 Sermo de Santo Antonio

 Pe. Antonio Vieira

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 Pregado em S. Lus do Maranho , trs dias antes de se embarcar

 ocultamente para o Reino

 Vos estis sal terrae. S. Mateus , V , l3 .

 I

 Vs , diz Cristo , Senhor nosso , falando com os pregadores , sois o sal

 da terra : e chama-lhes sal da terra , porque quer que faam na terra o

 que faz o sal .
 O efeito do sal  impedir a corrupo ; mas quando a

 terra se v to corrupta como est a nossa , havendo tantos nela que

 tm ofcio de sal , qual ser , ou qual pode ser a causa desta

 corrupo ?
 Ou  porque o sal no salga , ou porque a terra se no deixa

 salgar .
 Ou  porque o sal no salga , e os pregadores no pregam a

 verdadeira doutrina ; ou porque a terra se no deixa salgar e os

 ouvintes , sendo verdadeira a doutrina que lhes do , a no querem

 receber .
 Ou  porque o sal no salga , e os pregadores dizem uma cousa

 e fazem outra ; ou porque a terra se no deixa salgar , e os ouvintes

 querem antes imitar o que eles fazem , que fazer o que dizem .
 Ou 

 porque o sal no salga , e os pregadores se pregam a si e no a Cristo ;

 ou porque a terra se no deixa salgar , e os ouvintes , em vez de servir

 a Cristo , servem a seus apetites .
 No  tudo isto verdade ?
 Ainda mal !

 Suposto , pois , que ou o sal no salgue ou a terra se no deixe salgar ;

 que se h-de fazer a este sal e que se h-de fazer a esta terra ?
 O que

 se h-de fazer ao sal que no salga , Cristo o disse logo : Quod si sal

 evanuerit , in quo salietur ?
 Ad nihilum valet ultra , nisi ut mittatur

 foras et conculcetur ab hominibus .
  Se o sal perder a substncia e a

 virtude , e o pregador faltar  doutrina e ao exemplo , o que se lhe

 h-de fazer ,  lan-lo fora como intil para que seja pisado de

 todos.  Quem se atrevera a dizer tal cousa , se o mesmo Cristo a no

 pronunciara ?
 Assim como no h quem seja mais digno de reverncia e de

 ser posto sobre a cabea que o pregador que ensina e faz o que deve ,

 assim  merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos ps ,

 o que com a palavra ou com a vida prega o contrrio .

 Isto  o que se deve fazer ao sal que no salga .
 E  terra que se no

 deixa salgar , que se lhe h-de fazer ?
 Este ponto no resolveu Cristo ,

 Senhor nosso , no Evangelho ; mas temos sobre ele a resoluo do nosso

 grande portugus Santo Antnio , que hoje celebramos , e a mais galharda

 e gloriosa resoluo que nenhum santo tomou .

 Pregava Santo Antnio em Itlia na cidade de Arimino , contra os

 hereges , que nela eram muitos ; e como erros de entendimento so

 dificultosos de arrancar , no s no fazia fruto o santo , mas chegou o

 povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe no tirassem

 a vida .
 Que faria neste caso o nimo generoso do grande Antnio ?

 Sacudiria o p dos sapatos , como Cristo aconselha em outro lugar ?
 Mas

 Antnio com os ps descalos no podia fazer esta protestao ; e uns

 ps a que se no pegou nada da terra no tinham que sacudir .
 Que faria

 logo ?
 Retirar-se-ia ?
 Calar-se-ia ?
 Dissimularia ?
 Daria tempo ao tempo ?

 Isso ensinaria porventura a prudncia ou a covardia humana ; mas o zelo

 da glria divina , que ardia naquele peito , no se rendeu a semelhantes

 partidos .
 Pois que fez ?
 Mudou somente o plpito e o auditrio , mas no

 desistiu da doutrina .
 Deixa as praas , vai-se s praias ; deixa a

 terra , vai-se ao mar , e comea a dizer a altas vozes : J que me no

 querem ouvir os homens , ouam-me os peixes .
 Oh maravilhas do

 Altssimo !
 Oh poderes do que criou o mar e a terra !
 Comeam a ferver

 as ondas , comeam a concorrer os peixes , os grandes , os maiores , os

 pequenos , e postos todos por sua ordem com as cabeas de fora da gua ,

 Antnio pregava e eles ouviam .

 Se a Igreja quer que preguemos de Santo Antnio sobre o Evangelho ,

 d-nos outro .
 Vos estis sal terrae :  muito bom texto para os outros

 santos doutores ; mas para Santo Antnio vem-lhe muito curto .
 Os outros

 santos doutores da Igreja foram sal da terra ; Santo Antnio foi sal da

 terra e foi sal do mar .
 Este  o assunto que eu tinha para tomar hoje .

 Mas h muitos dias que tenho metido no pensamento que , nas festas dos

 santos ,  melhor pregar como eles , que pregar deles .
 Quanto mais que o

 so da minha doutrina , qualquer que ele seja tem tido nesta terra uma

 fortuna to parecida  de Santo Antnio em Arimino , que  fora

 segui-la em tudo .
 Muitas vezes vos tenho pregado nesta igreja , e

 noutras , de manh e de tarde , de dia e de noite , sempre com doutrina

 muito clara , muito slida , muito verdadeira , e a que mais necessria e

 importante  a esta terra para emenda e reforma dos vcios que a

 corrompem .
 O fruto que tenho colhido desta doutrina , e se a terra tem

 tomado o sal , ou se tem tomado dele , vs o sabeis e eu por vs o

 sinto .

 Isto suposto , quero hoje ,  imitao de Santo Antnio , voltar-me da

 terra ao mar , e j que os homens se no aproveitam , pregar aos peixes .

 O mar est to perto que bem me ouviro .
 Os demais podem deixar o

 sermo , pois no  para eles .
 Maria , quer dizer , Domina maris :

  Senhora do mar  ; e posto que o assunto seja to desusado , espero que

 me no falte com a costumada graa .
 Ave Maria .

 II

 Enfim , que havemos de pregar hoje aos peixes ?
 Nunca pior auditrio .
 Ao

 menos tm os peixes duas boas qualidades de ouvintes : ouvem e no

 falam .
 Uma s cousa pudera desconsolar ao pregador , que  serem gente

 os peixes que se no h-de converter .
 Mas esta dor  to ordinria ,

 que j pelo costume quase se no sente .
 Por esta causa mo falarei

 hoje em Cu nem Inferno ; e assim ser menos triste este sermo , do que

 os meus parecem aos homens , pelos encaminhar sempre  lembrana destes

 dois fins .

 Vos estis sal terrae .
 Haveis de saber , irmos peixes , que o sal , filho

 do mar como vs , tem duas propriedades , as quais em vs mesmos se

 experimentam : conservar o so e preserv-lo para que se no corrompa .

 Estas mesmas propriedades tinham as pregaes do vosso pregador Santo

 Antnio , como tambm as devem ter as de todos os pregadores .
 Uma 

 louvar o bem , outra repreender o mal : louvar o bem para o conservar e

 repreender o mal para preservar dele .
 Nem cuideis que isto pertence s

 aos homens , porque tambm nos peixes tem seu lugar .
 Assim o diz o

 grande Doutor da Igreja S. Baslio : Non carpere solum , reprehendereque

 possumus pisces , sed sunt in illis , et quae prosequenda sunt

 imitatione :  No s h que notar , diz o Santo , e que repreender nos

 peixes , seno tambm que imitar e louvar.  Quando Cristo comparou a

 sua Igreja  rede de pescar , Sagenae missae in mare , diz que os

 pescadores  recolheram os peixes bons e lanaram fora os maus  :

 Elegerunt bonos in vasa , malos autem foras miserunt .
 E onde h bons e

 maus , h que louvar e que repreender .
 Suposto isto , para que

 procedamos com clareza , dividirei , peixes , o vosso sermo em dois

 pontos : no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes , no segundo

 repreender-vos-ei os vossos vcios .
 E desta maneira satisfaremos s

 obrigaes do sal , que melhor vos est ouvi-las vivos , que

 experiment-las depois de mortos .

 Comeando pois , pelos vossos louvores , irmos peixes , bem vos pudera

 eu dizer que entre todas as criaturas viventes e sensitivas , vs

 fostes as primeiras que Deus criou .
 A vs criou primeiro que as aves

 do ar , a vs primeiro que aos animais da terra e a vs primeiro que ao

 mesmo homem .
 Ao homem deu Deus a monarquia e o domnio de todos os

 animais dos trs elementos , e nas provises em que o honrou com estes

 poderes , os primeiros nomeados foram os peixes : Ut praesit piscibus

 maris et volatilibus caeli , et bestiis , universaeque terrae .
 Entre

 todos os animais do Mundo , os peixes so os mais e os peixes os

 maiores .
 Que comparao tm em nmero as espcies das aves e as dos

 animais terrestres com as dos peixes ?
 Que comparao na grandeza o

 elefante com a baleia ?
 Por isso Moiss , cronista da criao , calando

 os nomes de todos os animais , s a ela nomeou pelo seu : Creavit Deus

 cete grandia .
 E os trs msicos da fornalha da Babilnia o cantaram

 tambm como singular entre todos : Benedicite , cete et omnia quae

 moventur in aquis , Domino .
 Estes e outros louvores , estas e outras

 excelncias de vossa gerao e grandeza vos pudera dizer ,  peixes ;

 mas isto  l para os homens , que se deixam levar destas vaidades , e 

 tambm para os lugares em que tem lugar a adulao , e no para o

 plpito .

