

 8-8-2001

 MAFALDA ARNAUTH

 ( N. 4-10-1974 )

 Site : http : // www.mafaldarnauth.com /

 Comecei a interessar-me pelo fado , nos meus anos de Bruxelas ( 1994-2000 ) .
 Longe

 de Portugal e da famlia , comecei naturalmente a gostar de ouvir msica

 portuguesa , e tambm o fado - para matar as saudades .
 Depois disso , continuo a

 ouvir fado , especialmente a conduzir .
 De facto , em casa prefiro ouvir msica

 clssica , que , porm , no se presta a ser ouvida no carro .

 Prefiro os novos intrpretes do fado , como Mafalda Arnauth ( " Mafalda Arnauth " ,

 " Esta voz que me atravessa " ) , a quem dedico esta pgina , mas tambm Maria Ana

 Bobone [ INLINE ]

 ( " Luz Destino " , " Senhora da Lapa " ) e Margarida Bessa ( CD com o seu

 nome ) .
 Entre os rapazes , distingo Caman ( " Na linha da vida " e " Esta

 coisa da alma " ) e Paulo Bragana ( " Notas sobre a alma " , " Amai " e " O

 mistrio do fado " ) .
 Maria Ana Bobone levou mesmo a cabo um estudo

 sobre o fado para uma cadeira do curso Cincias da Comunicao da

 Universidade Catlica .

 Mafalda Arnauth  , at ver , um dos elementos femininos do fado mais

 representativos das novas geraes .
 Pessoalmente , prefiro o seu

 primeiro disco ao segundo , lanado em 2001 .
 Na visita de Clinton a

 Lisboa , foi escolhida para cantar o fado para ele , embora se possa

 suspeitar que cantar bem no foi a nica razo -  especialmente

 bonita e elegante .
 Veio a notcia no New York Times de 30-5-2000 , pela

 pena da jornalista Elaine Sciolino , assim : " At the state dinner

 tonight , Mr. Clinton was serenaded by Mafalda Arnauth , Portugal's

 hottest young fado singer .
 Fado is melancholic Portuguese music played

 with string instruments and built around the concept of saudades , the

 yearning for a past that was better and may never return. "

 [ INLINE ]

 Nota biogrfica :

 MAFALDA ARNAUTH nasceu a 4 de Outubro de 1974 , em Lisboa .
 Surge como um meteoro

 no circuito do Fado aps ter participado , em 1995 .
 num espectculo no Teatro

 S. Lus , ao lado de alguns dos grandes nomes do Fado .
 A partir dessa altura

 Mafalda Arnauth nunca mais parou , passando por alguns programas de Televiso e

 Rdio , por vrios palcos no estrangeiro ( Luxemburgo , Alemanha , Frana ,

 Inglaterra ) e um pouco por todo o pas .
 Em 1996 entra como artista privativa da

 Taverna do Embuado ( uma das principais Casas de Fado de Lisboa ) e , participa

 na Cimeira dos Pases de Lngua Portuguesa que tem lugar em Moambique .

 Em 1997 , em Paris , est presente num Encontro Internacional de Poesia

 onde interpreta vrios temas de Cames , Fernando Pessoa e Pedro Homem

 de Mello .
 No mesmo ano desloca-se a Londres actuando ao lado de

 Argentina Santos e Carlos Zel .
 Ainda em 1997 est presente em

 Frankfurt , juntamente com Helder Moutinho , numa Semana dedicada a

 Portugal e organizada pela Associao Cultural Portugal-Frankfurt .
 Em

 1998 desloca-se a Paris para um concerto em directo para a Rdio Alfa .

 Destaque para a presena na Expo-98 em diversas actuaes - no Palco

 do Fado durante a primeira Semana de Fado , no Palco do Jazz em dois

 espectculos integrados no projecto " Novas Vozes de Um Fado Antigo " e

 no mesmo palco mais duas actuaes no projecto " De San Telmo 

 Mouraria - Fado e Tango " .
 Ainda em 1998 participa no Tanz & FolkFest

 Rudolstadt , o maior Festival que se realiza na Alemanha dedicado s

 Msicas do Mundo , representando o fado juntamente com Helder Moutinho .

 Participa ainda neste ano de 98 , em Innsbruck ( ustria ) , no Festival

 " Voices " integrando o projecto da Ocarina " Duas geraes a cantar o

 Fado " ao lado de Maria Amlia Proena .
 1999 - Com aquele projecto da

 Ocarina esteve presente em 5 concertos , de par com Maria Amlia

 Proena , em Bremen ( Alemanha ) no passado ms de Maro , no Festival

 Women in ( E ) motion. Mafalda est hoje a afirmar-se como uma das mais

 slidas e promissoras vozes do fado recebendo muitos convites para

 espectculos no pas e no estrangeiro .
 Para este ano que decorre , tem

 j agendados concertos para a Alemanha , Espanha e Holanda .

 Dar Voz s Palavras

 Por FERNANDO MAGALHES

 PBLICO

 ^ Sexta-feira , 16 de Maro de 2001

 Em " Esta Voz que me Atravessa " Mafalda Arnauth faz a travessia entre a voz e a

 poesia , saborerando tudo o que existe pelo meio .
 Amlia Muge , senhora das

 palavras , produz. [ INLINE ]

 Mafalda Arnauth  uma das estrelas mais brilhantes da nova constelao

 do fado cantado no feminino .
 Depois de um lbum de estreia promissor ,

 a fadista apadrinhada no incio de carreira por Joo Braga , acaba de

 lanar um segundo trabalho , " Esta Voz que me Atravessa " , onde so

 visveis o amadurecimento , quer da voz , quer da composio .
 E uma

 maior ateno posta nas palavras e nos segredos e prazeres que estas

 encerram .

 Dito de outro modo , Mafalda Arnauth ouve-se melhor a si prpria .
 A

 produo do novo disco foi entregue , com alguma surpresa , a Jos

 Martins e Amlia Muge , com quem a fadista estebeleceu uma rede de

 empatia e cumplicidades .

 Dois anos depois de " Mafalda Arnauth " a atitude perante a msica , o

 fado e a gravao de um disco tinha que ser outra .
 Para a fadista ,

 " num primeiro disco  tudo mais espontneo mas tambm mais verde " .
 A

 uma produo diferente correspondeu " uma exigncia mais forte em

 termos musicais , o que acabou por colocar outro peso na forma de

 cantar , outra dimenso " .
 Enquanto o primeiro disco pretendia dizer

 " isto  o que eu sou , e como transporto neste momento isto que eu sou

 para um disco " , em " Esta Voz que me Atravessa " a diferena comea logo

 pelo menor nmero de composies assinadas em nome prprio , sinal de

 um ano de trabalho " em cheio " mas tambm de uma vontade de no

 escrever por escrever .
 " No quero escrever de propsito para poder

 dizer que as coisas so minhas " .
 Em " Esta Voz que me Atravessa "

 Mafalda Arnauth encontrou quem as dissesse da mesma forma que ela as

 teria dito : Hlia Correia , Amlia Muge , Mrio Rainho , Hlder Moutinho

 e ...
 Fausto , presente no tema " Lusitana .
 Ela mesmo diz a tradio de

 Alfredo Marceneiro , em " At logo , meu amor " .

