 O OMBUDSMAN E A ANLISE DO DISCURSO : O CASO " SOROPOSITIVO "

 Gustavo Conde

 Das enunciaes feitas por ombudsmans , leitores e voz do

 jornal , a mais complexa  a ltima .
 Num certo sentido , ela recobre as

 prprias noes de ombudsman e de leitor .
 O fato de serem

 compreendidos como a voz do jornal , por exemplo , os editoriais ,

 suscita algumas problemticas .
 A primeira : esta interpretao anterior

  uma viso institucional da Imprensa .
 No desprezvel , mas

 institucional .
 O que nos leva a aceitar a " imposio discursiva "

 presente na distribuio textual do veculo .
 Sabemos que essa " voz " se

 dilui e se concretiza em todos os " cantos " de um jornal , e , talvez ,

 seja precisamente nesses lugares , que no os editoriais , que ela

 realmente fala ( fato que tentaremos comprovar , na medida em que

 avanamos ao procedimento em si ) .
 Segunda : o conselho editorial de

 alguns jornais  composto por pessoas que assinam reportagens com

 freqncia , geralmente as de peso , e , como no bastasse ( terceira ) , 

 pelo crivo deles , direta ou indiretamente , que passam , sem exceo ,

 todas as matrias publicadas .
 Para esta anlise , ento , a voz do

 jornal estar " marcada " na matria assinada que coloca o assunto dessa

 investigao .

 Na definio do Aurlio , ombudsman  : ( bds ) - [ Do sueco

 ombud ` representante ' + ingls man ` homem ' ] Nos pases de democracia

 avanada , como por exemplo , a Sucia , funcionrio do governo que

 investiga as queixas dos cidados contra os rgos da administrao

 pblica / Pessoa encarregada de observar e criticar as lacunas de uma

 empresa , colocando-se do ponto de vista do pblico : " O ombudsman

 critica o prprio jornal que l com os olhos do leitor " JB 25.06.85 .

 O ombudsman , ento , teria a funo de criticar o jornal

 sob a perspectiva do leitor , estabelecendo um elo com este , a ponto de

 antecipar possveis reclamaes em sua coluna .
 Obviamente a funo se

 mistura .
 Os critrios de escolha do assunto a ser abordado parecem

 convergir com os corpora preferenciais da anlise do discurso , ou

 seja , temas " quentes " , embora a eleio desse tema caiba ao

 profissional .
 O ombudsman trava , sim , uma relao de poder com a " voz

 do jornal " .
 Aparente ou no , essa relao ser um componente de nosso

 corpus , complexificada pelo terceiro e decisivo sujeito : o leitor .

 Vamos a ele. [ 1 ]

 O leitor  a " razo de ser " de ambos planos citados .

 Justifica , mantm e est dentro da " voz do jornal " e do ombudsman ,

 seja concretamente , seja como imaginrio , sejam ambos .
 O leitor

 interpreta o jornal , mas obviamente , sob as diretrizes de quem

 administra o sentido : a Histria .
 E sob este " regime " contextualiza ,

 semantiza a discursividade jornalstica , que , em movimento ( em curso ) ,

 pede essa significao para poder estacionar - nem que seja por uma

 frao do exato momento da leitura - e assim existir .
 O carter

 enunciativo da discursividade faz , ento , com que o leitor j esteja

 instalado no jornal .
 Se esquecermos essa " posio " , perderemos algo na

 leitura da troca de poder .
 Aos critrios de constituio do corpus .

 O esboo da construo do material de anlise se d com a

 seguinte forma : como h vrios jornais com ombudsman , e esta relao

 poderia ( deveria ) se debruar sobre eles todos , optamos por escolher o

 mais influente na nossa realidade ( e do pas , num certo sentido ) .
 A

 Folha de S. Paulo recobre os requisitos de ter uma histria

 relativamente slida , ter a maior tiragem do pas , ser referncia para

 muitos outros veculos e , de certa maneira , sintetizar a realidade

 jornalstica brasileira , tanto nos aspectos bons , como nos ruins .

 Privilegia-se um nico assunto , e a partir dele observa-se qual o jogo

 de poder em questo .
 Um tema especfico , um jornal especfico , o texto

 jornalstico do tema ( a matria ) , a crtica do ombudsman , a omisso

 sintomtica da voz institucional do veculo e a presena do leitor em

 todas as instncias ( e obviamente , tambm , fora delas , o que , caso no

 ocorresse , inviabilizaria a questo da distribuio e atribuio de

 poder , objetivo final do procedimento ) .

