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 GRAVIDEZ NA ADOLESCNCIA : UM OUTRO ENFOQUE

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 Sylvia Cavasin ( 1 )

 Silvani Arruda ( 2 )

 Uma das grandes preocupaes deste nosso mundo ps-moderno  com a

 gravidez na adolescncia .

 Sempre vista como um problema a ser solucionado , uma " epidemia " que

 deve ser detida , um mal a ser extirpado , a incidncia da gravidez na

 adolescncia vem mantendo-se e at crescendo nestes ltimos anos .

 Jornais , revistas , televiso , informes de pesquisas no passam um ano

 sem dar um destaque especial a esse tema e demostrar , com fatos e

 nmeros , o aumento de meninas grvidas em nosso pas .

 Freqentemente , apontam os riscos fsicos de uma gravidez precoce para

 a adolescente , os riscos psquicos dessa experincia , os prejuzos

 sociais para a jovem me , o afastamento do grupo de amigos , o

 adiantamento do projeto escolar etc .
 Raramente divulgam experincia de

 maternidade e paternidade precoce , quando a vinda do beb foi a

 paternidade precoce , quando a vinda do beb foi um fato desejado

 pelos ( as ) adolescentes e incorporado pela famlia .

 Com maior freqncia vemos a insero da gravidez na adolescncia como

 problema social no Brasil e em outros pases , como nos EUA , que nas

 dcada de 60 e 70 divulgaram alguns textos mdicos que davam 

 gravidez prematura o carter de epidemia , como a malria e a catapora

 ( revista ISTO  n. 1301 - set / 94 , pg .70 ) .

 Mesmo os pais e as escolas mais preocupadas em informar e discutir com

 os jovens os temas ligados  sexualidade espantam-se quando uma aluna

 ou a filha aparece , um dia , grvida .
 E se perguntam onde foi que

 erraram .

 Em nossa opinio , alm da necessidade de se discutir a sexualidade na

 escola e de se garantir a jovens de ambos os sexos o direito e o

 acesso a mtodos anticoncepcionais , ainda  preciso ir mais longe ;

 entender que muitas meninas engravidam porque o desejam , porque

 alimentam um sonho de que estaro se realizando sendo mes , porque

 acreditam que  isso que o namorado quer , porque querem ser vistas

 como adultas etc .
 Os motivos que levam uma menina a querer engravidar

 podem ser muitos , mas no podemos , em hiptese alguma , desprezar as

 mensagens que so passadas pela nossa cultura .

 Em certa ocasio , estvamos trabalhando questes reprodutivas com

 pr-adolescentes de 10 e 11 anos e uma menina fez a seguinte

 declarao : " A coisa que mais quero na vida  ser me , sentir o filho

 se desenvolvendo na minha barriga e depois saindo de mim .
 Eu jamais

 adotaria uma criana , porque filho pra mim tem que sair da barriga " .

 Por esta afirmao  possvel perceber que , apesar de todas as

 mudanas ocorridas nos ltimos anos , ainda faz parte da socializao

 de qualquer menina que seu grande valor est numa maternidade futura .

 Mesmo nos dias de hoje , o papel de me no se v ameaado ; ao

 contrrio ,  amplamente valorizado e desejado .
 E a maioria das pessoas

 sabe que as informaes interiorizadas e legitimadas na infncia so

 as mais fortes , devido ao alto grau de emoo que existe na relao

 entre pais e filhos .

 Um outro exemplo : a ECOS - Estudos e Comunicao em Sexualidade e

 Reproduo Humana , durante seis meses , num programa de capacitao de

 educadores para o trabalho de preveno das DST / Aids ( DST doena

 sexualmente transmissvel / Aids ) nas escolas , presenciou a angstia

 de uma das professoras , que no passava uma reunio sem interromper a

 discusso e , chorando , contava que mais uma vez tinha ficado

 menstruada e que , apesar do tratamento carssimo que estava fazendo ,

 ainda no tinha conseguido engravidar .
 Adoo ?
 " Jamais , quero sentir o

 filho dentro de mim , para me sentir completa " , dizia .
 Como se pode

 notar , o discurso  o mesmo da menina de 11 anos .

  evidente que uma gravidez na adolescncia vai limitar a vida de uma

 menina , trazer conflitos com o pai da criana e com as famlias dos

 dois .
 Instaurado o conflito , como  que ficam as mensagens que ela

 recebeu durante toda sua vida ( que um filho sempre  uma bno ,  o

 fruto do amor de duas pessoas etc. ) ?
 E as histrias de amor que ela

 sempre adorou ler e que afirmavam que , quando uma mulher engravida , o

 mundo se enche de jbilo ?

