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 labrys , estudos feministas

 nmero 3 , janeiro / julho 2003

 Os feminismos no Brasil : dos " anos de chumbo "  era global

 Margareth Rago

 Resumo :

 Este texto analisa a crescente participao das mulheres em todas as esferas de

 atividade na sociedade brasileira , observando a atuao dos movimentos

 feministas / de mulheres para a conquista destes espaos , territrio que tende a

 ser esquecido ou minimizado.Um histrico dos movimentos feministas no Brasil ,

 que promovem mudanas significativas nas relaes feminino / masculino e na

 prpria expresso da sexualidade  assim traado .
 Dos anos da ditadura militar

 a nossos dias , as diversas expresses dos movimentos feministas brasileiros so

 assim apontadas .

 Palavras-chave : movimentos feministas , sexualidade , sexismo , histrico .

 Um rpido olhar sobre as ruas e praas das cidades brasileiras logo

 destaca a crescente e colorida presena das mulheres , marcando fortemente uma

 diferena em relao ao passado .
 Os espaos pblicos se tornam menos

 constrangedores , percebe a observadora recm-chegada , concluindo que houve uma

 grande mudana nos hbitos e costumes da populao .
 Progressivamente tambm

 nota que nos postos de gasolina , nos restaurantes e bares , nas lojas , bancos ,

 empresas , nas escolas e universidades , ou nas delegacias , seu nmero aumentou

 consideravelmente , mesmo que , muitas vezes , no nos postos de comando .
 Ainda

 assim , uma mulher  a atual prefeita da maior cidade do pas e as negras

 comeam a compor o ministrio do governo de esquerda .

  bem possvel que se a observadora fizer entrevistas com muitas

 dessas mulheres , especialmente com as mais jovens , concluir que no se

 consideram feministas e que nem mesmo conhecem a histria do feminismo no

 Brasil , afinal este no  um pas onde o sentido histrico seja predominante .

 De qualquer modo , esse desconhecimento no deve lev-la a concluir que o

 movimento feminista no tenha tido um forte impacto sobre as estruturas

 socioeconmicas , sobre as instituies polticas e principalmente sobre o modo

 de pensar , no pas e que no esteja em plena ebulio ganhando cada vez maior

 nmero de adeptas , militantes e associadas .
 Alis , tentando satisfazer  sua

 possvel curiosidade , apresso-me a dar algumas pinceladas sobre a histria do

 movimento feminista brasileiro das ltimas dcadas .

 Quarenta anos depois da conquista do direito feminino de voto no

 Brasil , em 1932 , mas tambm da vitria dos padres normativos da ideologia da

 domesticidade , entre os anos trinta e sessenta , assistimos  emergncia de um

 expressivo movimento feminista , questionador no s da opresso machista , mas

 dos cdigos da sexualidade feminina e dos modelos de comportamento impostos

 pela sociedade de consumo .
 No contexto de um processo de modernizao

 acelerado , promovido pela ditadura militar e conhecido como " milagre

 econmico " , em que se desestabilizavam os vnculos tradicionais estabelecidos

 entre indivduos e grupos e a estrutura da familiar nuclear , as mulheres

 entraram maciamente no mercado de trabalho e voltaram a proclamar o direito 

 cidadania , denunciando as mltiplas formas da dominao patriarcal .

 Tambm homossexuais masculinos e femininos se organizaram , ao

 lado de outras " minorias " sociais , e se manifestaram em movimentos polticos

 reivindicando o " direito  diferena " e questionando radicalmente os padres

 dominantes da masculinidade e da feminilidade .
 O movimento negro fortaleceu-se ,

 invadindo os espaos pblicos das universidades s praas , defendendo o " black

 is beautiful " , e colocando em cena as novas exigncias e crticas das mulheres

 negras , diferenciando-se , por sua vez , das demandas dos feminismos " brancos " .

