

 6-11-2004

 MARIZA

 Mariza

 ^ PUBLICO Sexta-feira , 18 de Janeiro de 2002

 Uma brisa do mar

 Miguel Francisco Cadete

 Sem aparato , sem padrinhos , sem ser considerada uma nova Amlia , Mariza editou

 um dos melhores discos de fado do ano que acabou .
 Por uma nica razo : a sua

 voz .
 Foi a primeira cantora portuguesa a surgir no programa " Later " , de Jools

 Holland , da BBC Prime .

 O seu percurso no  , certamente , o mais tradicional para quem sobe as

 escadinhas do estrelato de um meio acanhado como o do fado .
 Ao invs de ter

 nascido na Mouraria , Mariza  nativa de Moambique .
 Em vez de ter participado

 na Grande Noite do Fado , Mariza foi a cantora de uma banda iluminada pela luz

 da msica negra ( para os arquivistas interessados , o projecto chamava-se

 Funkytown e era visto em vrios estabelecimentos lisboetas ) .
 Em lugar de ter

 editado por uma editora com escritrio montado em Lisboa , Mariza s encontrou

 interesse pela sua msica numa ilustre desconhecida companhia discogrfica

 holandesa , World Connection de seu nome. [ INLINE ]

 E ainda antes de ter percorrido a via sacra dos programas de televiso

 que em Portugal misericordiosamente acolhem os artistas portugueses em

 cenrios psicadlicos , Mariza foi a primeira cantora portuguesa a

 surgir no programa " Later " , apresentado por Jools Holland ( o

 ex-teclista dos Squeeze ) e transmitido pela BBC Prime ( sim , faz parte

 do pacote clssico da TV Cabo ) .

 O seu lbum de estreia , " Fado em Mim " , revela , no entanto , uma das

 vozes mais poderosas de entre a mirades de representantes da nova

 gerao do fado .
 O disco vinha sendo preparado h algum tempo e caiu

 na lojas antes do Natal .
 Surpreendentemente chegou aos topes .
 A

 histria de Mariza , fadista reconhecida , tinha , pois , comeado .

 Revelao

 " Eu cresci na Mouraria , fui para l com cinco anos e os meus pais

 tinham um pequeno estabelecimento onde organizavam pequenas tertlias

 fadistas .
 Comecei , desde muito pequena , a gostar do ambiente do fado .

 O meu pai sempre foi um grande incentivador pois achou que eu devia

 ser cantora .
 O primeiro fado que cantei foi ' Os Putos ' e , at aos 13

 anos , sempre cantei fado .
 Depois deixei e cantei em bandas de soul e

 funk , como os Funkytown .
 Mas sempre que tinha oportunidade voltava a

 cantar fado .
 H trs anos atrs regressei decididamente ao fado " ,

 comea por contar Mariza .

 Na esplanada de um hotel requintado mesmo no centro de Lisboa , Mariza

 bebe ch preto .
 O seu cabelo louro , curtssimo e rendilhado como quem

 est pronto a seguir para uma garden-party dos romances de F. Scott

 Fitzgerald , tambm contraria a tradio do fado .
 Como seria o fado nos

 anos 20 ?
 Uma festa ou um confessionrio ?

 Para Mariza , a revelao aconteceu h trs anos .
 " s tantas cantei por

 brincadeira a ' Rua do Capelo ' na casa de fado do Jos Lus Gordo , o

 Sr. Vinho , e ele pediu-me para aparecer mais vezes .
 J no era aquela

 euforia de cantar com a banda que me interessava .
 A minha paixo j

 tinha mudado e quando no tinha concertos aproveitava sempre para ir 

 casa de fado para me envolver naquele ambiente e perceber o que

 estavam a cantar .
 Queria aprender aquilo tudo ...
 A primeira vez que me

 apresentei profissionalmente foi na homenagem  Amlia organizada pelo

 Joo Braga no Coliseu dos Recreios , em Lisboa .
 Estava nervosssima ,

 fechei os olhos e ...
 ' seja o que Deus quiser ' .
 A partir da comeou

 tudo a acontecer " .

 A ideia do disco foi de Jorge Fernando , que em tempos tambm

 acompanhou Amlia .
 " Mas eu achava que no cantava bem , que era uma

 grande responsabilidade e que no representava bem essa cultura. "

 Pelos vistos , enganou-se .

 Como  cada vez mais usual , o disco foi gravado sem qualquer acordo

 com editoras .
 Apesar de o fado ter voltado a estar na moda , Mariza no

 foi aceite pelas maiores editoras portuguesas , pelo menos num prazo

 considerado til .
 Foi um holands , que assistiu a um concerto dela na

 Blgica , que se decidiu a edit-la atravs da sua etiqueta , a World

 Connection .
 " Fado em Mim " foi ento publicado no s na Holanda , mas

 tambm na Blgica , Japo , Coreia e em Inglaterra , onde Mariza esteve ,

 no final do ano passado , para participar em directo no programa de

 Jools Holland .
 De entre os convidados daquela sesso , que foi para o

 ar na BBC no dia 23 de Novembro e que , sabe-se l quando , ir para o

 ar na TV Cabo , contava-se o duo David Gilmour e Mica Paris .

 " O Jools Holland ficou apaixonado pelo disco e convidou-me para

 aparecer num dos seus programas , em substituio da Bjrk , que tinha

 ficado rouca " , e esta apario proporcionou o interesse de vrias

 publicaes , como a revista " Folk Roots " , que recentemente publicou

 uma pea sobre Mariza .
 A presena na ltima edio da WOMEX , uma

 reunio de agentes ligados  world-music , em Outubro , em Roterdo ,

 ajudou tambm a abrir algumas portas .
 Em Portugal , a distribuio de

 " Fado em Mim " ficou entregue  EMI-VC .

