 Tentao

 Adolfo Caminha

 _________________________________________________________________

 A Raul Pompia , o mais original e

 correto escritor brasileiro de seu

 tempo .

 Captulo I

 - Ora , sempre vamos ao Rio de Janeiro , ao grande e espetaculoso Rio

 de Janeiro !
 - exclamou Evaristo , pousando o chapu , com ar de

 triunfo. -  como l diz o outro : - quem espera ...
 Eu nunca me

 enganei com o Lus ...
 nunca !

 Saam-lhe em jorro as palavras , num tom quente de vitria , de

 aclamao , de regozijo .

 Adelaide no o compreendeu logo , e , sem o compreender , exultava

 diante da intempestiva alegria do marido , com os olhos nele ,

 ansiosa .

 - Que  , homem de Deus , que foi ...
 Que mistrio !

 - Nada , filha , nada ; estamos aqui , estamos no Rio de Janeiro -

 ouviste ?
 - no grandioso Rio de Janeiro !

 Ela sorriu com um muxoxo :

 - Brincadeira !

 - Brincadeira ?
 Telegrama do Lus Furtado .
 Um emprego no Banco

 Industrial ...

 - Que  do telegrama ?
 - perguntou Adelaide , arredando o cabelo dos

 olhos e com o mesmo sorriso de incredulidade .

 - C est , no bolsinho ; recebi quando menos esperava .

 E , desdobrando o papel :

 - ' Emprego Banco Industrial garantido .
 Venha. - Lus. "

 Foram entrando ambos para a sala de jantar - Evaristo um pouco

 apressado .

 - Tu no imaginas - ia ele dizendo , sem se voltar para a mulher - ,

 tu no imaginas como estou alegre !
 No Rio de Janeiro a coisa 

 outra !
 Um homem adquire relaes , ganha fama e , quando pensa , tem

 sua economiazinha ...
 Quem vai ao Rio , ipso facto , vai  Europa .

 Ora , digam l para que me tem servido a carta de bacharel ?
 Para

 nada , para coisssima alguma !
 Bacharel em provncia  objeto de

 luxo e eu estou farto de misrias !

 Adelaide , meio triste , perguntou-lhe se queria jantar .

 - Por que no ?
 Imediatamente .
 Hoje  ?...

 - Tera .

 - Domingo h vapor e eu tenho muito que fazer .
 Hoje mesmo , acabando

 daqui , vou telegrafar ao Lus .
 Manda botar a sopa .

 - Jesus , que sofreguido , Evaristo !
 Ao menos tira o palet .

 - Qual palet !
 ~ daqui para o Telgrafo e amanh , se Deus quiser ,

 os jornais do noticia da minha ida ao Rio .
 Um emprego no Banco

 Industrial do Rio de Janeiro  papa-fina .
 J ouviste falar no Banco

 Industrial ?

 - No .

 - Pois  um excelente emprego - um emprego !

 Adelaide pediu o jantar  porta da cozinha e veio sentar-se  mesa .

 Eram pobres , de uma pobreza honesta e limpa .
 Moravam nos arredores

 da cidade , num lugar chamado Coqueiros , onde a vida era quieta e

 ningum os ia incomodar nas horas de descanso .
 Assim que desciam as

 primeiras sombras da noite , caa todo o bairro numa extraordinria

 mudez , num silncio de aldeia feliz , cortado , apenas , em noites de

 lua , pelo choro melanclico dalgum violo bomio que passava

 dizendo histrias de amor ...
 A prpria estao do trem era um

 pouquinho longe da casa em que moravam .

 Evaristo , porm , tinha suas ambies e no podia contentar-se com

 aquela vida de jesuta .
 O Rio de Janeiro atraa-o para as grandes

 lutas , para cometimentos estrondosos , que o celebrizassem dalguma

 forma .
 Rapazes , seus conhecidos ( o Lus Furtado era um deles )

 viviam muito bem na Corte - formados , gozando de nomeada na

 advocacia , no magistrio ; outros , que nem sabiam o b-a-b do

 direito , elogiados na literatura , na imprensa , em tudo !
 Lus

 Furtado , por exemplo , Lus Furtado , ele o conhecia desde criana ,

 desde os bancos colegiais , quando ambos cursavam o Liceu ; eram

 amigos , amiguinhos como dois irmos .
 Pois bem , Lus Furtado no

 tinha nenhum preparatrio , fora pssimo estudante de latim , na aula

 do Padre Lustosa , de francs , e mesmo da lngua de Cames ; no

 entanto , estava muitssimo bem colocado no Rio - podia-se dizer que

 era dono de jornal , influncia literria e quase capitalista !
 E

 ele , Evaristo ?
 Formado , bacharel em direito , autor de muitos

 escritos , no entanto era aquilo : duzentos mil-ris - uma vergonha -

 casa em Coqueiros , e , quanto a futuro , temos conversado !

 - E ou no  verdade o que eu digo ?
 - perguntava ele  mulher .

 Esta confirmava : " - No dizia que no ; mas o tal Rio de Janeiro , o

 tal Rio de Janeiro ...
 "

 - Invenes , minha mulher , invenes da gente que no tem o que

 fazer .
 O Rio de Janeiro no  , nem nunca foi bicho-de-sete-cabeas .

 Eu leio jornais e sei bem o que aquilo  .
 Voc ver com os prprios

 olhos .
 Falam muito nas francesas do Largo do Rocio , nos teatros , na

 jogatina .
 Ora , isso em toda parte h ; o vcio est no sangue do

 indivduo ; quando o homem tem de ser coisa ruim , o  no Rio de

 Janeiro , na Patagnia , em Paris ...
 no inferno !
 Compreende agora que

 no me vou atirar ao luxo , ao pagode ,  bandalheira .
 O que eu quero

 simplesmente , exclusivamente ,  fazer pela vida , ganhar algum

 dinheiro , prosperar , com os diabos !

 Adelaide , rapariga dcil , de corao meigo como o corao das

 pombas , ouvia tudo , e , em extremo confiante no marido , achava que o

 que ele dizia era a pura verdade .
 Mas no deixava de o aconselhar

 que pensasse bem , antes de tomar uma resoluo .
 Nada de vexame ,

 para depois no haver arrependimento .

 - Que arrependimento !
 Arrependido estou eu de j no ter metido

 ombros a uma viagem .
 A provncia no bota ningum pra diante .
 Vamos

  Corte , vamos melhorar .
 Por que no hei de ser feliz , eu , que

 trabalho como trabalho , por qu ?
 Faa de conta que comprei um

 bilhete .
 A vida  simplesmente uma loteria : questo de felicidade .

 Evaristo tomou um gole d'gua , para rebater a sobremesa e

 ergueu-se , palitando os dentes .

 - Ento , sempre queres ir  cidade ?
 - perguntou Adelaide sem se

 mover .

 - Imediatamente .
 Vou telegrafar ao Lus e espalhar a grande

 notcia !

 - Mas no te demores , Evaristo ; olha que fico s neste

 subterrneo ...

 - Nada , no me demoro nada :  um pulo .

 E o futuro empregado do Banco Industrial do Rio de Janeiro , depois

 de acender um cigarro , largou-se , numa precipitao de mdico que

 vai a chamado urgentssimo .

 - ' T logo , ' t logo !

 Que pressa de homem !
 - sorriu Adelaide , ouvindo bater a porta da

 rua. - Que desespero !

 - Nh Varisto nem quis jantar !
 - acrescentou a cozinheira se

 aproximando .

 - Tira a mesa , Balbina .
 Sabes que vamos para o Rio de Janeiro ?

 - Rio Janeiro , nh Delaida !
 Onde  isso ?

 Uma terra muito boa , muito bonita , onde mora o Imperador ...

 - Ah !...
 Rio Janeiro ...

 E a preta velha ficou a olhar o teto , a olhar , com a mo no queixo ,

 muito admirada .

 - Rio Janeiro ...
 E a velha Balbina agora tem de procurar casa ?

 - No sei ; o Evaristo  que h de dizer ...

 As duas mulheres , a velha e a moa , trocaram um olhar vago , um

 olhar quase sem expresso , mas onde havia uma sombra de tristeza .

 Balbina compreendeu , quela simples notcia , que ia ficar

 abandonada no seu rancho de negra velha , sem ganhar dinheiro , sem

 emprego , sem ocupao - ela , que estimava tanto " nh Varisto " e

 " nh Delaida " , e que estava to bem naquela casa !
 Adelaide , por sua

 vez , compreendia a tristeza de Balbina - pobre criatura quase

 octogenria , que eles ainda conservavam por amizade , por gratido .

 Balbina fora escrava do pai de Evaristo , falecido h anos .
 Adelaide

 compreendia e ficava-se tambm a pensar no destino da velha , com

 uma ponta de saudade , quase com remorso de a deixar .
 Porque

 Evaristo absolutamente no podia levar Balbina - uma mulher idosa ,

 coitada , muito boazinha , mas muito velha , sem foras mesmo para

 resistir .

 Entretanto , a meiga senhora no quis precipitar as coisas .
 Mais

 vale uma esperana tarde que um desengano cedo .
 Deu a notcia por

 lealdade e calou-se .

  noite voltou o marido , cerca de nove horas , com um embrulho

 debaixo do brao , o colarinho imprestvel de suor , s carreiras .

 - C estou !
 - disse entrando. - Agora  arrumar os bas e tocar !

 Amanh os jornais do a minha ida , isto  , amanh estoura a bomba !

 Evaristo chamava " estourar a bomba " ao efeito que a notcia havia

 de produzir entre os seus inimigos , que no eram poucos .

 - Que embrulho trazes a ?
 - perguntou Adelaide , curiosa .

 - Um palet de alpaca para a viagem .

 Adelaide cruzou as mos , meneando a cabea .

 - Oh , homem vexado !
 Nem que fosses embarcar amanh ...

 - No h tempo a perder , no h tempo a perder .
 Faa-se logo o que

 se tem de fazer !

 - Quando h vapor ?

 - Domingo : o Maranho .
 Hoje  tera , no  ?
 Quarta , quinta , sexta e

 sbado , apenas quatro dias para os preparos de viagem .
 Nada !

 - E a Balbina ?
 - inquiriu Adelaide .

 - A Balbina fica ...
 no h remdio .
 Que vai ela fazer ao Rio ?
 Nada

 de criados , por enquanto ; as despesas so muitas e eu no posso

 arcar ...

 O corao de Adelaide comoveu-se ante aquele decreto formal de

 Evaristo. - Pobre da negra : to boazinha ...

 - Que queres ?
  a vida .
 Ela que procure outra casa .
 Est livre ,

 est senhora de si .

 E foram-se recolher ,  hora acostumada , sempre falando na viagem ,

 no embarque , nas despedidas - Evaristo arquitetando planos ,

 construindo castelos , lembrando uma coisa , outra ...

 Da a quatro dias , com efeito , embarcava o futuro representante do

 Banco Industrial .
 Foi um acontecimento , em Coqueiros , a ida de

 " dona Adelaide " para a Corte , um verdadeiro acontecimento , por que

 todos a estimavam , todos queriam bem a ela , mesmo os estranhos , que

 s a conheciam de vista .

 Balbina chorou a noite inteira , sem deixar o cachimbo , que lhe

 pendia dos beios trmulos , fungando e resmoneando .
 " - S os

 abandonaria , quando eles , nh Varisto e nh Delaida , dobrassem a

 esquina ...
 "

 - Deixe estar , Balbina , deixe estar que hei de lhe mandar umas

 coisas do Rio - consolava Adelaide. - Tambm voc j no  mulher

 para sair dos seus cmodos .

 - E , nh Delaida ,  assim memo .

 E a velha enxugava os olhos com a aba do casaco .

 - E , nh Delaida ,  ...

 Um carro de aluguel esperava os viajantes , enquanto Evaristo ,

 pingando suor , conclua umas arrumaes no fundo da maleta , e

 Adelaide , assoando as lgrimas , em toilette de gorgoro , abanava-se

 na sala de jantar .

 - Pronto ?
 - perguntou de repente o bacharel .

 - Eu estou pronta ...
 respondeu a esposa , devagar , numa voz

 comovida .

 E , da a pouco , a velha Balbina se atirava aos ps de Adelaide ,

 chorando , soluando , agarrando-a espetaculosamente pelas pernas ,

 numa dolorosa cena de lgrimas e exclamaes .

 - Deus a leve , nh Delaida ...
 v com Deus !...
 No lhe hei de querer

 mal , no , minha filha ...

 Adelaide - aquele corao terno de ave mansa - chorava tambm , um

 choro mudo que pungia .

 - Basta , basta !
 - interrompeu Evaristo , limpando a face magra. -

 Acabem com isso ...

 No fundo , ele tambm estava comovido , e homem nervoso , no podia

 ver outra pessoa chorar .

 O boleeiro perguntou para dentro se era s a caixa de chapu , a

 maleta e a gaiola ...

 - S - respondeu Evaristo .

 Adelaide embarcou aos olhos curiosos da vizinhana , que tinha o ar

 compungido , depois embarcou Evaristo , ouviu-se um - adeusinho !
 - e

 o carro estremeceu .

 Balbina , em p no meio da rua , levava ainda uma vez a aba do casaco

 aos olhos .

 ...
 Foi assim que o bacharel Evaristo de Holanda se desenterrou de

 Coqueiros - " humilde e saudoso lugarejo de provncia " - como depois

 mandava dizer , em carta aos amigos .

 Figurava a Corte do Imprio uma terra legendria de aventuras e de

 muito dinheiro , onde , com algum trabalho , qualquer homenzinho podia

 fazer fortuna em poucos anos , ou , quando mais no fosse , galgar

 posies , eminncias cobiadas , conquistar nome - celebrizar-se .

 Devorava os jornais do Rio , na biblioteca ; lia tudo quanto na

 grande capital se publicava em prosa e verso ; no era estranho ao

 movimento literrio , aos saltos-mortais da poltica , s artes ;

 interessava-se , como republicano , pela sade do monarca e pelos

 escndalos mais ou menos ruidosos da Rua do Ouvidor ; enfim , o Rio

 de Janeiro era , a seus olhos estticos de provinciano , a

 quintessncia da civilizao - Paris em ponto pequeno .

 Formado em direito , casara aos vinte e oito anos com uma rapariga

 rf , chamada Adelaide - essa de corao meigo como o das pombas -

 que o amava desde o primeiro ano do curso e que o vira certo

 domingo numa festa de igreja .
 Adelaide era pobre , mas isso o no

 demovia de suas boas intenes : queria exatamente uma moa pobre ,

 que o idolatrasse .
 Ele tambm nada possua , mesmo nada : estudara 

 custa de um parente do Rio Grande , que lhe estabelecera parca

 mesada at que recebesse o ttulo de bacharel .
 Antes , porm , do

 ltimo ano acadmico , pde arranjar ( a gente sempre se arranja ...
 )

 um emprego , no muito rendoso , que conservou , a despeito da intil

 carta doutoral , renunciando , com extraordinria iseno ,  esmola

 que lhe vinha todos os meses do Rio Grande. - " Era tempo de se

 libertar !
 "

 No consultou a ningum sobre o casamento ; um belo dia soube-se que

 o Holanda , filho do finado juiz de direito , estava casado com uma

 moa pobre , mas " bonitinha " ...

 E estava .
 Casou sem rudo , sem luxo , indo logo morar em Coqueiros e

 acabando por achar aquilo muito fora da civilizao , incompatvel

 com a sua natureza irrequieta de homem que no veio ao mundo para

 morrer obscuro " num lugarejo humilde de provncia ...
 "

 Lus Furtado  que lhe metera na cabea o Rio de Janeiro. - " Por

 que no te mudas para o Rio ?
 - escrevia ele. - Uma coisa  a gente

 viver na provncia e outra coisa  respirar numa atmosfera

 civilizada .
 Sei de mim que estou muito bem , muitssimo bem .
 Dou-me

 com o Joo Alfredo e com os principais personagens da poltica

 fluminense .
 Minha mulher est gorda e no quer saber de outra vida ;

 diz que o Rio de Janeiro  um paraso ( expresso dela ) e que tudo o

 mais , que no for o Rio de Janeiro , no Brasil ,  caboclada , 

 selvageria .
 O Raul , meu filho mais velho , botei-o no colgio , no

 Internato Meneses Vieira , por insuportvel .
 A Julinha  que est um

 encanto , uma delcia !
 J fala , j diz mame , papai , bala , tot ...

 No imaginas .
  uma graa ouv-la chamar - diabo , diabo , diabo !

 Enfim , meu Evaristo , a nossa casa , em Botafogo , se no  um

 palcio , tambm no  uma choupana ...
 Vamos entrar na estao

 lrica. "

 E conclua instando para que o amigo fizesse um sacrifcio ,

 abandonasse aquela vida de provncia , trocando a monotonia de

 Coqueiros pela Rua do Ouvidor , pela civilizao , por um chalezinho

 em Botafogo .

 Evaristo ficava triste , mordia a ponta do bigode , passava a mo na

 cabea , refletindo , parafusando , oscilando entre o presente e o

 futuro , entre a quietao provinciana e o tumulto de uma cidade

 grande cheia de movimento e de sensaes .
 ' T que um dia , no

 obstante os ingnuos receios de Adelaide , optou pelo Rio de Janeiro

 e escreveu a Lus Furtado , autorizando-o a arranjar-lhe um emprego

 decente ,  claro .

 Meses depois Lus Furtado comunicava-lhe a sua nomeao para o

 Banco Industrial .

 O Maranho chegou ao Rio num domingo luminoso e calmo .
 Adelaide

 enjoara horrivelmente , sem sair do camarote , sem gozar dos aspectos

 da viagem , numa indolncia estpida , com a cabea a doer , os olhos

 mortos de fadiga , debaixo dos lenis , muitssimo plida .
 Oh ,

 aquele maldito cheiro de azeite e de alcatro , que vinha da proa ,

 dava-lhe tonteiras , embrulhava-lhe o estmago , causava-lhe arrepios

 de nusea !
 Sempre meiga , porm , no se queixava , no se revoltava

 contra o marido , que , em parte , era o culpado .
 Bem que estavam

 tranqilos na provncia !

 Evaristo foi de uma solicitude incomparvel , de um carinho

 extremoso .
 Ela nunca o vira to amvel , se  que se podia ser mais

 amvel do que ele sempre fora .
 Todos a bordo notavam que " aquele

 moo de palet de alpaca amarela " trazia os criados numa roda-viva ,

 ocupava-os a todo instante , e era s abrindo e fechando o camarote ,

 subindo e descendo escadas , numa azfama .
 E entravam bandejas e

 saam bandejas com iguarias especiais , com limonadas e frutas , e

 Evaristo ainda achava que era pouco !

 Os passageiros desconfiavam de tanta dedicao e piscavam-se os

 olhos e sublinhavam risinhos de instintiva malcia .
 No era

 possvel que fossem casados !
 Qual casados !
 Donde sara aquele

 exemplo de marido ?

 E falava-se baixinho no camarote n0 16 e no moo de palet amarelo .

 Um caixeiro-viajante , que s andava de binculo a tiracolo e

 sombrero de cortia , afirmou que no camarote no 16 ia uma senhora

 tsica ; uma ocasio vira-a , de relance , no fundo do beliche , muito

 magrinha , coitada , quase a morrer ...
 Outro passageiro dizia que era

 a me do " palet amarelo " , uma velha doente de reumatismo .

 Quando o Maranho largou ferro , Adelaide estava pronta para

 desembarcar .
 A primeira pessoa que Evaristo viu da tolda na lancha

 do Arsenal de Guerra , foi o seu inestimvel amigo Lus Furtado .

 - No  ele ,  Adelaide ?
 - perguntou , indicando um sujeito alto , de

 cartola e sobrecasaca , muito aprumado na lancha .

 Adelaide conhecia-lhe o retrato .

 -  ele , sim , creio que  ele ...

 Nesse instante Lus Furtado acenava para bordo com o leno ;

 reconhecera o amigo ; e de ambos os lados trocaram-se sinais de

 boas-vindas .

 Horas depois rodava um carro para Botafogo , conduzindo Evaristo de

 Holanda , a mulher e Lus Furtado .

 A residncia deste era uma excelente casa de dois andares , vistosa ,

 olhando para o Corcovado , nas imediaes do cemitrio de S. Joo

 Batista .
 Morava no primeiro andar ; o segundo era ocupado por uma

 famlia estrangeira de vida misteriosa .

 Furtado quis mostrar que inda ora amigo do seu amigo , hospedando-o

 em casa , acudindo-lhe s primeiras necessidades .
 Ele , que se gabava

 tanto de altas empresas no Rio de Janeiro , que dizia-se muitssimo

 bem colocado " , na praa e na sociedade fluminense , que falava no

 Lrico , em personagens eminentes da poltica contempornea , despiu

 a vaidade que ostentara de longe para com Evaristo , e agora

 fazia-se pequeno , sem importncia , " humilde secretrio do Banco

 Industrial " .

 - Modstia ...
 modstia - opunha Evaristo , batendo-lhe amigavelmente

 na coxa .

 Adelaide sorria .

 Enquanto o carro rodava para Botafogo , iam os trs conversando ,

 abrindo-se , dizendo novidades , perguntando pelos amigos .
 Os trs ,

 no , porque Adelaide no falava , no dizia nada - com um ar ingnuo

 e tmido .

 Lus Furtado provocou-a :

 - Vossa Excelncia que acha , minha senhora : Evaristo fez bem ou mal

 vindo ao Rio ?

 Ela sorriu ainda , mas respondeu :

 - Nem bem , nem mal ...
 - voltando-se para o marido e catando um fio

 de algodo que brincava na roupa dele .

 - Esta minha mulher  uma santa !
 - gracejou Evaristo .

 - Acredito , pois no !
 acredito - confirmou o secretrio. - Na minha

 opinio , todas as mulheres so umas santas ...

 - Oh , isso no !
 - exclamou o outro. - Mais devagar ...
 Mulheres

 conheo eu de gnio infernal , capazes de vender ...
 Judas !

 - Qual !
 - duvidou Lus com uma ponta de ironia .

 Certo  que ele achava qualquer coisa de puro no rosto sereno e

 meigo de Adelaide , uns longes de pintura religiosa , uma

 translucidez mstica e evocadora , qualquer coisa , enfim , que no

 sabia determinar .
 Olhava-a de banda , enquanto dava ateno a

 Evaristo , como se quisesse gravar bem , na memria , aquele estranho

 tipo de brasileira .

 O carro parou .
 Tinham chegado .

 -  aqui - disse Lus .

 E , rpido , adiantou-se para oferecer a mo a Adelaide .

 A rua estava , como de costume , silenciosa , muito banhada de luz , na

 calma do meio-dia .

 - Papai !
 Papai !

 Era o filho mais velho de Lus , o Raul , que anunciava , berrando , as

 suas frias do domingo .

 - No  preciso gritar , meu filho , oh !
 - advertiu o secretrio .
 E

 para Evaristo : - C est o meu Raul .
 Hoje , como  domingo , veio

 passar o dia em casa com a me

 - Um homem !
 - exclamou Evaristo. - Que idade tem ?

 - Nove anos ...
 No  , meu filho ?

 -  , sim , papai ; ainda vou fazer nove .

 - Um homem !

 Foram subindo a escada do sobrado .

 - Aqui moro eu desde 882 .

 - Boa casa , muito boa , tem quintal ?

 - Um quintalo !
 Hs de ver .

 Em cima , no primeiro andar , houve um rumor de passos precipitados ,

 corridinhos na ponta dos ps , e de vozes falando baixo .

 - D. Sinh est a , papai , comunicou o Raul .

 - Bem , bem ...

 Entraram para a sala de visitas .

 - Nada de cerimnias - pediu Lus Furtado. - Vocs agora  como se

 estivessem na prpria casa .
 Vai chamar tua me , Raul .

 O pequeno saiu correndo .

 Adelaide , contrafeita , risonha por delicadeza , mas , em verdade , bem

 fora dos seus hbitos , ia notando intimamente , sem expresso de

 surpresa no olhar , a perspectiva do incio carioca .
 Enquanto

 esperava a mulher de Furtado , abstraa-se na contemplao dos

 objetos que a cercavam agora , cada um dos quais era uma novidade

 para ela .
 Imobilizava-se , retrada , quase esmagada pelo aspecto

 luxuoso e confortvel da moblia , dos quadros , das tapearias que

 ornavam a sala do secretrio .
 E aquilo dava-lhe uma volpia de

 bem-estar , uns arrepios de gozo calmo e de independncia honesta

 que estava um pouco na massa do seu sangue .

 ...
 Foi interrompida nas suas reflexes por D. Branca , esposa de

 Furtado , que vinha entrando acompanhada de outra senhora mais moa

 e do Raul .

 - Oh !...
 - fez aquela , numa voz que no era bem de surpresa .

 - Ainda te lembras da Branca ,  Evaristo ?

 - Como no ?
 - disse o bacharel , erguendo-se para cumprimentar as

 duas senhoras. - Lembro-me bem .
 Est um pouquinho mudada , est ...

 D. Branca dirigiu-se a Adelaide , e beijaram-se .

 - Sua senhora inda  muito moa !
 - observou a esposa de Furtado

 para Evaristo .
 E apresentando a companheira : - Esta  uma amiga

 nossa - D. Sinh , filha do desembargador Lousada ...

 Raul , de mos pra trs no meio da sala , no perdia palavra ,

 remoendo ocultas intenes brejeiras .

 Todos se sentaram , menos ele , e a conversa prolongou-se atravs dos

 costumes , da moda e da poltica .

 As duas senhoras estavam em toilette de vero , cada uma com o seu

 leque fantasia. - D. Branca um pouco gorda , mas ainda frescalhona ,

 parecendo mais moa do que realmente era ; a filha do desembargador

 muito derretida , encobrindo , sob densa camada de p de arroz , a

 pele salpicada de sinaizinhos indelveis , uma rosa Petrpolis no

 seio ; costumava passar os domingos em casa do " Sr .
 Furtado " , um dos

 bons amigos do velho Lousada .

 Evaristo achou-a pedante e feia ; Adelaide tambm , na sua mudez

 obstinada .

 A propsito do Raul , que mereceu a ateno dos circunstantes , veio

 a Julinha nos braos da ama .
 O pai adorava-a , e tomou-a logo , num

 alvoroo , numa grande festa de beijos que ela - o diabrete !
 -

 repugnava , esperneando .

 - Como achas minha filha ?
 - perguntou o secretrio erguendo a

 menina alto , nas mos .

 Evaristo , lisonjeiro , fazendo graa para a criana , achou-a muito

 parecida com D. Branca , muitssimo parecida !
 Os olhos , ento , eram

 os de D. Branca !

 Adelaide , ao contrrio , achou que ela " tinha ares do Sr .
 Furtado " .

 O secretrio exultou , porque , na verdade , Julinha era uma criana

 linda , muito rosada , muito loura , de olhos vivos e angelicais .

 - Quem  aquele homem , minha filha ?

 A pequena encarou Evaristo , sem responder .

 - Quem  ?
 - tornou Furtado. - Olhe bem para ele ...
 quem  ?

 Julinha amuou , desconfiada , e abriu a chorar .

 - Ta , ta , ta ...
 no foi nada , no foi nada !
  o Evaristo , minha

 filha - o Evaristo !

 - Menina !
 - ralhou D. Branca .

 Mas a pequerrucha debatia-se com os ps e com as mos , numa clera

 rubra , num desespero : - Diabo !
 diabo !
 diabo !

 Todos riram , todos gostaram da assombrosa precocidade !

 - Saiu  me - explicou Furtado , agora com um ar bonacho de pai

 que tudo perdoa aos filhos .

 D. Branca no protestou , e a menina foi conduzida para dentro .

 Falou-se depois nas acomodaes da casa .
 Evaristo e a mulher iam

 ocupar um quarto nos fundos , defronte da sala de jantar , vizinho 

 rea : um bom quarto espaoso , forrado e com bico de gs .

 - Tanto incmodo !
 - murmurou Evaristo .

 - Qual incmodo !

 D. Branca entrou em familiaridades com Adelaide , franqueou-lhe a

 toilette , mostrou-lhe o lbum de retratos , o vestido de seda com

 que fora ao ltimo baile no Cassino , uma jia que a princesa lhe

 dera no dia de seus anos ...

 - A princesa ?...

 Sim , eram muito amigas , o prprio imperador podia-se dizer que era

 amigo do Furtado ; at lhe prometera uma comisso  Europa .
 Sim , a

 princesa , por que no ?
 A princesa dava-se com muitas famlias no

 Rio de Janeiro , no tinha orgulho , apertava a mo a todos ...
 Boa

 senhora !
 A mulher do desembargador Lousada era dama do Pao , tinha

 intimidade com a imperatriz ; por intermdio dela  que D. Branca se

 relacionara com a princesa .

 D. Sinh confirmou : - " A mame era dama do Pao ...
 " Entraram

 ganhadores com a bagagem , que foi recolhida ao novo aposento de

 Evaristo .
 Raul tomou conta da gaiola dos pssaros , onde refulgiam

 asas de corrupio e de xexu .
 Evaristo disse logo que o corrupio

 era do Furtado : podia garantir a espcie ; o xexu , ele trazia para

 o diretor do Banco .

 E nesse andar escoou o domingo , com grande tristeza para o Raul ,

 que no dia seguinte voltava ao colgio , pensando no corrupio .

 Os hspedes recolheram fatigados da viagem , morrinhentos de calor e

 de cansao .

 Adelaide , principalmente , queixava-se de uma dor na cabea e de

 " confuso nas idias " .

 Evaristo , para a consolar , disse que tambm estava com a cabea a

 arder .
 Trataram de se agasalhar na cama fresca e cheirosa a sabo .

 Da janela do quarto via-se luz no segundo andar , e no poucas vezes

 ecoava embaixo , no fundo escuro da rea , o som de uma cusparada .

 - Ento , Adelaide , que achas do povinho ?

 - Que povinho ?

 - Da Branca e do Furtado ...
 Assim ...
 No se pode adiantar juzo .

 - E a tal D. Sinh ?
 Oh , mulher feia !

 - Credo !
 - murmurou Adelaide. - Feia e pedante .

 -  verdade : feia e pedante .

 - Fala baixo ...

 - Viste , ao jantar , quando ela abria a boca ?

 - A me  dama do Pao .

 - Que ests dizendo !

 - . Do-se com a famlia imperial .

 Adelaide respondia com os olhos fechados , morta de sono , s

 perguntas do marido .
 Ele  que no tinha sono , encantado com a sua

 nova posio , ruminando programas de vida , conjeturando sobre o

 futuro , sobre o dia de amanh .

 E corria os olhos nos mveis do quarto , no lavatrio de ferro , no

 saco de roupa , no cabide , nos menores objetos , como quem duvida de

 uma situao nova .

 - Era , ento , verdade que estava no " grande " Rio de Janeiro !

 O que  a gente se decidir !
 o que  ter-se coragem !

 Meio acordado , meio dormindo , viu a casinha de Coqueiros , na

 provncia , entre rvores , a Balbina , cada aos ps de Adelaide , 

 hora do embarque ...
 , o Maranho , onde ia um rapazinho , estudante ,

 que tocava flauta , e o Furtado acenando para bordo ...

 Captulo II

 D. BRANCA era mulher que , ao simpatizar com uma pessoa , no admitia

 restries , e Adelaide , fosse pelos seus bonitos olhos , fosse pelos

 modos - que ningum os tinha mais acentuadamente provincianos -

 caiu-lhe nas graas , merecendo um lugarzinho no corao dela .

 A esposa de Evaristo ficou sendo , em pouco , uma das melhores amigas

 da esposa de Furtado , com extraordinria satisfao para este , que

 no ocultava a simpatia que lhe inspirava Adelaide .

 Naquela casa de Botafogo viviam todos como se constitussem uma s

 famlia , como se Evaristo fosse irmo de Furtado e D. Branca irm

 de Adelaide , intimamente unidos , querendo um o que o outro

 desejava , no se contrariando em coisa alguma .
 De manh iam os dois

 homens para o Banco ,  mesma hora , depois do almoo , e ficavam as

 duas na bela e encantadora harmonia de irms que se prezam , lendo ,

 costurando , trocando confidncias na sala de jantar , enquanto no

 chegavam os maridos - o Raul no colgio e a pequena com a ama .

 Evaristo , por seu lado , ia conhecendo o Rio de Janeiro , inclusive a

 famosa Rua do Ouvidor , que ele pitorescamente alcunhava de " beco da

 perdio " .
 No gostava da Rua do Ouvidor ; aquele zunzum de abelhas

 que desciam e subiam num movimento contnuo , aquela vozeria estril

 dos cafs e das portas de loja , punham-no de mau humor , enchiam-lhe

 os ouvidos , irritavam-no , desequilibravam-lhe o sistema nervoso , ao

 mesmo tempo que faziam-lhe confuso no crebro habituado  vida

 calma e refletida de homem honesto. - " Evidentemente nascera

 provinciano e havia de morrer provinciano " - dizia .

 - Mas  um engano - opunha Furtado -  mesmo uma grande tolice !
 O

 homem , para ser homem s direitas , carece de lutar , de sofrer as

 pequeninas misrias sociais ...
 A natureza humana quer movimento ,

 quer emoes ...
 quer vida , enfim .
 Todos ns somos uns aventureiros

 que andamos  cata de files de ouro ...

 Evaristo argumentava , porm , que no dizia o contrrio , que tudo

 aquilo era uma grande verdade , mas que ningum podia ir de encontro

  natureza .
 Era o primeiro a reconhecer os benefcios e as

 incalculveis belezas da civilizao ; mas tambm no havia negar

 que a ttulo de civilizao , emitia-se muita moeda falsa , muito

 princpio errado - muita bandalheira !

 E ficavam-se a olhar um para o outro .

 O secretrio do Banco Industrial conhecia o Rio de Janeiro de um

 extremo ao outro e gozava mesmo de muito boas relaes na sociedade

 fluminense , no tanto quanto mandara dizer em carta a Evaristo , mas

 gozava .
 Alm do desembargador Lousada , seu vizinho tinha outros

 amigos de alta posio na Corte , e era verdade que a princesa

 surpreendera D. Branca com uma jia no seu trigsimo aniversrio .
 A

 herdeira do trono ficara estimando a esposa do secretrio desde uma

 clebre noite no Cassino Fluminense .
 Essas relaes , porm , no

 excediam s praxes aristocrticas , guardando-se , de lado a lado , o

 mximo respeito , como convinha  fidalguia imperial da ilustre

 senhora .

 Tambm era verdade que Lus Furtado uma vez - primeira e ltima -

 conferenciara com o imperador no Pao e este lhe prometera rendosa

 comisso  Europa ; mas decorriam semanas e no se realizava a

 imperial promessa .

 Entre polticos , banqueiros e titulares , havia sempre um que era

 amigo de Lus : o deputado Ismael Pessegueiro , de Alagoas , moo

 muito bem preparado , conservador at  raiz do cabelo , baixote na

 estatura e no falar ; o visconde de Santa Quitria , diretor do Banco

 Luso-Brasileiro , cuja fortuna se avaliava em muitos contos de ris

 fora  casa de residncia - vistoso palacete que s se abria nas

 grandes festas ; o comendador Pinto , outra fortuna considervel ,

 portugus , que se fizera a custo de muito trabalho e que encanecera

 no Brasil ...
 , e outros personagens de elevada hierarquia .

 Quanto a jornalistas e poetas , conhecia-os quase todos ; um por um ,

 desde o redator-chefe do Comrcio do Rio ( " O Times brasileiro " , na

 opinio de Furtado ) , at o Valdevino Manhes , diretor da Revista

 Literria e autor de muitos livros , de muitssimas obras , entre as

 quais o poema heri-cmico Juca Piro , pardia ao " I-Juca-Pirama " ,

 de Gonalves Dias .

