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 Nelly Novaes Coelho

 Fernando Pesssoa , a Dialtica de ser em Poesia

 " Chove ouro bao , mas no no l-fora ...
 E em mim ...
 Sou a Hora ,

 E a Hora  de assombros e toda ela escombros dela ...
 "

 ( " Hora Absurda " 1913 )

 Com o genial poder de sntese que singulariza sua linguagem potica , Fernando

 Pessoa condensa nesses dois versos a essencial renovao que , naquele momento ,

 comeava a ser gerada na Poesia Portuguesa ( e na europia em geral ...
 ) , mas

 que , ainda informe , no podia ser percebida pelo olhar comum .
 Raros poetas

 tero manifestado essa certeza , essa lucidez de Pessoa , no s com relao 

 essencialidade de sua prpria criao , mas principalmente ,  tarefa fecundadora

 que ela iria cumprir no processo renovador da poesia de seus contemporneos .

 " Hora Absurda " , longo poema de raiz simbolista ( da fase inicial de Pessoa )

 expressa , em seu extraordinrio jogo de imagens e sensaes , a dialtica

 fundamental Poeta X Poesia , que serve de leito  totalidade da produo

 potica fernandina .

 Poeta que viveu no primeiro momento da crise que , em nosso sculo , iria dividir

 as guas entre o Tradicional e a Modernidade , Fernando Pessoa muito cedo revela

 uma aguda conscincia de que o novo processo de Criao j havia comeado (

 " Chove ouro bao " ) , mas estava ainda limitado aos prprios criadores , no

 tendo ainda eclodido para todos ( " mas no no l-fora ...
  em mim .
 Sou a Hora. "

 ).L fora no panorama geral da nao , reinava a paralisao das formas de vida

 mas no enigmtico campo da criao o novo j nascia .

 Difcil dizer , de incio , at que ponto o " eu " implcito nessa fala potica

 seria o do prprio poeta .
 Ou seria o " eu " do Poeta-ser-privilegiado , aquele que

 d origem a Poesia e atravs de cuja voz a humanidade expressa sua evoluo em

 marcha .
 Ou seria , talvez , o " eu " da prpria Poesia com quem o poeta parece

 confundir-se muitas vezes .
 De qualquer maneira , a lucidez de Fernando Pessoa ,

 ao perceber a exata dimenso do que comeava a acontecer em si mesmo e no mundo

  sua volta , nos espanta .

 Hoje ,  distancia  fcil vermos que , naquele instante , Criao e Destruio se

 processavam intrincadamente ligadas .
 Mas ver por inteiro tal fenmeno no

 prprio ato do acontecer , exige uma percepo fora do comum , como era a do

 genial poeta .
 Note-se que " Hora Absurda " foi escrita em 1913 .
 Portanto , bem no

 incio do processo renovador que nosso sculo vem conhecendo .
 E j nesse

 momento Fernando Pessoa diz : " E a Hora  de assombros e toda ela escombros

 dela ...
 "  assim que ele expressa o espanto diante da criao que emerge da

 prpria runa das formas tradicionais .
 Mostrando , inclusive , que Destruio e

 Criao so fenmenos polares que evoluem simultaneamente e no h como

 dissoci-los , sob pena de falsearmos a " verdade " de cada um .

 O poema todo ( de uma beleza estranha , difcil de explicar ...
 )  um iluminar

 sucessivo das mil faces desse fazer potico que j se sabia chegado , embora 

 sua volta s reinasse a estagnao aparente .
 " 0 teu silncio  uma nau com

 todas as velas pandas ...
 / ...
 / Minha idia de ti  um cadver que o mar traz 

 praia ...
 e entanto / Tu s a tela irreal em que erro em cr a minha arte ...
 "

 A metaforizao  clara .
 Nela transparece a dupla imagem que a Poesia ( ou a

 Vida ?
 ) Portuguesa revelava ao poeta .
 Sob a paralisao vital-criadora daquele

 decisivo momento cultural , o poeta j entrevia o " novo " que avanava .
 E nesse

 eu-que-fala , ouvimos a voz do poeta da modernidade , no a do eu biogrfico e

 confessional como pode parecer a uma primeira leitura .
 A certeza disso nos 

 dada por todo o diversificado caudal potico fernandino , onde  sempre o

 " fingidor " que fala e no o " eu pessoal " , o eu da atitude romntica do " corao

 ao p da boca " , que Fernando Pessoa sempre repudiou .

 Manifestando-se como um " eu " ortnimo , heternimo , semi-heternimo ou de poeta

 dramtico , esse eu-que-fala na poesia de Fernando Pessoa , obedece a uma das

 imposies basilares da " modernidade " , a despersonalizao do poeta .

 A certeza dessa despersonalizao  reforada , quando descobrimos que por trs

 daquele " tu " com quem o poeta dialoga em " Hora Absurda " , est a prpria Poesia

 ( e no uma mulher , como ocorre a qualquer um , numa primeira leitura ) .
 Pela

 natureza e relacionamento das imagens ou metforas , sentimos que ali est a

 Poesia Portuguesa , identificada com o prprio fenmeno potico , a Poesia cujo

 " silncio " ( naquele momento de estagnao vital ...
 ) j era visto pelo poeta

 como " uma nau com todas as velas pandas ...
 " , algo prestes a eclodir como um

 navio pronto para largar do porto , e dar incio  viagem .
 No h dvida de que

 " Hora Absurda "  um longo e essencial dilogo do Poeta com a Poesia , dilogo

 que se faz sobre ela mesma , revelando em Fernando Pessoa a preocupao visceral

 que estar sempre presente em seu esprito , durante os trinta e tantos anos em

 que viveu criando .

 Ao conhecemos , no todo , a poesia fernandina , essa identificao essencial ,

 Poeta / Poesia , se torna evidente corno sendo a fora dialtica que a dinamiza .

 Em fragmento solto ( encontrado em meio aos milhares de inditos que Fernando

 Pessoa guardou em sua , hoje famosa , arca ) , lemos :

 " Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa :

 Navegar  preciso , viver no  preciso. "

 Quero para mim o esprito desta frase , transformada a forma para a casar com o

 que eu sou : Viver no  necessrio ; o que  necessrio  criar .

 No conto gozar a minha vida ; nem em goz-la penso .
 S quero torn-la grande ,

 ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a ( minha alma ) a lenha desse

 fogo .
 S quero torn-la de toda a humanidade ; ainda que para isso tenha de a

 perder como minha " .

 Nesse breve fragmento , temos uma significativa sntese da personalidade potica

 do autor e da intencionalidade maior que o moveu para construo de sua obra .

 Nessas " palavras de prtico " se inscreve , pelo menos uma das poucas verdades

 interias e incontroversas que podem ser atribudas a Fernando Pessoa ou  sua

 obra singular .

 " Viver no  necessrio ; o que  necessrio  criar. " No h dvida de que essa

 frase , j hoje to conhecida pelos estudiosos do Poeta , pode ser tomada como

 uma das chaves mais adequadas para se abrir caminho s possveis e diferentes

 leituras dessa multiforme produo , cujas peculiaridades intrnsecas a tornam

 nica , dentro do panorama da poesia ocidental deste sculo .

 Ao percorrermos a copiosa produo , em poesia e prosa , publicada at o momento

 ( segundo consta , h ainda milhares de escritos que permanecem inditos no

 acervo deixado pelo Poeta ) , torna-se evidente que , acima de tudo , Fernando

 Pessoa foi um ser-em-poesia .
 Foi algum que , no plano criador , viveu

 dialeticamente todas , ou quase todas , as possibilidades de Ser e de

 Estar-no-mundo , que os tempos e as diferentes culturas tem oferecido como opo

 aos homens .
 Desde a objetividade do olhar e a naturalidade com que os sentidos

 do homem e o mundo exterior se harmonizavam nos gregos e nos clssicos , at o

 mergulho nos insondveis meandros do ocultismo e da metafsica ; passando pelo

 vertiginoso viver destes tempos , impulsionados pela Tecnologia e pela

 Velocidade da Mquina ; ou ainda mergulhando nas guas primordiais do Mito ,

 Fernando Pessoa , com sua invulgar capacidade de despersonalizao ( a de ser

 mltiplo sem deixar de ser um ) , viveu intensamente todas as gamas do

 conhecimento e das sensaes que se lhe ofereciam  inteligncia e 

 experincia sensvel .

 E quando dizemos " viveu " , estamos nos referindo quase exclusivamente ao plano

 da criao ou da produo intelectual .
 Como todo homem de gnio ou de mente

 superior , Fernando Pessoa criou muito mais do que " viveu " ( no sentido comum

 que se d ao termo ) .
 Da a " verdade " existente naquelas " palavras de prtico " .

 Tudo o que j se escreveu sobre sua vida e obra ( bem como o que ele prprio

 disse de si ...
 ) deixa bem claro o contraste entre o prosaismo ou a

 semi-obscuridade de sua vida concreta , exterior , e a surpreendente

 diversificao de interesses , a altura e originalidade da produo caudalosa

 que o poeta deixou por herana aos seus contemporneos .
 Mas , o que significa

 realmente criar poesia ?
 No caso especfico de Fernando Pessoa ( e dos grandes

 criadores ...
 ) , corresponde a criar pela palavra potica modos de ver , ouvir ,

 sentir , pensar ...
 pois eram essas , basicamente , as atitudes a serem

 redescobertas pela Arte em mutao .

 Em ltima analise  isso que a Poesia ( ou a Arte em geral ) nos d , para alm

 do prazer ou da emoo de sua expresso peculiar : pode revelar ao homem os

 seres e coisas que o rodeiam , o espao que o situa e o tempo que o

 transforma ...
 o tambm o homem ao prprio homem .

 A respeito de Fernando Pessoa , poderamos dizer que mais do " viver para criar " ,

 ele criou para viver , tal foi o grau de entrega de seu ser  tarefa potica .
 A

 nosso ver ,  essa opo de vida ( assumida conscientemente pelo poeta ) , que

 precisa estar presente no esprito daquele que se disponha a conhecer esse

 multifacetado universo potico .
 Sem um mnimo de " sintonia " com as inquietudes

 que dinamizara a criao fernandina , o eventual leitor se arrisca a " passar ao

 largo " de sua essencial beleza e significao .
 Poesia e Filosofia nela se

 renem , em um excepcional fenmeno potico que tem , em suas razes , a crise do

 Conhecimento que eclode em nosso sculo , desde os primeiros anos .