 Vindo pois , irmos , s vossas virtudes , que so as que s podem dar o

 verdadeiro louvor , a primeira que se me oferece aos olhos hoje , 

 aquela obedincia com que , chamados , acudistes todos pela honra de

 vosso Criador e Senhor , e aquela ordem , quietao e ateno com que

 ouvistes a palavra de Deus da boca de seu servo Antnio .
 Oh grande

 louvor verdadeiramente para os peixes e grande afronta e confuso para

 os homens !
 Os homens perseguindo a Antnio , querendo-o lanar da terra

 e ainda do Mundo , se pudessem , porque lhes repreendia seus vcios ,

 porque lhes no queria falar  vontade e condescender com seus erros ,

 e no mesmo tempo os peixes em inumervel concurso acudindo  sua voz ,

 atentos e suspensos s suas palavras , escutando com silncio e com

 sinais de admirao e assenso ( como se tiveram entendimento ) o que no

 entendiam .
 Quem olhasse neste passo para o mar e para a terra , e visse

 na terra os homens to furiosos e obstinados e no mar os peixes to

 quietos e to devotos , que havia de dizer ?
 Poderia cuidar que os

 peixes irracionais se tinham convertido em homens , e os homens no em

 peixes , mas em feras .
 Aos homens deu Deus uso de razo , e no aos

 peixes ; mas neste caso os homens tinham a razo sem o uso , e os peixes

 o uso sem a razo .

 Muito louvor mereceis , peixes , por este respeito e devoo que

 tivestes aos pregadores da palavra de Deus , e tanto mais quanto no

 foi s esta a vez em que assim o fizestes .
 Ia Jonas , pregador do mesmo

 Deus , embarcado em um navio , quando se levantou aquela grande

 tempestade ; e como o trataram os homens , como o trataram os peixes ?
 Os

 homens lanaram-no ao mar a ser comido dos peixes , e o peixe que o

 comeu , levou-o s praias de Nnive , para que l pregasse e salvasse

 aqueles homens .
  possvel que os peixes ajudam  salvao dos homens ,

 e os homens lanam ao mar os ministros da salvao ?!
 Vede , peixes , e

 no vos venha vanglria , quanto melhores sois que os homens .
 Os homens

 tiveram entranhas para deitar Jonas ao mar , e o peixe recolheu nas

 entranhas a Jonas , para o levar vivo  terra .

 Mas porque nestas duas aces teve maior parte a omnipotncia que a

 natureza ( como tambm em todas as milagrosas que obram os homens )

 passo s virtudes naturais e prprias vossas .
 Falando dos peixes ,

 Aristteles diz que s eles , entre todos os animais , se no domam nem

 domesticam .
 Dos animais terrestres o co  to domstico , o cavalo to

 sujeito , o boi to servial , o bugio to amigo ou to lisonjeiro , e

 at os lees e os tigres com arte e benefcios se amansam .
 Dos animais

 do ar , afora aquelas aves que se criam e vivem connosco , o papagaio

 nos fala , o rouxinol nos canta , o aor nos ajuda e nos recreia ; e at

 as grandes aves de rapina , encolhendo as unhas , reconhecem a mo de

 quem recebem o sustento .
 Os peixes , pelo contrrio , l se vivem nos

 seus mares e rios , l se mergulham nos seus pegos , l se escondem nas

 suas grutas , e no h nenhum to grande que se fie do homem , nem to

 pequeno que no fuja dele .
 Os autores comummente condenam esta

 condio dos peixes , e a deitam  pouca docilidade ou demasiada

 bruteza ; mas eu sou de mui diferente opinio .
 No condeno , antes louvo

 muito aos peixes este seu retiro , e me parece que , se no fora

 natureza , era grande prudncia .
 Peixes !
 Quanto mais longe dos homens ,

 tanto melhor ; trato e familiaridade com eles , Deus vos livre !
 Se os

 animais da terra e do ar querem ser seus familiares , faam-no muito

 embora , que com suas penses o fazem .
 Cante-lhes aos homens o

 rouxinol , mas na sua gaiola ; diga-lhes ditos o papagaio , mas na sua

 cadeia ; v com eles  caa o aor , mas nas suas piozes ; faa-lhes

 bufonarias o bugio , mas no seu cepo ; contente-se o co de lhes roer um

 osso , mas levado onde no quer pela trela ; preze-se o boi de lhe

 chamarem formoso ou fidalgo , mas com o jugo sobre a cerviz , puxando

 pelo arado e pelo carro ; glorie-se o cavalo de mastigar freios

 dourados , mas debaixo da vara e da espora ; e se os tigres e os lees

 lhe comem a rao da carne que no caaram no bosque , sejam presos e

 encerrados com grades de ferro .
 E entretanto vs , peixes , longe dos

 homens e fora dessas cortesanias , vivereis s convosco , sim , mas como

 peixe na gua .
 De casa e das portas a dentro tendes o exemplo de toda

 esta verdade , o qual vos quero lembrar , porque h filsofos que dizem

 que no tendes memria .

 No tempo de No sucedeu o dilvio que cobriu e alagou o Mundo , e de

 todos os animais quais livraram melhor ?
 Dos lees escaparam dois , leo

 e leoa , e assim dos outros animais da terra ; das guias escaparam

 duas , fmea e macho , e assim das outras aves .
 E dos peixes ?
 Todos

 escaparam , antes no s escaparam todos , mas ficaram muito mais largos

 que dantes , porque a terra e o mar tudo era mar .
 Pois se morreram

 naquele universal castigo todos os animais da terra e todas as aves ,

 porque mo morreram tambm os peixes ?
 Sabeis porqu ?
 Diz Santo

 Ambrsio : porque os outros animais , como mais domsticos ou mais

 vizinhos , tinham mais comunicao com os homens , os peixes viviam

 longe e retirados deles .
 Facilmente pudera Deus fazer que as guas

 fossem venenosas e matassem todos os peixes , assim como afogaram todos

 os outros animais .
 Bem o experimentais na fora daquelas ervas com

 que , infeccionados os poos e lagos , a mesma gua vos mata ; mas como o

 dilvio era um castigo universal que Deus dava aos homens por seus

 pecados , e ao Mundo pelos pecados dos homens , foi altssima

 providncia da divina Justia que nele houvesse esta diversidade ou

 distino , para que o mesmo Mundo visse que da companhia dos homens

 lhe viera todo o mal ; e que por isso os animais que viviam mais perto

 deles , foram tambm castigados e os que andavam longe ficaram livres .

 Vede , peixes , quo grande bem  estar longe dos homens .
 Perguntando um

 grande filsofo qual era a melhor terra do Mundo , respondeu que a mais

 deserta , porque tinha os homens mais longe .
 Se isto vos pregou tambm

 Santo Antnio e foi este um dos benefcios de que vos exortou a dar

 graas ao Criador bem vos pudera alegar consigo , que quanto mais

 buscava a Deus , tanto mais fugia dos homens .
 Para fugir dos homens

 deixou a casa de seus pais e se recolheu a uma religio , onde

 professasse perptua clausura .
 E porque nem aqui o deixavam os que ele

 tinha deixado , primeiro deixou Lisboa , depois Coimbra , e finalmente

 Portugal .
 Para fugir e se esconder dos homens mudou o hbito , mudou o

 nome , e at a si mesmo se mudou , ocultando sua grande sabedoria

 debaixo da opinio de idiota , com que no fosse conhecido nem buscado ,

 antes deixado de todos , como lhe sucedeu com seus prprios irmos no

 captulo geral de Assis .
 De ali se retirou a fazer vida solitria em

 um ermo , do qual nunca sara , se Deus como por fora o no manifestara

 e por fim acabou a vida em outro deserto , tanto mais unido com Deus ,

 quanto mais apartado dos homens .

 III

 Este  , peixes , em comum o natural que em todos vs louvo , e a

 felicidade de que vos dou o parabm , no sem inveja .
 Descendo ao

 particular , infinita matria fora se houvera de discorrer pelas

 virtudes de que o Autor da natureza a dotou e fez admirvel em cada um

 de vs .
 De alguns somente farei meno .
 E o que tem o primeiro lugar

 entre todos , como to celebrado na Escritura ,  aquele santo peixe de

 Tobias a quem o texto sagrado no d outro nome que de grande , como

 verdadeiramente o foi nas virtudes interiores , em que s consiste a

 verdadeira grandeza .
 Ia Tobias caminhando com o anjo S. Rafael , que o

 acompanhava , e descendo a lavar os ps do p do caminho nas margens de

 um rio , eis que o investe um grande peixe com a boca aberta em aco

 de que o queria tragar .
 Gritou Tobias assombrado , mas o anjo lhe disse

 que pegasse no peixe pela barbatana e o arrastasse para terra ; que o

 abrisse e lhe tirasse as entranhas e as guardasse , porque lhe haviam

 de servir muito .
 F-lo assim Tobias , e perguntando que virtude tinham

 as entranhas daquele peixe que lhe mandara guardar , respondeu o anjo

 que o fel era bom para sarar da cegueira e o corao para lanar fora

 os demnios : Cordis eius particulam , si super carbones ponas , fumus

 eius extricat omne genus daemoniorum : et fel valet ad ungendos oculos ,

 in quibus fuerit albugo , et sanabuntur .
 Assim o disse o anjo , e assim

 o mostrou logo a experincia , porque , sendo o pai de Tobias cego ,

 aplicando-lhe o filho aos olhos um pequeno do fel , cobrou inteiramente

 a vista ; e tendo um demnio , chamado Asmodeu , morto sete maridos a

 Sara , casou com ela o mesmo Tobias ; e queimando na casa parte do

 corao , fugiu dali o Demnio e nunca mais tornou .
 De sorte que o fel

 daquele peixe tirou a cegueira a Tobias , o velho , e lanou os demnios

 de casa a Tobias , o moo .
 Um peixe de to bom corao e de to

 proveitoso fel , quem o no louvar mais ?
 Certo que se a este peixe o

 vestiram de burel e o ataram com uma corda , parecia um retrato

 martimo de Santo Antnio .

