 10-9-2005

 MARIA ANA BOBONE

 Para mim , Maria Ana Bobone  a n. 1 das " novas vozes do fado " , embora os

 jornais e os crticos ( por ex. , Rui Vieira Nery em " Para uma histria do fado "

 - o fado do Pblico ) , a ponham normalmente em quarto lugar , depois de Caman ,

 Mafalda Arnauth e Katia Guerreiro ( Mariza , de quem gosto muito , pertence j s

 " novssimas vozes do fado " - outra gerao ) .
 Tal dever-se- ao facto de Maria

 Ana Bobone se no ter dedicado tanto como os outros a uma carreira de cantora e

 fadista , apesar dos reais mritos que tem .
 No  uma fadista pura e dura , canta

 bem o fado como canta bem outro tipo de cano , mas a sua voz tem um timbre que

 encanta o ouvido e deixa a vontade de a ouvir de novo .

 Aquando da EXPO98 , tive o prazer de a ouvir mais do que uma vez ao vivo , ao

 relento , no recinto da Feira e , desde a , fiquei com o desejo de a ouvir sempre

 e mais vezes .

 Agora aguardo com ansiedade o seu prximo CD , que se anuncia para este ano no

 fim do Vero .

 Maria Ana Bobone

 DISCOGRAFIA

 1 ) ALMA NOVA , de Miguel Capucho , Maria Ana Bobone , Rodrigo da Costa

 Flix ( 1993 )

 Faixas de Maria Ana Bobone :

 1 - Gro de Arroz , letra e msica de Belo Marques

 4 - Fado de cada um , letra de Silva Tavares , msica de Frederico de

 Freitas

 7 - D-me o brao , anda da , letra de Linhares Barbosa , msica de Jos

 Blanc

 10 - Alamares , letra de Linhares Barbosa , msica de Jaime Santos

 2 ) LUZ DESTINO ( 1995 )

 1 - Fado Cigano

 2 - Fado Azenha

 3 - Fado Correeiro

 4 - Dueto

 5 - Leve , Breve , Suave

 6 - Que Deus me Perdoe

 7 - Sabe-se L

 8 - Fim

 9 - 12 Degrau

 10 - Fragmentao Em Ornamento

 11 - Fado Cravo

 12 - Trs Bairros

 13 - Fado No Sei Quem s

 14 - So Miguel

 15 - Frenesi

 16 - Improvisao

 3 ) SENHORA DA LAPA ( 1999 )

 1 .
 Meu Amor me deu um Leno , tradicional

 2 .
 Ternura , poema de Matilde Rosa Arajo , msica de Joo Paulo E.S .

 3 .
 Senhora da Lapa , poema de Sebastio da Gama , msica de Joo Paulo

 E.S .

 4 .
 Ar , poema e msica de Joo Paulo E.S .

 5 .
 Os Teus Olhos , poema de Maria Pimentel Montenegro , msica de Joo

 Paulo E.S .

 6 .
 Espelho Quebrado , poema de David Mouro Ferreira , msica de Alain

 Oulman

 7 .
 Jos Embala o Menino , tradicional

 8 .
 ABC , poema de Sebastio da Gama , msica de Joo Paulo E.S .

 9 .
 Elegia , poema de Joo Paulo E.S. , msica de Ricardo Rocha

 10 .
 Hortel Mourisca , poema e msica de Arlindo de Carvalho

 11 .
 Flux , poema de Fernando Pessoa , msica de Ricardo Rocha

 12 .
 Senhora da Lapa , poema de Sebastio da Gama , msica de Joo Paulo

 E.S .

 Maria Ana Bobone : voz

 Joao Paulo Esteves da Silva : piano

 Ricardo Rocha : guitarra portuguesa nas faixas 5 , 8 , 10

 Peter Epstein : saxofone nas faixas 2 , 6 , 8

 A Senhora da Lapa

 Natural da cidade do Porto , Maria Ana Bobone comeou por dar provas do seu

 talento musical logo aos sete anos , idade com a qual entrou na escola de piano .

