 4-11-2004

 KATIA GUERREIRO

 Site : http : // www.katiaguerreiro.com /

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 DN mais

 Dirio de Notcias , DN mais , 14 de Julho de 2001

 Entrevista a Katia Guerreiro

 DIAGNOSTICAR O FADO

 Com apenas 25 anos de idade , Katia Guerreiro  mais uma voz do fado a

 deixar excelentes indicaes logo ao primeiro lbum .
 " Fado Maior " faz

 justia ao ttulo e coloca mais um tijolo no edifcio do novo fado ,

 que no pra de albergar grandes talentos .
 Como este .

 JOO MIGUEL TAVARES

 Katia Guerreiro  mdica , mas nas lides do fado no quer que a tratem por

 doutora .
 Nesse domnio , ainda lhe faltam alguns anos para atingir a

 licenciatura ( fez-se fadista h menos de dois anos ) , e , no entanto , surge j

 com uma segurana admirvel na voz e na postura .
 " Fado Maior "  o seu primeiro

 lbum , e ela apresenta-o com a modstia das estreantes mas tambm com o empenho

 de quem coloca o mximo de seriedade naquilo que faz .

 J comearam as comparaes com a Amlia ?

 J , j me bombardearam com as perguntas a propsito da Amlia .
 Hei-de

 defend-la sempre com unhas e dentes , porque a Amlia foi sempre a minha maior

 referncia musical .
 O que me interessa na msica  a expresso ,  aquilo que

 ela consegue transmitir , e nunca ningum conseguiu transmitir tanto quanto a

 Amlia .
 Mas se me tentam comparar devo dizer que estou perfeitamente em

 desacordo , porque a Amlia  inimitvel , incomparvel e insubstituvel .

 Compreendo que se tentem compensar os valores que se perdem , mas nunca ningum

 conseguir ocupar o seu lugar. [ INLINE ]

 Mas ainda no chegou quela fase em que as comparaes j aborrecem ?

 No se trata de as comparaes me aborrecerem ou no .
 Incomoda-me no

 sentido em que qualquer comparao com a Amlia  sempre injusta .

 Ficamos sempre a perder , no  ?
 Nunca ningum h-de chegar aos seus

 calcanhares .
 Jamais tentarei imit-la ou procurarei imit-la ou

 procurarei copiar os seus jeitos de cantar , na voz ou na postura .
 Eu

 entro num palco e sou eu .
 No preciso de criar uma personagem .

 Nasceu na frica do Sul , no foi ?

 Sim , e chamo-me mesmo Katia , com " k " e sem acento no " a " .
 A minha

 famlia  de Angola , onde fui feita .
 Com a independncia , passaram

 para a frica do Sul , j a minha me estava grvida e acabei por

 nascer l .
 Quando tinha 11 meses , fomos para os Aores , onde fiquei

 at ir estudar medicina para Lisboa .
 Agora estou em vora .

 Como  que algum que passou por um rancho folclrico , esteve numa

 tuna acadmica e canta ainda num grupo de msica dos anos 60 ( os

 Charruas ) vai acabar no fado ?

 No sei muito bem como aconteceu , s sei que aconteceu gradualmente .

 Andei pela msica tradicional e gosto muito de rock , o que  que

 hei-de fazer ?
 Mas o fado sempre esteve comigo .
 L est outra vez a

 Amlia , que era a nica pessoa que me levava a ouvir fado .
 Mesmo

 quando era muito pequenita , parava de brincar ao ouvir a sua voz na

 rdio .

 Quando  que comeou a cantar fado ?

 Quando ainda estava nos Aores .
 Comecei a cantarolar nos intervalos

 dos ensaios do rancho folclrico , onde tocava viola da terra , um

 instrumento tradicional de 12 cordas .
 Depois , quando vim para Lisboa ,

 tanto na tuna como nos Charruas , o fado acontecia sempre nas nossas

 brincadeiras .
 E houve um dia que a brincadeira se tornou um bocadinho

 mais sria , pois o Paulo Parreira ( guitarrista ) e o Joo Mrio Veiga

 ( viola de fado ) ouviram-me cantar no Embuado , que nem sequer

 costumava frequentar , e convidaram-me para actuar com eles .
 Nunca me

 passou pela cabea que tal viesse a acontecer .

