-- Olá Rosita, boa tarde! -- Boa tarde . -- Olha, como já te conheço há alguns anos e posso dizer que sou teu admirador pela grande mulher que tu és, não é, e pelo excelente profissional como cozinheira, sempre tiveste esse dom ou adquiriste já em Timor ou foi aqui em Portugal? -- Não, já em Timor . -- Sempre gostaste? -- Sempre gostei de cozinhar e de, pronto, como a minha mãe faleceu muito cedo e eu tive que tomar as rédeas de casa na fazenda e eu fui instruída pelas minhas irmãs e as minhas tias e a minha irmã, aliás, uma das minhas irmãs que está na Austrália, também em Timor já fazia os bolos de noiva, já era banqueteira . A minha falecida tia que é essa prima que faleceu, a mãe dela também já era banqueteira porque ela era modista de alta costura e era mulher do chefe de posto . -- Portanto começaste com as tuas irmãs, já a tua mãe também? -- Sim, sim, mas a minha mãe faleceu muito cedo, faleceu quando eu tinha 13 para 14 . -- Tens muitos irmãos? -- Quer dizer, eu vivos agora tenho duas irmãs . Já falecidos tenho do nosso...quer dizer do pai e mãe juntos tinha, éramos 8: 5...4 rapazes e 4 raparigas, mas só sobrevivemos as 3, 4 rapazes e uma miúda - faleceu quando era bebé e depois o meu pai casou outra vez, tinha um casal de irmãos que é a minha irmã mais nova, é dois anos mais velha que a minha filha Rosa e tinha um irmão que faleceu na guerra . -- Os teus pais eram timorenses puros? -- Não . Ai, isto é um bocado complicado! Porque o meu pai, por parte do meu pai era daqui, era de origem transmontana e, por parte da minha mãe tenho muitas ilhas, portanto eu tenho japonês, tenho Papua Nova Guiné, tenho aborígene que é Austrália, aliás nasci na Austrália, maoris que é da Nova Zelândia, Madagáscar, e que mais? -- És rica em raças! -- Em raças...Madagáscar e quê mais...Malásia e Sri Lanka . -- Nasceste em Austrália? -- Nasci na Asutrália . -- Em que ano? -- Em 44 A: Muito bem B: e por parte do meu pai era de cá, mas o meu pai...o meu avô, o pai do meu pai, porque o pai do meu pai casou com uma nativa de lá que era da família dos régulos de Atsabe e de Kailaku que ainda tem ramificações com a minha comadre de Maubara, ainda tenho vários parentes, não é, e por parte do meu pai, segundo consta, o meu avô era descendente de judeus holandeses ibéricos, por isso os Silvas... porque eu acho que mesmo assim, acho, não, tenho a certeza, que todas as pessoas que tenham apelido de árvores de fruto, de hortas, sei lá, de legumes, de animais, são judeus novos . -- É bonito . -- E também tenho descendentes de judeus ibéricos e holandês mas tem também de raça portuguesa . -- É complicado, mas é bonito, tens muitas raças . É bonito . Olha, e quando deixaste Timor? -- Eu deixei em 1900...no dia 14 de Junho de 69 . -- Mas porquê, Rosita? Tiveste...acompanhaste alguma, digamos, revolução ou guerra nessa altura? -- Não, porque casei com um senhor que era de cá . -- Ah, o teu marido era português? -- Era português B: E então resolveu vir . E já vinha com as tuas filhas? -- Vim com a Rosa que tinha 3 meses . -- Nasceu lá? -- Nasceu lá . Florbela é que nasceu aqui . -- Portanto, podes-me contar um bocadinho da tua vivência em Timor, por exemplo, a tua infância, como, por exemplo, onde andavas, vivias em aonde, ou estudavas, os teus amigos . Ainda recordas? -- Ai, recordo, recordo . Pois, quer dizer, eeerrrr, agora já não é segredo, pronto . -- Vivias em Dili? -- Não, eu vivi na montanha, vivi na, nas, nas plantações do Fatubessi de café, porque o meu avô ainda era irmão, mas não directo, quer dizer, directo era, mas as mães é que eram diferentes, que ela, ele era portanto filho, vá lá, bastardo, digamos…duma, dum descendente de judeus e é, e foi com um irmão que era, era governador… e ele foi, esse irmão foi como tenente,tenente coronel na infantaria e regressou como general, é por isso que ultimamente, por causa dessas coisas, é que tenho andado a ser um bocadinho…, vamos lá, um bocado massacrada . É mesmo assim . E o meu avô foi como marinheiro, saiu da Marinha, ficou ele a tomar conta das plantações porque dantes as plantações eram dos régulos, quer dizer, o governo, não é, o governo, o poder fazia negociações com os régulos para adquirirem as terras porque as terras não foram compradas enquanto o meu irmão governador ficou em Timor, ficou em Dili, ele é que desbravou as 3 fazendas, de maneira que nas 3 fazendas, portanto, em Fatubessi era o meu avô, o meu pai nasceu em Fatubessi, os meus irmãos todos nasceram em Fatubessi, mas o meu pai ironicamente...a mãe do meu pai era filha de régulos de Atsabe que foram depostos por, por próprios familiares que mataram A: mmm B: e então, o meu pai ficou em Fatubessi, o meu padrinho que é o irmão, depois o meu avô casou-se com … essa filha do régulo, teve só o meu pai e depois os dois cunhados, o, a filha do régulo que já naquela altura já … tava tudo dizimado, só tinha ela e uma prima … as duas foram para Fatubessi, ele casou com o irmão do governador e então … ele casou com o irmão do governador e então ele, ele estava sempre a guerrear . A:mmmm B: Quando, nos livros quando vem a dizer que o alferes Arbiro que é o tal … alferes Duarte apelidado de Arbiro, ele … também combateu em Atsabe, porque depois os dois cunhados não se deram bem e a minha avó regressou para Kailaku que é a terra da mãe dela e casou com o primo que era o régulo de Kailaku, que são os Soares, os de Atsabe eram os Gonçalves, e ainda são (…) pois nós também éramos Gonçalves mas porque eles nos mataram toda a família, a minha mãe tirou o, a apelido, só ficou com o nome Maria da Conceição . E então em Entalo era o tio Cândido Barros, que era também. a mãe dela, era minha prima da minha avõ e em Bahata era o meu padrinho que é irmão do meu pai.E … nós (…) isso é tão verdade que nós … errrr desde … que eles desembarcaram em Timor em 1800 e tal até a invasão indonésia nós não, a não ser fugiram pra Austrália os quatro anos, não abandonaram as três plantações . A:mmmm B: e eu vivi na plan…e eu …e as minhas irmãs que casaram cedo, mas eu vivi em, nas plantações com o meu pai . -- Pois é, Rosita, nasceste em Austrália, e até em que ano que...foste pra, para Timor? -- Até cinquenta . -- Não, mas, nasceste Austrália B: em quarenta e quatro A: Pois, depois até B: Até cinquenta porque nós ainda, o meu pai ainda ficou...ah, quando eu disse esqueceu-me de dizer que aquela ilha muito grande que é Bornéu A: Sim, sim B: Bornéu, também a minha mãe tem, tem familiares, tem a raça também é de Bornéu e o meu pai foi tomar conta duma coisa de cacau em Bornéu, não deu bem depois foi pra Nova Guiné, depois como as saudades de Timor apertaram talvez por ele nascer na fazenda, não é, regressou e até...a invasão indonésia fomos nós que enriquecemos os nossos primos ricos que estão em Lisboa A:mmmm B: Foi com o trabalho do meu pai e de toda a família . O meu cunhado X em Dili, toda a família, quase toda a família, toda a minha família estava trabalhar para a família do Gvernador (…) mas quer dizer o mais interessante é que isto foi bem guardado …eerrrr…o segredo foi bem guardado que foi ultimamente, que foi contra a minha vontade que isso se eclodiu, porque (…) as pessoas estavam a ...como é que chama?... a escutarem por meu telemóvel e descobriram são pessoas, eu acho eu eram da Tane Timor, algumas pessoas, não digo quem é, já deves ter uma ideia . -- Portanto, a fim de dez anos voltaste para Timor e, e, e criaste lá a tua amizade, a tua infância? -- Sim A: Sempre foi lá? -- Sempre foi lá em Timor, na fazenda, na fazenda eu andei na escola com Mané Caldas, não sei se conheces, eu conheço Mané Caldas eu tinha 7 anos e Mané Caldas tinha 9 . Andei com os meus primos e depois andei no colégio das freiras em Ermera que a minha irmã mais velha casou com...curiosamente casou com um chinês, era contra a vontade do meu pai, casou em Liquiça com o chinês Toko Baru . Os Toko Baru, eles dantes, antes da guerra eles eram milionários, não é . -- Sim B: Depois a minha irmã do meio casou os da família Exposto que é o meu cunhado coronel que tem fazenda em Ramera e eu andei no colégio das freiras só naquela altura, uma pessoa só até à quarta classe, não é . -- Pois . -- E depois eu andei na costura e depois comecei a trabalhar cedo na secretaria, eu quis-me...ajudava o meu pai na fazenda, gostava muito do café e das coisas... dos animais e das plantas, das árvores de fruto, eu gostava muito da terra e a minha mãe também na altura fazia...tomava conta da várzea e fazia, como se chama... plantação de açafrão onde chegamos a comprar dois carros, um jipe Nissan e um Williams e uma mota para mim, e, de maneira que eu ajudava o meu pai e ...mas eu depois ao chegar aos 16 anos eu fui ter com o Sr. Jaimito Soares Luís, que ainda é parente, mas que daqui eles não sabiam o segredo que era nosso, que o meu avô nasceu lá para os Trás-os-Montes, lá para Vinhais, não é, registou-o como...deu-lhe apelido mas não...mas a minha avó esteve casada com um senhor...ele deu-lhe o apelido, pronto, para fazer de pai, não é, porque ele era casado, o senhor, não é . -- Entretanto vieste embora para Portugal, deixaste tudo pra trás, vieste só com o teu marido e a tua filha . E os teus pais? -- Os meus pais ficaram em Timor, porque eu depois disso, depois de trabalhar em Fatubessi, no escritório, eu ainda trabalhei em Dili, na sociedade, ainda trabalhei na, uma senhora Dona Laurentina, que ela, ela é que era a nossa encarregada, ela até, ainda deve estar no Algarve, acho que ainda não faleceu, ainda está no Algarve, ela é que era a nossa ... encarregada e estava, eu era caixa,... e depois eu vim, eles ficaram, ninguém veio, não é, só eu é que vim sozinha, mas eu custou muito adaptar-me . -- Pois, isso é em que ano, quando vieste para Portugal? -- Isso foi, chegámos, desembarcámos aqui no ano de 27 de Julho de 69 . -- Portanto, hoje B: Já, vai fazer A: Hoje faz, tás a fazer anos quando chegaste aqui a Portugal . -- Sim é... A: 69, 40 anos que tás aqui B: estou A: Eia! Olha já encontraste com alguém da tua infância, ou amigos que deixaste lá em Timor, já reecontraste? -- Olha, eu reecontrei, por exemplo o Mané Caldas é o que me dou mai..., melhor, não é . Dos familiares, eeerrr, uma, reecontrei, quando fui desta vez, a um primo ... que eu não sei se chega...não chegaste a conhecer . Ela era mestiça africana . A:mmm B: o pai era, o avô era moçambicano, a avó é que era...não, minto, o pai era moçambicano, a mãe é que era prima da minha mãe . Reencontrei em Ti...lá em Lisboa, na Praça da Figueira . Ele agora está em Macau e está muito bem . Está como ... ele era judici..., da judiciária, foi para Macau, ficou ... ele aqui reformou-se, foi para Macau, tornou a entrar, está no activo da judiciária e faz parte da Interpol . E de resto, as, as, as famílias de Timor só os Araújos é que, só o X é que encontrei quando ... quando estava aqui . De resto, a X que deve ser minha prima, né, de certeza, o Y e o Z também, o Fernando Araújo e o Y que era ministro de... de quê? Era ministro da saúde e agora já não sei de que pasta está também, também não interessa . Esses Araújos é por parte de Atsabe, por parte da minha avó . Esses é que eu tenho ouvido falar mas ainda, encontrar não encontrei ainda ninguém . Ah, quando fui para Setúbal, já há uns anos atrás que reencontrei pessoas da minha infância e da minha adolescência . Em Setúbal eu sei que em Lisboa eu tenho alguns familiares ainda, que eu até pedi ao Mané Caldas pra sondar se eles, alguns estão vivos nem que sejam pessoas um bocado afastadas, somos todos parentes A: Pois B: E eu gostava de dar com eles . -- E depois chegaste aqui Portugal, errr, começaste uma vida nova, adaptaste outra vida, não é e continuaste logo com a tua profissão que tu gostas como cozinheira, e ou foste tirar o curso sobre a cozinha? -- Quer dizer, quer dizer, eu lá em Timor era cozinheira mas ...fazia a comida mas era diferente, não trabalhava A: Claro, isto era familiar B: Sim, era familiares, sim, era diferente - para receber, por exemplo, o meu pai como era administrador das fazendas era para receber . Agora aqui tive que meter a mão à massa, não é, como se costuma dizer, mas eu quando vim só comecei a trabalhar, eu vim em 69, só comecei a trabalhar, levou muito tempo a adaptar, só comecei a trabalhar no dia 13 de Fevereiro de 74, trabalhei nas cantinas do Matadouro do Porto, foi ali que comecei . E trabalhei 16 anos na função pública, lá nas cantinas e depois, como...depois era...vim reformada em 90, então comecei a tomar conta daquele salão de chá da Unicer, também eu acho que ainda te lembras A: Sim, sim . -- Eu tomei conta do snack-bar dos engenheiros no INESC primeiro e depois tomei conta do salão de chá, depois fui trabalhando, fui trabalhando na cozinha . -- Depois resolveste de fazer um curso? -- Sim, fiz um curso, porque...fiz muito tarde porque eu estive desde anos de 90 a 98 sem bilhete de identidade . Como depois foi difícil o divórcio, não tinha papéis nem nada e depois, não sei quê, o meu bilhete de identidade já veio de Timor, veio meio confirmado . Depois não sei o que é que arranjaram, eu fiquei 9 anos sem...8 anos sem BI, depois é que a Comissão Permanente para os Direitos do Povo Maubere e com a Dra Pascoela Barreto que ainda é da família, ela é que fez força para arranjarem o meu bilhete de identidade e então depois de ter o BI é que eu entrei para a escola de hotelaria a fazer o curso de cozinheira de 2ª, mas eu estava farta de cozinhar, já, já, e depois fiz o curso de 1ª, depois ainda fiz os cursos de...dois cursos de mesa de 2ª e de 1ª, fiz curso de pastelaria que ainda sobre sobremesas de 2ª e eu tenho seis cursos grandes com seis carteiras e tenho também o curso que Direcção Técnica de Restauração que é, faz de