Fatores Humanos na Escala de Vo

"Decolamos de Anchorage onde o ajuste de altmetro era 28.83in. Ao passarmos pela altitude de transio, eu e o co-piloto ajustamos, erroneamente, os nossos altmetros para 28.92in (e no 29.92in, utilizado em vo de cruzeiro). Ao entrarmos na rea de controle de Tquio, fomos informados que a leitura de altitude de nossa aeronave na tela do radar indicava 39.900ft ao invs de 39.00ft."
Essa declarao faz parte de um relatrio confidencial enviado  NASA pela Korean Airlines, atravs de programa ASRS - Aviation Safety Reporting System. Nesse relatrio, verificaram-se, dentre outros, os seguintes fatos: 1) a decolagem foi executada na madrugada; 2) O comandante e o co-piloto no conseguiram descansar satisfatoriamente antes da jornada.

Com a preocupao precpua de proporcionar referncias mais seguras para a execuo das chaves de vo, alguns fatos e regras baseadas nas limitaes dos Fatores Humanos devem ser observados. Relacionamos alguns assuntos do tema Fatores Humanos e fazemos algumas recomendaes com o objetivo de melhorar a elaborao e a distribuio das programaes de vos.
O resultado pretendido  uma escala de elevada qualidade no aspecto Segurana de Vo, com conseqente aumento de produtividade.  importante ressaltar que as limitaes humanas devem ser estudadas para que se possa atingir um equilbrio entre produtividade e Segurana de Vo. O Anexo 1 da ICAO preconiza o conhecimento apropriado de Fatores Humanos por parte dos pilotos e, porque no, tambm dos profissionais que determinam o dia-a-dia dos tripulantes.
A regulamentao do aeronauta foi implementada com o intuito de promover a Segurana de Vo mas, mesmo assim, sua aplicao pode ser feita de forma que a boa parte da Segurana pretendida seja colocada em risco. Normalmente, por alta demanda do trfego ou por uma eventual falta de tripulantes em um determinado equipamento, torna-se necessrio utilizar todas as regras estabelecidas pela regulamentao, num enfoque diferente daquele pretendido - Segurana de Vo - ainda que dentro da lei, mas longe da margem de Segurana idealizada. Essa situao submete os tripulantes a cargas de trabalho estressantes e chaves de vo por vezes perigosas.
A indstria aeronutica  caracterizada pela irregularidade de horrios de trabalho, sendo necessria a disponibilidade das tripulaes durante as 24 horas do dia. No entanto, esses fatores impem, ao tripulante, riscos relacionados  fisiologia humana, trazendo problemas de sade fsica, psicolgica e scio-familiares. Os turnos da noite, por exemplo, propiciam as disfunes do trato gastrintestinal (lcera, diarria etc.), distrbios psicossomticos (dor de cabea, fadiga e nusea) e aumento do risco de doena cardiovascular.
Sabemos que a considerao desses fatores na confeco das escalas demanda aumento de custos, alm da complexidade das variveis. Mesmo assim, acreditamos ser possvel e essencial incluir os Fatores Humanos como aspecto a ser considerado. Com esse novo enfoque, apesar de o aumento do custo da escala ser o nico parmetro que pode ser facilmente quantificado, temos a convico de que os resultados desse investimento em termos de melhoria da Segurana de Vo, aumento da produtividade e a diminuio de dispensas mdicas sero facilmente notados em pouco tempo.
Falhas mecnicas e condies adversas de tempo no so to preocupantes isoladamente. Porm, sua combinao com outros fatores pode quebrar ou remover as defesas do sistema e isso sim  preocupante.
Como em vrias atividades de risco elevado, a aviao vem desenvolvendo artifcios que tentam manter o sistema  prova de falhas simples, de maneira bem genrica, criando defesas. A probabilidade maior  que sejamos vtimas de um acidente "organizacional", onde uma falha latente, normalmente gerada nas esferas gerenciais e organizacionais, combinada com eventos adversos (mau tempo, pane, local desconhecido etc.) e falhas ativas individuais (erro ou violao de procedimentos operacionais) desencadeiam uma situao de perigo.
Para um impacto significativo na eliminao desses acidentes/incidentes "organizacionais"  imprescindvel entendermos melhor esses fatores contribuintes. A quantidade de acidentes e incidentes so maus indicadores da "sade" da Segurana de Vo de uma empresa. Somente o controle completo dos fatores causadores desses acidentes pode dar uma real medida do nvel de Segurana de uma organizao. Em outras palavras, organizaes "seguras" podem ter acidentes graves, enquanto as "inseguras" podem escapar deles, por pura sorte, durante longos perodos. Situaes extremas de fadiga induzidas por uma escala mal feita podem ser o fator desencadeador de incidentes/acidentes, principalmente em condies adversas. O piloto tem sido mais de uma vez a ltima defesa do sistema. Criar e fortificar defesas para o sistema  uma atitude reativa, tomar aes em decorrncia dos fatos consumados, posio clssica em relao a acidentes. Com resultados iniciais positivos existe uma grande probabilidade de que as causas reais no sejam combatidas. Essa atitude no  completamente errada, s que ataca apenas parte do problema.

