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 " Viver no  necessrio , o que  necessrio  criar ...
 "

 Fado ( De Coimbra )

 Cano de Coimbra - Breve Sumrio de um certo encantamento

  semelhana do que se diz do Direito Romano , tambm o Fado de Coimbra comeou

 por no o ser .
 Certo que desde sempre , particularmente desde meados do sculo

 XIX , os estudantes que deambulavam pelo velho burgo coimbro , libertos da

 sonolenta leitura das apostolitas ou das filiais sebentas , iam arrancando 

 viola toeira , no alinhamento paralelo dos arames , pungentes trinados que

 sublinhao de amores sob janelas suspensas de mistrios .
 No chegara ainda o

 tempo dessa forma de folclore urbano que a gosto ou a contragosto de estudiosos

 se consagrou como Fado de Coimbra , para exaltantes promessas de amor em noites

 enluaradas .

 Quevam canes em voga .
 Os gorgeios e trinados no deixariam de ter

 destinatrias , mas no era ainda a deambulao nocturna para afirmar a matriz

 viesse nas arcas encoiradas dos estudantes brasileiros , quer conformasse

 nostlgicas recordaes dos lisboetas que romavam  cidade mondeguinha , quer

 assumisse tintagens de mediavalesco trovar por um vinculo transcultural , se no

 conflituarmos a estrutura tonal do fado com a modal do cancioneiro medievo ,

 morre nas discusses acadmicas o rigor das origens e apenas se pode certificar

 que espraiava o ultra-romantismo os seus ais no desfilar sofrido dos coraes ,

 corria a dcada oitocentista de setenta , quando a guitarra soltou os primeiros

 gemidos nas margens do Mondego e com ela talvez o balbucinar das ancestrais

 manifestaes geradoras do fado coimbro .

 Com o aparecimento da guitarra alongava-se em esforo de definio um estrutura

 meldica que no clivava ainda com a tradicional melopeia do batido fado

 lisboeta .
 Um ou outro escolar ensaiaria uma estrutura mais erudita , do lied ou

 da sonata , mas seria em hbridas e ao mesmo tempo lineares formas de

 comunicao de um certo tipo de sentimentalidade amorosa que os rapazes da

 acadima derimiam em noites de bomia as tristezas que se escorr Augusto Hilrio

 em das horas mortas .

 Talvez tenha sido essa vivncia que marcou a passagem de Augusto Hilrio , a

 quem Pascoaes chamou o Pontfice Mximo da Bomia .
 O jovem viseense , aspirante

 a Joo Semana , preferiu a guitarra e a serenata s artes de facultativo ,

 arrancando ais prolongados que traziam "  recorda o sbio Egas Moniz em A nossa

 casa , ao desfilar os verdes anos .

 Viver Coimbra era madrugar numa temporalidade de paixes impossveis ,

 evidenciar no canto os males de amor e a sacralizao da amada .
 Melodia

 simples , quadras de sete silabas , pendor melanclico , decadente , com a morte a

 sobrevoar a dominncia temtica .
 Assim versejava Hilrio e assim vertia para o

 canto , com a acanhada guitarra sobre os joelhos , esguio e olheiro , a insinuar

 paixes nos ais interminveis , percutidos nos suspiros das donzelas .

 00Memorvel a sua passagem pelo teatro D. Maria II , nos idos de Maro de 1895 ,

 em sarau de homenagem a Joo de Deus .
 Nessa noite , ps ao rubro a plateia com

 " os seus famosos fados de estilo original e a sua linda voz " , como regista nas

 Memrias o actor Chaby Pinheiro .

 Hilrio  a primeira referencia individual do fado-serenata .
 Pelas ruas do

 velho burgo coimbro , em noite de festa , os estudantes agrupavam instrumentos e

 cantares , mas no encontramos noticias de um trovador singular .
 Em 1880 , quando

 das comemoraes camonianas , a academia celebrou uma serenata , de que se fez

 eco O Conimbriense .
 Mas serenata com uma estudantina , com descantes  mistura

 Moo ainda , aos 32 anos , a 3 de Abril de 1896 , Hilrio morre em Viseu , pagando

 nas fragilidades do corpo as prodigialidades da alma , lanado o mito

 corporiza-se nas entoaes do Fado Hilrio , maioridade interpretativa de todo o

 cantor coimbro que se preze .

