 Aristteles

 A Vida e as Obras

 Este grande filsofo grego , filho de Nicmaco , mdico de Amintas , rei da

 Macednia , nasceu em Estagira , colnia grega da Trcia , no litoral setentrional

 do mar Egeu , em 384 a.C .
 Aos dezoito anos , em 367 , foi para Atenas e ingressou

 na academia platnica , onde ficou por vinte anos , at  morte do Mestre .
 Nesse

 perodo estudou tambm os filsofos pr-platnicos , que lhe foram teis na

 construo do seu grande sistema .

 Em 343 foi convidado pelo Rei Filipe para a corte de Macednia , como preceptor

 do Prncipe Alexandre , ento jovem de treze anos .
 A ficou trs anos , at 

 famosa expedio asitica , conseguindo um xito na sua misso

 educativo-poltica , que Plato no conseguiu , por certo , em Siracusa .
 De volta

 a Atenas , em 335 , treze anos depois da morte de Plato , Aristteles fundava ,

 perto do templo de Apolo Lcio , a sua escola .
 Da o nome de Liceu dado  sua

 escola , tambm chamada peripattica devido ao costume de dar lies , em amena

 palestra , passeando nos umbrosos caminhos do ginsio de Apolo .
 Esta escola

 seria a grande rival e a verdadeira herdeira da velha e gloriosa academia

 platnica .
 Morto Alexandre em 323 , desfez-se politicamente o seu grande imprio

 e despertaram-se em Atenas os desejos de independncia , estourando uma reao

 nacional , chefiada por Demstenes .
 Aristteles , malvisto pelos atenienses , foi

 acusado de atesmo .
 Preveniu ele a condenao , retirando-se voluntariamente

 para Eubia , Aristteles faleceu , aps enfermidade , no ano seguinte , no vero

 de 322 .
 Tinha pouco mais de 60 anos de idade .
 A respeito do carter de

 Aristteles , inteiramente recolhido na elaborao crtica do seu sistema

 filosfico , sem se deixar distrair por motivos prticos ou sentimentais , temos

 naturalmente muito menos a revelar do que em torno do carter de Plato , em

 que , ao contrrio , os motivos polticos , ticos , estticos e msticos tiveram

 grande influncia .
 Do diferente carter dos dois filsofos , dependem tambm as

 vicissitudes exteriores das duas vidas , mais uniforme e linear a de

 Aristteles , variada e romanesca a de Plato .
 Aristteles foi essencialmente um

 homem de cultura , de estudo , de pesquisas , de pensamento , que se foi isolando

 da vida prtica , social e poltica , para se dedicar  investigao cientfica .

 A atividade literria de Aristteles foi vasta e intensa , como a sua cultura e

 seu gnio universal .
 " Assimilou Aristteles escreve magistralmente Leonel

 Franca todos os conhecimentos anteriores e acrescentou-lhes o trabalho prprio ,

 fruto de muita observao e de profundas meditaes .
 Escreveu sobre todas as

 cincias , constituindo algumas desde os primeiros fundamentos , organizando

 outras em corpo coerente de doutrinas e sobre todas espalhando as luzes de sua

 admirvel inteligncia .
 No lhe faltou nenhum dos dotes e requisitos que

 constituem o verdadeiro filsofo : profundidade e firmeza de inteligncia ,

 agudeza de penetrao , vigor de raciocnio , poder admirvel de sntese ,

 faculdade de criao e inveno aliados a uma vasta erudio histrica e

 universalidade de conhecimentos cientficos .
 O grande estagirita explorou o

 mundo do pensamento em todas as suas direes .
 Pelo elenco dos principais

 escritos que dele ainda nos restam , poder-se- avaliar a sua prodigiosa

 atividade literria " .
 A primeira edio completa das obras de Aristteles  a

 de Andronico de Rodes pela metade do ltimo sculo a.C. substancialmente

 autntica , salvo uns apcrifos e umas interpolaes .
 Aqui classificamos as

 obras doutrinais de Aristteles do modo seguinte , tendo presente a edio de

 Andronico de Rodes .

 I .
 Escritos lgicos : cujo conjunto foi denominado rganon mais tarde , no por

 Aristteles .
 O nome , entretanto , corresponde muito bem  inteno do autor , que

 considerava a lgica instrumento da cincia .

 II .
 Escritos sobre a fsica : abrangendo a hodierna cosmologia e a antropologia ,

 e pertencentes  filosofia teortica , juntamente com a metafsica .

 III .
 Escritos metafsicos : a Metafsica famosa , em catorze livros .
  uma

 compilao feita depois da morte de Aristteles mediante seus apontamentos

 manuscritos , referentes  metafsica geral e  teologia .
 O nome de metafsica 

 devido ao lugar que ela ocupa na coleo de Andrnico , que a colocou depois da

 fsica .

 IV .
 Escritos morais e polticos : a tica a Nicmaco , em dez livros ,

 provavelmente publicada por Nicmaco , seu filho , ao qual  dedicada ; a tica a

 Eudemo , inacabada , refazimento da tica de Aristteles , devido a Eudemo ; a

 Grande tica , compndio das duas precedentes , em especial da segunda ; a

 Poltica , em oito livros , incompleta .

