 O MANIFESTO COMUNISTA E AS IDIAS LITERRIAS DO SCULO XIX

 Fabrcio Torres de Souza

 O Manifesto Comunista insere-se no contexto histrico da ascenso da

 burguesia e da queda do Ancien Rgime do sculo XIX , que viria dar

 origem ao Capitalismo e ao modelo social que predomina at hoje .
 Esta

 mudana levou  uma transformao que repercutiu em todas os campos ,

 inclusive o literrio .
 O novo modelo social , poltico e econmico que

 se formou levou ao surgimento de novas temticas e estilos que iriam

 caracterizar o romance moderno , com o abandono do modelo literrio

 clssico caracterstico do Ancien Rgime .
 As novas correntes

 literrias do Romantismo e Realismo foram resultados deste novo modelo

 que se impunha , modelo este que o Manifesto Comunista soube retratar

 de maneira extremamente lcida .

 O Manifesto por um lado influenciou ideologicamente a gerao de

 escritores que se formava e que iria atender ao apelo do manifesto .

 Deu surgimento a uma crtica literria que se fundamentou na viso de

 luta de classes por ele apresentada .
 Mas principalmente , mesmo para

 aqueles que no compartilhavam de suas teses , contribuiu enormemente

 para a compreenso do momento histrico e  um documento precioso para

 o entendimento das motivaes literrias do sculo XIX .

 O prprio Manifesto traz uma avaliao dos movimentos literrios e

 apresenta uma classificao da literatura dita socialista e comunista

 em 3 tipos : o socialismo reacionrio , o socialismo conservador ou

 burgus e o socialismo e comunismo crtico-utpicos .

 O primeiro , o socialismo reacionrio , seria uma reao das classes

 sociais que viam na ascenso da burguesia uma ameaa ao seu status

 quo .
 Na aristocracia se formaria uma literatura socialista feudal , que

 procuraria se tornar simptica  classe trabalhadora , atravs da

 crtica ao inimigo comum , a burguesia .
 Seria uma literatura meio

 lamentao , meio stira , meio eco do passado , meio ameaa do futuro ;

 s vezes , por sua crtica amarga , inteligente e incisiva , acertando a

 burguesia no seu mago ; mas sempre de efeito cmico , pela incapacidade

 total de compreender a marcha da Histrica moderna .
 Censuravam a

 burguesia mais por ter ela criado um proletariado revolucionrio , do

 que por ter apenas criado o proletariado .
 No clero tambm teramos o

 surgimento de uma literatura socialista conservadora , de um socialismo

 cristo .
 Uma literatura tambm surgiu na defesa do ponto de vista do

 pequeno burgus , classe intermediria que tambm foi alijada do poder

 pela alta burguesia .
 Esta literatura socialista do pequeno burgus

 dissecou com acuidade as contradies das condies da produo

 moderna .
 Mas defendia a restaurao dos meios antigos de produo e

 troca , dentro da moldura das relaes de propriedade antigas que

 estavam fadadas a destruio , tornando-se utpica e reacionria .
 O

 Manifesto diferencia ainda o socialismo reacionrio alemo :

 influenciado pela literatura francesa mas sem as mesmas condies

 sociais , o socialismo alemo assumiu um aspecto puramente literrio .
 O

 trabalho dos literatos alemes consistiu somente em harmonizar as

 idias francesas novas com a sua conscincia filosfica antiga , ou

 melhor , em anexar as idias francesas sem desertar do seu prprio

 ponto de vista filosfico .
 Esta literatura alem cessou de expressar a

 luta de uma classe contra a outra .
 Segundo estes pensadores alemes ,

 ela superou a " parcialidade francesa " e passou a representar no as

 exigncias verdadeiras , mas as exigncias da verdade ; no os

 interesses do proletariado , mas os interesses da natureza humana , do

 homem em geral , que no pertence a uma classe .
 Segundo o Manifesto do

 homem " que existe somente no reino enevoado da fantasia filosfica " .