conta, que é gerente, gerente de restaurante . E tirei cursos pequenos, e ao todo tenho 22 cursos . -- Entretanto tiveste muitos eventos, organizaste muitos grandes eventos . -- Organizei grandes eventos . -- Podes falar alguns dos eventos? -- Por exemplo, principalmente para Timor . Eu fiz aquele, uns casamentos aqui para pessoas comuns, por exemplo eu e a minha comadre nós organizamos, ah, eu não sei se é do teu tempo, as jornadas ali no D. Manuel II quando veio o Mari Alkatiri . -- Não B: Pronto . Esta foi...eu é que estive à frente . -- Na escola de Baião também, quer dizer, o evento que era para cento e cinquenta pessoas afinal era, para dirigir uma cozinha para cento e cinquenta pessoas, mas afinal apareceu-me setencentos e cinquenta . Mas por acaso não era sozinha, era a Lurdes Bessa, estava-me a ajudar umas outra senhoras não sabiam cortar na altura foi, mas olha, caiu tão bem por acaso, o sr. padre Baptista é que me trouxe de volta, caiu tão, calhou tão bem que só ficou (...) errr uma hora e meia de atraso . Ah, e depois também fiz aquela parece que no ano 2000 em Abril fui para Famalicão fazer lá um jantar para listar os quadros que a Aurora, a minha comadre, não, Lurdes e minha comadre e os da Tane Timor fizeram também era um jantar de gala onde foi mestre Júlio Pomar, mestre Resende, esses escultores, esses pintores, fui eu cozinhava para 250 pessoas , também só tinha um ajudante timorense... tive sorte de ter porque é uma menina que trabalhava na mesa, a mãe era timorense, sabia umas coisas, vá lá . -- Ajudou-te bastante . -- Ajudou-me bastante . -- E...portanto, tu, o que eu conheço, és amiga dos timorenses, qualquer coisa aqui no Norte, qualquer evento, os timorenses convidam-te e tu estás pronta . -- Estou sempre pronta, estou sempre pronta . Tenho muito prazer em trabalhar para Timor, eu seu que a fazer esses eventos primeiro é trazer o bom nome de Timor, não é . -- Mostrar a nossa cultura B: Mostrar a cultura, mostrar a cultura também, como...dizem e é verdade que gastronomia também é cultura, não é, faz parte da nossa cultura . Foi pena, agora falando nisso, as nossas danças, os nossos cantares ficaram sem efeito . -- É verdade . -- Isto é que tenho muita pena . -- É uma pena . -- É uma pena . -- Portanto tu e eu já tentamos a ver se juntar, não é, A: Sim A: e mesmo com as dificuldades, e tua saúde, não estás muito bem, não é, mas tentas sempre...estar presente . -- Ai, tento sempre, quando qualquer coisa por Timor tento sempre mesmo que esteja doente, eu naquele dia acredita que eu ali no Padre Baptista eu não estava assim muito bem, A: Poss não B: Mas eu tento sempre dar o meu melhor aquilo que eu sei pelo menos na parte que me toca, já que a dança não nos toca, já que os cantares não nos toca, já que os teares não nos toca, já que... tudo...não nos toca, ao menos toca-nos a comida . -- Pelo menos na parte da gastronomia tu representa sempre . -- É, há presença sempre gastronomia, e eu gostava até de... A: Tens muitas receitas, não é? -- Tenho muitas receitas e algumas são receitas de família, algumas são receitas que eu tiro da minha cabeça e tenho receitas de pessoas amigas e eu junto-as, eu gostava de ensinar pessoas de cá, sinceramente, tanto senhoras como cavalheiros a cozinhar a comida timorense porque é assim: a comida timorense há duas vertentes: a vertente da cidade, não é? -- mmmm B: Bem sabes que é verdade, e a vertente A: Original B: Vertente original... da cidade e a vertente das montanhas, não é, das pessoas mais pobres, não é, que o batardan A: Mandioca B: Mandioca, batarut, essas coisas coisas . Eu gostava, eu até tinha escolhido umas receitas para depois experientar, eu até para tar em Timor, já fiz duas ou três receitas que era sedok eu fiz até outra coisa qualquer que ficou bonito, bonito e bom, espécie de um bolinho numa coisa de papel frisado, quer dizer, eu dei uma roupagem nova mas... ficou aí A: Portanto gostas que suponhamos se aparecesse assim um projecto que te financiasse p’ra dar aulas B: Ai gostava A: p’ra ensinar B: gostava, gostava A: ou timorenses ou seja quem for que queira aprender a gastronomia timorense, gostavas muito, não era? -- Gostava muito . Mesmo as pessoas de cá, que têm curiosidade, não é A: Exacto B: Aquilo, a gastronomia não é só aquilo que nós fazemos . O que nós fazemos é que vamos mais pelo barato, é verdade ou não é? -- Exacto, exacto B: Há coisas, até há misturas, por exemplo o nosso bolo de noiva que é o tal cake, é diferente . A receita é, vem da Inglaterra e da Austrália . -- Não é original timorense? -- Não é original timorense . Esse é que é o bolo de cerimónia . -- Ah...também temos assim pratos, digamos, pratos de luxo... B: Temos, temos, temos, temos, temos . Eu gostava, gostava de pôr isto para ensinar as pessoas, mesmo os de cá . As donas de casa, pois as senhoras, os cavalheiros, porque não, não é . -- Já tiveste assim elogios dos portugueses? -- Já, já . Eu... A: Ainda te lembras? -- Lembro-me, é assim: quando eu fui fazer o...quando eu fui fazer o... A: Quem diz português, ou algumas figuras B: Sim, tenho, tenho . O que não tenho aqui, tenho, portanto, em 96, prémio Nobel, eu tive, fiz um mês de...um mês não, 3 semanas, vá lá, de comida timorense para...mas o que...como ali... lá em baixo é 1º andar não foi muito divulgado, não é, fiz três semanas de gastronomia, fotografias, música e artesanato - artesanato não feito por mim, claro - uma exposição, não é, recebi na ementa, tive o louvor do Sr actual Sr Presidente da República A: Cavaco Silva? -- Não . Dr Ramos Horta . -- Ai, o nosso timorense . -- O nosso timorense . Tive também um louvor do antigo Primeiro Ministro Mari Alkatiri também . Aqui tive uma medalha quando fiz aquele almoço de setecentos e tal pessoas é que...Sr padre Baptista, como sempre, é muito bondoso, combinou com o sr comandante da Foz, atribuiram-me a medalha que diz assim: « De Foz para Timor" com a pomba . A medalha ainda deve estar ali dentro...e pelo menos esses três e elogios assim de boca tenho recebido, não é . Assim esses três, essa medalha . -- Portanto, no fim de cada festa vêm sempre os amigos dar-te parabéns . -- Sim, sim, sim, sim, mas eu gostava mesmo era de, quer dizer, dar outra, quer dizer a comida é na mesma, o sabor era mesmo típico, mas suprimir um bocado de molhos, tirar um bicadinho dos molhos e fazer uma, uma roupagem, como é que eu hei-de dizer, enfeitar a travessa de outra maneira para chamar mais a atenção para... não como esses chefs fazem, que esses chefs eles são chefs de hotéis de tantas estrelas, não é, mas eu gostava, porque a nossa comida timorense muitas vezes está em bruto . Por exmplo, alguns fazem o midarsin ou sinmidar, depende, não sei como que... alguns dizem de uma maneira outros dizem de outra maneira . Geralmente em Timor utiliza-se mais é ossos, não é, A: Pois . -- Ossos e mais gordura . Aqui nós temos que pôr uma carne melhor, não é . -- Pois . -- Por exemplo, sassate, sassate também, quer dizer, eu acho que tá bom, tá bom, mas o sassate, eu se fosse eu a mandar, se fosse eu a ensinar eu punha sassate para entrada, os pauzinhos eram mais pequenos . -- Portanto, tens alteração - tentas aperfeiçoar melhor a nossa... B: A nossa comida . Eu gostava, gostava imenso . -- Portanto ainda tens esse sonho, essa esperança? -- Tenho, tenho, eu tenho, tenho essa esperança . -- Tá bem . Olha, Rosita, foi muito bom conversar contigo . Espero que essa tua entrevista dá para ajudar a faculdade e a Dra Susana, tá bom? -- Tá . -- Obrigado . -- Obrigada eu .  . -- Então vamos começar a nossa conversa . Boa noite, Maun X . -- Boa noite . -- Maun X, eu por enquanto eu queria saber quando é que chegou cá em Portugal e porquê? -- Eu cheguei cá no ano de 1994 . Dia 17 de Fevereiro . O motivo da minha vinda para Portugal era por causa da situação de Timor . Fiz parte da rede clandestina . Fiz parte de várias actividades em relação a...contra a Indonésia . Portanto, em suma, era a favor da independência de Timor . -- Sim . -- Foi por isso que eu tinha que fugir de Timor porque senão poderia ser apanhado pelos militares indonésios . Se tivesse apanhado a esta hora eu acho que, não sei, estaria no cemitério . -- Pois é . E então Maun X mesmo estava na cidade mas contribui para a luta da independência de Timor Leste . -- Errr, obviamente que sim . Quase todos os timorenses em particularmente para os que faz parte da minha geração, aqueles que são mesmo activistas pró-independência, nós lutámos a favor da nossa independência e contribuimos para isso, fazendo várias actividades por Timor . -- Várias actividades, como? -- Uma manifestação a favor da independência, a gente chama naquela altura rede clandestina, fazer os trabalhos clandestinos e também tentamos fazer sempre, sempre em Timor, a relação...criar como que se diz, naquela altura nós tratamos por naciona...nacionalismo em Timor, mas hoje em dia se a gente dissesse nacionalismo, as pessoas poderiam pensar que nós somos aqueles radicalistas . Então tratamos por patriotismo . -- Patriotismo, sim, sim . E então sentia que não tinha segurança naquela altura . -- Naquela altura a situação em relação a segurança da nossa vida era muito, muita baixa, digamos assim . O nível muito baixo lá em Timor . Em caso se fosse apanhado pela polícia, será morto sem justiça . Ou muitas vezes era desaparecido . -- Pois, sim . -- Portanto, quem é que andava a lutar por Timor sabe totalmente que é a vida é curta . Foi por isso e por causa disso que eu fui sair de Timor . Mas não só por fugir . Também a resistência já tem um plano para que nós podíamos fazer a campanha fora de Timor para consciencializar a comunidade internacional sobre o problema de Timor . Sobre a situação que se encontra em Timor . Nós vemos a desmentir tudo aquilo que a Indonésia andava fazer tantos anos a campanha sobre Timor na diáspora . A Indonésia fez campanha pela comunidade internacional de que em Timor não havia violação dos direitos humanos . Então nós vimos para desmentir, vimos para chamar a atenção da comunidade internacional de que aquilo que nós falamos, aquilo que dá pela televisão, a situação é sério . A situação era grave . Foi por isso que eu com mais um outro conterrâneo nosso, nós fugimos de lá e quando chegamos cá já temos os planos, os planos...os programas feitos . Chegamos aqui em 94 já sabemos onde, qual o país que nós podemos estar nesta hora, nesta data quando falamos sobre Timor . Tudo já está tudo agendado . E chegamos aqui e não passa alguns meses já estamos noutros sítios, noutros países . Na Holanda, Alemanha, França, o Japão, Canadá, em vários sítios que nós andamos, Suécia, Noruega, Finlândia, muitos, muitos países que nós andamos para chamar a atenção comunidade internacional em relação a tudo aquilo que os militares indonésios e o governo indonésio tiveram feito em Timor . -- E como conseguiu sair de Timor? -- Primeiro nós temos de fugir para a Indonésia . Lá conseguimos arranjar um passaporte falso . O passaporte é verdade, o passaporte não é falso, o nome das pessoas que constam num passaporte é que são falsos . Passaporte é um passaporte verdadeiro . Nós temos na imigração, foi a imigraçao da Indonésia que nos deu, só os nomes...todos os dados em relação a nossa...pessoal é que são falsos . -- E conseguiu ter esse passaporte e viajou cá em Portugal ou passou... B: Não, com esse passaporte nós não poderíamos ter o visto para entrar aqui em Portugal, porque não havia embaixada portuguesa na Indonésia . Então fugimos para Malásia . Lá não encontramos a embaixada portuguesa nem consulado . Fugimos da Malásia para Bangkok . Lá, sim, encontramos embaixada portuguesa . Foi lá que nós pedimos o visto para entrar aqui em Portugal . Só que naquela altura também havia dificuldades porque os nomes dos timorenses não é igual como na Indonésia . O meu nome era indonésio, o outro conterrâneo também era indonésio . O meu nome naquela altura era chama-se Johannes Snack . O outro colega nosso, conterrâneo nosso chama-se Rubisham qualquer coisa . E então o embaixador português não acreditava . Ainda bem que nós trouxemos o certidão de baptismo, escrito em português . Foi com o certidão de baptismo que nós conseguimos obter o visto para entrar aqui em Portugal . -- Ah, tá bem, sim . E quando chegou cá pela primeira vez, qual é a reacção da media, do povo, do Estado português? -- Não, nós chegamos aqui ninguém sabia, então entramos aqui, como que se diz...não encontramos com as medias, comunicação aqui em Portugal . Os que estiveram à nossa espera eram, como se diz... pessoal da, faz parte do CNRM, Conselho Naciona de Resistência Maubere, que estão à nossa espera e mais a segurança social de Portugal que foram ao nosso encontro . -- Depois viveu cá em Portugal . -- Sim, eu ainda fico...nós ficamos aqui não passa de um...não passa de...Fevereiro, portanto chegamos aqui Fevereiro qualquer coisa...estivemos aqui se não me engano era 17 de Fevereiro qualquer coisa assim . Depois 4 de Março já saímos de Portugal para Genebra . -- Genebra, a fazer o quê? -- Nós fomos ali primeiro fazer a campanha . Depois segundo fomos assistir o, a comissão dos Direitos Humanos . E nós testemunhamos em relação aquilo que nós vimos em Timor, aquilo que aconteceu com nós os timorenses, em particularmente fizemos chegar à comunidade internacional sobre a violação dos Direitos Humanos A: em Timor B: Em Timor que foi feito pelos militares indonésios . -- E como reacção dos ouvintes naquela altura? -- Eh pá, naquela comissão dos Direitos Humanos havia muita gente . Há pessoas que apoiam da nossa causa, há as pessoas que lutam pela...nosso país liberdade mas pela violação dos direitos humanos, mas há pessoas que apoiam a Indonésia . Nós também temos muitas pessoas que andavam aqui em, andavam aqui na Europa a fazer campanha pela Indonésia, pela ocupação da Indonésia em Timor . Portanto, naquela altura nós não sabíamos totalmente se todos eles apoiam Timor ou não . -- Timor ou não, sim . -- Mas aqueles que são nossos amigos, aqueles que são os verdadeiros defensores dos direitos humanos nós sabemos que estão do nosso lado . Agora aqueles que são os amigos da Indonésia, obviamente que eles estão ao lado dos indonésios . -- E eles ficaram assustados ou não? -- Não, assustam não assustam porque a maioria que estão ali são os amigos da Indonésia, dos indonésios, a maioria são as pessoas diplomatas . Portanto os diplomatas totalmente são as pessoas cínicos . Eles falam totalmente tudo aquilo que eles andavam a dizer é mentira, mas com o riso . -- Pois é, sim, sim . -- Portanto para eles era mentira...parece como um rei defende o seu país . Portanto eles não assustam . Nós tentamos naquela altura com tudo aquilo que nos aconteceu em Timor, tentamos era desmentir tudo aquilo que a Indonésia andava a dizer . -- Pois . -- Tentamos consciencializar as pessoas de que aquilo que eles, a Indonésia andava a fazer campanhas não está certo . E nós convidamos essas pessoas que andavam a lutar pelos direitos humanos, alguns governantes, alguns dos activistas, combinamos de para que pedir autorização na Indonésia que possam entrar em Timor para testemunhar com seus próprios olhos . Foi ali é que nós ganhamos . Então ela sabe, eles acham aquilo que nós falamos é que é verdade . E muitos foram até Timor, testemunharam aquilo que nós falamos, aquilo que a Indonésia falou não é verdade . Aquilo que nós falamos acertamos mesmo assim o essencial que é toda a comunidade internacional luta os direitos humanos . -- Eu ouvi dizer que também Maun X participou naquela manisfestação de 12 de Novembro e... B: Errm, errm, portanto, eu, é assim, eu participei mas aquele que andava a testemunhar mais a mais foi no Hospital Militar . -- Hospital Militar, ah... B: Aquele que a gente chamamos pela o segundo massacre . 