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 Alemanha descobre versos colricos de Klaus Kinski

 Poemas inditos do ator esto reunidos em ' Febre ' , que ele escreveu aos 22 anos

 em ritmo frentico

 Publicadas originalmente em O Estado de So Paulo - Caderno 2

 http : // www.estado.estadao.com.br / editorias / 2001/10/18/cad032.html

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 Reproduo

 Kinski em 1956 : passado na guerra e no hospcio

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 GISELA PIMENTEL

 Especial para o Estado

 FRANKFURT - Ele escrevia em ritmo febril , mais de dez poemas por dia .

 Na poca em que morou em Paris , em 1952 , Klaus Kinski transbordava

 criatividade potica .
 Tinha apenas 22 anos e j havia sido prisioneiro

 de guerra , passado pelo hospcio e iniciado sua carreira artstica nos

 palcos berlinenses .
 Seus textos , ferventes de dio e provocao ,

 paixo e crena na vida , ficaram perdidos por mais de 40 anos .

 S agora , quase dez anos depois de sua morte , em 23 de novembro

 de 1991 , os poemas so publicados por uma editora alem e

 rompem o crivo da crtica como a descoberta literria do ano .
 O

 lanamento de Febre - Dirio de um Leproso faz parte de uma

 srie de homenagens ao ator , um dos maiores da histria do

 cinema , que completaria hoje 75 anos .
 Alm de retrospectivas de

 seus filmes , exposies fotogrficas , peas teatrais , livros de

 fotos e biografia , est sendo lanado um CD com o ator alemo

 Ben Becker fazendo uma leitura dramtica dos poemas .

 " O livro era para se chamar Bergell " , diz Thomas Harlan , de 73

 anos , no prefcio de Febre .
 O escritor alemo foi grande amigo

 de Kinski e dividiu com ele a espelunca parisiense onde os

 poemas foram escritos .
 " Bergell tinha 16 anos , era norueguesa .

 Klaus encontrou-a nos idos de 1952 em um banco de pracinha .

 Numa noite de outono ,  meia-noite , ele a trouxe pelas mos ,

 ' para sempre ' , para o nosso quarto " , narra .
 Segundo Thomas ,

 Kinski a chamava assim por causa do vale suo pelo qual era

 apaixonado .
 Ele recorda que Bergell era muito branca , com uma

 tez " quase transparente " , cabelos longos e pretos .

 A jovem sofria de cncer e do corao .

 Kinski cuidou dela como uma filha e tornou-se seu amante .
 " Por

 causa da falta de espao , tudo aconteceu na minha insuportvel

 presena " , prossegue Thomas .
 " Os textos vinham a galope ,

 surgiam um atrs do outro e , muitas vezes , sem eu dar ateno ,

 eram recitados numa ebulio febril , descuidada , seguida por

 urros e gritos , em meio  falta de ar de Bergell , em linha

 reta , uma febre contnua , constante .
 Klaus , fora de si , deitado

 ao lado de Bergell , sussurrava os poemas no ouvido da amante

 como se quisesse compartilhar o fim com ela " , recorda .

 J h muito tempo os versos de Franois Villon e Arthur Rimbaud

 percorriam as veias de Kinski .
 Possudo e visionrio , o

 ator-fetiche de Werner Herzog clama pela morte em vrios de

 seus poemas - " A morte s aparece uma vez por semana / e te

 destrata / ah !
 se vocs soubessem como  difcil estar enforcado

 e no poder morrer !
 "

 Anos mais tarde , incorpora Nosferatu ( 1979 ) no cinema e

 vivencia a dor da perenidade : " A morte no  tudo .
 Muito pior 

 no poder morrer " , lastima-se como vampiro do filme .
 Como ator

 ou poeta , Kinski no interpretava seus personagens , ele os

 encarnava .
 " Ah , dem-me minha morte / para que eu fique " ,

 suplica o artista por trs dos versos , ele que tentou duas

 vezes o suicdio .