 O segundo , o socialismo burgus , defenderia o ponto de vista da parte

 da burguesia que deseja compensar injustias sociais , para assegurar a

 continuidade da existncia da sociedade burguesa .
 A burguesia

 socialista quer todas as vantagens das condies sociais modernas sem

 as lutas e os perigos que necessariamente resultam disso .
 Deseja o

 estado da sociedade existente sem os seus elementos revolucionrios e

 desintegradores .
 Quer uma burguesia sem um proletariado .
 O melhor dos

 mundos , pensa a burguesia ,  naturalmente o mundo no qual ela domina .

 O socialismo da burguesia consiste , enfim , na afirmao de que os

 burgueses so burgueses em benefcio da classe trabalhadora .

 O terceiro , o socialismo e comunismo crtico-utpicos , tem fundadores

 que vem claramente os antagonismos de classe , como tambm a ao dos

 elementos de decomposio na forma da sociedade predominante e esto

 conscientes de representar principalmente os interesses da classe

 trabalhadora .
 Mas se deparam com um proletariado ainda em sua infncia

 que no apresenta ainda uma iniciativa histrica , em que a situao

 econmica ainda no criou as condies materiais para a emancipao do

 proletariado .
 Eles buscam portanto a formao de uma nova cincia

 social , novas leis sociais que criaro tais condies .
 Mas o estado

 subdesenvolvido da luta de classes leva estes socialistas a

 considerarem-se muito superiores a todos os antagonismos de classe .

 Eles querem melhorar a condio de todo o membro da sociedade , at a

 do mais favorecido .
 Por isso , normalmente , apelam para a sociedade

 como um todo , sem distino de classe ; mais ainda , de preferncia , 

 classe governante .
 Basta compreender seu sistema para reconhecer nele

 o melhor plano possvel para a melhor sociedade .
 Por isso rejeitam

 toda ao poltica e , especialmente , toda ao revolucionria .
 Desejam

 alcanar seus objetivos por meios pacficos .
 Na proporo em que a

 luta de classes se desenvolve , esta posio fantstica de se colocar

 fora da contenda , perde todo o valor prtico .
 Se , por um lado , os

 criadores destes sistemas so revolucionrios , seus discpulos formam ,

 por outro , seitas reacionrias .

  interessante comparar a concepo literria exposta no Manifesto e a

 anlise sobre o Romantismo apresentada por Lwy [ 1 ] , retomando a

 questo abordada da apresentao do " Romantismo Anticapitalista " como

 um pleonasmo , j que todo Romantismo seria anticapitalista , bastando

 portanto falarmos em Romantismo .
 Na prova anterior em oposio a esta

 tese foi levantado o fato das caractersticas principais do Romantismo

 terem se desenvolvido na Alemanha ( ou o que viria a ser a Alemanha ) ,

 pas de capitalismo tardio , sendo que a concepo ideolgica

 anticapitalista de origem do Romantismo colocava em segundo plano um

 componente filosfico ( Herder ) e esttico ( mistura de gneros , o

 grotesco de Victor Hugo ) de grande importncia .
 O manifesto traz uma

 posio sobre esta questo que contribui para o entendimento , ao

 diferenciar a literatura socialista em seu componente alemo ,

 destacando a influncia mais forte do componente filosfico ( " o

 socialismo alemo assumiu um aspecto puramente literrio " ) .
 Para um

 melhor entendimento das motivaes de cada autor e sua insero nos

 movimentos literrios  importante levarmos em conta os aspectos

 ideolgicos , filosficos , estticos , religiosos , etc , no deixando

 que a primazia de um destes aspectos embote o entendimento dos outros .

 Bibliografia

 MARX , Karl & ENGELS , Friedrich .
 O Manifesto Comunista .
 Paz e Terra .

 So Paulo .
 2000 .
 6 ^ a .
 Edio .

 _______________________

 [ 1 ] Michael Lwy e Robert Sayre , Revolta e Melancolia , O Romantismo na

 contramo da modernidade .