 O CONHECIMENTO EM CRISE

 E aqui tocamos em um dos " nervos " centrais desse intrigante organismo

 potico-filosfico que  a obra fernandina : os modos de conhecer .
 Poeta do

 sculo XX , tal qual seus companheiros de gerao ( os " grandes " Ezra Pound ,

 T.S.Eliot , Valery , cubistas , futuristas , surrealistas ...
 ) e em diferentes

 graus , Fernando Pessoa foi um obsessivo investigador do Conhecimento .
 Ou

 melhor , das novas possibilidades ou impossibilidades de um conhecimento

 objetivo do homem / palavra / mundo / Deus , em um universo em acelerada

 transformao .

 Pode-se dizer que  esse o fulcro filosfico que unifica ou identifica , na

 origem , seus diversos heternimos ( Alberto Caeiro , Ricardo Reis e lvaro de

 Campos ) ou os semi-heternimos ( Bernardo Soares , Baro de Teive , Vicente

 Guedes , Jos Pacheco , Antnio Mora ...
 ) .
 Por diferentes que se mostrem entre

 si , igualam-se todos por um impulso de raiz : a nsia de conhecer .

  natural que em face de um mundo cujos valores , definies , limites e certezas

 ruam irremediavelmente , a arte se voltasse para as possibilidades de um novo

 conhecer .
 Nesse sentido , duas diretrizes se abrem para as buscas : a que

 investiga os prprios meios de expresso ( a que faz da prpria Arte o objeto

 da obra ) e a que investiga o " eu " atravs do qual a Arte se realiza ( o

 sujeito do conhecimento esttico ) .

 Fernando Pessoa est entre os que foram atrados por esta segunda diretriz .
 Sua

 multifacetada obra  um dos frutos mais significativos da crise do conhecimento

 acessvel ao eu , que se manifesta no incio do sculo , nos rastros da revoluo

 kantiana e do avano da cincia .
 Dentre as vrias revolues que o nosso sculo

 tem conhecido no campo do Conhecimento , sem dvida , a que mais afetou a criao

 de Fernando Pessoa foi a interrogao basilar : como posso eu conhecer o Real ?
 E

 o alm-Real ?

 Fernando Pessoa " No sou eu quem descrevo .
 Eu sou a tela

 E oculta mo colora algum em mim. "

 " Emissrio de um rei desconhecido

 Eu cumpro informes instrues de alm

 E as bruscas frases que aos meus lbios vm

 Soam-me a um outro e anmalo sentido ...
 "

 Alberto Caeiro " O mistrio das coisas , onde est ele ?

 Onde est ele que no aparece

 Pelo menos a mostrar-nos que  mistrio ?

 / ...
 /

 Porque o nico sentido oculto das coisas

  elas no terem sentido oculto nenhum. "

 lvaro de Campos " Tema de cantos meus , sangue nas veias da

 minha inteligncia ,

 Vosso seja o lao que me une ao exterior

 pela esttica ,

 Fornecei-me metforas , imagens , literatura ,

 Porque em real verdade , a srio , literalmente

 Minhas sensaes so um barco de quilha pr

 ar ,

 Minha imaginao uma ncora meio

 submersa ,

 Minha nsia um remo partido ,

 E a tessitura dos meus nervos uma rede a secar

 na praia. "

 Ricardo Reis " Sbio  o que se contenta com o espetculo do

 mundo ,

 E ao beber nem recorda

 Que j bebeu na vida ,

 Para quem tudo  novo

 E imarcescvel sempre. "

 A esto as vozes de Fernando Pessoa ele mesmo , Alberto Caeiro , lvaro de

 Campos e de Ricardo Reis , diferentes nas respostas vislumbradas , mas iguais no

 empenho de " conhecer " , tal como surgem em contraponto nesse fascinante mundo

 fernandino , que  um dos grandes desafios lanados  Crtica pela poesia

 contempornea .
 E desafio , no porque seu discurso potico se emaranhe em

 processos de composio que acarretem a obscuridade da fala .
 Muito pelo

 contrrio , com exceo de certa poesia experimentalista inicial , tudo  direto

 e ntido em seu dizer .
 Fiel ao postulado de que a " obra de arte ,

 fundamentalmente , consiste numa interpretao objetivada duma impresso

 subjetiva " , Fernando Pessoa repudia as abstraes .

 Fcil  verificar , mesmo por uma primeira leitura , que no  o processo de

 dizer em si o que o preocupa basicamente , mas sim o que dizer .
 Da que o

 experimentalismo formal s o tenha atrado na medida em que expressava o modo

 de ver de determinado sujeito .
 Assim , por sua preocupao com a nitidez da

 palavra potica , tratou sempre de maneira absolutamente objetiva a " coisa " a

 ser expressa , mesmo as mais obscuras ou incertas  apreenso lgica ( como

 acontece em sua poesia esotrica ) .
 Da a facilidade com que se l e se

 " entende " a quase totalidade de seus poemas .

 O desafio que sua poesia representa , para o leitor interessado , est na

 genialidade com que o retira da viso estvel do mundo ( como  , em geral , a

 viso do cotidiano rotineiro ) , para lev-lo a perceber , com inquietao , uma

 existncia-outra , ainda desconhecida , e que se pressente abissal e decisiva .

 Lida em conjunto e em confronto , sua produo potica contraria , de imediato , a

 nitidez de enunciado que lhe  peculiar , pois seus poemas se abrem em leque (

 ou em labirinto ?
 ) , se diferenciando entre si , no apenas pela dico potica

 que os individualiza , mas porque cada uma delas enuncia uma maneira distinta de

 sentir e conhecer o mundo .
  como se " corporificando " em distintas

 personalidades os diferentes e conflitantes modos de sentir / conhecer o mundo e

 a vida , Fernando Pessoa tivesse conseguido " neutralizar " os desequilbrios e

 angstias que , fatalmente , apareceriam se uma s personalidade ( Fernando

 Pessoa ele-mesmo ) vivenciasse tais conflitos .
 A multiplicidade de cosmovises

  , pois , o que de imediato avulta na produo potica fernandina .

 E essa aparente diversidade de raiz que se tem colocado para a crtica como um

 dos problemas iniciais dessa poesia , pois sabe-se ,  saciedade , que o que

 define , singulariza e d o valor definitivo  obra de um grande escritor ( ou

 do grande artista em geral )  a unidade , a coerncia de sua

 conscincia-de-mundo ...
 Sendo assim , como poderemos compreender essa

 " diversidade " de problemtica em um gnio como Fernando Pessoa ?
 Onde estaria a

 sua " unidade " ?

 Foi esse o ponto de partida da maioria dos estudos que se tm elaborado sobre a

 sua poesia , desde a obra pioneira de Jacinto do Prado Coelho ( " Diversidade e

 Unidade em Fernando Pessoa - 1950 " ) que chega , afinal , a demonstrar que a

 " unidade essencial implcita na diversidade das obras ortnimas e heternimas "

 est na " inquietao metafsica de Pessoa , no modo angustiado como viveu o

 problema do conhecimento , logo , os problemas da apreenso do eu e da

 sinceridade profunda. "

 Nestes trinta anos que se passaram desde a primeira publicao desse estudo

 basilar para o conhecimento de Pessoa , muitas outras esclarecedoras e

 perspicazes analises tm iluminado os mais diferentes campos do universo

 fernandino .
 Um dos mais recentes e inteligentes , Pessoa Revisitado de Eduardo

 Loureno , leva mais fundo a anlise para provar magistralmente no apenas a

 " unidade " da poesia fernandina , mas a totalidade que abarca os aparentes

 fragmentos heternimos .
 E o problema central apontado continua a ser o do

 conhecimento .
 No fosse ser esse o grande problema do nosso sculo , para o

 pensamento reflexivo , para as artes e ...
 para a vida .

 J foi sobejamente analisado e provado que um dos ndices bsicos da

 Modernidade  a conscincia de que o " eu " pessoal , emprico ( disciplinado pelo

 mundo dos conceitos consagrados e das relaes sociais ) era o grande obstculo

 entre o poeta e o verdadeiro conhecimento do mundo e das coisas ( exatamente ao

 contrrio do que exigia o romntico ) .
 Nessa ordem de idias , o " eu " do artista

 passa a ser visto ( ou desejado ...
 ) como um fulcro de despersonalizao , que

 devia servir de fundamento para uma nova apreenso de mundo e conseqentemente

 a uma nova linguagem .

 Vista pelo prisma dessa modernidade , a heteronmia criada por Fernando Pessoa

 no se apresenta , pois , como um fenmeno isolado ou absolutamente inslito , mas

 antes , corresponderia , a uma imposio geral dos novos tempos .
 Responde ela 

 mesma causa que levou Baudelaire a tentar eliminar o " pessoal " de sua voz

 potica e a criar a " teoria das correspondncias " ; a mesma que tambm est na

 origem da " alquimia do verbo " buscada por Rimbaud .
 Ou ainda a que levou

 Mallarm a perseguir a " magia da linguagem " Enfim ,  a ciso moderna entre

 Homem e Real que se agudiza , em nosso sculo , como conscincia-de-mundo e como

 crise de linguagem , exigindo novas respostas s interrogaes de sempre : quem

 sou eu ?
 de onde vim ?
 para onde vou ?
 quem ou o que justifica minha existncia ?
 e

 determina os valores que regem o mundo dos homens ?
 como posso eu conhecer o

 Real ?
 e ter certeza da autenticidade desse conhecimento ?
 em que medida a minha

 palavra traduz a " verdade " desse Real entrevisto ou pressentido ?
 etc. , etc .

 A diversidade de " eus " do universo fernandino tentam , em ltima anlise , dar

 algumas das vrias respostas plausveis ...
 uma vez que j no era mais possvel

 ao homem-sculo-XX qualquer resposta unvoca ...

