 Lus Vaz de Cames

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 Biografia

 Remetido por : Paulo Torquato Tasso

 Escrito por : Hernni Cidade

 A primeira biografia de Lus de Cames foi escrita em 1613 , no " Prefcio "

 da edio de Domingos Fernandes , por Pedro de Mariz ( 1550-1615 ) , filho de

 Antnio de Mariz , livreiro em Coimbra no tempo em que Cames ali vivia , e

 ele mesmo presbtero secular , bacharel em Cnones e guarda-mor da Livraria

 da Universidade , e assim em condies morais e cronolgicas para da vida do

 Poeta conhecer dados essenciais .
 Alguns deles nos oferece o seu esboo

 biogrfico , no desmentidos pelos que a investigao posteriormente tem

 descoberto nem pelos prprios elementos autobiogrficos colhidos na obra

 lrica e pica do Poeta .

 O que nem ele nem ningum nos d de decisivo  a indicao do local e da

 data do seu nascimento .
 Como sucedeu com Homero , vrias localidades

 disputam a glria de ser seu bero , mas Lisboa e Coimbra com mais

 probabilidades .
 Deixemos a discusso aos mais interessados pelas glrias

 locais do que pelo legado do Poeta , e digamos que as duas cidades tm , para

 seu orgulho , pbulo que baste : Coimbra , por ter-lhe condicionado o seu

 honesto estudo de humorista ; Lisboa , a sua longa experincia social .

 Aparentado com os Cames , da mais honrada ( ou seja , enobrecida ) gente da

 cidade do Mondego ,  ele prprio que afirma ter-lhe aqui decorrido parte da

 mocidade :

 Nesta florida terra ,

 Leda , fresca e serena ,

 Ledo e contente pera mim vivia .

 ..................................

 Longo tempo passei ,

 Com a vida folguei .
 .
 .

 Um seu tio paterno , D. Bento de Cames , frade de Santa Cruz e

 chanceler da Universidade , com probabilidade tem sido indicado como o

 protector e mentor de seus estudos , mas  admissvel que o prprio

 ambiente universitrio lhe haja suscitado curiosidades que , fora dele

 e atravs da vida , iria satisfazendo por um audotidatismo que o tornou

 o poeta de mais variada e viva cultura do seu tempo .
 No ter sido o

 bacharel latino , como j o biografismo fantasioso o graduou , mas ,

 lendo o latim , o italiano e , naturalmente , o castelhano , pde nutrir

 sua cultura de poeta e fazer florescer em suas Rimas - - ou seja na sua

 lrica - - temas de vria origem , mas a que seu gnio criador imprimiu

 a unidade da vida , porque tudo foi assimilado e vivido como prprio .

 A nobreza da famlia , fortalecida pela abundncia dos bens em seus

 parentes de Coimbra , era decerto modesta no pai , que os no possua .

 Cabiam-lhe , todavia , honras de cavaleiro fidalgo , e ao filho , que

 tambm o era , essas bastavam , acrescentadas dos bens do esprito e da

 cultura , que os tinha excepcionais , para lhe dar entrada nos Paos da

 Ribeira .
 Era jovem quando ali pde fulgurar , pois teria nascido nos

 fins do primeiro quartel de Quinhentos quem era ainda jovem em 1553 ,

 data da Carta do Perdo , a que j nos referiremos , que o habilita ,

 liberto do Tronco da Cidade , a partir para a ndia como soldado .

 A poesia lrica de Cames  , em grande parte , poesia de circunstncia ,

 o que significa que emerge da vida , como a espuma do movimento da

 vaga , e isso lhe d o valor autobiogrfico precioso para quem no

 encontrou nenhum contemporneo que dele com demorada ateno se

 ocupasse .
 Fidalgo e freqentador do Pao Real , escreveu o soneto em

 que comenta o incidente palaciano de D. Guiomar de Blasf , a filha do

 conde de Redondo , D. Francisco de Sousa Coutinho , que depois

 encontraria vice-rei na ndia .
 Uma vela do salo queimou-lhe o rosto ;

