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 A LINGUAGEM RACISTA NO FUTEBOL BRASILEIRO

 Trabalho apresentado no VI Congresso Brasileiro de Histria do Esporte , Lazer

 e Educao Fsica - Rio de Janeiro - 1998 .
 Autor : Carlos Figueiredo

 A linguagem racista no futebol brasileiro .
 In : Congresso Brasileiro de

 Histria do Esporte , Lazer e Educao Fsica .
 6. , 1998 , Rio de

 Janeiro .
 Anais do VI Congresso Brasileiro de Histria do Esporte ,

 Lazer e Educao Fsica , Rio de Janeiro : Universidade Gama Filho. p .

 394-406 .

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 RESUMO .
 Este ensaio  uma tentativa de redescrever e compreender o

 processo de construo das representaes sociais em relao 

 incluso e ascenso dos jogadores negros e mestios no futebol

 brasileiro .
 A noo de habitus de Bourdieu  utilizada inicialmente

 para tentar compreender o processo de reproduo das representaes

 sociais sobre o racismo , a partir da linguagem da mdia .
 H , no

 entanto , necessidade dos conceitos de Abric , Coulon e Jodelet para

 fundamentar a anlise .
 Conclui-se que a representao social sobre o

 racismo no futebol brasileiro sofreu transformaes , sobretudo no

 sistema perifrico , desde o incio do sculo ; entretanto , elementos do

 ncleo central anterior ainda esto presentes e se manifestam a partir

 do momento em que se comparam as crticas que se fazem aos jogadores

 brancos e as que se fazem aos negros e mestios .
 As crticas dirigidas

 aos brancos focalizam principalmente o atleta , enquanto as que se

 dirigem aos negros e mestios focalizam o indivduo , no sentido de

 diminu-lo como pessoa , ou seja , so crticas tnicas .

 Palavras-chave : racismo , futebol , tnico , Vasco da Gama ,

 representaes , esporte , habitus .

 ABSTRACT .
 This essay is offered in the attempt of describing and

 understanding the process of construction of the social

 representations in relation to the inclusion & ascension of the black

 and mestizo players in the Brazilian soccer .
 The habitus ' notion of

 Bourdieu is used initially to try to understand the process of

 reproduction of the social representations about racism. There is ,

 however , need of the concepts of Abric , Coulon and Jodelet to

 complement the analysis. It is concluded that the social

 representation about the racism in the Brazilian soccer suffered

 transformations since the beginning of the century ; however , elements

 of the previous central nucleus are still present and they show up

 starting from the moment one compares the critics that are made to the

 white players and the ones that are made to the blacks and mestizos .

 The critics driven to the white players attack mainly the athlete ,

 while the critics that go to the blacks and mestizo players attack the

 individual , in the sense of decreasing them as person , that is to say ,

 they are ethnical critics .

 Key-words : racism , soccer , ethnic , Vasco da Gama , representations ,

 sport , habitus .

 INTRODUO .
 Vivenciamos no dia 12 de julho de 1998 mais uma final da

 copa do mundo .
 O jogo , cercado de expectativa , apontava um franco

 favorito : o Brasil .
 O pas inteiro se preparava para comemorar o penta

 campeonato .
 Entretanto , muita coisa estava acontecendo por trs dos

 bastidores .

 Os acontecimentos que se deram antes do incio da partida indicavam

 que alguma coisa no corria bem .
 Ronaldinho no aparecia na escalao

 fornecida pela FIFA , o time no entrara em campo para fazer o

 aquecimento e aquilo era sinal de que alguma coisa grave estava

 acontecendo .
 Finalmente , a escalao de Ronaldinho foi confirmada mas

 pairava no ar uma certa inquietao .

 A partida comea e o que se v  um Brasil aptico e completamente

 diferente dos outros jogos .
 O francs Zidane abre o placar com um gol

 de cabea , deixando o time brasileiro atnito .
 Ao final do primeiro

 tempo veio o segundo gol ; outra vez Zidane de cabea .
 O jogo termina

 com a vitria dos franceses por 3 a 0 .

 Ao final da partida , as crticas comearam a ser disparadas de todos

 os lados .
 Lembro-me que havia sado de carro aps o jogo e , como

 costumo fazer , liguei o rdio .
 A primeira coisa que ouvi foi :

 " amarelo " .
 Um comentarista esportivo atacava o jogador Ronaldinho

 dizendo que ele tinha amarelado .

 No dia seguinte ao jogo , o jornal de maior circulao do Rio de

 Janeiro estampava na primeira pgina " Ronaldinho amarela antes do jogo

 e abala a seleo " ( 1 ) .
 Como em 1950 , as crticas atacavam os jogadores

 negros e mestios .
 Naquela poca os crucificados foram Ademir , Jair ,

 Barbosa e o lateral Bigode .
 Os comentrios , feitos por uma parcela da

 mdia , atacavam , principalmente , os jogadores negros e mestios .
 Tais

 crticas diziam que foram covardes , tremeram de medo , entre outras

 coisas .

 O jornal O Estado de So Paulo em 18 de julho de 1950 ( 2 ) , aps ter

 criticado contundentemente o lateral Bigode , diz o seguinte a respeito

 de Barbosa :

 " Barbosa por sua vez , pouco trabalho tendo comprometeu seriamente o

 quadro ( ...
 ) No segundo ponto , ento , sua falha chegou ao cmulo .
 Se

 permanecesse parado onde se encontrava a bola teria batido nele e

 voltado .
 Fez , porm , o inacreditvel : numa bola atirada sem

 pretenses , de situao dificlima , atirou-se ao cho quando ela vinha

 a meia altura .
 E foi coberto vergonhosamente " ( p .9 ) .