 A contrapartida  violenta ditadura militar foi a exploso de uma vigorosa

 cultura da resistncia , que se expressou na crtica poltica ao regime , a

 exemplo das composies musicais de Geraldo Vandr , Chico Buarque de Holanda ,

 Milton Nascimento , Caetano Veloso e Gilberto Gil , assim como na proposta de

 modos alternativos e libertrios de vida em sociedade , a exemplo do movimento

 hippie .
 Inicialmente dirigida ao regime militar , a " revoluo cultural " em

 curso nas dcadas de sessenta e setenta , no pas , estendeu seus questionamentos

  sociedade burguesa mais ampla , encontrando vrias correntes do pensamento

 internacional envolvidas com a crtica  modernidade .

 Assim , paradoxalmente , no mesmo momento em que se vivia aqui uma violenta

 represso poltica e cultural , que afetava radicalmente a vida pblica ,

 cerceando a palavra e a ao , desfazendo os antigos espaos de sociabilidade e

 interao social , assistia-se  emergncia de novas formas de produo

 cultural , tanto nos setores ligados s lutas da resistncia , quanto entre os

 mais indiferentes , ou mesmo comprometidos com a ditadura militar .

 Multiplicavam-se os espaos culturais e desportivos , tanto dos que pregavam o

 " culto californiano do corpo " , quanto dos que criticavam as formas sociais

 aburguesadas e que , inspirados pelos orientalismos , recorriam  yoga , aos

 relaxamentos teraputicos , aos tratamentos psicolgicos e psiquitricos , 

 alimentao macrobitica e naturalista .

 A classe mdia urbana , em especial , passou a solicitar e desfrutar das inmeras

 formas de tratamento psicolgico , ao viver de maneira brutal a ruptura de

 antigos padres de relaes familiares , a quebra dos antigos modos de

 sociabilidade e a destruio da esfera pblica e das antigas formas de convvio

 e solidariedade. ( Figueiredo , 1994 )

 Nesse contexto de crise e de construo de novos modelos de subjetividade ,

 desde os anos setenta , emergiu o " feminismo organizado " , como movimentos de

 mulheres das camadas mdias , na maioria intelectualizadas , que buscavam novas

 formas de expresso da individualidade. ( Goldberg , 1986 ) Em luta contra a

 ditadura militar , defrontavam-se com o poder masculino dentro das organizaes

 de esquerda , que impediam sua participao em condies de igualdade com os

 homens nos movimentos ento construdos .

 Assim , as primeiras organizadoras dos grupos e jornais feministas , em meados

 daquela dcada , iniciaram um movimento de recusa radical dos padres sexuais e

 do modelo de feminilidade que suas antecessoras haviam ajudado a fundar , nos

 incios do sculo 20 .
 Mais do que nunca , as feministas colocaram em questo o

 conceito de mulher que a afirmava enquanto sombra do homem e que lhe dava o

 direito  existncia apenas como auxiliar do crescimento masculino , no pblico

 ou no privado .

 Fora do feminismo , mas tambm influenciadas por ele , surgiam outras revistas

 destinadas ao pblico feminino mais amplo , como as revistas NOVA e MAIS , da

 Editora Abril Cultural , inspiradas nos padres jornalsticos norte-americanos ,

 que propunham novas linguagens em relao ao corpo e  sexualidade das mulheres

 e uma reflexo que , embora construda nos marcos de um pensamento contestador ,

 avanaram a discusso de assuntos considerados tabus , como o sexo e o orgasmo

 da mulher. ( Moraes e Sarti , 1980 )

 - o feminismo rebelde

 Paralelamente aos movimentos sociais que se levantavam contra a ditadura

 militar , - como o movimento das mulheres que se organizava na periferia das

 principais cidades - mas que no inclua em sua agenda as bandeiras do

 feminismo - , as feministas propuseram-se , desde meados dos anos setenta , a

 denunciar a dominao sexista existente inclusive no interior dos grupos

 polticos , de sindicatos e partidos de esquerda. ( Alvarez , 1988 ) Marcadas por

 uma experincia poltica de oposio , j que muitas eram ex-ativistas polticas

 e vinham do exlio forado no exterior , ou ento , das prises , entenderam que o

 movimento pelos direitos das mulheres , no Brasil , deveria ser diferenciado e

 no subordinado s lutas que despontavam em mltiplos espaos sociais e

 polticos pela redemocratizao no pas .

