 [ INLINE ] ...........................................
 [ INLINE ]

 [ INLINE ]

 Literatura de autoria feminina :

 a condio da mulher na sociedade europia do sc. XX

 ( uma interpretao mitolgica do princpio feminino tal como 

 retratado na obra de Florbela Espanca e Marguerite Duras )

 " Os escritos de uma mulher so sempre so sempre femininos ;

 no podem deixar de s-los ; quanto melhor , mais feminino ;

 a nica dificuldade  definir o que entendemos por feminino. " 1

 A mulher  a fico que ela escreve ?
 Ou a fico escrita sobre ela ?
 O

 que , de fato , pode ser considerada literatura feminina ?
 Em que

 condies escreviam as mulheres europias na emergncia do nosso

 sculo ?
 Antes mesmo de contextualizar historicamente e estabelecer um

 estudo crtico da obra ficcional de Florbela Espanca e Marguerite

 Duras , vale a pena refletir , ainda que brevemente , sobre a mstica

 feminina , buscando conceitualiz-la .

 Ao descrever , na obra supracitada , o papel que a mulher desempenhava

 na sociedade de sua poca , V. Woolf apresenta-nos situaes

 extremamente constrangedoras para uma mulher

 2 .
 Isto fica ainda mais evidente quando a mencionada autora imagina o

 que teria acontecido se Shakespeare tivesse tido uma irm chamada

 Judith , para concluir sabiamente o possvel destino desta mulher :

 " qualquer mulher nascida com um grande talento no sculo XVI teria

 certamente enlouquecido , ter-se-ia matado com um tiro , ou terminado

 seus dias em algum chal isolado , fora da cidade , meio bruxa , meio

 feiticeira , temida e ridicularizada. " 3 No so raros os casos em que

 isso acontece .
 A prpria V. Woolf , tal qual Safo , Rosa Luxemburgo e

 tantas outras , teria cometido suicdio , afogando-se  maneira da

 Ophelia shakespereana. Suicdio lento e doloroso  o isolamento da

 brasileira Hilda Hilst em sua chcara no interior paulista .

 Estudando a obra de G. Eliot , Jane Austen , as irms Bront , etc. , a

 autora de Orlando conclui que a mulher precisa de condies mnimas

 para produzir sua escritura : um teto todo seu , meia hora realmente

 sua , acesso a texto de outros autores , renda prpria , etc .
 Condies

 estas que no possua Jane Austen , por exemplo , que s confiava nas

 portas que rangiam , avisando a chegada de um intruso , curioso em ler

 as anotaes de seu dirio .

 ___________

 1 - V. Woolf , A room of one's own , New York , H. Brace , 1929 , p. 23 .

 2 -. " As damas s so admitidas na biblioteca acompanhadas por Fellow

 da faculdade ou providas de uma carta de apresentao " Idem , p. 13 .

 3 - Ibidem , p. 65 .

 O equvoco feminino

 De gerao em gerao , os traos diferenciais entre homens e mulheres

 no se atenuaram .
 Ao contrrio , parece-me que cada sexo est cada vez

 mais comprometido com a sua realidade .
 A mulher ainda  , em algumas

 culturas , mera mercadoria de troca entre homens ( casamento ) .
 Na

 sociedade ocidental , entretanto , a dicotomia sexual  uma vivncia

 incon-fundvel do fazer , do prazer , do saber , enfim , do ser .

 A construo da identidade feminina passa , necessariamente , pelo

 recalque do universo masculino , pela diferenciao sexual .
 No nosso

 sculo assistimos  problematizao em profundidade do modelo , at

 ento inconteste , ainda que muitas vezes implcita , da superioridade

 viril .
 No se trata aqui de fazer propaganda do movimento

 poltico-social das mulheres , o feminismo .
 No entanto , o fato  que o

 papel feminino vm mudando gradativamente , sem que o papel masculino

 fosse fundamentalmente tocado .

 A tentativa desesperada de igualdade entre os sexos transformou-se em

 apenas um esforo de androginia , com a mulher assumindo uma dupla

 jornada .
 Caricatura do homem , a mulher que trabalha fora de casa , para

 ser respeitada no incio do nosso sculo , teve que pensar , agir e

 trabalhar mais e melhor do que os homens , sem , entretanto , ganhar mais

 por isso .
 Sabemos que , em mdia , a mulher recebe 40 % menos que o

 homem , para executar as mesmas atividades .

 O grande equvoco das feministas foi a desvalorizao do universo

 feminino , aceitando como definio de um mundo mais igualitrio aquele

 em que precisariam apenas adotar os valores masculinos .
 A vida privada

 ( o lar ) foi negligenciado em detrimento da vida pblica ( o

 trabalho ) , durante os primeiro anos do feminismo .
 Assim , o mal-estar

 da dona de casa por se sentir explorada pelos homens foi substitudo

 por um mal ainda pior : o sentimento de inadaptao .