 Esta crtica utiliza termos que , de forma dissimulada , objetivam

 diminuir o goleiro Barbosa como pessoa ao dizer que sua falha chegou

 ao cmulo , que ele fez o inacreditvel , e que foi coberto

 vergonhosamente .
 O Dirio do Povo ( 3 ) de 18 de julho diz que Jair se

 acovardou diante de Obdulio Varela :

 " Alm disso , faltou aos nossos jogadores a flama necessria coisa que

 sobrou aos nossos adversrios .
 Do naufrgio salvaram-se Zizinho ,

 Bauer , Augusto e Juvenal .
 Os restantes deixaram-se levar pelo

 nervosismo e jogaram abaixo da crtica , inclusive Jair , acovardado

 ( grifo meu ) com a marcao severa do velho Obdulio Varela. "

  bem verdade que alguns jornalistas da poca atentaram para o fato e

 procuraram defender a honra desses atletas .
 Geraldo Romualdo da Silva ,

 na edio do Jornal dos Sports de 19 de julho de 1950 ( 4 ) diz que :

 " Quando o English-Team perdeu , ningum na Bretanha o taxou de covarde

 - nem a ` Azzurra ' padeceu na Itlia a infmia de ser apontada de

 desfibrada - afinal de contas em football no se vence antes e no

 meio , mas depois dos jogos " ( p .5 ) .

 Em 1950 como em 1998 vrios jogadores estiveram muito mal no jogo ;

 entretanto , as crticas dirigidas aos negros e mestios , na minha

 opinio , so diferentes das dirigidas aos jogadores brancos .

 Na copa de 1990 , por exemplo , Dunga ( 5 ) foi o grande culpado pela

 derrota do Brasil , segundo uma grande parte da mdia ( 6 ) e do

 pblico ( 7 ) .
 Dunga foi acusado de praticar um futebol que no estava 

 altura do futebol brasileiro .
 Seu esprito aguerrido foi questionado .

 O futebol de Dunga no servia para o Brasil pois era um futebol

 anglo-saxo , de garra , luta , mas sem brilho e habilidade .
 Dunga sofreu

 na pele as crticas ao seu futebol ; entretanto , a sua pessoa no foi

 atacada , desmoralizada ou humilhada .
 O mesmo no aconteceu com

 Ronaldinho , Barbosa , Bigode , Rivaldo , entre outros .

 Ronaldo no  descendente de europeus como Dunga .
 Poderiam as crticas

 dirigidas a ele no terem se limitado ao seu futebol ?
 Ser que a

 revolta de Ronaldo , em relao a essas crticas , possa ser creditada

 em razo de elas terem sido dirigidas sobretudo  sua pessoa ?
 ( 8 ) Tais

 crticas provocaram respostas de Ronaldo .
 No jornal O Globo de 14 de

 julho de 1998 , o jogador desabafa e diz : " No admito que digam que eu

 amarelei " ( 9 ) .

 Parece-me que a reao dos jogadores hoje  de repdio e indignao a

 tais crticas .
  poca de Barbosa os jogadores submetiam-se  culpa

 que lhes era imposta .

 Feita esta introduo , cabe agora a formulao dos objetivos a que se

 prope este trabalho .

 OBJETIVOS .
 Este trabalho objetiva , a partir de uma releitura das

 crticas veiculadas pela mdia , redescrever a questo do racismo no

 futebol brasileiro .
 Outrossim , buscar-se- tambm discutir se

 efetivamente houve atenuao do racismo no futebol brasileiro desde o

 incio do sculo ou se ele apenas tomou outras formas no-conscientes .

 E finalmente tentar-se- discutir e preliminarmente avaliar como so

 construdas as crticas da mdia em relao ao desempenho dos

 jogadores negros e mestios em comparao com as que se dirigem aos

 jogadores brancos .

 HIPTESE .
 A hiptese com a qual aqui se trabalha  que a discriminao

 racial no futebol brasileiro no est extinta .
 Antes , propomos que o

 estigma continua a existir de forma no-consciente e pode ser

 constatado ao se comparar as opinies de jornalistas quando se referem

 aos jogadores negros ou mestios e aos jogadores brancos .
 As crticas

 dirigidas aos jogadores brancos , em sua maioria , atacam principalmente

 o jogador como atleta .
 No entanto , as crticas dirigidas aos jogadores

 negros e mestios , em grande parte , carregam o estigma do racismo e

 atacam principalmente o jogador como pessoa e no como atleta , ou

 seja , so crticas tnicas .
 A linguagem utilizada nessas crticas 

 velada , mas traz elementos que apontam diferenas que podem sugerir um

 comportamento lingstico racista pela imprensa escrita .

 RELEVNCIA .
 A demanda , o interesse e o volume de publicaes , bem como

 de eventos , associaes e grupos de estudos sobre sociologia do

 esporte e histria do esporte , no s no Brasil , mostram-nos a

 importncia de redescrevermos e resgatarmos momentos que foram de

 extrema importncia para a formao da identidade do povo brasileiro .

 Por esta razo , creio que este trabalho seja vlido no sentido de

 discutir a temtica do papel da mdia na reproduo do racismo no

 futebol brasileiro .

 O CRIME DE BARBOSA .
 O curta metragem " Barbosa " ( 10 ) , baseado no livro

 de Paulo Perdigo " Anatomia de uma derrota " , mostra de forma magistral

 os momentos de angstia vividos na final de 50 .
 No filme , Barbosa diz :

 " eu j pensei naquela bola um milho de vezes " , como que se ainda

 estivesse se punindo .

 Apesar de ter muitas dvidas em relao ao evento que passo a

 descrever , minha interpretao aponta para um episdio em que se

 manifestou uma discriminao racial contra Barbosa .
 Em 1993 , durante

 as eliminatrias para a copa do mundo de 1994 nos Estados Unidos ,

 Barbosa quis dar nimo aos jogadores da seleo brasileira e foi

 visit-los na concentrao .
 Entretanto , foi impedido de entrar .
 O fato

 foi amplamente divulgado pela mdia .
 Por que s ele foi impedido de

 entrar na concentrao ?

 Segundo Galeano ( 11 ) , Barbosa comentou : " No Brasil , a pena maior por um

 crime  de trinta anos .
 H quarenta e trs pago por um crime que no

 cometi " .
 Galeano diz ainda que os anos se passaram e Barbosa nunca foi

 perdoado .
 Mas qual foi o crime de Barbosa ?
 Perdoar Barbosa de qu ?

