A: Ok, vamos começar. Vamos começar falar. Em primeiro lugar eu queria saber onde e em que ano é que nasceu. B: Nasci em Dili, na cidade...na, em capital de Timor, em Dili e no ano de 1989. A: Ok, então vamos começar a nossa conversa, e em primeiro lugar eu queria saber onde e em que ano em que você nasceu? B: Nasci em Dili no ano de 1989. A: Como foi a sua infância? Você nasceu em Dili e naquela altura como foi a situação e a sua infância... B: A minha infância foi muito feliz, e assim, sei lá, brincar, a brincar os meus amigos, como é óbvio, como se faz uma criança e a estudar A: Estudar... B: Sim, mas maioria passei a brincar, só. A: E você? C: Nasci em Dare, 1987, e a minha criança foi muito feliz , era divertido muito, porque nasci numa cidade quase...numa área só onde vive só a minha família, famílias, e foi muito feliz, só que é temos dificuldade, por causa, podemos dizer que vivi num situação no tempo da invasão da Indonésia. A: A guerra, pois é, sim, sim. Mas por acaso, sim foi, em Dare...Dare um sítio mais calmo. C: É mais sossegado. A: E mesmo assim tem também impacto negativo por parte da forças armadas da Indonésia, não é? C: É, é muito, porque eles desconfiaram muito porque sei os que da montanha, como as pessoas... B: os rebeldes C: rebeldes A: rebeldes, pois C: Eles desconfiam muito. Parece que quando eles vêm para Dili, passaram lá em Dare. A: Ah, pois é, sim, yeah, yeah. E ouvi dixer também que alguns líderes da resistência passaram lá a viver na casa dos padres, ou... C: Sim, não, não sabia muito mas quando era criança era o major X, foi lá ficar...ficou na minha casa A: Ah, tá bom. Que bom. C: Durante quase um mês. O meu pai naquele momento era como... B: estafeta C: estafeta A: estafeta, ah, ah B: da resistência A: da resistência...e a situação ninguém sabia disso C: Ninguém sabia disso, porque naquele momento meu pai tem confiança por causa temos lá o padre X. A: Ah, o padre X. C: O irmão do Ibotino. Por isso que o meu pai tem garante para encostar ao padre. A: E o padre em si, sabia ou não? C: Sabe muito...sabe muito bem. B: Sabe tudo. A: Ah, tá bom. C: O meu pai disse tudo a ele. A: Então, apesar de ser um indonésio, mas C: É muito, muito, já como um timorense A: Como se fosse um timorense. C: Um timorense. A: Que bom. E depois...andou na escola no ensino básico? C: Yeah, ensino básico e pré-secundário lá em Dare. A: E depois secundário? C: Secundário é que vim para S. José, Colégio de S. José. Era a nossa escola. A: Pois é. B: Oh pá, eu também....além de...posso dizer que a minha infância foi muito feliz porque quando era criança não sabia nada, não é. Quando davam tiros, pronto, os meus pais disseram para esconder, para ficarmos dentro da casa e pronto, nem...e nem...quando entrei para a cozinha só para tirar as comida s, para levar às escondidas das cozinha...não saber cozinhar. Não sei cozinhar e às vezes ao brincar e assim quando eu vi, pronto, passei...nasci já no tempo da invasão da indonésia, por isso passei...quando a ver os militares a passar e ficou tipo traumatizado com o quê...porque, sabe, quando eles passam sempre tragam com quê? A e C: armas B: armas, armas, e por isso sempre viajaram com armas e por isso fiquei assustada, assustada, sim. E como... A: E passaram pela sua, à frente de sua casa. B: Ah, yeah, eles passaram sempre C: Sim, sim, sempre B: E algumas vezes fizeram como revistas, revistas à casa, à casa. Os jovens do meu bairro também eles são rebeldes e por isso eles entraram sempre na casa e desconfiaram tudo como...naquele momento, se bem sabemos, quando desconfiaram de um bairro que houve jovens, há, houve pessoas que envolveram nas lutas, né, como rebeldes, não, dizer...resistência, não podemos dizer rebeldes, não é assim? Eles já vão assim , vão...têm de revistar quando já desconfiaram ao redor deste bairro e por isso revistaram. Quando