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 AMLIA RODRIGUES

 Cantora : 1920 1999

 Leonor Lains

 Amlia Rodrigues ( retrato ) , 1954

 PORQUE O FADO NO SE CANTA , ACONTECE ...

 QUANDO TUDO ACONTECEU ...

 1920 : Nasce em Lisboa no Bairro de Alcntara a 1 de Julho ( data escolhida por

 Amlia porque nos registos consta o dia 23 ) .
 - 1929 : Entra na Escola Oficial da

 Tapada da Ajuda , onde terminar a instruo primria. - 1934 : Trabalha como

 bordadeira , engomadeira e tarefeira. - 1935 : Desfila na Marcha de Alcntara e

 canta pela primeira vez , acompanhada  guitarra , numa festa de beneficncia. -

 1938 : Representando o Bairro de Alcntara participa no Concurso da Primavera. -

 1939 : Estreia-se como fadista no Retiro da Severa. - 1944 : A estada no Brasil ,

 prevista para seis semanas , estende-se por trs meses .
 Actua no Casino de

 Copacabana. - 1945 : No Brasil grava os primeiros dos 170 discos ( em 78

 rotaes ) da sua carreira. - 1947 :  protagonista no filme  Capas Negras  ,

 batendo todos os recordes de exibio ( 22 semanas em cartaz no Cinema Condes ) .

 - 1948 : Recebe o prmio do SNI ( Secretariado Nacional de Informao ) para a

 melhor actriz , pelo seu papel em  Fado  , filme de Perdigo Queiroga. - 1949 :

 Actua pela primeira vez em Paris e Londres. - 1951 : Digresso a frica :

 Moambique , Angola e Congo. - 1952 : Actua pela primeira vez em Nova Iorque no

 La Vie en Rose , ficando 4 meses em cartaz .
 Assina contrato com a editora

 discogrfica Valentim de Carvalho , que passa a gravar todos os seus discos. -

 1953 :  a primeira artista portuguesa a cantar na televiso americana no

 programa  Eddie Fisher Show  .
 - 1954 : Edita o primeiro LP nos Estados Unidos .

 Actua no Mocambo , em Hollywood. - 1955 : Interpreta a  Cano do Mar  e o  Barco

 Negro  no filme de Henri Verneuil  Os Amantes do Tejo  .
 Filma no Mxico  Msica

 de Sempre  com Edith Piaf. - 1957 : Estreia-se no Olympia em Paris e comea a

 cantar em francs .
 Charles Aznavour escreve para ela  Ai , Mourrir pour Toi  .
 -

 1961 : Casa no Rio de Janeiro com o engenheiro Csar Seabra com quem vive at 

 morte deste em 1997 .
 - 1962 : Lana o disco  Asas Fechadas  e  Povo que Lavas no

 Rio  do poeta Pedro Homem de Mello. - 1966 : Actua no Lincoln Center ( Nova

 Iorque ) com uma orquestra sinfnica dirigida pelo maestro Andr Kostelanetz. -

 1967 : Recebe em Cannes , pela mos do actor Anthony Quinn , o prmio MIDEM ( Disco

 de Ouro ) para o artista que mais discos vende no seu pas , facto que se repete

 nos dois anos seguintes , proeza s igualada pelos Beatles. - 1970 : Actua em

 Tquio , Nova Iorque e Roma e recebe uma alta condecorao francesa. - 1975 :

 Regressa ao Olympia em Paris. - 1976 :  editado pela UNESCO o disco  Le Cadeau

 de la Vie  em que figura ao lado de Maria Callas e de Jonhn Lennon. - 1977 :

 Canta no Carnegie Hall de Nova Iorque. - 1985 : Volta a cantar no Olympia de

 Paris .
 D o primeiro concerto a solo no Coliseu dos Recreios de Lisboa. - 1989 :

 Comemora os 50 anos de carreira com uma exposio no Museu do Teatro em Lisboa .

 - 1990 : Dois grande espectculos : Coliseu dos Recreios e no S. Carlos onde ,

 pela primeira vez em 200 anos , se ouve cantar o fado. - 1994 : Actua pela ltima

 vez em pblico no mbito de Lisboa , Capital da Cultura. - 1995 :  operada a um

 tumor no pulmo .
 Edita o seu ltimo disco  Pela Primeira Vez  .
 - 1998 : 

 lanado o disco O melhor de Amlia , muito aclamado pela crtica internacional .

  homenageada na Expo 98 .
 - 1999 : A 6 de Outubro morre em Lisboa , na sua casa

 na Rua de S. Bento .

 PORTUGAL : RURAL , POBRE E ATRASADO

 No princpio do sculo XX Portugal tem cinco milhes de habitantes .
  um pas

 essencialmente rural , pobre e atrasado .
 Quarenta mil portugueses emigram por

 ano .
 A taxa de analfabetismo ronda os 70 % .
 A 5 de Outubro de 1910 Portugal

 torna-se numa das primeiras repblicas da Europa .
 O novo regime mobiliza o pas

 e apaixona a opinio pblica .
 Escolas e educao , prioridade .
 A legislao

 consagra os novos direitos de liberdade e cidadania .
 A prtica do exerccio

 desses direitos engendra grandes contradies .
 Comportamentos restritivos e

 repressivos da parte do Partido Republicano no poder .