 Abria Santo Antnio a boca contra os hereges , e enviava-se a eles ,

 levado do fervor e zelo da f e glria divina .
 E eles que faziam ?

 Gritavam como Tobias e assombravam-se com aquele homem e cuidavam que

 os queria comer .
 Ah homens , se houvesse um anjo que vos revelasse qual

  o corao desse homem e esse fel que tanto vos amarga , quo

 proveitoso e quo necessrio vos  !
 Se vs lhe abrsseis esse peito e

 lhe vsseis as entranhas , como  certo que haveis de achar e conhecer

 claramente nelas que s duas cousas pretende de vs , e convosco : uma 

 alumiar e curar vossas cegueiras , e outra lanar-vos os demnios fora

 de casa .

 Pois a quem vos quer tirar as cegueiras , a quem vos quer livrar dos

 demnios perseguis vs ?!
 S uma diferena havia entre Santo Antnio e

 aquele peixe : que o peixe abriu a boca contra quem se lavava , e Santo

 Antnio abria a sua contra os que se no queriam lavar .

 Ah moradores do Maranho , quanto eu vos pudera agora dizer neste caso !

 Abri , abri estas entranhas ; vede , vede este corao .
 Mas ah sim , que

 me no lembrava !
 Eu no vos prego a vs , prego aos peixes .

 Passando dos da Escritura aos da histria natural , quem haver que no

 louve e admire muito a virtude to celebrada da rmora ?
 No dia de um

 santo menor , os peixes menores devem preferir aos outros .
 Quem haver ,

 digo , que no admire a virtude daquele peixezinho to pequeno no corpo

 e to grande na fora e no poder , que no sendo maior de um palmo , se

 se pega ao leme de uma nau da ndia , apesar das velas e dos ventos , e

 de seu prprio peso e grandeza , a prende e amarra mais que as mesmas

 ncoras , sem se poder mover , nem ir por diante ?
 Oh se houvera uma

 rmora na terra , que tivesse tanta fora como a do mar , que menos

 perigos haveria na vida e que menos naufrgios no Mundo !

 Se alguma rmora houve na terra , foi a lngua de Santo Antnio , na

 qual , como na rmora , se verifica o verso de So Gregrio Nazianzeno :

 Lingua quidem parva est , sed viribus omnia vincit .
 O Apstolo

 Santiago , naquela sua eloquentssima Epstola , compara a lngua ao

 leme da nau e ao freio do cavalo .
 Uma e outra comparao juntas

 declaram maravilhosamente a virtude da rmora , a qual , pegada ao leme

 da nau ,  freio da nau e leme do leme .
 E tal foi a virtude e fora da

 lngua de Santo Antnio .
 O leme da natureza humana  o alvedrio , o

 piloto  a razo : mas quo poucas vezes obedecem  razo os mpetos

 precipitados do alvedrio ?
 Neste leme , porm , to desobediente e

 rebelde , mostrou a lngua de Antnio quanta fora tinha , como rmora ,

 para domar a fria das paixes humanas .
 Quantos , correndo fortuna na

 nau Soberba , com as velas inchadas do vento e da mesma soberba ( que

 tambm  vento ) , se iam desfazer nos baixos , que j rebentavam por

 proa , se a lngua de Antnio , como rmora , no tivesse mo no leme ,

 at que as velas se amainassem , como mandava a razo , e cessasse a

 tempestade de fora e a de dentro ?
 Quantos , embarcados na nau Vingana ,

 com a artilharia abocada e os botafogos acesos , corriam infunados a

 dar-se batalha , onde se queimariam ou deitariam a pique se a rmora da

 lngua de Antnio lhes do detivesse a fria , at que , composta a ira

 e dio , com bandeiras de paz se salvassem amigavelmente ?
 Quantos ,

 navegando na nau Cobia , sobrecarregada at s gveas e aberta com o

 peso por todas as costuras , incapaz de fugir , nem se defender , dariam

 nas mos dos corsrios com perda do que levavam e do que iam buscar ,

 se a lngua de Antnio os no fizesse parar , como rmora , at que ,

 aliviados da carga injusta , escapassem do perigo e tomassem porto ?

 Quantos , na nau Sensualidade , que sempre navega com cerrao , sem sol

 de dia , nem estrelas de noite , enganados do canto das sereias e

 deixando-se levar da corrente , se iriam perder cegamente , ou em Sila ,

 ou em Caribdes , onde no aparecesse navio nem navegante , se a rmora

 da lngua de Antnio os no contivesse , at que esclarecesse a luz e

 se pusessem em vista .

 Esta  a lngua , peixes , do vosso grande pregador , que tambm foi

 rmora vossa , enquanto o ouvistes ; e porque agora est muda ( posto que

 ainda se conserva inteira ) se vem e choram na terra tantos

 naufrgios .

 Mas para que da admirao de uma to grande virtude vossa , passemos ao

 louvor ou inveja de outra no menor , admirvel  igualmente a

 qualidade daquele outro peixezinho , a que os latinos chamaram torpedo .

 Ambos estes peixes conhecemos c mais de fama que de vista ; mas isto

 tm as virtudes grandes , que quanto so maiores , mais se escondem .

 Est o pescador com a cana na mo , o anzol no fundo e a bia sobre a

 gua , e em lhe picando na isca o torpedo comea a lhe tremer o brao .

 Pode haver maior , mais breve e mais admirvel efeito ?
 De maneira que ,

 num momento , passa a virtude do peixezinho , da boca ao anzol , do anzol

  linha , da linha  cana e da cana ao brao do pescador .

 Com muita razo disse que este vosso louvor o havia de referir com

 inveja .
 Quem dera aos pescadores do nosso elemento , ou quem lhes

 pusera esta qualidade tremente , em tudo o que pescam na terra !
 Muito

 pescam , mas no me espanto do muito ; o que me espanta  que pesquem

 tanto e que tremam to pouco .
 Tanto pescar e to pouco tremer !

 Pudera-se fazer problema ; onde h mais pescadores e mais modos e

 traas de pescar , se no mar ou na terra ?
 E  certo que na terra .
 No

 quero discorrer por eles , ainda que fora grande consolao para os

 peixes ; baste fazer a comparao com a cana , pois  o instrumento do

 nosso caso .
 No mar , pescam as canas , na terra , as varas , ( e tanta

 sorte de varas ) ; pescam as ginetas , pescam as bengalas , pescam os

 bastes e at os ceptros pescam , e pescam mais que todos , porque

 pescam cidades e reinos inteiros .
 Pois  possvel que , pescando os

 homens cousas de tanto peso , lhes no trema a mo e o brao ?!
 Se eu

 pregara aos homens e tivera a lngua de Santo Antnio , eu os fizera

 tremer .

 Vinte e dois pescadores destes se acharam acaso a um sermo de Santo

 Antnio , e s palavras do Santo os fizeram tremer a todos de sorte que

 todos , tremendo , se lanaram a seus ps ; todos , tremendo , confessaram

 seus furtos ; todos , tremendo , restituram o que podiam ( que isto  o

 que faz tremer mais neste pecado que nos outros ) ; todos enfim mudaram

 de vida e de ofcio e se emendaram .

 Quero acabar este discurso dos louvores e virtudes dos peixes com um ,

 que no sei se foi ouvinte de Santo Antnio e aprendeu dele a pregar .

 A verdade  que me pregou a mim , e se eu fora outro , tambm me

 convertera .
 Navegando de aqui para o Par ( que  bem no fiquem de

 fora os peixes da nossa costa ) , vi correr pela tona da gua de quando

 em quando , a saltos , um cardume de peixinhos que no conhecia ; e como

 me dissessem que os Portugueses lhe chamavam quatro-olhos , quis

 averiguar ocularmente a razo deste nome , e achei que verdadeiramente

 tm quatro olhos , em tudo cabais e perfeitos .
 D graas a Deus , lhe

 disse , e louva a liberalidade de sua divina providncia para contigo ;

 pois s guias , que so os linces do ar , deu somente dois olhos , e aos

 linces , que so as guias da terra , tambm dois ; e a ti , peixezinho ,

 quatro .

 Mais me admirei ainda , considerando nesta maravilha a circunstncia do

 lugar .
 Tantos instrumentos de vista a um bichinho do mar , nas praias

 daquelas mesmas terras vastssimas , onde permite Deus que estejam

 vivendo em cegueira tantos milhares de gentes h tantos sculos !
 Oh

 quo altas e incompreensveis so as razes de Deus , e quo profundo o

 abismo de seus juzos !

 Filosofando , pois , sobre a causa natural desta providncia , notei que

 aqueles quatro olhos esto lanados um pouco fora do lugar ordinrio ,

 e cada par deles , unidos como os dois vidros de um relgio de areia ,

 em tal forma que os da parte superior olham direitamente para cima , e

 os da parte inferior direitamente para baixo .
 E a razo desta nova

 arquitectura ,  porque estes peixinhos , que sempre andam na superfcie

 da gua , no s so perseguidos dos outros peixes maiores do mar ,

 seno tambm de grande quantidade de aves martimas , que vivem

 naquelas praias ; e como tm inimigos no mar e inimigos no ar ,

 dobrou-lhes a natureza as sentinelas e deu-lhes dois alhos , que

 direitamente olhassem para cima , para se vigiarem das aves , e outros

 dois que direitamente olhassem para baixo , para se vigiarem dos

 peixes .