Sono
"Minha mente estala on e off... Eu tento deixar uma plpebra fechada de cada vez enquanto a outra eu sustento aberta com o meu desejo. Mas o esforo  intil. O sono est vencendo. Todo o meu corpo reclama que nada, nada que se pode obter na vida,  to desejado quanto o sono. Minha mente est perdendo a firmeza e o controle".(Charles A. Lindbergh)
O sono  uma necessidade fisiolgica vital, fundamental para manter a ateno e a performance. Quando privado do sono, o crebro apresenta uma resposta natural por meio da fadiga e da sonolncia. O problema surge quando se tem a necessidade de trabalhar, ou viajar, durante o perodo normal de sono e das dificuldades em ter que dormir quando os ritmos biolgicos no esto na fase do sono. Lapsos e performance inconstante so caractersticas de uma pessoa privada do sono.
O indivduo nessa condio no  como um motor que funciona perfeitamente at que se acabe o combustvel e pra de funcionar;  mais parecido com um carro velho que por vezes funciona de maneira adequada, apresenta deficincias, melhora e, depois, deteriora profundamente seu funcionamento e assim vai indo de maneira inconstante.
Outro efeito da falta de sono na performance humana, principalmente quando executando tarefas especializadas, tem se apresentado na influncia sobre as atitudes subjetivas: humor, aparncia e comportamento. Como a motivao representa a diferena entre o que realmente vo fazer, uma combinao particular de circunstncias tem uma relevncia direta na performance humana.
Quando uma pessoa que necessita de 8 horas de sono (em mdia para 24 horas) consegue dormir somente 6 horas, h um dficit de 2 horas de sono.  importante frisar que qualquer perda subseqente de sono ir resultar num efeito cumulativo, que somente poder ser revertido pelo prprio sono. Mesmo a carncia parcial do sono  suficiente para ocasionar os efeitos j descritos. Um dos aspectos mais perigosos da degradao decorrente da falta do sono  o fato de ser pouco provvel que uma pessoa tenha conscincia do quanto sua performance est se deteriorando. Podemos comparar essa falta de conscincia da deteriorao da performance com os efeitos da hipxia (baixo teor de oxignio) ou de consumo de lcool.
 importante, pois, que o perodo de descanso, aps uma jornada, propicie uma oportunidade de recuperar o sono e restabelecer os nveis normais de performance e ateno. Em geral, duas noites com as costumeiras horas de sono necessrias a um indivduo estabilizam o sono regular e restauram os nveis aceitveis de performance e ateno. Os perodos de recuperao mais freqentes reduzem o cansao acumulado com mais eficincia do que os perodos menos freqentes.

Fadiga
"O nariz do avio est baixo, a asa baixa; o avio est mergulhando e virando. Estive dormindo com os olhos abertos... Chutei o leme esquerdo e puxei o manche... Meus olhos pularam para o altmetro... Estou a 1600 ps. O indicador de curvas pende para a esquerda, a velocidade cai, a bolinha sai rapidamente para o lado... Meu avio est ficando fora de controle!" (Charles Lindbergh)
Por definio, fadiga  a fonte das dificuldades que tendem a gerar confuso ou retardo do processo de execuo. Aparece como um processo de causas mltiplas: pode ser reflexo de descanso inadequado, alta carga de trabalho e, principalmente, as horas de vo (possivelmente pelas alteraes e interferncias nos ritmos biolgicos, que so freqentemente descritos pelas "vtimas" como jet lag). Tambm pode ser interpretada como excessiva atividade fsica ou muscular e, finalmente, pode ser resultado de grande atividade cognitiva, como em uma preparao para um importante exame.
A fadiga  traioeira. Estudos tm comprovado ser muito difcil estimar com preciso os nossos prprios nveis de sonolncia e viglia. Um estudo feito pela NASA constatou que muitos pilotos que se consideravam no pice de sua viglia ficaram surpresos ao descobrirem que, ao serem submetidos a testes especficos, constatou-se que seus nveis de fadiga estavam bem altos.
Cada tipo de vo apresenta caractersticas marcantes de fadiga que afetam o desempenho dos pilotos. Sem dvida alguma, tanto os vos que atravessam fusos horrios, como jornadas de trabalho noturno, provocam alteraes intensas nos nossos organismos.
A cada ms, a NASA recebe mais e mais relatrios de tripulaes de vos transmeridionais, descrevendo como a fadiga contribui para que cometam erros operacionais como: "varar" nveis de vo, desviar da rota, pousar sem autorizao da torre, calcular incorretamente o combustvel etc.
Efeitos da fadiga foram detectados nas investigaes do desastre da Challenger em 1986. Dentre diversos itens de Fatores Humanos considerados deficientes, estavam possveis efeitos de privao do sono, excessivas e extensas jornadas de trabalho, efeitos decorrentes de alterao dos ritmos circadianos e a tenso decorrente da presso de se lanar a nave em detrimento s ponderaes sobre a segurana de vo. 