 Perdo-lo por ser negro ?

 A SELEO DE 1982 .
 Tida pela maioria dos jornalistas e mesmo pela

 populao como uma das melhores selees j formadas , esta seleo era

 constituda na sua maioria por jogadores brancos , universitrios , e

 oriundos da classe mdia : Scrates , Zico , Leandro , Valdir Perez ,

 Falco , Oscar , Eder .
 Os negros e mestios estavam reduzidos a 4 :

 Luisinho , Toninho Cerezo , Jnior e Serginho .
 Por coincidncia ou no ,

 esta seleo  at hoje glorificada .
 As crticas que surgiram , em

 momento algum atacaram a pessoa dos jogadores .

 Por que isso ?
 Ser que ningum " amarelou " no jogo contra a Itlia no

 Sarri ?
 Entretanto , a derrota foi espetacular .

 Este trabalho parte do pressuposto de que existe uma linguagem que

 reproduz o racismo no futebol , que  construda de forma

 no-consciente .
 Mas como so construdas as representaes sociais

 pela mdia escrita em relao ao racismo ?
 Vou utilizar inicialmente o

 conceito de habitus fornecido por Bourdieu , no sentido de dar um

 primeiro passo para compreender melhor esse processo .

 HABITUS E REPRODUO .
 Na obra " La reproduction. Elments pour une

 thorie du systme d'enseignement " , Bourdieu e Passeron ( 1970 ) definem

 a noo de reproduo no campo da educao .
 Ao se referirem ao

 processo de inculcao pedaggica que exerce uma violncia simblica ,

 eles dizem que essa reproduo no se d de forma tranqila e que esta

 relao  uma relao de fora , na qual a violncia est presente , mas

  dissimulada pela comunicao pedaggica .
 Bourdieu indica que a

 escola transmite a ideologia , o saber e a cultura das classes

 dominantes e acaba por classificar as classes , tendendo assim a

 reproduzir esta classificao social existente .

 Este processo gera um habitus que  " durvel " , " transponvel " e

 " exaustivo " .
 Assim , o sistema educacional acaba por perpetuar a

 estrutura das relaes de classe .
 Tal fato se d tambm na

 representao que a mdia cria e repassa para a populao no caso do

 futebol .

 O habitus tende ento a reproduzir " o sistema das condies objetivas

 das quais  o produto " ( p .9 ) .
 O habitus engendra um processo pelo qual

 a reproduo passa despercebida , pois a comunicao dissimula a

 relao de poder e a violncia simblica existente nas relaes

 humanas .

 Coulon ( 1995b:151 ) analisa o conceito de habitus em Bourdieu e diz que

 " o habitus  um princpio silencioso de cooptao e reconhecimento que

 opera as classificaes " .
 Poder-se-ia ento tentar compreender como o

 racismo  perpetuado silenciosamente , a partir do conceito fornecido

 por Bourdieu ( 1970:9 ) de que o habitus  um conjunto de " esquemas

 geradores de classificaes e prticas suscetveis de serem

 classificadas que funcionam na prtica sem ter acesso  representao

 explcita e so o produto , sob forma de disposies , de uma posio

 diferencial no espao social " .

 No entanto , o conceito de habitus parece ser insuficiente para

 compreender como os processos de ruptura ou transformao acontecem na

 sociedade .
 De fato , entendo que o habitus faz com que compreendamos a

 maneira pela qual os valores so reproduzidos .
 Por um processo

 silencioso engendrado pelo habitus , os indivduos compartilham valores

 que fazem com que se reconheam e se aglutinem .

 Desta forma , geram-se prticas que tendem a reproduzir um conjunto de

 crenas e valores .
 Esse conjunto de valores provm de um ncleo

 central .
 Entretanto , este conceito , no meu ponto de vista , no d

 conta do que se passa no nvel perifrico de representao .

 Quando me refiro ao nvel perifrico de representao , fao-o no

 sentido de verificar o que acontece no dia-a-dia , nas interaes

 cotidianas , ou seja , observar os elementos funcionais e no apenas os

 elementos normativos .
 Refiro-me aqui aos conceitos de sistema central

 e perifrico das representaes sociais em Abric ( 1994 ) .
 Diz ele que o

 ncleo central de uma representao pe em ao os elementos

 normativos , que so mais rgidos que os elementos funcionais , estes

 so ativados no sistema perifrico .
 Neste trabalho privilegiarei o

 enfoque da mdia e como seus atores constroem as representaes sobre

 os jogadores brancos , negros e mestios no futebol brasileiro .

 SISTEMA CENTRAL E SISTEMA PERIFRICO .
 O conceito de habitus em

 Bourdieu focalizaria ento o ncleo central da representao e como

 diz Coulon ( 1995b:154 ) : " a onipresena do habitus na sombra de nossas

 aes cria problema : parece que o ator de P. Bourdieu no 

 influenciado pelas diferentes aprendizagens a que  submetido .
 Seu

 destino parece traado de antemo " .

 Existiria , ento , um sistema perifrico que complementaria o sistema

 central ( cf .
 Abric , 1994 ) , e as representaes seriam regidas por um

 duplo sistema que formaria uma entidade nica .

 Abric ( 1994 ) desenvolve uma formulao para a representao social em

 que privilegia uma distino operacional entre o sistema central e o

 sistema perifrico , que interpreto como complemento e no como

 oposio .
 O sistema central est ligado  memria coletiva e 

 histria do grupo ,  consensualidade - que define a homogeneidade do

 grupo ,  estabilidade - coerncia e rigidez ,  resistncia  mudana ;

 tem a funo de gerar a significao da representao e determinar sua

 organizao .
 J o sistema perifrico permite a integrao das

 experincias e histrias individuais , suporta a heterogeneidade do

 grupo e as contradies ,  flexvel - evolutivo e sensvel ao contexto

 imediato , permitindo adaptao  realidade concreta , protegendo o

 ncleo central .