 No conseguindo masculinizar-se no seu ambiente de trabalho , a mulher

 tambm no conseguiu feminimizar o mundo .
 E , conseqncia terrvel ,

 perdeu o contato com o seu lado mais feminino , o domstico .
 Assim ,

 conclui-se que a mulher no conseguiu atingir os objetivos

 explicitados no manifesto feminista : " a valorizao do sensual , a

 intimidade como mistrio , a intuio como conhecimento , o percebido

 to forte quanto o provado , o sensvel contra o racional , a esttica

 como tica do futuro "

 4 .

 ____________

 4 - " Fminiser le monde " , Document IDAC n  10 , Genebra , Institut

 d'Action Cuturelle , 1975 .

 Ao suscitar o questionamento sobre as j mencionadas leis , que lhes

 so impostas pela hierarquia masculina , as mulheres penetraram no

 espao pblico atravs do seu trabalho ; produziram um contra-discurso ,

 uma contra-ideologia , fazendo contrastar o seu ponto de vista com o

 masculino na cena cultural de nosso sculo .
 O movimento libertatrio

 feminino explicitou a incerteza , a pluralidade e a alternativa no

 universo social predominantemente viril e caracterizado pela verdade

 absoluta , pela unanimidade e pelo conformismo .

 A fala feminina

 No fim da dcada de 80 , a defesa da igualdade entre os sexos passa

 pela afirmao da diferena .
 Em confronto consigo mesmo , o universo

 feminino  agora questionado radicalmente .
 Em busca de uma

 redefinio , o feminino j no mimetiza de forma caricatural o viril ,

 nem se julga igual a ele .
 Aprendeu a conviver sem conflito com o

 autenticamente feminino , sem propagar o no man's land , sem refletir a

 imagem masculina .

 Somente nesta ltima dcada , os avanos scio-culturais permitiram 

 mulher uma relao profcua com o saber , a partir do abandono daquela

 fala titubeante e reticente , que marcaram a expresso feminina

 anteriormente .
 Se no , vejamos : no espao privado , isto  , em seu lar ,

 a mulher sempre se sentiu confortvel para expressar suas idias ,

 relativas unicamente a este universo domstico .
 Para ela , o homem

 reservou este ambiente , em era vista como a rainha do lar .
 No espao

 pblico , entretanto , ele reinava .

 Neste ambiente , a mulher sentia-se quase estrangeira .
 Sua fala

 demonstrava que no conhecia nem cultivava o dom da oratria , tido

 consensualmente como masculino .
 A mulher no dominava os cdigos

 culturais , da o medo de falar em pblico , perfeitamente compreensvel

 depois de sculos de um respeitoso quase silncio , ou da completa

 abdicao do ato de se expressar publicamente , com a prpria voz ,

 palavras e idias .
 Faltava  mulher deter o saber instrumental , ou

 seja , a arte de exercer uma linguagem mais conceitual , identificada ao

 universo masculino .

 A fala em pblico parece-me representar para mulher uma intromisso

 agressiva no universo masculino .
 Melhor dizendo , uma masculinizao de

 seu comportamento social .
 Tida como adorno para os eventos sociais ,

 passa agora a agente , repetindo o registro viril , aceito como o mais

 apropriado ao espao pblico .
 A mudana de registro lingstico 

 perceptvel na fala feminina em uma comunicao formal , por exemplo .

 Por outro lado , muitos estudiosos vm percebendo uma rasura deste

 registro masculino na fala da mulher .
 Desde os anos 80 , pesquisadores

 vem discutindo a discriminao lingstica sofrida pela mulher .
 Isto

  , a scio-lingstica tem observado que h diferenas na maneira como

 o homem e a mulher se expressam .
 E mais : " Alguns item lexicais

 significam uma coisa quando aplicados aos homens e outra quando

 aplicados s mulheres , e essa diferena refere-se aos diferentes

 papis desempenhados pelos sexos na sociedade "

 5 .

 Segundo Robin Lakoff , a mulher emprega mais adjetivos ao falar .
 Tambm

  mais polida , mais preocupada com a hipercorreo gramatical , o que

 talvez explique as freqentes expresses modais que exprimem contedos

 triviais , frvolos .
 A atitude e os gestos denotam hesitao , pouca

 segurana , desconforto .
 Por tudo isso , ainda segundo Lakoff , a fala

 feminina se desqualifica diante do discurso masculino , mais imperioso

 e firme .
 A julgar por estes estudos scio-lingsticos , a liberdade

 feminina passa pelo emprego oral de formas mais afirmativas e menos

 hesitantes , capazes de consolidar o papel da mulher no espao pblico

 6 .

