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 Aumentam os casos de suicdio em Macap

 16/07/04

 Juliana Coutinho

 De janeiro a julho deste ano o nmero de casos de suicdios j chega a 25 em

 todo o Estado , sendo que 16 aconteceram em Macap , trs em Santana e em Cutias ,

 Laranjal do Jari , Macacoari e Ferreira Gomes ( Paredo ) foram registrados um

 caso em cada municpio .
 Mais da metade do que no ano de 2003 , onde foram 46

 casos .

 Segundo o mais recente relatrio da Organizao Mundial de Sade ( OMS ) , no ano

 de 2000 mais de um milho de pessoas tiraram a prpria vida , ou seja , a cada 40

 segundos uma pessoa comete suicdio .
 No Brasil , dados do Ministrio da Sade

 estimam que o suicdio  a terceira causa de morte entre jovens de 15 a 29

 anos .

 No Amap , de acordo com as informaes do reprter Joo Cardoso Neto , o Bolero ,

 em 50 % dos casos as pessoas no deixam nenhum bilhete , nenhuma carta , 20 % se

 suicidam por problemas familiares , infidelidades amorosas , 20 % por causa do

 desemprego , pois almeja dar melhor condio  famlia , e 10 % so por motivos

 fteis , principalmente vingana ao brigarem com familiares .
 Dentre os casos

 registrados por ele , 23 homens e duas mulheres , sendo que 21 utilizaram como

 meio o enforcamento e trs armas de fogo .

 Por trs de um comportamento suicida h uma combinao de fatores biolgicos ,

 socioculturais , filosficos , religiosos e emocionais , principalmente a

 auto-estima baixa e a depresso , que culminam em uma reao exacerbada sobre si

 mesmo :

 - - A pessoa deseja morrer para escapar dos sofrimentos , por causa da

 desesperana .
 Voc se volta para si e no consegue mais ver soluo , ampliar

 sua percepo - - explica a psicloga Dayse Alexpulos .

 O desejo auto-destrutivo  definido sociologicamente pela fragilidade das

 funes sociais , do enfraquecimento institucional , por exemplo , a famlia , a

 escola e muitas outras instituies que no conseguem manter o lao social :

 - - As causas variam e uma questo muito freqente  a coisificao social , que

 est se vivendo .
 O homem , a vida humana torna-se desprezvel , viramos refm das

 coisas , exemplo claro  a informtica , onde se colocam todas as qualidades

 humanas na mquina , ou seja , so causas indutoras ao suicdio - - explica o

 socilogo Afonso Silva .

 Para ele , a soluo seria trabalhar dinmicas diferenciadas do ponto de vista

 produtivo e inserir uma cultura em que o homem possa refletir e resgatar os

 valores da vida .

 O suicdio  considerado um caso de sade pblica .
 No entanto , em Macap no

 existem polticas pblicas voltadas para este problema .
 A clnica de doenas

 mentais , localizada no Hospital de Especialidades , oferece atendimento 

 populao desde que eles sejam procurados .

 No municpio existe apenas uma instituio nacional que funciona como centro de

 socorro telefnico , atravs de voluntrios para dar apoio moral , prevenir

 contra o suicdio e valorizar a vida atravs da ateno .

 So atendidos 120 casos aproximadamente , que expressam estar passando por um

 momento de depresso , 76 % so homens e solteiros :

 - - Ns estamos com 52 voluntrios fazendo seis plantes por dia de quatro

 horas , quarenta e dois por semana - - comenta o voluntrio Jos Dias Faanha , do

 Centro de Valorizao  Vida ( CVV ) .

 O perodo que mais tem atendimento  de 23h s 3h da madrugada , atravs do

 telefone 223-4111 .

 O depoimento emocionado da me de uma sobrevivente

 M. C. P. , 17 anos , tentou suicdio no dia 28 de junho , ingeriu um tipo de

 raticida com refrigerante .
 Mesmo recebendo socorro imediato , esteve em coma

 durante uma semana e ficou com vrias seqelas .
 A me dela , N. C. P. , 55 anos ,

 conversou com a reportagem da Folha , muito emocionada , tentando explicar a

 atitude da filha .

