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 Obesidade Infantil - Uma Compreenso Psicolgica

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 Fonte : Bibliomed

 Fernando Falabella Tavares de Lima

 " Neste artigo sero discutidas as principais caractersticas clnicas da

 obesidade infantil , as suas relaes com os principais aspectos psicolgicos e

 algumas das alternativas de tratamento clnico , psquico e as propostas de

 grupos de auto-ajuda " .

 Introduo

 Atualmente , muito se tem falado e estudado a respeito da temtica da obesidade ,

 principalmente em relao s manifestaes na infncia .
 Segundo cita o

 professor Joo Rgis Ivar Carneiro , da Seo de Diabetes e Metabologia da

 Faculdade de Cincias Mdicas , da Universidade Estadual do Rio de janeiro

 ( UERJ ) : " Em 1958 o economista John Kenneth Gailbraith assinalou em seu livro

 The Affluent Society que ' Nos Estados Unidos da Amrica morrem mais pessoas por

 excesso que por falta de comida ' .
  inadmissvel a extrapolao desta

 observao para a realidade vigente nos pases subdesenvolvidos .
 No entanto , h

 quase quatro dcadas , este cientista j sabia dos malefcios que o excesso de

 peso pode trazer ao ser humano e tentava transmitir tal pensamento em sua

 obra " .

 A pessoa obesa sempre foi considerada , pela sociedade em geral , como a grande

 culpada pelo seu excesso de peso .
 Adjetivos como preguioso , indolente e

 guloso , sempre foram atributos utilizados de forma pejorativa , visando-se

 atribuir culpabilidade ao paciente .
 Entretanto ,  evidente , que o indivduo que

 j tem uma tendncia natural para o excesso de peso sofrer maiores

 conseqncias das prprias transgresses na alimentao .
 Para Kaplan e Sadock ,

 " os transtornos alimentares de vrias espcies tm sido relatados em at 4 % de

 estudantes adultas nos Estados Unidos " .

 Definies e Manifestaes

 Para Ajuriaguerra , pode-se considerar obesa uma criana que ultrapasse em 15 % o

 peso mdio correspondente  sua idade , desde que o excesso de peso corresponda

 ao acmulo de lipdios , fato que pode ser avaliado pela espessura da prega

 cutnea .

 Infelizmente , no  fcil estabelecer parmetros que distingam , com preciso ,

 as pessoas obesas das no obesas .
 Segundo a professora Marlia de Brito Gomes ,

 tambm da UERJ , no h , porm , como separar o termo obesidade de excesso de

 gordura corporal .
 " Admite-se que para a raa humana , a percentagem de gordura

 corporal situa-se entre 15 e 18 % para o sexo masculino e entre 20 e 25 % para o

 sexo feminino .
 Podem ser considerados obesos os homens com percentual superior

 a 25 % e as mulheres com mais de 30 % " .

 Sabe-se , contudo , que o nmero de clulas adiposas cresce mais rapidamente

 durante o fim da infncia e o incio da idade adulta .
 Na obesidade hipercelular

 ocorre aumento do nmero total de clulas adiposas , que pode se tornar at

 cinco vezes superior ao nmero encontrado em indivduo adulto normal .
 Algumas

 pessoas engordam com mais facilidade que outras .
 Para se entender esta

 tendncia ,  preciso ter em mente a origem da obesidade e os fatores

 metablicos , genticos , culturais e comportamentais .

 Do ponto de vista gentico , atualmente , inmeros estudos e pesquisas so

 realizados para estabelecer a comparao entre a obesidade e fatores

 hereditrios .
 Conforme relatou a Dra. Marlia : " Bouchard em 1988 publicou no

 International Journal of Obesity um estudo que envolveu 1.698 pessoas de 409

 famlias diferentes e demonstrou haver participao gentica em at 25 % dos

 casos .
 Quando analisada a distribuio andride de gordura , esta participao

 chegou a 30 % " .

 Ainda , na opinio da equipe da Seo de Diabetes e Metabologia da Faculdade de

 Cincias Mdicas , o hipotlamo  o rgo responsvel pelo desejo de comer .
 A

 participao de neurotransmissores , j identificados , atuando nos diversos

 tipos de receptores  fundamental para o incio e o trmino de uma alimentao .