 A dzia de temas ( mais uma faixa pouco escondida ) que fazem parte do

 alinhamento repartem-se , grosso modo , entre fados popularizados por

 Amlia Rodrigues e originais escritos por Jorge Fernando e Tiago

 Machado , numa escolha que tenta equilibrar um certo tradicionalismo

 com algumas inovaes .
 Piano , percusso e violoncelo no sero dos

 instrumentos mais comuns nos combos dedicados  interpretao de

 nmeros de fado , efeito que  contrabalanado por um alinhamento que

 inclui standards , como " Loucura " , " Maria Lisboa " , " Que Deus me

 perdoe " , " H festa na Mouraria " , " Oia l  sr. Vinho " e " Barco

 Negro " .
 Arranjos que , se no transportam o fado para a modernidade ,

 lhe conferem certamente uma sofisticao pouco comum , tendo j sido

 testados em espectculos em Itlia , Holanda e Blgica .

 " Eu respeito sempre a base do fado .
 Mas  bvio que tenho influncias

 de outras coisas : vivemos numa Lisboa diferente , somos expostos a

 outro tipo de cultura , viajamos mais ...
  natural que sejamos

 influenciados por tudo isso e que faamos um fado diferente .
 

 saudvel que cada um de ns , dos novos cantores de fado , faa as

 coisas  sua maneira .
 Num prximo lbum vou arriscar mais em temas

 originais e fazer coisas que eu pressinto serem novos caminhos " ,

 adianta Mariza enquanto poisa , imperturbvel , a xcara .
 Pode ou no

 inovar-se o fado ?

 mariza

 em Busca de Bno

 Por MIGUEL FRANCISCO CADETE

 ^ PBLICO , Sexta-feira , 27 de Setembro de 2002

 Um disco bem recebido .
 Espectculos em Nova Iorque ou Los Angeles ,

 elogios da crtica alem ; solicitaes na televiso que a

 transformaram em fadista audiovisual .
 Agora , a prova de fogo :

 concertos agendados para duas grande salas portuguesas , Rivoli ( hoje )

 e CCB ( dia 1 ) .

 A fadista " diferente " procura da bno do pai ?

 De incio , ningum acreditou nela .
 Foi uma editora holandesa , a World

 Connection , que publicou o seu lbum de estreia - est a fazer um ano - e ,

 desde a , os acontecimentos precipitaram-se .

 Foi a primeira artista portuguesa a apresentar-se no programa " Later with Jools

 Holland " , na BBC , actuou no Hollywood Bowl de Los Angeles , no Central Park de

 Nova Iorque , foi capa da revista de world music " Folk Roots " e recebeu encmios

 da crtica alem .
 Voltou a Portugal para concertos , depois de extensas

 digresses na Europa , Amrica e sia , e chega , pela primeira vez , s grandes

 salas de Lisboa e do Porto para concertos no Rivoli ( hoje ) e no CCB ( 1 de

 Outubro ) .
 So provas de fogo para uma fadista que , como ela prpria diz ,

 procura " a bno do pai " neste regresso a casa .
 Afinal , o que faz correr

 Mariza ?
 [ INLINE ]

 Antes de editar o lbum " Fado em Mim " esperava o xito que obteve e as

 solicitaes para espectculos ?

 No .
 Foi uma surpresa ...
 Em Portugal sabia que , em princpio , iria ser

 bem aceite .
 Estava receosa , mas j me tinha tornado conhecida , j

 tinha feito TV , enfim , as pessoas j estavam  espera do disco .
 Mas

 internacionalmente no esperava nada do que aconteceu .
 Na Holanda , o

 disco vendeu bem e nos EUA faz parte do top de world music , andando

 pelo sexto lugar ...

 Em Portugal o disco chegou ao galardo de ouro por vendas superiores a

 20 mil cpias , mas muitos dos convites que recebe para espectculos

 partem de instituies pblicas , organismos oficiais , embaixadas ...

 Sente-se como a fadista oficial ?

 No .
 No sou a fadista oficial simplesmente porque no sou a nica

 fadista .
 Existem muitos mais fadistas e eu no sou a nica que anda no

 circuito internacional .
 Se calhar h uma maior curiosidade em tentar

 perceber - porque tenho uma imagem diferente - o que se passa ...

 Em Washington actuou perante a mulher de Colin Powell [ secretrio de

 Estado norte-americano ] .
 Sente-se confortvel a cantar fado - que

 habitualmente era associado s tabernas - nos sales das embaixadas ?

  estranho .
 Primeiro porque esse pblico no conhecia nada de fado .

 No sabia o que ia ouvir , que tipo de msica , se era pop , se era

 melanclica ...
 E achei interessante a reaco. Primeiro ficaram pela

 imagem ; depois , foram sentindo a msica e deixaram-se envolver .

 Obviamente , no percebiam as palavras mas ficaram rendidos .

 Principalmente a senhora Colin Powell , que tem uma abertura cultural

 maior que as outras senhoras que l estavam .
 Poucas daquelas pessoas

 escapavam ao prottipo da unha pintada de vermelho , mas estavam l

 trs senhoras que me deixaram fascinadas : uma era a mulher do

 embaixador de Frana , outra a senhora Colin Powell e uma senhora que

 tinha razes francesas mas que era mulher de um senador .
 Achei

 engraado as semelhanas que encontraram com outras msicas que j

 conheciam .
 Mas foi estranho .

 J actuou no Central Park de Nova Iorque e no Hollywood Bowl de Los

 Angeles .
 Algum desses espectculos foi mais marcante ?