 Aos 12 , a jovem ingressou no Conservatrio Nacional , acabando por abraar

 tambm , no final da adolescncia , o canto , interpretando fado em concertos em

 Portugal e no estrangeiro .

 Autora dos arranjos das suas composies e intrprete de msica religiosa , como

 solista em vrios coros , Maria Ana Bobone gravou pela primeira vez em 1993 ,

 voltando ao estdio trs anos depois .
 O registo seguinte da artista , " Senhora

 da Lapa " , liga-se  procura do seu caminho musical , tendo sido composto a meias

 com Joo Paulo Esteves da Silva , que toca piano em todas as faixas do lbum .

 Outra das presenas ilustres neste disco  a do contrabaixista Carlos Bica .

 Maria Ana Bobone

 Gravado numa catedral , cujo nome a Igreja Catlica pediu que no fosse

 divulgado , " Senhora da Lapa " resulta da colaborao de Maria Ana

 Bobone e Joo Paulo Esteves da Silva com o convidado especial Peter

 Epstein , tendo sido gravado em 14 meses .

 Para trs , ficaram " Luz Destino " , que deu a conhecer ao pblico uma

 nova forma - mais barroca - de cantar o fado , sendo nomeado para os

 Globos de Ouro atribudos pela SIC , e " Alma Nova " , a estreia nas

 gravaes desta licenciada em Comunicao Social e Cultural pela

 Universidade Nova de Lisboa .

 O primeiro registo , datado de 1993 ,  uma experincia conjunta com

 Miguel Capucho e Rodrigo Costa Felix , onde a voz de Bobone interpreta

 os fados tradicionais do repertrio de Amlia Rodrigues .

 Encontrado aqui

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 Expresso n. 1449 , de 5-8-2000

 As novas geraes do fado

 Durante dcadas suscitou sentimentos contraditrios : houve quem o

 amasse e quem o combatesse .
 Decorridos mais de 25 anos sobre o fim do

 regime a que muitos o associaram , o fado readquire o lugar de honra

 com base em novos intrpretes .

 O fado foi durante muitas dcadas amado por uns , odiado por outros .

 Odiado sobretudo pelos sectores mais intelectualizados da sociedade ,

 que viam nele a ausncia dos valores e da esttica ; amado pelas

 classes mais despolitizadas , ou pelas mais aristocrticas , ou pelas

 que mantinham fortes razes ao mundo rural e  cidade .
 S depois da

 Revoluo de Abril e da agitao ps-moderna dos anos 80 algum se

 lembrou de resgatar ao passado essa cano to genuinamente portuguesa

 e coloc-la no lugar de honra .

 Deste perodo de recuperao e de sucesso , duas novas estrelas

 emergiram : Msia e Caman .
 Msia , mais difcil e menos consensual ,

 construiu-se adaptando o fado ao seu estilo singular , trabalhando a

 imagem ao pormenor na elaborao mais contempornea de ser fadista ,

 com uma abordagem decididamente intelectual na procura de um

 repertrio , que foi buscar nomes como o de Jos Saramago , Lobo

 Antunes , Srgio Godinho , Agustina Bessa-Lus , Mrio Cludio ou Ldia

 Jorge .
 Quando apareceu no incio dos anos 90 em Portugal , regressada

 de Barcelona - terra revisitada por causa das origens catals , onde

 iniciou carreira como cantora de variedades - , foi procurar uma

 editora para o primeiro disco .

 A EMI-VC contratou-a , estreando-a com um CD de fados tradicionais .
 Mas

 depois separaram-se , porque o negcio se revelou um fiasco .
 Nos meios

 fadistas acendeu polmicas .
 No lhe reconheciam o estilo e muito menos

 lhe entendiam a pose .
 E ento escolheu o caminho inverso - de fora

 para dentro .
 O acaso de um encontro com um  manager  espanhol , o mesmo

 de Carmen Linares e Vicente Amigo , arrancou-a ao desconhecido .