 As estudantinas multiplicaram-se .
 Destaca-se a voz de Avelino Baptista , mas

 logo outros nomes , novas vozes , algumas a poderem chegar a ns em registos

 fonogrficos .
 Manasss de Lacerda distingue-se ento entre quantos na Lusa

 Atenas fazem da noite refugio para entoaes romnticas .
 Com ele se vai cruzar

 Alexandre de Resende , brasileiro que nunca frequentou a Universidade mas se

 vinculou como autor e interprete , sendo dele o clebre Fado do Meu Menino , que

 s vezes circula com outras paternidades , menino d`oiro a ser levado ao cu ,

 enquanto pequenino , para com os anjos aprender a arte de cantar .

 Tomam corpo as composies com duas quadras de sete silabas , geralmente no

 relacionadas no assunto , precedidas de uma breve introduo de guitarra , com os

 tons dominantes da melodia , e a funcionar depois como separador das quadras ,

 modelo que persiste praticamente at os nossos dias

 Abeira-se o tempo de Antnio Menano , voz romntica que ecoou em todo o pas

 nas velhas grafonolas , cantando Passarinho da Ribeira , Solitrio , Carta de

 Aldeia , Carta de Longe , Fado do Alentejo , entre dezenas de composies ,

 acompanhado por seus irmos Francisco Menano , Alberto e Paulo , em guitarra e

 viola , mas se notabilizou igualmente em famosas canes acompanhando ao piano .

 Os discos do Menano , dono de " uma voz excepcional , de uma suavidade e um

 encanto nicos , clara , lmpida , de um excepcional valor mesmo nos

 pianssimos ...
 " , so apreciados em todo o mundo , ganham especial relevo no

 Brasil e nas antigas colnias portuguesas de frica .
 Antnio Menano fez escola ,

 era o prprio Fado de Coimbra , suave e romntico , nos temas e na dolncia do

 canto .
 Pela mesma poca , outros nomes deixaram rasto nas ruas da velha Alta ,

 pela maviosidade do seu canto Roseiro Boavida , Agostinho Fontes , Alexandre de

 Resende ...

 Porem ,  com Edmundo Bettencourt que a cano coimbr ganha uma outra

 expresso , outra espessura .
 Na musica e nas palavras .
 O poeta fundador da

 Presena , o notvel precursor de Poemas Surdos , telrico , capacidade

 interpretativa , que vo encontrar na guitarra de Artur Paredes os pilares da

 radical mudana .

 Temos por adquirido que o que definitivamente distingue o Fado de Coimbra de

 outras musicas urbanas  a nova maneira de afinar a guitarra e de a tocar que

 Paredes introduziu .
 Com ele morre o trinado  guisa de bandolim , corda a corda ,

 substitudo pela organizao de acordes comprometendo uma nova utilizao da

 mo esquerda .
 Mais que sublinhar a melodia cantada , a guitarra ganha identidade

 e cresce no tempo a defenir melodias outras , personalizada e vigorosa .

 Bettencourt vai colher nas razes populares cantadas que transforma em " gritos

 de cristal e oiro " , como fixou Rgio .
 Paredes cedo descobre que era preciso

 mudar a anatomia da guitarra para encorpar o som .
 Alarga a escala , eleva o

 nvel dos pontos , aumenta a altura das ilhardas , " no objectivo de uma maior

 pureza de notas , isoladas ou em associao , e de uma necessria ampliao do

 campo de ressonncia !
 ( Afosno de Sousa ) , para uma estruturada organizao

 harmnica. Ai choro com que o Paredes | As mos dobradas em garra |

 Esfranagalhava a guitarra | Punha os bordes a estalar ( Rgio ) .

 Os discos que Bettencourt gravou passaram a ser peas de referncia para vrias

 geraes , como viagem obrigatria de quem ruma a Coimbra passaram a ser as

 variaes de Artur Paredes .
 Zeca Afonso , filho de um condiscpulo de

 Bettencourt , considera-o " o maior cantor de fados de todos os tempos " , Afonso

 de Sousa , que privou como guitarrista e poeta com essa gerao , exalta a sua

 importancia como renovador que esquecer cnones tradicionais , consagrou um novo

 estilo , arejando um ambiente artistico j muito recapitulado e , por assim

 dizer , monocrdico .

