 Bionegcios na selva

 A construo do Centro de Biotecnologia da Amaznia e a lei de acesso a

 recursos genticos em discusso no Congresso abrem novas oportunidades

 comerciais

 Com cinco dcadas de carreira , um exlio de dez anos imposto pela ditadura

 militar e a verve belicosa que o caracteriza , o bioqumico Isaas Raw

 transformou uma proposta indecente em recurso didtico .
 Por US$ 5 mil o ento

 diretor do Instituto Butantan , tradicional centro de pesquisas de espcies

 peonhentas , deveria entregar 20 escorpies a uma multinacional da rea

 agrcola que o procurara em 1996 .
 A empresa poderia comprar os animais por

 muito menos , mas desejava lev-los com o aval de uma instituio .
 Assim no

 seria acusada de biopirataria ( acesso ilegal aos recursos biolgicos de um

 pas ) quando produtos criados a partir deles chegassem ao mercado .
 Raw repeliu

 o acordo e guardou o episdio .
 Sempre que o debate sobre a explorao da

 biodiversidade nacional adquire um tom protecionista , ele argumenta : " A nica

 forma de evitar a biopirataria  fazer primeiro no Brasil " .
  dessa maneira que

 se pretende moralizar o uso das espcies brasileiras .

 Neste ms comea a construo do Centro de Biotecnologia da Amaznia ( CBA ) , um

 complexo de laboratrios para pesquisa de plantas , animais e microorganismos

 com aplicao comercial .
 A unidade faz parte do Programa Brasileiro de Ecologia

 Molecular para o Uso Sustentvel da Biodiversidade da Amaznia ( Probem ) , um

 empreendimento de R$ 60 milhes que at agora escapou dos cortes do oramento

 federal .
 O ncleo abrigar em Manaus uma central de produo de extratos e o

 setor de estmulo  criao de empresas .
 A inaugurao est prevista para o fim

 de 1999 , mas parcerias comeam a ser alinhavadas para a criao de um plo de

 biotecnologia na Zona Franca de Manaus .

 " Queremos fazer bionegcios j " , afirma o coordenador do Probem , Wanderley

 Messias da Costa .
 A novidade est sendo apresentada s 500 empresas da regio .

 Dez delas j acertaram parcerias com a Bioamaznia , a organizao criada para

 fazer a ponte entre os centros de pesquisa e as empresas da regio .
 Uma rede de

 43 laboratrios est pronta para participar do projeto .
 Compem a rede centros

 como a Fundao Osvaldo Cruz ( Fiocruz ) , o Instituto Butantan , o Instituto

 Nacional de Pesquisas da Amaznia ( Inpa ) e o Instituto de Qumica da

 Universidade de So Paulo .

 As primeiras pesquisas estaro relacionadas ao desenvolvimento de medicamentos

 como antibiticos , anti-hipertensivos e antitumorais .
 Muito cotados tambm so

 os cosmticos , aromatizantes , corantes , leos e bioinseticidas .
 As empresas

 regionais querem utilizar guaran , castanha-do-par , acerola , ara-boi e

 cumaru para produzir xaropes , vitaminas , pomadas e cosmticos .
 A Federao das

 Indstrias de Manaus tambm recebeu de laboratrios da Alemanha e da ustria

 consultas sobre o CB .
 At o ano 2000 , os coordenadores pretendem criar um

 parque de bioindstrias no qual grandes corporaes atraiam empresas menores .

 Oferecem iseno de cinco impostos e concesso de terrenos a preo simblico .

 Os estudos de mercado so promissores .
 O pas  o campeo mundial em

 diversidade , segundo levantamento da organizao no-governamental Conservation

 International .
 Isso significa que  o primeiro entre os 17 privilegiados pases

 que dispem de 70 % das espcies animais e vegetais conhecidas no mundo .
 Mas h

 muito tempo  vtima da apropriao de seus recursos , segundo relatrio da

 Comisso da Biopirataria na Amaznia , da Cmara dos Deputados .
 Por isso , o

 professor Frederico Arruda , do Instituto de Cincias Biolgicas da Universidade

 do Amazonas , no tem iluses .
 Para ele , o Probem e a lei de acesso a recursos

 genticos no vo acabar com a biopirataria , mas devem reduzi-la a nveis

 suportveis .
 " Hoje , quando chamamos a Polcia Federal para coibir a

 biopirataria , o delegado precisa de muita criatividade para conseguir enquadrar

 o infrator " , comenta .