 Evaristo j os conhecia tambm - de longe uns , outros mais

 familiarmente .
 O Valdevino Manhes , ou o " Dr. Condicional " , estava

 no nmero destes ; fora-lhe apresentado uma noite , no jardim do

 Teatro Sant'Ana .
 Baixo , pequenino , metidinho a critico , um

 bigodinho quase imperceptvel , sempre de lunetas - era conhecido

 por Dr. Condicional , porque nunca dizia as coisas em tom

 afirmativo : tinha sempre um mas ...
 , um talvez ...
 , um se ...
 , quando

 criticava obras alheias .
 Ningum para ele era escritor feito , nem

 mesmo os consagrados : todos haviam de ser grandes poetas , grandes

 romancistas , grandes homens ...
 , se continuassem a estudar .
 Outra

 mania de Valdevino Manhes era falar na sua viagem  Europa. - Oh ,

 em Lisboa merecera os maiores elogios , as mais belas referncias de

 quanto jornalista sabe terar a pena ( terar a pena era uma de suas

 frases prediletas ) .
 O poeta Joo de Deus ...

 E ningum o interrompia , ningum dizia palavra enquanto ele

 comentava Joo de Deus e o Chiado .

 O novo escriturrio do Banco Industrial no confiava muito no

 Valdevino. - " Se todos os literatos do Rio de Janeiro fossem como o

 autor do Juca Piro , a literatura brasileira tinha de pedir licena

  Cmara para andar de quatro ps " - dizia ele a Furtado .

 E Furtado , surpreendido :

 - Pois olha :  o critico da moda hoje , no Rio de Janeiro .

 - Prefiro o visconde de Santa Quitria ou mesmo o comendador Pinto ,

 que ao menos tm juzo para ganhar dinheiro ...

 Foram andando .

 Uma tarde conversavam os dois sobre a vida na Corte , sentados 

 janela , quando o hspede do secretrio lembrou-lhe que era tempo de

 procurar casa e de instalar-se definitivamente com Adelaide : - uma

 casinha barata , um cmodo , qualquer aposento , inda que fosse nos

 " subterrneos da Cidade Nova " .

 - Qual instalar-te !
 Daqui no sairs enquanto formos amigos -

 respondeu Furtado. - Minha mulher gostou muito de D. Adelaide -

 vivem muito bem , do-se perfeitamente ...
 Podemos chegar a um acordo

 nas despesas ...

 - No , isso no !
 Vocs tm sido muito incomodados ...
 isso no !

 - Histria , homem !
 Incomodados tm sido vocs naquele quartinho ...

 Mas a Branca falou-me que os do segundo andar esto procurando

 casa ...
 Uma bela aquisio para vocs o segundo andar .

 Evaristo levou o dedo  boca , refletindo , e apertando os lbios :

 -  ...
 assim bem ...

 - Pois ento ?
 Esperem um pouco mais ...
 no h vexame ...

 D. Branca aproximou-se , com o brao na cintura de Adelaide .

 -  Branca - disse Furtado - , no  exato que os estrangeiros de

 cima vo se mudar ?

 -  sim .
 Andam em procura de casa .
 Por qu ?

 - O Evaristo , que lembrou-se agora de bater a linda plumagem , inda

 que fosse , diz ele - para os subterrneos da Cidade Nova !

 - Qual , Sr. Evaristo , qual !
 Adelaide est muito bem .
 A Cidade Nova

  um lugar infecto , um horror !
 Esperem pelo segundo andar .

 - E o aluguel ?
 - perguntou , interessado , o rapaz .

 - Oitenta mil-ris , filho !
 oitenta mil-ris ...
 no  dinheiro .

 - No  dinheiro , para os capitalistas ...

 - Oitenta mil-ris , nunca foi dinheiro .

 - Eu , por mim , no me mudava ...
 - ousou discretamente Adelaide .

 Evaristo arregalou os olhos :

 - Oh !
 ento j vais gostando do Rio !

 - No desgosto ...

 - O Sr. Evaristo quer conversar - disse , rindo , a esposa de

 Furtado. - Vamos a tocar um pouquinho de piano ...

 A tarde estava calma .
 Crianas brincavam na rua , enchendo-a de

 alvoroo , em toilettes de vero .
 O desembargador Lousada passeava

 no jardim , com o seu indefectvel gorro de seda bordado a retrs ,

 enquanto a mulher e a filha , sentadas  porta , abanavam-se de

 leque .
 Dezembro morria numa exploso de sol .
 A famlia imperial

 estava toda em Petrpolis , gozando as delcias de um clima

 pregoadamente aristocrtico , os que no podiam sustentar o luxo de

 Petrpolis , a vida fidalga de Petrpolis , os hotis de Petrpolis ,

 corriam para o ar livre da rua , em trajos brancos , ou para a janela

 das casas , num alvoroo de formigueiro incendiado .

  parte o clima , na estao outonal , a vida em Botafogo tinha

 qualquer coisa da vida em Petrpolis , era como um prolongamento do

 high-life , cuja sede firmara-se na antiga colnia alem .
 Falar na

 Cidade Nova a um morador de Botafogo , era o mesmo que cair no

 ridculo e no desprezo de uma sociedade que no admitia plebeismos

 sentimentais , nem aluses de mau gosto ...
 Cidade Nova , isto  Saco

 do Alferes , Gamboa , preto-mina , leno no pescoo , violo , maxixe ...

 e outras belezas de igual jaez .
 Tudo isso era contra as boas normas

 de um povo civilizado e muito principalmente contra os brios de um

 homem que vive na mesma atmosfera de Sua Majestade o Imperador !

 Botafogo odiava a Cidade Nova como quem repugna um meio asqueroso .

 Os aristocratas que no tinham podido acompanhar o monarca a

 Petrpolis bufavam de calor , e ,  porta dos jardins ou  janela ,

 iam refrescar o sangue , os pulmes , como o desembargador Lousada .

 Ao anoitecer , recolhiam  frescura do linho , pensando na volta das

 andorinhas imperiais .

 D. Branca executou ao piano uma valsa de Strauss , para Adelaide

 ouvir .
 Tocava bem , na opinio de vrios professores ilustres ; j se

 exibira em concertos de primeira ordem .

 Quando as tardes eram demasiado quentes , iam os dois casais arejar

  praia , onde passeavam famlias numa liberdade encantadora ,

 trajando garridamente suas roupas de vero , sem luxo , sem

 cerimnia , parando  sombra das rvores , em grupos , vendo deslizar

 em pequeninas embarcaes de recreio na gua cintilante .
 Que bom !

 Adelaide examinava tudo com essa curiosidade infantil dos

 recm-chegados , comparava as toilettes , as fisionomias , lendo

 histrias mundanas no sorriso dos rapazes e na franqueza das

 raparigas , que se entrecruzavam piscando os olhos  vista dos

 homens srios .
 Como tudo aquilo tinha um encanto particular !
 Como

 tudo era novo para ela !
 Sentia nalma um remoar impetuoso , uma

 vontade de possuir jias com que se enfeitar , com que realar a sua

 beleza , e toilettes de luxo ,  ltima moda , e essncias caras ,

 embriagantes , e tudo o mais que seus olhos viam , desde que ela

 pusera os ps no Rio de Janeiro .

 D. Branca enchera-lhe os ouvidos de tanta coisa , meu Deus !
 de tanta

 histria !
 - Que no Rio de Janeiro as mulheres timbravam em se

 apresentar cada qual mais bem vestida ; que Botafogo era o bairro da

 aristocracia e do bom gosto ; que o luxo nada tinha com a

 honestidade de uma senhora , desde que ela se portasse bem ...
 , ao

 menos aparentemente ; que , enquanto se era moa , devia-se gozar ,

 levar a vida rindo , passeando , nos bailes , nos concertos , nos

 teatros ; que os homens eram muito egostas ; enfim , Senhora D .

 Branca despertara nela um sentimento novo , que lhe abafava toda a

 nostalgia da provncia e deixava-a oscilando , remoendo , entre a

 vida simples e calma de burguesinha honesta e a vida tumultuosa de

 mulher elegante e adorada nos crculos aristocrticos de uma cidade

 como o Rio de Janeiro .

 Enquanto Evaristo aborrecia-se - ele , que falava tanto da

 provncia : " porque a provncia era o statu quo , a imobilidade , o

 abandono " - ela deliciava-se agora , em plena Corte , em pleno

 Botafogo , cheia de vida e de ambies , a exemplo de D. Branca e de

 outras senhoras , que , sem desprezar os maridos , gozavam quanto

 podiam , vestindo-se bem , trajando com elegncia , ostentando beleza

 e mocidade aonde quer que se apresentassem .
 Nos primeiros dias

 estranhara o Rio , achara tudo falso , tudo superficial , tudo para

 enganar os olhos .
 Agora , no : tudo impunha-se ao seu esprito como

 um dever , como uma necessidade lgica e humana .

 E sempre que ia  praia , sempre que ia a um teatro , a um passeio ,

 voltava triste , desalentada , com uma dor no corao ...
 No poder

 " como as outras " ostentar o frescor dos seus vinte anos , aparecendo

 nas rodas elegantes , de brao com o Evaristo - ele todo nobreza ,

 todo modernismo , aristocraticamente enluvado ; ela chique , numa

 pompa de rainha , um sorriso  flor dos lbios - os dois em

 carruagem aberta ou num camarote do Lrico !
 Oh , no poder gozar ,

 como as outras mulheres que ela via , deslumbrada e abatida , da sua

 pobreza honesta , da sua triste posio de mulherzinha dcil , de

 esposa exemplar !

 Aquilo ia calando em seu esprito , onde um princpio de orgulho

 feminino brotava ocultamente .

 Evaristo ganhava pouco ainda , o essencial para se ir mantendo com

 alguma independncia , sem dever a ningum .
 Era inimigo de contrair

 dvidas ; um alfinete , que comprasse , havia de ser pago logo , na

 ocasio mesma do negcio ; por forma que o dinheiro do Banco , o

 ordenado , ia-se num abrir e fechar de olhos , para a mo do homem da

 venda e para o bolso do alfaiate .
 Ele prprio conservava a roupa

 que trouxera da provncia ; no tinha luxo , nem jias de valor .

 Afinal no passava - como dizia - de um pobreto msero , empregado

 subalterno .
 D. Branca podia luxar , aparecer - no era admirao ; o

 Lus ganhava tanto como oitocentos mil-ris , fora a renda das

 aplices que possua no Tesouro e de umas aezinhas do Banco

 Industrial .
 Onde , pois , a admirao ?
 Nenhuma .
 Feria-lhe tambm o

 amor-prprio de marido extremoso ver Adelaide , a sua Adelaide , com

 os mesmos vestidos , com o mesmo chapu , sem um brilhante , uma jia

 de ouro , envergonhada no meio das outras. - Mas ...
 que se havia de

 fazer ?
 Por isso  que desejava ter uma casinha na Cidade Nova , " um

 albergue " , de cinqenta mil-ris , longe desse rumor de etiquetas e

 ostentaes .
 Um dia pra diante , quando pudesse - muito bem !
 alugava

 um chal em Botafogo e Adelaide no tinha de que baixar a cabea s

 exigncias do high-life .
 Por enquanto a palavra de ordem era -

 economia , muita economia !

 De resto , o procedimento de Adelaide para com o esposo no mudara .

 Evaristo continuava sendo o mesmo Evaristo , bom e leal , por vezes

 de uma ternura lnguida , quase pueril , achando muita razo em tudo

 quanto ela dizia , tratando-se como noivos .

 D. Branca estranhava que eles ainda no tivessem filho , ao menos um

 morgado para dar que fazer  mame ...

 E aconselhava banhos de mar no Flamengo : - por que no

 experimentavam os banhos de mar no Flamengo ?
 Um filhinho era

 indispensvel a um casal ...

 Evaristo ria e jurava , rindo , que no ms seguinte iam comear os

 banhos ali mesmo na praia de Botafogo .

 A propsito de filhos , a mulher do secretrio anunciou o batizado

 da Julnha no primeiro domingo de janeiro .
 Ia fazer uma festa sem

 cerimnia , entre pessoas de intimidade .

 Evaristo recebeu a notcia com um - oh !...
 de surpresa. - Muito

 bem !
 muito bem !
 Era preciso batizar a menina ...
 Ele , se tivesse

 filhos , batizava-os ao nascer .

 E com ironia :

 - Temos , ento , a princesa ?

 - Como , Sr. Evaristo ?

 - Digo : a princesa h de comparecer  festa .

 - Qual o qu !
 Pensa o senhor que a princesa anda se exibindo assim ?

 - Pensei .

 - Vai ser a madrinha de minha filha , por procurao ; isso bem ...

 E Evaristo , sempre irnico :

 - O imperador  o padrinho ...

 - No senhor , no senhor ...
 O padrinho  o Lousada , o velho

 Lousada .
 O imperador j  padrinho do Raul .

 - Onde estamos ns metidos , Adelaide !
 exclamou o bacharel ,

 arregalando os olhos .
 Tudo aqui  principesco , minha senhora !

 D. Branca compreendeu o debique , mas atalhou risonha :

 - Tudo aqui no  principesco , no senhor !
 No queira fazer

 pouco ...

 - Eu , fazer pouco ?
 Oh , no se lembre de tal coisa !
 Principesco 

 uma maneira de dizer .

 - Ah !
 o senhor  republicano ?

 - Republicano no : democrata .

 - Pois est muito bem arranjado com a sua democracia !

 Furtado , que estava lendo o Comrcio do Rio , saltou :

 - Quem  democrata - o Evaristo ?

 - Eu , sim ...

 - Democrata enquanto no conheceres bem o Rio de Janeiro ...

 - Por qu ?

 - Ora , por qu !
 Porque o Rio de Janeiro em globo  monarquista e

 quem diz monarquista diz aristocrata .

 - No  razo .
 Se o Rio de Janeiro em globo ( quero dizer o

 municpio neutro ...
 )  monarquista , eu posso muito bem sair um

 republicano s direitas .

 Furtado abriu numa gargalhada estridente .

 - Aonde vens pregar essas teorias , meu caro ?
 Na Corte do Imprio , e

 o que  mais , em Botafogo !
 Iluses da academia , rapaz , iluses de

 estudante de retrica !

 - No senhor , que o partido republicano est ganhando terreno aqui

 mesmo , na Corte , s barbas d'El-Rei !
 Fala-se na ida do velho 

 Europa ; o velho est doido , j no pode governar , e o resultado 

 que ...

 -  que ests a dizer tolices ...
 A monarquia est guardada por

 sentinelas da fora do baro de Cotegipe , do visconde de Ouro

 Preto , do Joo Alfredo e de outros ...
 Cada um desses homens  um

 obstculo contra qualquer tentativa de assalto s instituies .

 Chegou a vez do bacharel rir , mas rir com gosto , dando pulinhos na

 cadeira .

 - O Cotegipe !
 ( e ria ) .
 O Ouro Preto !
 ( tornava a rir ) .
 O Joo

 Alfredo !
 No momento psicolgico voam todos , como aves de arribao ,

 para Petrpolis !
 Desaparecem como por encanto , somem-se na noite do

 medo ...

 -  o que pensas .
 A opinio  deles , o povo no permitir que eles

 sejam desacatados .

 - O povo !
 - exclamou Evaristo com voz de trovo. - A que chamas tu

 povo ?

 -  populao do Rio de Janeiro ,  populao do Brasil - a treze

 milhes de almas que adoram o imperador !

 - O povo brasileiro no se envolve nisso , meu Furtado ; se fssemos

 esperar pelo povo , estvamos bem arranjados .

 - E ento ?

 - E ento ,  que a fora armada .

 Basta de poltica , basta de poltica , Sr. Evaristo .
  Lus , por

 favor , continua a ler teu jornal - interveio D. Branca. -  favor !

 Adelaide correu a tapar a boca do marido com a mo espalmada : -

 " No senhor , nada de poltica !
 "

 E continuou-se a falar no batizado da pequena , sem aluses 

 princesa , nem ao monarca .
 A esposa do secretrio disse que tinha

 mandado fazer um vestido para estrear nesse dia - uma toilette

 simples , de um tecido novo , muito usado em Paris , que A Notre Dame

 recebera ...

 Adelaide mordiscou a pelezinha do beio com tristeza. - Um vestido

 novo , chegado de Paris !...
 E ela como se havia de apresentar no dia

 da festa ?
 Oh , com o seu vestido de provinciana , de mangas compridas

 e babados !
 Que vergonha , Santo Deus !
 O melhor vestido que possua

 era o de gorgoro , com que embarcara ...
 , mas estava fora da moda e

 da etiqueta .
 Antes nunca tivesse vindo ao Rio de Janeiro ...

 Quase no dormiu , essa noite , pensando no batizado .
  hora de

 recolher , Evaristo achou-a triste , com um arzinho de choro ,

 descobrindo mesmo uma lgrima vagarosa na face dela .
 Mas no disse

 nada .
 Adelaide continuou a se despir  meia-luz do gs , e rolou na

 cama silenciosamente , de rosto para a parede .

 -  Adelaide !...
 - chamou Evaristo , j desconfiado .

 A mulher no respondeu .

 Adelaide !
 tornou ele , aproximando-se .

 - Que  ?...
 choramingou a rapariga , encolhendo-se .

 - Olha ...

 Ela no se moveu .

 - Olha !

 Mesma posio , mesmo silncio .

 - Olha c uma coisa .

 - Que  ?

 - Ests chorando ?

 - No ...

 Mas pelo tom da voz , conheceu bem que alguma coisa havia no corao

 de Adelaide .

 - Como no , se te ouvi soluar ?

 - Eu ?!...

 - Exatamente .
 Queres ocultar-me algum desgosto ?

 E devagarinho , como para no acordar uma criana , o bacharel foi-se

 inclinando no leito .

 - Vamos :  a primeira vez que choras em minha companhia , depois que

 estamos casados .

 - Nada ...
 lembrei-me da Balbina .

 Da Balbina ?
 Homessa !

 Falavam muito em segredo , cochichando , ela de costas para ele .
 A

 casa estava toda no escuro .
 Furtado e a mulher no davam sinal de

 vida .

 - Que tens tu com a Balbina ?
 - tornou Evaristo. - No  m a

 lembrana !
 Como se a Balbina fosse tua me !

 - Mas lembrei-me .

 - Se me no dissesses , eu no acreditaria , palavra de honra !

 E admirado :

 - Chorar com saudades da Balbina !
  curioso ,  singular !

 Os inquilinos do segundo andar apagaram a luz e um relgio bateu

 meia-noite .

 Involuntariamente , por causa de Adelaide , Evaristo adormeceu

 pensando na Balbina , a negra velha de Coqueiros , sem atinar com a

 significao da lgrima que vira na face da esposa .

 Certo  que a amiga de D. Branca recolhera com o pensamento no

 batizado da Julinha .
 Quis desabafar , dizer tudo a Evaristo ,

 suplicar-lhe que trouxesse um vestido novo para a festa de D .

 Branca , rogar-lhe , pelo amor de Deus , que fizesse um pequeno

 sacrifcio ...
 Mas no teve nimo : podia parecer uma exigncia , uma

 falta de ateno , e ela nunca abrira a boca para pedir a Evaristo

 um grampo , quanto mais um corte de fazenda !
 No era por vaidade ,

 nem por orgulho , nem por capricho -  que tinha obrigao de se

 apresentar  aristocracia em trajos de mulher educada e no com um

 pobre vestido fora da moda , sem elegncia , mal cosido , mal ajustado

 ao corpo - horrvel !

 No outro dia Evaristo , inda na cama , interpelou-a sobre o acidente

 da vspera , gracejando , rindo , na melhor boa-f , longe de adivinhar

 o que se passava no esprito de Adelaide. - Chorar pela Balbina -

 ela !
 Que extraordinrio corao , que alma cndida !

 - Chora-se at pelos animais , por um gatinho , por um cachorro , por

 um pssaro que a gente criou !...

 E Adelaide , ocultando ingenuamente o desgosto que a pungia , lembrou

 ao marido o fato de ter ele chorado a morte de uma patativa , antes

 de vir para o Rio de Janeiro .

 O bacharel no disse que no , mas afirmou que o caso era diverso e

 que entre a patativa e a Balbina preferia a patativa .

 E a lgrima da jovem senhora caiu no esquecimento como todas as

 coisas deste mundo .

 Ela , porm , via se aproximar o domingo do batizado , cheio de

 tristeza , maldizendo a nova situao em que a colocara o destino .

 Positivamente Evaristo no enxergava alm das grosseiras

 necessidades da vida domstica e no via que uma dona-de-casa no

 Rio de Janeiro tinha a obrigao de ser , ao mesmo tempo , uma dama

 elegante , uma senhora distinta , com todos os requisitos para

 figurar num sarau pomposo ou em qualquer parte aonde houvesse

 aristocracia e luxo ...
 Como  que ela , vivendo na casa de um homem

 fino , de uni capitalista , vivendo entre pessoas de " tratamento " em

 Botafogo , ia-se apresentar aos olhos de D. Branca , aos olhos de D .

 Sinh e da mulher do desembargador , aos olhos de uma gente fidalga ,

 na sua humilde toilette de provinciana pobre ?
 Todo o mundo havia de

 reparar e dizer mal .
 N0 entanto , com qualquer dinheirinho

 comprava-se um vestido srio , novo , que ao menos aparentasse ...
 A

 prpria D. Branca lhe dera a perceber que se obtinha , no Rio , muita

 coisa de alto valor por " preos baratssimos ...
 "

 Oh , aquela festa , domingo , tirava-lhe o sono !
 Que belo , se casse

 uma grande chuva , um aguaceiro medonho , de alagar a cidade inteira ,

 de deixar tudo quanto fosse rua na lama !
 Quem dera !
 Ficava

 transferido o batizado ou ningum ia  casa de D. Branca , e ela ,

 ento , ela , Adelaide , no tinha de se envergonhar , de baixar a

 cabea a estranhos .

 Mas - nem de propsito !
 - fazia um tempo claro , azul , luminoso ,

 adorvel , como os belos dias de primavera , sem o menor sintoma de

 variao baromtrica , sem nuvens na limpidez cristalina das

 montanhas .

 E a jovem esposa de Evaristo perdia-se em cogitaes de toda a

 ordem , moralmente abatida no seu orgulho , na sua vaidade latente de

 mulher nova que se v roubada nos seus direitos  partilha dos

 gozos .
 Lembrava-se , por uma natural associao de idias , de que D .

 Branca lhe dissera certa vez : " O homem  egosta e finge no

 compreender as necessidades da mulher , quando se trata de um

 vestido novo ou de uma despesa extraordinria .
 A mulher  obrigada

 a pedir , a reclamar , a dizer o que precisa , o que lhe falta. " Ela

 pedir a Evaristo ?
 Pedir o qu ?
 Uma toilette para o batizado da

 pequena ?
 E a roupa que trouxera do Norte , um enxoval quase

 completo , inda que fora da moda ?
 Que havia de dizer ?
 Que razes

 apresentar a ele , que sempre a conhecera pobre e refratria 

 etiqueta e ao luxo ?
 No , no tinha coragem , nem queria , com uma

 exigncia descabida , molestar o grande corao de Evaristo .

 Esperou , resignada , abafando impulsos d'alma .

 Em casa de Lus Furtado , naqueles dias mais prximos  festa , era

 este o assunto obrigado de todas as conversas .
 D. Branca ,

 principalmente , cuja loquacidade contrastava com a moderao dos

 inquilinos do segundo andar - no fazia outra coisa seno remexer

 nas gavetas , polir os mveis , expor os cristais , num aodamento ,

 numa impacincia que lhe dava ares de inseto doido .
 Queria tudo nos

 seus lugares , para quando chegasse o domingo .
 Mandou afinar o

 piano , lavar a casa de um extremo ao outro , inclusive o quarto dos

 hspedes e o escritrio de Furtado , no rs-do-cho , substituir as

 cortinas da sala de visitas ; enfim , toda a casa ficou pronta com

 quatro dias de antecedncia para receber o desembargador Lousada e

 alguns convidados " sem cerimnia " .
 Era pouca gente : o visconde de

 Santa Quitria , o Dr. Condicional , dois amigos quase ntimos do

 secretrio , o Loiola , tesoureiro do Banco , a viva Tourinho , muito

 boa senhora , tambm rica e prendada , o Xavier , do Jornal de

 Notcias e um ou outro rapaz , de intimidade .

 Evaristo caiu das nuvens .

 - Minha mulher - disse ele  esposa - temos grosso forrobodl Esta

 gente chama festa sem cerimnia a uma reunio de altos personagens

 que se divertem aristocraticamente .
 Com que vestido te vs

 apresentar ?

 - Eu ?...
 O melhorzinho  o de casimira cinzenta , no falando no de

 gorgoro ...

 - De casimira ?.

 Evaristo levou a mo ao queixo e fitou os olhos na mulher em

 atitude contemplativa .

 - Que dizes ?

 - No sei ...
 - respondeu Adelaide com indiferena .

 O bacharel agarrou-se aos bigodes , repuxando-os com a lngua ,

 mordendo-os , como se empacasse na resoluo dalgum problema de

 direito .

 - Aonde nos vimos meter !
 - dizia , passeando no quarto. - Aonde nos

 vimos meter !

 -  o teu grandioso e espetaculoso Rio de Janeiro !

 Evaristo sorriu da ironia , e continuando a passear :

 - H um remdio ...

 - Qual ?

 - Fazer um negcio com o Banco ...

 - Negcio ?

 - Sim , levantar um pequeno emprstimo .

 Noutras quaisquer circunstncias , Adelaide o aconselharia que no ,

 como j o fizera uma vez na provncia ; mas D. Branca acenava-lhe de

 longe , no seu esprito , " que no desse uma nota , que no fosse

 tola. "

 - Que dizes ?
 - repetiu o bacharel .

 - No sei ...

 - Pois eu sei : vou falar ao Furtado .
 Achei a incgnita da equao .

 Isto de dever , todos devem mais ou menos ; a questo  pagar .

 Com duzentos mil-ris , sim , com duzentos mil-ris , arranjava-se

 tudo : uma toilette para Adelaide , uma cala de casimira , e ...
 e

 charutos ....
 O vestido , comprava-se feito , numa modista .

 Entraram em acordo , ele e a mulher , sobre as despesas , fizeram

 clculos  ponta de lpis , rabiscaram papel at quase meia-noite .

 Adelaide j agora tambm pedia a Deus que no chovesse .
 Era uma

 tima ocasio para se apresentar s amigas de D. Branca , ficar

 conhecendo a viva Tourinho , a esposa do desembargador e outras

 senhoras do grand monde fluminense .

 Evaristo falou , com efeito , ao secretrio , no prprio Banco , acerca

 do emprstimo , alegando razes de ordem domstica. - Era mais um

 grande favor ao " amigo Furtado ...

 - Queres um conselho de amigo ?
 pergunta Lus .

 - No contraias emprstimo ao Banco .
 O Banco foi criado para altas

 transaes financeiras , e ...
 e o diretor  um homem ...
 um homem ...

 - ...
 um homem de tmpera antiga , velho e rabugento .
 Espera a um

 bocado ...

 O secretrio levantou-se , abriu um cofre de ferro , que estava no

 gabinete de trabalho , e contou duzentos mil-ris .

 - Toma l , sou eu quem tos empresta sem juros e sem prazo .

 Restituirs no fim do ms ...
 daqui a um ano , daqui a um sculo ...

 - Isso no !
 interrompeu o marido de Adelaide. - Vim pedir ao Banco

 e no quero que te sacrifiques por minha causa .
 Isso no !

 - Toma l , homem , no sejas menino .
 Eu que tos empresto ,  que

 tenho absoluta confiana em ti - que diabo !

 - Qual confiana !
 Isso j no  ser amigo ,  ser pai !

 - Pois quero ser teu pai - d-me essa honra .

 Riram e o bacharel guardou as notas na algibeira da cala , com um

 movimento discreto e reconhecido. - Ora , muito obrigado , Sr. Lus ,

 muito obrigado !

 - Cavalheiros somos , na carreira andamos ...
 - disse enfaticamente ,

 com um sorriso , o fidalgo de Botafogo .

 s quatro horas iam os dois no mesmo bonde a caminho de casa .

 O bacharel entrou radiante , com um estranho fulgor na pupila .

 Adelaide acompanhou-o ao quarto .

 - Sabes o que  isto ?
 - foi dizendo com a mo espalmada no bolso .

 E , antes que Adelaide respondesse , tirou o dinheiro , erguendo a mo

 em triunfo .

 - Quanto ?
 - perguntou a rapariga com aquele risinho ingnuo que lhe

 era muito natural .

 - Vinte !

 - Vinte ?
 apenas vinte ?

 - ...
 notas de dez !

 - Ah !...

 Evaristo , ento , narrou , palavra por palavra , o dilogo entre ele e

 Furtado , no Banco , e no ocultou o seu entusiasmo pela

 " generosidade " do amigo , que ainda uma vez se revelara " digno e

 correto !
 "

 - Belo homem , o Lus !

 Eu tambm acho ...
 - murmurou Adelaide .

 - Olhe que me colocou , deu-me hospedagem , trata-nos  vela de

 libra , e agora ...
 duzentos mil-ris , para pagar amanh , no fim do

 ano , daqui a um sculo !

 Adelaide aprovou com a cabea o entusiasmo do marido .

 E na mesma tarde , ao anoitecer , foram ambos dar um giro  Rua do

 Ouvidor .

 Captulo III

 Lus Furtado era homem de meia-idade , alto , robustez fsica

 invejvel , pele rsea e conservada , bigode negro , tratado a

 brilhantina , olhos negros e comunicativos , um pouco lnguidos ,

 talvez por afetao , talvez por temperamento .

 Belo , verdadeiramente belo , ningum o diria sem risco de profanar o

 ideal antigo da beleza mscula ; no entanto , podia dizer-se dele que

 era , na acepo modernssima , um bonito homem .
 A convivncia na

 Corte dera-lhe tintas de nobreza ao rosto largo de provinciano

 setentrional .
 O Rio de Janeiro , com o seu maravilhoso poder de

 cidade cosmopolita , afinara-lhe a ctis e a educao .
 Davam-lhe

 doutor , mas , em verdade , nunca pusera os ps numa academia ; os

 preparatrios mesmo , ele os no completara ; e como no Rio de

 Janeiro , na Corte , toda a gente  doutor , ningum punha dvida no

 fictcio diploma de Lus Furtado .

 Mas a qualidade caracterstica do secretrio do Banco Industrial

 era o amor s mulheres , uma tendncia notvel para as conquistas de

 boudoirs , para o livre cmbio de afeies delicadas , para o culto

 imoderado de Vnus .
 Esse fraco , longe de o desprestigiar no

 conceito das rodas aristocrticas , tornava-o ainda mais querido de

 um e outro sexo , que viam no esposo de D. Branca , um homem de bom

 gosto , entendido em essncias finas e em cotillons .
 Quem  que , em

 Botafogo , no o admirava , quem ?
 Chegava-se at a dizer , num

 exagero , que era a alma do bairro !

 O casamento no lhe tirava a liberdade de homem que se governa ;

 cumpria seus deveres conjugais ; nada faltava  mulher , nem aos

 filhos , todos em casa o estimavam ; queria , portanto , sua liberdade ;

 " a melhor coisa que Deus deu ao homem " .
 Tinha idias definitivas ,

 absolutas , sobre o casamento e opunha-as a qualquer moralista

 indiscreto que lhe fosse criticar os atos .

 D. Branca nunca se agastava com ele , nunca lhe fizera a menor

 objeo no tocante s suas aventuras donjuanescas .
 Quando algum ,

 homem ou mulher , os queria intrigar e levava ao conhecimento dela

 fatos particulares da vida do esposo , a ilustre senhora tinha

 sempre um risinho de incredulidade : " - O Furtado era um bom marido

 e um bom pai de famlia .
 Os invejosos  que o queriam

 desmoralizar " .

 No entanto , conhecia o gnio do Furtado e uma ocasio

 surpreendera-lhe no bolso do palet uma cartinha de mulher , muito

 cheirosa e dentro da qual havia um amor-perfeito j desbotado como

 essas flores raras que se eternizam entre as paginas dos lbuns .
 D .

 Branca sorriu e devorou com os olhos a misteriosa epstola , em

 verdade bem misteriosa , porque nada tinha de indiscreto seno o

 carter visivelmente feminino da letra .
 Nunca se vira maior

 laconismo , nem to cautelosos dizeres numa correspondncia de

 mulher .
 Assinavam as iniciais B. F. - " Branca Furtado !
 " , pensou com

 estranheza e admirao .

 E tornou a colocar o papel no bolso do marido , respeitosamente .
 Era

 um segredo e ela no tinha o direito de violar segredo a quem quer

 que fosse .

 Outra ocasio deparou com o retrato da cuja. - " Sim senhor : uma

 mulher esplndida !
 O Lus tinha gosto para mulheres ...
 " No dorso da

 fotografia , em carto imperial , a seguinte dedicatria :

 Ao Lus - B. F .

 PETRPOLIS , 18 ..

 - Petrpolis !
 - exclamou D. Branca. -  gente fina ...
 ( e com uma

 ponta de despeito ) esses homens ...
 esses homens !...

 O retrato voltou ao lugar onde estava , sem um arranho .

 Impossvel haver mais liberdade e mais confiana entre marido e

 mulher .

 O procedimento de Lus para com D. Branca era igualmente recatado e

 tudo fazia crer que a vbora do cime no lhe mordera ainda o

 corao de esposo .
 Compreendiam-se um ao outro , e , quando em um

 casal , a mulher compreende o marido e o marido compreende a mulher ,

 no h mais bela instituio que o casamento .
 Ningum peca por

 aceitar a vida como a vida sempre foi - tal a filosofia de D .

 Branca , e com pequenas restries , a do secretrio .

 Dizer que se no amavam ?
 Erro gravssimo .
 Adoravam-se quase , e , em

 certos momentos , era como se fossem noivos em plena lua-de-mel .

 Segredos da alma humana ...

 Uns olhos cobiosos e apaixonados como os de Lus no podiam ,

 decerto , ver indiferentemente um rosto lindo de mulher .
 Foi o que

 se deu com relao a Adelaide , a meiga esposa de Evaristo de

 Holanda .
 O secretrio viu-a no dia da chegada e admirou-a

 intimamente , com olhadelas furtivas e traioeiras , enquanto o carro

 rodava para Botafogo .
 Ria , e o seu riso tinha um tique muito

 delicado , muito nobre , muito fino , de cavalheiro gentil , que se

 aprimora numa cortesia de salo .
 E , era a todo o instante - " vossa

 excelncia " , a todo o instante uma frase elogiosa e comedida e mais

 uma perguntazinha discreta que Adelaide respondia com o natural

 embarao de quem chega a um lugar estranho e pela primeira vez ouve

 linguagem desconhecida .

 O que logo provocou a ateno da jovem esposa de Evaristo foi um

 grande anel de brilhante que Furtado trazia no dedo - uma pedra

 enorme , de primeira gua , cujas facetas se multiplicavam  vista

 incisivamente , como um prisma , quando ele erguia a mo morena para

 cofiar o bigode .

 No outro dia , ao almoo , Adelaide estava com um vestido branco de

 cassa e Furtado achou-a mais comunicativa e mais bela .
 A toilette

 de gorgoro dava-lhe uns ares de respeito , que no iam bem com a

 frescura primaveril do seu rosto ; e aquela mudana de vesturio ,

 aquela nonchalance obrigou-o tambm a mudar o tratamento de " vossa

 excelncia " que tantas vezes repisara na vspera .
 Evaristo mesmo j

 lhe havia observado que estavam " em famlia " , que deixasse o " vossa

 excelncia " para pessoas de cerimnias , do contrrio no se

 entendiam , nem podiam estimar-se como bons e velhos amigos .

 E entraram todos na mais ampla intimidade , no mais belo convvio

 domstico e na mais franca harmonia. - Era pena que o andar

 superior no estivesse desocupado , oh , era pena !
 - lamentava o

 marido de D. Branca. - Uns estrangeiros que ningum sabia donde

 tinham vindo !...

 Mas , no ntimo , desejava que os estrangeiros no se mudassem nunca ;

 ele assim estava mais perto do seu novo ideal ...
 Em casa ou no

 Banco , uma s preocupao enchia-lhe o esprito : - Adelaide .
 Como e

 por qu ?
 Mistrio !
 E a vida o que  seno um grande e tenebroso

 mistrio ?