 Portugal participa na I Guerra Mundial ( 1914 -1918 ) .
 Agravamento das tenses

 dentro da sociedade portuguesa esto na origem da Ditadura de Sidnio Pais .
 Em

 1917 Portugal sofre o desastre da batalha de La Lys , em Frana .
 Agudizam-se as

 tenses entre a sociedade urbana , em vias de industrializao e o mundo rural

 tradicional e arcaico .
 Em Ftima , trs midos afirmam ter visto Nossa Senhora

 em cima de uma oliveira .
 Em Lisboa , na Estao do Rossio , Sidnio Pais 

 assassinado a 14 de Dezembro de 1918 .
 Bento Gonalves , dirigente

 anarco-sindicalista , visita a Rssia durante a revoluo bolchevista .
 Em 1921

 fundar do Partido Comunista

 Em 1920 a Igreja recusa a imagem de Nossa Senhora de Ftima do escultor

 Teixeira Lopes pela sua sensualidade .
 Nas faldas da Serra da Gardunha , um

 tocador de cornetim  cobiado pelas duas bandas do Fundo :  msica nova  e

  msica velha  .
 A vida de msico  insegura , ele tem que assegurar o sustento

 dos quatro filhos e da mulher novamente grvida .
  sapateiro , mas por causa do

 cornetim , poucos sapatos fizera .
 Sai dos confins da Beira Interior e resolve

 tentar a sorte na capital .
  o tempo das cerejas ( Maio e Junho ) e em Lisboa , na

 Rua Martim Vaz , a mulher d  luz uma criana do sexo feminino : Amlia da

 Piedade Rodrigues .
 A vida est m e o sapateiro-msico no arranja trabalho .

 Voltam todos para o Fundo mais pobres do que nunca .
 Excepto Amlia que , com 14

 meses , fica em Lisboa com os avs .

  CANTA ESSA , CANTA ESSA QUE J PARARAM SEIS ...
 

 Amlia Rodrigues com o irmo Vicente e a cunhada Filipina , 1986

 Amlia  a quinta filha de uma prole de nove irmos .
 Vicente e

 Filipe , os mais velhos .
 A mortalidade infantil  grande e a pneumnica

 alastra : Jos e Antnio , ainda meninos , morrem .
 Depois de Amlia

 nasceram mais quatro meninas : Celeste , mais nova dois anos ; Aninhas

 que morre aos dezasseis anos ; Maria da Glria que logo morre e por

 fim , Maria Odete .

 3 de Dezembro de 1923 .
 Em Manhattan , bairro de Nova Iorque , nasce

 Maria Callas , filha de emigrantes gregos .
 Amlia no tem brinquedos ,

 mas sabe duas ou trs cantigas .
 Os vizinhos pedem-lhe que cante e

 enchem-lhe as algibeiras do bibe com rebuados e moedas .
 Duas meninas

 que iro pr em causa o que h muito est estabelecido .
 Duas vozes

 singulares , dois marcos entre o  antes  e o  depois  : uma s-lo- na

 interpretao da pera ; outra na interpretao do Fado .
 Enfim , duas

 renovadoras .

 Golpe militar de 28 de Maio de 1926 .
 A Repblica parlamentar ,

 derrubada .
 O novo regime comea por limitar a liberdade de expresso e

 associao a censura !
 Ilegalizao progressiva de partidos e

 sindicatos .
 Ascenso de Salazar - de ministro das Finanas a

 Presidente do Conselho .
 Amlia  uma rapariguita tmida .
 A nica

 pessoa que consegue que ela cante  o av .
 Amlia dentro de casa , sem

 ser vista , canta tangos de Carlos Gardel e muitas outras coisas .

 Sentado  janela o av conta as pessoas que param para a ouvir :

  Canta essa , canta essa que j pararam seis  .

 Amlia tem quase nove anos e a av , analfabeta , manda-a para a escola

 da Cmara , na Tapada da Ajuda .
 No caminho come figos de piteira e

 rouba florinhas para levar  professora .
 Gosta tanto da escola que

 nada a impede de ir , nem mesmo a sua bronquite asmtica .
 Em casa  que

 no quer ficar !
 Adora a escola onde o tempo  dela e da sua fantasia .

 Ali ningum a manda limpar o p , nem lavar a loia ou esfregar o

 cho .

 Aprende as lies de ouvido e chamam-lhe  sabichona  .
 Mas uma coisa

 no lhe entra na cabea : Geografia !
 A professora insiste para que ela

 compre o livro o seu primeiro livro .
 Quando mais tarde  obrigada a

 comprar outro , a av perguntar-lhe  :  Aquele ainda est novo , para

 que queres outro ?
  .

 Na escola da Cmara  obrigatria a bata branca por cima do vestido .

 L vai Amlia a caminho da escola e , por entre o arvoredo , o cntico

 dos pssaros dilata o espao .
 Encontra uma rapariga toda rota , ainda

 mais pobre do que ela .
 Tira o vestido que traz por baixo da bata e

 d-lho .
 Quando chega a casa , a av diz-lhe para tirar a bata para

 lavar .
 Finge um ar admirado e atrapalhada diz :  Ai !
 Perdi o vestido !
  .

  Olha a fidalga , a dar vestidos !
  exclama a av entre tabefes .

 Faz o exame de instruo primria e , como todas as meninas , leva o seu

 vestido novo que lhe fica muito bem .
  de crepe-da-china azul turquesa

 s pregas , feito pela primeira vez numa modista .
 Depois do exame nunca

 mais o h-de vestir porque ficar a aguardar uma outra ocasio

 importante Entretanto cresce .
 Tem doze anos e para ela a escola

 acabou !