 Aos anos vinte  comum chamar de Dcada de Oiro .
 Edmundo Bettencourt , Lucas

 Junot , Jos Paradela D'Oliveira , Armando Goes e Artur Paredes legam-nos um

 patrimnio de rara qualidade , marcaram uma poca mas , acima de tudo , pelas

 diferenas de timbre voclico e pela sensibilidade interpretativa , pela

 tessitura harmnica como pelo vazar em novos moldes poticos , da redondilha ao

 soneto , vestiram a msica coimbr de novas roupagens que a tornaram

 reconhecivele apetecida , a que um novo ciclo epigonal segue o rasto com Serrano

 Baptista , LAcerda e Megre , Felisberto Passos e Xabregas no canto e na guitarra .

 Para os anos cinquenta estava reservado o segundo momento alto , se bem que no

 devamos esquecer nomes como Lulio , Napoleo Amorim , Almeida Santos , Jos

 Amaral , Anarolino Fernandes , Augusto Camacho , Florncio de Carvalho , Tavares de

 Melo , ngelo Arajo e Carlos Figueiredo , na dcada anterior .
 A potica procura

 com nova sintaxe a temtica dos olhos e olhar , do oiro dos cabelos , ondas do

 mar e cimes divinos ante a beleza da amada , a sempre presente sacralizao da

 Me , quadras sustentadas pela leveza da estrutura meldica .

 Dessa gerao ,  imperativo destacar esse outro grande inventor de sonoridades ,

 Joo Bago , quando j em Lisboa constri algumas espantosas composies sobre

 oemas de Leones Neves , Edmundo de Bettencourt e de Luiz Goes , destinadas ao

 imprio vocal deste ltimo .

 A dcada de meados do Sec XX trouxe  msica coimbr uma outra luz .
 Pela

 potica como pela estruturao musical , ensaiam-se novas formas , rotomam-se

 temas populares , redefine-se a balada .
 Com Luiz Goes , para ns o maior de

 quantos passaam por Coimbra , no s pela voz fabulosa de Barono como pelo

 virtuosismo interpretativo , a msica de inspirao coimbr atinge outra fora ,

 universaliza-se .

 As suas gravaes de Coimbra Quintet soam a revoluo .
 Com ele , Machado Soares ,

 Jos Afonso , Fernado Rolim , Sutil Roque e alguns mais , imprim-se um novo

 impulso no gosto e na difuso de msica de Coimbra .

 Pela mesma poca , igualmente comprometidos na procura de novos caminhos ,

 emergem msicos de qualidade como Antnio Brojo , Antnio De Portugal , Jos

 Godinho , Manuel Pepe , Levi Baptista e logo outro notvel compositor e

 interprete , Jorge Tuna , guitarrista de exemplar rigor , sensibilidade e vigor

 cristivo , que encontrou na viola de Durval Moreirinhas a necessria

 complementaridade .

 Partindo de sonoridades coimbrs , marcada pelo sopro do gnio , a guitarra de

 Carlos Paredes , continuada na revoluo operada pelo seu pai , Artur Paredes ,

 exponencializada enfim nas mos insuperaveis de Carlos , que conferiu  guitarra

 o reconhecimento de uma outra dignidade .

 Da dcada de sessenta , naturalmente as vozes de Alfredo Correia , Luis Marinho ,

 Adriano Correia de Oliveira e Antnio Bernardino , as guitarras de Andias e dos

 Melos , o sempre presente Durval na viola e as palavras de Manuel Alegre .
 Sob o

 mgistrio de Jos Afonso e do primado da viola de Rui Pato , ressalta ento um

 canto social e politicamente ( de alguma maneira antecipado por Luiz Goes ) ,

 comprometimento cvico que busca novos e auspiciosos caminhos , em trovas e

 baladas .
 A msica perde as coloraes coimbrs , porque visa outros espaos de

 sociabilidade ,  de outra esfera , embora no perca uma vinculao ao gosto

 interpretativo coimbro .

 Elencar , para todas as pocas , nomes , composies , estilos , no cabia na

 modstia desta nota , breve sumrio da histria desse tocante veculo de

 comunicao de sentimentos e emoes , carregado de smbolos e mitos , sempre

 revisitado e a exalar frescura , contra o tempo e os silncios , que  a msica

 da cidade do Mondego .
 No lhe caem os parentes na lama se chamarmos fado a

 muitas das suas formas cantadas , que assim tm caminhado e so reconhecidas ...

