 DIALOGISMO :

 A LINGUAGEM VERBAL COMO EXERCCIO DO SOCIAL

 Cludia Lukianchuki

 Doutora em Comunicao pela ECA-USP e

 Professora de Lngua Portuguesa e Comunicao do CEFET-SP

 Com base nos referenciais tericos da Anlise do Discurso de

 orientao francesa e de Bakhtin , este artigo discute o conceito de

 Dialogismo , Dialogicidade e suas implicaes , enfocando a linguagem

 verbal como exerccio do social .
 Pensar dialeticamente a realidade

 social  ver , atravs da lngua dada , a palavra dando-se num movimento

 contnuo .
 A palavra  a mediadora entre o social e o individual .
 Ao

 aprender a falar , o ser humano tambm aprende a pensar , na medida em

 que cada palavra  a revelao das experincias e valores de sua

 cultura .
 Desse ponto de vista , tem-se que o verbal influencia nosso

 modo de percepo da realidade .
 Portanto , cabe a cada um assumir a

 palavra como manuteno dos valores dados ou como interveno no

 mundo .

 " Tudo se reduz ao dilogo ,  contraposio dialgica enquanto

 centro .
 Tudo  meio , o dilogo  o fim .
 Uma s voz nada termina ,

 nada resolve .
 Duas vozes so o mnimo de vida " .

 ( Mikhail Bakhtin )

 O pensamento de Bakhtin revelado em suas obras , apesar de plural , tem

 uma unidade garantida pela centralidade da linguagem , cujo mtodo de

 anlise  a dialtica .
 Dialogismo  o conceito que permeia toda a sua

 obra .
  o princpio constitutivo da linguagem , o que quer dizer que

 toda a vida da linguagem , em qualquer campo , est impregnada de

 relaes dialgicas .
 A concepo dialgica contm a idia de

 relatividade da autoria individual e conseqentemente o destaque do

 carter coletivo , social da produo de idias e textos .
 O prprio

 humano  um intertexto , no existe isolado , sua experincia de vida se

 tece , entrecruza-se e interpenetra com o outro .
 Pensar em relao

 dialgica  remeter a um outro princpio a no autonomia do discurso .

 As palavras de um falante esto sempre e inevitavelmente atravessadas

 pelas palavras do outro : o discurso elaborado pelo falante se

 constitui tambm do discurso do outro que o atravessa , condicionando o

 discurso do eu .
 Em linguagem bakhtiniana , a noo do eu nunca 

 individual , mas social .
 Nos seus escritos , Bakhtin aborda os processos

 de formao do eu atravs de trs categorias : o eu-para-mim , o

 eu-para-os-outros , o outro-para-mim .
 Da formulao dessa trade ,

 pode-se entrever sua inquietude frente a algumas questes : Como o eu

 estabelece sua relao com o mundo ?
 ; Existe uma oposio entre o

 sujeito e o objeto ?
 " Para ele , no h um mundo dado ao qual o sujeito

 possa se opor .
  o prprio mundo externo que se torna determinado e

 concreto para o sujeito que com ele se relaciona. " ( Freitas , 1996 ,

 p .125-6 )

 LINGUAGEM E PENSAMENTO

 A conscincia individual  , portanto , um fato social e ideolgico .

 Dito de outra maneira , a realidade da conscincia  a linguagem e so

 os fatores sociais que determinam o contedo da conscincia do

 conjunto dos discursos que atravessam o

 indivduo ao longo de sua vida ,  que se forma a conscincia .
 O mundo

 que se revela ao ser humano se d pelos discursos que ele assimila ,

 formando seu repertrio de vida .
 Pelo fato de a conscincia ser

 determinada socialmente no se pode inferir que o ser humano seja

 meramente reprodutivo , o que se ressalta  , portanto , a criatividade

 do sujeito humano :  influenciado pelo meio , mas se volta sobre ele

 para transform-lo .
 Duas vezes nasce o homem : fisicamente ( o que no o

 faz inserir na histria ) e socialmente determinado pelas condies

 sociais e econmicas .
 Posto isso , no se pode sustentar a idia to

 propalada pelo idealismo e pelo positivismo psicologista de que a

 ideologia deriva da conscincia .
 Sob a forma de signos  que a

 atividade mental  expressa exterior e internamente para o prprio

 indivduo .
 Sem os signos a atividade interior no existe .
 A palavra

 no  s meio de comunicao , mas tambm contedo da prpria atividade

 psquica .

 Nessa mesma linha , Vygotski , psiclogo russo , tentou superar , dentro

 do materialismo histrico dialtico , a crise no campo da psicologia ,

 verificada no conflito entre as concepes idealista e mecanicista ,

 apresentando propostas tericas inovadoras voltadas para temas que

 tratavam da inter-relao pensamento e linguagem rumo a uma teoria

 geral das suas razes genticas , natureza do processo de

 desenvolvimento da criana e o papel da instruo no desenvolvimento .