 Como  hbito da gente pobre , grandes e pequenos contribuem para o

 sustento da casa .
 Aprender um ofcio , impe-se .
 Ofcio de bordadeira ,

 escolhe .
 Ganha dois escudos por dia .
 O dinheiro no chega para o

 bilhete do elctrico .
 De manh cedo galga ruas e ruelas a p , da Ajuda

 s Escadinhas do Duque , perto do Chiado .
 Dias e meses a passar a

 ferro ...
 Bordar ?
 Nicles !
 Como nada aprende , a av no quer que ela

 continue .
 Uma tia  encarregada numa fbrica de bolos e rebuados , na

 Pampulha .
 Embrulham-se rebuados , descascam-se marmelos e outras

 frutas .
  preciso gente .
 Amlia ganha agora seis escudos por dia e

 quanto mais descascar e embrulhar , mais ganha .

  NUNCA NOS REVOLTMOS COM A VIDA 

 Amlia , menina trabalhadeira num bairro popular de Lisboa ...
 Entretanto , o que

 est a acontecer no resto do mundo ?
 Consulta a Tbua Cronolgica .

 Amlia Rodrigues com a irm Celeste , Madrid , 1943

 Tem 14 anos feitos .
 Resolve ir viver com os pais e irmos que

 regressaram a Lisboa .
 Em casa da av as coisas eram organizadas .
 Passa

 a viver numa confuso maior .
 Casa pequena para tanta gente , um casal e

 os seus cinco filhos .
  preciso disciplina .
 Como  costume das gentes

 da Beira Baixa , as hierarquias so para se respeitar .
 O irmo mais

 velho  que quem manda ,  quem bate .
 Bastantes bofetadas apanha por

 cantar na rua - ela que tanto gosta de cantar .
 As raparigas nada podem

 fazer sem a sua autorizao .
 Amlia , como filha mais velha , tem que

 ajudar a me na lida da casa .
 Passa as calas e as camisas dos irmos ,

 tira ndoas dos fatos domingueiros .
 Todos os dias leva o almoo aos

 irmos  tasca o 77 em Alcntara , onde eles s consomem vinho para

 poderem usar as mesas .

 A av , uma mulher spera que dera  luz 16 filhos , tem agora vrios

 netos .
 Junta a famlia toda aos Domingos .
 Cada um leva qualquer coisa

 para o almoo e jantar .
 Bem dispostos , os mais velhos cantam coisas da

 terra , cantigas da Beira Baixa .
 Os mais novos o fado .

 O fado tem pouco mais de um sculo .
  uma manifestao urbana dos

 bairros populares e operrios de Lisboa .
 Com o advento da Rdio e do

 disco , as vozes das fadistas Erclia Costa , Ermelinda Vitria , entre

 outros , chegam directamente a um pblico mais vasto .

 No Cais da Rocha a me monta uma pequena banca de fruta .
 Amlia deixa

 a fbrica da Pampulha para ajudar a me .
 No meio do burburinho geral ,

 do colorido das frutas e das hortalias , ecoam os preges - pequenas

 melodias ancestrais - memorial rural das gentes da Beira Baixa ,

 Trs-os-Montes , Minho .

 To pobres so que o seu grau de pobreza  para eles coisa natural .

 Ningum se lamenta .
  o fado da gente pobre .
 Se est frio ,  braseira

 ficam .
 Se chove em casa , alguidares , tachos e panelas no cho

 espalhados , apanham a chuva .
 Se esto a dormir e a gua cai , um ltimo

 recurso  fugir para o lado ,  e dentro do cobertor saltava ainda uma

 pulga !
  - escreve nas suas memrias a prpria Amlia :  Mas nunca nos

 revoltmos com a vida .
 Com certeza , que havia pessoas diferentes de

 ns , seno no havia revolues .
 Mas nuca ouvi sequer falar dessas

 coisas .
 Os privilegiados  que falam dessas coisas , no so os pobres .

 E no fundo entre os pobres tambm h diferenas de classe .
 ramos

 gente  margem  .

 Aos sbados descobre o cinema nas reprises do Alcntara , que apresenta

 filmes muito depois de terem sido estreados nas principais salas de

 Lisboa .
 V a Dama das Camlias com a Greta Garbo ( Camile 1937 ) .
 Bebe

 vinagre e pe-se nas correntes de ar , para ficar tuberculosa como a

 sua herona .
 Ser artista  o seu grande desejo .
 Tem dezasseis anos e a

 sua inseparvel irm Celeste catorze .
 Resolvem fugir num barco ,

 clandestinas , mas vestidas de homens , para ningum se meter com elas .

 Vestem os fatos dos irmos .
 So seis da manhpassado meia hora j

 esto novamente em casa .

 Em 1938 representa o Bairro de Alcntara , onde vive , no Concurso da

 Primavera em que se disputa o ttulo de Rainha do Fado .
 Canta aqui e

 ali , cantigas tradicionais e danas rurais , do vira ao malho , bem

 como as marchas populares nas festas dos santos populares de Lisboa ,

 organizadas pelas colectividades de Cultura e Recreio com cujo

 esprito se identificar sempre .
 Conhece o guitarrista e torneiro

 mecnico Francisco Cruz por quem se apaixona .
 Tenta o suicdio por

 desgosto de amor .