 Isso foi h quanto tempo ?

 H um ano e qualquer coisa .

 Como  que chegou to rapidamente ao disco ?

  medida que nos fomos entrosando , chegmos  concluso que

 trabalhvamos bem juntos e que valia a pena gravar um CD .
 Quando

 partimos para o CD tnhamos alguns temas na manga , e os restantes

 aconteceram  medida que ele ia sendo gravado , desde fins de Outubro

 at meados de Maro deste ano .

 Muitos fadistas consideram que o fado tem uma dimenso existencial ,

 no se limitando a ser um simples ofcio .
 Identifica-se com essa

 ideia ?

 Sem dvida que o fado  um estado de alma .
  preciso sentir muito o

 que se est a cantar , embora haja quem consiga debitar fados no tom .

 Para mim , cantar o fado  , de facto , transmitir o que vai c dentro ;

 sentir , nem que seja apenas num verso ou dois , coisas que tm a ver

 comigo , com a minha vida .
 Um poeta pode escrever para si , mas quem l

 a poesia , interpreta-a em funo da sua vivncia , da sua maneira de

 estar na vida .
  isso que eu fao no fado .
 Transmito aquilo que sinto ,

 pego em tudo o que tenho e deito c para fora .
 Por isso chego exausta

 ao final dos espectculos .

 E sente-se inserida neste movimento de renovao do fado ?

 No ...
  claro que sou nova , que tenho uma voz nova e que , at h bem

 pouco tempo , a maior parte dos nossos fadistas eram todos da velha

 guarda .
 Mas tirei um curso de medicina , trabalho ...
 o fado  ,

 sobretudo , o meu tubo de escape .
 H pessoas que vo jogar tnis , h

 pessoas que vo ao ginsio , h pessoas que coleccionam selos ou

 moedas , eu canto fado .
 No entanto , isso  feito da forma mais

 profissional possvel , no lhe posso chamar " hobby " , porque  srio

 demais , embora no seja profissional do fado e no viva do fado .

 Mas gostava de viver ?

 No , no gostava .
 Pode parecer arrogante , mas , antes do fado , tenho de

 respeitar a carreira mdica , que exige muito de mim .
 Dou-me ao luxo de

 estar no fado com rigor e profissionalismo , mas tambm com restries .

 Ia perguntar se o fado iria ser a sua vida , mas estou a ver que no .

 No posso jurar a ps juntos que daqui a uns anos no abandone a

 medicina para me dedicar apenas ao fado , mas neste momento no penso

 dessa forma .
 O que posso dizer com toda a certeza  que adoro

 medicina e estudei muito para tirar o curso .
 Se queimei as minhas

 pestanas com muito prazer , no  agora que vou deitar fora o

 privilgio de ser mdica .
 Posso cantar quando e onde quiser , nem que

 seja na casa de banho , e neste momento tenho um disco , onde me posso

 ouvir daqui a 20 anos .
 Mas ser mdica implica um estudo e uma

 actualizao permanentes .
 Tem de se praticar todos os dias .

 Est no internato geral .
 Que especialidade quer seguir ?

 Pediatria .
 Mas ainda no estou totalmente decidida .