 De Coimbra fica sempre a inpirao e mitificao de nomes e lugares .
 Ao

 deslumbramento da chegada , segue-se a exaltada vivncia , que  convivncia , e

 mais encanto na hora da despedida , maneira de falar da sua permanncia ,

 recordao teimosa em quem l viveu os verdes anos .

 ( ...
 )

 Jos Henrique Dias in

 Compact Disc : Biografia do Fado de Coimbra - EMI - Valentim de Carvalho ,

 Msica , Lda

 _________________________________________________________________

 .
 : Outros Artigos. :

 Canto de Coimbra - Um canto de rua

  voz corrente considerar o chamado fado de Coimbra oriundo do Fado de Lisboa .

 Tal origem seria , talvez , inquestionvel , se tudo o que se fez ( e se tem feito )

 em Coimbra - ao nvel da sua msica tradicional , se limitasse nica e

 exclusivamente ao Fado , se  que este , efectivamente , existe em Coimbra .

 Todavia , a msica tradicional de Coimbra no se esgota naquilo que se designa

 de " Fado de Coimbra " .
 As danas e os Cantares populares , assim como todo um

 conjunto de representaes etno-musicais em tomo das fogueiras de S. Joo , bem

 como , as canes de trabalho , os cnticos de embalar , as cantigas de amar e as

 serenatas , constituem um repertrio mpar na vivncia espao-temporal da msica

 tradicional da cidade , que nada tem a ver com o universo fadstico. Dizer-se ,

 pois , que a Cano de raiz Coimbr  o " Fado de Coimbra " , est muito longe de

 ser verdade .

 Coimbra sempre foi um caldeiro cultural , fruto da convivncia entre duas

 culturas : a popular e a erudita .
 A existncia , entre os sculos XII e XIV , de

 uma rica cultura erudita ficou a dever-se ao facto de , na cidade , viverem

 vrias minorias tnicas e sociais , assim como grupos scio-profissionais , que

 desenvolviam as suas respectivas culturas especficas , onde o ldico-musical

 estava presente para ocupao dos seus tempos livres .
 Por outro lado , devido 

 sua situao geogrfica de cruzamento e de passagem de viajantes , jograis ,

 peregrinos e estudantes , a cidade acabava por ser um local privilegiado para

 uma vivncia quotidiana com base nas feiras , romarias e outros eventos

 similares , onde se faziam notar as vrias influncias culturais .
 Igualmente

 havia um fluxo humano do campo para a cidade , no s para a venda de produtos ,

 mas tambm , na procura de melhores condies de trabalho .
 Com este povo vinham

 os seus cantares .
 Paralelamente , a pequena nobreza rural instala-se na cidade ,

 trazendo consigo as expresses musicais que a caracterizavam .
 A co-habitao de

 dois imaginrios ( o campesino e o citadino ) tomou-se inevitvel .
 E o mercado

 urbano , as feiras e as " romarias acabaram por ser os locais privilegiados para

 o intercmbio etno-musical entre diferentes gentes e factor de difuso de

 prticas culturais que fortaleceram e desenvolveram o relacionamento entre duas

 culturas musicais : a da cidade e a rural .

  em plena praa pblica que a cultura popular e erudita marcam ponto de

 encontro , onde os cantares de origem aristocrtica se misturam com msicas e

 danas populares .
 Alis , desde sempre que uma poesia culta e uma poesia culta e

 uma outra popular se influenciaram mutuamente .
 Basta ver que h caractersticas

 populares nos cantares trovadorescos , bem como , canes e trovas eruditas que

 foram modificadas e absorvidas pelo filo popular , juntando-se s cantigas de

 amor e trabalho , canes satricas e do dia-a-dia , reforando , assim , o

 repertrio do Cancioneiro Popular .

 Deste convvio entre diferentes gentes nascer , e se afirmar atravs dos

 tempos , uma valncia etno-cultural de identidade regional e local muito

 prpria : um folclore urbano !
 Ou melhor : o filo popular da msica de raiz

 coimbr , com as suas manifestaes emo-musicais , desde as danas e cantares

 regionais e locais at s cantigas , marchas , danas de roda com mandador , e

 serenatas populares .
 E , de uma maneira geral , todas estas expresses musicais

 se desenvolviam ao ar livre .