 Foram espectculos tocantes , mas no me marcaram .
 So espaos grandes

 e o fado  uma msica intimista .
 Foi , no entanto , interessante fazer

 aquelas salas porque abrangem vrios tipos de pblico .
 No que diz

 respeito ao Hollywood Bowl , estavam l os scios , que so pessoas

 ligadas  cultura , tm rdios , conhecem actores ; depois , as pessoas

 que compram o bilhete mais caro porque querem mesmo ver o espectculo ;

 por fim , nas ltimas filas , as pessoas que gostam mais de rap e que

 foram l para ouvir a Lauryn Hill [ que fazia parte do elenco ] .
 

 interessante , e isso apareceu numa crtica de um jornal de Los

 Angeles , porque consegui tocar em todas aquelas pessoas que foram por

 motivos diferentes .

 Agora , um espectculo de que gostei muito foi o ltimo que fiz nos

 EUA , no New Jersey Performing Arts Center , com Susana Baca .
 Ela 

 fantstica .
 No final houve uma espcie de conferncia de imprensa onde

 a Susana deu uma aula sobre a importncia da msica do Peru e eu falei

 sobre fado .
 Isso marcou-me .
  esse tipo de coisas que gostava de

 fazer .

 Nota alguma diferena entre a forma como o pblico portugus reage e a

 forma como  recebida l fora ?

 Essa pergunta  mazinha .
 O nosso mercado  muito diferente .
 Portugal

 no se cinge a Lisboa e Porto e quando se fazem digresses apanham-se

 stios bons e stios maus .
 Porm , em termos de pblico , aqui h quem

 conhea muito melhor aquilo que estou a fazer do que l fora , onde vo

 ver devido a curiosidade natural , ou porque leram uma crtica , ou

 porque so interessadas na world music .

 Em Portugal , uma das caractersticas que mais surpreendeu foi a sua

 voz , mas h quem diga que no  voz fadista .
 J se deparou com essa

 crtica ?

 No , ainda no ouvi .
 Mas acho piada , porque a voz no tem que ser

 fadista .
 A alma ou a forma de cantar sim .
 A maior parte das pessoas

 nunca viram um espectculo meu .
 Vem o que aparece na televiso e isso

 no d para perceber .
 Depois ,  natural que associem tudo  imagem .

 Mas eu sou fadista .
 E fado  muita coisa , principalmente , por causa

 das razes que tem .
 No  por vir do bairro que  fado .
  uma

 mestiagem de coisas .

 O facto de ter nascido em Moambique e de ter feito parte de uma banda

 soul pode originar algum preconceito nos meios fadistas ?

 Acho que j surgiu , mas as pessoas agora respeitam-me .
 De incio

 tentavam perceber : " O que  que ela  ?
 " Depois perceberam que estou no

 fado porque gosto .
 Ter nascido em frica  engraado .
 Acredito no

 destino e o fado nasceu em frica e foi morar para a Mouraria .
 Tambm

 nasci em frica e fui morar para a Mouraria .

 A sua imagem tambm no  tradicional .
 Tem o cabelo louro ,  alta e

 veste roupa assinada por Joo Rolo .
 A escolha da imagem  pensada ?

 No foi nada programado .
 A primeira vez que fui  TV levei o cabelo

 curto e louro e as pessoas comearam logo a assobiar .
 O Joo Rolo

 apareceu um dia na casa de fados onde eu cantava , e perguntou se eu

 no gostava de experimentar um vestido dele .
 Achei estranho mas

 engraado .
 Sempre quis ter coisas feitas para mim , e quando fui 

 televiso por ocasio da homenagem  Amlia , levei roupa dele .
 A

 escolha no tem nada a ver com a opinio das pessoas , mas porque eu

 gosto .
 H muita gente que diz que no acha muito engraada a roupa ,

 mas que gosta de me ouvir cantar .
 " Ento , olhe , feche os olhos " ,  o

 que respondo .

 Tem a noo que isso a ajudou a diferenciar-se da imagem tradicional

 da fadista ?

 Principalmente l fora .
 No mercado internacional  algo que chama a

 ateno e talvez tenha sido por isso que fui capa em certas revistas .

 Os concertos no Rivoli e no CCB so as suas duas primeiras grandes

 apresentaes em Portugal .
 Est a preparar algo em especial ?

 No ,  o concerto normal .
 A nica modificao  a participao do

 Tiago Machado - autor de dois temas do disco - como convidado

 especial , quando tocar um desses temas ao piano .
 O palco tambm vai

 ser diferente do normal , de forma a ser criado mais ambiente .
 Mas a

 nica grande diferena  ser em Lisboa e Porto .
  uma grande

 responsabilidade .
 Se encher , percebo que o pblico gosta de mim .
 Se

 no encher ,  uma falha da minha parte .
 Ou seja , estou cheia de medo .

 J actuei em salas mais conceituadas , mas isto  como voltar a casa

 para receber a bno dos pais .

 J est a pensar num segundo lbum ?

 J .
 O produtor vai ser o Carlos Maria Trindade e ser mais baseado em

 originais do que o primeiro disco .
 Convidei vrios compositores .
 O

 desafio ser transformar em fado msicas de autores que no tm a ver

 com fado .
 Podemos falar do Pedro Abrunhosa , a quem pedi uma msica ; ou

 do Srgio Godinho .
 So pessoas de quem sou f pela forma como compem .

 O desafio vai ser pegar nos temas que eles me vo oferecer e

 transform-los em fados .
 Vo ser tocados  guitarra e viola pelos

 msicos que neste momento fazem o espectculo comigo e ser editado

 pela World Connection .

 Vai ser um disco de fado onde vou juntar os fados tradicionais - desta

 vez no so os clssicos , so os tradicionais - com originais .
 O

 interessante  poder entender , com as minhas influncias e as

 influncias dos msicos de que gosto , o que  que posso trazer de

 novo .