 Jmtavares@dn.pt

 Mais um nome para fixar

 O movimento de renovao do fado comea a tomar propores

 verdadeiramente surpreendentes .
 Mafalda Arnauth , Cristina Branco ,

 Maria Ana Bobone , Lula Pena ( a seu modo ) , Ana Sofia Varela ( em breve ) ,

 e agora Katia Guerreiro ...
 vozes femininas que aprenderam a amar o

 fado nos discos de Amlia Rodrigues mas que no surgem a decalcar a

 sua referncia maior , antes procuram encontrar um lugar prprio dentro

 do gnero , seja na sequncia da tradio ou em ruptura com ela .
 O mais

 curioso em tudo isto  que cada voz afirma , de facto , a sua

 individualidade , pelo que no se pode falar numa nova escola .
 Muitos

 destes nomes cresceram longe da Alfama e da Mouraria , no apreciavam

 particularmente o gnero quando jovens , e chegaram ao fado por mero

 acaso do destino .
 Assim aconteceu com Katia Guerreiro , que se viu

 fadista h menos de dois anos , e que agora lana um primeiro lbum a

 todos os ttulos admirvel .
 Admirvel , em primeiro lugar , pela

 segurana que j denota na voz quente e aveludada ( ouam-se as

 arriscadas subidas de " Algemas " ) ; admirvel , depois , pela sobriedade

 do repertrio , com alguns temas de Joo Mrio Veiga ( que , com Paulo

 Parreira , na guitarra , e Armando Figueiredo , no baixo acstico , forma

 o trio de acompanhantes , tambm responsvel pelos arranjos do disco ) e

 fados da fase final de Amlia ( o trgico " Amor de Mel , Amor de Fel " e

 o mais leve " Asa do Vento " ) ; admirvel , finalmente , pela qualidade da

 sua interpretao , que denota uma surpreendente maturidade e sabe

 fugir  tentao do exibicionismo , da teatralizao e do estilar

 barroco .
 Katia Guerreiro  mdica e no pensa deixar a sua profisso .

 Mas , se algum dia o estetoscpio lhe pesar no pescoo , pode

 perfeitamente substitu-lo por um xaile .
 Deixar de curar corpos , mas

 passar a alegrar almas a tempo inteiro .

 J.M.T .

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 VIDAS

 Expresso , VIDAS , 30-6 - 2001

 PESSOAS Revelao

 Voz maior

 Katia Guerreiro  considerada a mais nova promessa do fado , que canta

 por prazer

 Texto de Ana Soromenho

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 Quando no Outono passado , um ano depois da sua morte , se prestou homenagem 

 grande diva , e vrias vozes se juntaram no Coliseu dos Recreios de Lisboa para

 cantar o fado , houve quem no resistisse a compar-la com Amlia .
 Dizia-se que

 estava ali uma ssia , no s pelas semelhanas fsicas mas , sobretudo , pela

 forma de interpretar e tambm pela voz .
 Katia Guerreiro era a jovem fadista ,

 ainda debutante , que subitamente se via colocada no patamar das estrelas .
 Ela

 recusa a comparao .

 Para quem apenas gosta de cantar o fado pelo prazer de cantar o fado , a

 comparao soa a um exagero provocado pela fora do acontecimento :  No estudo

 o que fao .
 Nem fao aquilo de que no gosto .
 A nica coisa que posso dizer 

 que ela sempre foi uma grande referncia para mim  .

 Katia acabou de editar o primeiro disco , Fado maior , que est a ser

 lanado a grande velocidade .
 Ela tem a vantagem de uma extrema

 simplicidade e de saber bem o que quer .
 Mdica , recm-licenciada ,

 trabalha no Hospital de vora , tem 25 anos e define-se como uma pessoa

 clssica .
 No fado e na vida :  Fiz este disco com muita calma .
 As

 letras so principalmente clssicas porque sou uma pessoa , por

 natureza , muito clssica , e no fado no me identifico com sonoridades

 mais contemporneas .
 Sou clssica na maneira de vestir e na forma de

 estar .
 No sou uma pessoa extravagante .
 Gosto das coisas antigas  .

 Katia Guerreiro nasceu na frica do Sul , filha de uma famlia que

 vinha de Angola .
 Em criana foi viver para os Aores , para So Miguel ,

 Ponta Delgada , e aos 18 anos chegou a Lisboa , para estudar medicina .

 Nos Aores fez parte de um rancho folclrico e a nasceu-lhe o gosto

 pela msica e pelo canto , que continuou a cultivar enquanto estudava

 medicina na Faculdade de Lisboa .
 Foi ela quem fundou a tuna mdica de

 Lisboa e o grupo de teatro Miguel Torga daquela faculdade , foi

 dirigente associativa e ainda teve tempo para integrar uma banda rock

 de msica dos anos sessenta .

 O fado surgiu por acaso , numa noite em que estava numa casa de fados

 e , por brincadeira , se atreveu a experimentar aquele registo de voz .