 Paralelamente a este filo popular , um outro se desenvolvia tambm : o filo

 acadmico , com as suas manifestaes musicais ( reveladoras de uma postura

 erudita quanto ao evoluir do discurso potico-musical ao longo dos tempos ) , mas

 de forte influncia urbano-popular , onde se destacam as estudantinas , o cantar

 brejeiro e as serenatas .

 Sabe-se , alis , que pelo menos , desde o sculo XVI , era hbito os estudantes de

 Coimbra cantarem e tocarem , noite dentro , pelas ruas da cidade .
 Prova factual 

 a missiva que o rei D. Joo III envia ao ento reitor da Universidade , a 20 de

 Junho de 1539 , dando conta da necessidade em se pr fim  algazarra e s

 cantorias que os estudantes faziam at altas horas da noite , j que eram muitas

 as queixas dos habitantes da velha urbe .
 Se seria um Canto Serenil ( nica e

 exclusivamente de cortejamento por uma mulher ) , no o podemos , seguramente ,

 afirmar ; mas que era um canto de rua , disso no restam dvidas .

 Sabe-se , tambm , que no ambiente acadmico do sculo XVIII , os estudantes

 cantavam miles trovas , e que , na Coimbra daquele tempo , era hbito cantarem-se

 canes de amor e cantigas populares , reflexo de um salutar intercmbio entre o

 duplo filo desta Cano que , e muito bem , chegou aos nossos dias .

 Pese embora , os seres de ento , quer da aristocracia como da burguesia , serem

 preenchidos com minuetes , ronds , romances e modinhas , onde o acompanhamento

 era feito , primeiramente a cravo e , mais tarde , ao piano , era , todavia , na rua ,

 que esta cultura aristocrtica e burguesa se cruzava com os cantares regionais

 e locais .
 E  na rua que a serenata ganha ascendente .

 Ora , tudo isto diz respeito a um tempo anterior ao aparecimento do Fado em

 Portugal - que ocorre no 1 quartel do sculo XIX. Fado que ao difundir-se pelo

 pas , nunca chegou a dominar os cancioneiros populares de cada regio , ou o

 tipo de msica que ento se cantava e tocava no ambiente aristocrtico e

 burgus das cidades ; e tudo isto tem em conta uma caracterstica que ainda .

 hoje perdura na Coimbra do sculo XXI : a Cano de raiz coimbr filo popular e

 acadmico ,  , essencialmente , um Canto de Rua , embora possa ser interpretada em

 espaos fechados - que no Casas de Fado ( prtica nocturna ligada ao Fado de

 Lisboa , mas que nada tem a ver com os hbitos musicais de Coimbra e com a

 gnese , evoluo e imaginrio da sua Cano ) .

 Canto Acadmico de Coimbra - Curta Resenha Histrica

 De uma maneira geral , quando se faz referncia ao " chamado Fado de Coimbra " , o

 estudante de Medicina Augusto Hilrio ( 1864-1896 ) , surge - nos como a figura

 central do seu aparecimento .
 Afirma-se at , que a Serenata Coimbr ter surgido

 com ele , no incio dos anos 90 do sculo XIX .
 Todavia , a Serenata j existia em

 Coimbra , muito antes do Fado - Serenata de Augusto Hilrio , e muito antes do

 Fado ter chegado a Portugal .

 Sabe-se que , pelo menos , desde o sculo XVI , era hbito os estudantes de

 Coimbra cantarem noite dentro pelas ruas da cidade .
 Se seria um Canto Serenil ,

 no o podemos , seguramente , afirmar , mas que era um canto de rua , disso temos

 pouca dvidas .
 O que sabemos , tambm ,  que a Serenata sofreu um forte impulso ,

 nos anos 50 do sculo XIX , graas a dois estudantes : Joo de Deus ( 1830-1896 ) e

 Jos Dria ( 1824-1869 ) .

 Joo de Deus , estudante irregular de Direito , entre 1849/59 , cantava temas de

 sua autoria e canes populares , em serenatas , fazendo-se acompanhar  viola de

 arame .