 Oh que bem informara estes quatro olhos uma alma racional , e que bem

 empregada fora neles , melhor que em muitos homens !
 Esta  a pregao

 que me fez aquele peixezinho , ensinando-me que , se tenho f e uso da

 razo , s devo olhar direitamente para cima , e s direitamente para

 baixo : para cima , considerando que h Cu , e para baixo , lembrando-me

 que h Inferno .
 No me alegou para isso passo da Escritura ; mas ento

 me ensinou o que quis dizer David em um , que eu no entendia : Averte

 oculos meos , ne videant vanitatem .
  Voltai-me , Senhor , os olhos , para

 que no vejam a vaidade. 

 Pois David no podia voltar os seus olhos para onde quisesse ?!
 Do modo

 que ele queria , no .
 Ele queria voltados os seus olhos , de modo que

 no vissem a vaidade , e isto no o podia fazer neste Mundo , para

 qualquer parte que voltasse os olhos , porque neste Mundo  tudo 

 vaidade  : Vanitas vanitatum et omnia vanitas .
 Logo , para no verem os

 olhos de David a vaidade , havia-lhos de voltar Deus de modo que s

 vissem e olhassem para o outro Mundo em ambos seus hemisfrios ; ou

 para o de cima , olhando direitamente s para o Cu , ou para o de

 baixo , olhando direitamente s para o Inferno .
 E esta  a merc que

 pedia a Deus aquele grande profeta , e esta a doutrina que me pregou

 aquele peixezinho to pequeno .

 Mas ainda que o Cu e o Inferno se no fez para vs , irmos peixes ,

 acabo , e dou fim a vossos louvores , com vos dar as graas do muito que

 ajudais a ir ao Cu , e no ao Inferno , os que se sustentam de vs .
 Vs

 sois os que sustentais as Cartuxas e os Buacos , e todas as santas

 famlias , que professam mais rigorosa austeridade ; vs os que a todos

 os verdadeiros cristos ajudais a levar a penitncia das quaresmas ;

 vs aqueles com que o mesmo Cristo festejou a Pscoa as duas vezes que

 comeu com seus discpulos depois de ressuscitado .
 Prezem-se as aves e

 os animais terrestres de fazer esplndidos e custosos os banquetes dos

 ricos , e vs gloriai-vos de ser companheiros do jejum e da abstinncia

 dos justos !
 Tendes todos quantos sois tanto parentesco e simpatia com

 a virtude , que , proibindo Deus no jejum a pior e mais grosseira carne ,

 concede o melhor e mais delicado peixe .
 E posto que na semana s dois

 se chamam vossos , nenhum dia vos  vedado .
 Um s lugar vos deram os

 astrlogos entre os signos celestes , mas os que s de vs se mantm na

 terra , so os que tm mais seguros os lugares do Cu .
 Enfim , sois

 criaturas daquele elemento , cuja fecundidade entre todos  prpria do

 Esprito Santo : Spiritus Domini foecundabat aquas .

 Deitou-vos Deus a bno , que crescsseis e multiplicsseis ; e para

 que o Senhor vos confirme essa bno , lembrai-vos de no faltar aos

 pobres com o seu remdio .
 Entendei que no sustento dos pobres tendes

 seguros os vossos aumentos .
 Tomai o exemplo nas irms sardinhas .

 Porque cuidais que as multiplica o Criador em nmero to inumervel ?

 Porque so sustento de pobres .
 Os solhos e os salmes so muito

 contados , porque servem  mesa dos reis e dos poderosos ; mas o peixe

 que sustenta a fome dos pobres de Cristo , o mesmo Cristo os multiplica

 e aumenta .
 Aqueles dois peixes companheiros dos cinco pes do deserto ,

 multiplicaram tanto , que deram de comer a cinco mil homens .
 Pois se

 peixes mortos , que sustentam os pobres , multiplicam tanto , quanto mais

 e melhor o faro os vivos !
 Crescei , peixes , crescei e multiplicai , e

 Deus vos confirme a sua bno .

 IV

 Antes , porm , que vos vades , assim como ouvistes os vossos louvores ,

 ouvi tambm agora as vossas repreenses .
 Servir-vos-o de confuso , j

 que no seja de emenda .
 A primeira cousa que me desedifica , peixes , de

 vs ,  que vos comeis uns aos outros .
 Grande escndalo  este , mas a

 circunstncia o faz ainda maior .
 No s vos comeis uns aos outros ,

 seno que os grandes comem os pequenos .
 Se fora pelo contrrio , era

 menos mal .
 Se os pequenos comeram os grandes , bastara um grande para

 muitos pequenos ; mas como os grandes comem os pequenos , no bastam cem

 pequenos , nem mil , para um s grande .
 Olhai como estranha isto Santo

 Agostinho : Homines pravis , praeversisque cupiditatibus facti sunt ,

 sicut pisces invicem se devorantes :  Os homens com suas ms e

 perversas cobias , vm a ser como os peixes , que se comem uns aos

 outros.  To alheia cousa  , no s da razo , mas da mesma natureza ,

 que sendo todos criados no mesmo elemento , todos cidados da mesma

 ptria e todos finalmente irmos , vivais de vos comer !
 Santo

 Agostinho , que pregava aos homens , para encarecer a fealdade deste

 escndalo , mostrou-lho nos peixes ; e eu , que prego aos peixes , para

 que vejais quo feio e abominvel  , quero que o vejais nos homens .

 Olhai , peixes , l do mar para a terra .
 No , no : no  isso o que vos

 digo .
 Vs virais os olhos para os matos e para o serto ?
 Para c , para

 c ; para a cidade  que haveis de olhar .
 Cuidais que s os Tapuias se

 comem uns aos outros ?
 Muito maior aougue  o de c , muito mais se

 comem os Brancos .
 Vedes vs todo aquele bulir , vedes todo aquele

 andar , vedes aquele concorrer s praas e cruzar as ruas ; vedes aquele

 subir e descer as caladas , vedes aquele entrar e sair sem quietao

 nem sossego ?
 Pois tudo aquilo  andarem buscando os homens como ho-de

 comer e como se ho-de comer .
 Morreu algum deles , vereis logo tantos

 sobre o miservel a despeda-lo e com-lo .
 Comem-no os herdeiros ,

 comem-no os testamenteiros , comem-no os legatrios , comem-no os

 acredores ; comem-no os oficiais dos rfos e os dos defuntos e

 ausentes ; come-o o mdico , que o curou ou ajudou a morrer ; come-o o

 sangrador que lhe tirou o sangue ; come-a a mesma mulher , que de m

 vontade lhe d para a mortalha o lenol mais velho da casa ; come-o o

 que lhe abre a cova , o que lhe tange os sinos , e os que , cantando , o

 levam a enterrar ; enfim , ainda o pobre defunto o no comeu a terra , e

 j o tem comido toda a terra .

 J se os homens se comeram somente depois de mortos , parece que era

 menos horror e menos matria de sentimento .
 Mas para que conheais a

 que chega a vossa crueldade , considerai , peixes , que tambm os homens

 se comem vivos assim como vs .
 Vivo estava Job , quando dizia : Quare

 persequimini me , et carnibus meis saturamini ?
  Porque me perseguis to

 desumanamente , vs , que me estais comendo vivo e fartando-vos da minha

 carne ?
  Quereis ver um Job destes ?

 Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de

 crimes , e olhai quantos o esto comendo .
 Come-o o meirinho , come-o o

 carcereiro , come-o o escrivo , come-o o solicitador , come-o o

 advogado , come-o o inquiridor , come-o a testemunha , come-o o julgador ,

 e ainda no est sentenciado , j est comido .
 So piores os homens que

 os corvos .
 O triste que foi  forca , no o comem os corvos seno

 depois de executado e morto ; e o que anda em juzo , ainda no est

 executado nem sentenciado , e j est comido .

 E para que vejais como estes comidos na terra so os pequenos , e pelos

 mesmos modos com que vs comeis no mar , ouvi a Deus queixando-se deste

 pecado : Nonne cognoscent omnes , qui operantur iniquitatem , qui

 devorunt plebem meam , ut cibum panis ?
  Cuidais , diz Deus , que no

 h-de vir tempo em que conheam e paguem o seu merecido aqueles que

 cometem a maldade ?
  E que maldade  esta ,  qual Deus singularmente

 chama maldade , como se no houvera outra no Mundo ?
 E quem so aqueles

 que a cometem ?
 A maldade  comerem-se os homens uns aos outros , e os

 que a cometem so os maiores , que comem os pequenos : Qui devorant

 plebem meam , ut cibum panis .

 Nestas palavras , pelo que vos toca , importa , peixes , que advirtais

 muito outras tantas cousas , quantas so as mesmas palavras .
 Diz Deus

 que comem os homens no s o seu povo , seno declaradamente a sua

 plebe : Plebem meam , porque a plebe e os plebeus , que so os mais

 pequenos , os que menos podem e os que menos avultam na repblica ,

 estes so os comidos .
 E no s diz que os comem de qualquer modo ,

 seno que os engolem e os devoram : Qui devorant .
 Porque os grandes que

 tm o mando das cidades e das provncias , no se contenta a sua fome

 de comer os pequenos um por um , ou poucos a poucos seno que devoram e

 engolem os povos inteiros : Qui devorant plebem meam .
 E de que modo os

 devoram e comem ?
 Ut cibum panis : no como os outros comeres , seno

 como po .