 V .
 Escritos retricos e poticos : a Retrica , em trs livros ; a Potica , em

 dois livros , que , no seu estado atual ,  apenas uma parte da obra de

 Aristteles .
 As obras de Aristteles as doutrinas que nos restam - manifestam

 um grande rigor cientfico , sem enfeites mticos ou poticos , exposio e

 expresso breve e aguda , clara e ordenada , perfeio maravilhosa da

 terminologia filosfica , de que foi ele o criador .

 O Pensamento : A Gnosiologia

 Segundo Aristteles , a filosofia  essencialmente teortica : deve decifrar o

 enigma do universo , em face do qual a atitude inicial do esprito  o assombro

 do mistrio .
 O seu problema fundamental  o problema do ser , no o problema da

 vida .
 O objeto prprio da filosofia , em que est a soluo do seu problema , so

 as essncias imutveis e a razo ltima das coisas , isto  , o universal e o

 necessrio , as formas e suas relaes .
 Entretanto , as formas so imanentes na

 experincia , nos indivduos , de que constituem a essncia .
 A filosofia

 aristotlica  , portanto , conceptual como a de Plato mas parte da experincia ;

  dedutiva , mas o ponto de partida da deduo  tirado - mediante o intelecto

 da experincia .
 A filosofia , pois , segundo Aristteles , dividir-se-ia em

 teortica , prtica e potica , abrangendo , destarte , todo o saber humano ,

 racional .
 A teortica , por sua vez , divide-se em fsica , matemtica e filosofia

 primeira ( metafsica e teologia ) ; a filosofia prtica divide-se em tica e

 poltica ; a potica em esttica e tcnica .
 Aristteles  o criador da lgica ,

 como cincia especial , sobre a base socrtico-platnica ;  denominada por ele

 analtica e representa a metodologia cientfica .
 Trata Aristteles os problemas

 lgicos e gnosiolgicos no conjunto daqueles escritos que tomaram mais tarde o

 nome de rganon .
 Limitar-nos-emos mais especialmente aos problemas gerais da

 lgica de Aristteles , porque a est a sua gnosiologia .
 Foi dito que , em

 geral , a cincia , a filosofia - conforme Aristteles , bem como segundo Plato -

 tem como objeto o universal e o necessrio ; pois no pode haver cincia em

 torno do individual e do contingente , conhecidos sensivelmente .
 Sob o ponto de

 vista metafsico , o objeto da cincia aristotlica  a forma , como idia era o

 objeto da cincia platnica .
 A cincia platnica e aristotlica so , portanto ,

 ambas objetivas , realistas : tudo que se pode aprender precede a sensao e 

 independente dela .
 No sentido estrito , a filosofia aristotlica  deduo do

 particular pelo universal , explicao do condicionado mediante a condio ,

 porquanto o primeiro elemento depende do segundo .
 Tambm aqui se segue a ordem

 da realidade , onde o fenmeno particular depende da lei universal e o efeito da

 causa .
 Objeto essencial da lgica aristotlica  precisamente este processo de

 derivao ideal , que corresponde a uma derivao real .
 A lgica aristotlica ,

 portanto , bem como a platnica ,  essencialmente dedutiva , demonstrativa ,

 apodctica .
 O seu processo caracterstico , clssico ,  o silogismo .
 Os

 elementos primeiros , os princpios supremos , as verdades evidentes , consoante

 Plato , so fruto de uma viso imediata , intuio intelectual , em relao com a

 sua doutrina do contato imediato da alma com as idias - reminiscncia .
 Segundo

 Aristteles , entretanto , de cujo sistema  banida toda forma de inatismo ,

 tambm os elementos primeiros do conhecimento - conceito e juzos - devem ser ,

 de um modo e de outro , tirados da experincia , da representao sensvel , cuja

 verdade imediata ele defende , porquanto os sentidos por si nunca nos enganam .
 O

 erro comea de uma falsa elaborao dos dados dos sentidos : a sensao , como o

 conceito ,  sempre verdadeira .
 Por certo , metafisicamente , ontologicamente , o

 universal , o necessrio , o inteligvel ,  anterior ao particular , ao

 contigente , ao sensvel : mas , gnosiologicamente , psicologicamente existe

 primeiro o particular , o contigente , o sensvel , que constituem precisamente o

 objeto prprio do nosso conhecimento sensvel , que  o nosso primeiro

 conhecimento .
 Assim sendo , compreende-se que Aristteles , ao lado e em

 conseqncia da doutrina de deduo , seja constrangido a elaborar , na lgica ,

 uma doutrina da induo .
 Por certo , ela no est efetivamente acabada , mas

 pode-se integrar logicamente segundo o esprito profundo da sua filosofia .

 Quanto aos elementos primeiros do conhecimento racional , a saber , os conceitos ,

 a coisa parece simples : a induo nada mais  que a abstrao do conceito , do

 inteligvel , da representao sensvel , isto  , a " desindividualizao " do

 universal do particular , em que o universal  imanente .
 A formao do conceito

  , a posteriori , tirada da experincia .
 Quanto ao juzo , entretanto , em que

 unicamente temos ou no temos a verdade , e que  o elemento constitutivo da

 cincia , a coisa parece mais complicada .
 Como  que se formam os princpios da

 demonstrao , os juzos imediatamente evidentes , donde temos a cincia ?

 Aristteles reconhece que  impossvel uma induo completa , isto  , uma

 resenha de todos os casos os fenmenos particulares para poder tirar com

 certeza absoluta leis universais abrangendo todas as essncias .
 Ento s resta

 possvel uma induo incompleta , mas certssima , no sentido de que os elementos

 do juzo os conceitos so tirados da experincia , a posteriori , seu nexo ,

 porm ,  a priori , analtico , colhido imediatamente pelo intelecto humano

 mediante a sua evidncia , necessidade objetiva .