 Acima de tudo , as primeiras feministas brasileiras questionavam radicalmente as

 relaes de poder entre os gneros , que se estabeleciam no interior dos grupos

 polticos de esquerda e lutavam para impedir que a dominao machista fosse

 diluda ou subsumida pelo discurso tradicional da Revoluo .
 No entanto , muitas

 traziam uma referncia ideolgica marxista , a partir da qual pensavam as

 relaes entre os sexos .

 Assim , logo que estabeleceram as estratgias e tticas de seu movimento ,

 definiram que o alvo maior de sua preocupao deveria ser as trabalhadoras ,

 consideradas no como o setor mais oprimido socialmente , mas como as

 principais portadoras da Revoluo Social .
 Os dois principais jornais

 feministas fundados no perodo - o BRASIL MULHER , do grupo homnimo de

 Londrina , que circulou entre 1975-1980 e o NS , MULHERES , da Associao de

 Mulheres de So Paulo , publicado entre 1976-1978 - visavam conscientizar as

 trabalhadoras pobres , iniciando-as numa linguagem marxista , inicialmente

 destinada a pensar a luta entre as classes sociais , e no precisamente a

 " guerra entre os sexos " .

 Esta postura obedecia a algumas estratgias polticas : de um lado , obter o

 reconhecimento social de um movimento que colocava as mulheres como alvo

 principal ; de outro , conseguir a aliana dos demais setores da esquerda ,

 envolvidos na luta pela redemocratizao , onde os homens davam as cartas e

 enunciavam um discurso poltico bastante caracterstico .
 Alm do mais , nesse

 momento , o marxismo ainda era considerado o principal instrumento terico de

 anlise no campo da poltica revolucionria .

 O feminismo , nesse contexto , procurou pautar-se pela linguagem predominante na

 esquerda do pas , dominando no apenas os conceitos marxistas , mas procurando

 provar como , em cada uma das questes levantadas pelos lderes e partidos

 polticos , era possvel tambm perceber a dimenso feminina .
 Em suma , falando a

 linguagem marxista-masculina , as feministas esforaram-se para dar legitimidade

 s suas reivindicaes , para valorizar suas lutas e apresentarem-se como um

 grupo poltico importante e digno de confiana .
 Por isso , o editorial de NS

 MULHERES , publicado a 7 de maro de 1978 , propunha :

 " Que as coisas fiquem claras : mantemos a firme convico de que existe um

 espao para a imprensa feminista , que denuncia a opresso da mulher brasileira

 e luta por uma sociedade livre e democrtica .
 Acreditamos que a liderana da

 luta feminista cabe s mulheres das classes trabalhadoras que no s so

 oprimidas enquanto sexo , mas tambm exploradas enquanto classe. "

 A idia de que o conceito de classe deveria ser priorizado em relao ao de

 sexo revelava , portanto , que a apropriao da linguagem masculina , marxista ou

 liberal , era fundamental para se conseguir a aceitao na esfera pblica

 masculina , que progressivamente se reconstitua .
 Era , portanto , uma estratgia

 de reconhecimento poltico e social fundamental num momento em que as barreiras

 para a entrada das mulheres no mundo da poltica eram pesadas demais , seja as

 impostas pela ditadura militar , seja as criadas pela prpria dominao

 masculina , de esquerda ou de direita .

 As feministas se colocavam , assim , segundo a perspectiva marxista-leninista ,

 como vanguarda revolucionria do movimento das mulheres , necessria para

 orientar as trabalhadoras em sua " misso histrica " , parafraseando o que a

 esquerda repetia em relao s suas tarefas para com o proletariado .

