Fisiologia Circadiana (Jet Lag)
A idia da sndrome de dessincronizao circadiana s veio  tona em 1953, depois que os norte-americanos tomaram a iniciativa de limitar o nmero de horas de vo. No incio, isso foi encarado pelas administraes das empresas areas como uma estratgia para aumentar os ganhos dos pilotos. Posteriormente, mdicos e psiclogos comearam a entender melhor os problemas associados aos trabalhos de longa durao e seus efeitos na sade e no comportamento dos tripulantes, principalmente quando relacionados ao cruzamento de fusos horrios e a irregularidade de horrios.
A dessincronizao circadiana nada mais  do que um desajuste do relgio biolgico das pessoas. A grande variedade de funes corpreas controladas por esse relgio biolgico que mede um ciclo de 24 horas inclui a temperatura corprea, as secrees hormonais, a digesto, a performance fsica e mental, o humor e muitas outras. Em um perodo de 24 horas, essas funes flutuam dentro de um padro regular com um nvel mais alto em uma determinada hora e com um nvel mais baixo em outra hora.
O modelo circadiano (circa= em torno de, dies= dia) de viglia e sono  programado para se ficar desperto durante o dia e dormir  noite. O relgio circadiano repete esse ciclo diariamente. O perodo das 02:00 s 06:00h, conhecido como "janela de circadiano baixo",  identificado como o horrio em que o corpo est programado para dormir e durante o qual a performance se deteriora. Dessa maneira, o rompimento do ciclo circadiano pode levar a srios dficits de sono,  perda cumulativa de sono,  diminuio da performance e ateno e a vrios outros problemas de sade. E, em se tratando de tripulantes, o problema se agrava devido a influncia direta sobre as habilidades de pilotagem.
Ao cruzarmos vrios fusos, nosso ritmo circadiano fica prematuramente adiantado ou excessivamente atrasado. Os efeitos mais intensos so observados quando se voa na direo leste do que quando voando para oeste. Presumivelmente, isso se d pela dificuldade do ser humano em "encurtar" o dia. Infelizmente, o ser humano no consegue reajustar o relgio biolgico to facilmente quanto os relgios de pulso, necessitando de algum tempo para se adaptar s novas condies. Geralmente, quanto maior a idade, maior a dificuldade de adaptao, que leva em mdia de 24 a 48 horas para ocorrer.

Particularidades dos Vos Domsticos de Curta Durao
A maioria dos estudos sobre fadiga tm se concentrado nos vos de longo curso. Temos notcia de apenas um estudo srio sobre vos domsticos de curta durao, realizado em 1972, com objetivo de analisar os efeitos da fadiga nos vos curtos da Lufthansa na Europa. Apontaremos alguns tpicos observados.
- As grandes variaes de freqncia cardaca monitoradas durante as aproximaes e pousos garantem a incluso do fato "nmero de etapas" como um fator gerador de stress na confeco da escala.
- Em geral, foi constatado que tripulaes que efetuam os vos de pequeno curso se tornam mais fatigadas na medida em que os dias da viagem vo passando. Esse efeito  ainda maior quando existe a necessidade de estender por mais um dia a programao previamente publicada.
- Ficou comprovado cientificamente que o sono nos pernoites no s  menor como tambm mais fragmentado do que em casa. A constatao desse efeito  evidenciada pelo incremento da incidncia de "cochilos" durante o vo e aps a viagem, que aumenta no segundo dia de viagem e atinge seu pice no primeiro dia aps terminada a programao.
- O consumo de bebida alcolica fora do horrio de trabalho com objetivo de relaxamento  bem comum entre os tripulantes.
- A intensidade do dia de trabalho tem mais impacto sobre a qualidade do sono do que a durao da jornada.
- O nmero de horas voadas, no a durao da jornada, est associado a longos perodos de sono. Sono de pior qualidade est relacionado com o aumento das paradas em rota (tempo da jornada menos o tempo de vo). Em outras palavras, um dia de baixo aproveitamento estar acompanhado de uma noite de sono mais curto e de pior qualidade.
- Fadiga e distrbios do sono ocorrem em maior quantidade aps um dia de operao sob condies IFR (vo por instrumentos) e quando realizados procedimentos de aproximao em aerdromos com pistas curtas.
- De uma perspectiva operacional  interessante observar que a durao das viagens (dias fora de casa), e no necessariamente a durao das jornadas dirias ou o nmero de etapas realizadas, contribui de forma mais intensa para o desenvolvimento da fadiga.
- H boa quantidade de dados cientficos que apiam a constatao de que os tripulantes, durante os pernoites, tm dificuldade de ajustar seu sono e obter a mesma qualidade do sono que tm em suas casas. Inclusive, alguns indivduos apresentam insnia nos pernoites, mesmo que a regulamentao seja observada e a qualidade das acomodaes tambm seja boa.

