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 Entrevista

 Incomodar os acomodados

 Faoze Chibli

 Portugus diretor da Escola da Ponte exalta necessidade de questionamento dos

 papis do professor , do aluno e da escola

 [ INLINE ]

 Jos Pacheco  um educador que gosta de responder a perguntas com outras

 perguntas , ainda mais no ambiente escolar .
 Na Escola da Ponte , em Portugal , ele

  um diretor que no v sentido no nome de sua funo .
 Tampouco nos termos

 " professor " e " aluno " .
 Para Pacheco , a escola  lugar onde se aprende a

 aprender , a ensinar , e a " incomodar os acomodados " .
 Palco de uma revoluo

 educacional , a Escola da Ponte vem disseminando suas experincias mundo afora .

 No Brasil , algumas escolas j adotam aes e conceitos da escola portuguesa ,

 como no-atribuio de notas e conceitos , ausncia de disciplinas modulares

 pr-estabelecidas , estmulo  curiosidade como motor do aprendizado , capacidade

 de autocorreo entre os prprios alunos .
 Na Escola da Ponte , regras , direitos

 e deveres so propostos , debatidos e respeitados pelos prprios alunos .
 "  como

 o leite materno " , descreve Pacheco , referindo-se  atmosfera envolvente da

 instituio .
 Esse " amlgama enorme "  um lugar bem real , ao que se percebe nas

 palavras de quem est l desde o comeo .
 Em passagem pelo Brasil para palestras

 e para o lanamento dos livros Sozinhos na Escola e Quando Eu For Grande Quero

 Ir  Primavera ( EDS , 120 pgs. e 112 pgs. , R$ 19,60 e R$ 19,90 ,

 respectivamente ) , Pacheco falou com exclusividade  Educao .

 Revista Educao - Como se ensina o conceito de autocorreo ?

 Jos Pacheco -

 Muitas vezes , me perguntam quais so os instrumentos que ns temos para levar

 as crianas que ali chegam , ao cabo de algum tempo , a capacidades como

 autocrtica , conscincia da imperfeio humana , para que saibam criticamente

 corrigir o que fazem .
 Eu tenho dito sempre que  quase como o leite materno .

 Quando uma criana entra naquela cultura , j l existe essa prtica de cada um

 saber , perante aquilo que faz , se considera como algum que produziu algo

 inacabado .
 E vai aperfeioando , quer em grupo ou s .
 Depois , no h aquele

 olhar analtico , sedicioso , perante qualquer produo da criana , ou o

 professor estabelece uma classificao .
 Ento , a criana vai , quer no texto ou

 no , produzindo aquilo que deseja e no aquilo que  estabelecido .
 Pode

 resultar numa experincia , num trabalho numa rea qualquer , que  fixado , visto

 pelos outros e comentado .

 Quais dispositivos prticos ajudam nesse processo ?

 Temos muitos dispositivos , como o da caixinha dos textos inventados -

 estou a falar em palavras to simples porque so os nomes que as

 crianas lhes do .
 H 74 dispositivos , alguns com um nome muito

 pomposo , dado pelas pessoas que o criam .
 Assim , tem tudo : a caixinha

 dos segredos , a caixinha dos textos inventados .
 Eles colocam o texto

 na caixinha e h sempre algum que vai l e estabelece um dilogo com

 aquele texto .
 Outra forma  , por exemplo , nos murais , colocar um texto

 que  um desafio para que outros tambm comuniquem .
 Ao responder , h

 sempre um ou outro entre as crianas que vai sugerindo alteraes ou

 vai chamando ateno para outras , a correo ortogrfica tambm pode

 ter .
 O professor coloca-se ao lado e vai relendo o texto com a

 criana , como ela quer .
 Cada criana s  avaliada quando quer .

 Avaliada no sentido de manifestar uma competncia , uma destreza , uma

 atitude , uma capacidade .

 E ela  estimulada a buscar isso ?