12 de Novembro, a maioria de nós timorenses só sabem, conhecem que só tem, que só viu o massacre no cemitério . -- Pois, sim, sem dúvida . -- Mas também havia outro massacre no Hospital Militar . -- Ai é? -- Sim, chamamos que aqueles que foram transportados do cemitério para o hospital que ainda estão vivos, eles massacraram ali, mataram outra vez ali no Hospital Militar . -- Shhhh B: Então havia uma reportagem que foi feito pelo jornalista Mark Saal, que deu aqui em 94, chama-se "A morte de uma nação" . Não sei se deu aqui em Portugal, mas deu em vários, vários países, e, nessa reportagem, incluindo alguns dos meus testemunhos . Foi por esta reportagem que eu tinha que fugir de Timor senão poderia ser morto pelos indonésios . -- Pois é . -- Sim . E então aquilo que eu andava a falar, testemunhar mais são aquelas, o testemunho que ninguém sabia . Muitas poucas pessoas sabem, sabiam esta situação . Eu acho que agora até em Timor também muitas pessoas não sabem o que é o segundo massacre . -- Pois é, sim . Eu por acaso não sei disso, sinceramente . -- Essa é outro massacre que se existe em Timnor e que ninguém sabia . Foi por isso que eu saí para, como se diz, testemunhar e chamar a atenção da comunidade internacional e pedir à comunidade internacional que se...enviar os grupos ou os activistas ou os diplomatas, etc. para que se possam fazer uma investigação em Timor . Foi assim que, eu acho que foi nos anos 95 ou 96, estiveram em Timor uma comissão dos deputados, deputados japoneses . Estiveram em Timor a fazer este levantamento . Eles quase não, assim, parece uma investigação...não é totalmente uma investigação porque os governantes indonésios não deixaram e então, pronto, eles foram fazer-se um levantamento, eles sabem, procuram, pocuraram saber, encontrar com as pessoas que naquela altura estiveram ou maracaram presença naqueles... A: massacre B: no segundo massacre no Hospital Miliar, incluindo alguns médicos militares indonésios que estavam, trabalham no Hospital Militar em Timor . Eles falaram com o director do Hispital Militar em Timor . Todos eles negaram, disseram que não havia aquele massacre etcs . Mas...ah, também algumas pessoas civis que testemunharam, também testemunham, confirmaram que a situação aconteceu, e a minha, como se diz, a defesa que eu venho a defender, aquilo que eu andava a dizer, eu andava mais a defender era aquilo que a Indonésia fez no Hospital Militar . -- Pois é, sim, sim . E qual é o resultado daquele trabalho? Dos deputados japoneses? -- Eles concluiram todo...concluiram o levantamento que eles foram em Timor...fazer aquele levantamento com muitas dificuldades, conforme a filmagem, a reportagem que eles fizeram em...em...no Japão, foi dado por uma televisão part...uma televisão privada, mas é muito conhecido quase na televisão nacional, chama-se NHK durante 75 minutos...75 minutos . E relataram tudo aquilo que, como se diz, tudo aquilo que eles falaram com a Indonésia, tudo aquilos que eles falaram com os timorenses, tirando a conclusão que aquilo que aconteceu no Hospital Militar foi sério . Encontraram algumas pessoas sobre o evento que estiveram no Hospital Militar, que estiveram no mortuário, procuraram as pessoas que naquela altura apanharam só alguns tiros, nos dias que não foram mortos desapareceram até agora, então concluiram as pessoas que não foram apanhados com os tiros, os indonésios levaram para o hospital, mataram eles, mataram no Hospital Militar e o impacto no Japão foi muito a sério . Até convenceram o governo japonês...o governo japonês nunca tinha recebido qualquer dirigentes timorenses porque era activista timorense que anda a fazer campanhas no Japão . Pela primeira vez quando viram esta reportagem eu e o outro nosso conterrâneo Y, nós estivemos no Japão, foi recebido pelo governantes . -- Que bom . -- Ministério dos Negócios Estrangeiros, pelo secretário do Ministáerio dos Negócios Estrangeiros . Isto naquela altura nós reclamamos como uma vitória . Nunca tinha recebido uma pessoa parte da resistência, receber a resistência, e significa começar...o governo já conhece...reconhece a luta da resistência em Timor . -- Pois é . -- Foi uma grande vitória . -- E maun X foi lá... B: Sim, conversámos, discutimos isso . Eles deram-nos...era só 15 minutos para conversar sobre a situação de Timor . Mas conseguimos falar, discutimos até uma hora e meia . Mudou tudo . Portanto o governo já conhece, está sempre a defender a Indonésia, porque eles têm um grande negócio com a Indonésia . Obviamente que eles estão sempre do lado da Indonésia, mas foi com aquela reportagem mudou pelo menos a posição do governo japonês perante a Indonésia . -- Mudou como? -- Mudou significa começar a pressionar a Indonésia para que deixar aberto Timor, para que uma investigação seja a sério, não aceita mais, e aquilo que eles naquela altura foi assumido pelo secretário do Ministério dos Negócios Estrangeiros disseram que eles vão apoiar tudo aquilo, como que se diz, toda a propostas que foi feita pelas Nações Unidas, a resolução das Nações Unidas sobre Timor . -- Pois é . -- Para condenar a Indonésia ou a favor daquilo que nós os timorenses querem, tudo aquilo que fala sobre condenar, seguir aquilo que nós timorenses quiserem: independência ou integração...a nosso favor . Pois, pouco a pouco, vai, como se diz, nós ganhamos A: a confiança da B: a confiança dos governantes e do povo e conseguimos fazer a campanha para todo o Japão . Andámos pelo todo Japão de um lado para o outro, falámos com estudantes e sindicatos, deputados, ministros, jornais, eu naquela altura era... a notícia...a grande notícia no Japão era nas rádios, jornais, televisões, etc . Tudo! Foi uma grande vitória naquela altura . -- E isso foi quando? -- Em 95...95, 94, se não me engano . Eu acho que 94, 95 . Eu vou verificando aqui nestas fotografias, eu acho que tem...não sei se estão aqui . Espero que tem aqui . Não, não tem as datas aqui, pá . Isto fotografias também sem datas . Ah, não, tá aqui, pá . 94 . Foi em 94...94...7 de Novembro . Nós estivemos no Japão a fazer...percorremos o Japão todo . Duas vezes nós estivemos no Japão . O primeiro era só para reportagem, entrevistas e...só . Depois o segundo é que fomos da campanha . Essa, nós mostramos ali da campanha . São as campanhas que nós andamos a fazer . São os encontros que nós andamos a encontrar com a população ali . -- Na qual cidade? -- Eh, pá, em vários cidades, pá! A primeira vez que nós chegámos ali fomos para Osaka . Depois de Osaka percorremos para Nagano, Nagano-Hiroshima, depois para Tóquio, depois para Nara, vários sítios que nós andámos ali, pá, eu já esqueci . Em vários cidades que nós andámos ali todos . Percorremos a cidade toda a fazer a campanha, porque eles andavam em vários sítios . Portanto, este aqui são os meus colegas lá no Hospital Militar . -- Hospital Militar de Timor? -- É, Hospital Militar em Timor . Todos eles andam a testemunhar . Foi por causa disso que eu, quando vim a falar, o meu tópico foca totalmente no só no segundo massacre . Depois nós falamos mais sobre nós, actividades que nós andamos a fazer em Timor, há umas coisas que aconteceu em Timor, não só aquilo que aconteceu com a minha família . De resto, o foco, o principal...o caso desse problema era o segundo massacre . -- Então, depois de tanto sacrifício e quando em 99 as Nações Unidas permitiu fazer referendo lá em Timor qual foi a sua reacção? Ficou contente ou já estava a pensar que Timor ia ser um país independente? -- Não, quando nós começamos a lutar em Timor, já temos a coragem, já temos a fé e a esperança de que a independência era uma coisa certa . -- certa B: em Timor . -- Só questão de tempo só? -- A questão de tempo e como é que nós conseguimos obter aquela independência, tiramos a independência da mão da Indonésia, só isso . Então quando o referendo, naquela altura quando a Indonésia aceitou o referendo, é assim, ficamos muito contente, mas não é uma surpresa para nós . Sabemos que mais tarde ou mais cedo irá A: acontecer B: sim, acontecer em Timor . Não sabemos quando, portanto isso não é uma surpresa . Sinto uma alegria, sim . Já naquela altura eu digo, eu disse isso aos portugueses, aos japoneses, aos britânicos, muitas pessoas que nós andamos a dizer, eu disse claramente de que o referendo nós ganhamos absolutamente, eu tenho a certeza que ganhamos absolutamente . Agora vamos lá ver qual a percentagem . Que ganhamos, eu acho que ganhamos, e se eles me pergutarem: « Ah, mas como é que sabes que ganharam absolutamente?" Eu disse: « Não, pá, eu convivo mais com o povo do que com as pessoas da CNRT" . Eu sei totalmente aquilo que o povo quer . Portanto, isto não há...acho que não há...eu disse...naquela altura eu disse que isto não vai haver falhanço nenhuma . E portanto aqui em Portugal naquela altura também havia muitos timorenses, comunidade timorense...uma grande comunidade timorense que estavam aqui a viver, todos eles, portanto, a maioria das pessoas ficaram muito contente, ficaram muito alegria, algumas ficaram surpresa porque nunca tinha esperança de que o referendo irá ser realizado em Timor . -- Pois é . -- Mas, pronto, aconteceu-se . Eu, assim, olhe, quando a ONU ainda não deu a conferência de imprensa em relação o resultado de referendo, eu já sabia . -- Ah, ah, pois . -- Porque eu tinha...naquela altura fiz uma reportagem daqui de Portugal para dar em Miderran, A: Ah, Miderran, ya . -- então tinha contactos com os jornalistas da organização Miderran que são os indonésios, os activistas indonésios que lutam a favor pela independência . Eles me telefonaram: « Ah, maun X, vocês já ganhou...Timor já ganhou, tinha 80 e tal percentagem", não sei que mais . Eu já sabia nem aqui os portugueses sabiam, pá . E então eu disse aos meus timorenses: « Eh, pá, já ganharam, pá, já ganharam, ah, não sei quê" . Eu disse: « Não, nós temos a esperança que, quer dizer já ganhamos, mas a percentagem era isso" . -- Mm, mm . -- Eles telefonaram: « Maun X, já ganharam mas com que percentagem?" Mas eu acho que havia, havia muitos enganos em relação à votação . -- Pois é, sim . -- Havia também alguns timorenses aqui que votaram mal . Era para votarem independência, não, votou integração . -- Eiiii... B: Disseram que não gostam da Indonésia, A: Ahhhh B: estragaram a bandeira indonésia, nós não estamos a favor da Indonésia, A: Ihhhh B: furou...eles furaram a bandeira da Indonésia, eles pensaram que não gostava, pronto, furou a bandeira... A: B: foi por engano . Mas infelizmente, ou feliz, não...mas felizmente, todos nós, a maioria de nós trabalhamos bem, fizemos muito bom, uma boa campanha em Timor para que a maioria, a massa total de timorenses que está em Timor a favor daquela independência e aconteceu aquele que aconteceu...paciência, isto são as consequências e as circunstâncias da nossa luta A: Então, depois de muitos anos vive cá em Portugal já foi visitar Timor? -- Não, eu, é assim: depois da independência eu regressei para, ao Timor, foi no ano 2000 . Fui fazer o intérprete lá no congresso CNRT . -- Intérprete B: Sim A: Intérprete de potuguês para tetum B: Português-tetum, inglês-tetum, indonésio-tetum, tetum-indonésia, são essas . -- Sim, sim . -- Depois voltei também em 2001, isto foi um pouco infeliz, por causa do meu irmão, o meu irmão faleceu . -- Pois, sim . -- O último que eu estive lá foi em 2006 . Olha, agora vou regressar, vou ficar lá permanente . -- Porque quer já regressar para Timor? -- Oh, pá, então nós lutamos pela independência para ficar lá para trabalhar, não é para ficar noutro sítio! A: É, pois é! -- Pronto, há pessoas que vão lá nas férias, visitar, etc., etc., isso é outra coisa, né, uns