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 IMPRESSES

 O FADO DE COIMBRA NO EXISTE

 A ligao do cantar coimbro ao fado  sustentada em publicaes referentes 

 cultura popular de Lisboa e a este ltimo gnero musical , afirmando-se que o

 fado de Coimbra nasceu do fado de Lisboa .
 Contudo , a cano de Coimbra j

 existia muito antes do fado ter surgido em Portugal .
 Todavia , a designao de

 fado de Coimbra foi sendo aceite , no s por comodismo , mas por uma questo de

 moda , pois o fado surgiu em Lisboa no primeiro quartel do sculo XIX , e como

 novidade difundiu-se por todo o pas .

 De verdade , Fado de Coimbra comeou por ser o ttulo de uma cano popular de

 meados da dcada de 40/50 do sculo XIX , que tem muito mais a ver com a toada

 regional e local da msica tradicional de Coimbra do que com o fado .
 O facto de

 nessa altura ser designado de Fado de Coimbra um s tema , no permite

 referncia a um fado como msica autctone , tradicional e enraizada nas gentes

 da cidade .
  que , em ttulo , igualmente existe o Fado de Aveiro , o Fado da

 Figueira , ou o Fado de Guimares , entre outros , e nessas localidades no existe

 a tradio de um fado prprio e genuno .
 No quer dizer que no se tenha

 cantado fado em Coimbra .
 Precisamente o fado de Lisboa .
 Ou que a cano de

 Coimbra , em perodos de fraca criatividade , no tenha andado muito prxima do

 fado de Lisboa .
 Mas , antes de o fado chegar a Portugal , j em Coimbra existia

 uma entidade musical muito prpria , assente numa forte componente popular e na

 presena de uma comunidade estudantil que , de origem predominantemente

 aristocrtica e burguesa , era detentora de um interesse musical e de uma

 exigncia esttica que nada tinham a ver com a vindoura filosofia de vida dos

 executantes do fado de Lisboa .

 A cano de Coimbra como fenmeno social

 Se , por um lado , a msica tradicional de Coimbra compreende um conjunto de

 danas e cantares das fogueiras , as cantigas de trabalho , os cnticos de

 embalar , as canes de amor e as serenatas , que constituem o repertrio do seu

 filo popular , nada tendo a ver com o fado ; por outro lado , no filo acadmico ,

 no sculo XVI ( trezentos anos antes do surgimento do fado em Portugal ) era

 hbito os estudantes de Coimbra cantarem e tocarem noite dentro pelas ruas da

 cidade ; e no sculo XVIII ( cerca de cem anos antes do fado ) , os estudantes

 cantavam milles trovas , quitollis e amphiguris .

 Atravs de festividades vrias e de um convvio urbano-estudantil profcuo , uma

 populao futrica ligada a profisses como as de barbeiro , alfaiate , sapateiro

 e encadernador , fazia a sntese de toda a oralidade musical que at ela

 chegava ; e ao relacionar-se com gente ligada s repblicas e s casas onde

 habitavam estudantes ( cozinheiras , engomadeiras , lavadeiras , serventes ) , as

 ricas canes locais foram sendo difundidas entre todos aqueles que partilhavam

 tal sociabilidade .
 Este intercmbio cultural conduziu  reteno de formas mais

 eruditas e mais elaboradas de interpretao por parte do filo popular ,

 reforando-se um distanciamento salutar da cano de Coimbra em relao ao fado

 de Lisboa .
 Veja-se que ao nvel da vocalizao , esta cano sob o ponto de

 vista da projeco de voz , da dico , do dizer os versos tem alguma influncia

 opertica ( reminiscncias da modinha italiana , pela qual o filo acadmico foi

 fortemente influenciado ) mas , sofrendo tal diluio em contacto com o cantar

 popular , releva-se o cunho regional e local da tradio musical coimbr e o

 estilo opertico acaba despercebido .
 Ora , estas reminiscncias vocais

 operticas no se encontram no fado de Lisboa .

 Um fado que , partindo das camadas mais baixas da populao lisboeta , no tinha

 condies culturais para qualquer ligao  msica erudita , clssica e

 dramtica , enquanto a cano de Coimbra , com a presena dos estudantes , ganhou

 sempre um cariz erudito , mas sem nunca perder as suas razes populares

 regionais e locais .

 Evoluo da cano de Coimbra

 Fruto da sua oralidade como forma tradicional de transmisso , esta cano

 difunde-se atravs da troca de sensibilidades musicais entre novos e antigos

 cultores , populares e acadmicos , num ensaio , numa tertlia , numa qualquer

 demonstrao despretensiosa do que se sabe e se cria .
 Mais do que escolas

 profissionais de canto e guitarra ou conservatrios de msica , a vivncia

 humana do cantar coimbro , naquilo que o envolve em termos de memria

 histrica , escolas de interpretao , poesia , valores de solidariedade e

 fraternidade , continua a ser uma forma de aprendizagem por excelncia desta

 tradio musical .
  que a cano de Coimbra vive de uma constante improvisao

 em torno de tudo o que constitui o seu imaginrio .

 Em suma : o fado de Coimbra no existe .
 O que existe  uma cano tradicional ,

 regional e local , com um duplo filo ( o popular e o acadmico ) enraizada nesta

 cidade , que tem a serenata ( expresso musical para concerto tocado e / ou cantado

 e no apenas ritual de cortejamento ) , como a sua manifestao artstica mais

 genuna , embora esta cano esteja aberta a outras formas de divulgao .

 JORGE CRAVO

 Licenciatura em Histria e especializao em Cincias Documentais pela FLUC

 Cultor de Cano de Coimbra

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