 A idia revolucionria de que a conscincia humana  determinada

 historicamente  o ncleo mobilizador de suas pesquisas , levando-o a

 colocar como centro de suas preocupaes as questes da linguagem no

 como um sistema lingstico de estrutura abstrata , mas em seu aspecto

 psicolgico .
 Seu interesse residia em estudar a linguagem como

 constituidora do sujeito com o enfoque na relao pensamento e

 linguagem , chave para a compreenso da natureza da conscincia humana .

 Partindo do pressuposto de que pensamento e linguagem tm razes

 diferentes , constatou que o pensamento e a palavra , apesar de no

 serem ligados por um elo primrio , no podem ser considerados como

 dois processos independentes .
 O autor contrape-se s concepes

 clssicas das antigas escolas de psicologia , dando um salto

 qualitativo com as suas investigaes , ao perceber a conexo entre

 pensamento e linguagem como originria do desenvolvimento , evoluindo

 ao longo dele , num processo dinmico .
 O caminho encontrado para uma

 nova abordagem da questo foi a mudana do mtodo de anlise da

 anlise em elementos das investigaes anteriores ( analiticamente

 separado em seus componentes ) para a anlise em unidades e assim pde

 concluir que a unidade do pensamento verbal est no significado das

 palavras .

 Para compreender o pensamento verbal , Vygotski identifica que essa

 unidade  o significado das palavras , que  o seu aspecto intrnseco .

 Para ele , apesar de a natureza do significado no ser clara ainda , sua

 certeza  a de que , no significado da palavra , o pensamento e a fala

 se unem em pensamento verbal .
 No significado , tambm , esto as

 respostas s questes sobre a relao entre pensamento e fala .
 Embora

 o significado de uma palavra represente " um amlgama to estreito do

 pensamento e da linguagem " , suas pesquisas revelaram que o

 significado , critrio da palavra e componente indispensvel ,  um

 fenmeno do pensamento e no da fala , uma vez que so generalizaes

 ou conceitos , ou seja , atos do pensamento .
 No entanto , " O significado

 das palavras  um fenmeno de pensamento apenas na medida em que o

 pensamento ganha corpo por meio da fala , e s  um fenmeno da fala na

 medida em que esta  ligada ao pensamento , sendo iluminada por ele .
 

 um fenmeno do pensamento verbal , ou da fala significativa uma unio

 da palavra e do pensamento ". ( Vygotski , 1989 , p .04 )

 Se o significado da palavra  simultaneamente pensamento e fala , ento

  nele que est a unidade do pensamento verbal .
 Portanto ,  a anlise

 semntica o mtodo a seguir na explorao da natureza verbal .
 Dessas

 investigaes chegou-se a um outro resultado igualmente importante : o

 significado das palavras evolui .
 So formaes dinmicas e no

 estticas : sua modificao percebe-se com o desenvolvimento da criana

 e tambm com as vrias formas pelas quais o pensamento funciona .

 OS DISCURSOS SOCIAIS

 Retomando a questo do dialogismo , e , ainda com relao  palavra

 dilogo , alm do seu sentido estrito o ato de fala entre duas ou mais

 pessoas , pode-se tom-la tambm em seu sentido amplo , a saber ,

 qualquer tipo de comunicao verbal , oral ou escrita , exterior ou

 interior , manifestada ou no .
 O livro , por exemplo ,  um ato de fala

 impresso .
 " O discurso escrito  de certa maneira parte integrante de

 uma discusso ideolgica em grande escala : ele responde a alguma

 coisa , refuta , confirma , antecipa as respostas e objees potenciais ,

 procura apoio etc. " ( Bakhtin , 1978 , p .123 ) .
 Tudo est em constante

 comunicao .
  idia de dilogo agrega-se um outro elemento que no se

 refere apenas  fala em voz alta de duas pessoas , mas a um discurso

 interior , do qual se emanam as vrias e inesgotveis enunciaes , que

 so determinadas pela situao de sua enunciao e pelo seu auditrio .

 " A situao e o auditrio obrigam o discurso interior a realizar-se em

 uma expresso exterior definida , que se insere diretamente no contexto

 no verbalizado da vida corrente , e nele se amplia pela ao , pelo

 gesto ou pela resposta verbal dos outros participantes na situao de

 enunciao. " ( Bakhtin , 1978 , p .125 ) .
 A toda essa questo est

 relacionada a formao de repertrios , que , no dizer de Bakhtin , so

 formas de vida em comum relativamente regularizadas , reforadas pelo

 uso e pela circunstncia .