 Se um estrangeiro tentar sair do pas levando algum animal , poder ser

 condenado por crime contra a fauna , mas no por biopirataria .
 Ou seja : ningum

 consegue estimar o valor da biodiversidade nem dispe de mecanismos para

 obrigar ao pagamento de royalties por substncias criadas a partir de espcies

 brasileiras .
 " Precisamos da lei para estabelecer as regras do jogo com as

 empresas de biotecnologia " , afirma Braulio Dias , coordenador-geral de

 Diversidade Biolgica do Ministrio do Meio Ambiente .
 Dois projetos de lei , um

 da senadora Marina Silva ( PT-AC ) e outro do deputado federal Jacques Wagner

 ( PT-BA ) , esto sendo discutidos no Congresso .
 O governo props um terceiro

 texto e uma emenda constitucional , pelos quais o patrimnio gentico se torna

 bem da Unio e cabe ao Estado controlar o acesso , a utilizao e a repartio

 dos benefcios decorrentes desse uso .
 "  impossvel colocar um guarda atrs de

 cada rvore , mas a legislao ajudar a moralizar as coletas " , comenta Dias .

 Se a lei for aprovada e cumprida , apenas instituies brasileiras podero

 recolher material para centros estrangeiros .
 A empresa que infringir as regras

 no receber patente de seus produtos no Brasil e no poder comercializ-los

 aqui .
 Normas objetivas ajudaro a coibir uma forma mais sutil de biopirataria ,

 a que ocorre dentro dos prprios laboratrios , quando um pesquisador 

 convidado a exportar substncias em troca de equipamentos mais modernos ou de

 um doutorado no exterior .
 Arruda pulou fora dessa proposta quando um cientista

 italiano sugeriu que ele enviasse pele de r pelo correio em troca de ser

 citado como co-autor de um estudo .

 Aventureiros isolados , turistas camuflados , pesquisadores a servio de grandes

 corporaes ou brasileiros  espera de recompensa tm participado dessas

 propostas .
 A entomologista Catarina Motta , do Inpa , foi procurada h dois anos

 por um belga e um francs que se diziam pesquisadores associados de museus de

 Paris e Bruxelas .
 Ela mostrou aos dois a coleo de insetos da instituio , e

 alguns dias depois o belga foi preso com 87 besouros e mais de 100 borboletas e

 mariposas coletados em uma reserva no Amazonas .
 Como o nome de Catarina estava

 anotado na agenda dele , a pesquisadora chegou a ser apontada como conivente .
 O

 caso foi esclarecido e o belga permaneceu detido por alguns meses , mas acabou

 solto no ltimo indulto de Natal .
 " Sempre recebo cartas do exterior pedindo

 alguns exemplares , mas agora arquivo as cartas , que antes rasgava " , diz

 Catarina .

 O interesse despertado pelas espcies brasileiras  inegvel .
 Calcula-se que

 40 % dos remdios comercializados no mundo sejam oriundos de fontes naturais .
 Em

 um s hectare da Floresta Amaznica existem cerca de 500 espcies de plantas e

 50 mil de animais e microorganismos .
 O Brasil tambm possui a maior fauna de

 animais peonhentos do planeta .
 Segundo o Banco Mundial , o mercado de produtos

 biotecnolgicos para a agricultura atingir US$ 10 bilhes no ano 2000 .

 Mas nenhum pas ganha dinheiro porque tem uma planta .
 Para tirar proveito dos

 recursos biolgicos  preciso investigar suas propriedades .
 " Quanto mais

 prximo do remdio conseguirmos chegar , mais o pas ganha " , comenta Raw .
 O

 primeiro passo do Probem ser criar uma biblioteca de compostos com

 identificao de princpios ativos .
 Um relatrio do professor Mario Sergio

 Palma , da Universidade Estadual Paulista , em Rio Claro , mostra que , apesar de

 sua riqueza , o Brasil mais importa que exporta plantas medicinais ou seus

 subprodutos .
 Tomem-se como exemplo as folhas de jaborandi , cujo quilo custa US$

 1 no Brasil .
 A mesma quantidade do sal de pilocarpina , extrado delas , vale US$

 1.700 no mercado internacional .
 Utilizada como princpio ativo de um

 medicamento contra glaucoma , a droga  preparada pelo laboratrio Merck .
 Outro

 exemplo  o catropil , derivado de uma toxina da jararaca e comercializado pela

 Wellcome .
 Calcula-se que cerca de 35 mil espcies de plantas disponham de valor

 medicinal , embora apenas 5 mil tenham sido estudadas .
 A Floresta Amaznica , o

 cerrado e a Mata Atlntica reservam muitas delas .
 O Brasil pode escolher entre

 explor-las racionalmente ou perd-las para sempre .

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 Cristiane Segatto , poca ,  1998 Editora Globo S.A .

 ltima Atualizao : 23/Set/99

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