 H outra crtica que lhe apontavam que era a do excesso de temas

 popularizados por Amlia Rodrigues que faziam parte do seu primeiro

 lbum .

 Se aparecesse um americano a cantar Frank Sinatra era fantstico .

 Aparece uma fadista a cantar Amlia e  muito mau .
 Ser que mais

 ningum pode cantar aquilo ?
 No conheo nenhuma fadista que no cante ,

 pelo menos , um tema da Amlia .
 So temas belssimos , que fazem parte

 da histria do fado e  fabuloso poder cant-los .
 Assim sendo , tambm

 no se podia cantar temas de Alfredo Marceneiro , da Berta Cardoso , da

 Hermnia Silva ...
 No se cantava nada disso e o fado acabava .
 As

 pessoas morreram e no se pode cantar mais ?

 J actuou em Nova Iorque , Washington e Los Angeles , apresentou-se na

 BBC , numa estao de televiso francesa , participou no festival WOMAD ,

 foi capa da revista " Folk Roots " , recebeu prmios dos crticos

 alemes ...

 Para onde vai , depois disto tudo e quando sair do Grande Auditrio do

 CCB ?

 Vou descansar .
 Mas em 2003 sai o meu novo disco , em Abril .
 Segue-se a

 sua promoo , em 32 pases , agora j com um pblico mais conhecedor do

 meu trabalho .
 Nos EUA vou comear a fazer o circuito das Universidades

 seguindo o modelo de um concerto e uma aula .
 E estou a tentar montar

 um espectculo baseado na histria do fado , ligando vrios dos seus

 componentes como a dana , o folclore .
 Mas  necessrio trabalhar com

 um encenador , bailarinos ...
 e tudo demora seis meses a montar .

 de L para C

 ^ PBLICO , Sexta-feira , 27 de Setembro de 2002

 No  surpreendente o facto de Mariza dizer que encara os concertos no Rivoli e

 no CCB como quem procura a " bno dos pais " - duvidosos dos predicados do

 filho que por ora  sua casa torna , acrescentamos ns .
  que ao artista

 portugus so exigidas duas provas que , pretensamente , certificam a

 consistncia da sua carreira ou arte .

 Antes do mais , h um exame prvio que  preciso passar - com mais ou menos

 distino , depende da eficcia da promoo - e que  demonstrativo do estado

 provinciano da indstria discogrfica portuguesa : o artista , se  um bom

 artista , tem que o provar l fora , pensa-se .
 Aconteceu assim com Misia , que

 depois de desprezada pelos agentes portugueses , ganhou reputao quando assinou

 pela editora Erato , e aconteceu assim com os Madredeus ( Blue Note ) ou Moonspell

 ( Century ) ou mesmo Dulce Pontes ( Universal holandesa ) e Maria Joo & Mrio

 Laginha ( Verve ) , todos eles contratados por editoras estrangeiras .
 No vale a

 pena falar de Cesria vora ?
 Teorema : se os estranjas gostam ento  bom .

 Corolrio : entregar o ouro ao bandido , considerando , estpida e

 patrioticamente , os estrangeiros como bandidos ,  uma sina " nossa " .
 [ INLINE ]

 Segundo teste , e de sentido oposto : " vamos l a ver se  to bom como

 eles dizem " .
 Depois de descobertos pelos departamentos de Artistas &

 Reportrios das companhias estrangeiras , o artista portugus deve

 regressar ao territrio ptrio e provar nas salas mais dignas da nao

 como  genuino seu produto .
  neste segundo momento que o artista

 portugus volta a enfrentar , em dose redobrada , a pequenez do mercado

 onde surgiu .
  ento que se descobre que desafina , que  uma fraude ,

 que no  jazz ou que no  fado .
 Teorema : " ns "  que sabemos e os

 tipos " l fora " papam tudo .
 Corolrio : no h msica como a

 portuguesa .

 Estas so duas das mais frequentes linhas de raciocnio que atestam da

 incapacidade da indstria em Portugal em criar fenmenos - populares ,

 eruditos ou outros - sem a " bno dos pais " ou sem a " bno dos

 estrangeiros " .

  o culto do absurdo , praticado com o excesso de quem no aceita

 aquilo que surge aqui ou aquilo que  proposto de fora .
 De quem no

 aceita nada porque , afinal , tem pouco para dar .
 A no ser que Dulce

 Pontes , Misia , Madredeus ou Mariza consigam provar que h uma

 indstria da msica em Portugal .
 Porque at ver , no h .
 MFC

 Retrato da Fadista Enquanto Jovem

 ^ Sexta-feira , 21 de Maro de 2003

 Miguel Francisco Cadete

 Hoje est em Londres a gravar um DVD .
 No dia 24 , na capital britnica ,

 recebe um prmio , o BBC Radio Awards , O segundo lbum , " Fado Curvo " , 

 editado de hoje a uma semana , a 28 , quando o anterior , " Fado em Mim " ,

 ainda est nos topes .
 Documenta o segundo passo de uma carreira que

 ainda h pouco teve incio , mas que j chegou a alguns dos mais

 prestigiados palcos do mundo .
 Ainda assim , Mariza mostra-se

 desconfiada com a fama ( e ser que ainda h quem no acredite nela ?
 ) .

 Mas  apaixonada pelo fado e aqui conta como construiu o tal " difcil

 segundo lbum " .
 Um disco que comea com uma homenagem  guitarra e

 termina com uma splica : " Guardem os anis do meu cabelo. " Retrato , a

 corpo inteiro , da solido da fadista enquanto jovem , aos 29 anos .

 O BBC Radio Awards , que vai receber em Londres no dia 24 , fez

 ressurgir o interesse pelo lbum " Fado em Mim " , quase um ano e meio

 depois da sua edio .
  preciso ser-se reconhecido l fora para que os

 portugueses se interessem pela sua carreira ?