houve alguma coisa, também andaram por volta de nossa casa e, por isso, como uma criança, as pessoas adultas ficaram assustadas, não é? E eu também, pronto, fiquei assustada. É assim. A: E qual é o nome do seu bairro? B: É Matadouro. Um dos...como se diz, linha vermelho. A: Matadouro fica mesmo ao lado de Balibar. B: Sim, e foi o mais...o quê? assassinado no dia de, depois de...em 99, depois de ...como se diz? 30 de Agosto. A: Referendo B: referendo, depois do referendo, no dia 1 de Setembro, né? É no nosso bairro, foi no nosso bairro, mesmo na entrada para o nosso bairro que aconteceu A: Sim, eu vi lá na RTP. B: Sim, sim, porque ...o quê? A: Eu também vi isso, sim. B: Como se diz? O Centro de Nações Unidas naquele momento era perto da minha casa e por isso quando um jovem...e depois... já houve provocas de, entre militares indonésios e os jovem timorenses, né? E por isso, os militares indonésios também aproveitaram isso, porque já souberam que Timor já vai ser ... C: uma nação... B: pronto...e já.. C: já ganhámos B: já ganhámos. O referendo já ganhou, né...pró...o quê? A: independência B: Pró-independência já ganhou, já ganharam e por isso, eles fazeram como, pronto, convocaram uns aos outros e...o quê? C: mataram B: e aconteceu aquele momento, tipo massacre. A: massacre B: Ya A: Setembro negro de 99. B: No dia...mesmo no dia 1. E um dia depois foi o meu aniversário. Passei... A: Em que dia? B: no dia 2 de Setembro. A: Ah, no dia 2 de Setembro. B: Pronto, passei o meu aniversário em casa do meu vizinho que ficava mais perto da UNAMET, do posto...do quê? Camp...arrgh, como se diz? A: Campo de concentração? B: Ya, campo de concentração de....não, não! O centro...office centre da UNAMET. Ficámos ali para mais perto quando acontecer alguma coisa, podíamos já entrar, mas não conseguimos. Pronto, ficámos ali, passei... A: Mas não conseguiram porquê? B: Porque, é assim, não sei, também...eu também...oh pá, estive 10 anos de idade e não sei o que é que se passa. Ainda tenho uma cabeça de...só a minha cabeça...o que é que tá na minha cabeça é só brincar, mais nada. Pronto, e fugimos para o mato, para Dare. Não conseguimos entrar. Se não, já estivemos já na Austrália. Já estivemos lá. A: Então quer dizer que mesmo houver guerras, perturbações assim, mas a sua infância sempre foi boa, feliz e... B: É..até, pronto, 99. A: Até 99, pois sim. B: até 99, foi feliz. A: Então depois, depois do massacre de 99, você e a sua família fugiram para o meio. B: Fugimos para Dare A: Para Dare, pois, para o vosso prédio. C: Para a minha área. É, naquele momento havia muito refugiados...toda gente de todas as partes B: Também era criança não sabia nada. Senti e agora também pensei que fujimos lá como fazer um picnic, né, porque há todas... C: Todas as pessoas divertem todos os dias A: Ah, pois é... C: Porque são muitas pessoas e naquele momento quando as pessoas eram muito na minha casa o meu pai só diz assim, porque temos as plantações, para comer, meu pai diz assim...disse aos refugiados que o que está lá em, ... B: no quintal C: na horta, no quintal é nosso, para ninguém ficar morta de.. B: fome A: Então quer dizer que naquele momento mesmo em Timor em geral passa por um situação difícil, mas em Dare os refugiados... C: movimentam-se B: livre C: livremente, por causa da...só uma vez que foi lá os militares indonésia e B: houve tiros C: só morreu lá uma senhora B: uma senhora, sim C: bala perdida....por causa de bala perdida A: bala perdida, pois é. C: Mas eles não conseguem, não conseguiram entrar lá, porque, por causa da B: segurança C: Veio o padre X para dizer-lhes a voltar, porque o padre X disse que assim, aqui só há, há populações, ninguém dos líderes ou os outros lutadores não. Só há as populações. A: Então quer dizer que o padre X conseguiu convencer os militares C: Ya. E ele era também