 Para compreendermos melhor no s a natureza da poesia fernandina , mas tambm a

 atualidade , hoje , da complexa conscincia de mundo nela concretizada ,

 tentaremos situar o poeta entre seus companheiros de gerao .

 FERNANDO PESSOA

 O MOMENTO HISTRICO E O ESPAO CULTURAL

 Embora tenha sido publicado , divulgado e conhecido amplamente , apenas no

 ps-guerra 45 , Fernando Pessoa pertence  gerao dos " Ismos " , que tumultuou a

 Europa dos anos 10/20 .
 Foram seus contemporneos , pintores , como Picasso ,

 Braque , Kandinski , Mondrian , Larionov , Natalia Goncharova ...
 ; msicos como

 Schnberg , Stravinsky ...
 ; ficcionistas como Henri James , Joyce , Jorge Luis

 Borges , Virginia Woolf , Kafka , Hermann Hesse , John Dos Passos , E.E.Cummings ...

 e poetas como Apollinaire , Mallarm , Marinetti , Max Jacob , Ezra Pound , Valery ,

 T.S.Eliot , A.Breton , Maiacovski , Gertrude Stein , Vicente Huidobro , Oswald e

 Mrio de Andrade , Mrio de S Carneiro , Almada Negreiros ...

 Nascido em 1888 , em Lisboa , Fernando Pessoa fez parte daquela juventude que ,

 sofreu em sua formao cultural o primeiro impacto da revoluo-evoluo , em

 marcha .
 Atravs dos estudos , ela foi disciplinada por um sistema de pensamento

 e valores ainda rigorosamente estruturados ( o sistema tradicional europeu e no

 caso especifico de Fernando Pessoa , o britnico ) , logo em seguida , quando

 comeava seu momento de produo artstica , ou de atuao no plano da vida

 prtica ,  abalada pela rebelio cultural-poltica que se manifesta na Arte ,

 com os " Ismos " ; e na Poltica , com a Guerra de 14 e com a Revoluo Comunista

 de 17 .

 Em 1896 , circunstncias familiares ( o casamento de sua me viva com o cnsul

 portugus na frica do Sul ) , levam o menino Fernando , com 8 anos incompletos ,

 a viver e a estudar em Durban , Colnia de Natal , onde permaneceu at os 17 anos

 de idade .
  , portanto , nesse perodo vivido fora de Portugal , que se realiza a

 formao cultural bsica de Fernando Pessoa , e sob o influxo da lngua , do

 pensamento e cultura inglesa , diretrizes que , afinal , o poeta nunca abandonara

 por completo , apesar de sua profunda conscincia de portucalidade .

 O quanto essa formao bsica foi decisiva para o desenvolvimento posterior de

 seu pensamento crtico-reflexivo e para sua criao potica ( e talvez para seu

 prprio sentimento de nacionalidade ) , o prova a persistncia com que Fernando

 Pessoa usou a lngua inglesa para expresso de seu pensamento .
 So , em ingls ,

 os primeiros poemas que ele decidiu publicar em livro ( plaquete ) , Antinous-1918

 ( escrito em 1915 ) ; como o so , tambm , a quase predominncia dos textos em

 prosa , em sua produo de teoria e crtica ( = filosofia e esttica ) deixada

 indita e publicada parcialmente at o momento .
 Obviamente , no poderamos ,

 neste breve espao , tentar estabelecer quaisquer relaes ou " confluncias "

 entre a natureza de sua poesia e a de certos poetas ingleses ( por exemplo

 E.Pound ou Shakespeare ) que Pessoa considerava geniais. ( Essas relaes , sem

 dvida importantes , esto a merecer estudos detalhados que , talvez , em breve

 algum se disponha a realizar ) .

 Em 1905 , de volta a Lisboa ( de onde no sair at sua morte , em 1935 ) ,

 Fernando Pessoa ingressa na Faculdade de Letras que freqenta durante dois anos

 apenas e onde estuda Shakespeare e a filosofia alem , em Schopenhauer e

 Nietzsche .
  desse perodo que datam seus primeiros " textos filosficos " , cuja

 produo mais significativa ( a julgar pelos dois volumes j publicados )

 abrange mais ou menos dez anos ( 1906/1916 ) .
 Essa preocupao com o

 conhecimento filosfico ( e mesmo com a teorizao literria ) precede o

 definitivo encontro de Fernando Pessoa com a poesia .

 Seu primeiro texto publicado foi de teoria esttica ( " A Nova Poesia Portuguesa

 Sociologicamente Considerada " in guia , abril , 1912 ) , enquanto o primeiro

 poema publicado , " Puis " ,  de 1913 .
 A julgar pelas datas apostas em seus

 textos ( e parece que Pessoa era particularmente cuidadoso desse pormenor ) sua

 produo potica mais antiga  de 1911/1912 e  atribuda a Alberto Caeiro ,

 muito antes , pois , desse heternimo ter aparecido ( 8/maro/1914 ) .
 Tambm de

 1913  a publicao da " literatura dramtica " Na Floresta do Alheamento , a

 composio do poema em ingls " Epithalamium " e do " drama esttico " O

 Marinheiro .
 O verdadeiro nascimento de seus heternimos se d em 1914 , poca em

 que a maior parte de seus textos filosficos j estava escrita .

 O que nos importa observar nessas datas e tipos de produo  a tendncia

 dominante em Fernando Pessoa para o pensamento reflexivo e a simultnea atrao

 pelos vrios gneros literrios : fico , poesia , teatro e tambm pela filosofia

 que ele considerava uma arte .
 Em seu af de descobrir a forma mais adequada 

 expresso do conhecer , Fernando Pessoa tentou todos os gneros , inclusive o

 conto policial ( o que confirma sua preocupao visceral com o enigma ) .
  de

 se compreender , pois , seu obsessivo interesse pela filosofia , onde  a prpria

 possibilidade do conhecimento , o fenmeno investigado .

 Entretanto , apesar desse interesse , sua verdadeira realizao se deu apenas no

 campo da poesia .
 Em suas reflexes filosficas , Fernando Pessoa no chegou a

 nenhuma sntese .
 Como disse Benedito Nunes :

 " 0 pensamento de Fernando Pessoa no foi filosfico no sentido

 tradicional do termo , porque foi , antes de tudo , uma arte do

 paradoxo e uma concepo ldico-artstica da filosofia. "

 E o prprio poeta no se enganava com essa sua preocupao obsessiva : " Eu era

 um poeta impulsionado pela filosofia , no um filsofo dotado de faculdades

 poticas. "

 Em seus Textos Filosficos encontramos menes a praticamente toda a gama de

 filsofos .
 Desde os gregos at os modernos ( Herclito , Parmenides , Zeno ,

 Grgias , Plato , Protgoras , Scrates , Anaxgoras , Aristteles , Descartes ,

 Kant , Leibniz , Berkeley , Vico , Nietzsche , Pascal , Schopenhauer ...
 ) , Fernando

 Pessoa sondou praticamente todas as possibilidades de posicionamentos do " eu "

 em face do mundo a ser conhecido .
 Da que sua poesia adquira um valor limtrofe

 ao da filosofia : o que se abre para o Saber .
 Como ele prprio o diz a certa

 altura de suas reflexes :

 " Uma corrente literria no passa de uma metafsica .
 Uma

 metafsica  um modo de sentir as coisas / ...
 / As metafsicas tm

 gradaes ; so modos mais ou menos intensos , mais ou menos

 lcidos de sentir o Universo .
 O materialismo est no mais baixo

 nvel , representa uma sensibilidade mnima perante o Universo ,

 um conceito esttico reduzido , porque no vive a vida das coisas

 em grau superior .
 Por isso no h grandes poetas materialistas. "

 No esqueamos que a Arte do momento lanava-se contra o universo positivista

 que se oficializara como o pensamento diretor da Sociedade , e assim fechadas as

 vias de acesso s realidades no-cientficas , a Criao e a Metafsica viram-se

 em um " beco-sem-sada " ...

 Enfim , o que nos importa ressaltar aqui  que , no s Fernando Pessoa , mas toda

 sua gerao , estava no encalo de um novo " conhecimento " , de uma nova

 " abertura " para a vida .
 Em face de uma cultura e de uma arte que se

 esfacelavam , recolocavam interrogaes sobre o Ser , o Estar-no-mundo e o

 Conhecer que os novos tempos passaram a exigir .

 A REVOLUO KANTIANA E A CRISE DA MODERNIDADE

 Dissemos mais atrs que essa " crise do conhecimento " , em nosso sculo , se d

 nos rastros da revoluo kantiana e do avano da Cincia .
 Pelo muito que as

 teorias de Kant parecem ter atuado no pensamento de Fernando Pessoa e de sua

 gerao , a tomaremos aqui , como ponto de apoio , para tentarmos compreendermos ,

 no propriamente o mistrio do processo criador fernandino , mas sim as idias

 bsicas que nele teriam infludo .

 Em suas reflexes filosficas ou sobre esttica , so inmeras as referncias do

 poeta ao pensamento do grande filsofo alemo .
 Em uma delas escrita em ingls ,

 e com data provvel de 1906 , Fernando Pessoa registra :

 " Conhecemos as coisas , no como so , mas apenas como se nos

 apresentam. " ( Kant ) Tant d'hommes tant de sensations .

 A sociedade vulgarizou a sensao .
 A vulgaridade de nomenclatura e do sentido

 de sensao adquirida so as causas dos nossos pensamentos e sentimentos serem

 todos parecidos .

 A matria existe como matria .
 Existe por intermdio dos nossos sentidos .
 Para

 o rstico , uma rvore  uma arvore ; para um poeta  mais o que uma rvore .
 

 mais ou menos assim que vemos a matria com a nossa falta de percepo

 espiritual .
 Assim como aquelas montanhas que , vistas de longe , parecem escarpas

 despidas e ridas , mas que vistas de perto no mostram rochas nem nenhuma

 aridez , antes pelo contrrio vales e grandes extenses de terra lavada .

 Somos fracos espiritualmente , isto  , somos somente capazes de uma compreenso

 material , a no ser que usemos os nossos poderes mais vastos e profundos .