 Essas histrias de amor , veiculadas h anos em revista , no raro

 terminam em casamento ou em uma unio e toda dificuldade de

 relacionamento entre os protagonistas da histria vira cinzas ante uma

 gravidez , dando o gancho para um final feliz .
 S que , na vida real , o

 conto de fadas fica distante , a menina vai ser acusada de ter

 planejado essa gravidez para arrumar um marido , vai ser culpalizada

 por sua irresponsabilidade e por ter destrudo seu projeto de vida e o

 de sua famlia .

 Exageros  parte , no deixa de ser preocupante o aumento de gravidezes

 na adolescncia , especialmente em meninas de 15 anos e menos .
 Se

 observarmos os nmeros divulgados recentemente pelo IBGE ( Estatstica

 do Registro Civil / 1994 ) , vamos notar que 343.335 adolescentes de 15 a

 19 anos tiveram filhos em 1994 .
 Comparando esse nmero com a

 quantidade de nascimentos em 1976 , houve um crescimento de 60 % , sendo

 que a populao em geral cresceu apenas 42,5 % no mesmo perodo .

 Notamos que o aumento de mes na faixa de 15 a 19 anos foi maior do

 que o da populao em geral , pois as mulheres em idade frtil no

 Brasil baixaram a taxa de fecundidade nos ltimos anos .
 Quanto a isto ,

 poderamos at ensaiar um reflexo , de que a manuteno dessa taxa na

 adolescncia seria um indicador de resistncia , em conformidade com

 outras atitudes da adolescncia .

 Os dados referentes a mes com menos de 15 anos apontam para uma

 situao alarmante .
 A reportagem " Mames - criana " , publicada na

 revista Veja , ilustra essa realidade : " Em 1994 , 11.457 adolescentes de

 menos de 15 anos deram a luz no Brasil , cinco vezes maior do que as

 2.335 que tiveram filhos com essa idade em 1976 , h 18 anos " ( revista

 Veja , Edio 1490 , n. 48.29/11/95 , pg. 108 ) .

 Dentro dos ndices gerais de crescimento do nmero de mes em todo o

 pas , esse nmero ( 11.457 ) assume pouco significado , do ponto de vista

 da estatstica .
 Porm , enquanto fenmeno em si , evento que aumentou

 quase cinco vezes em 18 anos , ele  um sinal de alerta , que pede

 investigao e propostas adequadas de preveno .

 Cabe destacar , neste sentido , que a sexualidade  um fenmeno da

 existncia humana e , portanto , parte tambm da vida dos ( as )

 adolescentes .
 Assim , a sexualidade e a reproduo na adolescncia

 devem ser compreendidas na sua inter-relao com os aspectos

 educativos , culturais , psicolgicos , sociais , jurdicos e polticos .

 Do ponto de vista especfico dos ( as ) adolescentes nos preocupam ,

 sobremaneira , a desinformao ou aqueles casos em que os dois jovens

 se dizem estarrecidos com o fato de a gravidez ter ocorrido , pois ,

 afinal " tivemos uma nica relao sexual !!!
 " So inquietantes , tambm ,

 posturas relacionadas a assimetria de gnero , quando vemos a menina

 ser responsabilizada ou ela mesma se responsabilizar totalmente pela

 gravidez , porque no se preveniu ou , ainda , quando o menino acredita e

 afirma que nada tem a ver com a histria , porque " quem deve se

 prevenir  a mulher " ou " como  que vou saber se o filho  meu ?
 "

 Em 1991/1992 , a ECOS realizou a pesquisa Aborto na Adolescncia :

 pesquisa bibliogrfica e anlise da literatura especializada e da

 Imprensa , financiada pelo Icaf - International Clearinghouse

 Adolescent Fertility .