 Desde o incio .
 Agora , se perguntar como ,  extremamente difcil

 descrever e mostrar .
 Eu digo que em uma hora acontece o que eu no

 conseguiria explicar em um ms .
  a questo do leite materno .
 Ali

 bebe-se a cultura que l est .
 A criana que chega , ao fim de algum

 tempo , est a participar de um contexto que pr-existe , e ela

 integra-se .
 Ao integrar-se , ela vai ficar a pertencer quela famlia .

 E nessa famlia , nessa cultura , essa prtica de auto-avaliao , a

 conscincia de , com o outro , perceber se pode melhorar ou se pode

 melhorar o outro .
 Isso  um trabalho que no est compendiado .

 Produziu-se o livro , mas no est escrito .
  uma coisa que me

 preocupa .
 Porque no  com o olhar interno que vamos conseguir .
 Tem

 que vir algum de fora , sem vcios .
 De preferncia de um pedagogo que

 nunca tivesse trabalhado em escolas .

 Seu cargo de " diretor " no  estranho no contexto da Escola da Ponte ?

 Pois no existe .
 Eu aceito ,  o usual .
 Em Portugal h o diretor .
 Ns

 no tnhamos [ esse cargo ] , nunca tivemos , fomos todos diretores , quem

 age so todos .
 Mas precisou-se de um a quem se outorga um papel

 transitrio .
 No temos a palavra aluno , ou a palavra professor .
 Tambm

 no chegamos ao educador .
 Penso que ns no somos educadores , somos

 mais orientadores , e em conflito entre a prtica e a descrio da

 prtica .
 Eu , quando vou aos lugares falar sobre sries , turmas , anos ,

 classes , no pratico isso , mas tento me fazer entender nessas

 palavras .
 Aula ?
 Eu no dou aulas , tambm ningum d aulas .
  preciso

 perceber que h uma contradio .
 Ns , que estamos agora em uma fase de

 transio e estamos a reelaborar todo o projeto , temos muito cuidado

 com a terminologia , porque  preciso dar algum nome s coisas .
 A

 linguagem produz cultura .

 Como  o dilogo com escolas como Summerhill e outras de modelos menos

 tradicionais ?

 Eu j estive em alguns eventos , conheci gente que trabalha na

 Summerhill , na Sudbury Valley e em outras escolas .
 No h nada

 organizado e eu penso que se houver algo organizado comea a

 degenerar .
 Esses movimentos esto por a , e o problema no so as

 escolas que no se baseiam no modelo no-tradicional .
 O problema  com

 as escolas que so a maioria .
 O que eu noto nessas pessoas que esto

 na Summerhill ou em outros lugares  uma no-diretividade ingnua .
 O

 que falta  capacidade de interrogao .
 Eu costumo dizer que os

 educadores deveriam ficar na idade dos " porqus " para sempre .
 Eu no

 estou a falar na vertigem do Peter Pan , que  ficar infantil toda a

 vida , mas da idia de que deixando de fazer perguntas no h educao .

 As pessoas morrem aos 30 e so enterradas aos 70 porque recusam-se a

 pensar , a interrogar-se .
 Nas escolas isso  fatal .

 O que o senhor estaria fazendo , se no estivesse na escola ?

 Eu nunca pensei em estar na escola , nunca imaginei ser professor .
 Como

 todo jovem , passei por aquela fase de crise existencial profunda .
 Eu

 trabalho desde os 4 anos .
 Trabalhava para sobreviver , na rea de

 eletricidade ou como pintor .
 Nasci na zona ribeirinha do Porto , onde ,

 a cada cinco crianas nascidas , trs morriam antes dos 6 anos .
 Todos

 os meus amigos de infncia , a maioria j morreu .
 Fui o nico de minha

 gerao que saiu dali para depois fazer alguma coisa diferente .

 Por que o sr. foi para uma escola ?

 Foi exatamente porque tinha lido naquela altura os grandes inventores .

 O que John Dewey [ pensador norte-americano , considerado dos mais

 influentes no sculo XX ] escreveu em 1905 estava atual em 1965 , em

 1975 , e hoje mesmo .
 E na rea em que eu trabalhava , como engenheiro ,

 tudo estava inventado , praticamente , ou poderia inventar mais uma

 vlvula , mais um fusvel ou mais um automador .
 Na educao estava tudo

 por fazer .
 E ainda hoje est tudo por fazer , o que  apaixonante .

