custa de sacrificarem parte de sua juventude e, muitas vezes, a própria vida.
As contradições no interior das organizações de esquerda, os dramas e inseguranças que muitos não conheciam são revelados por Duas Vozes femininas, duas mulheres que ousaram resistir e denunciar as atrocidades do regime, quando o mais sensato, do ponto de vista da própria sobrevivência, seria aceitar, calar.
E que por isso pagaram um alto preço:
o exílio.
Adriana, Eunice, Roman, Raimundo, Antônio, Daniel, Japa, Bacuri, Bicho, Padre Jean são alguns dos personagens que se entrecruzam no caminho das autoras e, de uma forma ou de outra, teceram uma história de luta e resistência.
Um grupo de jovens que acreditava na possibilidade de mudar o mundo, mudar o comportamento, mudar a si mesmo, tudo ao mesmo tempo.
E que mesmo no exílio não abriram mão de seus sonhos, de seus ideiais.
Ainda que não tenha sido fácil.
Afinal, o exílio é uma experiência que, não raro, conflitase com valores, crenças e identidades pessoais, obrigando os que o vivem a uma redefinição existencial, a uma reconstrução de seus próprios valores e identidades como forma de sobreviverem lúcidos em meio ao caos, à desorientação, ao medo, à angústia, ao vazio e à possibilidade da loucura e da morte, mesmo que simbólica, no estrangeiro.
É sobre esssa experiência ao mesmo tempo intensa, sofrida e fascinante que este livro trata.
Duas Vozes deve ser leitura obrigatória não só por o exemplo de luta e resistência, mas por a memória de um tempo que não pode ser esquecido por quem hoje vive com liberdade e democracia no Brasil.
A o fim e ao cabo, vale lembrar o poema A os que vierem depois de nós, de Bertolt Brecht, poeta e dramaturgo alemão, que termina com um apelo que bem podeia ser estendido aos que lerem este livro, especialmente os jovens:
( ...) Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.
Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados, quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz.
Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.
As autoras
Yara Gouvêa, brasileira, codinome Sônia, foi importante quadro no exílio, representando as organizações da resistência à ditadura diante dos organismos internacionais a partir de Genebra e, depois, em Argel, encarregada da publicação do boletim da Frente Brasileira de Informação (cuja sigla, repleta de ironia, é FBI), criada para denunciar prisões, tortura e mortes aos organismos de direitos humanos.
Formada em Letras e com pós-gradua ção na Sorbonne (Universidade de Paris), dedicou vários anos de sua vida profissional ao ensino universitário (Argélia e Marrocos) e ao ensino fundamental, criando uma escola bilíngüe na qual introduziu experiências pedagógicas inovadoras.
Trabalhou na Embaixada do Brasil em Marrocos.
Colabora com a Fundação João Mangabeira do Partido Socialista Brasileiro (PSB) na organização de seus seminários de capacitação.
Danielle Birck, francesa, codinome Cécile (foi também Rachel na Argélia, quando da chegada dos 70 brasileiros banidos lá), é jornalista na Rádio França Internacional.
Formou-se em filosofia e em português, tendo lecionado alguns anos antes de se tornar jornalista na Rádio França Internacional.
Traduziu para o francês Carnaval, malandros e heróis, do antropólogo brasileiro Roberto DaMatta, e colaborou em várias obras publicadas em Portugal.
Seu testemunho, neste livro, fortalece os laços que a ligam ao Brasil.
O livro já está à venda.
Mas quem mora em Brasília e quiser conhecer as autoras, elas vieram de Paris especialmente para lançamento de Duas Vozes (176 páginas, com caderno de fotos) que será lançado no dia 15/04/2007, na Livraria Cultura do Shopping Casa Park, em Brasília.
Vale a pena conferir.
Trecho do Livro:
«Quando Roman reaparece, fala dos horrores que lhe contaram os outros companheiros.
A acreditar que a maioria tinha enlouquecido.
Santiago, naquele momento, abriga a quase totalidade dos exilados brasileiros.
Inclusive muitos dos que haviam chegado a Argel lá estão, vivendo a experiência socialista de Salvador Allende.
Roman pede para Sônia acompanhá-lo em visita a Darcy Ribeiro e Maria da Conceição Tavares, aos quais falam do movimento das mulheres.
Recebem em troca uma grande gargalhada da professora e economista.
A volta a Paris é feita por Roman e Sônia, sem Onofre.
Em as trinta longas horas de viagem, não trocam palavra alguma sobre a Organização, nem sobre política em geral.
Roman fica em Paris com Julieta;
Sônia volta para Argel, não antes de desabafar com Ada, a quem apresentaabertamente todas suas impressões.
Pela primeira vez, Sônia sente ruírem os alicerces da esperança.
As brincadeiras tinham ido longe demais.
Ela tem agora certeza absoluta do fim da utopia da guerrilha urbana, do foco, das pseudovanguardas.
Só que o ônus de suas ilusões é pesado, imensamente pesado.
O risco de voltar ao Brasil é grande demais, seu envolvimento foi longe demais.
No meio de tanta desesperança, ela ouve de Antônio a pergunta que nunca lhe deveria ser feita.
Ele quer saber se ela está disposta a matar sem sentir nenhum remorso.
«Matar quem?»,
pergunta uma Sônia atônita.
«Matar em nome do socialismo internacional.
Atacar o inimigo em sua casa.
Fazer atos terroristas», diz ele.
«Não, Antônio, não estou disposta», responde Sônia com poucas palavras e dolorosos pensamentos.
Número de frases: 75
Não tínhamos dado conta do recado em nosso país e queríamos dar lições ao mundo, matando sem sentir remorso!"
goi áis cerrado bordado
vestido de cora coralina
as vezes me deixa encantado
outras vezes me alucina
me transforma em leopardo
nas garras da tua menina
piqui fruto do mato
olho de boi visgo de jaca
jaraguá jaquatirica
ceilândia olho de vaca
taguatinga em meu retrato
brasília em mim significa
sabor de carne mordida
lambida até o caroço
na boca da bia morena
que mora em meu poema
sem alarde
alvorada ou alvoroço
arturgomes http://jurassecretas.zip.net
Número de frases: 20
http://arturgumes.zip.net http://almadepoeta.com/fulinaima.htm
Dia começa cedo no beiradão.
Baixando de barco, rabeta ou voadeira todo mundo vem.
A Reserva Extrativista do Lago do Cuniã, no meio da Amazônia, é o palco do Festejo de São Sebastião.
O lago, que dá nome à reserva é imenso, habitat de pirarucus gigantes e jacarés, muitos jacarés.
A comunidade local é descendente dos índios Muras e de nordestinos vindos no primeiro ciclo da Borracha na Amazônia.
Hoje, cerca de 500 pessoas vivem no entorno do lago.
Durante o dia, a festa é no campo.
Pense um povo que gosta de bola.
Mulheres e homens se espremem à beira do gramado pra ver a acirrada disputa entre times de comunidades ribeirinhas.
A final deste ano foi disputada entre os times da Grande Família, formado por 15 primos da comunidade local e o selecionado do povoado de Boa Vitória.
Jogo disputado e definido nos pênalts.
Melhor para os visitantes, que levaram o título e a premiação de mil reais.
Depois disso, todo mundo vai tomar banho, se arrumar e passar perfume.
Tem a missa, a procissão, seguidas do leilão e do bingo.
Leilão? Isso mesmo.
Bolos, galinhas e patos assados são disputados lance a lance por a gente do lugar.
O dinheiro arrecadado é revertido em benefício da associação local para o festejo do próximo ano.
E parece que em 2009 a festa vai ser boa, teve gente que pagou 73 reais num pato!
Aí o forró correu solto.
Por a animação, nem se pensava o quanto que a maioria das pessoas viajaram pra chegar ao Cuniã.
Distante cerca de 130 km de Porto Velho, capital de Rondônia, o que, para quem viaja por o rio, equivale a dizer 8 horas de barco ou 4 de voadeira.
Deusuli, de 19 anos, é natural de Terra Caída, outra comunidade do Baixo Madeira.
Ela andou duas horas no meio da floresta fechada e ainda atravessou o lago num motor rabeta pra dançar forró a noite toda.
«Eu gosto, por isso não acho ruim a distância».
Incansável como ela, é o Careca, também conhecido como Gilberto Raposo.
Ele é o presidente da Associação de Moradores do Lago do Cuniã.
Um dos organizadores do evento, leiloeiro, cantou as pedras do bingo e ainda deu tempo de dar uns passos no salão.
Careca falou da importância cultural de resgatar o festejo de São Sebastião no " Lago do Cuniã.
«Há trinta e um anos que não tinha o festejo», lamentou.
Ele, junto com Jorge Lopes, procuraram amigos, familiares e descentes de nativos do lago para que a festa voltasse a acontecer.
Para o professor Edson Silveira, mecenas da festa, a volta do festejo é uma conquista da tradição e do respeito por o passado.
«Minha avó nasceu nessa região, eu tenho minhas raízes aqui também», disse.
A lenda
Cuniã em língua indígena significa «moça jovem».
Segundo a lenda que, após diversos conflitos entre os índios e os brancos, os primeiros foram obrigados a fugir em canoas para não serem dizimados.
Entretanto, uma jovem e bela índia foi capturada e mantida viva em função da sua beleza.
Cuniã, porém, ficou muito triste.
Em uma noite enluarada enfeitiçou a todos e, enquanto dormiam, mergulhou nas águas do lago e nunca mais foi vista.
Acredita-se que Cuniã se transformou numa cobra-grande, e está adormecida no poço mais fundo do lago (poço preto).
Ela só acordará para defendê-lo.
Se um dia resolver ir embora, o lago secará e exterminará todas as fontes de riqueza.
A volta para a casa
Em a manhã seguinte, os barcos à beira do barranco esperam os exaustos festeiros, que retornam as suas casas de pernas cansadas e corações cheios de alegria.
Com o corpo curvado por a idade, os passos lentos, mas não hesitantes, um senhor encaixa um foguete de artifício sobre o galho de uma árvore, apontando-o para cima, acende, se afasta.
Quando os 12 tiros são disparados, decreta:
acabou o festejo!
Número de frases: 47
Título original -- Cruzando o saguão:
a voz da rua ecoa no Theatro José de Alencar?
A Praça José de Alencar pode até ter o mesmo nome que o Theatro para o qual empresta o endereço, mas um é bem diferente da outra.
O Theatro é silencioso, a Praça está sempre um burburinho de gente;
o Theatro é pura ordem em suas transações culturais dentro do calendário, a Praça vive do aleatório das compras feitas por os transeuntes;
por a Praça qualquer um pode passear, no Theatro não se perambula além do saguão.
Bonito, com seu piso de ladrilhos e teto adornado, o saguão acolhe o público, que, de ali, só pode espiar a bela estrutura metálica característica do Theatro.
Em ela, os ferros escoceses de Glasgow, inaugurados junto com a construção em 1910, se fundem aos metais cearenses, agregados depois da reforma de 1918.
Através das portas de vidro, o visitante adivinha o jardim projetado por o Burle Marx, famoso por seus oitis e paus-brasis.
Para desfrutar plenamente de tudo isso, o jeito é participar de uma visita guiada (inteira: R$ 4, 00, meia: R$ 2,00) ou aproveitar a ida a algum evento cultural sediado nas instalações do Theatro.
A equipe de produção, instalada no Centro de Artes Cênicas do Ceará (Cena -- anexo com entrada independente por a rua 24 de Maio), afirma que a programação é prestigiada por todos os públicos:
estudantes, turistas, populares e membros da classe média e alta de Fortaleza.
O PM Afonso, que atua na segurança do saguão há 8 anos, é de outra opinião.
Ele vê um fluxo predominante de turistas e pessoas de razoável poder aquisitivo, acima de qualquer outra categoria de visitantes.
Se levarmos em conta que o preço de um ingresso para uma simples visita guiada pesa bastante na maioria dos bolsos cearenses, a observação do policial não é nenhuma surpresa.
Entretanto, a programação gratuita do Theatro é relativamente rica.
A ela, todos, em teoria, têm acesso.
Então, o que explicaria a predominância de um grupo que forma a minoria no todo da sociedade?
Será que a divulgação dessa programação pode mesmo alcançar a todos?
De acordo com a produção, distribuem-se panfletos, são colocadas notícias na Internet (em diversos sites de órgãos públicos e privados, como a página da Secult e a do Informador 144), a programação é impressa e posta à disposição de quem se interessar.
Mas quem é que pode acessar a Internet?
Quem geralmente recebe os panfletos?
Quem obtém a programação impressa?
Os horários em que as atrações gratuitas costumam ocorrer oferecem outra resposta:
quase todos são no fim de tarde ou no início da noite, variando das 16h30 às 19h.
A o final dos espetáculos, com o avançado da hora, a volta para casa daqueles que não possuem outra alternativa além do transporte público pode se tornar difícil.
É preciso enfrentar a famosa insegurança da área em que o Theatro está situado e confiar que o ônibus para casa passará o mais breve possível.
Atualmente, a incerteza típica das transições de governo é frisada em cada conversa.
Com a mudança de Lúcio Alcântara para Cid Gomes, não se sabe nem mesmo quem ocupará a diretoria, quanto mais se os projetos gratuitos continuarão e, caso continuem, se mudarão ou não de perfil.
O importante é que todos os responsáveis, seja lá de que gestão provierem, tenham como objetivo uma democratização cada vez maior do belo espaço que é o Theatro José de Alencar.
Número de frases: 30
Que os dois territórios públicos que levam o nome desse grande escritor da nossa terra se tornem cada vez mais afins, com o Theatro invadindo a Praça e a Praça adentrando o Theatro.
Fortaleza, nos últimos anos, tem crescido os olhos para o cinema, em produção, exibição e análise.
Parece que os sentidos se aguçaram, que a mente tem se utilizado mais da visão e da audição juntas (ou seja, o audiovisual) para pensar a sociedade ou comunicar um interesse pessoal ou coletivo.
Fortaleza, com relação às outras capitais do nordeste, sempre foi vista como uma que não preserva sua história, pois não a vê como patrimônio, mas sim como entrave à modernidade.
De este lugar aberto e de passado, presente e futuro sempre em conflito, seus filhos são inspirados por essa efervescência de valores dinâmicos para o registro do real ou do ficcional daqui e do mundo.
O audiovisual é registo da vida, de idéias, de mundos.
Isso encanta.
E encanta cada vez mais!
As pessoas têm um fascínio por esse registro de olhar, de sons, de idéias.
É a magia da 7ª arte.
O Cine Ceará chega à sua 17ª edição como ibero-americano, consagrado como um dos grandes festivais nacionais, sempre atraindo mais gente e filmes, no lugar mais tradicional de cinema, o cine São Luís, transformado ano passado em Centro Cultural SESC -- Luiz Severiano Ribeiro.
A procura por cursos em audiovisual também cresceu.
A Casa Amarela deixou de ser a única escola, mas continua a principal e mais acessível, com cursos semestrais em fotografia, cinema e vídeo e cinema de animação.
Desde 2006, a Vila das Artes está no pedaço com cursos livres em audiovisual e com a Escola do Audiovisual, atualmente em sua primeira turma, além de cursos oferecidos por escolas particulares.
A cidade conta também com alguns espaços para cinéfilos.
Há mostras temáticas em shoppings organizadas por grupos cinéfilos, e os cineclubes, como o da Casa Amarela [o mais tradicional e pop, numa interessante união paradoxa], o da Unifor, o da Vila (que acontece também na Casa Amarela), o do Mis (por enquanto, de " férias ") e o do Unibanco, aos domingos.
Além disso, alguns cursos universitários têm seus próprios cineclubes, que funcionam como espaço de debate e descontração, dependendo do filme.
Em as universidades, também, o audiovisual tem sido recebido com melhor apreço, principalmente no curso de Ciências Sociais.
A Universidade Federal do Ceará, além de contar com o Laboratório de Antropologia da Imagem (LAI), abriu seu mestrado em Sociologia mais livre para outros assuntos e outras formas de monografia, com destaque para o audiovisual.
Em o fim de abril, os fortalezenses se reuniram num evento de cinema promovido por o SESC com o auge na exibição de um filme sobre a cidade, que gerou grandes críticas à a produção local e debates sobre a cidade.
Com tudo isso, Fortaleza e cinema, esse casal ora apaixonado, ora briguento, parece bastante promissor!
Ou não.
Número de frases: 22
Vamos ver, fiquemos atentos ao que vem por aí.;)
Som repetitivo e drogas?
Que tribo é essa?
Estou falando dos índios Truká, que vivem na ilha Assunção, no município de Cabrobó, em Pernambuco.
Segundo dados da Funasa (2006), são cerca de 4.169 índios que mantêm sua identidade religiosa e étnica dançando o Toré (ritual de integração entre os sentimentos indígenas e a natureza, buscando a conexão com a energia divina), num terreiro marcado por uma cruz.
Lá eles passam noite adentro com seus cânticos repetitivos acompanhados de maracás (chocalhos) feitos de cabaças e consomem a Jurema, planta considerada sagrada por diferentes culturas, para encontrar o mundo encantado.
A música e a dança para esse povo são o portal para um novo estado psicológico de transcendência coletiva.
Qualquer semelhança com a música eletrônica é mera coincidência?
Não, não é.
Aí nos perguntamos:
qual é a relação entre a cultura dos povos antigos e as recentes festas de música eletrônica?
O processo só se modernizou com o aparato da tecnologia.
Ao invés de chocalhos, são picapes computadorizadas.
Já dizia Lavoisier:
nada se cria, tudo se transforma.
Em a tradição indígena, o xamã é o mediador entre o mundo dos vivos e o mundo espiritual.
E para chegar ao outro plano usam plantas com propriedades químicas que alteram a percepção.
como se fosse um xamã, o DJ convida as pessoas a se entregarem a um ritual coletivo da dança.
Com seu set-list, manipula os sons.
É um chanceler da vibe da galera.
Ir a uma festa eletrônica é uma experiência multisensorial, pois o ambiente e as batidas seqüenciais fazem com que você entre em estado de transe."
Você sente sua respiração e seu coração em outro nível», disse a raver Chris Fontes, de 28 anos.
É o arcaico e a tecnologia que se unem, com a música computadorizada, som tribal (repetitivo), luzes psicodélicas, dança primitiva e, para alguns, o uso de drogas.
Para encantar ainda mais, tem pirofagia e circo -- isso no caso das raves.
Para reforçar essa relação xamãnica temos o fato de que o Ecstasy (bala) e o ácido lisérgico (doce) são substâncias presentes em toda a trajetória da música eletrônica, tendo a mesma finalidade dos rituais indígenas.
Há os que não aprovam.
O DJ brasileiro mais votado do site americano www.thedjlist.com, Doctor Gil, é contra o uso de drogas na balada.
«Todo mundo sabe que consumir drogas não é legal.
Por que estragar uma boa noite, com um bom DJ, boas pessoas ...
por uma droga?
Acho ridículo», afirma.
Já o mestre em comunicação e cultura contemporânea por a Faculdade de Comunicação da Bahia (Facom -- UFBA) Cláudio de Souza acredita que a cena hoje comporta usuários e não usuários de drogas, defensores e não defensores, mas a concepção de «estado alterado» estará sempre presente nesse cenário.
A relação entre algumas culturas indígenas e a cultura urbana da e-music são interligadas diretamente no conceito de prazer e elevação do estado de espírito.
O ponto mais crítico e polêmico é quando falamos de drogas.
Cabe a cada um decidir se usa ou não.
O que nunca pode se perder é o lema criado por o DJ Frankie Bonés, em 1992: Plur -- peace, love, unity and respect (paz, amor, unidade e respeito).
Em o livro Altered State, o escritor Mattew Collin diz que a e-music é o uso da tecnologia para acelerar a percepção do prazer.
É uma forma de se libertar da experiência mundana do dia-a-dia e viver várias visões de drama, vitalidade e alegria.
(Matéria publicada na Revista House MAG -- Edição de Setembro)
Quer saber mais do universo da House Music e o cenário da música eletrônica entre no site www.housemag.com.br
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Número de frases: 43
Enjoy!!!" O olho da inveja, a mão da maldade, fez perversidade fez destruição.
Gente massacrada, gente assassinada, gente desterrada do meu caldeirão», assim diz a música «Caldeirão da Santa Cruz do Deserto», do grupo Dr. Raiz * que nesta canção, faz alusão a uma das maiores tragédias da história do Nordeste Brasileiro e que aconteceu no Cariri Cearense, na cidade de Crato, no ano de 1937 quando centenas de pessoas foram mortas de maneira sórdida, cruel e covarde.
Para falar deste episódio é preciso entender o que foi a comunidade liderada por o Beato Zé Lourenço, um dos personagens mais marcantes da história do Ceará, que começou sua trajetória no Cariri Cearense no ano de 1890, quando chegou à região em peregrinação por o sertão buscando auxílio do Padre Cícero Romão Batista, cuja fama que lhe tornou um mito brasileiro com os seus «milagres» envolvendo a beata Maria de Araújo, já percorria por todo o País.
José Lourenço Gomes da Silva era o nome de ele.
Paraibano, pobre, negro, analfabeto e filho de sertanejos, assim como muitos outros nordestinos daqueles tempos, vinha movido por o sentimento de esperança, depositando todo o seu destino nas mãos de um homem que acreditava ser milagroso e santo.
Em pouco tempo ele ganhou a confiança do Padre Cícero, que lhe deu a missão de arrendar algum pedaço de terra na região e em ele trabalhar com algumas famílias que não paravam de chegar à Juazeiro do Norte também em busca de ajuda do «santo».
E assim, por volta de 1891, José Lourenço, com contrato verbal, arrendou uma parte do sítio Baixa Dantas, localizado em Crato e de propriedade do coronel João de Brito, levando algumas pessoas.
E é neste lugar que uma nova sociedade se forma no sertão cearense.