 Cumplicidades .
 Amlia e Mafalda encontraram-se atravs de Caman , para

 quem a autora de " Taco a Taco " escrevera uma composio .
 Logo a a

 fadista se sentiu impelida a trabalhar com ela e o seu parceiro de h

 muito , Jos Martins .
 " Um e outro funcionaram como estudiosos " , diz

 Mafalda , " preocupando-se em ver o que  o fado , em saber deste

 universo e , respeitando o tradicional , debruando-se sobre as suas

 fronteiras " .

 " O que me impressionou acima de tudo na Amlia foi esse lado de ir ao

 fundo das coisas , alm de ser uma pessoa com as emoes  flor da

 pele " .
 As duas olharam-se e " descortinaram-se " uma  outra .
 Da at se

 estabelecer uma empatia foi um pice .

 Respiraes e outras " coisas bsicas " como esta , alm de pormenores

 mais subtis , como a forma de sentir e interpretar a msica , e uma

 maior concentrao na musicalidade e significado dos poemas - " por

 vezes o facto de se ter na voz um bom instrumento , distrai da fora

 dos poemas .
 Neste disco tive a preocupao de saborear melhor os seus

 sentidos " - sofreram alteraes .
 Mas a audio de " Esta Voz que me

 Atravessa " prova que a colaborao foi acertada .

 Ricardo Rocha , na guitarra portuguesa , Jos Elmiro Nunes , na guitarra

 de fado , e Paulo Paz , no contrabaixo , acompanham Mafalda Arnauth .
 Nada

 de inovaes instrumentais , nenhum violino , nem um piano para amostra ,

 apenas os intrumentos tradicionais do fado .
 Por aqui , pelo fado , as

 mudanas tero que surgir sempre de dentro , da capacidade da

 personalidade de quem canta se moldar s curvas do tempo .
 E  assim

 que Mafalda Arnauth acha que deve ser .
 A contestao na

 contra-corrente do escndalo e do folclore que outros fazem gala em

 exibir .
 Mafalda , a contestatria .
 Com classe e devoo .

 Novo fado ?
 E  assim que outras das vozes femininas do fado surgidas

 nos ltimos tempos - para alm de Mafalda Arnauth , tambm Cristina

 Branco , Ana Sofia Varela , Joana Amendoeira ou Ctia Guerreiro - tm

 procedido , deste modo garantindo , sem cair no paradoxo , a renovao

 deste gnero musical que apenas o  enquanto existir uma certa forma

 de ser-se e sentir-se portugus .
 No h " novo fado " , mas novas ( e

 novos ) fadistas , outras formas , renovadas mas sempre ancoradas na

 saudade ( sem ela o fado  sombra sem corpo ) , de o ( re ) descobrir e

 cantar .

 Todas elas insuflaram na alma do fado a sua prpria alma .
 Vozes e

 sensibilidades diferentes a explodirem num cu que , depois da morte de

 Amlia , se desanuviou , mostrando quo imenso era e ocupado estava .

 Porque Amlia era toda ela o cu .
 A estrela que ocupava todo o espao

 e tudo ofuscava .
 Extinta essa luz , outras lentamente se foram e vo

 acendendo e  o seu brilho que cada vez mais se vai firmando .
 " Novas

 Amlias " no h nem poder haver .
 E o fado est agora mais dividido .

 " Com o desaparecimento real de Amlia Rodrigues as pessoas deram-se

 conta que estavam a perder as suas razes .
 E aconteceu a descoberta

 que se l fora lhe prestavam tanta ateno era porque algo lhes estava

 a escapar .
 Aps a sua morte apareceram boas vozes , mas s o tempo

 definir a sua qualidade ou no , consoante a sua receptividade por

 parte do pblico " .

 Porque os tempos agora so outros e as distncias maiores , torna-se

 difcil , seno impossvel , juntar estas vozes num qualquer movimento

 ou esttica organizada .
 Hoje , Mafalda Arnauth , Cristina Branco ou Ana

 Sofia Varela so mais facilmente divulgadas e ouvidas no estrangeiro

 do que qualquer fadista nas dcadas de Amlia .
 " No  como

 antigamente , quando as fadistas se juntavam nas casas de fado " .

 Mas talvez o mais importante no seja essa partilha .
 E aquilo que une ,

 afinal , todas estas vozes que reivindicam o futuro do fado pode ser

 sintetizado nas palavras de Mafalda Arnauth : " Embora cada uma trabalhe

 na sua prpria realidade , toda a gente tem a preocupao de fazer

 sempre melhor " .

 Expresso , CARTAZ , 3-3-2001

 nfimas deslocaes

 Com o seu segundo disco , Mafalda Arnauth reserva definitivamente o

 seu lugar no fado

 Entrevista de Joo Lisboa

 Dois anos depois do lbum de estreia , com Esta Voz que Me Atravessa ,

 Mafalda Arnauth reserva definitivamente o seu lugar no panorama

 contemporneo da nova gerao do fado .
 Produzido por Amlia Muge e

 Antnio Jos Martins , este  outro lbum da estirpe que tem vindo a

 afirmar-se onde , atravs de pequenas divergncias e nfimas

 deslocaes , o fado , sem nunca perder a sua raiz , renova o vocabulrio

 e enriquece o reportrio com um conjunto de temas e notveis

 interpretaes que , na era ps-Amlia ,  justamente aquilo de que mais

 precisa .

 Com o lbum de estreia , adquiriste determinado tipo de experincia ,

 decisiva para a forma como concebeste este novo trabalho ?

 O primeiro lbum foi digerido com tal intensidade que me obrigou a

 escut-lo sucessivamente e perceb-lo cada vez melhor , com sentido

 crtico , mas tambm com carinho .
 Pretendia que ele fosse espontneo e

 foi , mas tambm consegui compreender as coisas que estariam menos bem .