 Todavia , inmeros fatores podem estar envolvidos na gnese da obesidade , como

 por exemplo , as caractersticas da cultura e do prprio comportamento em

 relao s comidas .
 Assim , alm dos hbitos alimentares desregrados , estilo de

 vida sedentrio , casamentos , separaes conjugais , o parar de fumar , o consumo

 de medicamentos e drogas , podem gerar o ganho de peso .

 Fatores Psicolgicos

 Assim como foi considerado nas opinies anteriores , tambm , de acordo com

 Kaplan e Sadock , " a obesidade  uma condio caracterizada pelo acmulo de

 gordura ( quando o peso corporal excede em 20 % o peso padro estabelecido nas

 tabelas habituais de peso-altura ) " .
 Contudo , os autores definem uma srie de

 condies e caractersticas psquicas que afetam esta condio orgnica ,

 fazendo da obesidade um transtorno psicossomtico .
 Para eles , h fatores de

 predisposio gentica que esto relacionadas s diversas formas de obesidade ,

 inclusive a infantil .
 " Existe uma predisposio familiar gentica para a

 obesidade , observando-se fatores evolutivos precoces na obesidade infantil .

 Esses fatores sugerem que as crianas obesas aumentam o nmero de seus

 adipcitos ( obesidade hiperplstica ) , predispondo-as  obesidade adulta " .

 Os mesmos autores apontam para a influncia central dos fatores psicolgicos no

 consumo excessivo de alimentos , tpico da obesidade hiperfgica , referindo-se

 aos mecanismos psquicos de fixao oral , regresso oral e supervalorizao dos

 alimentos .
 Alertam , tambm , para a bulimia , associada  comilana que pode

 estar presente .
 " Alm disso , existe freqentemente uma histria passada de

 depreciao da imagem corporal e insuficiente condicionamento primitivo do

 controle de apetite " .

 Assim como a bulimia , muitas vezes se acha associada aos transtornos de

 alimentao e  obesidade , doenas como a anorexia nervosa , onde h enorme

 perda de peso , associada a um imenso medo de ganhar peso e a perturbaes

 srias da imagem corprea .
 Segundo as psicanalistas Gonzaga , Weinberg e

 Teixeira , que realizam uma pesquisa sobre o tema , no Instituto Sedes

 Sapientiae , " meninas cada vez mais jovens e cada vez mais magras povoam a mdia

 e nosso mundo mental com sua ' indecente magreza ' , desafiando a morte ,

 descentrando desejo e necessidade " .
 Para as pesquisadoras , o alimento est num

 plano central para o mundo psquico dos anorxicos .
 Relatam que o alimento ,

 para os doentes , est " investido de amor / dio , atrao / repulso ,

 idolatria / horror , promovendo uma excitao sem sada e sem descarga " .

 Segundo o psiquiatra Ajuriaguerra , quase todas as doenas infantis j foram

 consideradas psicossomticas .
 Contudo , para o psiquiatra , essas so

 " caracterizadas por uma desorganizao somtica passageira ou permanente , cuja

 gnese ou desenvolvimento implicam um determinismo de ordem psicolgica , quer

 atual , quer de ordem regressiva , que pe em evidncia organizaes

 psicobiolgicas precoces " .
 Como distrbios psicossomticos , o Manual de

 Psiquiatria Infantil , cita a disfuno respiratria ( asma infantil ) , os

 distrbios cardiovasculares , os endcrinos , as afeces dermatolgicas , as

 cefalias e enxaquecas , e os distrbios psicossomticos do aparelho digestivo .

 Segundo o psicanalista Winnicott ( 1966 ) , uma ciso na personalidade do sujeito ,

 com caractersticas de fraqueza na relao entre o psquico e o somtico , so

 decorrncias das doenas psicossomticas .
 Para o autor , o processo de ciso

 pode ser considerado como positivo caso se considere como uma defesa frente 

 aniquilao que poderia ocorrer no psiquismo da pessoa .