 Creio que na medida em que uma representao se organiza em torno de

 um ncleo central ela tende a resistir  mudana .
 E  isto que

 acontece quando o Brasil perde uma grande competio no futebol .
 As

 crticas endereadas aos jogadores brasileiros se organizam em torno

 do ncleo central da representao e por isso dificilmente se

 transformam e acabam resistindo  mudana .
 Assumo neste trabalho que a

 representao da mdia escrita sobre os jogadores do futebol

 brasileiro carrega ainda elementos racistas na sua linguagem , que vm

  tona em grandes derrotas .

 Denise Jodelet ( 1989 ) entende que uma representao social s se

 transforma no momento em que o ncleo central  modificado .
 Esta

 modificao , segundo ela , pode-se dar de forma brutal , atingindo o

 ncleo diretamente , ou por uma transformao progressiva , a partir de

 uma mudana dos elementos perifricos .

 No meu ponto de vista , a mudana de uma representao social tende a

 dar-se lentamente e mesmo que haja uma grande transformao na

 representao , ela sempre conserva alguns elementos que pertenciam ao

 ncleo central anterior , que podem ser reativados .

 As idias de Mary Spink poderiam esclarecer mais este meu ponto de

 vista em relao  atividade do sujeito .
 Para Spink ( 1998:120 ) as

 representaes no s manifestam as tendncias do grupo a que esto

 afiliados os sujeitos , e nesse sentido ela afirma que " as

 representaes sociais so estruturas estruturadas ou campos

 socialmente estruturados " , mas tambm expressam a realidade

 intra-individual , e nesse sentido so estruturas estruturantes .
 Ela ,

 na verdade , se apoia em Jodelet ( 1984 ) para mostrar que existe

 transformao social a partir do prprio sujeito nas interaes que

 ele realiza todos os dias no cotidiano de suas atividades , pois existe

 a um poder de transformao e criao que est vinculado  sua

 afetividade ,  sua linguagem , s suas relaes .
 Ou seja , as

 representaes sociais precisam ser remetidas ao contexto em que se

 do para que se possa compreender o processo de sua gnese , mas no s

 a ele .
  necessrio observar tambm a perspectiva temporal .

 Para Spink ( 1988:122 ) , a gnese de uma representao pode-se dar num

 tempo curto , isto  , nas interaes do cotidiano ; no territrio do

 habitus , ou seja , o tempo vivido que abarca o processo de

 socializao ; e no tempo longo do imaginrio social .
 Diz ainda que

 " estes contedos que circulam na sociedade podem ter sua origem tanto

 em produes culturais mais remotas , constituintes do imaginrio

 social , quanto em produes locais e atuais " .
 Para ela o contexto no

  definido apenas pelo espao social em que a ao se desenvolve , mas

 tambm na perspectiva temporal .

 O EPISDIO DE 1923 .
 A perspectiva em que vou abordar o episdio de

 1923 , no qual houve um ataque ao ncleo central das representaes

 sociais da poca , procura no reduzir os acontecimentos  questo do

 racismo , mas faz esta focalizao como ponto de apoio para analisar

 aquele momento histrico .

 De fato , o pressuposto do trabalho  que a reproduo do racismo se d

 de forma no-consciente atravs das interaes dirias , ou seja , em

 nvel perifrico , e pode ser constatada na comunicao veiculada pela

 mdia ( 12 ) .

 Entretanto , uma das questes principais  a relao de poder que se

 estabelece entre o grupo dominante e as foras emergentes .
 No meu

 ponto de vista , as foras emergentes acabam condicionando as aes a

 partir do momento em que atingem e modificam o ncleo central de uma

 representao .
 Entretanto , este  um processo lento , quando se

 verifica , e que sofre muita resistncia , pois afeta principalmente a

 classe hegemnica .

 Nos anos 20 , o futebol era considerado um esporte das elites .
 Esta

 representao era na verdade a representao das classes dominantes .

 Tanto que os grandes clubes no admitiam jogadores negros e mestios

 em seus quadros .
 Esses jogadores s participavam em alguns clubes do

 subrbio carioca , entre eles o Vasco .
 A diferena entre o Vasco e os

 outros clubes pequenos era que o Vasco estava preparando suas equipes

 para desestabilizar a hegemonia dominante .
 Ao contratar o tcnico

 Ramon Platero , um tcnico uruguaio de renome , e implementar um

 programa de treinamentos revolucionrio para a poca , buscava um

 espao at antes inimaginvel pelos outros clubes pequenos .
 A presena

 de alguns jogadores negros nesses clubes era tolerada pela

 aristocracia , desde que essa presena no incomodasse o poder dos

 grandes clubes .
 Derrotar uma equipe composta por mestios , negros , e

 brancos pobres era uma maneira de ratificar o poderio da raa branca

 aristocrtica .

 No entanto , os clubes aristocrticos ao perceberem a fora vascana ,

 principalmente aps a conquista do campeonato de 1923 , alegaram que os

 jogadores do Vasco eram profissionais e com isso visavam exclu-los do

 campeonato de 1924 .
 O futebol na poca j era um fato economicamente

 importante para os clubes .
 Quantias significativas eram arrecadadas

 nos jogos realizados .
 Desta maneira , os jogadores recebiam dinheiro em

 forma de gratificaes .
 Tais gratificaes acabaram por ser

 incorporadas ao dia a dia do futebol com o nome de " bicho " ; isto no

 se limitava ao Vasco da Gama .

 Soares ( 1998 ) , na sua tese de doutorado , afirma que as medidas que os

 clubes aristocratas tomaram contra o Vasco no foram racistas .
 Diz que

 o objetivo era preservar o ideal tico do amadorismo .
 Refuta as idias

 de vrios pesquisadores e principalmente as idias de Mrio Filho que

 serviram de fonte primria desses pesquisadores .

 Esta idia de que o racismo no foi uma das principais razes que

 levaram o Vasco a no ingressar na Associao Metropolitana de

 Esportes Athleticos - que foi criada em 1924 pelos 5 clubes ( Flamengo ,

 Fluminense , Botafogo , Amrica e Bangu ) que se desligaram da Liga

 Metropolitana de Desportos Terrestres - pode ser aceita se observarmos

 a fase de transio entre o ms de agosto de 1923 , quando terminou o

 campeonato carioca daquele ano , e o final do ms de maro de 1924 .