 Os poemas existenciais de Febre escancaram a personalidade

 kinskiniana : " No sei quem sou , nem quem fui ( ...
 ) / sou

 inteiramente terno / e me sinto mais forte do que todos / s

 vezes to forte / to fraco / tantas vezes. " Para Kinski , Deus

 no merece respeito : " Eu lhes grito porque no quero rezar /

 pois Deus me mijou entediado / eu agora vejo , ele nunca sentiu

 minha falta / e os seus veres j no ficam mais quietos. " Em

 tom colrico , o poeta escreveu : " Senhor Jesus !
 / voc tem que

 sangrar / eu acho que voc tem que vomitar !!!!!
 " e " Eu escarro

 no Deus que , de joelhos , / gargareja com hstias como um porco

 doente. "

 O sumio dos poemas - Duas semanas depois de Kinski levar

 Bergell para morar com ele e o amigo , a situao de sade da

 namorada piorou muito e a vida a trs tornou-se insuportvel .

 Kinski decidiu , ento , viajar com a jovem " para a Bretanha e ,

 depois , talvez , para a Sua , para Bergell , supondo que seria

 mais fcil para ela morrer no lugar que tinha o seu nome " ,

 presume Thomas , pois depois da viagem Kinski jamais fez

 comentrios sobre o paradeiro da amada .

 Quando Bergell sumiu , levou junto uma cpia dos poemas que

 havia ganho de presente de Kinski .
 Os originais foram parar

 numa mala cheia de fotos e outros objetos pessoais considerados

 suprfluos por Kinski e Thomas .
 Antes de viajar para Haifa ,

 Israel , os dois a deixaram guardada com Alain , um amigo , e

 nunca mais voltaram para busc-la .
 S 40 anos mais tarde ,

 depois da morte de Kinski ,  que a mala - j sem o original de

 Febre - foi entregue aos herdeiros .
 Como nesse meio tempo

 Kinski ficara famoso , Alain acabou emprestando a mala para duas

 francesas .
 Sem que soubesse , elas pegaram tudo o que quiseram ,

 devolveram a mala sem metade do contedo e desapareceram .

 Os poemas do livro recm-lanado foram achados por Peter Geyer .

 H dois anos , o documentarista de cinema e admirador do

 irascvel protagonista de Aguirre , a Clera dos Deuses navegava

 sem pretenses pela Internet quando , de repente , caiu numa

 pgina de leiles .
 Resolveu checar as ofertas e acabou

 encontrando algo impressionante : " coleo 192 : K. Kinski , ator

 ( textos e lembranas de uma amiga de juventude 1948-1956 ). "

 Geyer no teve dvidas :

 pegou o carro e viajou de Berlim para Munique decidido a

 participar do leilo e a pagar qualquer preo pelo achado .

 " Tratavam-se de textos inditos que clamavam por publicao e

 no podiam cair nas mos de algum que no tivesse nada a ver

 com a arte ou mesmo ficar sob a custdia de colecionadores " ,

 diz Geyer , que pelo equivalene a R$ 3.500 levou a caixa com

 fotos , cartas de amor , poemas e desenhos para casa .

 A coleo pertencia  recm-falecida mulher de um mdico

 alemo , que havia sido amante de Kinski na juventude e que ,

 antes de morrer , com medo de ser descoberta pelo marido ,

 desfez-se do que podia .
 " A privada deles vivia entupida " , conta

 a faxineira responsvel por esvaziar o apartamento e que

 entregou a caixa de Kinski para o leilo .

 At hoje permanece um enigma sobre como os poemas de Febre

 foram parar nas mos da mulher do mdico , o que as francesas

 fizeram com o material roubado e qual o paradeiro de Bergell .

 Nessa histria , s uma certeza : " So os poemas de Kinski " ,

 garante Harlan .

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