 No entanto , trazemos em ns o poder de aprender a verdade no verdade

 fenomenal , mas verdade numenal .
 Afirmo agora , e afirmarei sempre , que ao homem

 escapou o mistrio do universal somente por falta de vontade de pensar

 profundamente. "

 A temos , expresso em linguagem reflexiva , o ncleo problemtico de toda

 produo potica fernandina e , em maior ou menor grau , de toda literatura

 modernista dos primeiros anos do sculo : Obviamente , seria ingenuidade ou

 tolice , qualquer tentativa de se isolar o fenmeno responsvel pela crise da

 Cultura e da Arte que eclode abertamente nesse momento .
 Bem sabemos que a teia

 das causas e efeitos ou o imbricamento dos fenmenos  de tal ordem que jamais

 poder ser deslindado em seus vrios componentes isolados .
 Essa impossibilidade

 no impede , porm , que o esprito crtico continue tentando iluminar diferentes

 aspectos do fenmeno global , em busca de possveis explicaes .
  o caso do

 pensamento kantiano .

 Sem pretendermos entrar nos meandros do lastro filosfico que pode ser

 encontrado na poesia de Fernando Pessoa ( e de seus companheiros de gerao ...

 ) no resistimos , porm , ao impulso de cotej-la com a teoria que , nitidamente ,

 lhe serviu de ponto de partida .
 Assim , da complexa " revoluo copernicana " (

 expresso usada pelo prprio filsofo ao definir suas prprias descobertas ...

 ) , operada por Kant a partir do sculo XVIII , interessa-nos , aqui , apenas um

 aspecto : o que trata da possibilidade ou impossibilidade de um conhecimento

 objetivo do universo ( homem / mundo / Deus ) .

 Em que consistiu , basicamente , essa " revoluo " que est na base da renovao

 romntica ; que se aprofunda em crise , a partir dos " poetas malditos "

 ( Baudelaire , Rimbaud , Verlaine ...
 ) , at explodir na iconoclastia dos " Ismos " ...

  o que procuraremos sintetizar adiante , para chegarmos  multiforme

 experincia potica de Fernando Pessoa .

 A " SENSAO " COMO MEDIADORA DO CONHECIMENTO E O SENSACIONISMO DE FERNANDO

 PESSOA

  principalmente na criao do Sensacionismo , atribudo a lvaro de Campos que

 est , a nosso ver , a realizao potica mais prxima das premissas filosficas

 de Kant .
 Alis , essa produo " sensacionista " , produzida e publicada nos anos

 1915 e 1916 , corresponde a um dos pontos mais altos da poesia fernandina , como

 expressado mundo contemporneo , isto  , o mundo construdo pela Civilizao da

 Tcnica e da Mquina , onde as sensaes humanas parecem explodir , tal o grau em

 que so provocadas .
 Referimo-nos , precisamente , aos poemas : " Ode Triunfal "

 ( publ .1.Orpheu-l.ltrim .1915 ) ; " Ode Martima " ( publ .. 2.Orpheu-2trim .1915 )

 " Saudao a Walt Whitmann " ( escrito em junho , 1915 ) ; " Passagem das Horas "

 ( escrito em maio , 1916 ) e " Casa Branca Nau Preta " ( escrito em out .1916 ) .
 Neste

 ltimo poema , j existe uma outra atmosfera , melanclica , desalentada , que

 contrasta com a euforia vital que predomina nos primeiros e indica que o

 " sensacionismo " de lvaro de Campos estava se esgotando , ou pelo menos iria

 enfatizar outros aspectos da possvel apreenso do Real .

 Nesses poemas , aparece de maneira indiscutvel a inteno bsica do processo

 Potico de Fernando Pessoa : consumar a alquimia do verbo , ou melhor

 transubstanciar em Palavra a " verdade"do Real , intuda pelas sensaes .

 Obviamente , no ser por acaso que , nos anos 1915 e 1916 , quando aqueles poemas

 eram publicados ou escritos , Fernando Pessoa registrava tambm , em seus

 manuscritos soltos , reflexes filosficas e estticas que indicam com clareza a

 intencionalidade criadora que orientava , no momento , sua produo potica .
 Para

 se compreender melhor o quanto a poesia fernandina foi " programada " ou era

 " intelectualizada " ( como ele mesmo tantas vezes afirmou ) parece-nos bastante

 esclarecedor um cotejo de textos .
 Vejamos , por exemplo , um fragmento de seus

 " textos filosficos " , cuja data provvel  dos anos acima mencionados

 ( 1915-1916 ) .

 " Tudo  sensao .
 / ...
 / O espiritual em ns  a potncia para sentir e o

 sentir  a

 sensao , o ato .
 / ...
 / Tudo o que existe  um fato mental , isto  , concebido .

 / ...
 /

 Criar , isto  , conceber uma coisa como em ns , mas no em ns , / ...
 / 

 conceb-la

 como feita da nossa prpria substncia conceptiva , sem ser essa mesma

 substncia. "

 A temos enunciada de maneira bvia uma explicao das relaes entre eu e

 mundo , tendo em vista o sentir , pensar e conhecer , de lastro kantiano .
 Tal

 lastro aparece tambm em certas reflexes pessoais ( recolhidas em Pginas

 ntimas ...
 com data provvel de 1916 , mas que talvez sejam anteriores 

 publicao dos poemas em questo ) , onde Fernando Pessoa analisa teoricamente o

 que lvaro de Campos realiza poeticamente na diretriz do Sensacionismo , e com

 isso nos d as " chaves " mais adequadas para compreendermos a natureza da

 alquimia verbal ali pretendida pelo poeta .
 Diz Pessoa :

 " Nada existe , no existe a realidade , apenas sensao .

 As idias so sensaes , mas de coisas no situadas no espao e , por vezes , nem

 mesmo situadas no tempo .
 A lgica , o lugar das idias , outra espcie de espao .

 / ...
 / A finalidade da arte  simplesmente aumentar a auto-conscincia humana .
 O

 seu critrio  a aceitao geral ( ou semi-geral ) , mais tarde ou mais cedo ,

 pois  essa a prova de que , na realidade , ela tende a aumentar a

 auto-conscincia entre os homens .

 Quanto mais decompomos e analisamos as nossas sensaes em seus elementos

 psquicos , tanto mais aumentamos a nossa auto-conscincia .
 A arte tem , pois , o

 dever de se tornar cada vez mais consciente. "

 A temos pelo menos trs importantes premissas que aliceram o universo potico

 fernandino :

 a importncia basilar das sensaes na apreenso do mundo das relaes : homem X

 mundo exterior ;

 a diferena de natureza entre " sensaes " ( ligadas  intuio ) e " idias " (

 ligadas  inteligncia ,  lgica ,  razo ) e

 a finalidade pragmtica da arte : tornar a humanidade auto-consciente das

 realidades que lhe so essenciais  evoluo ...

 Essas premissas podem ser rastreadas em todo o universo potico fernandino

 ( ortnimo ou heternimo ) ; e  atravs dessa perspectiva ( a de o poeta tentar

 decompor e analisar suas sensaes at o fundo de seus componentes psquicos ,

 para aumentar sua auto-conscincia do Real que deve ser objetivado no poema ) ,

 que compreenderemos melhor o ritmo torrencial dos poemas sensacionistas .
 Em

 " Ode Triunfal " , por exemplo :

 " A dolorosa luz das grandes lmpadas eltricas da fbrica

 Tenho febre e escrevo .

 Escrevo rangendo os dentes , fera para a beleza disto ,

 Para a beleza disto totalmente desconhecido dos antigos

 O rodas ,  engrenagens , r-r-r-r-r-r-r eterno !

 Em fria fora e dentro de mim .

 ...............................................................................

 ...........

 Mais do que a euforia futurista de Marinetti ( a primeira a tentar encontrar o

 ritmo e a atmosfera prpria  civilizao da mquina ) ; mais do que a adeso 

 " vitalidade transbordante " , ao " belo feroz " ou "  fora sensual " do universo

 potico de Walt Whitmann , os poemas sensacionistas de lvaro de Campos

 expressam a experincia quase apocalptica do poeta contemporneo , ao pretender

 expressar um mundo que ultrapassou sua capacidade normal de apreenso , um mundo

 " totalmente desconhecido dos antigos " ...
 mas resultante irredutvel destes

 ltimos .

 O poeta tenta ( e praticamente o consegue ...
 ) nos comunicar suas sensaes in

 totum .
 No , a epidrmica viso do bablico mundo moderno que os futuristas

 ofereciam , mas uma apreenso global , abrangente , que sugere o mundo como um

 continuum vital , em que presente / passado / futuro se amalgamam na alquimia do

 verbo , tal como na realidade csmica as vivncias esto amalgamadas .

 " Canto , e canto o presente e tambm o passado e o futuro

 Porque o presente  todo o passado e todo o futuro

 E h Plato e Virglio dentro das Mquinas e das luzes eltricas

 S porque houve outrora e foram humanos Virglio e Plato. "

 Com uma funda conscincia da metamorfose , como processo fundamental da vida ,

 Fernando Pessoa , tal como os grandes criadores , seus contemporneos , introjeta

 o passado no presente , como algo vivo , que ocultamente dinamiza as realidades .

 (  da mesma origem , o impulso que levava E.Pound , naquele mesmo momento , a

 criar suas Personae e seus Cantos , onde ( pelo processo da intertextualidade )

 vozes poticas do passado so absorvidas pela voz " poundiana " que , assim ,

 expressa o Presente como uma voragem , que o ontem dinamiza , e onde j se gera o

 amanh .
 )

 Esse  um dos aspectos fundamentais da poesia contempornea , bem como da

 fernandina : a diluio das fronteiras entre os " tempos " que regem nossa vida

 concreta , para revelar o Tempo infinito que tudo engloba e que permanece

 desconhecido dos homens .

 Mas no  s dos " tempos " que se anulam as fronteiras .
 Na palavra de Pessoa h

 uma grande nsia de fundir " espaos " distintos e distantes em um s espao

 abrangente e perene .
 Como h tambm a nsia de expanso da Individualidade ,

 para que seja alcanada a Totalidade do ser ou uma plenitude de sentir e ser ,

 quase csmica , na qual pressentimos uma grande identificao com o fenmeno de

 nossos dias , o " mutante cultural " , ao qual voltaremos mais adiante , quando

 falarmos da atualidade de Fernando Pessoa .