 A obesidade pode ser entendida como uma doena psicossomtica .
 Para

 Ajuriaguerra , a criana obesa pode possuir qualquer nvel de inteligncia ,

 contudo apresenta , em geral , " um mau ajustamento emocional , sem que possamos

 descrever um tipo de personalidade unvoca " .

 Tratamento

 Antes mesmo de se abordar as diversas formas de tratamento da obesidade , 

 importante salientar que todos os planos de orientao alimentar devem ser

 elaborados por profissionais especializados da rea ( mdicos e nutricionistas ) ,

 e so individuais , ou seja , vlidos para aquele paciente .

 Atravs de dietas , pode-se diminuir a ingesto de calorias e atingir-se o

 objetivo de perda de peso .
  praticamente , consensual que o papel das fibras

 alimentares  central nas dietas hipocalricas. Estudos demonstram que as

 refeies devem ser distribudas ao longo do dia , para que haja maior perda de

 peso , com menor sofrimento em funo da fome .

 Muitos especialistas concordam que a prtica regular de exerccios fsicos pode

 ser de grande ajuda para o objetivo de promover maiores gastos de energia .

 Evidentemente , tambm os exerccios devem ser orientados por especialistas e

 respeitar os limites orgnicos do indivduo .

 Outra possibilidade de tratamento para as obesidades envolve a terapia

 medicamentosa .
 De acordo com os mdicos da UERJ , h os anorexgenos , que atuam

 atravs de mecanismo central , acarretando diminuio da fome ou aumento da

 saciedade .
 O prottipo deste grupo  a anfetamina .
 A dietilpropiona  o

 derivado anfetamnico mais utilizado no Brasil ; mas h outros , como o

 fenproporex e o mazindol .
 Contudo , as anfetaminas promovem agitao e

 nervosismo .
 Outro grupo  formado pelos serotoninrgicos , substncias

 relacionadas  induo da diminuio da ingesto alimentar .
 Destacam-se a

 dexfenfluoramina , o fluoxetine. Drogas termognicas atuam aumentando o gasto

 energtico dirio , destacando-se a efedrina , a aminofilina , o cido acetil

 saliclico ( AAS ) e a nicotina .
 H ainda , as drogas que atuam no trato

 gastrintestinal , como as balas de benzocana , a olestra , e outros inibidores

 enzimticos da digesto .

 Outra possibilidade de tratamento da obesidade , do tipo mrbida ,  a cirurgia .

 As mais utilizadas , atualmente , so as que associam a restrio do volume

 gstrico ao estado de m-absoro .
 Segundo o Compndio de Psiquiatria de Kaplan

 e Sadoch , a cirurgia de reduo gstrica possui " valor limitado " .
 Para os

 autores , a obesidade deve , realmente , ser controlada por meio de dieta e

 reduo das calorias ingeridas .
 Apontam , tambm , para a importncia do apoio

 emocional e a modificao dos comportamentos , no tangente  ansiedade e 

 depresso que podem estar associadas s dietas , assim como , ao consumo de

 alimentos desregrado .

 Quando abordam as formas de tratamento relacionadas  anorexia nervosa , definem

 os autores : " Dadas s complicadas implicaes psicolgicas e mdicas da

 anorexia nervosa , recomenda-se um plano abrangente de tratamento , incluindo

 hospitalizao , quando necessria , e terapia tanto individual quanto familiar " .

 Novamente , segundo Ajuriaguerra , existe uma equivalncia entre a alimentao e

 o amor , em que ambos possuem valor de compensao e de reconforto .
 Desta forma ,

 uma criana aparentemente submissa , pode tornar-se " um tirano que no suporta a

 recusa .
 Assim , nos conflitos da vida social , a hiperfagia pode tomar o lugar da

 agressividade e o peso passa a ter um valor simblico ; h o temor de perder sua

 fora pelo emagrecimento " .
 Para o psiquiatra esses aspectos emocionais so

 fundamentais para o bom tratamento das obesidades infantis .