 H de se explicitar algumas barreiras que se encontra na

 construo desse corpus .
 Ao no se encontrar a voz institucional do

 jornal , nem a voz institucional do leitor nas duas edies analisadas ,

 aponta-se o olhar para , exatamente , esse silncio ( o discurso tambm

 se compe de silncios ) , o que nos leva a deparar com compromissos ,

 que no o de noticiar e de discutir a notcia .
 Compromissos de poder ,

 que sero analisados aps a definio do procedimento .

 Antes , porm , do procedimento , deve-se , se no significar ,

 ao menos colocar alguns possveis sentidos de poder , j que este  o

 elemento nuclear da constituio do mtodo .
 O verbete poder no Aurlio

  assim definido : ter possibilidade de ou autorizao para / estar

 arriscado ou exposto a / ter o direito ou a razo de / suportar / ter

 possibilidade / dispor de fora ou autoridade / ter fora fsica ou

 moral / direito de agir / vigor / domnio ...
 O que , obviamente , o

 Aurlio no nos diz  que o maior poder  o poder de administrar os

 sentidos .
 Esse , que deixado de lado pelo mais popular dicionrio ,  a

 essncia do sentido da palavra poder , e  sobre esse poder ,

 especificamente , que um analista de discurso busca discutir .

 Na verdade , apenas um parntese , pode-se observar uma

 incompletude de significao no termo poder e em qualquer outro .
 

 exatamente dessa incompletude que trata a anlise do discurso .
 Os

 sentidos esto disponveis e sua aplicao est submetida ao contexto

 histrico em que se d .
 Essa incompletude , e s ela ,  que justifica o

 termo discurso ( palavra em movimento ) .
 Na realidade ,  o sentido que

 se movimenta sem cessar .
 O dicionrio  prova categrica disso .

 J que o procedimento constitui o corpus , por que no se

 optou por defini-lo , exatamente , antes desse ltimo ?
 Apenas questo de

 ordem .
 O procedimento , na verdade , j se constitua na definio do

 corpus numa reciprocidade latente .

 O primeiro passo , um tanto bvio , mas necessrio , 

 definir o assunto do qual estaro falando os trs sujeitos ( um ) .
 A

 seguir , e antes de debruar sobre os discursos , deve-se conferir qual

 o movimento histrico de sentidos que diz respeito a esse assunto

 ( dois ) , e qual sua relao de poder com a prpria histria ( trs ) -

 que no caso ser grande .
 Um ponto importante , no trivial ,  observar

 se h e qual o carter narrativo do texto ( quatro ) .
 Aps essa

 investigao , pode-se ir direto aos textos do jornalista e do

 ombudsman , lendo-os com mincia , e sublinhando enunciados que se

 repetem para posterior cotejo semntico ( cinco ) .
 Os " silncios " tambm

 devam ser " escutados " .
 O que o tema apenas sugere , mas no fala ,

 talvez seja seu carter primeiro , e o elemento que desencadeia toda

 significao em jogo ( seis ) .
 A seguir , deve-se localizar o leitor nos

 dois discursos j materializados e materializ-lo fora desses

 discursos para permitir equacionar o sistema de poder ( sete ) .

 Apesar de no serem perpassadas no procedimento esboado

 acima , considerou-se os aspectos gerais dos procedimentos discursivos ,

 que na medida do possvel sero aplicados na anlise .
 Simultaneamente

 a essas sete etapas mais especficas e constitutivas do corpus deve-se

 observar os processos e mecanismos da constituio de sentidos e

 sujeitos , utilizando a parfrase e a metfora como elementos que

 possibilitem o " manuseio " dos conceitos .
 Seguindo nessa simultaneidade

 temos mais trs etapas que devem ser consideradas : a passagem da

 superfcie lingstica para o texto , a passagem do objeto discursivo

 para a formao discursiva , e a passagem do processo discursivo para a

 formao ideolgica .

