 As cincias tericas de Aristteles

 Anthony Kenny

 Cincia e explicao

 Aristteles contribuiu para o desenvolvimento de muitas cincias , mas ,

 em retrospectiva , percebe-se que o valor desse contributo foi bastante

 desigual .
 A sua qumica e a sua fsica so muito menos impressionantes

 do que as suas investigaes no domnio das cincias da vida .
 Em parte

 porque no possua relgios precisos nem qualquer tipo de termmetro ,

 Aristteles no tinha conscincia da importncia da medio da

 velocidade e da temperatura .
 Ao passo que os seus escritos zoolgicos

 continuavam a ser considerados impressionantes pelo prprio Darwin , a

 sua fsica estava j ultrapassada no sculo vi d. C .

 Em obras como Da Gerao e Corrupo e Do Cu , Aristteles legou aos

 seus sucessores uma imagem do mundo que inclua muitos traos herdados

 dos seus predecessores pr-socrticos. Adoptou os quatro elementos de

 Empdocles : terra , gua , ar e fogo , caracterizado cada um deles por um

 nico par de qualidades primrias , calor , frio , humidade e secura .

 Cada elemento tinha o seu lugar natural no cosmos ordenado , em

 direco ao qual tinha tendncia para ir por meio de um movimento

 caracterstico ; assim , os slidos terrestres caam , enquanto o fogo se

 erguia cada vez mais alto .
 Cada um desses movimentos era natural ao

 seu elemento ; existiam outros , mas eram  violentos  .
 ( Mantemos hoje um

 vestgio desta distino aristotlica quando contrastamos a  morte

 natural  com a  morte violenta . ) A Terra ocupava o centro do

 universo : em seu torno , uma sucesso de esferas cristalinas

 concntricas sustentavam a Lua , o Sol e os planetas nas suas viagens

 ao longo dos cus .
 Mais distante , uma outra esfera sustentava as

 estrelas fixas .
 Os corpos celestes no continham os quatro elementos

 terrestres ; eram antes constitudos por um quinto elemento , ou

 quintessncia .
 Alm de corpos , possuam almas : intelectos vivos

 divinos que guiavam as suas viagens ao longo do cu .
 Estes intelectos

 eram responsveis pelo movimento , estando eles prprios em movimento ,

 e por detrs deles , afirmava Aristteles , deveria existir uma fonte de

 movimento , estando ela prpria , no entanto , imvel .
 Era a divindade

 ltima e imutvel que punha em movimento todos os outros seres  em

 resultado do amor  o mesmo amor que , nas ltimas palavras do Paraso

 de Dante , movia o Sol e as primeiras estrelas .

 Mesmo o melhor dos estudos cientficos de Aristteles possui hoje um

 interesse meramente histrico ; em vez de registar as suas teorias em

 pormenor , passarei a descrever a noo de cincia que sustenta todas

 as suas investigaes nos diversos domnios .
 A concepo aristotlica

 de cincia pode ser resumida se dissermos que era emprica ,

 explicativa e teleolgica .

 A cincia comea pela observao .
 No decurso das nossas vidas

 apercebemo-nos das coisas com os nossos sentidos , recordamo-las ,

 construmos um corpo de experincias .
 Os nossos conceitos so

 retirados da nossa experincia ; na cincia , a observao tem primazia

 sobre a teoria .
 Embora , no seu estado de maturidade , se possa fixar e

 transmitir a cincia por meio da forma axiomtica descrita nos

 Analticos Posteriores , torna-se evidente , pelos trabalhos

 pormenorizados de Aristteles , que a ordem da descoberta  diferente

 da ordem da exposio .

 Se a cincia comea com a percepo sensorial , termina com o

 conhecimento intelectual , que Aristteles v como possuindo um

 carcter especial de necessidade .
 As verdades necessrias so como as

 verdades imutveis da aritmtica : dois mais dois so quatro , sempre

 assim foi e sempre assim ser .
 Opem-se-lhes as verdades contingentes ,

 tais como a verdade de os gregos terem vencido uma grande batalha

 naval em Salamina ; algo que poderia ter acontecido de outro modo .

 Parece estranho afirmar , como Aristteles , que aquilo que  conhecido

 tem de ser necessrio : no ser que podemos ter tambm conhecimento de

 factos contingentes da experincia , tais como o de Scrates ter bebido

 a cicuta ?
 Houve quem julgasse que Aristteles estava a argumentar ,

 falaciosamente , partindo da verdade

 Necessariamente , se p  conhecida , p  verdadeira .

 para

 Se p  conhecida , p  necessariamente verdadeira .

 o que no  de modo algum a mesma coisa. (  uma verdade necessria que

 se eu sei que h uma mosca na minha sopa , h uma mosca na minha sopa .

 Mas , mesmo que eu saiba que h uma mosca na minha sopa , no 

 necessariamente verdade que haja uma mosca na minha sopa : posso

 tir-la de l. ) Mas talvez Aristteles estivesse a definir a palavra

 grega para  conhecimento  de modo a restringir-se ao conhecimento

 cientfico .
  uma hiptese muito mais plausvel , especialmente se

 levarmos em linha de conta que , para Aristteles , as verdades

 necessrias no se restringem s verdades da lgica e da matemtica ,

 mas incluem todas as proposies universalmente verdadeiras , ou mesmo

  verdadeiras na sua maior parte  .
 Mas a consequncia que seria

 certamente aceite por Aristteles de que a histria no pode ser uma

 cincia , j que lida com acontecimentos individuais , mantm-se .