 A diferena que h entre o po e os outros comeres ,  que para a

 carne , h dias de carne , e para o peixe , dias de peixe , e para as

 frutas , diferentes meses no ano ; porm o po  comer de todos os dias ,

 que sempre e continuadamente se come : e isto  o que padecem os

 pequenos .
 So o po quotidiano dos grandes ; e assim como o po se come

 com tudo , assim com tudo e em tudo so comidos os miserveis pequenos ,

 no tendo nem fazendo ofcio em que os no carreguem , em que os no

 multem , em que os no defraudem , em que os no comam , traguem e

 devorem : Qui devorant plebem meam , ut cibum panis .

 Parece-vos bem isto , peixes ?
 Representa-se-me que com o movimento das

 cabeas estais todos dizendo que no , e com olhardes uns para os

 outros , vos estais admirando e pasmando de que entre os homens haja

 tal injustia e maldade !
 Pois isto mesmo  o que vs fazeis .
 Os

 maiores comeis os pequenos ; e os muito grandes no s os comem um por

 um , seno os cardumes inteiros , e isto continuamente sem diferena de

 tempos , no s de dia , seno tambm de noite , s claras e s escuras ,

 como tambm fazem os homens .

 Se cuidais , porventura , que estas injustias entre vs se toleram e

 passam sem castigo , enganais-vos .
 Assim como Deus as castiga nos

 homens , assim tambm por seu modo as castiga em vs .
 Os mais velhos ,

 que me ouvis e estais presentes , bem vistes neste Estado , e quando

 menos ouvireis murmurar aos passageiros nas canoas , e muito mais

 lamentar aos miserveis remeiros delas , que os maiores que c foram

 mandados , em vez de governar e aumentar o mesmo Estado , o destruram ;

 porque toda a fome que de l traziam , a fartavam em comer e devorar os

 pequenos .

 Assim foi ; mas , se entre vs se acham acaso alguns dos que , seguindo a

 esteira dos navios , vo com eles a Portugal e tornam para os mares

 ptrios , bem ouviriam estes l no Tejo que esses mesmos maiores que c

 comiam os pequenos , quando l chegam , acham outros maiores que os

 comam tambm a eles .
 Este  o estilo da divina justia to antigo e

 manifesto , que at os Gentios o conheceram e celebraram :

 Vos quibus rector maris , atque terrae

 Ius dedit magnum necis , atque vitae ;

 Ponite inflatos , tumidosque vultus ;

 Quidquid a vobis minor extimescit ,

 Maior hoc vobis dominus minatur .

 Notai , peixes , aquela definio de Deus : Rector maris atque terrae :

  Governador do mar e da terra  ; para que no duvideis que o mesmo

 estilo que Deus guarda com homens na terra , observa tambm convosco no

 mar .
 Necessrio  logo que olheis por vs e que no faais pouco caso

 da doutrina que vos deu o grande Doutor da Igreja Santo Ambrsio ,

 quando , falando convosco , disse : Cave nedum alium insequeris , incidas

 in validiorem :  Guarde-se o peixe que persegue o mais fraco para o

 comer , no se ache na boca do mais forte  , que o engula a ele .
 Ns o

 vemos aqui cada dia .
 Vai o xaru correndo atrs do bagre , como o co

 aps a lebre , e no v o cego que lhe vem nas costas o tubaro com

 quatro ordens de dentes , que o h-de engolir de um bocado .
 E o que com

 maior elegncia vos disse tambm Santo Agostinho : Praedo minoris fit

 praeda maioris .
 Mas no bastam , peixes , estes exemplos para que acabe

 de se persuadir a vossa gula , que a mesma crueldade que usais com os

 pequenos tem j aparelhado o castigo na voracidade dos grandes ?

 J que assim o experimentais com tanto dano vosso , importa que de aqui

 por diante sejais mais repblicos e zelosos do bem comum , e que este

 prevalea contra o apetite particular de cada um , para que no suceda

 que , assim como hoje vemos a muitos de vs to diminudos , vos venhais

 a consumir de todo .
 No vos bastam tantos inimigos de fora e tantos

 perseguidores to astutos e pertinazes , quantos so os pescadores , que

 nem de dia nem de noite deixam de vos pr em cerco e fazer guerra por

 tantos modos ?!
 No vedes que contra vs se emalham e entralham as

 redes , contra vs se tecem as nassas , contra vs se torcem as linhas ,

 contra vs se dobram e farpam os anzis , contra vs as fisgas e os

 arpes ?
 No vedes que contra vs at as canas so lanas e as cortias

 armas ofensivas ?
 No vos basta , pois , que tenhais tantos e to armados

 inimigos de fora , seno que tambm vs de vossas portas a dentro o

 haveis de ser mais cruis , perseguindo-vos com uma guerra mais que

 civil e comendo-vos uns aos outros ?
 Cesse , cesse j , irmos peixes , e

 tenha fim algum dia esta to perniciosa discrdia ; e pois vos chamei e

 sois irmos , lembrai-vos das obrigaes deste nome .
 No estveis vs

 muito quietos , muito pacficos e muito amigos todos , grandes e

 pequenos , quando vos pregava Santo Antnio ?
 Pois continuai assim , e

 sereis felizes .

 Dir-me-eis ( como tambm dizem os homens ) que no tendes outro modo de

 vos sustentar .
 E de que se sustentam entre vs muitos que no comem os

 outros ?
 O mar  muito largo , muito frtil , muito abundante , e s com o

 que bota s praias pode sustentar grande parte dos que vivem dentro

 nele .
 Comerem-se uns animais aos outros  voracidade e sevcia , e no

 estatuto da natureza .
 Os da terra e do ar , que hoje se comem , no

 princpio do Mundo no se comiam , sendo assim conveniente e necessrio

 para que as espcies se multiplicassem .
 O mesmo foi ( ainda mais

 claramente ) depois do dilvio , porque , tendo escapado somente dois de

 cada espcie , mal se podiam conservar , se se comessem .
 E finalmente no

 tempo do mesmo dilvio , em que todos viveram juntos dentro na arca , o

 lobo estava vendo o cordeiro , o gavio a perdiz , o leo o gamo , e cada

 um aqueles em que se costuma cevar ; e se acaso l tiveram essa

 tentao , todos lhe resistiram e se acomodaram com a rao do paiol

 comum que No lhes repartia .
 Pois se os animais dos outros elementos

 mais clidos foram capazes desta temperana , porque o no sero os da

 gua ?
 Enfim , se eles em tantas ocasies , pelo desejo natural da

 prpria conservao e aumento , fizeram da necessidade virtude , fazei-o

 vs tambm ; ou fazei a virtude sem necessidade e ser maior virtude .

 Outra cousa muito geral , que no tanto me desedifica , quanto me

 lastima em muitos de vs  aquela to notvel ignorncia e cegueira

 que em todas as viagens experimentam os que navegam para estas partes .

 Toma um homem do mar um anzol , ata-lhe um pedao de pano cortado e

 aberto em duas ou trs pontas , lana-o por um cabo delgado at tocar

 na gua , e em o vendo o peixe , arremete cego a ele e fica preso e

 boqueando , at que , assim suspenso no ar , ou lanado no convs , acaba

 de morrer .
 Pode haver maior ignorncia e mais rematada cegueira que

 esta ?
 Enganados por um retalho de pano , perder a vida ?

 Dir-me-eis que o mesmo fazem os homens .
 No vo-lo nego .
 D um exrcito

 batalha contra outro exrcito , metem-se os homens pelas pontas dos

 piques , dos chuos e das espadas , e porqu ?
 Porque houve quem os

 engodou e lhes fez isca com dois retalhos de pano .
 A vaidade entre os

 vcios  o pescador mais astuto e que mais facilmente engana os

 homens .
 E que faz a vaidade ?
 Pe por isco na ponta desses piques ,

 desses chuos e dessas espadas dois retalhos de pano , ou branco , que

 se chama hbito de Malta , ou verde , que se chama de Avis. ou vermelho ,

 que se chama de Cristo e de Santiago ; e os homens , por chegarem a

 passar esse retalho de pano ao peito , no reparam em tragar e engolir

 o ferro .
 E depois que sucede ?
 O mesmo que a vs .
 O que engoliu o

 ferro , ou ali , ou noutra ocasio ficou morto ; e os mesmos retalhos de

 pano tornaram outra vez ao anzol para pescar outros .

 Por este exemplo vos concedo , peixes , que os homens fazem o mesmo que

 vs , posto que me parece que no foi este o fundamento da vossa

 resposta ou escusa , porque c no Maranho , ainda que se derrame tanto

 sangue , no h exrcitos , nem esta ambio de hbitos .

 Mas nem por isso vos negarei que tambm c se deixam pescar os homens

 pelo mesmo engano , menos honrada e mais ignoradamente .
 Quem pesca as

 vidas a todos os homens do Maranho , e com qu ?
 Um homem do mar com

 uns retalhos de pano .
 Vem um mestre de navio de Portugal com quatro

 varreduras das lojas , com quatro panos e quatro sedas , que j se lhes

 passou a era e no tm gasto ; e que faz ?
 Isca com aqueles trapos aos

 moradores da nossa terra : d-lhes uma sacadela e d-lhes outra , com

 que cada vez lhes sobe mais o preo ; e os bonitos , ou os que querem

 parecer , todos esfaimados aos trapos , e ali ficam engasgados e presos ,

 com dvidas de um ano para outro ano , e de uma safra para outra safra ,

 e l vai a vida .
 Isto no  encarecimento .
 Todos a trabalhar toda a

 vida , ou na roa , ou na cana , ou no engenho , ou no tabacal ; e este

 trabalho de toda a vida , quem o leva ?
 No o levam os coches , nem as

 liteiras , nem os cavalos , nem os escudeiros , nem os pajens , nem os

 lacaios , nem as tapearias , nem as pinturas nem as baixelas , nem as

 jias ; pois em que se vai e despende toda a vida ?
 No triste farrapo

 com que saem  rua , e para isso se matam todo o ano .