 Neste disco procurei manter essa ideia de autenticidade , dos sentidos

  flor da pele .
 O que senti que gostaria de trabalhar mais foi a parte

 musical .
 Da ter apostado em pessoas que sabia iriam gerir bem o

 talento dos msicos .
 No primeiro disco isso ficou a cargo de cada

 msico .
 Desta vez foi um verdadeiro trabalho de equipa .
 Cada um trouxe

 a sua bagagem - o Ricardo Rocha , por exemplo ,  uma pessoa impossvel

 de limitar - mas foi importante existir algum de fora ( a Amlia Muge

 e o Z Martins , que foram responsveis pela produo e direco

 musical e artstica ) capaz de dizer  isto fica melhor  ,  isto est

 fora do contexto  e os prprios msicos sentiram que algum estava a

 prestar ateno especial ao seu trabalho .

 Nessa colaborao com a Amlia e o Z Martins , como decorreu todo o

 processo de escrita e seleco do reportrio ?

 A primeira escolha passou quase sempre pela parte potica .
 A Amlia

 sentiu que , ao ser convidada , faria sentido reflectirmos um bocadinho

 sobre as fronteiras do fado .
 Porque , sendo ela uma pessoa que nunca

 teve realmente contacto com o  mundo do fado  , mas sendo estudiosa ,

 fez um trabalho notvel de investigao .
 Na construo das letras

 percebi que ela procurou no me  formatar  .
 Partiu das minhas ideias e

 da minha concepo do texto , mas foi abrindo algumas luzes em termos

 de construo .
 Talvez existam menos coisas minhas mas sinto-me muito

 mais satisfeita com as que ficaram .
 Quanto  parte musical , se o

 primeiro disco era a minha apresentao , este vai mais fundo nas tais

 fronteiras entre fado e vrios tipos musicais .

 Tanto ao nvel do trabalho dos msicos como na prpria construo dos

 temas e dos arranjos este disco  muito mais rico do que o primeiro .

 No tenho a menor dvida .
 Sinto que dei um grande passo em frente ,

 embora tenha sempre um grande carinho pelo primeiro , devido aquela

 forma desprendida de me apresentar .

 Em ambos os discos foste buscar , como produtores - no primeiro o Joo

 Gil , neste a Amlia Muge - , pessoas que no provm da tradio do

 fado .
 Estavas  procura de um olhar distanciado sobre esse universo

 musical ?

 Tem muito a ver com isso , mas foram duas situaes distintas .
 O Joo

 foi-me apresentado numa altura em que no fazia ideia de quem me

 poderia produzir .
 Com a Amlia tive a intuio - principalmente a

 partir daquele tema ddeela ,   Janela  , no disco do Caman - de que

 era algum a quem o fado despertava muito a ateno , influenciada

 ( talvez mais do que o Joo Gil ) pela raiz tradicional da msica

 portuguesa .
 E , sobretudo , com uma grande vontade de conhecer mais sem

 os vcios dos  conhecedores  e com uma experincia musical e potica

 muito rica .

 Isso pode criar alguma dificuldade , relativamente  aceitao por

 parte da  comunidade fadista  mais tradicional ?

 No tenho sentido , nada , isso .
 So capazes de ficar um pouco

 assustados com temas que j no primeiro disco existiam , mas sentem que

 o fado est presente e que a fronteira tem sido sempre respeitada .

 Este disco poder ser um bocadinho mais polmico , mas  um desafio que

 no me importo de aceitar quando tenho um msico como o Ricardo que j

 sai da forma tradicional de tocar e temas com os quais me identifico

 perfeitamente .
 No quero nem posso limitar-me em termos de horizonte

 musical .

 Nos ltimos anos , sem que o idioma do fado tenha sido varrido por

 algum tufo , sente-se realmente que sopra uma aragem nova ...
 Tambm s

 desta opinio ?

 Sou .
 E o mais importante  sentir que tudo isso tem sido feito de uma

 forma que no  chocante .
 Essa era a minha grande preocupao .

 Dificilmente algum dir que eu ou , por exemplo , o Caman , estamos a

 virar o fado ao contrrio .
 O prprio percurso da Amlia  recheado

 desse tipo de situaes .
 Coisas que h trinta anos no eram

 consideradas fado , hoje , so clssicos , padres , modelos que

 resistiram e se impuseram .
 Por outro lado , curiosamente , alguns dos

 fados mais marcantes so tradicionais : muita gente no sabe que o

  Povo que Lavas no Rio   o  Fado Vitria  , ou que  Estranha Forma de

 Vida   o  Fado Bailado  .

 No tinha pensado em falar-te disto mas , de repente , lembrei-me da tua

 celebrada apresentao para Bill Clinton .

 O convite foi uma coisa um bocado estranha .
 Ficmos meia hora a pensar

  isto no est a acontecer ...
  .
 Ainda por cima tnhamos um espectculo

 marcado para esse dia .
 Mas acabmos por aceitar .
 O que  que se pode

 apresentar numa situao dessas ?
 Sabia que tinha , no mnimo , de

 cumprimentar os presidentes .
 L fora , tinha estado a repetir

 interminavelmente  your excellency the President of the United States ,

 Mr. Bill Clinton  e , quando entrei , aquilo saiu .
 Procurei fazer uma

 coisa o mais diversa possvel .
 Mas foi um bocado irreal .
 Quando foi a

 sesso de cumprimentos , lembro-me que eu s queria sair dali .
 Mas no

 houve o menor problema .

 O Clinton portou-se como um cavalheiro ...

 Ele tinha um  staff  composto quase s por mulheres que o apaparicam

 de todas as maneiras e que determinam tudo o que acontece .
 

 praticamente impossvel algum sentir-se ali exposto de alguma

 maneira .

 Entre o primeiro disco e este , aconteceu a morte de Amlia .
 Da que

 estejamos a viver agora , de facto , a era-ps Amlia .

 Mais do que nunca , comeam a surgir pessoas - at fora do fado , como o

 Joo Monge , por exemplo - a compor muito bem , que conseguem usar essa

 linguagem e chegar ao pblico .
 No vamos pensar em substituies .
 Os

 tempos e os momentos so outros e  preciso que no se perca a

 identidade de quem pode aparecer .
 Isso obriga-nos , evidentemente , a

 descobrir um reportrio prprio .
 Mais do que nunca ,  necessrio que

 se compreenda que aquele lugar  daquela grande senhora e todas as

 pessoas que vierem sero outras pessoas .

 " At aos 18 anos eu sabia l o que era o fado "

 Nuno Galopim

 Depois de uma longa sesso fotogrfica , ao sol de uma tarde de Vero , eu e a Ma

 falda rummos a um restaurante chins , para um encontro de palavras em

 portugus ao sabor de " chop suoy " de lulas e de um inevitvel pato  Pequim .

 Arroz " chau chau " a acompanhar .
 Na recta final da apetitosa conversa , o dono do

 restaurante fazia questo de dar uso ao seu novo brinquedo , com uma sonora e

 longa sesso de " karaoke " .
 Naturalmente , em chins. [ INLINE ]

 Acha que o fado  , necessariamente , a " desgraa " ?