 Entretanto , no geral da poesia fernandina , essa nsia de expanso da

 Individualidade desemboca na perda da identidade do " eu " e , conseqentemente ,

 na despersonalizao .

 A CRISE DA MODERNIDADE E A DESPERSONALIZAO

 Foi exatamente no incio deste sculo que certas interrogaes , provocadas pela

 evoluo das premissas kantinas , se avolumam e se tornam obsessivas ou

 angustiantes : como posso saber se minha sensibilidade , sensaes ou minhas

 intuies tm realmente " formas a priori " que fundamentem em verdade o

 ser-das-coisas ?
 como saber se essas " formas " foram intudas e no , simplesmente

 inventadas por mim ?
 quem me garante que estou expressando corretamente a minha

 intuio ?
 e que no estou dando uma forma falsa  coisa-a-ser-conhecida ?
 at

 que ponto meu " entendimento discursivo " , minha " palavra " expressam com

 autenticidade meu pensamento ?

 Obviamente , as dvidas quanto  possibilidade ou no de conhecimento , que vem

 desafiando o homem ps-Kant , desde fins do sculo passado at hoje ( homem

 pressionado por mil descobertas nas mais variadas reas da Vida e da Cultura ) ,

 no se colocam assim de maneira direta e simples ( ou ingnua ) .
 Mas para nosso

 objetivo aqui , tal enunciado  suficiente .
 E de certa maneira , podemos dizer

 que nessas interrogaes est uma das marcas mais flagrantes de modernidade que

 vai distinguir a poesia tradicional da poesia contempornea a despersonalizao

 na qual a perda de identidade do eu vai desembocar .

 Pode-se dizer que essa perda de identidade do eu  o denominador comum que ,

 para alm das enormes diferenas individuais , identificou os integrantes do

 grupo " Orpheu " como uma gerao literria .
 No foi outro , o elemento apontado

 por Almada Negreiros quando , em 1965 ( 509 aniversrio da revista Orpheu ) ,

 escreveu :

 " Ainda hoje desconheo felizmente a identidade dos inesquecveis

 companheiros do " Orpheu " / ...
 / que foram os meus ,

 precisamente por nos ser comum uma mesma no identidade .

 ramos em realidade muito estranhamente diferentes uns dos

 outros , e todos suspensos do mesmo fio de nos faltar territrio .
 E

 assim nasce o profundo da palavra " companheiro " .

 O que Orpheu se propunha ser ( conforme o diz a Introduo de Luiz de Montalvor

 ) era esse " territrio " comum , onde se encontrariam os exilados de si mesmos e

 do mundo .
 No  outra a " tecla " desde sempre percutida por Mrio de

 S-Carneiro , em poesia ou prosa .
 Em poemas de Indcios de Oiro , publicados no

 Orpheu 1 ( 1915 ) , lemos :

 " A ponte levadia de Eu-ter-sido

 Enferrujou embalde a tentaro descer ...

 / ...
 /

 Percorro-me em sales sem janelas nem portas , "

 " Esta inconstncia de mim prprio em vibrao

  que me h transpor s zonas intermdias , "

 " Eu no sou eu nem sou o outro ,

 Sou qualquer coisa de intermdio : "

 "  pntanos de Mim jardim estagnado ...
 "

 Tambm Ronald de Carvalho , nesse mesmo nmero inaugural de Orpheu , escreve :

 " Fujo de mim como um perfume antigo foge ondulante e vago de

 um missal e julgo uma alma estranha andar comigo. "

 Note-se ainda que Fernando Pessoa escolheu para esse importante numero inicial

 da revista ( que deveria identific-los como nova gerao ) , no poemas , mas o

 " drama esttico " O Marinheiro , cujo eixo problemtico  exatamente a sondagem

 do " quem somos ?
 " .
 ( Observe-se que a primeira proposta de comunicao entre as

 trs donzelas veladoras da.donzela morta  entreterem-se contando umas s

 outras o que foram , apesar de saberem que esse contar "  belo e  sempre

 falso. " )

 Enfim , fcil  verificar que esse estranhamento ou esse desconhecimento de cada

 um a respeito de si prprio ( e do mundo  volta ) era a tnica comum a essa

 gerao de artistas e escritores , nos primeiros anos do sculo .
 Diz Almada :

 " Era a arte que nos juntava ?
 Era .
 Arte era a soluo .
 A nossa

 soluo comum .
 Era o neutro entre ns. "

 O que Almada diz a , com respeito  " gerao do Orpheu " , pode ser estendido a

 toda a gerao europia e americana que nos anos 10/20 fez sua entrada no mundo

 da Literatura e da Arte .
 Por diversos que fossem os gneros adotados por cada

 um ou a natureza de suas obras , identificava-os uma mesma paixo : a da Arte em

 face a um espao cultural vazio ou agressivo , onde lhes " faltava territrio "

 para viverem em plenitude .
 Esse " territrio " s a Arte , a Literatura podiam

 oferecer .
 Da a importncia vital da forma a ser conquistada como expresso do

 novo , ento apenas intudo em meio ao " caos de sensaes " oferecidas por um

 mundo de valores em naufrgio e valores em gestao ; da , tambm , o

 fragmantarismo como processo de composio e acima de tudo o esforo de

 libertao de uma identidade pessoal / social limitadora e a busca da

 despersonalizao .

 A HETERONMIA : DESPERSONALIZAO VERSUS PERSONIFICAO

 E aqui j nos aproximamos dos heternimos fernandinos , nos quais essa busca de

 despersonalizao se funde com diferentes impulsos de personificao ,

 resultando na expresso de distintos estados de conscincia que , por sua vez ,

 expressam distintas cosmovises .

 " De quem  o olhar / Que espreita por meus olhos ?
 / Quando

 penso que vejo , / Quem continua vendo / Enquanto estou

 pensando ?
 / Por que caminhos seguem , No os meus tristes

 passos , / Mas a realidade / De eu ter passos comigo ?
 s vezes , na

 penumbra / Do meu quarto , quando eu / Para mim prprio

 mesmo Em alma mal existo , / Toma um outro sentido / Em mim o

 Universo / E uma ndoa esbatida / De eu ser consciente sobre

 / Minha idia das coisas. "

 Para l da conotao esotrica ou ocultista que tm esses versos , est bem

 evidente a obsesso com o conhecimento acessvel ao eu .

 Distendido na nsia do conhecer , o poeta sonda continuamente sua prpria

 conscincia das coisas .
 Com esse gradativo aprofundar-se no eu , de quem se

 esperava a revelao da verdade do mundo , o artista-criador viu-se cada vez

 mais reduzido a si mesmo e , ao mesmo tempo , cada vez mais distanciado de sua

 prpria identidade .

 S plural como o universo. " , diz Fernando Pessoa , reagindo  nova realidade

 csmico-social que se oferecia ao homem moderno da Sociedade Tecnolgica .

 Obrigado a apreender a catica pluralidade de formas do universo , o eu tende

 tambm a se pluralizar .
 Fragmenta-se , e aos poucos desaparece aquele " eu " uno (

 do Romantismo ) que se apresentava como um centro fixo , ntido e que , acima de

 tudo , devia ser sincero ao expressar seus sentimentos .
 E nesse sentido que se

 pode entender os conhecidos versos de " Autopsicografia " :

 " O poeta  um fingidor .

 Finge to completamente

 Que chega a fingir que  dor

 A dor que deveras sente. "

 Pessoa apreende a , com nitidez , a dialtica entre eu pessoal X eu potico que

 se imps ao poeta moderno , obrigado a distanciar-se do seu eu comum , preso na

 teia social e rotineira do mundo cotidiano , para poder ouvir com clareza o seu

 " outro " eu , o eu criador , sensvel e intuitivo que serviria de mediador entre o

 Conhecido e o Desconhecido .

 A esse repdio do " eu " pessoal , individualizado e poderoso ( que est na base

 do mundo romntico ) corresponde a despersonalizao procurada a partir de

 ento .
 No se trata mais de dar voz ao eu real do poeta , nem de lhe pedir

 " sinceridade de sentimentos " ...
 mas sim de entregar a experincia da criao 

 sua personalidade potica , personalidade fictcia , mas muito mais livre e

 verdadeira do que a real , e muito mais capaz de estabelecer novos vnculos do

 Ser com o Mundo e de dar forma ou concretude s novas realidades ( apenas

 intudas e ainda no conhecidas pela razo comum ) .

 Essa nova experincia de criao , atravs de uma " personalidade potica " que

 pouco ou nada tem a ver com a personalidade emprica do poeta e , pois , a marca

 distintiva da " modernidade " que se instaura em nosso sculo e que Fernando

 Pessoa procurou conscientemente , levar s ltimas conseqncias .
 Pela

 singularidade de seu gnio ou temperamento , a " despersonalizao " exigida pela

 modernidade assumiu um feitio absolutamente invulgar .
 Nem as " personae " de Ezra

 Pound , nem as " mscaras " de Eliot podem ser comparadas  organicidade interna

 de cada .
 " personalizao " assumida por seus heternimos ou semi-heternimos ...

 Conhecidos em conjunto , eles oferecem um verdadeiro balano da Poesia , desde

 seus primrdios registrados pela Histria at o mundo-sculo XX , e tambm das

 diferentes possibilidades de Ser e de Estar-no-mundo que o Conhecimento punha

 em xeque naquele incio da crise cultural , cujo processo se desenvolve ainda

 hoje ...

 O FENMENO DA HETERONMIA

  dentro dessa crise cultural que as interrogaes sobre a heteronmia

 fernandina podem ser colocadas .
 Obviamente , o dado fundamental  a

 personalidade singular do poeta que , desde menino , revelou uma tendncia

 inegvel para a despersonalizao , ou melhor , pelo desdobramento da prpria

 individualidade , como ele prprio o confessou em vrias ocasies .
 A essa

 capacidade inata para a inveno , para a fico , juntou-se , por via cultural (

 atravs dos estudos e da reflexo esttica e filosfica intensificada ) a

 influncia da interrogao basilar da poca : como conhecemos ?
 E Fernando

 Pessoa , nos rastros de Kant , afirma :

 " No conhecemos seno as nossas sensaes .
 O universo  , pois ,

 um simples conceito nosso. "

 Mas no  um " eu " qualquer , comum ...
 que poder ter acesso a esse conhecimento

 essencial .
 E pouco antes de Pessoa , Netzsche afirmava :

 " A histria e as cincias da natureza foram necessrias contra a

 Idade Mdia : o saber contra a crena .
 Contra o saber dirigimos ,

 hoje , a arte : volta  vida !
 Matriz do instinto do conhecimento !