 - - Minha filha sempre foi uma adolescente normal , equilibrada , nunca notei nada

 que me fizesse desconfiar que ela , por um motivo ftil , chegaria a esse

 extremo .
 Agora em junho , no dia 27 , um domingo , eu tinha muito trabalho para

 fazer e ela resolveu ir para a casa da irm , a Sheila , minha enteada , voltaria

 na segunda-feira , mas voltou naquela tarde .
 Quando chegou em casa eu notei que

 ela estava um pouco triste e , mesmo eu perguntando , no explicou nada , disse

 que estava tudo bem .
 Eu continuei com o meu trabalho e ela foi para o quarto

 ler .
 No dia seguinte minha enteada chegou em casa desesperada contando que a

 filha dela de 13 anos , a Carol , tinha sado de casa para viver com uma mulher e

 passou a falar um monte de bobagens .
 Minha filha , tentando acalmar as coisas ,

 disse que no dia anterior tinha conversado com a sobrinha e j sabia de tudo .
 A

 Sheila ficou revoltada , culpou a irm , disse que ela tinha obrigao de contar

 para ela , chegou a partir para a violncia e esbofeteou a irm .
 Minha enteada

 foi embora e minha filha ficou desesperada achando que a irm poderia fazer uma

 besteira , pois estava muito nervosa .

 M. passou o resto do dia chorando e se culpando , achava que poderia ter feito

 alguma coisa para ajudar a sobrinha .
  noite ela foi ao cinema e na volta ficou

 algum tempo conversando comigo , ela deve ter ido dormir por volta da meia-noite

 e meia , quando escutei a empregada gritar .
 Eu sa correndo e encontrei minha

 filha jogada no cho do quarto .
 No incio achei que ela estava tendo uma

 convulso , a peguei no colo , tentei carreg-la , foi quando a empregada notou o

 vidro do veneno e a garrafa de refrigerante .
 Carregamos M. para o carro e eu

 sa voando para o Hospital de Emergncia .
 Ela chegou a ficar uma semana em

 coma , quando recobrou a conscincia disse que tinha feito aquilo porque estava

 se sentindo culpada e com vergonha de no ter tentado ajudar a sobrinha e que

 no iria ter coragem de encarar o pai quando ele voltasse de viagem .
 Meu marido

 estava acompanhando o pai dele em uma viagem para tratamento de sade .

 Ela j voltou para casa .
 O que sobrou dessa experincia , alm da tristeza ,

 foram as seqelas .
 Agora ela no consegue controlar o fluxo de urina e fezes ,

 fica o tempo todo de fraldo , no fala direito .
  como se estivesse o tempo

 todo em outro mundo .
 A mdica me falou que com o tempo ela vai melhorar , eu

 tenho esperana que isso acontea .
 M.  minha nica filha , Deus vai me ajudar .

 Deixo aqui um alerta para os pais de adolescentes , prestem ateno em seus

 filhos , tudo para eles  mais intenso , qualquer coisa pode lev-los a achar que

 no vale a pena viver .

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 Concordo plenamente com o Dr. Afonso Silva , quando se refere  " coisificao

 social " que ns vivenciamos hoje .
 Os modismos , os supostos avanos e o

 materialismo exagerado fazem com que esqueamos coisas simples e essenciais 

 vida , como a fraternidade , o amor ao prximo , a amizade , e , at mesmo , os laos

 familiares , deixando nossos semelhantes completamente isolados no caos do mundo

 moderno , com tantas coisas exteriores  disposio , mas com um imenso vazio

 emocional , espiritual , e , conseqentemente , mental .
 Ser preciso passarmos pelo

 sofrimento da me da adolescente citada na reportagem , ou ainda por coisa pior ,

 para descobrirmos o quanto amamos nossos iguais ?

 Escrito por : Raimundo Cardoso | 19/07/04 | 9:45

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 Jos Faanha , um dos 52 voluntrios que servem atravs do CVV

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