 Ainda , de maneira simultnea , para desfazer a idia de que

 o que se fala s pode ser dito da maneira encontrada , traz-se para o

 contato com o texto seu carter enunciativo .
 A sinomnia , ento , pode

 ser utilizada para melhor operacionalizar com os sentidos .
 Pode-se ,

 ento , comear a vislumbrar a configurao das formaes discursivas

 que esto dominando a prtica discursiva em questo .
 Poder-se-

 observar famlias parafrsticas , relacionando o que foi dito com o que

 no foi dito , com o que poderia ser dito , etc ...
 [ 2 ]

 A seguir , deve-se relacionar formaes discursivas

 distintas com a formao ideolgica que rege essas relaes .
 Ento ,

 para fechar , a incompletude de sentido que possibilita o efeito

 metafrico deve ser investigada a fim de se conhecer que ideologia

 est dando sentido ao discurso .
 Assim , pode-se definir as

 caractersticas dos mecanismos discursivos em jogo .
 Exatamente o

 deslize semntico que possibilita a interpretao , tambm viabiliza o

 reconhecimento da historicidade no discurso .

 Aplica-se , ento , o procedimento formulado :

 1 ) O assunto escolhido para anlise  sobre o ex-seminarista que se

 sentiu discriminado pelo bispo de So Miguel Paulista , por ter o vrus

 da AIDS. [ 3 ]

 Tem-se , ento , dois discursos : o do jornalista Armando

 Anterone , que , como argumentado anteriormente , se traduz por " voz do

 jornal " , e o da ombudsman Renata Lo Prete , que critica a matria sob o

 ponto de vista do leitor ( institucionalmente ) .

 O plano do leitor ser retirado desses dois discursos ,

 constituindo o imaginrio que permitir a construo da anlise da

 diviso de poder com os outros dois planos .
 Entende-se ser inevitvel

 a presena do leitor em ambos os discursos , e , na verdade , o silncio

 sintomtico do leitor ( institucional ) ser tratado como discurso , tal

 qual o silncio da " voz do jornal " institucionalizada , o editorial .

 2 ) Seguindo o procedimento , deve-se acompanhar a dinmica

 semntica do objeto nuclear do assunto : a religio .
 H um aspecto

 moral muito forte nos vrios sentidos dessa palavra .
 Como esse aspecto

 permanece , ainda que com oscilaes , ele ser a nervura constituda

 nesta etapa ( dada a brevidade desta anlise ) .

 3 ) Moral , religio e histria .
 Sempre ( sabe-se do cuidado

 a ser tomado com esta palavra ) a questo do poder esteve relacionada

 com moral .
 Ter moral  , entre outras coisas , ter poder .
 Poder de

 julgar .
 Esse aspecto do julgamento ser mister nas etapas seguintes .

 4 ) Na matria do jornalista , os nomes fictcios dos

 envolvidos ( o ex-seminarista e a costureira que o abrigou ) so

 bblicos .
 Ele , Jos Maria , ela , Madalena .
 A evocao do discurso

 parbola  flagrante .
 Aqui o sentido se constri dessa maneira pela

 formao discursiva do jornalista , que j se configura .
 O aspecto

 ideolgico que estrutura essa discursividade  precisamente localizado

 no domnio do " erotismo " religioso .
 Os " pais " de Cristo abrigados pela

 " amante " de Cristo .
 O " Cristo " invisvel do texto sugere uma

 cumplicidade do leitor com o discriminado .
 Cristo foi discriminado .

 Injustamente. ( Bblia ) .