 Lus coava a cabea , atordoado , impaciente , fechando os olhos como

 para ver melhor no fundo da sua alma , e quer os fechasse , quer os

 abrisse , tinha diante deles a imagem de uma criatura excepcional -

 anjo e mulher - e essa criatura tinha os olhos de Adelaide , a boca

 de Adelaide , o sorriso de Adelaide !
 Como resistir  tentao , ele ,

 que julgava a mulher uma fora divina , um poder acima de todos os

 poderes humanos e acima de todos os preconceitos sociais ?
 .

 E nesse filosofar -toa , nesse monologar do crebro , perpassava

 tambm o riso bom de Evaristo , a alma simples do amigo , cheio de

 confiana e de um otimismo s vezes ingnuo .
 Furtado espancava uma

 imagem para deliciar-se com a outra , com a dos olhos meigos e

 sorriso angelical ...

  noite , fora de horas , acordava , abria os olhos num xtase

 sonmbulo - enquanto a mulher se imobilizava - e punha-se a fazer

 clculos , a maquinar planos de general em vspera de batalha. -

 Como havia de ser isso ?
 Como havia de ser aquilo ?...

 E , no outro dia , eram os mesmos olhares , as mesmas finezas , que

 Adelaide j no estranhava , por virem donde vinham .
 No padecia

 dvida que o Sr .
 Furtado era um cavalheiro de educao e ela achava

 muito bonito um homem de educao ...
 Os modos do Sr .
 Furtado , quem

  que os no apreciava ?

 Ao almoo e ao jantar , longamente discutiam assuntos caseiros e D .

 Branca via-o quase sempre de bom humor  hora das refeies ,

 dizendo pilhrias , mostrando-se entendido em matria culinria e em

 coisas de boudoirs , improvisando anedotas , gracejando , servindo 

 mulher e ao Evaristo , para poder servir a Adelaide , fito nico dos

 seus olhos e da sua imaginao .

  noite escancaravam-se as janelas da frente e jogava-se  luz do

 gs amortecido por causa do calor .
 Nos jogos de parceria , Furtado

 sentava-se defronte de Adelaide , tocando-se os joelhos , a pontinha

 dos ps , em torno da pequenina mesa de charo colocada ao centro da

 sala , e divertiam-se horas e horas , num tte--tte voluptuoso e

 calmo , perturbado , s vezes , por uma gargalhada geral que irrompia

 unssona das quatro bocas .

 Evaristo chamava aquilo , aquelas reunies familiares " uma pndega " ,

 sempre melhor que as da Rua do Ouvidor : mais honesta e menos

 tumultuosa .

 - Inda havemos de fazer um piquenique no Jardim Botnico !
 - disse

 uma noite o secretrio .

 -  verdade ,  verdade !
 - aplaudiu , com entusiasmo , D. Branca .

 - Vamos um dia , um domingo , ao Jardim Botnico !

 -  Tijuca no seria melhor ?
 - lembrou Evaristo , que ardia por

 fazer um passeio  " tal Tijuca " .

 Mas Furtado apontou inconvenientes de ida e volta : - era muito

 longe a cascatinha , l onde o diabo perdeu as esporas , enquanto que

 o Jardim Botnico ficava perto e era mais elegante .
 Depois , com o

 tempo , ir-se-ia  Tijuca ...

 - Em primeiro lugar - concluiu Evaristo -  preciso que esses

 estrangeiros do segundo andar ponham-se ao fresco , vo para o diabo

 que os carregue !

 E ficou assentado que num belo domingo iriam os dois casais ao

 Jardim Botnico , em piquenique .

 Antes disso , porm , havia o batizado da Julinha .
 Estava tudo pronto

 como para uma grande recepo de aniversrio : vidros , mveis ,

 tapetes , cristais , o servio da copa , o buffet , uma quantidade

 enorme de garrafas , mesa lauta sobre  qual via-se toda a baixela

 da casa e vasos com flores naturais e altas pirmides de doce ,

 pondo manchas na brancura da toalha , e em cada prato um buquezinho

 de violeta arranjado especialmente pelas mos de D. Branca ; e em

 toda a casa , desde a sala de visitas at os fundos da cozinha , um

 ar alegre de interior holands , um ar festivo e risonho , cheirando

 a flores como a atmosfera matinal dos jardins .
 Viam-se em todo

 aquele esmero , em toda aquela simplicidade grega - na composio de

 um vaso , no arranjo dos buqus - o zelo aristocrtico de D. Branca

 e o gosto no menos aristocrtico de Lus Furtado harmonizando-se

 nas menores coisas , traindo-se a cada hora .
 O papel da sala de

 visitas parecia mais novo ; os quadros destacavam-se , muito ntidos ,

 numa bela disposio ornamental de galeria pobre ; o piano sofrera

 uma mo de leo e guardava ainda o cheiro da fbrica , de costas

 para a janela , reluzindo como um espelho ; as cortinas pendiam

 frouxamente das armaes de ouro ...
 Enfim , na alcova esponsalcia

 de D Branca estava o bero de Julinha > todo em festa , ao lado da

 grande cama de casal .
 Para a  que deviam convergir os olhares do

 desembargador e da mulher , especialmente destes , porque D. Branca

 entendia que ser dama do pao era merecer as atenes devidas 

 prpria imperatriz ; alm disso , o velho Lousada tinha , mais do que

 ningum , direito a essas atenes como padrinho da pequena .
 D .

 Branca esforara-se por dar ao bero um aspecto luxuoso e sereno ,

 para que se no dissesse que ela , no meio das suas ostentaes ,

 pouco amor tinha aos filhos .
 E conseguira-o , sem desprezar um ou

 outro conselho quer de Adelaide , quer de Furtado , quer mesmo de

 Evaristo , que tambm fora chamado a dar sua opiniozinha .

 - Eu nunca tive filhos , minha senhora ...
 - protestou ele .

 Mas a esposa do secretrio alegou que era justamente por ele nunca

 ter tido filhos que lhe pedia a opinio .

 E , agarrado por um brao e pelo outro , o marido de Adelaide

 lembrou , espirituosamente , que se devia colocar na cpula a

 seguinte inscrio : Este filho  o ltimo da prole ...
 - o que fez

 rir muito a D. Sinh do desembargador , a ela s , porque os outros

 no acharam graa na idia .

 O leito de Julinha era todo de uma madeira escura e slida , como

 bano-da-ndia , e custara um dinheiro ao Furtado .
 Imitava o casco

 de urna pequena gndola com a proa recurva e estreita .
 Sobre ele

 caa fartamente uma nuvem de rendas , abrindo-se para um e outro

 lado e quase tocando o cho .
 A cpula era um verdadeiro trabalho de

 arte , muito simples , mas curioso , representando uma coroa ducal com

 embutidos de marfim .
 No alto do cortinado , um grande lao de seda

 azul com franjas de ouro ...

 Ao todo seis carros , inclusive a berlinda , em que ia a pequena nos

 braos da ama e a mulher o desembargador .
 As outras eram ocupadas

 sucessivamente pelo funcionrio do governo e D. Branca , pelo

 Furtado e o Raul , pela viva Tourinho , pelo tesoureiro do Banco

 Industrial e a esposa , e o ltimo carro por dois amigos do

 secretrio , rapazes do comrcio .

 D. Sinh no quis ir  igreja , deixando-se ficar em companhia de

 Evaristo e de Adelaide nas suas toilettes de pouca cerimnia ,

 esperando a volta do batizado - " que era uma grande maada

 vestir-se toda de luxo somente para ouvir o latim de monsenhor

 Teixeira ; logo no estavam vendo ?...
 "

 Caam as primeiras sombras da noite quando um rodar de carros

 anunciou o regresso da Julinha com todo o seu acompanhamento .

 Encheram-se as janelas de curiosos que queriam ver a criana , e um

 ligeiro alvoroo percorreu , como um frmito de novidade , aquele

 trecho do aristocrtico bairro. -  o batizado !
  o batizado !
 -

 exclamaram vozes alvissareiras ; e os carros , um a um , foram parando

 na mesma ordem da sada , com a mesma distino , e um a um foram-se

 apeando os convidados , primeiro os cavalheiros , depois as senhoras ,

 risonhos todos , numa onda invisvel de essncias .
  porta da casa ,

 tapetada de folhas , houve um murmrio , destacando a voz de Furtado :

 - Entrem , meus senhores , queiram ter a bondade ...

 Seguiu-se o jantar - " um banquete de prncipe !
 " na opinio de

 Evaristo .
 Adelaide foi apresentada  viva Tourinho e ao Loiola do

 Banco , houve brindes ao dessert , todos acabaram tratando-se

 familiarmente , esquecendo o vestido de seda e a casaca , e a prpria

 Julinha que , depois de um berreiro infernal , adormeceu com a

 serenidade de um anjo .

 Era noite quando Lus Furtado ergueu-se para levantar o ltimo

 brinde , o brinde de honra  " Serenssima senhora D. Isabel ,

 princesa imperial e herdeira presuntiva do trono do Brasil !
 " O

 champanha espumava nas taas de cristal e os hip !
 hip !
 hurras !

 estrondearam em toda a casa .

 -  Serenssima !

 -  herdeira da coroa !

 -  imperial madrinha da Jlia !

 E , todos de p , esvaziaram as taas .

 Furtado observou , ento , limpando o bigode , que na sala estava mais

 fresco .

 - Vamos , desembargador ...
  Evaristo , d o brao  D. Rosa .

 D. Rosa era a mulher do Loiola .
 O bacharel , estranho a etiquetas ,

 muito filsofo , como dizia o secretrio , deu dois passos  frente e

 recebeu amavelmente a mulher do tesoureiro .

 - Muito obrigada , Sr. Evaristo , muito obrigada !
 - repetiu a gorda

 matrona .

 - Oh , minha senhora ...

 E , em procisso , desfilaram os convivas pelo corredor .
 No alto da

 escada do segundo andar ocultou-se , rpida , uma sombra de mulher .

 Instintivamente o desembargador ergueu os olhos , baixando-os logo .

 Furtado ia na frente , guiando os amigos , de brao com a ilustre

 dama de Sua Majestade a Imperatriz .

 Agora  que a sala de visitas tinha um aspecto nobre e luxuoso , ao

 reflexo das serpentinas e do grande candelabro de cristal pendente

 do teto .
 Quadros e bibels , o piano e a moblia , o espelho de

 primeira ordem , rodeado de arabescos , a estante de msica , as

 tapearias , as cortinas , o papel do forro , tudo resplendia e dava

 uns tons de alta nobreza ao conjunto .

 Adelaide , sempre tmida , vinha de brao com um dos rapazes do

 comrcio .

 Sentaram-se todos , rindo , palrando , o tesoureiro com a face

 congestionada , a mulher idem , ambos muito gordos ; a mulher do

 desembargador com o seu ar indefectvel de nobreza pouco

 comunicativa , querendo parecer mais moa do que na realidade era ,

 assestava de vez em quando o lorgnon de tartaruga , que pendia-lhe

 de um corrento de ouro , e punha-se a observar uma estampa do

 imperador , que havia na sala , entre dois consolos , enquanto o velho

 Lousada falava com a viva Tourinho acerca dos ltimos incmodos do

 monarca ; o secretrio instalara-se entre Adelaide e D. Branca e

 respondia prontamente s perguntas que lhe faziam , ora um dos

 rapazes , ora D. Sinh , ora o tesoureiro do Banco , ora o prprio

 desembargador , interrompendo a conversa com a Tourinho , e volvia-se

 freqentemente para a esposa de Evaristo .
 O bacharel divertia-se a

 gabar os trajos de Raul , dando-lhe palmadinhas no ombro .

 E pouco a pouco ia-se tornando maior a familiaridade .

 - E o Santa Quitria ?
 - lembrou Furtado com ar de desgosto .
 Ele ,

 que  um dos meus bons amigos , faltar ao batizado de minha filha !

 - E o Dr. Condicional ?
 - saltou Evaristo. - Ainda ontem disse-me

 que vinha .

 - Faltaram todos : o Santa Quitria , o Pinto , comendador , o

 Condicional , o Xavier ...
 todos , enfim !

 - Todos no !
 - protestou o velho Lousada , sorrindo - eu aqui estou

 com minha mulher ...

 - O desembargador  gente nossa ,  de casa - emendou Furtado .

 - E eu tambm sou de casa ?
 - perguntou maliciosamente a viva .

 - V. Exa. , com a sua bondade ,  de todo o mundo !

 - Alto l , meu amiguinho !
 - sorriu a boa senhora. - De todo mundo 

 que no .

 E quis saber o que  que o Sr .
 Furtado entendia por todo o mundo .

 Furtado explicou-se razoavelmente .

 Nisso pra um carro  porta .
 Todos os olhares volveram-se para a

 entrada da sala .
 D. Branca e o secretrio ergueram-se .
 Mas , antes

 que se aproximassem da escada , j o Raul anunciava indiscretamente

 que " era o Dr. Condicional !
 "

 - Oh , o Manhes !
 - acudiu Furtado .

 - Eu mesmo , caro amigo , eu mesmo .
 Venho dar-lhe os parabns pelo

 glorioso dia !

 Movimento nas cadeiras ; leve sussurro .

 - Ah , esse  que  o autor do Juca Piro ?
 - fez um dos rapazes do

 comrcio .

 - Sei que no vim de bonne heure ...
 - tornou o literato

 dirigindo-se para o grupo , consertando a sobrecasaca. - Em todo o

 caso , antes tarde que nunca !...

 Apresentaes , cumprimentos , e o Dr. Condicional , dando jeito ao

 pincen , sentou-se .
 Trazia um grande buqu de violetas na lapela .

 Novo carro parou quase imediatamente .
 Furtado , que se ia

 acomodando , ergueu-se outra vez .
 Outra vez o Raul adiantou-se para

 anunciar , agora com toda a discrio e respeito , " o Sr. visconde de

 Santa Quitria !
 " .

 - Oh !

 A exclamao foi geral .

 - O visconde de Santa Quitria !

 - Logo vi que no faltava !
 - disse Furtado .

 E D. Branca teve um movimentozinho de surpresa muito especial ,

 exclamando tambm : - Oh !

 Era , com efeito , o visconde de Santa Quitria , o grande

 capitalista , diretor do Banco Luso-Brasileiro .

 Bem que todos tinham ouvido parar um carro !

 Pelo menos naquele instante , ningum se lembrou do ilustre poeta

 que acabava de entrar .
 A chegada do visconde enchia a todos de

 surpresa e de alta considerao .
 Entre a poesia e o capital -

 preferia-se o capital , tanto mais quanto o diretor do Banco Luso

 no representava simplesmente um capitalzinho de alguns mil-ris .

 No .
 O Santa Quitria tinha fortuna para mais de seis mil contos !.

 O ilustre personagem estacou  porta , fez um cumprimento geral com

 a cabea e entrou , muito correto , admirvel de mocidade e de

 frescura .
 D. Branca recebeu-o no meio da sala com o mais belo dos

 seus sorrisos .

 Era um perfeito cavalheiro , o visconde .
 Residia ora em Petrpolis ,

 quando j no suportava o calor na Corte , ora no seu rico palacete

 das Laranjeiras , pelo inverno chuvoso e nublado .
 Para as transaes

 da Bolsa tinha escritrio na Rua da Alfndega , onde ocupava uma

 saleta de frente e uma alcova com toilette de mrmore e outros

 objetos indispensveis ao asseio de um homem .
 Idade mdia ( pouco

 mais de quarenta anos ) , muitssimo conservado , sem um fio branco na

 cabea , olhos vivos , todo ele irrepreensvel , tinha fama de beleza

 entre as mulheres , que o admiravam , no tanto pela fortuna , mas

 especialmente pela correo do trajo e pelo estranho conjunto das

 linhas fisionmicas .
 Muita gente achava-lhe pontos de semelhana

 com Lus Furtado que se orgulhava disso , que era uma honra para

 ele , uma grande honra !
 Por duas vezes o tinham saudado na Rua do

 Ouvidor julgando cumprimentar o Santa Quitria : Sr. visconde !...
 -

 e ele correspondera delicadamente .
 Era um engano que o honrava .

 O visconde descera de Petrpolis na manh daquele dia para no

 faltar ao convite do secretrio .

 - Dou-lhe os meus parabns - disse ele a Furtado .
 E voltando-se

 para D. Branca , antes de sentar-se : - Peo licena a V. Exa. , para

 um presentezinho  pequena , uma simples lembrana .

 D. Branca , humilhada , recebeu a ddiva do banqueiro , que este

 entregou dentro de uma caixinha de veludo gren .
 Era uma jia de

 ouro e brilhante , uma linda medalha para pescoo .

 - Oh , Sr. visconde !...

 D. Sinh quis logo ver o que era :

 - Veja , mame , veja que bonita !

 A dama de honra de Sua Majestade a Imperatriz tomou ,

 cautelosamente , o brinde , assestou o lorgnon e achou , com efeito ,

 lindo , muito lindo !

 A jia correu de mo em mo , arrebatando um - oh !
 - de cada boca .
 O

 Dr. Condicional lembrava-se de ter visto coisa semelhante na

 vitrina do Farani .

 D. Branca no se esqueceu de apresentar Adelaide ao visconde .

 - " Sua amiga Adelaide , esposa do Sr. Evaristo de Holanda ,

 comprovinciano e amigo de Furtado ...
 "

 E a conversa continuou animada , picante , com um acentuado carter

 de brasileirismo , entrecruzando-se as vozes , as opinies , os ditos

 espirituosos .

 O Dr. Condicional , que se sentara ao lado do desembargador , fez a

 apologia do Instituto Histrico , do que o velho magistrado era

 membro , discorrendo sobre os ltimos trabalhos do baro da Corte

 Real , apresentados ao Instituto , e sobre os progressos da geografia

 e das letras no nosso pas .

 Lousada , inclinava a cabea para ouvir melhor , e saboreava os

 elogios de Valdevino Manhes como quem escuta uma msica

 voluptuosa , uma vaga harmonia encantadora , os olhos entrecerrados ,

 meio adormecidos , a boca imvel , serenamente imvel ...

 De repente estalava uma risada e ele abria os olhos , com um

 sustozinho , pigarreando .

 - E V. Exa. j apresentou algum trabalho , Sr. Desembargador ?
 -

 inquiriu , por delicadeza , o poeta .

 - Ainda no , meu amigo , ainda no , mas tenho pronta uma refutao

 aos Irmos Pinzn do conselheiro Lisboa .

 - Uma refutao ?

 - Exatamente , umas notas sobre os primeiros descobridores da

 Amrica , uns documentos importantssimos , que valem toda a fortuna

 dos Rothschilds ...

 O visconde de Santa Quitria , ao ouvir falar nos Rothschilds ,

 deitou o rabo do olho .

 - ...
 Calcule o senhor que os fencios , muito antes de Pinzon , numa

 poca remotssima , andaram no Amazonas ...

 - No Amazonas , desembargador ?
 - repetiu Manhes com espanto .

 - Pois no , no Amazonas ...
 admira-se ?
 Quanto mais se eu lhe disser

 que os Cananeus andaram na Paraba do Norte !
 Pois  a pura verdade .

 Encontrei na biblioteca de Sua Majestade um fac-smile de

 inscries fencias descobertas numa pedra da Paraba .

 - Mas , ento , Colombo no descobriu a Amrica ?

 - No senhor ...
 Colombo no descobriu coisa alguma ...

 E o desembargador , pausadamente e circunspectamente , explicou a

 magna questo do ovo de Colombo .

 - E o senhor , tem escrito muito ?
 - inquiriu depois ao mulo de

 Gonalves Dias .

 - Oh , muito .
 V. Exa no imagina !
 O pior  que no Brasil ainda no

 h editores .
 V. Exa decerto conhece o meu poema ...

 - Qual deles ?

 - Eu s escrevi um poema at hoje ...

 - Ah !...
 Como intitulou ?

 - Ento V. Exa. no conhece ?
 - insistiu o literato com surpresa .

 - Homem , eu , para lhe falar a verdade , em matria de verso , s

 conheo os Lusadas , que tenho em casa .

 Valdevino Manhes deu um jeitinho ao pincen , verificou que as

 violetas estavam na lapela , e , como se acabasse de ouvir uma

 horrorosa blasfmia , uma heresia medonha , exclamou , fitando os

 olhos do magistrado :

 - S os Lusadas ?!

 - S os Lusadas .

 Nesse instante aproximava-se um criado oferecendo sorvetes em

 conchazinhas de porcelana , e um ar frio inundou o ambiente .

 - S os Lusadas !
 repetiu o poeta , estendendo a mo  bandeja .

 Parecia-lhe incrvel , extraordinrio , fora de toda a verdade , que

 um membro do Instituto Histrico do Rio de Janeiro , autor de uma

 memria sobre os irmos Pinzon , desembargador da Relao , no lesse

 os poetas do seu pas .
 Era incrvel .
 Mas o que ele estranhava

 ocultamente  que o desembargador no houvesse lido a pardia do

 " 1 - Juca-Pirama " , que tantos elogios merecera da crtica nacional .

 As outras pessoas ouviam interessadas o visconde de Santa Quitria ,

 bebendo-lhe as palavras , religiosamente fitos nos seus olhos .

 O Dr. Condicional , porm , animado pelo desembargador e fingindo

 prestar ateno ao visconde , imobilizava os olhos sobre a esposa de

 Evaristo .
 Subitamente a presena dela o atrara como um claro que

 de repente se abrisse , mais forte que a luz do gs .

 Ainda no havia reparado !
 Como  que se achava ali aquela mulher e

 ele - cego !
 - no lhe fizera as devidas cortesias ?
 O que mais o

 impressionava era o ar triste de Adelaide , o tom magoado do seu

 rosto , a expresso recolhida e meiga dos olhos dela ...
 Pobre

 senhora !
 Talvez algum drama ntimo , talvez algum desses episdios

 " lutuosos " de famlia , talvez ...
 - quem sabe ?
 - alguma dor oculta

 pungindo-lhe a ignorada existncia ...
 E  sua imaginao vinham

 casos de adultrio , romances de amor infeliz , tragdias em que os

 maridos matavam as esposas , num formidvel acesso de loucura ; -

 suicdios por amor ; namorados que faziam saltar os prprios miolos

 e raparigas que ingeriam veneno ...
 horrores do corao humano !
 - e

 repetia mentalmente , sensibilizado por uma vaga apreenso que o

 punha nervoso : - " Aquela senhora tem o que quer que seja !...
 "

 Valdevino Manhes carregava de tintas sombrias o rosto de Adelaide ,

 o rosto e a alma - embalado por seu natural pessimismo que ia at a

 negao de Deus e do Bem .
 Explicava tudo pela - fatalidade , e no

 podia ver uma pessoa triste que no dissesse logo : " A vai ' um

 desgraado !
 " No fundo desse pessimismo havia , entretanto , uma

 compaixo pelo sofrimento alheio - compaixo que ele calculadamente

 escondia " para se mostrar superior s fraquezas humanas " .

 A natural expresso do rosto de Adelaide fazia-a mais triste do na

 verdade ela estava ; seus olhos nunca se abriam completamente ; eram

 olhos meigos , de uma vaga melancolia serena e cismadora , olhos

 recolhidos , quase mortos , onde s vezes brilhava , como por encanto ,

 um reflexo de alegria , olhos contemplativos , olhos ideais ...

 Naquele momento a esposa de Evaristo , dominada pela palavra do

 banqueiro , via diante dela , como um estranho fantasma , a Corte

 Imperial , desde o monarca , com a sua longa barba branca de rei

 Davi , carregando o pesado manto de arminho e ouro , rodeado de

 ulicos e cortesos sob uma grande cpula majestosa , at o ltimo

 lacaio dando-se ares de fidalgo , indo e vindo pelos corredores na

 sua libr carnavalesca de sdito fiel e servo obediente .

 O assunto do visconde era a doena do real personagem , a grave

 molstia do imperador .
 Todos o ouviam em grande silncio e com

 grande respeito , por se tratar ainda uma vez do homem para quem o

 Brasil inteiro voltava-se naquele momento da vida nacional .
 A

 aristocracia brasileira , j ouvindo falar em repblica , e zeloza

 das suas posies e dos seus crditos , temia um desastre poltico ,

 um assalto ao Poder , naquela hora de tristeza , quando na verdade

 que os mdicos tinham aconselhado ao Chefe da nao um passeio 

 Europa , uma vilegiatura em Spa ou em Cannes ...

 - E a imperatriz , como deixou o senhor a imperatriz ?
 - perguntou a

 mulher do desembargador , inclinando-se para o visconde .

 - A imperatriz , minha senhora ,  aquele mesmo corao , aquela mesma

 brandura : diz que h de morrer onde morrer o velho ...
 Uma santa !

 - Mas , quando pretende embarcar a famlia imperial ?
 - interrogou

 Furtado .

 - Por enquanto nada est resolvido .
 Sua Majestade no quer

 precipitar uma viagem dolorosa , tem saudades do Brasil .

 - Coitado !...
 - murmurou D. Branca , sem tirar os olhos do

 capitalista .

 - E ningum sabe , afinal , qual  a doena do imperador !
 - disse o

 velho Lousada .

 - No  corao ?
 - atalhou a dama de honor .

 O visconde , muito respeitosamente , pediu licena  nobre senhora

 para dizer que no , que o Sr. D. Pedro II estava com uma

 glicosria ...

 - Glicosria ?
 Que  glicosria ?

 - Diabetes ...

 - Creia o senhor que ainda no compreendi ...

 - Diabetes ...
 glicosria ...
 - fez o visconde atrapalhado ,

 esfregando-se os dedos .

 - Enfraquecimento cerebral , minha mulher - explicou Lousada

 convictamente .

 - No  bem enfraquecimento cerebral ; o enfraquecimento , segundo

 ouvi dizer ,  um dos mltiplos sintomas da diabetes ...
 - emendou o

 banqueiro. - A glicosria  ...
  uma doena dos rins .

 - Acar na urina , homem , creio que est muito bem dito acar na

 urina !
 - opinou o Dr. Condicional interrompendo as suas reflexes

 poticas para emitir juzo cientfico .

 -  ...
 - confirmou friamente o visconde .

 - Pois eu j ouvi dizer por um mdico ilustre que Sua Majestade

 sofre de um esgotamento nervoso ...
 - falou o secretrio .

 - Em francs surmenage , isto  , excesso de trabalho mental ...
 -

 explicou ainda uma vez , com um ar pedante , o literato .

 As indiscretas e bruscas explicaes do Dr. Condicional causaram m

 impresso ao visconde que perguntou baixinho a Furtado " se aquele

 moo era doido " .

 Os ltimos incmodos do soberano interessavam mais  populao

 fluminense que a alta ou baixa do cmbio ou que a queda estrondosa

 de um ministrio em peso .
 Na Rua do Ouvidor , na Bolsa , nas

 secretarias de Estado , nas redaes de jornais , todo o mundo

 comentava a diabetes do monarca , citando pareceres de alta valia ,

 recordando feitos ilustres do segundo imperador , como se o homem j

 estivesse nas nsias da morte , discutindo o carter da enfermidade ,

 que , para uns era diabetes , para outros leso cardaca , para outros

 ainda , esgotamento nervoso , e , finalmente , para um grupo de

 cortesos , um ligeiro incmodo dos rins .
 E ningum acertava com o

 verdadeiro mal que se apoderava lento e lento do imperial

 organismo .
 O governo , escrupuloso por demasia quando se tratava do

 chefe da nao , ficava mudo ante a curiosidade do povo , sem dar 

 Cmara o gostinho de lhe responder s sucessivas interpelaes .

 Deputados e senadores erguiam a voz no seio do Parlamento ,

 inquirindo sobre os " fatos que alarmavam o pas inteiro " e quer o

 presidente do Conselho de Ministros , quer o Secretrio do Imprio ,

 diziam simples e laconicamente que " Sua Majestade estava em pleno

 gozo das suas prerrogativas e das suas faculdades " .
 Mas o grande

 caso que os boatos enchiam as ruas , comunicando-se , num furor de

 incndio , a todas as casas , a todos os arrabaldes e a todas as

 provncias .
 Falava-se mesmo na ida do imperador para a Tijuca e

 da , se no melhorasse , para bordo de um vapor estrangeiro .
 Que ia

 fazer Sua Majestade na Tijuca - ele que s arredava o p da Boa

 Vista para Petrpolis ?
 O clima da Tijuca era quase o de Petrpolis :

 que ia ele fazer ao alto da Tijuca ?

 Multiplicavam-se as dvidas e os comentrios .
 Os bares e os

 viscondes , que se sentiam incomodados , apregoavam logo a sua

 diabetes , o seu enfraquecimento nervoso ; e a palavra surmenage , at

 ento pouco vulgarizada , tornou-se uma palavra  moda , um vocbulo

 chique para exprimir dor de cabea , indisposio nervosa e at

 impurezas do sangue .
 Todo o Rio de Janeiro era uma grande

 surmenage ...

 O visconde de Santa Quitria , ao cabo de meia hora , reconheceu que

 as notcias de que fora portador involuntrio enchiam de tristeza

 os convidados de D. Branca , e , um pouco no ar , um pouquinho sem

 Saber o que dissesse , ele , o gentleman , o correto homem de salo ,

 nunca suprfluo , nem amigo de contrariar o prximo , bandeou-se para

 Adelaide .

 - V. Exa. tem gostado da Corte ?

 A esposa de Evaristo acordou da abstrao em que mergulhara e

 respondeu timidamente , com um leve suspiro :

 - Sim , senhor ...
 muito !

 - Ah , naturalmente !
 A Corte  hoje um dos centros mais

 aristocrticos do mundo .
 Nas provncias , em geral , no se faz idia

 do que isto  ...

 D. Branca interveio :

 - Mas ainda no foi a Petrpolis , senhor visconde .

 - Oh , ento  preciso ir ,  preciso fazer um passeiozinho  cidade

 dos reis ...
 - tornou o banqueiro afetando um sorriso .

 - L isso concordo - apoiou Valdevino Manhes , s voltas com o

 pincen. - Petrpolis  o complemento do Rio de Janeiro , ou antes ,

 do Municpio neutro .

 Evaristo quis dar um aparte ; mas por prudncia , engoliu a

 expresso .
 Ia desgostar o Santa Quitria com uma alfinetada na

 monarquia .
 Para qu ?

 J era tarde .
 O calor sufocava .
 No se ouvia uma pisada na rua .

 Tudo quieto .
 Longe , para os lados da praia , tilintavam as

 campainhas dos bondes .
 Os dois rapazes do comrcio tinham-se

 erguido para fumar um cigarro  janela. - " Como estava escura a

 noite !
 " murmurou um deles .
 O gs da sala dava uma luz preguiosa ,

 uma claridade de antecmara .
 O piano , sempre aberto , esperava que

 algum o fosse animar com as teclas muito alvas , muito novinhas .

 O primeiro a retirar-se foi o visconde .
 Tinha cumprido o seu dever .

 Pedia licena ...

 Lus Furtado acompanhou-o  porta da rua , embaixo .

 E aquela noite , que devia ser de festa e de regozijo pelo batizado

 da Julinha , acabou como todas as noites que no so de festa , nem

 de regozijo - tristemente , quase lugubremente .

 Quando todos saram , Lus Furtado abriu a boca num grande bocejo ,

 que estrondeou na casa e acendeu um cigarro , cantarolando .

 Captulo IV

 - Com efeito !
 - exclamou , surpreendido. - Nem que se estivesse

 esperando a volta de D. Sebastio ...
 Ah !...
 Eu j estava resolvido

 a alugar o palacete do Friburgo !

 - Agora , sim , senhor - disse Lus , batendo no ombro do amigo e

 rindo para Adelaide - agora vo dormir folgadamente na sua cama de

 casal , vo se regalar !

 - Queres dizer , ento , que passvamos as noites de olho aberto , no

 nosso belo quartinho ?
 Ests muito enganado .
 Nunca dormi tanto , e a

 Adelaide melhor um pouco .

 - No segue-se , porm , que deixem de almoar e de jantar conosco ...

 - Em primeiro lugar , um exame nos aposentos ; depois , trataremos do

 almoo e do jantar .

 - J andamos por l - disse D. Branca espevitadamente. - Sabem o

 que encontramos ?

 - Algum menino pago ...
 - adiantou-se Furtado .

 - Algum fac-smile de inscries hebraicas para presente ao

 desembargador ?

 - Srio ; vejam se podem adivinhar - insistiu a esposa do

 secretrio .

 Os dois homens puseram-se a pensar em qual teria sido o misterioso

 encontro das duas senhoras ...

 - No sei - disse , por fim , o marido de Branca .

 - Nem eu ...
 - imitou Evaristo .

 - Um irrigador de Ermarck , por sinal bem novinho .

 - Que diabo quer isso dizer ?
 - perguntou o bacharel com assombro .

 Adelaide no se pde conter e abriu numa risada sonora e gostosa ,

 ocultando o rosto nas mos .
 D. Branca , ante a ingnua pergunta de

 Evaristo , ria tambm para outro lado , enquanto o secretrio

 justificava a ignorncia do amigo dizendo que o aparelho de Ermarck

 ainda no era bastante conhecido no Brasil e que , por isso , o

 Holanda tinha toda a razo ...
 E acrescentou com ironia :

 - So muito maliciosas as mulheres !

 Mas Evaristo no descruzava os braos , estatelado , vendo as duas

 senhoras rir .

 - Ento ,  que j sabes o emprego do irrigador , Adelaide !

 - Eu ?

 Novo acesso de riso sufocou a esposa do bacharel , como se lhe

 estivessem a fazer ccegas .

 - Sabem que mais ?
 - disse afinal Evaristo. - Os ingleses , que

 deixaram o irrigador  por que o irrigador no presta !
 Vamos ao que

 interessa .

 J Lus Furtado galgava o primeiro degrau da escada que ia ter no

 segundo andar .
 Evaristo , Adelaide e D. Branca o acompanharam , todos

 risonhos , a falar dos ingleses .

 Eram trinta degraus estreitos , que subiam em curva , gemendo sob os

 ps , iluminados por uma grande clarabia de vidro .

 O andar superior compunha-se de uma sala de frente , alcova ,

 corredor e dois quartos menores que a alcova , comunicando-se .
 Havia

 tambm um terrao com grades de ferro , onde se erguia uma espcie

 de quiosque para o water-closet .

 O secretrio comeou a inspeo pela frente .
 As janelas estavam

 abertas , deixando ver a praia de Botafogo ; a enseada , no muito

 longe , o Po de Acar e os morros de Niteri dando um aspecto

 grandioso e selvagem  baa .
  direita , erguido a prumo , o perfil

 negro do Corcovado atraa os olhos , em linha reta para o alto , como

 um dedo enorme de gigante apontando o azul sereno .
 A vista

 alcanava , depois , outras montanhas , e entre elas , o cemitrio de

 So Joo Batista , salpicado de tmulos brancos , numa simetria

 pitoresca e lgubre .
 quela hora , distinguia-se grupos de pessoas ,

 grupos negros em marcha , sumindo-se e aparecendo entre os

 mausolus .

  esquerda , telhados e hortas .

 O secretrio no gostava de olhar o cemitrio : recordava-se

 tristemente da ltima vez em que l fora enterrar a ilustre

 senhora , bela mulher , cujo nome o Rio de Janeiro todo conhecia ...

 No gostava , no gostava de olhar o cemitrio ...

 D. Branca estava aflita por chegar aos fundos ; queria surpreender o

 marido de Adelaide com o irrigador de Ermarck .

 - Que achas ?
 - perguntou Furtado ao amigo , relanceando os olhos no

 aposento .

 - Bom ...
 bom - murmurou o bacharel. - Vamos c !

 E dirigiu-se aos fundos da casa , inspecionando o teto e o papel do

 forro .

 - Vocs aqui esto muito bem - tornou o secretrio .

 - Muito melhor que na Cidade Nova - acrescentou D. Branca .

 - Ao menos esto em Botafogo .

 O corredor ia sair na rea , forrado em todo o comprimento , claro ,

 fresco e iluminado pelos reflexos da clarabia .

