
“Chamou-me mas já não fui a tempo”
Açores: Menino que sobreviveu a acidente de autocarro recorda últimos momentos de Anabela
"A Anabela tinha alguma coisa para me dizer". Os lábios de João Almeida, um dos sobreviventes do acidente de autocarro que tirou a vida a Roberto, de 39 anos, e Anabela, de 10, tremiam ontem de manhã ao recordar o dia em que perdeu dois amigos. Triste, o menino de 12 anos deixava escapar um sorriso por estar vivo. Ainda confuso, tentava explicar o desastre a que escapou, segunda-feira, em Algarvia (Açores).
"Íamos os três nos bancos da frente. O Ricardo estava ao meu lado e a Anabela chamou-me e disse que queria contar-me um segredo. Mas já não fui a tempo", lamentava o menino. "Depois ouvi um barulho muito grande e só me lembro de o autocarro se desmanchar e eu ficar enterrado na lama. Chamei pelo Ricardo, pelo Roberto e pela Anabela, mas só o Ricardo respondeu e queixava-se de dores nas pernas", continua a relatar João, embora com um tom mais grave. Ricardo tinha também sido projectado, e por isso os dois conseguiram salvar-se. "O Ricardo disse que ela estava bem", diz ainda desolado com a triste sina da amiga. Segundo João, Roberto, o condutor, não estava ao volante quando a enxurrada os levou ravina abaixo. "Estava no corredor a mandar os outros carros passar, porque quando viu as pedras disse que não ia arriscar", revelou. Os arranhões na cara do menino não o deixam esquecer a desgraça: "Agora já não dói muito, mas ainda não vou para a escola". Gorete, mãe de João, apoiava o filho na dor: "É um milagre ele estar vivo." "QUERIA TANTO MORRER COM A MINHA IRMÃ"A esperança de Ricardo ruiu anteontem à noite quando soube que a irmã gémea Anabela tinha sido encontrada morta junto ao autocarro. "Não podia esconder mais", confessava desolado o pai, Carlos Silva, a quem coube a cruel tarefa de lhe dizer a verdade. "Que podia eu fazer? Ele estava sempre a perguntar-me quando a irmã o ia ver", explicava, desanimado e com o coração partido. Ricardo não controlou as lágrimas ao saber que a irmã gémea não tinha resistido. "Eu pensei que ela estava bem. Queria tanto morrer com ela", foram estas as suas únicas palavras. O menino pediu para ir hoje ao funeral da irmã, desejo que os médicos recusaram. Anabela foi ontem autopsiada e o corpo já está na casa mortuária de Algarvia. "Minha menina, porque vais embora?", repetia a mãe ontem à noite, recusando afastar-se do caixão branco.NOIVA FALTOU AO FUNERAL DE ROBERTOOs homens e as mulheres vestidos de negro seguiam o caixão de Roberto Amaral, num dia com muita chuva e vento, trazendo à memória a trágica segunda-feira. "O que vai ser a minha vida sem ti", perguntava Olinda, a mãe que ficou sozinha. Levaram-na para casa e não a deixaram ver o filho a ser enterrado. Os cafés fecharam à hora do funeral. Silêncio na aldeia. Ana Isabel, a mulher que ficou sem o noivo no dia do casamento, não apareceu. "Íamos casar e não sei como me vou despedir dele", disse horas antes ao CM. PORMENORESSISMO EM SÃO MIGUELUm sismo com intensidade III a IV (fraco a moderado) na escala de Mercalli Modificada foi registado ontem, pelas 04h17, na ilha de São Miguel. Não houve danos.ALUNOS EM CASAOs alunos das escolas básicas e secundárias dos concelhos do Nordeste regressaram ontem mais cedo a casa, por "precaução", devido à previsão de mau tempo em São Miguel. DERROCADAUma derrocada de terras obstruiu ontem o único acesso à localidade da Ribeira Quente, concelho da Povoação, na costa Sul da ilha de São Miguel.
Magali Pinto, Enviada Especial Açores


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