 No  isto , meus peixes , grande loucura dos homens com que vos

 escusais ?
 Claro est que sim ; nem vs o podeis negar .
 Pois se  grande

 loucura esperdiar a vida por dois retalhos de pano , quem tem

 obrigao de se vestir ; vs , a quem Deus vestiu do p at  cabea , ou

 de peles de to vistosas e apropriadas cores , ou de escamas prateadas

 e doiradas , vestidos que nunca se rompem , nem gastam com o tempo , nem

 se variam ou podem variar com as modas ; no  maior ignorncia e maior

 cegueira deixardes-vos enganar ou deixardes-vos tomar pelo beio com

 duas tirinhas de pano ?
 Vede o vosso Santo Antnio , que pouco o pode

 enganar o Mundo com essas vaidades .
 Sendo moo e nobre , deixou as

 galas de que aquela idade tanto se preza , trocou-as por uma loba de

 sarja e uma correia de cnego regrante ; e depois que se viu assim

 vestido , parecendo-lhe que ainda era muito custosa aquela mortalha ,

 trocou a sarja pelo burel e a correia pela corda .
 Com aquela corda e

 com aquele pano , pescou ele muitos , e s estes se no enganaram e

 foram sisudos .

 V

 Descendo ao particular , direi agora , peixes , o que tenho contra alguns

 de vs .
 E comeando aqui pela nossa costa : no mesmo dia em que cheguei

 a ela , ouvindo os roncadores e vendo o seu tamanho , tanto me moveram o

 riso como a ira .
  possvel que sendo vs uns peixinhos to pequenos ,

 haveis de ser as roncas do mar ?!
 Se , com uma linha de coser e um

 alfinete torcido , vos pode pescar um aleijado , porque haveis de roncar

 tanto ?
 Mas por isso mesmo roncais .
 Dizei-me : o espadarte porque no

 ronca ?
 Porque , ordinariamente , quem tem muita espada , tem pouca

 lngua .
 Isto no  regra geral ; mas  regra geral que Deus no quer

 roncadores e que tem particular cuidado de abater e humilhar aos que

 muito roncam .
 S. Pedro , a quem muito bem conheceram vossos

 antepassados , tinha to boa espada , que ele s avanou contra um

 exrcito inteiro de soldados romanos ; e se Cristo lha no mandara

 meter na bainha , eu vos prometo que havia de cortar mais orelhas que a

 de Malco .
 Contudo , que lhe sucedeu naquela mesma noite ?
 Tinha roncado

 e barbateado Pedro que , se todos fraqueassem , s ele havia de ser

 constante at morrer se fosse necessrio ; e foi tanto pelo contrrio ,

 que s ele fraqueou mais que todos , e bastou a voz de uma mulherzinha

 para o fazer tremer e negar .
 Antes disso j tinha fraqueado na mesma

 hora em que prometeu tanto de si .
 Disse-lhe Cristo no horto que

 vigiasse , e vindo de a a pouco a ver se o fazia , achou-o dormindo com

 tal descuido , que no s o acordou do sono , seno tambm do que tinha

 blasonado : Sic non potuisti una hora vigilare mecum ?
 Vs , Pedro , sois

 o valente que haveis de morrer por mim ,  e no pudestes uma hora

 vigiar comigo  ?
 Pouco h , tanto roncar , e agora tanto dormir ?
 Mas

 assim sucedeu .
 O muito roncar antes da ocasio ,  sinal de dormir

 nela .
 Pois que vos parece , irmos roncadores ?
 Se isto sucedeu ao maior

 pescador , que pode acontecer ao menor peixe ?
 Medi-vos , e logo vereis

 quo pouco fundamento tendes de blasonar , nem roncar .

 Se as baleias roncaram , tinha mais desculpa a sua arrogncia na sua

 grandeza .
 Mas ainda nas mesmas baleias no seria essa arrogncia

 segura .
 O que  a baleia entre os peixes , era o gigante Golias entre

 os homens .
 Se o rio Jordo e o mar de Tiberades tm comunicao com o

 Oceano , como devem ter , pois dele manam todos , bem deveis de saber que

 este gigante era a ronca dos Filisteus .
 Quarenta dias contnuos esteve

 armado no campo , desafiando a todos os arraiais de Israel , sem haver

 quem se lhe atrevesse ; e no cabo , que fim teve toda aquela arrogncia ?

 Bastou um pastorzinho com um cajado e uma funda , para dar com ele em

 terra .
 Os arrogantes e soberbos tomam-se com Deus ; e quem se toma com

 Deus , sempre fica debaixo .
 Assim que , amigos roncadores , o verdadeiro

 conselho  calar e imitar a Santo Antnio .
 Duas cousas h nos homens ,

 que os costumam fazer roncadores , porque ambas incham : o saber e o

 poder .
 Caifs roncava de saber : Vos nescitis quidquam. Pilatos roncava

 de poder : Nescis quia potestatem habeo ?
 E ambos contra Cristo .
 Mas o

 fiel servo de Cristo , Antnio , tendo tanto saber , como j vos disse , e

 tanto poder , como vs mesmos experimentastes , ningum houve jamais que

 o ouvisse falar em saber ou poder , quanto mais blasonar disso .
 E

 porque tanto calou , por isso deu tamanho brado .

 Nesta viagem , de que fiz meno , e em todas as que passei a Linha

 Equinocial , vi debaixo dela o que muitas vezes tinha visto e notado

 nos homens , e me admirou que se houvesse estendido esta ronha e pegado

 tambm aos peixes .
 Pegadores se chamam estes de que agora falo , e com

 grande propriedade , porque sendo pequenos , no s se chegam a outros

 maiores , mas de tal sorte se lhes pegam aos costados. que jamais os

 desferram .
 De alguns animais de menos fora e indstria se conta que

 vo seguindo de longe aos lees na caa , para se sustentarem do que a

 eles sobeja .
 O mesmo fazem estes pegadores , to seguros ao perto como

 aqueles ao longe ; porque o peixe grande no pode dobrar a cabea , nem

 voltar a boca sobre os que traz s costas , e assim lhes sustenta o

 peso e mais a fome .

 Este modo de vida , mais astuto que generoso , se acaso se passou e

 pegou de um elemento a outro , sem dvida que o aprenderam os peixes do

 alto , depois que os nossos Portugueses o navegaram ; porque no parte

 vice-rei ou governador para as Conquistas , que no v rodeado de

 pegadores , os quais se arrimam a eles , para que c lhes matem a fome ,

 de que l no tinham remdio .
 Os menos ignorantes , desenganados da

 experincia , despegam-se e buscam a vida por outra via ; mas os que se

 deixam estar pegados  merc e fortuna dos maiores , vem-lhes a suceder

 no fim o que aos pegadores do mar .

 Rodeia a nau o tubaro nas calmarias da Linha com os seus pegadores s

 costas , to cerzidos com a pele , que mais parecem remendos ou manchas

 naturais , que os hspedes ou companheiros .
 Lanam-lhe um anzol de

 cadeia com a rao de quatro soldados , arremessa-se furiosamente 

 presa , engole tudo de um bocado , e fica preso .
 Corre meia companha a

 al-lo acima , bate fortemente o convs com os ltimos arrancos ; enfim ,

 morre o tubaro , e morrem com ele os pegadores .

 Parece-me que estou ouvindo a S. Mateus , sem ser apstolo pescador ,

 descrevendo isto mesmo na terra .
 Morto Herodes , diz o Evangelista ,

 apareceu o Anjo a Jos no Egipto , e disse-lhe que j se podia tornar

 para a ptria , porque  eram mortos todos aqueles que queriam tirar a

 vida ao Menino  : Defuncti sunt enim qui quaerebant animam Pueri .
 Os

 que queriam tirar a vida a Cristo menino , eram Herodes e todos os

 seus , toda a sua famlia , todos os seus aderentes , todos os que

 seguiam e pendiam da sua fortuna .
 Pois  possvel que todos estes

 morressem juntamente com Herodes ?!
 Sim : porque em morrendo o tubaro ,

 morrem tambm com ele os pegadores : Defuncto Herode , defuncti sunt qui

 quaerebant animam Pueri .

 Eis aqui , peixinhos ignorantes e miserveis , quo errado e enganoso 

 este modo de vida que escolhestes .
 Tomai o exemplo nos homens , pois

 eles o no tomam em vs , nem seguem , como deveram , o de Santo Antnio .

 Deus tambm tem os seus pegadores .
 Um destes era David , que dizia :

 Mihi autem adhaerere Deo bonum est. Peguem-se outros aos grandes da

 terra , que  eu s me quero pegar a Deus  .
 Assim o fez tambm Santo

 Antnio ; e seno , olhai para o mesmo Santo , e vede como est pegado

 com Cristo e Cristo com ele .
 Verdadeiramente se pode duvidar qual dos

 dois  ali o pegador : e parece que  Cristo , porque o menor  sempre o

 que se pega ao maior , e o Senhor fez-se to pequenino , para se pegar a

 Antnio .
 Mas Antnio tambm se fez menor , para se pegar mais a Deus .