 A cincia  , pois , emprica ;  tambm explicativa , no sentido em que 

 uma procura de causas .
 No lxico filosfico includo na sua

 Metafsica , Aristteles distingue quatro tipos de causas ou

 explicaes .
 Em primeiro lugar , afirma , h aquilo de que as coisas so

 feitas , e a partir da qual so feitas , tal como o bronze de uma

 esttua ou as letras de uma slaba .
 A isto chama causa material .

 Depois , h a forma e o padro de uma coisa , que podem ser expressos na

 definio da mesma ; Aristteles fornece-nos um exemplo : o comprimento

 proporcional de duas cordas de uma lira  a causa de uma ser a oitava

 da outra .
 O terceiro tipo de causa  a origem de uma mudana ou estado

 de repouso em qualquer coisa : Aristteles d como exemplos uma pessoa

 que toma uma deciso , um pai que gera uma criana , e em geral todos os

 que fazem ou alteram uma coisa .
 O quarto e ltimo tipo de causa  o

 fim ou objectivo , aquilo em virtude do qual se faz algo ;  o tipo de

 explicao que damos quando nos perguntam por que motivo estamos a

 passear e ns respondemos  para manter a boa forma  .

 O quarto tipo de causa ( a  causa final  ) tem um papel muito importante

 na cincia aristotlica .
 Aristteles investiga as causas finais no s

 da aco humana , como tambm do comportamento animal (  Por que razo

 tecem as aranhas teias ?
  ) e dos seus traos estruturais (  Por que

 razo tm os patos membranas interdigitais ?
  ) .
 Existem causas finais

 tambm para a actividade das plantas ( tais como a presso descendente

 das razes ) e dos elementos inanimados ( tais como o impulso ascendente

 das chamas ) .
 s explicaes deste tipo chamamos  teleolgicas  , a

 partir da palavra grega telos , que significa fim ou causa final .
 Ao

 procurar explicaes teleolgicas , Aristteles no atribui intenes a

 objectos inconscientes ou inanimados , nem est a pensar em termos de

 um Arquitecto Supremo .
 Est , sim , a enfatizar a funo de diversas

 actividades e estruturas .
 Uma vez mais , estava mais inspirado na rea

 das cincias da vida do que na qumica e na fsica .
 At mesmo os

 bilogos posteriores a Darwin continuam a procurar incessantemente a

 funo , ao passo que ningum , depois de Newton , se lembrou de procurar

 uma explicao teleolgica para o movimento dos corpos inanimados .

 Palavras e Coisas

 Ao contrrio do seu trabalho nas cincias empricas , h aspectos da

 filosofia terica de Aristteles que podem ainda ter muito para nos

 ensinar .
 Merecem especial destaque as suas afirmaes acerca da

 natureza da linguagem , da natureza da realidade e da relao entre as

 duas .

 Nas suas Categorias , Aristteles apresenta uma lista dos diferentes

 tipos de coisas que podem afirmar-se a propsito de um indivduo .
 Essa

 lista contm 10 artigos : substncia , quantidade , qualidade , relao ,

 espao , tempo , postura , vesturio , actividade e passividade .
 Faria

 sentido dizer , por exemplo , que Scrates era um ser humano

 ( substncia ) , que media 1,50 m ( quantidade ) , que era talentoso

 ( qualidade ) , que era mais velho que Plato ( relao ) , que vivia em

 Atenas ( espao ) , que era um homem do sculo v a .
 C. ( tempo ) , que

 estava sentado ( postura ) , que envergava uma capa ( vesturio ) , que

 estava a cortar um pedao de tecido ( actividade ) e que foi morto por

 envenenamento ( passividade ) .
 Esta no  uma simples classificao de

 predicados verbais : cada tipo de predicado irredutivelmente diferente ,

 pensava Aristteles , representa um tipo de entidade irredutivelmente

 diferente .
 Em  Scrates  um homem  , por exemplo , a palavra  homem 

 representa uma substncia , nomeadamente Scrates .
 Em  Scrates foi

 envenenado  , a palavra  envenenado  representa uma entidade chamada

  passividade  , nomeadamente o envenenamento de Scrates .
 Aristteles

 pensava provavelmente que qualquer entidade possvel , fosse qual fosse

 a sua classificao inicial , seria , em ltima anlise , atribuvel a

 uma e apenas uma das 10 categorias .
 Assim , Scrates  um homem , um

 animal , um ser vivo e , em ltima anlise , uma substncia ; o crime

 cometido por Egisto  um assassinato , um homicdio , um acto de matar

 e , em ltima anlise , uma actividade .

 A categoria da substncia  de importncia primordial .
 As substncias

 so coisas como mulheres , lees e couves , que podem ter uma existncia

 independente e ser identificados como indivduos de uma espcie

 particular ; uma substncia  , na despretensiosa expresso de

 Aristteles ,  um isto que  tal e tal  este gato ou esta cenoura .
 As

 coisas que pertencem s outras categorias ( s quais os sucessores de

 Aristteles iriam chamar  acidentes  ) no so independentes ; um

 tamanho , por exemplo ,  sempre o tamanho de qualquer coisa .
 Os artigos

 das categorias  acidentais  existem apenas enquanto propriedades ou

 modificaes de substncias .