 Percorreram tudo at o quiosqueziriho do terrao , que o bacharel

 comparou poeticamente a uma " casa da pombos " .

 - Agora venha ver , Sr. Evaristo , venha ver o que os ingleses

 deixaram - insistiu de novo D. Branca .

 - Tolice de minha mulher , Evaristo !

 - No , no , tenha a bondade , Sr. Evaristo , tenha a bondade .
 Quero

 que o senhor veja ...

 A um canto do terrao , entre o quiosque e o gradil , estava uma

 espcie de cilindro cor de cobre novo , com uma das extremidades em

 forma de funil donde saa molemante , quebrando-se em curvas , um

 tubo estreito de borracha .

 - Isso o que  ?
 - perguntou , inclinando-se , o bacharel .

 As duas senhoras abriram outra vez na risadaria , cabeceando ,

 agarrando-se como duas colegiais .

 - Branca !
 - advertiu Furtado. - Olha que o Evaristo no  menino de

 escola ...

 E segurando o amigo pelo brao o foi levando para dentro do

 corredor .

 - Isso  uma das grandes invenes do sculo , meu amigo ; veio com a

 descoberta do micrbio parasitrio .

 Falavam baixo , com hipocrisia de homens que se querem dar ao

 respeito .
 Mas D. Branca ouviu ainda um oh !
 de exclamao que o

 marido de Adelaide no pde abafar .

 Estava escurecendo .
 J o sol mandava o seu ltimo adeus 

 tera-feira com uns restos de claridade crepuscular .

 Tanto o bacharel como a esposa acharam que se devia tratar logo da

 mudana , ou antes da instalao , porque Evaristo inda no comprara

 sequer a cama de casal. - Mudar o qu ?
 S se fosse uma rede que ele

 trouxera do norte , uma rede esplndida , de labirinto , e os

 indiscretos bas de couro ..

 - No te faas miservel !
 - ralhou Furtado. - Um homem no tem o

 direito de menosprezar-se .
 Um ba pode conter as minas de Salomo !

 - O Evaristo vive a gracejar , Sr. Lus - disse Adelaide. - A mania

 dele  chamar-se pobre , lamentar-se , berrar contra quem tem

 dinheiro !...
 Isso at desanima .

 - Mas , ento , que querem vocs que eu diga ?
 Que ando com os bolsos

 recheados ?
 que tenho aplices no Tesouro ?
 que deixei na provncia

 uma fazenda de gado ?
 que trago os bas repletos de ouro e prata ?

 Ora muito obrigado , minha mulher !

 - No estou dizendo isso ...

 Aquele - que querem vocs que eu diga ?
 - referia-se exclusivamente

 ao marido de D. Branca e a Adelaide .
 Esta notou o carinhoso plural

 e como que sentiu no fundo d'alma um prazerzinho em se achar na

 companhia de homem to educado e nobre .
 Aquele vocs , dirigido a

 ela e ao Sr. Lus , trouxe-lhe um pequeno abalo ao corao , qualquer

 coisa de intimamente agradvel .

 - D. Adelaide no est dizendo isso - repetiu Furtado. - O que ela

 est dizendo  que tens a mania da pobreza , a mania das

 lamentaes ...

 D. Branca , por seu turno , observou que o marido tratava Adelaide

 com muita distino , muita gentileza ; mas atribuiu  natural

 bonomia do secretrio .

 Evaristo  que no observou coisssima alguma ; dissera vocs ,

 porque achava familiar o tratamento e porque tratava o Lus por

 voc e Adelaide por voc , isoladamente .
 No havia razo para ,

 referindo-se aos dois , proceder doutro modo .

 A mulher , porm , descobre manchas no sol em pleno meio-dia e 

 capaz de enxergar , com os olhos fechados , uma agulha num palheiro .

 No outro dia , quando Evaristo voltou do Banco , encontrou o segundo

 andar mobiliado ; cadeiras , mesas , uma estante para livros , bela

 cama de casal , guarda-roupa , cabides ...
 o inferno !

 Adelaide recebeu-o no primeiro andai , como de costume , risonha e

 feliz , mas estranhando que lhe no perguntasse coisa alguma , rompeu

 o silncio :

 - Que despeso fizeste !

 - Despeso ?..

 - Sim ; quanto custariam as cadeiras , a cama , o sof .

 Evaristo , em p , no alto da escada , julgou que a mulher houvesse

 enlouquecido e olhava-a , sem compreender as palavras .

 - Que cama ?
 que sof ?
 que cadeiras ?...

 - Que mandaste da rua ...

 - Eu ?!

 - Est de muito bom gosto a cama , Sr. Evaristo - saltou D. Branca .

 - Felicito-o !

 Cada vez o bacharel compreendia menos o que lhe estava entrando

 pelos ouvidos .

 - De bom gosto ?...

 - Pois no foi o senhor quem escolheu a moblia ?

 - Eu no escolhi nada , pelo amor de Deus !
 - nem sei do que se

 trata ...

 - Quer nos debicar , Adelaide , quer fazer surpresa ...
 - disse a

 mulher do secretrio .

 - Debicar !...
 surpresa !...
 Temos aqui almas doutro mundo ?

 Adelaide no quis acreditar numa brincadeira do marido , tal era a

 sizudez que ele imprimia s palavras naquela ocasio .
 Evaristo

 brincava , mas conhecia-se logo o seu tom de pilhria .

 - Deixem-me primeiro tomar flego , que eu estou me acabando !
 -

 exclamou , dirigindo-se  sala de jantar .

 As duas senhoras o acompanharam , entreolhando-se .

 O bacharel encostou a bengala , respirou com alvio e sentou-se .

 - O Furtado inda no veio ?

 - ' T agora , no - respondeu D. Branca .

 - Ento , que histria  essa de cadeiras e camas e sofs ?

 Expliquem-se !

 Adelaide explicou o caso da moblia : s duas horas , mais ou menos ,

 tinha vindo um galego trazendo , numa carrocinha , meia dzia de

 cadeiras , um sof , uma cama de casal , uma estante e outros objetos

 " para a casa do Sr. Evaristo de Holanda , em Botafogo " .
 No podia

 haver engano .

 - Onde esto esses objetos ?

 - L em cima , tudo arrumado .
 A cama  que  um pouco larga ...

 Pois ele no mandara coisssima alguma nem tampouco autorizara

 compra de mveis ao Furtado .
 s duas horas tinha estado com o

 secretrio no Banco e ele em tal coisa no falara .
 Salvo se o amigo

 inda uma vez queria ser generoso e bom apresentando seu nome a

 algum armazm de mveis ...
 Podia muito bem ser isso ...
 Mas , ento ,

 dir-lhe-ia francamente , prevenindo-o com antecedncia , tomando

 mesmo uma nota dos objetos indispensveis a um casal .
 O Furtado ,

 porm , no o prevenira , no o avisara sequer !
 Donde tinham vindo

 esses mveis ?
 de que armazm ?
 de que rua ?

 - Voc compreende que a minha obrigao era receb-los - fez

 Adelaide numa voz humilde .

 - Perfeitamente , ningum diz o contrrio .

 - O Lus explicar tudo , Sr. Evaristo .
 Havemos de saber quem foi da

 idia .

 - Corramos um olhar nos tais mveis - disse o bacharel ,

 erguendo-se .

 O pavimento superior da casa j no tinha o mesmo aspecto desolado

 e vazio da vspera , com as suas paredes escorridas , com o seu ar

 glacial de eremitrio .
 No .
 A sala da frente impunha-se agora aos

 olhos , convidando  familiaridade , ao repouso honesto ,  leitura de

 um bom livro .
 Meia dzia de cadeiras austracas , torneadas , o sof ,

 cadeiras de balano , dois consolos , outra mesinha decorativa para o

 centro ...
 Na alcova o leito , e o toucador com espelho de cristal e

 pedra-mrmore .
 Num dos quartos , o guarda-roupa e os bas ( os

 clebres bas de couro ) e no outro a estante .
 Assim  que Adelaide

 dispusera os mveis , em acordo com D. Branca ; unicamente para

 surpreender Evaristo .
 Depois comprar-se-ia cortinas e bibels .
 O

 soalho inda estava mido da lavagem .

 O bacharel cruzou os braos diante daquela transformao quase

 milagrosa .

 - Isto no pode deixar de ser obra do Lus !
 - disse , risonho .
 Sim ,

 estava quase convencido de que o Lus queria pregar-lhe uma pea .

 Quem , no Rio de Janeiro , se lembraria dele seno o secretrio ?

 Ningum , absolutamente ningum .
 Ele  que o tratava com um carinho

 de irmo .

 - Voc que acha ?

 - Penso a mesma coisa .
 S o Sr .
 Furtado ...

 - No entanto , o Furtado no arredou p do Banco !

 - As almas  que no foram ...
 - murmurou , sorrindo , Adelaide .

 E enquanto o outro no chegava , discutiu-se a procedncia dos

 mveis .

 O secretrio foi recebido com exclamaes e altos brados de

 agradecimento e jovialidade .

 - Est de muito bom gosto a cama !
 - repisou D. Branca. - Assim 

 que eu queria que voc comprasse uma ...

 - E o guarda-roupa !
 - exclamou Evaristo .

 - E a toilette !
 - fez Adelaide .

 Mas o homem era como se estivesse numa casa de orates ; fitava um ,

 fitava outro , com ar interrogativo e surpreso .

 - As senhoras esto enganadas ...
 Moblia ?...

 - Quem havia de ser ?
 - interpelou o bacharel , crendo e no crendo

 na estupefao do amigo .

 - No mo perguntes a mim , que tambm no posso atribuir o caso ao

 meu bodegueiro ou s almas do outro mundo .

 - Ora , falemos srio , no foste tu , mas foi o teu grande corao !
 -

 resumiu Evaristo , desapontado .

 - Juro-te !

 - No acredito .

 - Melhor pra ti ...

 Ao final das contas , a dignidade do bacharel teve um mpeto de

 orgulho contra " esse misterioso fornecedor gratuito de mveis " , e

 declarou positivamente que ia mandar tudo para o depsito , as

 cadeiras , a cama , o sof ...
 tudo !
 No aceitava favores de pessoas

 estranhas e , de mais a mais , ocultas num criminoso silncio .
 Tudo

 para o depsito !

 Uma gargalhada do secretrio acolheu as ltimas palavras de

 Evaristo , comunicando-se a D. Branca e a Adelaide , que ia abrindo a

 boca para lamentar " a sua linda cama de ramagens e o seu querido

 toucador de mrmore ...
 " .

 - Ento , vais mandar tudo para o depsito !...

 E Furtado novamente ria , batendo com as mos na mesa , inclinando a

 cabea , sapateando .

 - Impagvel o nosso Evaristo !
 Simplesmente impagvel esse homem com

 a sua filosofia de algibeira e com os seus mpetos !

 - No te rias , que estou falando srio !

 - Por isso mesmo ...

 E Furtado confessou generosamente , aprumando-se na cadeira , que os

 mveis tinham sido comprados por ele .
 No fizera mais do que um

 dever de amigo .. .
 Restava saber se o Evaristo opunha-se 

 qualidade sofrvel do guarda-roupa ...

 - Qual opor-me !
 - disse o bacharel todo humilhado com a fineza do

 secretrio. - Escolheste a dedo !

 - Mas no para ser entregue ao depsito .

 - Para o depsito vou eu mandar os bas de couro e umas velharias

 do meu tempo de provncia .

 E no se tornou a falar nos mveis e a estima do bacharel pelo

 secretrio aumentou .
 Evaristo no perdia ocasio de gabar o

 Furtado , exaltando-lhe o corao generoso , a grandeza d'alma e

 outras virtudes que ele pouco a pouco ia descobrindo no seu velho

 colega de Liceu ...
 Um homem como se no encontravam muitos na terra

 do egosmo e da hipocrisia , nesse Rio de Janeiro fundamentalmente

 pervertido , onde as traies contavam-se pelas amizades e ningum

 dava crdito seno ao ouro e  maledicncia ...
 Um homem que o

 recebera no seio da prpria famlia e que , depois de o hospedar em

 casa , inda lhe emprestava dinheiro e fazia surpresas como a da

 moblia !
 Era o que se podia chamar um filantropo , um amigo

 excepcional !

 - Que achas ?

 Adelaide confirmou os elogios , mostrando-se reconhecida s boas

 intenes do secretrio , qualificando-o de generoso , de nobre , de

 fidalgo , emprestando-lhe todos os caracteres de homem de bem que

 no alardeia as aes meritrias que pratica .
 O Sr .
 Furtado era um

 exemplo de delicadeza e cavalheirismo. - Evaristo no via como ele

 a tratava ?
 Interessava-se por ela como por uma irm ; nas refeies ,

 nos passeios ,  noite , quando jogavam .
 E a mulher tambm , a D .

 Branca .
 Ambos muito amveis !

 - So simpatias ...
 so simpatias ...
 - explicava o bacharel ,

 acendendo o cigarro , com uma ponta de vaidade. - Tudo neste mundo 

 a gente se insinuar ...
 O orgulho mata a aspirao , enfraquece o

 estmulo .

 De manh , vinham os dois , ele e a esposa , almoar em companhia dos

 Furtado , como pensionistas dum botei , e Adelaide passava quase todo

 o dia embaixo , na sala de jantar , com D. Branca , at  hora da

 segunda refeio , lendo romances , relendo jornais , discutindo

 modas , costurando .
 Uma vida sem preocupaes , nem intrigas .
 D .

 Sinh , do desembargador ,  que s vezes ia interromp-las com

 histrias de namoro e bilhetinhos e novidades de Botafogo , sempre

 muito misteriosa e muito coberta de p de arroz .
 Furtado no

 gostava dela , no lhe achava encanto e profetizava-lhe horrores !

 Que mais podia querer Adelaide ?
 Que outras ambies podia desejar

 Evaristo ?
 Perguntasse-lho , e eles no saberiam responder .
 Tinham

 casa , cmodos independentes. boa mesa , boas amizades , tudo por

 pouco dinheiro , graas  generosidade do secretrio , cuja dedicao

 parecia aumentar .

 - E o piquenique no Jardim Botnico ?
 - lembrou Furtado uma bela

 manh .

 -  verdade , o piquenique ?
 - repetiu D. Branca .

 - Por mim ,  quando quiserem - disse o bacharel. - Ningum mais do

 que eu aprecia o campo , as rvores , o ar fresco , e o perene correr

 de um fio d'gua .

 - Voc por que no determina ?
 - perguntou Branca ao marido .

 - Tantas manhs boas para a gente se divertir !

 Furtado marcou o primeiro domingo de sol .
 Convidava-se unicamente o

 visconde de Santa Quitria .
 Nada do desembargador , nem de pessoas

 estranhas .
 Havia de ser um piquenique familiar , uma coisa toda

 ntima sobre a relva macia , bem longe da entrada do jardim. debaixo

 de uma rvore .

 - Ao champanha ?
 - perguntou D. Branca com os olhos faiscantes , numa

 alegria sbita .

 - Ao champanha , sim , ao champanha .
 Um piquenique delicado e de bom

 gosto , como se usa em Petrpolis e na Europa ...
 Toilettes claras ,

 roupas leves , menu  francesa , encomendado ao Pascoal !...
 e que

 ningum se lembre de morrer enquanto houver sol e rvores na

 natureza !

 - No convidas a Tourinho ?

 Mas Furtado declarou inda uma vez que s convidava o visconde , isso

 mesmo porque devia muitos favores ao Santa Quitria .

 - Nem ao Dr. Condicional ?
 - gracejou Evaristo .

 Furtado esboou um risinho , compreendendo a ironia , e no

 respondeu .

 Eram de uso , ento , os piqueniques no Jardim Botnico .
 Em se

 aproximando o calor , o grande parque enchia-se , aos domingos , de

 uma populao ruidosa e promscua , de milhares de pessoas de ambos

 os sexos , largamente espalhadas , indo e vindo , nos seus trajos

 fofos , ao som de uma banda de msica oculta pitorescamente sob as

 rvores ; e os tons claros das toilettes , o colorido grrulo dos

 vesturios matizavam a frescura sombria dos caramanches , de

 mistura com o vermelho sangneo dos flamboyants. Risadas estalavam

 num cascatear argentino que se ia perder nos longes da mata ,

 ecoando em ondas sonoras de uma cristalinidade musical .
 No centro

 da comprida alia de palmeiras que vai desde a entrada at o fundo

 da quinta , um repuxo esguichava perenemente , caindo em leque numa

 grande bacia de pedra , rodeada de mirtos silvestres .
 Crianas

 apostavam corridas e juntavam ao som da msica a alegria de suas

 vozes .
 Em toda a parte a mesma liberdade comunicativa , a mesma

 expanso domingueira .
 Desde as cinco horas da manh at as sete da

 noite , o Jardim Botnico era como uma grande sala de hotel .

 Almoava-se , lanchava-se , jantava-se ao ar livre , sob os

 castanheiros , na relva fresca e cheirosa ,  beira dos lagos .

 Ao primeiro domingo de abril realizou-se o sonhado piquenique .
 A

 manh estava radiosa , de uma inefvel limpidez , o contorno das

 montanhas muito vivo , sem borres de nuvens , recortando em

 ziguezague o azul infinito e puro do cu - manh deliciosa como uma

 recordao do passado ou como uma tela impressionista em que

 vibrasse a alma das coisas numa estranha sinfonia buclica de poema

 virgiliano ...
 manh como essas de que falava a esposa do secretrio

 - boa para a gente se divertir , para a gente esquecer um pouco as

 misrias da vida , longe da Rua do Ouvidor e das mexeriqueiras do

 bairro ...
 Valia a pena , decerto , aproveitar uma manh como aquela ,

 indo entre as rvores , no seio bom da natureza , bebendo a gua das

 fontes , a ouvir o misterioso segredar dos pssaros e o trilar dos

 insetos invisveis - na Tijuca , no Jardim Botnico , em Petrpolis ,

 em Friburgo , em Santa Teresa ...
 , onde quer que houvesse frescura e

 um pouco d'gua lmpida .

 Todos acordaram cedo , a comear por D. Branca e a acabar por

 Evaristo , que ,  ltima hora , no se sentia em condies muito

 favorveis a uma jornada no campo ; mas , enfim , sempre se resolveu ,

 depois de tomar uma dose de conhaque com acar .

 A mulher de Furtado , sobretudo , no ocultava o bom humor que lhe ia

 na natureza .
 Era doida por piqueniques , ningum lhe falasse em

 piqueniques !
 Ergueu-se s quatro horas , mesmo porque no dormira

 bem com o calor , e foi  janela da frente ver como amanhecera o

 dia , " se o Corcovado tinha nuvens " ...
 Qual nuvens !
 O perfil da

 montanha estava limpo na meia sombra do alvorecer .
 Qual nuvens !
 Da

 a pouco o solzinho estava fora e ela em caminho para o Jardim

 Botnico , mais o Furtado e a Adelaide e o Evaristo e o visconde , o

 simptico visconde , o homem que ela tanto admirava e que em toda a

 parte era o mesmo - elegante , correto , generoso como um nababo ,

 fidalgo at no abotoar a luva a uma dama ...
 Oh , o visconde de Santa

 Quitria !
 Como ela se ia divertir , naquele passeio ao ar livre ,

 como ela ia gozar !
 A ltima cartinha dele ...

 - Que horas so ?

 Era a voz do secretrio , inda na cama , na frescura matinal dos

 lenis .
 D. Branca teve um pequeno susto , um ligeiro sobressalto .

 " Que horas eram ?
 Quatro e meia ...
 "

 Ele , ento , bocejou , espreguiou-se molemente , coando-se e tornou

 a perguntar :

 - Quatro e meia ?

 - Deu agora ...
 No faas barulho para no acordar a Julinha .

 - Vamos tratando de nos vestir .

 - Vamos .
 No tarda clarear .

 E comearam as ablues , os preparativos .

 No segundo andar o som abafado de um despertador eltrico fez sinal

 retinindo embaixo , nos aposentos do secretrio .
 Ele e a mulher

 trocaram algumas palavras .
 Tinham combinado com o visconde para as

 seis horas e o visconde prometera po faltar. - s seis em ponto

 estaria na casa do amigo Furtado .

 Foi pontual o Santa Quitria - questo de mais um minuto , menos um

 minuto .
 Vinha chique e alegre , sorrindo ao aproximar-se da casa do

 secretrio , no seu veston de brim , chapu de palha , binculo a

 tiracolo e uma pequena valise cor de chocolate .

 As duas senhoras correram  janela e o marido de D. Branca foi

 receb-lo  porta da rua .

 O visconde apeou nobremente , murmurou qualquer coisa ao boleeiro ,

 e , risonho , apertando a mo a Furtado :

 - Creio que estou na hora ...

 O secretrio respondeu com uma exclamao venturosa , estirando o

 brao para o Corcovado :

 - Veja que dia lindo !

 - Efetivamente !
 Est convidativo , est prprio !

 E respeitoso , solene , o amvel banqueiro perguntou pela

 " excelentssima senhora " e pelas crianas .

 - Todos bons , muito obrigado .
 O senhor visconde  que tem mocidade

 para um sculo !

 - Oh , meu amigo ...
 As aparncias iludem ...
 j me vou sentindo

 cansadinho , graas a Deus .

 - Ora , o senhor visconde !

 Branca e Adelaide gentilmente o acolheram no alto da escada .

 Evaristo completava a toilette no segundo andar

 - Que dia lindo , senhor visconde !
 - fez a esposa do secretrio .

 recuando para deixar passar o Santa Quitria .

 - Lindo , minha senhora , lindssimo !

 Tinham todos um ar alegre e trataram-se com uma familiaridade

 burguesa , na mais bela disposio de nimo .

 Adelaide , curiosa , quis ver se o visconde trazia o anelo de

 brilhante , e os seus olhos procuravam a mo do banqueiro .
 Trazia ,

 sim .
 Era uma das coisas que ela admirava naquele homem - o anel ,

 uma jia primorosa , inestimvel .

 - O senhor seu marido vai bem , minha senhora ?

 - Bem , obrigada - respondeu Adelaide , menos cerimoniosa .

 Porque o visconde de Santa Quitria em roupa de passeio no tinha

 ares de fidalgo , como quando se apresentava de casaca ou mesmo no

 seu fraque justo e elegante .
 A roupa branca - larga e mole no corpo

 dava-lhe uma feio distinta , mas democrata , uma feio popular de

 rapazola que sacrifica o luxo pela comodidade , a moda pelo

 bem-estar .
 Vendo-o assim , a esposa de Evaristo animara-se a lhe

 responder em tom quase ntimo de conhecidos velhos .

 O criado trouxe uma bandeja com chocolate e po-de-l .
 Todos se

 serviram , inclusive o bacharel , que j estava presente .

 Afinal , depois de meia hora de palestra matutina , e aos primeiros

 clares do sol triunfante , a comitiva , em dois carros , tomou a

 direo do Jardim .

 O visconde fora se reunir  famlia do secretrio no tanto por

 delicadeza , quanto por " chiquismo " , para ir na companhia das

 senhoras , gozando a amvel presena de D. Branca e da jovem

 Adelaide .
 No queria perder ocasio de se mostrar na altura dos

 seus sentimentos e da intimidade com que o tratavam as dignas

 senhoras .
 O ttulo de nobreza , que ele carregava solenemente h

 dois anos , graas  benevolncia do Sr. D. Pedro II , no o impedia

 dessas e outras manifestaes democrticas .
 Os reis tambm apertam

 a mo ao povo e tambm l um dia esquecem as prpuras e a coroa ,

 trocando-as pelo redingote burgus ...
 O prprio imperador j uma

 vez desembarcara na Europa , no cais Sodr , de sobrecasaca e

 guarda-p , como qualquer mortal .

 Estimava muito o amigo Furtado e a Sra. D. Branca para no ter

 orgulhos de nobreza , nem de fidalguia .
 O seu palet branco e a sua

 cala branca naquele momento significavam intimidade e tambm um

 pouco de elegncia .
 A toilette em harmonia com a estao e com o

 gnero de passeio .

 Num dos carros ia ele , D. Branca e o secretrio , no outro Adelaide ,

 Evaristo e o Raul .
 A Julinha fora passar o domingo  casa do

 desembargador ; D. Sinh prometeu desvelar-se por ela .

 Na frase entusistica do visconde " o dia estava lindssimo !
 " o cu ,

 muito azul , parecia o fundo largo de uma tela desdobrando-se

 infinitamente por sobre o universo .
 A Corte espreguiava-se aos

 primeiros rudos da manh luminosa .
 Na plataforma dos bondes

 flutuavam bandeirinhas verde-amarelas com a coroa nacional .
 Os

 quiosques de Botafogo tinham o aspecto risonho de pavilhes

 infantis , embandeirados tambm , com os seus galhardetes em arco ,

 sob as rvores , olhando para o mar .
 Um cheiro vivo de jasmins

 inundava a atmosfera , como que aveludando-a cariciosamente .

 Principiava a agitao nos cafs e nas hospedarias .
 O Raul julgou

 mesmo ouvir sons de msica ao longe e apurou o ouvido : - " Se no

 estava enganado ...
 "

 Ia para mais de seis horas .

 O visconde foi o primeiro a apear .
 Todos apearam , numa grande

 alegria , diante do porto do " nosso Bois de Boulogne " como dizia o

 Santa Quitria .

 Furtado indagou logo se o homem da rotisserie j teria vindo , e

 lanou um olhar curioso pelas proximidades do porto .

 - Qual !
 Ainda no veio ...
 Pois olhem que eu tratei para as sete

 horas !

 O visconde tranqilizou-o puxando o relgio , e dizendo que ainda

 faltavam quinze minutos para as sete .

 - A vem ele !
 - descobriu o Raul com um gesto alvissareiro ,

 apontando para um homem que trazia na cabea uma grande caixa de

 folha em que se liam as inscries : Confeitaria Pascoal - Rua do

 Ouvidor .

 - Ora muito bom dia !
 - Saudou o empregado aproximando-se .

 - Bom dia - corresponderam todos a uma voz .

 Um claro iluminou os olhos vivos do filho do secretrio .

 - J h bocado que estou  espera de vossas senhorias - tornou o

 homem da caixa .

 - V entrando e acompanhe-nos - ordenou Furtado .

 O visconde ofereceu o brao gentilmente  D. Branca e , com as

 demais pessoas - ele  frente - seguiu em linha reta para o

 interior do jardim .

 L estava , entre as palmeiras , o repuxo cantando , em fios d'gua , a

 montona balada das fontes ; ouvia-se , de longe , o ruidozinho da

 gua a esguichar , caindo em arcos para um e outro lado e

 confundindo-se quase com o nostlgico farfalho das rvores .
 O sol ,

 brando e macio , erguia-se lento , sobredoirando as eminncias , pouco

 a pouco iluminando a espessura do arvoredo e a larga extenso verde

 que enchia bruscamente os olhos encantados de Adelaide como um

 sonho de glria e bem-aventurana .
 Respirava-se a frescura das

 plantas e o aroma fino das trombetas e das rosas , a essncia

 matinal das grandes rvores e dos pequenos vegetais que acordavam 

 vida num banho morno de luz .
 Pompeavam estranhas floraes no

 recesso da mata e um hino misterioso parecia levantar-se da

 natureza ao astro fecundante que ressurgia com o seu esplendor

 incomparvel de rei absoluto .

 Vinham chegando outras famlias , outros casais , outros grupos , que

 logo se perdiam no emaranhado das alias laterais , e em todas as

 fisionomias brilhava uma satisfao ntima , um como prazer novo e

 especial , um reflexo de imortalidade astral .

 O visconde parou no chafariz .
 Todos pararam no chafariz .

 -  realmente belo !
 - exclamou o bacharel com os olhos erguidos em

 xtase para a copa das palmeiras .

 - A Tijuca  mais solene ...
 - observou circunspecto o visconde .

 - O barulho da cascata  como se a gente estivesse num ermo

 religioso ...
 no meio de um deserto ...
 muito longe ...
 .
 muitssimo

 longe ...

 - Oh , ento deve ser triste demais ...
 - argumentou o marido de

 Adelaide .

 - Como triste ?
  encantador !
  potico !

 - Falta aqui o Dr. Condicional para dizer que lembra o Evangelho na

 selva ...
 - insinuou o amigo de Furtado .

 O visconde achou graa , e , desdenhoso , carregando a esposa do

 secretrio :

 - Um petit-maitre , o tal Manhes !

 Todos riram , inclusive o Raul que perguntou  mame o que era

 petit-maitre .

 Escolhido o local para o piquenique , sob um caramancho agreste de

 parasitas imitando a entrada de um tnel e onde havia uma grosseira

 mesa de pedra , nos fundos do jardim , o bacharel props uma volta ,

 uma grande volta " para abrir o apetite " .

 Ningum discordou da idia .
 O Antnio ficava botando sentido 

 comida. ( Antnio era o criado do secretrio. )

 - Um vermutezinho no  mau antes do almoo , oh , visconde ...
 -

 lembrou Furtado .

 - V l um vermute .

 - J to cedo !
 - exclamou Adelaide .

 - Pois ento !...
 - fez D. Branca .

 - Cedo para preparar o estmago - replicou o banqueiro .

 - Ah !...

 O prprio Furtado tirou da cesta clices , uma garrafa intacta que o

 Antnio abriu com estampido , e bebericaram .

 - Agora , toca !

 E marcharam , ora a dois e dois , ora a trs e trs , por entre os

 tufos verdejantes , papagueando e rindo , num comeo de liberdade

 familiar .
 Aves ariscas voavam pressentindo-os ; pipilavam ninhos na

 frondosa espessura das ramagens ; estridulavam cigarras em desafio ,

 numa orquestrao aguda e unssona .

 Evaristo , no meio de toda aquela paisagem tropical , de uma riqueza

 encantadora , lembrou-se da provncia , e , num tom solene e

 misterioso , recitou descobrindo a cabea e estacando :

 - Solido , eu te sado !
 Silncio do bosque , salve !

 Lera isso h muito num clssico portugus e nunca um pensamento

 alheio fora to bem empregado !

 - Olhe , D. Adelaide , como se deita a perder um homem - gracejou o

 secretrio .

 Adelaide sorriu .

 - Vocs  porque no sabem glorificar a natureza , vocs  porque

 no lem os clssicos !
 - replicou o bacharel .

 - Mas no te lembras do resto .

 - Como no me lembro , se  uma das pginas que eu nunca hei de

 esquecer ?

 E o bacharel , sem receio de escandalizar o aprumo do Santa

 Quitria , berrou para o alto , como se falasse s nuvens :

 - Solido , eu te sado !
 Silncio do bosque , salve !
 A ti venho , oh

 natureza ; abre-me o teu seio .
 Venho depor nele o peso aborrecido da

 existncia ; venho despir as fadigas da vida !.
 .. Os homens no me

 deixam ; amparai-me vs , solides amenas , abrigai-me , oh solides

 deleitosas .

 - Onde queres tu chegar com essa desfruteira , oh Evaristo ?
 -

 interrompeu o outro .

 - Quero chegar ao fim da pgina ...

 - Olha que isso  um desrespeito ao visconde !
 - segredou Adelaide .

 O banqueiro , porm , havia-se destacado um pouco e marchava com D .

 Branca , sem se incomodar , no seu passo lento de gara real .
 Atrs

 vinham as outras pessoas .
 O secretrio tinha absoluta confiana no

 visconde ; at aborrecia-o dalgum modo a sisudez , a gravidade

 patriarcal do celibatrio .
 A Branca ia muito bem na companhia dele ,

 do Santa Quitria .

 Este , enquanto o bacharel discursava e vendo-se longe de ouvidos

 perigosos , abriu vlvulas ao corao , baixinho e disfaradamente .

 - Creio que no a posso esquecer ; acordo e deito-me pensando no

 nosso grande amor ...
 Imagine se estivssemos ss aqui .

 - Oh !...

 Mas deixe estar que ainda havemos de ser muito felizes ...
 muito

 felizes .

 - Eu bem sei que me ama , bem sei , mas vi-o outro dia interessar-se

 tanto pela minha amiga Adelaide ...

 O capitalista sorriu benevolamente , como quem perdoa .

 - Sua amiga Adelaide  uma criana ...
 uma menina de ontem ...
 e eu

 seria incapaz ...
 Oh !...
 faa-me justia ...

 - Eu no estou afirmando ...

 - Creia que no me preocupo com outra pessoa .

 - E que tal a idia do piquenique ?
 Supus que no viesse ...

 O banqueiro guardava a atitude respeitosa e fidalga de quando se

 exibia nos sales .
 Ia responder , mas ouviu passos na areia .

 Voltou-se : eram as outras pessoas , o Raul , Evaristo , Adelaide e o

 secretrio , que se aproximavam silenciosamente .

 Foi longo o passeio atravs das rvores , em romaria buclica e

 matinal pelas avenidas do jardim .
 O visconde colhia flores

 dedicadamente para as senhoras .
 D. Branca , mesmo na presena do

 marido , colocou uma na sua botoeira , sempre risonha , sempre afvel ,

 multiplicando-se em gentilezas ao Santa Quitria .
 Adelaide , entre

 Evaristo e Furtado no perdia o ar ingnuo e melanclico que tanto

 preocupava ao Manhes na noite do batizado e que encantava o

 secretrio .
 Este volvia constantemente os olhos para ela e de vez

 em quando arriscava um segredinho inofensivo , uma pilheriazinha ,

 elogiando-a , gabando-lhe os olhos , a boca , fazendo aluses amorosas

 s flores , glorificando o amor livre dos pssaros , lembrando cenas

 de romances , episdios do campo ...
 Furtado aproveitava os momentos

 em que o bacharel ia , com o Raul , fazer proviso de flores para

 enfeitar a mesa do lanche " .

 Os dois j no sabiam onde colocar flores ; levavam grandes buqus

 feitos  pressa .
 O secretrio achava muita graa naquela amizade do

 Raul ao Evaristo .

 - Se meu marido  uma criana !
 - ralhava Adelaide .

 - Uma criana de vinte e oito anos !...
 - dizia o secretrio .

 - Criana , porque no tem juzo , porque no se importa ...

 - Deixe-o l , deixe-o l ...
  gnio .

 - Mas no fica bonito , no  srio .

 De novo entravam todos na grande alm de palmeiras e de novo

 chegaram ao caramancho escolhido para o piquenique .

 Ia para as onze horas .
 O sol inundava a floresta e nenhuma nuvem

 toldava a maciez lmpida do cu .
 Todos respiraram ao entrar no

 improvisado restaurante coberto de folhas , rodeado de rvores e

 onde se gozava uma frescura deleitosa e aromada de selva .

 - Uf !
 - respirou Evaristo sentando-se. - J  andar .
 Olhem que

 demos a volta ao jardim !

 - Outra dose de vermute - props o secretrio .

 - Apoiado , apoiado !
 - murmurou o visconde fazendo-se alegre .

 As duas senhoras conversavam endireitando as toilettes ,

 revistando-se uma  outra com risadinhas .

 O Antnio pusera " a mesa " ; uma toalha muito branca alvejava no

 pequeno recinto que a luz mal penetrava .
 Sobre a toalha brilhavam

 os talheres de metal branco e os copos de cristal muito finos , e as

 flores que o Raul colhera .
 Ao aspecto risonho da mesa as

 fisionomias tomaram uma expresso viva de conforto. - " Era tempo de

 se ir comendo qualquer coisinha ...
 " - balbuciou Evaristo ao

 secretrio .
 Este dispunha tudo na melhor ordem , falando ao Antnio ,

 sorrindo ao banqueiro , uma atividade pasmosa de garon d'htel .

 De dentro da caixa da confeitaria surgiu primeiro um prato com

 " vol-au-vents e logo seguiu-se o estampido de uma garrafa que se

 abre .

 - Vamos , vamos - comandou Furtado. - Senhor visconde .
 D .

 Adelaide ...
 Branca ...
 Evaristo ...
 Vo se sentando ...

 Riram-se todos  falta de cadeiras .
 Mas havia no caramancho , longe

 da mesa , um banco de pedra , onde se sentaram as duas senhoras .
 Os

 homens comiam em p .