 Articulavam-se para fora , deste modo , com os outros movimentos de luta pela

 redemocratizao no pas e , deste modo , eram legitimadas .

 Na segunda metade da dcada de setenta e incios de oitenta , nasceram inmeros

 grupos feministas , mais ou menos prximos do campo marxista e dos grupos

 polticos de esquerda , ao mesmo tempo que abertos para os novos horizontes

 tericos e polticos que se abriam no pas , sobretudo com os " novos " movimentos

 sociais .
 Assim como outros grupos denominados de " minorias " , as feministas

 buscavam criar uma linguagem prpria , capaz de orientar seus rumos na

 construo da identidade das mulheres como novos atores polticos .

 Desta experincia , surgiram inmeras associaes feministas no pas , como o

 Centro Brasileiro da Mulher , no Rio de Janeiro , a Associao de Mulheres , de

 So Paulo , futuramente denominada " Sexualidade e Poltica " , o Coletivo

 Feminista do Rio de Janeiro , o Coletivo Feminista de Campinas , SOS Violncia de

 So Paulo , o SOS Campinas , o SOS Corpo , no Recife , o Maria Mulher , em Joo

 Pessoa , o Braslia Mulher , o Brasil Mulher , o Grupo " Sexo Finalmente

 Explcito " , o Centro de Informao da Mulher - CIM , de So Paulo , entre outros .

 Todos eles mesclavam ex-militantes partidrias , marxistas e ex-marxistas , com

 feministas das novas geraes que defendiam prioritariamente as " polticas do

 corpo " e as questes da sexualidade .
 A despeito das tendncias polticas

 diferenciadas , estes grupos buscavam total autonomia em relao aos partidos

 polticos de esquerda , como o PT - Partido dos Trabalhadores , que acabava de

 ser fundado , embora muitas ativistas fossem tambm militantes partidrias .

 - a " exploso desconstrutivista " nos anos 80

 Somente depois desse primeiro momento de afirmao do feminismo enquanto

 movimento social e poltico que lutava pelos direitos das mulheres , mas que

 tambm se colocava na luta pela redemocratizao do pas ,  que as feministas

 passaram a propor uma nova concepo da poltica , ampliando os prprios temas

 que constituam o campo das enunciaes feministas na esfera pblica .

 Assim , questes antes secundarizadas como essencialmente femininas e relativas

  esfera privada , isto  , no pertencentes ao campo masculino da poltica - a

 exemplo das relativas ao corpo , ao desejo ,  sexualidade e  sade - foram

 politizadas e levadas  esfera pblica , a partir da utilizao de uma linguagem

 diferenciada , que alm do mais , permitia enunci-las .
 Nesse momento de crtica

 acentuada  racionalidade ocidental masculina , j no mais definida apenas

 como burguesa , partiu-se para a afirmao do universo cultural feminino , em

 todas as dimenses possveis .
 Isto implicava , no campo conceitual , a emergncia

 de uma linguagem especificamente feminina e daquilo que se considera como uma

 " epistemologia feminista " , suficientemente inovadora em suas problematizaes e

 conceitualizaes , para apreender as diferenas. ( Rago , 1998 )

 Por vrios lados , as feministas passavam a feminizar-se valorizando a linguagem

 feminina , os atributos e os temas femininos , o que significava mais do que um

 simples retorno aos seus valores prprios , um alargamento do campo conceitual ,

 atravs do qual teciam suas crticas  sociedade patriarcal capitalista ,

 revelando suas armadilhas e limitaes .
 Mais do que nunca , passaram a pensar

 em si mesmas sob uma tica prpria , dando visibilidade ao que antes fora

 escondido e recusado , o que inevitavelmente levou a uma radicalizao da

 potencialidade transformadora da cultura feminista em contato com o mundo

 masculino .
 Tratava-se , ento , no mais de recusar o universo feminino , mas de

 incorpor-lo renovadamente na esfera pblica , o que se traduziu ainda por

 forar um alargamento e uma democratizao desse mesmo espao .