O sítio Baixa Dantas
Era até então um solo pobre, sem produção alguma, que através de muito trabalho dos romeiros, tornou-se lugar próspero. Tudo o que
era resultado dos dias a fio com a enxada na mão, grande parte pagava o arrendamento ao dono da terra e o resto era dividido igualmente entre seus membros.
Logo o imóvel apresentava consideráveis benfeitorias e mais pessoas chegavam de outros estados nordestinos, atraídos por os «milagres» do patriarca de Juazeiro do Norte, que encaminhava muitos miseráveis para lá, inclusive, ladrões e assassinos que precisariam ser «reeducados na fé».
Um fato curioso da época do sítio Baixa Dantas foi quando o Padre Cícero entregou aos cuidados do Beato Zé Lourenço um «animal valioso» que haviam lhe dado de presente.
Era um touro da raça Cruzerá, que sendo dócil e muito bonito, ficou conhecido como Boi Mansinho.
Por pertencer ao Padre Cícero, foi tão querido por os romeiros que logo foram considerados hereges e a imprensa do Pais divulgava tudo aquilo como um reduto de fanáticos perigosos que adoravam um animal como se fosse um deus.
Diziam que bebiam urina do animal e usavam suas fezes para curar doenças.
Com todas as notícias e mesmo sem ter certeza se eram ou não especulações, Floro Bartolomeu (deputado federal na época), ordenou que prendessem o Beato.
Determinou ainda que o Boi Mansinho fosse abatido na frente de ele e que lhe dessem a carne do bicho pra comer.
Ele resistiu, pois, nenhum seguidor do Padre Cícero seria capaz de tal gesto!
A morte do animal causou grande comoção e o Beato só foi libertado depois de 18 dias por ordens do Padre Cícero, que, apesar de ter poderes para tanto, nada fez para evitar aquele episódio humilhante.
Já apareciam, portanto, os sinais de que o Beato e aquela comunidade incomodavam, que as atenções estavam voltadas para eles e que uma «sociedade de famintos» organizada representava uma ameaça.
Em 1926, o sítio Baixa Dantas foi vendido com todas as benfeitorias que tornaram o imóvel um dos melhores da região, e todos foram expulsos do lugar sem direito a nenhum ressarcimento.
A fazenda Caldeirão
O Padre Cícero ordenou que o Beato Zé Lourenço levasse todos para uma de suas propriedades.
Era uma fazenda em Crato, cidade natal do Padre chamada Caldeirão dos Jesuítas e cuja terra ainda não tinha «vida» como na chegada à Baixa Dantas.
O lugar tinha esse nome por causa de depressões geográficas em formas de «grandes caldeiras», e um dia serviu de esconderijo para 2 jesuítas que fugiam das perseguições do Marquês de Pombal no séc..
XVIII. Surgia, então, o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, que passou a se chamar assim por causa da cruz que os penitentes levavam nas peregrinações e, quando chegaram, afixaram naquele lugar que mais parecia um deserto de tão seco que era.
Não tinha nada que parecesse útil para moradia, só muito mato, pedra e poeira.
Havia um clima maior de louvor ao Padre Cícero porque, ao contrário do Beato Zé Lourenço, os sertanejos pensavam ser terra doada e não «emprestada».
Tornar fértil aquele chão sem dispor de nenhum custo não seria o intuito maior por trás da «generosidade» em cedê-lo àquele povo miserável?
Conseguiram levar alguns pequenos animais e sementes e o Beato Zé Lourenço iniciou o mesmo movimento do sítio Baixa Dantas, com reza, trabalho e divisão da produção.
Ergueram suas casas, fizeram barragens, reservatórios d' água, armazéns, engenho, criaram sistemas rudimentares de irrigação desenvolvendo a agricultura e pecuária, construíram também um cemitério e uma capela para as orações, etc..
Tudo por todos e para todos!
Surgia uma espécie de vila, refúgio para os desprotegidos, perseguidos, errantes e órfãos que ficavam sob os cuidados do Beato.
Produziam tudo o que precisavam, até roupas e calçados, e o produto do trabalho era dividido de acordo com a necessidade de cada família.
Em o novo lugar já surgia produção excedente que era vendida e o lucro, investido na terra e na compra de alguns produtos que só havia na cidade, como querosene, por exemplo.
Isaías (espécie de secretário do Beato) era o único que ia ao comércio de Crato para comprar algo.
As orações diárias e completa devoção ao Padre Cícero, ou, «Padim Ciço» continuavam a ser «leis estabelecidas», assim como, respeito e obediência ao Beato Zé Lourenço, quem tomava decisões internas.
Por ordens do «Padim Ciço», havia dias que trabalhavam em fazendas alheias sem, logicamente, receberem nada em troca.
Para alguns historiadores, isso representava apenas uma cordialidade com fazendeiros vizinhos, mas para estudiosos mais atentos, esse fato tinha semelhança com regime de servidão.
Com intensidade «a vila» no Caldeirão crescia.
Foi tomando dimensões maiores que o próprio tamanho físico.
Estima-se que em 4 anos já havia mais de 1.000 habitantes no lugar e todo o País já sabia daquela comunidade.
Mas o Caldeirão não atraia somente aqueles que se tornariam seus agregados.
Atraía também olhares de cobiça e insatisfação das autoridades políticas e religiosas da região.
Os líderes católicos consideravam o Caldeirão um «reduto de fanáticos», não aceitando quaisquer manifestações do catolicismo popular que crescia consideravelmente através das romarias à Juazeiro do Norte.
Quando eclode a «Revolução de 1930» do Governo Vargas, os «revolucionários» seguiram ao Cariri na pretensão de desarmar coronéis e «fanáticos religiosos».
Achavam que o Caldeirão abrigava loucos armados, e com isso, tentaram prender o Beato que -- avisado com antecedência -- conseguiu fugir.
Em o lugar, porém, não encontraram armas, e sim, pobres camponeses com seus instrumentos de trabalho.
Em 1932 com uma grande seca, o número de habitantes cresceu.
O Beato Zé Lourenço acolhia todos que chegavam.
Foram quase 2 anos de estiagem onde mais pessoas encontraram abrigo na comunidade e onde muitos decidiram ficar.
Em 1934 quando morre o Padre Cícero muitos passam a acreditar que o Beato seria o seu sucessor religioso.
A Comunidade ameaçada
Como todo grupo que surge de forma adversa a um contexto social considerado «apropriado», o Caldeirão realmente tornou-se uma ameaça política e religiosa.
Ora, eram homens, mulheres e crianças que dividiam o que produziam em terra que não lhes pertencia e já não pagavam mais por ela, não dependiam do comércio, eram liderados por um homem analfabeto que ganhava notoriedade no País (Beato Zé Lourenço), tinham devoção cega num sacerdote e político (Padre Cícero) e quando não estavam na lida, saiam por os sertões cantando e rezando com suas penitências.
Ao contrário do Padre Cícero, o Beato Zé Lourenço não tinha influência política fora da comunidade e nem relações estreitas com os ricos da região, logo, seria fácil destruir o Caldeirão!
É claro que as perseguições contra eles já existiam no sítio Baixa Dantas, mas a situação veio a se agravar depois da morte do Padre Cícero quando os bens de ele passaram a pertencer aos Salesianos (integrantes de uma ordem religiosa nomeados por o Padre Cícero como seus herdeiros).
E, de entre os bens que formavam a considerável fortuna deixada por o patriarca de Juazeiro do Norte, estava, a fazenda Caldeirão.
Os Salesianos queriam o Caldeirão com todas as benfeitorias e expulsar todos sem, obviamente, ressarci-los por tudo que fizeram na terra.
Para os trâmites legais do ato, contrataram o advogado Norões Milfont.
A idéia de que o Beato representava uma séria ameaça à sociedade foi reforçada.
A Igreja falava dos «sérios riscos daquele bando de fanáticos», dizia haver» armas soviéticas «no Caldeirão, que o Beato» vivia em concubinato com muitas mulheres «tendo uma espécie de» harém», etc..
Enquanto isso, os pobres sertanejos sequer tinham conhecimento de um lugar no mundo chamado União Soviética e sabiam menos ainda o que era uma política socialista, ainda que, de certa forma, a vivenciassem de fato.
Em 1936 autoridades religiosas e políticas se reuniram em Fortaleza, de entre elas, o bispo do Crato D. Francisco de Assis Pires e o Governador Menezes Pimentel para discutirem acerca do «grande risco» que aquela comunidade representava, e, premeditaram a destruição do lugar com uma ação militar.
Primeiro enviaram um «espião», o capitão José Bezerra, para se infiltrar no Caldeirão como um pobre comprador de algodão e fazer um levantamento geral do dia-a-dia de todos.
Ele cumpriu a ordem, tirando do Beato todas as informações que precisava.
Em retorno, o «fiel escoteiro» fez todo o relato ao Governo do Estado, dizendo ser ali uma «ameaça comunista» e que «uma nova Canudos surgia», para justificar assim, os atos que haveriam de vir.
Passou a idéia de que eram um risco contra o Poder do Estado, sendo urgente uma intervenção militar.
O fim do Sonho Coletivo
Para destruir o Caldeirão, em setembro 1936, uma expedição militar comandada por o Capitão Cordeiro Neto e por o Capitão José Bezerra seguiu para o Cariri.
O Beato soube com antecedência e fugiu.
As pessoas não ofereceram resistência e não tinham com elas as famosas «armas comunistas», apenas suas enxadas, arados e outros instrumentos de trabalho.
Determinaram que todos fossem embora deixando tudo pra trás, mesmo sendo, em sua maioria, nordestinos de outros estados.
Saquearam e incendiaram as casas e os armazéns, arrancaram as portas da capela, destruíram as plantações, bateram nos camponeses e deixaram eles sem alimento.
A comunidade estava abalada e suas coisas destruídas.
Se alojaram em acampamento na Serra do Araripe em área chamada Mata dos Cavalos e surgia uma divisão:
uma parte ao lado do Beato que queria paz e não reagir, e outra, se rebelava.
Mas havia um clima de guerra maior no ar.
O estopim veio em 10 de maio de 1937, quando o Capitão José Bezerra e alguns soldados seguiram para a Serra do Araripe, mas em luta com alguns sertanejos, morreu com um golpe de foice.
Os soldados feridos conseguiram fugir, o mal êxito policial causou temor entre as autoridades e mais raiva contra os sertanejos.
A situação se agravou e acabar com os fanáticos virou «questão de honra».
Seguem tropas para a Chapada do Araripe.
O 1º Batalhão de Combate da polícia militar da capital cearense marcha para a região sul do Ceará com o auxílio de tropas do 23º Batalhão de Combate por autorização do ministro da guerra, o general Eurico Gaspar Dutra.
Aviões seguiram para o lugar de conflito (Serra -- acampamento).
Em o dia 12 de novembro de 1937 metralharam e jogaram artefatos explosivos nos miseráveis indefesos que, em sua grande maioria, sequer estavam na operação em que morreu José Bezerra.
Aconteceu ali uma verdadeira chacina!
Casebres foram incendiados com pessoas dentro, crianças e adultos brutalmente mortos.
Inutilmente, muitos imploravam por suas vidas ou, pelo menos, pouparem suas famílias.
A tiros policiais perseguiram os fugitivos por toda a Serra do Araripe.
O Beato conseguiu fugir para Pernambuco com outros sertanejos, mas muitos que conseguiram atravessar a fronteira foram massacrados por as forças policiais de lá que estavam em pontos estratégicos, já avisados por o Governo do Ceará sobre o conflito.
Em aquele episódio, fizeram com os cadáveres quase o mesmo que os nazistas fizeram com os judeus.
Amontoaram todos e os incineraram com gasolina, e outros, eram enterrados em valas coletivas.
mais de 1.000 pessoas morreram naquele dia de forma desumana e cruel.
Anos depois, vários crânios ainda eram facilmente encontrados (principalmente de crianças) e habitantes da região que nada tinham a ver com a comunidade do Beato eram perseguidos, interrogados, torturados e até mortos.
Alguns sobreviventes da matança se estabeleceram na Bahia, quando em 1938, as autoridades baianas foram «alertadas do perigo» daquele povo e, através de intervenção militar, expulsaram e exterminaram os sertanejos «fanáticos».
Estima-se que mais de 400 de eles foram mortos.
O Líder
O Beato Zé Lourenço se estabeleceu com algumas famílias em Exu-PE, na fazenda União.
As autoridades pernambucanas que conheciam a personalidade pacífica de ele, deixaram que ficassem (sob vigilância), quando o fim das perseguições se deu em 1944.
Através do advogado Antônio de Alencar Araripe, o Beato ingressou com uma Ação Judicial contra o Governo do Ceará, requerendo indenização por os danos sofridos, mas por um detalhe processual (prescrição do direito de agir), a Justiça indeferiu seu pedido.
O líder da comunidade veio a falecer de peste bubônica em 12 de fevereiro de 1946, aos 74 anos de idade.
Seu corpo foi levado em cortejo por uma multidão à Juazeiro do Norte, onde foi sepultado no cemitério do Socorro.
Ainda que tenham havido passagens muito questionáveis em toda a sua trajetória, o Beato construiu uma história de grande relevância.
Sob uma visão geral, fez a boa política social sem a consciência nítida de tê-la feito!
A Terra
O que foi mais determinante para fazer daquela comunidade uma séria ameaça, religião ou política?
Decerto, estão interligadas num só ponto:
a terra.
Era em ela que eles plantavam suas esperanças buscando independência econômica baseada na fé e no trabalho.
Em verdade, não era «a terra prometida» e a real liberdade não existia.
Mas acreditavam nisso, e durante mais de 40 anos conservaram uma sociedade comunitária sem conflitos internos.
A comunidade que surgiu no sítio Baixa Dantas e continuou na fazenda Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, foi por excelência um fenômeno social e político de um povo que buscava sua emancipação em resposta à exploração fundiária que só gera fome e miséria.
Ela só poderia ser uma ameaça para quem vê na terra uma fonte de domínio e de riqueza, não para quem a enxerga como uma fonte de sobrevivência humana onde se tira, apenas, o necessário.
É claro que a única colisão parecia religiosa, onde adoradores do Padre Cícero geraram insatisfação ao chegar com suas crenças num homem que, ao invés de santidade, o que tinha na verdade era um notável poder de eloqüência que se revela até os dias de hoje e em proporções gigantescas.
Mas naqueles tempos, o Catolicismo Popular não seria tão pertinente -- a princípio -- se toda uma questão patrimonial e de poder político não estivessem ameaçadas com aquele grupo organizado.
Em mais tempo, o «controle ideológico» definitivamente não pertenceria mais ao Estado e menos ainda, ao Catolicismo Tradicional.
Todavia, a comunidade do Beato deixou sua «semente» que ainda «pulsa na terra» com força, o que demonstra a sua grande importância histórica.
Em o Cariri há vários assentamentos rurais e a comunidade que surgiu e cresceu entre o sítio Baixa Dantas e a fazenda Caldeirão é hoje exemplo de luta e resistência para essas famílias que vivem da terra e para a terra.
Esta, porém, é uma abordagem importante a ser feita em outra oportunidade.
Em notas:
Desde menina eu ouvia falar algo sobre «beatos»,» boi santo», «gente assassinada», etc., mas sem muita consistência porque, a História do Ceará não consta na programação pedagógica de nenhuma escola pública ou privada e nada desta história também é relatada nos museus da região.
Estudei sobre Antônio Conselheiro mas não sobre o Beato Zé Lourenço!
Por outros meios, conheci esta história, que a maior parte do Cariri Cearense desconhece.
Para contar ela aqui, em resumo, com cronologia dos fatos, coletei dados importantes de autores que já conhecia como Vera Lúcia G. Maia, Aílton de Farias e Mons.
Assis Feitosa, além de conversar com minha prima, a Prof. Gilsenaide Alexandre que ensina História, e com o Prof. Judson Jorge que ensina Geografia do Nordeste.
Em o contexto há minha análise pessoal baseada em todas as informações, conflitantes ou não, que tive ao longo dos anos e em tudo o que observo de perto acerca da religiosidade na região.
(*) O grupo Dr. Raiz é formado por músicos da região do Cariri Cearense.
A música nesta pesquisa é de autoria de Dudé Casado (letra em parceria com Hélio Ferraz), integrante da banda e a quem agradeço por a permissão de exibir aqui o seu trabalho.
Em a introdução é cantado o «Bendito de São Sebastião» por os Penitentes de Barbalha-CE.
Número de frases: 130
Em 2007 Ariano Suassuna completa 8 décadas.
Para quem não conhece o movimento Armorial e seus desdobramentos, é mais que desejável a busca em bibliotecas, sebos e até a pesquisa na internet da obra desse maravilhoso dramaturgo.
Homem sério, de propostas radicais e de rara coerência, Ariano completa os 80 neste ano que se aproxima comemorando em grande estilo.
Em o CCBB de Brasília, no mês de outubro passado, pude estar com ele junto ao grupo ao qual pertenço, ajudei a fundar e faço parte, o grupo Gesta, apresentando no mesmo palco algumas peças musicais de nossa autoria e da autoria do grande compositor Antônio José Madureira, lider do extinto e legendário Quinteto Armorial, grupo este que transformou-se no atual Quarteto Romançal (que se apresentou no mesmo CCBB em Brasília uma semana após a dobradinha Ariano Suassuna / grupo Gesta).
Após a apresentação do Quarteto Romançal, na semana posterior, fechando o projeto, apresentou-se o ex-rabequeiro, dançarino, cantador e multiartista Antônio Nóbrega, também presente na formação original do memorável Quinteto Armorial.
Este projeto chamado «Projeto Armorial», deverá ocorrer no CCBB do Rio de Janeiro ainda no primeiro semestre de 2007, com a presença do aniversariante que terá ainda, merecidamente (até com algum atraso), seu maior romance, o romance d ´ A Pedra do Reino, rodado em formato de mini série por a vênus platinada.
Vamos aguardar as novidades.
Também faço parte de um projeto que homenageará a vida de Ariano em formato teatral, fazendo sua direção musical e sob a direção de Gustavo Paso e grande elenco.
Parabéns Ariano por a sua belíssima obra, merecidos são e serão sempre homenagens ao seu empenho na defesa da cultura brasileira, da criação de uma arte erudita genuinamente nacional a partir de suas raízes populares.
Viva o Armorial!
Viva o Brasil!
Número de frases: 11
Viva " Ariano Suassuna!
«Alguém deve rever, escrever e assinar os autos do Passado
antes que o Tempo passe tudo a raso.
É o que procuro fazer, para a geração nova, sempre
atenta e enlevada nas estórias, lendas, tradições, sociologia
e folclore de nossa terra."
A obra de Cora Coralina (Anna Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas, 1889-1985) conta-nos sobre o passado.
Os escritos de Cora retratam Goiás sua cidade natal-versando sobre si mesma, sobre educação e também sobre questões humanitárias.
Falam-nos tanto de sua contemporaneidade quanto de épocas que antecederam a ela e sobre as quais lhe chegaram relatos.
Cora se afastou de sua terra por 45 anos.
A os 20 anos, mudou-se para o estado de São Paulo em companhia daquele que viria a ser seu marido.
A os 65 anos, já viúva, deixou seus filhos em São Paulo e retornou sozinha ' a Goiás, onde viveu com a renda gerada por a venda de doces.
Embora tenha estudado formalmente por apenas 2-3 anos, alcançou um nível tal de conhecimento que lhe justificou a denominação de autodidata.
Recebeu, entre outros, o título de intelectual do ano (Troféu Juca Pato) e o título de doutora Honoris Causa por a Universidade Federal de Goiás.
Desde cedo, foi uma pessoa interessada em ler e conversar a fim de adquirir conhecimento.
Em a adolescência, lia jornais de sua mãe, romances e freqüentava saraus.
Começou a escrever ainda na adolescência, tendo sido uma das criadoras do jornal «A Rosa».
Entretanto, só publicou seu primeiro livro aos 76 anos, passando a ser conhecida e valorizada ainda em vida após o seu enaltecimento público por Carlos Drummond de Andrade.
Foi objeto de análise de uma série de trabalhos acadêmicos e, atualmente, empresta seu nome a instituições públicas, logradouros, eventos e plantas.
«Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada ...
E fatias iguais ' as outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado, num armário, alto, fechado,
impossível.
Era aquilo uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se ' as visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada."
«Aconteceu que um dia a tampa da terrina escapuliu das mãos da menina e escacou.
Foi um escarcéu.
Dona Jesuína estremeceu em severidades visíveis, e se conteve:
«que não fizesse outra ..."
Teria contudo de ser castigada, exemplada:
um colar de cacos quebrados no pescoço e a bruxa consumida.
Proibido chorar.
Assim era e assim foi.
Coisas do velho tempo.
A cacaria serrilhada, amarrada a espaço num cordão encerado, ficava como humilhante castigo exemplar, de que todos se riam até que num longínquo dia-santo alguém se lembrasse de punir por aquela retirada."
«Melhor fora não ter nascido ...
Feia, medrosa e triste.
Criada ' a moda antiga,
ralhos e castigos.
Espezinhada, domada.
Que trabalho imenso dei ' a casa
para me torcer, retorcer,
medir e desmedir.
E me fazer tão outra,
diferente, do que eu deveria ser.
Triste, nervosa e feia.
Amarela de rosto empapuçado.
De pernas tortas, caindo ' a toa.
Retrato vivo de um velho doente.
Indesejável entre as irmãs.
Sem carinho de Mãe.
Sem proteção de Pai ...
melhor fora não ter nascido.
E nunca realizei nada na vida.
Sempre a inferioridade me tolheu.
E foi assim, sem luta, que me acomodei
na mediocridade de meu destino."
Cora escreveu tanto sobre a sua infância quanto sobre a infância em geral.
Em seu tempo e, em tempos remotos, criança não tinha muitos direitos.