 o caso foi comentado risonhamente e o Poeta dedicou-lhe as trovas

 Amor , que a todos ofende , / Teve , Senhora , por gosto / Que sentisse o

 vosso rosto / O que nas almas acende , e ainda um soneto ( O fogo que na

 branda cera ardia ) .
 As trovas que glosam o mote de D. Francisca de

 Arago e a carta que as acompanha tm significado ainda de maior

 intimidade , a carta quase expressiva de amiti amoureuse entre o Poeta

 e grande dama .
 Depois , era o teor literrio das composies de

 graciosa finura que implicava , da parte das damas a quem eram

 dirigidas , educao que lhas esclarecesse e fizesse saborear .
 Acrescia

 a isto seu convvio com a ndia : so aristocrticos os nomes dos seus

 convidados para o banquete de trovas .
 Um deles - - Joo Lopes Leito - -

 figura na Lrica escrita em Lisboa e interessaria ao Poeta , porque

 tambm no era alheio s Musas , e foi o nico que em verso protestou

 contra a troca de iguarias por trovas naquele potico gape .
 .
 .

 Neste covvio palaciano , teria Cames tomado amores que , pela

 desigualdade dos estados , de que mais de uma vez se queixa , tivessem

 provocado a perseguio de pai fidalgo ou at de irmo rgio , que o

 desterrasse ?
 Atribuem-se-lhe vrios desterros , sendo um para Ceuta ,

 onde se bateu como soldado em combate que lhe custou a perda do olho

 direito .
 A tal perda se refere na Cano Lembrana da Longa Saudade .

 Por quem foram tais amores ?
 Por Natrcia ?
 Havia trs desse nome ,

 contemporneas do Poeta .
 Pela infanta D. Maria , irm de D. Joo III ?

 No seria a primeira dama de sangue real que se apaixonasse por um

 poeta , e , se esta o fizesse , encontraria justificao em sua

 conscincia , dada a grandeza genial do enamorado , e dada a amargura

 duma vida de sempre noiva , a cada passso decepcionada por casamentos

 desfeitos pela prpria enormidade do dote - - que o irmo parecia

 querer evitar que sasse de Portugal .
 .
 .

 Mas ponhamos de parte a congeminao , visto que no poderamos

 transitar do recanto nevoento das suspeitas da fantasia para a

 realidade dos factos esclarecidos .
 Cumpre , todavia , notar que as

 suspeitas as suscitam os sonetos em que o Poeta se refere ao alto

 lugar em que ps o pensamento , perante o qual reconhece em si tal

 baixeza , que cuidar nele  gro despejo e mais de uma vez protesta

 contra a humana natureza , que faz entre os nascidos tanta diferena e

 lamenta que a Fortuna desiguale os estados .
 .
 .

 As Cartas so outra prova de que o Poeta , mesmo nas horas nocturnas de

 libertinagem , entre a taberna do Mal Cozinhado e as acolheitas das

 Ninfas de gua doce , no tinha , como j foi suposto , convivncia que

 possa lembrar a de Villon , de marginais a quem a forca de perto

 espreitava .
 Aquele a quem escreve a Carta III , refaz-se , em suas

 terras de Coimbra , dos desgastes da bomia lisboeta ; diz-se-lhe

 enfadado do isolamento campesino , e Cames responde-lhe , depois de lhe

 descrever - - e que realista o humorismo com que o faz !
 - - o que havia

 de ridculo nos indivduos que encontraria nas acolheitas : " Como vos

 parece , Senhor , que se pode viver entre estes , que no seja milhor

 essa vida que vos enfada , essa quietao branda , como um dormir 

 sombra de uma rvore e ao tom dum ribeiro , ouvindo a harmonia dos

 passarinhos , em braos com os Sonetos de Petrarca , a Arcdia de

 Sannazzaro , as clogas de Verglio , onde vedes aquilo que vedes ?
 Se a

 vs , Senhor , essa vida vos no contenta , vinde-a trocar pela minha ,

 que eu vos tornarei o que for bem .
 E no vos esqueais de escrever

 mais , que ainda me fica que responder .
 Cujas mos beijo. "