 5 , 6 e 7 ) O que salta aos olhos no cotejo enunciativo dos

 dois textos so precisamente os ttulos : O do jornalista " Soropositivo

 diz que bispo o discriminou " .
 O da ombudsman " Soropositivo e

 discriminado " .
 Num primeiro momento , s o fato da palavra

 " soropositivo " constar j  sintoma de preconceito .
 Por que no

 " aidtico " ?
  menos atrativo ?
 E por que no " seminarista " ( deixando o

 HIV para o texto ) ?
 A ombudsman chega a notar o " deslize " e seu

 " soropositivo " toma outro sentido , como que para desfazer o

 preconceito evidente da " voz do jornal " .
 Porm ao desfazer esse

 preconceito , com o novo sentido ( tomado pelo seu carter chamativo ,

 atrativo , meta-noticioso ...
 ) ela se alicia  " voz do jornal " .
 Critica

 ao mesmo tempo que conserta , e incorre no mesmo deslize do jornalista ,

 pois o leitor ser atrado por seu ttulo .
 Se o " soropositivo

 discriminado " do jornalista provoca indignao no leitor , o da

 ombudsman provoca idntica indignao pelo fato desta explicitar o

 uso do termo " indiscriminadamente " pelo jornalista .
 Sentidos

 assimtricos , conseqncias parecidas , leitores iguais .
 Se o leitor

 imaginado pelo jornalista  aquele que se sensibiliza com

 " soropositivo " , o imaginado pela ombudsman tambm , e , ao invs de se

 ver representado no jornal , ele se v , sim , acuado , diante de dois

 produtores de sentidos que lhe ensinam como se deve interpretar .
 Ao

 pensar que representa o leitor , a ombudsman utiliza as formas de

 significao que o veculo impe .
 H incompletude e mudana , mas estas

 se do , com o devido padro discursivo do jornal .
 Ao pensar que a

 ombudsman lhe confere poder o leitor est duplamente equivocado .
 O

 poder dos sentidos , que est em questo aqui ,  desigual , na medida em

 que a discursividade o expe .
 A primeira configurao possvel , ento ,

  a de um leitor subjulgado ( note-se o silncio de sua verdadeira

 voz ) , um ombudsman tomado pela ordem jornalstica , porm

 administrador , sim , de sentidos , e uma " voz do jornal " , absolutamente

 onipresente ( at no silncio , ao contrrio do leitor ) , poderosa ,

 produtora ideolgica e estruturadora de toda fabricao de sentidos

 que se d em seu interior .
 Ainda que escape alguma coisa , essa diviso

 de poder no vislumbra equanimidade .
 A hierarquia  : " voz do jornal " -

 ombudsman - leitor .

 Referncias bibliogrficas

 Orlandi , Eni P. , Anlise de Discurso - Princpios e Procedimentos ,

 Pontes , 2000 , Campinas .

 Orlandi , Eni P. , Discurso e Leitura , Editora da Unicamp , 1988 .

 Orlandi , Eni P. ; Possenti , Srio ; Geraldi , Joo Wanderley ; Guimares ,

 Eduardo ; Durigan , Jesus Antonio , Sobre a Estruturao do Discurso ,

 Editora da Unicamp , 1981 .

 Pecheux , Michel , O Discurso - Estrutura ou Acontecimento , Traduo :

 Eni Orlandi , Pontes , 1990 , Campinas .

 Pecheux , Michel , Semntica e Discurso - Uma Crtica  Afirmao do

 bvio , Traduo : Eni Orlandi , Loureno Chacon Filho , Manoel Luis

 Gonalves Correa e Silvana Mabel Serrani , Editora da Unicamp , 1988 .

 Brando , Helena H. , Introduo  Anlise do Discurso , Editora da

 Unicamp , 1996 .

 Leite , Celso Barroso , Ombudsman - Corregedor Administrativo , Zahar ,

 1975 , Rio de Janeiro .

 Vendramini , Marai de Freitas Maio , ( tese ) Ombudsman - Seu Papel e Suas

 Diferentes Abordagens de Atuao , Umesp , 1997 .

 Bblia Sagrada , Novo e Velho Testamento , Paulus , 1998 .

 Dicionrio Aurlio Buarque de Hollanda , Nova Fronteira , 1990 .

 Folha de S. Paulo , ( de 02/07/00 a 06/08/00 ) .

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 [ 1 ] Como se pode observar , a interseo desses 3 planos  tal , que

 encontrar os limites de cada um  uma tarefa assaz difcil .
 Optamos ,

 ento , pela efetiva utilizao dessa " convergncia " , que , entre outras

 coisas , possibilitar um cotejo mais ( in ) tenso .

 [ 2 ] Orlandi , Eni P. , 1984

 [ 3 ] Publicados em 2 domingos respectivos .
 No primeiro pelo jornalista

 Armando Anterone e no segundo pela ombudsman Renata Lo Prete ( vide

 fac-smiles mais adiante ) .
 O domingo foi escolhido por ser o dia da

 publicao do ombudsman , por ser o dia de maior tiragem do jornal , e

 pela constatao de que o leitor que consome o jornal de domingo , em

 sua maioria no consome o da semana ( exceo aos assinantes ) .
 Portanto

 , se houve editoriais ou cartas do leitor durante a semana , sero

 ambos desconsiderados pelo fato de " habitarem " outro plano do veculo .

 No est em jogo , para ns , a dinmica noticiosa do jornal , e sim ,

 apenas a relao " sincrnica " de poder com respeito a um nico

 assunto , num corpus pr-estabelecido .