Era preterida em relação aos adultos.
Não podia manifestar opinião e desde cedo ajudava nos serviços da casa.
Além disso, era castigada severamente conforme mandasse a discricionariedade dos adultos.
«Sem cobertura de leis
e sem proteção legal,
ela atravessou a vida ultrajada
e imprescindível, pisoteada, explorada,
nem a sociedade a dispensa
nem lhe reconhece direitos
nem lhe dá proteção.
E quem já alcançou o ideal dessa mulher,
que um homem a tome por a mão,
a levante, e diga:
minha companheira.
Mulher da Vida,
Minha irmã."
Ela participou de lutas sociais, ao longo de sua vida.
E, escreveu em solidariedade aos desfavorecidos socialmente.
Em sua obra, abordou o menor abandonado, o presidiário e o proletariado.
Escreveu também acerca das prostitutas que embora necessárias na estrutura social-eram discriminadas, enxovalhadas, diminuídas.
«Bonecas de milho túrgidas,
negaceando, se mostrando vaidosas.
Túnicas, sobretúnicas ...
Saias, sobre-saias ...
Anáguas ...
camisas verdes.
Cabelos verdes ...
Cabeleiras soltas, lavadas, despenteadas ...
O milharal é desfile de beleza vegetal.
Cabeleiras vermelhas, bastas, onduladas.
Cabelos prateados, verde-gaio.
Cabelos roxos, lisos, encrespados.
Destrançados.
Cabelos compridos, curtos,
Queimados, despenteados ...
Xampu de chuvas ...
Fragâncias novas no milharal.
Senhor, como a roça cheira bem! ..."
A escritora fez ainda uma série de celebrações, principalmente sobre a terra e os frutos da terra, ' a qual tanto foi ligada.
Iniciar carreira literária na velhice foi uma das ousadias que Cora Coralina cometeu ao longo da vida.
E, ao escrever, o fez tanto com simplicidade quanto com equilíbrio entre o forte e o delicado, retratando, com naturalidade, lugares, costumes e sentimentos do povo goiano.
Foi, enfim, uma das muitas pessoas criadas como «o patinho feio» do conto de Andersen.
Entretanto, ao longo de sua trajetória se descobriu um belo cisne ...
Número de frases: 113
(Entre aspas figuram apenas escritos de Cora.)
O novo na música causa expectativa e maior ainda se for feito por os mais novos.
Dependendo, a abordagem pode causar uma surpresa agradável, uma audição enfadonha ou uma total decepção.
O que não ocorre como o quinteto paraibano de nome exótico, Azeite Sinhora Vó, que traz a promessa de boas perspectivas sonoras.
O renovar é questão constante da vida e a banda se esbalda pretensiosamente na multiplicidade das influencias, no vigor das composições e na maturidade harmônica, descobrindo assim um caminho musicalmente ideal.
Os primeiros passos foram em 2003, mas só em janeiro do ano passado começaram a fazer shows.
De lá pra cá foram 15 shows realizados.
O grupo pessoense cuja media de idade dos integrantes é 22 anos, é composto por Ruy José (bateria).
Thiago Costa (guitarras), Luana Lima (voz), Felipe Tavares (baixo) e o novo integrante Haley Arthur (percussão e intervenções eletrônicas)
Estão em estúdio terminando de gravar seu primeiro disco -- um EP independente com sete músicas que deverá se chamar «Canção de Ninar», com provável lançamento para maio ou junho.
O destaque inicial é para a voz de Luana, uma eventual candidata a futura diva pop, que tem em nomes consagrados como Elis Regina, Marisa Monte, Maria Bethânia, entre outras da nossa MPB, as suas melhores referencias musicais.
Aliados a isto, têm uma postura rock concisa, guitarras modernas com timbragens bem estruturadas e uma percussão densa.
O resultado é animador.
Nada melhor que pegar a coisa nascendo e debulhar um pouco do milho, e numa conversa on line conseguimos uma exclusiva com a banda.
Confira!
Falemos primeiro a origem do nome da banda?
Azeite Sinhora Vó, diferente pra não dizer estranho ...
Luana:
Essa eu deixo para a Thiago responder.
Felipe:
Ele vai responder melhor.
A idéia foi de ele do nome.
Pois é, tinha que ter um nome estranho pra combinar com o som.
Luana:
É verdade.
Mas, o significado ...
Felipe:
Vem da estória de João e Maria.
João e Maria.
Estória infantil ...
Luana:
É, mas não é bem assim.
Essa frase é tirada da parte «perversa» da história quando os dois meninos se rebelam contra a velhinha que quer atirá-los no fogo.
Azeite tem uma conotação de coisa fina.
Um tempero que dá mais sabor ...
Luana:
Acho que captei a mensagem.
Felipe:
Essa é a vantagem de ter um nome com alguma abstração ...
Ao mesmo tempo me soa com algo pessoal, caseiro e regional.
Felipe:
Aparecem sempre umas interpretações diferentes.
Sim, mas qual significado de quem criou?
Felipe:
Essa é justamente a fala de Thiago.
Thiago:
Azeite Senhora Vó vem da história de João e Maria, ou de uma corruptela popular do final de ela.
Enfim, João e Maria jogam a bruxa dentro do forno e ela grita «água meus netinhos» e eles respondem " azeite senhora vó, então o nome surgiu de uma interpretação livre do sentido metafórico da história.
Primeiro a referência à antropofagia dos modernistas, essa história de matar os outros cozidos, assados e coisa e tal depois, a idéia de que essa história pode ser uma metáfora para a condição do jovem hoje em dia criado numa casa onde há pouco esforço (jovens de classe média quer dizer), «cevados para serem comidos no final, por o mesmo sistema que os alimenta e o Azeite Senhora Vó é o momento em que eles dizem,» não quero participar disso não», quero construir alguma coisa que seja, mas no que me diz respeito, acredito que não somos uma banda politizada em nenhum aspecto, esse coisa toda tem a ver com fugir de uma alienação cultural que se criou nas ultimas décadas, tem a ver com viver e pensar com se vive, além de construir algo a partir disso tudo.
Então acho que no final das contas as letras são mais sobre sentimentos de ela.
Em o final das contas nossa produção tá mais para uma exercício estético que pra uma tentativa de fazer alguém pensar alguma coisa.
Vocês se preocupam muito com isso?
Passam para a musica e as letras alguma mensagem?
Thiago:
Bem acho que Luana talvez queira falar sobre isso.
Em o que me diz respeito, acredito que não somos uma banda politizada em nenhum aspecto, esse coisa toda tem a ver com fugir de uma alienação cultural que se criou nas ultimas décadas, tem a ver com viver e pensar com se vive, além de construir algo a partir disso tudo.
Então os jovens hoje não são tão alienados como a mídia dita?
Felipe:
Nem todos.
Tem uma galera que corre por fora, tentando formar sua própria opinião.
Thiago:
Em a verdade, a desburocratização da informação que nós estamos vivendo facilita que cada vez mais nós tenhamos pessoas consumindo aquilo que querem do jeito que querem, mas ainda é uma minoria.
Como vocês definiriam o som da banda?
Thiago:
Uma banda sem compromisso estético.
Tocamos aquilo que nos faz sentir bem, desafiados e satisfeitos.
Luana:
Iiihh! Pergunta difícil.
Em a verdade estamos abertos a novas misturas.
Felipe:
Mistura de ritmos que nos influenciam, que gostamos.
Identifica o som que a gente quer fazer e às vezes naturalmente sai no processo de composição.
Thiago:
Tentando manter a nossa assinatura, mas longe de estar preso a algum conceito, mas enfim, se for pra conceituar, é uma banda de rock.
Felipe:
Pois é, se for rotular, que botem esse rotulo.
Luana:
Assino em baixo.
Imagino que tenham influencias múltiplas em cada um ...
Podem citar algumas?
Luana:
A minha primordial é MPB.
Nasci escutando MPB e sou apaixonada por música nacional.
Sou até meio bairrista.
Felipe:
Rock 60 e 70.
E alguns gênios da MPB.
Alguns rock 90's.
Thiago:
Radiohead, Lúcio Maia, The Mars Volta, Trent Reznor, Tom Jobim, Fela Kuti.
Luana:
Tenho escutado muito PJ Harvey, Sade Adu, a própria Bjork, mas não posso considerar que sejam uma grande influência pra mim.
Acho que Elis Regina, Maria Betânia, até as mais atuais como Marisa Monte.
Tenho que confessar, mas acho que já percebeste que não sou roqueira.
Estou me tornando aos poucos ...
Gostaria de saber o que vocês acham da cena local, se existe uma cena ...
Thiago:
Definitivamente existe, e está caminhando bem.
Falta espaço isso sim, mas a produção musical está crescendo em qualidade, quantidade e originalidade.
Felipe:
Faça as minhas as palavras de Thiago, ultimamente a coisa têm crescido.
Luana:
De um tempo pra cá está melhorando bastante.
Felipe:
Acho que invés das bandas competirem deveriam se ajudar mais.
Thiago:
Muito mais gente se esforçando pra ter o seu próprio som, e é isso que cria uma cena interessante pra mim.
Felipe:
Faltam lugares paras as bandas alternativas e independentes tocarem.
Sempre rola uns cantos que não dura mais do que um ano.
Bem, sobre a safra de novas bandas.
O que dizem?
há quantidade, qualidade e diversidade atualmente?
Luana:
Tem umas bandas ótimas, tipo The Silvias, Star 61, entre tantas outras que estão por aqui.
Ruy José:
Acho que são poucas as bandas que prezam por a qualidade.
Thiago:
Guardadas as devidas proporções, nós temos uma cena plural sim.
Eu diria que já tem umas bandas novas que dá vontade de «ouvir em casa», como, modéstia parte nós e o Dalila no Caos.
Felipe:
O panorama é animador em relação há anos atrás, principalmente na diversidade do som.
Como enxergam o futuro da banda?
O que pretendem fazer?
Thiago:
Compor, gravar e tocar ao vivo em menos roubadas.
Luana:
O futuro ...
Prefiro pensar no presente e no EP que vamos gravar esse mês.
Felipe:
Bom resumo Thiago festivais maiores.
Mais musicas e discos.
Tocar em outras cidades.
Luana:
E com esse EP divulgar o som e entrar em festivais maiores como bem disse Felipe.
Já estamos trabalhando e tendo idéias.
Vocês acham que é possível viver de musica fora dos «padrões radiofônicos» nesse país?
Felipe:
Acho que sim.
Ruy José:
Sim! Fora dos padrões acho que dá pra sobreviver.
Felipe:
Tem uma galera vivendo disso ganhando seus 1200 conto mensais por musico não é uma «brastemp».
Mas, pra ganhar bem não sei não.
Porque fazer música?
Qual o sentido?
Ruy José:
Pessoalmente não me pergunto dessa maneira ...
Em termos de fazer sentido ou não, eu simplesmente conheci o instrumento.
Felipe:
Amor à arte.
Necessidade de expressão.
Falo por mim ...
Luana:
Acho que não tem muito que ter sentido, acho que tem que ter sentimento.
Expressar uma idéia, mostrar algo que eu considero importante para as pessoas.
E se fizerem uma proposta para mudarem o som da banda em troca de boa grana?
Felipe:
Se for 500 mil por ano eu faço, depois mando tomar no cú ...
«Mandar mudar» pra mim já não é arte, a arte sai de dentro do autor.
Luana:
Se fosse pra criar uma história paralela a essa que a gente tá fazendo ...
Eu até queria.
Possibilitaria a promoção da banda de alguma forma.
Ruy José:
Eu particularmente não aceitaria sob hipótese alguma.
Até porque se fosse pra ganhar uma grana eu estaria tocando numa banda cover, aqui na cidade mesmo.
Felipe:
Como você pode observar cada um tem a sua opinião.
Ruy José:
Mas eu acredito ainda, que se uma banda fizer sua parte a grana vai aparecer.
Cedo ou tarde ...
Felipe:
Também acho!
A Luana tem voz de diva de MPB e há certo regionalismo nas levadas ...
Luana:
Rapaz valeu por o elogio, mas estou longe das divas.
Felipe:
Identificamo-nos com os timbres sessentistas.
Dinâmica também, mais o instrumental.
Azeite Sinhora Vó contatos:
thiago928@hotmail.com
Número de frases: 182
www.fotolog.com/azeitesravo Jerry Espíndola bem que poderia lançar seu novo disco no aconchego de um teatro.
Ou mesmo numa casa noturna badalada de Big Field.
Ou ainda em algum dos espaços artísticos comandados por o governo ou prefeitura.
Mas não.
Vértice, o quarto disco do Espíndola mais novo dos irmãos, foi lançado numa praça campo-grandense.
Tudo bem que é uma praça especial, comandada por uma pessoa especial, mas a atitude de Jerry reflete a realidade dos fazedores de arte de Campo Grande.
De como é a estratégia de um músico com mais de 20 anos de carreira e figurinha carimbada da cena cultural do estado.
E como isso espelha a atual fase em que a Cidade Morena e Estado estão passando.
A entrada do PMDB no governo após oito anos de PT e a incerteza do que virá loguinho estes dias, a classe artística desarticulada, o fundo de incentivo cultural do estado suspenso e ainda sem pagar os projetos relativos a 2005, as rádios da cidade tocando pouca música produzida no próprio estado, os cachês minguados, as televisões sem programas culturais ...
Mas a produção cultural não pára.
E precisa escorrer para algum canto e este canto são as praças de Campo Grande.
Chegou a hora de público e artistas se reencontrarem.
Sem frescuras.
Como nos velhos tempos dos anos 80, lá no século passado, quando os shows dos ' artistas da terra ` eram lotados.
E nenhum lugar mais adequado para este reinício de conversa do que uma praça de bairro, freqüentada por gente de toda cidade.
E no comando os próprios artistas, que acabam virando ' padrinhos ' e coordenadores destes lugares.
O Sarau Cultural da Praça das Araras, na região do bairro Amambaí, é um exemplo.
Ele acontece mensalmente desde dezembro de 2005 e é organizado por o artista plástico Jonir Figueiredo.
A cantora e artista plástica Miska e o músico Edgar Mancilla também organizam outro encontro artístico (e gastronômico) bacana na Praça Bolívia, em outra região da cidade.
Por lá rola muita música andina regada a saltenhas.
Sempre domingo pela manhã.
O barato destes eventos é mais do que ir ver os shows.
É interagir.
Encontrar. Retransmitir e absorver.
E é isso que faz a fama da Praça do Peixe, um verdadeiro oásis cultural no meio do bairro classe média do Villas Boas, próximo a Av..
Elias Zahran, umas das mais movimentadas de Campo Grande.
Em a verdade, o espaço se chama Praça Demósthenes Martins, uma homenagem ao ex-prefeito da cidade, que viveu até os 100 anos.
Virou Praça do Peixe porque vista de cima, a praça tem ...
o formato de um peixe!
A região é conhecida por servir de morada para muitos artistas e professores universitários.
E bem na frente da praça mora Lenilde Ramos, muito mais que compositora e cantora, uma verdadeira guerrilheira cultural e construtora da arte sul-mato-grossense.
Pois bem, a praça estava um verdadeiro matagal.
Então os moradores da região capitaneados por Lenilde resolveram com o apoio da Prefeitura revigorar o espaço com cultura.
Isso há dois anos e meio.
Deu no que deu.
A ' turma da cultura ' espantou os marginais, construiu-se quadras esportivas, quiosques, parquinho para as crianças, ciclovia, aparelhos para ginástica ...
e, o principal, o lugar virou arena para encontros culturais.
Desde que começou o movimento por lá, praticamente todos os artistas da cidade passaram por o palco da Lenilde.
Reuniu as mais diversas tribos, de roqueiros a seresteiros.
Depois de vários arranjos, atualmente os eventos contam com um palco e som cedidos por a prefeitura.
Com o tempo e a regularidade dos shows, não só os moradores do bairro deram a graça, mas gente de toda a cidade.
Tatuados e caretas.
Chega-se a reunir centenas de pessoas quando tocam as bandas mais conhecidas.
O clima é sempre de cordialidade e euforia artística.
Não foi diferente no lançamento do novo disco de Jerry.
Um dia especial, porque o cantor reuniu amigos!
Começando por a própria rapaziada de Campo Grande:
Sandro Moreno, Antônio Porto, Alex Fralda, Guilherme Cruz, mais os ' mandiocas ' Pedro Ortale, Fernando Bola e Anderson Rocha.
Mas o encontro foi interestadual, com músicos de outros estados.
O paulistano Ciro Pinheiro, parceiro de Jerry em diversas canções, como Colisão, aproveitou para divulgar o recém-lançado Solo.
Trouxe junto com ele Paulo Bira, baixista que tocou com Jerry na banda Os Incontroláveis.
De as bandas de Mato Grosso veio o grupo OsViralata com suas violas de 10 cordas e uma performance acústica.
Além de Capileh Charbel, Amauri Lobo e André Balbino, a atriz Anna Marinon declamou durante show e Eduardo Ferreira lançou seu livro EuNóia e aproveitou para trazer para Campo Grande o fantástico Deus de Caim, de Ricardo Guilherme Dicke.
O último a se apresentar foi Rodrigo Teixeira & Mandioca Loca, lá por as dez da noite.
O último evento do ano de 2006 na Praça do Peixe unindo artistas de três estados.
Fico pensando quantas praças existem neste país e como poderiam servir de base para um movimento nacional por a cultura.
Tenho certeza que em outros estados as praças também são ' milagreiras '.
E assim como Lenilde Ramos, outros artistas estão fazendo das praças suas trincheiras culturais.
E o público gosta e comparece.
Número de frases: 59
Enfim! A praça é do povo!
Goiás é uma cidade histórica e cultural que dista 144 km da capital goiana.
Sediou o poder executivo do estado que lhe é homônimo até 1937, quando, então, o governo foi transferido para a cidade de Goiânia.
Atualmente, é «Patrimônio da Humanidade» e ainda testemunha de que não um simples tombo, mas de que toda uma rede discursiva é necessária para trazer significados e visibilidade a uma cidade.
Processo inicial de construção da memória de Goiás
Acredito ser fundamental que o indivíduo envide esforços para perceber os «caminhos» de construção cultural da sociedade em que está inserido.
Isso contribui para a percepção da dinâmica social, para a formação geral desse indivíduo, tornando-o mais apto a intervir em seu meio.
Buscando, portanto, aprofundar o meu entendimento sobre a cidade de Goiás e também, por analogia, perceber generalizadamente como a identidade histórico-cultural de um povo (como o povo brasileiro, por exemplo) é construída politicamente através de processos discursivos de identificação e valoração de certos elementos presentes no meio, em detrimento de outros elementos, trilhei a construção de Goiás enquanto local representativo de memória.
Li o texto Goiás:
a invenção da cidade «Patrimônio da Humanidade» para embasar as minhas conclusões.
Abaixo, relato o meu entendimento sobre o quê diz o texto:
Ao longo dos anos após a transferência da sede do poder executivo estadual, a cidade preterida caminhou para a delimitação, a criação e a preservação de sua memória, fazendo disso um meio de subsistência econômica.
Por intermédio de um processo de construção simbólica arquitetado basicamente por a OVAT (Organização Vilaboense de Artes e Tradições), por Cora Coralina e por o órgão do Patrimônio Nacional instituiu-se Goiás como local de memória histórico-cultural de importância nacional e internacional.
Quando, na década de 1950, o órgão do Patrimônio Nacional chegou ' a cidade para realizar tombamento de bens arquitetônicos setecentistas, encontrou oposição das «famílias tradicionais» da cidade.
As pessoas contrárias ao tombamento supunham que isso equivalia ' a condenação da cidade que até a pouco simbolizava o presente-a o atraso, ' a estagnação, ' a morte.
O órgão do Patrimônio Nacional, apesar de tudo, impôs o tombamento sobre os imóveis que julgou representativos da memória nacional.
Aponta-se, entretanto, que o órgão do Patrimônio Nacional tenha selecionado apenas elementos arquitetônicos isolados e representativos da elite local (exclusão de templos não-católicos, senzalas, bairros operários).
Sinaliza-se também que não tenha gerido efetivamente o espaço urbano que criou, de forma a trazer desenvolvimento econômico ' a região.
Em a década de 1960, foi criada a OVAT, que interveio significativamente na dinâmica social.
Ela se motivou em criar o futuro econômico da cidade, com base no turismo histórico-cultural.
Entre outras ações, reuniu o acervo de arte sacra que se encontra no Museu de Arte Sacra da Boa Morte e reintroduziu a Procissão do Fogaréu no calendário da cidade.
Em 1978, o órgão do Patrimônio Nacional iniciou nova intervenção em Goiás.
Realizou novos tombos (circundando e interligando os imóveis anteriormente tombados) e mudou seu proceder político, somando esforços com a OVAT em favor do turismo.
Posteriormente, entrou em cena a Unesco.
Foi proposta a essa instituição, para figurar como Patrimônio da Humanidade, a área da cidade que foi tombada em 1978 (com as construções mais antigas), acrescida de ruas típicas do século XIX que circundavam as primeiras.
De essa forma, contemplou-se momentos distintos da história.
Em o dossiê de proposição ao tombamento mundial, Cora Coralina também foi referenciada como símbolo da cidade, enquanto doceira e escritora da memória urbana.
Em 2001, por fim, veio a obtenção do título de «Patrimônio da Humanidade» para a cidade que nos dizeres do dossiê é:
testemunha da maneira como os exploradores de territórios e fundadores de cidades, portugueses e brasileiros isolados da mãe pátria e do litoral brasileiro, adaptaram a realidade difícil de uma região tropical aos modelos urbanos e arquitetônicos portugueses, e tomaram de empréstimo aos índios diversas formas de utilização dos materiais locais
último exemplo de ocupação do interior do Brasil conforme praticado nos séculos XVIII e XIX
Analisando o texto, concluo sobretudo por o poder interventor do Estado nas dinâmicas sociais.