 Essa pesquisa surgiu da necessidade de realizar e divulgar um

 levantamento bibliogrfico sobre o tema " aborto na adolescncia " , mas ,

 principalmente , de aprofundar questes relacionadas a esse tema ,

 procurando conhecer esta realidade do ponto de vista dos profissionais

 de sade que trabalham com adolescncia de modo geral , na Grande So

 Paulo , e com adolescentes que abortaram , particularmente .
 Essa

 pesquisa gerou , alm do relatrio tcnico citado na parte relativa s

 leituras complementares ( mais no final deste caderno ) , uma srie de

 artigos sobre aborto e gravidez na adolescncia , divulgados em

 seminrios e na Imprensa em geral .

 A anlise do discurso de alguns desses profissionais sugeriu que a

 adolescente que engravida nos anos iniciais da adolescncia tem uma

 postura substancialmente diferente daquela que engravida ao final da

 adolescncia .
 Na opinio de um profissional entrevistado , " uma

 adolescente de 14 , 15 anos que tem uma ou duas relaes na vida e se

 surpreende com uma gravidez sente um grande pavor , uma falta de

 entendimento do que est acontecendo e isso vai marc-la para o resto

 da vida , qualquer que seja a soluo proposta " .

 Por outro lado , outros relatos apontam que nem sempre a gravidez tem

 sido um peso para as adolescentes , principalmente para aquelas que se

 situam na faixa etria entre 17 e 19 anos .
 Observou-se que muitas

 vezes a gravidez est coerente com um planejamento que inclui , tambm

 o abandono temporrio da vida escolar e de outros possveis projetos .

 Em um dos servios de sade foi observado que " contrariando o senso

 comum , grande parte das adolescente atendidas queriam engravidar ,

 porque estavam com um companheiro mais constante ; algumas j tinham

 sado da escola , j estavam morando junto com um companheiro , embora

 nem todas casadas .
 Outras queriam sair de casa , ter sua

 independncia ...
 "

 Tais observaes , entre outras , permitem um olhar diversificado sobre

 a questo da gravidez na adolescncia , principalmente constando a

 existncia de atitudes novas no universo adolescente , que contradizem

 o senso comum .

 Essas tendncias nos levam a pensar no mais ser suficiente falar ,

 simplesmente , em " gravidez indesejada na adolescncia " .

 Desmontando-se esse conceito de gravidez na adolescncia - gravidez

 indesejada , adquirimos liberdade para compreender a questo dentro das

 diferentes nuances que ela proporciona : 1 ) existem diferenas

 significativas entre a maternidade nos primeiros anos da adolescncia

 e no final dessa etapa ; 2 ) pode haver dissonncia entre a

 interpretao da gravidez na adolescncia , feita pelos profissionais

 de sade e pela prpria famlia , daquela que  feita pela adolescente ;

 3 )  necessrio investir em uma realidade que aponte para as

 diferenas de significados em termos de maternidade , nas diferentes

 faixas etrias , levando em conta os fatos que motivaram a gravidez .

 A abordagem desse tema dever levar em conta as questes culturais , o

 padro de sade sexual e reprodutiva e os indicadores socioeconmicos

 relacionados a classe , renda , escolaridade , tipo de lazer e tipo de

 relao estabelecida pelo ( a ) adolescente .

 [ INLINE ] COMO TRABALHAR NA PREVENO

 Existe uma frmula , uma perfeita mistura de mensagem e servios que

 ajuda os jovens a tomarem decises seguras acerca de sua sexualidade e

 sade ?

 Provavelmente , no .