 Este amigo , que tem terras em Coimbra , que  certamente tambm leitor

 dos poetas citados , porque de outro modo Cames lhos no nomearia , que

 sabe traduzir o latim que o amigo lhe cita , que pode compreender as

 aluses a Celestina e Calixto , da clebre tragicomdia de Rojas , e no

 desconhece as figuras clssicas da formosa Helena e da casta Lucrcia ,

 ser porventura o mesmo a quem  endereada a Carta IV .
 A este

 igualmente o Poeta o trata por senhor , o inculca apto a traduzir-lhe o

 latim que lhe cita e fala-lhes das maas de Hrcules .
 .
 .
 E no

 momento dos cumprimentos , diz-lhe : " O Senhor Antnio de Resende beija

 as mos de V.M. e o mesmo faz o Senhor Pedro Ribeiro Serpe. " Todos os

 requisitos sociais de um nobre senhor !
 E , todavia ,  Cames que no-lo

 inculca membro daquela camaradagem de Marialvas arruaceiros , a que

 tambm se associa o filsofo Joo de Melo .
 Declara-lhe o Poeta o

 perigo que todos correm : " Dizem que  passado nesta terra um mandado

 pera prenderem a uns dezoito de ns ; e porque nestas pressas grandes

 sem vs no somos nada , sabei que deste rol vs sois o primeiro , como

 sempre o fostes em tudo .
 A razo dizem que  por um homem fidalgo que

 dizem que foi espancado uma noite de so Joo pelo Senhor Joo de

 Melo , e ele saber se  assim. "

 Eis os companheiros de Cames .
 Desciam das salas dos Paos da Ribeira ,

 onde platonicamente ou  maneira de Petrarca galanteavam as damas de

 alta estirpe , para as damas de aluger onde se encontravam com a fauna

 humana objecto de desprezo e da stira do Poeta .
 Os ps de Cames

 patinhavam na mesma lama dos da sua camaradagem , mas sente-se-lhe , ao

 confess-lo , a palpitao das asas que em breve o libertariam ...

 O Poeta , na verdade , nessa estouvada estrdia , ferira numa rixa um

 criado do Pao Real - - Gonalo Borges - - e em tarde de procisso do

 Corpo de Deus .
 Preso no Tronco da cidade , ali passou alguns meses , ao

 fim dos quais , obtendo que o agredido , que ficou sem aleijo , lhe

 perdoasse , no lhe foi difcil conseguir de D. Joo III o pusesse em

 liberdade , tanto mais que se propunha servi-lo na ndia .
 A Carta de

 Perdo data , como dissemos , de 1553 .
 A partida para a ndia  de um ou

 dois anos depois .

 Da ndia , o Poeta escreve epstola a um amigo e nela lhe exprime a

 alegria dessa largada : " Enfim , eu no sei , Senhor , com que me pague

 saber to bem fugir a quantos laos nessa terra me armavam os

 acontecimentos , como com me vir para esta , onde vivo mais quieto que

 na cela dum frade pregador. "

 Est nitidamente posta de manifesto a voluntariedade da oferta a D .

 Joo III de servios de soldado na ndia .
 Com o desejo de mais

 facilmente obter a Carta de Perdo , convergia o interesse da

 libertao moral a que se refere .
 O ser a promessa da largada para a

 ndia facilitadora do perdo rgio , no lhe d , porm , carcter de

 condio da liberdade e , como tal , foradamente suportada , segundo o

 Poeta acentua .

 NO ORIENTE

 Pelo Oriente a vida de Cames  uma montanha-russa , com suas

 transitrias subidas , mas com suas bem mais demoradas depresses e

 descidas .
 Da viagem martima , fixou-lhe a memria , comovida do espanto

 e sonho de outras bem opostas realidades , a tempestade do cabo da Boa

 Esperana , descrita na elegia O Poeta Simnides , ensaio - - dir-se-ia

 - - para a que havia de descrever na travessia do ndico , em Os

 Lusadas .
 Mas quem , na largada para a vida aventurosa de guerreiro ,

 nela se iniciando com o ataque ao rei da Pimenta , ao facto alude sem a

 mnima emoo de entusiasmo ; quem , na mesma elegia , apenas mostra

 aspirar  vida dos lavradores bem aventurados , no apenas como

 desprendida de cuidados , como a sonhavam os poetas contemporneos , mas

 como condio de enriquecimento do esprito , pois podia , lendo ,

 conhecer

 As causas naturais de toda a cousa .
 .
 .

 no parece muito tentado pela glria militar , posto que , no sem

 orgulho , se represente como tendo numa mo a espada e noutra a pena .

 .
 .