 As categorias de Aristteles no parecem ser exaustivas , e o seu grau

 de importncia parece bastante desigual .
 Mas , mesmo que as aceitemos

 como uma possvel classificao de predicados , ser correcto

 considerar que um predicado representa qualquer coisa ?
 Se  Scrates

 corre  for verdadeira , dever  corre  representar uma entidade de

 qualquer tipo , tal como  Scrates  representa Scrates ?
 Mesmo que

 digamos que sim ,  evidente que tal entidade no pode ser o

 significado da palavra  corre  .
 Pois  Scrates corre  faz sentido ,

 mesmo sendo uma afirmao falsa ; e por isso  corre  significa algo ,

 mesmo que no exista aquilo que representa neste caso , a corrida de

 Scrates .

 Se considerarmos uma frase como  Scrates  branco  , podemos , segundo

 Aristteles , pensar em  branco  como algo que representa a brancura de

 Scrates .
 Nesse caso , o que representa o    ?
 Parecem existir diversas

 respostas possveis a esta pergunta. a ) Podemos dizer que no

 representa coisa alguma , limitando-se a marcar a relao entre sujeito

 e predicado. b ) Podemos dizer que representa a existncia , no sentido

 em que se Scrates  branco ,  porque existe qualquer coisa talvez o

 Scrates branco , ou talvez a brancura de Scrates que no existiria se

 Scrates no fosse branco. c ) Podemos dizer que representa o ser ,

 entendendo-se  ser  como um infinitivo substantivado como  correr  .
 Se

 escolhermos esta ltima resposta , parece ser necessrio acrescentar

 que existem diversos tipos de ser : o ser denotado pelo    de um

 predicado substancial como    um cavalo   um ser substancial ,

 enquanto o ser denotado pelo    de um predicado acidental como   

 branco   um ser acidental .
 Em textos diferentes , Aristteles parece

 ter privilegiado ora uma , ora outra interpretao .
 A sua preferida 

 talvez a terceira .
 Nas passagens onde a expressa , retira dela a

 consequncia de que o  ser   um verbo de mltiplos significados , um

 termo homnimo com mais de um sentido ( tal como  saudvel  possui

 sentidos diferentes , mas relacionados , quando falamos de uma pessoa

 saudvel , de uma pele saudvel e de um clima saudvel ) .

 Afirmei anteriormente que , em  Scrates  um homem  ,  homem   um

 predicado da categoria da substncia que representa a substncia

 Scrates .
 Mas esta no  a nica anlise que Aristteles faz de uma

 frase deste gnero .
 Por vezes , esse  homem  parece representar antes a

 humanidade que Scrates possui .
 Em tais contextos , Aristteles

 distingue dois sentidos de  substncia  .
 Um este tal e tal por

 exemplo , este homem , Scrates  uma substncia primeira ; a humanidade

 que ele possui  uma substncia segunda .
 Quando fala nestes termos ,

 Aristteles esfora-se geralmente por evitar os universais do

 platonismo .
 A humanidade que Scrates possui  uma humanidade

 individual , a humanidade prpria de Scrates ; no  uma humanidade

 universal da qual todos os homens participem .

 Movimento e Mudana

 Uma das razes pelas quais Aristteles rejeitou a Teoria das Ideias de

 Plato foi porque esta , tal como a metafsica eletica , negava de modo

 fundamental a realidade da mudana .
 Tanto na Fsica como na

 Metafsica , Aristteles apresenta uma teoria da natureza da mudana

 concebida para enfrentar e desarmar o desafio de Parmnides e Plato .

 Trata-se da sua doutrina do acto e potncia .

 Se considerarmos uma substncia , como por exemplo um pedao de

 madeira , descobrimos uma srie de coisas verdadeiras no que respeita a

 essa substncia num determinado momento , e uma srie de outras coisas

 que , no sendo verdadeiras no que a ela diz respeito nesse momento

 determinado , podero vir a s-lo noutro momento .
 Assim , a madeira ,

 apesar de ser fria agora , pode ser aquecida e transformada em cinza

 mais tarde .
 Aristteles chamou  acto  quilo que uma substncia  , e

  potncia  quilo que uma substncia pode vir a ser : assim , a madeira

 est fria em acto mas quente em potncia ,  madeira em acto mas cinza

 em potncia .
 A mudana do estado frio para o quente  uma mudana

 acidental que a substncia pode sofrer sem deixar de ser a substncia

 que  ; a mudana do estado madeira para o estado cinza  uma mudana

 substancial em que ocorre uma mudana da prpria substncia .
 Em

 portugus podemos dizer , muito grosseiramente , que os predicados que

 contm a palavra  pode  , ou qualquer palavra com um sufixo modal como

  vel  ou  vel  , significam potncia ; os predicados que no contm

 essas palavras significam acto .
 A potncia , em contraste com o acto , 

 a capacidade de uma coisa para sofrer uma mudana de qualquer tipo ,

 seja atravs da sua prpria aco , seja atravs da aco de qualquer

 outro agente .

 Os actos envolvidos em mudanas chamam-se  formas  , e o termo

  matria   utilizado como um termo tcnico para designar aquilo que

 possui a capacidade para sofrer uma mudana substancial .
 Na nossa vida

 quotidiana , estamos familiarizados com a ideia de que uma e a mesma

 parcela de um ingrediente pode ser primeiro uma coisa e depois outro

 tipo de coisa .
 Uma garrafa contendo um quartilho de natas , depois de

 agitada , poder conter manteiga e no natas .
 Aquilo que sai da garrafa

  a mesma coisa que entrou : nada lhe foi retirado nem acrescentado .