 Definitivamente no sou assim , e talvez venha da a empatia que vou

 sentido que as pessoas tm comigo .
 No consigo ser fatalista , no

 quero viver da tal desgraa .
 E comeo a transmitir isso .
 H um

 realismo nas coisas com o qual as pessoas tambm se vo identificando .

 Se tenho a referncia de problemas , disto e daquilo , depois tambm

 tenho a referncia de como os superar e de bons momentos .
 No consigo

 ser assim na minha vida e por isso o fado que eu canto , e a forma como

 comunico com as pessoas , no pode ser nunca s desgraa .

 O fado , enquanto celebrao da vida ,  tambm optimista ...

 Absolutamente !
 O fado  emoo .
 Podem dizer que  destino ...
 A grande

 diferena  reconhecer se est traado ou no est .

 Aprende-se a ser fadista ou essa  uma caracterstica que tem de

 nascer com a pessoa ?

 Isso coloca-me vrias questes .
 A ideia de fadista passa por vrias

 coisas e eu conheo fadistas que no cantam .
 A capacidade que tm de

 sentir , de ouvir , de defender , de conhecer , para mim faz deles

 fadistas .
 Fadista , como uma pessoa que vive , que assume a emoo na

 sua vida .
 Por isso no associo tanto ao nascer com , mas mais ao

 assumir-se e aceitar-se como .
 Agora uma coisa  real : h aquela pessoa

 que canta que , sem se saber porqu , arrepia .
 E logo ao lado pode haver

 uma outra pessoa com excelente voz e uma presena fantstica que , se

 calhar , passa despercebida .
 Eu , at aos 18 anos , sabia l o que era

 fado ...

 Nem cresceu em ambiente fadista ...

 No .

 O que ouvia em casa quando era pequena ?

 Sempre ouvi as coisas mais diversas , tambm porque tinha como

 referncia o meu irmo , que passou por aquele perodo do rock .
 Em

 pequena cantava muito uma msica da Mara Abrantes e ouvia o Jos

 Barata Moura .
 Uma grande misturada ...
 Vivi muito com a msica

 brasileira , a msica clssica , a msica popular portuguesa , aqui

 porque tinha famlia no interior .
 O que no ouvia mesmo era fado e

 heavy metal .

 E o que era para si o fado , nessa fase em que a rebeldia

 caracterstica do adolescente no perdoa muito a ideia de tradio ?

 Nunca tive uma imagem de " seca " porque nunca fui forada a ouvir fado .

 Sempre foi uma coisa muito desconhecida , com um bocadinho de mistrio

 que nunca tive muita curiosidade em conhecer .
 Mas foi importante no

 ter sido forada e que a histria do fado me tenha sido passada de uma

 forma saudvel .
 Lembro-me que havia sempre um " peso " associado e a tal

 piada na forma de cantar .
 Em minha casa no se ouvia fado , mas havia

 respeito .
 E nunca fui a uma casa de fados at entrar para a faculdade .

 Que tipo de imagem Amlia lhe sugeria nessa altura ?

 Era a grande figura que eu no sabia porqu .
 Acho que s para o fim da

 sua carreira se fizeram reportagens srias e s a comecei a ganhar

 curiosidade .
 E isso coincidiu com o momento em que comecei a cantar .
 A

 primeira cassete que ouvi foi da Amlia e foi uma coisa tremenda .
 Se

 hoje me perguntam se  a minha referncia , s no digo que sim porque

 passou a ser referncia de uma coisa muito maior .

 Que grande ensinamento colheu em Amlia ?

 A grande mensagem que uma mulher como Amlia nos pode dar  a de nos

 procurarmos a ns mesmos .
 A procurarmos a nossa identidade .

 Como coloca quem ama nos seus fados ?

 Sou capaz de escrever um poema inspirado em algum que me  muito

 querido .
 Mas tambm sou capaz , como figura pblica , de defender o mais

 possvel a minha privacidade .
 No escondo quem sou e o que vivo , mas

 tenho a liberdade de omitir .

 Disse uma vez que no seria capaz de cantar um fado sobre touradas ...

 No sou capaz de cantar um fado sobre touros , assim como no sou capaz

 de cantar o fado de uma mulher que , desgraadamente , o homem

 abandonou .
 So palavras que no tm nada a ver comigo .
 No sou

 extremista e no digo que no gosto das coisas com a inteno de ir l

 meter uma bomba .
 No gosto de tourada nem acredito em quem diz que se

 no fossem as touradas os touros no existiam .

 Como convive com o universo marialva que est associado a alguns

 espaos do fado ?

 Por natureza , mesmo em tempo de escola , sempre consegui ter respeito e

 admirao das pessoas por mim , mas nunca me forcei a estar em grupos .

 Hoje isso  uma coisa que assumo , com os riscos inerentes , numa altura

 em que as coisas acontecem por grupos , por lobbies .
 Devem ser muito

 poucas as situaes em que fui vitima de machismo , de discriminao

 por ser mulher .
 Tenho uma personalidade muito vincada , e de alguma

 forma isso consegue ser interessante para os tais marialvas que se

 cruzam comigo .
 E tendo a personalidade que tenho ,  impossvel no

 assumir a minha referncia de quase lder .
 O espectculo passa por

 mim , o disco passa por mim .
 E nunca me sujeito a essa noo machista .

 Gosta das ideias de desafio e polmica ?

 Desafio , sim .
 A polmica , quando acontece , no  algo que pretenda

 provocar .
 Se no uso um xaile , no  para chocar as pessoas e ir

 contra os costumes .
 No uso porque no gosto , no me  natural .
 A

 polmica  algo que tem um reflexo nos outros e , se estamos a pensar

 em polmica , j estamos condicionados .
 O desafio  algo que coloco a

 mim prpria .

 No costuma assumir posies em questes que lhe so exteriores ...

 Tem acontecido pedirem-me opinies sobre coisas das quais julgo que

 no devo dar a opinio sem ter contacto com as pessoas em causa .
 As

 pessoas usam muito o que fazem um bocado como um jogo de poder .
 E eu

 no quero tirar partido disso .

 E como se sente junto dos poderosos .
 Por exemplo , quando cantou frente

 a Bill Clinton ?

 Na pequenez que sentimos no momento tem de haver uma mistura de

 pequenez e de conscincia pessoal que  o imaginar que , se estou aqui ,

  porque tenho valor .
 A atitude no  a de sentir orgulho ou de

 prepotncia , mas  ter a conscincia das capacidades que se tem .
 E ,

 depois , uma grande humildade , porque no sabemos o que nos vai

 acontecer no momento em que abrirmos a boca .
 Em termos prticos foi

 uma honra tremenda .
 E no quero dizer que no teve repercusses

 naquilo que fao , porque teve !
 Sei da importncia que as coisas tm ,

 mas no quero fazer disso a tal condicionante .
 O mais importante neste

 percurso  a minha identidade manter-se ntegra e saber quem sou e

 gostar do que fao .
 E no permitir que nem medos nem orgulhos

 exacerbados me alterem muito .
 Seno vou perder a verdade daquilo que

 quero fazer .

