Governo de (des)união na Tunísia
Crise. Primeiro-ministro anuncia eleições em seis meses e Executivo que o reconduz a ele e a oito ministros de Ben Ali




Eleições dentro de seis meses, libertação de presos políticos, legalização de todos os partidos, liberdade de informação para os media e de acção para as organizações não governamentais. Foram estas as principais medidas ontem anunciadas pelo primeiro-ministro interino da Tunísia, Mohammed Ghannouchi, depois de comunicar ao país a composição do governo de união nacional, no qual ele e outros oito ministros de Zine el Abidine ben Ali foram reconduzidos nos cargos. Apesar de incluir três líderes da oposição e membros da sociedade civil, rostos ligados ao presidente deposto mantêm-se em pastas-chave como Defesa, Interior, Finanças e Negócios Estrangeiros. A polémica não se fez esperar. 
"A Tunísia merece melhor: quatro semanas de revolução real e para conseguir o quê? Um governo que de união nacional não tem mais do que o nome, pois é composto pelo partido da ditadura", disse à televisão francesa I-Télé o histórico opositor tunisino Moncef Marzouki, referindo-se ao Movimento Democrático e Constitucional, RCD, de Ben Ali. "O povo tunisino não vai aceitar esta espécie de palhaçada. O RCD conserva as pastas importantes, como a do Interior, que vai organizar as eleições", acrescentou o líder do até agora interdito Congresso pela República, que está exilado em França, mas já anunciou o regresso para concorrer às presidenciais. "É uma mudança na continuidade. Há uma revolução feita pelo povo e isto é como uma contra-revolução. O povo não vai gostar disto, pois alguns querem as pessoas ligadas a Ben Ali fora do poder e outros querem mesmo a dissolução do RCD", explicou ontem ao DN o jornalista e escritor Sofiane ben Farhat, chefe de redacção do jornal tunisino La Presse.
 O governo de união nacional, que foi saudado pela ONU, inclui três líderes da oposição: Ahmed Néjib Chebbi, do Partido Democrático Progressista, Ahmed Ibrahim, do Ettajdid (Renovação) e Mustapha Ben Jaafar, da Frente Democrática para o Trabalho e para as Liberdades. O seu anúncio surgiu três dias depois de Ben Ali ter fugido para a Arábia Saudita, após 23 anos no poder. 
"As eleições serão organizadas o mais tardar dentro de seis meses. A Constituição prevê 45 a 60 dias, um prazo que não é suficiente", disse à televisão Al-Arabiya o primeiro-ministro Mohammed Ghannouchi. Este período poderá abrir espaço aos islamitas do partido Ennahdha (Renascimento), que está ilegalizado e é liderado a partir de Londres por Rachid Ghannouchi. Este também já disse que pretende voltar agora à Tunísia. Na televisão do país o ministro do Interior, Ahmed Friaa, fez ontem um balanço da revolta: 78 mortos e prejuízos da ordem dos três milhões de dinares (cerca de 1,6 mil milhões de euros). Entre os mortos há que incluir o fotojornalista Lucas Dolega, da EPA, atingido na cabeça por uma granada de gás lacrimogéneo que foi atirada por um polícia tunisino. Numa fase inicial a polícia fiel ao regime usou balas reais contra manifestantes que atiravam pedras.
A revolta popular, que foi encabeçada por jovens formados e sem emprego e apelidada pelos media de Revolução do Jasmim, podia ter terminado num banho de sangue muito maior não fosse o chefe do Estado-Maior do Exército da Tunísia, o general Rachid Ammar, ter recusado disparar indiscriminadamente sobre os manifestantes. "Estás acabado", terá dito a Ben Ali, segundo o El País. 
PATRÍCIA VIEGAS