 As questes do mundo privado , da subjetividade , da famlia , da sexualidade , das

 linguagens corporais ganharam visibilidade e dizibilidade , podemos dizer ,

 tomando de emprstimo alguns termos de Deleuze , tanto na prtica cotidiana dos

 grupos feministas , quanto nos debates acadmicos e nas reunies dos militantes .

 O distanciamento do discurso marxista-masculino , por sua vez , facilitou a

 incorporao de temas tabus como os referentes s emoes , ou  moda e , por

 conseguinte , a procura de novos conceitos capazes de enunci-los e

 interpret-los .
 Estes foram buscados , sobretudo , no campo conceitual que vinha

 sendo proposto pelas correntes do pensamento ps-moderno , a exemplo do conceito

 de " desconstruo " de Derrida , ou das noes de " poder disciplinar " e de

 " subjetivao " , trabalhadas por Foucault .

 A ampla crtica cultural feminista no deixou de lado as prprias

 representaes do feminismo , veiculadas na imprensa alternativa de esquerda ,

 especialmente a partir da publicao do jornal MULHERIO , entre 1981 e 1988 .
 A

 antroploga Eliane Robert Moraes , por exemplo , num sugestivo e inteligente

 artigo perguntava-se " Feminista  Mulher ?
 " , endereando suas crticas tanto aos

 " rapazes " do jornal O Pasquim , para as quais as feministas s poderiam ser

 mulheres feias e mal-amadas , quanto s prprias feministas que reforavam uma

 imagem negativa de si mesmas .
 Enfim , perguntava-se por que lutar pela

 autonomia feminina implicava numa dessexualizao e num certo embrutecimento da

 mulher .
 O prprio jornal , em edio de maro-abril de 1981 , explicava seu

 ttulo , afirmando :

 " Por que Mulherio ?
 Mulherio .
 Quase sempre a palavra  empregada em sentido

 pejorativo , associado a histerismo , gritaria , chatice , fofocagem , ou ento ,

 " gostosura " .
 Mas qual  a palavra relacionada  mulher que no tem essa

 conotao ?
 ( ...
 )

 Mulherio , por sua vez , nada mais  do que " as mulheres " .
 E ' o que somos ,  o

 que este jornal ser .
 " Sim , ns vamos nos assumir como Mulherio e , em conjunto ,

 pretendemos recuperar a dignidade , a beleza e a fora que significam as

 mulheres reunidas para expor e debater seus problemas .
 De uma maneira sria e

 conseqente , mas no mal-humorada , sisuda ou dogmtica. "

 Enfim , nesse novo feminismo , a esttica , os cuidados de si , a sade e a beleza

 do corpo passavam a fazer parte do leque temtico sem , contudo , significar uma

 adeso acrtica aos ideais de beleza veiculados pela mdia .
 Muito ao contrrio ,

 passavam a compor as discusses relativas  sade , vista agora numa perspectiva

 ampliada .
 Assim , vrios artigos discutiam que tipo de beleza as feministas

 desejavam ( " A beleza produzida " , " Espelho , espelho meu " , de Sivia Beck ) ,

 enquanto a psicanalista Maria Rita Kehl questionava a aceitao / negao

 machista do corpo feminino , aceito apenas enquanto expresso de um determinado

 padro esttico :

 <

 " Se os homens afirmam que vm na mulher antes de mais nada belos contornos ,

 considero isso como um empobrecimento de sua capacidade de olhar e ver .
 Estou

 convencida de que nosso olhar sabe encontrar no homem sinais do que ele  , alm

 dos contornos de sua musculatura. " ( KHEL , Maria Rita .
 Mulherio , ano 2 , no .5 ,

 jan-fev .1982 , p .14-15 ) .