 O que  que , em si , mais pesou nesse momento ?

 A noo mais forte que tinha no era o peso de estar a cantar para o

 Bill Clinton , mas o facto de estar a representar o meu pas , o fado e

 toda a nossa cultura naqueles 20 minutos .
 O Bill Clinton duvide que o

 volte a ver na minha vida .
 Mas os olhos mais importantes que ali

 estavam sobre mim eram os do meu pas .
 O Clinton ia-se embora , mas eu

 ia ficar .

 Se a convidassem para cantar em campanhas eleitorais , aceitaria ?

 Fui convidada para participar em campanhas e a minha dificuldade 

 fazer o poltico entender que no tenho nada objectivamente contra

 aquela pessoa .
 Gostaria de ser a pessoa mais alheada das questes do

 poder , da religio .
 O que fao  para as pessoas em geral .

 No se quer condicionar a um rumo ?

 J fui vrias vezes cantar ao Palcio das Necessidades , mas tambm j

 fui  Festa do Avante !
 O que ningum ouvir nunca  o meu apoio a esta

 ou aquela pessoa .
 A minha liberdade enquanto figura pblica 

 importante .
 Sinto a necessidade de me manter imparcial .
 Eu posso ser

 figura pblica , mas o que fao  msica .

 Entre o seu pblico h uma multido de gente nova .
  um cenrio

 diferente daquele que viveu na sua adolescncia .

 Na minha adolescncia no havia uma pessoa jovem a cantar fado que ,

 quando chegasse  televiso , me fizesse identificar com ela .
 H quem

 diga que sou fadista ...
 " mas no muito " ...

 -lhe importante o reconhecimento da gerao mais velha ?

  natural .
 Aceitaram-me no respeito .
 Tm  vontade para dizer o que

 gostam e o que no gostam .

 Est a acabar o curso de Veterinria ?

 Sim , mas este deve ser o ano menos responsvel da minha carreira de

 estudante .
 Tive de tomar uma opo em termos de sade mental .
 Em

 Setembro fiz um exame e levei uns bons meses a recuperar .
 Neste

 momento o disco saiu e no o posso abandonar .

 Mas tem vontade de o acabar ?

 Tenho , agora a questo de exercer ou no ...
 No seria capaz de exercer

 numa clnica .
 Preferia ir para o campo .

 A ideia de ser veterinria de provncia atrai-a mais ?

 A provncia atrai-me mais que a cidade .

 Dirio de Notcias , 8-7-2001

 [ INLINE ]

 Ser Fadista  Entregar-se  Vida

 PBLICO Y ^ Sexta-feira , 23 de Maio de 2003

 Fernando Magalhes

 Depois de " Mafalda Arnauth " , produzido por Joo Gil , e " Esta Voz que

 me Atravessa " , produzido por Amlia Muge , " Encantamento " tem

 auto-produo da fadista .
 O resultado  o seu melhor lbum de sempre .

 Pelos temas e pela voz .
 A fadista tomou quase tudo em mos .
 " No quis

 deixar nada em mos alheias , decido assumir toda a responsabilidade .
 A

 parceria maior que tenho neste disco  o Lus Oliveira , que se

 encarregou da direco musical e dos arranjos .
 Neste disco as letras

 voltam a ser minhas , as ideias so minhas ...
 E a responsabilidade de

 algo que esteja menos bem  tambm minha .
 Digamos que a minha

 personalidade se tornou mais vincada .
 O disco resulta de um

 crescimento e de uma auto-descoberta to grande que no seria justo

 pr outras pessoas a assumirem a responsabilidade pelas minhas

 decises " .

 Responsabilidade que Arnauth assume como fruto de uma segurana que

 antes no se manifestara : " Uma segurana que adveio do prazer que me

 deu .
 Sou uma mistura de racional e emocional , e o racional consegue

 fazer uma avaliao do trabalho .
 O emocional voltou a ter espao para

 se expressar , coisa que no segundo disco no aconteceu , por cansao e

 por estar a trabalhar com pessoas com muito mais experincia do que

 eu , o que gerou em mim um certo respeito " .

 Algo mudou entretanto , como resultado desse processo de

 auto-descoberta. Mafalda centrou as atenes no corpo , forou-o a

 disciplinar-se .
 Trs factores contriburam para essa mudana : " O

 primeiro factor vital foi a sade .
 O templo onde tudo isto acontece , o

 meu corpo .
 Precisava de uma paragem no final de 2001 , todo o trabalho

 de estrada tinha sido desgastante .
 O segundo factor foi ter deixado de

 fumar .
 De repente pude reencontrar a minha voz e redescobrir novas

 possibilidades em termos de interpretao .
 Quando tomamos conta do

 nosso corpo ficamos com muito mais fora para tudo o que vem a seguir .

 Um terceiro factor foi ter voltado a compor " .

 O fado  sereno

 Desprende-se da audio de " Encantamento " uma sensao de serenidade .

 Sem rodeios : dos trs lbuns j gravados pela fadista , " Encantamento "

  aquele em que Mafalda canta melhor , algo que nasce " da respirao ,

 da tal histria de ter acabado com o tabaco " .
 A fadista tambm teve

 aulas de canto , " de colocao de voz " , que a ajudaram , sobretudo a

 tranquilizar-se .
 " No me formataram a voz mas deram-me sade ao

 instrumento .
 Sinto que est muito bem .
 O sopro , a respirao  to

 importante a falar como a cantar , o facto de eu conseguir fazer essa

 gesto do ar , pe naturalmente tudo no stio , deixando outra margem

 para a inspirao .
 Antes era uma das minhas dificuldades .
 S a

 insegurana , a ansiedade , s isso j aperta o ar .
 Quando no temos que

 nos preocupar com isso , a ateno passa imediatamente para outro

 lado " .

 O trabalho de estdio teve a sua quota-parte nestes resultados .

 Mafalda teve o estdio totalmente  sua disposio .
 " O Lus Oliveira e

 o Jos Antnio Pedro , que faz o som do disco , formam uma sociedade e

 tm os dois um estdio que , alm de ser muito caseiro ,  topo de gama

 ao nvel tcnico .
 Os msicos tiveram dois meses para gravar , mais um

 para as misturas " .
 Sobrou tempo .
 No houve presses .
 " A editora teve

 alguma dificuldade em perceber como  que est tanto tempo a fazer um

 disco .
 Para a maior parte das pessoas  uma loucura , ter um estdio s

 para ns " .