trabalham, etc . Agora lutar pela independência para ficar noutro país, eh, pá, então naquela altura não devia lutar . -- Sim, é, pois, sim . -- Isso, o objectivo era nós ficamos ali . -- Porque a independência de Timor também é suor do nosso trabalho . E agora é tempo de indendência, de liberdade, e maun X quer voltar para Timor para, tipo...contribuir alguma coisa para o desenvolvimento do país, não é? -- Nós temos de contribuir por Timor, não é trabalhar no governo, fazer qualquer coisa no governo, cada qual trabalha no seu sítio, trabalha bem, fazer bem a Timor, no mínimo aquilo que nós queremos fazer é fazer algo para que este país fica melhor ainda, viver em paz . Por isso, olhe, a gente vai trabalhando, ganhando a vida, comer e viver . Viver bem já é uma grande alegria, já contribui para a paz em Timor . -- Pois é . -- Contribui para a independência . Não precisa de ter um trabalho...trabalhos há muitos...agora trabalhar em qualquer coisa, já está, já faz parte da nossa vida . -- Então, maun X, a nossa conversa fica assim e muito obrigado pela sua disponibilidade e bom regresso para Timor e bom trabalho . -- O prazer é todo meu . Eu é que fico muito grato pela esta conversação . Olha, para mim melhorar aquilo que nós andamos a pensar, particularmente esta nossa geração . Sofremos imenso . -- Pois é, sim, sim . -- E espero que a gente sabe reorganizar a nossa vida para que acabemos com o sofrimento e agora vamos viver com alegria e felicidade na paz . -- Pois é, sim, sim . -- Então bom estudo para ti e para os outros que estão lá . -- Obrigado, maun . -- De nada . -- Então, Sidai, nasceste mesmo em Dili? -- Sim, sim, não, não . Nasci em Iliomar que era sub-distrito de Lospalos, mais para leste de Dili . -- Em que ano nasceste? -- 80, 1980 - quer dizer, vou fazer 30 anos daqui a uns meses . -- Agosto? -- Novembro . -- Se fosse no dia 26 de Novembro nascemos no mesmo dia . -- 26? -- 26 de Novembro . -- Tu fazes a 26? -- Faço, e tu? -- 11, 11, dia 11 de 80 . -- Nasceste já na época da invasão, durante a invasão? -- Sim, durante a invasão - nasci, nasci no meio da crise, digamos . Nem imagina na altura perto de 80 - fim de 79 até 85, 86 Iliomar era um dos sítios onde havia sempre confronto entre militares e, na altura, era a FALINTIL . -- Digamos, o sítio mais crítico . -- Sim, mais crítico . -- Olha, e depois entretanto vais crescendo, estudaste, começaste a estudar indonésio? -- Sim, comecei a estudar sekolah Dasar em Iliomar na altura da Indonésia depois - preparatório, sekolah menenhag pertama, não é, preparatório, entrei para preparatório em 95 e depois...9 acabei o preparatório e entrei para a escola técnica profissional em Fatumaka A: Colégio . -- Colégio Salesiano de Fatumaka . Lá estudei durante três anos . O curso que tirei foi carpintaria . depois disso acabei em três anos . -- Com o padre Locotelo? -- Sim, com o padre Locotelo, com o padre Baltasar, com o padre...outros padres salesianos que são fantásticos . Eram três . -- E essa escola naquela altura era considerada uma escola muito rígida? -- Era porque... A: Quem saía de lá tinha sempre emprego garantido, um bom... B: Eu conheço pessoas...quase todas pessoas que acabam, acabaram o curso lá A: tinham emprego garantido B: porque lá +e mesmo preciso dedicar tudo A: Exactamente . -- E acabei em 2000, 2000...na altura quando a transição lá, os problemas quando pedimos a independência, depois vim para Dili, continuei na Universidade Nacional a estudar Engenharia Civil, entretanto ganhei uma bolsa para vir cá para Portugal, e, pronto, cá estou . -- E em que ano chegaste aqui? -- Cheguei aqui em 2001, Setembro de 2001, a Coimbra . Estive lá três anos em Coimbra na área, na, no curso das Artes, que é Artes Gráficas, continuei lá três anos nesse curso que equivale ao 12º ano que já terei tirado lá em Timor...voltei a estudar o 12º ano aqui nas artes gráficas...depois, depois disso, por culpa da burocracia tive que esperar mais dois anos para entrar na Faculdade de Belas Artes e, eh pá, estes dois anos foi um tempo mal passado, digamos, mas enfim, consegui enfrentar as paredes . -- Vocês vieram com a bolsa do governo de Timor? -- Sim, que era a bolsa, a bolsa era o projecto era de cooperação entre o governo português e o governo timorense e agora que o projecto é de cooperação com o IPAD, Instituto Português...Instituto Portuguêsde Apoio do Desenvolvimento, na altura eu vim com essa bolsa e pronto, vim com essa bolsa, estudei três anos, acabei o curso . Na altura quando acabei o curso quis continuar com a universidade mas entretanto chegou... A: Problemas B: não correram bem a negociação entre o governo timorense e a embaixada, a nossa embaixada em Lisboa com a instituição que é IPAD . Então disseram-me para eu voltar mas eu não . Quero ficar e continuar, então fiquei com o curso . Entrei para a faculdade em 2005 como alunos...mas mais pelo abrigo...regime que assiste timorenses, regimes especiais que não precisam, que não precisam recorrer A: Provas B: Provas para entrar na faculdade . Felizmente entrei, acabei o curso A: Com muito custo B: Com muito custo quando entrei A: Quanto, quantos eram os que vieram do teu grupo? -- Na altura tínhamos 300 pessoas . -- E não ficaram todos aqui no Porto? -- Não, não, não, não ficaram . Fomos espalhados, fomos distribuídos por todo território , território nacional até nas ilhas, também . -- Alguns foram para Açores e Madeira . -- Sobretudo as cidades principais cá do território nacional: Lisboa, Porto, Coimbra, errrr...mais... Braga, Leiria, Santarém e muito mais . -- E vocês tiveram apoio de...além do governo ...de português? -- Sim, pelo que me lembro na altura quando fui bolseiro durante três anos só tive esse apoio...da bolsa de cooperação e bolsa do IPAD e só tive essa bolsa, só essa bolsa e, e, e, mais nada . -- E o tempo que tiveste aqui e os outros o vosso convívio de pessoas entre vós, só entre vós ou também têm amigos de outros países e há convívio entre vocês, que relação? -- Quando estudei em Coimbra, o convívio era...podia aproveitar melhor aquele tempo porque Coimbra é uma cidade pequena, concentrada . Aliás, toda a gente se vê - os estudantes PALOPs, os estudantes Erasmus de outros países europeus, mas na altura, como tínhamos aquela tendência dos timorenses estávamos sempre nós . -- tendência só para nós B: E depois disso fui passar em Braga durante um ano e meio, convivia com famílias timorenses, convivia sempre com os timorenses . Depois disso vim para aqui para estudar para o Porto, comecei, comecei a pensar dessa maneira que é a conviver com outros até A: Começaste a conviver com os outros B: até porque há dias comentavam que sou o único timorense na minha faculdade, pelo sim , pelo não, tenho que conviver com eles . -- E ajuda, não é, a comunicação . É outra professora . -- Claro...e só a partir daqui é que comecei a conviver com ...sociedade porque dantes só, só com timorenses, timorenses . -- Tiveste apoio deles, dos amigos? -- Sim, se hoje em dia acabou o curso foi pela ajuda deles, foi a ajuda dos meus amigos e professores que consegui chegar onde cheguei agora . Foi, foi fantástico . -- Tens irmãos? -- Tenho, tenho, tenho um irmão e uma irmã . Estão todos casados . -- Estão em Timor? -- Sim, tão todos em Timor . -- Os teus pais...ainda tens pais? -- O meu pai já morreu, a minha mãe ainda tá lá, tá à minha espera... A: Tens contactado com eles? -- Tenho, tenho, agora em Iliomar já apanham rede e então já dá - ao meio-dia, à tarde, de manhã estamos sempre a contactar quando os cartões já acabaram . -- E de vez em quando ligas ainda estão a dormir, é uma confusão de horários B: Numa aula ou então acabei de dormir duas, três horas manhã e, pá, não ia gritar com a minha mãe . -- Tinhas que dizer-lhe ainda estou a dormir, aqui ainda é madrugada . E as notícias que tens sobre Timor, aquilo...conforme estavas a dizer que até a rede de telemóveis agora lá funciona bem, até estradas e... B: Das estradas, isso aí não sei . Espero bem que nas cidades principais, as cidades principais como Dili, como Baucau, como Maubisse, como Lospalos já melhorem um bocadinho a parte das estradas, mas penso que a...esquece, porque é construída...a estrada é construída A: Mas sabemos que lá para os teus lados turisticamente a tua zona é a zona mais conhecida em Timor, não é, portanto, quer queiram ou não, eles turismo tem que... B: Claro, tem de continuar . É uma zona verde, tem praias para surfistas . -- Tem paisagens magníficas, aquilo é planície . -- Mas, enfim, vamos lá ver o que é que a parte do turismo, a parte do turismo faz A: Então já estão a acabar o teu curso, não é, já acabaste mesmo agora...tás mortinho por voltar? -- Isso, oh pá...quando tás cada vez mais perto a saudades apertam A: Ansiedade B: Sim, ansiedade . Ainda ontem o meu...disse-me então, disseste-me que já acabaste o curso porque não, não voltas já A: E tu respondias: « Isso queria eu!" B: Por mim, já lá estava, tomara eu . Tou dependente; agora estou à espera que a embaixada resolva a situação, me chame daqui a umas semanas, a uns dias, porque no meu último ano de curso finalista, a Fundação Calouste Gulbenkian fez duas bolsas para estudantes timorenses...dois critérios fundamentais que era acabar o...o finalista tem que acabar o curso e depois tem que voltar...tens três critérios, finalistas, acabar o curso, tens de voltar e depois o principal critério é: és finalista ter média de 12, 12 valores no mínimo A: Superaste esse B: Tive 13 e então consegui a bolsa, como era bolseirto durante um ano da Fundação Calouste Gulbenkian, assim que acabar o curso, tenho que voltar agora . -- Vais cumprir, vais cumprir a tua parte . -- Já cumpri a minha parte, agora vão ser eles a cumprir a parte deles, pagam a viagem para voltar senão, olha, pronto pagamos qualquer coisa e fico aqui...mas espero bem sair daqui a uns dias porque...oh, pá, já estou farto de ficar aqui...tenho muitas saudades daquilo . -- É pena, porque é muito longe e a viagem é caríssima . -- Caríssima, é muito longe, é muito cara . -- E...mas recordações, uma lá da tua infância e outra um dia se for embora para Timor... B: Bem, lá...há tantas recordações...ah, já me lembro A: Há coisas que uma pessoa nunca mais esquece . -- Sim, nunca mais me esqueço, é . Em 85, na altura da FALINTIL, FALINTIL na altura chamávamos de FRETILIN mas que é FALINTIL, cercaram, cercaram, cercaram a ilha . Iliomar naquela altura já tinha cercado todas- tinha, atacado todas as ilhas, toda a parte leste e em 85 atacou, atacou A: A tua aldeia B: Sim, a minha aldeia . E, na altura, o comandante...já sabia que não era fácil porque ele era de, lá da vila e ele sabe como era difícil entrar, não era fácil . Para sair de lá era difícil mas todos juntos, como é que se diz A: Tomaram o comando B: Os outros comandos agora ficas tu e agora vamos nós e então lá foram eles . Na altura acreditaram neles A: E ele ficou na altura B: As partes mais mortais, não as partes da Indonésia, mas do lado deles porque eles entram lá e não sabiam, digamos, que...lembro-me nessa altura porque éramos muitos...tínhamos, tínhamos que ir ao abrigo, tínhamos que ir porque aquele tiroteio...quando numa altura da minha vida quando era os cartuchos, as balas vão de uma lado para o outro sem aviso, na altura, eh pá, nunca mais me esqueci, naquela altura mesmo, oh pá, nunca me esqueci, tínhamos mesmo...víamos mesmo as balas a passar por cima . Isso nunca mais me esqueço . E outro ainda é sempre a mesma coisa: às vezes e, Iliomar às vezes entre militares...entre o posto dos militares indonésios, então às vezes, meio-dia ou até fim da tarde, eles tipo...como é que é telegrama? -- Mensagem? -- Sim...não, não é mensagem . É aquilo em frente da arma e depois eles A: Ai...lança, lança B: Eles pura e simplesmente invadiram a vila e tínhamos mesmo que ou... A: Os indonésios não fizeram isso, os indonésios B: Foram eles, foram eles que fizeram . E, oh pá, é, era às vezes tínhamos que correr para ficar, e não só à noite, às vezes de dia, e lembro-me na altura aqueles chineses que viviam lá na minha vila e só eles é que tinh uma casa de cimento, não é A: Casa de pedra B: Sim, de pedra, então tivemos de esconder lá A: O melhor abrigo B: Melhor abrigo na altura e... A: Igreja? -- Na igreja tínhamos, ah, não, na altura, quando entraram, destruiram tudo, tudo...algum morto mas mortos na altura, mais mortos para o lado deles porque, se não estou em erro, só três, três...não, seis ou sete que morreram de cancer, de resto foram deles . E depois recordações de aqui, eu tive muitas, mas uma que nunca vou esquecer nunca mais: na altura recebi uma carta da colocação para entrar na faculdade . Eu já tinha esperado dois anos inteiros para continuar a faculdade e eu já estava...a parte da burocracia e A: Já perdeste a esperança? -- Já perdi a esperança, porque na altura fiquei em Braga . Depois fora, as pessoas da Embaixada que me mandaram para Braga para fazer a carreira e durante um ano e meio só me enviavam 150 euros para viver com 150 euros A: 150 euros, não podes estar doente, não podes comer . -- Não . E, então... e depois em 2005 que ainda tento entrar na faculdade e...mas entretanto no meio desta candidatura eles descobriram da parte do IPAD que é o instituto que deu a bolsa durante 3 anos em Coimbra, descobriu que eu entrei, que ia entrar na faculdade e, então, telefonou para a Embaixada a dizer: « Não, este aluno não pode entrar para a faculdade porque ele tem um compromisso que já acabou o curso e tem que voltar para Timor e como é que é?" Então eles, como é que é... A: Guardaram o teu processo B: Sim, guardaram o meu processo, tipo errr... A: Cancelaram B: Não, não cancelaram, mas tipo, guardaram que é que foi . Então disseram: « Não