 - Aqui h ainda um lugar , senhor visconde - ousou amavelmente a

 esposa de Furtado conchegando-se  amiga .

 - No , no , minha senhora , obrigadssimo ; eu fao companhia aos do

 meu sexo ...

 - Isso , visconde , isso !
 - aprovou o bacharel. - Um homem  um

 homem !

 Vieram outros pratos , outras iguarias delicadamente feitas no

 Pascoal , sob encomenda do secretrio : uma esplndida torta de

 camares - regada a Sauterne - ostras e uma bela garoupa fria e

 apetitosa , no falando no hors-d'oeuvre no fiambre , nas azeitonas

 muito fresquinhas e muito negras que o visconde colhera com a ponta

 dos dedos , e as frutas ao dessert - pssegos , uvas e abacaxi

 frapp .

 O almoo correu alegre , muitssimo alegre , cheio de risos ,

 fermentado pelo Bourgogne e pelo champanha - um almoo leve ,

 delicadssimo e substancial , " aristocraticamente fino " , como ideara

 o esposo de D. Branca .
 Evaristo , ao abrir-se o champanha , pediu que

 no se fizessem brindes .

 - O brinde  a maior tolice do sculo dezenove - explicou ele ,

 tragando uma roda de abacaxi. - O brinde parece at uma inveno do

 Valdevino Manhes ou de Mr. de La Palisse ; eu sou contra o brinde

 como sou contra a mon ...

 Ia dizendo monarquia , mas arrependeu-se logo , sem olhar para o

 visconde :

 - ...
 Como sou contra o voto feminino !

 - Eu s compreendo o brinde quando  de honra ,  Sua Majestade o

 Imperador ,  princesa ...
 ou mesmo a um homem ilustre que se no

 confunda com o resto da gente .

 - Qual , senhor visconde !
 exclamou o bacharel depondo o talher .

 - O brinde , seja ele a quem for ,  uma das muitas ridicularias da

 civilizao ...
 No sei como qualificar o indivduo que interrompe a

 boa digesto de uma mesa , de uma sociedade , para , de taa em punho ,

 levantar um brinde s virtudes de outro , no sei .

 Evaristo esquecia-se do batizado da Julinha em que o diretor do

 Banco Luso-Brasileiro fizera diversos brindes entre os quais um a

 seu amigo Furtado , que por sua vez brindara  serenssima herdeira

 do trono .

 Adelaide fez-lhe sinal piscando o olho , mas o bacharel no percebeu

 e concluiu dizendo catedraticamente que o brinde " era uma prova de

 ignorncia e de tacanhez intelectual " ,

 Todos estranharam aquela franqueza perante o visconde de Santa

 Quitria , na presena do respeitvel amigo de Suas Majestades que

 ningum ousava contrariar nas menores coisas .

 Furtado disfarou o mau efeito das palavras de Evaristo , dizendo

 alegremente que , para provar ignorncia e tacanhez intelectual , ia

 brindar  Inspetoria do Jardim Botnico e mais  Flora brasileira .

 - Muito bem , muito bem , meu amigo - fez o visconde erguendo o copo .

 - O esposo da Sra. D. Adelaide estava bem para niilista , ao que

 vejo .
 Atira-lhe com um brinde  Flora .

 As palavras do visconde mereceram aplauso das duas senhoras .

 Adelaide e Branca saudaram-no entusiasticamente .

 - Bravo , senhor visconde , bravo - exclamaram as duas a um tempo .

 E Evaristo , esmagado pela maioria , bebeu tambm  sade do Jardim

 Botnico , " uma vez que o amigo Furtado e o ilustre senhor visconde

 faziam questo " .

 Beberam , e o champanha , caindo no estmago farto dos homens e das

 senhoras , trouxe-lhes ainda mais alegria e expanso .

 A prpria Adelaide tinha agora um brilho comprometedor nos olhos ,

 uma viveza fora do natural , e falava tambm , muito risonha ,

 inclinando a cabea no ombro de Branca .
 A mulher do secretrio

 lamentou a ausncia da viva Tourinho ; faltava uma senhora para

 completar trs casais , e a viva sabia se divertir como gente , era

 uma bela companhia .

 - E o desembargador ?
 por que no convidaram o desembargador

 Lousada ?
 - disse o marido de Adelaide , devorando um cacho de uvas .

 - Oh , Evaristo , voc ainda come ?
 - acudiu a jovem esposa do

 bacharel , cujas faces , ordinariamente plidas , tinham agora um

 ruborzinho quente .

 Furtado perguntou , ento , se ainda queriam tomar alguma coisa , e

 como todos recusassem , props novo passeio atravs das rvores .

 Ningum discordou da idia .
 Evaristo , porm , falou ao ouvido do

 secretrio , que lhe respondeu baixinho , acrescentando alto , para as

 senhoras e o visconde :

 - Podemos ir , podemos ir ; o Evaristo ir depois ...

 - Como , ir depois ?
 - perguntou Adelaide com um arzinho de riso .

 - Vo andando , que eu j os encontro - disse o bacharel

 misteriosamente. -  questo de minutos ...

 - Espera por ele , oh Raul - ordenou Furtado .

 E , oferecendo o brao a Adelaide ,  imitao do visconde , que j se

 apoderara de D. Branca , saiu do caramancho .

 O nmero de passeantes aumentava com o correr da tarde .
 O jardim

 ia-se enchendo de famlias e rapazes que percorriam as avenidas de

 chapu-de-sol aberto  luz das duas horas .
 Os sons da msica

 chegavam aos ouvidos distintamente na aragem acariciadora que

 soprava .
 Como que esmoreciam os tons vivos da paisagem , num desmaio

 lento ; o sol esfriava um pouco e o azul tinha agora uma cor

 poeirada de cinza , como um espelho que de repente se ofuscasse a um

 bafejo mido .
 Todas as coisas iam mudando de aspecto  proporo

 que se aproximava o fim da tarde .
 Os tons vivos iam-se traduzindo

 em tons melanclicos ; a natureza , cansada de luz , queimada pelos

 ardores do sol , numa indolncia outonal , volvia-se para o

 crepsculo , adivinhava a noite .
 O repuxo central do Jardim entoava

 a sua ladainha num ritmo blandicioso de cascata longnqua .

 Furtado queria se abrir com Adelaide agora que estavam ss ,

 dizer-lhe tudo quanto sentia por ela desde que a vira pela primeira

 vez , contar-lhe as suas insnias , o muito que a estimava , a

 extraordinria simpatia que ela lhe inspirava ; mas uma timidez

 amordaava-o , uma timidez de colegial , e , no fundo , um vago

 sentimento de compaixo pelo amigo , pelo Evaristo , seu velho

 contemporneo do Liceu , cujas qualidades , ontem como hoje , eram

 dignas do respeito que se deve a um chefe de famlia honesto e

 exemplar .
 Alm disso , temia qualquer movimento de indignao por

 parte de Adelaide ; ela talvez o repelisse , dando escndalo num

 lugar pblico , desabafando ali mesmo em face do visconde e de sua

 mulher , inutilizando-o .
 Mas logo esses temores desapareciam e

 voltava-lhe o nimo , a coragem de homem useiro e vezeiro nas pugnas

 do amor fcil .

 E j no pensava no Evaristo nem nas conseqncias de uma

 deslealdade infame , trancando o corao ao sentimentalismo e aos

 influxos nobres , abstraindo de tudo que no fosse o desejo

 criminoso e lbrico de aumentar o nmero das suas conquistas .

 Porque , em verdade , a presena daquela mulher tirava-lhe o sossego

 ntimo , arrebatava-o como a presena de outras igualmente

 respeitveis e a quem ele seduzira com os seus brilhantes e com as

 suas lbias , triunfando como um general invencvel .
 Apontava-as a

 dedo ; via-as passar na Rua do Ouvidor e saudava-as feliz e

 glorioso .
 Adelaide sorria-lhe e tanto bastava para que dentro dele

 se ateasse a chama rubra do desejo , lambendo-o vorazmente , como uma

 lngua de fogo , queimando-lhe o corao , escaldando-lhe o crebro .

 Ele ento apertava-a contra si , mordendo o beio , ameigando o

 olhar , com mpetos de explodir numa declarao formal , absoluta e

 suprema , como se estivesse de joelhos num confessionrio , e

 pedir-lhe , pelo amor de Deus , por vida de seus olhos , por tudo !
 que

 soubesse corresponder quela estima , quele amor , quela loucura .

 Adelaide ia rindo , muito satisfeita , no completamente fora do

 crculo de idias que preocupavam a Furtado ; de algum modo ela no

 estava muito longe de preferir o secretrio a Evaristo ; iniciada

 nos segredinhos de alcova por D. Branca , que lhe abrira os olhos 

 vida fluminense , tumultuosa e desregrada , na rua como nos sales ,

 vendo o exemplo de outras mulheres e da prpria Branca , Adelaide

 insensivelmente ia-se deixando absorver pelo meio que a cercava ,

 embora a educao que recebera na provncia , os hbitos ingnuos , a

 natural timidez , que ainda conservava , no cedessem logo a um

 primeiro impulso do corao .
 Ela notava as delicadezas de Furtado ,

 via-o quase sempre de olhos cravados no seu rosto como se quisesse

 adivinhar o que lhe ia n'alma , guardava o caso da moblia e dos

 duzentos-mil-ris e muitas outras provas de generosidade e fineza

 do secretrio ; mas atribua tudo a um sentimento de amizade para

 com Evaristo , a um impulso natural de velho companheiro de escola .

 Iam por uma alia sombria de bambus , cuja copa unia-se formando um

 tnel verde extenso , que se prolongava em ziguezague .
 s vezes o

 banqueiro desaparecia numa curva com a mulher de Furtado , e o

 secretrio conchegava o brao de Adelaide , numa presso meiga e

 voluptuosa , como se a quisesse envolver de carinhos , o olhar

 medindo toda a singeleza do seu perfil , resvalando-lhe na ctis do

 rosto e caindo apaixonadamente no pescoo que as rendas do pliss

 guarneciam de branco .

 As palavras dele , ungidas de ternura , ritmadas pela emoo ,

 Adelaide ouvia-as inquieta , e , instintivamente , apressava o passo ,

 medrosa , de estar ali sozinha " com um homem !
 " .

 - Como  escura esta avenida !
 - exclamou , de repente , erguendo os

 olhos para a copa dos bambus .

 Furtado estremeceu .

 - Escura , mas muito agradvel , no acha ?
 - murmurou quase ao ouvido

 dela .

 - Pelo contrrio ...

 - No diga pelo contrrio ...
 Leia os poetas .
 .. A solido convida

 ao amor ...

 Adelaide estranhou aquelas palavras e calou-se .

 O trajo branco do visconde assomou longe e tornou a desaparecer

 entre as rvores .

 A esposa do bacharel queixou-se de uma dorzinha de cabea ; o

 champanha lhe fizera mal .

 Ele tranqilizou-a , dizendo que o champanha no fazia mal a

 ningum ; que era uma bebida inofensiva como gua ...
 O vinho do

 Porto , sim , o vinho do Porto estragava o estmago .
 Mas no tinham

 tomado vinho do Porto ...

 - Ento  do sol .

 - E do muito sol que apanhamos .
 Eu mesmo sinto um fogo na cabea ,

 uma quentura no crebro .

 De repente o secretrio estacou ; descobrira um pequeno inseto cor

 de ouro no ombro de Adelaide .
 Colheu-o na ponta dos dedos e

 mostrou-lho .

 - Veja que bonito !

 -  verdade : lindo !

 - Naturalmente confundiu-a com alguma rosa ..

 - Que graa , senhor Furtado ...

 - E ento ?
 Admira-se de que eu a compare a uma rosa ?

 - Muito lindo !
 - repetiu Adelaide observando o insetozinho na palma

 da mo .

 Estavam agora frente a frente ocupados com a descoberta do

 coleptero , ele sem tirar os olhos dela , todo embebido na

 contemplao do seu rosto ideal .

 - O Evaristo gosta muito de insetos , vou guardar para ele .

 E depositou cautelosamente o besouro na bolsa de couro da Rssia

 que sempre trazia , dizendo :

 - Que demora de meu marido !

 - Anda s voltas , com o Raul .

 E no momento em que ela fechava a bolsa para continuar o passeio ,

 Furtado abaixou a cabea , num movimento nobre , e beijou-lhe

 audaciosamente a mo , oferecendo-lhe , ato contnuo , o brao .

 - Senhor !...

 Ia exclamando : - Senhor Furtado !...
 - num tom de admirao e de

 queixa ; mas , o inslito procedimento do secretrio gelou-a .

 Um beijo !...
 Faltava-lhe toda a coragem , toda a presena de

 esprito , para reagir no mesmo instante , lembrando ao marido de D .

 Branca o respeito que todo o homem deve a uma senhora casada .

 Penderam-lhe os braos , curvou a cabea , e em vez de uma exploso

 de palavras que demonstrassem a Furtado a sua indignao e o seu

 assombro , ela deixou que as lgrimas corressem como prolas de

 rosrio desfiado .
 Nunca homem algum se atrevera a tanto , nunca o

 seu pudor de mulher fora to cruelmente magoado como naquela

 ocasio e por um homem que devia ser o primeiro a respeit-la .

 - Adelaide ...
 - murmurou Furtado numa voz suplicante. - Zangou-se ?

 A jovem senhora no respondeu .
 Ia calada , muda , abafando o seu

 dio , enxugando as lgrimas .
 Compreendia agora os zelos do

 secretrio para com ela , a sua fingida dedicao ao Evaristo ;

 compreendia tudo ...

 Mas , ao mesmo tempo , compreendia a necessidade de ocultar aquele

 episdio revoltante " para no dar escndalo " , para evitar a clera

 de Evaristo e uma grande desordem , talvez , entre o secretrio e a

 mulher .
 Oh , infelizmente era preciso mostrar cara alegre , ainda que

 o corao estivesse sangrando ...
 Nunca lhe passara pela idia que o

 Sr .
 Furtado , um homem que se dizia to fino , to bem-educado ,

 abusasse da sua posio e de um momento como aquele para ...
 para

 beij-la , como se estivesse tratando com uma criadinha de famlia ,

 sem pejo nem nada !
 Era muita coragem e muita desfaatez !

 - D. Adelaide ...
 - repetiu Furtado aproximando-se dela. - Queira

 desculpar-me se a ofendi ...

 A esposa de Evaristo continuou no mesmo silncio obstinado , como

 uma pessoa que de repente perdesse a fala , indo maquinalmente pela

 avenida , sem ver as coisas , olhando para o cho fofo que seus ps

 iam pisando insensivelmente .
 De alegre que estava quando saiu do

 caramancho , tornou-se melanclica e indiferente s belezas do

 jardim e s fulguraes da luz .
 Doa-lhe a cabea com uma

 intensidade atroz .

 Furtado emudeceu tambm , penalizado , um pouco arrependido j ,

 receoso de que Adelaide no fosse cometer alguma imprudncia

 desabafando-se .
 Mordia o casto da bengala com um ar srio de quem

 cogita numa grave questo .

 Aventurou nova pergunta :

 - Quer que me ajoelhe e pea perdo ?
 Creia que foi uma loucura de

 que me confesso arrependido ...

 Adelaide suspirou levemente , como alvio , ainda sem responder .

 Neste instante a msica do outro lado do parque tocava uma habanera

 saudosa cujo eco ia morrer longe nas montanhas , penetrado de

 evocaes .
 O corao terno da esposa de Evaristo encheu-se de

 bondade e acordou subitamente da melancolia em que o deixara

 Furtado .
 Ela , porm , no tinha coragem de abrir a boca e dizer uma

 simples palavra , como se estivesse na presena de um estranho , de

 um desconhecido .
 Queria esquecer a ofensa que recebera do amigo do

 Evaristo , acabar com aquilo e continuar a viver como dantes ; o

 homem s vezes no  senhor de si ...
 Lembrava-se dos favores que o

 bacharel devia ao secretrio , da extremosa amizade de D. Branca e

 um sentimento de gratido penetrava-a desanuviando-lhe a alma ,

 restituindo-lhe o bom humor e a viso otimista da paisagem e das

 coisas ...
 No valia a pena zangar-se , amofinar-se por uma tolice ,

 de uma loucura ...
 Ningum vira o secretrio beijar-lhe a mo ,

 ningum ...
 ; a alia estava deserta como o interior de uma gruta

 longnqua .
 Para que ento , provocar escndalo ?
 Tambm no se deve

 ser muito escrupulosa ...
 deve-se desculpar , fechar os olhos a estas

 coisas .

 Furtado ouviu um rumor na areia .
 O Raul aproximava-se correndo ;

 atrs dele vinha o bacharel em passo ordinrio .

 - Eh , l !
 - gritou Evaristo. - Esperem ao menos pela gente !

 O secretrio voltou-se com Adelaide e riram ambos da filosofia

 ingnua daquele marido excepcional .

 - J te fazamos desertor !

 - A mim ?...
 Ufa , que j me no tenho nas pernas !...
 Desertor ?

 - Onde andaste h quase uma hora ?

 - Vendo as cascatas e os reservatrios ...
 Pergunta ao Raul !

 - Oh , que bonito , hem , senhor Evaristo ?
 Que bonito , papai !
 A

 cachoeira vem de l de cima da montanha rolando , rolando como uma

 chuva ...

 - Esplndido !
 - tornou o bacharel. - J no nos lembrvamos de

 vocs ...
 Que  do visconde ?

 - Vai l adiante com a Branca .

 - Papai , oh papai !
 - interrompeu o menino .

 - Que  , meu filho ?

 - Um homem estava tirando o retrato da cachoeira , com uma

 mquina ...

 - J sei .

 E para Evaristo :

 - D. Adelaide  que est com uma dorzinha de cabea .

 - Melhorei um bocado , j no di tanto - disse Adelaide .

 - E agora para onde nos atiramos ?
 - perguntou o bacharel .

 - Ao encontro do visconde e da Branca .

 Foram andando os trs , mais o Raul .
 Saram na grande alia das

 palmeiras , onde se achava o Santa Quitria de brao com D. Branca

 cm torno do repuxo , vendo cair a gua em fios dentro do

 reservatrio .

 - Ol , como esto embebidos !
 - exclamou o Furtado .

 O bacharel , por trs do secretrio , piscou maliciosamente o olho 

 esposa .

 -  verdade , como esto embebidos !
 - repetiu Evaristo .

 E aproximaram-se justamente na ocasio em que o Santa Quitria

 falava em voz muito baixa no seu escritrio na Rua da Alfndega ,

 onde havia uma alcova , toilette , jarro com flores , et coetera ...

 O instinto de D. Branca advertiu-a da aproximao de Furtado ; ela

 fez sinal com os olhos ao banqueiro e entraram todos a confabular

 alegremente .

 Estava reunida a troupe sem faltar uma s pessoa .
 O visconde

 consultou o relgio : eram trs e meia .

 - Cedo - murmurou .

 - Querem tomar alguma coisa ?
 - ofereceu o secretrio. - Um vermute ,

 um conhaque , um copo de gua gelada .

 Ningum queria ; em todo caso foram repousar  sombra do

 caramancho , enquanto o sol ainda estava quente .

 Adelaide aparentava a mesma fisionomia naturalmente ingnua do

 costume .
 Evaristo sempre despreocupado , no adivinhou , atravs do

 seu rosto , a mais leve contrariedade .
 J se habituara queles

 longes de melancolia , que eram a verdadeira expresso do olhar da

 esposa .
 D. Branca notou porm um tom cerimonioso na voz do Furtado ,

 quando este se dirigia a Adelaide .
 Desconfiana , talvez , mas

 notara ...
 e ela que conhecia bem o gnio do esposo , imaginou logo o

 fio de uma secreta histria de amor ...

 As cinco horas , nova refeio desafiava o apetite do bacharel e do

 Raul , somente deles , porque as outras pessoas torceram o nariz 

 galinhola e  maionese de salmo ; contentaram-se parcamente com uma

 fatia de queijo holands , um pouco de marmelada e vinho de

 Bourgogne .
 O visconde acrescentou gua de Selters , limpando o

 bigode com cerimoniosa fidalguia .

 Evaristo e Raul  que no dispensaram a comezaina e entraram , de

 rijo , na asa de galinha e na maionese .

 - Vocs no sabem o que esto perdendo !
 - excitava o bacharel , sem

 cerimnia , trincando as azeitonas. - Um bocadinho de maionese ,

 Adelaide !

 O Raul achava graa nas palavras e no apetite de Evaristo e ria

 mastigando , com um risinho dobrado e sonoro que fazia os outros

 rir .

 - Ento , D. Branca ?
 Mostre ao menos que  filha do sul !

 - No , senhor Evaristo , muito obrigada - sorriu corando a elegante

 fluminense .

 - E o senhor visconde ?
 e o amigo Furtado ?
 Olha que gente !...

 Abriam-se garrafas de vinho .
 O Antnio sempre alerta movimentava o

 quadro , exibindo as suas qualidades de copeiro que ama o ofcio .

 - No vs indigestar ...
 - advertiu o secretrio ao filho .

 No mesmo instante Adelaide recomendava ao marido que " tivesse

 cuidado com a maionese " .

 A luz do sol desmaiava num crepsculo cheio de misteriosas

 paIpitaes .
 Descia das montanhas um ar mido ; o som das cascatas

 vinha impregnado do aroma da floresta , como se dele fizesse parte ,

 e evocava , aquela hora , longes de natureza tropical , saudosas

 ave-marias da infncia ...
 O parque com as suas rvores colossais ,

 com os seus renques de palmeiras , com os seus tneis de verdura e

 com as suas plancies de grama , onde brotavam pequeninos eucaliptos

 e obscuros vegetais de famlias obscuras da ndia e do norte da

 Amrica - o grande parque ia-se revestindo de melancolia e cada

 rvore com a sua etiqueta explicativa tinha um ar fnebre de

 cemitrio ...

 - Agora podemos ir - disse Evaristo - , mesmo porque vem caindo a

 noite ...

 Dirigiram-se todos para o porto do Jardim .

 Captulo V

 Adelaide recolheu-se triste naquela noite ; por maiores esforos que

 fizesse , no podia esquecer a afronta do secretrio aos seus brios

 de mulher casada , e o que mais a impressionava era o desplante , o

 cinismo audacioso com que ele a beijara ...
 - Que coragem de homem ,

 Senhor !
 Quase  vista de todos , em pleno Jardim Botnico , num lugar

 pblico !
 Eis a quando a gente perde a cabea e comete uma loucura ,

 eis a !

 Depois falam , depois no do razo , e uma mulher v-se obrigada

 sofrer os maiores insultos , porque tem medo de que lhe acontea

 pior ...

 J h dias notara certas liberdades de Furtado , certa maneira de

 lhe falar , de lhe dizer as coisas baixando a voz , ameigando o

 sotaque , olhando-a insistentemente ; j h dias notara ...
 mas ,

 palavra de honra como no supunha o marido de D. Branca um homem

 sem escrpulos , um sedutor , um amigo desleal ...
 Pobre Evaristo !
 nem

 sequer imaginava ...

 E caa-lhe n'alma um desgosto , uma tristeza , um cansao da vida , um

 peso enorme .
 Oh , quanto mais para dentro da civilizao , mais

 horrores , mais espinhos , como no interior de uma floresta de

 cardos , povoada de insetos venenosos .
 Homens e mulheres traem-se

 com a mesma facilidade com que se juram amar eternamente uns aos

 outros .
 Bem lhe diziam na provncia que o Rio de Janeiro era um

 centro de perdio , uma Babilnia de vcios , bem lhe diziam !...

 Melhor prova ela no podia ter : o Sr. Lus Furtado , aristocrata de

 Botafogo , pai de famlia , mostrava-se dedicado aos outros para

 poder abusar .. E assim era tudo .

 O crebro de Adelaide enchia-se de consideraes , enquanto Evaristo

 mergulhava num sono calmo e reparador .
 O bacharel no esperou pela

 hora habitual de se deitar , fatigado do passeio , com uma invencvel

 morrinha no corpo , os olhos ardendo , a vista turva , esvaziou uma

 moringa d'gua fresca e estendeu-se na cama , na bela cama de casal .

 " No era de bronze para resistir s conseqncias de um

 piquenique !
 " E dormia , o Evaristo , como o mais feliz de todos os

 bacharis .

 Adelaide  que no podia dormir , apesar de cansada tambm .
 Era

 maior a preocupao moral que o sono .
 Ouviu bater oito horas , nove ,

 dez , onze , meia-noite , e o crebro a trabalhar , a funcionar como

 uma mquina de alta presso .
 Chocavam-se nela as mais

 desencontradas idias : ora Furtado parecia-lhe um homem sem

 carter , indigno da amizade de Evaristo ou de quem quer que tivesse

 um bocado de vergonha , ora afigurava-se-lhe cavalheiro distinto ,

 com todas as virtudes e defeitos ( no h homem sem defeitos ...
 ) da

 sociedade em que vive .
 Ao mesmo tempo que o condenava por lhe ter

 beijado a mo , ferindo-a no seu amor-prprio , intimamente o

 perdoava , lembrando-se de que talvez ele a amasse deveras e o amor

  cego , o amor no quer saber de razes ...
 Quem sabe ?
 ele talvez a

 amasse , talvez lhe consagrasse alguma estima particular e fora de

 suspeitas criminosas .
 Beijou-a porque ...
 porque no teve foras

 para se dominar ...

 A conscincia , porm , dizia-lhe baixinho que uma mulher casada , uma

 mulher que se ligou a um homem para toda a existncia ,  objeto que

 outro homem no deve tocar nem de leve , ainda mesmo a pretexto de

 amizade fraternal ou de sagrada admirao ; e a esposa que se deixa

 beijar por um homem , que no  o seu legtimo marido , tem na

 sociedade o feio nome de adltera .
 Vinha-lhe , ento , um arrepio

 nervoso , uma sensao de remorso por no ter energicamente repelido

 o secretrio , mesmo com escndalo , embora casse sobre ela todo o

 dio de Furtado e de D. Branca ; acima deles estava a sua dignidade

 e a honra de Evaristo .
 No meio dessas idias , e como uma apario

 bendita , surgiu-lhe a figura de Balbina , a preta velha de

 Coqueiros , e uma lgrima triste , uma lgrima de saudade embebeu-se

 no travesseiro da meiga esposa do bacharel .

 Evaristo roncava .

 No outro dia falou-se muito no piquenique ; todos tinham gostado

 imenso .
 A correo do visconde , o ar fidalgo que ele no perdia

 mesmo entre amigos , a toilette com que se apresentava , as suas

 delicadezas mereceram especiais referncias de D. Branca .

 O secretrio no esteve muito loquaz ao almoo ; dava uns apartes

 tmidos e avanava um ou outro juzo irnico sobre o passeio da

 vspera , lamentando as dores de cabea de Adelaide e a eterna

 circunspeco do visconde. - " Afinal , a verdade  que ningum se

 divertira .
 Resultado : um passeio de burgueses , um piquenique

 fnebre !
 "

 - Fnebre por qu ?
 - saltou Evaristo. - Vocs  que no sabem se

 divertir ; eu pelo menos fiz honra  confeitaria Pascoal e gozei o

 que h muito no gozava : o aspecto da nossa natureza , a sombra de

 uma rvore e a frescura de um veio d'gua .
 Nesta imperial cidade ,

 onde a vida do rei  o que de mais precioso existe , vale a pena um

 homem sair dos seus cmodos para respirar o ar livre do Jardim

 Botnico ou de outro jardim qualquer .
 Ns  que no sabemos gozar o

 que possumos .
 O imperador absorve o crebro e o corao deste

 povo ...

 - Deixe o velho , Sr. Evaristo , Sr. Evaristo ...
 - fez D. Branca. -

 O imperador  um bom homem .

 - Ningum diz o contrrio ; mas o Brasil ainda  melhor que ele ...

 - A vem poltica !
 - murmurou Adelaide , que at a no dera

 palavra .

 Furtado olhou-a e sorriu ; ela abaixou os olhos gravemente .

 O resto do dia passou calmo .
 Adelaide subiu , depois do almoo , como

 s vezes costumava , e foi ler os jornais .
 Estava resolvida a

 mudar-se daquela casa antes que estalasse algum escndalo .

 Mas a insistente idia de Furtado no a abandonava e todo o santo

 dia pensou nele , como num objeto querido , e nas histrias de amor

 que lhe contara D. Branca .
 Como exigir de Evaristo uma mudana

 brusca , ela que nenhuma razo podia alegar contra o sobrado ou

 contra a famlia do secretrio ?
 Dizer-lhe simplesmente que no

 estava bem ali era uma imprudncia , tanto mais quanto as suas

 relaes com a esposa de Furtado eram estreitssimas e ela sempre

 fizera grandes elogios  casa e ao prprio marido de D. Branca .

 Antes esquecer , antes esquecer tudo e apresentar-se alegre , fazendo

 pela vida como os outros , no estorvando os projetos de Evaristo ,

 aceitando os homens como eles so - desleais e corruptos ...
 Que

 podia ela s contra uma sociedade inteira , contra milhares de

 pessoas ?
 Nada , absolutamente nada .
 Homem e mulher vivem conforme a

 sociedade os obriga a viver , fingindo no perceberem aquilo que

 lhes est entrando pelos olhos ; a mulher principalmente , a mulher 

 um ente nulo , uma criatura sem vontade , uma pobre mquina dos

 caprichos do homem .
 Triste daquela que , instigada pelo

 amor-prprio , arrebatada por um movimento de dignidade feminina ,

 rebelar-se contra o jugo do meio em que vive !
 No lhe faltaro

 apodos , nem grosseiras aluses ...

 Na sua simplicidade provinciana a jovem esposa do bacharel comeava

 a compreender o papel inferior da mulher na civilizao , e traava

 mentalmente um programa de vida , uma linha de conduta humilde e

 utilitria sobre as bases que lhe fornecera a experincia de alguns

 meses .
 O Rio de Janeiro aparecia-lhe agora sob um aspecto novo e

 convencional .
 Furtado representava , a seus olhos , o homem moderno ,

 capaz de todas as perverses , de todas as hipocrisias , colocando

 acima da dignidade prpria , o sensualismo , os gozos inconfessveis ,

 a luxria sob todas as formas e as exibies pblicas de toilettes

  ltima moda .
 Notara , no piquenique , a insistncia com que o

 visconde de Santa Quitria se dirigia a D. Branca , levando-a pelo

 brao a passear no Jardim , fora das vistas do secretrio , enquanto

 este , por seu turno , ia maquinando o melhor meio de pr em prtica

 uma traio ao amigo ...
 e essas e outras coisas enchiam-lhe o

 corao de descrena e de pesar .
 O verdadeiro - a prudncia lho

 dizia - era fechar os olhos a tudo e esperar que Evaristo se

 convencesse da asquerosa realidade ...
 Ela nunca o havia de trair ,

 isso nunca !
 Preferia morrer , preferia suicidar-se ...
 Queria-o

 muito , orgulhava-se em o ter como esposo de sua alma .
 Ou a mulher

 ama o homem com quem vive e , se o ama , no o pode trair , ou no o

 ama e , neste caso ,  a pior de todas as mulheres de vida fcil ,

 porque diz hipocritamente que o ama para ,  sombra de um

 responsvel. cometer infmias .
 No , ela havia de respeitar seu

 maridinho enquanto Deus lhe desse juzo .

 Arrumou a casa , espanou os mveis , passou uma vista nos jornais e

 sentou-se entregue s suas reflexes , o esprito alvoroado pelo

 enxame das idias , num grande silncio de tugrio que nenhum

 estalido quebrava .

 D. Branca , p ante p , foi encontr-la na cadeira de balano , a

 olhar o teto , numa abstrao infinita , rodeada de jornais .

 - Boa vida !
 - exclamou , com um sorriso afetuoso , a mulher de

 Furtado .

 Adelaide teve um pequeno sobressalto : " - Oh !...
 Estava pensando ...
 "

 - Estava pensando !
 Isso  grave ...
 Cai ou no cai o ministrio !
 O

 imperador vai ou no vai  Europa ?

 A outra endireitou-se na cadeira , passou a mo nos olhos , como quem

 acorda , e suspirou de leve .

 - Olhe que a vida  curta , menina , olhe que a vida  curta -

 repetiu a amiga em tom conselheiro .

 - E os desgostos so muitos ...

 - Qual desgostos , criatura !
 Uma mulher nova e bonita no pode

 queixar-se .

 E sem transio , D. Branca aludiu ao piquenique .
 Adelaide gabou a

 festa , para no contrariar a esposa do secretrio , recordou o

 champanha , os ditos espirituosos do senhor Furtado e ,

 propositalmente , no falou no visconde .

 D. Branca , ento , sem estranhar o silncio de Adelaide , fez o

 elogio de Santa Quitria , enaltecendo-lhe os modos , " a impecvel

 distino com que ele tratava uma senhora , a extrema delicadeza que

 punha nas palavras e nos menores gestos " , concluindo que o visconde

 era , na sua opinio , " o que se podia desejar de tout  fai chic " .

 - Ele parece simpatizar muito com a senhora .

 - Comigo ?
 Oh no , nem diga tal coisa !

 - Por qu ?

 - Porque no  bom , pode algum ouvir e eu no quero - Deus me

 livre - uma questo com o Furtado ...

 O certo , porm ,  que D. Branca exultou intimamente com as palavras

 de Adelaide. - " Era , ento , verdade que o visconde parecia

 Simpatizar com ela ...
 Que lembrana ?...
 "

 Ia animada a palestra , quando a campainha soou embaixo e vozes

 repercutiram na escada .

 Eram os dois amigos que voltavam juntos do Banco .

  noite ainda se falou no piquenique , tema inesgotvel das

 conversaes daquele dia .
 Ningum se lembrava de outra coisa ; o

 piquenique no Jardim Botnico era a grande novidade , o grande

 acontecimento .

 Adelaide estava mais expansiva ; trocou algumas palavras ,

 diretamente com o secretrio , emitiu opinies , teve risos gostosos ;

 enfim , j no era a mesma que D. Branca surpreendera com os olhos

 no teto , a pensar e que se conservara silenciosa ao almoo ,

 enquanto as outras pessoas comentavam o piquenique .

 As noites eram mais frescas ento ; respiravam-se as primeiras

 brisas do equincio das flores , o sol ia perdendo a intensidade

 abrasadora e caniculante que afugentara para Petrpolis e Friburgo

 os satlites imperiais do monarca .
 A vida fluminense , por assim

 dizer interrompida com a ausncia da aristocracia palaciana ,

 voltava a funcionar ,  verdade que sem o estmulo habitual , porque

 a sabedoria de Hipcrates ordenava ao imperador uma retirada para o

 outro continente , e os olhos do povo e da nobreza cedo comeavam a

 chorar a ida inevitvel do augusto e perptuo defensor do Brasil .

 Voltavam tristes as andorinhas de Petrpolis , e essa tristeza

 comunicava-se ao meigo rebanho que atravessara dezembro e janeiro

 ao sol , enquanto a asa negra da febre amarela estendia-se pavorosa ,

 sobre a herica cidade .

 Os jornais , numa faina lgubre , pediam contas ao governo sobre o

 verdadeiro diagnstico da imperial molstia e j se dizia por toda

 a parte que " o rei ia , mas no voltava ...
 - Diabetes ...

 glicosria ...
 surmenage ...
 eram palavras que enchiam a Rua do

 Ouvidor subindo e descendo com os transeuntes. - Quem ficava no

 trono !
 Quem se responsabilizava pelos destinos da grande ptria

 americana ?
 Toda a gente sabia que era a princesa , mas toda a gente

 perguntava : - Quando era o dia do embarque ?
 - e cada boca era uma

 interrogao e cada olhar uma profecia .
 Republicanos ,

 abolicionistas , em concilibulos secretos , viam na doena do

 imperador o triunfo das novas idias , a conquista da liberdade , a

 grande hora da fraternizao brasileira ...
 " E reduzido s mseras

 propores de invlido , o segundo Alcntara , bisneto da Sra. D .