 Contudo , aquilo que sai  diferente em gnero daquilo que foi

 introduzido .
 O conceito aristotlico de mudana substancial  derivado

 de casos como este .

 A mudana substancial ocorre quando uma substncia de um certo tipo se

 transforma numa substncia de outro tipo .
 Aristteles chama matria

 quilo que permanece a mesma coisa ao longo da mudana .
 A matria

 assume primeiro uma forma e depois outra .
 Uma coisa pode mudar sem

 deixar de pertencer ao mesmo gnero natural , por meio de uma mudana

 que no pertence  categoria da substncia , mas a qualquer uma das

 outras nove categorias : assim , um ser humano pode crescer , aprender ,

 corar e ser subjugado sem deixar de ser humano .
 Quando uma substncia

 sofre uma mudana acidental retm sempre uma forma ao longo da

 mudana , nomeadamente a sua forma substancial .
 Um homem pode ser

 primeiro P e depois Q , mas podemos sempre aplicar-lhe correctamente o

 predicado    um homem  .
 E quanto  mudana substancial ?
 Quando um

 pedao de matria  primeiro A e depois B , haver algum predicado na

 categoria da substncia ,    C  , que possamos sempre aplicar

 correctamente a essa matria ?
 Em muitos casos , no h dvida de que

 existe tal predicado : quando o cobre e o estanho se transformam em

 bronze , a matria em mudana nunca deixa de ser metal ao longo do

 processo .
 Contudo , no parece ser necessrio que tal predicado deva

 existir em todos os casos ; parece logicamente concebvel que possa

 existir matria que seja primeiro A e depois B sem que exista qualquer

 predicado substancial que possamos aplicar-lhe sempre correctamente .

 Em todo o caso , Aristteles era dessa opinio ; e chamou

  matria-prima 

 ao-que--primeiro-uma-coisa-e-depois-outra-sem-ser-coisa-alguma-o-temp

 o-todo .

 A forma faz as coisas pertencerem a uma categoria particular ; e ,

 segundo Aristteles , aquilo que faz as coisas serem indivduos dessa

 categoria particular  a matria .
 No dizer dos filsofos , a matria 

 o princpio de individuao das coisas materiais .
 Isto significa , por

 exemplo , que duas ervilhas do mesmo tamanho e forma , por muito

 semelhantes que sejam , por mais propriedades ou formas que possam ter

 em comum , so duas ervilhas e no uma , porque correspondem a duas

 diferentes parcelas de matria .

 No deve entender-se a matria e a forma como partes de corpos , como

 elementos a partir dos quais os corpos so feitos ou peas dos quais

 possam ser retiradas .
 A matria-prima no poderia existir sem forma :

 no precisa de assumir uma forma especfica , mas tem de assumir uma

 forma qualquer .
 As formas dos corpos mutveis so todas formas de

 corpos particulares ;  inconcebvel que exista uma qualquer forma que

 no seja a forma de um qualquer corpo .
 A no ser que queiramos cair no

 platonismo que Aristteles explicitamente rejeitou com frequncia ,

 devemos aceitar que as formas so logicamente incapazes de existir sem

 os corpos dos quais so as formas .
 De facto , as formas nem existem em

 si prprias , nem so geradas do modo como as substncias existem e so

 geradas .
 As formas , ao contrrio dos corpos , no so feitas de coisa

 alguma ; dizer que existe uma forma de A significa apenas que existe

 uma substncia que  A ; dizer que existe uma forma de cavalidade

 significa apenas que existem cavalos .

 A doutrina da matria e da forma  uma explicao filosfica de certos

 conceitos que empregamos na nossa descrio e manipulao quotidianas

 das substncias materiais .
 Mesmo aceitando que a definio 

 filosoficamente correcta , fica ainda a questo : o conceito que procura

 clarificar ter realmente um papel a desempenhar numa explicao

 cientfica do universo ?
  sabido que aquilo que na cozinha parece uma

 mudana substancial de entidades macroscpicas possa surgir-nos no

 laboratrio como uma mudana acidental de entidades microscpicas .
 A

 questo de saber se uma noo como a de matria-prima possui , a um

 nvel fundamental , qualquer aplicao  fsica , onde falamos de

 transies entre matria e energia , continua a ser uma questo de

 opinio .

 A forma  um tipo particular de acto , e a matria um tipo particular

 de potncia .
 Aristteles pensava que a sua distino entre acto e

 potncia constitua uma alternativa  dicotomia entre Ser e No-Ser ,

 sobre a qual se apoiava a rejeio parmendea da mudana .
 Uma vez que

 a matria estava subjacente e sobrevivia a todas as mudanas , fossem

 substanciais ou acidentais , no se punha a hiptese de o Ser se tornar

 No-Ser , ou de algo surgir a partir do nada .
 Uma das consequncias

 desta explicao aristotlica , contudo , foi a ideia de que a matria

 no poderia ter tido um princpio .
 Sculos mais tarde , isto colocaria

 um problema aos aristotlicos cristos que acreditavam na criao do

 mundo material a partir do nada .