  PORQUE O FADO NO SE CANTA , ACONTECE 

 Amlia Rodrigues no Caf Luso , 1942

 Guernica  bombardeada .
 Pennsula Ibrica , ditadura .
 Em Portugal , Salazar

 continua .
 Em Espanha , Franco comea .
 Hitler , a Polnia invade .
 O Estado Novo

 cria a carteira profissional de fadista , sem a qual os fadistas no se podem

 apresentar em pblico .
 O fado salta das ruas e vielas de Lisboa , dos retiros e

 casas de pasto tradicional para as chamadas  casas de fado  como o Solar da

 Alegria , o Retiro da Severa , o Luso destinado a um pblico sofisticado e

 burgus , com poder de compra .

  precisamente numa desta casas , o Retiro da Severa , que em 1939 Amlia faz a

 sua estreia profissional .
 No ano seguinte actua no Solar da Alegria , como

 artista exclusiva com repertrio prprio .
 Estreia-se no Teatro Maria Vitria ,

 na revista  Ora vai tu  personificando a fadista vestida com xaile negro .

 Casa-se com Francisco Cruz , o torneiro mecnico e guitarrista amador .

 A jovem Amlia impressiona todos .
 Canta com intensidade dramtica o fado porque

  o que interessa  sentir o fado .
 Porque o fado no se canta , acontece .
 O fado

 sente-se , no se compreende , nem se explica  .

 Durante os anos de guerra uma parte da burguesia lisboeta vive os anos loucos .

 Os intelectuais , indignam-se .
 Democratas tomam partido dos que na Europa

 combatem a besta nazi. Salazar , vacilante .
 Espies de ambos os lados - aliados

 e nazis disputam as noites lisboetas , nos cabars e nas casas de Fado .

 Divorciada a seu pedido , Amlia tem 23 anos .
  independente , jovem e

 divertida .
 Ganha bem e sente-se bem em Lisboa .
 A vida  uma festa .

 Restaurantes , boites , espanholas e refugiados , cruzam-se .
 Quando canta ao

 pblico agrada .
 Canta tudo o que est na berra .
 Dana tudo o que est na moda :

 passodobles , tangos , sambas , valsas .
 Todos lhe fazem a corte .
 Leva o pblico

 das casas de fado atrs dela , de um lado para o outro , do Negresco para o

 Tokai , para o Nina .

 Em 1943 estreia-se com grande sucesso no estrangeiro em Madrid , a convite do

 embaixador portugus .
 Comea o seu sucesso internacional .
 Em 1944 est no

 Brasil .
 Delrio !
 A sua estada , prevista para seis semanas , estende-se por trs

 meses e grava , em 78 rotaes , os seus primeiros discos .

 Em 1945 o nazismo , derrotado .
 A oposio ao ditador Salazar , transgride .

 Reunies , manifestos , abaixo-assinados .
 Surge o Movimento de Unidade

 Democrtica .
 Lopes-Graa e os poetas Carlos de Oliveira , Jos Gomes Ferreira ,

 Joo Jos Cochofel ( entre outros ) fazem as  Hericas  para serem cantadas nas

 ruas de Lisboa .
 A grande iluso

 Em 1949 Antnio Ferro  uma espcie de ministro de Salazar para a cultura .
 Tem

 o apoio artstico do sector modernista nacionalista , entre os quais se destaca

 Almada Negreiros .
 Amlia j fizera grande sucesso no Brasil e em Madrid .
 Os

 seus discos so vendidos em 16 pases .
 Pela primeira vez vai a Londres e a

 Paris a convite de Antnio Ferro , que considera Amlia uma grande artista e

 mulher inteligente .
 Sempre que  necessrio abrilhantar as recepes

 governamentais pede-lhe que esteja presente para cantar e encantar :  Achava que

 eu era melhor toalha que tinham em casa mas nunca me ajudou a ser a Amlia

 Rodrigues  .
 Nunca ningum do governo a elogiou .
 A nica pessoa que sempre a

 tratou com respeito foi realmente o Antnio Ferro .
 Salazar sempre que a ela se

 referia , chamava-lhe a criaturinha .

  Sociedade repressiva , mesquinha e tacanha !
  clamam os da Oposio .
 As

 tertlias nos cafs de Lisboa so o reduto da desobedincia .
 A irreverncia e a

 laracha so as grandes formas de exprimir a opinio sem rodeios sobre os estado

 de coisas em Portugal .
 Neo-realista e surrealistas confrontam-se

 ideologicamente .
 Em 1953 os surrealistas portugueses , tendo  cabea o poeta

 Mrio Cesariny , publicam o manifesto A Afixao Proibida .
 Os ento

 neo-realistas Manuel da Fonseca e Carlos de Oliveira publicam respectivamente O

 Fogo e as Cinzas e Uma abelha na chuva .

  PODIA TER SIDO MUITA COISA SE NO FOSSE AQUILO QUE SOU 

 Amlia canta no Argentina ( teatro de pera ) em Roma .
 Entretanto , o que est a

 acontecer no resto do mundo ?
 Consulta a Tbua Cronolgica .

 Amlia Rodrigues no Lincoln Center , em Nova York , com o Maestro Andr

 Kostelanetz , 1966

 Em 1950 organizam-se vrios espectculos de apoio ao programa

 econmico para restaurar uma Europa em runas .
  o clebre plano

 Marshall .
 Na cidade martirizada de Berlim , os primeiros espectculos .