 J havia reconhecimento do meu trabalho , at porque o disco tinha

 vendido bem .
 Mas muitas vezes  preciso darem-nos valor l fora para

 que em Portugal nos comecem a olhar com outros olhos .
 Ainda havia

 gente de p atrs : " Ser que  ou no  ?
 " Isso serve sobretudo a

 algumas mentes mais fechadas ; e veio trazer algum valor , nem 

 reconhecimento , ao que eu j tinha feito .

 Desde o incio da sua carreira que comeou a actuar no estrangeiro .

 Foi uma estratgia pensada ou aconteceu ?

 Aconteceu .
 A minha ideia era at lanar o meu primeiro disco numa

 edio de autor , para oferecer aos amigos .
 Mas fui fazer um concerto 

 Holanda , conheci o Albert [ Albert Nijmolen , presidente da editora

 World Connection ] e trocmos contactos .
 Ele fez muita presso para

 trabalhar com ele , mas a minha ideia era : se um dia editar , h-de ser

 em Portugal .
 S que ele insistiu e os prazos que as editoras

 portuguesas me davam eram longos .
 Diziam " sabe como  , o fado no

 vende " ; ou " ah , ns j temos fadistas !
 Telefone daqui a uma semana " .

 Ento decidi-me pela World Connection , que  uma editora pequena .
 Eu

 nem sequer tinha uma noo do que era o mercado da " world-music " .

 Aceitei a proposta da World Connection e , desde ento , tm acontecido

 estas coisas todas de que eu no estava  espera .
 Ainda olho para tudo

 com um ar desconfiado .

 A sua vida mudou a partir do momento em que passou a ter uma agenda

 carregada de concertos .

 J no consigo estar em casa .
 E at muda a nossa viso das coisas .
 O

 fado no  um gnero de msica em que impere o profissionalismo : os

 msicos no sabem ler msica , no estudam , no fado no h escolas .
 

 uma msica do povo e continuar a ser uma msica dos bairros pobres .

 No quero dar um sentido pejorativo  palavra " amadorismo " , mas o fado

  um gnero amador .
 E quando se comea a pisar outro tipo de palcos ,

 nota-se que o trabalho  completamente diferente .
 Eu gosto muitos

 dessas duas facetas e quando estou em Lisboa no perco uma noite de

 fado .
 Ainda outro dia , apesar de ter de me ir embora na manh

 seguinte , fui a uma fadistice e cheguei a casa s tantas .
 Faz bem ,

 alimenta , volta-se s razes .

 Agora que j comeou " a pisar outros palcos " , quais so as suas

 ambies ?

 No sou uma pessoa muito ambiciosa .
 Vou esperando o que vem vindo e ,

 at agora , os resultados no tm sido maus .
 Mas  bvio que j tenho

 outra viso das coisas e quero pisar palcos cada vez melhores , fazer

 melhores concertos e tornar-me melhor naquilo que fao .

  capaz de identificar um momento-chave na sua carreira ?

 No tenho uma carreira , estou a dar os primeiros passos .
 Mas acho que

 o lanamento do primeiro disco foi um momento de afirmao .
 Antes ,

 fazia espectculos e as pessoas perguntavam : " Como  que podemos

 ouvir ?
 Onde  que podemos saber mais coisas ?
 " Depois do disco , notei

 que isso foi importante para as pessoas comearem a perceber que tipo

 de voz estavam a ouvir .
 Que pessoa era aquela .
 Atravs de um disco no

 se consegue perceber que pessoa  , mas as fotografias ajudam a

 entender alguma diferena .

 J disse , em outras ocasies , que tinha decidido chamar ao novo disco

 " Fado Curvo " porque " no  direito " .
  uma provocao dirigida aos

 puristas do fado ?

 Aos puristas do fado no , porque so uns queridos e at me defendem .
 

 mais para aborrecer aqueles " chatos quadrados " que , enquanto pensarem

 de certa forma , o fado vai ficar emparedado entre quatro paredes e

 tornar-se uma msica esquecida .
 Era o que estava a acontecer .
 E , de

 repente , voltou-se a falar outra vez de fado .

 Mas  tambm uma chamada de ateno , porque a paixo no  uma linha

 recta .
 A msica no  uma linha recta .
 A vida tambm no .
 Eu prpria ,

 respeitando todo os tradicionalismos , tenho uma viso prpria .
 Por

 isso a minha viso  curva e no recta .

 Precisamente o tema que abre o disco , " O Silncio da Guitarra " ,  um

 fado tradicional ( " Z Negro " ) .
 No se pode dizer que renega a

 tradio .

 Claro que no .
 Crescer num bairro tpico ( Mouraria ) d-nos essa

 formao .
 Aprende-se a reconhecer um fado tradicional e a saber o que

  um fado clssico e um fado musicado .
 Eu sei o que so fados

 tradicionais e sempre os cantei .
 Este meu segundo disco tem um

 bocadinho de tudo e , tal como no primeiro , no me esqueci dos fados

 tradicionais .
 Fazem parte das razes e no me esqueo deles .

 Neste caso , a letra  da autoria de Jos Lus Gordo , figura ligada 

 casa de fados onde comeou a cantar .
 Esta  tambm uma forma de

 homenagear quem primeiro acreditou em si ?

 Tambm .
 Foi a primeira pessoa que achou que eu podia dar grandes

 passos no fado , apesar de eu prpria no acreditar .
 " Mas quem  que me

 quer ouvir ?
 " E tambm porque ele  um grande poeta e fez esses versos

 a pensar em mim .
  um poema lindssimo .
 Experimentei-o em vrios fados

 tradicionais e percebi que encaixava muito bem no " Z Negro " .
 Depois ,

 o Mrio Pacheco ( tocador de guitarra portuguesa em " Fado Curvo " ) teve

 um papel importante , porque fez um arranjo fabuloso e inovou

 completamente o " Z Negro " .

