A: Olá Rosita, boa tarde! B: Boa tarde. A: Olha, como já te conheço há alguns anos e posso dizer que sou teu admirador pela grande mulher que tu és, não é, e pelo excelente profissional como cozinheira, sempre tiveste esse dom ou adquiriste já em Timor ou foi aqui em Portugal? B: Não, já em Timor. A: Sempre gostaste? B: Sempre gostei de cozinhar e de, pronto, como a minha mãe faleceu muito cedo e eu tive que tomar as rédeas de casa na fazenda e eu fui instruída pelas minhas irmãs e as minhas tias e a minha irmã, aliás, uma das minhas irmãs que está na Austrália, também em Timor já fazia os bolos de noiva, já era banqueteira. A minha falecida tia que é essa prima que faleceu, a mãe dela também já era banqueteira porque ela era modista de alta costura e era mulher do chefe de posto. A: Portanto começaste com as tuas irmãs, já a tua mãe também? B: Sim, sim, mas a minha mãe faleceu muito cedo, faleceu quando eu tinha 13 para 14. A: Tens muitos irmãos? B: Quer dizer, eu vivos agora tenho duas irmãs. Já falecidos tenho do nosso....quer dizer do pai e mãe juntos tinha, éramos 8: 5...4 rapazes e 4 raparigas, mas só sobrevivemos as 3, 4 rapazes e uma miúda - faleceu quando era bebé e depois o meu pai casou outra vez, tinha um casal de irmãos que é a minha irmã mais nova, é dois anos mais velha que a minha filha Rosa e tinha um irmão que faleceu na guerra. A: Os teus pais eram timorenses puros? B: Não. Ai, isto é um bocado complicado! Porque o meu pai, por parte do meu pai era daqui, era de origem transmontana e, por parte da minha mãe tenho muitas ilhas, portanto eu tenho japonês, tenho Papua Nova Guiné, tenho aborígene que é Austrália, aliás nasci na Austrália, maoris que é da Nova Zelândia, Madagáscar, e que mais? A: És rica em raças! B: Em raças...Madagáscar e quê mais...Malásia e Sri Lanka. A: Nasceste em Austrália? B: Nasci na Asutrália. A: Em que ano? B: Em 44 A: Muito bem B: e por parte do meu pai era de cá, mas o meu pai...o meu avô, o pai do meu pai, porque o pai do meu pai casou com uma nativa de lá que era da família dos régulos de Atsabe e de Kailaku que ainda tem ramificações com a minha comadre de Maubara, ainda tenho vários parentes, não é, e por parte do meu pai, segundo consta, o meu avô era descendente de judeus holandeses ibéricos, por isso os Silvas... porque eu acho que mesmo assim, acho, não, tenho a certeza, que todas as pessoas que tenham apelido de árvores de fruto, de hortas, sei lá, de legumes, de animais, são judeus novos. A: É bonito. B: E também tenho descendentes de judeus ibéricos e holandês mas tem também de raça portuguesa. A: É complicado, mas é bonito, tens muitas raças. É bonito. Olha, e quando deixaste Timor? B: Eu deixei em 1900...no dia 14 de Junho de 69. A: Mas porquê, Rosita? Tiveste...acompanhaste alguma, digamos, revolução ou guerra nessa altura? B: Não, porque casei com um senhor que era de cá. A: Ah, o teu marido era português? B: Era português B: E então resolveu vir. E já vinha com as tuas filhas? B: Vim com a Rosa que tinha 3 meses. A: Nasceu lá? B: Nasceu lá. Florbela é que nasceu aqui. A: Portanto, podes-me contar um bocadinho da tua vivência em Timor, por exemplo, a tua infância, como, por exemplo, onde andavas, vivias em aonde, ou estudavas, os teus amigos. Ainda recordas? B: Ai, recordo, recordo. Pois, quer dizer, eeerrrr, agora já não é segredo, pronto. A: Vivias em Dili? B: Não, eu vivi na montanha, vivi na, nas, nas plantações do Fatubessi de café, porque o meu avô ainda era irmão, mas não directo, quer dizer, directo