 Nesse entusiasmo cruzou-se com os msicos Paulo Parreira ( guitarra

 portuguesa ) , Joo Mrio Veiga ( viola de fado ) e Armando Figueiredo

 ( viola baixo ) , que com ela trabalharam e lhe deram fora para chegar

 ao disco .

 Rui Vieira Nery , no texto de apresentao que dedica ao CD , diz sobre

 ela :  ...
 penso que aqueles que ouvirem este disco concordaro comigo

 em que se trata sem dvida de uma das vozes fadistas mais sedutoras da

 sua gerao e uma das que tudo indica poderem vir a ter no panorama do

 Fado um futuro mais destacado ...
 

 E sobre aquilo que  possvel saber sobre o futuro , Katia garante

 apenas duas coisas :  Se um dia tiver de optar ,  pela medicina que o

 farei .
 Entretanto sou fadista com um enorme prazer .
 Quando fiz este

 disco , e como no sei se cantarei o fado a vida toda , fi-lo com

 empenho de o ouvir daqui a alguns anos e poder continuar a sentir-me

 satisfeita com trabalho que est aqui  .

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 PBLICO , suplemento Y 20-7-2001

 Novas fadas

 Fernando Magalhes

 Nada foi encenado .

 No hospital de vora , onde exerce medicina , cura os males do corpo .
 Com a voz

 cura os males do esprito .
 Ktia Guerreiro , mdica de profisso , canta o fado .

 Antes cantou num rancho folclrico dos Aores , onde intepretou pela primeira

 vez " Amar , amar " , com poema de Florbela Espanca , " que a Teresa Silva Carvalho

 cantava " , e no grupo " Os Charruas " , passando ainda pela Tuna Mdica de Lisboa .

 Em Outubro do ano passado esteve no Coliseu dos Recreios , no espectculo " Uma

 Vela por Amlia " .
 Deu voz a dois fados , de Amlia : " Amor de mel , amor de fel " e

 " Barco negro " .
 Teresa Silva Carvalho , Maria Teresa de Noronha e Caman , e os

 poetas Cames , Sophia de Melo Breyner , Fernando Pessoa e " uma grande amiga " ,

 Maria Lusa Baptista incluem-se na lista das suas preferncias. [ INLINE ]

 Nessa ocasio , no Coliseu , estarreceu pela voz e pela extraordinria

 semelhana fsica com a diva .
 Aceita as comparaes , mas esclarece que

 " nada foi encenado " : " Em relao s minhas expresses ,  minha forma

 de franzir as sobrancelhas ,  a minha maneira de estar no palco , de

 cantar , quando sinto no estou a pensar no que estou a fazer , naquilo

 que as pessoas podero estar a ver .
 Canto com o corpo inteiro , se h

 coincidncias ou no ...
 nunca andei a observar a Amlia ...
 sempre cantei

 assim ...
 a nica coisa que posso dizer  que sinto muito em mim a

 Amlia quando estou a cantar ...
 " .

 Define-se como " tradicionalista " : " No fado , no se pode mudar nada .
 O

 que  ,  .
 Depois h variaes ...
 " .
 " Fado Maior " , o seu disco de

 estreia , mostra uma cantora " apaixonada " que canta " os amores ardentes

 e os desamores , as paixes e as desavenas , o desnimo , a luta , a

 solido , a alegria " .

 DNa

 Dirio de Notcias - DNa 3-11-2001

 Texto de Sandra Nobre

 FOI DEUS

 Nos Aores , Katia Guerreiro sentiu o apelo da msica .
 Aos 12 anos , no

 quis ir para o Conservatrio por achar que era " velha " para tal .
 Aos

 15 , estreou-se num rancho folclrico .
 Aos 18 , veio estudar Medicina

 para Lisboa .
 Uma noite  convidada a cantar numa casa de fados e o seu

 nome passa a figurar entre a nova gerao de fadistas .