 Decidi ir para a escola porque ouvi dois professores falando , e fui

 visitar a escola de um deles .
 Eles morreram sem o reconhecimento

 pblico da maravilha que produziam .
 Imagino quantos no haver por a ,

 portanto , estou a penitenciar-me em vida .
 Temos um pouco de cada um

 que vamos encontrando .
 Eu carrego os professores Lobo e Georgina .
 Me

 refiro a eles assim [ sem nomes completos ] para que suas memrias se

 diluam em uma memria coletiva e discreta .
 A beleza sensvel dos atos

 de aprender e ensinar est mais nos pequenos gestos do dia-a-dia de

 professores annimos do que nos tratados e compndios de pedagogia .

 Mas no posso falar muito deles porque me lembro da ltima aula [ do

 professor Lobo ] .

 E como foi ?

 O professor Lobo era um professor muito criticado .
 E por ser muito

 criticado suscitou-me interesse em ir ouvi-lo .
 Ainda no sabia que ia

 ser professor - passado um ms , eu j tinha me decidido .
 Naquela

 altura , com quase 60 anos , ele disse : " Trabalhei 47 anos como

 professor do ensino tradicional [ isso era em 1969 ] e pensava que era

 aquilo que eu deveria fazer .
 Estava convicto de que era o melhor que

 eu poderia fazer .
 At que um dia , sem querer , dei um tapa numa

 criana .
 Ela voltou-se pra mim e disse : ` Professor , por que  que tu

 me bates ?
 Por que  que tu no me ajudas a aprender ?
 ' " Ento , ele

 disse : " Eu fui para casa , no consegui dormir .
 A partir da ,

 transformei-me totalmente naquilo que sou hoje. " Os ltimos anos da

 vida dele foram de recuperao de todo aquele tempo perdido .
 Esse foi

 um homem extraordinrio .
 Ele expunha-se .
 Eu acho que  muito

 importante isso .
 Ele assumia todo seu passado como professor

 tradicional e [ assumia ] sua reconverso .

 Quais so as dificuldades em relao  equipe de professores da Escola

 da Ponte ?

 No  difcil , nada difcil .
 Ns trabalhamos com a matria que todas

 as outras escolas trabalham : a humana , com seus limites , suas

 imperfeies , seus dons .
 Nos ltimos dois anos , entraram mais de 20

 professores .
 S algum outro no conseguiu , ou ns no conseguimos nos

 adaptar .
 Os restantes pura e simplesmente percebem que esto num outro

 mundo .
 Damos o tempo todo o que eles precisam para perceberem onde

 esto .
 E , como eu gosto muito das metforas , um tempo atrs

 discutamos a capacidade de transformao , reconverso , de

 transcendncia , e ento algum me disse : " Por que tu no consegues ver

 tal e qual ns ?
 " E eu dizia : " Eu consigo ver tal e qual vs , vs  que

 tens de fazer um esforo para ver tal e qual eu. " E sabes por qu ?

 Porque quando pensais que o outro que  diferente ,  menos capaz , que

 tem uma deficincia , estais enganado .
 Eu vejo de trs maneiras

 diferentes , vs s vedes d'uma .
 Em termos visuais , fsicos at .

 Porque , se eu me concentrar , eu vejo dois .
 Se eu fizer a focalizao

 diferente , eu vejo s com o olho esquerdo ou s com o direito .
 Eu

 tenho trs maneiras de ver , e ele s tem uma .
 O que eles tm de

 perceber  de ter mais olhos , outras perspectivas .
 Aquelas pessoas so

 fantsticas , porque mesmo sem precisarem ser estrbicas , podem ser

 estrbicas da alma .
 Deixando de estar condicionados ao olhar que nos

 impuseram , comeamos a ver as coisas a partir dos porqus , que  a

 forma ideal de se ver .

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