 Reforo dos instintos morais e estticos !

  a um " eu " vivo , liberto das deformaes do saber estratificado , e alimentado

 pela criatividade artstica , a quem se entrega a responsabilidade de

 redescobrir as novas formas de vida , e por conseguinte as novas formas do

 conhecer .
 Conforme Pessoa o diz em outra ocasio :

 " O problema do conhecimento  a fronteira que , a um tempo une

 e separa como toda fronteira , a fsica e a metafsica .
 Postos Sujeito

 e Objeto , e Relao entre eles como , desde Kant se estabeleceu , o

 ltimo irredutvel abstrato da experincia depurada , a teoria do

 conhecimento metafsico ,  a da relao essencial entre Sujeito e

 Objeto. "

 No af de multiplicar as latentes possibilidades dessas relaes essenciais , 

 de se compreender que a multiplicao das personalidades poticas tivessem

 surgido como um recurso valiosssimo .
 Uma vez que o " fato fundamental do

 universo "  algum ter " conscincia dele " , e uma vez que todo trabalho mental

 versa sobre a Relao que se estabelece entre Sujeito e Objeto , e essa

 " relao " se identifica com a Realidade que julgamos conhecer ...
 conclui-se

 que , mudando um dado da " relao " , isto  , o sujeito pensante tambm mudar o

 resultado ou a natureza da mesma .
 Tantos " sujeitos " quantas " realidades " .
 Da a

 multiplicidade incrvel de verdades , conhecimentos , realidades que se superpem

 ou se desmentem reciprocamente em qualquer panorama histrico-cultural , ou na

 vida cotidiana que cada um de ns conhece , ou tambm no universo fernandino .

 A nsia de ser plural , que  comum a praticamente todos os artistas desses

 primeiros tempos do Modernismo , torna-se facilmente compreendida .
 Sendo eu , um

 s ser , uma s possibilidade de percepo ( por mais variadas que sejam as

 perspectivas , a partir das quais eu me coloque ) , no poderei ver , sentir ,

 perceber e compreender o ambiente ou o mundo que me situa , seno pelo meu

 prisma ...
 o que redunda fatalmente em pobreza de viso , tendo em vista a

 multiforme dimenso do universo a ser apreendido pelo conhecimento .
 A

 infinitude das formas latentes  espera de serem descobertas , fatalmente me

 escapam. ( Da a tentativa da " auto-abertura " que as vrias tcnicas da

 psicologia atual oferecem para que o eu atinja uma interao espontnea e

 harmoniosa com o espao global a que ele pertence , e que pela razo , s conhece

 fragmentariamente ...
 ) Da , tambm , o fenmeno que teria estado na origem dos

 heternimos , no " personalidades " ou " sujeitos pensantes " criados ao acaso , mas

 sim personalidades representativas de modos de ver , perceber e conhecer

 fundamentais ...
 que se vem sucedendo no Tempo , pelo menos desde os gregos ...

 Que conscincia-de-mundo est presente em cada um deles ?

 Alberto Caeiro  o poeta ingnuo ( e pensador , embora no o admita ...
 ) , para

 quem o viver pleno decorre da adeso espontnea do homem as coisas , tais como

 so , e no frui-las com despreocupada e alegre sensualidade .

 Ricardo Reis  o poeta clssico , da serenidade epicurista , que aceita o Fatum ,

 de olhos abertos e para quem o viver ideal depende de o homem aceitar com calma

 lucidez , a relatividade e a fugacidade de todas as coisas e assim , sem nada

 esperar de duradouro , se furtar  dor das perdas inevitveis .

 lvaro de Campos  o poeta moderno da dialtica fundamental : eu civilizado

 versus eu potico , tentando conhecer as antinomias latentes no novo

 ser-forjado-pela-civilizao , quando posto em confronto com o Absoluto. ( lvaro

 de Campos seria o novo embrionrio que hoje vemos aparecer , inconfundvel , no

 " mutante cultural " dos nossos dias .
 )

 Bernardo Soares , o burocrata lisboeta ,  o prosador potico em quem convive ,

 surdamente , sem angstias , o contraste de uma realidade cotidiana estreita (

 presa s necessidades materiais , e  rotina desgastante ) e a certeza de que ,

 embora ausentes , h ideais mais altos , aos quais a vida devia ser dedicada ,

 para se realizar com plenitude .

 Vicente Guedes , Antonio Mora , Rafael Baldaia , Baro de Teive , Alexander

 Search ...
 heternimos ou semi-heternimos , totalmente individualizados ou

 semi-autnomos ...
 cada um assume uma maneira especifica de ver , pensar e falar .

 E Fernando Pessoa-ele mesmo , quem  ?
 Teria existido esse " ele-mesmo " ?
 Qual

 seria sua face verdadeira ?
 Ou melhor , seria plausvel que buscssemos essa

 pretensa " face verdadeira " quando sabemos que Fernando Pessoa fugiu sempre da

 identificao pessoal ?
 E s confrontarmos as inmeras justificativas ou

 explicaes acerca dos heternimos , que ele deixou registradas em cartas

 pessoais , em manuscritos soltos , em " prefcios " projetados para publicao de

 sua obra , etc. , etc. , e nos daremos conta de que Fernando Pessoa tentou

 enfatizar , de mil maneiras , o fenmeno fundamental que estava na origem de sua

 heteronmia : o fenmeno da fico , da inveno essencial , exigida pela

 verdadeira poesia .

 Portanto , quanto  sua produo dita " ortnima " , como explicar a diversidade

 que tambm a caracteriza ?
 Em qual de seus diferentes aspectos estaria o

 verdadeiro Fernando Pessoa-ele mesmo ?
 No poeta de tendncias simbolistas de

 " Hora Absurda " ?
 no poeta do " interseccionismo impressionista " de " Chuva

 Oblqua " ?
 ou no do " paulismo " , o poeta blas em quem predomina o virtuosismo

 formal sobre a preocupao espiritual ?
 Ou no poeta esotrico da " Passos da

 Cruz " ?
 Ou estaria no poeta dramtico ?
 Ou ainda no poeta dos " poemas ingleses " ?

 aquele que registra a perplexidade do homem diante do " cisma " que separou

 pensamento e mundo sensvel , e que perscruta o " abismo " que se interpe entre a

 conscincia e o eu que sente ?
 " Between me and my consciouness / Is an abyss. "

 Ou ser o poeta pico-mstico de " Mensagem " , o que acreditava que " O mito  o

 nada que  tudo. " ?
 e que , por essa crena , ao escrever a " epopia " moderna da

 portucalidade , diluiu sua historicidade fugaz no hmus mtico-mstico de uma

 realidade perene , que transcende o cognoscvel , porque pertence ao mistrio do

 destino humano .

 Difcil dizer qual desses  o " verdadeiro " Fernando Pessoa .
 Apenas , o que se

 percebe de imediato  que todas essas diferentes faces assumem uma postura

 igual : esto voltadas para uma determinada investigao do Real ou do Mistrio

 incognoscvel .
 O que se impe tambm como fato inegvel ,  a importncia que

 Fernando Pessoa atribuiu ao mito , ou  conscincia mtica para o poeta .
 E isso ,

 no s porque tal " conscincia " aparece desde cedo em seus escritos ( o projeto

 de " Mensagem " em j se encontra registrado em suas anotaes , desde os anos 1O

 ) , mas principalmente pelo cunho de perenidade que tentou imprimir a cada

 produo heternima , com a matria potica em grau maior , com que as construiu

 passo a passo .
 Perenidade de mito , que o poeta tentou , de certa maneira ,

 neutralizar diante do leitor , pela inveno das biografias , com que pretendeu

 fixar , no cotidiano , algo que ele sabia pertencente ao intemporal .
 Note-se que ,

 entre os manuscritos de " Pginas Intimas " , onde ele explica mais uma vez sua

 " heteronmia " l-se textualmente :

 " Desejo ser um criador de mitos , que  o mistrio mais alto que

 pode obrar algum da humanidade. "

 Se entendermos o mito como uma vivncia , gesto ou situao ...
 que se perpetua

 no tempo , por se alimentar de um conhecimento ou de um valor essencial 

 cultura de determinado grupo humano , podemos ver nos heternimos ( e no s em

 Mensagem ) a inteno do poeta em criar , em cada um deles , um pequeno universo

 mtico .
 Ou melhor , um " universo " que representa uma determinada maneira de ver ,

 pensar , fazer ou conhecer que  essencial e verdadeira em-si-mesma , embora

 possa ser conflitante com as maneiras representadas nos demais .

 Embora verdadeiro e vlido-em-si , o universo do homem rstico , ingnuo e comum

 defendido por Alberto Caeiro , se chocar com a " verdade " defendida no universo

 de Ricardo Reis ou no de lvaro de Campos , e vice-versa .
 No entanto , facilmente

 se verifica que nenhum desses " universos polticos " existe de maneira

 arbitrria ou ldica , isto  , dependente apenas da fantasia de seu autor .
 Mas ,

 ao contrrio , so autnticos " universo de valores " construdos poeticamente ,

 cujos fundamentos so perfeitamente reconhecveis como " verdades " atuantes em

 determinadas pocas .

 Seja valorizando a concretude do Real e do visvel , seja tentando sondar o

 invisvel ...
 a poesia fernandina  bem eloqente como fenmeno de modernidade :

 exacerbando a responsabilidade de conhecer e de dar a conhecer que o Romantismo

 lhe impusera como tarefa , a linguagem potica , neste sculo , empenha-se no

 mais em imitar ou representar a realidade conhecida , mas em transfigur-la ,

 para que o novo que nela est oculto , transparea .
 Poesia , sendo expresso de

 vivncias , sensaes ou de pensamento  , acima de tudo , um fenmeno de

 linguagem .