 Maria I , universalmente conhecido pelos seus versos ao bom povo

 ituano e pelo seu amor s letras , que na Europa dava-lhe foros de

 primeiro poeta do Brasil - O celebrado amigo de V. Hugo e das

 canjas do Teatro Lrico ia sulcar o Atlntico para bem do povo e

 felicidade da nao , desse povo que tanto o amava e dessa nao que

 ele governava h meio sculo .

 Povo e nao volviam os olhos para a Tijuca  espera de que sasse

 o augusto enfermo , com o seu prstito de ulicos e turiferrios ,

 humilde agora mais do que nunca , dentro de um cup imperial ,

 abatido e tristonho na grande dor que o pungia ...
 Quantas pessoas

 ainda no o tinham visto e queriam v-lo agora no embarque !
 As ruas

 haviam de se encher , as ruas e as praas quando os clarins dessem

 sinal da aproximao d'Ele .
 Oh , havia de ser um espetculo

 comovedor , uma tristeza enorme , um pranto geral nos palcios e nas

 choupanas , onde quer que brilhasse a fama do seu queridssimo nome .

 Os republicanos mesmo no se conservariam insensveis .

 - Porque - dizia , numa roda , o secretrio - vocs podem negar tudo ,

 menos que o imperador seja querido pelos brasileiros .

 A roda compunha-se dele Furtado , de Evaristo , de Valdevino Manhes ,

 do deputado Ismael Pessegueiro , de Alagoas , e do Freitas Camargo ,

 outro poeta , companheiro do Manhes na Revista Literria .

 O tema era a viagem do imperador da a alguns dias .
 Estava-se em

 fins de maio .
 Aboletados ao redor de uma mesinha no Casteles , cada

 um expunha o seu juzo acerca do monarca e da imperial viagem 

 Europa .
 O secretrio do Banco apelava para a conscincia de todos :

 - era ou no estimado no Brasil o imperador ?

 Valdevino Manhes , cavalgando o pincen afetadamente , e cruzando as

 pernas com um ar doutoral , lembrou as suas tradies republicanas e

 disse que , apesar de nunca ter merecido favor nenhum do Imprio ,

 no ousava negar a estima do povo ao rei ; mas isso no queria

 significar adeso eterna do povo s instituies monrquicas : era

 um sentimento pessoal , uma generosidade afetiva , um respeito mesmo

 s barbas brancas do velho ...

 - Engana-se , amigo - interrompeu o representante de Alagoas calmo ,

 sem se mover na cadeira , fitando os olhos no Dr. Condicional. -

 Pedro II enraizou a monarquia no Brasil , e , ainda que tivssemos o

 desgosto de lamentar a sua morte hoje ou amanh , o Brasil havia de

 ser sempre Imprio do Brasil , nunca uma repblica .
 Desejar o

 sistema republicano para o nosso pas  querer a runa de uma das

 maiores naes do mundo .
 Veja o senhor a Inglaterra .

 - Exatamente - apoiou Furtado .

 - A Inglaterra  uma nao decadente !
 - berrou o Manhes. - No h

 termo de comparao entre a Inglaterra e o Brasil .
 O Brasil um pas

 novo , ainda nas faixas infantis ...

 - Por isso mesmo , por isso mesmo !
 - argumentou o deputado. - Os

 pases novos precisam de um freio , como o indivduo na infncia .

 Qual freio , Sr. Doutor !
 De freio precisam os burros , e ns somos um

 povo inteligente , um povo que no precisa de freios nem de

 monarcas .
 A repblica h de se fazer , creia !

 O alagoano , que pela primeira vez tratava com o Manhes ,

 estranhou-lhe o modo agressivo com que discutia e no retrucou .

 Valdevino continuou a falar no meio do silncio dos companheiros ,

 no perdendo ocasio de aludir  sua viagem  Europa e ao bom

 acolhimento que tivera em Lisboa .

 Camargo apoiava tudo quanto ele dizia por esprito de coleguismo e

 em ateno ao diretor da Revista .
 Mas Valdevino lembrou-se de que

 se comprometera a jantar no Globo com uns rapazes , e ,

 estabanadamente , despediu-se de todos .
 Foi ento , s ento , que o

 Camargo abriu a boca , para dizer que o Valdevino era um idiota , uma

 besta !

 Ismael Pessegueiro olhou Furtado e baixou a cabea .
 Evaristo , mais

 positivo e menos convencional , estendeu a mo ao poeta :

 - Toque , amigo !
 O senhor agora disse tudo o que muita gente pensa e

 no tem coragem de dizer .

 - Um homem que vive a escrever asneiras e a rabiscar sujidades !
 Um

 repetidor de frases ocas !
 Porque veio da Europa , entende que  j

 um mestre , um alto personagem nas letras ...
 Uma cavalgadura  o que

 ele  !

 - Pobre Valdevino !...
 - lamentou Furtado ironicamente .

 - Pobre Dr. Condicional !
 - fez Evaristo .

 -  o que lhes digo - continuou o poeta. - Quando Ramalho Ortigo

 aqui esteve , no Rio , a primeira pessoa que correu a beijar-lhe os

 ps foi ele , o Valdevino .

 - Os ps ou as mos ?
 - inquiriu malicioso , Evaristo .

 - Os ps ...
 que ele quando adula  para beijar os ps .
 Em

 literatura , como em poltica ,  um rafeiro dos medalhes ...

 - Oh !...
 - balbuciou com um risinho especial o representante de

 Alagoas .

 - Pode acreditar , doutor !
 O Valdevino Manhes  conhecido na Rua do

 Ouvidor ; toda a gente sabe de quanto  capaz aquele idiota ...

 O secretrio interveio com uma pilhria .

 - Vocs esquecem-se de que esto a falar do autor do Juca Piro ...

 - Belo ttulo de uma obra : Juca Piro - continuou Camargo. - Vejam

 vocs at onde pode chegar a estupidez humana !

 - E  verdade que existe essa obra ?
 - perguntou o deputado .

 -  , doutor , infelizmente  !
 Faa o senhor idia : um livro com o

 ttulo de Juca Piro !

 O Dr. Ismael carregou uma risada cheia de sarcasmo .

 - Deixem o pobre homem ...
 suplicou o Furtado. - O Valdevino  uma

 boa criatura ...

 - Ouvi dizer que tem a mania do renome literrio ,  verdade ?
 -

 perguntou o Evaristo ...

 - Mania que o h de levar ao hospcio - resmoneou o Camargo .

 - Esses literatos , esses literatos ...
 - disse com mistrio o

 Holanda .

 - Vivem se digladiando !
 - acabou Furtado. - Queres mais cerveja , oh

 Camargo ?

 - No , no , merci ...

 - Doutor , outro copo ...

 - Obrigado ...

 - E tu , Evaristo ?

 - Eu tambm recuso .

 - Ento podemos levantar acampamento .

 Ergueram-se os quatro fumando , com grandes ares de capitalistas .

 A Rua do Ouvidor estava num de seus dias de festiva alacridade ,

 inteiramente cheia , como um rio a transbordar , tumultuoso ,

 murmurejante e iluminado por um sol acariciador de primavera .
 Iam e

 vinham os habitus de ambos os sexos , numa procisso de toilettes

 vivas , num burburinho de festa pblica entrechocando-se ,

 acotovelando-se .
 Famlias conversavam  porta das lojas , moas e

 velhas madamas , senhoras de todas as idades e de todos os tamanhos ,

 rindo , como se estivessem no interior de suas casas , beijando-se

 alto , enquanto os pais e os maridos discutiam poltica  porta dos

 cafs ,  espera que elas acabassem de " fazer as compras " .
 Ecoavam

 gargalhadas entre os homens .
 Uma banda de msica a tocar polcas e

 valsas faria toda aquela gente esquecer-se de que estava na Rua do

 Ouvidor e cair num grande bailado ao ar livre .
 As maiores

 notabilidades da poltica , da literatura e das artes , os mais

 conhecidos escritores e homens de Estado viam-se ali , em grupos , 

 porta do Caf de Londres , do Casteles ou do Pascoal , frechando ,

 com o olhar , o madamismo suspeito e as demoiselles ricas ,

 assistindo ao desfilar tumultuoso das cocotes , e das condessas ,

 biografando-as uns aos outros com risinhos de inveterada malcia ,

 observando-lhes o andar , os meneios , a toilette , a opulncia das

 carnes , como se as quisessem devorar num mpeto de canibalismo

 sexual , acompanhando-as a perder de vista , gulosos , famintos e

 banais .
 Moos de flor ao peito , no rigor da moda , alguns chegados

 de Paris , iam e vinham , numa ostentao pedantesca de polainas , de

 casimiras claras , de coletes brancos e de frases tolas ,

 cumprimentando  direita e  esquerda , erectos como figuras de

 vitrina .
 Os armazns de modas enchiam-se ; enchiam-se os cafs e as

 confeitarias , e o zunzum aumentava de entontecer , dentro das lojas

 e na rua .

 - Sabes quem  aquela , oh Evaristo ?
 - disse , parando , o secretrio .

 Indicava uma senhora de presena estranha , muito bem vestida , que

 ia pelo brao de um cavalheiro , na outra calada .
 Um movimento de

 ansiosidade propagou-se no trecho da rua .

 - Quem  ?

 - A baronesa de Lima-Verde , uma das mulheres mais formosas do Rio

 de Janeiro ...

 - Oh !...
 Vai com o marido ...

 - Isso  o que ainda no est suficientemente provado .

 - Que queres dizer ?

 - Afirmam uns que o marido , o baro , passeia na Europa e que ela , a

 baronesa ...
 no gosta de andar s ...

 - Aquele senhor  ento o cunhado , o irmo ...

 - Qual cunhado , nem qual irmo !
 Aquele senhor  scio de uma firma

 de capitalistas ...

 O bacharel compreendeu a aluso e exclamou , voltando-se para o

 objeto do dilogo :

 - Que ests dizendo ?

 - No achas formosa ?

 -  realmente uma beleza ...
 Mas ento ...

 - Fecha os olhos , Evaristo , fecha os olhos ...
 e no queiras saber

 de mais nada .

 Furtado , porm , resumiu em poucas palavras a crnica da baronesa ,

 citando nomes com um perfeito conhecimento de cousas .
 Entre os

 adoradores da ilustre senhora estava o visconde de Santa Quitria .

 - O Santa Quitria !

 - Ele mesmo , e no te admires , porque outros de maior sisudez fazem

 a corte  baronesa .

 O Camargo e o deputado Ismael tinham-se despedido .
 Os dois amigos

 subiram a Rua do Ouvidor , no meio de torvelinho geral , afastando-se

 a cada instante para deixar passar as senhoras , rompendo a

 multido , esgueirando-se com as paredes , esbarrando com os

 transeuntes , aos encontres , s apalpadelas quase .

 No Largo de So Francisco um golpe de ar bafejou-os de improviso ,

 como se sassem de um tnel .

 - Caramba !
 - exclamou o secretrio. - A Rua do Ouvidor s quintas 

 um formigueiro !
 Nunca vi tanta gente !

 - Olha daqui ...
 olha daqui !
 - insistiu o bacharel , voltando-se no

 meio do largo , para a famosa artria que regurgitava .

 Era um espetculo curioso .
 A rua muito estreita , com os seus

 sobrados de dois a trs andares , com os seus arcos de iluminao ,

 com as suas bandeiras , tinha o aspecto movimentado de uma pequena

 cpia de bulevar em dia de festa .
 Embaixo a massa negra e compacta ,

 ondulando como uma procisso vista de longe , e um sibilar de vozes

 indistintas como o vago rumor de uma colmeia alvoroada .

 - Queres que te diga o efeito que isso me produz , oh Furtado ?

 - ?

 - Lembra-me o caos , o misterioso , o incompreensvel , a vertigem dos

 abismos ...
 o grande nada dos heris que dormem ...

 - Do vasto pampa no funreo cho !
 - concluiu o secretrio arguendo

 o brao numa pose oratria .

 E fitando o bacharel :

 - Ests apocalptico , homem !
 Olha , no vs fazer como no Jardim

 Botnico , onde assassinaste barbaramente , creio que o Garrett ou o

 Alexandre Herculano ...

 - Pois  o que me parece a tal Rua do Ouvidor , e a comparao , se

 no  original , tem o mrito de exprimir exatamente o que eu quero

 dizer .

 E Evaristo dava s palavras um tom de ironia bomia sublinhando-as

 com um risinho custico e prfido .

 - Nunca hs de ser coisa alguma , porque vives a criticar a

 humanidade , e a humanidade o que quer  que a gente no veja os

 seus ridculos e as suas fraquezas .

 - Pior !
 Achas que eu me devo subordinar aos caprichos da

 humanidade !...

 - Que remdio tens tu !...

 - O remdio dos incurveis : a pacincia ...

 - Bem , o lugar no se presta a discusses .
 Enfiemos outra vez pela

 Rua do Ouvidor .

 - Outra vez ?

 - Para tomar o bonde de Botafogo ...

 Mas uma surpresa estava reservada ao secretrio .
 Justamente na

 ocasio em que o bacharel passava diante da Notre Dame de Paris ,

 deram de ombros com D. Branca e Adelaide .

 - Oh !

 - Oh !

 A mesma exclamativa saiu da boca de Furtado e da esposa .
 Evaristo

 soltou um ol !
 fino , esganiado e to alto que algumas pessoas

 voltaram-se com um movimento de viva curiosidade .

 - As senhoras por aqui !
 - estranhou o bacharel .

 - Por aqui !
 ...
 - repetiu Furtado .

 - Que grande admirao !
 E os senhores tambm no andam passeando ?
 -

 ops D. Branca com um olhar interrogativo por trs do vu que lhe

 cobria o rosto .

 Adelaide esperou , sorrindo , a defesa da amiga .

 - Ns somos homens ...

 - Morreu o Neves !

 - amos ao Banco - disse Adelaide .

 - Com escala pelo Largo de So Francisco ...
 - atalhou o bacharel .

 Nada de escndalo , nada de escndalo !
 - preveniu Furtado. - J

 agora ...

 - J agora vamos fazer um lanche ao Pascoal - interrompeu a esposa

 do secretrio .

 E os dois casais , bras dessus , bras dessous , foram andando rua

 abaixo tranqilamente .

 Eram duas horas da tarde .
 A onda de povo crescia ; o movimento era

 cada vez maior nos cafs ; ouviam-se orquestraes de harpa e o

 prego montono de leiloeiros destacando no meio da vozeria dos

 transeuntes .

 Logo depois do almoo D. Branca sem dizer nada ao marido , convidara

 Adelaide para " uma volta na Rua do Ouvidor " .
 A tmida esposa de

 Evaristo , guardando os seus escrpulos e as suas convenincias de

 mulher bem casada , objetou-lhe o desgosto que isso podia causar ao

 bacharel .

 - Vais comigo , filha , vais com a tua amiga .

 - E o Sr .
 Furtado ?

 - O Furtado no ralha , porque sabe que  perder tempo .
  uso no Rio

 de Janeiro as mulheres sarem sem os maridos .
 Uma coisa to velha !

 Outro dia fomos , eu e D. Sinh do desembargador ...

 - Outro dia ?

 - Vocs ainda no estavam aqui ; foi num sbado ...
 Pensas que o

 Furtado se incomodou ?
 Qual !

 - D. Branca !
 - fez a outra com um ar medroso .

 - No  nenhuma admirao , mulher .
 Metemo-nos no bonde , como quem

 vai fazer compras  cidade , sem mistrios , aos olhos de todo o

 mundo .

 Adelaide no se resolvia .
 " - Sair sem Evaristo e logo para a Rua

 do Ouvidor !...
 Hum !...
 "

 - Qual um , qual dois , rapariga ; vista-se e vamos , que  meio-dia .

 - D. Branca , D. Branca !

 - Pior !
 ...

 - ...
 Mas a senhora se responsabiliza , ento ...

 - Responsabilizo-me pelo que voc quiser .

 - Bem ...
 depois , depois !
 ...

 E Adelaide atrada pelas cavilaes da esposa do secretrio ( sempre

 frtil em expedientes ) , levada mesmo por um irresistvel amor de se

 mostrar , de se apresentar , de exibir os seus formosos olhos numa

 rua to pblica , de ver as suas iniciais num jornal que descrevia

 as toilettes da Rua do Ouvidor .

 Adelaide correu , lpida , ao guarda-vestidos .

 - Olha , o de rendas , hem !
 - lembrou a amiga .

 - Sim , o de rendas ,  claro ...

 E da a pouco um aroma fino , de sabonete , de p-de-arroz e de

 essncia de Houbigant espalhava-se em toda a casa - no primeiro e

 no segundo andar - ; fechavam-se gavetas com aodamento , farfalhavam

 sedas e tiniam jias .
 D. Branca por um lado e Adelaide por outro ,

 esmeravam-se nas toilettes como se fossem a um baile ou a alguma

 festa de rigor .

 - Pronta ?

 - Pronta ...
 - respondeu a esposa do bacharel , dando um jeito no

 vestido , ao mesmo tempo que se revirava para o grande espelho do

 toucador .

 E saram de chapu-de-sol aberto , uma jovialidade infantil , pelas

 ruas de Botafogo , a tomar o bonde .
 Os passageiros olhavam-nas com

 esse olhar curioso e indiscreto que s vezes confunde uma mulher

 honesta com uma horizontal .
 Adelaide ia um pouquinho no ar , um

 bocadinho gauche , s voltas com a luva da mo esquerda que no

 queria abotoar , sempre tmida , em contraste com os modos vivos da

 esposa do secretrio .

 Um senhor de culos e barba grisalha cumprimentou-as .

 - Quem  ?

 - No conheo ...

 - Nem eu ...

 D. Branca no se lembrava , ou fazia que se no lembrava : era um dos

 titulares de Botafogo , o comendador Beltro , dono de uma grande

 fbrica de cigarros .
 No gostava de cumprimentar os homens de

 fisionomia idosa. - " Ora , o Beltro ...
 um velho !
 "

 - E se encontrarmos o Sr .
 Furtado ?
 - balbuciou Adelaide .

 - Melhor ...
 voltamos em boa companhia .

 Mas o pensamento da jovem senhora estava no outro , no bacharel , no

 Evaristo. - Que diria ele , depois ?
 Que ela j o no consultava em

 seus negcios , que no era a mesma Adelaide , que no fazia caso

 dele , talvez ...
 E como explicar a sua ida  Rua do Ouvidor , como

 convenc-lo de que D. Branca a arrastava responsabilizando-se

 perante ele , como ?
 Os homens no acreditam facilmente nas mulheres ,

 enquanto no as vem chorar , enquanto no as vem de rojo a seus

 ps ...
 H dois anos que eram casados e nunca Evaristo duvidava das

 suas palavras ; mas agora , no Rio de Janeiro ...
 quem sabe ?
 talvez

 no as aceitasse logo , como na provncia .
 Outras idias .
 O mundo 

 todo cheio de contradies ...

 - Vamos voltar ?
 - props ela  amiga .

 E ia pretextar uma dor de cabea , uma dor no fgado , um incmodo

 qualquer , mas D. Branca atalhou :

 - Voltar ?
 Que idia !
 Eu , nem que me pagassem ; meu rico vestidinho

 h de dar que falar hoje  Rua do Ouvidor .
 Voltar por qu ?

 - Por causa do Evaristo ...
 - sorriu timidamente Adelaide .

 - Ora , minha filha , tenha juzo !
 Ento voc  alguma criana ?
 O Sr .

 Evaristo  um rapaz inteligente , um homem de bem , um cavalheiro ...

 Os tolos  que prendem as mulheres , como se elas fossem escravas .

 J lhe disse que me responsabilizo ...

 - Eu sei , mas ...

 - No admito razes .
 A senhora vai comigo ; quem a leva sou eu .
 E ,

 em todo o trajeto de Botafogo  Rua do Ouvidor , uma e outra

 mereceram grandes elogios , grandes exclamaes e vivos olhares de

 capitalistas e doutores que , mesmo na faina dos seus negcios ,

 nunca se descuidam do sexo amvel .

 No ponto dos bondes houve um senhor que lhes dirigiu a seguinte

 frase cheia de ocultas intenes , numa voz melflua e carinhosa :

 - Como so lindas !

 E outro , mais adiante :

 - Oh , que beleza !

 E ainda outro , j em plena Rua do Ouvidor :

 - Deliciosas !

 Tudo gente sria , moos bem vestidos , de colarinho alto e chapu de

 forma e anis de brilhante .

 Adelaide no sabia como pisar , nem que jeito desse s mos , nem

 onde pusesse os olhos , vendo surgir , de repente , o bacharel e

 agarrar pela gola do fraque um homem daqueles , e culp-la , e dar

 escndalo !
 Arrependia-se mil vezes de ter acedido s instncias de

 D. Branca .

 A esposa do secretrio , num coquetismo de mulher fcil , abanando-se

 com o rico leque de plumas , uma ostentao imperiosa de sedas e

 gazas resplandecia ao lado da amiga .
 Todos os olhares cravavam-se

 nela , no seu belo porte de mundana , nas suas formas rijas que o

 espartilho evidenciava , torturando-a .

 - Bela rapariga !
 - foi uma das exclamaes que lhe chegaram ao

 ouvido .
 E ela como que redobrou de altivez , aprumando-se ,

 garbosamente .

 O instinto ou o que quer que seja levou-a a tomar o caminho da

 Praa , pela Rua Direita .
 A mulher tem uma espcie de faro to

 pronunciado e admirvel como em certos animaizinhos de estima .
 D .

 Branca ia pelo faro , quando quem lhe havia de surgir ?
 o visconde , o

 respeitabilssimo Santa Quitria ...
 Vinha de uma assemblia-geral

 de acionistas no Banco .

 - Oh , excelentssimas , folgo de v-las !
 - exclamou o banqueiro

 estendendo a mo , todo inclinado , primeiro  Branca e depois 

 Adelaide. - Andam passeando ?

 - Andamos passeando ...
 - murmurou a esposa do secretrio .

 E emendou logo :

 - Vamos fazer umas compras

 - Ah !...
 Est muito bem , est muito bem .

 - O Sr. Visconde j veio de Petrpolis .

 - Sim , excelentssima ; Petrpolis est deserto ...
 Desde que a

 famlia imperial mudou-se para a Tijuca que Petrpolis est

 deserto .
 O imperador embarca definitivamente na prxima semana .

 - Para a Europa ?

 - Exatamente .

 E , com um ar compungido , o visconde acrescentou :

 - Pobre velho !
 Vossa excelncia no o conhece ...

 - Por que , Sr. Visconde ?

 - Porque ...
 porque reputo gravssimo o seu estado ...

 Adelaide prestava ateno  conversa , olhando o banqueiro ,

 medindo-o de alto a baixo , examinando-o .

 - Que est dizendo ?

 - Gravssimo ...
 E comigo pensam os doutores da cincia .

 - Pobre velho !
 - repetiu D. Branca sensibilizada. - Eu imagino a

 imperatriz ...

 - A imperatriz no o abandona ; segue tambm .

 - Coitada !
 E os prncipes ?

 - Os prncipes ficam em companhia da princesa .
 Pelo menos  o que

 se diz ...

 - Um homem to forte , um hrcules !
 - exclamou a esposa do

 secretrio .

 - As aparncias iludem , minha senhora , e a morte  traioeira .

 Andam , ento , fazendo compras ?...

 - Fazendo umas comprinhas ...

 - Bem , no as quero importunar .

 E o Santa Quitria descobriu-se , apertando , com uma delcia enorme ,

 a mo enluvada e fina de D. Branca .

 - Recomende-me ao nosso Furtado ...

 - Agradecida .

 Oh , como ela desejaria prolongar aquele tte--tte , aquele doce

 encontro !...
 Mas o movimento era grande na Rua Direita , e no menos

 grande a lngua do povo .

 O banqueiro afastou-se , num gracioso ademane , e elas , depois de

 ligeira hesitao , voltaram pela Rua do Ouvidor .

 Novos ditos , novas exclamaes .

 De um grupo ,  porta de uma confeitaria , saam estas palavras :

 - As mesmas !
 as mesmas !

 E uma chusma de olhares cobiosos assaltou-as .

 Entraram numa grande loja de fazendas , trocaram algumas palavras

 com o caixeiro , moo amvel que trazia sempre a ponta do leno fora

 do bolso do palet , e - obrigada , hem , muito obrigada !...
 - saram .

 Foi ento que o bacharel bispou-as , quando ele e o secretrio

 voltavam do Largo de So Francisco , e os dois casais resolveram-se

 a tomar qualquer coisa no Pascoal .

 A presena de Adelaide quela hora na Rua do Ouvidor significava ,

 para Evaristo , uma desconsiderao , aos seus hbitos e s suas

 normas - um desvio da esposa , uma quebra de respeitos ...
 Sempre a

 conhecera tmida , obediente s suas prescries e inimiga de se

 apresentar onde ele no estivesse , e agora via-a na rua mais

 pblica do Rio de Janeiro , em grande toilette , como uma senhora

 habituada ao luxo e  publicidade , que no receia o eco das

 ms-lnguas , nem a audcia dos ociosos !
  certo que ia pelo brao

 de D. Branca , mas a esposa de Furtado ...
 a esposa de Furtado ...
 a

 Sra. D. Branca ...
 E enquanto caminhava para o Pascoal , Evaristo ,

 silencioso ao lado da mulher , como que se empenhava na resoluo de

 problema difcil .
 Adelaide merecia-lhe toda a confiana , mas ,

 positivamente , j no era a mesma Adelaide .
 Vir  cidade sem lhe

 dizer , sem o prevenir ?...
 No , j no era a mesma ...

 E enquanto durou o lanche , enquanto estiveram na confeitaria

 debicando empadas e sanduches - o bacharel manteve-se casmurro a

 torcer o bigode , a olhar os que entravam e os que saam , mais

 filsofo que nunca , a alma vibrando numa indignao muda e

 tenebrosa .

 Adelaide compreendeu que o havia desgostado e cruzou o talher .

 D. Branca e Furtado entreolharam-se com admirao .
 Era a primeira

 vez que os viam amuados .

 Captulo VI

 Ia enfim realizar-se a misteriosa e pranteada viagem do imperador .

 Na eterna alegria do sol , que amanhecera esplendidamente luminoso ,

 flutuavam preces ao bom Deus pelo pronto regresso do monarca .

 Suspiros de saudade , louvores  boca pequena , exclamaes de

 inconsolvel tristeza erguiam-se nas ruas da cidade , formando uma

 atmosfera de vagas melancolias , um como ambiente glacial de

 apreenses sinistras que a luz triunfal do sol no espancava .
 Ia

 ficar deserta a Quinta de So Cristvo e o Brasil sem o imperador ,

 o Brasil sem o Sr. D. Pedro II era como Um pas abandonado 

 aventura dos selvagens ...
 Oh , o homem extraordinrio que antes de

 ser homem era rei !
 que tristeza para o povo , que desolao para a

 Corte !
 Ningum queria acreditar naquela viagem lgubre como a

 prpria morte ...

 No entanto , chegava a hora do embarque .
 Apresentavam-se as

 carruagens ; no havia tempo a perder .

 s seis horas da manh o desembargador Lousada e a mulher , em

 berlinda especial , abalaram para a Tijuca .
 A ilustre dama de Sua

 Majestade , a imperatriz , ia chorosa , com o leno nos olhos , quase

 muda na sua toilette de seda marrom .
 O visconde de Santa Quitria ,

 amigo particular do imperador , no quis deixar de cumprir o

 religioso dever que lhe impunham a amizade e a gratido : l foi

 tambm corretamente encasacado , de luvas pretas .
 E outros e outros

 personagens de etiqueta levaram a sua homenagem aos augustos

 viajantes .

 Lus Furtado entendeu que melhor seria assistir ao embarque no

 Arsenal de Marinha com D. Branca e os Holanda .
 Mas Evaristo foi

 dizendo logo que " s costumava ir ao embarque dos seus amigos e que

 no transigia com as suas convices ...
 "

 - No se trata aqui de convices , nem de idias polticas - fez o

 secretrio. -  um dever de todo o brasileiro levar as suas

 despedidas ao imperador , ao homem que nos governa h quase

 cinqenta anos e cujas virtudes o mundo inteiro admira ...

 - Nesse caso vai tu , eu no .
 O meu dever , como republicano ,  no

 ir ,  ficar em casa ou  minha banca de trabalho .
 Nunca recebi

 favor do Sr. D. Pedro II , nem ele me deve coisssima alguma .

 - Queres , ento , privar D. Adelaide .

 - No senhor , no senhor , Adelaide ir se quiser , eu no probo ...

 - Sempre a mesma veleidade republicana ; sempre a mesma tolice !
 -

 exclamou Furtado. - Hs de lucrar muito com essas idias !

 - No  questo de lucro ,  questo de conscincia .
 Tenho o direito

 de pensar e de agir como entender .

 - Bem ; fica-te l com a tua conscincia , meu Camilo Desmoulins , e

 depois no te arrependas ...
 Ento , D. Adelaide vai conosco ?

 - Pode ir ...

 A jovem esposa do bacharel tinha , com efeito , muita vontade de ver

 o imperador , cujas barbas brancas ela nunca vira seno em retratos ;

 mas o marido era homem esquisito , inimigo figadal da monarquia ,

 cheio de escrpulos , timbrando em continuar na Corte a mesma vida

 aperreada da provncia - um incorrigvel - e ela respeitava as

 idias dele como se fossem as suas prprias idias .
 Resignou-se com

 um suspiro .
 O mundo no se acabava ; quando o imperador voltasse da

 Europa , iria v-lo ...

 Furtado , porm , renovou o seu pedido a Evaristo , obtendo dele uma

 resposta que trouxe aos lbios da esposa o mais adorvel dos

 sorrisos. - Que sim - que Adelaide no devia perder o embarque

 espetaculoso do Sr. D. Pedro II ...
 ao menos por curiosidade , por

 desfastio ...

 - Muito bem , muitssimo bem !
 - aplaudiu o secretrio , risonho ,

 batendo as mos .
 Gosto de ver um republicano de idias largas como

 o Evaristo .
 D. Adelaide agora no tem mais do que ir preparando a

 toilette ..

 E no dia anunciado pelos jornais , todos , menos o bacharel que os

 acompanhou somente at  cidade , dirigiram-se ao Arsenal de

 Marinha , ponto de embarque do imperador .

 A galeota imperial , encostada ao cais , fumegava , toda pintada de

 verde e ouro , fria como uma baleia , crivada de olhares que a

 contemplavam num xtase selvagem .
 Dentro dos muros do Arsenal

 passeavam oficiais de Marinha e do Exrcito , em grande gala ,

 arrastando as espadas com ar marcial .
 Viam-se tambm altos

 funcionrios  paisana , de casaca e luva , e senhoras em trajo de

 baile , exibindo o colo num decote pomposo de rainhas , vestido de

 cauda , brilhantes no cabelo .

 Era intensa a luz do sol , mas o povo aflua , na rua , dominado pela

 irresistvel curiosidade de assistir  passagem da famlia

 imperial .

 Uns queriam ver o prprio monarca , outros , que o conheciam , no

 ocultavam o desejo de " reparar bem " na herdeira do trono , outros

 nada mais queriam seno lanar os olhos  imperatriz .
 O trecho

 entre o morro de So Bento e a Secretaria da Marinha estava repleto

 de curiosos - operrios do Arsenal , ganhadores , catraieiros , no

 meio dos quais sobressaam altos chapus de forma de um ou outro

 personagem desconhecido que tambm se abalava a ver o embarque .

 De vez em quando parava um carro e o povo abria alas , num movimento

 de exrcito em revista .
 Chegavam Ministros e diplomatas cujos nomes

 corriam de boca em boca .

 Eram j onze horas da manh e nada do imperador , nem sinal do

 augusto viajante .

 A essa hora precisamente uma carruagem estacou no porto do Arsenal

 e logo apeou o secretrio do Banco Industrial ; em seguida apearam

 duas senhoras : D. Branca e Adelaide .

 Furtado ouviu uma voz no meio do povo : - Mulhero !
 e , teso , erecto ,

 numa pose de verdadeiro diplomata , disse qualquer coisa ao porteiro

 e entrou .
 As duas senhoras iam na frente com o ar compungido ,

 silenciosas , lado a lado .

 Quase no mesmo instante o povo agitou-se e mais de duas mil cabeas

 volveram-se para o extremo oposto da rua .
 Vozes exclamaram : - 

 ele !
  ele !

 Houve , ento , uma balbrdia , um atropelo , uma nsia fenomenal .

 Cometas estrugiram ao longe e ouviu-se um estrpito de cavalhada em

 correria .

 Com efeito , era o imperador que chegava .
 A multido abriu caminho ,

 tal as guas do mar vermelho para deixar passar os hebreus , e uma

 exclamao unssona , estrepitosa e lmpida , vibrou no espao :

 - Viva Sua Majestade o Imperador do Brasil !

 - Vi ...
  !

 Dentro no Arsenal , uma msica militar rompeu o hino com entusiasmo

 belicoso enquanto os vivas continuavam , fora. - Vi ...
  !
 Vi ...

  !...
 sucessivamente .

 O carro imperial estacou , seguido de outros carros , e o velho

 monarca , cumprimentando  direita e  esquerda , surgiu trmulo ,

 incrivelmente plido , os olhos fundos , a barba longa como a de um

 profeta da antigidade .

 Compunha-se a comitiva de S. M. Imperiais , conde e condessa d'Eu ,

 prncipes D. Antnio , D. Lus e do Gro-Par , visconde da Mata ,

 visconde de Santa Quitria , um general , um almirante , o

 desembargador Lousada e a esposa , e outras pessoas de distino .

 O povo cercou o monarca e quis beijar-lhe a mo antes dele entrar

 no Arsenal ; mas o velho , todo trmulo , com os olhos midos , partido

 de saudade , balbuciou fitando os que o rodeavam :

 - No , aqui no : o sol est muito quente !

 - Viva Sua Majestade a Imperatriz !
 - berrou uma voz .

 E todas as cabeas se descobriram e todas as bocas exclamaram - -

 Vi ....
  !
 num entusiasmo ardente e apaixonado .

 Vozes de comando estrondeavam no recinto da praa ; uma guarda de

 honra do batalho naval fazia as continncias ao monarca .
 E ele ,

 muito amvel , muito cheio de cortesias ao lado da Sra. D. Teresa , a

 me dos brasileiros , ia-se multiplicando em cumprimentos para aqui ,

 para ali , curvado ao peso dos anos e da traioeira enfermidade que

 o minava .

 Uma onda acompanhou-o vitoriando-o , aclamando-o de chapu no ar ,

 aos gritos de Viva Sua Majestade o Imperador !
 Viva Sua Majestade a

 Imperatriz !
 Viva Sua Alteza a Sra. D. Isabel !
 Viva o Sr. Conde

 d'Eu !

 E a msica repetia o hino nacional uma vez , duas vezes , trs vezes ,

 confundindo-se com o alvoroo da multido .

 Por fim um silncio medroso caiu aos pouquinhos , amortecendo o

 entusiasmo e transformando-o num vago pigarrear abafado e tmido .

 A galeota resfolegava e dentro dela j se moviam homens

 pressurosos , na sofreguido de evitar o arrocho e de se garantirem

 um lugar cmodo .
 O imperador do Brasil , com os olhos vagamente

 nublados , num grande crculo de homens e senhoras que o queriam ver

 e beijar , tinha a fisionomia resignada dos mrtires que a lei

 desterra para longnquos pases , donde no voltam nunca .

 Ainda no era chegado o momento das despedidas , hora trgica dos

 beijos e das lgrimas .
 Havia uma ansiedade em todos os olhares ; uma

 tristeza calada e circunspecta ia dominando os espritos ,

 empolgando-os de leve , penetrando os coraes vitoriosamente .

 A herdeira do trono enxugava os olhos , muito rubros de comoo e de

 calor , em contraste com a branca fisionomia do pai .
 O monarca

 repousava numa cadeira que lhe fora oferecida por um velho

 almirante de rosto escanhoado .
 Mas de repente ergueu-se ,

 compungido , e abriu os braos  filha .
 Sua Alteza percebeu que o

 velho ia-se despedir e murmurou :

 - No , meu pai , eu vou a bordo ...