O Estado é capaz de determinar o quê é ou deixa de ser de interesse público, trazendo sobre a sua guarda / proteção os bens de interesse e desconhecendo aos demais, conforme seu próprio critério.
Critério tal que pode ser modificado ao longo do tempo, conforme a discricionariedade estatal.
O Estado é legítimo representante do povo e, nessa medida, é depositário do interesse coletivo e por esse se pauta, ao menos até que se prove o contrário.
Possui, por conseqüência, a legitimidade de fazer valer as suas decisões acima de quaisquer interesses particulares.
O Estado sendo forte, então, realmente consegue valer o seu direito de imposição ...
Pautando-se por os seus interesses / visões e em conformidade com o que não é vetado por o Estado, podem agir os indivíduos.
Assim, podem atuar diretamente na construção dos lugares, concorrendo entre si e com o Estado;
e podem ainda somar esforços entre si ou com o Estado;
ou mesmo apontar caminhos, por intermédio do exemplo, para futuras intervenções estatais.
De essa forma, em Goiás, Estado e sociedade concorreram, entendendo-se concorrrência como sinônimo de forças isoladas, embora nem sempre em atrito com outras, ' as vezes apenas com falta de eco.
E também somaram esforços, projetando a cidade ' a medida que atribuiram uma série de valores ' a mesma.
Detalhes sobre Cora Coralina
«Cora Coralina «" mapeou», através da literatura, a cidade de Goiás, ajudando na rede discursiva de valoração do local.
Segundo o portal da cidade de Goiás, Ana Lins dos Guimarães Peixoto é seu nome de batismo.
E, nasceu em Goiás, local outrora denominada Villa Boa de Goyaz, no ano de 1889.
Escrevia desde os primeiros tempos em sua terra, apesar de dois fatores:
a «pouca recomendação social» de que as moças de seu tempo o fizessem e os seus parcos estudos formais.
A os 20 anos, juntou-se a Cantídio Tolentino Bretas, indo residir com esse no estado de São Paulo.
Dedicou-se ao comércio:
oferecendo livros de porta em porta e depois sendo proprietária de estabelecimento comercial.
Colaborou com a Revolução Constitucionalista de 1932.
Interessou-se por a criação de um partido feminino e lutou por o voto na UDN.
Em 1954, já viúva, retornou ' a Goiás, onde escreveu memórias pessoais e memórias da cidade.
Ao mesmo tempo, foi doceira, fazendo da culinária o seu meio de subsistência.
Quando chegou ' a cidade, contrastrou com a elite local que ainda se ressentia com a mudança da capital e iniciou a escrita da memória da temporalidade e dos espaços de Goiás ao recordar lugares, objetos, personagens e acontecimentos percebidos por si ao longo de sua vida.
Recontou inclusive a história de locais excluídos por o órgão do Patrimônio Nacional.
Conto a estória dos becos, dos becos de minha terra,
suspeitos ... mal afamados
onde família de conceito não passava
«Local de gentinha» -- diziam virando a cara.
Cora Coralina foi, eu diria, uma mulher engajada em questões sociais, que se destacou por sua produção literária em prol da criação da memória coletiva de Goiás, colaborando com a valorização histórica e turística da cidade.
Foi exemplo de que, embora a educação formal possa gerar oportunidade pessoal de inserção econômica em contextos em que um diploma possa figurar como pré-requisito, a educação acadêmica nunca foi indispensável ' a capacitação intelectual.
Faleceu em 1985, tendo sido testemunha da possibilidade de um envelhecimento harmonioso, com participatividade social e realização pessoal.
Ainda no ano de sua morte, foi prestada a ela uma homenagem com a criação de um espaço em sua memória, no local que lhe serviu de moradia.
Obviamente, o espaço criado veio a ser mais um elemento da rede de valores da cidade.
Novos atores da construção da memória
A universidade pública brasileira é financiada por os brasileiros e, nessa medida, justifica a sua existência em função do papel catalisador de desenvolvimento social a que se presta.
Assim, entende-se o ensino, a pesquisa e a extensão no seio da universidade:
como meios de ação em favor da sociedade.
Meios úteis por capacitarem pessoas para intervir em prol do desenvolvimento social do meio em que a universidade se insere, por gerarem tecnologias e saberes, por intervirem diretamente na nossa sociedade.
Corroborando com tal idéia, cito o " Projeto Arte e Atos Goianos:
a natureza feminina do cerrado " em que a UFG (Universidade Federal de Goiânia) esteve diretamente contactada ' a sociedade de Goiás, gerando conhecimento para os alunos envolvidos no trabalho e apoio ao desenvolvimento econômico da região.
Tratou-se de um trabalho de extensão da UFG realizado em consonância com a política nacional de extensão que concebe a extensão como «um processo educativo, cultural e científico que articula o ensino e a pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre universidade e sociedade».
O trabalho de extensão, segundo o relatório que produziu, focou o artesanato e sua importância para construir a identidade histórico-cultural em Goiás.
Além disso, assumiu uma postura niveladora de diferentes manifestações culturais:
do conhecimento acadêmico e do conhecimento da sociedade, da arte erudita e do artesanato;
contribuindo para quebra de preconceitos no seio da universidade e também, ao mesmo tempo, dar voz ao mesmo tempo aos indivíduos socialmente excluídos e ' as múltiplas formas da cultura.
Realizou-se entrevistas com quatro artesãs e, a partir de então, procurou-se entender a produção de elas em sua relação com suas histórias de vida e seu contexto social.
O projeto foi embasado em leituras e discussões sobre cultura popular (popular entendida por a representatividade que encontra num povo;
em oposição ao erudito, ao fazer inventado individualmente), artesanato, multiculturalismo e cultura brasileira.
E, sobretudo considerou-se o falar das quatro mulheres enquanto pessoas que abriram as portas de suas casas para compartilhar de suas vidas.
Em o desenrolar do trabalho, produziu-se postais para potencializar a divulgação dos produtos comercializados por as artesãs e um vídeo para favorecer a divulgação cultural.
O vídeo procura definir as artesãs enquanto mulheres e criadoras, tendo sido exibido no Fica (Festival Internacional de Cinema Ambiental) e no Festival de Cinema Feminino.
O fazer artístico das mulheres foi percebido, por os estudantes, como forma de resistência ' a pobreza e aos preconceitos impostos ' a mulher.
Percebeu-se ainda que as artesãs alicerçavam sua produção na tradição familiar pautada por a estética feminina, que é também aquela que fundamenta a estética familiar.
O projeto, ao meu ver, é exemplo da existência da dinâmica social, de que um somatório de acontecimentos se sucedem concorrendo para a constante invenção / reinvenção dos lugares.
É ainda exemplo de que trabalhos desse teor, realizados por iniciativa acadêmica ou de outros grupos sociais, são importantes para dar voz ' as pessoas excluídas, oprimidas em meio aos conflitos da pluralidade cultural brasileira.
Número de frases: 88
Há três anos, em Fortaleza, o Projeto Noise3d nascia das mentes de Dado e Denis Dead.
Tendo como lugar o Ritz Café, freqüentado por pessoas antenadas com a nova música local e internacional, o projeto logo ganhou adeptos e passou a fazer parte da agenda cultural da cidade.
Com o fechamento do Ritz Café, a festa dispersou-se, acontecendo esporadicamente em diversos locais, mas sem o brilho e o espírito de outrora.
Após algum tempo de busca, o projeto achou um lar.
Um pequeno galpão na rua Senador Almino, nas proximidades do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, tornou-se sede de uma das casas alternativas mais queridas da capital cearense.
Com o mesmo nome do projeto, o Noise 3d surgia com a proposta de trazer boa música e diversão de qualidade para os órfãos de clubes como o Domínio Público e o próprio Ritz Café, além de ser ponto de encontro dos mais variados tipos de público.
Indie, eletrônica, rock e outros estilos musicais encontram no Noise 3d espaço para se manifestar.
Democrático, o clube dá oportunidade para seus freqüentadores exercitarem seu poder diante das pick-ups com festas temáticas e os já tradicionais projetos direcionados ao brit pop e ao punk.
Bandas cearenses e nordestinas promovem apresentações emblemáticas, contribuindo para a formação de um público fiel e acalorado.
Essa semana, o clubinho comemora seus dois anos de atividade, firmando-se como lançador de tendências e contribuindo para, pelo menos, tentar afastar o marasmo que teima em tomar conta de Fortaleza.
Nomes como a banda paulista Forgotten Boys, o jornalista Lúcio Ribeiro e o grupo Montage já deram as caras por o Noise 3 d, tido como palco para a sempre crescente cena musical cearense.
Vida longa ao Noise 3 d!
Serviço:
Noise 3d Club
Funciona de quinta à sábado, sempre após as 22h, e eventualmente, aos domingos.
Em o bar, um pequeno bazar para vendas de cd's de bandas locais e camisetas do n 3 d.
Rua Senador Almino, 209 -- Praia de Iracema
Fortaleza -- CE
Tel.: (85) 3219.3409
Número de frases: 19
noise3d@ig.com.br www.noise3d.blogger.com.br «Sexismo, Toxicomania, Alcoolismo, Violência!».
Talvez essa seja a resposta para a pergunta-título da matéria.
Esses termos nada moralistas e dignos de um Velho Safado como Charles Bukowski constam na página pessoal do tresloucado, performático e polêmico músico pernambucano Grilo no site Trama Virtual.
O decompositor -- como se auto define -- é figura conhecida aqui no estado faz um bom tempo.
Membro da produtora de vídeo experimental Telephone Colorido e ex-Molusco Lama (quem conhece, sabe o peso disso), o inquieto sujeito também faz parte de vários projetos na área musical.
Como os grupos:
Gnomos da Metrópole, Conceição Tchubas, Pajé Limpeza, Geladeira Metal, e agora Grilowsky.
É comum «esbarrar» com Grilo por a internet divulgando suas inúmeras investidas, como também encontrá-lo em festinhas lançando mão de seu Jazzy Metal nonsense puramente intuitivo.
Seja lá o que isso for.
Agora, Grilo atravessa um novo momento na intensa carreira que construiu nesses dez anos.
Enfrentou nada mais nada menos que 194 bandas nas eliminatórias do concurso Pátio do Rock.
Conseguiu um lugar entre as dezesseis que vão a final.
Por messenger, nos concedeu uma entrevista que mesmo não contemplando temas como:
sexismo, toxicomia, alcoolismo e violência, ficou bem interessante.
Confira aí embaixo.
Giro:
Quem é Grilo?
Que projeto é esse?
Como começou?
Grilowsky-Cara, a idéia pegou mais quando no Rio de Janeiro fiz Gatinha Vitiligo com Flu (De Falla).
Daí em diante, retornando a recife dei continuidade.
Aconteceu a instiga mesmo antes, num show do Conceição Tchubas no Garagem, em que passei o baixo pra Paulinho do Amparo (3 Et's Records) e assumi os vocais de improviso.
Adorei aquilo, desde Gnomos da Metrópole que não cantava com tanta vontade.
Aos poucos fui gravando em casa mesmo.
O primeiro disco já saiu, chama-se FIC-SCI e foi lançado no Spa das Artes deste ano.
É um cd-book, um conto que eu compus a trilha sonora para a leitura.
Pra mim é o trabalho mais maduro e interessante.
Giro:
Então quer dizer que todos os projetos que você está (ou esteve) envolvido, contando também com o Geladeira Metal, faz parte do repertório de Grilowsky?
Grilowsky-Na verdade esse show do Pátio do Rock vai ser uma detonação.
Espero reunir no mesmo palco pra acompanhar a lombra o Conceição Tchubas e o Geladeira Metal.
O show deve passar um pouco desses 10 anos de carreira fonográfica com novas versões do Pajé Limpeza, Gnomos e hits do verão do Geladeira e Grilowsky.
Além de muito improviso monstruoso, alternando do pop até a música extrema.
Convidei também Filipe do Noisiv, conheço ele há tempo e ele se instigou em tocar flauta transversal.
Estarei com algum instrumento pra conduzir a dinâmica da apresentação, que será mais performática e plástica do que um show de rock convencional.
E não vai ser careta não.
Será uma apresentação libidinosa, com cheiro de sexo e sangue.
Giro:
Muita gente não entende a música que você faz.
Naturalmente as pessoas buscam uma melodia pop ou acha que é tudo tiração de onda.
Como você lida com a conturbada relação da sua arte com o público?
Grilowsky-Não é arte.
A minha intenção é minha lombra pessoal mesmo, dentro da dinâmica emocional da hora a música se decompõe e compõe.
Giro:
Por que não é arte?
Grilowsky-é apenas expressão mesmo!
Em a verdade fico surpreso quando a galera diz que adora o Geladeira Metal, pois aquilo é pau de dar em doido.
Não sei se é arte ou não, deixo isso para a curadoria.
Me gratifica compor coisas como Gatinha Vitiligo e ter participado do Gnomos, que fazíamos um som que a galera demorava a digerir.
Giro:
Acho muito interessante essa tua dicotomia.
Grilowsky-Não é dicotomia.
É politomia.
É pra tudo quanto é lado saca?
Jogo coisas aonde a rosa dos ventos não possa indicar.
Se perder no desconhecido da criatividade, se dar o prazer de entrar num buraco negro e de repente ver pirilampos coloridos lá.
A ordem dos fatores não altera o produto (risos).
Giro:
Como foi a experiência de produzir com Flu?
Grilowsky-Limpeza, o cara é tranqüilo demais.
Já admirava o trabalho de ele com o De Falla e os trabalhos solo.
Ele compôs Gatinha Vitiligo e fez bases e mix fatal de Jackeline Negão, que é de Lourival Batista e fazia parte do Pajé Limpeza.
Em a verdade o Grilowsky termina sendo algo que a partir de coisas «pop» levar ao público a insanidade criativa de uma galera toda, saca?
Giro:
E Gatinha Vitiligo?
Foi homenagem a alguém?
Grilowsky-.-risos) Fiz pra uma amiga, mas o nome eu não revelo.
Giro:
Ela achou legal?
Grilowsky-Amou.
Em a verdade as garotas adoram, e me surpreendi com a excelente aceitação de Ninfeta Daniela no público feminino.
Giro:
Tu curte as músicas produzidas aqui?
Tem alguma banda que tu pira de verdade?
Grilowsky-Das mais recentes curto muito o trabalho de Thelmo Cristovam, Hronir, Ahlev de Bossa, Combo de Improviso, Embuás.
Essa parada mais Guiodai mesmo de improviso.
Em o pop rock curto muito Paulinho do Amparo e Isaar.
Acho massa toda essa galera que citei, pois elevam a dimensão da música pra outro plano saca?
Giro:
Perfeito Grilo.
Achei importante teu trabalho se classificar para o Pátio do Rock.
Pois te vejo um ET no meio de todas aquelas bandas.
Grilowsky-.-risos) Também acho, na verdade o show poderá ser uma experiência sensorial estranha para o público acostumado ao bom e velho rock ' n ' roll!
* A apresentação será dia 25 de novembro (20h30), no Pátio de São Pedro (Bairro do Recife).
* * na web:
http://www.tramavirtual.com.br/grilowsky * * * outros links:
geladeira metal:
http://www.tramavirtual.com.br/artista.jsp? id = 52418
http://www.youtube.com/watch? v = KJCI9 EdAom0
epiléptico sonrizal:
http://www.youtube.com/watch?
v = NKk4 Aih6ySo
página pessoal:
http://www.orkut.com/ Profile.
aspx? uid = 6149125834883762538 --
Texto publicado originariamente na revista eletrônica Giro Cultural (www.girocultural.com).
Número de frases: 96
Em o dia 15 de Maio de 2004, assisti a um show musical que marcou a minha vivência sonora e cultural.
Em uma hora e pouco mais de apresentação, um virtuoso instrumentista demonstrou uma sensibilidade ímpar ao dedilhar suas composições que me deixaram emocionada.
A platéia não estava lotada nem em sua metade, porém este cenário só vem demonstrar o quanto é latente a necessidade de uma divulgação eficiente da Música Regional de Mato Grosso do Sul, que se revela com um grande número de talentos em sua maioria anônimos.
Em um caldeirão sonoro ouviu-se a música sul-mato-grossense numa versão diversificada com arranjos baseados na sonoridade árabe e africana.
Músicas essas que me transportavam para um mundo transcendental.
Escrevo aqui sobre Antônio Porto, esse artista que já tem 26 anos de carreira e uma enorme bagagem cultural conquistada durante suas idas e vindas de países como Itália, Áustria, Alemanha, Unidos, África e Ásia Menor.
Sujeito meio excêntrico não pode negar que o sangue aquariano corre em suas veias.
Nasceu em 29 de janeiro de 1966 em Campo Grande.
A os 10 anos começou a tocar os primeiros acordes do seu violão enquanto escutava compositores da geração Tropicália e Geraldo Espíndola.
Artista inquieto e perfeccionista, declara que vive a música 24 horas por dia.
É muito comum pegá-lo distraído, com o pensamento longe ...
Parece até que nem se importa com o que está acontecendo neste mundo.
Poderíamos chamar esses momentos de catarse musical?
Busca a beleza do «outro lado» para fugir de uma realidade cheia de contradições.
A primeira vez em que me deparei com este artista ele tocava num grande encontro musical chamado Sarau do Zé Geral.
Em este dia, ao apreciar duelos musicais entre instrumentos, comandados por músicos que vinham de todos os cantos da cidade, fiquei pensando nos caminhos que a vida toma.
Um artista de Campo Grande encontrou seu destino profissional lá do outro lado do mundo.
É reconhecido internacionalmente e aqui na sua terra natal poucos sabem sobre ele ...
Talvez por isso seja uma pessoa reservada e que somente se sente à vontade quando se expressa por suas letras musicais e composições sonoras.
Tudo isso agravado por os 10 anos de vivência em terras germânicas.
Toninho Porto encara sua vida musical como uma missão que tem que cumprir nessa vida.
E vive intensamente essa crença.
Depois de ter feito muitas parcerias e ter sido convidado para assinar como diretor artístico de muitas gravações musicais tanto de artistas sul-mato-grossenses quanto brasileiros, finalmente lançou seu primeiro CD solo, o título Nômade.
O disco agrada do começo ao fim a quem aprecia a música multi-étnica.
É uma obra sofisticada e se você se considera uma pessoa culta, e concorda com as palavras de Octavio Paz que diz que ser culto é pertencer a todos os tempos e lugares sem deixar de pertencer a seu tempo e lugar, com certeza vai comprá-lo e tê-lo como um dos favoritos.
O músico deu uma entrevista exclusiva para nosso site onde falou sobre sua carreira e sua experiência internacional:
1-Como você descobriu que queria ser músico?
R. Eu acho que eu nasci neste mundo para ser músico.
É minha missão.
Isso ficou claro para mim já quando eu era criança, porque eu nasci numa família de músicos, não músicos profissinais.
O único que levou a música como profissão fui eu.
Mas eu nasci numa casa onde os instrumentos musicais faziam parte da mobília da casa.
Meu pai tocava muito bem violão;
meu irmão e minhas irmãs tocavam ...
Então eu cresci neste ambiente musical.
Para mim foi muito natural o caminho que eu fui tomando na música.
Eu não decidi, ah!
vou ser músico.
A hora que eu vi, já estava neste mundo como músico fazendo o papel que eu vim para fazer mesmo.
2-Quais são os artistas que você ouvia no início da sua carreira?
R. Como eu nasci numa família de músicos, eu tive a sorte de desde criança ouvir muitas coisas boas.
Eu me lembro que o primeiro disco por o qual eu me apaixonei na vida, que eu o ouvia o dia inteiro, era o Tropicália.
Uma criança de 4 ou 5 anos, idade que eu tinha na época, cantava Tropicália.
Eu não sabia o que estava cantando, mas eu adorava aquelas melodias, adorava aquele disco, adorava aquela capa com todos os tropicalistas.
O Tom Zé usava aquele terno de ele muito engraçado, o Gil, Caetano, Rita Lee, Mutantes ...
Estes músicos viraram uma referência para mim.
Logo depois veio aquele disco do Chico Buarque e Caetano Veloso ao vivo, gravado em Salvador.
Foi um disco que é uma obra prima da música brasileira.
Eu não ouvia música de criança, só isso.
E por outro lado, da música instrumental, ouvia os grandes violonistas brasileiros como Dilermando Reis, Canhoto da Paraíba, João Pernambuco ...
Meu pai ouvia muito e eu o via tocar muito isso.
Agora da música regional, o Geraldo Espíndola é um artista que começou a me influenciar bem cedo.
Tinha uma música de ele que eu adorava:
«Ponha na sua cabeça um pedaço de nuvem ...
Ponha na sua cabeça um pedaço de céu ..."
Porém a música regional veio me influenciar definitivamente já na adolescência.
3-Como começou o seu contato com os artistas regionais?
R. O primeiro grupo que eu toquei aqui levando música a sério, fazendo músicas com características de música regional foi um grupo chamado Bem Virá.
Os integrantes eram o Paulo Gê, o Pedro Ortale, o Marcos Mendes, o Gilson Espíndola e Iso Fischer.
Nós fazíamos uma música totalmente autoral.
Esse grupo tinha uma característica muito peculiar, eu trago até hoje um pouco dessa coisa do grupo Bem Virá.
Essa coisa lúdica, aquele capricho de fazer música bonita.
Eu gosto de fazer música que tenha canção também ...
Eu não gosto de fazer música só intelectual.
Existe o lado da música intelectual que é interessante, que trabalha um pouco com a cabeça da gente e que a gente tira um pouco de sarro.
E o grupo Bem Virá tinha muito isso e isso ficou incluído dentro de mim.
Tínhamos entre 15 e 20 anos e esse grupo, hoje em dia, seria um grupo super moderno, nessa onda de Unplugged.