  uma espcie de superstio .
 Katia Guerreiro no comea a cantar antes de se

 benzer , ainda que na pressa da subida ao palco o tenha que fazer mentalmente j

 quando todos esto com os olhos postos nela .
 Nesse instante ntimo , a fadista

 pede proteco a Deus e aos que j partiram , que acredita estarem em qualquer

 lado a proteg-la .
  no av que pensa nesses momentos que no gosta de

 compartilhar .
 Depois , Katia esconde as mos atrs das costas e agarra-as com

 fora , sustendo o nervosismo at comear a cantar e fica assim at ao ltimo

 acorde , diz que se sente mais confortvel , que se tivesse as mos livres no

 saberia o que fazer com elas .
 Mas quem a ouve cantar .
 No nota sequer uma

 pontinha de insegurana ou tremor na sua voz , quando canta  como se se

 entregasse totalmente ao poema , de olhos fechados .
 No final da actuao , se os

 pais no esto entre o pblico , agarra no telefone para dizer como correu e

 respirar de alvio .

 Quando era ainda uma garota dizia que quando fosse grande queria ser

 veterinria , que queria curar animais e no pessoas , por medo s de pensar que

 podia ter a vida de algum nas suas mos .
 Cresceu com essa convico at ao dia

 em que quis ser mais forte e ultrapassar a sua insegurana e decidiu que

 seguiria Medicina , que ela logo haveria de saber dar conta do recado .
 Nesse

 tempo , vivia em S. Miguel , nos Aores , depois de uma grande viagem desde frica

 do Sul , quando tinha apenas 11 meses .
 A famlia ancorou ali , diante do oceano

 imenso que sempre a fascinou .
 E ali ficou. [ INLINE ]

 A msica chegou por influncia do irmo que danava no Rancho

 Folclrico de Santa Ceclia e aprendia a tocar viola da terra , um

 instrumento tpico aoreano .
 Um acidente de percurso fez com que o

 irmo partisse uma perna e comeasse a ter as lies de msica em

 casa .
 Katia ficava sempre atenta aos ensinamentos , mesmo quando

 estudava para os testes .
 Depois , quando ficava sozinha , tentava pr em

 prtica o que aprendera , sempre em segredo .
 J antes , no colgio , o

 sentido musical dos irmos no passava despercebido aos professores ,

 que notavam neles um bom ouvido para a msica .
 Um dia a professora

 perguntou-lhe por que  que ela no ia para o Conservatrio , ao que

 lhe respondeu que no , que j era " velha " para tal .
 " Um grande erro " ,

 reconhece , " se tivesse tido formao musical , hoje era capaz de

 compor , tinha outras bases que me permitiriam evoluir com mais

 facilidade " .

 Um dia o pai , ao chegar a casa , encontra-a a tocar .
 No imediato achou

 que Katia devia integrar o rancho folclrico .
 E assim foi .
 No rancho

 comeou tambm a cantar , nos intervalos dos ensaios , aos seres e nas

 jantaradas , entrava na brincadeira e cantava a par dos outros .

 Katia cresceu mas idealizou que seria mdica .
 O sonho trouxe-a para

 Lisboa .
 E os Aores l to longe ...
 " Apesar das saudades que tenho dos

 meus amigos e das pessoas que l deixei , a maior falta que eu sinto 

 dos meus recantos , para onde eu fugia quando precisava , onde havia

 sempre uma paz e um sossego que no encontro por muito que procure .
 

 noite , saa do meu quarto , abria a porta e tinha o mar  minha frente .

 Agora , sempre que volto a Ponta Delgada , passo em frente da minha casa

 e fico com as pernas a tremer " .
  quase o mesmo nervosismo que sente

 quando sobe ao palco .

 Inicialmente , veio sozinha para o continente , mas na primeira

 oportunidade os pais e o irmo vieram ao seu encontro .
 " Foi uma

 mudana radical nas nossas vidas " .
 Na Faculdade de Cincias Mdicas da

 Universidade Nova de Lisboa , a sua presena no passou despercebida ,

 foi uma aluna exemplar e uma estudante que viveu intensamente o meio

 acadmico .
 " Tive o meu trajo acadmico no primeiro ano , fui um dos

 elementos fundadores da Tuna Mdica de Lisboa , do Grupo de Teatro

 Miguel Torga , fui dirigente associativa durante dois anos .
 Quis

 aproveitar ao mximo este perodo da minha vida " .