 Assim , a mulher v-se diante de um impasse : utilizar o discurso

 masculino  por em risco sua feminilidade .
 No utiliz-lo  expor-se

 ao ridculo , ao falar em pblico .
 A maioria das mulheres optam pela

 ambigidade na sua atitude pblica , isto  , adotam apenas parcialmente

 o falar masculino , mantendo um pouco daqueles traos da cultura

 feminina .

  esta ambivalncia que hoje norteia o movimento feminista .
 Repensando

 o conceito de igualdade entre os sexos , a partir da valorizao das

 dicotomias , a imagem feminina no se assemelha a dos homens , mas

 tambm no se difere completamente de si mesma .
 Agora , o papel social

 da mulher  definido considerando-se sua vida privada e a pblica , a

 dona de casa e a trabalhadora , a que sabe e a que ainda tem muito o

 que aprender .

 Vale ressaltar que as universidades esto repletas de mulheres que

 buscam o saber em vrias reas e no apenas naquelas profisses

 tradicionalmente aceitas como feminina : magistrio , enfermagem , etc .

 Estas universitrias no absorvem meramente os conhecimentos , mas os

 produzem .
 Percebe-se facilmente um considervel aumento na produo

 verdadeiramente cientfica assinada por mulheres , no mundo todo .
 Agora

 o saber feminino se estrutura na prpria experincia e no mais aquela

 assimilada do discurso masculino .

 Se  verdade que ao falar em pblico , a mulher assume quase sempre uma

 atitude hesitante ,  tambm neste espao que ela busca o acesso a

 horizontes anteriormente viris .
 Busca novas experincias e saberes ,

 busca poder de deciso e liderana .

 _______

 5 - Robin Lakoff , Language and Woman's place. N. York , Haper and Row ,

 1975 , p. 3 .

 6 - " Uma mulher em pblico est sempre deslocada " .
 Pitgoras , citado

 por M. Perrot , Mulheres pblicas ,

 Trad .
 Roberto L. Ferreira .
 So Paulo : Fundao Editora da UNESP , 1998 ,

 p. 8 .
 ( Prisma )

 A escrita feminina

 No  por acaso que os primeiros traos da libertao feminina ocorra

 de forma mais patente apenas na literatura do comeo do nosso sculo ,

 refugiados no imaginrio , na fantasia insubmissa , procurando a

 descrio precisa do seu papel no mundo e sua conseqente reinveno .

 A literatura no  para as mulheres uma simples transgresso das leis

 que lhes proibiam ao acesso  criao artstica .
 Foi , muito mais do

 que isso , um territrio liberado , clandestino .
 Sada secreta da

 clausura da linguagem e de um pensamento masculino que as pensava e

 descrevia in absentia .
 Apenas desabafo ?
 No , a literatura feminina 

 mais um registro escrito do inconformismo da mulher quelas leis .
  ,

 como um palimpsesto , a reescritura do produo literria masculina ,

 mas sob o ponto de vista feminino .

 Afastando-se da identidade pr-fabricada no espelho do homem  que

 melhor a mulher se v .
 Para alm do mero mimetismo masculino , a mulher

 busca a diferena como identidade .
 Por isso , no se deve definir o

 feminino , a partir do modelo masculino .
  , antes , o seu avesso :

 " Feminina "

 _  me , me explica , me ensina ,

 Me diz : o que  feminina ?

 _ No  no cabelo , ou no dengo ou no olhar

  ser menina por todo lugar .

 -  me , ento me ilumina

 Me diz : como  que termina

 Termina na hora de recomear

 Dobra um esquina no mesmo lugar ...
 " 7

 No mais a igualdade entre os sexos .
 Atravs da desconstruo daquele

 supracitado modelo masculino na prtica de sua escritura , a autora vai

 percebendo que  necessrio buscar verdadeiramente o primado da

 diferena , sem hierarquia e sem ambigidade .
 Consciente agora de sua

 situao de alteridade , a mulher no se permite que a definam como

 perigosa , instvel , " metade ruim da sociedade " e antagnica .
 No

 ima-ginrio masculino , ela  , ainda e antes de mais nada , a outra

 muito mais do que a parceira .
 Este estranhamento se exprime nos

 sistemas simblicos e de representao da realidade , atravs das

 manifestaes artsticas , como a literatura , por exemplo .

 ____________

 7 - ( Joyce Gravao Polygram - Quarteto em Cy )

 Ao reconhecer-se diferente do homem , a mulher no deixou simplesmente

 de lutar pelos seus direitos .
 A valorizao das diferenas  , antes de

 mais nada , a constatao de que o universo feminino existe , no pode

 mais ser escamoteado .
 E a literatura produzida pela mulher baseia-se

 neste seu universo , sendo mesmo resultante de um corpo que se fez

 experincia histrica e social , de um psiquismo que se fez cultura .