 Preocupaes que no so vulgares nos fadistas vulgares mas que

 Mafalda Arnauth considera essenciais .
 Funcionou uma filosofia de vida

 que passa pela aprendizagem constante .
 " Enquanto estudei Veterinria

 tive uma cadeira , de Toxicologia , que me abriu os olhos para o ser

 humano hoje e como era h 30 anos atrs .
 Em 30 anos , os nossos corpos

 deixaram de ser as foras da natureza que eram .
 No digo que toda a

 gente seja assim , mas eu pago mais caro do que as outras pessoas .

 Apesar de ter um corpo forte , com personalidade , sinto que sou frgil .

 O ritmo da vida  hoje superior , o stress que apanhamos , a comida ,

 tudo nos fragiliza .
 Tive que encontrar uma disciplina .
  claro que h

 outras pessoas que continuam a ser foras da Natureza , por mais que

 faam as maiores desgraas " .

 H quem diga que quanto maiores so os excessos melhor se canta o

 fado .
 Para Mafalda , no .
 " At h quem diga que eu , neste momento ,

 tenho voz a mais ...
 " , diz a sorrir .
 Como  isso ?
 " Voz a mais , por se

 sentir menos esforo a cantar , sem aquela necessidade de sofrimento

 que ainda est um bocadinho inerente ao canto " .
 Em " Encantamento "

 sente-se o prazer .
 Incluindo " o prazer que se pode tirar das prprias

 dificuldades " .
 " Porque o percurso deste disco  extremamente doloroso ,

 fruto do tal crescimento " , diz a fadista .
 " Tentei fazer algo feliz de

 um processo que foi doloroso " .
 Ser fadista  , ento , uma " filosofia de

 vida " , uma " entrega  vida " .
 Filosofia que pratica , " embora no nos

 mesmos ncleos nem nos mesmos ambientes " que fizeram o fado no

 passado .
 " Ser fadista  isso ,  a pessoa que vive , que absorve uma

 quantidade de experincias e que as transporta para o canto .
 O que eu

 absorvo  que  diferente do que absorve a maior parte das pessoas .

 Continuo a sentir um canto melanclico .
 Hoje j consigo ver nas

 fadistas da minha gerao as suas diferenas " .
 E v-as assim : Cristina

 Branco , " cada vez mais uma fadista que se alimenta da poesia " , Mariza ,

 a " fadista de fasca , de garra " , Msia , " uma fadista cosmopolita " .

 Cada uma delas " a absorver vrias reas do mundo " .

 Matar saudades

 Mafalda Arnauth continua a frequentar as casas de fado .
 Para " matar

 saudades " .
 D razo a Argentina Santos que ainda h pouco tempo dizia

 ao PBLICO que  impossvel aos novos fazer carreira sem passar pelas

 casas de fado .
 " Passei por l e continuo a sentir a necessidade de ir ,

 mas no no mesmo formato .
 Se j no vou com a mesma frequncia 

 porque foi l que aprendi , nem tudo coisas boas .
 Mas a minha natureza

 no se enquadra numa casa fechada .
 Argentina Santos tem o seu trono , o

 seu lugar de culto .
 Se um dia tiver a minha casa de fados ,

 naturalmente que tambm terei que estar l .
 Mas hoje prefiro ir cantar

 a uma casa de fado e sentir gozo do que estar l uma noite inteira .

 At porque ns , da nova gerao , tornmo-nos umas " pequenas estrelas " .

 Numa casa de fado onde est algum a cantar diariamente , com uma

 entrega total , no tenho coragem de chegar l , e por ter algum

 estatuto , chegar , cantar cinco ou seis fados e ir para casa .
 Estaria a

 obrigar algum , provavelmente muito mais cansado do que eu , a ter que

 cantar outra vez .
  um respeito que continuo a ter " .

 O problema dos ttulos

 " Encantamento " termina com um " Fado Arnauth " .
 A prpria no receia ser

 acusada de pretensiosismo e explica a razo de ser do ttulo : " Esse

 ttulo existe porque estive durante dois ou trs meses a tentar dar

 ttulos s msicas o que , com a SPA [ Sociedade Portuguesa de Autores ] ,

  impossvel .
 Tm sempre registado um ttulo igual !
 Por exemplo , tinha

 ' Na palma da minha mo ' , mas no dava , tentei cinco ou seis ttulos ,

 acabou por ter que ser ' Da palma da minha mo ' .
 O ' Fado Arnauth ' foi

 ' Feitio ' , o ' Sem limite ' no pde ser ' Sem limites ' , ' Bendito fado '

 teve que ficar ' Bendito fado , bendita gente ' , '  sempre cedo "

 chamava-se ' Acorda corao ' ...
 Impressionante .
 O " Fado Arnauth " foi um

 relmpago , nascido da frustrao. "

 E " Encantamento " , foi tambm assim ?
 " Esse foi um encantamento total .

 Um cantamento , encantamento que vem do canto .
 Um encantamento com a

 vida que passa .
 Porque  que , de repente , me sinto uma pessoa

 saudvel ?
 H quem diga que o desapego  vida , um instinto anti-vida , 

 necessrio .
 Eu penso precisamente o contrrio , acho que este

 encantamento vem de cantar  vida , da superao do dia-a-dia .
 A minha

 vida ser tanto mais rica quanto mais gostar at das coisas menos

 boas .
 Embora hoje este amor pela vida esteja algo ' dmod ' ...
 J esteve

 mais na moda ser-se feliz. "

 Tambm a sndrome ' Nova Amlia ' esteve mais na moda .
 Hoje " as novas

 fadistas que esto a aparecer tm o cuidado de ter particularides

 prprias , uma personalidade marcada " .
 Mafalda Arnauth at exagera um

 pouco , a ponto de continuar sem gravar um nico fado de Amlia .
 L

 vir o dia .
 " Hei-de fazer isso !
 Mas quando o fizer , no sero s fados

 dela .
 Ser como uma prenda que darei a mim prpria " .

 " Encantamento "  composto por 14 temas , com msica de Lus Oliveira e

 poemas de Mafalda Arnauth ,  excepo de " As fontes " , de Sophia de

 Mello Breyner , " Cavalo  solta " , com letra de Fernando Tordo , e " No

 teu poema " , com versos de Jos Lus Tinoco .
 Acompanham a fadista Jos

 Elmiro Nunes ( guitarra portuguesa ) , Lus Oliveira ( guitarra clssica )

 e Joo Penedo ( contrabaixo ) .
 Os convidados so Joo Ferreira Rosa , em

 " Da palma da minha mo " , e a cantora de jazz Mnica Ferraz , em "  voz

 da minha alma " .