que quando num momento..foi mais difícil quando não há comida, ele é que veio com o seu próprio carro para buscar alimento para dar aos refugiados. A: Ai que bom. Padre X é um padre jesuíta, não é? C: um padre jesuíta A: Vive lá já há muito tempo? C: Muito tempo, de 1991-92 e regressou para a Indonésia 2000, nos anos 2000. E já agora, já faleceu. A: Ah, já faleceu C: Dois anos atrás A: Em Indonésia C: Em Indonésia. A: Que pena. Então, no seu caso, na sua casa, quando era pequena e jovem, vocês...qual língua que vocês utilizaram lá na vossa casa? B: Falámos português quando...até que eu entrei na primária, né. Só falei...desde criança as primeiras palavras que disse primeiro eram só do português, era só saber do português, mas quando já cresci, já, como já tenho, tive mais amigas que ....e por isso, a brincar com as amigas e a aprender tetum com elas. Mas com os meus pais falámos sempre português. Mas quando já cresci, já esqueci tudo. Esqueci tudo - agora falo muito mal. A: Então porque esqueceu? B: Porque é assim, sabe que quando já entrámos numa escola temos de...como na Indonésia, no tempo da invasão indonésia, né, quando entrei primeira vez para a primária, para a escola primária, tenho que aprender língua indonésia e por isso tentei para aprender a língua indonésia e para conviver com... C: os amigos B: os amigos também tenho..porque maioria dos meus amigos são timorenses, por isso tenho, tinha que aprender tetum, né, esforçar a aprender tetum e falar com os meus amigos e com a língua indonésia, que é utiliza...que se utiliza no, com o currículo, aprendi língua indonésia e por isso falei mais tetum e indonésia do que em português, já menos português e, por isso, com o tempo e esqueci pouco a pouco, pouco a pouco...e agora nada. A: Mas conseguiu, já conseguiu.. B: recuperar A: recuperar B: entre aspas, entre aspas. Um bocadinho. A: Pois, sim. São jovens, então, tipo, ...começar de novo. C: começar de novo. B: Aprender e falar português C: Nós temos de aprender, porque estamos em Portugal B: Pois. A: É muito importante, não é? E no seu caso, como, tipo? C: Língua mais falada? A: Sim, na casa C: Na casa é só tetum e então na escola é indonésio. A: Dare? C: Falamos mambae. A: Mambae, né? Também só fala em casa. C: Também se fala em casa, como tipo desluto A: Ah, desluto. C: fala com os velhos, assim, ah criança 'kode kode'...é só assim mas a mais utilizada é a língua tetum. A: 'Kode kode' o que é isso quer dizer? C: Como está. B: Isso também se utiliza em , 'kode kode hak' mas eu não falo. A: Então, como acabou de dizer, você estudou no ensino básico e no pré-secundário C:lá em Dare A: e depois no secundário foi estudar em Dili no colégio de S. José. E então isso, como, tipo, foi viver em Dili, ficar em Dili a estudar ou C: É assim, depois de acabei o pré-secundário vim para S.José, por acaso naquele momento eu era para B: para ser padre! Era para ser padre! Ex-padre! C: Por isso, quando era ensinei, porque a ensinar para a comparação com o Colégio de S. José, por isso, estudar no colégio. A: No colégio e...ficava no Gimnásio. C: Sim, no Gimnásio. B: Até acabar. C: Até acabar, um ano propodêutico e mais um ano para...como se diz, para o Fatumeta B: Seminário maior C: Seminário maior, ya, até ao momento em que saí. B: No caso dele... C: A vida mudou! B: por causa da vocação! Ainda não terminei! C: Estava escrita na bíblia... A: A nossa vocação, ninguém sabe do seu futuro. B: Eu podia ser madre, tenho jeito! A: Então você entrou no seminário em que ano? C: 2002 A: Depois chegou até seminário maior.. C: Não, não. A: Em Fatumeta? C: Só terminei o seminário menor na Belide A: Ah, na Belide até... C: Até quarto ano A: Depois saiu. C: Depois saí. A: E depois foi para onde? B: Casa. C: Depois fui para Dare, não fiz nada, aquele momento foi lá. Fiz o curso de nível 3 um ano. A: De português? C: De português, de língua portuguesa. A: Em Dare ou em Dili? C: Em Dare. A: E quem foram os professores? C: O meu professor é o professor X de... B: Ah A: De qual, da faculdade? C: De português. A: Ah, ok. C: Professor X A: Ah, o professor X,claro. C: Casou com timorense A: Com timorense? B: Casou com timorense . C: Não, casou com professora X. B: Olha, não conta a vida das pessoas aqui... C: Mas o curso só...um dia por semana. A: Um dia por semana só? C: Só na terça-feira, de manhã e de tarde. O resto do dia só fiquei em casa, durou metade, a fazer as hortas e assim. À tarde com os amigos, primos, vamos ao futebol. Depois à noite vamos para Delara A: Delara? C: Delara, sim, para beber um copo. É isso assim . A: Então professor X mora em Dili depois de... C: Mora em Dili, ensina em Dare. A: E só foi lá uma vez por semana só? C: Sim A: Um dia por semana C: Um dia por semana. Acho que mais - não só para o curso nível 3 um dia, ele também deu curso para os professores. A: Ah, tá bem, sim. C: Como se diz, para o nível...nívels quatro, cinco e sei para os professores da primária, pré-secundária... A: Então quer dizer que você aprendeu a língua portuguesa intensivamente naquele tempo? C: Podemos dizer, era no seminário, temos o diário português, o diário inglês, mas eu fui sempre apanhado, porque sempre falei tetum, sempre falei tetum. A: Porquê falou tetum? B: É mais fácil! C: Tipo, assim, ensinar tem uma regra, né? No diário português, todos têm de falar português. Quem falar tetum... B: Vai ser castigado. C: Vai ser castigado. Então, só dizemos uma palavra que não sabíamos não podemos dizer em português, então nós íamos dizer A: com gesto C: com gesto, não, com gesto eles não querem. Por isso, então vou dizer em tetum; você vai dizer tetum? Oh, e eles ah, você é... A: Então, tipo, um meio para obrigar os seminaristas... C: não para obrigar, para facilitar para aprender a língua, né? A: A língua portuguesa C: Só que ainda temos dificuldades porque naquele momento nós estudamos português, não estudamos como uma língua sempre, mas só estudamos como as matérias, outra matéria, um dia por semana, duas horas, assim B: E usamos indonésio como currículo. Naquele momento ainda utilizamos. Por isso, as duas horas de tempo de português não vale a pena, né? A: Sim, sem dúvida. Ainda por cima a língua portuguesa é uma língua muito difícil, não é? E depois, é difícil... B: Para nós, os timorenses, é difícil. C: Especialmente nós que estudamos pouco tempo. Quando eramos criança, não estudamos o português, só língua indonésia. Mas comparamos com os outros que estudam na escola portuguesa, falam muito bem. A: Porquê só língua indonésia? Porquê? B: Como é, só língua...? A: Por que você utilizava também língua portuguesa como... B: língua de ensino A: língua de ensino, ou uma matéria, tipo uma disciplina lá no tempo da Indonésia B: Ah, no tempo da Indonésia só nos, todos nós somos obrigados a estudar língua indonésia, língua indonésia C: Aprendemos português mas só no sexto ano. B: Na minha escola não. A: Lá em Dare. C: Sim. A: Então em Dare, no tempo da Indonésia já se ensinou língua portuguesa no sexto ano. C: Como uma matéria. A: Quem foi o professor? C: O professor foi um mestre, um antigo mestre, ex-frater e amigo do Francisco Xavier. A: O presidente, o primeiro presidente da República de Timor. C: José Maria Lobato. Era de Meliana, estudou em Sudara, veio para Dare e ficou lá em Dare. A: Então, você, a sua família, além de.... B: Não são originais de Dare C: Eu, tipo a minha família, o meu pai já é Dare. A: Já é Dare, como? C: Nasceu em Dare. A: Ah, tá bem, sim C: Os meus avós são de, vem de Fatuku, é perto de Dare e a minha mãe também nasceu em Dare. B: Então a tua avó materna ou paterna que vem de Meliana? C: O meu avô vem de Meliana para estudar, vem estudar, e depois vem para Dare e trabalhou