era, mas as mães é que eram diferentes, que ela, ele era portanto filho, vá lá, bastardo, digamos…duma, dum descendente de judeus e é, e foi com um irmão que era, era governador… e ele foi, esse irmão foi como tenente,tenente coronel na infantaria e regressou como general, é por isso que ultimamente, por causa dessas coisas, é que tenho andado a ser um bocadinho…, vamos lá, um bocado massacrada. É mesmo assim. E o meu avô foi como marinheiro, saiu da Marinha, ficou ele a tomar conta das plantações porque dantes as plantações eram dos régulos, quer dizer, o governo, não é, o governo, o poder fazia negociações com os régulos para adquirirem as terras porque as terras não foram compradas enquanto o meu irmão governador ficou em Timor, ficou em Dili, ele é que desbravou as 3 fazendas, de maneira que nas 3 fazendas, portanto, em Fatubessi era o meu avô, o meu pai nasceu em Fatubessi, os meus irmãos todos nasceram em Fatubessi, mas o meu pai ironicamente...a mãe do meu pai era filha de régulos de Atsabe que foram depostos por, por próprios familiares que mataram A: mmm B: e então, o meu pai ficou em Fatubessi, o meu padrinho que é o irmão, depois o meu avô casou-se com … essa filha do régulo, teve só o meu pai e depois os dois cunhados, o, a filha do régulo que já naquela altura já … tava tudo dizimado, só tinha ela e uma prima … as duas foram para Fatubessi, ele casou com o irmão do governador e então … ele casou com o irmão do governador e então ele, ele estava sempre a guerrear. A:mmmm B: Quando, nos livros quando vem a dizer que o alferes Arbiro que é o tal … alferes Duarte apelidado de Arbiro, ele … também combateu em Atsabe, porque depois os dois cunhados não se deram bem e a minha avó regressou para Kailaku que é a terra da mãe dela e casou com o primo que era o régulo de Kailaku, que são os Soares, os de Atsabe eram os Gonçalves, e ainda são (…) pois nós também éramos Gonçalves mas porque eles nos mataram toda a família, a minha mãe tirou o, a apelido, só ficou com o nome Maria da Conceição. E então em Entalo era o tio Cândido Barros, que era também.. a mãe dela, era minha prima da minha avõ e em Bahata era o meu padrinho que é irmão do meu pai.E … nós (…) isso é tão verdade que nós … errrr desde … que eles desembarcaram em Timor em 1800 e tal até a invasão indonésia nós não, a não ser fugiram pra Austrália os quatro anos, não abandonaram as três plantações. A:mmmm B: e eu vivi na plan…e eu …e as minhas irmãs que casaram cedo, mas eu vivi em, nas plantações com o meu pai. A: Pois é, Rosita, nasceste em Austrália, e até em que ano que...foste pra, para Timor? B: Até cinquenta. A: Não, mas, nasceste Austrália B: em quarenta e quatro A: Pois, depois até B: Até cinquenta porque nós ainda, o meu pai ainda ficou...ah, quando eu disse esqueceu-me de dizer que aquela ilha muito grande que é Bornéu A: Sim, sim B: Bornéu, também a minha mãe tem, tem familiares, tem a raça também é de Bornéu e o meu pai foi tomar conta duma coisa de cacau em Bornéu, não deu bem depois foi pra Nova Guiné, depois como as saudades de Timor apertaram talvez por ele nascer na fazenda, não é, regressou e até...a invasão indonésia fomos nós que enriquecemos os nossos primos ricos que estão em Lisboa A:mmmm B: Foi com o trabalho do meu pai e de toda a família. O meu cunhado X em Dili, toda a família, quase toda a família, toda a minha família estava trabalhar para a família do Gvernador (…) mas quer dizer o mais interessante é que isto foi bem guardado …eerrrr…o segredo foi bem guardado