 [ INLINE ]

 DN mais

 Dirio de Notcias , DN mais , 14 de Junho de 2003

 O DISCO

 Alinhemos todas as fadistas surgidas nos ltimos cinco anos e coloquemos a

 questo : o que  que as distingue ?
 A resposta bvia seria " a voz " .
 Mas vozes ,

 como chapus , h muitas .
 Todas as novas fadistas tm boa voz , e algumas

 ( Mariza , Cristina Branco ) tm mesmo uma voz excelente .
 Na verdade , a diferena

 no est na voz - est na cabea ; est em saber at que ponto os discos que vo

 sendo lanados marcam a diferena e tm em si as sementes do futuro .
 E  neste

 ponto que o lbum de Mafalda Arnauth , Encantamento , se afasta de boa parte da

 concorrncia .
 Mafalda , que foi a primeira das jovens fadistas a alcanar

 visibilidade pblica , puxou dos gales e no se deixou diluir na avalanche de

 novas cantoras , apostando num disco parcialmente composto e totalmente

 produzido por si , e , mais do que isso , num disco com uma viso inovadora do

 fado .
 Alguns podero achar que essa inovao  feita  custa de " facilidades " :

 ao investir no fado-cano em detrimento do fado tradicional , Mafalda ganharia

 em melodia o que se perderia em sobriedade .
 Nada disso .
 Este desfrisar do fado

 e a sua aproximao  msica ligeira  feita com tal alegria , bom gosto e boa

 voz que  impossvel no partilhar o entusiasmo .
 Imperdvel .

 J.M.T .

 [ INLINE ]

 ESTA ALEGRIA QUE A ATRAVESSA

 Joo Miguel Tavares

 [ INLINE ]

 So muitas as vozes do novo fado , mas nem todas se equivalem .
 Ao terceiro

 disco , " Encantamento " , Mafalda Arnauth puxa dos gales e assina o melhor lbum

 da sua carreira .
 Assumindo boa parte das composies e toda a produo do

 disco , a jovem fadista assina um trabalho de referncia .
 Encantatrio .

 A sua voz comeou a fazer-se ouvir h pouco mais de quatro anos , mas perante a

 evoluo do novo fado Mafalda Arnauth faz hoje figura de veterana - e este

 Encantamento  , de facto , o disco da maturidade .
 Mafalda est cantar melhor do

 que nunca e puxou para si a responsabilidade de produzir o lbum .
 Fomos 

 procura do segredo de tanto empenho e felicidade .

 A sua voz est muito alegre em Encantamento .
 A que  que se deve to

 boa disposio ?

 H uma sensao de estar bem com a vida , de paixo generalizada , que

 tem vindo a crescer .
  um sentimento um bocadinho dmod , mas no

 ltimo ano as coisas tm sado da maneira que eu queria , e este disco

  o culminar disso mesmo .
 Era um trabalho de grande responsabilidade ,

 porque se os resultados no fossem bons , corria o risco de a minha

 carreira se desvanecer um pouco , mas o lbum nasceu de forma to

 natural que eu acabei por nem sequer sentir essa presso - quase todas

 as composies nasceram no espao de um ms .

 Essa alegria torna-se tanto mais evidente quanto no seu ltimo disco ,

 Esta voz que me atravessa , parecia um pouco cansada .

 Sim , admito isso , mas os dois discos anteriores foram vitais na

 concepo deste .
 O cansao do segundo disco deveu-se tambm a uma

 grande exigncia que culminou em Encantamento .
 Foi uma pea de

 aprendizagem fundamental .
 Para alm disso , ouvir aquela voz e ouvir a

 minha voz de hoje deixa-me muito feliz , porque sinto que evolu .
 Tive

 aulas de colocao de voz , que passaram muito mais pela parte fsica -

 por um trabalho de respirao e de postura - do que pelo aparelho

 vocal .
 Antes , por deficincias de respirao , chegava por vezes a

 ficar tonta nos concertos , devido a hiperventilao. Lembro-me de ler

 um artigo de um cantor onde ele dizia que o corpo  um templo : se no

 for cuidado , a orao  muito menos elevada .
 Hoje em dia sei que

 preciso de momentos de relaxamento e de meditao .

 No se meteu no ioga ...

 Meti .
 Mas , como em tudo , no tenho tempo para manter a assiduidade .

 Tambm larguei o tabaco , o que foi fundamental .
 Fez parte de um

 trabalho interior de reconstruo .
 No acho definitivamente que a arte

 tenha de ser fruto da desgraa .
 Se eu gosto de cantar a vida , ento

 tenho de ter uma vida boa para cantar .
 Pelo menos , tenho de lutar por

 ela .

 Tambm j l vai o tempo do fadista sofredor , crucificado pela vida .

 Sim , isso nunca teve nada a ver comigo .
 Posso cantar um fado triste ,

 porque em determinado momento preciso desse exorcismo , mas para mim

 faz muito mais sentido cantar a luz ao fundo do tnel .
 Posso falar do

 percurso , mas se eu estou a ver a luz , se a acho belssima , por que

 hei-de continuar a chover no molhado ?

 Numa entrevista recente ao Pblico afirmou , no entanto. que neste

 disco tinha tentado " fazer algo feliz de um processo que foi

 doloroso " .
 Que dores foram essas ?

 Por vezes temos muita f num determinado projecto mas , por alguma

 razo , no somos capazes de passar essa f s pessoas que nele

 intervm .
 As dores so essas .
 Quando estava a fazer Encantamento , eu

 tinha a certeza que ia ficar muito feliz com o resultado final , mas

 houve momentos em que tive a sensao de que esse entusiasmo no era

 partilhado por toda a gente .
 O perodo de pr-produo , em que no

 havia nada de palpvel , foi um pouco complicado - mais uma vez optei

 por entregar a direco artstica a uma pessoa de fora do fado , neste

 caso o Lus Oliveira [ compositor , por exemplo , do xito Jardins

 Proibidos ] - e s quando comearam a aparecer os primeiros temas  que

 o optimismo regressou e as ligaes se fortaleceram .
 O comboio teve de

 ser puxado por mim , e foi por isso que fui obrigada a assumir a

 produo do disco .

 No estava decidido desde o incio ?