 Foi tambm o guitarrista Mrio Pacheco quem lhe ofereceu a msica de

 " Cavalo de Sombra , Cavaleiro Monge " , que tem um poema de Pessoa .
 Este

 tema estava para fazer parte de um disco de Amlia ...

 Ele diz que h muitos anos andava  procura de uma pessoa que o

 conseguisse cantar .
 Quando me ofereceu esse tema , o Mrio Pacheco

 apenas me disse que tinha ali uma coisa para eu ouvir .
 Tocou o tema na

 guitarra e mostrou-me o poema .
 Eu aprendi o tema e ele depois deu-me

 uma cassete para levar para casa .
 Quando cheguei ao carro , meti a

 cassete no leitor e ouvi a Amlia a cantar o " Cavalo de Sombra ,

 Cavaleiro Monge " .
 Arrepiou-me de tal maneira que nem consegui ouvir

 at ao fim .
 Agradeci ao Mrio , porque me pareceu corajoso da parte

 dele oferecer-me uma coisa que tinha guardada e que a Amlia iria

 cantar .
 Mas , ao mesmo tempo , foi engraado perceber as diferenas .

 Vai ser complicado porque as pessoas vo pensar que o tema  bom

 porque a Amlia ia cant-lo ...

 Continua a ser f de Amlia Rodrigues ?

 Continuo e no nego isso .
  uma estupidez tentar inventar que no e ,

 depois , andar toda a gente a cantar temas da Amlia s escondidas .
 Se

 se gosta , porque  que no se assume ?
 Gosto muito da forma como ela

 interpretava .
 Sou mesmo f .

 Neste disco h outra criao de Amlia , " Primavera " , que j fazia

 parte do reportrio dos concertos .
 Porque s foi gravada agora ?

 Ainda hoje no entendo porque sou to apaixonada por esse poema e por

 esse fado .
 No fazia sentido grav-lo sem entender porque me

 emocionava tanto .
 Mas com o decorrer dos concertos , as pessoas

 perguntavam-me sempre pelo " Primavera " .
 A edio para coleccionadores

 do " Fado em Mim " tem um disco ao vivo com o registo do espectculo no

 WOMAD e inclui o " Primavera " .
 S depois dessa edio o decidi gravar

 em estdio .
  interessante porque , ao vivo , com o pblico ali to

 perto , esse fado ainda vive muito mais .
 Em estdio ,  estranho

 cant-lo .

 Essa inibio relativamente ao estdio  lendria .
 De Alfredo

 Marceneiro at Amlia , todos citam a estranheza do estdio .

 Eu disse logo ao Carlos Maria Trindade ( produtor de " Fado Curvo " ) que

 no gostava de estar em estdio .
 E concordmos em gravar de forma

 rpida .
 Na opinio dele , se o fado  uma msica intimista , o melhor

 era tentar gravar tudo at ao terceiro " take " .
 E neste disco h fados

 que foram gravados  primeira .
 H fados em que se nota que a minha voz

 no est to limpa como noutros , porque foram gravados em dias

 diferentes .
 No tivemos aquele cuidado de andar a mexer e a pr notas

 por cima .
 O Carlos Maria Trindade quis que se sentisse a raiz dos

 fados .
 Como eu lhe tinha dito que estar em estdio era um terror , ele

 arranjou essa frmula .

 Por outro lado , h temas que se afastam nitidamente do melodrama

 prprio do fado menor , como  o caso da chula " Feira de Castro " ,

 composta por Rui Veloso , em que se respira um ambiente de festa .
 

 verdade que o pblico estrangeiro reage melhor a estas canes mais

 inspiradas na msica tradicional portuguesa ?

 Tenho sentido , em Portugal como l fora , que o pblico reage muito bem

 quando aparece um tema mais alegre .
 Se os concertos so s feitos com

 aquela melancolia , saamos de l tristssimos .
 Estes temas de

 inspirao tradicional , como a chula e o malho , vm dar nimo ao

 concerto .
 Nunca senti que em Portugal gostassem menos desses momentos .

 Quando canto o " Sr. Vinho " , as pessoas acompanham-me e batem palmas ; e

 dentro do meu concerto esses temas servem como um complemento .

 J " Vielas de Alfama "  um fado-fado , um fado menor , que foi

 popularizado na voz de Max , um cantor que tambm se tornou mais

 conhecido por interpretar canes humorsticas .

 Na minha infncia , durante as refeies , o meu pai desligava a

 televiso e ouvamos discos de fado .
 Eram discos do Max , Tony de

 Matos , Fernando Farinha , Fernando Maurcio ...
 o meu pai adora homens a

 cantar fado .
 Ouvia muito o Max , porque o meu pai gostava muito das

 interpretaes dele .
 Este " Vielas de Alfama "  tambm um dos temas

 favoritos de um amigo meu que me estava sempre a dizer para eu o

 cantar .
 Chateou-me tanto que eu experimentei e senti-me bem .
 Eu no

 tenho aquela coisa de distinguir entre fados para homens e para

 mulheres .
 Desde que sinta o poema , canto .
 At j disse que um dia

 adorava cantar o " Homem na Cidade " do Carlos do Carmo .
 Vou estar com

 ele num concerto na pera de Frankfurt , e j estou aterrorizada ,

 devido ao respeito que lhe tenho porque passei a minha infncia a

 ouvi-lo .