 Jos Dria , estudante de Medicina , foi um exmio executante de viola toeira

 ( instrumento popular de Coimbra ) , acabando por dar  estampa baladas ,

 barcarolas e nocturnos , cantando canes populares da prpria cidade e

 executando , tambm , msica para as fogueiras .

 A partir da dcada de 60 de novecentos , a Serenata estava muito vulgarizada em

 Coimbra , e por volta de 1880 , ela estava verdadeiramente enraizada num duplo

 filo : o popular e o acadmico .

 O Popular , cuja serenata estava circunscrita  parte baixa da cidade ,

 geograficamente limitada pela Couraa de Lisboa , Porta de Almedina e Igreja de

 Santa Cruz .

 O Acadmico , cuja Serenata se reservava ao territrio da Alta - espao fsico

 por excelncia da Academia - onde se situava a Universidade .

 No entanto , quer estudantes , quer populares , levavam a efeito serenatas

 fluviais - em ocasies especiais de eventos a comemorar - no rio Mondego ,

 transportando-se em barcas serranas .

  por finais da dcada de 90 do sculo XIX , que surgem alguns " fados " da

 autoria de Cndido Viterbo ( que em 1901 frequentava a Faculdade de Direito ) , e

 que estudantes-poetas ( como Augusto Gil , Antnio Nobre , Afonso Lopes Vieira e

 Fausto Guedes Teixeira ) do  estampa quadras que ficaram conhecidos por fados

 - mas que mais no eram do que cantigas populares - e que tanto os estudantes ,

 como os futricas e as tricanas , cantavam , no intervalo das danas e das marchas

 em tempo de fogueiras .

 Depois de Augusto Hilrio , e j nos princpios do sculo XX , destaque para

 Vicente Arnoso ( 1880-1925 ) e Alexandre Torres ( 1886 - 1969 ) , seguindo-se-lhe ,

 Manasss de Lacerda ( 1885-1962 ) e Alexandre Resende ( 1886-1953 ) .

 Por volta de 1915 , Antnio Menano ( 1895-1969 ) chega a Coimbra para cursar

 Medicina , e no seu tempo de estudante , tanto canta autnticos fados de Lisboa ,

 como canes e canonetas , populares ou eruditas , acompanhadas ao piano , para

 alm de outros temas de autoria , por exemplo , de seu irmo Francisco Menano -

 que era guitarrista .
 Nessa altura a Cano de Coimbra encontrava-se numa

 encruzilhada e Menano era o seu mais fiel representante .

 O Canto sofrera , ento , um desvio da sua matriz serenil de meados do sculo XIX

 para uma forma de cantar ultra-romntica , que fez desaparecer o estilo

 opertico ( muito mais consentneo com a sua gnese ) .

 Cantava-se , agora , de uma maneira dolente , arrastada , onde os pianos de voz e o

 prolongamento do canto surgiram como forma de satisfao do prprio ego do

 cantor , alimentando-se , assim , o saudosismo e a nostalgia de quem escutava .

 Estava-se , pois , na presena de um cantar lamejas , doentio , piegas , que

 dominava o ambiente musical acadmico de primrdios do sculo XX .

 No incio da dcada de 20 , assistiu-se  debandada de Coimbra de cantores como

 Agostinho Fontes , Roseiro Boavida e Manasss de Lacerda , para alm do prprio

 Antnio Menano ( em 1923 ) .
 Sadas que seriam colmatadas com a chegada daqueles

 que - juntamente com Menano - iriam constituir a chamada " Gerao de Oiro " da

 Cano Coimbr , nomeadamente : Lucas Junot ( 1902-1968 , que vem cursar Cincias

 em 1922 ) , Jos Paradela D'Oliveira ( 1904-1970 , que vem para Direito , 1924 ) ,

