 RICARDO RIBEIRO Ah fadista !
 Ricardo Ribeiro , 24 anos ,   um fadista

 como j  existem poucos .
 Canta com a express  o de quem vive suspenso

 no tempo , quando os filmes eram a preto e branco e os seus actores

 figuras casti  as .
 Para ele , Lisboa continua a ser um mero aglomerado

 de bairros populares , onde se respeitam n  o só as lendas do fado mas

 tamb  m os ilustres desconhecidos que cultiva atrav  s de uma preciosa

 colec    o de discos .
 A   poca de ouro do fado , os anos 50 e 60 , s  o

 por isso a sua grande referência.  que , antes de mais nada , o fado

 tem mesmo que ser fado , cumprindo-se as suas regras e oferecendo

 devo    o aos seus esp  cimes mais tradicionais .
 Como no seu disco de

 estreia , publicado , sem estrondo nem alvoro  o , no passado mês de

 Dezembro .
  a e nas casa de fado em que actua que se prova que

 Ricardo Ribeiro   um fadista como j  existem poucos .
 Temos que o

 estimar .
 Como dantes era sempre egra , a entrada de Ricardo Ribeiro no

 micro-cosmos do fado aconteceu por via familiar .
 Os rituais

 come  ou-os logo a cumprir desde bem cedo , ainda petiz : Uma tia minha

 tinha uma colec    o extraordin  ria de discos em vinil , e eu

 perdia-me a ouvir aquilo .
 Ela era uma f  incondicional do Fernando

 Maurcio e foi assim que me comecei a apaixonar , ainda muito novo ,

 pelo fado .
 Tinha nove anos quando cantei pela primeira vez em

 público. Da Ajuda , bairro onde foi criado at   Grande Noite do

 fado foi só um saltinho : Cantei pela primeira numa colectividade , a

 Acad  mica da Ajuda , at  que a minha tia me levou aos Ferreiras 

 onde o Fernando Maurcio cantava .
 A partir da comecei a ir l  todas

 as semanas at  que a minha tia me inscreveu numa das Grandes Noites

 do Fado , mas nem passei da pr  - eliminatória .
 No ano seguinte , em

 1996 , inscreveu-me outra vez e a j  fiquei em segundo lugar , tinha

 14 anos .
 Cantava coisas muitas giras , próprias para a minha idade .
 

 que me chateia aparecerem rapazinhos e rapariguinhas a cantarem coisas

 que n  o lhes dizem nada como o Povo que lavas no rio .
 Eu apareci a

 cantar um fado que j  era um bocadinho puxado , o Silêncio , hoje

 morreu um poeta mas no ano seguinte , com 15 anos , fui com um fado do

 Maurcio , Minha m  e nasci fadista. Ent  o fiquei em primeiro lugar

 na categoria de juvenis .
 Em 1998 , j  era s  nior , concorri outra vez

 e voltei a ganhar , desta vez com A voz do meu bem. O tirocnio ,

 enquanto fadista amador , foi tamb  m feito nas verbenas das

 colectividades , nas casas de fado mas , sobretudo , na companhia de

 três ou quatro velhinhos que me ensinaram tudo quanto se possa

 imaginar : o Ti Adelino dos Santos , o Z  In  cio , a Beatriz da

 Concei    o e o Maurcio .
 Devo-lhes a ele o conhecimento que tenho do

 fado .
 O Ti Z  emprestava-me livros e ouvi muitos discos .
 Porque o

 importante ao ouvir os discos de fado antigos   preceber-se aquela

 magia. Memórias de um tempo passado que ainda hoje fazem parte das

 regras quase sagradas definidas pela gera    o anterior de fadistas .

 Por oposi    o ao percurso de alguns dos mais recentes fadistas ,

 Ricardo n  o pretendeu nunca escapar ao processo de legitimiza    o

 bairrista : o fado perdeu um pouco da sua nobreza , da sua

 simplicidade .
 N  o quer dizer que hoje n  o se fa  am coisas

 interessantes mas perderam-se certas formas de entoar t  o portuguesas

 e t  o bonitas .
 Perdeu-se isso e o respeito pelos antigos .
 Hoje h 

 uma anarquia lixada no fado .
 Um tipo pega num fado e diz que o vai

 transformar .
 A minha mentalidade de fadista   um pouco diferente ,

 talvez porque tenha convivido com eles .
 At  alterar isso , ainda vou

 ter que passar por muita coisa .
 De modo que , ouvi sempre com o maior

 respeito as conversas deles , sobretudo do Ti Adelino , no tempo em que

 fui trabalhar com o Maurcio para os Ferreiras , aos 17 anos .
 O Ti

 Adelino punha-se l  num canto  parece que o estou a ver , coitadinho

  e pegava na guitarra para trautear um fado e ent  o eles faziam-me

 perguntas do g  nero que fado   este ?
  Depois dos Ferreiras ,

 Ricardo Ribeiro cantou em Angola ainda menor  a minha m  e at  teve

 que assinar uma declara    o para eu poder sair do pas  e em casas

 de fado do Bairro Alto como o Non  , o Caf  Luso ou o Faia .
 Passou

 tamb  m pelas quintas-feiras fadistas da Petisqueira de Alc  ntara ,

 entretanto extintas , at  ter surgido o convite para cantar no

 Marquês da S  , onde   actualmente residente .
 A proposta para gravar

 um disco surgiu numa dessas noites em que cantava nos Ferreiras ,

 quando por l  apareceu Jorge Fernando , compositor , produtor e tocador

 de extenso currculo. Diz-me ele assim : h  uma editora que vai

 fazer uma colect  nea e eu gostava que gravasses para l  dois temas

 E assim foi , passado uma semana telefonou-me para entrar em estúdio .