 Daqui se segue , que todos os que se pegam a Deus , que  imortal ,

 seguros esto de morrer como os outros pegadores .
 E to seguros , que

 ainda no caso em que Deus se fez homem e morreu , s morreu para que

 no morressem todos os que se pegassem a ele : Si ego me quaeritis ,

 sinite hos abire .
  Se me buscais a mim , deixai ir a estes.  E posto

 que deste modo s se podem pegar os homens , e vs , meus peixezinhos ,

 no , ao menos devereis imitar aos outros animais do ar e da terra , que

 quando se chegam aos grandes e se amparam do seu poder , no se pegam

 de tal sorte que morram juntamente com eles .
 L diz a Escritura

 daquela famosa rvore , em que era significado o grande Nabucodonosor ,

 que todas as aves do cu descansavam sobre os seus ramos e todos os

 animais da terra se recolhiam  sua sombra , e uns e outros se

 sustentavam de seus frutos : mas tambm diz que , tanto que foi cortada

 esta rvore , as aves voaram e os outros animais fugiram .
 Chegai-vos

 embora aos grandes ; mas no de tal maneira pegados , que vos mateis por

 eles , nem morrais com eles .

 Considerai , pegadores vivos , como morreram os outros que se pegaram

 quele peixe grande , e porqu .
 O tubaro morreu porque comeu , e eles

 morreram pelo que no comeram .
 Pode haver maior ignorncia que morrer

 pela fome e boca alheia ?
 Que morra o tubaro porque comeu , matou-o a

 sua gula ; mas que morra o pegador pelo que no comeu ,  a maior

 desgraa que se pode imaginar !
 No cuidei que tambm nos peixes havia

 pecado original .
 Ns os homens , fomos to desgraados , que outrem

 comeu e ns o pagamos .
 Toda a nossa morte teve princpio na gulodice

 de Ado e Eva ; e que hajamos de morrer pelo que outrem comeu , grande

 desgraa !
 Mas ns lavamo-nos desta desgraa com uma pouca de gua , e

 vs no vos podeis lavar da vossa ignorncia com quanta gua tem o

 mar .

 Com os voadores tenho tambm uma palavra , e no  pequena a queixa .

 Dizei-me , voadores , no vos fez Deus para peixes ?
 Pois porque vos

 meteis a ser aves ?
 O mar f-lo Deus para vs , e o ar para elas .

 Contentai-vos com o mar e com nadar , e no queirais voar , pois sois

 peixes .
 Se acaso vos no conheceis , olhai para as vossas espinhas e

 para as vossas escamas , e conhecereis que no sois aves , seno peixes ,

 e ainda entre os peixes no dos melhores .
 Dir-me-eis , voador , que vos

 deu Deus maiores barbatanas que aos outros de vosso tamanho .
 Pois

 porque tivestes maiores barbatanas , por isso haveis de fazer das

 barbatanas asas ?!
 Mas ainda mal , porque tantas vezes vos desengana o

 vosso castigo .
 Quisestes ser melhor que os outros peixes , e por isso

 sois mais mofino que todos .
 Aos outros peixes , do alto mata-os o anzol

 ou a fisga , a vs sem fisga nem anzol , mata-vos a vossa presuno e o

 vosso capricho .
 Vai o navio navegando e o marinheiro dormindo , e o

 voador toca na vela ou na corda , e cai palpitando .
 Aos outros peixes

 mata-os a fome e engana-os a isca ; ao voador mata-o a vaidade de voar ,

 e a sua isca  o vento .
 Quanto melhor lhe fora mergulhar por baixo da

 quilha e viver , que voar por cima das entenas e cair morto !

 Grande ambio  que , sendo o mar to imenso , lhe no basta a um peixe

 to pequeno todo o mar , e queira outro elemento mais largo .
 Mas vedes ,

 peixes , o castigo da ambio .
 O voador f-lo Deus peixe , e ele quis

 ser ave , e permite o mesmo Deus que tenha os perigos de ave e mais os

 de peixe .
 Todas as velas para ele so redes , como peixe , e todas as

 cordas , laos , como ave .
 V , voador , como correu pela posta o teu

 castigo .
 Pouco h nadavas vivo no mar com as barbatanas , e agora jazes

 em um convs amortalhado nas asas .
 No contente com ser peixe ,

 quiseste ser ave , e j no s ave nem peixe ; nem voar poders j , nem

 nadar .
 A natureza deu-te a gua , tu no quiseste seno o ar , e eu j

 te vejo posto ao fogo .
 Peixes , contente-se cada um com o seu elemento .

 Se o voador no quisera passar do segundo ao terceiro , no viera a

 parar no quarto .
 Bem seguro estava ele do fogo , quando nadava na gua ,

 mas porque quis ser borboleta das ondas , vieram-se-lhe a queimar as

 asas .

  vista deste exemplo , peixes , tomai todos na memria esta sentena :

 Quem quer mais do que lhe convm , perde o que quer e o que tem .
 Quem

 pode nadar e quer voar , tempo vir em que no voe nem nade .
 Ouvi o

 caso de um voador da terra : Simo Mago , a quem a arte mgica , na qual

 era famosssimo , deu o sobrenome , fingindo-se que ele era o verdadeiro

 filho de Deus , sinalou o dia em que aos olhos de toda Roma havia de

 subir ao Cu , e com efeito comeou a voar mui alto ; porm a orao de

 S. Pedro , que se achava presente , voou mais depressa que ele , e caindo

 l de cima o mago , no quis Deus que morresse logo , seno que aos

 olhos tambm de todos quebrasse , como quebrou , os ps .

 No quero que repareis no castigo , se no no gnero dele Que caia

 Simo , est muito bem cado ; que morra , tambm estaria muito bem

 morto , que o seu atrevimento e a sua arte diablica o merecia .
 Mas que

 de uma queda to alta no rebente , nem quebre a cabea ou os braos ,

 se no os ps ?!
 Sim , diz S. Mximo , porque quem tem ps para andar e

 quer asas para voar , justo  que perca as asas e mais os ps .

 Elegantemente o Santo Padre : Ut qui paulo ante volare tentaverat ,

 subito ambulare non posset ; et qui pennas assumpserat , plantas

 amitteret .
 Se Simo tem ps e quer asas , pode andar e quer voar ; pois

 quebrem-se-lhe as asas para que no voe , e tambm os ps , para que no

 ande .
 Eis aqui , voadores do mar , o que sucede aos da terra , para que

 cada um se contente com o seu elemento .
 Se o mar tomara exemplo nos

 rios , depois que caro se afogou no Danbio no haveria tantos caros

 no Oceano .

 Oh alma de Antnio , que s vs tivestes asas e voastes sem perigo ,

 porque soubestes voar para baixo e no para cima !
 J S. Joo viu no

 Apocalipse aquela mulher cujo ornato gastou todas as luzes ao

 Firmamento , e diz que  lhe foram dadas duas grandes asas de guia  :

 Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae .
 E para qu ?
 Ut volaret in

 desertum :  Para voar ao deserto.  Notvel cousa , que no debalde lhe

 chamou o mesmo Profeta grande maravilha .
 Esta mulher estava no Cu :

 Signum magnum apparauit in caelo , mulier amicta sole .
 Pois se a mulher

 estava no Cu e o deserto na terra , como lhe do asas para voar ao

 deserto ?
 Porque h asas para subir e asas para descer .
 As asas para

 subir so muito perigosas , as asas para descer muito seguras ; e tais

 foram as de Santo Antnio .
 Deram-se  alma de Santo Antnio duas asas

 de guia , que foi aquela duplicada sabedoria natural e sobrenatural

 to sublime , como sabemos .
 E ele que fez ?
 No estendeu as asas para

 subir , encolheu-as para descer ; e to encolhidas que , sendo a Arca do

 Testamento , era reputado , como j vos disse , por leigo e sem cincia .

 Voadores do mar ( no falo com os da terra ) , imitai o vosso santo

 pregador .
 Se vos parece que as vossas barbatanas vos podem servir de

 asas , no as estendais para subir , porque vos no suceda encontrar com

 alguma vela ou algum costado ; encolhei-as para descer , ide-vos meter

 no fundo em alguma cova ; e se a estiverdes mais escondidos , estareis

 mais seguros .

 Mas j que estamos nas covas do mar , antes que saiamos delas , temos l

 o irmo polvo , contra o qual tm suas queixas , e grandes , no menos

 que S. Baslio e Santo Ambrsio .
 O polvo com aquele seu capelo na

 cabea , parece um monge ; com aqueles seus raios estendidos , parece uma

 estrela ; com aquele no ter osso nem espinha , parece a mesma brandura ,

 a mesma mansido .
 E debaixo desta aparncia to modesta , ou desta

 hipocrisia to santa , testemunham constantemente os dois grandes

 Doutores da Igreja latina e grega , que o dito polvo  o maior traidor

 do mar .
 Consiste esta traio do polvo primeiramente em se vestir ou

 pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que est pegado .
 As

 cores , que no camaleo so gala , no polvo so malcia ; as figuras , que

 em Proteu so fbula , no polvo so verdade e artifcio .
 Se est nos

 limos , faz-se verde ; se est na areia , faz-se branco ; se est no lodo ,

 faz-se pardo : e se est em alguma pedra , como mais ordinariamente

 costuma estar , faz-se da cor da mesma pedra .
 E daqui que sucede ?