 A outra expedio ele se refere , e esta ao cabo Guardafu .
 A descrio

 do ambiente fsico - - o monte seco , fero , estril , no  de to rude e

 spero realismo , seno para mais avivar o seu contraste com a

 lembrana luminosa dos claros olhos que derramam sua doura para bem

 diferentes paisagens .
 Na elegia anterior , o contraste era entre a

 tempestuosa aventura do nauta e a doce calma do lavrador bem

 aventurado - - que podia ler e estudar .
 Agora  entre a aspereza do

 monte estril e a paisagem distante que os claros olhos iluminam .
 Num

 e noutro caso , patenteia Cames que no  a guerra que o tenta , e

 deixa adivinhar que o mais cedo possvel dela se libertaria .

 Com efeito , o pouco de sua vida no Oriente nos chega ao conhecimento

 no so feitos militares nem frustradas ambies de mando .
 De mais

 preciso e concreto , uma situao de que um injusto mando o demitiu - -

 e por ventura a de provedor dos defuntos e ausentes em Macau .
 Da sua

 nomeao para a feitoria de Chaul , em que , afinal , no foi provido ,

 temos conhecimento pelo alvar de Filipe I de Portugal , em 1585 ,

 passado a Ana de S pelos servios do marido e do filho , ambos mortos .

 De quem recebeu Cames esta nomeao ?
 Do vice-rei conde de Redondo ,

 to amigo do Poeta ?
 No se sabe .
 O que se no ignora  que essa

 amizade se patenteia na ode - - Aquele nico exemplo .
 .
 .
 - - que o

 Poeta lhe dirige , para obter sua proteco para com o Dr. Garcia de

 Orta , seu amigo , que lhe publica no " Prefcio " do clebre livro

 Colquios dos Simples e Drogas e Coisas Mdicas da ndia , e ainda as

 trovas a favor de seu outro amigo , um dos convidados para o banquete

 acima citado , Heitor da Silveira .

 Outro magnate em cuja estima ele parece confiar  D. Leonis Pereira , a

 quem dirige a elegia - - Depois que Magalhes .
 .
 .
 - - a favor do

 escritor brasileiro Pro de Magalhes Gndavo , autor do livro Histria

 da Provncia de Santa Cruz .

 Como se v , o Poeta tinha no Oriente um ambiente social que , bastante

 a exaltar-lhe os mritos , a abrir-lhe , com louvores repetidos , a

 confiana em sua ateno , quando se lhe dirigia , no era suficiente a

 ergu-lo acima da existncia difcil , oscilando entre a suficincia

 desambiciosa e a pobreza incapaz das humilhaes de solicitante .
 As

 oitavas ao vice-rei D. Constantino de Bragana sero uma solicitao

 indirecta , quando lhe exalta o valor contra a opinio do vulgo errado ?

 No parece .
 E to viva  a sua repulsa contra o conceito de doce

 adulador , sagaz e agudo , que lhe ocorre a suposio de que como tal

 seja tomado : Diro que com lisonja ajuda peo / Contra a misria

 injusta que padeo .
 A verdade , porm ,  que os exemplos que invoca so

 os de grandes figuras morais que o povo caluniou e maltratou , como

 pensa suceder naquele momento contra D. Constantino .
 .
 .

 Pedido ao conde de Redondo , em seu favor , fez um , mas esse

 humorstico , posto que em oportunidade dramtica .
 Veja-o o leitor na

 trova em que lhe pede em trocadilho que , antes que se embarque , o

 desembargue da priso em que por dvidas se encontrava .

 Ao fim de 16 anos , aproximadamente , de uma vida que ele pde chamar

 sem grande exagero a mais desgraada que jamais se viu , regressa a

 Portugal .
 Regressa sem recursos , nem para o pagamento da viagem , nem

 para , na ilha de Moambique , poder esperar pela nau em que embarcasse .

 Diz Diogo de Couto que ali o viu vivendo de amigos , compondo o seu

 Parnaso , livro que qualifica de muita erudio , doutrina e filosofia ,

 e lhe roubaram , e dando a ltima demo s suas Lusadas .