 Alma , Sentidos e Intelecto

 Uma das aplicaes mais interessantes da doutrina da matria e da

 forma de Aristteles pode encontrar-se nos seus estudos de psicologia ,

 nomeadamente no tratado Da Alma .
 Para Aristteles , os homens no so

 os nicos seres que possuem alma ou psique ; todos os seres vivos a

 possuem , desde as margaridas e moluscos aos seres mais complexos .
 Uma

 alma  simplesmente um princpio de vida :  a fonte das actividades

 prprias de cada ser vivo .
 Diferentes seres vivos possuem diferentes

 capacidades : as plantas crescem e reproduzem-se , mas no podem

 mover-se nem ter sensaes ; os animais tm percepo , sentem prazer e

 dor ; alguns podem mover-se , mas no todos ; alguns animais muito

 especiais , nomeadamente os seres humanos , conseguem tambm pensar e

 compreender .
 As almas diferem de acordo com estas diferentes

 actividades , por meio das quais se exprimem .
 A alma  , segundo a

 definio mais geral que Aristteles nos apresenta , a forma de um

 corpo orgnico .

 Tal como uma forma , uma alma  um acto de um tipo particular .
 Neste

 ponto , Aristteles introduz uma distino entre dois tipos de acto .

 Uma pessoa que no saiba falar grego encontra-se num estado de pura

 potncia no que diz respeito  utilizao dessa lngua .
 Aprender grego

  passar da potncia ao acto .
 Porm , uma pessoa que tenha aprendido

 grego , mas que ao longo de um determinado tempo no faa uso desse

 conhecimento , encontra-se num estado simultneo de acto e potncia :

 acto em comparao com a posio de ignorncia inicial , potncia em

 comparao com algum que esteja a falar grego .
 Ao simples

 conhecimento do grego , Aristteles chama  acto primeiro  ; ao facto de

 se falar grego chama  acto segundo  .
 Aristteles utiliza esta

 distino na sua descrio da alma : a alma  o acto primeiro de um

 corpo orgnico .
 As operaes vitais das criaturas vivas so actos

 segundos .

 A alma aristotlica no  , enquanto tal , um esprito .
 No  , de facto ,

 um objecto tangvel ; mas isso resulta do facto de ser ( como todos os

 actos primeiros ) uma potncia .
 O conhecimento do grego tambm no  um

 objecto tangvel ; mas no  , por isso , algo de fantasmagrico .
 Se h

 almas capazes , no seu conjunto ou em parte , de existirem sem um corpo

 questo sobre a qual Aristteles teve dificuldade em formar uma

 opinio tal existncia independente ser possvel no por serem

 simplesmente almas , mas por serem almas de um tipo particular com

 actividades vitais especialmente poderosas .

 Aristteles fornece descries biolgicas muito concretas das

 actividades da nutrio , crescimento e reproduo que so comuns a

 todos os seres vivos .
 O tema torna-se mais complicado , e mais

 interessante , quando procura explicar a percepo sensorial

 ( especfica dos animais superiores ) e o pensamento intelectual

 ( especfico do ser humano ) .

 Ao explicar a percepo sensorial , Aristteles adapta a definio do

 Teeteto de Plato segundo a qual a sensao  o resultado de um

 encontro entre uma faculdade sensorial ( como a viso ) e um objecto

 sensorial ( como um objecto visvel ) .
 Contudo , para Plato , a percepo

 visual de um objecto branco e a brancura do prprio objecto so dois

 gmeos com origem na mesma relao ; ao passo que , para Aristteles , o

 ver e o ser visto so uma e a mesma coisa .
 Este ltimo prope a

 seguinte tese geral : uma faculdade sensorial em acto  idntica a um

 objecto sensorial em acto .

 Esta tese aparentemente obscura  outra aplicao da teoria

 aristotlica do acto e da potncia .
 Permita-se-me ilustrar o seu

 significado por meio do exemplo do paladar .
 A doura de um torro de

 acar , algo que pode ser saboreado ,  um objecto sensorial , e o meu

 sentido do paladar , a minha capacidade para saborear ,  uma faculdade

 sensorial .
 A operao do meu sentido do paladar sobre o objecto

 sensvel  a mesma coisa que a aco do objecto sensorial sobre o meu

 sentido .
 Ou seja , o facto de o acar ter um sabor doce para mim  uma

 e a mesma coisa que o facto de eu saborear a doura do acar .
 O

 acar em si  sempre doce ; mas s quando o coloco na boca a sua

 doura passa de potncia a acto. ( Ser doce  um acto primeiro ; saber a

 doce , um acto segundo. )

 O sentido do paladar no  mais do que o poder para saborear , por

 exemplo , a doura dos objectos doces .
 A propriedade sensorial da

 doura no  mais do que ter um sabor doce para aquele que saboreia .

 Assim , Aristteles tem razo quando afirma que a propriedade em aco

  uma e a mesma coisa que a faculdade em operao .
 Claro que o poder

 para saborear e o poder para ser saboreado so duas coisas muito

 diferentes , a primeira relativa quele que saboreia , e a segunda

 relativa ao acar .

 Este tratamento da percepo sensorial  superior ao de Plato porque

 nos permite afirmar que as coisas do mundo possuem de facto qualidades

 sensoriais , mesmo quando no so percepcionadas .
 As coisas que no

 esto a ser vistas so realmente coloridas , e o mesmo se aplica aos

 cheiros e aos sons , que existem independentemente do facto de serem ou

 no percepcionados. Aristteles pode afirm-lo porque a sua anlise do

 acto e da potncia lhe permite explicar que as qualidades sensoriais

 so de facto poderes de um determinado tipo .