Já éramos um grupo Unplugged naquela época.
4-Quais eram os lugares que vocês freqüentavam aquela época?
R. Campo Grande naquela época era uma cidade muito legal.
Era uma cidade que quem vinha pra cá se apaixonava.
Rolava muita roda de violão, rolava muita serenata.
Eu lembro que eu fazia serenata quase todos os dias.
Tinha barzinho que tinha música ao vivo e depois que acabava a música ao vivo a gente fazia as rodinha de violão.
Os teatros que freqüentávamos eram o Glauce Rocha e o Paço Municipal, onde fazíamos nossas apresentações.
Em aquela época não tínhamos toda essa possibilidade de mídia, de divulgação que a gente tem hoje.
Tínhamos no máximo uma fita demo.
E os concertos dos músicos eram todos lotados.
Eu cansei de tocar com o grupo Bem Virá no Paço Municipal cheio.
Tínhamos que fazer duas sessões.
às vezes o pessoal ficava sentado no chão.
Em o Teatro Glauce Rocha era a mesma coisa.
Ou seja, nós nos conhecíamos, o povo de Campo Grande conhecia a gente.
A gente não tinha CD.
A gente não tinha nem estúdio para gravar.
No entanto, nós éramos conhecidos.
5-Hoje em dia isso mudou?
R. Mudou.
E sou muito sincero, o campo-grandense, principalmente das novas gerações, perdeu o tesão por a música de Mato Grosso do Sul.
Eu não sei por que aconteceu isso.
Eu não acompanhei este processo porque eu não estava aqui.
Mas que antigamente era muito melhor, era.
Em os anos 80 era muito boa a aceitação da música sul-mato-grossense.
Os teatros eram sempre lotados e hoje em dia apresentações com os músicos daqui não tem quase ninguém.
Um teatro pequeno como o Araci Balabanian, às vezes, tem um terço só das pessoas assistindo.
E é bom.
É muito melhor do que muita coisa de fora que vem aí.
Não tem nem comparação.
Os músicos daqui são caprichosos, procuram fazer a coisa legal, uma coisa bonita.
Até mesmo por essa questão de você querer reconquistar espaço.
Os caras vêm lá de fora e mal sabem tocar violão nem cantar.
E vêm aqui, fazem o show e lota.
Só porque têm o nome na mídia.
É uma vergonha isso, pura enganação ...
Essa síndrome da música ruim não acontece só em Campo Grande não.
É em todo o mundo.
Eu digo isso porque eu conheço outras partes do mundo e lá ainda existe um circuito alternativo muito forte por mais que a mídia exerça este poder na mente das pessoas.
Diante da lavagem cerebral que estão querendo fazer nessa humanidade decadente ainda existe a resistência.
Em a Alemanha, na França, na Áustria ainda existe a resistência.
Itália também está tomada por a música medíocre.
Mas nos países mais germânicos, existe a resistência.
Vive-se da resistência lá, e os músicos não precisam sobreviver da música porcaria não.
Eu toco numa banda na Alemanha que tem relação com a música regional austríaca.
E a gente já tocou para 14 mil pessoas.
6-O que levou você a ir para a Áustria?
R. Eu tinha vontade de ir para a Europa.
Em o princípio foi a Itália.
Eu tinha uma irmã que morava lá e tive vontade de sair do Brasil.
Eu sabia que eu tinha que sair do Brasil um dia.
Eu sentia isso.
A Europa sempre me encantou muito.
Eu sempre gostei de Bach, de Bethoven, de Mozart, Chopin, enfim, destes grandes compositores.
Eu queria ir lá na terra de eles um dia.
Eu tinha até intenção de virar um músico assim, fazer música clássica.
Só que o destino fez o que sou hoje e gosto muito do que eu faço.
E a Áustria aconteceu por acaso, eu estava na Itália e um amigo de um amigo meu me convidou para ir tocar lá.
Ele disse:
Você toca percussão?
Aí eu disse:
Eu toco, mas não tenho instrumento.
Ele disse:
O instrumento pode deixar que eu arrumo.
Eu me identifiquei muito com ele e fui ficando ...
7-Qual foi o país que você mais gostou de tocar?
R. Eu gostei de tocar em todos os países.
Toquei na Romênia e foi uma surpresa.
Existem aqueles países que você se surpreende.
Por exemplo, Burquina Fasso -- África.
Meu Deus, o que será disso aí?
O que é que vai acontecer?
Foi maravilhoso, foi lindo!
Uma país que te surpreende acaba ficando na memória.
Existe um certo preconceito, é uma besteira mas todo mundo tem.
Por que Burquina Fasso não é tão legal quanto o Brasil ou Alemanha?
Só por que se chama Burquina Fasso?
É um povo pobre sim, mas eles fazem dentro da pobreza, o melhor possível.
8-Das suas composições quais são aquelas que você mais gosta?
R. Tem uma música minha e do Paulo Simões que eu adoro que se chama Triste e tão bela.
Tem outra música instrumental que se chama Congado, que poucos conhecem.
Gosto muito também da Polca Astoriana, que fiz para o Astor Piazzola.
Olha, eu gosto da maioria das minhas músicas mas tenho um xodozinho por algumas.
Tem uma música chamada Barco da América que eu fiz quando cheguei na Europa.
É uma música que tem um texto muito interessante que reúne várias frases de diversos idiomas e elas se encaixam, elas soam bem.
Barco da América
Thank you Ô Cunhataí, poranguêtê nacion
Yo soy loco por ti Madre questro mar
Orai para o nobis quando navegar
Nuestro barco de América
Ê Pantanália, Ê Catingália,
Ê doida paulicéia
Merci beaucoup, de coração
Número de frases: 161
Good bye Brasiléia!
Paulo Reco era conhecido por sua contagiante alegria e por beber cachaça como um dromedário pau-d' água.
Morreu de complicações inclusive, cirrose.
Morou ali na Rua do Pilar, no meio certo da ladeira, no tempo em que o boteco do Raimundo era o vizinho barulhento da Matriz.
Outro talento notório do cativante Paulo era a interpretação de vários sucessos de Frank Sinatra -- My Way, New York, por exemplo, com direito a trompete e surdina.
Haja bossa.
Gosto de lembrar do Reco assim, the one-show-man.
Entretanto, a maior virtude do falecido amigo era sua incrível presença de espírito, tinha respostas para todos os dilemas espirituais ou mundanos, soluções para todos os impasses da vida e com uma dose de humor e fina ironia que hoje poucas vezes percebo no ser humano, de fazer boa inveja.
Certa vez, Paulo tinha somente 25 centavos para tomar uma cachaça que há tempos custa 50 nos botequins, das mais vagabundas.
Peço perdão aos leitores por o meu anacronismo econômico-financeiro, o caso aconteceu no tempo do Fernando Henrique, mas a razão pecuniária continua a mesma.
Certo é que nenhum botequim em Minas vende meia-cacha ça, que eu conheça.
A o adentrar o Raimundo, que às dez da manhã andava solenemente às moscas, depara com um estrangeiro -- italiano se bem me lembro -- e uma dose dupla de uísque cowboy pronta para ser sorvida com prazer.
E o Paulo com 25 centavos.
Outra virtude do Reco era a fantástica habilidade para se comunicar com qualquer pessoa em qualquer idioma, em qualquer lugar, inclusive em javanês.
Não deu outra.
Com meia dúzia de palavras e gestos o forasteiro era conhecido antigo do Paulo camaleão, íntimo até.
E o copo de uísque ali, esperando.
Conversa vai, conversa vem, nosso Sinatra tupiniquim deu o bote:
-- Amigo ...
Aposto 25 centavos que eu bebo esta dose de uísque sem botar a mão no copo;
quer apostar?
Aposta, não aposta.
Aposta não aposta, Aposta, não aposta.
Apostado. E o Paulo bebeu o uísque do gringo com uma vontade de fazer gosto, lambendo os beiços de satisfação.
O italiano protestou:
havia sim, o desafiante segurado o copo, inclusive com ambas as mãos!
Que despautério!
A o que nosso amigo falecido -- que Deus o tenha!--
respondeu imperioso:
-- Tens razão!
Acabas de ganhar 25 centavos ...
E saiu cantando:
Número de frases: 32
-- " And now the end is near, and so I face the final curtain ..."
Bom, eu resolví relatar este período do jeito mais sincero e imparcial possível, pois fiz parte disso e percebi que tem muita gente construindo mitos, se aproveitando da falta de documentação jornalística séria.
E outra, não me importo o que as pessoas vão achar, é um simplório blog que poucas pessoas vão ler.
Não busco nenhum reconhecimento pessoal.
Se na época que eu estava na ativa, tocando, não ligava pra essas bobagens, não vai ser agora que vou buscar uma coisa tão fútil.
Tudo começou depois de 1987, quando eu tinha desencanado do Heavy Metal e tava andando de skate, escutando vários sons.
Conheci o Ronaldo, que trampava numa oficina de motos perto da minha casa.
Ele tinha me visto com estojo de baixo elétrico e perguntou se eu estaria a fim de tocar com ele.
Então conheci o Marcelinho que cantava, o Marcos na bateria.
Em aquela época era muito difícil ter acesso a bandas mais atuais de Hardcore.
Com eles eu aprendi a trocar correspondência no exterior e obter discos bem mais baratos e impossíveis de ter por aqui.
Não tinha internet e CD, era tudo por carta.
Tinham pouquíssimas bandas mais atuais, que fugiam do modelo europeu punk.
Lógico que tinham as bandas à frente de seu tempo, como o Colera e Olho Seco, mas estas já não tinham tanta atividade depois do boom do punk no Brasil.
As poucas bandas que heroicamente tocavam por aqui em casas direcionadas ao público Dark (antes do termo gótico), eram o Síndrome de Down, Hatred, mais sintonizadas com o HC americano.
As outras bandas, mesmo que novas, ainda tinham laço com o HC europeu, divulgado por o selo New Face em SP.
Entrei na banda, mas nunca chegamos a tocar em público ou gravar uma fita K-7 de ensaio que fosse.
Mas nossa atividade com o intercâmbio no exterior e aquisição de discos e publicações foi muito intensa.
Posso afirmar que o Marcos foi o pioneiro do Straight Edge no Brasil.
Lembro quando ele recebeu o LP do Youth Of Today por o correio, o We ´ re not in this alone, e as primeiras bandas que compuseram o cenário Straight Edge.
Marcos queria que nossa banda fosse assim e o Marcelinho não quis participar.
Então nossa banda, o Energy Induction, nunca saiu de poucos ensaios em estúdio.
Em o começo dos 90, tentei montar uma banda com meu amigo Francisco, que andava de skate com mim.
Então coloquei um anúncio na galeria do rock, na loja do Quinha, a Tok-Entre, uma das únicas lojas da galeria que tinha LPs usados importados de HC americano, como 7 Seconds, Suicidal, Minor Threat etc..
Mas queria gente que curtisse coisas como Mudhoney, Sonic Youth, Chili Peppers etc..
Detalhe, o Marcelinho foi um dos pioneiros do som de Seattle por aqui, comprou o Bleach do Nirvana, em 1990, por minha indicação.
O André (que posteriormente se tornaria um grande amigo e parceiro de banda) também, pois tinha viajado para o exterior e comprado os primeiros CDs do Mudhoney.
Então apenas duas pessoas responderam nosso anúncio.
O Luís, que estava mais a fim de tocar o chamado som «Guitar» e «Garage», tinha influências do Stooges, Television, e não HardCore e Skate Rock.
Mais tarde ele tocaria no Slugmen.
O outro que respondeu nosso anúncio foi o Marcelo Fusco, que estava mais sintonizado com a gente, andava de skate e tocava bateria na banda que tinha com seu irmão, o Torture Squad, de Thrash Metal.
Mas essa banda nem teve tempo de ter nome, pois o Franciso começou a devorar a guitarra e quería tocar mais na linha do Led Zeppelin, Black Sabbath, Iron Maiden.
Em as amizades de bairro, conheci o André e ficamos amigos.
Papo vai, papo vem, resolvemos transformar numa banda só as que tínhamos por a metade.
Incentivei o André a cantar mais e seu amigo Carlinhos, o Gaúcho, a tocar guitarra, pois ele tocava baixo e violão, mas não levava muito à sério.
Assim montamos a banda, mas sem nome ainda.
Lembrando do nome do disco do Mudhoney, Superfuzz Bigmuff que era o nome de pedais de efeito para guitarra, vi o pedal que meu irmão tinha em casa, um Ibanez Tube Screamer e achei legal.
Falei com o pessoal e toparam adotar como nome da banda.
Nascia o Tube Screamers.
Em os meus rolês por as galerias do centro, na galeria do rap como é conhecida hoje, tinham as lojas Final Solution, London Calling e Bizarre que tinham LPs e alguns poucos CDs de Punk e Hardcore, onde eu ia gravar fitas K-7 dos LPs, que eram muito caros.
E a Final Solution do Gino e Beto, foi a pioneira nos sons de Seattle e coisas ligadas à cena de New York, como o Sonic Youth, Dinosaur Jr, etc.
Depois de um tempo o Zé Antonio do Pin Ups começou a trabalhar na Final Solution.
Eu gostava do Pin Ups, que só tocava em lugares como o Espaço Retrô do Roberto Cotrin, reduto de góticos pessoal do EBM, alguns punks, etc.
E o Pin Ups fazia uma barulheira infernal, no estilo do Jesus & Mary Chain, My Bloody Valentine, mas tocavam sons do Stooges.
O Pin Ups era mais na onda de Guitar bands, o pessoal da Inglaterra.
Aí fiz amizade com o Zé, falei que tinha curtido os shows do Pin Ups, falei que tava começando o Tube Screamers, que curtíamos o novo som de Seattle, o Sonic Youth e tal.
Aí ele achou legal uns moleques tarem fazendo uma parada assim.
E paralelamente o Carlinhos Gaúcho, que era figura presente nas baladas do rock, conhecia muita gente, falou da nossa banda para a Alexandra, que era baixista do Pin Ups.
Ela iria comemorar seu noivado com o João Gordo do Ratos do Porão no Der Tempel do Gigio, com um monte de bandas tocando.
Aí ela quis que a gente tocasse, por ser amiga do Carlinhos.
Mas a banda tava muito recente e não tinha dado tempo de fazer nem 3 músicas próprias.
A um mês da nossa primeira apresentação, montamos às pressas um repertório com vários «covers», como Mote do recém lançado Goo do Sonic Youth e Hate the Police, do Dickies, na versão do Mudhoney.
mais de 10 bandas querendo tocar, muita briga pra quem iria tocar primeiro, pois o pessoal tava com receio de não ser visto e tal.
Acabou que tocamos pra lá das 4 da madrugada, mas foi muito legal e emocionante, nosso primeiro show.
Bom, logo depois fui à galeria falar com o Zé Antonio.
Ele gostou do nosso show e chamou a gente pra abrir o próximo show do Pin Ups no Espaço Retrô, no próximo mês.
Felicidade geral, pois tocar no Retrô abrindo para o Pin Ups era como abrir para o Minor Threat no CBGB!
Aí pensamos em chutar o pau da barraca, chega de Sonic Youth e Mudhoney, vamos tocar Hardcore!
Ensaiamos covers do You are do Bad Religion e Under your Influence do Dag Nasty, que eram coisas totalmente desconhecidas para a grande maioria das pessoas.
Só os que tinham acesso as publicações estrangeiras e intercâmbio, é que conheciam estas bandas.
Então se abriu um novo mundo para nós, conhecemos muitas bandas do cenário «Guitar bands», como o Burn (Koala do Hateen), Cold Turkey (Rafael do Planet Hemp), Garage Fuzz, Mickey Junkies, Killing Chainsaw entre outras.
O engraçado é que o Pin Ups tinha a fama de ser uma banda arrogante, mas fomos meio que «apadrinhados» por eles e isso gerou uma inveja no meio.
Logo o segundo show já teve comentário no programa de rádio «Garagem do Barcinsky e Forastieri», como a primeira banda que tocava som do Bad Religion.
Em aquela época, ninguém falava de Hip Hop e Hardcore.
E as bandas de Hardcore, uma ou duas tinham relação com o skate.
Nós éramos discriminados por isso, muita gente fala que era coisa de moleque, o pessoal que hoje em dia está ai se dizendo das antigas do Hip Hop e Hardcore só queria saber do que tava em voga no momento, tanto no underground como no tal do mainstream.
Mesmo os membros do Garage Fuzz, tendo conhecimento e terem participado de bandas de Hardcore, estavam no contexto das «Guitar bands».
E fomos seguindo com a nossa banda, sempre preocupados em fazer um som com que nos sentíssemos bem, falando de skate (todos da banda andavam de skate), da vida cotidiana etc, pois estavamos cansados das letras da época da Guerra Fria das bandas veteranas.
E sempre com o intuito de não estagnar.
Não sei se já existiam outras bandas, mas o que posso afirmar é que a gente, graças ao Pin Ups, a amigos e ao nosso empenho, ajudamos abrir espaço para o cenário Hardcore em outras áreas.
Em o Violence, IML e tantas outras conseguiram tocar em outros lugares, gravar em coletâneas e seus próprios compactos e CDs.
A indústria musical estava de olho no underground novamente.
Como sempre os oportunistas se infiltraram, como os selos Tinitus, Banguela, tentando faturar quando o Nirvana virou febre mundial.
à parte do Grunge, que para nós tinha se tornado uma palhaçada, fomos abrindo caminho com o Hardcore e tocando toda semana no Der Tempel do Gigio, que ficava na Rua Augusta, Centro.
Com o tempo apareceram novas bandas, como o Kangaroos in Tilt, Cuervos, Cold Beans, etc.
Em esse período o André se mudou pra Campinas e entrou em contato com seu primo que toca no Muzzarellas.
Começa um intercâmbio que resulta na amizade com o Testa, que era sócio da marca de roupas de skate «Dirty Money» que estava crescendo muito, com a nova geração do skate.
Ele resolve nos patrocinar, dando roupas que não obrigava a gente fazer merchandising, e pagar nossos ensaios em estúdio de aluguel.
Começamos a abrir shows do Muzzarellas, que era querida por os rockeiros e punks de Campinas, por o seu som influenciado por o Ramones.
Isso tudo culminou na nossa participação do histórico festival Juntatribo, na Unicamp.
Foram três dias de shows numa tenda de circo armada dentro do campus da universidade.
Detalhe: os organizadores tinham desprezo por o Hardcore e colocaram as bandas de Hardcore no primeiro dia, que teoricamente seria o mais fraco.
Só que o tiro saiu por a culatra, o primeiro dia foi o mais cheio, mais animado e com o som ótimo, ainda revelando o Raimundos desconhecido até então.
O segundo dia, das «Guitar bands», foi bem mais fraco, com vários problemas de som.
Foi lá que entendi a fama de arrogância do Pin Ups.
Todo mundo tocou do jeito que deu, menos eles, que deram o maior escândalo e não fizeram o show direito, desconsiderando o público que ali estava para vê-los, gente de longe, que tinha dormido na relva para o festival, pois a Unicamp é bem afastada do centro de Campinas.
Fora isso, foi muito divertido, conhecemos muitas pessoas legais, gente de fanzines, outras bandas, etc..
O Fábio Massari, que tinha o programa Rock Report na 89 FM e Lado B na MTV, entrevistou a nossa banda, o Kid Vinyl, até um tiozinho mala que era uma espécie de Amaurí Jr. de Campinas.
Estava sendo um ano incrível desde o nosso primeiro show, muita coisa legal rolando pra nós, que nunca imaginamos que iríamos tão longe pra quem pensou em fazer um som pra se divertir ...
A nossa falta de preocupação com o lado profissional de ter uma banda nos levou a atitudes nada sensatas.
Nosso primeiro show, eu Carlos e André estávamos alterados antes de subir no palco.
Nossas baladas nos bares do bairro de Pinheiros e casas noturnas do Centro eram acompanhadas de cola de sapateiro, anfetaminas, álcool etc..
Eu e André acreditávamos numa suposta ampliação mental por o uso de substâncias que alteravam a percepção.
Literatura Beatnik levada ao pé da letra não dá coisa boa, ou Punk, como a letra dos Ramones falando sobre cheirar cola ou inúmeras falando de encher a cara, como Gang Green.
Não pode dar pala para o baterista!
É ...
as coisas tavam indo muito bem e como o Marcelo não era amigo de infância ou de bairro, não sabiámos como ele reagiría a nossa conduta cavalo doido.
Tinhamos medo de ele sair da banda por achar a gente uns drogados de merda.
E achar gente que tocasse esse tipo de som era quase impossível.
Em um dia após um ensaio, convidamos nosso baterista pra curtir com a gente na casa de um amigo, ao lado do estúdio, onde ficaríamos a noite toda escutando um som e ...
ingerindo drogas!
Estávamos alterados de novo e estávamos preocupados com a reação do Marcelo.
Nosso amigo de bairro Fran gostava de cheirar cola e cantar em castelhano, se jogar no chão.
Aí falamos pra ele se comportar e não dar pala para o baterista.
Nós tentando controlar a euforia e o Fran aparece na frente do Marcelo, com um saco de cola na mão dizendo:
«Eu só sei que não pode dar pala para o baterista!"
Como a reação do Marcelo foi achar tudo muito engraçado, relaxamos e contínuamos juntos, mesmo com atitudes absurdas do Carlos e André (cabeças de bagre ...),
que cheiraram dentro do estúdio para rebater a ressaca da noitada anterior.
Ainda bem que percebemos que esse negócio de drogas era uma perda de tempo, que não traria nada de bom para nós, como não traz coisas boas para ninguém.
Isso tudo era um mero reflexo da nossa atitude de desprezar a hierarquização presente no underground, queríamos sempre desafiar as coisas, desde tocar covers inusitados até avacalhar apresentadores notórios de rádio, como na festa do Rock Report no teatro Mars, onde o André pesou na do Tatola (ex-Não Religião).