que foi ultimamente, que foi contra a minha vontade que isso se eclodiu, porque (…) as pessoas estavam a ...como é que chama?... a escutarem por meu telemóvel e descobriram são pessoas, eu acho eu eram da Tane Timor, algumas pessoas, não digo quem é, já deves ter uma ideia. A: Portanto, a fim de dez anos voltaste para Timor e, e, e criaste lá a tua amizade, a tua infância? B: Sim A: Sempre foi lá? B: Sempre foi lá em Timor, na fazenda, na fazenda eu andei na escola com Mané Caldas, não sei se conheces, eu conheço Mané Caldas eu tinha 7 anos e Mané Caldas tinha 9. Andei com os meus primos e depois andei no colégio das freiras em Ermera que a minha irmã mais velha casou com...curiosamente casou com um chinês, era contra a vontade do meu pai, casou em Liquiça com o chinês Toko Baru. Os Toko Baru, eles dantes, antes da guerra eles eram milionários, não é. A: Sim B: Depois a minha irmã do meio casou os da família Exposto que é o meu cunhado coronel que tem fazenda em Ramera e eu andei no colégio das freiras só naquela altura, uma pessoa só até à quarta classe, não é. A: Pois. B: E depois eu andei na costura e depois comecei a trabalhar cedo na secretaria, eu quis-me...ajudava o meu pai na fazenda, gostava muito do café e das coisas... dos animais e das plantas, das árvores de fruto, eu gostava muito da terra e a minha mãe também na altura fazia...tomava conta da várzea e fazia, como se chama... plantação de açafrão onde chegamos a comprar dois carros, um jipe Nissan e um Williams e uma mota para mim, e, de maneira que eu ajudava o meu pai e ...mas eu depois ao chegar aos 16 anos eu fui ter com o Sr. Jaimito Soares Luís, que ainda é parente, mas que daqui eles não sabiam o segredo que era nosso, que o meu avô nasceu lá para os Trás-os-Montes, lá para Vinhais, não é, registou-o como...deu-lhe apelido mas não...mas a minha avó esteve casada com um senhor...ele deu-lhe o apelido, pronto, para fazer de pai, não é, porque ele era casado, o senhor, não é. A: Entretanto vieste embora para Portugal, deixaste tudo pra trás, vieste só com o teu marido e a tua filha. E os teus pais? B: Os meus pais ficaram em Timor, porque eu depois disso, depois de trabalhar em Fatubessi, no escritório, eu ainda trabalhei em Dili, na sociedade, ainda trabalhei na, uma senhora Dona Laurentina, que ela, ela é que era a nossa encarregada, ela até, ainda deve estar no Algarve, acho que ainda não faleceu, ainda está no Algarve, ela é que era a nossa ... encarregada e estava, eu era caixa,... e depois eu vim, eles ficaram, ninguém veio, não é, só eu é que vim sozinha, mas eu custou muito adaptar-me. A: Pois, isso é em que ano, quando vieste para Portugal? B: Isso foi, chegámos, desembarcámos aqui no ano de 27 de Julho de 69. A: Portanto, hoje B: Já, vai fazer A: Hoje faz, tás a fazer anos quando chegaste aqui a Portugal. B: Sim é... A: 69, 40 anos que tás aqui B: estou A: Eia! Olha já encontraste com alguém da tua infância, ou amigos que deixaste lá em Timor, já reecontraste? B: Olha, eu reecontrei, por exemplo o Mané Caldas é o que me dou mai..., melhor, não é. Dos familiares, eeerrr, uma, reecontrei, quando fui desta vez, a um primo ... que eu não sei se chega...não chegaste a conhecer. Ela era mestiça africana. A:mmm B: o pai era, o avô era moçambicano, a avó é que era...não, minto, o pai era moçambicano, a mãe é que era prima da minha mãe. Reencontrei em Ti...lá em Lisboa, na Praça da Figueira. Ele agora está em Macau e está muito bem. Está como ... ele era judici..., da judiciária, foi para