
Última brigada de combate dos Estados Unidos despede-se do Iraque




Os Estados Unidos aceleraram esta quinta-feira a marcha da estratégia de saída do Iraque com a retirada da derradeira brigada de combate, até agora estacionada em Abu Ghraib, a Oeste da capital Bagdade. A Administração Obama começa a dar por terminada uma guerra que se arrasta há sete anos, mas promete manter um “compromisso a longo prazo” para com o país que em tempos pertenceu ao regime de Saddam Hussein e do partido Baas.
Ao início da manhã no Iraque, cerca das 6h00 (3h00 em Lisboa), a quarta Brigada Stryker, da Segunda Divisão de Infantaria, atravessava a fronteira do Koweit. A maioria dos soldados, explicou o tenente-coronel Eric Bloom, porta-voz do Exército norte-americano, deixou o Iraque "por via aérea". Os restantes fizeram-no por terra, percorrendo um roteiro potencialmente hostil pelo deserto. Planeada ao longo de semanas, a marcha foi acompanhada por jornalistas adstritos à Brigada Stryker, que foram impedidos de relatar quaisquer manobras.    A retirada da quarta Brigada não deixa, por ora, as frágeis tropas regulares do Iraque entregues a si próprias. Para trás ficam 50 mil operacionais dos Estados Unidos, que até 2011 terão por missão proteger interesses norte-americanos e consolidar a formação das forças iraquianas. Outros seis mil efectivos de apoio ficam no país até ao início de Setembro. Todavia, a saída dos homens da Brigada Stryker é o primeiro passo substancial na estratégia de retirada sancionada pela Presidência de Barack Obama.      São sete anos de guerra que entram agora no último capítulo. Pelo menos para os Estados Unidos, que sofreram 4.415 baixas desde os primeiros instantes da invasão em 2003, quando o antecessor republicano de Obama, George W. Bush, assinou a ordem para pulverizar o regime de Saddam Hussein. Para o Iraque, mergulhado a um só tempo numa violência sectária sem quartel e numa crise política de desfecho incerto, o verdadeiro terramoto pode estar apenas a começar.      "Um compromisso a longo prazo"      Nos termos de um acordo celebrado com as autoridades de Bagdade, o Iraque deverá estar livre de todas as tropas dos Estados Unidos até ao final do próximo ano. Contudo, a Administração democrata desdobra-se em declarações destinadas a garantir que o termo da ocupação militar não significa que os iraquianos acabem abandonados à sua sorte.      Como tratou de sublinhar o porta-voz do Departamento de Estado, os cofres da maior potência mundial injectaram um trilião de dólares na Operação Liberdade Iraquiana e nos anos de contra-terrorismo que se seguiram. O número foi traduzido em palavras pelo próprio PJ Crowley, ouvido pela estação televisiva MSNBC a par de imagens de blindados a atravessar a fronteira do Koweit: "Não estamos a terminar o nosso trabalho no Iraque. Temos um compromisso a longo prazo".      Outro dos números indeléveis e em permanente actualização na história em curso da invasão norte-americana é o dos mortos entre a população civil. Uma contagem que o grupo de monitorização independente Body Count situava, à hora da partida dos soldados da Brigada Stryker, entre os 97.196 e os 106.071.      "Investimos pesadamente no Iraque e devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para preservar esse investimento e para que o Iraque e os seus vizinhos se empenhem numa situação bem mais pacífica que sirva os seus interesses e os nossos", resumia nas últimas horas o porta-voz do gabinete de Hillary Clinton.      Temor entre as patentes do Iraque      Numa mensagem publicada quarta-feira no portal da Casa Branca, o Presidente dos Estados Unidos congratula-se pelo fim das missões de combate no Iraque, mas não faz qualquer referência à partida da quarta Brigada Stryker: "Hoje tenho o prazer de anunciar que, graças aos extraordinários serviços das nossas tropas e dos nossos civis no Iraque, a nossa missão de combate chegará este mês ao fim e que vamos concluir uma retirada substancial das nossas tropas".      Entre os mais altos graduados do Exército iraquiano, o calendário preconizado por Obama está longe de ser pacífico. Uma semana antes da saída da última brigada norte-americana de assalto, o próprio Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Iraque saía a público para considerar prematura a retirada total em 2011. Na melhor estimativa do general Babaker Zebari, as forças regulares não devem ser capazes de tomar em mãos a segurança e a soberania do país antes de 2020.      Há também um escolho político nos planos de Washington para o Iraque pós-ocupação. Cinco meses depois das eleições legislativas de 7 de Março, os principais partidos iraquianos continuam a mostrar-se incapazes de chegar a acordo para formar governo.  

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Os Estados Unidos, que chegaram a ter 150 mil soldados no Iraque, sofreram 4.415 baixas desde o início da invasão
Jim Lo Scalzo, EPA
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