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 Ouro Preto , a capital da Estrada Real Ouro Preto ( MG ) :

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 Mais para a direita um casal de turistas , procura o melhor ngulo para a

 fotografia .
 A cidade amanhece embriagada da noite anterior ; garrafas de

 champanhe barata , tocos de cigarro ao cho , pessoas ...
 todos cmplices do

 eterno passar dos tempos e modificar dos nmeros em meio  balbrdia de cores ,

 formas , fogos , gritos e contagem regressiva .

 De tempos em tempos , resolvem comentar sobre a cidade de Ouro Preto .
 Mesmo

 outrora , quando se viu e ousou pela primeira vez , vestir a at ento frgil ,

 porm mui graciosa Vila Rica ; sinhazinha dos trpicos , infante brasileira -

 ostentando-a a partir de ento , com o nobre ttulo de Cidade Imperial - ao

 desfrute do senhor Pedro .

 Antes tivessem deixado-a como estava , sem o peso desta coroa , caindo  sorte

 como as outras urbs tupiniquins , que ao contrrio de Lisboa , entraram logo nas

 faces americanas .
 Porm , j ao consumar dos fatos , a jovem senhora , deveria e ,

 muito bem comportada seguir seu caminho , no podendo jamais aderir s modas ,

 desfrutes e cousas de pocas mais modernas .

 Inversamente do que se pensara , ou at em vo sonhara , a distinta por assim

 dizer , seguiu os maus passos ( influncias internas e de outras raparigas que se

 perderam ao longo da vida ) , levando-a a j alta idade , uma aparncia um pouco

 como tanto conturbada , mostrando signos e marcas do tempo que no freia ,

 embaciando toda a glria e frescor que antes  acompanhara .

 Recentemente , a famosssima e ovacionada revista norte americana National

 Geographic , publicou em sua edio de novembro do ano passado , uma relao com

 os 730 lugares mais preciosos do planeta ; entre as naes detentes de grandezas

 incontestveis , o Brasil , era apresentado por uma simplria , porm dignssima

 lista de suas prolas mais vivaces .
 Em meio a selvas e reservas , destacava-se

 em primeiro lugar a barroca e porque no dizer surrealista Ouro Preto .
 E l ,

 dizia : no apenas o centro histrico , mas sim , toda a cidade .
 Infelizmente ,

 pode-se dizer , que os olhares destes senhores encontram-se saudosistas .
 Mas

 agradecemos por se lembrarem de ns .

 Desculpem-me professores de turismo , mestres e doutores de arquitetura e

 urbanismo ou qualquer outro lecionador das diversas faculdades mentais de todo

 o pas e , abrangendo aos leitores , gente de todo o mundo .
 Sejamos pessimistas !

  fato , que nunca uma cidade , seja nestas terras ou qualquer outra mais ao

 norte ou ao sul , se cristalize .
 As cidades so vivas , esto em constante

 movimento , so geis , frteis e progressivas , mesmo que para tudo isso fira

 algumas partes de seu corpo , deixando cicatrizes num canto e bolhas de proteo

 noutros .
 Assim como tantas outras , Ouro Preto , no poderia vestir-se  carter

 por toda a eternidade - sbia ou no , mutaes so conseqncias de seus

 relacionamentos - desde o incio do sculo XX e at mesmo o fim dos oitocentos ,

 as entranhas desta carne , j se encontrava em algumas partes , em estado de

 putrefao ; as nossas futuras heranas , caam diante dos nossos pais , mas eles

 queria novidades e deixavam o pau-a-pique vir a baixo .
 O nosso ver e sentir em

 relao ao passado no  o mesmo para os que no se encontram , os

 contemporneos .

 A cidade ao nosso presente e em outros presentes , se codificou histrica .
 Muito

 j se foi , unido s guas dos rios , das chuvas e dos nossos sobrenomes .
 Hoje ,

 s h p !

 Um esfumaado contorno urbano , cheio de furnculos ; uma tuberculose

 arquitetnica .
 Ouro Preto j no era , e nem  mais , uma espiritualidade

 superior segura ...
 sempre carregou um peso , um carma , um mal olhado ; se este

 atualmente no se encontra entre ns , certamente est debaixo da terra rindo de

 todos .
 Ser necessrio mais do que f para apaziguar estes monstros ; criamos

 canibais e estes esto por toda  parte , inclusive no fazer andar e retroceder

 das coisas e apontar dos dedos .

