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 Cartas e poemas de Mrio de S-Carneiro trazem  tona o universo

 sombrio do autor portugus

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 Jos Castello

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 COMPANHEIROS

 S-Carneiro (  esq. ) e Fernando Pessoa (  dir. ) seguiram rumos distintos ,

 apesar dos pontos em comum

 ' Eu sou um homem para quem o mundo exterior  uma realidade interior ' , escreveu

 Fernando Pessoa .
 A frase podia ser repetida , sem retoques , por seu amigo Mrio

 de S-Carneiro .
 Aos 26 anos , o poeta S-Carneiro trancou-se num quarto de

 hotel , vestiu um smoking , tomou estricnina e , como se aguardasse um encontro

 amoroso , esperou pela morte , que no lhe falhou .
 A longa correspondncia que

 trocaram entre 1912 e 1916 , Pessoa em Lisboa e S-Carneiro em Paris , foi

 exerccio de uma complexa identificao .
 Como Pessoa , S-Carneiro foi um poeta

 que escreveu ' de dentro para fora ' .
 No que ambos se deixassem levar pelo

 sentimentalismo ; repudiavam-no , e em seu lugar procuravam a objetivao da

 emoo .

 S que , onde Pessoa abria caminho e se afirmava , S-Carneiro , apesar de sua

 espantosa poesia , extraviou-se .
 J em 1912 , escreveu : ' Quando busco , acho duas

 formas de desaparecer .
 Uma fcil e brutal - a gua profunda , o estampido de uma

 pistola ; outra , suave e difcil : o sufocamento de todos os ideais , de todas as

 nsias ' .
 Queixava-se de seu ' anestesiamento ' .
 De Pessoa , esperava mais que

 aprovao , um sopro de vida .
 ' Escrevo uma coisa , e logo tenho nsia de saber o

 que o meu querido amigo pensa dela ' , registrou , em 1913 .
 Enviava a Pessoa o

 original de ' Disperso ' , o poema que comea assim : Perdi-me dentro de

 mim / Porque eu era labirinto / E hoje , quando me sinto /  com saudades de mim .

 Saudades do que no foi , no era , no chegou a ser .

 No mesmo poema , S-Carneiro se compara a ' um astro doido a sonhar ' .
 Pessoa

 diria que ele foi um meteoro a atravessar , numa descarga de luz , a literatura

 portuguesa .
 ' No chegou a ter uma biografia , teve apenas gnio ' , completou .

 Essa concentrao absoluta na obra literria , que Pessoa tomava como positiva ,

 para S-Carneiro era uma sina .
 Em 1914 , ele diz : ' No tenho estados de alma ,

 nem os posso ter j porque dentro de mim h algodo em rama ' .
 O mesmo que h

 dentro dos animais empalhados .
 Em agosto de 1915 , enviou ao amigo o poema

 ' Serradura ' .
 Est dito : A minha vida sentou-se / E no h quem a levante .

 Sua dor perturbava o amigo .
 Em dezembro de 1915 , Pessoa inicia assim uma carta :

 ' Como lhe escrevo , antes de tudo , por ter a necessidade psquica absoluta de

 lhe escrever ...
 ' .
 Em 1916 , diz : ' Escrevo-lhe hoje por uma necessidade

 sentimental - uma nsia aflita ' .
 A inquietao de Pessoa era o reverso da

 depresso do amigo .
 Assim Pessoa admite a armadilha que os ata : ' O fato  que

 sua grande crise foi uma grande crise minha ' .
 Depois do suicdio de

 S-Carneiro , ele escreve : Como ramos s um , falando !
 Ns / ramos como um

 dilogo numa alma .
 Difcil colquio , com um poeta , S-Carneiro , que levou ao

 extremo a experincia da inexistncia .
 Pessoa tambm desaparecia sob seus

 heternimos , mas , em vez de afogar-se , e apesar dos desassossegos ,

 multiplicava-se .
 J S-Carneiro bebeu , com sofreguido , o fluido do nada .

 ' Quero sentir .
 No sei ...
 perco-me todo ' , escreveu .
 Poeta da disperso ,

 S-Carneiro foi , como se definiu , um ' homem quase ' , em que ' de tudo houve um

 comeo ...
 e tudo errou ' .
 Sua morte no foi uma despedida , mas um encontro .

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 Correspondncia com Fernando Pessoa

 [ INLINE ] Autor

 Mrio de S-Carneiro

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 Poemas [ INLINE ]

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 Edio 322 - 19/07/04

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