 No primeiro lbum j surgiam experincias de canes baseadas em voz e

 piano .
 " Retrato " , com poema de Eugnio de Andrade , repete esse modelo ,

 que foge ao esteretipo do fado para voz e guitarra portuguesa .
 H uma

 inteno expressa de explorar essa via ?

 Eu sentia o tema assim e o autor da msica , Tiago Machado , tambm .
 Ele

 compe ao piano e soava muito bem daquela maneira .
 No  para ser

 diferente .
  s porque gosto muito de temas com piano .
 E quando o fado

 chegou  alta sociedade , as meninas aprendiam a tocar fado no piano .

 O " Fado Curvo "  um fado composto por Carlos Maria Trindade que ,

 afinal ,  um malho .
 E a prpria letra  uma espcie de jogo , uma

 aritmtica do fado que ...

 Adoro porque tem nmeros .
 O meu nmero preferido  o seis e quando o

 Carlos Maria Trindade me mostrou o poema , at pensei que ele ia fazer

 uma msica melanclica .
 Mas surgiu um malho .
 Um disco de fado tem de

 ter fado , mas tambm pode ter outras vertentes .
 Da esse malho , uma

 chula ou o " Entre o Rio e a Razo " , que  um tema mais leve .
 O disco

 tem um bocadinho de tudo ...

 E at tem um fado de Coimbra , o " Meninos do Bairro Negro " , de Jos

 Afonso .
 Est consciente da carga poltica que emana da letra ?

 Resisti muito a cantar esse tema .
 Em primeiro lugar porque as mulheres

 no cantam fado de Coimbra .
 Em segundo porque era uma letra de Zeca

 Afonso e as suas letras tm sempre outros sentidos .
 Ou seja ,  muito

 difcil cantar fado de Coimbra , porque to depressa se est nos graves

 como em notas muito altas .
 Pensei muito e s depois decidi

 experimentar .
 O Mrio Pacheco tambm decidiu fazer uma coisa especial

 e surgiu com a ideia de gravar o tema quase s com voz e guitarra .
 A

 letra tem uma carga poltica tremenda , mas no sei se as pessoas vo

 olhar para isso .
 Soube h pouco a histria desse tema , contada pelo

 prpria Zeca Afonso .
 Ele tinha ido em viagem ao Porto , a meio dos anos

 70 , e viu um homem a urinar para dentro de uma lata .
 Aquilo

 perturbou-o muito e chamou-lhe a ateno para o bairro onde decorria a

 cena : um bairro muito pobre e cinzento .

 No primeiro lbum j tinha gravado um poema de Florbela Espanca e em

 " Caravelas " volta a faz-lo ...

 Tinha de aparecer Florbela Espanca e , para mim , esse poema funciona

 como um recado .
 No quero explicar ...
 A seguir vem o " Entre o Rio e a

 Razo " , com letra do Gil do Carmo .
  uma coisa mais leve , que fala de

 uma Lisboa mais moderna .
  uma letra mais urbana .

 O tema mais diferente do disco  " O Deserto " , de Carlos Maria

 Trindade .
 A estrutura da cano afasta-se daquilo que  entendido como

 um fado e surgem mesmo instrumentos pouco usuais como a trompete .
 A

 prpria voz surge num outro registo .

 J tinha dito ao Carlos que gostava muito de ter um fado com trompete .

 Sempre achei que casava bem com a guitarra portuguesa .
 Ele j tinha o

 poema e quando me tocou a msica ao piano sugeriu logo que fosse ali

 que se metesse a trompete .
 Aquela entrada com a voz muito grave , quase

 falada , de incio nem me agradava , mas no deixa de ser fado .
 Ainda

 lhe perguntei se ele ia ser despedido dos Madredeus por me ter

 oferecido um tema to bom .

 O lbum fecha com um poema de Antnio Botto , " Anis do Meu Cabelo " ,

 que parece ter sido feito  medida da sua figura .
 Nota-se o cuidado na

 seleco dos poemas ...

  outro recado , mas no  dirigido a ningum em especial .
  para todas

 as pessoas que gostam do trabalho que eu fao .
 Prefiro que no me

 adjectivem , que no me chamem isto ou aquilo e que olhem para mim como

 um ser humano .
 No dia em que eu me for embora , guardem s " os anis do

 meu cabelo " .

 Uma Voz Rumo ao Desconhecido

 ^ Sexta-feira , 21 de Maro de 2003

 Miguel Francisco Cadete

 Ao contrrio do que o preconceito poderia fazer supor , o segundo lbum de

 Mariza  um disco equilibrado e que resulta menos da necessidade de afirmao

 de uma ainda jovem fadista do que da capacidade de levantar a famigerada ponte

 que liga a tradio e as razes  modernidade e  inveno .

 " Fado Curvo "  um disco maduro porque no se esgota na interpretao dos fados

 j conhecidos nem to-pouco no ajuntamento de temas originais sem sentido .

 [ INLINE ]

 H fados tradicionais , fados clssicos , uma chula , um malho e at um

 fado de Coimbra e inditos .
 E h , sobretudo e com toda a diferena , a

 voz e a interpretao de Mariza .

 Discpula de uma escola que privilegia o poder da expresso , por

 ventura em detrimento de um certo rigor , Mariza prova que a verdadeira

 imitao dos deuses - ou das divas - no  tarefa que se compadece com

 o mero decalque ou com a reproduo de cpias destinadas a servir como

 sucedneos .
 Mesmo em poemas menos pretensiosos , como " O Silncio da

 Guitarra " , a sua voz escapa  regra das palavras e at da msica , para

 encetar um voo rumo ao desconhecido .
 Num s tema h acordes ,

 entoaes , frases e expresses que trazem  memria toda a histria do

 fado , da mesma maneira que obrigam a sonhar com a prxima nota .
 Como

 quem deixa que a verdade se transforme na emoo de quem est  beira

 do precipcio e no tem medo de saltar para o vazio .