Sem querer agradar ninguém, chegamos bem além de nossas aspirações.
É claro que isso gerou inveja de gente pobre de espírito, pois o que conseguimos não era nada demais.
Tanto que uma vez que tocamos em Curitiba, só tinha umas dez pessoas e tocamos felizes.
Facada nas costas
Bom, fatos são fatos, as testemunhas estão aí pra confirmar.
Coisas boas estavam pra acontecer com a gente em termos profissionais, mas a mesquinharia estava à nossa volta e nem percebemos.
Afinal o capitalismo estava apostando no underground e muita gente queria se dar bem, ganhar algum dinheiro e principalmente um status de merda.
A nova volta do skate estava rolando, só que com bases muito mais sólidas, marcas e estrutura feita por os próprios skatistas, não por empresários de merda como no final dos anos 80.
Nosso patrocinador, a Dirty Money, tinha dois sócios, os skatistas Testa e Alê Viana.
O vocalista do Garage Fuzz ficou amigo do Alê nessa época.
A Dirty Money estava no auge, tanto que lançariam um video de skate.
Fomos naturalmente chamados pra ter uma música nossa na trilha sonora.
Tínhamos uma única fita demo muito bem gravada em sistema digital, que gravamos no estúdio do R.H. Jackson.
E não é que o vocalista do Garage Fuzz fez a cabeça do Alê Viana para tirar a nossa música alegando baixa qualidade de gravação?!
Nem é preciso adivinhar quem entrou no nosso lugar.
O mais irônico foi o boicote do João Gordo em nós na coletânea de Hardcore de SP, ao ponto de chamar uma banda que já tinha acabado por falta de bandas do gênero.
João Gordo fez isso porque éramos amigos do vocalista do Garage Fuzz, o qual ele tinha sérias desavenças pessoais.
Não pára por aí.
Um amigo do Carlos estava inaugurando um selo independente que só lançaria compactos e queria que o Tube Screamers fosse lançado junto com o Pin Ups.
Em essa época, o tal do Grunge estava em baixa, todos nós estávamos atentos à redescoberta do Funk americano que era promovido por alguns jornais.
Então uma banda de surf music se juntou com conhecidos nossos, e se transformou em banda de funk.
Um dos vocalistas fez a cabeça do dono do selo, dizendo que o nosso som Hardcore já era, que não iria vender nada e que o funk é que tava pegando no momento.
Resultado é que essa banda de funk entrou em nosso lugar e até o dono do selo entrou para a banda de funk.
Agora me pergunta se o selo prosperou ...
E como não pára por aí, a banda do primo do André, o Muzzarellas, fez das suas.
O baixista da banda fez a cabeça do dono da Dirty Money pra não mais investir tanto em nós porque supostamente não tínhamos público.
Que o Muzzarellas era mais famoso, banda que até o momento, não dava a mínima para o skate.
Então o Testa cortou nossa verba de ensaio que era o mais importante porque não tínhamos muita grana.
Como roupa e status não nos interessavam, caímos fora, não bastasse a palhaçada do vídeo de skate.
Uma vez o Carlos teve que viajar e tínhamos show marcado e era muito importante.
Então chamei um amigo pra fazer o baixo e eu na guitarra.
Foi muito legal.
Todo mundo veio elogiar e, ironicamente, pessoas que eram «amigas» do Carlos disseram q estavam melhor sem ele.
Depois um dos integrantes do Pin Ups começou a trabalhar na RoadRunner do Brasil e disse que se tirássemos o baterista, assinaríamos um contrato.
Só pra constar, por dar valor a amizade, perdemos oportunidades concretas da banda se dar bem.
Ironicamente, hoje em dia, os que defendemos não consideram minha amizade e a do André.
Isso me refiro ao episódio Dirty Money.
Tenho muitas testemunhas para comprovar tudo que escreví até aqui.
Não quero honra ao mérito nem nada.
Tanto que caí fora dessa tal «cena Hardcore» em 1994.
Só quero registrar que não há muita coisa a se orgulhar nesse rolê todo, que há muita gente falsa que continua mentindo em favor de mérito pessoal.
Muita gente que desprezava o Skate, o Hardcore e o Rap, que agora depende de eles pra ser alguém hoje em dia.
Se conseguiram transformar D. Pedro I em herói, é dois palito para o que tá rolando ai, rapper que não sabe rimar, skatista que não anda de skate, gente que se diz das ruas e não sabe pegar um busão direito etc..
Número de frases: 153
Mas tá beleza, os impostores podem enganar os trouxas, mas quando chegam em casa e põem suas pesadas cabeças nos sujos travesseiros, sabem da verdade, de coisas que não há dinheiro que compre.
Há exatamente quarenta anos, intelectuais de diversos países convulsionaram o Ocidente ao realizar o Ocidente com mais ímpeto que os séculos prévios.
Jamais a igualdade foi defendida tão docemente.
A revolução sexual começa com a conquista gradual de direitos por pessoas de gênero feminino e de orientação sexual hererodoxa.
Conseguiu-se também que pessoas de coloração heterodoxa não fossem mais tomadas como inferiores impunemente.
As crianças não seriam mais construídas ao bel prazer dos professores.
Os casamentos não seriam mais sentenças de prisão perpétua.
O sexo não seria mais encarado tão somente como mero mecanismo de procriação.
A liberdade veio da igualdade.
Eis porque a direita execra a geração de 68.
Como disse Hobsbawm, com a propriedade de costume, «a Idade Média acabou de repente» na década anterior aos eventos.
Não à toa, Sarkozy falou que a França devia se livrar do «cinismo de 68».
Mas o cinismo é da patotinha do primeiro ministro francês.
Vivemos tempos cínicos porque estamos perdendo o espírito daqueles jovens.
A direita recupera-se de sua própria estupidez e tenta ganhar ares de verdade esquecida.
A intolerância cresce ao redor do globo.
Os racistas e os sexistas ganham batalhas acadêmicas.
A homofobia se espalha.
Mas também aumenta o desejo de fechar-se numa identidade resistente clara e aceitar o discurso reinante de que a desigualdade é inevitável.
Os guetos proliferam.
A liberdade decai.
A sociedade de consumo absorveu os ideais e os esvaziou para mercantilizá-los.
«Eles venceram e o sinal está fechado pra nós, que somos jovens», como diria Belchior.
Woodstock agora só se for «free of drugs».
A nosso redor, quantas práticas terapêuticas!
O que representam?
Quem está doente?
O Ocidente está.
Esqueceu seus fundamentos.
Trocou seus ideais por uma televisão de plasma.
E os jovens a lutar tão só para não pagar o ônibus.
Decaímos.
A morte do criador do LSD, Albert Hofman, na última terça-feira, marca o fim de uma era.
«O sonho acabou» e já não nos deixam dormir.
Vivemos em tempos cínicos, vivemos em tempos desiguais.
A falta de liberdade é conseqüência.
Vivemos em tempos caretas, em tempos beatos, em tempos apáticos.
Tempos mesquinhos, como bem notam Badiou, Bauman e tantos outros.
Como dizia Gonzaguinha em 1981: «Não há nada mais maior de grande do que a pessoa».
Número de frases: 39
É isso que o maio de 68 nos ensinou e agora parecemos esquecer.
Não é de hoje que o espaço itaú Cultural na capital paulistana vem se destacando por a qualidade de suas exposições.
Eu mesma, que não moro em São Paulo há mais de oito anos, tive oportunidade de ver ali o melhor da produção de arte multimídia em visitas esporádicas e, por isso mesmo, livre das expectativas.
De essa vez, porém, a curadoria do espaço foi além e acertou em absolutamente tudo com a Bienal Internacional de Arte e Tecnologia emocão art.
ficial 4.0 emergência.
Esse tipo de exposição já cativa por razões de caráter extra-plástico.
Há nas instalações multimídias o «adendo» da interatividade.
O lúdico dá sempre a primeira fisgada.
Depois ... bem, depois pode ser um desastre ou um enamoramento.
Em o caso aqui, o enamoramento me levou ao casamento.
A variedade de trabalhos não é grande, mas o que falta em quantidade tem o acréscimo da inventividade.
Gravam-se sons emitidos por os visitantes (eu cantei!)
que em seguida são reproduzidos aleatoriamente e simultaneamente num ambiente chieo de microfones e caixas acústicas;
robozinhos simpáticos escaneiam e filmam imagens da sala onde estão e as remetem para um telåo logo na entrada da exposiçao.
Assim, se você não se vê na entrada, provavelmente será visto por alguém que entrou depois na sala.
Os ambientes se sucedem e a vontade de interagir e criar, gerando um novo elemento para a mostra, aumenta.
Existe um diálogo constante entre as obras / instalacões dos pr ® prios artistas e entre tudo aquilo que é acrescido a essas obras / instalações por os visitantes.
Conversa cibernética.
Destaco especialmente, por razões bem particulares (sou uma amante das palavras), o trabalho de Raquel Kogan.
Seus áudio-livros me lançaram ao futuro.
De repente, me vi diante do que seria uma biblioteca, ou uma livraria nos anos 2050 (?),
se deixasse de lado a profusão de ruídos que sua instalação propositalmente gera.
Uma sala de palavras.
Livros de madeira são abertos e de dentro de eles eclodem leituras de trechos de obras variadas.
As favoritas escolhidas por os convidados a lê-las.
Variedade de línguas, de entonações, de interpretações, de pausas, de significados, de temas.
Uma Babel feita de tecnologia.
Bom ... Foi aí que me casei.
Se você não teme o enamoramento e a entrega, não perca essa bienal.
Itaú Cultural:
Bienal Internacional de Arte e Tecnologia: até 14 de setembro.
Número de frases: 31
Pouco mais de um ano atrás, postei, aqui mesmo no overmundo, um texto intitulado «Os oitenta anos de uma Brisa do Mar em Oeiras» onde falava daquela figura impoluta e da perspectiva das comemorações do seu aniversário no dia 25 de setembro de 2007.
Ocorre que tratava-se de um alarme falso, isto é, o gajo se atrapalhara na contageme faria na verdade, meros 79 anos naquela data.
Volto à carga este ano, agora convicto de que se trata dos oitenta anos da nossa querida «Brisa do Mar», o homossexual mais querido de Oeiras, famoso em todo o Piauí.
Carta Aberta Oeiras,
17 de setembro de 2008 A os candidatos a prefeito Aleksandra Tapety e B. Sá
A os candidatos a vice-prefeito Fatinha de Doutor e Mário Freitas
A todos os candidatos a vereador
A os Comitês eleitorais de ambas as coligações
Senhores:
Em o próximo dia 25 de Setembro de 2008 o jardineiro aposentado da Prefeitura de Oeiras José Hipólito Marinho, o Zé de Helena, estará completando oitenta anos.
Serviu com amor e dedicação a todos os governos que se sucederam tendo sido contratado por o já falecido prefeito José Tapety e aposentado no final da gestão do prefeito B. Sá (1986) sendo querido e respeitado por todos.
O excelente conceito que desfruta o Zé de Helena foi também demonstrado no último dia 24 de janeiro de 2008, quando ele recebeu as medalhas do Mérito Mafrense e Renascença das mãos do prefeito de Oeiras, Tiel Reis e do governador do Estado, Wellington Dias, respectivamente.
A acirrada disputa eleitoral que se desenvolve em Oeiras, parte do jogo democrático, faz, no entanto, muitas vezes, que se esqueçam valores tais como o regozijo por o transcurso do aniversário de alguém assim tão querido por todos.
Não há quem possa, independentemente de sua opção político-partidário, deixar de reconhecer a carismática bondade e espiritualidade daquela figura linda que tão intensamente participou da vida cívico-religiosa da primeira capital.
Escrevo aos senhores porque entendo que, sem o menor prejuízo das respectivas campanhas, sem que nenhum possa acusar o outro de manobra, será possível, a par de prestar ao Zé de Helena uma belíssima, merecida e inesquecível homenagem, Oeiras dar, ao Piauí e ao Brasil, uma lição de civilidade e espiritualidade:
que acima das paixões eleitorais há valores imorredouros como a amizade, o respeito e o amor ao próximo.
Minha proposta é simples e clara:
Que os Comitês eleitorais das coligações acedam numa trégua na propaganda dos respectivos candidatos, e que, no próximo dia 25, por minutos que seja, coordenadamente, os carros de som circulem alardeando a seguinte mensagem:
«Parabéns Zé de Helena, por os seus oitenta anos vividos na paz e no bem.
Oeiras te ama, e, nesse dia, quer te dar um abraço arrochado e takar-lhe um beijo caloroso.
Número de frases: 20
Você nos faz ter ainda mais orgulho de nossa terra!"
Há três meses surgiu na rua Tapajós, em Curitiba, o espaço de criação, produção e formação que atua nas áreas de música, áudio e multimídia.
O Astrolábio, antigo instrumento que media a altura dos astros e auxiliava os navegantes na Idade Média, dá o nome ao moderno espaço onde a filosofia do ambiente é o pensar e fazer música e som sob os cuidados e a experiência dos profissionais da casa.
A direção do Astrolábio fica por conta do Vadeco.
Já bem conhecido no meio musical da cidade, o artista se desdobra para cuidar do espaço.
Ali ele dá cursos e workshops, corre atrás das pendências que todo empreendimento necessita e ainda encontra tempo para «pensar e fazer» música com a banda que fundou há oito anos:
Vadeco e os Astronautas.
E foi com o nome do grupo que o Astrolábio conseguiu, com muita garra, montar este lugar sem o apoio de parcerias públicas.
«Em o início, a parceria veio por a minha pessoa, Vadeco.
A banda já tem uma estrada percorrida e foi com isso que conseguimos abrir o Astrolábio.
Hoje são as colaborações vindas de pessoas que se envolvem com o espaço», conta o músico e produtor.
Falando propriamente do lugar, logo nos primeiros minutos dentro do Astrolábio, você consegue perceber o baita profissionalismo que o ambiente oferece.
Tudo é minuciosamente pensado:
aparelhos e instrumentos musicais de primeira linha, salas organizadas e bem equipadas e, claro, a competência de quem teve a «panca» para encarar um empreendimento como esse.
Ali a pessoa pode criar, produzir e finalizar trilhas, efeitos e produções sonoras para teatro, cinema, TV e mídias.
Os detalhes dos serviços são de produção e direção musical;
sonorização de mídias, gravação, edição, mixagem e finalização;
consultoria em áudio e planejamento acústico;
cursos nas áreas de música, áudio e multimídia.
E tudo com o respaldo de gente com gabarito para isso.
Um serviço que Vadeco faz questão de enfatizar é o personal producer.
«As bandas não gravam só as músicas, elas participam do trabalho.
É um conteúdo teórico que explicamos para que os artistas tenham consciência do que estão fazendo.
Estamos contribuindo com a profissionalização de eles:
o saber tocar e como gravar», diz o músico que revela que ao final do trabalho, as bandas ganham um DVD com o making of e um certificado de participação.
Até o final do ano diversos cursos e workshops estão programados no Astrolábio:
produção musical;
sonorização de games;
a cor da voz;
música clássica da Índia;
pandeiro e ritmos do mundo;
a arte da ciência musical.
«As inscrições já podem ser feitas através do site», adianta Vadeco sem esquecer da presença de um bambambam do cinema italiano que conheceu quando viajou ao país europeu.
«Em setembro teremos a presença do diretor Antonello Faretta em workshops falando sobre a produção cinematográfica», conta o músico ao completar que a equipe do espaço está desenvolvendo um cursinho preparatório para o vestibular no final do ano da Faculdade de Artes do Paraná.
Quem se interessou por os cursos oferecidos por o Astrolábio, mas não tem a mínima noção -- ou jeito para a coisa -- pode mudar de idéia.
Tanto que manja de música e som ou quem não sabe bulhufas pode conviver lado a lado na sala de aula.
«É interessante, porque a gente inicia do zero.
Os cursos são variáveis, soltos, livres e nivelamos todo mundo no mesmo patamar.
Discutimos e entendemos o que é ser músico, sem dizer o que é certo ou errado.
A gente sabe o que está fazendo», revela Vadeco que tem na equipe seis profissionais, além de dois artistas de sua banda:
Jorge Falcón e Vina Lacerda.
E falando deste último músico, ele estava à frente dos workshops «Pandeiro Brasileiro» e «Ritmos do Mundo» que aconteceu no último sábado de agosto.
Em a mesma sintonia que o irmão Vadeco, Vina disse que a heterogeneidade dos alunos é válida e enriquecedora.
«É legal ensinar os iniciantes.
Você tem que passar as informações com calma.
Gosto de falar da história do instrumento e junto com quem já tem facilidade faço algumas adaptações», diz o percussionista que lançou recentemente o excepcional livro chamado «Pandeirada Brasileira» no Brasil e em países como Portugal, Itália, Suíça e Alemanha.
Com tantas horas de dedicação ao espaço Astrolábio, como fica a banda Vadeco e os Astronautas?
«Estamos aguardando o edital da Fundação Cultural de Curitiba para finalizar o DVD que gravamos com a orquestra em 2007», conta Vadeco ao dizer que é possível que o registro musical possa estar na praça até o final deste ano e revela que também está trabalhando num projeto solo.
«Estou fazendo um disco meu onde terão várias participações de gente importante não só de Curitiba, mas de São Paulo e fora do Brasil».
Cuidar do Astrolábio, da carreira da banda e do trabalho solo, coloca pessoas como Vadeco -- estende-se ao Vina e ao restante da equipe -- um respeito ao profissionalismo desses artistas que não medem esforços para alavancar a qualidade e a competência para fazer o seu trabalho.
E sempre com muita categoria.
www.astrolabiomusic.com.br
Astrolábio Música -- Áudio -- Multimídia
Rua Tapajós, 844 -- Casa 02 -- Mercês
Cep: 80520-260 -- Curitiba -- Paraná
Número de frases: 55
Tel: (41) 3016-6002 São incríveis as transformações de sentido (ou semânticas, para os que gostam do vocabulário mais fino) que as palavras sofrem ao longo do tempo.
Vejamos o caso de uma tão em voga nos dias que correm, a palavra «cultura».
Derivada da latina «colere», que significa» habitar», «cultivar»,» proteger», foi a partir do século XVIII que ela ganhou sentidos próximos dos dias atuais:
1) substantivo abstrato que indica modo particular de vida, quer seja de um povo, um período, um grupo ou da humanidade em geral (mais próxima de um sentido antropológico);
2) substantivo abstrato que descreve as obras e as práticas da atividade intelectual e, particularmente, artística.
Em a segunda metade do século XX, com o estabelecimento pesado da economia de mercado, «cultura» foi transformada num desejo metafísico universal.
Isto porque, mediante a herança de civilidade que o termo carrega, na sociedade do consumo ela funciona como uma espécie de " mercadoria divina ":
nada como o álibi do dispêndio cultural, o investimento para a alma.
Sob o impulso consumista (e aliado a pressão do medo de ficar de fora das conversas nos círculos sociais), passou-se a adquirir «cultura» (e «arte», outra danada!)
da mesma forma como se compra o novo modelo de calça da estação -- afinal, tudo foi devidamente oferecido, ou melhor, comercializado para se mostrar.
Em este mesmo momento histórico, por outro lado, para os excluídos da festa do livre comércio, «cultura» terminou ganhando um sentido bélico, próximo ao que lhe conferiu o famigerado e sombrio ministro da propaganda e da informação de Hitler, Joseph Goebbels (sampleado por Cadão Volpato no Fellini), que lhe atribuía a seguinte sinonímia:
Número de frases: 11
«Quando ouço a palavra cultura, saco meu revólver».
Com Reinaldo Santos Neves eu aprendi uma coisa:
nada mais indispensável, na literatura, do que a ironia.
Em Sueli, publicado em 1989, há a seguinte passagem:
«A ironia é a santa padroeira deste romance».
É ela que permite ao escritor cruzar sua experiência pessoal com a linguagem do texto, colocando em questão inclusive o que se narra e como se narra.
E ainda por cima, é a ironia quem estabelece uma relação de cumplicidade entre leitor e personagem, ainda que este último seja, tal qual Kitty, aquela patricinha que tira foto da baladinha do «finde» só para postar no fotolog e ser comentada entre a galera da «facul» na segunda-feira.
Essa ironia faz com que a leitura do recém-lançado romance Kitty aos 22: Divertimento seja uma experiência bastante peculiar.
A protagonista bem que poderia despertar a extrema repulsa dos leitores mais jovens:
digamos que Maria Catarina, a Kitty, seja a garotinha fútil que todo indie adoraria esganar.
Faz do blog um diarinho adolescente, e vive mergulhada na «sinfonia de estrobos» proporcionada por as cybershots de bolso a toda hora convocadas pra registrar sorrisos incansáveis para o fotolog.
Ganhou de Daddy um Audi A-3 vermelho, só chama a mãe de «Mummy», de-tes-ta trocadilhos entre seu nome e o da Hello Kitty, é fã tanto do Audioslave quanto do Lasgo, e é claro que suas amigas se chamam Lu, Déb, Pri ...
Uma personagem dessas, nas mãos de um típico escritor da geração 90-00, facilmente seria reduzida a um mero estereótipo, pronta para se dar mal na primeira esquina em que a trama percorresse.
Em as mãos de Reinaldo (que agora em dezembro completa 60 anos de idade), a estória é outra:
ele mergulha nesse universo pop, e se aproveita exatamente do caráter efêmero e mutável desses elementos para construir um enredo sólido, repleto de suspense, subvertendo cada citação em favor das reviravoltas narrativas.
Em lugar de rechear o texto com referências à cultura pop, coisa da qual a maioria dos jovens autores faz uso a fim de declarar filiação a esta ou aquela tribo, Reinaldo as utiliza para descrever minuciosamente o universo do personagem, aumentando inclusive seu grau de estranhamento em relação ao mundo ao redor.