 Armando Goes ( 1906-1967 , que vem para Medicina , 1924 ) , entre outros .
 E  nesta

 gerao , e nesta dcada , que vai pontificar o cantor e poeta do movimento da

 Presena , Edmundo de Bettencourt ( 1899-1973 ) .
 Quando chega a Coimbra , em 1923 ,

 para se matricular em Direito ,  Artur Paredes ( 1899-1980 ) - grande

 revolucionrio da guitarra de Coimbra - que o vai acompanhar , encetando ambos ,

 uma autntica sapatada naquele cantar sofrido , magoado e triste .
 E se os

 acompanhamentos de Artur Paredes so fortes , vigorosos , cortantes , de puxadas

 rpidas na guitarra , com Bettencourt o canto  muito mais arejado , viril ,

 gritado !
 Tematicamente vai buscar canes populares dos Aores , do Alentejo e

 da Beira Baixa , cantando-as - no como o seriam , tal e qual , por um grupo de

 cantares da regio em questo - mas  maneira de Coimbra , recuperando uma forma

 de cantar que prova a existncia nesta cidade de uma toada musical muito

 prpria , regional e local , popular , moldada por um filo acadmico , que de

 maneira nenhuma se confunde com qualquer outro gnero musical - e que nada

 tinha a ver com o Fado .
 Com esta sua atitude , Bettencourt consegue personalizar

 a Cano de raiz coimbr , ao dar-lhe autonomia e ao reforar - lhe as diferenas

 face ao Fado de Lisboa , colocando tudo no seu devido lugar : Fado  Fado - o de

 Lisboa !
 Em Coimbra o Canto  outro !

 Chegara , assim , a Escola Modernista  Cano Coimbr !

 Quem faz a ponte para os anos 40 so cantores como Lucena Sampaio ( que se

 licenciou em Medicina , em 1932 ) , Manuel Julio , Lacerda e Megre ( 1909-1992 , que

 estudou Direito entre 1927 e 1932 ) , Serrano Baptista ( que estudou em Coimbra

 entre 1925 e 1932 ) , Artur Mota ( n. 1922 ) , que viveu em Coimbra entre 1935 e

 1940 , e Jorge Gouveia ( que frequentou a Universidade de Coimbra entre 1938 e

 1942 ) , entre outros .

 Na dcada de 40 , embora tenham surgido cantores como Alexandre Herculano ( n .

 1927 ) , Anarolino Femandes ( n. 1926 ) , Alcides Santos ( que estudou Cincias entre

 1945 e 1948 ) , Napoleo Amorim ( n. 1924 ) ou Augusto Camacho ( n. 1924 ) , no foram

 suficientes para darem um firme seguimento  mensagem potica e

 esttico-musical de Edmundo de Bettencourt !
 Foi preciso esperar o advento da

 gerao de 50 , para que se vivesse um forte ressurgimento desta Cano .
 Homens

 como Fernando Machado Soares ( n. 1930 ) , Femando Rolim ( n. 1931 ) , Jos Afonso

 ( 1929 - 1987 ) e Luiz Goes ( n. 1933 ) , so hoje considerados os dignos cantores da

 2 gerao de oiro do Canto Coimbro Acadmico .

 Nos finais dos anos 50 , este filo acadmico sente duas fortes influncias : por

 um lado , a sensibilidade de Machado Soares ( que buscava o reencontro com o

 melhor de Bettencourt / Paredes ) , e por outro , a de Jos Afonso ( que procurando

 libertar-se da guitarra como acompanhamento , recupera a viola para essa funo ,

 na esteira do que j havia sido feito , nos anos 20 , com Armando Goes ) !
 Resultou

 daqui , o emergir de dois movimentos na dcada de 60 .
 Jos Afonso acaba por

 influenciar toda uma linha progressista - 1 movimento - que tem como bandeira

 na Academia , Adriano Correia de Oliveira ( 1942-1982 ) - que havia chegado a

 Coimbra em 1959 , e que depois de uma fase tradicional , inicia um canto de

 interveno poltico-social .
 Mas , a gerao de 60 , no era s uma importante

 referncia no mbito da contestao acadmica ao Estado Novo - com homens como

 Antnio Bernardino ( 1941-1996 ) , Antnio Portugal ( 1931-1994 ) na guitarra , a

 poesia de Manuel Alegre , e o prprio Adriano , mas tambm , uma conscincia viva

 quanto  necessidade de renovao da linha tradicional da sua cano - 2 

 movimento .
 Esta " urgncia " teria eco nos anos 60 , com o guitarrista , autor ,

 compositor e poeta Nuno Guimares ( 1942-1973 ) , desenvolvendo uma temtica

 musical e potica que se iria reflectir no canto de Jos Manuel dos Santos

 ( 1943-1989 ) e , tambm , do prprio Antnio Bernardino , bem como , outros

 testemunhos vocais para essa renovao da linha mais tradicional : Jos Miguel

 Baptista ( n. 1942 ) , Antnio Sousa Pereira ( n. 1938 ) , Fernando Gomes Alves ( n .