 Parte para Portugal em 1569 .
 Como nica riqueza , trazia Os Lusadas ,

 que ele mesmo refere ( canto X , 128 ) ter salvo do naufrgio em que

 perdeu uma moa oriental , a que vinha muito ligado e a que dedica o

 soneto Alma minha gentil , que te partiste , a crer no texto do

 manuscrito da Biblioteca Municipal do Porto , que se julga ser a VIII

 Dcada perdida por Diogo de Couto .
 Tambm parecem inspirados pela

 mesma saudade os sonetos Ah !
 minha Dinamene !
 assim deixaste , O cu , a

 terra , o vento sossegado .
 .
. , e Quando de minhas mgoas a comprida .

 A vida em Portugal no lhe correu mais propcia .
 Um admirador do seu

 gnio , todavia - - D. Manuel de Portugal - - ,  exaltado pelo Poeta como

 o Mecenas a quem Os Lusadas devem a sua publicao .
 Ele lhe

 facilitaria , por ventura , a tena de 15.000 ris anuais com que , a

 ttulo precrio e depois de somar os servios por ele prestados no

 Oriente e os que viria a prestar no futuro  suficincia do poema , D .

 Sebastio entendeu dever pagar o tesouro do Luso , que assim qualificou

 Cervantes Os Lusadas .

 Talvez que a soma fosse suficiente , se a nossa burocracia , por

 imprevisto milagre das Musas , fosse , para o Poeta , de prontido e

 diligncia que nunca esteve nos seus hbitos , e se Cames , por ainda

 mais imprevista surpresa da sua natureza de poeta , em vez de continuar

 tecendo belos sonhos lricos , passasse a ocupar-se de contas de

 economia domstica .
 O que de certo se sabe  o que nos dizem os dois

 nicos contemporneos que atentam em sua existncia nos ltimos anos

 - - Diogo de Couto e Diogo Bernardes .
 O primeiro informa-nos da

 situao em que o encontrou na ilha de Moambique - - comendo de

 amigos , que ainda lhe custearam o regresso a Lisboa .
 Da sua vida em

 Lisboa , testemunha ainda , na Dcada VIII publicada : " Em Portugal

 morreu este excelente Poeta , em pura pobreza " .
 Por seu turno , Diogo

 Bernardes , no soneto que lhe consagra e Soropita publica na 1 edio

 de Rimas , em 1595 , escreve :

 Honrou a Ptria em tudo .
 Imiga sorte

 A fez com ele s ser encolhida ,

 Em prmio de estender dela a memria .

 Como se v , no foi necessrio grande dispndio de fantasia para criar

 a lenda dum Cames na misria , apenas aliviada pelas esmolas que seu

 pobre escravo jau lhe angariava .
 A misria mendiga apenas exagera , no

 cria , a pura pobreza de que nos informa Couto .
 .
 .

 O VALOR DA LRICA

 A Lrica de Cames , publicada em 1 edio com o ttulo de Rimas ( ou ,

 na ortografia antiga - - Rhythmas ) ,  a realizao , em plenitude e na

 sua mxima altura , de tudo quanto de mais delicado , profundo e belo se

 sonhara ensaiar na poesia anterior .
 A lrica dos cancioneiros

 medievais , enriquecida em temas e propsitos , aperfeioada em

 expressividade e mtrica no Cancioneiro Geral , de Garcia de Resende ,

 ficava ainda a grande distncia da profundidade e variedade de

 pensamento , das graas formais e poder de sugestividade , no movimento

 como na msica verbal , na misteriosa magia da poesia camoniana .
 O

 contacto do Poeta com seus pares latinos - - Virglio , Horcio e Ovdio

 - - , com os italianos - - Petrarca , Sannazzaro , Bembo e Bernardo Tasso

 - - , com os poetas castelhanos - - Manrique , Bosean e Garcilaso - - no

 lhe sufocou , antes lhe excitou o gnio prprio , porque tudo assimilou

 como substncia do seu prprio pensar e sentir , de tudo fez expresso

 das prprias vivncias ; toda esta variedade , como o faz um rio aos

 seus afluentes , ele a submeteu ao seu fluir vital , em lampejos

 dir-se-ia que produzidos pelo mesmo Sol , que num mesmo universo , a

 todos cobria de sua luz e animava de seu calor .