podes entrar na faculdade porque tens de voltar" . Então telefonei para a Embaixada a dizer, na altura era o Dr X, eu expliquei tudo . O Dr X compreendeu porque sabia perfeitamente porque é que eu fiquei naquela altura e ele disse:" Não, não . Tu tem calma que eu trato desse assunto" . E então foi ele a IPAD a falar com os responsáveis de lá, depois fui à Associação do Ensino Superior, não sei quê e tal, foi ele tratou de tudo e todos e depois...só em Novembro é que mandaram-me a carta, a carta que naquela altura vivia em Braga...a carta entretanto a carta chegou, fui ao café, quando cheguei a casa tinha lá uma carta para mim e depois que eu já sabia que era da Associação Ensino Superior e então o que é que fazia, abri a carta, a primeira coisa que ei vi era sou colocado, não sou colocado . Ao ler, eu não li nada, fui colocado, não fui colocado, eu li que fui colocado, não li nada, saí do elevador , vi aquele prédio não sei se o maun João conhece, ai aquele prédio alim e corri à volta lá em cima no piso deles...não sabia o que havia de fazer que naquela altura eles estavam nas aulas, foram todos às aulas então eu ficava lá sozinho durante esse tempo todo, não sabia o que é que fazer . Entrei para o apartamento, pousei o, a carta, depois comecei...fui ao quarto de outro amigo, vi os carros a passar, depois pensei:"Porra, até que enfim que tu não vais estar sempre aqui a contar os carros a passar!" Eh pá, aquilo, não sei, não sei porquê, não pude explicar, eh pá, eu chorei bastante . Espectacular! A: Claro que chamaste os teus amigos todos . -- Nã, nã . Quando eles chegaram: « Eh pá, até que enfim! Eu gosto muito de vocês mas parece que chegou a hora de partir, separar-me, separar-me de vocês." -- Nessa altura onde é que vocês estavam? -- Estávamos em Braga . -- Recebeste a carta para vir aqui para o Porto . -- Assim que recebi a carta logo no dia a seguir vim logo para a faculdade . Inscrevi e a partir daí nunca mais larguei a faculdade, nunca mais...foi mesmo, eh pá, espectacular . Valeu a pena . -- Há algum amigo especial que vais lembrar quando chegares lá em Timor? -- Em Timor? Amigos timorenses... A: As duas coisas: amizade com...poque todos eles que vieram contigo gostaram...estudaram contigo mas não conheciam, né, fizeram amizade aqui, não é? -- Exacto, exacto, e uma das coisas que eu penso bastante quando eu saí de lá...nunca tinha saído antes de Timor quando vim para cá . Era uma experiência única e é uma experiência única ter sido lutador porque para além de ser aqui, o conhecimento aqueles que adquirimos na faculdade acho que é igual estivesse na Indonésia, na Austrália, é igual . Mas sobretudo...oh pá, uma pessoa sente-se mais, mais responsável, a amizade que fazemos A: Responsabilidade B: É espectacular, porque para mim é uma experiência única e espectacular, porque para além da incerteza de sair de lá que nunca saí de lá . -- Sozinho, quer queiras ou não, és tu que tens que fazer tudo B: EU por acaso notei isso . Quando cheguei a Coimbra fui convidado por um amigo meu e ele disse: « Vamos ali" e lá fomos, lá fomos, lá fomos a Lisboa, depois fomos a Lisboa, quando voltamos de Lisboa para Coimbra no autocarro é que começamos a pensar logo: « Fogo, é mesmo espectacular!" -- Vieste sozinho, voltaste sozinho? -- Não, fui com um amigo e voltei para Coimbra com o amigo, com o tal amigo, mas eu pensei logo, quer dizer, agora aqui ninguém me chateia, ou seja, quero, quero liberdade total . só que a partir daí eu pus-me a pensar se alguma coisa acontecer agora aqui A: Tás perdido . -- Eu estou perdido . depois eu fui crescendo e a respnsabilidade... A: E tendo alguém da nossa terra também é muito importante, né, ajuda muito, ajuda muito para sobreviver também . -- Claro, era isso que eu ia dizer mesmo, porque os timorenses tÊm tendência para juntam-se . Por um lado é muito bom, porque, pá, na altura era uma experiência assim talvez...era novo para quase a maior parte de nós, porque uma parte de nós nunca tinham saído de lá e então não nunca sabíamos como é que se servia o dinheiro, o nosso dinheiro para gastar . Então lembro-me na altura dos trÊs em Coimbra, faltam uma semana ou duas para a bolsa entrar, já, já tinha que pedir 20 euros a alguém para... A: Também essa experiência ganhaste ou ganhamos uma boa experiência é isso, acho . Para mim acho que é um valor que levamos para lá para transmitir aos outros, aos futuros e ajudar os outros, os próximos que, se quiserem vir, já têm esse apoio, já podemos deixar esse apoio . -- E, já quando for essa altura, já podemos falar: « Não faz isso, não faz aquilo, porque tem que ser assim e tal" . Já falamos da nossa experiência para essa tal pessoa . -- De certeza que no próximo aqueles que virão, de certeza vão consultar, vão-vos procurar e consultar, tirar essas ideias . -- É claro, é perguntar para partilharmos a nossa experiência como é que podíamos, vivemos, vivemos, viver esse temnpo todo num país estranho e depois chegas lá com...saíste de casa e tás aí sozinho. -- Pois é, e o teu futuro? -- Ai o futuro! -- Já cheiras alguma coisa? -- Isso é que...muita expectativa em relação ao futuro . -- Não fazes uma ideia? -- Eu, sempre . -- Qaundo voltares lá, vais ficar em Dili ou... B: Sim, sim, terá que ser, tem que ser, porque... A: Nos outros campos ainda não tem... B: Nos outros campos ainda não tem campo de trabalho, nas outras cidades, por isso tenho que ficar msmo em Dili e lá hei-de arranjar alguma coisa . -- Claro, o pior já passou, o pior já passou e todos nós, todos temos...isso que é sempre valido para lá . -- Mesmo com...sobretudo espero bem que contribuo alguma coisa para o país porque temos...temos muita coisa para fazer . -- Bem, vamos terminar a nossa conversa . Obrigado . -- Espero que tenha ajudado alguma coisa . -- Ai sim, sim, bastante . -- Ok, vamos começar . Vamos começar falar . Em primeiro lugar eu queria saber onde e em que ano é que nasceu . -- Nasci em Dili, na cidade...na, em capital de Timor, em Dili e no ano de 1989 . A: Ok, então vamos começar a nossa conversa, e em primeiro lugar eu queria saber onde e em que ano em que você nasceu? -- Nasci em Dili no ano de 1989 . -- Como foi a sua infância? Você nasceu em Dili e naquela altura como foi a situação e a sua infância... B: A minha infância foi muito feliz, e assim, sei lá, brincar, a brincar os meus amigos, como é óbvio, como se faz uma criança e a estudar A: Estudar... B: Sim, mas maioria passei a brincar, só . -- E você? C: Nasci em Dare, 1987, e a minha criança foi muito feliz , era divertido muito, porque nasci numa cidade quase...numa área só onde vive só a minha família, famílias, e foi muito feliz, só que é temos dificuldade, por causa, podemos dizer que vivi num situação no tempo da invasão da Indonésia . -- A guerra, pois é, sim, sim . Mas por acaso, sim foi, em Dare...Dare um sítio mais calmo . C: É mais sossegado . -- E mesmo assim tem também impacto negativo por parte da forças armadas da Indonésia, não é? C: É, é muito, porque eles desconfiaram muito porque sei os que da montanha, como as pessoas... B: os rebeldes C: rebeldes A: rebeldes, pois C: Eles desconfiam muito . Parece que quando eles vêm para Dili, passaram lá em Dare . -- Ah, pois é, sim, yeah, yeah . E ouvi dixer também que alguns líderes da resistência passaram lá a viver na casa dos padres, ou... C: Sim, não, não sabia muito mas quando era criança era o major X, foi lá ficar...ficou na minha casa A: Ah, tá bom . Que bom . C: Durante quase um mês . O meu pai naquele momento era como... B: estafeta C: estafeta A: estafeta, ah, ah B: da resistência A: da resistência...e a situação ninguém sabia disso C: Ninguém sabia disso, porque naquele momento meu pai tem confiança por causa temos lá o padre X . -- Ah, o padre X . C: O irmão do Ibotino . Por isso que o meu pai tem garante para encostar ao padre . -- E o padre em si, sabia ou não? C: Sabe muito...sabe muito bem . -- Sabe tudo . -- Ah, tá bom . C: O meu pai disse tudo a ele . -- Então, apesar de ser um indonésio, mas C: É muito, muito, já como um timorense A: Como se fosse um timorense . C: Um timorense . -- Que bom . E depois...andou na escola no ensino básico? C: Yeah, ensino básico e pré-secundário lá em Dare . -- E depois secundário? C: Secundário é que vim para S. José, Colégio de S. José . Era a nossa escola . -- Pois é . -- Oh pá, eu também...além de...posso dizer que a minha infância foi muito feliz porque quando era criança não sabia nada, não é . Quando davam tiros, pronto, os meus pais disseram para esconder, para ficarmos dentro da casa e pronto, nem...e nem...quando entrei para a cozinha só para tirar as comidas, para levar às escondidas das cozinha...não saber cozinhar . Não sei cozinhar e às vezes ao brincar e assim quando eu vi, pronto, passei...nasci já no tempo da invasão da indonésia, por isso passei...quando a ver os militares a passar e ficou tipo traumatizado com o quê...porque, sabe, quando eles passam sempre tragam com quê? A e C: armas B: armas, armas, e por isso sempre viajaram com armas e por isso fiquei assustada, assustada, sim . E como... A: E passaram pela sua, à frente de sua casa . -- Ah, yeah, eles passaram sempre C: Sim, sim, sempre B: E algumas vezes fizeram como revistas, revistas à casa, à casa . Os jovens do meu bairro também eles são rebeldes e por isso eles entraram sempre na casa e desconfiaram tudo como...naquele momento, se bem sabemos, quando desconfiaram de um bairro que houve jovens, há, houve pessoas que envolveram nas lutas, né, como rebeldes, não, dizer...resistência, não podemos dizer rebeldes, não é assim? Eles já vão assim, vão...têm de revistar quando já desconfiaram ao redor deste bairro e por isso revistaram . Quando houve alguma coisa, também andaram por volta de nossa casa e, por isso, como uma criança, as pessoas adultas ficaram assustadas, não é? E eu também, pronto, fiquei assustada . É assim . -- E qual é o nome do seu bairro? -- É Matadouro . Um dos...como se diz, linha vermelho . -- Matadouro fica mesmo ao lado de Balibar . -- Sim, e foi o mais...o quê? assassinado no dia de, depois de...em 99, depois de ...como se diz? 30 de Agosto . -- Referendo B: referendo, depois do referendo, no dia 1 de Setembro, né? É no nosso bairro, foi no nosso bairro, mesmo na entrada para o nosso bairro que aconteceu A: Sim, eu vi lá na RTP . -- Sim, sim, porque ...o quê? -- Eu também vi isso, sim . -- Como se diz? O Centro de Nações Unidas naquele momento era perto da minha casa e por isso quando um jovem...e depois... já houve provocas de, entre militares indonésios e os jovem timorenses, né? E por isso, os militares indonésios também aproveitaram isso, porque já souberam que Timor já vai ser ... C: uma nação... B: pronto...e já. C: já ganhámos B: já ganhámos . O referendo já ganhou, né...pró...o quê? A: independência B: Pró-independência já ganhou, já ganharam e por isso, eles fazeram como, pronto, convocaram uns aos outros e...o quê? C: mataram B: e aconteceu aquele momento, tipo massacre . -- massacre B: Ya A: Setembro negro de 99 . -- No dia...mesmo no dia 1 . E um dia depois foi o meu aniversário . Passei... A: Em que dia? -- no dia 2 de Setembro . -- Ah, no dia 2 de Setembro . -- Pronto, passei o meu aniversário em casa do meu vizinho que ficava mais perto da UNAMET, do posto...do quê? Camp...arrgh, como se diz? -- Campo de concentração? -- Ya, campo de concentração de...não, não! O centro...office centre da UNAMET . Ficámos ali para mais perto quando acontecer alguma coisa, podíamos já entrar, mas não conseguimos . Pronto, ficámos ali, passei... A: Mas não conseguiram porquê? -- Porque, é assim, não sei, também...eu também...oh pá, estive 10 anos de idade e não sei o que é que se passa . Ainda tenho uma cabeça de...só a minha cabeça...o que é que tá na minha cabeça é só brincar, mais nada . Pronto, e fugimos para o mato, para Dare . Não conseguimos entrar . Se não, já estivemos já na Austrália . Já estivemos lá . -- Então quer dizer que mesmo houver guerras, perturbações assim, mas a sua infância sempre foi boa, feliz e... B: É. até, pronto, 99 . -- Até 99, pois sim . -- até 99, foi feliz . -- Então depois, depois do massacre de 99, você e a sua família fugiram para o meio . -- Fugimos para Dare A: Para Dare, pois, para o vosso prédio . C: Para a minha área . É, naquele momento havia muito refugiados...toda gente de todas as partes B: Também era criança não sabia nada . Senti e agora também pensei que fujimos lá como fazer um picnic, né, porque há todas... C: Todas as pessoas divertem todos os dias A: Ah, pois é... C: Porque são muitas pessoas e naquele momento quando as pessoas eram muito na minha casa o meu pai só diz assim, porque temos as plantações, para comer, meu pai diz assim...disse aos refugiados que o que está lá em, ... B: no quintal C: na horta, no quintal é nosso, para ninguém ficar morta de. -- fome A: Então quer dizer que naquele momento mesmo em Timor em geral passa por um situação difícil, mas em Dare os refugiados... C: movimentam-se B: livre C: livremente, por causa da...só uma vez que foi lá os militares indonésia e B: houve tiros C: só morreu lá uma senhora B: uma senhora, sim C: bala perdida...por causa de bala perdida A: bala perdida, pois é . C: Mas eles não conseguem, não conseguiram entrar lá, porque, por causa da B: segurança C: Veio o padre X para dizer-lhes a voltar, porque o padre X disse que assim, aqui só há, há populações, ninguém dos líderes ou os outros lutadores não . Só há as populações . -- Então quer dizer que o padre X conseguiu convencer os militares C: Ya . E ele era também que quando num momento. foi mais difícil quando não há comida, ele é que veio com o seu próprio carro para buscar alimento para dar aos refugiados . -- Ai que bom . Padre X é um padre jesuíta, não é? C: um padre jesuíta A: Vive lá já há muito tempo? C: Muito tempo, de 1991-92 e regressou para a Indonésia 2000, nos anos 2000 . E já agora, já faleceu . -- Ah, já faleceu C: Dois anos atrás A: Em Indonésia C: Em Indonésia . -- Que pena . Então, no seu caso, na sua casa, quando era pequena e jovem, vocês...qual língua que vocês utilizaram lá na vossa casa? -- Falámos português quando...até que eu entrei na primária, né . Só falei...desde criança as primeiras palavras que disse primeiro eram só do português, era só saber do português, mas quando já cresci, já, como já tenho, tive mais amigas que ...e por isso, a brincar com as amigas e a aprender tetum com elas . Mas com os meus pais falámos sempre português . Mas quando já cresci, já esqueci tudo . Esqueci tudo - agora falo muito mal . -- Então porque esqueceu? -- Porque é assim, sabe que quando já entrámos numa escola temos de...como na Indonésia, no tempo da invasão indonésia, né, quando entrei primeira vez para a primária, para a escola primária, tenho que aprender língua indonésia e por isso tentei para aprender a língua indonésia e para conviver com... C: os amigos B: os amigos também tenho. porque maioria dos meus amigos são timorenses, por isso tenho, tinha que aprender tetum, né, esforçar a aprender tetum e falar com os meus amigos e com a língua indonésia, que é utiliza...que se utiliza no, com o currículo, aprendi língua indonésia e por isso falei mais tetum e indonésia do que em português, já menos português e, por isso, com o tempo e esqueci pouco a pouco, pouco a pouco...e agora nada . -- Mas conseguiu, já conseguiu. -- recuperar A: recuperar B: entre aspas, entre aspas . Um bocadinho . -- Pois, sim . São jovens, então, tipo, ...começar de novo . C: começar de novo . -- Aprender e falar português C: Nós temos de aprender, porque estamos em Portugal B: Pois . -- É muito importante, não é? E no seu caso, como, tipo? C: Língua mais falada? -- Sim, na casa C: Na casa é só tetum e então na escola é indonésio . -- Dare? C: Falamos mambae . -- Mambae, né? Também só fala em casa . C: Também se fala em casa, como tipo desluto A: Ah, desluto . C: fala com os velhos, assim, ah criança 'kode kode'...é só assim mas a mais utilizada é a língua tetum . -- 'Kode kode' o que é isso quer dizer? C: Como está . -- Isso também se utiliza em >, 'kode kode hak' mas eu não falo . -- Então, como acabou de dizer, você estudou no ensino básico e no pré-secundário C:lá em Dare A: e depois no secundário foi estudar em Dili no colégio de S. José . E então isso, como, tipo, foi viver em Dili, ficar em Dili a estudar ou C: É assim, depois de acabei o pré-secundário vim para S.José, por acaso naquele momento eu era para B: para ser padre! Era para ser padre! Ex-padre! C: Por isso, quando era ensinei, porque a ensinar para a comparação com o Colégio de S. José, por isso, estudar no colégio . -- No colégio e...ficava no Gimnásio . C: Sim, no Gimnásio . -- Até acabar . C: Até acabar, um ano propodêutico e mais um ano para...como se diz, para o Fatumeta B: Seminário maior C: Seminário maior, ya, até ao momento em que saí . -- No caso dele... C: A vida mudou! -- por causa da vocação! Ainda não terminei! C: Estava escrita na bíblia... A: A nossa vocação, ninguém sabe do seu futuro . -- Eu podia ser madre, tenho jeito! -- Então você entrou no seminário em que ano? C: 2002 A: Depois chegou até seminário maior. C: Não, não . -- Em Fatumeta? C: Só terminei o seminário menor na Belide A: Ah, na Belide até... C: Até quarto ano A: Depois saiu . C: Depois saí . -- E depois foi para onde? -- Casa . C: Depois fui para Dare, não fiz nada, aquele momento foi lá . Fiz o curso de nível 3 um ano . -- De português? C: De português, de língua portuguesa . -- Em Dare ou em Dili? C: Em Dare . -- E quem foram os professores? C: O meu professor é o professor X de... B: Ah A: De qual, da faculdade? C: De português . -- Ah, ok . C: Professor X A: Ah, o professor X,claro . C: Casou com timorense A: Com timorense? -- Casou com timorense . C: Não, casou com professora X . -- Olha, não conta a vida das pessoas aqui... C: Mas o curso só...um dia por semana . -- Um dia por semana só? C: Só na terça-feira, de manhã e de tarde . O resto do dia só fiquei em casa, durou metade, a fazer as hortas e assim . À tarde com os amigos, primos, vamos ao futebol . Depois à noite vamos para Delara A: Delara? C: Delara, sim, para beber um copo . É isso assim . -- Então professor X mora em Dili depois de... C: Mora em Dili, ensina em Dare . -- E só foi lá uma vez por semana só? C: Sim A: Um dia por semana C: Um dia por semana . Acho que mais - não só para o curso nível 3 um dia, ele também deu curso para os professores . -- Ah, tá bem, sim . C: Como se diz, para o nível...nívels quatro, cinco e sei para os professores da primária, pré-secundária... A: Então quer dizer que você aprendeu a língua portuguesa intensivamente naquele tempo? C: Podemos dizer, era no seminário, temos o diário português, o diário inglês, mas eu fui sempre apanhado, porque sempre falei tetum, sempre falei tetum . -- Porquê falou tetum? -- É mais fácil! C: Tipo, assim, ensinar tem uma regra, né? No diário português, todos têm de falar português . Quem falar tetum... -- Vai ser castigado . C: Vai ser castigado . Então, só dizemos uma palavra que não sabíamos não podemos dizer em português, então nós íamos dizer A: com gesto C: com gesto, não, com gesto eles não querem . Por isso, então vou dizer em tetum; você vai dizer tetum? Oh, e eles ah, você é... A: Então, tipo, um meio para obrigar os seminaristas... C: não para obrigar, para facilitar para aprender a língua, né? -- A língua portuguesa C: Só que ainda temos dificuldades porque naquele momento nós estudamos português, não estudamos como uma língua sempre, mas só estudamos como as matérias, outra matéria, um dia por semana, duas horas, assim B: E usamos indonésio como currículo . Naquele momento ainda utilizamos . Por isso, as duas horas de tempo de português não vale a pena, né? -- Sim, sem dúvida . Ainda por cima a língua portuguesa é uma língua muito difícil, não é? E depois, é difícil... B: Para nós, os timorenses, é difícil . C: Especialmente nós que estudamos pouco tempo . Quando eramos criança, não estudamos o português, só língua indonésia . Mas comparamos com os outros que estudam na escola portuguesa, falam muito bem . -- Porquê só língua indonésia? Porquê? B: Como é, só língua...? -- Por que você utilizava também língua portuguesa como... B: língua de ensino A: língua de ensino, ou uma matéria, tipo uma disciplina lá no tempo da Indonésia B: Ah, no tempo da Indonésia só nos, todos nós somos obrigados a estudar língua indonésia, língua indonésia C: Aprendemos português mas só no sexto ano . -- Na minha escola não . -- Lá em Dare . C: Sim . -- Então em Dare, no tempo da Indonésia já se ensinou língua portuguesa no sexto ano . C: Como uma matéria . -- Quem foi o professor? C: O professor foi um mestre, um antigo mestre, ex-frater e amigo do Francisco Xavier . -- O presidente, o primeiro presidente da República de Timor . C: José Maria Lobato . Era de Meliana, estudou em Sudara, veio para Dare e ficou lá em Dare . -- Então, você, a sua família, além de... B: Não são originais de Dare C: Eu, tipo a minha família, o meu pai já é Dare . -- Já é Dare, como? C: Nasceu em Dare . -- Ah, tá bem, sim C: Os meus avós são de, vem de Fatuku, é perto de Dare e a minha mãe também nasceu em Dare . -- Então a tua avó materna ou paterna que vem de Meliana? C: O meu avô vem de Meliana para estudar, vem estudar, e depois vem para Dare e trabalhou em Dare e não voltou mais e por isso, B: casou . C: Não casou, não casou só fica na casa da minha avó com as minhas mães, e ficou lá e com a minha avó eles consideram-se como irmãos . -- Ah, tá bom, sim, sim . C: Era o nosso director da escola B: Interessante A: Quando ele ensinou língua portuguesa como uma língua, uma disciplina tipo indonésia...os indonésios sabiam disso ou não? C: Sabiam . Acho que eles sabiam . Era só ensinar, era só como uma língua, como o inglês , só ensinar as básicas, como os verbos, conjugar os verbos, pronomes, só assim . -- Houve escolas primárias como pelo que eu saiba...a escola primária número quatro em Barakute também ensina, eles ensinaram isto, a língua portuguesa como uma das diciplinas . Mas já no quarto ano ou assim . C: Naquele momento, só na primária, secundária não . Provavelmente os professores no secundário são os indonésios . -- A maioria . -- Então, agora vocês, nós todos, nós os três estamos cá a estudar em Portugal . Você, qual é o seu curso? C: Estou no curso de engenharia de eléctrica e electrónica . -- Em qual universidade? C: Na Universidade do Algarve . -- Muito bom, assim para passar as férias . C: Uma zona turística . -- Uma zona turística, então, como é a sua vida lá, tipo a nível de interacção social com os portugueses, os estudantes... C: É normal, é como nós todos sentimos aqui com os portugueses . -- Temos amigos, temos sentimos que temos cultura diferente, mas conseguimos B: adaptar C: Adaptar e... A: Ok . Depois de acabar o curso, o que é que vocês pensam, qual a percepção para o futuro? C: Eu não sei, mas para mim, depois de acabar o curso, eu voltarei para Timor, primeiro, e depois ver lá se consigo fazer as coisas, trabalhar para as coisas para desenvolvimento da minha terra, principalmente no meu... área onde que eu estudo, consigo fazer coisas na minha área, mas não se é...a gente estudar num curso não significa que voltaremos para Timor, trabalhamos por exemplo para engenharia, vou trabalhar mesmo é de hotel, não sabemos . Mas eu tenho o sonho que se voltarei para Timor, consigo fazer, vou trabalhar para as coisas que relacionam com o meu curso . -- E o que é que está a estudar? -- Relações Internacionais na Universidade de Coimbra . -- Como é o seu estudo? E também a nível das relações . Eu sei que você também faz parte de uma Associação Académica de Timor . Então você pode-nos contar um pouco dessa vida? -- Da minha vida, não! -- Académica... B: Em Coimbra, pronto, é assim, como você sabe né, a vida de estudante, a conhecer amigos, nós aqui somos todos, somos novos da nossa terra, pronto, tentei sempre adaptar com os portugueses, quer dizer, com os meus colegas, os meus amigos e tentei adaptar com eles, e ainda tou a tentar também, para ganhar confiança deles, para conviver com eles, para aprender português através da nossa convivência . E pronto, graças a Deus que há pessoas que querem nos ajudar e ajudar-te a, com, no meu caso eles ajudam, há muitos dos meus colegas ajudam a aprender português . Quando eu falo, eu digo assim, por exemplo, quando eu falo uma coisa que eu sinto não falo bem e eu disse a eles para: « Se vocês não entenderam, vocês podem dizer ou se o meu português está errado vocês podem-me corrigir, né" . E sempre assim, sempre assim, pronto, uma maneira mais fácil, apliquei uma maneira mais fácil de aprender, para mim, uma maneira mais fácil de aprender uma língua através do nosso convivência . E mais fácil falar com os nossos amigos que sentimos mais próximos e, e...pronto, com os professores também nós aprendemos, né, mas é melhor com os amigos, mais fácil, quer dizer, mais fácil com os amigos, por isso, aprendi, além de aprender a consultar as matérias e também a aprender português, para aperfeiçoar o português, porque eu não estou a falar bem português . -- Então, depois do curso, de acabar o curso . -- Ainda não contei tudo . Ainda quero falar mais! Com os timorenses, como eu já disse, também aqui participo numa associação dos estudantes timorenses aqui em Coimbra que é a ATC, pronto . -- O que é quer dizer ATC? -- Académicos Timorenses em Coimbra . Associação Académicos de Coimbra . Pronto, tentei particpar porque além de nós ficamos na outra parte do mundo, e ficamos longe da casa, para sentirmos que não estamos cá sós e sentimos que temos família cá, eu, pronto, aproximo aos timorenses, pronto e eles também receberam-me bem e sinto-me que também estou em casa . Participo sempre nas actividades, nas actividades realizadas pela ATC, como jogos, aí apresentações de danças e cânticos culturais de Timor . Já mil vezes participei, sim . -- Ouvi dizer que você organizou uma drama e... B: Ah, sim, pronto, participei nessas actividades no dia 12 de Novembro, no ano passado de 2010, para comemorar, naquele momento, tivemos um evento para ser comemorado dois ...coisas o primeiro era, o mais principal, são importantes, são principais, dia 12 de Novembro e tomar uma posse da nova direcção da ATC e eu fui uma das responsáveis nos núcleos que existem na ATC e pronto, naquele momento, foi à tomada de posse e depois da tomada de posse, houve, continuamos com...o quê? comemoração do 12 de Novembro, uma celebração contínua naquela dia, de tarde tivemos já uma missa para comemoração, depois da missa é a tomada de posse, depois da tomada de posse houve mais A: actividades B: actividades para 12 de Novembro, né . Pronto, como naquele momento o tempo já está limitado, né, naquela altura . E eu pensei para fazer, era para apresentar uma poesia, uma poema que eu escrevi, né, pronto . Eu escrevi em tetum . -- Sobre o quê em tetum? -- Sobre uma vida...um jovem, os jovens que lutaram e alguns morreram para a independência, e escrevi, pronto, não sei se é bom ou não, mas eu tentei para fazer isso, para declamar em frente de...porque, pronto, aproveitei dia 12 de Novembro que é como símbolo nacional de juventude também e para comemorar o massacre de Sta Cruz que morreram muitos jovens timorenses, né, e pronto, pensei isso, e naquele momento não foi quando...a poesia é muito curto . Pensei para. disse para os outros, à direccção, à nova