 Filosofia de Aristteles

 Partindo como Plato do mesmo problema acerca do valor objetivo dos conceitos ,

 mas abandonando a soluo do mestre , Aristteles constri um sistema

 inteiramente original .
 Os caracteres desta grande sntese so :

 1 .
 Observao fiel da natureza - Plato , idealista , rejeitara a experincia

 como fonte de conhecimento certo .
 Aristteles , mais positivo , toma sempre o

 fato como ponto de partida de suas teorias , buscando na realidade um apoio

 slido s suas mais elevadas especulaes metafsicas .

 2 .
 Rigor no mtodo - Depois de estudas as leis do pensamento , o processo

 dedutivo e indutivo aplica-os , com rara habilidade , em todas as suas obras ,

 substituindo  linguagem imaginosa e figurada de Plato , em estilo lapidar e

 conciso e criando uma terminologia filosfica de preciso admirvel .
 Pode

 considerar-se como o autor da metodologia e tecnologia cientficas .
 Geralmente ,

 no estudo de uma questo , Aristteles procede por partes : a ) comea a

 definir-lhe o objeto ; b ) passa a enumerar-lhes as solues histricas ; c )

 prope depois as dvidas ; d ) indica , em seguida , a prpria soluo ; e ) refuta ,

 por ltimo , as sentenas contrrias .

 3 .
 Unidade do conjunto - Sua vasta obra filosfica constitui um verdadeiro

 sistema , uma verdadeira sntese .
 Todas as partes se compem , se correspondem ,

 se confirmam .

 A Teologia

 Objeto prprio da teologia  o primeiro motor imvel , ato puro , o pensamento do

 pensamento , isto  , Deus , a quem Aristteles chega atravs de uma slida

 demonstrao , baseada sobre a imediata experincia , indiscutvel , realidade do

 vir-a-ser , da passagem da potncia ao ato .
 Este vir-a-ser , passagem da potncia

 ao ato , requer finalmente um no-vir-a-ser , motor imvel , um motor j em ato ,

 um ato puro enfim , pois , de outra forma teria que ser movido por sua vez .
 A

 necessidade deste primeiro motor imvel no  absolutamente excluda pela

 eternidade do vir-a-ser , do movimento , do mundo .
 Com efeito , mesmo admitindo

 que o mundo seja eterno , isto  , que no tem princpio e fim no tempo , enquanto

  vir-a-ser , passagem da potncia ao ato , fica eternamente inexplicvel ,

 contraditrio , sem um primeiro motor imvel , origem extra-temporal , causa

 absoluta , razo metafsica de todo devir .
 Deus , o real puro ,  aquilo que move

 sem ser movido ; a matria , o possvel puro ,  aquilo que  movido , sem se mover

 a si mesmo .

 Da anlise do conceito de Deus , concebido como primeiro motor imvel ,

 conquistado atravs do precedente raciocnio , Aristteles , pode deduzir

 logicamente a natureza essencial de Deus , concebido , antes de tudo , como ato

 puro , e , consequentemente , como pensamento de si mesmo .
 Deus  unicamente

 pensamento , atividade teortica , no dizer de Aristteles , enquanto qualquer

 outra atividade teria fim extrnseco , incompatvel com o ser perfeito ,

 auto-suficiente .
 Se o agir , o querer tm objeto diverso do sujeito agente e

 " querente " , Deus no pode agir e querer , mas unicamente conhecer e pensar ,

 conhecer a si prprio e pensar em si mesmo .
 Deus  , portanto , pensamento de

 pensamento , pensamento de si , que  pensamento puro .
 E nesta autocontemplao

 imutvel e ativa , est a beatitude divina .

 Se Deus  mera atividade teortica , tendo como objeto unicamente a prpria

 perfeio , no conhece o mundo imperfeito , e menos ainda opera sobre ele .
 Deus

 no atua sobre o mundo , voltando-se para ele , com o pensamento e a vontade ; mas

 unicamente como o fim ltimo , atraente , isto  , como causa final , e , por

 conseqncia , e s assim , como causa eficiente e formal ( exemplar ) .
 De Deus

 depende a ordem , a vida , a racionalidade do mundo ; ele , porm , no  criador ,

 nem providncia do mundo .
 Em Aristteles o pensamento grego conquista

 logicamente a transcendncia de Deus ; mas , no mesmo tempo , permanece o

 dualismo , que vem anular aquele mesmo Absoluto a que logicamente chegara , para

 dar uma explicao filosfica da relatividade do mundo pondo ao seu lado esta

 realidade independente dele .

 A Moral

 Aristteles trata da moral em trs ticas , de que se falou quando das obras

 dele .
 Consoante sua doutrina metafsica fundamental , todo ser tende

 necessariamente  realizao da sua natureza ,  atualizao plena da sua forma :

 e nisto est o seu fim , o seu bem , a sua felicidade , e , por conseqncia , a sua

 lei .
 Visto ser a razo a essncia caracterstica do homem , realiza ele a sua

 natureza vivendo racionalmente e senso disto consciente .
 E assim consegue ele a

 felicidade e a virtude , isto  , consegue a felicidade mediante a virtude , que 

 precisamente uma atividade conforme  razo , isto  , uma atividade que

 pressupe o conhecimento racional .
 Logo , o fim do homem  a felicidade , a que 

 necessria  virtude , e a esta  necessria a razo .
 A caracterstica

 fundamental da moral aristotlica  , portanto , o racionalismo , visto ser a

 virtude ao consciente segundo a razo , que exige o conhecimento absoluto ,

 metafsico , da natureza e do universo , natureza segundo a qual e na qual o

 homem deve operar .