Macau, ficou ... ele aqui reformou-se, foi para Macau, tornou a entrar, está no activo da judiciária e faz parte da Interpol. E de resto, as, as, as famílias de Timor só os Araújos é que, só o X é que encontrei quando ... quando estava aqui. De resto, a X que deve ser minha prima, né, de certeza, o Y e o Z também, o Fernando Araújo e o Y que era ministro de... de quê? Era ministro da saúde e agora já não sei de que pasta está também, também não interessa. Esses Araújos é por parte de Atsabe, por parte da minha avó. Esses é que eu tenho ouvido falar mas ainda, encontrar não encontrei ainda ninguém. Ah, quando fui para Setúbal, já há uns anos atrás que reencontrei pessoas da minha infância e da minha adolescência. Em Setúbal eu sei que em Lisboa eu tenho alguns familiares ainda, que eu até pedi ao Mané Caldas pra sondar se eles, alguns estão vivos nem que sejam pessoas um bocado afastadas, somos todos parentes A: Pois B: E eu gostava de dar com eles. A: E depois chegaste aqui Portugal, errr, começaste uma vida nova, adaptaste outra vida, não é e continuaste logo com a tua profissão que tu gostas como cozinheira, e ou foste tirar o curso sobre a cozinha? B: Quer dizer, quer dizer, eu lá em Timor era cozinheira mas ...fazia a comida mas era diferente, não trabalhava A: Claro, isto era familiar B: Sim, era familiares, sim, era diferente - para receber, por exemplo, o meu pai como era administrador das fazendas era para receber. Agora aqui tive que meter a mão à massa, não é, como se costuma dizer, mas eu quando vim só comecei a trabalhar, eu vim em 69, só comecei a trabalhar, levou muito tempo a adaptar, só comecei a trabalhar no dia 13 de Fevereiro de 74, trabalhei nas cantinas do Matadouro do Porto, foi ali que comecei. E trabalhei 16 anos na função pública, lá nas cantinas e depois, como...depois era...vim reformada em 90, então comecei a tomar conta daquele salão de chá da Unicer, também eu acho que ainda te lembras A: Sim, sim. B: Eu tomei conta do snack-bar dos engenheiros no INESC primeiro e depois tomei conta do salão de chá, depois fui trabalhando, fui trabalhando na cozinha. A: Depois resolveste de fazer um curso? B: Sim, fiz um curso, porque...fiz muito tarde porque eu estive desde anos de 90 a 98 sem bilhete de identidade. Como depois foi difícil o divórcio, não tinha papéis nem nada e depois, não sei quê, o meu bilhete de identidade já veio de Timor, veio meio confirmado. Depois não sei o que é que arranjaram, eu fiquei 9 anos sem...8 anos sem BI, depois é que a Comissão Permanente para os Direitos do Povo Maubere e com a Dra Pascoela Barreto que ainda é da família, ela é que fez força para arranjarem o meu bilhete de identidade e então depois de ter o BI é que eu entrei para a escola de hotelaria a fazer o curso de cozinheira de 2ª, mas eu estava farta de cozinhar, já, já, e depois fiz o curso de 1ª, depois ainda fiz os cursos de...dois cursos de mesa de 2ª e de 1ª, fiz curso de pastelaria que ainda sobre sobremesas de 2ª e eu tenho seis cursos grandes com seis carteiras e tenho também o curso que Direcção Técnica de Restauração que é, faz de conta, que é gerente, gerente de restaurante. E tirei cursos pequenos, e ao todo tenho 22 cursos. A: Entretanto tiveste muitos eventos, organizaste muitos grandes eventos. B: Organizei grandes eventos. A: Podes falar alguns dos eventos? B: Por exemplo, principalmente para Timor. Eu fiz aquele, uns casamentos aqui para pessoas comuns, por exemplo eu e a minha comadre nós organizamos, ah, eu não sei se é do teu tempo, as