Vos Cargueiros Noturnos
Esse tipo de vo est diretamente relacionado ao turno de trabalho noturno e a todos os efeitos nocivos decorrentes. Existe um estudo especfico, executado nos Estados Unidos com 41 tripulaes de B-727, com a idade mdia de 38 anos, que foram monitoradas antes, durante e aps uma programao de uma semana.
Durante o descanso diurno, constatou-se que o sono mdio foi reduzido em 3 horas (41%) em relao ao descanso noturno, alm de ser considerado mais superficial, menos restaurador e pior como um todo. Havia uma noite de descanso nessa programao, a qual atuava positivamente como contramedida ao sono acumulado.
O ritmo circadiano no se adapta completamente ao programa de descanso invertido, sendo atrasado em aproximadamente 3 horas. Nos dias de trabalho, os reportes de dores de cabea aumentaram em 400%; de nariz congestionado em 200% e de "olhos ardentes" em 900%. A alimentao fica prejudicada (consome-se lanche ao invs de refeio). Outro fator negativo dessa operao  o longo tempo de espera no aeroporto, enquanto aguarda-se o carregamento da aeronave.
Isso demonstra claramente que operaes cargueiras noturnas, como outros trabalhos noturnos, envolvem uma interrupo fisiolgica sem comparao com as operaes diurnas.

Concluso
A vasta literatura internacional a respeito das condies de trabalho e sade dos aeronautas demonstra que o tema  complexo, envolvendo uma multiplicidade de aspectos. Fica evidente que as tripulaes esto expostas a vrias condies adversas. Por outro lado, reconhecemos que a indstria aeronutica representa uma classe diferente em suas necessidades quanto ao tipo de trabalho e ambientes operacionais e, tambm, as diretrizes e os regulamentos no podem cobrir todo o pessoal ou condies operacionais.
Portanto, no existe uma soluo nica e definitiva para esses problemas. No entanto, excesso de zelo com os aspectos econmicos no pode negligenciar a Segurana. Recomendamos que mesmo com uma eventual elevao dos custos para a realizao dos vos solicitados  prefervel optar por uma escala com enfoque de Segurana e Fatores Humanos.
Uma simples sada da pista por motivos de stress ou fadiga j pagaria os custos extras com esse investimento proposto. O desfio das novas tecnologias  de que capitalizaremos em suas qualidades meios para que as tripulaes possam atuar de maneira mais segura e que no se iludam acreditando que podem confiar nos automatismos modernos e que isso possa compensar a realidade de nossa necessidades dirias de sono e repouso.  essencial, pois, que a Segurana seja reconhecida como uma responsabilidade dividida entre todos os participantes da indstria.

-Fonte: Ricardo Sabia de Cerqueira Lima Co-piloto de Boeing 767
-Bibliografia: Psychophysiological response to overnight cargo operations - NASA Ames Research Center .- Identifying the latent causes of aircraft accidents before and after event - Prof James Reason. Flying alert - Capt. Robert Sumwalt. Condies de trabalho e sade dos aeronautas - Dra. Cristiane Galvo Barbosa. Nota: Texto gentilmente cedido pelo autor.
-Publicado originalmente na Revista Sipaer, no 70, outubro de 1999. Publicado no Boletim Tcnico da Associao de Tripulantes da TAM (ATT)