 Dez anos passados , com seis discos editados e 60 pases percorridos ,

 parece ter chegado a hora de os crticos nacionais se acalmarem : Temos

 fadista !
 - dizem .
 Msia est agora num nicho concedido aos intrpretes

 que cantam as palavras raras das msicas tradicionais .

 Para Caman , o caminho percorrido nos trilhos do fado foi outro .
 Ele

 est , de resto , mais de acordo com o que se quer que o fado continue a

 ser .
 Fadista de alma e corao , seguiu o estilo antigo , mas com a

 vivncia de algum dos novos tempos .
 E procurou um repertrio de

 autores contemporneos .
 No acompanhamento , integrou a novidade de um

 instrumento , o contrabaixo , cujos acordes nunca foram evidentes .
 Para

 ele , a alma do fado cresce nas casas onde se canta o fado , esse cantar

  onde as palavras cantadas em portugus soam da melhor forma .
  onde a

 poesia descansa  .
 Sempre esteve no ncleo dos fadistas , filho de pais

 que , sem serem profissionais , faziam parte do meio .
 Em casa no se

 ouvia outra msica .
 Ainda criana , acompanhado pelo pai , ia cantar s

 colectividades , onde poetas do fado escreviam letras mais prprias

 para vozes infantis .

 Ao chegar  idade adulta , fez a escolha com a conscincia de que no

 poderia levar outro destino .
 E deu os passos na tarimba da escola das

 casas de fado - Senhor Vinho , Alfaia - partindo simultaneamente para

 outros voos que o conduziram tambm ao que a cultura portuguesa nos

 anos 90 tinha para oferecer aos artistas .
 Cantou na Comuna , onde

 conheceu Jos Mrio Branco , que veio a tornar-se o produtor dos seus

 discos e tambm amigo e colaborador em muitos trabalhos .
 Integrou o

 elenco de  Maldita Cocana  de La Fria e foi sempre escolhido para

 representar Portugal em festivais internacionais .

 Hoje , reconhecido como um dos mais significativos cantores que fizeram

 do fado uma nova maneira de estar dentro da recuperao da linha mais

 tradicional , Caman continua com a mesma atitude de simplicidade e

 timidez que j tinha aos 18 anos , quando , de fato escuro e gravata ,

 saa  noite para cantar o fado - a cano de escolha da sua vida .

 Na linha da redescoberta do fado , como recuperao do nosso patrimnio

 cultural , 1994  um marco indiscutvel .
 No ano de Lisboa Capital da

 Cultura , foram integrados na programao projectos importantes para o

 fado , com concertos , a edio de um CD de antologia e uma grande

 exposio no museu de Etnologia .

 Quando Mafalda Arnauth , a mais proclamada voz da nova gerao , aparece

 nas lides , o fado est outra vez de volta j sem os complexos do

 passado .
 Agora o que se quer  a afirmao da cano da alma

 portuguesa .
 Aqui e l fora .
 A emergncia do conceito  World Music 

 posicionou-o no caminho certo para um crescimento internacional que

 at ento tinha sido quase patrimnio exclusivo de Amlia .
 E  sob

 essa etiqueta , como msica etnogrfica , que o fado  exportado .
 As

 discogrficas aproveitaram a onda .

 Num espao de seis anos , Mafalda , que comeou a cantar por uma

 brincadeira de praxes acadmicas na Faculdade de Medicina Veterinria ,

 descobre que tem na voz os requebros de fadista .
 De

 convidada-residente para representar a universidade , em congressos que

 incluam fado , ao convite de Joo Braga para cantar em Paris foi um

 passo muito curto .
 Em 1999 ,  Mafalda Arnauth  , o disco com produo de

 Joo Gil ( ex-Trovante )  lanado e obtm a unanimidade da crtica :

  Temos fadista !
 