 As virtudes ticas , morais , no so mera atividade racional , como as virtudes

 intelectuais , teorticas ; mas implicam , por natureza , um elemento sentimental ,

 afetivo , passional , que deve ser governado pela razo , e no pode , todavia , ser

 completamente resolvido na razo .
 A razo aristotlica governa , domina as

 paixes , no as aniquila e destri , como queria o ascetismo platnico .
 A

 virtude tica no  , pois , razo pura , mas uma aplicao da razo ; no 

 unicamente cincia , mas uma ao com cincia .

 Uma doutrina aristotlica a respeito da virtude doutrina que teve muita

 doutrina prtica , popular , embora se apresente especulativamente assaz

 discutvel  aquela pela qual a virtude  precisamente concebida como um justo

 meio entre dois extremos , isto  , entre duas paixes opostas : porquanto o

 sentido poderia esmagar a razo ou no lhe dar foras suficientes .

 Naturalmente , este justo meio , na ao de um homem , no  abstrato , igual para

 todos e sempre ; mas concreto , relativo a cada qual , e varivel conforme as

 circunstncias , as diversas paixes predominantes dos vrios indivduos .

 Pelo que diz respeito  virtude , tem , ao contrrio , certamente , maior valor uma

 outra doutrina aristotlica : precisamente a da virtude concebida como hbito

 racional .
 Se a virtude  , fundamentalmente , uma atividade segundo a razo , mais

 precisamente  ela um hbito segundo a razo , um costume moral , uma disposio

 constante , reta , da vontade , isto  , a virtude no  inata , como no  inata a

 cincia ; mas adquiri-se mediante a ao , a prtica , o exerccio e , uma vez

 adquirida , estabiliza-se , mecaniza-se ; torna-se quase uma segunda natureza e ,

 logo , torna-se de fcil execuo - como o vcio .

 Como j foi mencionado , Aristteles distingue duas categorias fundamentais de

 virtudes : as ticas , que constituem propriamente o objeto da moral , e as

 dianoticas , que a transcendem .
  uma distino e uma hierarquia , que tm uma

 importncia essencial em relao a toda a filosofia e especialmente  moral .
 As

 virtudes intelectuais , teorticas , contemplativas , so superiores s virtudes

 ticas , prticas , ativas .
 Noutras palavras , Aristteles sustenta o primado do

 conhecimento , do intelecto , da filosofia , sobre a ao , a vontade , a poltica .

 A Poltica

 A poltica aristotlica  essencialmente unida  moral , porque o fim ltimo do

 estado  a virtude , isto  , a formao moral dos cidados e o conjunto dos

 meios necessrios para isso .
 O estado  um organismo moral , condio e

 complemento da atividade moral individual , e fundamento primeiro da suprema

 atividade contemplativa .
 A poltica , contudo ,  distinta da moral , porquanto

 esta tem como objetivo o indivduo , aquela a coletividade .
 A tica  a doutrina

 moral individual , a poltica  a doutrina moral social .
 Desta cincia trata

 Aristteles precisamente na Poltica , de que acima se falou .

 O estado , ento ,  superior ao indivduo , porquanto a coletividade  superior

 ao indivduo , o bem comum superior ao bem particular .
 Unicamente no estado

 efetua-se a satisfao de todas as necessidades , pois o homem , sendo

 naturalmente animal social , poltico , no pode realizar a sua perfeio sem a

 sociedade do estado .

 Visto que o estado se compe de uma comunidade de famlias , assim como estas se

 compem de muitos indivduos , antes de tratar propriamente do estado ser

 mister falar da famlia , que precede cronologicamente o estado , como as partes

 precedem o todo .
 Segundo Aristteles , a famlia compe-se de quatro elementos :

 os filhos , a mulher , os bens , os escravos ; alm , naturalmente , do chefe a que

 pertence a direo da famlia .
 Deve ele guiar os filhos e as mulheres , em razo

 da imperfeio destes .
 Deve fazer frutificar seus bens , porquanto a famlia ,

 alm de um fim educativo , tem tambm um fim econmico .
 E , como ao estado , -lhe

 essencial a propriedade , pois os homens tm necessidades materiais .
 No entanto ,

 para que a propriedade seja produtora , so necessrios instrumentos inanimados

 e animados ; estes ltimos seriam os escravos .

 Aristteles no nega a natureza humana ao escravo ; mas constata que na

 sociedade so necessrios tambm os trabalhos materiais , que exigem indivduos

 particulares , a que fica assim tirada fatalmente a possibilidade de

 providenciar a cultura da alma , visto ser necessrio , para tanto , tempo e

 liberdade , bem como aptas qualidades espirituais , excludas pelas prprias

 caractersticas qualidades materiais de tais indivduos .
 Da a escravido .

 Vejamos , agora , o estado em particular .
 O estado surge , pelo fato de ser o

 homem um animal naturalmente social , poltico .
 O estado prov , inicialmente , a

 satisfao daquelas necessidades materiais , negativas e positivas , defesa e

 segurana , conservao e engrandecimento , de outro modo irrealizveis .
 Mas o

 seu fim essencial  espiritual , isto  , deve promover a virtude e ,

 conseqentemente , a felicidade dos sditos mediante a cincia .

