Tunísia pobre e rural quer fazer cair Governo interino
Crise. Mohammed Gannouchi, cujo Governo de transição foi formado faz hoje uma semana, teve ontem o seu palácio cercado por manifestantes e enfrenta ameaça de  greve geral ilimitada 




Chegaram de carro, moto, camioneta ou mesmo de camião. Milhares de tunisinos vindos das zonas rurais do país manifestaram-se ontem em Tunes contra o Governo de transição liderado por Mohammed Gannouchi. 
À "Caravana da Libertação", como se autodenominaram, juntaram-se nas ruas da capital tunisina vários opositores de esquerda, sindicalistas, islamitas, cidadãos comuns e muitas mulheres acompanhadas pelos filhos, constataram jornalistas da AFP. 
A pressão da rua não dá trégua e o Governo formado há uma semana enfrenta hoje um grande teste: escolas primárias, colégios, liceus, todos deveriam retomar as aulas e o funcionamento normal, mas o sindicato dos professores da escola primária apelou a uma greve geral ilimitada até não haver no poder nenhum ministro do tempo de Zin el Abidine ben Ali, presidente deposto pela agora chamada "Revolução do Jasmim". 
"Nós viemos de Menzel Bouzaiane, Sidi Bouzid, Regueb para fazer cair os restos da ditadura", lançou Mohammed Layani, enrolado numa bandeira da Tunísia. "O povo vem fazer cair o Governo", gritavam outros manifestantes, na sua grande maioria jovens. Três mil cercaram o palácio de Kasbah, local de trabalho do primeiro-ministro interino na capital, reportaram os jornalistas da AFP.
Aquelas três localidades do Centro-Oeste do país constituem os principais focos de contestação e estiveram na primeira linha da revolta popular que no dia 14 conduziu à queda de Ben Ali, depois de 23 anos no poder. Terras de agricultores, operários, trabalhadores da construção civil, muito longe das paisagens paradisíacas dos postais turísticos, Menzel Bouzaiane, Sidi Bouzid, Regueb sentiam-se descontentes e esquecidas pelo regime. 
Moammed Bouazizi, o vendedor de frutas que morreu depois de se imolar pelo fogo, era precisamente de Sidi Bouzid. A sua morte foi a faísca que acendeu o rastilho da contestação que levou à fuga do presidente para a Arábia Saudita, com a mulher Leila Trabelsi. 
Mas ao mesmo tempo que protestam nas ruas da capital, muitos tunisinos temem que os islamitas, até agora interditos no país, venham a dominar o poder. "Temo o regresso dos islamitas, que nos imponham uma cultura estrangeira e nos digam como temos de nos vestir", confessa, à AFP, Sonia, enquanto o líder de um grupo de adolescentes acrescenta: "Com a revolução acabaram os direitos das mulheres na Tunísia."
Estas viram os seus direitos progressivamente alargados, primeiro pelo presidente Habib Bourghiba e depois por Ben Ali. "Hoje já vi muitos barbudos por aí e isso faz--me medo", conta Mabrouka, lembrando que as manifestações externas de religiosidade são muito raras na Tunísia - que o regime autoritário manteve laica. 
PATRÍCIA VIEGAS