 Da que aos diferentes universos heternimos correspondam diferentes processos

 de composio potica e diferentes linguagens .
 A potica fernandina , se aplica

 bem o que H.Lefebvre afirmou acerca de Baudelaire e Rimbaud , como poetas da

 modernidade :

 " ( neles ) a linguagem humana se quer mundo e a palavra , criadora

 de mundo .
 A poesia e o poema ( enquanto objeto , reunio de

 palavras ) se dizem enigma revelado do mundo , ao mesmo tempo

 humano e sobrenatural .
 Acima da voragem do corao , acima dos

 abismos csmicos , recusando uma beleza pr-existente , o poema

 ser o objeto transparente , cristal que se basta e que , todavia ,

 resume o mundo refletindo-o na sua pureza .

 A poesia proclama o primado da linguagem , sua possvel perfeio ,

 auto-suficincia .
 Na e pela linguagem criadora ( potica ) , dualidade , ciso ,

 dilaceramento ( entre o ser e o real ) se resolvem .
 O ideal e o real , o

 abstrato e o concreto separados , tradicionalmente , agora se encontram .
 O verbo ,

 enfim , vai-se fazer carnal e sensvel , a carne e o sensvel se metamorfoseiam

 em verbo .
  a magia ,  a Alquimia do verbo. "

 Em essncia , foi essa a intencionalidade bsica da poesia fernandina : consumar

 em sua palavra a " alquimia do verbo " , transubstanciar em palavra a verdade do

 real , intuda por determinadas sensaes .
 E , pois , o poema o que importa , e

 no , a pessoa do poeta , sua identidade pessoal ou sua pretensa verdade pessoal .

 A " DESPERSONALIZAO " E A ABERTURA PARA O " SER GLOBAL " : O MUTANTE CULTURAL

  nesse sentido , tambm , que a despersonalizao , como processo de criao

 desempenhou um papel decisivo na " abertura " para o ser global , ansiado pelo

 homem contemporneo , e que , a nosso ver , no sensacionismo de lvaro de Campos

 encontrou a sua expresso mais perfeita .
 Leia-se , por exemplo , " Ode Triunfal " :

 " tomos que ho de ir ter febre para o crebro de Esquilo do sculo cem ,

 Andam por estas correias de transmisso e por estes volantes ,

 Fazendo-me um excesso de carcias ao corpo numa s carcia a alma .

 Ah , poder exprimir-me todo como um motor se exprime !

 Ser completo como uma mquina !

 / ...
 /

 Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto ,

 Rasgar-me todo , abrir-me completamente , tornar-me passento

 A todos os perfumes de leos e calores e carves

 Desta flora estupenda , negra , artificial e insacivel !

 Fraternidade com todas as dinmicas !

 Promscua fria de ser parte-agente

 Do rodar frreo e cosmopolita

 Dos comboios estrnuos. "

 Para alm do novo ritmo ou da nova velocidade que o homem tenta alcanar para

 se sentir em sintonia com o mundo que ele mesmo construiu ( e que agora o

 ultrapassa ) , o que se faz patente , nesse fragmento de " Ode Triunfal " ,  a

 nsia de expanso e fuso que caracteriza o " eu " contemporneo .
 No mais a

 dicotomia " corpo " e " alma " ou corpo / mente , mas um s corpo-soma : " parte-agente "

 deste universo espantoso : " Nova Revelao metlica e dinmica de Deus. " , como

 diz o poeta mais adiante , nessa mesma ode .

 A idia mais prxima que nos ocorreu , ao tentarmos " diagnosticar " o

 contemporneo em Fernando Pessoa ( principalmente , o espetacularmente

 registrado em lvaro de Campos ) foi a do " corpo somtico " que , nestes ltimos

 anos , vem sendo investigado por fenomenlogos , psiclogos e cientistas de

 vrias reas ...
 Por ser uma relao inesperada e inslita que se nos

 apresentava  reflexo , resolvemos investigar sua possvel legitimidade e

 retomamos o caminho de anlise que vnhamos seguindo : o de como Fernando Pessoa

 resolveu , em poesia , o problema do Conhecimento colocado por sua poca .
 Nessa

 atitude basilar , vamos ( e vemos ) a principal razo da absoluta atualidade da

 potica fernandina , hoje , h mais de sessenta anos de distncia de seu incio .

 Ao perseguirmos , novamente , o esforo inventivo de Fernando Pessoa , para se

 fazer mediador do universo , atravs de suas prprias sensaes , acabamos

 verificando que ele se identifica com aqueles pensadores / criadores

 revolucionrios que Tomas Hanna analisa como profetas ou arautos do " mutante

 cultural " de nossos dias : Kant , Nietzsche , Freud , Darwin , Marx , Kierkegaard ,

 Husserl , Sartre , etc .

 Tendo-se dedicado  leitura e estudos de quase todos esses pensadores ( como

 suas notas e reflexes o atestam ) , Fernando Pessoa expressa em sua produo

 potica os elementos bsicos da evoluo-mutao para a qual cada um deles

 contribuiu de uma maneira .
 E isso , evidentemente , no porque os tenha lido , mas

 porque ele prprio foi um desses super-perceptivos que se anteciparam aos

 tempos .

 Lida  luz dessa evoluo-mutao , veremos que novos aspectos da poesia

 fernandina podem ser iluminados .
 E a certa altura , pareceu-nos sobremaneira

 fecundo ( para posteriores estudos ) que tentssemos compreender essa singular

 poesia como uma daquelas vozes que , desde o incio do sculo , " profetizaram " o

 mutante que , nesta segunda metade do sculo , singulariza o nosso panorama

 cultural .
 E assim nos decidimos por esta abordagem , colocando de incio a

 pergunta fundamental : em que consiste esse " corpo somtico " que caracteriza o

 " mutante cultural " deste sculo , e que j vemos pressentido por.Fernando

 Pessoa ?

 Analisando o fenmeno , T.Hanna diz :

 "  medida em que se chega ao fim deste ltimo tero do sculo

 XX , estamos assistindo ao final de um imenso perodo da cultura

 humana , e simultaneamente , estamos experimentando uma

 brusca e acelerada mutao em direo a uma cultura humana

 radicalmente diferente .
 A chave para a compreenso desse

 acontecimento evolutivo  o fato de que fomos bem sucedidos na

 construo de uma sociedade tecnolgica .
 / ...
 / No a

 conhecamos anteriormente , nem sonhvamos com ela , mas agora

 que a estamos vivendo , sabemos que quando ocorrem mutaes

 culturais em alguma coisa to inteiramente nova na histria

 humana ( como a sociedade tecnolgica ) , elas ocorrem

 rapidamente : a mudana evolutiva , em lugar de ser vagarosa e

 imperceptvel , torna-se uma mudana revolucionria. / ...
 /

 geraes sucessivas , vivendo nesse ambiente transformado , iro

 elas mesmas transformar-se .
 Esses mutantes , em termos gerais ,

 parecero os mesmos , mas no sentiro da mesma forma ( porque

 os seus corpos estaro respondendo a um novo ambiente ) e

 obviamente no iro comportar-se da mesma maneira ( pois

 estaro adaptados  nova forma pela qual eles vem e sentem o ambiente ) .

 E isto tem sido o impacto inicial da adaptao evolucionria

 revolucionria : os protomutantes so considerados , pela

 sensibilidade dos tradicionalistas culturais , como tendo " mau

 comportamento " / ...
 / Mas enquanto existir a sociedade

 tecnolgica , mais e mais mutantes aparecero a cada gerao e

 eventualmente chegaro a dominar .
 Sero em nmero suficiente

 para controlar as instituies polticas , econmicas e

 educacionais .
 J esto trabalhando .
 Comeam a criar uma cultura

 humana. "

 T.Hanna desenvolve , a partir da uma esclarecedora anlise do atual " conflito

 de culturas " ( no mais , conflito de geraes ) , que estamos vivendo .

 Inicialmente pe em questo os conceitos de moralidade / imoralidade ( to

 vivamente presentes na poesia fernandina e que so , sem dvida , o ponto

 nevrlgico do conflito social de hoje ) , e chega enfim  " novidade " da mutao

 em processo : o corpo humano .
 E , a partir de uma cuidadosa e inteligente reviso

 das " descobertas " filosficas e cientficas que , desde o sculo XIX , vieram

 preparando a atual mutao , T.Hanna chega ao " soma " que deve resultar da

 evoluo-revoluo em marcha , um " Eu , ser corporal " em inter-ao com o novo

 espao / tempo , e que sentimos muito vivo no eu-que-fala no lvaro de Campos

 sensacionista .

 Conforme T.Hanna : " Soma no quer dizer " corpo " , significa " Eu , ser

 corporal " / ...
 / Os somas so os seres vivos e orgnicos que voc  nesse

 momento , nesse lugar onde voc est .
 O soma  tudo o que voc , pulsando dentro

 dessa membrana frgil que muda , cresce e morre , e que foi separada do cordo

 umbilical que unia voc at o momento da separao a milhes de anos de

 histria gentica e orgnica desse cosmos .
 Somas somos eu e voc , querendo

 sempre a vida , e sempre em maior abundncia .
 Somas somos eu e voc , irmos em

 um envoltrio membranoso comum , em uma comum mortalidade , em um ambiente comum ,

 em uma confuso comum e uma oportunidade comum , agora , de descobrir muito mais

 do que j soubemos a respeito de ns mesmos .
 / ...
 / O novo mundo a ser explorado

 pelo Sculo XXI  o imenso labirinto do soma , da experincia corporal e viva

 dos indivduos humanos .
 E ns , do ltimo tero do sculo XX , fomos nomeados

 descobridores e cartgrafos desse continente somtico .
 Durante as prximas

 geraes , os indivduos humanos deixaro de pensar em si mesmos como mentes ou

 esprito ( em oposio aos corpos ) precisamente no grau em que eles comeam a

 descobrir-se na imediaticidade dos seus somas. "

 Isolando os elos mais prximos da complexa cadeia-em-reao que desemboca na

 mutao atual , T.Hanna analisa o pensamento de Heidegger com a " questo do

 Ser " ; de Nietzsche e a " nova conscincia do Super-Homem ou o Homem Total " ; de

 Freud e o " trauma do ovo " ; de Marx e a " comunidade dos corpos " , etc. , etc .
 E d

 nfase especial  " revoluo copernicana " realizada por Kant , como sendo a

 primeira manifestao da cultura somtica que o nosso sculo est construindo .

