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  sempre mais fcil , em Msica , falar dos valores consagrados , das figuras

 incontornveis que marcaram o seu tempo e redefiniram os prprios gneros em

 que se inseriam , das grandes carreiras que ao longo de dcadas foram aplaudidas

 por pblicos de todo o mundo .
 Mais difcil  , pelo contrrio , correr o risco de

 falar de algum que est a comear e cujo percurso  , por isso mesmo ,

 impossvel de prever , face a toda a rede de factores aleatrios que gerem os

 circuitos musicais profissionais .

 Difcil , sim , mas ao mesmo tempo particularmente estimulante .
 Num jovem

 artista que comea o seu caminho h por vezes uma tal autenticidade , uma tal

 generosidade de entrega , um tal misto de entusiasmo e de naturalidade

 expressiva que nos deixa a sensao reconfortante de estarmos a assistir a um

 ritual de renovao , a uma certeza de vida e de continuidade .
  sem dvida o

 caso de Joana Amendoeira , cujo primeiro lbum agora se apresenta .

 As suas qualidades so evidentes : uma voz belssima de timbre quente , uma

 expressividade discreta mas requintada , uma recusa de qualquer registo

 artificial de auto-promoo que no seja o da conjuno simples entre palavras

 e msica , voz e instrumentos .
 Num perodo em que muitas vozes jovens do Fado

 tendem a partir da memria recente de Amlia , ora pelo estilo ora pelo

 repertrio , Joana surge com uma linguagem pessoal bem distinta , que parece

 evocar antes , de algum modo , o que foi a jovem Teresa Tarouca de finais dos

 anos 60 , e onde h por vezes remniscncias remotas de Teresa de Noronha ou at ,

 curiosamente , de Fernanda Maria , mas nenhuma destas associaes se impe como

 um modelo assumido , limitando-se a ficar como um registo de razes , parentescos

 e afinidades distantes que filiam esta voz nova na melhor tradio fadista .

 No h nada de mais essencialmente oposto ao novo do que a novidade .
 A

 " novidade "  um fenmeno artificial , ditado por razes de marketing , condenado

 a envelhecer tanto mais depressa quanto mais bombasticamente se apresentar como

 emblemtico de todas as rupturas .
 O novo - o verdadeiramente novo -  o que

 sabe olhar para trs de si com serenidade , enraizar-se nesse patrimnio

 adquirido , ver nele o resultado de um processo constante de mudana e

 prosseguir a partir da essa mesma transformao contnua , valorizando o que 

 essencial contra todas as externalidades ilusrias , escolhendo o desafio do que

  autntico contra tudo o que muito simplesmente " est na moda " ( e como tal

 deixar de o estar logo na estao seguinte ...
 ) .

 Tambm neste aspecto este primeiro disco de Joana Amendoeira  de uma

 inteligncia modelar .
 O repertrio escolhido  , na sua maior parte , constitudo

 por algumas das grandes melodias tradicionais do repertrio do chamado fado

 " castio " , e nesse sentido trata-se de uma escolha com fortes paralelismos com

 a de cada novo cantor norte-americano que faz questo de passar em algum

 momento da sua carreira pela prova inicitica do " Great American Songbook " dos

 Irving Berlins , Cole Porters ou George Gershwins .
 O Menor do Porto ou o Fado

 Tango , o Pinia ou o Franklin so aqui como que uma matriz revisitada que serve

 para deixar bem clara uma facilidade de apropriao pessoal destas melodias to

 conhecidas que as faz surgirem-nos com uma frescura evidente , longe de qualquer

 simples evocao saudosista .

 Por outro lado , Joana faz-se acompanhar por uma equipa instrumental de

 luxo : Custdio Castelo  sem dvida uma das referncias indiscutveis da

 renovao da guitarra portuguesa nas ltimas duas dcadas e o prprio Fontes

 Rocha , Mestre incontestado do seu instrumento , se deixa ouvir num fado

 lindssimo da sua autoria , " Amor mais perfeito " .
 Os arranjos de Carlos Manuel

 Proena so subtis e eficazes , revisitando de forma livre a tradio de

 acompanhamento guitarrstico que tem as suas razes em Armandinho , j desde as

 dcadas de 1930 e 40 , mas propondo aqui e alm outras solues imaginativas ,

 como sucede no " Versculo " do grande Marceneiro , em que parece quase poder

 sentir-se uma sugesto de morna cabo-verdiana .

 Por ltimo , Joana Amendoeira revela uma sensibilidade apurada para a

 escolha do seu repertrio potico .
 No procura impressionar-nos com a erudio

 das suas referncias literrias , mas escolhe com segurana textos prximos do

 imaginrio fadista mais rico e sobretudo de uma musicalidade intrnseca que

 deixa fluir alinha meldica e a valoriza , em vez de a contrariar .
 Nesta dupla

 ptica , so particularmente de sublinhar os versos de Aldina Duarte , cuja veia

 lrica assumidamente despojada e musical  ideal para deixar falar estas

 melodias estrficas ao mesmo tempo to simples e to inspiradas .

 Joana no vem com este disco fazer uma revoluo .
 Chega com uma presena

 serena e encantadora , canta-nos e d-nos a sensao de ser uma amiga que j

 conhecamos e que gostmos de rever , como se houvesse j no Fado um lugar  sua

 espera .
 No podia haver melhor comeo .

 RUI VIEIRA NERY

 Universidade de vora

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