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 Jorge Costa Pinto fado menor , jazz maior [ INLINE ]

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  FADO MENOR JAZZ MAIOR

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 O maestro Jorge Costa Pinto  msico profissional h mais de 50 anos .
 Do jazz

 s orquestras de msica de baile , s canes , aos arranjos e orquestraes

 passando pela publicidade e pela edio de discos , ele deixa uma marca de

 talento e qualidade em tudo o que faz .

 Autores - Ainda se lembra da primeira vez que tocou em pblico ?

 Jorge Costa Pinto - Lembro perfeitamente , como se fosse hoje .
 Foi no teatro de

 Anadia , tinha cinco anos e o meu pai estava a actuar com a sua orquestra .
 No

 intervalo ele sentou-se ao piano , tocou um standard de jazz e eu acompanhei-o

 na bateria .
 Foi uma gracinha ...

 A - Tem o tema na memria ?

 JCP - Isso j se varreu .
 Mas o resto est muito ntido na memria .
 Eu estava

 vestido com uns cales pretos e uma camisa branca de seda .
 A nossa actuao

 estava a correr to bem que um espectador entusiasmado atirou para o palco um

 pacote de rebuados .
 Eu abandonei a bateria e fui busc-los .

 A - Como  que um lisboeta de Campo de Ourique foi parar a Anadia ?

 JCP - O meu pai era msico profissional , foi o primeiro que tocou em Portugal

 standards de jazz com uma grande orquestra .
 Mas os tempos estavam difceis em

 Lisboa e ele no conseguia ganhar a vida como msico .
 Surgiu a oportunidade de

 ir trabalhar para umas caves da Bairrada e fomos todos para l .
 Mal chegou ,

 tratou logo de criar uma orquestra .
 Os ensaios eram em nossa casa , onde havia

 um piano e uma bateria .
 O meu pai era pianista mas eu preferia a bateria ,

 decidi logo em criana que ia ser jazzbandista .

 A - E depois dessa estreia , quando  que o jazzbandista comeou a tocar a

 srio ?

 JCP - Tinha uns dez anos quando a famlia veio para Vila Franca de Xira e o meu

 pai dirigia uma orquestra local .
 Estreei-me numa festa do Colete Encarnado .

 Depois fui viver com os meus avs para Cascais e quando tinha 12 ou 13 anos fui

 baterista da Orquestra Baa .
 Fiz os bailes todos da Costa do Sol .
 Aos 16 anos

 j tocava em Lisboa com a famosa Orquestra Bolero .

 A - Onde cantava o Helder Martins ...

 JCP - Exactamente .
 O Helder cantava e tocava piano .
 Outra grande estrela era o

 trompetista Jos de Magalhes , um msico fabuloso que depois foi para os EUA

 onde tocou em vrias orquestras de jazz .

 A - E quando foi o grande salto ?

 JCP - Todo este percurso foi feito de grandes passos .
 Mas o primeiro contrato

 como profissional surgiu com o maestro Vieira Pinto , que me convidou para sua a

 orquestra .
 Fizemos a poca de jogo , que ento era de seis meses , no Casino da

 Pvoa .
 Eu alm de bateria , tambm tocava piano .
 A poca correu to bem que

 quando regressei a Lisboa tinha as portas abertas do mundo do espectculo .

 A - E em que porta entrou ?

 JCP - Fui trabalhar para o Arcdia , um cabar fabuloso que tinha duas

 orquestras .
 Estive l dois meses e depois passei para o Negresco , que na altura

 era o melhor clube nocturno de Lisboa .
 O proprietrio era o mesmo e ele

 pediu-me para mudar .
 No Negresco tocava bateria , piano e acordeo .
 Foi l que

 conheci a Amlia , em 1953 .

 A - Como foi esse encontro ?

 JCP - Confesso que na poca o fado nada me dizia ,  uma linguagem musical muito

 pobre .
  fundamentalmente uma cano de intrprete .
 Mas a voz da Amlia

 intrigava-me .

 A - Amlia actuou consigo no Negresco ?

 JCP - No , foi l que lhe fizeram uma homenagem , antes de ir cantar a Paris ,

 onde teve um xito estrondoso .
 Nessa noite at lhe pedi um autgrafo , que vem

 publicado no meu disco ' Amlia e Outros Fados ' ,

 A - Apesar da pobreza da linguagem musical , fez incurses pelo fado ...

 JCP - O disco  uma colectnea que inclui arranjos meus de marchas populares e

 tambm composies minhas sobre temas tnicos como O Trevo , L Vai Serpa L Vai

 Moura , Man Chin e Senhora do Livramento , que Amlia imortalizou .
 Foi um

 prazer trabalhar com ela .
 Gravei isso tudo com a minha orquestra .

 A - E as suas canes , em que ponto do percurso chegaram ?