 Todo o lbum  um exerccio de libertao , bem sublinhado nas palavras

 de Pessoa em " Cavalo de Sombra , Cavaleiro Monge " , em que a solido

 vagueia por uma bizarria transformada em rotina .
 H tanto de melodrama

 nesta procura da identidade e do individualismo , j bem documentada em

 centenas de fados , como de alegria e festa em canes como " Feira de

 Castro " , com msica de Rui Veloso , agora em ritmo de folia desatada .

 Ou como no malho " Fado Curvo " , da autoria de Carlos Maria Trindade ,

 onde se escreve uma aritmtica para o fado que tem tanto de esotrico

 como de jogo da glria .

 " Caravelas " e " Vielas de Alfama " so retratos de caminhos trilhados ou

 ainda por descobrir , ancorados na gramtica da guitarra portuguesa ,

 mas  em " O Deserto " que o fado abandona a cidade e o mar para se

 perder na imensido do " imprio do Sol " .
 Com muito vento e uma

 trompete com surdina que remete para Miles Davis , o tema mais inovador

 de " Fado Curvo " abre o caminho para uma recta final poderosssima em

 que " Fado Primavera " , criao de Amlia , se tranforma em momento

 grande de todo o disco .
 Porque  quando a voz da Mariza descola do

 poema e at da msica , neste caso o fado , que ganha uma nova dimenso

 capaz de se transformar em exorcismo sublime e , por isso , em arte .

 " Fado Curvo " remata com " Anis do Meu Cabelo " , outra composio de

 Tiago Machado , desta vez com poema de Antnio Botto , onde se sente a

 propriedade da letra , bem adaptada  intrprete , e o anseio mstico

 que um dia poder levar Mariza a dizer que " gostava de ser quem era " .

 L Fora e C Dentro

 ^ Sexta-feira , 21 de Maro de 2003

 Miguel Francisco Cadete

 Quando hoje subir ao palco instalado na Union Chappel , em Londres ,

 para levar a cabo a gravao de um DVD , Mariza estar na companhia de

 uma equipa de produo exclusivamente constituda por tcnicos

 estrangeiros .
 Eles so os mesmos que , semanalmente , pem no ar o

 programa da BBC " Later with Jools Holand " onde um dia Mariza j cantou

 ao lado de Mica Paris ou de David Gilmour dos Pink Floyd , mas esse

 facto  s mais um sinal de que o reconhecimento " c dentro " tambm

 precisa do aval " l de fora " .

 Excepo feita  casa de fados que lhe abriu portas e a Herman Jos ,

 que a estreou no seu programa de TV , poucos foram os que acreditaram

 em Mariza quando ela decidiu assumir a sua carreira de canatadeira de

 fado .
 Ouviu negas das editoras portuguesas , at que uma pequena

 companhia holandesa , a World Connection , viu nela uma aposta a ter em

 conta .
 Tal como acontece com outros artistas portugueses , pelo que no

  caso nico , o seu talento foi reconhecido primeiro no estrangeiro .

 Curiosamente , o pblico portugus recebeu bem melhor o seu lbum de

 estreia , " Fado em Mim " , distribudo em Portugal pela EMI-VC , do que os

 responsveis pela contartao de artistas das prprias editoras

 nacionais .
 O mesmo aconteceu com algumas figuras chave da indstria

 discogrfica inglesa , que descortinaram em Mariza a " diferena " que

 outros no viram .

 Ainda antes de ser conhecido o veredicto do jri que lhe atribuu um

 prmio com o prestgio da BBC Radio , e Mariza j tinha vendido , em

 Portugal , mais de 35 mil cpias do seu lbum de estreia , muito prximo

 do disco de platina .
 E em Inglaterra , Charlie Gillet , DJ da BBC e uma

 das figuras mais preponderantes no mercado da world-music , j tinha

 entendido que aquela voz e aquela figura traziam algo de novo a um

 segmento da indstria discogrfica que se cansava de ouvir divas

 sexagenrias e sem apelo juvenil .
 A maior estranheza de todo este caso

 ( ou talvez no ) passa pelo facto de Mariza cantar fado - um gnero de

 msica que s  praticado em Portugal , onde , a priori , estariam os

 seus maiores apreciadores e especialistas .

 No  muito dado  discusso o facto de Amlia Rodrigues ser o mais

 importante , seno o nico , carto de visita da msica portuguesa no

 estrangeiro .
 E a proximidade de Mariza a Amlia ter , certamente ,

 ajudado .
 Mas isso no chega para explicar o xito tremendo que uma to

 curta campanha tem conseguido .
 A sua figura alta , esguia e algo

 excntrica , com os cabelos oxigenados e trajando fatos dignos da Belle

 poque desenhados por Joo Rolo , tero certamente marcado uma

 diferena .
 No futebol dir-se-ia que ali existia uma " mais-valia " .
 E na

 msica , criar uma marca quer dizer vincar a diferena .
 Geralmente ,

 isso resulta em promoo adicional .

 Depois da edio do lbum de estreia , os concertos passaram a

 suceder-se , especialmente em Inglaterra e nos EUA - territrios muitas

 vezes avessos  msica portuguesa , outro dado a ter em conta - em

 palcos capazes de surpreender o mais rodado dos artistas portugueses .

 C , era convidada a actuar em festas de Vero .
 O Central Park de Nova

 Iorque ou o Hollywood Bowl em Los Angeles serviram como pontos de

 passagem para algumas das salas de Londres ou Frakfurt com maior

 historial e os prmios , que comearam a surgir na imprensa germnica ,

 sucederam-se at chegar o prestigiado galardo da Rdio BBC .