 Durante este perodo , os grandes clubes do Rio de Janeiro iniciaram um

 processo que visava a " moralizar " o futebol carioca .
 O que causa

 estranheza  que apenas aps a vitria do Vasco no campeonato de 1923

 os grandes clubes evocaram o esprito amador do esporte .
 Este

 discurso , imposto pelos grandes , visava a afastar o Vasco e outros

 clubes que estavam progredindo e poderiam abalar a hegemonia no

 futebol do Rio .
 Assim , implementaram um movimento de " moralizao " no

 esporte .
 Este movimento , de forma dissimulada , exaltava o esprito

 amador do esporte , a prtica desinteressada do mesmo , entre outras

 coisas .
 Inicialmente , a mdia corroborou as idias dos grandes clubes ;

 entretanto , com o passar dos acontecimentos , as coisas foram se

 modificando e a tal " moralizao " proposta pelos grandes clubes ,

 revelou-se um artifcio que encobria outros interesses .

 No dia 8 de maro de 1924 , o Correio da Manh noticia que um dos

 clubes parecia inclinado a no ingressar na AMEA .

 " O festejado club do Meyer , o S. C. Mackenzie , parece inclinado a

 tomar atitudes novas , em face do conflito sportivo .
 Uma grande maioria

 dos seus scios , que se vo reunir em assemblia geral no dia 14 , est

 francamente disposta a desligar o club da Metropolitana .
 E parece que

 isso vae ser uma realidade. " ( p .8 ) .

 A partir da , vrios acontecimentos vieram a provocar a ciso no

 campeonato do Rio de Janeiro .
 No dia 10 de abril de 1924 , O Correio da

 Manh noticia que " Estourou a Primeira Bomba - o Andarahy A. C .

 DESFILIA-SE !
 ( p .6 ) " O texto jornalstico esclarece melhor .

 " Comearam j a apparecer as consequencias inevitveis da falta de

 critrio com que se houve a Associao Metropolitana na organizao do

 seu problemtico campeonato de football deste anno. Ellas eram

 fatores , que ningum de bom senso pde sancionar determinados

 dispositivos , que envolvam no seu texto obrigaes vexatrias ( grifo

 meu ) para quem as tenha de cumprir ( p .6 ) "

 Nesta altura , a prpria mdia dava sinais de desconfiana nas aes da

 AMEA .
 O restante do texto deixa isso mais claro , inclusive chama a

 comisso organizadora de comisso desorganizadora .

 "  bem a realidade das coisas .
 A commisso desorganizadora da nova

 entidade primou pela escolha de disposies inaceitaveis .
 Com a

 camouflage do ` carater transitorio ' e para attender as injunes de

 toda sorte , a associao teve a triste necessidade de violar os seus

 regios estatutos , formando uma srie de 10 clubs , quando no podia

 fazel-o em face da sua propria lei. ( ...
 ) Arvorados em apostolos da

 moralidade sportiva , no souberam , entretanto , nem ao menos disfarar

 o objetivo das suas idias .
 A tal commisso desorganizadora quer 

 ` outrance ' , dominar , asphyxiar e mandar .
 E s .

 Os clubes fundadores da AMEA se uniram e criaram um estatuto que

 exigia dos clubes no-fundadores o cumprimento de inmeras clusulas

 difceis de serem realizadas , alm de exigir comportamentos vexatrios

 e a eliminao dos jogadores que no atendiam s suas exigncias .

 Soares ( op. cit. ) diz que as mudanas ocorridas em 1924 foram em

 virtude de resgatar o esprito amador do esporte e de moralizar o

 esporte breto .
 No meu ponto de vista , os grandes clubes no podiam

 abertamente afastar o Vasco por motivos racistas e hegemnicos .
 O que

 fizeram ento ?
 , buscaram uma estratgia sutil de levar o Vasco e

 outros clubes , que no interessavam ao poder , a abandonarem a AMEA .

 O Vasco da Gama estava disposto no incio a fazer parte da AMEA , mas

 logo interpretou as manobras que visavam a desmoraliz-lo .
 Uma das

 exigncias era a de que os clubes no-fundadores , entre eles o Vasco ,

 no poderiam jogar aos domingos .
 Logo aos domingos quando a renda era

 maior .
 Outra exigncia era a de fazer uma investigao social em todos

 os atletas e s permitir a participao daqueles que se enquadrassem

 no perfil social da AMEA .
 Alm destas duas , destaco a exigncia do

 clube possuir um estdio nas condies estipuladas pela AMEA , quando

 os fundadores j sabiam ser muito difcil para os clubes cumprir tais

 exigncias num curto espao de tempo .

 Para uma equipe de colnia ( portuguesa ) , que havia vencido o

 campeonato principal do Rio de Janeiro na primeira vez que dele

 participou , seria importante permanecer junto aos grandes para

 compartilhar do crescimento que se dava naquela poca no futebol do

 Rio de Janeiro .
 Desta maneira , o Vasco tentava se enquadrar nas regras

 impostas pela AMEA , entretanto , acredito que no momento em que ficou

 mais claro que o objetivo era dificultar o acesso do Vasco  AMEA ,

 este resolveu no aderir  nova entidade , resolvendo participar do

 campeonato da antiga Liga Metropolitana de Desportos Terrestres .
 O

 Correio da Manh , do dia 11 de abril de 1924 , diz o seguinte : " Os

 clubs que se insurgiram agora contra estas humilhaes demonstram que

 tm vontade de dignidade , pois  prefervel  viver no meio do fausto

 de cabea baixa , a viver entre os pobres , mas sempre de vizeira

 erguida " ( p .7 ) .