 E conclui :

 " ...
 as vrias falhas especficas de Kant no so nada em

 comparao com a revelao e a revoluo que ele provocou no

 nosso entendimento de ns mesmos e do mundo externo que

 experimentamos .
 Antes de Kant , havia apenas o mundo :

 soberano , onipotente e magnificente , enquanto jogava luz nas

 humildes cmaras fotogrficas humanas , to dependentes e vazias

 ( Descartes ) .
 Depois de Kant , a pequena caixa negra j no estava

 vazia nem colocada em humilde dependncia : tornara-se plena ,

 viva e palpitante de estruturas inexploradas , processos e

 possibilidades .
 Emmanuel Kant tinha descoberto o soma

 humano. "

 E neste momento voltamos a Fernando Pessoa .

 Realmente no parece ser muito difcil identificarmos aquela nsia incontida de

 expanso / fuso do Eu com a Totalidade do Espao / Tempo , que vimos mais atrs ,

 com a preocupao nuclear do pensamento em nossos tempos , que T.Hanna chama de

 " mutao somtica " .

 Mais uma vez provando a superioridade da arte em relao  filosofia , na

 intuio das novas realidades , Fernando Pessoa ( da mesma forma que Joyce ,

 Pound , Eliot , J.L.Borges , surrealistas , etc. , etc .
 ) antecipa , em sua poesia a

 mutao humano-cultural : a fuso eu / Mundo , hoje abertamente procurada e j em

 processo de concretizao .
 Essa nsia , ele a afirmou de mil maneiras .

 Em suas reflexes filosficas :

 " Tudo  sensao .
 Sensao compe-se do objeto sentido e da

 sensao propriamente dita. " " Arte  a auto-expresso forcejando

 por ser absoluta. "

 E em sua poesia , como em " Saudo a Walt Whitmann " :

 " Abram-me todas as portas

 Por fora que hei-de passar !

 / ...
 /

 Sou EU , um universo pensante de carne e osso , querendo passar ,

 E que h de passar por fora , porque quando quero passar sou

 Deus !

 / ...
 /

 Meus versos saltos , meus versos pulos , meus versos espasmos

 Os meus versos-ataques-histricos

 Os meus versos que arrastam o carro de meus nervos .

 Aos trambolhes me inspiro .

 MAL FERNANDO PESSOA , A DIALTICA DE SER

 E os meus versos so eu no poder estoirar de viver .

 / ...
 /

 No quero intervalos no mundo !

 Quero a contiguidade penetrada e material dos objetos !

 Quero que os corpos fsicos sejam uns dos outros como as almas

 No s dinamicamente , mas estaticamente tambm !
 "

 Nem  preciso anlise para se encontrar nessa torrente verbal , a nsia de

 expanso / fuso do Eu com o Mundo , com o Todo , nsia que , impossvel de ser

 vivida concretamente ,  vivenciada pela palavra potica .

 Um ser em metamorfose , mais pleno , mais completo  pressentido pelo poeta , como

 aquele que deve e pode corresponder as novas dimenses do mundo-sculo XX , onde

 novas regies se descobrem a cada passo .
 No ser por acaso que , no poeta

 sensacionista , proto-mutante , a principal fora dinamizadora , desse desejo

 avassalador de expanso / fuso , seja o erotismo que vibra atravs de todo o

 longo poema .
 E , na verdade , que outra fora existe , que d maior sensao de

 plenitude do que essa expanso / fuso ertica do eu com o outro ( e consigo

 mesmo ) ?
 Talvez a fora mstica , que Fernando Pessoa tambm desde o incio de

 sua criao potica tentou vivenciar em sua poesia esotrica .

 Esta foi a outra via tentada pelo poeta ( e talvez mais importante que a

 " sensacionista " ) , para " reconhecer " outras dimenses de ser e conhecer ,

 ansiadas pelo homem .
 Via essa que , embora se apresente quase sempre brumosa ,

 mostrando o corpo como exlio ou mergulhada na pr-cincia de vidas anteriores ,

 se identifica plenamente com o romper dos limites procurado pelos

 proto-mutantes e que , um dia , ser natural nos mutantes .
 Nesse sentido  de-se

 crer que a dramtica dicotomia ( corpo-esprito-universo ) nos sero

 desvendados , como a unidade essencial que , hoje , s a f ou a percepo mstica

 podem dar .

 Que Fernando Pessoa acreditava nessa unidade visceral ( que a cultura somtica

 um dia provar ...
 ) nos confirma um de seus mais belos poemas , " Eros e

 Psiqu " , onde o poeta desenvolve o conhecido mito do mesmo nome , que nos mostra

 a Alma despertada pelo Amor. ( Mito da Antiguidade Clssica que se vulgarizou

 na literatura popular medieval e vive at hoje na literatura infantil na

 estria da " A Bela Adormecida " ) .
 Alm de ser interpretado como uma teoria na

 alma , o mito Eros e Psiqu tem sido compreendido por muitos estudiosos , tambm

 como uma busca do conhecimento .
 Em Fernando Pessoa , para alm de seu sentido

 espiritualista e esotrico ( onde aquelas duas interpretaes confluem )

 pode-se perceber claramente o " pressentimento " mutante .

 Leiamos o poema :

 " Conta a lenda que dormia

 Uma Princesa encantada

 A quem s despertaria

 Um Infante , que viria

 De alm do muro da estrada .

 Ele tinha que , tentado ,

 Vencer o mal e o bem ,

 Antes que , j libertado ,

 Deixasse o caminho errado

 Por o que  Princesa vem .

 A Princesa Adormecida ,

 Se espera , dormindo espera .

 Sonha em morte a sua vida ,

 E orna-lhe a fronte esquecida ,

 Verde , uma grinalda de hera .

 Longe o Infante , esforado ,

 Sem saber que intuito tem ,

 Rompe o caminho fadado .

 Ele dela  ignorado .

 Ela para ele  ningum .

 Mas cada um cumpre o Destino

 Ela dormindo encantada ,

 Ele buscando-a sem tino

 Pelo processo divino

 Que faz existir a estrada .

 E , se bem que seja obscuro

 Tudo pela estrada fora ,

 E falso , ele vem seguro ,

 E , vencendo estrada e muro ,

 Chega onde em sono ela mora .

 E , inda tonto do que houvera ,

 A cabea , em maresia ,

 Ergue a mo , e encontra hera ,

 E v que ele mesmo era

 A princesa que dormia .

 ( maio 1934 )

 A metaforizao  clara , pois coincide com a " situao"narrada pelo mito : a

 princesa adormecida que seria despertada pelo prncipe que a encontrasse , e

 tambm todo o caminho da busca .
 Entretanto , a inverso operada por Fernando

 Pessoa , no final transformando o " Infante " na prpria " Princesa encantada " ,

 altera por completo a significao tradicional do mito , e abre uma outra

 possibilidade de resposta para essa eterna busca do homem .
 A da expanso / fuso

 somtica que o eu mutante sem dvida conhecer ...

 Todo o longo processo da procurarem que o homem est empenhado h milnios ,

 registra-se claramente nesse poema ( " Ele tinha que , tentado / Vencer o mal e o

 bem " ) .
 E tambm a certeza de que h o caminho para o encontro final e decisivo

 ( " Mas cada um cumpre o Destino / Ela dormindo encantada / Ele buscando-a sem

 tino / Pelo processo divino / Que faz existir a estrada. " ) , ao fim do qual as

 eternas dicotomias se resolvero em sntese ...

 O que resta de evidente , afinal ,  que " a estrada existe " para que a humanidade

 caminhe .
 Quem a faz caminhar ?
 e para onde ?
 so as perguntas que h milnios vem

 sendo colocadas e obtendo as mais diferentes respostas da Arte , da Filosofia ,

 da Cincia e da Religio ...
 Na cultura somtica ( ou qualquer nome que venha a

 ter , afinal ...
 ) haver , sem dvida , a sntese que Fernando Pessoa ( e outros

 como ele ...
 ) com sua Penalidade pressentiu ser possvel .

 Aguardemos que o tempo o revele ...
 Por enquanto , para meditarmos nas respostas

 que Fernando Pessoa tentou encontrar , em todos os minutos de sua vida , aqui

 temos a sua bela e desafiante produo potica .

 Fernando Pessoa foi um super-perceptivo e a preocupao com atingir uma nova

 conscincia-de-ser , de estar-no-mundo e de conhecer est presente de ponta a

 ponta em sua poesia .
 Mas , tal como os demais poetas ou pensadores entregues a

 tal problemtica , ele sabia que essa nova " conscincia " ou " percepo " no

 dependia apenas de uma aprendizagem intelectual , no poderia ser ensinada ou

 aprendida pela inteligncia , mas que resultaria de um processo de

 amadurecimento interior , de evoluo ou mutao : a que resultara da adaptao

 do homem ao novo ambiente cultural ( tecnolgico / eletrnico ) que ele prprio

 inventou , construiu e que agora o desafia ...

 Tal como a conscincia iluminada dos budistas ou zenbudistas , no se trata

 apenas de um novo entendimento intelectual das coisas , mas principalmente de

 uma nova vivncia , uma nova mentalidade , nova " gestalt " Ser a revoluo

 " somtica " , a que ultrapassar de muito a " revoluo kantiana " .

 E para a preparao da auto-conscincia que dever iluminar o caminho , a poesia

  um dos grandes mediadores ...
 Como disse Fernando Pessoa : " A finalidade da

 Arte  simplesmente aumentar a auto-conscincia humana. " Bem sabemos ( como ele

 tambm o sabia ) que arte no  s isso ...
 Entretanto , nestes tempos de

 mudana , e de rebaixamento geral da cultura essencial ao ser humano ,  bom que

 a encaremos assim ...

 Da Vinci , La Scapigliata Incio desta pgina Paulo bomfim