 Compreende-se , ento , como seja tarefa essencial do estado a educao , que deve

 desenvolver harmnica e hierarquicamente todas as faculdades : antes de tudo as

 espirituais , intelectuais e , subordinadamente , as materiais , fsicas .
 O fim da

 educao  formar homens mediante as artes liberais , importantssimas a poesia

 e a msica , e no mquinas , mediante um treinamento profissional .
 Eis porque

 Aristteles , como Plato , condena o estado que , ao invs de se preocupar com

 uma pacfica educao cientfica e moral , visa a conquista e a guerra .
 E

 critica , dessa forma , a educao militar de Esparta , que faz da guerra a tarefa

 precpua do estado , e pe a conquista acima da virtude , enquanto a guerra , como

 o trabalho , so apenas meios para a paz e o lazer sapiente .

 No obstante a sua concepo tica do estado , Aristteles , diversamente de

 Plato , salva o direito privado , a propriedade particular e a famlia .
 O

 comunismo como resoluo total dos indivduos e dos valores no estado 

 fantstico e irrealizvel .
 O estado no  uma unidade substancial , e sim uma

 sntese de indivduos substancialmente distintos .
 Se se quiser a unidade

 absoluta , ser mister reduzir o estado  famlia e a famlia ao indivduo ; s

 este ltimo possui aquela unidade substancial que falta aos dois precedentes .

 Reconhece Aristteles a diviso platnica das castas , e , precisamente , duas

 classes reconhece : a dos homens livres , possuidores , isto  , a dos cidados e a

 dos escravos , dos trabalhadores , sem direitos polticos .

 Quanto  forma exterior do estado , Aristteles distingue trs principais : a

 monarquia , que  o governo de um s , cujo carter e valor esto na unidade , e

 cuja degenerao  a tirania ; a aristocracia , que  o governo de poucos , cujo

 carter e valor esto na qualidade , e cuja degenerao  a oligarquia ; a

 democracia , que  o governo de muitos , cujo carter e valor esto na liberdade ,

 e cuja degenerao  a demagogia .
 As preferncias de Aristteles vo para uma

 forma de repblica democrtico-intelectual , a forma de governo clssica da

 Grcia , particularmente de Atenas .
 No entanto , com o seu profundo realismo ,

 reconhece Aristteles que a melhor forma de governo no  abstrata , e sim

 concreta : deve ser relativa , acomodada s situaes histricas , s

 circunstncias de um determinado povo .
 De qualquer maneira a condio

 indispensvel para uma boa constituio ,  que o fim da atividade estatal deve

 ser o bem comum e no a vantagem de quem governa despoticamente .

 A Religio e a Arte

 Com Aristteles afirma-se o tesmo do ato puro .
 No entanto , este Deus , pelo seu

 efetivo isolamento do mundo , que ele no conhece , no cria , no governa , no

 est em condies de se tornar objeto de religio , mais do que as

 transcendentes idias platnicas .
 E no fica nenhum outro objeto religioso .

 Tambm Aristteles , como Plato , se exclui filosoficamente o antropomorfismo ,

 no exclui uma espcie de politesmo , e admite , ao lado do Ato Puro e a ele

 subordinado , os deuses astrais , isto  , admite que os corpos celestes so

 animados por espritos racionais .
 Entretanto , esses seres divinos no parecem e

 no podem ter funo religiosa e sem fsica .

 No obstante esta concepo filosfica da divindade , Aristteles admite a

 religio positiva do povo , at sem correo alguma .
 Explica e justifica a

 religio positiva , tradicional , mtica , como obra poltica para moralizar o

 povo , e como fruto da tendncia humana para as representaes antropomrficas ;

 e no diz que ela teria um fundamento racional na verdade filosfica da

 existncia da divindade , a que o homem se teria facilmente elevado atravs do

 espetculo da ordem celeste .

 Aristteles como Plato considera a arte como imitao , de conformidade com o

 fundamental realismo grego .
 No , porm , imitao de uma imitao , como  o

 fenmeno , o sensvel , platnicos ; e sim imitao direta da prpria idia , do

 inteligvel imanente no sensvel , imitao da forma imanente na matria .
 Na

 arte , esse inteligvel , universal  encarnado , concretizado num sensvel , num

 particular e , destarte , tornando intuitivo , graas ao artista .
 Por isso ,

 Aristteles considera a arte a poesia de Homero que tem por contedo o

 universal , o imutvel , ainda que encarnado fantasticamente num particular , como

 superior  histria e mais filosfica do que a histria de Herdoto que tem

 como objeto o particular , o mutvel , seja embora real .
 O objeto da arte no  o

 que aconteceu uma vez como  o caso da histria , mas o que por natureza deve ,

 necessria e universalmente , acontecer .
 Deste seu contedo inteligvel ,

 universal , depende a eficcia espiritual pedaggica , purificadora da arte .

 Se bem que a arte seja imitao da realidade no seu elemento essencial , a

 forma , o inteligvel , este inteligvel recebe como que uma nova vida atravs da

 fantasia criadora do artista , isto precisamente porque o inteligvel , o

 universal , deve ser encarnado , concretizado pelo artista num sensvel , num

 particular .
 As leis da obra de arte sero , portanto , alm de imitao do

 universal verossimilhana e necessidade coerncia interior dos elementos da

 representao artstica , ntimo sentimento do contedo , evidncia e vivacidade

 de expresso .
 A arte  , pois , produo mediante a imitao ; e a diferena entre

 as vrias artes  estabelecida com base no objeto ou no instrumento de tal

 imitao .