 Outro ponto que talvez no seja definitivo na abordagem de Soares  a

 valorizao do ethos amador do esporte .
 O jornal Correio da Manh de 8

 de abril de 1924 j dizia que " isso de sport no football ,  um

 idealismo que est muito longe da verdade " ( p .6 ) .
 quela poca os

 clubes necessitavam das rendas dos jogos para desenvolver o futebol .

 Vejamos o Correio da Manh ( op.cit ) , um dia depois do Vasco da Gama

 enviar um ofcio  AMEA desistindo de participar de seu campeonato :

 " As resolues da Associao Metropolitana , conhecidas hontem e

 relativas ao prximo campeonato de football , deixaram muito m

 impresso. ( ...
 ) A seleo de qualidade no seio de uma corporao 

 sempre antipathica e odiosa , e se , ao comeo de sua vida a associao

 Metropolitana entra por esse caminho ingrato de separar ,

 frizantemente , sob a mesma bandeira , bons e muito bons , ento , ella

 ter de lutar , permanentemente , com dificuldades extremas " ( p .8 ) .

 Uma das interpretaes que pode ser feita da seleo de qualidade a

 que o texto se refere  que ela no se limita aos clubes , mas atinge

 tambm os jogadores .
 Por esta razo o Vasco da Gama encaminhou o

 seguinte ofcio  AMEA :

 " Rio de Janeiro , 7 de abril de 1924 ( Ofcio no. 261 )

 Exmo. Sr. Arnaldo Guinle , M. D. presidente da Associao Metropolitana

 de Esportes Athlticos .

 As resolues divulgadas hoje pela imprensa , tomadas em reunio de

 ontem pelos altos poderes da Associao a que V. Exa. to dignamente

 preside , colocam o Clube de Regatas Vasco da Gama em tal situao de

 inferioridade que absolutamente no pode ser justificada nem pela

 deficincia do nosso campo , nem pela simplicidade da nossa sede , nem

 pela condio modesta de grande nmero dos nossos associados .
 Os

 privilgios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma

 como ser exercido o direito de discusso e voto , e as futuras

 classificaes , obriga-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas

 resolues .
 Quanto  condio de eliminarmos doze ( 12 ) jogadores das

 nossas equipes , resolve por unanimidade a diretoria do Clube de

 Regatas Vasco da Gama , no a dever aceitar , por no se conformar com o

 processo por que foi feita a investigao das posies sociais desses

 nossos con-scios , investigaes levadas a um tribunal onde no

 tiveram nem representao nem defesa .
 Estamos certos que V. Exa. ser

 o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte

 sacrificar ao desejo de filiar-se  AMEA alguns dos que lutaram para

 que tivssemos entre outras vitrias a do Campeonato de Futebol da

 Cidade do Rio de Janeiro de 1923 .
 So esses doze jogadores jovens

 quase todos brasileiros no comeo de sua carreira , e o ato pblico que

 os pode macular nunca ser praticado com a solidariedade dos que

 dirigem a casa que os acolheu nem sob o pavilho que eles com tanta

 galhardia cobriram de glrias .
 Neste termos , sentimos ter de comunicar

 a V. Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA .
 Queira V. Exa .

 aceitar os protestos de considerao e estima de que tem a honra de se

 subscrever de V. Exa. Att .
 Obrigado .
 Dr. Jos Augusto Prestes

 Presidente .

 A vitria do Vasco da Gama em 1923 foi um ataque direto ao ncleo

 central das representaes sociais daquela poca .
 O ncleo central

 estava carregado com idias de eugenizao , higienizao , " ethos

 amador " , " pureza " , que o " sport " era apenas para aqueles que

 socialmente faziam jus a ele .
 Entretanto , no sistema perifrico , ou

 seja , nas bordas que protegiam este ncleo central , j se manifestava

 uma mudana no futebol carioca .
 Desta forma , na periferia ( 13 ) da

 cidade do Rio de Janeiro , ou seja , nos subrbios , os clubes j

 permitiam jogadores negros em seus quadros .
 Gerou-se ento uma crise

 de tamanha proporo que dois campeonatos foram realizados no Rio de

 Janeiro no ano de 1924 .
 Um deles organizado pela AMEA e o outro pela

 antiga Liga Metropolitana de Desportos Terrestres .
 Os jornais

 noticiaram que jamais houvera tamanho rebolio no futebol do Rio de

 Janeiro .

 " Nunca tivemos frias sportivas to barulhentas nem to cheias de

 acontecimentos .
 Em menos de dois mezes , o football carioca esteve mais

 agitado do que em todos os longos annos de sua existncia .
 A principio

 tivemos , como teve , de resto , toda gente , a loura illuso ( grifo meu )

 de que o movimento revolucionrio ia melhorar o sport. ( ...
 ) E fez-se

 de um golpe de fora a Associao Metropolitana , essa pomposa entidade

 para a qual o hyperbolismo de um cerebro doentio , arranjou as iniciaes

 que formam a palavra am-a ...
 ( ...
 ) As doces illuses que o sport

 alimentava desfizeram-se spro das primeiras realizaes .
 Tudo que era

 uma promessa transformou-se na expresso do mesmissimo interesse

 financeiro e egoistico que os movia , annos atrs , no meio daquelles

 que a severidade exterior procura agora , hostilizar por todos os

 modos. ( ...
 ) Agora , o que julgamos ter sido uma infelicidade inaudita ,

 foi essa coisa de admittirem A. B. C. D. e E. para depois , sem

 cerimonia. e cynicamente , impr condies absurdas e inaceitaveis como

 que procurando um meio de enxotar o Vasco e o Andarahy " ( O Correio da

 Manh , 17 de abril de 1924 , p .7 ) .

 No considero a verdade como algo a ser descoberto , provado , e que

 esteja pronto e acabado .
  algo que est sempre em processo de

 interpretao .
 Mas afinal , como saber o que realmente aconteceu entre

 1923 e 1924 ?
 Como saber quais eram os interesses envolvidos ?
 Como

 saber quais eram as relaes de poder ?
 Quais eram as representaes ?

 Creio que no h possibilidade de se descrever o real ( com R

 maisculo ) e a verdade ( com V maisculo ) , pois este real  relacional .