 JCP - Depois do Negresco estive no Casino Estoril e integrei grandes

 orquestras .
 Por esta altura trabalhei na orquestra de Fernando Carvalho , o

 autor de ' Tudo Isto  Fado ' .
 Fazia canes a quem me pedia , mas o meu esforo

 ia todo para a orquestra que entretanto formei , que tinha msicos como Jos de

 Magalhes ( trompete ) e Jos Rodrigues ( saxofone ) .
 Essa orquestra tinha quatro

 saxofones , um trombone , trs trompetes , piano , bateria e contrabaixo .
 Fizemos

 no Monumental o espectculo do aniversrio do programa 24 Hora , do Joo

 Martins .
 Foi um xito to grande que o pblico exigiu que tocssemos mais do

 que estava previsto .

 A - E quando comeou a colaborar na Emissora Nacional ?

 JCPP - A j estava maduro como msico , tinha 26 anos e fui convidado a

 integrar a orquestra do Ray Martino , que fez furor no final dos anos 50 .
 Com

 ele internacionalizei-me , porque a orquestra foi cumprir uma temporada a

 Espanha .
 Regressmos a Portugal para inaugurarmos ' A Canoa ' em Cascais e depois

 fomos para Luanda onde inaugurmos a boite do Hotel Continental .

 A - E o seu trabalho como compositor , quando comea ?

 JCP - Comecei a fazer canes com o Jos Correia , que tambm era cantor .
 Como

 me interessei sempre muito pela composio e arranjos , na minha juventude fiz

 um curso com Fernando Lopes Graa .
 No perodo em que estive no Negresco compus

 um fado-cano com letra do Guilherme Pereira da Rosa , director do jornal O

 Sculo .
 Chama-se ' Gostei de Ti ' e foi gravado pelo Carlos Ramos .
 Depois muita

 gente cantou esse tema , o Tristo da Silva e outros .
 J nos anos 60 fiz coisas

 para a Simone , Madalena Iglsias , Antnio Calvrio e para o tenor Jos Antnio .

 A - E o jazz ?

 JCP -  um amor que comeou aos cinco anos .
 Um dia o meu pai chamou-me para

 ouvir na telefonia o programa Hot Club , do Lus Vilas Boas , no Rdio Clube

 Portugus .
 Desde ento nunca mais sa do jazz .
 Participei na primeira jam

 session no Chave D'Ouro , organizada pelo Vilas Boas .
 Nesse dia actuou tambm o

 Art Carneiro , saxofonista e violinista , pai do Roberto Carneiro , que foi

 ministro da Educao .
 Em 1963 , fui apresentado pelo Vilas Boas na Emissora

 Nacional , com o meu sexteto que integrava msicos talentosos : Mrio Coelho ,

 trompete , Sebastio Prudente , sax tenor , lio Gevi , sax alto , Ral Paredes ,

 contrabaixo , Jorge Machado ao piano e eu na bateria .
 Vou gravar um disco com

 esse concerto na Emissora Nacional .

 A - E o concerto chega para um disco ?

 JCP - Vou tambm incluir no disco os meus programas de televiso .
 Foi a que

 apresentei o meu octeto e a primeira big band constituda em Portugal para

 tocar msica de jazz .
 Tinha msicos fabulosos : Carlos Meneses na guitarra ,

 Santos Rosa no sax tenor , Vtor Santos no sax alto , o extraordinrio Domingos

 Vilaa , sax tenor , Adlio Covas , trompete , Esteves Graa , trombone e muitos

 outros .
 Integrava tambm a big band o grande trombonista Edgar e o Helder

 Martins cantava uma pea .
 O disco vai mostrar a algumas pessoas que o jazz em

 Portugal tem msicos de alto nvel , h muitos anos .

 A - O Lus Vilas Boas teve alguma coisa a ver com os seus projectos de jazz ?

 JCP - Indirectamente , sim .
 Havia uma grande amizade e uma grande cumplicidade

 entre ns .
 Tnhamos o jazz em comum .
 Ouvi muitos discos com o Lus e fui com

 ele , em 1964 , ao Festival de Jazz de Newport .

 A - E depois foi estudar para os EUA ...

 JCP - Exactamente .
 Inscrevi-me no ano seguinte no Berckley College of Music , em

 Boston .
 Fui o primeiro portugus a entrar l .
 Felizmente , agora j l estudam

 mais msicos portugueses .
 Nesse ano voltei ao Festival de Newport e assisti a

 um concerto da orquestra de Count Basie , dirigida por Quincy Jones acompanhando

 Frank Sinatra .
 So coisas inesquecveis .

 A - E a sua actual orquestra de jazz ?

 JCP - Estou a reviver o tempo da minha orquestra do passado , quero mostrar que

 ainda c ando .
 Estamos a tocar msica da West Coast .
 Tenho msicos muito

 jovens .
 Lus Cunha , o trombonista , tem apenas 19 anos e  um grande msico .
 Mas

 so todos bons .
 Actumos recentemente no Teatro Aberto , com a Maria Viana e o

 Ro Kyao , e foi um xito .

 A - Tambm fez uma incurso na msica contempornea ...