 Repare o leitor no tema da fonte , dos cancioneiros medievos , e compare

 qualquer das canes medievais com as suas cantigas : Lianor vai pera a

 fonte e Na fonte est Lianor .
 Na primeira , o Poeta , enamorado da forma

 e da cor , d-nos da namorada a figura plstica e colorida .
 Presena

 corprea e pormenores do vesturio .
 E a por como expoente a graa que

 tudo penetra e ultrapassa , os versos : Chove nela graa tanta , / Que d

 graa  fermosura .
 Chove : a graa vem do Cu .
 .
 .
 Na segunda ,  o

 estudo dos movimentos do esprito , seu estado , suas reaces emotivas .

 A interrogao  persistente e ansiosa : Vistes l o meu amor ?
 Mas eis

 que lhe do novas do Amado e logo a emoo de alegria , qeu lhe no

 cabe na alma , rebenta e desborda , convertida em pranto - - que  a

 expresso natural da alegria extrema .
 Imprevistos pormenores na

 descrio do exterior ; inditas mincias surpreendidas na vida

 interior .

 Com Petrarca , os petrarquistas de Quatrocentos e Quinhentos aprenderam

 a intelectualizar as emoes amorosas , a surpreender na dialctica dos

 contrastes os paradoxos da vida ntima , nos conflitos entre os anelos

 da alma e os impulsos do instinto , entre a razo e o sentimento , entre

 os prprios desnveis do mesmo sentimento .
 Cames , como todos os

 poetas seus contemporneos , molda pela de Petrarca a expresso de tais

 conflitos , mas em quase nenhum dos sonetos em que o imita deixa de

 imprimir a dedada do seu gnio ou das suas vivncias pessoais .
 Um dos

 sonetos sob tal aspecto mais significativos  Alma minha gentil , que

 te partiste , quando confrontado com o imitado soneto de Petrarca , que

 transcrevemos e traduzimos :

 Anima bella , da quel nodo sciolta

 Che pi bel mai non seppe ordir Natura ,

 Pon dal ciel mente alla mia vita oscura ,

 Da si lieti pensieri a pianger volta .

 La falsa opinion dal cor s' tolta

 Che mi fece alcun tempo acerba e dura

 Tua dolce vista : ormai tutta sicura ,

 Volgi a me gli occhi , e i miei sospiri ascolta .

 Mira ' l gran sasso donde Sorga nasce ,

 E vedravi um che sol tra l'erbe e l'acque

 Di tua memoria e di dolor si pasce .

 Ove giace ' l tuo albergo e dove nacque

 Il nostro amor , vo ' ch'abbandoni e lasce

 Per non veder ne ' tuoi quel ch'a te spiacque .

 In M. Soneto , 37

 ( Traduo : Alma bela , solta daquele n / Que nunca mais belo a

 Natureza soube urdir , / Lana do Cu uma lembrana  minha vida

 obscura , / De to alegres pensamentos volta s lamentaes .
 / Foi

 extirpada do corao a falsa opinio , / Que me tornou , por algum

 tempo , acerbo e duro / Teu doce olhar ; hoje , plenamente segura , /

 Volve para mim os olhos e escutas os meus suspiros .
 / Atenta na grande

 fraga de onde nasce o Sorga , / E a vers algum que s por entre

 ervas e guas / De tua memria e de dor se nutre .
 / O lugar onde est

 a tua casa e onde nasceu / O nosso amor , quero que abandones e

 esqueas / Para no veres nos teus o que te desagrade. ) .

  , de toda a evidncia , o soneto camoniano de mais delicados

 sentimentos que o do florentino .
 " Em Cames , uma religiosa e casta

 timidez na evocao da melindrosa amada celestial , uma condicional ,

 no expressa no soneto de Petrarca , atenuando a possvel irreverncia

 de pedido :

 Se l no assento etreo onde subiste ,

 Memria desta vida se consente .
 .
 .

 Depois a humildade de quem pede - - no te esqueas - - em vez da

 exigncia senhoril - - quero que abandones e esqueas .
 Mais abnegada e

 misticamente amorosa tambm a atitude do portugus : no o preocupa

 apenas viver c na terra sempre triste ( pesamento dominante no

 florentino ) ; deseja que a amada repouse l no Cu eternamente .
 E o

 fecho do soneto , onde a tcnica exige que refulja o conceito

 principal , ao contrrio de Petrarca , que o carrega no lastro das

 coisas da vida , d-lhe o nosso lrico asas que estremecem em desejos

 de msticas npcias no Cu .