 Grupos de Apoio

 Segundo salienta Claudio Giulliano Alves da Costa , mdico e pesquisador da

 Universidade de Campinas ( UNICAMP ) , a reeducao alimentar  palavra de ordem

 nas dietas .
 Ressalta que o obeso precisa de ajuda , do apoio da famlia , dos

 amigos e da sociedade , e de ajuda profissional .
 Grupo de apoio  uma forma de

 compartilhar as experincias e dificuldades .
 Cada grupo de apoio apresenta uma

 metodologia diferente , visando apoiar o indivduo na perda de peso , oferecendo

 apoio nutricional e psicolgico .

 Os Vigilantes do Peso fundado em 1963 , na cidade de Nova York , que conta com

 pelo menos 25 milhes de pessoas em 24 pases que j participaram do programa .

 O grupo teve incio no Brasil em 1975 , no Rio de Janeiro .
 Com mais de mil

 reunies semanais espalhadas por 17 Estados , os Vigilantes do Peso apresentam

 uma proposta para quem deseja emagrecer atravs da reeducao alimentar ,

 mudana de comportamento e atividade fsica , tudo apresentado num ambiente de

 reunies .
 O objetivo  ajudar o scio a encontrar um novo estilo de vida , mais

 saudvel e dinmico , para que ele possa emagrecer de forma permanente .

 Amigo do Peso  uma associao que se dedica a ensinar e a ajudar as pessoas

 que tm excesso de peso e querem " emagrecer felizes , comendo de tudo e com

 sade " .
 Tambm  indicado para pessoas que querem simplesmente aprender a comer

 e ter mais sade e disposio .
 O programa est a cargo de nutricionistas ,

 mdicos e psiclogos .
 Uma vez por semana a pessoa freqenta as reunies dos

 " Amigos do Peso " .
 Alm de dicas da boa nutrio , oferece apoio e o aprendizado

 de como vencer a compulso por comer , como vencer a ansiedade .

 O Peso Ideal  um curso de instruo alimentar que tem como objetivo ensinar a

 " emagrecer com sade , comendo de tudo e sem torturas " .
 Arlene Cristofoli Rossi

 e Claudete C. Iglesias de La Fuente propem neste aprendizado , a unio de duas

 foras importantssimas : a nutricional e a psicolgica .

 A Meta Real  uma empresa que trabalha com reabilitao alimentar .
 No

 trabalham apenas os aspectos nutricionais , mas trabalham principalmente as

 causas psicolgicas , emocionais e fisiolgicas , pois , para eles ,  a que se

 " escondem " as causas da obesidade .
 " Quando se descobre a causa voc pode

 atac-la na raiz do problema , emagrecendo assim definitivamente " .

 Comedores Compulsivos Annimos ( CCA )  uma irmandade de homens e mulheres , sem

 fins lucrativos , que tm um problema em comum compulso por comida , que se

 uniram para repartir suas experincias , fora e esperana com a finalidade de

 resolver este problema .

 Alm desses , h muitos outros grupos de auto-ajuda que se propem a dar auxlio

 e encorajamento s pessoas que desejam perder peso , fazer dietas , enfim , que

 possuem o problema de obesidade e buscam por sadas .

 Palavras-chave : Obesidade , infantil , bulimia , mrbida , anorexia nervosa ,

 comedores , compulsivos , peso ideal .

 Referncias Bibliogrficas

 1 .
 Ajuriaguerra , J .
 " Manual de Psiquiatria Infantil " - 2 ed. , So Paulo :

 Masson , 1983 .

 2 .
 Gonzaga , A ; Weinberg , C ; Teixeira , F .
 " Anorexia e Feminilidade " .
 Actofalho ,

 publicao do Departamento de Formao em Psicanlise do Instituto Sedes

 Sapientiae Ano 6 n.  8 outubro 2000 .

 3 .
 Kaplan , H. ; Sadock , B. ; Grebb , J .
 " Compndio de Psiquiatria " 7 ed. , Porto

 Alegre : Artes Mdicas , 1997 .

 4 .
 Winnicott , D. W .
 " Psycho-somatic illness in its positive and negative

 aspects " .
 Jornal de Psicanlise , 1966 .

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