jornadas ali no D. Manuel II quando veio o Mari Alkatiri. A: Não B: Pronto. Esta foi...eu é que estive à frente. B: Na escola de Baião também, quer dizer, o evento que era para cento e cinquenta pessoas afinal era, para dirigir uma cozinha para cento e cinquenta pessoas, mas afinal apareceu-me setencentos e cinquenta. Mas por acaso não era sozinha, era a Lurdes Bessa, estava-me a ajudar umas outra senhoras não sabiam cortar na altura foi, mas olha, caiu tão bem por acaso, o sr. padre Baptista é que me trouxe de volta, caiu tão, calhou tão bem que só ficou (...) errr uma hora e meia de atraso. Ah, e depois também fiz aquela parece que no ano 2000 em Abril fui para Famalicão fazer lá um jantar para listar os quadros que a Aurora, a minha comadre, não, Lurdes e minha comadre e os da Tane Timor fizeram também era um jantar de gala onde foi mestre Júlio Pomar, mestre Resende, esses escultores, esses pintores, fui eu cozinhava para 250 pessoas , também só tinha um ajudante timorense... tive sorte de ter porque é uma menina que trabalhava na mesa, a mãe era timorense, sabia umas coisas, vá lá. A: Ajudou-te bastante. B: Ajudou-me bastante. A: E...portanto, tu, o que eu conheço, és amiga dos timorenses, qualquer coisa aqui no Norte, qualquer evento, os timorenses convidam-te e tu estás pronta. B: Estou sempre pronta, estou sempre pronta. Tenho muito prazer em trabalhar para Timor, eu seu que a fazer esses eventos primeiro é trazer o bom nome de Timor, não é. A: Mostrar a nossa cultura B: Mostrar a cultura, mostrar a cultura também, como...dizem e é verdade que gastronomia também é cultura, não é, faz parte da nossa cultura. Foi pena, agora falando nisso, as nossas danças, os nossos cantares ficaram sem efeito. A: É verdade. B: Isto é que tenho muita pena. A: É uma pena. B: É uma pena. A: Portanto tu e eu já tentamos a ver se juntar, não é, A: Sim A: e mesmo com as dificuldades, e tua saúde, não estás muito bem, não é, mas tentas sempre...estar presente. B: Ai, tento sempre, quando qualquer coisa por Timor tento sempre mesmo que esteja doente, eu naquele dia acredita que eu ali no Padre Baptista eu não estava assim muito bem, A: Poss não B: Mas eu tento sempre dar o meu melhor aquilo que eu sei pelo menos na parte que me toca, já que a dança não nos toca, já que os cantares não nos toca, já que os teares não nos toca, já que... tudo...não nos toca, ao menos toca-nos a comida. A: Pelo menos na parte da gastronomia tu representa sempre. B: É, há presença sempre gastronomia, e eu gostava até de... A: Tens muitas receitas, não é? B: Tenho muitas receitas e algumas são receitas de família, algumas são receitas que eu tiro da minha cabeça e tenho receitas de pessoas amigas e eu junto-as, eu gostava de ensinar pessoas de cá, sinceramente, tanto senhoras como cavalheiros a cozinhar a comida timorense porque é assim: a comida timorense há duas vertentes: a vertente da cidade, não é? A: mmmm B: Bem sabes que é verdade, e a vertente A: Original B: Vertente original... da cidade e a vertente das montanhas, não é, das pessoas mais pobres, não é, que o batardan A: Mandioca B: Mandioca, batarut, essas coisas coisas. Eu gostava, eu até tinha escolhido umas receitas para depois experientar, eu até para tar em Timor, já fiz duas ou três receitas que era sedok eu fiz até outra coisa qualquer que ficou bonito, bonito e bom, espécie de um bolinho numa coisa de papel frisado, quer dizer, eu dei uma roupagem nova mas.... ficou aí A: Portanto gostas que suponhamos se aparecesse assim um