 Participam todos os pases que aderiram a este plano americano .
 A

 escolha recai sobre cantores de msica clssica , mas Portugal no tem

 cantores lricos de nomeada .
 Amlia  a nica artista portuguesa

 conhecida :  Como ouviram alguns discos meus preferiram escolher-me  .

 Canta os poetas portugueses Pedro Homem de Mello e David Mouro

 Ferreira .
 A Irlanda , pas onde a msica popular tem fortes razes , 

 tambm representada por cantores ligeiros .

 Em Roma Amlia quebra um tabu .
 Canta no Argentina , um teatro de pera .

 Neste espectculo participa a cantora lrica Maria Caniglia , o

 violinista Jacques Thibault e o tenor Fiorenzo Tasso , acompanhados por

 uma orquestra sinfnica .
 O contraste  grande .
 Amlia  a nica

 cantora ligeira .
 Treme como varas verdes .
 Est sozinha com a guitarra

 portuguesa de Raul Nery e a viola de Santos Moreira :  Trs gatos

 pingados que no sabiam nada de msica a tocarem ao p de uma

 orquestra sinfnica , enorme !
  .
 Quando entra no palco tem uma tal cara

 de medo , que nas primeiras filas pessoas olham-na com ternura :  Acho

 que tive o pblico comigo , ainda antes de comear  .
 O sucesso 

 grande .
 Sai do palco , comea a rir e a chorar ao mesmo tempo .
  Tive o

 nico chilique da minha vida .
 Era tudo no palco com leques ,  minha

 roda , a dizerem .
 Perch pangere ?
 Un sucesso !
 Un trionfo !
 Perch

 pangere ?
 E eu ao mesmo tempo chorava , ria , ria .
 Foi um tal medoporque

 os fadistas dantes tinham muito mais complexos de inferioridade do que

 agora .
 Eu  que tirei os complexos ao fado .
 Nessa noite , sem querer ,

 consegui muito .
 Foi um espectculo extraordinrio para mim , porque as

 crticas foram formidveis .
  sada , toda a gente estava  minha

 espera , a gritar : Brava !
 Brava !
 Brava !
 

 Numa da sua estadas em Nova Iorque , Danny Kaye convida-a para entrar

 num espectculo com ele na Broadway :  Quem sabe , se eu tivesse ido ,

 correndo-me bem as coisas , como sempre me correram em toda a parte ,

 talvez eu tivesse partido dali para uma coisa importante .
 Eu podia ter

 sido muita coisa se no fosse aquilo que sou .
 Mas nesta altura no era

 capaz de cantar ao lado de Kaye , embora tivssemos ficado grandes

 amigos  .

 Em 1954 faz uma digresso pelo Mxico .
 Uma jornalista famosa de

 Hollywood , Hedda Hopper quer que ela se vista de branco , que se decote

 e renuncie ao xaile preto .
 Quer que Amlia ponha uma rosa vermelha na

 cabea .
 Amlia explica-lhe que a rosa no cabelo  para a Espanha e ela

  de Portugal , de Lisboa .

 O seu empresrio americano , Blackstone leva-a aos estdios de

 Hollywood .
 Assiste s filmagens de Someone At Last , em que Judy

 Garland e James Mason so os protagonistas .
 Acha tudo muito estranho

 porque uma das cenas  repetida dezassete vezes , enquanto em Portugal

 um actor nem sequer uma vez pode enganar-se , porque no h filme

 suficiente para repetir a cena .
 Conhece assim James Mason :  Uma

 portuguesa que ia comigo  que ficou a amarinhar pelas rvores por ter

 visto James Mason .
 At pedi desculpa ao homem e disse-lhe que em

 Portugal no ramos todos assim  conta Amlia ao seu bigrafo Victor

 Pavo dos Santos .

 Neste perodo no fica nos Estados Unidos porque no quer .
 Em Nova

 Iorque canta pela primeira vez na televiso ( na NBC ) , no programa do

 Eddie Fisher  patrocinado pela Coca-Cola , que tive que beber e no

 gostei nada  .
 Grava um disco de fado e flamenco. Abrem-lhe uma conta

 no banco para ficar mais tempo e gravar dois lbuns , com canes de

 Cole Porter , Gershwin , Jerome Kern .
 Fica muito contente pelo convite ,

 mas no aceita porque est farta da Amrica :  Eu nunca trabalhei na

 minha vida e para fazer um lbum com canes americanas tinha de ficar

 ali a ensaiar , a trabalhar .
 Eu gosto de cantar sem estar a pensar que

 estou a cantar .
 No sei cantar de outra maneira .
 E bastava-me a

 preocupao de estar a falar ingls para perder a espontaneidade  .

   uma temperamental .
 Uma meridional !
  - clamam uns .
   a grande

 intrprete da alma ibrica !
  - dizem outros .
 Quando regressa a Lisboa

  novamente convidada a cantar na embaixada portuguesa em Espanha onde

  me tornei flamengueira .
 Conheci as melhores gargantas de flamenco !
  .

 Canta e sente que o fado e o flamenco tm a mesma autenticidade :  De

 um e de outro modo , cada um tem a sua verdade  .
 Anos mais tarde ,

 quando grava o disco  Fado de Portugal e Flamenco de Espanha  , d

 corpo ao seu iberismo .

  TROVA DO VENTO QUE PASSA 

 Amlia Rodrigues com Manuel Alegre

 Amlia , Manuel Alegre , Pedro Homem de Melo , David Mouro Ferreira e

 Alain Oulmain ...
 Entretanto , o que est a acontecer no resto do mundo ?