Isso, meus caros, é uma bela aula de ironia.
Um dos mais importantes escritores em atividade no Espírito Santo, Reinaldo confessa-se fortemente influenciado por o tom de distanciamento presente na obra do britânico Richard Hughes, que nunca perdia a fleuma, mesmo quando narrava os episódios mais trágicos.
Em seus textos, Reinaldo acrescenta ainda um alto grau de experimentação, com fartas doses de metalinguagem.
Até porque um de seus exercícios prediletos é a auto-ironia, ao centrar a narração muitas vezes em primeira pessoa, confundindo o leitor acerca da veracidade do que está sendo narrado.
Sueli, que durante anos fez parte da lista do vestibular da Ufes (que há duas décadas inclui obras locais na prova de Literatura Brasileira), e por isso mesmo bastante presente no imaginário de toda uma geração, é um exemplo disso.
Com o subtítulo Romance confesso, o livro parte de um episódio autobiográfico para narrar uma história de amor que nunca deslancha, centrada na paixão platônica do narrador-personagem por uma repórter de TV.
Aqui, usa-se do artifício de trocar uma letra do nome (Reynaldo, com " y ";
da mesma forma que a grafia da Sueli «personagem» também difere da jornalista original) para nos lembrar que alguns episódios são ficcionais, mas as incessantes referências a pessoas, eventos e lugares reais em Vitória confundem o espectador o tempo todo.
Outro típico uso da auto-referencia ção está nas crônicas publicadas na década de 90 (originalmente no site Gazeta On Line e atualmente disponíveis no Estação Capixaba), dentro da série Dois graus a leste, três graus a oeste.
Aqui, as antológicas reuniões semanais do Clube das Terças-feiras, confraria capixaba de jazzófilos de carteirinha da qual Reinaldo costuma participar há uns 12, 13 anos, servem de pano de fundo para as digressões do protagonista, o fictício Garibaldi (no fundo, uma mistura dos pontos de vista puristas de vários dos membros do Clube), célebre por seu profundo ódio xiita a um certo mito do jazz, retratado nos impagáveis dois atos de «A aboborificação de Miles Davis».
Reinaldo costuma dizer:
«Eu não tenho escrita;
tenho reescrita».
E cita o final de Sueli como exemplo desse casamento exaustivo entre autor e texto, esse processo de constante reelaboração, quase obsessiva:
«Posso até, de vez em quando, vir a lembrar-me com certa nostalgia dos dias em que estive a serviço deste romance, ajudando-o, como autor, a se escrever ( ...)
Mas agora chega:
o romance extraiu de mim tudo que pôde:
estou seco e estéril.
Assim, já que estou acabado para o romance, para mim o romance está acabado também.
Nem mais uma só palavra seja aqui dita por escrito, a não ser -- imprima-se."
Nascido em 1946, Reinaldo é herdeiro de uma linhagem nobre das letras capixabas:
o pai, Guilherme Santos Neves, foi um dos principais pesquisadores do folclore espírito-santense, e co-autor (sob pseudônimo) do livro de poesia erótico-satírica Cantáridas (escrito na década de 30 e só publicado nos anos 80);
o irmão, Luiz Guilherme, também é ficcionista e historiador.
A estréia na literatura foi com o romance Reino dos medas (1971), que lhe valeu na época uma menção honrosa do extinto Instituto Nacional do Livro, embora hoje em dia o autor considere este livro uma obra menor, apesar do forte trabalho estilístico presente no texto.
Em um depoimento recente, Reinaldo declarou:
«Este é o único dos meus livros em que a ironia está ausente».
Seguiram-se outros quatro romances:
A crônica de Malemort (1977), todo ambientado na Idade Média;
As mãos no fogo (1983), relato das aventuras sexuais de um jovem de 27 anos na Vitória do final dos anos 70;
e os citados Sueli:
Romance confesso (1989) e Kitty aos 22: Divertimento (2006).
Completam sua obra publicada a coletânea de contos Má notícia para o pai da criança (1995), os poemas de Muito soneto por nada (1998), a novela A confissão (1999) e a série de crônicas on line Dois graus a leste, três graus a oeste (1997-99).
Reinaldo também é um importante fomentador do panorama literário capixaba, tendo estado à frente da Coleção Letras Capixabas, da FCAA / Ufes, que, com seus 40 títulos, lançou toda uma geração de autores nos anos 80, considerada por muitos uma espécie de «época de ouro» da literatura no Espírito Santo.
Desde Sueli, as obras de Reinaldo têm sido publicadas por editoras locais, restringindo em muito o alcance desses trabalhos no circuito nacional.
Essa situação tende a se reverter muito em breve, com a publicação do romance A longa história por a Editora Bertrand Brasil, com a qual o autor assinou contrato recentemente.
Enquanto isso não acontece, Kitty aos 22, seu trabalho mais recente, tem causado um certo rebuliço entre a juventude local, uma vez que o livro tem sido bastante indicado por professores do ensino médio.
As reações ao livro vão desde apaixonadas defesas até declarações de profundo repúdio à garota.
Em essas horas, eu cruzo meus dedos e fico torcendo para o livro ser indicado para os próximos vestibulares da Federal.
Número de frases: 54
Quem sabe ele não faz a cabeça de mais uma geração?
A saga de dois repórteres à procura de gente que quase ninguém vê A pauta que fomos cobrir?
Invisibilidade social.
Ler sobre o assunto, pesquisar algumas fontes, levantar alguns questionamentos.
Nenhuma novidade para um jornalista, ou, até mesmo, no nosso caso, para estudantes de jornalismo.
Agendamos as entrevistas com as fontes oficiais -- aquelas pessoas bem visíveis -- e combinamos que depois dessas, iríamos a campo, procurar nossos personagens -- os invisíveis.
Nós, uma dupla de repórteres, saímos cada qual com seu bloco de anotações e a cabeça fervendo de idéias.
Quando passávamos por a Rua José do Prado Franco, centro de Aracaju, um de nós tentou fazer um sinal para saber se pararíamos ali e entrevistaríamos um pedinte que estava ao lado.
O outro repórter não respondeu ao sinal e continuou andando.
Alguns metros depois, ele comentou:
-- Aqui não tem ninguém para entrevistarmos, é melhor procurarmos em outra rua.
-- Mas e aquele senhor por o qual passamos?
Ele estava sentando pedindo ajuda, não seria um bom personagem?--
perguntou a repórter.
-- Que senhor?--
encerrou ele sem saber de quem a colega falava.
O professor da Universidade Federal de Sergipe Doutor Marcus Eugênio, diz que existem basicamente duas teorias para explicar as causas da invisibilidade social.
A primeira explica a invisibilidade a partir da percepção dos indivíduos.
As pessoas estariam tão familiarizadas com o ambiente que ele não produziria qualquer tipo de estímulo em elas.
Assim, como um pedinte já faz parte da paisagem do centro das grandes cidades, muitas vezes passamos por eles e não nos damos conta.
Depois de ter sido interrompido por alguns alunos do curso de Psicologia e por alguns telefonemas em seu celular, um ótimo exemplo do oposto de pessoa que estávamos procurando, Marcus Eugênio continuou a explicação.
Segundo ele, a outra teoria utilizada por a Psicologia é a da banalização.
Essa tem a ver com despersonalizar os indivíduos.
Muito utilizada no exercício de certas profissões, por exemplo, os médicos quando tratam seus pacientes por o número do quarto em que estão internados ou por a doença de que o paciente é portador.
Qual das teorias, então, explicaria o fato do repórter não ter enxergado o pedinte?
Marcus Eugênio afirma que um pouco das duas.
«Em parte o fato se deu porque os pedintes já fazem parte do centro da cidade e em parte porque já criamos mecanismos para despersonificar esses indivíduos».
Voltamos à Rua José do Prado Franco para tentar saber quem era, afinal, o pedinte.
Ele teve apenas uma resposta para todas as nossas perguntas:
«Nada a declarar».
Continuamos sem saber quem ele é.
Talvez, acostumado a tantas humilhações, achou que nossa investida fosse mais uma tentativa de desrespeitá-lo.
Ele não foi o único que se recusou a falar.
Somente depois de muita andança, encontramos uma jovem que se dispôs a falar um pouco da sua vida.
Sentada em cima de um papelão, Janaína Santos, 25, começou a contar sobre a sua história.
Ela teve paralisia infantil aos dois anos de idade.
Desde então, os membros inferiores atrofiaram e ela não conseguiu mais andar.
A mãe, que tem outros seis filhos, passou a dedicar atenção especial a ela.
Desde menina, Janaína trabalha pedindo ajuda -- é assim que cada pedinte encara a sua rotina, para eles, pedir também é um tipo de trabalho.
Segundo o professor Marcus Eugênio, encarar a rotina de pedinte como trabalho é um mecanismo de defesa.
É como se o pedinte se sentisse menos humilhado quando enxerga o ato de pedir como um trabalho propriamente dito.
De tanto tempo que passamos ajoelhados para ouvir os relatos de Janaína, nossos joelhos começaram a doer.
Então, decidimos nos sentar no chão junto a ela para continuarmos a ouvi-la.
As pessoas que passavam por o calçadão passaram a olhar curiosas a cena.
Ironicamente, naquele momento em que nos falava de sua invisibilidade, Janaína deixou de ser invisível.
Ela contou que tem uma filha de quatro anos.
Enquanto ela trabalha, a filha está na escola.
Perguntamos o que a menina será quando crescer.
Janaína não pensou muito ao responder:
«Eu quero que ela seja tudo aquilo que eu não pude ser».
Trabalhos Invisíveis -- Segundo Marcus Eugênio, a invisibilidade social não atinge apenas os pedintes, mas todas as profissões que na escala social são vistas como inferiores.
Um estudo feito por o psicólogo Fernando Braga da Costa, Mestre em Psicologia, deu origem ao livro «Homens invisíveis:».
Em o livro, o autor relata que durante nove anos vestiu-se de gari na Universidade de São Paulo (USP) e vivenciou diversas situações, de entre elas passar por amigos e professores e não ser reconhecido justamente porque vestia a farda de gari.
O retrato da invisibilidade marca várias outras profissões.
João Alves, frentista há oito anos de um posto de gasolina localizado no bairro Atalaia, tem uma rotina de trabalho da qual não reclama.
Chega às 6h, sai ao meio-dia.
Ganha pouco, mas, segundo ele, não pode reclamar, pois com o pouco estudo que tem não arranjaria nada melhor.
Pai de três filhos, ele é contundente ao dizer que mesmo gostando da profissão não quer que nenhum dos seus filhos siga seu exemplo.
«Esse trabalho é para quem não tem estudo.
Meus filhos estudam, eles podem ser médico, dentista, advogado.
Com certeza, eles não se orgulham da minha profissão».
O tratamento que recebe dos clientes varia.
«Alguns chegam, já me conhecem, sabem meu nome, são clientes de muitos anos.
Outros acham que por estarem dentro de um carro são melhores do que eu.
Quem eu trato melhor?
Claro que é o que me trata bem», contou o frentista.
João relatava suas histórias com alegria.
Talvez estivesse se sentindo importante agora que alguém finalmente se interessava por aquilo que ele tinha para contar.
«Amo a minha profissão, ela é muito importante, mas as pessoas não reconhecem».
Foram as primeiras palavras de Messias Nascimento, garçom há 45 anos.
A os 64 anos de idade, seu Messias disse que já vivenciou muitas situações, algumas bastante desagradáveis.
«A gente quando chega a uma certa idade começa a ser chamado de tio ou de ' vô '.
Não posso fazer nada, senão eu sou despedido.
O cliente tem que ter sempre razão.
Por isso que muitas vezes finjo nem escutar ou entender que debocham de mim».
Segundo ele, além do trabalho ser muito desgastante, o salário de garçom não compensa.
Ou melhor, as gorjetas oscilam e não há como ter uma renda certa.
Mesmo contra a lei, muitos garçons recebem apenas os 10 % sobre a conta dos clientes que atendem.
«O pior é quando o cliente fica meu amigo e acha que por isso não precisa mais pagar os 10 %», conta o experiente garçom que mesmo a contra-gosto viu um de seus três filhos seguir a mesma profissão que a sua.
Paulo Silva (nome fictício para preservar sua identidade), com apenas 14 anos, também já é uma vítima da invisibilidade social.
O garoto cursa a 6ª série do Ensino Fundamental e tem oito irmãos, mas para ajudar com as despesas em casa vende toalhinhas na Orla de Atalaia com pinturas de personagens de desenhos infantis.
Ele mesmo pinta as toalhas, apenas olhando para as figuras dos personagens.
No entanto, Paulo conta que sequer é notado por a maioria das pessoas para quem tenta vender sua arte.
«As pessoas estão mais preocupadas com o caranguejo e a cerveja», diz.
É provável que com isso os garçons concordem.
Será que se ele mudasse a forma de abordar as pessoas, adiantaria de alguma coisa?
E se, ao invés de ele perguntar se alguém «quer comprar uma toalhinha», ele abordasse as pessoas explicando que mais do que uma toalha, o que ele vendia era a sua arte?
«Chegue até as pessoas dizendo que as suas pinturas são feitas por você e que você as faz somente olhando para a figura e pintando diretamente na toalha e que mesmo fazendo sua arte você não deixe de estudar», explicamos a ele.
O garoto agradeceu e foi em busca de vender as seis peças que lhe restava.
Alguns metros depois, vimos que um senhor havia comprado várias das suas obras.
Paulo nos dirigiu um sorriso de agradecimento.
Por um instante, aquele garoto se sentiu valorizado, como talvez tenha experimentado poucas vezes na vida.
Número de frases: 92
Reportagem de Paloma Abdallah e Wellington Nogueira para a edição 14 do jornal-laboratório Contexto, do curso de jornalismo da UFS Fazia um calor danado naquela manhã em que peguei a estrada rumo a Porto Calvo, no norte de Alagoas.
Tinha em mente buscar informações para o Guia Overmundo, já que a cidade figura entre os municípios de maior importância histórica do estado, devido ao período conhecido como Invasões Holandesas.
Ainda na estrada, já bem perto, vi uma placa de bar dizendo:
«Calabar». Foi o primeiro vestígio do principal personagem de Porto Calvo, chamado de traidor por os livros de história da minha infância.
Cheguei à cidade por volta de 11 horas da manhã, segui direto por a rua principal, que normalmente, nos interiores desse Brasil nacional, vai dar na praça do centro, com sua igreja matriz e as edificações mais antigas.
O marco zero.
A cidade estava agitada, viva e se mexendo bastante, pra lá e pra cá, muito comércio e gente andando naquele meio dia ensolarado.
Fiquei bem decepcionado, na verdade.
O casario antigo está todo descaracterizado (igual ao centro de Maceió), encontrei um mercado de 1926, a Igreja Matriz Nossa Senhora da Apreciação, de 1610, e um casarão colonial que me disseram ser a Casa de Cultura, e que lá eu poderia ter mais informações sobre o patrimônio.
Em o casarão antigo, descobri que a Casa de Cultura não funcionava mais ali, agora é um órgão do governo do estado.
Lá, um simpático funcionário disse que, quem entendia de história mesmo era o dono da lotérica!!!
Claro!
O dono da lotérica!
Fui lá.
Cheguei à «Lotéricas Calabar» e fui muito bem recebido por o Senhor Adelmo Monteiro, proprietário do lugar e membro da ONG Piac -- Projeto Integrado de Ação e Cidadania, que cuida justamente de lutar por a preservação dos patrimônios históricos de Porto Calvo.
Qual não foi minha surpresa?
A o encontrar ali no escritório da lotérica o cineasta Hermano Figueiredo e sua equipe, reunidos com Adelmo para visitar as locações do documentário «Calabar»!
E eu que achava que ia voltar de mão vazia, acompanhei-os nesse dia de pré-produ ção.
Saímos da cidade por a rodovia em direção ao norte, e entramos numa estrada de terra, no meio de um canavial, que aos poucos foi ficando pra trás e deu lugar a um vale cortado por o Rio Manguaba, rota de transporte de holandeses e portugueses três séculos atrás, rumo a Porto de Pedras.
Paramos no povoado de Caxangá, um antigo engenho, e descemos mata adentro, a pé, por uma trilha que levava a beira do rio.
Ali, embaixo da sombra de uma palmeira, ouvi Adelmo e Hermano conversarem sobre histórias de túneis misteriosos em igrejas antigas, tesouros roubados e canhões de bronze perdidos, por aquelas redondezas cheias de preciosos pedaços do passado.
Sobre o Personagem do seu documentário, Hermano disse que " Calabar é um personagem sem rosto, um mestiço, que traz uma controvérsia histórica de 3 séculos.
Quando eu era criança, nos ensinavam dois sinônimos para traidor, Judas nas aulas de religião, e Calabar nas aulas de história.».
No entanto disse que não pretende tratar o personagem com ufanismo, mesmo assim, segundo ele, a história não poderia acusá-lo de trair uma coisa que não existia, ou seja, consciência nacional, naqueles tempos de colônia subordinada a Portugal, que por sua vez estava sob domínio da Espanha.
Hermano falou na possibilidade de Calabar ter, na verdade, inaugurado essa consciência.
Concordo com ele, não havia consciência nacional, passar para o lado holandês da guerra foi somente negar o colonizador «oficial», escolhendo o que lhe parecia melhor, não há traição nisso.
Sobretudo sendo ele brasileiro nativo, mestiço, que teve boa educação e foi dono de engenhos.
Inclusive, nossa próxima parada era o Engenho Estaleiro, que foi de propriedade de Calabar e ainda funciona!
Ali, Hermano mergulhou de cabeça no cenário interno daquele lugar antigo.
Ele e sua equipe fotografaram o local e falamos mais sobre o filme e o personagem.
Próximo às margens do Rio Manguaba, num ponto onde se especula que exista uma embarcação naufragada da época, Hermano falou que " todos os vestígios devem ser considerados nesse registro, mas não se pretende com isso chegar o mais próximo da realidade.
Quando um documentário faz isso se afasta da realidade, os mitos e os fatos encontrados constroem um imaginário sobre o personagem e sua história.
É uma visão da realidade».
Conversando com Hermano, comentei sobre seu projeto com o Ponto de «Cultura Ideário, Acenda uma Vela», onde fazem projeções de filmes em velas de jangadas nas comunidades do estado, nisso, ele me contou o seguinte causo:
«Uma vez fomos fazer projeções nos Povoados de Quaresma e Alecrim, município de Penedo, e lá eu projetei o filme num boi branco, chamado Cravo Branco.
Durante o dia tinha acertado com o dono do boi, que combinou de levar o bicho no horário marcado.
Logo mais a noite, perto de começar, sua filha apareceu dizendo que o pai achava que eu não iria, e prendeu os bois.
Como eu conheço a cultura do nordestino, disse a ela que fosse dizer a ele que a minha palavra era que eu vinha, e que a de ele era trazer o boi, pouco depois ele trouxe o boi e um colega (do boi, outro boi) pra lhe fazer companhia e deixa-lo tranqüilo durante a exibição, correu tudo bem».
Figura!
Em a volta para Porto Calvo, ainda passamos por outra locação do filme, um casarão colonial incrível de uns 300 anos, na Fazenda São Gonçalo, uma verdadeira máquina do tempo, escondida ali no meio do canavial.
As filmagens de Calabar iniciam-se na primeira semana de setembro, com finalização prevista para novembro.
As locações acontecerão em Porto Calvo, no bairro de Jaraguá em Maceió, e no município de Porto de Pedras (AL), na Ilha de Itamaracá e Instituto Brennand (PE), Forte Cabedelo (PB) e Fortaleza Reis Magos (RN).
Entre outros documentos, o autor tomará como base os escritos de Duarte Coelho da Costa, então donatário da «Capitania de Pernambuco, Memórias da Guerra do Brasil», e» História da Guerra de Pernambuco " de Santiago Lopes.
O Documentário foi contemplado com os recursos do DocTV, projeto desenvolvido por a Secretária do Audiovisual, do Ministério da Cultura, em parceria com a rede pública de TVs, no caso de Alagoas, o Instituto Zumbi dos Palmares -- IZP.
E assim foi minha aventura através da memória de Porto Calvo, e me pergunto se no meio de toda aquela guerra, brasileiros, portugueses e holandeses conseguiam parar durante um segundo de paz, para contemplar as belezas dessa terra tão bonita, que hoje se chama Alagoas.
Número de frases: 45
Alvinho Cabral é um músico inovador.
Com 15 anos de estrada, o compositor já foi do rock hardcore ao pop contemporâneo, passando sem dúvida por o samba, que é seu forte, como pode ser visto no trabalho com o Fino Coletivo.
Depois de parcerias musicais com Wado, Sonic Junior, Junior Almeida e participar em diversos festivais do país e da Europa, o alagoano Alvinho fixou residência no Rio de Janeiro, onde formou o Fino com compositores conterrâneos e cariocas como Siri, Marcelo Frota e o xará Alvinho Lancellotti.
Com um novo projeto saindo do forno em parceria com a compositora Clarisse Barreiros, em minha opinião a melhor voz entre as cantoras de Alagoas, a dupla estréia seu Cine Lux Musique, uma música pop sofisticada, bem feita e pronta pra ser devorada ...
Conversei com a dupla sobre essa boa nova.
Segue abaixo nossa conversa:
Marcelo Cabral -- Clarisse, o Alvinho está há mais tempo na música, me conte da sua trajetória até esse encontro.
Clarisse Bareiros -- Em Maceió eu tocava numa bandinha de pop rock que se chamava Four Fusion.
De aí em 2002, Alvinho e Wado me convidaram para participar do disco «Cinema Auditivo», onde cantei em sete faixas.
Foi uma experiência maravilhosa porque eles me colocaram pra inventar linhas vocais, assim tinha que soltar minha criatividade e surgiu a parceria em «Ossos de Borboleta».