 - Vais a bordo ?...
 Oh !...

 - Sim , vamos todos a bordo ...

 - Conselheiro - disse ento o velho para um homem idoso , fardado de

 ministro , que conversava com o prncipe Gasto de Orleans - um

 abrao ...

 - Vossa Majestade permitir que o acompanhe ao Gironde ...
 - fez o

 conselheiro dobrando-se .

 - No quero que se incomodem por minha causa ...
 O tempo 

 dinheiro ...

 - No  incmodo , senhor ,  um prazer e uma obrigao ...

 - Pois bem , vamos , para no demorar o vapor ...

 A essas palavras do monarca , a onda dos cortesos agitou-se ,

 trovejou a voz do oficial que comandava a guarda de honra ,

 tilintaram espadas e uma fila de homens e senhoras marchou , com

 solenidade , para a galeota .
 O cais estava todo negro de gente que

 tinha ido ver " o embarque " .

 A procisso fez alto  borda d'gua , trocaram-se muitos

 cumprimentos , D. Isabel levou ainda uma vez o leno aos olhos , o

 conde abaixou a cabea , de lado , para ouvir um general que o

 importunava com perguntas ; uma menina de seis anos , vestida de

 branco ofereceu ao imperador um buqu de flores artificiais , com

 dizeres em ouro numa larga fita verde , e , ao som do hino , os

 imperiais turistas embarcaram .

 Lanchas apitavam , cruzando-se na baa , defronte do Arsenal .
 Uma

 tristeza enorme avassalou todos os coraes naquele momento , e

 quando a galeota fez-se ao largo e o ltimo adeus flutuou na asa de

 um leno - palpitante , como um corao espedaado - milhares de

 silhuetas brancas emergiram da onda negra dos que ficavam ...
 E uma

 aclamao geral , clamorosa e dorida , vibrou na luz intensa , pelos

 cais , pelas embarcaes , mar adentro , como uma celeuma de

 vencidos ...

 Adelaide chorou sem saber de qu ; encheram-se-lhe d'gua os olhos ;

 quis falar e faltou-lhe a voz : era como se nunca mais pudesse

 contemplar aquela insinuante fisionomia do velho , meiga e boa , que

 ningum ousava desrespeitar .

 Estavam  sombra de uma rvore , ela , D. Branca e Furtado ; dali 

 que tinham visto tudo - os menores movimentos do imperador e da

 famlia imperial at a hora do embarque .

 Os olhos da esposa de Evaristo iam e vinham , de um lado para outro ,

 e pouco a pouco foram-se umedecendo , pouco a pouco foram tomando

 uma expresso comovida e inquieta que o secretrio logo percebeu .

 D. Branca esticava o pescoo , erguia-se na pontinha dos ps , a mo

 enluvada no ombro do marido , equilibrando-se .
 Nada lhe escapou 

 indiscreta curiosidade : viu o desembargador Lousada e a mulher , os

 prncipes , a princesa , o monarca e a imperatriz e , por fim , o

 visconde , o Santa Quitria enfronhado na sua casaca solene , de

 brao com uma ilustre dama que ela no pde reconhecer .
 O banqueiro

 levava ao peito um crach faiscante , uma grande comenda que a todos

 causava admirao. - Mas de brao com uma mulher !
 Qh , a esposa de

 Furtado arriou os calcanhares , estremeceu de cime , como se lhe

 houvessem roubado a mais querida jia , trincou o lbio num assomo

 de desespero , e abanou-se com fria .

 - Vocs no esto sentindo calor !
 - disse para Adelaide e o

 secretrio .

 - Muitssimo !
 - exclamou Furtado .

 - Muito - respondeu Adelaide .

 - Oh , eu estou sufocada !
 Se houvesse gua por aqui ...

 - Arranja-se - tranqilizou o marido. - Queres ?

 - Quero , sim , tem pacincia ...

 E quando ele afastou-se muito cavalheiro , para trazer gua :

 - Viste o Santa Quitria ?
 - perguntou D. Branca  amiga .

 - No .

 - Que pena !
 Pois ia de brao ...

 - Com quem ?

 - Com uma velha , com uma mulher horrivelmente feia ...

 - Sim .

 O Santa Quitria , um visconde , um homem to elegante !

 -  para voc ver o que so os homens .

 - No , que h homem de muito bom gosto !
 Eu no creio que o visconde

 esteja cego ...

 - Exigncias de ocasio , coitado !
 ele at acha quase todas as

 mulheres feias ...
 Pelo menos j o ouvi dizer .

 - E , mas l ia com unia coruja !

 Adelaide achou graa no epteto e , sem desviar os olhos da onda de

 gente que se aglomerava no cais , respondeu com um sorriso em que se

 lia toda a tristeza de uma alma ingnua .
 No podia esquecer o

 imperador com a sua longa barba muito branca , uma nvoa no olhar ,

 inclinado para frente , caminhando devagar , como quem j est

 marchando para a sepultura ...
 Tinha os olhos midos ainda e

 ficava-lhe dentro d'alma uma piedade imensa , uma ternura por aquele

 velho to diferente do que ela imaginava ...

 Um servente aproximou-se com uma bandeja e gua para as duas

 senhoras .

 Furtado vinha com um riso de profunda ironia nos lbios .

 - Este mundo !
 este mundo !...

 - Que  ?
 - perguntou D. Branca olhando o secretrio .

 - Adivinha , se s capaz !

 - Eu no ...

 E Furtado cruzou os braos em atitude de misteriosa surpresa .

 - Olhem que a vida  uma comdia !...

 - Explica-te , homem !
 - tornou D. Branca , muito inquieta j .

 Adelaide tinha uma interrogao curiosa nos olhos .

 - O Condicional , Branca , o Dr. Condicional , sabes ?
 o grande

 republicano , o inimigo dos reis , o poeta da Ode  Coroa - todo

 empertigado , assistindo ao embarque do imperador , entre os amigos

 da casa imperial !
 - exclamou o secretrio num tom de comiserao .

 - Ora !...

 - No achas um cinismo , uma pouca-vergonha ?

 - Est voc a se preocupar com um idiota !

 - Porque , minha mulher , inda outro dia ouvi o Manhes dizer

 horrores de Pedro Segundo e agora vejo-o aumentando o nmero dos

 monarquistas !..

 - O Evaristo  que havia de se rir muito - disse Adelaide .

 - E com razo , com toda a razo !

 - Vamo-nos daqui - interrompeu D. Branca .

 - Vamos ...
 vamos - concordou Furtado. - Este mundo !
 este mundo

 velho !

 J no havia quase ningum no Arsenal e fora , na rua .
 Tudo nos cais

 da cidade , no Pharoux , no Arsenal de Guerra , na Lapa , na Glria , no

 Flamengo ...
 at Botafogo , para assistir  sada do Gironde .
 Viam-se

 grupos de homens e senhoras no alto dos morros ,  luz quente do

 sol .
 Prolongava-se o cordo negro dos espectadores at os confins

 da Praia Vermelha - extensa linha de curiosos que abandonavam o

 trabalho , as oficinas , as reparties na nsia de ver as ltimas

 despedidas do monarca .

 Com as primeiras salvas de bordo explodiu o sentimentalismo ingnuo

 do povo .
 Aqueles tiros ritmados , um aps outro , e logo todo o

 confuso estourar da artilharia dos navios de guerra e das

 fortalezas , numa balbrdia de mgica , eram como o ltimo adeus , a

 um general que se enterra .

 s salvas corresponderam ruidosas aclamaes : - Vi !
 Vi !...

 Vi !

 E o Gironde singrava barra fora , numa inconscincia de ave que

 solta o vo para a morte ...
 O olhar da multido acompanhou-o longe ,

 como se o quisesse levar at o fim da travessia .

 Mas a distncia encobriu tudo numa nvoa ...
 desde esse dia ficou

 entregue o governo  Sua Alteza Imperial Regente D. Isabel ,

 herdeira do trono .

 - Agora  mais fcil arranjar uma comisso  Europa - dizia Furtado

  esposa .

 - Por qu ?

 - J te no lembras de que a princesa  nossa comadre ?

 - Sim ...
 sim ...
 Qual Comisso  Europa !
 Estamos muito bem no

 Brasil !

 - Isso hei de ir custe o que custar !
 Morrer sem ir  Europa ?
 No .

 Morrer depois de ter gozado ...

 - Bem , mas eu fico ...

 - Pois fica ;  como quiseres .

 - O Sr .
 Furtado deseja tanto sair do Brasil ?
 - perguntou Adelaide

 entre admirada e risonha .

 - No  sair do Brasil -  passear , viajar , gozar um pouquinho as

 decantadas belezas do Velho Mundo .

 - Eu irei depois , quando j o conheceres - tornou D. Branca .

 - Pois sim , pois sim - irs depois ...

 Nesse andar chegaram a Botafogo .
 Evaristo lia , repoltreado na

 espreguiadeira , um panfleto abolicionista que trouxera da rua .
 Ao

 som da campainha , fechou o volume e correu ao balastre da escada .

 Primeiro entraram as duas senhoras ; Furtado vinha atrs falando ao

 criado : se no esquecera de dar alpiste ao canrio ?
 se algum o

 procurara ?...

 O bacharel , com o livro na mo , rompeu de cima :

 - Embarcou , o homem ?

 - Oh !...
 j vieste ?

 - H mais de uma hora .
 Ento , como se foram ?

 - Perfeitamente bem .

 - O homem sempre embarcou ?

 - - Por que no havia de embarcar ?

 - Est salva a ptria !
 - exclamou Evaristo , interrompendo o

 secretrio - Deus o leve , que de monarcas no precisa o Brasil .

 - Evaristo !
 - ralhou Adelaide , encaminhando-se para o segundo

 andar .

 - Boa tarde , Sr. Evaristo !
 - cumprimentou D. Branca .

 - Boa tarde , excelentssima !
 Estimo que se tenha divertido ...

 - Ao contrrio ...

 As duas famlias recolheram-se aos seus aposentos .

 O bacharel estava de bom humor quela hora e tanto bastou para que

 Adelaide exultasse .
 Abraaram-se no alto da escada , ela muito

 meiga , com a face incendida de calor , as luvas amarrotadas , ele

 todo em roupa branca , o cabelo penteado , em chinelos de couro .

 - Ento ?

 - Ento  que vi o homem .

 - Viste-o ?

 - Vi ...
 No te conto nada ...
 quase chorei ...

 - O que , minha mulher !

 - Quase chorei , sim .
 Tive pena do velho , coitado !...

 - Oh , coitadinha , quase chorou !...
 Faltou o quase , no  assim ?

 E ...
 faltou o quase ...
 E depois ?
 No houve quem te socorresse com

 uma mamadeira ?

 - A vem o Evaristo !

 - Sim ...
 uma mulher que chora por causa do imperador !...

 - ...
 Mostra que tem corao ...

 - Mostra que no tem juzo !

 - Mas eu no te disse que chorei ...

 - Faltou o quase ...

 Houve um rpido silncio , enquanto Evaristo acendia um cigarro .
 As

 janelas estavam abertas , como de ordinrio .
 L longe os morros e o

 cemitrio .

 - Ento , viste o homem !

 Adelaide despia-se defronte do toucador .
 O leito de casal , o mesmo

 que Furtado comprara no dia da instalao do bacharel , saltava aos

 olhos , enchendo quase todo o aposento .
 Ouvia-se o tique-taque de um

 relgio invisvel .
 Cheirava a perfumarias , como se se estivesse num

 armazm de modas .

 - Ah !...
 sabes quem foi ao embarque ?

 - ?

 - O Dr. Condicional ...

 - O Valdevino Manhes ?

 - O Valdevino Manhes ...

 - Histria , Adelaide !

 - Palavra !
 O Sr .
 Furtado viu-o numa roda de homens .

 -  possvel ?
 - exclamou Evaristo com um ar incrdulo , fitando a

 esposa .

 - No juro , porque no vi , mas o Sr .
 Furtado ...

 - O Furtado viu ?

 - Disse-nos ele ...

 - Ora , eis a o que so republicanos no Brasil !
 Por isso  que os

 monarquistas riem de ns , por isso  que ningum toma a srio a

 Repblica !

 Adelaide continuava a se despir tranqilamente , numa exibio de

 ombros e de braos , repuxando o colete , as saias , at ficar em

 camisa diante do marido que lhe no estranhava a ingnua

 familiaridade .
 Ningum , seno ele , podia v-la naqueles trajos

 simples , quase primitivos , que a outro homem seriam escandalosos .

 Ningum , porque o sobrado era alto e as janelas davam exatamente

 para o deserto panorama das montanhas e para a longnqua tristeza

 de um cemitrio .
 Demais era to grande o calor , to abafada a

 atmosfera naquele dia , que impossvel se tornava a uma pessoa que

 chega da rua fechar-se num quarto .

 Oh , como lhe arrepiava a pele o contacto dos ombros , nus e dos

 braos nus com o estreito ambiente , onde sempre corriam as

 primeiras brisas da tarde !
 Uma idia pousou-lhe no crebro ,

 traioeira como uma mosca : se Furtado a visse em camisa de renda , o

 colo descoberto , os ps nus no tapete ?...
 Se , em vez do bacharel ,

 aquele homem que ali se achava diante dela fosse o secretrio ?...

 Oh , no ...
 nem era bom pensar ...
 Ele , que ousava dar-lhe um beijo

 na mo ...

 - Realmente !
 - suspirou Evaristo .

 Adelaide olhou-o , j esquecida de Valdevino Manhes .

 - Que  ?...

 - O Condicional , filha , o Condicional renunciando s suas idias

 polticas !
 Um homem que vociferava contra o imperador e a

 monarquia !

 E Evaristo , indignado , ps-se a andar de um lado para o outro da

 sala , com o panfleto abolicionista na mo .
 Ultimamente

 encasquetara-se-lhe , como uma idia fixa , o programa republicano :

 abolir a escravido e declarar a repblica brasileira , o governo do

 povo pelo povo ...
 Um dos membros do partido j o convidara para

 scio e ele se comprometera a tomar parte ativa nas reunies do

 clube .
 Da a sua indignao contra o Valdevino que tambm apregoava

 entusiasmo pelas idias liberais de Saldanha Marinho e de Quintino

 Bocaiva .
 No lhe saa da cabea o poeta da Ode  Monarquia !
 Como 

 que um homem to depressa abjura das suas crenas ?
 Como  que se

 explicava essa pouca-vergonha de um escritor pblico ?

 Sentou-se , afinal , e continuou a interrompida leitura do panfleto .

 Da a pouquinho vieram avisar que a sopa estava na mesa .

 Captulo VII

 No obstante o insucesso da primeira tentativa , Lus Furtado no

 renunciou aos seus projetos de conquistar o corao de Adelaide ,

 '' aquele corao misterioso e duro como uma esfinge de bronze ...
 "

 Nada de precipitar os acontecimentos , nada de escndalos !
 A vida 

 uma eterna luta : ele lutaria ...
 Resistir s tentaes do homem

 quase que  um dever de toda a mulher .
 A sociedade a est de olho

 aberto para , de chofre , cair , como um raio , sobre os visionrios do

 amor , os que transgridem as leis da Moral com prejuzo de

 terceiro ...
 E a mulher , a pobre mulher  quase sempre a vtima

 indefesa - o cordeiro imolado em sacrifcio do homem .
 Resistir ,

 todas resistem ; poucas , no entanto , levam a resistncia ao fim .

 Adelaide era o que se pode chamar uma esposa meiga e boa , tinha

 todos os predicados de uma senhora honesta ...
 Mas Lus Furtado

 queria-a justamente por isso , pelas suas excelentes qualidades de

 burguesinha no corrompida , que idolatra o marido , que no vai a

 bailes , que fecha os olhos  vida mundana e que se faz respeitar em

 casa ou nos lugares pblicos .
 O orgulho  tanto maior quanto mais

 difcil  a vitria , nos combates do Amor. - Oh , ele o sabia muito

 bem , muitssimo bem ...
 O caso de Adelaide era , alm de tudo , um

 caso excepcional , uma tentao de nova espcie , e para os casos

 novos a prudncia aconselhava toda a diplomacia , toda a sutileza ...

 A primeira vez - nada !
 A segunda vez - nada !
 Mas a terceira vez ...

 quem sabe ?...

 Estas consideraes , fazia-as ele  noite , ao lado da esposa , ou no

 seu gabinete do rs-do-cho , quando estava s , ou nas horas do

 trabalho , no Banco , a dois passos do Evaristo , onde quer que

 estivesse , mesmo na rua .
 E conclua sempre de bom humor , um trecho

 de pera a escapulir-lhe dentre os lbios como uma cano de

 triunfo : Tr-l-l ...
 tr-l-l ...
 tr-l-l !...

 Ia tudo em casa s mil maravilhas , tudo inclusive o canrio belga

 que ele tinha pendurado numa gaiola , na sala de jantar .
 Depois de

 Adelaide era a sua preocupao o canrio belga ; esquecia-se , a

 ouvi-lo cantar , pela manh , antes do almoo , enquanto lia os

 jornais .
 D. Branca , o Raul e a Julinha no lhe davam grandes

 cuidados .
 A mulher encarregava-se dos pequenos .
 O Raul , esse vivia

 no colgio .

 Quanto aos do segundo andar , os Holanda , a mesma amizade fraternal ,

 as mesmas relaes .
 Branca e Adelaide entendiam-se .

 Evaristo  que no dispensava agora uma sortida  noite .
 Acabava de

 jantar , envergava o palet , punha o chapu e adeusinho , t logo ...

 - ia assistir s sesses noturnas do Clube Republicano de Botafogo .

 Adelaide habituou-se quilo , e para no ficar sozinha no segundo

 andar , vinha distrair-se embaixo , na companhia de D. Branca e de

 Furtado at que o marido chegasse do clube , ordinariamente s onze

 horas , quando j no havia vivalma na rua .
 Nesse nterim tocava-se

 um pouco de piano ; jogava-se a dama ou o trs-e-sete , conversava-se

  luz do gs , na sala de visitas , ou ento na sala de jantar , em

 torno  mesa oval coberta com um pano grosso de l , arabescado .

 O secretrio ocupava a cabeceira , como nas refeies , D. Branca 

 direita e Adelaide  esquerda e principiava o jogo. - Isso quase

 todas as noites , quando ningum os vinha visitar .
 O bacharel

 encontrava-os naquela intimidade , os olhos rubros de sono ,

 disputando uma ltima partida , como trs pessoas muito amigas , cada

 uma das quais existe porque as outras duas existem .

 Boa vida !
 - costumava dizer Evaristo arriando o chapu , num tom de

 adorvel bonomia .

 - Que se h de fazer seno isto mesmo ?
 - replicava o secretrio. -

 A poltica  para os bacharis ; eu prefiro as cartas .

 - Como vamos de repblica , Sr. Evaristo ?
 - gracejava a esposa de

 Furtado .

 - Muito bem , D. Branca .
 E extraordinrio o nmero de adeses .
 A

 idia prospera e ...
 le monde marche !

 - Isso  o que se quer ...

 - Obrigado , excelentssima , obrigado em nome do Progresso ...
 O

 elemento feminino h de colaborar na obra da redeno do Brasil ...

 Uma dessas noites o secretrio , aproveitando a ausncia de D .

 Branca , e , em conversa com Adelaide , aludiu , indiretamente , ao

 episdio do Jardim Botnico. - " Nunca mais havia de esquecer o

 desgosto que tivera , o doloroso instante que passara ...
 "

 Ela compreendeu a aluso , mas no teve sequer uma palavra em

 resposta .

 Furtado continuou , baixando a voz :

 - No entanto , D. Adelaide , eu estimo-a , como se fosse minha irm .

 Nunca mulher alguma dominou to poderosamente um corao .
 No quero

 dizer que a amo , porque ...
 porque seria uma deslealdade ...
 Que

 idia faz de mim ?
 Pensa ento que eu no considero as coisas , que

 me deixo levar por utopias ou por sentimentos que nivelam o homem

 com o animal ?
 O meu estado obriga-me  circunspeco , ao respeito ,

  sizudez .
 Alm disso , eu no desejaria para os outros o que no

 quero para mim ...

 Adelaide , sempre muda , o rosto voltado para o piano , batia com a

 ponta do p no soalho , inquieta , uma exacerbao de todos os

 nervos , quase a romper numa caudal de desespero .

 O secretrio ia continuar , mas D. Branca penetrou na sala .

 Da em diante Furtado no perdia ocasio de aludir ao episdio do

 beijo com uma insistncia atrevida , numa voz untuosa de padre que

 aconselha um pecador .
 Ela ouvia-o - que remdio !
 - de olhos baixos ,

 calada , sem exalar um suspiro , sem fazer um movimento , presa ao

 cho , como uma esttua .
 Era a mesma sempre , a mesma mulher fraca ,

 incapaz de repelir qualquer ofensa aos seus brios de esposa

 honesta , dcil como um animazinho que a gente acaricia , meiga como

 uma pomba .
 E esta passividade era tanto maior porque Adelaide

 estimava o secretrio , habituara-se a v-lo todos os dias , a

 receber favores e finezas dele e D. Branca , a consider-o quase

 como um parente .
 Romper agora , depois de tantos meses de

 intimidade , - que escndalo !
 No pensava tampouco em ceder , isso

 nunca lhe passara pela idia .
 Era toda de Evaristo , toda do seu

 marido , a quem amava e respeitava abaixo de Deus .
 Nada se lhe

 afigurava to desprezvel como uma mulher adltera , uma mulher que

 pertence a mais de um homem , depois de ter escolhido publicamente

 um esposo , um companheiro eterno para as suas dores e para as suas

 alegrias .
 Demais Evaristo nunca faltara com os deveres de homem

 casado : adorava-a como se adora a imagem de uma santa ; era sempre o

 mesmo Evaristo da provncia , o mesmo carter bondoso , e reto ,

 confiando nela , sacrificando-se por ela , respeitando-a tambm .

 Lamentava que o marido de D. Branca , " homem distinto e de to belos

 modos , de to fina educao , tentasse uma coisa impossvel ,

 julgando-a capaz de um ato vergonhoso e torpe !
 " Lamentava em

 silncio , pungida de desgosto , e no raras vezes umedeciam-se-lhe

 as plpebras , quando estava s refletindo nas coisas da vida .

 E tornava a pensar : - Antes nunca houvesse deixado a casinha de

 Coqueiros , perdida entre rvores , longe de tentaes .

 Mas Evaristo chegava e ela redobrava de carinhos abraando-o , como

 se quisesse pregar-se a ele , beijando-o , e iam os dois unidinhos

 por aquele tristonho segundo andar que sem ele era um deserto .

 O bacharel agora vivia para Adelaide , para a repblica e para o

 Clube Republicano de Botafogo .
 No pensava noutra coisa .
 A

 propaganda abolicionista entusiasmava-o , porque , dizia ele , feita a

 abolio , estava feita a repblica , e um pas de escravos  um pas

 atrasado .
 O escravo era ainda o nico obstculo para a realizao

 da forma democrtica no Brasil !

 Nas discusses com os amigos ia buscar no prprio direito romano

 argumentos contra a escravido .
 Um dia o diretor do Banco

 Industrial preveniu-o que " ali no era lugar de palestras " ...
 O

 diretor do banco possua fazendas em So Paulo .
 Evaristo queixou-se

 a Furtado .

 - Voc logo no est vendo que eu no troco as minhas idias por um

 lugar de escriturrio !
 - bradou ele. - A repblica h de se fazer ,

 depois da abolio , e tudo quanto  visconde e marqus vai para a

 rua !

 - Isso devias tu dizer ao diretor , no a mim ...
 - obtemperou

 gravemente o secretrio. - Por que lhe no respondeste ?

 - Ora , porqu !
 Porque no h liberdade , porque neste pas domina o

 capital e sem dinheiro ningum vive !

 - Ah !
 neste caso , meu amigo ,  sempre melhor o empreguinho do que

 as tais idias !

 Evaristo , porm , ameaava o diretor do banco com o novo sistema de

 governo , e citava episdios da revoluo francesa , repetindo os

 nomes de Marat , Robespierre e Danton , batendo com o punho na mesa ,

 erguendo-se na ponta dos ps , num entusiasmo apaixonado pelos

 homens de 1789 .

 Furtado s vezes , por distrao , opunha-lhe argumentos em defesa da

 monarquia , rebaixando Marat , chamando-o de assassino , de bandido ,

 apelando para o juzo da histria e para as altas qualidades do

 imperador do Brasil .
 Via-se , ento , o marido de Adelaide ficar sem

 gota de sangue no rosto , desabotoar o palet , o colete , arregaar

 as mangas e berrar , como um possesso , contra os ministros da coroa ,

 contra o regime imperial , contra os abusos do Poder !

 - Eu lhe peo , Sr .
 Furtado , pelo bem que quer  D. Branca : no

 discuta poltica com o Evaristo !
 suplicou uma vez Adelaide .

 Furtado olhou-a , enternecido , e jurou por todos os santos da Corte

 celeste , no mais discutir poltica com o Evaristo .

 De modo que o bacharel agora no se expandia em casa sobre as

 deliberaes do clube ou sobre os acontecimentos polticos da

 ltima hora .

 - Que h de novo ?
 - perguntava o secretario .

 - Nada ...
 - respondia ele com despeito .

 E costumava dizer  mulher , em tom de solene desdm :

 - Esse Furtado  um idiota !
 No tem idias polticas , no tem

 convices !
 Eu , s vezes , palavra !
 o aborreo !

 Adelaide defendia o secretrio : - " No havia razo para aborrecer o

 homem , somente porque ele no era republicano ...
 Cada qual tem a

 liberdade de pensar como quer ...
 Isso de idias varia .

 - Mas discuta seriamente , prove como o sistema de governo que

 defende  superior ao republicano , fale , diga ...
 mas no se ponha a

 rir e a insultar os outros !

 - Ele no insultou ...

 - Insultou , sim , senhora ; j no  a primeira vez que tenta

 profanar a glria de Saldanha Marinho !
 No quero !
 no admito !

 - Olha que ele nos tem feito muitos favores .

 - Reconheo e sou-lhe agradecido ...
 mas no  razo ...
 Amigos

 amigos , negcios  parte .

 Falavam baixinho para que ningum os ouvisse .
 Evaristo acabava

 repetindo que ia procurar casa antes de qualquer rompimento - casa

 de pobre , casa de cinqenta mil-ris , na Cidade Nova , no Castelo ,

 no Morro do Pinto , no inferno !

 Adelaide , sempre que o marido falava em procurar casa , estremecia .

 Por qu ?
 No sabia ...
 no sabia por qu .
 Era-lhe talvez mais

 agradvel voltar  provncia , deixar o Rio de Janeiro , a Corte , as

 aparncias de uma vida fidalga , e recolher a um canto esquecido e

 longnquo , onde ningum a visse ...
 O mundo  muito grande .

 - Eu o que quero  estar  vontade com as minhas idias !
 - rematava

 o bacharel .

 Nada o importunava tanto , agora , como a presena de um aristocrata .

 A mulher do desembargador Lousada com a sua luneta de tartaruga e

 com os seus modos afetados de dama do Pao ; o visconde de Santa

 Quitria , muito enluvado , muito correto ; bares e comendadores , que

 freqentavam a casa do secretrio - todos o aborreciam. - " Canalha

 de grados !
 Corja de mandries !
 Visconde ...
 que quer dizer um

 visconde ?
 Que quer dizer um baro ?
 Que quer dizer um comendador ?
 "

 Adelaide pedia , cansava de pedir , suplicava de mos postas , que

 falasse baixo , por amor de Deus !
 - Ele moderava o seu dio aos

 grandes e punha-se a fumar ou a ler .

 Ambos viviam muito preocupados : o bacharel com a poltica , Adelaide

 com a insistncia do secretrio , sem se esquecerem um do outro ,

 amando-se como noivos em lua-de-mel .
 Ela , sobretudo , por uma

 extraordinria delicadeza do sentimento , por um nervosismo doentio ,

 no lograva arredar da imaginao os olhos de Furtado , a boca

 sensual de Furtado , o rosto inteiro daquele homem que era como uma

 tentao do inferno a persegui-la , a persegui-la ...
 Evitava-o , como

 se evita um perigo , como se evita um abismo , uma desgraa ...
 Mas

 quase no tinha fora para reagir , para dominar a impresso que lhe

 enchia o esprito , escravizando-a , subjugando-a imperiosamente .

 Via-o a todo o instante , mesmo quando ele no estava em casa -

 via-o risonho , afagando o bigode , olhando-a com a meiguice de um

 namorado , com aqueles olhos muito sedutores , de uma doura infinita

 - e perdia de vista o marido , como se j pertencesse ao outro , ao

 estranho .

 Uma noite em que o bacharel se demorava at quase uma hora da

 madrugada no clube , ela s faltou perder o juzo .
 Bateu dez horas ,

 onze horas , e o Evaristo " na rua !
 " Adelaide comeou a ficar

 nervosa , a concentrar o esprito numa idia lgubre ...
 - " Se lhe

 houvessem assassinado o marido !...
 Se algum inimigo ...
 algum ladro

 o tivesse apunhalado s escuras num beco , ao sair do clube ?...
 Que

 horrvel coisa a viuvez de uma pobre mulher como ela , rf e

 desconhecida !

 E seus olhos buscavam Furtado instintivamente , como os olhos de um

 nufrago a sombra longnqua duma vela .
  proporo que as horas

 passavam , confrangia-se-lhe o corao numa angustiosa crise de

 desnimo .

 A luz da sala de jantar entibiava-se , parecia ir morrendo aos

 poucos , uma consumpo lenta .

 D. Branca explicou : - " era gua no gs ...
 "

 Deu meia-noite .
 Adelaide tirou do bolso do vestido o leno , baixou

 a cabea e explodiu num choro nervoso .

 - Pelo amor de Deus , D. Adelaide !
 Chorando  toa !
 - disse o

 secretrio .

 -  toa ,  toa - repetiu D. Branca .

 E tratavam ambos de distrair a esposa do bacharel , consolando-a ,

 rindo , gracejando  custa de Evaristo :

 - O homem est metido com os republicanos , minha senhora !
 - dizia

 Furtado. - Isso de repblica e como o espiritismo : pe a gente

 doida !

 - E , depois , ele j no  criana , Adelaide !
 - juntava D. Branca. -

 Voc logo no est vendo que a sesso de hoje foi maior que a dos

 outros dias ?

 Mas Adelaide no tirava os olhos do relgio , o leno na mo , todo

 mido , um ruborzinho na ponta do nariz .

 - Ah !
 meu Deus , permiti que aquele homem j volte !

 - H de voltar , h de voltar - por que no ?

 E o secretrio rondava a mesa , de um lado para o outro , indo e

 vindo , com o seu ar de fidalgo , cala de casimira e palet branco .

 Foi ento que , pela primeira vez , Adelaide viu quanto estimava o

 marido , quanto o idolatrava .
 Aquela demora doa-lhe como se o j

 estivesse contemplando morto no meio da casa , dentro de um caixo

 negro com gales de ouro ...

 Mais um quarto de hora : novo acesso de choro .

 - Menina , tenha pacincia que o homem vem !
 Adelaide !
 - ralhou D .

 Branca .

 Com efeito , a campainha retiniu no corredor e uma alegria sbita

 iluminou o rosto de Adelaide que ergueu-se para ver chegar o

 bacharel .

 Evaristo vinha carrancudo , muitssimo srio .

 - Boa noite !
 cumprimentou , respeitoso .

 - Oh , Evaristo !
 - fez a esposa abraando-o .

 - Oh , o qu ?

 - Que horas !

 - Ento , faz-se ou no se faz a repblica ?
 - interrompeu o

 secretrio .

 - No posso responder agora ; estou com muito sono ...
 - disse ,

 enfadado , o bacharel .

 - Acredito , acredito ; vamos tratar de dormir , que j passa de

 meia-noite .

 Trocaram-se ainda algumas palavras frias , sem interesse , e os dois

 casais separaram-se .

 Adelaide compreendeu que o marido estava de mau humor e no lhe fez

 a menor pergunta , a mais leve recriminao : tinha-o a seu lado -

 era o principal .
 Ele tambm no disse a causa da demora , nem falou

 em coisssima alguma .
 Cantarolava baixo , desafinadamente , enquanto

 se despia .

 Mas Adelaide no adormeceu logo ; ferroava-a uma espcie de remorso ,

 um vago arrependimento de ter pensado , com insistncia , numas

 tantas loucuras de mulher sem juzo , nem moralidade ...
 ela " a mais

 honesta das esposas , a mais virtuosa das donas-de-casas " .
 Como

 aquilo fora , no sabia ; o certo  que tinha uma espcie de remorso ,

 uma dor no fundo d'alma como um ponto negro na brancura da sua

 conscincia .

 Duas vezes viu ,  luz do quarto , o rosto tranqilo do bacharel

 dormindo e duas vezes teve vontade de o acordar , simplesmente , para

 lhe dizer " que estava nervosa " ; mas no se animou : preferiu

 respeitar o sono calmo de Evaristo .
 Chegava-se a ele , medrosa ,

 supersticiosa , sentindo-lhe a quentura do corpo , a respirao

 ronronada , e encolhia-se muito franzina , quase a desaparecer nos

 lenis , como uma criana .
 Uma figura de homem interpunha-se entre

 ela e o marido , tentadora , chamando-a com os lbios fechados em

 beijo , criminosamente , o olhar voluptuoso , fosforescente de desejo ,

 pousando nela e queimando-lhe as faces .

 - Evaristo !
 Evaristo !

 - H !...
 Que  ?

 O bacharel levantou a cabea , espantado , os olhos muito vermelhos

 de sono .

 - Que  ?...
 - repetiu .

 Adelaide estava diante dele fitando-o , como se o no reconhecesse .

 Mas , ouvindo-o falar :

 - Nada ...
 uma sombra ...

 - Que sombra ?

 - Uma coisa na parede ...

 - Pois tu ainda ests acordada ?.

 Ela no respondeu ; tornou a deitar-se , muda , com arrepios de frio ,

 enroscando-se toda .

 Foi uma noite de pesadelos , de sonhos incrveis e de sobressaltos .

 Adelaide , pela manh , jurou ir-se embora daquela casa , fugir para

 longe , voltar  provncia , onde nunca o demnio lhe sorrira to de

 perto .. Em Coqueiros , ao menos gozava tranqilidade , ningum lhe ia

 meter na cabea idias perniciosas a titulo de civilizao , nem era

 obrigada a luxo e a hipocrisias .
 E outra vez a imagem da negra

 Balbina , como um tipo primitivo de ingenuidade e candura ,

 acenava-lhe do fundo da memria , recordando-lhe o passado , os

 tempos felizes de uma existncia quase bblica , dourada pela

 esperana e pelo amor ...
 Comeava a odiar o Rio de Janeiro - esse

 Botafogo aristocrata e imoral , cheio de convenes , onde todo o

 mundo era grande , onde no havia pobreza , nem sinceridade , e s se

 falava no Lrico , em Petrpolis e vestidos  ltima moda e passeios

 a carro e piqueniques e na famlia imperial !
 J podia ter-se

 mudado , j podia estar longe de tanta mentira .
 A culpa era sua de

 mais ningum ...
 Bem feito , muito bem feito !...

 Andava-lhe na cabea um enxame de idias ; palpitava-lhe o corao

 desordenadamente ; queria , mas no tinha coragem de falar a Evaristo

 numa mudana breve , numa retirada escandalosa , que podia suscitar

 desconfiana no esprito dele .
 Era preciso ir pouco apouco fugindo

  tentao daquele homem , evitando-o , mostrando-se fria , de uma

 frieza de esttua , cada vez que ele se aproximasse dela , at ir-se

 embora da Corte com Evaristo .

 E enquanto Adelaide pensava nessas coisas , sem nada dizer ao

 marido , o bacharel premeditava o arrasamento das instituies , ao

 mesmo tempo que lia , com avidez , os artigos revolucionrios d'A

 Folha .