 A psicanalista feminista reforava sua crtica observando como para ser ao

 mesmo tempo " moderna e atraente dentro dos padres da boneca de luxo de

 antigamente " , as mulheres precisavam consumir muito mais , no interior de um

 sistema de referncias ditadas pelo mundo masculino , em que o corpo feminino

 deveria ser gil , limpo , magro , cheiroso e rgido .
 Propunha radicalmente " a

 subverso de nossos conceitos estticos " :

 " A maior beleza  a do corpo livre , desinibido em seu jeito prprio de ser ,

 gracioso porque todo ser vivo  gracioso quando no vive oprimido e com medo .

 E ' a livre expresso de nossos humores , desejos e odores ;  o fim da culpa e do

 medo que sentimos pela nossa sensualidade natural ;  a conquista do direito e

 da coragem a uma vida afetiva mais satisfatria ;  a liberdade , a ternura e a

 autoconfiana que nos tornaro belas .
  essa a beleza fundamental. " ( idem )

 O repensar das prticas feministas levou , ainda ,  deciso de abrir os guetos

 feministas e encontrar os inmeros canais disponveis e outros movimentos que

 ocorriam na sociedade .
 As feministas ampliaram seu raio de atuao , entrando

 nos sindicatos , partidos , espaos de diferentes entidades da sociedade civil e ,

 sobretudo , no " movimento de mulheres " , que se articulara , desde os anos

 setenta , na periferia de algumas cidades , como em So Paulo , apoiado pela

 Igreja de esquerda e pelos grupos polticos envolvidos na luta pela

 redemocratizao .

 Esse movimento , embora mobilizasse um nmero excepcionalmente grande de

 mulheres , no levantava questes feministas como bandeira de luta .
 Lutava por

 creches , por transportes urbanos , por melhores condies de vida sem , contudo ,

 serem includas questes femininas importantes , como o aborto e a violncia

 sexual contra as mulheres , temas bastante pertinentes nos meios pobres e ricos .

 Assim , o contato que se estabeleceu entre os dois movimentos liderados pelas

 mulheres - o movimento feminista e o movimento de mulheres - foi certamente

 muito lucrativo para todas .
 Para as feministas , porque passavam a atingir uma

 rede muito mais ampla de mulheres ; para as mulheres pobres da periferia , porque

 lhes traziam questes que dificilmente seriam enunciadas espontaneamente , como

 as referentes  moral sexual , ao corpo e  sade .
 Fundamental nessa associao ,

 o feminismo desenvolveu e ampliou suas bandeiras de luta , dando destaque s

 questes da violncia contra as mulheres e dos direitos reprodutivos .

 Vale lembrar que , nesse perodo , e como parte de seu prprio processo de

 abertura aos diferentes canais de participao social e poltica , o feminismo

 tambm se caracterizou por iniciar um dilogo com o Estado , sobretudo a partir

 de 1982 , com a criao do Conselho Estadual da Condio Feminina , em So Paulo .

 Em 1985 , surge a primeira Delegacia Especializada da Mulher .

 Para muitas , isto significou um enorme perigo de institucionalizao dos

 movimentos feministas , ameaados de ser absorvidos pelo Estado

 " ps-autoritrio " , mas ainda machista , enquanto outras julgaram os benefcios

 que da poderiam resultar .
 Assim , se de um lado foram implementados

 determinados programas de ao como o PAISM - Plano de Assistncia Integral 

 Sade da Mulher - em 1984 , a partir das propostas feministas de cuidados com o

 corpo e a sade , de outro , vrias feministas apontaram para as dificuldades de

 implementao efetiva do programa , que no contava com o apoio necessrio do

 Estado .