 Consulta a Tbua Cronolgica .

 Amlia Rodrigues com David Mouro Ferreira e Alain Oulmain , 1964

 Por uns - compreendida , por outros - apupada , mas a ningum

 indiferente .
 Decide cantar o fado-cano .
 Encontra uma nova postura de

 cantar o fado , mais desabrida .
 Canta com entusiasmo os fados de

 Frederico Valrio , Raul Ferro e de Frederico de Freitas  com uma

 estrutura musical mais complexa , com refro e coplas , por oposio 

 simplicidade estrfica dos velhos fados castios  .
 ( Rui V. Nery )

 Amlia d ao fado um novo fulgor .
 Canta o repertrio tradicional de

 uma forma diferente  subordinando o ritmo regular da melodia ao sabor

 da dico potica , com suspenses inesperadas e acrescenta ornamentos

 novos , que foi a buscar s cantigas da Beira Baixa  , escreve o mesmo

 musiclogo .
 Ultrapassa todas as fronteiras e preconceitos culturais .

 Amlia tem a arte de sincretizar o que  urbano e rural , o que 

 popular e erudito atravs de uma voz de timbre nico , prenhe de emoo

 sensual e musical .

 Os poetas Pedro Homem de Mello e David Mouro Ferreira passam a

 escrever para ela .
 Canta os grandes poetas da lngua portuguesa , dos

 trovadores a Cames , de Bocage aos poetas contemporneos guiada pela

 sua grande intuio .
 Conhece o compositor luso-francs Alain Oulmain :

  Um dia estava num acampamento e levaram-me Alain Oulmain , que tinha

 uma msica a pensar em mim , o Vagamundo .
 Fui ouvir e gostei .

 Seguiram-se outras e fui contra a mar das pessoas que estavam ao p

 de mim , que achavam aquilo muito complicado .
 Os guitarristas de facto ,

 tiveram de aprender aquelas harmonias novas que o Alain trazia , que

 no tinham nada a ver com o fado porque o fado  pobre em harmonia .
 O

 Alain nasceu no Dafundo , nasceu em Portugal , apesar de ser francs .

 Tem uma sensibilidade grande de artista , foi criado num certo

 ambiente .
 Depois , ouviu-me cantar , sentiu que a minha sensibilidade

 estava muito perto da sua .
 D-me a possibilidade de voar. 

 Amlia tem um humor marcadamente lisboeta , construdo em Alcntara ,

 bairro predominantemente operrio onde o humor corrosivo  cultivado

 quase como uma forma de vida .
 Brinca com ela prpria , com o seu

 prprio talento .
 Sobre a sua primeira apario na televiso portuguesa

 em 1958 conta ela ao seu bigrafo :  Andou sempre uma mosca  minha

 volta .
 Cantou melhor a mosca do que eu .
 Quando havia l moscas , e acho

 que havia sempre , as pessoas disfaravam .
 Eu , como havia a mosca ,

 sacudi-a .
 E depois s se falava na mosca  .
 Perante situaes

 complicadas constri a sua coragem na capacidade da resposta pronta .

 Quando algum lhe fala sobre as condecoraes e outras honrarias que

 recebera durante a ditadura , responde :  Por mim , no me levantava do

 meu cadeiro .
 No passei pela vida , a vida  que passou por mim  .

 Na dcada de 60 , razes econmicas e razes polticas levam os

 portugueses a emigrarem em massa para os pases ricos da Europa .
 Em

 Angola rebenta a Guerra Colonial .
 Movimento estudantil contra a

 represso salazarista .
 Muitos portugueses , opositores ao regime so

 obrigados ao exlio .
 Em Argel o poeta-exilado Manuel Alegre recebe uma

 carta do seu amigo Alain Oulmain pedindo-lhe autorizao para Amlia

 interpretar  Trova do vento que passa  poema que era j uma referncia

 para a resistncia anti-fascista portuguesa na voz de Adriano Correia

 de Oliveira .
 A nova verso surge no disco da Amlia  Com que Voz 

 ( 1970 )

 Em 1962 aparece o primeiro disco com msicas de Alain Oulmain e que 

 muito bem aceite por um pblico de uma elite cultural .
 Para alguns no

  fado .
 Os prprios guitarristas quando tocam as coisas de Oulmain ,

 vem-se  nora .
 Jos Nunes dizia sempre :  Vamos s peras  .

 A sua grande sensibilidade artstica e intuio faz com que o fado

 Povo que lavas no rio , um poema que Amlia escolhe no sabe bem

 porqu , de Pedro Homem de Mello , tenha uma dimenso poltica .
 O mesmo

 se passa com um antigo fado do Armandinho que se torna num hino aos

 que se encontram presos em Peniche e que se passou a ser conhecido

 como o  fado de Peniche  .
 O disco foi proibido .
 Para Amlia quando  o

 cantei , aquilo era uma tristeza de amor , que  um sentimento muito

 mais bonito e muito mais dorido que uma ideia revolucionria .
 No me

 passavam pela cabea prises. 

 Em 1966 est novamente nos Estados Unidos .
 Canta em salas normalmente

 vedadas  participao de cantores de msica ligeira como no Lincoln

 Center e no Hollywood Bowl .
 Recebe um telefonema de Lisboa a dizer que

 Alain Oulmain foi preso pela PIDE. Amlia d todo o seu apoio ao amigo

 e tudo faz para que seja liberto e posto na fronteira .