projecto que te financiasse p’ra dar aulas B: Ai gostava A: p’ra ensinar B: gostava, gostava A: ou timorenses ou seja quem for que queira aprender a gastronomia timorense, gostavas muito, não era? B: Gostava muito. Mesmo as pessoas de cá, que têm curiosidade, não é A: Exacto B: Aquilo, a gastronomia não é só aquilo que nós fazemos. O que nós fazemos é que vamos mais pelo barato, é verdade ou não é? A: Exacto, exacto B: Há coisas, até há misturas, por exemplo o nosso bolo de noiva que é o tal cake, é diferente. A receita é, vem da Inglaterra e da Austrália. A: Não é original timorense? B: Não é original timorense. Esse é que é o bolo de cerimónia. A: Ah...também temos assim pratos, digamos, pratos de luxo... B: Temos, temos, temos, temos, temos. Eu gostava, gostava de pôr isto para ensinar as pessoas, mesmo os de cá. As donas de casa, pois as senhoras, os cavalheiros, porque não, não é. A: Já tiveste assim elogios dos portugueses? B: Já, já. Eu... A: Ainda te lembras? B: Lembro-me, é assim: quando eu fui fazer o...quando eu fui fazer o... A: Quem diz português, ou algumas figuras B: Sim, tenho, tenho. O que não tenho aqui, tenho, portanto, em 96, prémio Nobel, eu tive, fiz um mês de...um mês não, 3 semanas, vá lá, de comida timorense para...mas o que...como ali... lá em baixo é 1º andar não foi muito divulgado, não é, fiz três semanas de gastronomia, fotografias, música e artesanato - artesanato não feito por mim, claro - uma exposição, não é, recebi na ementa, tive o louvor do Sr actual Sr Presidente da República A: Cavaco Silva? B: Não. Dr Ramos Horta. A: Ai, o nosso timorense. B: O nosso timorense. Tive também um louvor do antigo Primeiro Ministro Mari Alkatiri também. Aqui tive uma medalha quando fiz aquele almoço de setecentos e tal pessoas é que...Sr padre Baptista, como sempre, é muito bondoso, combinou com o sr comandante da Foz, atribuiram-me a medalha que diz assim: "De Foz para Timor" com a pomba. A medalha ainda deve estar ali dentro...e pelo menos esses três e elogios assim de boca tenho recebido, não é. Assim esses três, essa medalha. A: Portanto, no fim de cada festa vêm sempre os amigos dar-te parabéns. B: Sim, sim, sim, sim, mas eu gostava mesmo era de, quer dizer, dar outra, quer dizer a comida é na mesma, o sabor era mesmo típico, mas suprimir um bocado de molhos, tirar um bicadinho dos molhos e fazer uma, uma roupagem, como é que eu hei-de dizer, enfeitar a travessa de outra maneira para chamar mais a atenção para... não como esses chefs fazem, que esses chefs eles são chefs de hotéis de tantas estrelas, não é, mas eu gostava, porque a nossa comida timorense muitas vezes está em bruto. Por exmplo, alguns fazem o midarsin ou sinmidar, depende, não sei como que... alguns dizem de uma maneira outros dizem de outra maneira. Geralmente em Timor utiliza-se mais é ossos, não é, A: Pois. B: Ossos e mais gordura. Aqui nós temos que pôr uma carne melhor, não é. A: Pois. B: Por exemplo, sassate, sassate também, quer dizer, eu acho que tá bom, tá bom, mas o sassate, eu se fosse eu a mandar, se fosse eu a ensinar eu punha sassate para entrada, os pauzinhos eram mais pequenos. A: Portanto, tens alteração - tentas aperfeiçoar melhor a nossa... B: A nossa comida. Eu gostava, gostava imenso. A: Portanto ainda tens esse sonho, essa esperança? B: Tenho, tenho, eu tenho, tenho essa esperança. A: Tá bem. Olha, Rosita, foi muito bom conversar contigo. Espero que essa tua entrevista dá para ajudar a faculdade e a Dra Susana, tá bom? B: Tá. A: Obrigado. B: Obrigada eu.