 A Metafsica

 A metafsica aristotlica  " a cincia do ser como ser , ou dos princpios e das

 causas do ser e de seus atributos essenciais " .
 Ela abrange ainda o ser imvel e

 incorpreo , princpio dos movimentos e das formas do mundo , bem como o mundo

 mutvel e material , mas em seus aspectos universais e necessrios .
 Exporemos

 portanto , antes de tudo , as questes gerais da metafsica , para depois

 chegarmos quela que foi chamada , mais tarde , metafsica especial ; tem esta

 como objeto o mundo que vem-a-ser - natureza e homem - e culmina no que no

 pode vir-a-ser , isto  , Deus .
 Podem-se reduzir fundamentalmente a quatro as

 questes gerais da metafsica aristotlica : potncia e ato , matria e forma ,

 particular e universal , movido e motor .
 A primeira e a ltima abraam todo o

 ser , a segunda e a terceira todo o ser em que est presente a matria .

 I .
 A doutrina da potncia e do ato  fundamental na metafsica aristotlica :

 potncia significa possibilidade , capacidade de ser , no-ser atual ; e ato

 significa realidade , perfeio , ser efetivo .
 Todo ser , que no seja o Ser

 perfeitssimo ,  portanto uma sntese - um snolo - de potncia e de ato , em

 diversas propores , conforme o grau de perfeio , de realidade dos vrios

 seres .
 Um ser desenvolve-se , aperfeioa-se , passando da potncia ao ato ; esta

 passagem da potncia ao ato  atualizao de uma possibilidade , de uma

 potencialidade anterior .
 Esta doutrina fundamental da potncia e do ato 

 aplicada - e desenvolvida - por Aristteles especialmente quando da doutrina da

 matria e da forma , que representam a potncia e o ato no mundo , na natureza em

 que vivemos .
 Desta doutrina da matria e da forma , vamos logo falar .

 II. Aristteles no nega o vir-a-ser de Herclito , nem o ser de Parmnides , mas

 une-os em uma sntese conclusiva , j iniciada pelos ltimos pr-socrticos e

 grandemente aperfeioada por Demcrito e Plato .
 Segundo Aristteles , a

 mudana , que  intuitiva , pressupe uma realidade imutvel , que  de duas

 espcies .
 Um substrato comum , elemento imutvel da mudana , em que a mudana se

 realiza ; e as determinaes que se realizam neste substrato , a essncia , a

 natureza que ele assume .
 O primeiro elemento  chamado matria ( prima ) , o

 segundo forma ( substancial ) .
 O primeiro  potncia , possibilidade de assumir

 vrias formas , imperfeio ; o segundo  atualidade - realizadora ,

 especificadora da matria - , perfeio .
 A sntese - o sinolo - da matria e da

 forma constitui a substncia , e esta , por sua vez ,  o substrato imutvel , em

 que se sucedem os acidentes , as qualidades acidentais .
 A mudana , portanto ,

 consiste ou na sucesso de vrias formas na mesma essncia , forma concretizada

 da matria , que constitui precisamente a substncia .

 A matria sem forma , a pura matria , chamada matria-prima ,  um mero possvel ,

 no existe por si ,  um absolutamente interminado , em que a forma introduz as

 determinaes .
 A matria aristotlica , porm , no  o puro no-ser de Plato ,

 mero princpio de decadncia , pois ela  tambm condio indispensvel para

 concretizar a forma , ingrediente necessrio para a existncia da realidade

 material , causa concomitante de todos os seres reais .

 Ento no existe , propriamente , a forma sem a matria , ainda que a forma seja

 princpio de atuao e determinao da prpria matria .
 Com respeito  matria ,

 a forma  , portanto , princpio de ordem e finalidade , racional , inteligvel .

 Diversamente da idia platnica , a forma aristotlica no  separada da

 matria , e sim imanente e operante nela .
 Ao contrrio , as formas aristotlicas

 so universais , imutveis , eternas , como as idias platnicas .

 Os elementos constitutivos da realidade so , portanto , a forma e a matria .
 A

 realidade , porm ,  composta de indivduos , substncias , que so uma sntese -

 um snolo - de matria e forma .
 Por conseqncia , estes dois princpios no so

 suficientes para explicar o surgir dos indivduos e das substncias que no

 podem ser atuados - bem como a matria no pode ser atuada - a no ser por um

 outro indivduo , isto  , por uma substncia em ato .
 Da a necessidade de um

 terceiro princpio , a causa eficiente , para poder explicar a realidade efetiva

 das coisas .
 A causa eficiente , por sua vez , deve operar para um fim , que 

 precisamente a sntese da forma e da matria , produzindo esta sntese o

 indivduo .
 Da uma quarta causa , a causa final , que dirige a causa eficiente

 para a atualizao da matria mediante a forma .