 Um crtico italiano - - Pallizzari - - , no confronto dos mesmos sonetos ,

 sente igualmente a superioridade do camoniano .

 Mas o Poeta tinha o seu dramtico mundo inconfundvel , que no podia

 ser sentido no mesmo grau emotivo , nem expresso por anlogas palavras

 ou imagens .
 De a as suas Odes , como a que comea : Pode um desejo

 imenso .
 .
 .
 ; as Elegias , como O poeta Simnides , falando , ou as

 Canes , como Junto dum seco , fero e estril monte .
 .
 .
 ( A regio

 africana de Guardafu ) .
 Nesta , os seus dias so lembrados como de dor e

 de ira cheios ; o Poeta no teve contra si apenas a vida , o sol

 ardente , os mares grossos , frvidos e feios , seno tambm os seus

 pensamentos , que , sendo meios para enganar a prpria natureza , apenas

 lhe evocavam o que mais podia dobrar do mal a aspereza .
 E como era

 necessrio , foram novas as expresses , inditas as imagens em que ele

 pde captar a trgica realidade :

 Aqui a imaginao se convertia

 Num sbito chorar e nuns suspiros

 Que rompiam os ares .

 Aqui , a alma cativa ,

 Chagada toda , estava em carne viva .

 ................................

 No tinha parte donde se deitasse

 Nem esperana alguma onde a cabea

 Um pouco reclinasse , por descanso .
 .
 .

 E , na suposio de que sua triste voz pudesse tocar os ouvidos

 anglicos , subitamente , o alvoroado surto da esperana visionria ,

 lhe perturba o movimento do discorrer :

 Ah !
 Senhora !
 Senhora !
 Que to rica

 Estais , que c to longe , de alegrias

 Me sustentais com doce fingimento !

 ..................................

 Entre as elegias , lembro ainda a que comea depois do soneto

 dedicatria :

 Divino , almo Pastor , Dlio dourado .

 O Poeta , pensando nos desconcertos do Mundo , parece chegar a

 concluses que negam a Providncia , que cr incompatvel com tais

 desconcertos , em que a injustia predomina .
 As oitavas que ao problema

 dedica , so a meditao mais audaciosa a que , em matria religiosa ,

 foi dada expresso potica .
 Mas o seu Autor , que na elegia Se quando

 contemplamos as secretas .
 .
. , sente a existncia de Deus na ordem do

 Universo , sente-a na verdade que nas cousas anda , / Que mora no

 visbil e invisbil , e , para juntar  crena em Deus a crena em

 Cristo , no se contenta de opor , s dvidas de todos os treze versos

 anteriores do soneto Verdade , amor , rezo , merecimento , a absoluta

 afirmao do ltimo : Mas o melhor de tudo  crer em Cristo .
 A frase  ,

 na verdade , mais imperativa do que persuasiva .
 Em toda esta elegia se

 esfora o Poeta por dar evidncia a todos os pormenores da cega

 injustia , da glida ingratido , da crueldade desumana a que Cristo 

 sacrificado , e insere versos deste teor :

 Senhor !
 Que amor foi este to crecido ,

 Que to dobradas foras faz singelas

 L de to alto , baixo e abatido ?

  preciosas chagas , roxas , belas ,

 Luminrias da noite tenebrosa ,

 De toda luz privada das estrelas !

 As chagas de Cristo , os sofrimentos incomparveis representados , o

 maior sacrifcio feito pela Humanidade , so , na noite tenebrosa do

 Universo e da Vida , luminrias incomparveis !

 Eis os dois pontos em que Lus de Cames - - o nico poeta do seu tempo

 que em Portugal , ao contrrio de Miranda , que escreve :

 Sofistas me so defesos

 Com seus enganos e cismas ;

 De f , que no de sofismas ,

 Quer Deus os peitos acesos ;

 e ao contrrio de Gil Vicente , que se nega a penetrar funduras do

 pensamento religioso - - ousa duvidar , ousa discutir , at que lhe

 segurem a f herdada de seus antepassados , estes dois pontos de apoio :

 ordem do Mundo , que lhe assegura a existncia do Ser que a estabelece ;

 as chagas de Cristo , to grande sacrifcio para a salvao moral do

 Homem , que s lho pode explicar uma ddiva do amor de Deus .

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