 Aristteles serve-se tambm desta teoria quando lida com as

 capacidades racionais e intelectuais da alma humana , fazendo uma

 distino entre os poderes naturais , como o poder de queimar do fogo ,

 e os poderes racionais , como a capacidade de falar grego .
 E defende

 que se todas as condies necessrias para o exerccio de um poder

 natural estiverem presentes , esse poder ser necessariamente exercido .

 Se pusermos um pedao de madeira , adequadamente seco , sobre uma

 fogueira , o fogo queim-lo- ; no h alternativa .
 Contudo , tal no

 acontece com os poderes racionais , que podem ser exercidos ou no , de

 acordo com a vontade do sujeito .
 Um mdico que possua o poder para

 curar pode negar-se a exercit-lo se o seu paciente for

 insuficientemente rico ; pode at utilizar os seus talentos mdicos

 para envenenar o paciente , em vez de o curar .
 A teoria dos poderes

 racionais de Aristteles ser usada para explicar o livre-arbtrio

 humano por muitos dos seus sucessores .

 A doutrina de Aristteles sobre os poderes intelectuais da alma  algo

 inconstante .
 Por vezes , o intelecto  apresentado como parte da alma ;

 por conseguinte , e uma vez que a alma  a forma do corpo , o intelecto

 assim concebido dever morrer com o corpo .
 Noutros pontos , Aristteles

 argumenta que , sendo o intelecto capaz de apreender verdades

 necessrias e eternas , dever ser em si mesmo , por afinidade , qualquer

 coisa de independente e indestrutvel ; e a dada altura sugere que a

 capacidade para pensar  algo de divino e exterior ao corpo .

 Finalmente , numa passagem desconcertante , objecto de interminveis

 discusses ao longo dos sculos que se seguiriam , Aristteles parece

 dividir o intelecto em duas faculdades , uma perecvel e a outra

 imperecvel :

 O pensamento , tal como o descrevemos ,  aquilo que  em virtude de

 poder tornar-se todas as coisas ; ao passo que existe algo que  o

 que  em virtude de poder fazer todas as coisas : trata-se de uma

 espcie de estado positivo como a luz ; pois , num certo sentido , a

 luz transforma as cores em potncia em cores em acto .
 Neste

 sentido , o pensamento  separvel , no passivo e puro , sendo

 essencialmente acto .
 E quando separado  exactamente aquilo que  ,

 e s ele  imortal e eterno .

 A caracterstica do intelecto humano que ter por vezes levado

 Aristteles a entend-lo como separado do corpo e divino  a sua

 capacidade para o estudo da filosofia e , especialmente , da metafsica ;

 e por isso temos de explicar finalmente de que modo Aristteles

 entendia a natureza desta sublime disciplina .

 Metafsica

  H uma disciplina  , escreve Aristteles no quarto livro da sua

 Metafsica ,  que teoriza sobre o Ser enquanto ser e sobre as coisas

 que pertencem ao Ser tomado em si mesmo.  A esta disciplina chama

 Aristteles  filosofia primeira  , definindo-a noutro texto como o

 conhecimento dos primeiros princpios e das causas supremas .
 As outras

 cincias , afirma , lidam com um tipo de ser particular , mas a cincia

 do filsofo diz respeito ao Ser universalmente e no apenas

 parcialmente .
 Noutras obras , contudo , Aristteles parece restringir o

 objecto da filosofia primeira a um tipo particular de ser ,

 nomeadamente a uma substncia divina , independente e imutvel .
 Existem

 trs filosofias tericas , afirma ele num outro texto : a matemtica , a

 fsica e a teologia ; e a primeira e mais digna das filosofias  a

 teologia .
 A teologia  a melhor das cincias tericas porque lida com

 os seres mais dignos ; precede a fsica e a filosofia natural , sendo

 mais universal do que elas .

 Ambos os conjuntos de definies at ao momento considerados tratam a

 filosofia primeira como dizendo respeito ao Ser ou aos seres ; diz-se

 tambm que  a cincia da substncia ou substncias .
 Em determinado

 ponto , Aristteles afirma que a velha questo  O que  o Ser ?
 

 equivale  questo  O que  a substncia ?
  Assim , a filosofia primeira

 pode ser considerada a teoria da substncia primeira e universal .

 Sero todas estas definies do objecto de estudo da filosofia

 equivalentes ou mesmo compatveis ?
 Alguns historiadores ,

 considerando-as incompatveis , atriburam os diferentes tipos de

 definies a diferentes perodos da vida de Aristteles .
 Mas , com

 algum esforo , podemos mostrar que  possvel concili-las .

 Antes de perguntarmos o que  o Ser enquanto ser , precisamos de

 esclarecer o que  o Ser .
 Aristteles utiliza a expresso grega to on

 do mesmo modo que Parmnides : o Ser  seja o que for que  seja l o

 que for .
 Sempre que Aristteles explica os sentidos de  to on  , f-lo

 explicando o sentido de  einai  , o verbo  ser  .
 O Ser , no seu sentido

 mais lato ,  tudo o que possa surgir , numa qualquer frase verdadeira ,

 antes da forma verbal    .
 Segundo esta perspectiva , uma cincia do

 ser no seria tanto uma cincia daquilo que existe , mas antes uma

 cincia da predicao verdadeira .