 Entre o pblico e o privado , a mulher que escreve estabelece seu mundo

 imaginrio , procurando dizer de si mesma aos outros e propondo

 maneiras inovadoras de estar e de fazer .
 A criao artstica e ,

 sobretudo , a literria , como lan de comunicao de sua vida privada

 com o pblico , atravs da palavra escrita ,

 abre para a mulher uma fenda na muralha , revolve o estagnado cenrio

 cultural masculino , apresenta-a a este mesmo cenrio .
 No sculo XIX , a

 bvia imitao do estilo masculino s era quebrado pelo amargor

 inconfundivelmente feminino .
 Era a constatao de que muito ainda

 precisava ser feito para que aquela literatura produzida por mulheres

 pudesse ser considerada autenticamente feminina .

 Na passagem para o nosso sculo , graas talvez ao modernismo , a

 irregularidade do texto feminino j no parece to grotesco .
 Ao

 afastar-se do estilo masculino , assumindo sua inexperincia e

 imperfeio , a mulher encontra o seu verdadeiro jeito de escrever .
 O

 universo masculino  olvidado , para que se instaure o feminino .

  parte do projeto inicial de criao da literatura autenticamente

 feminina fazer a travessia pelo territrio masculino .
 Por isso , a voz

  feminina , mas muitas vezes a personagem principal ainda  masculina .

  o caso de Mmorias de Adriano , de M. Yocenar , por exemplo .

 Pouco a pouco , a escritura se torna autnoma : voz feminina , personagem

 feminina .
 Este  o caso de M. Duras e Florbela Espanca , que do voz ao

 que antes era silenciado .
 Memria e experincia pessoal .
 Sentimento e

 escolha rigorosa da palavra , para que seja eliminado o suprfluo , os

 exageros lacrimejantes , as lamentaes .
 Agora a escritora  sujeito

 coletivo , produzindo uma escritura que exprime a identidade feminina ,

 que deixa de ser o outro do masculino e passa a ser o ego .

 No Prlogo da edio brasileira da obra Woman's Mysteries ( Os

 mistrios da mulher ) , de M. Esther Harding , os escritores Jette e

 Lon Bonaventure comentam :

 " Sentimos logo que o presente livro foi escrito por uma mulher :

 ele  marcado pela maneira peculiar de a mulher sentir , pensar ,

 pressentir e tecer relacionamentos com aquilo que vive .
 Ela nos

 fala do fundo do seu prprio mistrio de ser mulher. " 8

 8 - Mary Esther Harding , Os mistrios da mulher antiga e contempornea :

 uma interpretao psicolgica do princpio feminino tal como 

 retratado nos mitos , na histria e nos sonhos .
 Trad .
 Maria E. S .

 Barbosa & Vilma H. Tanaka .
 So Paulo : Ed. Paulinas , 1985 , p. 12 .
 (

 Col .
 Eros e psique ) .

 O texto escrito "  uma das primeiras conquistas femininas "

 9 , na direo de sua autonomia poltica .
 Parece-me que desde os

 primeiros poemas de Safo , encontrados e publicados em fragmentos ,

 passando pelas correspondncias ( Cartas portuguesas , de Mariana

 Alcoforado , por exemplo ) at os romances , contos , ensaios , artigos ,

 enfim , toda a produo literria feminina se caracteriza por este

 supracitado " mistrio de ser mulher " .
 Durante sculos ( e ainda hoje !

 ) , a mulher  uma desconhecida para si mesma e uma estrangeira na

 sociedade de valores e leis masculinas .
 Mas , lembrando Mme de Stal ,

 " Sem as mulheres , a sociedade no pode ser nem agradvel nem

 picante ;

 e as mulheres carentes de esprito ou dessa graa de conversao ,

 que supe

 a mais distinta educao , estragam a sociedade , em vez de

 embelez-la. " 10

 As mulheres que escrevem atualmente escrevem tambm por todas aquelas

 que nos sculos anteriores e mesmo hoje em dia , em culturas mais

 restritivas , so silenciadas .
 A meu ver , a escrita feminina 

 justamente este livre expressar-se do universo feminino , paralelo ao

 masculino , sem imit-lo , mas tambm sem desconhec-lo .
 A realidade da

 produo literria do nosso sculo ope os contrrios , sem que a

 mulher precise adotar o estilo do elemento masculino dominador ,

 mantendo a sua natureza feminina .

 [ LINK ]

 [ INLINE ]

 [

 Saiba mais sobre mim ] [ Literatura de autoria feminina ]

 [

 Mitologia : Ulisses & Penlope ] [ A informtica na escola ]

 [

 Fale comigo ] [ Pgina inicial ] [ Centro de Estudos Portugueses " Florbela

 Espanca ]