 Dessa maneira , as formas estereotipadas no discurso da vida cotidiana

 respondem por um discurso social que as consolida , ou seja , possuem um

 auditrio organizado que mantm a sua permanncia , refletindo , assim ,

 ideologicamente a composio social do grupo , evidncia da afirmao

 de Bakhtin ao dizer que " a palavra  o fenmeno ideolgico por

 excelncia " ou " todo signo  ideolgico " .
 Por essa razo ,  que , mesmo

 em uma aparente simples anedota que se conta sobre o negro , o judeu , o

 nordestino , a mulher etc. , os preconceitos que se afloram nada mais

 so do que exerccio constante dos elementos culturais desse grupo

 social .
 O enunciatrio , no entanto , pode oferecer obstculos  sua

 realizao / manuteno provocando rupturas que vo infiltrando

 sensveis mudanas iniciais , mas que podem ganhar corpo .
 Da o

 entendimento de que todos so sujeitos da enunciao enunciador e

 enunciatrio porque o carter interativo nada mais  do que a

 possibilidade de transformao , seja pelo enunciador , seja pelo

 enunciatrio , passando a refletir e refratar a realidade dada .
  a

 idia da palavra em movimento , o poder da palavra .
 Atravs dela , os

 sujeitos so postos em ao para reproduzir ou mudar o social .

 Essas reflexes remetem aos estudos semnticos de Pcheux ( quando diz

 que , ao passar de uma formao discursiva  outra , as palavras mudam

 de sentido ) num dilogo com a formulao ( a palavra  um signo neutro )

 de Bakhtin .
 Um exemplo disso  a palavra greve .
 Ao ser usada pelo dono

 da empresa ou pela autoridade governamental , adquire

 conotao diferente , especialmente disfrica , isto  negativa , daquela

 usada pelo funcionrio ou pela populao , que , neste caso , em geral ,

 assume valor eufrico , ou seja , positivo. ( Fiorin , 1988 , p .21-2 ) .
 Os

 meios de comunicao , especialmente a televiso , so a evidncia

 desses significados : quem faz greve geralmente  visto como

 baderneiro , dificilmente como algum que est reivindicando seus

 direitos , garantidos , inclusive , constitucionalmente .
 A palavra em

 circulao  a palavra que est prenhe de significados de tal forma

 que , ao falar , os sentidos so mobilizados de maneira a mostrar que o

 sujeito  responsvel por aquilo que diz , fazendo assim transparecer o

 seu papel social , isto  , as formas de suas relaes sociais .
 Em

 outras palavras , evidenciam-se as posies de sujeito de que fala

 Pcheux ou lugares determinados na estrutura de uma formao social

 marcados por propriedades diferenciais determinveis as formaes

 imaginrias .

 OS PAPIS SOCIAIS

 Sobre os papis sociais , Agnes Heller explicita que , apesar de as

 funes de tipo " papel " serem condicionadas pelo conjunto da

 sociedade , o ser humano  mais do que o seu papel ou conjunto dos seus

 papis , porque eles jamais esgotam o comportamento humano em sua

 totalidade : " Mesmo nos contextos mais manipulados , produz-se

 constantemente a recusa do papel .
 Em todos esses contextos , h

 excntricos , rebeldes e revolucionrios .
 At mesmo os contextos mais

 manipulados esto repletos de homens que vivem em incgnito de

 oposio. " ( Heller , 1985 , p .106 )

 O comportamento do indivduo com relao a seu papel ou papis sociais

 pode variar muito , podendo-se observar atitudes fundamentais que o

 definem : a " recusa do papel " verificada nos rebeldes ou

 revolucionrios em que o indivduo preserva a sua personalidade ; o

 " incgnito de oposio " em que o indivduo se contrape ao mundo em

 que vive , ocorrendo um distanciamento entre a sua personalidade e o

 papel que representa , o que o faz sofrer : no  nem conformista ,

 tampouco revolucionrio ; o " incgnito dissimulado " em que , como o

 anterior , o indivduo no se identifica com o seu papel , mas  capaz

 de penetrar nele e em sua funo aceitando as regras de jogo

 dominantes : a dissimulao traduz uma personalidade perigosa , porque

 no se deixa conhecer por ningum ; e , finalmente , a " identificao " em

 que se observa a plena identificao com o papel , forma direta de

 revelar-se a alienao , ocorrendo a perda da continuidade do carter e

 dissoluo da personalidade .
 Por todas essas razes , o papel social 

 tambm uma forma de compreender o indivduo , que deve ser observado

 alm de sua aparncia .

 Por todas essas consideraes , pode-se perceber por que dialogismo 

 vital para a compreenso dos estudos de Bakhtin e das questes

 referentes  linguagem como constitutiva da experincia humana e seu

 papel ativo no pensamento e no conhecimento .
 Do ponto de vista

 comunicacional a importncia desse conceito reside , inclusive , no fato

 de ratificar o conceito de comunicao como interao verbal e no

 verbal e no como apenas como transmisso de informao .
 A

 contribuio  complexidade desse conceito tambm se verifica por

 implicar outros : interao verbal , intertextualidade e polifonia .

 Esses termos parecem designar um mesmo fenmeno com pequenas variaes

 entre si .
 So estas especificidades que vo estabelecer as diferenas

 entre eles , aproximando-os ou distanciando-os em graus diferenciados .

 O mais importante  perceber que todos eles , independentemente de suas

 particularidades , rompem com a arrogncia e a onipotncia do discurso

 monolgico .
 O ser social nasce com o exerccio de sua linguagem .

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