 A jovem senhora estava emagrecendo , mas emagrecendo como quem sofre

 uma leso oculta , uma doena profunda na parte mais delicada do

 organismo .
 J era dbil , naturalmente franzina , com olheiras

 sintomticas de anemia , o pescoo esguio , o nariz afilado , a voz

 cansada , de um timbre melodioso , quase a extinguir-se , uma

 passividade meiga aos olhos ; mas agora , tudo isso como que ia

 tomando uma expresso visivelmente mrbida aos olhos de toda a

 gente , menos aos de Evaristo , que os tinha voltados para a poltica

 e para os republicanos .

 - No me achas magra ?
 - perguntava ela ao bacharel .

 - No , a mesma coisa ...
 - dizia ele fitando-a. - Sempre foste

 magrinha .

 At que uma tarde , aps o jantar , Adelaide , em conversa com

 Evaristo , disse-lhe :

 - Oh !
 quem me dera voltar  provncia !

 O bacharel encarou-a .

 - Homessa !

 -  o que te estou dizendo ...

 - Ento j aborreceste o Rio ?

 - J .

 - Pois admira ...
 Inda no h muito tempo falavas com entusiasmo na

 Rua do Ouvidor e nos bailes do Cassino ...

 -  verdade , mas .

 - Mudaste de idia como o Valdevino Manhes de poltica ...

 - Isso mesmo .
 H dias que penso doutra forma .
 O Rio de Janeiro 

 essencialmente egosta e eu no me coaduno com a vida que temos

 vivido nele ...
 De repente apoderou-se do meu esprito uma

 nostalgia , uma tristeza mesclada de apreenses e de desnimo ...
 um

 aborrecimento das coisas que me cercam ...
 Prefiro viver s , bem

 longe desta sociedade ...
 l no fundo da minha provncia , em

 Coqueiros , como outrora ...

 - Ests eloqente !
 - exclamou Evaristo , interrompendo a esposa .

 E logo :

 - Mas vem c : desfeitearam-te ?
 trataram-te com menos polidez ?

 - Nada ...
 todos me tratam muitssimo bem ...
 D. Branca  um anjo ...

 o Sr .
 Furtado um cavalheiro irrepreensvel ...
 todos , enfim , com

 quem nos damos , so umas belas pessoas ...

 - E ento , filha ?
 Dir-se-ia que tens lido os romances de Georges

 Ohnet ou os folhetins de Montepin ...
 Se a questo  de casa , se no

 ests contente aqui - mudemo-nos : sempre foi este o meu desejo .

 Debruados ambos no peitoril da janela , iam assim confidenciando

 baixo , quela hora crepuscular , frente para a perspectiva sombria

 das montanhas que se recostavam numa mudez piramidal e tenebrosa ,

 como dorsos de dromedrios fugindo nos longes de um deserto ...

 Havia pausas curtas no dilogo .

 O cemitrio dava uma nota ainda mais triste  paisagem , quele

 recncavo da natureza , cuja melancolia tinha o sainete fnebre da

 morte ...

 O cu , porm , o grande cu , numa impassibilidade mstica , sem a

 dobra ou a franja de uma nuvem , sem o brilho de uma estrela

 precursora , vazio e desolado , era como a retratao simblica do

 Nirvana oriental para onde correm as almas dos eleitos de Buda ...
 -

 misterioso , inexpressivo e assim mesmo belo !

 Uma claridade argentina e deliqescente , qual o reflexo para o alto

 de uma cidade iluminada , emergiu como os prdromos de uma aurora

 boreal , no liso descampado que o sol ia deixando .

 - Olha aquilo !
 - exclamou o bacharel , tocando no ombro de Adelaide .

 Ela volveu o rosto  esquerda , para o lugar indicado , e , sem se

 aperceber de que j era noitinha , viu o medalho esbraseado da lua

 no nascente , carregando toda a tristeza dos desiludidos , toda a

 inconsolvel amargura dos infelizes , cujo olhar se embebera nele

 desde o princpio do mundo .

 E a esposa de Evaristo no teve uma palavra de admirao , um

 movimento de surpresa : disse simplesmente , quase inconscientemente :

 -  a lua ...

 E , com a face na mo , esperou que o astro bendito dos poetas lhe

 trouxesse algum remdio s dores , que eram muitas e profundas ...

 Mas Evaristo continuou , distraindo-a :

 - Tu ests nervosa , Adelaide , isso  nervoso , a molstia da moda ...

 Vamos procurar casa , que  o verdadeiro ...

 - No , no !
 - interrompeu ela com um arzinho de amuo. - Daqui , de

 Botafogo , para a provncia ...
 para outro lugar ...
 fora do Rio de

 Janeiro .

 - Com efeito !
 Muito dio tens tu ao Rio de Janeiro !

 - Dizes bem : muito dio ...

 - Queres , ento , decididamente , voltar  doce vidinha de Coqueiros !

 Pois olha , no te gabo o gosto .
 O Rio de Janeiro sem o imperador e

 sem os preconceitos da monarquia , o Rio de Janeiro tal qual sonham

 os bons republicanos , h de ser uma coisa nica !
 Palavra de honra

 como eu no desejava abandonar esta terra , enquanto no visse um

 homem do povo governando o Brasil !

 - De forma que , se os mdicos me aconselhassem uma retirada ...

 - Isso  outro caso , filha ; a sade em primeiro lugar .
 Mas no me

 consta que estejas to doente assim ...

 - Pois estou ...
 estou muito doente , muito apreensiva , muito

 nervosa ...
 j no acho encanto em coisssima alguma ...
 Vem-me uma

 vontade de chorar , uma tristeza no corao ...

 Evaristo imaginou logo que se tratava de um primeiro filho .
 Oh , o

 seu ideal domstico : um filho !
 Ouvira falar nos mltiplos sintomas

 da gravidez , nas primeiras manifestaes desse estado ...
 e o

 nervoso de Adelaide , aquela tristeza , aquela morbidez , no o

 enganavam ...

 Era pai .

 Um sorriso complacente arqueou-lhe os lbios ; todo ele sentiu-se

 invadido por uma onda de alegria e de ternura paternal .
 J no

 estava ali o republicano exaltado , o homem feroz , o poltico sem

 entranhas , o abutre dos monarquistas e dos reis !
 A simples idia de

 que em breve estaria com um beb ao colo , nascido do seu amor , um

 novo e legtimo representante dos Holanda , fazia-o outro homem ,

 calmo , generoso , inclinado ao perdo , amigo dos seus inimigos .

 Adelaide compreendeu a iluso do marido e sorriu tambm :

 - No ...
 no  o que tu pensas ...

 - No  !
 Ora , se  ...

 - Juro-te !

 Mas ele , na sua embriaguez , no seu enleio , na extrema felicidade

 que o assaltava , respondeu :

 - O futuro nos dir ...

 Com uma voz to firme , to convencida , que a esposa , mais meiga do

 que nunca , tornou a sorrir e beijou-o carinhosamente .

 O luar banhava as montanhas com essa claridade misteriosa que faz

 sonhar em coisas vagas , intangveis , etreas , que a linguagem

 humana no define .
 Todos os objetos que a vista alcanava pareciam

 diluir-se , esgazear-se numa neblina luminosa e transparente .

 Embaixo , na rua , os lampies , espaados , morriam de abandono e de

 tristeza .

 Evaristo acendeu o gs , porque - " aquilo estava cheirando a runas

 de Pompia em noites de luar ...
 "

 - Ora , at que enfim !
 - dizia ele , riscando o fsforo. - At que ,

 enfim , o muito digno Sr. Evaristo de Holanda acertou no alvo !

 Captulo VIII

 O Visconde de Santa Quitria foi o primeiro a anunciar a chegada do

 monarca a Lisboa , depois a Paris , depois a Baden-Baden ; recebia

 telegramas diretos , que lhe enviava um amigo da corte , igualmente

 condecorado por Sua Majestade .
 E no mesmo dia em que o carteiro lhe

 entregava o despacho , abalava para Botafogo , dentro do seu cup de

 arreios novos , com a notcia na ponta da lngua .

 Furtado dizia logo  mulher : - " Temos novidade !
 " E D. Branca

 ensaiava o melhor dos seus sorrisos para apertar a mo ao

 banqueiro .

 Numa dessas noites ( porque era sempre  noite que o visconde

 visitava os Furtado ) - numa dessas noites o Santa Quitria no

 encontrou Furtado em casa .
 O secretrio tinha ido  Fbrica das

 Chitas visitar um amigo doente - ...
 o que estimei bastante ...
 -

 acrescentou D. Branca em segredo .

 O visconde limitou-se a um - oh !
 de agradecimento .

 J havia um princpio de discrdia entre os Furtado e os Holanda .

 Evaristo e a esposa recolhiam agora muito cedo , ao lusco-fusco ,

 para evitar discusses com o outro casal , no obstante o bom gnio

 do secretrio .
 D. Branca era sempre mais caprichosa e altiva .

 De modo que o visconde no podia encontrar melhor ocasio para um

 rendez-vous amoroso .

 Sentaram-se os dois , ele e ela , no sof , tranqilamente , numa

 familiaridade discreta , como se estivessem nalgum remanso

 impenetrvel , interdito a olhos e ouvidos humanos .
 A questo era

 falar baixinho , para que as vozes no ecoassem , denunciadoras , alm

 do teto , no aposento dos Holanda .

 Ouvia-se o piano de D. Sinh , na casa do desembargador .
 Mas a rua ,

 como de costume , estava silenciosa .

 O primeiro movimento de D. Branca , depois de sentar-se , foi para

 entregar ao banqueiro uma carta que h dias lhe andava no bolso do

 vestido .

 - Leia em casa , recomendou .

 Ele tomou o envelope , com um carinho singular , e guardou-o .

 - Mesmo , aqui no teria encanto ...

 E entraram a conversar numa voz sibilada , num tom de reza ou de

 confisso mal quebrando o silncio da sala .
 Falavam de amor e do

 ltimo encontro que haviam tido .
 Ela achava " um bocadinho " prosaico

 o escritrio da Rua da Alfndega , " um bocadinho exposto " .

 J se tratavam por voc .

 - Voc no imagina - dizia ela - o sacrifcio que me custou !.
 E os

 homens ainda falam mal das mulheres ...

 Ele , ento , fazia-se meigo , derreava a cabea , sem prejudicar a

 linha correta do porte , dando palmadinhas na mo dela , numa

 intimidade de casal .
 Tirou da botoeira a rosa que trazia e

 ofereceu-lha com uma graa muitssimo gentil .

 Depois , ela pediu licena por um instante - mandou trazer vinho

 fino do Porto que o criado apresentou numa salva de prata .

 Eram quase dez horas quando o visconde quis retirar-se .

 - Agora espere o Lulu - insistiu D. Branca. - Ele no deve

 tardar ...

 - J se havia demorado tanto !
 - retrucou o banqueiro .
 O amigo

 Furtado chegava cansado ...
 e no era bonito , no era correto ...
 E

 retirou-se .

 Quando a campainha deu sinal do secretrio , ia para mais de onze

 horas .
 A esposa no lhe ocultou a visita do visconde .

 - Fizeste mal em o deixar ir .

 - Disse que era tarde , que voc vinha cansado ...

 - E que novidades trouxe ele ?

 - Que a famlia imperial chegou a Cannes .
 Os mdicos receitaram

 duchas , estricnina e aplicao do gelo ao imperador .

 - J sei : o tratamento hidroterpico ...

 - Isso .

 - Todos vo bem ?

 - Todos ; o Velho mesmo tem esperana de se restabelecer .

 - Coitado !
 Sempre muito amvel , o visconde !

 - Amabilssimo !
 Perguntou pelo Raul , pela Julinha , pelos Holanda ...

 at pelo Condicional !...

 Furtado j encontrara a mulher no val dos lenis , e , enquanto se

 despia ) ela lhe ia dizendo tudo .

 A noite estava fresca : eram os primeiros dias do inverno que

 aproximava eriando a cabeleira das rvores .

 Evaristo e a mulher tinham visto , da janela , entrar e sair o

 visconde .
 O bacharel no se conteve : - armou o punho indignado :

 - Corja !

 E recolheu cheio de dio , tempestuoso , numa das suas exploses mal

 contidas de jacobino incendirio. - " Neste pas devia haver uma

 forca , um cadafalso em cada esquina !
 "

 Quanto a Adelaide , continuava a abrir-lhe os olhos :

 - " Vamo-nos daqui , Evaristo ...
 Mudemo-nos de uma vez ...
 Abandonemos

 este Rio de Janeiro , que  um inferno ...
 uma tentao !
 "

 Furtado no a esquecera , apesar da discrdia que reinava entre as

 duas famlias .
 Era o primeiro a querer que ela se mudasse , que o

 bacharel fosse morar em outra casa , longe de Botafogo , mas no do

 Rio de Janeiro ...

 Adelaide cativava-o ainda irresistivelmente .
 Nas horas em que os

 dois casais se reuniam para almoar ou jantar , ele sentia

 afluir-lhe do corao todo o sangue das veias numa pletora sensual ,

 num gozo abstrato e mudo , que o desnorteava ; e ela , como se lhe

 percebesse as secretas maquinaes e a intensidade do calor

 afetivo , nem o olhava sequer ...

 As refeies eram rpidas agora - rpidas e frias como o

 cumprimento de um dever penoso .
 Trocavam-se glacialmente os - bons

 dias !
 - e quase no se falava mais , quase no se dizia outra coisa .

 O bacharel era homem de resolues momentneas e inesperadas ;

 opunha-se a qualquer idia da esposa , mas acabava sempre

 concordando com ela , e o seu fiat era um decreto irrevogvel .

 Adelaide dera-lhe a maior prova que uma mulher pode dar ao marido

 de no estar em via de aumentar a espcie humana , e ele

 resignara-se .
 Vendo-a , porm , definhar , emagrecer , e

 estranhando-lhe certos hbitos , como o de acordar alta noite ,

 sobressaltada , o de no comer com o mesmo apetite de quando tudo

 andava em ordem naquela casa , e , principalmente , o de amofinar 

 mais leve contrariedade , chorando s vezes , como uma criana ,

 quando ele lhe fazia qualquer censura - vendo-a nesse estado de

 desequilbrio nervoso , pensou em chamar mdico .

 - Por amor de Deus , Evaristo , no faa tal coisa !
 - rogou Adelaide .

 - Por qu ?
 No andas doente ?
 No te queixas tanto ?

 - Pelo amor de Deus !
 O que eu quero  ir-me embora do Rio de

 Janeiro , ainda que seja para um deserto !
 Arranquem-me daqui ,

 tirem-me deste inferno -  o que eu quero ...

 Evaristo , meio intrigado com aquela relutncia da esposa , com

 aquela idia fixa de deixar o Rio de Janeiro - ela , que a princpio

 tanto encanto achava nele - refletiu , tornou a refletir ,

 sacrificando , nesse duro trabalho mental , as guias do bigode , que

 lhe no era muito farto , e optou pelo regresso a Coqueiros .

 Adelaide queria , no  assim ?
 Fiat voluntas ...
 Em primeiro lugar

 estava ela , sua mulher , depois o Rio de Janeiro .

 Franqueza , franqueza ...
 ele tambm se dera muito mal no Rio .

 Hipocrisia , hipocrisia e mais hipocrisia era o que a gente

 encontrava .
 O prprio Lus Furtado e a prpria Sra. D. Branca o que

 eram , seno uns hipcritas ?
 O visconde , o desembargador , o

 Condicional , o Pessegueiro ...
 tudo uma corja de hipcritas !

 Adelaide tinha muita razo , muitssima razo .

 E sempre agitado , esfarelando o bigode , tomou o primeiro jornal que

 lhe caiu nas vistas .

 - Que dia  hoje ?

 - Primeiro de maio .

 - Ah ...
 Bem ; no dia dez temos vapor para o norte ...

 - Ests resolvido , ento ?...

 - Mais que resolvido .
 No podemos continuar nesta terra ...
 tu ,

 porque andas com a sade arruinada , eu , porque tenho arruinado o

 esprito ...
 De um lado o corpo , doutro lado a alma .
 O Rio  muito

 bom , sim senhores , mas para quem tem flexvel a espinha dorsal e o

 carter .
 Preparemos a trouxa !

 Adelaide ficou olhando o marido , com um risinho seco e incrdulo 

 flor dos lbios , a mo no queixo , a cabea inclinada numa pose de

 modelo vivo .

 - Por que me olhas com esses olhos to admirados ?
 - perguntou o

 bacharel agarrado ao Comrcio do Rio .

 - Por nada ...

 - J disse : preparemos a trouxa .
 Amanh vou me despedir do Banco e

 telegrafar ao Rocha .

 Adelaide continuava a olhar Evaristo , sem o compreender , sem

 compreender toda aquela precipitao .

 - No me venhas com histrias ...
 - tornou ele .

 - Mas ...

 - Que mas o qu !
 Para longe deste inferno !
 para longe desta

 porqueira !
 Vive-se melhor , mais barato e mais honradamente na

 obscuridade da provncia , criando galinhas ou plantando jerimuns .

 Estou farto de aturar a pedantocracia de Botafogo e do Sr. Lus

 Furtado .
 Um bacharel em direito vive em qualquer parte do mundo :

 vou advogar , vou esperar a Repblica no serto !

 - O que eu quero dizer  que no te precipites , Evaristo .
 Faamos

 as coisas com jeito , sem desgostar a ningum .
 Olha que devemos

 favores ao Sr .
 Furtado ,  D. Branca ...

 - Adeus , minhas encomendas !
 - disse o bacharel erguendo-se e

 atirando o jornal para o lado. - Quem te afirmou o contrrio ?
 

 verdade que devo muitos favores quele bigorrilha , inclusive os

 duzentos mil ris que me emprestou j l vai um ano ; mas porque mos

 no cobrou ?
 Negcio  negcio .
 Agora , da no segue-se que lhe devo

 beijar as mos como um cachorrinho de grisette .

 - Evaristo !

 - Digo e torno a dizer : no sou um cachorrinho de grisette para

 andar beijando as mos a fidalgos !

 - Fala baixo !

 - Estou falando mais baixo do que costumo ...

 E encerrou-se a discusso entre Evaristo de Holanda e a mulher

 naquela tarde melanclica demais , ao crepsculo .

 Adelaide no dormiu , pensando na brusca resoluo do marido e em

 mil e tantas coisas fteis que aos olhos de uma mulher inexperiente

 como ela , e como ela supersticiosa , adquirem estranhas propores .

 Mas no meio de todas essas coisas erguia-se o vulto de um homem ,

 que no era o Holanda , que absolutamente no se parecia com aquele

 que ali estava a seu lado , na cama , e de novo um extraordinrio

 medo apoderava-se dela , um pavor inexplicvel , uma covardia

 criminosa , que a obrigava a abrir e fechar os olhos

 intermitentemente ...
 Era o vulto do secretrio ...
 " a tentao " ,

 chamando-a para o mistrio do gozo e para a desonra , num apelo

 fidalgo de cavalheiro do Amor , num requinte donjuanesco de volpia

 mundana ...
 Sim , era ele , era .
 Lus Furtado acenando-lhe com a

 felicidade efmera de um instante , ajoelhando-se-lhe aos ps e

 suplicando um beijo , uma palavra de amor , um movimento de

 simpatia ...
 E ela , inconscientemente , fechava os olhos para o ver

 melhor , e naquele sonhar acordada , ia-se-lhe a alma , num vo rpido

 e traioeiro para o marido de D. Branca ...
 Depois voltava ao corpo

 donde sara , e logo a jovem esposa do bacharel abria os olhos ,

 trmula de medo , arrependida como se houvesse praticado uma ao

 m .

 Naquela noite , mais do que em todas as outras , Adelaide pensou no

 secretrio. - Am-lo-ia ?...
 No , porque adorava o marido .
 Talvez

 acabasse amando-o ...
 Mas o futuro  to incerto , so to incertas

 as previses humanas !...
 Certo  que a imagem dele no a deixava ,

 por mais que a repelisse .

 Amanheceu o dia soberbo de luz .
 Evaristo tornou a falar na viagem

 para o norte .
 Adelaide disse-lhe que sim , que ia tratando de

 arrumar as coisas , e fez um gesto de enfado .

 O bacharel vestiu-se , cantarolando de bom humor , e desceu para a

 refeio .

 - Bom dia .

 - Bom dia .

 Repetiram-se os habituais cumprimentos da manh .

 Mais do que nunca o almoo correu frio .
 D. Branca estava de olhos

 duros e passava os pratos com um gesto de visvel apatia .
 Furtado

 aludiu , em frases lacnicas , ao ltimo telegrama de Cannes :

 - Sua Majestade continuava no uso das duchas , - publicado nos

 jornais matutinos .
 Leu alto , para que todos ouvissem , inclusive o

 bacharel , que fingiu no dar ateno .

 Adelaide petiscava de leve as migalhas de arroz e os bocadinhos de

 fritada , baixando os olhos com cerimoniosa discrio .

 Evaristo , por sua vez , guardou o mais profundo recolhimento , no

 aludindo sequer  projetada viagem .
 Ia falar ao amigo no Banco e l

 mesmo ajustar suas contas .

 - Vamos ?
 - disse o secretrio tomando o chapu e palitando os

 dentes .

 - Vamos - respondeu friamente Evaristo .

 E saram como de costume , agora menos comunicativos .

 Adelaide acompanhou o marido  escada e , logo que este desapareceu

 embaixo , porta fora , recolheu ao segundo andar , numa crise de

 nervos .
 No havia decorrido uma hora depois do almoo , quando D .

 Branca ouviu gritos finos de mulher no alto do sobrado .

 -  Adelaide , minha gente !
 - disse arregalando os olhos para o

 Antnio que correra .

 Os gritos aumentavam , numa progresso assustadora .

 -  ela !
  ela !
 - repetiu a esposa de Furtado investindo para o

 corredor .

 A ama , com a Julinha nos braos , abalou tambm dos fundos da casa ,

 e ela e D. Branca e o Antnio acudiram precipitadamente , aos

 encontres .

 O fmulo do secretrio no esperou pela patroa : galgou os degraus

 dois a dois , trs a trs , numa elasticidade felina de msculos , e ,

 sem guardar convenincias , enveredou pelos aposentos do bacharel .

 D. Branca foi encontr-lo sobrepujando Adelaide que se debatia no

 leito numa agitao de todo o corpo , os olhos desvairados , a face

 muito plida , em convulses histricas .

 - Mas o que foi ?
 o que foi ?!
 - perguntava , assombrada , a esposa do

 secretrio .

 Ningum sabia explicar , ningum sabia dizer o que aquilo era .

 - O doutor , minha senhora , o doutor !
 - aconselhava o Antnio ,

 agarrado aos pulsos da doente .

 A primeira idia de D. Branca foi pedir socorro da janela , alarmar

 a vizinhana , salvar a sua responsabilidade , mesmo porque no tinha

 quela hora quem fosse chamar o mdico ou prevenir a Evaristo .
 O

 Antnio era indispensvel , a ama no saa  rua , e ela , D. Branca ,

 estava em trajos muito caseiros para se apresentar a qualquer

 estranho .
 Que falta que fazia o Raul !

 A ama , sem largar a Julinha , desceu em procura do vidro de ter .

 - Depressa , rapariga , depressa !
 - bradava a mulher do secretrio ,

 atnita no meio da casa .

 Felizmente Adelaide arriou os braos , como extenuada , e os gritos

 foram-lhe morrendo pouco a pouco , dolorosos e cansados , na

 garganta .

 - Oh meu Deus , que aflio me faz isso !
 - imprecava D. Branca .

 - No  nada , minha senhora , no  nada ...
 - dizia o Antnio numa

 voz conciliadora. - E bom desabotoar-lhe a roupa ...
 Foi um

 ataque ...

 - Espera , Antnio , espera , que eu j desaboto .. .
 No saias

 daqui .. traze um copo com gua .

 O copeiro obedeceu , enquanto ela ia afrouxando a roupa de Adelaide .

 Veio o ter , veio a gua , fizeram-se frices , chamaram muitas

 vezes pelo nome da doente , a ver se ela acordava , cobriram-na com

 um lenol desde os ps at o pescoo , colocaram-lhe a cabea nos

 travesseiros ; mas a esposa do bacharel no dava sinal de vida .

 - O corao est batendo ?
 - perguntou inquieta , a ama .

 D. Branca encostou o ouvido no peito de Adelaide .

 - Est , sim ...
 est batendo devagarinho .

 - E agora ?
 - quis saber o Antnio , pronto a retirar-se .

 - Agora - ordenou D. Branca - toma um tlburi e vai , vai , correndo ,

 avisar ao marido dela , no Banco Industrial. - Sabes onde  ?

 - Sei , sim senhora .

 - Pois vai .

 O criado atirou-se pelas escadas , mais veloz que um andarilho .

 D. Branca ficou  beira do leito , muito nervosa , cheia de

 desapontamento , velando a enferma .

 Adelaide parecia dormir , numa imobilidade de cadver , os olhos

 fechados , a boca entreaberta , mal respirando .

 A esposa do secretrio esfregava-lhe a testa e os pulsos , dando-lhe

 a cheirar ter , enxugando-lhe o suor que porejava do rosto .
 De

 instante a instante mandava um olhar ao espelho do toucador. -

 Estava to plida !

 Afina , Adelaide abriu os olhos com um largo suspiro que f-la

 estremecer toda .

 - Quer beber um pouquinho d'gua ?
 - inquiriu Branca .

 A esposa de Evaristo no respondeu ; olhou-a , com os olhos muito

 lnguidos , muito mortos , encarando , em seguida , a ama , que estava

 em p a seu lado .
 Mas a mulher do secretrio derramou algumas gotas

 de ter num copo e deu-lhe a beber o calmante .

 - Que horas so ?
 - perguntou Adelaide numa voz dbil que lhe saa

 do fundo do peito com outro suspiro de alvio .

 - Vai para as duas ...
 Descanse , que o Sr. Evaristo no pode

 tardar ...

 Com efeito , o bacharel no tardou .
 Para isso  que havia tlburis

 na praa e boleeiros de encomenda .
 Subiu a escada num vo .

 Adelaide estava melhor , muito melhor , e j se sentava na cama ;

 recebeu-o com lgrimas , atirando-se a ele .

 - Mas que foi ?...
 que foi ?
 - perguntava , aflito , o marido .

 A esposa do secretrio explicou tudo ; uma crise de nervos , um

 desequilbrio ...
 m digesto , talvez .

 - Uma crise ?
 Mas no chamaram mdico ?

 Adelaide continuava a soluar com a cabea no ombro de Evaristo .

 - Como chamar mdico , Sr. Evaristo , se no havia por quem ?...

 - E o Antnio ?

 - O Antnio foi avis-lo ao Banco ...
 ora , o Antnio !

 - Deixavam-te morrer , minha mulher , deixavam-te expirar  mngua !
 -

 disse o bacharel transbordando ironia. - Onde h dinheiro falta

 piedade ...
 Mil vezes a Cidade Nova !

 - Que quer o senhor dizer com isso ?
 - perguntou D. Branca ,

 ofendida .

 - Que quero dizer com isto ?
 Nada , excelentssima , absolutamente

 nada .

 - O senhor ofende-nos , a mim e ao Lulu ...

 - Eu , ofend4a ?
 - tornou Evaristo com um sorriso de escrnio .

 - Sim , senhor : ofende-nos , tanto mais quanto nunca o maltratamos ...

 sua senhora sempre foi muito bem tratada em nossa casa .

 - Perdo , eu no vim discutir .

 - No vem discutir , mas vem ofender a quem nunca o ofendeu ...
 Isto

 mesmo hei de dizer ao Lulu ...

 E a orgulhosa D. Branca Furtado , num assomo de clera , que nada

 tinha de nobreza , embarafustou , resmungando , escadas abaixo .

 - Pro diabo que a carregue !
 - explodiu Evaristo .

 Adelaide no teve tempo de lhe tapar a boca .
 A frase saiu inteira ,

 completa , dos lbios do jacobino .

 - Ao dinheiro oponho eu a dignidade , morra , embora , na misria !
 -

 continuou , afagando os cabelos da esposa .

 E seguiu-se uma cena muda de carinhos entre os dois .

 O prprio bacharel tinha lgrimas nos olhos .

 Captulo IX

 Naquele mesmo dia Evaristo de Holanda mudou-se para um hotel no

 Campo da Aclamao. - " Bastava de fidalgos ...
 " No quis levar os

 trastes , porque - dizia ele - no lhe pertenciam ; recolheu apenas

 os bas que trouxera do norte , um ou outro objeto que comprara

 depois , inclusive um grande quadro de Tiradentes e os livros , meia

 dzia de volumes encadernados .

 Quando s seis horas o carro parou  porta de Furtado , a vizinhana

 toda chegou  janela .
 O desembargador Lousada , com o indefectvel

 gorro , a mulher e a filha tambm apareceram , D. Sinh , branca de

 p-de-arroz , falava to alto que se ouvia dos extremos da rua. - S

 nessas ocasies aquele trecho do bairro animava-se um pouco ; o mais

 simples episdio , um incidente qualquer fora do comum dava s casas

 aspecto novo de quarteiro em festa , excitando a curiosidade dos

 moradores , transmitindo-lhes aos nervos uma sensao especial de

 alegria , de bom humor e de ntima aliana entre o corpo e o

 esprito .
 Era necessrio que um sopro de escndalo varresse a

 atmosfera estagnada dos brases e do preconceito fidalgo para que o

 longnquo recanto de Botafogo sentisse um calor de vida , um frmito

 de existncia animal nas artrias .

 Bastava o rodar de uma carruagem : todo o mundo esquecia obrigaes

 para satisfazer uma necessidade imperiosa do esprito e do olhar .

 As varandas enchiam-se , mil cabeas surgiam como peixes  tona

 d'gua .
 Era a avidez do escndalo , a eterna bisbilhotice de

 operrios e ociosos , de homens e mulheres , acordando para a faina

 do dizia-se , para a mistificao do boato .

 Um carro  porta dos Furtado !
 Ainda se fosse o do visconde ...
 mas

 no - no era o cup do Santa Quitria ...
 Talvez alguma visita de

 cerimnia ...
 Entretanto - coisa notvel !
 - as janelas do primeiro

 andar estavam fechadas e no havia ningum na varanda do

 secretrio !

 A filha do desembargador cravava os olhos na alta frontaria do

 sobrado :

 - " Ningum " !

 E aquele " misterioso " veculo de segunda ordem , atrelado com

 animais de nfima espcie , causava arrepios de curiosidade - era

 como um ponto de interrogao erguido a fidalgos e burgueses no

 meio de uma rua sombria .

 Lus Furtado passeava de um lado para o outro , na sala de jantar .

 Incomodava-o a brusca retirada do amigo , no obstante as

 insinuaes odiosas da mulher .
 D. Branca enchera-lhe os ouvidos :

 que fora desacatada pelo bacharel , que o marido " da Sra. D .

 Adelaide " era um grosseiro ; que antes nunca os tivesse admitido em

 sua casa ; que o culpado era ele , Furtado , homem de muitas

 facilidades e de pouca experincia ...

 O secretrio ouvia tudo com uma resignao de carneiro imolado , sem

 proferir palavra , sem a mais leve queixa .
 No foi pedir explicaes

 ao amigo : esperou os acontecimentos com a mesma calma de homem que

 sabe ajuizar dos homens e cr numa fatalidade que a tudo resiste e

 tudo domina na ordem moral e nas relaes sociais .

 O Evaristo era um pancada , ele o sabia melhor que ningum : para que

 provoc-lo ?
 Esperava , at que o bacharel se resolvesse a um acordo ,

 a uma conciliao honrosa para ambos .
 Nenhum dos dois tinha a

 lucrar com um rompimento escandaloso e menos digno de cavalheiros

 que se prezam .
 Imaginava Adelaide sucumbida , os olhos em pranto , o

 corao intumescido de desgosto - pobre senhora !
 - s voltas com um

 homem de gnio pirrnico e macambzio , sem o necessrio equilbrio

 para a vida domstica - exagerando tudo , revoltando-se contra

 todos .

 Como ela havia de estar sofrendo , aquela pomba sem fel !

 E o secretrio do Banco Industrial forrava-se de uma tranqilidade

 assombrosa para no dar a perceber a D. Branca o pesar , o grande

 pesar que lhe causavam a histria do ataque e a narrativa do

 episdio com o bacharel na presena de Adelaide .

 Ela , coitada , ela tambm sentia muito , a jovem esposa de Evaristo ;

 habituara-se quele viver , quela existncia em comum com os

 Furtado e doa-lhe , agora , como um punhal que lhe enfiassem nas

 carnes tenras , o abandono de todas as comodidades , a separao

 brusca das duas famlias to intimamente unidas no princpio ,

 quando ela chegara ao Rio de Janeiro ...
 E por qu ?
 Por nada , por

 coisssima alguma , por um simples capricho , por uma fatalidade !

 Evaristo desceu ao lado da mulher , guiando-a na escada , todo

 cauteloso , carregando-a quase .

 - No te despedes ?...
 - lembrou ela .

 - Eu ?!

 E com uma ironia na voz :

 - Queres me debicar ...

 Adelaide no insistiu : foi-se deixando levar at embaixo ,  porta

 da rua , como uma convalescente .

 O boleeiro abriu , com um movimento estabanado , a portinhola do

 carro e ela entrou .
 Foi como se entrasse numa priso para nunca

 mais sair ; tudo escureceu ao redor dela , como se lhe tapassem a

 vista com um pano negro ; faltava-lhe o ar , faltava-lhe a lucidez do

 esprito , fugia-lhe a clarividncia das coisas , fugia-lhe tudo !

 Apenas um objeto perdurava na sua imaginao ; - triste esfinge na

 aridez de um deserto - a figura do secretrio , mais do que nunca

 tentadora , numa aurola deslumbrante que o divinizava , olhando-a ,

 todo voltado para ela , todo dela ...

 E um golfo de lgrimas , uma torrente de prolas brotou caudalosa

 de seus olhos meigos , ensopando o lencinho de rendas que lhe dera

 Evaristo no seu ltimo aniversrio .

 - So os Holanda , so os Holanda !
 - repetiu , espevitada , a filha do

 desembargador .

 E a vizinhana toda repetiu baixinho :

 - So os Holanda ...

 Furtado , quando soube que o amigo abalara , no sentiu menos que

 Adelaide a rudez do golpe , e , instintivamente , revoltou-se contra a

 mulher , contra a asa-negra de D. Branca , origem do desespero que

 lhe ia no fundo d'alma .
 Guardou , porm , esse desespero no mais

 ntimo do corao , trancou-o a sete chaves l onde ningum o

 pudesse desvendar , forte como um heri vencido , e apelou para a

 Fatalidade ...

 Mas o destino  caprichoso e no quis que o secretrio tomasse a

 pr os olhos insaciveis na miragem que o fizera sonhar noites

 inteiras , dias inteiros , na nsia de um gozo novo .

 Embalde esperou , embalde correu lugares aonde nunca o conduzira a

 sede de aventuras : ningum lhe dava notcias do bacharel .
 Para onde

 teria ele ido ?
 Como explicar o eclipse total daquela mulher numa

 cidade como o Rio de Janeiro , em que toda a gente se encontrava por

 mais que se quisesse ocultar ?
 De que ia viver Evaristo , agora , sem

 um amigo que lhe desse a mo ?
 De que ia viver a pobre Adelaide numa

 poca tenebrosa de emprstimos forados e de gerais clamores ,

 quando o prprio Banco Industrial no oferecia segurana ?

 E enquanto por um lado apiedava-se do amigo , quase arrependido de o

 ter deixado ir embora sem rumo certo no mare magnum da vida , por

 outro lado reconstrua mentalmente o episdio do Jardim Botnico ,

 em que fora protagonista a esposa do bacharel , e sentia

 extraordinria volpia cada vez que se lembrava daquele beijo de

 fogo , mais precioso que todas as riquezas do mundo e cujo calor

 como que lhe ficara impregnado na boca para todo o sempre ...
 Ela o

 repelira brandamente , cheia de dignidade , cheia de pudor , fiel ao

 homem que escolhera para esposo ; mas nisso  que estava o sabor

 esquisito e fidalgo que lhe ainda permanecia , por um efeito da

 imaginao , nos lbios trmulos ...

 FIM