 Em 1967 o Papa Paulo VI visita o santurio de Ftima , a irm Lcia e

 condecora o director da PIDE. Fotos , factos , fados

 Amlia continua a cantar os poetas esquerda : Ary dos Santos , Manuel

 Alegre , ONeill , David Mouro-Ferreira .
 Em 1968 o ditador Salazar cai

 da cadeira de lona em que descansava .
 Incapacitado  substitudo pelo

 professor universitrio Marcelo Caetano .
 A PIDE encerra

 temporariamente o Instituto superior Tcnico .
 Em 1969 eleies em que

 concorrem pela primeira vez os movimentos democrticos MDP / CDE e CEUD

 que representam as duas faces mais importantes dos opositores ao

 regime .
 Fraude eleitoral .
 Deputados da chamada Ala Liberal so eleitos

 para a nova Assembleia Nacional .
 Onda de greves em todo o pas .
 Em

 1969 Amlia  condecorada por Marcelo Caetano na Exposio Mundial de

 Bruxelas .
 Incio de uma grande digresso  antiga Unio Sovitica .

 Mais uma vez a sua voz peculiar , deslumbra .

 Amlia nunca fica maravilhada com o que lhe acontece .
  sempre igual a

 si mesma .
 Ter sempre uma atitude displicente em relao aos seus

 xitos e ao seu talento .
 Nunca guardar nada relacionada com a sua

 carreira artstica :  Passei a minha vida a surpreender-me com o que me

 aconteceu , mas nunca lutei , como nunca sofri para conseguir fazer

 alguma coisa , para o que se chama vencer , talvez no tenha gozado bem

 as coisas por que passei .
 Embora saiba que a nica artista portuguesa

 conhecida no estrangeiro seja eu  .

 1971 : Zeca Afonso grava para a editora Arnaldo Trindade o disco

 Cantigas de Maio que inclui Grndola , Vila Morena .
 Em Paris Amlia

 visita Alain Oulmain e conhece pessoalmente Manuel Alegre que ,

 convalescente de uma doena , encontra-se escondido em casa do seu

 amigo .
 Incio de uma grande amizade e colaborao .
 Manuel Alegre

 confessa que ficou um pouco atrapalhado .
 No exlio , em Argel , ouvia os

 seus discos e  sentia um bocado de Portugal comigo , porque no fundo ,

 ningum como ela exprime o que defino por a nossa atlanticidade , essa

 forma melanclica e nostlgica que  a saudade. 

 Quando se emociona , canta de modo to intenso que chora .
  Uma vez num

 barco , em Vila Franca ,  noite cantei aquela msica do Fado Cravo que

 as pessoas se ajoelharam aos meus ps .
 Ajoelharam-se porqu ?
 Porque

 senti uma emoo muito grande. ( ) Nem sei como chamar a isto .
 Talvez

 eu no seja criadora , mas quando canto estou a inventar .
 E , para

 inventar , preciso de msica .
 O fado quando comecei era amarrado como

 se tivesse uma s diviso e a minha maneira de cantar deu-lhe mais

 duas casas .
 Porque nada dentro daquela diviso me deixava fugir .
 A

 minha voz queria fugir dali , mas batia na porta .
 Tive que cantar 

 minha maneira. 

  AI LUCIDEZ QUE ME DOI 

 Amlia Rodrigues com Mrio Soares

 Nos anos 60 o Turismo foi uma das industrias mais agressivas em

 Portugal .
 Exportava a imagem de um pas de brandos costumes ( embora h

 anos em guerra ) do Avril au Portugal - pas do sol ( embora em Abril

 guas mil ) , do Fado , o Futebol e Ftima .
 So estes os Fs que sustentam

 o Fascismo salazarento .

 Amlia  assim conotada com um dos Fs e , por isso , mal tratada por

 alguns militantes da esquerda mais radical ( alguns deles emigraro

 mais tarde para partidos de direita ) .
 Muitos desconhecem a sua

 generosidade e at a sua contribuio para a Comisso Nacional de

 Socorro aos Presos Polticos durante o fascismo ,  da mesma forma

 apaixonada e talvez ingnua com a qual agradeceu aos donatrios

 salazaristas que lhe proporcionaram , a ela , rapariga do povo , os

 palcos , os microfones  escreve o deputado comunista Rubens de

 Carvalho .

 Amlia volta a cantar Me Negra , embalando o filho branco do senhor ,

 que cantara nos anos sessenta em Angola e Moambique .
 Includa na

 lista de canes malquistas pelos censores do regime de Salazar , esta

 cano faz parte do cancioneiro da resistncia ao regime .
 J durante a

 revoluo democrtica e nacional do 25 de Abril canta o Fado de

 Peniche .
 No Teatro Vasco Santana participa com o actor , advogado e

 comunista Morais e Castro , em sesses de esclarecimento sobre o 25 de

 Abril sobre a situao dos artistas de espectculo .

 A democracia portuguesa acaba por lhe prestar as maiores e mais

 sinceras homenagens .
 Em 1980  condecorada com o grau de oficial da

 Ordem do Infante D. Henrique pelo ento presidente da Repblica Mrio

 Soares que a considera  uma mulher conservadora , crente e naturalmente

 apoltica mas que soube conviver bem com a Revoluo dos Cravos  .
 Ela

 prpria lhe disse que a diferena entre  vocs e os de antigamente , 

 que vocs sentam-me  vossa mesa .
 Os outros recebiam-me muito bem ,

 gostavam muito de mim e de me ouvir cantar , mas era diferente , s era

 recebida no fim , para cantar  .

