

 DIALOGISMO E INTERTEXTUALIDADE

 Na observao das relaes contextuais , duas linhas devem ser seguidas : a da

 contextualizao interna e a da contextualizao externa .
 A primeira diz

 respeito  coerncia entre as partes que compem o texto e permitem ao leitor

 estabelecer contato com o mundo ali apresentado ; a segunda prende-se  poca em

 que foram escritos e revela ao leitor ,  revelia do autor , muito de seus

 valores e dos valores de seu tempo .
 As relaes contextuais destacam-se para o

 leitor pelo universo que revelam .

 Em Bakhtin , encontra-se o conceito de relaes dialgicas que se manifestam no

 espao da enunciao : " Todas as palavras e formas que povoam a linguagem so

 vozes sociais e histricas , que lhe do determinadas significaes concretas e

 que se organizam no romance em um sistema estilstico harmonioso [ ...
 ] " .
 Para

 ele , a lngua se harmoniza em conjuntos , pois no  um sistema abstrato de

 normas , mas sim uma opinio plurilnge concreta sobre o mundo .
 ^ [ 1 ]

 Analisando os procedimentos de criao da linguagem no romance , Bakhtin , alm

 dos dilogos puros , aponta a inter-relao dialogizada e a hibridizao -

 considerada como amlgama de duas linguagens e uma das modalidades mais

 significativas no processo de transformao das linguagens ; seu objeto , a

 representao literria da linguagem -. Ambas fundem dois enunciados

 potenciais .
 Destaque recebe a hibridizao dialogizada , apontada como um

 sistema de fuso que busca esclarecer uma linguagem com a ajuda de outra

 linguagem e , dessa forma , construir uma imagem viva desta outra linguagem .

 Quanto mais ampla e profundamente se aplicar no romance o procedimento da

 hibridizao , com vrias linguagens , e no apenas uma , tanto mais objetiva se

 torna a prpria lngua que representa e que aclara e que se transforma , afinal ,

 em uma das imagens da linguagem do romance. ^ [ 2 ]

 Destaca , ainda , Bakhtin , a estilizao como a forma mais caracterstica de

 dialogizao interna , salientando que a conscincia lingstica que ilumina a

 recriao estabelece para o estilo recriado uma importncia e uma significao

 novas .
 A linguagem estilizada aparece com ressonncias particulares : alguns

 elementos so destacados , outros deixados na sombra .
 Acrescenta a variao e a

 pardia como outras formas de trabalhar o material lingstico .
 Caracteriza a

 variao como o procedimento que " introduz livremente um material de outrem nos

 temas contemporneos [ ...
 ] , pe  prova a lngua estilizada , colocando-a em

 situaes novas e impossveis para ela " .
 Apresenta a pardia como uma

 construo dialgica muito especial em que o discurso que representa estabelece

 uma relao de desmascaramento em relao ao discurso representado .
 Entre a

 estilizao e a pardia , encontram-se as mais variadas formas de linguagens

 determinadas por inter-relaes , desejos verbais e discursivos que se encontram

 nos enunciados .

 O dilogo das linguagens no  somente o dilogo das foras sociais na esttica

 de suas coexistncias , mas  tambm o dilogo dos tempos , das pocas , dos dias ,

 daquilo que morre , vive , nasce ; aqui a coexistncia e a evoluo se fundem

 conjuntamente na unidade concreta e indissolvel de uma diversidade

 contraditria e de linguagens diversas. ^ [ 3 ]

 Para Jlia KRISTEVA , o processo de leitura realiza-se como ato de colher , de

 tomar , de reconhecer traos .
 Ler passa a ser uma participao agressiva , ativa ,

 de apropriao .
 A escritura , ento , torna-se a produo , a indstria dessa

 leitura que se cumprir .
 Um livro remete a outros livros , aos quais , num

 procedimento de somatria , permite uma nova forma de ser , ao elaborar sua

 prpria significao :