direcção que vai, que está a trabalhar ahora mas que naquele momento ainda não está... A: tomada de posse B: Pois, sim, disse a eles e eles aceitaram e naquele drama, não sei como se diz em português, mas era o pantomim, eu pedi aos pais, aos pais, aos timoreneses que estão cá para combinar com eles para os filhos deles que participaram nesse drama e eles aceitaram, pronto, com a ajuda dos pais, no primeiro dia, tivemos só um só dia de ensaio e duas vezes só e fiz assim, fiz uma drama do pantomim que, como se diz, a recontar o que é que passou no dia 12 de Novembro de 1991, 91, né A: 91 B: é para recontar isso e também no meio deste teatro é que eu fiz a minha poesia e no fim fizemos um minuto de silêncio para levar as pessoas a relembrar as vítimas e principalmente os que morreram e alguns que desapareceram sem... A: Sem saber B: Sem saber, pronto . -- Então naquele evento, naquela altura, quem foram os participantes? -- Pronto, eu e as crianças . Pronto, só são todas as crianças dos timorenses aqui em Coimbra . -- E participaram também tipo algumas entidades da outra universidade ou... B: Há pessoas importantes naquele momento, o bispo D. Carlos também participou...foi ele que fez a missa, mas no momento que apresentamos trabalho, ele já foi embora . Pronto, ele não viu . Mas alguns portugueses que são, uma delas é uma professora de treatro . -- De teatro, que bom, muito bom . Então, ficamos por aqui . -- Também já estou a tremer . -- Vamos terminar a nossa conversa, também já estamos com frio . Agradeço muito a vossa participação . -- E obrigada pela entrevista . -- Bom estudo e força . -- Obrigada . C: Obrigado . . . -- Boa tarde, tia . Então, está tudo bem? -- Bem, obrigada . Faça favor . Tem aí uma cadeira . -- Tá a fazer o trabalho? -- Sim, tenho um livro para entregar amanhã, tenho que apontar, não é, para entregar . -- Está a trabalhar todo aqui? Fazer o seu tese, não é? -- Sim, a tese...estou aqui a reler a obra de Luís Cardoso para tirar as partes de que ... contribuem para para ser classificada como um romance histórico, não é, porque... A: O título do livro é... B: Crónica de uma...a primeira obra de Luís Cardoso, a Crónica de uma travessia . -- Ah, ah, sim, sim . E tia está a fazer tipo uma análise da... B: Sim, estou a fazer uma análise desta obra . -- Está bom . Análise como? -- Bem, como estou ... como o curso que estou a fazer é a Teoria da Literatura na área de especialização em Literaturas Lusófonas, e na minha tese eu achei importante abordar um tema, um , um tema relacionado a Timor, este caso a obra de Luís Cardoso, como ao longo do curso estudámos outras literaturas... A: Pois é B: ...como do Brasil, de Cabo Verde, as literaturas de Portugal, não é, isto é óbvio, e até nós ser timorenses também, eu, por acaso, em particular queria colocar um tema relacionado a Timor para poder desenvolver a literatura timorense . -- Que bom, boa idea . -- Sim . Quando no final do curso a directora deu...do curso, né, sugeriu-nos para podermos escolher, pensar já no tema, então eu pensei nesta obra de Luís Cardoso, como...li só uma vez, né, mas eu gostei, gostei e pronto, e a directora também deu uma lista de professores para podermos escolher, seleccionar os professores que nós pretendemos escolher para nossos orientadores, que podemos contactar informalmente . Então eu pensei no meu tema e enviei um email ao professor, ao meu professor de Teoria da Literatura e ele aceitou com muito gosto, pronto e foi assim . Eu seja nesse tema e eu disse ao meu orientador será que, será possível abordar um tema que não foi estudado ao longo do curso e o professor aceitou e pronto ficou assim combinado . E infelizmente antes de final do curso, né, eu tive um acidente e pronto aquilo foi uma confusão e... A: mas conseguiu ultrapassar... B: Assim, eu estava assim desiludida, mas julgava que não ia concluir o curso por curar mas, sim, graças a Deus dentro, com aquelas minhas dificuldades conclui fazer a teoria e depois mesmo com dores também esforcei-me para poder fazer o meu projecto e pronto . Enviei pelo mail porque naquela altura não podia presenciar na reunião e finalmente o projecto foi aprovado no dia 12 de Janeiro e agora estamos, estou no início da escrita e no meio da pesquisa, por isso que estou ocupada, ontem não podia atendê-lo, ontem à noite não podia aceitar...estava ocupada . -- Por isso, estou a ver que ...A sua situação é difícil mesmo . A sua situação é um pouco, tipo, ter tudo um pouco a sua actividade . -- Sim, é que é o seguinte: quando não tenho aquela vontade para ler, se tenho...quando estiver assim um pouco mal disposta, não me obrigo, não me esforço para poder, para ler, porque se lesse também não faço aquele mínimo ideia daquilo que li, mas quando tenho já aquele um pouco de boa vontade para poder, uma boa disposição para poder ler, e já começo a ter algumas ideias, não posso largar, isso tem que continuar, por isso ontem à noite eu dormia às duas horas, porque... A: Faz bem, faz bem B: fui à cama, mas é que aquele, tive aquele confusão de ideas na minha cabeça e isso não apaga, isso não permite adormecer...porque estou ansiosa de acabar o mais depressa possível para poder regressar A: Sim, só pensa agora em Timor . -- Sim A: dos filhos B: Pois . Desta condição, desta minha saúde, também o frio não ajuda A: Ah, pois é B: para ter...bem, são experiências de vida . Nós temos que experimentar de tudo, o mais difícil e o mais fácil . Assim é que se vive a vida A: Eu sei que a tia tem muita fé em Deus e apesar dessa situação, mas eu vi que tia sempre vai à missa...rezar . -- Bem, para mim essa fé em Deus, para mim, é o essencial, não é, porque algumas vezes quando a gente se... tem dificuldades e sente-se desiludida, sempre...aquele acto desde a infância, né, porque andava a estudar no colégio das madres, das religiosas por isso aquele acto de que estou ...a praticar, né, assim, até o presente . -- A tia foi estudar em colégio da qual congregação? -- Eu...estive desde o princípio quando comecei a andar na escola foi no colégio das madres dominicanas . -- Isso foi onde? -- Em Oecussi . -- Ah, em Oecussi, sim . -- Sim . -- E estudou lá e depois... B: Bem, eu estudei lá até concluir a quarta classe . Depois na altura fiquei um ano sem estudar porque tinha que aguardar que completasse a idade de poder ingressar num curso de formação de professores porque naquela altura não havia professores suficientes para poder...poder cobrir, não é, a nossa zona de lá, de Oecussi, porque era uma zona assim afastada, né, um enclave, geograficamente...todos nós sabemos que Oecussi está entre a Indonésia e para lá o transporte também era difícil naquela altura . Costumavamos deslocar de Oecussi para Dili de barco, de um tipo de barco, de barcaça e de avião . O avião fazia viagem de...duas vezes por semana, uma...a carreira normal e se tiver alugueres, alugar ou ...aluguer do chinas e dos militares, então os passageiros normais também podiam aproveitar naquela altura . -- Já naquela altura já... B: Já...sim, havia avião, avião...avião . Tinha naquela altura tinha avião para Maututo, para Oecussi para Suai, e só levava nove pessoas . Sim, o avião só levava nove pessoas . E para os conterrâneos do Oecussi pagavam um bilhete de cento e...cem escudos se não me engano . E para os passageiros que não são do Oecussi pagavam mais . Tinham um acréscimo de...120$, parece . E depois fiquei lá a estudar...ah, fiquei um ano sem estudar, frequentei o curso da língua inglesa durante três meses . Depois deixei . Deixei de estudar porque eu...queria continuar esse curso, mas é que infelizmente professor que era naquela altura o administrador do concelho não podia continuar a dar o curso porque tinha que fazer o concurso para ser, para ser...para ser, como se diz...para retomar aquela, aquele categoria de administrador do concelho, porque naquela altura ele foi como adjunto, adjunto, sim . Depois parou e no ano seguinte, graças a Deus, devido à política do governo criaram aquela escola denominada ciclo preparatório como actualmente para secundário, né, era uma preparação para poder ingressar no secundário . Eu frequentei, eu e os meus colegas fomos os primeiros alunos desse curso de ciclo preparatório . -- Lá em Oecussi . -- Em Oecussi e naquela altura não foi só em Oecussi, mas foi em Oecussi, em Bobonaro, se não me engano, em Baucau, em cinco, cinco concelhos é que ...tiveram esse privilégio de ter o acesso de dar continuação de estudos depois da quarta classe, porque dantes o maioria de nossos colegas, né, os mais velhos, né, que concluiram o curso ficaram assim parados, alguns, pronto, os rapazes aguardaram o...a idade para poder cumprir a carreira na vida militar, porque era obrigatório naquela altura . Os jovens com 20 anos eram obrigados a passar pela vida militar, sim, pelo menos três anos . Depois é que escolhe uma outra vida . E...os outros foram participar naquele curso de, num curso intensivo de três meses mas para aqueles que passaram na selecção, né, para poderem ensinar no ensino básico, como o primeiro ano até o terceiro ano de escolaridade e para terceira...quarta...não, até segundo ano . A terceira e quarta já para os professores, professores do posto escolar . E o curso para professor de posto escolar naquela altura teve uma duração de , tinha uma duração de quatro anos e que eu estava prevista para entrar nesse curso, né, porque andava no colégio e como concluía a quarta classe com uma nota assim favorável, uma classificação de bom, por isso fui seleccionada para poder frequentar este, esse curso . Mas como não tinha idade suficiente, né, para poder entrar esse curso, fiquei um ano sem estudar . -- Então naquela altura, tia tinha quantos anos? -- Eu...concluí a quarta classe com 11 anos A: Que bom B: E...em 71, em 1971, e se eu ingressar directamente ao curso, esse curso, talvez se não, se não ficar retida, não é, talvez concluiria com uns 15 anos, aos 15 anos e aos 15 anos não era permitido trabalhar . Só com ... mínimo com 17 anos é que se pode trabalhar . Então pronto fiquei assim sem estudar . -- Então a tia depois ficou... encontrou-se...ficou...ficaram Oecussi, ou foi continuar a estudar em... B: Ah, depois de, depois de ...fiquei um ano sem estudar, mas eu depois continuei com aquele curso de ciclo preparatório e tem a duração de dois anos e esse, ...graças a deus eu fiz esse curso dentro de tempo limitado de dois anos, tive uma nota favorável e naquela altura era obrigado os estudantes do interior irem fazer o exame final em Dili e nós, os alunos daquela turma, fomos os primeiros, né, tínhamos que...os que tiveram, tiverem nota positiva viam-se obrigados a deslocar para Dili para fazer o exame nacional oficial, o exame final . E nós eramos apenas nove: oito meninas, oito raparigas e apenas um rapaz, o único rapaz no nosso grupo que conseguiu fazer o exame . Fomos para Dili e, pronto, chegou no dia do exames, todos nós fizemos, fomos...nós os nove fomos misturados, divididos para as salas, não é, misturados com os outros colegas de Dili como dos outros distritos, concelhos . E eu acabei na sala número 12 . Depois do exame de, depois do exame aguardamos o resultado e dentro de três dias foram publicaram as notas e graças a Deus eu consegui dispensar com 14 . Na sala onde eu estava, fui a única a passar com 14 e entre nós os do grupo do Oecussi fui a única a ter o 14 . E daí, nós que viemos do Oecussi, fomos seleccionados para ...a superior do colégio deu imediatamente os nossos nomes para aquele curso de formação de professores, mas o meu irmão naquela altura não concordou porque disse que já havia professores em Oecussi, suficientes para ... e ele queria que eu fosse para outro curso . Então ele sugeriu, pediu à superiora para eu poder inscrever- me no liceu . E foi assim . A superiora aceitou a opinião do meu irmão e os colegas regressaram para Oecussi e eu fiquei em Dili para tratar dos documentos para poder matricular-me no liceu . E pronto, no ano seguinte, em dois mil e...ah, desculpa, em 1974-75 eu estudei no liceu Dr Francisco Machado . -- E durante esse tempo onde é que a tia . -- Durante o período de estudo, né? Eu fiquei no lar, Lar Família Santa Isabel, era das madres Canossianas, era...não era bem colégio, colégio...mas esse tipo de lar só para os estudantes do...que já concluiram a quarta classe para ficarem lá, para poderem ter condições para estudar, sim, porque lá tudo...tem horários para estudar, para ir à missa, para...pronto . E como eu tive aquele privilégio de adquirir uma bolsa do concelho, nosso concelho do Oecussi, então, pronto, tive que ficar lá para ter condições para estudar . Mas eu naquela altura não tive sonhos de ser professora, né . Pretendia...como andava no colégio das madres, era muito, muito obediente para as madres, para as minhas professsoras, era muito , não sei, também era tímida, muito acanhada, envergonhosa . ao mesmo tempo fazia tudo direitinho, e pronto estava, estava...como estava no colégio, a superiora, pronto, falou comigo, pronto, queres seguir esta via comigo, pronto, eu estava com aquela intenção de seguir o caminho que a madre superiora seguia, né . Então pronto . E por um lado também pretendia ser médica . Não tinha a intenção de ser professora . Nunca sonhei em ser professora . E pronto . Estudei e gostei menso, os colegas também, tive colegas dos outros concelhos, as minhas amigas e, pronto . E durante o meu estudo do liceu, tudo correu bem, sempre tive positiva, mas a minha nota mais baixa foi em língua portuguesa . Talvez por causa da minha, tinha dois...por falta de comunicação, porque quando era pequenina a minha língua materna era o baikeno e ao mesmo tempo tetum e quando comecei a estudar aprendi português a ler e a