 Na Faculdade esteve sempre prxima de pessoas ligadas  msica .
 Ainda

 no primeiro ano , integra um grupo de msica rock dos anos 60 , os

 Charruas , do Cartaxo , por intermdio de um primo que era vocalista do

 grupo .
 Comeou por uma brincadeira : ouviram-na cantar , convidaram-na

 para assistir a uns ensaios e resolve ficar .
 At hoje .
 " Tenho tido a

 sorte de na vida me cruzar com pessoas com as quais tenho muitas

 afinidades e laos de amizade quase familiares " , reconhece .

 Por brincadeira , comea a ir a uma casa de fados , aventura-se num

 fadinho e encanta o pblico e os msicos .
 Volta sem saber ao que vai e

 pedem-lhe que cante como da outra vez , os msicos rendem-se  sua voz

 e ainda hoje continuam a actuar juntos .
 Katia Guerreiro inscreve a

 partir da o seu nome entre a nova gerao de fadistas .
 A brincadeira

 torna-se sria e culmina com a gravao de um CD este ano , mais do que

 ela poderia ter imaginado para si .
 Talvez seja uma bno de quem a

 protege , esteja onde estiver .

 B B C

 Katia Guerreirro

 Nas Mos do Fado

 ( Ocarina )

 Reviewer : Jon Lusk

 If fans of Portuguese fado have overlooked this young singer , it's not

 because she lacks talent .

 Her debut album Fado Maior appeared around the same time as that by

 her better known colleague Mariza , but Katia's career has been more of

 a slow burn affair for several reasons. Firstly , she hasn't had as

 much heavy promotion or any major label backing. And incredibly , she

 still works one or two days a week as a doctor in a hospital near

 Lisbon , so she's had to fit a limited touring schedule around her

 other vocation. Nor does she have quite the same showbusiness nous as

 Mariza .
 Onstage , Katia is almost static ( though still magnetic ) ,

 usually singing with her eyes closed and hands clenched firmly behind

 her back , as on the cover of this , her second album .

 The title means in the hands of fado and refers to the way her

 devotion to this exquisite and distinctively Portuguese style has

 changed her life completely. Her take on it is very traditional , and

 she still uses only the three key instruments of 12 - stringed

 Portuguese guitar , Spanish guitar and double bass , which some purists

 insist is the only authentic fado arrangement .

 A third of the melodies on Nas Mos do Fado are drawn from the body of

 over 200 traditional fados which artists such as Katia regularly

 update by combining them with the words of Portuguese poets .
 A good

 example and one of the undoubted highlights is " Ancorado en Mim " ,

 which marries the tune of fado " Santa Luzia " with a poem by Ana Vidal .

 Another example is " Valsa " , which employs fado margaridas and one of

 three poems by Antnio Lobo Antunes on the album .

 Like most up-and-coming female fadistas , Katia is often compared to

 Amlia Rodrigues widely acknowledged as the greatest fado singer of

 the twentieth century .
 In fact , Katia's range and tone are remarkably

 similar , so the comparison isn't entirely inappropriate , even if it

 does create unrealistic expectations. After all , both " Chora " ,

 " Mariquinhas Chora " and " Perdigo " were part of Amlia's repertoire .

 Katia's Portuguese guitarist Paulo Valentim and guitarist Joo Viega

 also contribute both words and music , as does the singer herself on a

 couple of numbers. The test of such new compositions is how

 convincingly they blend in with the traditional ones ; suffice it to

 say you'll be hard pressed to spot them .

 But my personal favourite is the most experimental song. The stunning

 slow waltz rendition of " O Que Fr H-de Ser " ( by Dulce Pontes ,

 Portugal's current number one roots-pop diva ) is a masterpiece of

 restrained passion. The full range of Katia's extraordinarily subtle

 charm as a singer is on show , from a whisper to a wail. She has a very

 beguiling way of leaning into notes which makes her the equal of any

 of her contemporaries and on this evidence has easily overcome the

 difficult second album syndrome .