em Dare e não voltou mais e por isso, B: casou. C: Não casou, não casou só fica na casa da minha avó com as minhas mães, e ficou lá e com a minha avó eles consideram-se como irmãos. A: Ah, tá bom, sim, sim. C: Era o nosso director da escola B: Interessante A: Quando ele ensinou língua portuguesa como uma língua, uma disciplina tipo indonésia...os indonésios sabiam disso ou não? C: Sabiam. Acho que eles sabiam. Era só ensinar, era só como uma língua, como o inglês , só ensinar as básicas, como os verbos, conjugar os verbos, pronomes, só assim. B: Houve escolas primárias como pelo que eu saiba...a escola primária número quatro em Barakute também ensina, eles ensinaram isto, a língua portuguesa como uma das diciplinas. Mas já no quarto ano ou assim. C: Naquele momento, só na primária, secundária não. Provavelmente os professores no secundário são os indonésios. B: A maioria. A: Então, agora vocês, nós todos, nós os três estamos cá a estudar em Portugal. Você, qual é o seu curso? C: Estou no curso de engenharia de eléctrica e electrónica. A: Em qual universidade? C: Na Universidade do Algarve. A: Muito bom, assim para passar as férias. C: Uma zona turística. A: Uma zona turística, então, como é a sua vida lá, tipo a nível de interacção social com os portugueses, os estudantes... C: É normal, é como nós todos sentimos aqui com os portugueses. A: Temos amigos, temos sentimos que temos cultura diferente, mas conseguimos B: adaptar C: Adaptar e... A: Ok. Depois de acabar o curso, o que é que vocês pensam, qual a percepção para o futuro? C: Eu não sei, mas para mim, depois de acabar o curso, eu voltarei para Timor, primeiro, e depois ver lá se consigo fazer as coisas, trabalhar para as coisas para desenvolvimento da minha terra, principalmente no meu... área onde que eu estudo, consigo fazer coisas na minha área, mas não se é...a gente estudar num curso não significa que voltaremos para Timor, trabalhamos por exemplo para engenharia, vou trabalhar mesmo é de hotel, não sabemos. Mas eu tenho o sonho que se voltarei para Timor, consigo fazer, vou trabalhar para as coisas que relacionam com o meu curso. A: E o que é que está a estudar? B: Relações Internacionais na Universidade de Coimbra. A: Como é o seu estudo? E também a nível das relações. Eu sei que você também faz parte de uma Associação Académica de Timor. Então você pode-nos contar um pouco dessa vida? B: Da minha vida, não! A: Académica... B: Em Coimbra, pronto, é assim, como você sabe né, a vida de estudante, a conhecer amigos, nós aqui somos todos, somos novos da nossa terra, pronto, tentei sempre adaptar com os portugueses, quer dizer, com os meus colegas, os meus amigos e tentei adaptar com eles, e ainda tou a tentar também, para ganhar confiança deles, para conviver com eles, para aprender português através da nossa convivência. E pronto, graças a Deus que há pessoas que querem nos ajudar e ajudar-te a, com, no meu caso eles ajudam, há muitos dos meus colegas ajudam a aprender português. Quando eu falo, eu digo assim, por exemplo, quando eu falo uma coisa que eu sinto não falo bem e eu disse a eles para: "Se vocês não entenderam, vocês podem dizer ou se o meu português está errado vocês podem-me corrigir, né". E sempre assim, sempre assim, pronto, uma maneira mais fácil, apliquei uma maneira mais fácil de aprender, para mim, uma maneira mais fácil de aprender uma língua através do nosso convivência. E mais fácil falar com os nossos amigos que sentimos mais próximos e, e...pronto, com os professores também nós aprendemos, né, mas é melhor com os amigos, mais fácil, quer dizer, mais fácil com os amigos, por isso, aprendi, além de aprender a consultar as matérias e também a aprender português, para aperfeiçoar o português, porque eu não estou a falar bem português. A: Então, depois do curso, de acabar o curso. B: Ainda não contei