 Agora , quando o tempo lhe permite , entre o curso de Veterinria e os

 muitos compromissos para cantar , passa na Taverna do Embuado , para ir

 ganhando a  patine  necessria a quem anda nesta vida .
 Na atitude que

 assumiu prefere dizer que  cantora de fado em vez de fadista , no

 tratamento da imagem a escolha  simples e sbria .
 Para o fado , o

 importante  a alma e as emoes nas histrias que se cantam .

 Como todos os outros jovens da sua gerao , tem a noo clara de que

 mesmo recorrendo  escola clssica  preciso inovar .
 Nas letras do

 prximo disco , que ir sair em breve ,  ela quem escreve parte dos

 textos .

 Por detrs de Mafalda Arnauth est Hlder Moutinho .
 O produtor , que

 lhe organiza a agenda e trata dos contratos , pe-na a circular nos

 festivais internacionais .
 Hlder tambm canta no elenco do Embuado ,

 bem como na Parreirinha de Alfama .
 Fadista pode ser uma das muitas

 formas de se estar neste universo .
 E ele , um dos irmos de Caman ,

 profundamente integrado no meio , conjuga a carreira feita sobretudo

 nas casas de fado com intervalos de produtor e criador de projectos

 que envolvem jovens recm-chegados .

  tambm autor de textos para fados cantados por muitos , e estudioso

 da histria desta cano urbana .
 Na bagagem de quem chega ao fado por

 uma circunstncia do acaso h um disco j editado :  Sete Fados e

 Alguns Cantos  .

 Hlder lamenta a pergunta feita insistentemente na morte de Amlia

  Ento , e agora , o fado morreu ?
  , reveladora de um certo egosmo das

 geraes mais velhas que preferem passar uma certido de bito a ver o

 fado transformado para um novo milnio .

  Somos herdeiros de Amlia e de todos os grandes fadistas que nos

 antecederam , o fado no acabou  , diz .

 Foi quase com surpresa que Maria Ana Bobone se viu , subitamente ,

 catalogada como uma voz da nova gerao .
 No entanto , no meio , ela 

 indicada como fazendo parte do crculo .
  margem do circuito das casas

 de fado , onde nunca cantou , faz parte da  tribo  de Joo Braga , que a

 foi buscar ao coro da Igreja de Santos .
 O fado no lhe passava pela

 voz .
 No entanto , dedicou-se-lhe com uma determinao de quem 

 estudiosa por natureza , racionalizou um modo de cantar que aprendeu a

 amar e assimilou-o como uma experincia mais espiritual do que

 emotiva .

 Hoje , com trs discos gravados , muitos espectculos realizados e uma

 agenda cheia ,  com voz de fado que vai aceitando projectos que se

 cruzam noutras msicas .
 O ritual desta cano diz-lhe pouco , o xaile ,

 o negro , no so as opes que escolhe para compor a imagem .
 Da vida

 que lhe trouxe o fado , diz que a leva cheia de coisas boas e

 inesperadas .
 Msica ser certamente o caminho que percorrer , seja ele

 qual for .

 Talvez para quem no vivesse em Lisboa , nem andasse pelos meios , fosse

 mais difcil l chegar .
 Ana Sofia Varela , que desde sempre s cantou

 fado , queria mesmo ser fadista .
 Em Serpa , foi-se introduzindo

 suavemente nas noites amadoras .
 E em todos os concursos e prmios

 promovidos pela RTP , dedicados ao gnero , l estava ela para cantar .

 Sempre nas finais , nunca ganhando o primeiro lugar .
 No entanto , tomou

 a deciso de ir estudar para Lisboa e ser fadista .
 No Clube de Fado

 Amlia conheceu Mrio Pacheco que a levou ao Clube do Fado .
 Canta l

 todas as noites .

  este o seu sustento e o modo de vida .
 Com um disco agendado para

 breve , vai dando os passos com uma persistncia frrea no destino que

 escolheu .
 Cantou em nove pases , participou na Expo-98 e integra o

 projecto Fado e Flamenco que a transporta para outras paragens .
 Na

 escolha do repertrio exibe uma atitude simples :  Temas de amor .
 Ouo

 e vejo os que mais se identificam com as minhas histrias. 