 - questes de gnero

 Sem dvida , so enormes as conquistas realizadas pelos feminismos em todos os

 campos da vida social , ao longo dessas dcadas , especialmente no que se refere

  aceitao das mulheres no mercado de trabalho e ao seu reconhecimento

 profissional .
 Alm disso , as mulheres tm reivindicado cada vez mais seus

 direitos de cidadania e aberto novas formas e espaos de luta .
 Cresceram e tm

 crescido os grupos feministas , como o Coletivo das Mulheres Negras da Baixada

 Santista , o Geleds - Instituto da Mulher Negra e o Criola , que defendem a

 causa das mulheres negras .
 Surgiram inmeras ONGS feministas , das quais se

 destacam a REDEH - Rede de Desenvolvimento Humano , o CFEMEA - Centro Feminista

 de Estudos e Assessoria , o SOF - Sempre Viva Organizao Feminista e a Unio

 das Mulheres , em So Paulo , entre outras .
 Inmeros ncleos de pesquisas sobre

 as mulheres e as relaes de gnero tm impulsionado pesquisas no s sobre as

 questes femininas , mas direcionadas tambm para os estudos da masculinidade ,

 nas universidades brasileiras .
 Deste trabalho , resultam algumas importantes

 publicaes , como a Revista de Estudos Feministas , atualmente vinculada 

 Universidade Federal de Santa Catarina e os Cadernos Pagu , na Universidade

 Estadual de Campinas .
 Enfim , as mulheres se afirmam no mundo pblico , revelando

 uma criatividade e uma potencialidade indiscutveis , feminizando

 indubitavelmente a cultura ocidental .

 Por outro lado , no h como negar o fato de que todas as conquistas

 arduamente ganhas ao longo dessas ltimas dcadas pelos feminismos no esto

 consolidadas .
 Ao contrrio , so continuamente ameaadas por presses machistas

 as mais conservadoras .
 Uma das principais queixas das " novas mulheres " , em

 geral ,  a dupla jornada do trabalho e o acirramento da competio no mundo

 masculino .
 As duas questes no podem ser dissociadas , se considerarmos que a

 exigncia da qualidade do trabalho feminino ainda  muito maior do que a que se

 d em relao aos homens .
 As mulheres ainda pagam um alto preo por

 participarem da vida pblica , como continuam a denunciar as feministas .
 Na

 verdade , a libertao feminina acarretou um aumento muito grande do trabalho

 feminino , especialmente para as casadas ou com filhos .
 A guerra entre os sexos

 no terminou e , alis , se acentua nos novos fronts : o profissional e o afetivo .

 Contudo , e a despeito do pessimismo suscitado pelo conservadorismo

 de nossos tempos , os feminismos , seja enquanto modo de pensamento , seja

 enquanto conjunto de prticas polticas , sociais e sexuais , tem contribudo

 enormemente para a crtica cultural contempornea .
 Para alm da desconstruo

 de configuraes ideolgicas , conceituais , polticas , sociais e sexuais que

 organizam nosso mundo , os feminismos deram visibilidade s formas perversas

 da excluso que operam no mundo pblico .
 Ao mesmo tempo , propuseram formas

 alternativas de organizao social e sexual fundamentais para a construo de

 relaes mais igualitrias no apenas entre os gneros , j que se trata

 fundamentalmente da construo de um novo conceito de cidadania , num campo em

 constante mutao .
 Finalmente , h que se destacar a enorme contribuio

 feminista  cincia , introduzindo as discusses no apenas relativas s

 mulheres , mas ampliadas s questes do gnero , e mais do que isso ,

 transformando radicalmente o modo de pensamento , com suas problematizaes

 diferenciadas .

 A observadora j pode se retirar , percebendo que a " mulher pblica "

 no Brasil do sculo 21 deixou de referir-se  prostituta , associao , alis , da

 qual atualmente quase ningum mais se lembra ...

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 1.Moraes , Maria Lgia Quartim de - FAMLIA E FEMINISMO : Reflexes sobre os

 Papis Femininos na Imprensa para Mulheres .
 S.Paulo : tese de doutoramento ,

 FFLCH / USP , 1980 ?