 Eu escolhi os números que ia cantar e o Nuno Rodrigues , da editora ,

 ficou fascinado com aquilo at  que assin  mos contrato para gravar um

   lbum. Desde a assinatura do contrato at   edi    o do disco

 ainda pasaarm um bom par de anos , at  porque uma primeira vers  o

 n  o foi bem acolhida pela editora e pelo produtor. Devo dizer que a

 minha rela    o com o Jorge Fernando foi muito profcua mas nós temos

 ideias um pouco diferentes .
 Ele alertou-me para muitas coisas que eu

 tinha que limar mas uma das minhas qualidades enquanto fadista   a

 intensidade .
 Para mim , n  o   só cantar ,   tamb  m a express  o que

 conta .
 E foi por isso que aconteceram v  rios choques .
 Ele tem uma

 personalidade forte mas eu tamb  m , porque havia coisas que n  o

 aceitava .
 Da o disco n  o estar , nalgumas partes , como eu gostaria .

 Ao fim de tanta divergência , o Jorge acabou por ficar como director

 musical , mas os últimos fados que grav  mos foram j  da minha única

 responsabilidade. O reportório , excep    o feita a dois temas da

 autoria de Jorge Fernando , um de Manuel Mendes e outro de Paco

 Gonzalez ,   todo composto por fados tradicionais  foi a que eu

 cresci , foi da que eu me alimentei. J  os poemas foram escolhidos

 com recurso  s cria  ões de Beatriz da Concei    o que   das

 mulheres com um reportório mais bonito. Ela tem dois poemas

 fant  sticos  Mas porqu  de eu ser assim e Balada das m  os

 ausentes que eu cantei neste disco , sendo os outros feitos

 propositadamente para mim pelo Rui Manuel e pelo Z  Lus Gordo , al  m

 de uma letra que pus no Fado Lopes que era uma cria    o do Manuel de

 Almeida .
 Eu só gravo coisas que me digam .
 Coisas que , quando canto ,

 me fa  am saltar c  de dentro aquela coisinha. Os acompanhantes de

 Ricardo Ribeiro neste seu disco de estreia tamb  m s  o de luxo .
 Al  m

 de Jorge Fernando  viola , Jos  Manuel Neto toca guitarra portuguesa

 e Marino de Freitas toca viola baixo. Eu gravei uma primeira vers  o

 deste disco com o Manuel Mendes na guitarra portuguesa , o Vital

 Assun    o na viola e o Larssen no baixo .
 Mas entretanto , da parte da

 editora , consideraram que aquilo n  o estava como eles queriam .
 Eu

 gostava muito porque o reportório era lindssimo , com temas do Vital

 Assun    o , neto do professor Martinho dAssun    o por quem sou

 apaixonadssimo .
 Foi ele quem mais me emocionou e quem me fez aprender

 guitarra cl  ssica .
 E ent  o decidiu-se gravar tudo outra vez e só

 ent  o aparecem o Jorge Fernando , o Z  Manel e o Marino .
 O

 reportório foi quase todo mudado , manteve-se apenas A lua e o corpo

 e o Deixem-me ser. H  coisas que eu um dia ainda gostava de

 aproveitar mas , no fim de contas , at  estou contente com o resultado

 final. Ricardo Ribeiro actua diariamente em Lisboa , no Marquês da

 S  ( com excep    o das quartas-feiras ) , e   a , numa casa de fados ,

 que por ora se vai sentindo no seu habitat natural. Eu gostava muito

 de fazer um disco ao vivo .
 Porque estúdio amedronta-me um bocado .
 L 

 est  , um tipo tem que estar contido , com aten    o ao microfone , ...

 Assusta-me um bocadinho mas tamb  m gosto das coisas que j  gravei

 at  porque a voz fica mais brilhante , com onda .
 Mas ao vivo   outra

 loi  a .
 A minha prioridade , no entanto , n  o   cantar nas grandes

 salas ,   fazer o meu fado .
 Claro que quero cantar nas grandes salas .

 Como n  o sou menino rico e porque vivo do fado ,   natural que

 precise disto para ganhar a minha vida .
 E claro que gostava muito de

 cantar nessas salas , para mostrar o meu talento e tamb  m porque isso

   sinónimo de mais algum que entra .
 N  o   que eu seja mercen  rio ,

 mas vivo disto .
 De resto , gosto muito de cantar todos os dias .
  uma

 escola .
 As casas de fado , tal como o fado amador , s  o mesmo uma

 escola .
 Sendo esse um percurso distinto daquele percorrido por grande

 parte da nova gera    o de fadistas ,   sob suspeita que Ricardo

 Ribeiro olha para alguns dos novos valores que v  o sendo apresentados

 a um ritmo quase semanal. Tenho uma mentalidade fadista diferente .

 N  o   que n  o haja gente com qualidade e talento  admiro muito a

 Ana Sofia Varela e o Caman  .
 E tamb  m gosto da Ana Moura e da

 Mariza , mas o modo como fui educado leva-me a dizer que isto  vezes

 n  o me sabe a nada .
  que o fado tem regras , maneiras próprias de

 acentuar , ...
 O fado tem que ser fado .
 Em vez de se fazer fado , faz-se

 muita world-music e eu pergunto onde   que est  a nossa

 caracterstica ?
 a nossa essência de ser português ?
  Houve coisas que

 o fado perdeu que eram t  o boas , t  o saud  veis. N  o se pode  

 pegar nas coisas e tramnsform  - las naquilo que elas n  o s  o .

 Devemos conhcer o passado para saber como vai ser o futuro.