 Sucede que outro peixe , inocente da traio , vai passando

 desacautelado , e o salteador , que est de emboscada dentro do seu

 prprio engano , lana-lhe os braos de repente , e f-lo prisioneiro .

 Fizera mais Judas ?
 No fizera mais , porque no fez tanto .
 Judas

 abraou a Cristo , mas outros o prenderam ; o polvo  o que abraa e

 mais o que prende .
 Judas com os braos fez o sinal , e o polvo dos

 prprios braos faz as cordas .
 Judas  verdade que foi traidor , mas

 com lanternas diante ; traou a traio s escuras , mas executou-a

 muito s claras .
 O polvo , escurecendo-se a si , tira a vista aos

 outros , e a primeira traio e roubo que faz ,  a luz , para que no

 distinga as cores .
 V , peixe aleivoso e vil , qual  a tua maldade ,

 pois Judas em tua comparao j  menos traidor !

 Oh que excesso to afrontoso e to indigno de um elemento to puro ,

 to claro e to cristalino como o da gua , espelho natural no s da

 terra , seno do mesmo cu !
 L disse o Profeta por encarecimento , que

  nas nuvens do ar at a gua  escura  : Tenebrosa aqua in nubibus

 aeris .
 E disse nomeadamente nas nuvens do ar , para atribuir a

 escuridade ao outro elemento , e no  gua ; a qual em seu prprio

 elemento  sempre clara , difana e transparente , em que nada se pode

 ocultar , encobrir nem dissimular .
 E que neste mesmo elemento se crie ,

 se conserve e se exercite com tanto dano do bem pblico um monstro to

 dissimulado , to fingido , to astuto , to enganoso e to

 conhecidamente traidor !

 Vejo , peixes , que pelo conhecimento que tendes das terras em que batem

 os vossas mares , me estais respondendo e convindo , que tambm nelas h

 falsidades , enganos , fingimentos , embustes , ciladas e muito maiores e

 mais perniciosas traies .
 E sobre o mesmo sujeito que defendeis ,

 tambm podereis aplicar aos semelhantes outra propriedade muito

 prpria ; mas pois vs a calais , eu tambm a calo .
 Com grande confuso ,

 porm , vos confesso tudo , e muito mais do que dizeis , pois no o posso

 negar .
 Mas ponde os olhos em Antnio , vosso pregador , e vereis nele o

 mais puro exemplar da candura , da sinceridade e da verdade , onde nunca

 houve dolo , fingimento ou engano .
 E sabei tambm que para haver tudo

 isto em cada um de ns , bastava antigamente ser portugus , no era

 necessrio ser santo .

 Tenho acabado , irmos peixes , os vossos louvores e repreenses , e

 satisfeito , como vos prometi , s duas obrigaes do sal , posto que do

 mar , e no da terra : Vos estis sal terrae .
 S resta fazer-vos uma

 advertncia muito necessria , para os que viveis nestes mares .
 Como

 eles so to esparcelados e cheios de baixios , bem sabeis que se

 perdem e do  costa muitos navios , com que se enriquece o mar e a

 terra se empobrece .
 Importa , pois , que advirtais , que nesta mesma

 riqueza tendes um grande perigo , porque todos os que se aproveitam dos

 bens dos naufragantes , ficam excomungados e malditos .

 Esta pena de excomunho , que  gravssima , no se ps a vs seno aos

 homens , mas tem mostrado Deus por muitas vezes , que quando os animais

 cometem materialmente o que  proibido por esta lei , tambm eles

 incorrem , por seu modo , nas penas dela , e no mesmo ponto comeam a

 definhar , at que acabam miseravelmente .

 Mandou Cristo a S. Pedro que fosse pescar , e que na boca do primeiro

 peixe que tomasse , acharia uma moeda , com que pagar certo tributo .
 Se

 Pedro havia de tomar mais peixe que este , suposto que ele era o

 primeiro , do preo dele e dos outros podia fazer o dinheiro com que

 pagar aquele tributo , que era de uma s moeda de prata , e de pouco

 peso .
 Com que mistrio manda logo o Senhor que se tire da boca deste

 peixe e que seja ele o que morra primeiro que os demais ?

 Ora estai atentos .
 Os peixes no batem moeda no fundo do mar , nem tm

 contratos com os homens , donde lhes possa vir dinheiro ; logo , a moeda

 que este peixe tinha engolido , era de algum navio que fizera naufrgio

 naqueles mares .
 E quis mostrar o Senhor que as penas que S. Pedro ou

 seus sucessores fulminam contra os homens que tomam os bens dos

 naufragantes , tambm os peixes por seu modo as incorrem morrendo

 primeiro que os outros , e com o mesmo dinheiro que engoliram

 atravessado na garganta .

 Oh que boa doutrina era esta para a terra , se eu no pregara para o

 mar !
 Para os homens no h mais miservel morte , que morrer com o

 alheio atravessado na garganta ; porque  pecado de que o mesmo S .

 Pedro e o mesmo Sumo Pontfice no pode absolver .
 E posto que os

 homens incorrem a morte eterna , de que no so capazes os peixes , eles

 contudo apressam a sua temporal , como neste caso , se materialmente ,

 como tenho dito , se no abstm dos bens dos naufragantes .

 VI

 Com esta ltima advertncia vos despido , ou me despido de vs , meus

 peixes .
 E para que vades consolados do sermo , que no sei quando

 ouvireis outro , quero-vos aliviar de uma desconsolao mui antiga , com

 que todos ficastes desde o tempo em que se publicou o Levtico .
 Na lei

 eclesistica ou ritual do Levtico , escolheu Deus certos animais que

 lhe haviam de ser sacrificados ; mas todos eles ou animais terrestres

 ou aves , ficando os peixes totalmente excludos dos sacrifcios .
 E

 quem duvida que esta excluso to universal era digna de grande

 desconsolao e sentimento para todos os habitadores de um elemento

 to nobre , que mereceu dar a matria ao primeiro sacramento ?
 O motivo

 principal de serem excludos os peixes , foi porque os outros animais

 podiam ir vivos ao sacrifcio , e os peixes geralmente no , seno

 mortos ; e cousa morta no quer Deus que se lhe oferea , nem chegue aos

 seus altares .
 Tambm este ponto era muito importante e necessrio aos

 homens , se eu lhes pregara a eles .
 Oh quantas almas chegam quele

 altar mortas , porque chegam e no tm horror de chegar , estando em

 pecado mortal !
 Peixes , dai muitas graas a Deus de vos livrar deste

 perigo , porque melhor  no chegar ao sacrifcio , que chegar morto .
 Os

 outros animais ofeream a Deus o ser sacrificados ; vs oferecei-lhe o

 no chegar ao sacrifcio ; os outros sacrifiquem a Deus o sangue e a

 vida ; vs sacrificai-lhe o respeito e a reverncia .

 Ah peixes , quantas invejas vos tenho a essa natural irregularidade !

 Quanto melhor me fora no tomar a Deus nas mos , que tom-lo

 indignamente !
 Em tudo o que vos excedo , peixes , vos reconheo muitas

 vantagens .
 A vossa bruteza  melhor que a minha razo e o vosso

 instinto melhor que o meu alvedrio .
 Eu falo , mas vs no ofendeis a

 Deus com as palavras ; eu lembro-me , mas vs no ofendeis a Deus com a

 memria ; eu discorro , mas vs no ofendeis a Deus com o entendimento ;

 eu quero , mas vs no ofendeis a Deus com a vontade .
 Vs fostes

 criados por Deus , para servir ao homem , e conseguis o fim para que

 fostes criados ; a mim criou-me para o servir a ele , e eu no consigo o

 fim para que me criou .
 Vs no haveis de ver a Deus , e podereis

 aparecer diante dele muito confiadamente , porque o no ofendestes ; eu

 espero que o hei-de ver ; mas com que rosto hei-de aparecer diante do

 seu divino acatamento , se no cesso de o ofender ?
 Ah que quase estou

 por dizer que me fora melhor ser como vs , pois de um homem que tinha

 as mesmas obrigaes , disse a Suma Verdade , que  melhor lhe fora no

 nascer homem  : Si natus non fuisset homo ille .
 E pois os que nascemos

 homens , respondemos to mal s obrigaes de nosso nascimento ,

 contentai-vos , peixes , e dai muitas graas a Deus pelo vosso .

 Benedicite , cete et omnia quae moventur in aquis , Domino :  Louvai ,

 peixes , a Deus , os grandes e os pequenos  , e repartidos em dois coros

 to inumerveis , louvai-o todos uniformemente .
 Louvai a Deus , porque

 vos criou em tanto nmero .
 Louvai a Deus , que vos distinguiu em tantas

 espcies ; louvai a Deus , que vos vestiu de tanta variedade e

 formosura ; louvai a Deus , que vos habilitou de todos os instrumentos

 necessrios  vida ; louvai a Deus , que vos deu um elemento to largo e

 to puro ; louvai a Deus , que , vindo a este Mundo , viveu entre vs , e

 chamou para si aqueles que convosco e de vs viviam ; louvai a Deus ,

 que vos sustenta ; louvai a Deus , que vos conserva ; louvai a Deus , que

 vos multiplica ; louvai a Deus , enfim , servindo e sustentando ao homem ,

 que  o fim para que vos criou ; e assim como no princpio vos deu sua

 bno , vo-la d tambm agora .
 Amen .
 Como no sois capazes de Glria ,

 nem de Graa , no acaba o vosso Sermo em Graa e Glria .

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 Texto revisto e digitalizado por

  Deolinda Rodrigues Cabrera

 Chaves , 1996

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