 1941 ) e Armando Marta ( n. 1940 ) .

 Todavia ,  nos finais desta dcada que reaparece Luiz Goes , assumindo com o

 guitarrista e idelogo Joo Bago , um Novo Canto .
 Ele foi dos poucos cultores ,

 posteriores a Edmundo de Bettencourt , que melhor soube assimilar a importncia

 da Gerao da Presena na redefinio da Cano de Coimbra .
 Foi ele que , na

 esteira de Bettencourt , conseguiu revolucionar esta Cano , inovando sem ser

 ortodoxo , passando a ser , a partir de ento , o " farol " depositrio de um novo

 discurso temtico - musical .

 Surgia , assim , a Escola Neo-Modernista da Cano Coimbr !

 Na dcada de 70 , desde logo uma data nos surge , faseando atitudes , prticas e

 mentalidades : o 25 de Abril de 74 !
 Se antes da Revoluo , ao longo dos anos 60 ,

 o canto era predominantemente contestatrio ( quase no havendo lugar  linha

 mais tradicional ) , e o imaginrio estudantil abarcava e reflectia-se nas vrias

 crises acadmicas que caracterizaram esse perodo , depois de Abril , a

 contestao acadmica , ao ressurgimento do " chamado Fado de Coimbra " era nota

 dominante - o epteto de " reaccionarismo " adjectivava toda a tentativa de

 recuperao do Canto Acadmico !
 Porm , em 1978 , realiza-se o 1 Seminrio do

 Fado de Coimbra , sob a tutela da Comisso Municipal de Turismo da Cmara

 Municipal , e em 1979 a " Semana Acadmica " ensaia o regresso da Queima da das

 Fitas ( 1980 ) .

 O ressurgimento das tradies e do Canto Acadmico tornou-se inevitvel !

 Por volta de 1980 , existiam em Coimbra duas escolas de aprendizagem do Canto e

 da Guitarra : a Seco de Fado da AAC , que ento nascia ( 25/6/80 ) , e dava os

 primeiros passos , e a Escola do Chiado , ligada  Cmara Municipal - que dava

 assim continuidade a um trabalho de ensino da guitarra encetado por Jorge Gomes

 ( n. 1941 ) , no ACM , a partir de 1974 .

 Novos cultores surgiram ento , que se constituram em quatro grupos

 representativos da Gerao de 80 : o Grupo de Fados e Guitarras de Coimbra ( com

 os cantores Lus Cartario , Antnio Nogueira e Vtor Silva ) , o Grupo Acadmico

 de Fados e Canes de Coimbra ( com os cantores Antnio Pimentel e Jorge Cravo ) ,

 o Grupo Praxis Nova ( com os cantores Lus Alcoforado e Rui Moreira ) , e o Grupo

 Toada Coimbr ( com os cantores Alcides Esteves e Rui Lucas ) , entre outros

 cantores episdicos .

 Na Histria mais recente - Gerao de 90 do sculo XX - importa referir o Grupo

 Capas Negras ( com Lus Alvelos e Eduardo Filipe ) , o Grupo Alta Medina ( com

 Henrique Garcia ) , o Grupo Alma Matter ( com Carlos Pedro e Nuno Correia ) ,

 Quinteto de Coimbra ( com Antnio Atade e Patrcio Mendes ) , o Grupo Verdes Anos

 ( com Antnio Dinis , Rui Seone e Gonalo Mendes ) , os Grupos de Fados da Tuna

 Acadmica ( com Jos Manuel Beato , Rui Ferreira , Jorge Machado e Rui Pimenta ) , o

 Grupo Saudades de Coimbra ( com Joo Barreiros e Henrique Guerra ) e o Grupo

 Coimbra de Sempre ( com Joo Pinto e Nino Pereira ) , entre outros .

 Desta forma se pode constatar que esta tradio musical de raiz coimbr est

 viva e recomenda-se , continuando geracionalmente a ser renovada por novas vozes

 e instrumentistas .

 Fonte : Site dos " Capas Negras " - Grupo de Fados de Coimbra

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