 Ele  uma descrio intersubjetiva daqueles que vivenciaram o momento

 e daqueles que o redescreveram .

 Podemos sim tentar redescrever a histria e sempre , e apenas , e

 somente , redescrev-la .
 Escrever a histria ou descobri-la penso ser

 um sonho positivista .
 A verdade pode ser descoberta ?
 Ela  objetiva ?

 Creio que esta maneira de pensar a verdade  um tanto quanto

 reducionista , no sentido de que s a compreende como resultado de uma

 objetividade comprovada cientificamente .
 Um segundo modo de ver a

 verdade  entend-la como um produto da conscincia do indivduo .

 Neste caso , acredito ser tambm uma maneira reducionista de

 compreend-la .
 A verdade seria intrnseca ao sujeito , seria uma crena

 subjetiva .

 Penso haver outras maneiras de compreender a verdade .
 Esta seria uma

 construo , criada a partir das interpretaes dos atores sociais .
 No

 seria ento descoberta ou produto da conscincia humana , mas criada

 atravs das interpretaes que so construdas pelos sujeitos .

 A hiptese fornecida por Soares de que a histria construda pelo

 Vasco foi uma trama com o objetivo de criar uma imagem positiva do

 clube junto aos seus torcedores , e que o episdio de 1923 nada teve a

 haver com a questo do racismo , e , ainda , que o principal motivo do

 Vasco ter sofrido uma srie de exigncias para permanecer na AMEA foi

 a manuteno do ethos amador do esporte ,  uma tentativa de

 redescrever a histria .
 Isto vem corroborar a idia de que a histria

  construda ,  reescrita ,  uma interpretao .
 Assim , deixa de ter um

 carter normativo para ter um carter interpretativo .

 O discurso dos anos 20 permite outras leituras que demonstram que a

 verdade no  definitiva .
 A histria , no meu ponto de vista , 

 construda a partir das argumentaes , dos pontos de vista , das

 interpretaes .
 No  uma cena esttica , que buscamos captar e , a

 partir da , escrever ; mas uma cena dinmica que procuramos

 interpretar .

 Desta maneira , a rede interpretativa que procuro delinear neste

 trabalho  que a questo racial no foi lateral como diz Soares e sim

 uma das principais fontes ( no a nica ) para a crise que se instalou

 no futebol carioca daquela poca .
 Soares se apia na falta de

 elementos empricos que ratifiquem a hiptese de racismo e por isso

 sua interpretao a coloca como uma questo lateral .

 De fato , os jornais da poca ( como os de hoje ) no utilizavam uma

 linguagem direta e por esta razo h necessidade de se realizar uma

 anlise das metforas aplicadas para redescrevermos o processo de

 discriminao silenciosa .
 O Correio da Manh do dia 8 de abril de 1924

 ao dizer que " da Amea s far parte o elemento so , puro " ( p .7. ) ,

 refere-se a comentrios dos dirigentes da nova entidade .
 De que

 maneira poderamos interpretar esta colocao ?
 A princpio ,

 interpretei esta frase como uma tentativa de eugenizao do futebol

 carioca , que de certa forma acompanhava o movimento eugnico da

 medicina social no Rio de Janeiro .

 A DISCRIMINAO RACIAL NO FUTEBOL BRASILEIRO ELEMENTOS DO SISTEMA

 CENTRAL E DO SISTEMA PERIFRICO .
 Considero que o racismo no futebol

 brasileiro chegou ao clmax com a proibio ao Clube de Regatas Vasco

 da Gama de participar do campeonato carioca de 1924 .
 A reao do Vasco

 em no aceitar as imposies dos grandes clubes poderia ser

 compreendida como uma manifestao mais organizada daquilo que j se

 manifestava na periferia .

 A recusa do Vasco em ingressar na AMEA foi um ataque direto ao ncleo

 central da representao social daquela poca , o que gerou uma crise .

 Esta representao estava ligada ao sistema central - entendido aqui

 na acepo de Abric ( 1994 ) .
 Entretanto , a modificao da representao

 social no se deu imediatamente .
 De fato , a transformao desta

 representao ainda no se deu no futebol brasileiro .

 Para ratificar esta hiptese , elenquei algumas das representaes

 manifestadas pela mdia brasileira .
 O racismo se manifesta mais

 claramente no momento em que se faz uma comparao entre as crticas

 que so dirigidas aos jogadores negros e mestios e aos jogadores

 brancos .
 Segundo dados de que disponho , as crticas que so dirigidas

 aos jogadores brancos , em sua maioria , referem-se ao atleta .

 Entretanto , as que so dirigidas aos jogadores negros e mestios

 atacam sobretudo o sujeito e no o atleta .
 Este processo  dissimulado

 pela comunicao imposta pela mdia , o que Bourdieu ( 1970 ) j havia

 constatado na comunicao pedaggica em relao  reproduo da

 ideologia .
 Assim , entendo que esta comunicao acarreta uma

 perpetuao do racismo de forma no-consciente .

 Apesar de j se terem passado muitos anos desde o episdio de 1923 , as

 transformaes que ocorreram nas representaes sociais sobre o

 racismo ainda conservam elementos do ncleo central anterior , que vm

  tona no momento de uma derrota da seleo brasileira .

 CONCLUSO .
 Tentei neste trabalho redescrever e compreender o processo

 de reproduo do racismo no futebol brasileiro .
 Aduzi que este

 processo pode ser explicado em parte pelo conceito de habitus

 fornecido por Bourdieu .
 Entretanto , no meu ponto de vista , o conceito

 de habitus no d conta dos processos de transformao que acontecem

 em nvel perifrico , ou seja , o conceito de habitus prende-se

 principalmente ao ncleo central das representaes sociais .

 Para Coulon ( 1995b:154 ) " o habitus parece ser como uma totalidade

 construda uma vez por todas , e parece funcionar como um operador

 estvel e definitivo " .
 Creio que o processo de representaes sobre os

 jogadores de futebol do Brasil tem origem no territrio do habitus .