tudo. Ainda quero falar mais! Com os timorenses, como eu já disse, também aqui participo numa associação dos estudantes timorenses aqui em Coimbra que é a ATC, pronto. A: O que é quer dizer ATC? B: Académicos Timorenses em Coimbra. Associação Académicos de Coimbra. Pronto, tentei particpar porque além de nós ficamos na outra parte do mundo, e ficamos longe da casa, para sentirmos que não estamos cá sós e sentimos que temos família cá, eu, pronto, aproximo aos timorenses, pronto e eles também receberam-me bem e sinto-me que também estou em casa. Participo sempre nas actividades, nas actividades realizadas pela ATC, como jogos, aí apresentações de danças e cânticos culturais de Timor. Já mil vezes participei, sim. A: Ouvi dizer que você organizou uma drama e... B: Ah, sim, pronto, participei nessas actividades no dia 12 de Novembro, no ano passado de 2010, para comemorar, naquele momento, tivemos um evento para ser comemorado dois ...coisas o primeiro era, o mais principal, são importantes, são principais, dia 12 de Novembro e tomar uma posse da nova direcção da ATC e eu fui uma das responsáveis nos núcleos que existem na ATC e pronto, naquele momento, foi à tomada de posse e depois da tomada de posse, houve, continuamos com...o quê? comemoração do 12 de Novembro, uma celebração contínua naquela dia, de tarde tivemos já uma missa para comemoração, depois da missa é a tomada de posse, depois da tomada de posse houve mais A: actividades B: actividades para 12 de Novembro, né. Pronto, como naquele momento o tempo já está limitado, né, naquela altura. E eu pensei para fazer, era para apresentar uma poesia, uma poema que eu escrevi, né, pronto. Eu escrevi em tetum. A: Sobre o quê em tetum? B: Sobre uma vida...um jovem, os jovens que lutaram e alguns morreram para a independência, e escrevi, pronto, não sei se é bom ou não, mas eu tentei para fazer isso, para declamar em frente de....porque, pronto, aproveitei dia 12 de Novembro que é como símbolo nacional de juventude também e para comemorar o massacre de Sta Cruz que morreram muitos jovens timorenses, né, e pronto, pensei isso, e naquele momento não foi quando...a poesia é muito curto. Pensei para..disse para os outros, à direccção, à nova direcção que vai, que está a trabalhar ahora mas que naquele momento ainda não está... A: tomada de posse B: Pois, sim, disse a eles e eles aceitaram e naquele drama, não sei como se diz em português, mas era o pantomim, eu pedi aos pais, aos pais, aos timoreneses que estão cá para combinar com eles para os filhos deles que participaram nesse drama e eles aceitaram, pronto, com a ajuda dos pais, no primeiro dia, tivemos só um só dia de ensaio e duas vezes só e fiz assim, fiz uma drama do pantomim que, como se diz, a recontar o que é que passou no dia 12 de Novembro de 1991, 91, né A: 91 B: é para recontar isso e também no meio deste teatro é que eu fiz a minha poesia e no fim fizemos um minuto de silêncio para levar as pessoas a relembrar as vítimas e principalmente os que morreram e alguns que desapareceram sem... A: Sem saber B: Sem saber, pronto. A: Então naquele evento, naquela altura, quem foram os participantes? B: Pronto, eu e as crianças. Pronto, só são todas as crianças dos timorenses aqui em Coimbra. A: E participaram também tipo algumas entidades da outra universidade ou... B: Há pessoas importantes naquele momento, o bispo D. Carlos também participou...foi ele que fez a missa, mas no momento que apresentamos trabalho, ele já foi embora. Pronto, ele não viu. Mas alguns portugueses que são, uma delas é uma professora de treatro. A: De teatro, que bom, muito bom. Então, ficamos por aqui. B: Também já estou a tremer. A: Vamos terminar a nossa conversa, também já estamos com frio. Agradeço muito a vossa participação. B: E obrigada pela entrevista. A: Bom estudo e força. B: Obrigada. C: Obrigado.