 2.Goldberg , Anette - FEMINISMO E AUTORITARISMO : A Metamorfose de uma utopia de

 liberao em ideologia liberalizante , dissertao de mestrado , Rio de

 Janeiro : UFRJ , 1987

 3.Pontes , Helosa - DO PALCO AOS BASTIDORES : O SOS Mulher e as Prticas

 Feministas Contemporneas , dissertao de mestrado , UNICAMP , 1986

 4.Gregori , Maria Filomena - VIOLNCIA CONTRA A MULHER : A Prtica do SOS-MULHER

 ( SP ) , Cenas e Queixas , dissertao de mestrado em Antropologia - Unicamp ,

 1988 ; CENAS E QUEIXAS , Paz e Terra , 1993

 5.Duarte , Constncia - NSIA FLORESTA : Vida e Obra , tese de doutoramento , USP ,

 1991

 6 .
 Bicalho , Maria Fernanda - A IMPRENSA FEMININA E A LUTA PELO SUFRGIO NA

 PRIMEIRA REPBLICA , dissertao de mestrado , UFRJ , 1991

 7 .
 Oliveira , Eleonora Menecucci - A REAPROPRIAO DO CORPO FEMININO : da recusa

 ao confinamento domstico  inveno de novos espaos de cidadania .
 Tese de

 doutoramento , USP , 1990 .

 8 .
 Citelli , Maria Tereza - MULHERES E DIREITOS REPRODUTIVOS NA PERIFERIA :

 Releitura Feminista de um Movimento de Sade , dissert. de mestrado , USP , 1994 .

 9 .
 Trindade , Etelvina Maria de Castro - CLOTILDES E MARIAS. Mulheres de

 Curitibana Primeira Repblica , tese de doutoramento , USP , 1992 .

 10 .
 Lima , Sandra Lcia Lopes - ESPELHO DE MULHER : REVISTA FEMININA ( 1916-1925 ) ,

 tese de doutoramento , Histria / USP , 1991 .

 11 .
 Montenegro , Maria Thereza Torres - UMA ORGANIZAO NO-GOVERNAMENTAL

 FEMINISTA : O Mulherio , mestrado em Psicologia Social , PUC / SP , 1992 .

 12 .
 Panades , Snia Missagia Matos - POLTICA E PAIXO : Lou Andreas Salom e a

 Construo do Sujeito Poltico Feminino .
 Dissert. de mestrado , MG , 1993

 13.Bustamante , Paola de Menezes-CARMEN DOLORES : Configuraes da luta atravs da

 crnica .
 UFRJ , 1993 .

 14 .
 Telles , Norma - ENCANTAES .
 Escritoras e Imaginao Literria no Sculo

 XIX , doutoramento , PUC / SP , 1986 .

 15 .
 Soihet , Rachel - Bertha Lutz e a Ascenso do Feminismo no Brasil. dissert .

 Mestrado , 1974 .

 Dados biogrficos :

 Margareth Rago  professora livre-docente do Departamento de Histria do IFCH

 da Universidade de Campinas , Unicamp .
  coordenadora do Grupo de Estudos

 Foucaultianos e da Linha de Pesquisa Histria , Cultura e Gnero do Programa de

 Ps-Graduao em Histria deste Depto .
 Foi professora-visitante no Departamento

 de Histria do Connecticut College , nos Estados Unidos , pela Comisso

 Fulbright.Publicou vrios livros : O que  Taylorismo ?
 , Brasiliense , 1984 ; Do

 Cabar ao Lar .
 A utopia da cidade disciplinar , Paz e Terra , 1985 ; Os Prazeres da

 Noite.Prostituio e Cdigos da Sexualidade Feminina em So Paulo , Paz e

 Terra , 1989 ; Narrar o Passado , Repensar a Histria , com Renato Aloisio Gimenes

 , Unicamp , 2000 e Entre a Histria e a Liberdade .
 Luce Fabbri e o Anarquismo

 Contemporneo , ED.da Unesp , 2001

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