 III .
 Mediante a doutrina da matria e da forma , Aristteles explica o

 indivduo , a substncia fsica , a nica realidade efetiva no mundo , que 

 precisamente sntese - snolo - de matria e de forma .
 A essncia - igual em

 todos os indivduos de uma mesma espcie - deriva da forma ; a individualidade ,

 pela qual toda substncia  original e se diferencia de todas as demais ,

 depende da matria .
 O indivduo  , portanto , potncia realizada , matria

 enformada , universal particularizado .
 Mediante esta doutrina  explicado o

 problema do universal e do particular , que tanto atormenta Plato ; Aristteles

 faz o primeiro - a idia - imanente no segundo - a matria , depois de ter

 eficazmente criticado o dualismo platnico , que fazia os dois elementos

 transcendentes e exteriores um ao outro .

 IV .
 Da relao entre a potncia e o ato , entre a matria e a forma , surge o

 movimento , a mudana , o vir-a-ser , a que  submetido tudo que tem matria ,

 potncia .
 A mudana  , portanto , a realizao do possvel .
 Esta realizao do

 possvel , porm , pode ser levada a efeito unicamente por um ser que j est em

 ato , que possui j o que a coisa movida deve vir-a-ser , visto ser impossvel

 que o menos produza o mais , o imperfeito o perfeito , a potncia o ato , mas

 vice-versa .
 Mesmo que um ser se mova a si mesmo , aquilo que move deve ser

 diverso daquilo que  movido , deve ser composto de um motor e de uma coisa

 movida .
 Por exemplo , a alma  que move o corpo .
 O motor pode ser unicamente

 ato , forma ; a coisa movida - enquanto tal - pode ser unicamente potncia ,

 matria .
 Eis a grande doutrina aristotlica do motor e da coisa movida ,

 doutrina que culmina no motor primeiro , absolutamente imvel , ato puro , isto  ,

 Deus .

 A Psicologia

 Objeto geral da psicologia aristotlica  o mundo animado , isto  , vivente , que

 tem por princpio a alma e se distingue essencialmente do mundo inorgnico ,

 pois , o ser vivo diversamente do ser inorgnico possui internamente o princpio

 da sua atividade , que  precisamente a alma , forma do corpo .
 A caracterstica

 essencial e diferencial da vida e da planta , que tem por princpio a alma

 vegetativa ,  a nutrio e a reproduo .
 A caracterstica da vida animal , que

 tem por princpio a alma sensitiva ,  precisamente a sensibilidade e a

 locomoo .
 Enfim , a caracterstica da vida do homem , que tem por princpio a

 alma racional ,  o pensamento .
 Todas estas trs almas so objeto da psicologia

 aristotlica .
 Aqui nos limitamos  psicologia racional , que tem por objeto

 especfico o homem , visto que a alma racional cumpre no homem tambm as funes

 da vida sensitiva e vegetativa ; e , em geral , o princpio superior cumpre as

 funes do princpio inferior .
 De sorte que , segundo Aristteles diversamente

 de Plato todo ser vivo tem uma s alma , ainda que haja nele funes diversas

 faculdades diversas porquanto se do atos diversos .
 E assim , conforme

 Aristteles , diversamente de Plato , o corpo humano no  obstculo , mas

 instrumento da alma racional , que  a forma do corpo .

 O homem  uma unidade substancial de alma e de corpo , em que a primeira cumpre

 as funes de forma em relao  matria , que  constituda pelo segundo .
 O que

 caracteriza a alma humana  a racionalidade , a inteligncia , o pensamento , pelo

 que ela  esprito .
 Mas a alma humana desempenha tambm as funes da alma

 sensitiva e vegetativa , sendo superior a estas .
 Assim , a alma humana , sendo

 embora uma e nica , tem vrias faculdades , funes , porquanto se manifesta

 efetivamente com atos diversos .
 As faculdades fundamentais do esprito humano

 so duas : teortica e prtica , cognoscitiva e operativa , contemplativa e ativa .

 Cada uma destas , pois , se desdobra em dois graus , sensitivo e intelectivo , se

 se tiver presente que o homem  um animal racional , quer dizer , no  um

 esprito puro , mas um esprito que anima um corpo animal .

 O conhecimento sensvel , a sensao , pressupes um fato fsico , a saber , a ao

 do objeto sensvel sobre o rgo que sente , imediata ou  distncia , atravs do

 movimento de um meio .
 Mas o fato fsico transforma-se num fato psquico , isto

  , na sensao propriamente dita , em virtude da especfica faculdade e

 atividade sensitivas da alma .
 O sentido recebe as qualidades materiais sem a

 matria delas , como a cera recebe a impresso do selo sem a sua matria .
 A

 sensao embora limitada  objetiva , sempre verdadeira com respeito ao prprio

 objeto ; a falsidade , ou a possibilidade da falsidade , comea com a sntese , com

 o juzo .
 O sensvel prprio  percebido por um s sentido , isto  , as sensaes

 especficas so percebidas , respectivamente , pelos vrios sentidos ; o sensvel

 comum , as qualidades gerais das coisas tamanho , figura , repouso , movimento ,

 etc. so percebidas por mais sentidos .
 O senso comum  uma faculdade interna ,

 tendo a funo de coordenar , unificar as vrias sensaes isoladas , que a ele

 confluem , e se tornam , por isso , representaes , percepes .