 Todas as categorias , diz-nos Aristteles , exprimem o ser , porque

 qualquer verbo pode ser substitudo por um predicado que contenha o

 verbo  ser  :  Scrates corre  , por exemplo , pode ser substitudo por

  Scrates  um corredor  .
 E todo o ser em qualquer categoria que no a

 da substncia  uma propriedade ou modificao da substncia .
 Isto

 significa que sempre que temos uma frase sujeito-verbo na qual o

 sujeito no seja um termo para uma substncia , podemos transform-la

 numa outra frase sujeito-verbo na qual o termo sujeito denota

 realmente uma substncia uma substncia primeira , como um homem ou uma

 couve particulares .

 Para Aristteles , assim como para Parmnides ,  um erro equiparar

 simplesmente o ser  existncia .
 Quando discute , na Metafsica , os

 sentidos de  ser  e    do seu lxico filosfico , Aristteles nem

 sequer refere a existncia como um dos sentidos do verbo ser , uma

 utilizao que dever distinguir-se da utilizao do verbo com um

 complemento num predicado , tal como em  ser um filsofo  .
 Isto

 surpreende-nos , j que ele prprio parece fazer essa distino em

 livros anteriores .
 Nas Refutaes Sofsticas , para contradizer a

 falcia segundo a qual aquilo em que se pensa deve existir para ser

 pensado , Aristteles distingue entre  ser F  , no qual ao verbo se

 segue um predicado ( por exemplo ,  ser pensado  ) , e apenas  ser  .

 Aristteles toma uma posio semelhante em relao ao ser F daquilo

 que deixou de ser , sem mais : por exemplo , de  Homero  um poeta  no

 se segue que Homero  .

 Ser talvez um erro procurar na obra de Aristteles um s tratamento

 da existncia .
 Quando os filsofos levantam questes a propsito das

 coisas que realmente existem e daquelas que no existem ,  possvel

 que tenham em mente trs contrastes diferentes : entre o abstracto e o

 concreto ( por exemplo , sabedoria versus Scrates ) , entre o ficcional e

 o factual ( por exemplo , Pgaso versus Bucfalo ) e entre o existente e

 o defunto ( por exemplo , a Grande Pirmide versus o Colosso de Rodes ) .

 Aristteles lida com os trs problemas em obras diferentes .
 Lida com o

 problema das abstraces quando discute os acidentes : so sempre

 modificaes da substncia .
 Qualquer afirmao sobre abstraces ( como

 cores , aces , mudanas ) deve ser analisvel como uma afirmao sobre

 substncias primeiras concretas .
 Lida com o problema do ficcional

 conferindo ao    o sentido de   verdadeiro  : uma fico  um

 pensamento genuno , mas no  ( ou seja , no  um pensamento

 verdadeiro ) .
 O problema sobre o existente e o defunto , que lida com as

 coisas que existem e aquelas que deixaram de existir ,  resolvido pela

 aplicao da doutrina da matria e da forma .
 Neste sentido , existir 

 ser matria sob uma certa forma ,  ser uma coisa de certa categoria :

 Scrates deixa de existir ao deixar de ser um ser humano .
 Para

 Aristteles , o Ser inclui qualquer coisa que exista de uma destas trs

 maneiras .

 Se o Ser  isso , o que  ento o Ser enquanto Ser ?
 A resposta  que

 no existe tal coisa .
  certamente possvel estudar o Ser enquanto ser

 e procurar as causas do mesmo .
 Mas isto  entrar num tipo de estudo

 especial , procurar um tipo de causa especial .
 No  estudar um tipo de

 Ser especial nem procurar as causas de um tipo de Ser especial .
 Mais

 do que uma vez , Aristteles insistiu em que  Um A enquanto F  G  deve

 ser entendido como um sujeito A e um predicado   , enquanto F , G  .
 No

 deve ser entendido como consistindo num predicado   G  que est

 ligado ao sujeito Um-A-enquanto-F .
 Eis um dos seus exemplos :  Um bem

 pode ser conhecido como bem  no deve ser analisado como  um bem como

 bem pode ser conhecido  , porque  um bem como bem   uma expresso

 destituda de sentido .

 Mas se  A enquanto F   um pseudo-sujeito em  Um A enquanto F  G  ,

 tambm  A enquanto F   um pseudo-objecto em  Ns estudamos A enquanto

 F  .
 O objecto desta frase  A , e o verbo   estudamos enquanto F  .

 Estamos a falar no do estudo de um tipo particular de objecto , mas de

 um tipo particular de estudo , um estudo que procura tipos particulares

 de explicaes e causas , causas enquanto F .
 Por exemplo , quando

 estudamos fisiologia humana , estudamos os homens enquanto animais , ou

 seja , estudamos as estruturas e funes que os homens tm em comum com

 os animais .
 No existe um objecto que seja um homem enquanto animal , e

 seria um disparate perguntar se todos os homens , ou se apenas alguns

 especialmente embrutecidos , sero homens enquanto animais .
 

 igualmente disparatado perguntar se o Ser enquanto Ser significa todos

 os seres ou apenas alguns seres especialmente divinos .

 Contudo , podemos estudar qualquer ser do ponto de vista particular do

 ser , ou seja , podemos estud-lo em virtude daquilo que tem em comum

 com todos os outros seres .
 Ser talvez legtimo pensar que isto 

 muito pouco : de facto , o prprio Aristteles afirma que nada possui

 ser enquanto sua essncia ou natureza : no h nada que seja apenas ser

 e nada mais .
 Mas estudar algo enquanto um ser  estudar algo sobre o

 qual  possvel fazer predicaes verdadeiras , precisamente do ponto

 de vista da possibilidade de fazer predicaes verdadeiras sobre isso .