 A mais recm-chegada  nova gerao do fado  uma filha da Mouraria .

 Marisa , com honras no programa de Herman Jos e destaque de capa numa

 certa imprensa cor-de-rosa , vai-se dividindo entre o Senhor Vinho ,

 onde canta , os convites que surgem rpidos para a levar l fora e a

 construo de uma imagem que pretende afirmar pela diferena da pose

 esguia no visual bem trabalhado .
 Mas no fado que canta , a voz  bem

 tradicional .

 Amlia  a sua referncia .
 Para Marisa , voltar ao fado da infncia no

 bairro popular foi uma fatalidade quase premeditada .
 Pelo meio passeou

 nos caminhos de msicas de bares e bandas .

 No vai ser sempre fcil a estes novos nomes fazer carreira no fado .

 Nunca o foi nem  , mesmo quando , como agora sob o chapu de  World

 Music  , a cano de Lisboa pode novamente tocar milhares no Japo .
 Mas

 a indstria discogrfica espreita , promove , divulga .
 Chegar a estrela

 pode tornar-se mais acessvel , embora s com talento se brilhe .

 Textos de ANA SOROMENHO e TELMA MIGUEL

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 Maria Ana Bobone

  No acho obrigatrio ter a vivncia do fado .
 Eu , por exemplo , nunca

 fui cantar a uma casa de fados. 

 Considera-se , acima de tudo , uma profissional da msica .
 Com um curso

 de jornalismo da Universidade Catlica , que a levou a um estgio na

 redaco da SIC , o curso bsico de piano do Conservatrio e , agora , o

 curso de canto , tambm do Conservatrio , quase terminado , Maria Ana

 Bobone , 24 anos , leva o fado como um acaso feliz .
 O encontro deu-se no

 coro da igreja de Santos , onde Joo Braga a ouviu cantar e a convidou

 para o fado .
 Ela , que o achava uma chatice como gnero musical , no se

 fez rogada e , disciplinadamente , estudou .
 Dois anos depois , um

 primeiro disco ,  Alma Nova  , lanado em 1994 pela Strauss .
 Seguiram-se

 mais dois ,  Luz Destino  , voz de fado com arranjos barrocos , e

  Senhora da Lapa  , de cantigas portuguesas .
 No tem certeza se ser

 sempre o fado que cantar .
 Mas , por agora , sente-se bem aqui .

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 Dois Fados em Pontedera Enchem Salas de Festival

 Por JOO BONIFCIO , em Pontedera

 ^ PBLICO Quinta-feira , 24 de Julho de 2003

 Quase passa despercebida num mapa , a 60 quilmetros de Florena e uns vinte de

 Pisa .
 E quando se chega , quase s se v beto .
 Podia ser apenas a terra da

 fbrica das famosas vespas Piaggio , mas Pontedera tem um segredo .
 Foi aqui que

 h onze anos comeou o Festival Sete Sis Sete Luas , espcie de intercmbio

 musical e teatral que se estende por trinta pequenas cidades de cinco pases

 diferentes , entre Junho e Novembro de cada ano .
 E  para aqui que desde 1992

 msicos portugueses se deslocam para partilhar o gosto pela msica , diferentes

 msicas .

 Por aqui passou , por exemplo , um senhor chamado Carlos Paredes .
 Agora a gerao

  outra , mas o interesse mantm-se : faz um calor danado em Pontedera , nesta

 altura do ano , e as pessoas preferem sair para o ar livre - umas centenas

 escolhem a entrada do Palcio da Marquesa Torrigiani na Villa Malaspina ( a

 cerca de dez quilmetros da cidade ) , cenrio dos concertos .