 Acima do conhecimento sensvel est o conhecimento inteligvel , especificamente

 diverso do primeiro .
 Aristteles aceita a essencial distino platnica entre

 sensao e pensamento , ainda que rejeite o inatismo platnico , contrapondo-lhe

 a concepo do intelecto como tabula rasa , sem idias inatas .
 Objeto do sentido

  o particular , o contingente , o mutvel , o material .
 Objeto do intelecto  o

 universal , o necessrio , o imutvel , o imaterial , as essncias , as formas das

 coisas e os princpios primeiros do ser , o ser absoluto .
 Por conseqncia , a

 alma humana , conhecendo o imaterial , deve ser espiritual e , quanto a tal , deve

 ser imperecvel .

 Analogamente s atividades teorticas , duas so as atividades prticas da alma :

 apetite e vontade .
 O apetite  a tendncia guiada pelo conhecimento sensvel , e

  prprio da alma animal .
 Esse apetite  concebido precisamente como sendo um

 movimento finalista , dependente do sentimento , que , por sua vez depende do

 conhecimento sensvel .
 A vontade  o impulso , o apetite guiado pela razo , e 

 prpria da alma racional .
 Como se v , segundo Aristteles , a atividade

 fundamental da alma  teortica , cognoscitiva , e dessa depende a prtica ,

 ativa , no grau sensvel bem como no grau inteligvel .

 A Cosmologia

 Uma questo geral da fsica aristotlica , como filosofia da natureza ,  a

 anlise dos vrios tipos de movimento , mudana , que j sabemos ser passagem da

 potncia ao ato , realizao de uma possibilidade .
 Aristteles distingue quatro

 espcies de movimentos :

 1 .
 Movimento substancial - mudana de forma , nascimento e morte ;

 2 .
 Movimento qualitativo - mudana de propriedade ;

 3 .
 Movimento quantitativo - acrescimento e diminuio ;

 4 .
 Movimento espacial - mudana de lugar , condicionando todas as demais

 espcies de mudana .

 Outra especial e importantssima questo da fsica aristotlica  a concernente

 ao espao e ao tempo , em torno dos quais fez ele investigaes profundas .
 O

 espao  definido como sendo o limite do corpo , isto  , o limite imvel do

 corpo " circundante " com respeito ao corpo circundado .
 O tempo  definido como

 sendo o nmero - isto  , a medida - do movimento segundo a razo , o aspecto , do

 " antes " e do " depois " .
 Admitidas as precedentes concepes de espao e de tempo

 - como sendo relaes de substncias , de fenmenos -  evidente que fora do

 mundo no h espao nem tempo : espao e tempo vazios so impensveis .

 Uma terceira questo fundamental da filosofia natural de Aristteles  a

 concernente ao teleologismo - finalismo - por ele propugnado com base na

 finalidade , que ele descortina em a natureza .
 " A natureza faz , enquanto

 possvel , sempre o que  mais belo " .
 Fim de todo devir  o desenvolvimento da

 potncia ao ato , a realizao da forma na matria .

 Quanto s cincias qumicas , fsicas e especialmente astronmicas , as doutrinas

 aristotlicas tm apenas um valor histrico , e so logicamente separveis da

 sua filosofia , que tem um valor teortico .
 Especialmente clebre  a sua

 doutrina astronmica geocntrica , que prestar a estrutura fsica  Divina

 Comdia de Dante Alighieri .

 Juzo sobre Aristteles

  difcil aquilatar em sua justa medida o valor de Aristteles .
 A influncia

 intelectual por ele at hoje exercida sobre o pensamento humano e  qual se no

 pode comparar a de nenhum outro pensador d-nos , porm , uma idia da

 envergadura de seu gnio excepcional .
 Criador da lgica , autor do primeiro

 tratado de psicologia cientfica , primeiro escritor da histria da filosofia ,

 patriarca das cincias naturais , metafsico , moralista , poltico , ele  o

 verdadeiro fundador da cincia moderna e " ainda hoje est presente com sua

 linguagem cientfica no somente s nossas cogitaes , seno tambm  expresso

 dos sentimentos e das idias na vida comum e habitual " .

 Nem por isso podemos deixar de apontar as lacunas do seu sistema .
 Sua moral ,

 sem obrigao nem sano ,  defeituosa e mais gravemente defeituosa ainda que a

 teodicia , sobretudo na parte que trata das relaes de Deus com o mundo .
 O

 dualismo primitivo e irredutvel entre Deus , ato puro , e a matria , princpio

 potencial ,  , na prpria teoria aristotlica , uma verdadeira contradio e

 deixa subsistir , como enigma insolvel e inexplicvel , a existncia dos seres

 fora de Deus .

 Vista Retrospectiva

 Com Scrates entre a filosofia em seu caminho definitivo .
 O problema do objeto

 e da possibilidade da cincia  posto em seus verdadeiros termos e resolvido ,

 nas suas linhas gerais , pela doutrina do conceito .
 Plato d um passo alm ,

 procurando determinar a relao entre o conceito e a realidade , mas encalha ,

 dum lado , nas dificuldades insolveis de um realismo exagerado ; de outro , nas

 extravagncias dum idealismo extremo .
 Aristteles , com o seu esprito positivo

 e observador , retoma o mesmo problema no p em que o pusera Plato e d-lhe ,

 pela teoria da abstrao e da inteligncia ativa , uma soluo satisfatria e

 definitiva nos grandes lineamentos .
 Em torno desta questo fundamental , que

 entende com a metafsica , a psicologia e a lgica , se vo desenvolvendo

 harmoniosamente as outras partes da filosofia at constiturem em Aristteles

 esta grandiosa sntese do saber universal , o mais precioso legado da

 civilizao grega que declinava  civilizao ocidental que surgia .