 " A linguagem potica aparece como um dilogo de textos : toda seqncia se faz

 em relao a uma outra proveniente de um outro corpus , de maneira que toda

 seqncia est duplamente orientada : para o ato de reminiscncia ( evocao de

 uma outra escrita ) e para o ato de intimao ( a transformao dessa

 escritura ). " ^ [ 4 ]

 Kristeva apresenta o campo da linguagem como espao que se orienta em trs

 direes : o sujeito da escritura , o destinatrio e os textos externos ( os

 outros textos em relao ao texto objeto da escritura ) .
 Embora estabelea essas

 trs dimenses , Kristeva aproxima no mesmo sentido horizontal da elaborao

 textual o sujeito da escritura e seu destinatrio ; o eixo vertical  o espao

 onde a palavra , o texto , realiza seu encontro com outros textos , onde o texto

 se orienta em direo ao corpus literrio , onde se d o cruzamento das

 palavras .
 ^ [ 5 ]

 Retomando Bakhtin , Kristeva afirma que , para se tornarem dialgicas , as

 palavras precisam encontrar outra esfera de existncia : precisam tornar-se

 discurso .

 Assim , o dialogismo bakhtiniano designa a escritura , ao mesmo tempo , como

 subjetividade e comunicatividade ou , melhor dizendo , como intertextualidade ;

 face a esse dialogismo , a noo de " pessoa-sujeito da escritura " comea a se

 esfumar , para ceder lugar a uma outra , a da " ambivalncia da escritura " .
 ^ [ 6 ]

 Um texto  voz que dialoga com outros textos , mas tambm funciona como eco das

 vozes de seu tempo , da histria de um grupo social , de seus valores , crenas ,

 preconceitos , medos e esperanas .

 As relaes transtextuais esto a evidenciar que o texto literrio no se

 esgota em si mesmo : pluraliza seu espao nos paratextos ; multiplica-se em

 interfaces ; projeta-se em outros textos ; perpetua-se na crtica ; estabelece

 tipologias ; repete-se em aluses , plgios , pardias e citaes. ^ [ 7 ]

 A intertextualidade confirmada na literatura pelos temas retomados , eternizando

 e dando nova feio aos mitos e s emoes humanas , comprova que os textos se

 completam e se inter-relacionam .

 _______________________

 [ 1 ] ^ BAKHTIN , Mikhail .
 Questes de literatura e esttica : a teoria do romance .

 So Paulo : HUCITEC , 1988 , p. 100-106 .

 [ 2 ] ^ Idem ibidem , p .159 .

 [ 3 ] ^ Idem , ibidem , p. 161 .

 [ 4 ] " Le language potique apparat comme un dialogue de textes : toute squence

 se fait par rapport  une autre provenant d'un autre corpus , de sorte que toute

 squence est doublement oriente : vers l'acte de la reminiscence ( vocation

 d'une autre criture ) et vers l'acte de la sommation ( la transformation de

 cette criture ). " KRISTEVA , Julia .
 Semeiotike : recherches pour une smanalyse .

 Paris : Coleo Points-Essai , ditions du Seuil , l978 , p .120/121 .

 [ 5 ] ^ Idem , ibidem , ^ p. 84 .

 [ 6 ] ^ " Ainsi le dialogisme bakhtinien dsigne l'criture  la fois comme

 subjectivit et comme communicativit ou , pour mieux dire , comme

 intertextualit ; face  ce dialogisme , la notion de ` personne-suject de

 l'criture ' commence  s'estomper pour cder la place  une autre , celle de

 ` l'ambivalence d'criture '. " Idem , ibidem , p. 88 .

 [ 7 ] ^ Vejam-se os tipos de relaes transtextuais desenvolvidos por Grard

 Genette em Palimpsestes ( Paris : Seuil , 1982 , p. 8-12 )

 Algumas noes de domnio terico

 Publicado em : 03/03/2002

 Atualizado em : 03/03/02 23:46:56