 Sempre gostou de fazer versos :  coisas que sentia  , reconhecendo que

 no  poeta .
 Lana o disco com poemas seus Gostava de Ser Quem Era .
 Em

 1997 edita o Livro Versos , confirmando a sua veia potica :  Ai minha

 infncia dorida / Ai o meu bem que no foi / Ai minha vida perdida / Ai

 lucidez que me di  Os seus versos so ecos empolgantes da sua voz ,

 nica , remanescente popular da potica eivada de lirismo e da

 atraco pela morte :  Vem morte que tanto tardas / Ai como di / A

 solido quase loucura  .
  homenageada pela Cmara Municipal de Lisboa .

 Lana um disco de inditos Segredo .
 Vive com dificuldades econmicas ,

 o que a obriga a desfazer-se de algum do seu patrimnio imobilirio .

 Morre a sua grande amiga a pintora Maluda 1999 .
 Fica profundamente

 pesarosa .
 J antes vira desaparecer o seu marido Csar Seabra , o seu

 compositor Alain Oulmain e o seu poeta David Mouro-Ferreira que a

 considerava como  a voz da dispora e voz do terroir ( cho ) , voz da

 distncia e da intimidade , com a amplitude das mais altas vagas e a

 tocante descrio de recolhidos santurios  .

  QUANDO CANTO , ESCUTO-ME ...
 

 Amlia Rodrigues - um dos seus retratos inesquecveis

 Amlia Rodrigues , a ltima viagem .
 Olhos vidrados de lgrimas das

 pessoas simples , do povo , com as vozes embargadas , acompanham o

 cortejo fnebre

 So Bento  um bairro antigo de Lisboa em que se misturam odores

 tradicionais com outros vindos de paragens mais distantes , de Cabo

 Verde .
 Do alto das escadarias , guardadas por dois lees , ergue-se um

 edifcio de traos clssicos , o Parlamento .
 Seguindo rua acima , do

 lado esquerdo mora Amlia numa casa pombalina de sorridentes e

 floridas balaustradas .
 Quando ela passa com aquele ar melanclico que

 a caracteriza , o seu sorriso contagiante ilumina todos .
 Amlia gosta

 de cantar na rua :  Quando canto escuto-me , e quando me escuto acabo a

 chorar  .
 O mercado , a padaria e o comrcio tradicional , so pontos de

 encontro das gentes simples .
 Uma vizinha fala da sincera preocupao

 de Amlia para com os mais necessitados :  chegou a atravessar

 problemas financeiros de tanto dar  .

 Agora na casa amarela de S. Bento mora o silncio .
 Na varanda

 encontra-se ainda pendurada uma toalha branca , smbolo solidrio com o

 povo de Timor .
 Em todas as janelas e varandas ,  passagem do fretro ,

 de S. Bento  Estrela , toalhas brancas , estendidas .

 O corao de Lisboa chora .
 Flores , lenos brancos acenam .
 Nas ruas ,

 nos carros , nas lojas , por todo o lado o fado de Amlia .
 Dor e

 saudade , o mago alfacinha , trespassam .
 Seis da tarde .
 Suave

 melancolia , Lisboa .
 Largo da Estrela , a grande Baslica prevalece .

 Centenas de pessoas , as escadarias ocupam .
 Tocam os sinos .
 O fretro

 da Amlia chega .
 Emoo geral .
 Nunca a multido  solta teve tanta

 grandeza .
 Homens , mulheres , crianas , imagens sobrepostas , redondas e

 volumosas , dissolvem .
 Caras lampejadas , cabeas reluzentes , cabelos de

 cor nem loira nem escura , na Baslica entram .
 No se distingue o novo

 do velho , o bonito do feio .
 A idade e o gesto , afirmam .
 Tudo se

 neutraliza : tempo , pessoas , coisas .
 Na nave central , Amlia .
 Tudo

 perde o seu relevo , tudo entra em ns

 Uma mulher e um ramo de margaridas brancas , esperam .
 O adeus 

  melhor embaixadora de Portugal no mundo  .
 Uma outra pesarosa ,

 sussurra :   uma parte da nossa vida que est ali .
 Ela  a referncia

 da nossa mocidade  .
 Apesar do frio que se faz sentir ao fim da noite ,

 h quem no arrede p .
 Aguarda-se pacientemente a sua vez para chegar

 junto ao caixo .
 Choro miudinho de mulheres .
 Espuma dos dias , milhares

 de pessoas , adeus   diva do fado  .
 Fuga ao olhar atento da polcia : o

 ltimo beijo , o ltimo toque .
 Um jovem diz que no gosta de fado ,  mas

 ouvi-la cantar arrepia-me  .
 Amlia descansa na paz do Senhor  mesmo

 que ele no exista , eu acredito nele  .

 Outono de 2000 .
 Luminosidade morna das tardes de Lisboa .
 Jardim do

 Prncipe Real .
 O Grande Cedro exala aromas .
 Velhos reformados jogam s

 cartas .
 Velhas alcoviteiras , dormitam .
 Crianas brincam .
 Mulheres de

 plpebras semicerradas , vigiam .
 Num ramo pendurado est um rdio tal

 qual pssaro feito .
 Ouve-se a voz de Amlia :  Estranha forma de

 vida   .

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