Fiz também duas músicas com o Junior Bocão (ex-Mopho), «O Avesso da Razão» e «A Outra Face».
Ele gravou «A Outra Face» no primeiro CD do Casa Flutuante.
Ainda em 2002, participei do Festival de Música do Sesc, cantando uma canção da Lucy Serralvo, chamada «Meu Silêncio».
Foi nessa época também que gravei «Pé de Carambola» no seu disco «Marcelo Cabral e Trio Coisa Linda».
M -- Que ficou uma coisa linda.
A música está no Banco de Cultura do Overmundo.
-- Muito bom!
-- Você também fez uns shows temáticos em Maceió bem bacanas.
C -- Foi o meu primeiro show, o «Clara Canta Chico» (Buarque).
Uma maravilha.
Adorei fazer e o pessoal também gostou de ouvir.
Em 2005 arrumei 7 mulheres apaixonadas por música e dirigi e participei do «Bossa Mais Nova», um espetáculo lindo em homenagem ao Tom e ao Vinicius, no qual fizemos um recorte dos anos 50 e transportamos mais de 2000 pessoas, em quatro apresentações, para aquele mundo em preto e branco.
Depois disso fui morar em São Paulo, e me veio o Alvinho com essa proposta irresistível ...
-- Cine Lux Musique.
O que nos aguarda?
Qual é a de vocês dois?
Alvinho Cabral -- Música sintonizada na freqüência mundial.
Elementos acústicos e eletrônicos em canções de beats fortes, melodias doces e dançantes.
C -- O Cine Lux é um projeto em gestação por muito tempo ...
digo, emocionalmente, porque já havia essa vontade de trabalharmos juntos.
Acho que a do Cine Lux é fazer música pop, música pra dançar, sem aquele peso pejorativo que muitas vezes dão ao pop ...
Outra coisa bacana é trazermos influências do hip hop e do R&B em canções com sonoridade brasileira.
É muito boa essa história de podermos misturar as coisas.
-- Vocês estão em estúdio agora certo?
Pra quando sai o disco?
A -- Estamos em processo de gravação, temos algumas faixas já disponíveis, estreando agora no Overmundo.
O disco sai no segundo semestre, no começo do verão.
-- Alvinho, fale da sua experiência como produtor.
Quais trabalhos você participou na produção?
A -- Ajudei a produzir o primeiro disco do Sonic Junior, os três discos do Wado (e Realismo Fantástico), o do Fino Coletivo, agora assino a produção do Cine Lux Musique e o Daniel Medeiros é o engenheiro de som do disco.
M -- O compositor paraibano Totonho disse que «Alvinho Cabral é um músico conhecedor de sotaques de sambas do recôncavo, sua unheca lembra a do lendário Mão de Vaca, carioca que revolucionou as batidas de samba com João de Aquino».
Realmente é uma pegada de mão direita muito particular que você tem no violão que o diferencia.
Inconfundível. Além disso, já vi suas apresentações ao vivo, conte como é isso de usar efeitos e distorções no violão.
A -- O Cine Lux, apesar de não ser samba tem na sua sonoridade muita influência do gênero.
Em o meu caso, acho que parte do samba que cresci ouvindo, tocado por o meu pai com violão e a cerveja do lado.
Em o que faço atualmente me aproximo mais das sonoridades mais modernas, gosto de sintetizar o som do violão, de timbrar como uma guitarra, uso pedais que dão um som incomum.
Gosto da idéia de tirar de um instrumento acústico de madeira, com cordas de nylon, um timbre eletrônico gerado artificialmente por pedais bons, baratos e brasileiros.
De aí plugo o violão já processado por os pedais em amplificadores de guitarra.
M -- Já tem alguma apresentação avant première do Cine Lux programada?
Como vai funcionar o ao vivo?
Os admiradores de seus trabalhos anteriores em Maceió podem esperar por algum show de vocês em Alagoas?
A -- Estamos gravando o disco e preparando o show ao mesmo tempo.
Ainda não estreamos, já recebemos convites pra tocar em São Paulo, Alagoas e no Rio de Janeiro, mas até junho, acho que ainda é cedo para um primeiro show.
Somos bem perfeccionistas e queremos montar um bom espetáculo.
Quanto a como vamos funcionar ao vivo, posso adiantar que a banda nos shows vai ser fiel ao disco, embora sempre prezando por as improvisações e grooves.
Com certeza, Alagoas vai ser o local de um dos nossos primeiros shows.
Eu e Clarisse somos de lá, boa parte da nossa vida ainda está lá, adoro Maceió, adoro o público da minha terra e adoro meus amigos, vai ser muito importante para a gente fazer o show de estréia lá.
Número de frases: 57
www.cineluxmusique.com Música eletrônica autoral, é por essa praia que transita Nery Bauer.
As influências em seu trabalho, segundo o artista, passam por o jazz (Miles Davis, Thelonious Monk, Dave Brubeck, Stan getz), rock, música erudita (Karlheinz Stockhausen, Edgar Varése, Pierre Schaeffer, Erik Satie, John Cage), batidas, ritmos e artistas brasileiros (Cama de Gato, Nouvelle Cuisine, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal) e uma pitada de experimentalismos (Nery se dedica a tirar sonoridades de vários objetos, como panelas, chaves, brinquedos de criança, e essas sonoridades, independente do resultado, melódico ou percussivo, passam a dialogar com o universo musical do artista).
De que forma é possível juntar todas essas informações?
A palavra que encontrei para pensar o trabalho deste apaziguador de diferenças foi diálogo.
Ou seja, colocar elementos musicais que, aparentemente, não combinariam (será?)
para conversar (discutir) e tirar destas conversas ruidosas simplesmente música.
Claro que isso não é uma tarefa muito simples, pois os diálogos podem se esgotar e se tornar repetitivos, mas isso não ocorre, afinal de contas, o próprio artista, até o momento, não permite que isso aconteça, pois está sempre em busca de outras informações conflitantes que possam ser trabalhadas.
Vejam vocês, o trip-hop -- Massive Attack, Morcheeba e Portishead -- teve uma contribuição maior para a sua produção, mas foi perdendo espaço para outras referências que, aos poucos, foram incorporadas e serviram de informação, em especial, para os trabalhos recentes.
Não que Nery tenha deixado de escutar esse estilo ou aquele, o que acontece é que alguns estilos que num passado recente tinham uma importância maior nas inquietações do artista, neste momento, quem sabe, estão esgotados.
Isso faz com que esse esgotamento, nestes últimos tempos, ceda espaço para outras experiências, outros diálogos, outras inquietações (Space Age -- Martin Denny, Enoch Light e Les Baxter -- é o estilo que, segundo Nery, ultimamente, merece atenção especial.
Talvez possa interferir no trabalho ou, simplesmente, servir como uma porta de entrada para outras informações).
Essas mudanças que ocorrem gradativamente podem ser observadas nos trabalhos lançados.
As inquietações musicais que poluem a cabeça do artista neste exato momento talvez sejam percebidas daqui a um tempo.
Mas aquelas que faziam com que o artista perdesse horas de sono um tempo atrás podem ser notadas nos singles lançados por o selo inglês Fluid Ounce.
Ou ainda, na música Dolce far Niente, que integra a coletânea Future World Funk:
Urban Brazil? lançada por a gravadora Stern ´ s Music, em 2003, em Londres, e que conta com a participação de vários outros artistas brasileiros.
Em o primeiro single, lançado em 2003 -- um EP com duas faixas:
Diana by Starlight e Mercado do Porto -- as músicas se apóiam exclusivamente em sample;
por sua vez, no EP de 2004, com as músicas Maharaja, Transformnin e Blepharospasm, o sampler continua presente, mas desta vez dialogando com sintetizadores, voz, violão, guitarra e teclado (executados por o próprio Nery), contribuindo de forma interessante para um desdobramento de informações.
Isto é, no segundo trabalho, a musicalidade do artista apresenta uma outra forma de intervenção, por que não, mais impactante, atingindo sonoridades que permanecem, muitas vezes, conflitantes, num sutil estado de tensão (coisa que, com as informações de agora, ganham desdobramentos nas músicas que ainda permanecem na gaveta, mas que devem ser lançadas, alguma coisa pelo menos, durante este ano de 2006 -- insisto nisso, pois tive a oportunidade de escutá-las e esses desdobramentos estariam num plano de observação).
Onde Nery Bauer se apresenta talvez seja a maior interrogação.
As apresentações -- Live -- são escassas e, mesmo em Florianópolis, sua cidade natal, labuta com ardor para conseguir espaço para que elas aconteçam.
Estas se dividem em dois momentos, um de eles mais autoral, e o outro em que Nery trabalha com o repertório de outros artistas.
Em o currículo, dois shows representativos, um em 2004, ano que se apresentou no Festival Isto é Música?
/!, no Rio de janeiro, e outro em 2005, na casa noturna Dama de Ferro, também no Rio.
Além do trabalho solo, Nery tem em andamento outros dois projetos, Música Expandida (na companhia de Marcelo Birck e Dalner Barbi), projeto aprovado por a Lei de Incentivo a Cultura do Estado de Santa Catarina;
e Solenóides, com Mario Cavalheiro, um projeto de música eletrônica com voz e carregado no rock and roll, funk e funk carioca.
Compôs, ainda, a trilha sonora dos documentários catarinenses Metropol:
Historias que a bola esqueceu (2001) e A Calçada (2002).
De este repertório citado, diante da dificuldade de encontrá-lo no mercado, alguma coisa está disponível na página do artista:
http://www.nerybauer.com/ &.
Número de frases: 31
O polivalente prefixo «meta» é de fundamental importância para se comentar um dos mais engenhosos textos de ficção científica já lançados no Brasil.
Aquela partícula de origem grega ganha múltiplos sentidos a depender do seu uso na formação das palavras.
Pode ser o de «posição posterior», como em metacarpo ou em metatarso;
«mudança «ou» alternância», a exemplo de metafonia e metagênese;
«transcendência», caso clássico de metafísica;
ou ainda «reflexão sobre si», empregado em metalinguagem.
Escrito por o jornalista Jorge Moreira Nunes em 1999 e lançado em 2007 por a editora Differential, Macacos e outros fragmentos ao acaso propõe um complexo jogo a seus leitores, com partes sobrepostas formando um todo maior que sua simples somatória, desdobramentos inusitados e múltiplas camadas de compreensão se alternando ao longo de 126 páginas.
Para entrar no terreno das metáforas, cada um pode escolher a de sua preferência:
bonecas russas, dobraduras japonesas ou mesmo uma simples cebola da terra para tentar descrever os efeitos presentes neste metalivro.
Para início de conversa, o título já faz uma provocação com o próprio autor.
Ele é baseado num famoso exercício de probabilidade.
«Escreveram em algum lugar que se um hipotético e longevo macaco martelasse num teclado de máquina de escrever aleatoriamente por alguns milhões de anos acabaria um dia escrevendo a Ilíada», comentou Nunes.
Com tal idéia na cabeça, antes mesmo de começar o livro, ele criou um projeto colaborativo, no final da década de 90, que antecipou outras iniciativas semelhantes, como a Wikipédia ou, no caso nacional, o Overmundo.
Em o endereço www.macacos.net o escritor deu a arrancada a um experimento literário totalmente virtual, uma lista de palavras escrita num interminável fluxo de consciência por colaboradores anônimos, um verdadeiro macaco coletivo.
Novamente nas palavras do criador:
«O que fariam alguns milhões de seres humanos escrevendo uma mesma obra, acrescentando cada um suas impressões aparentemente confusas e caóticas do mundo, mas genuinamente representativas de um subjacente inconsciente comum?"
Uma pequena parte da resposta se encontra enxertada no livro, em quatro capítulos, apresentando uma torrente de palavras em livre associação de idéias, uma extrapolação beatnik elevada à enésima potência.
Apesar de em ela se incluirem expressões, trocadilhos e frases feitas em inglês, francês, latim, italiano, tupi -- sem falar nos neologismos inclassificáveis -- o conjunto da obra é, ao mesmo tempo, intraduzível para outras culturas e coerente a um brasileiro.
Curioso notar o fato de que, em determinados momentos, expressões se repetem como se a lista fosse se fagocitar numa espiral, mas, de forma aparentemente expontânea, ela acaba encontrando outros caminhos, outras associações, e segue em frente.
Transcendendo os limites do livro, a obra aberta continua sendo escrita por o coletivo de macacos colaboradores;
segundo a contagem apresentada num texto na contracapa do livro, a corrente contava com 62 mil palavras, escritas por centenas de usuários cadastrados naquele site, quando o livro de estréia de Nunes foi lançado, em maio de 2007.
Mas os capítulos do projeto Macacos não são a única atração da obra.
Há ainda os anunciados outros fragmentos ao acaso.
Eles são formados por contos curtos escritos em diversos estilos por o autor e em diferentes oportunidades.
São cinco capítulos dedicados a eles.
«Terraço», um texto que estava inédito, narra de modo naturalista uma desventura na cidade do Rio de Janeiro, mistura sarcástica de sexo e violência na metrópole contemporânea.
«Maelström», publicado anteriormente no fanzine dedicado à literatura fantástica Megalon, é seu exato oposto, um conto de caráter metafísico bastante complexo e simbolista.
«Presente de mãe», outro que estava inédito, apesar de ter participado de um concurso de FC, trata de tema bastante caro ao gênero em suas feições pulp:
o do viajante ocidental que parte para terras misteriosas, no caso a Índia, e traz de volta a seu lar conhecimentos secretos;
o diferencial aqui está no uso que o narrador faz de tais conhecimentos num estádio de futebol carioca.
«Saviana» é o único dos textos que já havia sido publicado em livro antes, pois foi uma das duas colaborações de Nunes na coletânea Intempol, lançada no ano 2000 por a editora Ano-Luz.
Aquela obra, que reuniu o trabalho de oito escritores, representou, cronológica e profissionalmente falando, a estréia do jornalista em terreno literário.
O conto faz parte do universo compartilhado de uma polícia internacional do tempo criado por Octavio Aragão.
O leitor eventual pode entender a trama, mesmo sem conhecer todos os detalhes da Intempol -- versão abrasileirada da Patrulha do Tempo, do veterano Poul Anderson, cujas diferenças principais estão nos métodos dos seus agentes, bem menos sutis que os de Manse Everard, protagonista da série americana.
«Saviana» dá uma boa amostra disso, com sua história se desenrolando no Tahiti no ano de 1893.
Por último, fechando o arco de contos reunidos em Macacos, um outro que também saiu originalmente em Megalon, «Ouroboros», com sua visão transcendental de um Rio de Janeiro mil anos no futuro.
Descrevendo de tal forma, ao falar dos quatro capítulos formados por o fluxo de pensamento livre do projeto Macacos e da apresentação de meia dezena de contos diversos, o livro em questão aparentemente estaria mais bem classificado se fosse chamado de coletânea.
Acontece que, já na capa -- de autoria do artista gráfico e também autor de textos de FC Osmarco Valladão, Macacos e outros fragmentos ao acaso se autodenomina romance.
E, de fato, são os outros seis capítulos do livro que, ao unificarem e darem um contexto aos demais fragmentos aparentemente aleatórios, permitem tal classificação, o de um romance que contém uma antologia de textos curtos.
O exercício de metalinguagem proposto por Jorge Moreira Nunes se completa nesta meia dúzia de intervenções que surge com o título em comum de «La Granada».
«O La Granada ficava estrategicamente localizado na esquina de uma rua transversal de Copacabana, bem no caminho da praia».
É assim que o autor descreve o espaço no qual se passa formalmente o roteiro de seu romance, um boteco tipicamente carioca.
O tempo, seria as semanas finais do ano de 1999, a época que ficou simbolicamente marcada como sendo a virada do milênio, a despeito de, matematicamente falando, isso só ter ocorrido no ano seguinte.
Aquele foi o tempo e o espaço em que a obra foi de fato produzida e no qual chegou a ser premiada antes do lançamento:
durante a Bienal do Livro de 1999, o original do texto, que então ainda levava o nome de O jogo dos bichos, recebeu a Bolsa para novos escritores, incentivo concedido por a Fundação Biblioteca Nacional para material literário em fase de conclusão.
Ocorre que o autor, dez dias depois de recebida a honraria, se mudou do Rio de Janeiro para Coconut Creek, no estado americano da Flórida, o que adiou a tal conclusão por nada menos que oito anos e meio.
Originalmente o escritor foi aos Eua trabalhar num jornal local para brasileiros -- hoje em dia, ele se tornou proprietário de outra publicação, concorrente daquela primeira, o AcheiUSA.
Mas se o projeto tardou, acabou saindo assim que o autor conseguiu uma brecha na agenda, mesmo tendo que coordenar tudo à distãncia, sem participar de nenhum lançamento do primeiro livro solo aqui na terra natal.
A edição acabou sendo feita às pressas, com um resultado que não chega a ser um primor em termos de revisão, de diagramação ou de escolha da tipologia, muito antes pelo contrário.
A maior ironia neste quesito é que o livro, que fora premiado por a BN em sua fase inicial, como foi dito, acabou sendo impresso sem o devido registro formal.
O motivo?
Os funcionários da Biblioteca Nacional estavam em greve durante a preparação dos exemplares ...
De qualquer forma, o continuum básico do enredo, da metanarrativa, por assim dizer, do romance é aquele:
um bar na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no último mês e meio do ano da graça de 1999.
Em aquele lugar, todas as semanas, uma espécie de alter ego do autor se encontra com um colega chamado Vlad para beber, ler trechos do livro O Rio de Janeiro do meu tempo, do historiador e memorialista Luis Edmundo (nascido no século XIX), jogar xadrez às cegas -- sem tabuleiro, nem súmulas, apenas ditando as jogadas um para o outro -- e se submeter a uma impiedosa sessão de crítica literária.
Os textos que o narrador apresenta a seu algoz são, adivinhe, aqueles mesmos que fazem parte do restante da estrutura do livro, incluindo aí os trechos do projeto Macacos.
Cada conto é dissecado e analisado de forma impiedosa por Vlad, numa experiência curiosa de autocrítica ou autoflagelação por parte do escritor.
Ego e superego se confrontam numa partida de xadrez metafórica.
O curioso embate é uma das brincadeiras metalinguísticas preparadas por o escritor estreante.
Afinal, as críticas podem ser acompanhadas por os leitores entre uma página e outra, logo após a apresentação do texto a ser bombardeado.
De a mesma forma que esses leitores em potencial são convidados a imaginar o desenrolar das peças do xadrez mental que protagonista e antagonista movimentam -- para isso, extraí mais prazer do livro quem entende a linguagem cifrada do jogo, aqueles que sabem que P3CD se traduz como o peão avançando para a terceira casa do cavalo da dama, por exemplo.
Vlad demonstra ser um analista minucioso da obra do personagem Jorge Moreira Nunes, apontando inconsistências, expondo citações.
Claro que nem tudo é dito, ainda sobra bastente material para despertar o interesse dos outros críticos.
Para exemplificar, peguemos «Maelström», um dos contos mais detalhadamente radiografados por o metacrítico:
ele comenta as semelhanças do texto com a obra de Umberto Eco, de Jorge Luís Borges, de Marguerite Yourcenar.
Mas deixa de lado o fato de que, já no título, ele faz referência a um conto de Edgar Allan Poe, autor que aparenta ser uma influência forte de Nunes, sem falar num romance famoso de Jules Verne.
Há espaço para outros críticos e outros leitores exercitarem seu lado «Vlad», como se vê.
Mesmo o mais desatento dos leitores pode adivinhar que a conclusão de todas as pontas daquele mecanismo literário vai se dar durante o reveillon anunciado.
Como numa autêntica partida de xadrez, muitos dos lances são previsíveis, algumas peças são entregues para serem capturadas por o oponente, como isca.
Mesmo assim, o autor conservou lances para os momentos finais, algo como o roque, quando a torre muda de lugar com o rei, o que serve tanto para a defesa quanto para uma estratégia de ataque do jogador.
Os desdobramentos do romance também guardam esse tipo de surpresa, um detalhe mencionado dezenas de páginas antes pode voltar a ter um novo significado na hora certa.
E, apesar das severas críticas que tanto o alter ego quanto o superego do autor fazem ao gênero em determinado momento -- uma das raras concordâncias daquelas personalidades antagônicas -- o livro, ao final, se revela uma obra de ficção científica de fato e de direito.
Uma questão que pode ficar em aberto é se a distância entre a produção e o lançamento do livro, de quase dez anos, não envelheceu o texto, fazendo-o perder boa parte do impacto que teria caso saísse mesmo na virada de 1999 para 2000.
É algo difícil de se avaliar, mas felizmente as várias camadas de significados ainda estão lá, mesmo com o passar do tempo.
Além disso, ao longo de todo o livro, versões de diferentes épocas da capital do Rio de Janeiro se alternam.
Desde o prólogo, em que o autor exercita uma de suas maiores qualidades, a habilidade descritiva dos ambientes:
ele narra, numa página e meia, o panorama da cidade que começa em tempos pré-humanidade e avança até uma menção um tanto sutil a um evento ocorrido em 1555.
Passa ainda por as breves citações ao Rio de Janeiro novecentista de Luis Edmundo, chega à realidade contemporânea de «Terraço» e de «Presente de mãe» e ainda especula o futuro distante de «Ouroboros».
Em este Rio de Janeiro de todos os tempos possíveis, Macacos e outros fragmentos ao acaso segue sua trajetória metalinguística, metafísica, metacrítica entre outras aplicações daquele polivalente prefixo.
Serviço:
uma última surpresa do livro é o fato de ele ser distribuído gratuitamente a todos os interessados.
Cariocas só precisam passar na sede da editora e requisitar um exemplar, leitores de outros estados podem fazer o pedido por carta, telefone e e-mail e só pagam as despesas de postagem.
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marcosmaynart@differential.com.br Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.