escrever, mas ...a catequese era em minha língua materna, em baikeno, e depois como as aulas... o sistema de educação naquela altura era diferente como de agora, não é, aquela sistema expositivo, pronto, o professor, pronto, fala, fala tudo e depois nós limitavamos a decorar aquilos que os professores expõem para os alunos, né . Então, pronto, para mim, para escrever tinha, fiz, fazia tudo direitinho, mas para falar é que custa um pouco, né, por causa daquela arte de...de timidez e tudo, pronto . Eu acho que essa falta de convívio, de falta de prática de oralidade que até o presente ainda tem essas consequências, né, de ter um pouco de dificuldades em, na expressão oral . -- Então tia só falava português dentro das salas de aula . -- Sim, na aula e com os professores e com as madres, as irmãs porque eram todas portuguesas e não sabiam muito bem falar tetum e as minhas professoras, naquela altura só tinha professoras, as minhas professoras também eram do Oecussi, naturais do Oecussi, que não sabiam falar tetum, e só português, por isso, no colégio, na escola, falava português, depois quando voltava para casa falava baikeno e tetum e pronto . -- Então tia agora está a fazer mestrado . -- Sim, estou a fazer mestrado em Teoria da Literatura . Mas achei um pouco difícil, porque a minha formação anterior em Timor-Leste foi em ensino de língua portuguesa, o curso que nós fizemos, não é . O ensino lá foi ensino da língua portuguesa e culturas lusófonas . Agora quando a universidade mandou-nos para cá, eu estava convencida de continuar esse curso, né, mas é que infelizmente não havia esse curso de ensino de língua portuguesa como língua estrangeira ou língua segunda, aqui nesta Univeridade do Minho . Pronto, fomos ingressados neste curso da Teoria da Literatura e em princípio achei muito difícil, porque nós não tínhamos conhecido a literatura clássica, não é, de Portugal, e não tínhamos muito conhecimento sobre a história literária porque nosso curso que nós tivemos...tivemos assim um pouco de introdução mas não foi assim muitas profundo, muita específico, tivemos muita dificuldade e além disso também tivemos dificuldade quanto à língua portuguesa, não é, porque nós lá aprendemos mas só praticamos na sala de aula e no trabalho e fora disto só habituamos a falar o tetum e por isso é que pronto achamos assim um pouco difícil . E no trabalho que eu fiz o meu professor disse: olha você não pode ter mais do que isso porque ele regista alguns erros morfossintáticos.Então eu também agradecia, reconhecia a minha fraqueza, né, ...eu até achei que era muito natural não poder ter uma nota semelhante aos colegas portugueses porque eles já nasceram com esta língua e depois também estudaram, no secundário também já viveram com aquele conhecimento sobre a literatura . Agora nós...eu até disse: talvez para comparar a litera...o nosso estudo lá em Timor-Leste porque os nossos professores embora fossem assim portugueses mas é que eles tinham que ensinar atendendo, ...respeitando a condição da nossa terra,...as necessidades da nossa terra . É por isso que eles não podiam dar...e mesmo assim, se eles dessem um, um, um ensino assim mesmo nível de cá de Portugal, nós não podíamos responder, né, porque não tivemos conhecimento básico, como que nós podíamos responder a ess as aulas assim com o nível de, com o mesmo nível com o ensino de cá . E foi por isso que nós tivemos...em particular eu tive assim muita dificuldade por exemplo, em especial numa unidade curricular de estudos queirosianos para estudar sobre Eça de Queirós, sobre as obras, foi...achei assim muito difícil, pá . Mas graças a Deus, com essas dificuldades, apesar das todas essas dificuldades, mas consegui fazer a teoria . -- A teoria, pois, e agora já está a fazer a tese . -- Bem, agora a fazer a tese também acho que não...apesar de eu trabalhar com uma obra de Timor-Leste não quer dizer que vai ser fácil, não é, porque a obra, o conteúdo a gente pode conhecer, mas temos que utilizar a teoria e as técnicas, né, temos que seguir os critérios e algum ...e temos que seguir esses critérios que algumas vezes coloca assim dificuldades também para escrever . -- Por acaso tia está a fazer a tese sobre a obra de Luís Cardoso B: Sim, estou a fazer sim...a minha dissertação é sobre a ...analisar a obra de Luís Cardoso A: Sim, então já tem contacto com o autor? -- Ah, já contactei . Ele ficou muito satisfeito, ficou muito agradecido, por ter uma conterrânea a analisar esta obra por não ser...porque eu li nos artigos e também uma amiga minha do Brasil, uma professora de Antropologia, enviou-me uma dissertação, uma monografia de...que tratava sobre as três obras de Luís Cardoso . Mas eu limitei-me a falar da primeira obra, porque eu acho mais interessante para poder...porque nós sendo timorenses temos também de criar nossa própria literatura, né, e ainda temos de promover...como temos já o autor, não basta ter o autor para poder enriquecer a literatura timorense . Tem de haver críticos, né, assim para poder desenvolver, né, e eu li nos artigos e pesquisei aqui, vi alguns brasileiros, alguns portugueses, alguns estrangeiros falarem, e nós próprios timorenses não conhecemos a nossa literatura e isso é que é um problema, e, sim...e foi muito interessante ler esta obra e acho que para diante vamos ver, vou ver se, se depois de fazer esta dissertação e no futuro se eu tiver a oportunidade gostaria de ir analisar outras obras dele e de outros autores como de... Xanana Gusmão, "Este Mal Meu", e...não sei, também sobre o romance, eu queria ler também Ponte Pedrinhas, já ouvi o nome, e falou sobre. anuncia a resistência, já não me lembro do título, mas eu gostaria de ler também essa obra para poder analisar . -- Então o autor, Luís Cardoso ficou contente ou como? -- Ah, ele ficou contente, ficou muito agradecido . Mas em princípio foi muito engraçado . Foi...eu consegui o contacto dele através de um professor que esteve em Timor-Leste, foi o meu orientador também, no curso de...no curso de tipo de pós-graduação, suportado pelo CAPES, né, Curso de Aperfeiçoamento do Ensino Superior do Brasil, antes da minha vinda...foi um brasileiro, naquela altura eu...como a minha licenciatura, eu...a minha preparação foi para ensino da língua portuguesa, então naquele curso de pós-graduação do CAPES, eu fiz a minha monografia sobre...abordei um tema cultural que é relacionado ao Barlake para ensino, abordei a implementação desse tema no ensino da língua portuguesa . É assim...na altura eu estava a dar...leccionar numa turma de economia e gestão e, pronto, usei esse tema para dar aos meus alunos porque eles, os alunos tinham aquela certa idade de analisar, né, porque eles também estão a frequentar o curso de Economia e Gestão e o tema também está reacionado à Economia, por isso eu usei esse título, esse tema do Barlque para poder usar, ...implementar nas minhas aulas de língua portuguesa nesse curso de Economia e Gestão para poder ver a reacção dos alunos, porque eles também já têm aquela certa idade analisar as coisas, numa faixa etária entre os 20 e os 24 anos têm mais ou menos a noção de... analisar se será possível a implementação dessa cultura, essa tradição no futuro ou não . Porque realmente eles serão os futuros, os futuros...utilizadores dessa cultura, né . Por isso, abordei isso, e o meu orientador também gostou imenso do tema e aquela professora de Antropogia também, ela também tinha feito uma pesquisa sobre este tema, pronto, ficou muito satisfeito e depois de concluir este curso também o professor continuou a contactar comigo e, pronto, deu-me o contacto do Luís Cardoso, e, numa conferência no Brasil, no ano passado, esse meu orientador falou com o Luís Cardoso sobre mim e quando eu enviei o email, em princípio... eu escrevi em português..., em princípio ele respondeu à minha primeira mensagem respondeu assim... normalmente, mas na segunda mensagem ele ficou assim um pouco desconfiado e depois deu-me a resposta assim duvidosa . Disse que: « Não precisa esconder as coisas atrás da máscara" . Então eu disse, que será com esta expressão? Então eu escrevi outra vez em tetum, escrevi e, pronto, daí ele começou a estar, ficar convencido, a acreditar que eu sou mesmo uma timorense e pediu desculpas e disse: « Ah, muita desculpa, senhora! Eu julgava que fosse uma portuguesa a brincar comigo . Pronto, daí para diante eu perguntei qual foi a intenção de ele escrever esta obra e ele disse que naquela altura ele estava a assumir o cargo de representante de resistência maubere, né, ... A: Aqui em Portugal, né? -- Sim, e foi por isso...ele escreveu isso...é como recontar a história, contar a história de Timor-Leste numa forma literária através da sua própria história, pronto, e através da sua resposta eu fui pesquisando a obra dele para ver se é realmente asssim . E...nos outros artgos que eu li...consideram que é uma autobiografia, sim, mas para mim acho que é...além de ser uma autobiografia, também tem a possibilidade de ser um romance histórico . É por isso que eu estava aqui agora para ver esta característica, esta consideração de romance histórico é preciso completar esses requisitos, se tem estes requisitos, esses componentes como ingredientes . -- Quais são? -- Esse aqui: se representam uma história que estabelece uma continuidade com os três, como os nossos antepassados, se tem uma série de heróis modernos das virtudes nacionais, se ele apresenta, agora se ele apresenta uma língua, se ele na obra ele trata de monumento cultural ou um folclore, agora se ele fala de locais, leitos ou uma paisagem típica, agora se ele trata de uma mentalidade, de uma determinada mentalidade na obra, agora...se ele representa, se ele tem representações oficiais, se ele, na sua obra, ele fala de, ele trata do hino e da bandeira...e da bandeira e depois ele fala de um...de trajes, por exemplo traje timorense, e se ele fala também de especialidades culinárias, ou de algum animal emblemática e para nós os timorenses, o nosso animal emblemático é o crocodilo...é por isso que eu já li, mas agora tenho de reler para poder relacionar aquilo que ele tratou aqui na obra para poder relacionar com os requisitos aqui apresentados para poder classificar esta obra como um romance histórico . E se eu tiver esses componentes, esses ingredientes, né, e acho que era também um colaborador ou contrubuidor para a formação de uma nação, porque para ser nação, é preciso ter uma língua, ter uma nação, ter a sua cultura, a sua literatura, a literatura também é importante . Não há nenhuma nação que não tenha literatura e nós, quanto à nossa literatura, está muito, tá muito...tá digno???? , né (35:30) . Eu também na minha dissertação eu foquei a razão de ter este atraso de ter a literatura, foi devido ao atraso do processo de escolarização ou de ensino lá em Timor-Leste, porque eu li na obra de, do Professor Dr. Felipe Tomás que, segundo a história, que o professor ou... segundo a pesquisa que o Professor Dr. Felipe Tomás fez, eu achei que...não, segundo o Professor Felipe Tomás disse que apesar de Portugal estar já,...estar em Timor-Leste já no século XVI, desde o século XVI, mas a implementação da administração pública foi muito tarde e as escolas anteriores foram fundadas pelos missionários . Se os missionários não fundassem, não criassem as escolas de certeza que os timorenses continuavam a ser assim analfabetos, né . E, por um lado, eu acho que também Portugal naquela altura tinha as suas dificuldades, com preocupação interna da sua nação e com aquela geografia de estar assim muito distante foi muito difícil a deslocação para lá . E, bem, por um lado, nós não podemos dar culpa a Portugal, né, e também na obra de Luís Cardoso ele cita que Portugal como uma madrasta, no princípio era mãe-pátria, mas mais tarde tornou-se uma madrasta, mas eu analiso...segundo a minha opinião, acho que não é como madrasta, mas como um pai adoptivo, né, porque em princípio na sua viagem ele encontrou...como uma criança, Timor era considerado como uma criança...ele encontrou e adaptou, agora ... e ele não pode dar tudo para Timor, porque eles também tem seus filhos legítimos que precisavam mais, pronto, e por isso que a sua atenção não podia ser, não podia dar mais atenção a Timor para poder assim...tinha que dar verdade aos seus filhos legítimos e não como aos seus filhos adoptivos, pronto, e para comparar esta figura eu acho que o Portugal também não fez bem...eu não sei nada de política... mas eu confronto um pouco com esta expressão de madrasta, né . Para mim acho que é como um pai adoptivo, porque um pai mesmo que fosse um pai legítimo, um pai biológico, por exemplo, se o filho já tem aquela maturidade de poder estar sozinho, de poder governar, se é assim mesmo, ele dá a liberdade de poder escolher o seu destino e era isso que Portugal fez naquela altura . Com as suas dificuldades, também dificuldades naquela altura, não é, mas depois pronto, e não quer dizer que ele foi, Portugal foi... ficou assim despercebido com a situação de Timor . Também continuou a acompanhar e a responsabilizar até o presente, e por isso que nós estamos cá . É bom o suporte de uma instituição portuguesa para podermos estudar cá e também Portugal continua a mandar professores para Timor para poderem ajudar os timorenses a desenvolver o país em especial na área da educação, porque não há nenhum país sem desenvol...sem educação . A educação é um factor principal para o desenvolvimento de qualquer país . -- Pois é, sem dúvida . Então, tia, ficamos assim . Agradeço muito a sua disponibilidade . -- Tá bem, muito obrigada a você também . Não sei aquilo que eu falei, acho que não está tudo bem correcto, mas. -- Vamos tudo e bom trabalho...boa continuação do trabalho .