 A filosofia primeira de Aristteles no estuda um tipo particular de

 ser ; estuda tudo , todo o Ser , precisamente enquanto tal .

 Ora , a cincia aristotlica  uma cincia de causas , pelo que a

 cincia do Ser enquanto ser ser uma cincia que procura as causas da

 existncia de qualquer verdade acerca de toda e qualquer coisa .

 Podero existir tais causas ?
 No  difcil conferir sentido ao facto

 de um tipo particular de ser possuir uma causa enquanto ser .
 Se eu

 nunca tivesse sido concebido , nunca existiriam quaisquer verdades

 sobre mim ; Aristteles afirma que se Scrates nunca tivesse existido ,

 as frases  Scrates est bem  e  Scrates no est bem  jamais

 poderiam ser verdadeiras .
 Portanto os meus pais , que me deram

 existncia , so as minhas causas enquanto ser. ( So tambm as minhas

 causas enquanto ser humano. ) Tal como os pais deles , e os pais dos

 pais deles por sua vez , e , em ltima instncia , Ado e Eva , no caso de

 descendermos todos de um nico par .
 E se algo tivesse dado existncia

 a Ado e Eva , seria essa a causa de todos os seres humanos , enquanto

 seres .

 Posto isto , podemos ver claramente de que modo o Deus cristo , o

 criador do mundo , pode ser entendido como a causa do Ser enquanto ser

 a causa , pela sua prpria existncia , das verdades sobre si prprio ,

 e , como criador , a causa eficiente da possibilidade de toda e qualquer

 verdade acerca de toda e qualquer coisa .
 Mas no sistema de

 Aristteles , que no inclui um criador do mundo , qual  a causa do Ser

 enquanto ser ?

 No cume da hierarquia aristotlica dos seres esto os motores mveis e

 imveis que so as causas finais de toda a gerao e corrupo .
 So

 assim , de certo modo , as causas de todos os seres perceptveis e

 corruptveis , desde que sejam seres .
 A cincia que pretenda alcanar o

 motor imvel estar a estudar a explicao de toda e qualquer

 predicao verdadeira e , desse modo , de todo e qualquer ser enquanto

 ser .
 Na sua Metafsica , Aristteles explica que existem trs tipos de

 substncias : os corpos perecveis , os corpos eternos e os seres

 imutveis .
 Os dois primeiros tipos pertencem  cincia da natureza , e

 o terceiro  filosofia .
 Aquilo que explicar a substncia , afirma ,

 explicar todas as coisas , j que sem substncias no existiriam

 mudanas activas nem passivas .
 Aristteles avana ento para a

 comprovao da existncia de um motor imvel , concluindo que  de tal

 princpio dependem os cus e a natureza  ou seja , tanto os corpos

 eternos como os corpos perecveis dependem do ser imutvel .
 E este  o

 divino , o objecto da teologia .

 O motor imvel  anterior s outras substncias , e estas so

 anteriores a todos os outros seres .
  Anterior   aqui utilizado no

 num sentido temporal , mas para denotar dependncia : A  anterior a B ,

 se pudermos ter A sem B mas no B sem A .
 Se no existisse um motor

 imvel , no existiriam os cus e a natureza ; se no houvesse

 substncias , no haveria qualquer outra coisa .
 Podemos agora entender

 por que motivo Aristteles afirmava que aquilo que  anterior possui

 um poder explicativo mais elevado do que aquilo que  posterior , e por

 que razo a cincia dos seres divinos , sendo anterior , pode

 entender-se como a mais universal das cincias : porque lida com seres

 que so anteriores , isto  , mais recuados na cadeia da dependncia .
 A

 cincia dos seres divinos  mais universal do que a cincia da fsica

 porque explica tanto os seres divinos como os seres naturais ; a

 cincia da fsica explica apenas os seres naturais e no os seres

 divinos .

 Por fim , conseguimos compreender como se harmonizam as diferentes

 definies da filosofia primeira .
 Qualquer cincia pode ser definida

 pela rea que pretende explicar ou por meio da especificao dos

 princpios pelos quais o explica .
 A filosofia primeira tem como rea

 de explicao o universal : prope-se apresentar um tipo de explicao

 para toda e qualquer coisa e encontrar uma das causas da verdade de

 toda e qualquer predicao verdadeira .
  a cincia do Ser enquanto

 ser .
 Mas , se passarmos do explicandum para o explicans , podemos dizer

 que a filosofia primeira  a cincia do divino ; pois aquilo que

 explica f-lo por referncia ao motor imvel divino .
 No lida apenas

 com um s tipo de Ser , j que faz a descrio no apenas do prprio

 divino , mas de tudo o que existe ou  alguma coisa .
 Mas  , por

 excelncia , a cincia do divino , j que explica tudo por referncia ao

 divino e no , como a fsica , por referncia  natureza .
 Assim , a

 teologia e a cincia do Ser enquanto ser so uma e a mesma primeira

 filosofia .

 Somos por vezes levados a pensar que a fase final da compreenso da

 metafsica aristotlica  uma apreciao da natureza profunda e

 misteriosa do Ser enquanto Ser .
 Na verdade , o primeiro passo em

 direco a essa compreenso  a tomada de conscincia de que o Ser

 enquanto Ser  um espectro quimrico engendrado por no se prestar

 ateno  lgica aristotlica .

 Anthony Kenny