 Entretanto , no dia-a-dia os atores sociais esto protegendo o ncleo

 central dessas representaes ao corroborarem as representaes da

 mdia .
 A linguagem , como diz Rorty ( 1992 ) ,  causativa e no apenas

 representa ou expressa a realidade .
 Ao dizermos , ou ao repetirmos o

 que os outros dizem , estamos criando uma verdade contingente , uma

 realidade , uma discriminao , que no ser extinguida a no ser que

 deixemos de refletir como um espelho e passemos a refletir para

 dentro , ou seja , a fletir sobre ns mesmos e sobre nossas palavras e

 aes .

 Bibliografia

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 1994 .
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 IN : J. C. ABRIC ( org ) .
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 Petrpolis , RJ , Vozes .

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 1996 .
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 Rio de Janeiro , RJ , Editoria Central

 da Universidade Gama Filho .

 NOTAS

 ( 1 ) JORNAL O DIA .
 Primeira pgina .
 13 de julho de 1998 .

 ( 2 ) O ESTADO DE SO PAULO .
 18 de julho de 1950 .
 Pgina 9 .

 ( 3 ) O DIRIO DO POVO .
 18 de julho de 1950 .

 ( 4 ) JORNAL DOS SPORTS. 19 de julho de 1950 .
 Pgina 5 .

 ( 5 ) " J era Dunga .
 No deu certo a tentativa de esquematizar o futebol

 brasileiro , abrindo mo do talento natural e do improviso , em

 benefcio de um padro mais rgido , de marcao , ao estilo europeu ,

 acabou na desclassificao ( ...
 ) A Era Dunga no chegou ( ...
 ) O

 proveito da derrota passa pela necessidade do reexame desses conceitos

 de futebol-fora " ( O DIA , 25/06/90 , pgina 3 ) .

 ( 6 ) " ( ...
 ) mas fazer gol  uma arte que a nossa seleo no domina .

 Basta dizer , que estivemos mais prximos do gol , atravs de uma

 cabeada de Dunga .
 De Dunga !
 - vejam vocs " ( Sergio Cabral , jornalista

 - O DIA - 25/06/90 , pgina 10 ) .

 ( 7 ) " O Brasil sempre foi uma das grandes foras do futebol .
 No somos

 ns que temos de mudar , copiar esquemas de jogo dos europeus .
 P ,

 Dunga e Alemo no mesmo time  demais " ( Ricardo Marozzi - opinio

 popular publicada no jornal O DIA de 25/06/90 , pgina 8 ) .

 ( 8 ) Observem a pardia da msica Conceio .
 " Convulso .
 Para ser

 cantado imitando Cauby Peixoto : Convulso / eu no me lembro muito

 bem. / Eu fui para o campo jogar / mas acho que no joguei bem. / Foi

 ento que Suzana apareceu / e olhando para mim a sorrir / me chamou de

 babo e que ia sumir. / Se sumiu , ningum sabe , ningum viu / s sei que

 minha bola murchou / faz tempo que no meto um gol / s eu sei como 

 chato ser amarelo. / E agora eu dou um milho / pra no ter outra vez

 convulso " ( O DIA , 23/07/98 , colunistas ) .

 ( 9 ) JORNAL O GLOBO .
 Caderno de Esportes , p. 39 .
 14 de Julho de 1998 .

 ( 10 ) BARBOSA .
 Curta metragem ( 13 min. ) .
 Direo Jorge Furtado e Ana

 Luiza Azevedo .
 Casa de Cinema de Porto Alegre .

 ( 11 ) GALEANO , Eduardo .
 Barbosa , o injustiado. pgina da web

 http : // www.futbrasil.com / causo14.html .

 ( 12 ) Arthur da Tvola atenta para o papel da mdia na reproduo do

 racismo em sua crnica Barraco  lugar de gente honrada .
 " H palavras

 reacionrias , como h palavras e frases racistas , embora corriqueiras

 e at populares .
 Dizer : ` A situao est preta '  racista .
 Dizer

 ` judiar ' no sentido de maltratar , tambm  racista .
 Isso  sabido mas

 nem sempre praticado .
 Hoje , que os jornais em boa hora festejam a

 contratao de mestres do idioma , para ensinar-nos a falar e a

 escrever , convoco-os para , alm do que fazem , abordarem o tema do

 contedo de certas palavras e grias .
 Digo mais : a ideologia .
 Anda em

 moda , neste vero , a expresso ` barraco ' para significar , ` bate-boca ' ,

 ` baixaria ' , ` gritos ' .
  uma gria proveniente dos setores de elite

 ( grifo meu ) e com o inciente apoio dos meios de comunicao ( grifo

 meu ) , a julgar pela freqncia com que  usada nos dilogos da

 telenovela Por Amor .
 Na NET , inclusive , num daqueles ` quinhentos '

 canais , h um programa de debates com jovens , cujo nome  : ` Barraco ' .

 Apaixonado por gria , embora , recuso-me a adotar essa expresso , a

 us-la , repeti-la , divulg-la ( grifo meu ) .
 Digo mais , condeno-a ( grifo

 meu ) .
 Barraco  moradia de pobre .
 E pobre  gente honrada .
 Os barracos

 brasileiros tm tanta educao quanto as casas ricas ou remediadas .

 Barraco  lugar de gente trabalhadora e digna .
 E se por l h ,

 eventualmente , briga , bate-boca , a algazarra  caso isolado e no fica

 atrs do que acontece tambm no meio de gente rica .
 Chamar ` baixaria '

 de barraco  ofender o povo .
 Em tempo ; lembro que Jesus Cristo nasceu

 na manjedoura , vale dizer uma forma de ` barraco '' abrigou aquela

 Famlia , em sua santa peregrinao salvadora " ( O DIA , 01/02/98 ,

 colunistas ) .
 E Amarelo ?

 ( 13 ) No caso , periferia trata-se dos subrbios do Rio de Janeiro .
 Por

 coincidncia , em relao  teoria das representaes sociais , a

 periferia do Rio poderia analogamente ser considerada como fazendo

 parte do sistema perifrico .

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