 Os programas para adolescente abordando sexualidade , gravidez ,

 preveno das doenas sexualmente transmissveis e Aids devem , antes

 de mais nada , levar em conta os aspectos sociais , culturais e

 econmicos do pas em que se inserem .
 Alm disso ,  preciso ouvir ,

 aprimorar a escuta , valorizar os sentimentos e preocupaes do jovens

 para conhecer o mundo dos ( as ) adolescentes : as presses e os

 constrangimentos podem nos dar pistas das dificuldades que eles ( as )

 enfrentam na hora de optar por usar mtodo anticoncepcional e dos

 entraves para a negociao do mtodos entre parceiros .

  importante ficar atento ( a ) a fatores como :

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 Relao de gnero : os jovens tm a expectativa de seduzir as meninas e elas

 ainda esperam passivamente por esta seduo .
 Esta diferena entre os gneros

 pode dificultar a discusso dos ( as ) adolescentes sobre sexo , tpico em que se

 inclui a contracepo .

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 Medo de rejeio : a presso por aceitao pode desencorajar os ( as )

 adolescentes a se protegerem .
 Algumas meninas acham que perdero o

 namorado se fizerem alguma exigncia quanto a contracepo ou 

 preveno das DST / Aids .
 Por sua vez , pode passar pela cabea dos

 meninos que uma discusso franca sobre sexo , contracepo e preveno

 das DST / Aids poder acabar com as chances do relacionamento sexual

 acontecer .

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 Negao : as meninas freqentemente tm medo de admitir que tm vida

 sexual ativa .
 Neste sentido , elas desconhecem o prprio corpo e negam

 a necessidade de tomar medidas anticonceptivas .

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 Acesso a servios : em muitos pases no existem servios de

 atendimento em sade especficos para adolescentes , nem distribuio

 gratuita de preservativos .
 Vale lembrar que o custo dos contraceptivos

 como o diafragma , o preservativo e a plula  proibitivo para grande

 parte desta populao .

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 Atendimento : a qualidade da ateno que  dada aos ( as ) jovens vai

 repercutir em decises futuras sobre sua sexualidade e comportamento

 reprodutivo .
 O servio deve oferecer um atendimento no apenas

 clnico , mas tambm educativo .

 Deve-se insistir na capacitao dos profissionais das reas de sade e

 educao , para que se sintam preparados a estabelecer uma comunicao

 interpessoal baseada na comunicao horizontal de escuta e de respeito

 aos valores e atitudes dos ( as ) jovens .
  necessrio , tambm , garantir

 o acesso s informaes de todos os mtodos contraceptivos , para que

 os ( as ) adolescentes possam conhecer , discutir , escolher , enfim ,

 negociar o melhor mtodo para ambos .

  importante ajud-los a assumirem juntos e publicamente a gravidez e

 a estarem cientes da importncia dos cuidados que essa situao exige :

 pr-natal adequado , alimentao de qualidade , trocas afetivas ,

 informaes sobre o parto e possibilidades de contracepo no futuro .

 Nos casos em que os ( as ) adolescentes optarem por serem pais ou mes

 precocemente - contrariando as nossas expectativas de adultos , pais e

 profissionais , que imaginamos para nossos filhos a organizao de suas

 vidas por etapas ; escolarizao , profissionalizao , trabalho ,

 casamento , filhos - temos como tarefa apoi-los afetivamente em suas

 decises , orientando-os sobre seus deveres e responsabilidade , na

 manuteno e construo da nova famlia .

 Temos percebido que , muitas vezes , quando uma menina engravida , depois

 do choque inicial , sua famlia acaba por acolher a filha e ,

 futuramente , o beb .
 Entretanto , depois da criana j ter nascido ,

 inicia-se um processo de cobrana e de controle sobre a adolescente :

 " Onde voc vai ?
 Ser que voc no aprendeu nada com o que aconteceu ?
 "

 ...
 Esta postura da famlia , longe de garantir que a jovem evitar uma

 nova gravidez , s serve para diminuir a sua auto-estima , aumentar sua

 necessidade de carinho e afeto e impedi-la de negociar com o parceiro

 o uso de preservativo .

 Cabe lembrar que , antes e depois do nascimento do beb , nada  mais

 necessrio e gratificante do que a solidariedade .

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 ( 1 ) Sylvia Cavasin - Sociloga e pesquisadora da

 ECOS - Estudos e Comunicao em Sexualidade e Reproduo Humana .

 ( 2 ) Silvani Arruda - Psicloga e especialista em

 capacitao de Recursos Humanos na ECOS , So Paulo - SP