 Fazem bem , at porque o local  propcio a msica que  mais de ouvir do que de

 ver .
 O palcio fica no cimo de um vale , dali at onde os olhos alcanam  uma

 espcie de ditadura da natureza e um fim de tarde ( tarde aqui  relativo ...
 )

 magnfico .
 Maria Ana Bobone no Chile

 Quando Ana Sofia Varela sobe ao palco , segunda-feira , nove horas da

 noite , j todas as 300 cadeiras esto ocupadas e a luz  apenas a de

 dois holofotes .
 O mnimo torna-se o estritamente necessrio para uma

 voz imensa .
 Rugosa , s vezes dura , voz de arestas por limar como o

 fado pede .

 Quando canta " se os meus olhos te no falam / como havias de

 entender ?
 " , percebe-se que no  preciso entender nada , nem uma

 palavra : sentir basta .
 As palmas so muitas : a msica no precisa de

 lnguas , apenas corao .

 No  que Varela tenha chegado disposta a conquistar pelo charme ( se

 bem que esta gerao alie s magnficas vozes um palminho de cara que

 s ajuda ) : atrapalha-se com o italiano , traz o espanhol  mistura ,

 est visivelmente nervosa .
 Mas canta como se tivesse vendido a alma ao

 diabo , e tem por trs , na guitarra portuguesa , um homem que no

 acompanha apenas : cria , a cada instante .
 Chama-se Mrio Pacheco e

 enche o espao  volta da voz de Ana Sofia como se esta voz e esta

 guitarra tivessem nascido para caminhar juntas .
 Direito a " encore " e

 muitas palmas no fim .

 A msica nada pode fazer

 " O silncio pode ser mais assustador do que as prprias exploses " ,

 diz Samir Joubran , tocador de alade palestiniano , o primeiro a actuar

 na noite de tera-feira e tambm primeiro msico palestiniano a poder

 sair da Palestina com uma bolsa do Parlamento Internacional de

 Escritores , que pretende proteger artistas vtimas de perseguio

 poltica .
 A frase vem a propsito de " Ramallah 16 / VIII / 2001 " , data de

 um ataque israelita aos territrios ocupados e ttulo de uma pea sua .

 " Costumava acreditar que a msica podia fazer tudo , mas depois do que

 vi nesse dia sei que  falso , a msica nada pode fazer contra tanta

 morte " , insiste .
 No consegue , decerto , restituir a vida , mas pode

 ilumin-la : " Ramallah ...
 "  um lamento doloroso , uma marcha lenta em

 que cada nota como que agoniza  espera da prxima - e  belssima .

 Entre tradicionais e instrumentais seus , Samir Joubran demonstrou ser

 um magnfico virtuoso , capaz de , mesmo em " duelos " improvisados com o

 seu irmo mais novo ( tambm tocador de alade ) , levar ao encanto .
 " Os

 meus nicos sonhos so poder tocar a minha msica e levar a minha av

 de volta  terra natal , em paz " , disse j depois do concerto .

  hora a que Maria Ana Bobone subiu ao palco devia estar Varela a

 actuar em Roma , onde Bobone cantara no domingo .
 Varela e Bobone so

 duas faces opostas do fado ( no que a primeira  aspereza , a segunda 

 quase sempre mel , no que a primeira procura o negro , a segunda d-nos

 o bonito ) e se Pontedera se rendeu s duas , pareceu ter por Bobone uma

 predileco acentuada .
 A voz mais trabalhada , mais cristalina de

 Bobone cativou o pblico desde o incio .
 O final ( pediram " Maria

 Lisboa " , receberam " Uma Casa Portuguesa " ) , teve direito a

 acompanhamento a palmas .
 O repertrio , maioritariamente amaliano ,

 ajudou , bem como um profissionalismo e simpatia a toda a prova , e a

 opo de incluir canes e uma marcha tambm .

 A questo da estranheza desta msica , aparentemente , no se pe :

 talvez por o festival j ir numa dcada de existncia , as pessoas

 parecem entregar-se com facilidade a uma msica que s sabe falar de

 tristeza .
 Samir Joubran , no fim , disse ter gostado desta msica

 melanclica .