 H muito tempo , ecoa-se gritos e splicas ; desesperos alheios .
 Sempre ouve-se

 uma voz mesmo j partida sentindo as dores e talvez sem sentido , tentando

 renovar a carga emocional .
 J se pediu muito , j se ajoelhou muito , j se

 rastejou muito e nada foi feito .
 O poeta trbado , e sem ser notado , suspira

 pelos cantos refletido em outros copos de fonte clara e sofrida .
 O verbo gasto

 do novamente bocejar dos arcanjos dizem palavras do sbio : Meus amigos , meus

 inimigos , salvemos Ouro Preto !

 Ao pisar dos dedos , pedimos que nos ajudem , no s mais esta tormenta que c

 suplica h anos ; outras prolas da ironia mundial , implora vida antes que caiam

 aos pedaos .

 Uma cidade possui muitas cidades .
 Uma rua no  uma rua , uma casa no  uma

 casa , e assim que se confirma as certezas , nos deparamos com o nada em

 absoluto .
 Afinal , qual o motivo de tanta gritaria ?

 Abraos em praas pblicas , lgrimas , velas , imagens no cristal lquido ; tudo

 ao fim dever ruir .
 Por que ento no deitar sob o seu corpo que j quer

 dormir ...

 Ouro Preto  o pulsante de seus filhos e de outros parentes .
 Terra de ningum ,

 de fantasmas , de doidos que andam por suas ruas , dormem em suas camas , comem em

 seus pratos e nada pagam .
 Ouro Preto  doena .

 A cidade j no tem mais trem nem estao , j no tem casaro , j no tem

 chafariz , j no tem , e se pensarmos bem , nunca teve prefeitura ; o passado hoje

 esbarra com o povo .
 Povo medocre , alguns , indesfrutados de inteligncia ,

 outros e por fim sonhadores como eu que ousa dizer algo .

 Barganha , favela colonial dita por uns tantos .
 Comrcio de camels ao p de

 sobrados , pobreza exagerada , cortio .
 A roupa suja se espalha entre suas

 montanhas que j no tem mais ouro .
 Festas populares , olhos esbugalhados ,

 atitudes repugnantes , manifestaes , bandeiras vermelhas .
 Onde andar o

 pitoresco ?
 O licor , o cigarro de palha , as pedras , os fuxicos , por onde

 andaro ?
 Cad a tradio ...
 foi-se minimizada por mquinas sonoras que anunciam

 promoes de ponta de estoque , ou caminhes , ou placas cor-de-laranja ,

 estruturas metlicas , parablicas , cartazes pregados em nossas clulas ;

 poluio sonora , visual , estrutural , funcional , humana .

 Tudo acabou .
 No tem mais cavalos , no tem poesia-viva , nem mesmo flores - h

 apenas as de R$ 1,99 - e este  o preo atual de nosso presente .
 Nossa vila

 desordenada precisa ser s pressas radical ; acabar de vez com tudo que lhe 

 estranho .
 Formar mfias ; chega de beijar esttuas , suplicar em pontes ; no

 queremos ser elitistas , mas continuaremos no entanto apreciando Bach , ou

 qualquer um dos nossos mentores no-europeus .
 Nossas razes , nosso Brasil .

 Banana , Carmem Miranda , futebol , samba e feijoada ; cachaa com torresmo e quem

 sabe um vinhozinho toscano ( no somos bom em tudo ) .
 Tudo de bom ,  bem-vindo ,

 simplesmente porque Ouro Preto  nica e , Bahia j so muitas .
 Vamos fazer a

 diferena !

 Chega de modinhas ; o olhar paras estes campos deve ser outro , algo mais

 passional ou at mesmo racional .
 Guetos para a podrido e tristezas da nossa

 cultura .

 Mas quem haver de ensinar os nosso filhos o verdadeiro congado solto pelas

 ruas , unido  instrumentos fardados .. no seria favor para turistas , mas para

 ns mesmos.Ignoramos , sem nos preocuparmos .
 O povo entender , ou ento

 viraremos uma cidadezinha qualquer , para no citar todas as que nos cercam .

 Perderemos a coroa , os ttulos , mas nunca deixaremos ( os poucos que restam ) , de

 sermos nobres .

 Ao fim no nos emolduremos em muralhas ou principados , somos uma cidade aberta ,

 com identidade ambgua , mas incompreendida .
 Porm , ao momento estabelecido ,

 deixaremos quele casal da Transdniestria comprar o postal , pois o flanar

 envolvente visto na revista de viagens , era montagem , pois j no h na

 realidade .

 Bruno Tropia ( Estudante de Arquitetura e Urbanismo )

 Texto publicado no caderno Pensar , do jornal Estado de Minas , em 11/01/03

 * Transdniestria  uma Repblica europia que proclamou sua independncia a 16

 de agosto de 1990 .

 Autor : Bruno Tropia

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