 No incio era para ser uma co-produo entre mim e o Lus Oliveira .
 O

 assumir a produo total tambm foi doloroso , porque eu tanto podia

 colher os frutos como pagar as falhas , mas ns resolvemos separar as

 guas , e ele ficou responsvel apenas pela direco musical e pelos

 arranjos .
 Ns tnhamo-nos cruzado por causa um tema para uma novela ,

 que resultou muito bem .
 Percebemos logo a que ramos capazes de puxar

 um pelo outro - ele tem muita msica nos ouvidos e uma grande

 capacidade para compor temas " orelhudos " , que chegam s pessoas , sem

 serem vulgares ( o tema que abre o disco , As Fontes , foi feito em meia

 hora ) , e eu sentia falta dessa msica melodiosa .
 Depois , o Lus tem o

 seu prprio estdio , com o Jos Antnio Pedro [ tcnico de som ] , que

 colocou  nossa disposio durante trs meses , e isso foi vital .
 A

 maior parte das pessoas achava que era tempo demais , e que trs meses

 convidavam  divagao , mas foi uma das chaves do disco .

 Gostou de produzir o disco ?

 Adorei .

 Ou seja , gostou de mandar .

 Sim , sim .
 Foi um ptimo teste  minha insegurana .
 Quer se queira ,

 quer no , so quatro ou cinco homens , mais uma editora , mais um

 agente , mais um manager ...
 e h uma deciso final , que no 

 consensual , que tem de ser tomada por mim .
 Isso enriqueceu-me muito ,

 tanto mais que revelei a mim prprio capacidades e vises que

 desconhecia ter .

 Tambm  responsvel , com Lus Oliveira , pela maior parte dos temas do

 disco , optando por uma espcie de fado-cano em detrimento dos fados

 tradicionais .
 Porqu essa opo ?

 Porque esta comea definitivamente a ser a minha viso d fado - o meu

 fado , se assim posso dizer .
 O que eu no queria era cair na leviandade

 de fazer um fado j cheio de roupagens diferentes e continuar a

 insistir que aquilo era fado tradicional .
 Isto no  fado tradicional ,

 de facto .
 Este disco tem as melodias que eu precisava - as pessoas

 quando escutarem vo poder dizer " isto  a Mafalda Arnauth " , e isso 

 importante para mim .

 O ltimo tema do disco chama-se exactamente Fado Arnauth , e a razo

 oficial tem a ver com as suas dificuldades em registar as novas

 canes na Sociedade Portuguesa de Autores .
 Mas , segundo percebo , 

 disso que anda  procura - de um fado s seu .

 Se dou o nome de Fado Arnauth a um tema , isso  uma forma de definir o

 meu campo .
 O ltimo verso desse fado diz " eu vivo do meu jeito " , e 

 realmente assim .
 Tenho a conscincia de que vivemos em grupo , e no me

 quero destacar enquanto individualidade como se estivesse sozinha no

 mundo .
 Mas admito que , se no h ainda un fado Arnauth , h pelo menos

 uma mensagem minha , que quero fazer passar .

 Que mensagem  essa ?

 Aquela de que j falmos : no quero na minha voz a tristeza e a

 amargura tradicionais .
 Eu tenho vestgios de dor na voz - uma regio

 de que fujo muito , porque se caio nela em concerto  realmente muito

 dolente e muito triste .
 Mas o meu canto  de superao .
 J no canto

 para me mostrar , para me dar a conhecer .
 Se puder ajudar o dia-a-dia

 das pessoas - o que no  o mesmo que " passar uma mensagem " - , tenho

 muito prazer .
 Se uma me vem ter comigo e me diz que todas as noites

 adormece a sua filha com canes minhas ,  evidente que isso me d

 gozo .
 E  muito mais agradvel do que as muitas crianas que vo aos

 meus concertos irem para a cama com a Rosa Enjeitada , que no tinha

 po , nem me , nem nada .

 Este seu disco tem uma outra curiosidade , que se prende com a

 aproximao  msica ligeira , hoje em dia muito mal-amada .
 Canta No

 Teu Poema , de Jos Lus Tinoco , e Cavalo  Solta , de Fernando Tordo .

 Procurou recuperar uma fatia esquecida da msica portuguesa ?

 No .
 H coisas de que muito simplesmente gosto : eu cantava o No Teu

 Poema em concerto h trs ou quatro anos e deu-me o pnico que algum

 se lembrasse de o gravar antes de mim .
 So composies de outras

 pessoas que me do muito prazer cantar e aos quais penso ser capaz de

 dar um cunho pessoal .
 Tinha de pr estas msicas no disco , tanto mais

 que h muito de msica ligeira nas composies do Lus .

 E em relao aos dois convidados do disco , Joo Ferreira Rosa e Mnica

 Ferraz .
 O Joo Ferreira Rosa j no gravava h muito , muito tempo ...

 Ele no  nada bicho de estdio .
 Esteve l um dia inteiro e no foi

 fcil segur-lo .
 O Joo fez isto apenas pelo carinho que me tem e

 porque gostou da ideia .
 E apesar da sua idade , continua a ser tmido e

 inseguro - isso  muito bonito , tal como foi bonito escolher para

 cantar o verso de maior esperana do tema Da Palma da Minha Mo .

 Quanto  Mnica Ferraz ,  uma voz vinda do universo do jazz que eu

 admirava , quer pela fora. quer pelo empenho profissional .
 Houve gente

 que ficou um pouco surpreendida pela escolha , porque h ainda quem

 ache que pode ser " perigoso " colocar duas vozes femininas no mesmo

 disco , mas eu estava muito interessada em juntar uma voz do fado e uma

 voz do jazz , para ver tanto aquilo que aproxima como aquilo que afasta

 as duas linguagens .

 Encantamento  um disco diferente do que se tem vindo a escutar no

 " novo fado " .
 Diante da avalanche de novos fadistas , sentiu alguma

 necessidade de se distinguir ?

 No foi preciso fazer um esforo porque ,  partida , penso que qualquer

 uma de ns tem a sua prpria identidade : estamos cada vez mais

 definidas e diferentes .
 Eu apenas tinha de fazer este disco para me

 sentir feliz com a minha evoluo .
 A nica coisa que me incomoda 

 aquela ideia generalista de que se trabalha " em prol do fado " .
 O

 trabalho que se faz  apenas para revelar pessoas , personalidades .
 Por

 exemplo , perguntaram-me se o prmio que a Mariza ganhou era bom para o

 fado .
 Eu respondi que aquele prmio  mrito da Mariza e que o fado

 tinha contribudo muito pouco para isso .
  uma questo de carisma , e

 vai ser o carisma a seleccionar as vozes do futuro .

 Neste momento j se sente uma veterana do fado ?

 Sinto-me uma pessoa com algumas cartas dadas e que coloca muita

 honestidade no seu trabalho .
 Daqui para a frente podem gostar ou no

 gostar , mas vo saber quem sou .
 Este disco abriu as portas da minha

 maturidade .
 Entendo os meus tr~es primeiros lbuns como um ciclo - e o

 prazer desse ciclo j ningum mo tira .

 setstats 1

