Dificuldades e Emoes do Primeiro Vo Solo

Tudo comea na temida banca examinadora do DAC. Aps aprovado e com o CCT (Certificado de Conhecimentos Tericos) em mos, comeo a luta para poder conseguir voar.
Cada hora de vo, um sufoco. Pas em crise, combustvel cada dia mais caro, aeroclubes falindo, impostos absurdos e, para finalizar, o preo da hora de vo aumentando em progresso geomtrica, desanimando qualquer iniciante na carreira de comandante.
Apesar das dificuldades, quem quer se tornar um piloto no desiste e luta at a ltima hora para conseguir o to sonhado brev.
Na primeira hora de vo sentimos o real prazer de voar e nos apaixonamos de vez. Segue ento a instruo. Uma seqncia de stols , oito-sobre-marcos , coordenaes (1 e 2 tipos), chandelle , S sobre estrada. Comea em seguida uma srie de manobras que preparam o aluno para o esperado vo solo. Muitos deles, quando iniciam a instruo, acham que h um determinado nmero de horas de vo para se realizar o vo solo, mas, na verdade, a aptido e o desempenho de cada piloto  que determinam esse momento.
Mais um dia amanhece, no ms de setembro de 2002 ,na cidade de Votuporanga (SP). O aeroporto opera cavok (clear and visibility o.k.) e o sol deslumbra num perfeito amanhecer. Com alojamento gratuito no prprio hangar, os alunos hospedados no aeroclube acordam cedo para iniciar mais um dia de instruo. Comigo no  diferente, me levanto cedo. Para concluir algumas manobras, fao um vo sob instruo do Milton Silva com durao de uma hora no Aero Boero 115. Depois do meu vo, segue a instruo aos demais alunos do aeroclube. Torno a voar s 17h, com o pr do sol previsto para as 18h08m. s 16h45m incio a inspeo externa do avio e todos os procedimentos recomendados. com cintos ajustados, fao roncar os 115 cavalos do 'fascinante' Aero Boero, ainda com o instrutor a bordo. rea livre. Comeo a taxiar para o ponto de espera da pista (05/23) de Votuporanga, situado na interseco prximo ao meio da pista.
No ponto de espera , realizo o check necessrio: comandos, RPM, magnetos, mistura, e confiro o vento que est alinhado para a cabeceira 05. Perna de travs, do vento, base, final e pista livres. Quase tudo pronto, reinicio o txi at a cabeceira. L, devidamente alinhado, fao o check antes da decolagem: tudo pronto. Manete  frente, ao chegar na VR de 60mph, decolo o Boero para um vo que seria inesquecvel para mim.
Nos primeiros vinte e cinco minutos de vo realizo uma srie de pousos e decolagens (touch and go). Em um dos meus pousos, j no solo, o instrutor recomenda que realize um backtrack e retorne  cabeceira 05, onde o vento j se encontrava calmo. Neste momento o nervosismo toma conta e a dvida passa pela cabea: ser que realmente j sou capaz? Avio alinhado na cabeceira, o instrutor desembarca e diz : Marcelo, voc esta capacitado para realizar o seu primeiro vo solo, voc tem o conhecimento e a prtica necessrios, realize seu vo com tranqilidade, efetuando dois toques e arremetidas. Bom vo e vai com Deus'. Nessa hora, ele trava o cinto dele, fecha a porta e afasta-se vagarosamente da aeronave. Agora sozinho no cockpit, rezo um Pai Nosso e uma Ave Maria. Fao o check antes da decolagem, com enorme ateno e apreensso. Tudo pronto novamente. Manete  frente e o Boero lentamente vai ganhando velocidade at a VR, onde com suavidade inicio uma bela decolagem. Aps cruzar a cabeceira oposta (23), desligo os faris, a 300 ps retiro os flapes e a 500 ps realizo uma curva  esquerda para ingresso na perna de travs. At este momento no havia percebido que estava sozinho, quando ento decidi dar uma olhada para trs e conferir se o instrutor realmente no estava a bordo. Aps a confirmao, vi que era o grande responsvel por aquela aeronave. Tinha que fazer todos os procedimentos com grande responsabilidade, preciso e percia.

Chega o momento de ingresso na perna do vento, agora bem mais calmo e confiante, giro para intercepet-la. Estabilizo a 1.000 ps na perna do vento. Fao o check pr-pouso e me preparo para o pouso, observando um King Air que se encontrava na final e um Paulistinha P-56-(sem rdio) na iminncia de girar a perna base. Apesar de observar o trfego intenso, nunca visto antes por mim em Votuporanga, mantenho total calma e continuo no meu procedimento para pouso. Vejo que o Beech havia pousado, mas que precisaria realizar um backtrack para a interseco da pista, o que comprometeria o pouso do Paulistinha, que j se encontrava na final. Minha localizao, naquele momento, era estabilizado na perna base um pouco mais distante que o normal, devido ao trfego. Decido girar final, mantendo separao visual com o Paulistinha, que havia arremetido ao perceber o Beech na pista.
J estabilizado na final, observo que o Beech no iria livrar a pista a tempo para que eu pudesse fazer um pouso seguro, e tambm decido arremeter. Mantenho a proa da pista e subo para a altitude de trfego, sempre mantendo a devida separao com o P-56 que havia arremetido.
Realizo todos os procedimentos padronizados. Estabilizado na perna do vento, percebo que o P-56 j havia pousado e estava livrando na interseco. Fao novamente o check pr-pouso e inicio o procedimento, girando base e final para pousar. Na perna final com uma boa rampa de descida, realizo o toque com preciso. Aps o toque, arremeto e realizo mais um excelente pouso, que seria o pouso final. Livro na interseco, apago os faris de pouso e inicio o txi at o ptio. Na proximidade do hangar do aeroclube de Votuporanga, noto grande movimentao de pessoas, entre eles o presidente do aeroclube, Antnio Marcos Pinheiro Pinto, o instrutor Milton Silva (com mais de 1.000 horas de Boero) e dois grandes amigos pilotos, Thiago Silva e Lineu Gobeth. Estaciono a aeronave e realizo o corte com segurana, sempre conferindo detalhe por detalhe.
Ao desembarcar, calo a aeronave, coloco o tubo de pitot e por ali mesmo recebo inmeros ovos na cabea. Sento na grama e levo um banho de produtos estragados e com um odor horrvel. Apesar do mau cheiro, a emoo  imensa, esqueo tudo. O sol j estava se pondo e uma linda noite nos esperava para um grande churrasco de confraternizao com amigos que testemunharam minha consagrao. Esta  apenas mais uma das muitas histrias de vos solos realizados por todo mundo, mas tenho certeza de que so inesquecveis para todos os pilotos.
Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelos pilotos, a aviao nos encanta e surpreende a todos, pela constante inovao tecnolgica, por sua histria gloriosa e pelo prazer indescritvel de VOAR.

Marcelo Guerrante Guimares
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