 JCP - Bom , mas a foi s porque me interessou a linguagem e quis aprofundar os

 meus conhecimentos , por isso aprendi com nomes grandes da msica contempornea ,

 como o maestro Jorge Peixinho e o professor Louis Saguer .
 E de 1962 a 1985

 trabalhei muito com a Orquestra Sinfnica de Joanesburgo , fiz uma gravao da

 msica popular sinfnica que recentemente editei em disco .

 A - Edita os seus prprios discos ?

 JCP - No rescaldo da Tecla , criei a Jorsom onde edito coisas minhas , msica

 clssica portuguesa e bandas militares portuguesas .
 Gravo obras de grandes

 compositores portugueses que nunca ningum gravou .
 Tenho esta mania de

 preservar as nossas coisas .

 A - E o que aconteceu ao esplio da sua editora Tecla ?

 JCP - Vendi-o Tinha obras importantes de grandes autores .
 Comecei em 1967 , com

 um disco do Joo Maria Tudela e outro da Florbela Queiroz .
 Depois editei a

 Madalena Iglsias , numa altura em que trabalhava como arranjador para outras

 editoras .
 Foi ento que fiz os arranjos de um disco para a Philips , com o

 Carlos do Carmo .
 Foi o ' Por Morrer uma Andorinha ' .
 Depois ele veio para a Tecla

 e gravmos ' Gaivota ' que ganhou logo um prmio. Seguiu-se o ' Canoas do Tejo ' .

 Na Tecla tambm gravmos a ' Pedra Filosofal ' do Manuel Freire e a ' Tourada ' do

 Fernando Tordo .
 O Ramiro Valado no queria nem por nada que a cano fosse ao

 festival da RTP , mas eu impus a presena do Tordo .

 A - Como acabou a Tecla ?

 JCP - Eu acreditei 100 % no 25 de Abril e como era 100 % socialista decidi fazer

 uma fbrica de discos , para no ficarmos nas mos das multinacionais .
 Montei a

 fbrica em Rio de Mouro , em pleno Vero Quente de 1975 .
 Estava tudo a correr

 bem e em 1976 meti um director comercial na empresa e fui fazer trabalhos para

 a frica do Sul .
 Quando regressei estava tudo destrudo .
 Paguei as dvidas e

 acabou-se .
 Vendi todo o repertrio da Tecla .

 A - Agora qual  a sua principal actividade ?

 JCP - Os discos da Jorsom no so comerciais , por isso tenho de trabalhar mais

 que nunca .
 Trabalho sobretudo como orquestrador e arranjador e tenho trabalhado

 com coros amadores .
 A convite de Joaquim Lus Gomes estou a dirigir a Orquestra

 Tpica Scalabitana .
 Reorganizei a minha orquestra de jazz e l vamos indo .

 A - E o Ensino da Msica ?

 JCP - Fui professor de Introduo ao Jazz no Conservatrio Nacional , de 1988 a

 1990 .
 Depois apareceu uma nova direco que no gostava de jazz e eu mandei-os

 passear .
 Agora dou aulas numa escola particular .

 A - E msica para teatro e cinema ?

 JCP - J trabalhei muito nessa rea .
 Para o cinema fiz a banda sonora dos

 filmes ' Portugal Desconhecido ' , do Ral Faria , ' Campista em Apuros ' , do

 Herlander Peyroteo e ' Sarilho de Fraldas ' , do Constantino Esteves .
 Para teatro

 fiz a msica do ' Boa Noite Lisboa ' , um grande xito com o Humberto Madeira ,

 Eugnio Salvador , Berta Loran e outros grandes artistas , o ' Impostor Geral ' ,

 com o Ral Solnado , na inaugurao do Teatro Villarett e o ' Enfim Ss ' com o

 Carlos Cruz , Mrio Zambujal e Jos Duarte .

 A - E os seus jingles para a publicidade ?

 JCP - Fiz muita coisa com o Alexandre O'Neill , que me ofereceu vrios poemas .

 Musiquei um deles , o ' Tejo Saudade ' , que vou editar em breve .
 Trabalhei tambm

 com o Ral Calado , o Alexandre Cabral e o Alberto Ferreira .
 Mas ultimamente

 tenho feito muito pouco na rea da publicidade .

 PERFIL

 Um Jazzbandista a Solo

 Jorge Costa Pinto nasceu na msica e aos 70 anos dirige a sua orquestra de

 jazz , depois de ter percorrido todos os caminhos da msica popular urbana .
 Nos

 intervalos da actividade de msico , ainda tem tempo para se dedicar  sua

 editora discogrfica , a Jorsom .

 Baterista e pianista , Jorge Costa Pinto foi aluno de solfejo , cincias

 musicais , piano , harmonia e contraponto dos professores Fernando Lopes Graa ,

 Maria Victria Quintas e Francine Benoit .
 Com Jorge Peixinho e Louis Saguer

 estudou msica contempornea .
 Em 1965 , deu o grande salto na sua formao e fez

 o curso de orquestrao , direco de orquestra e harmonia modal no famoso

 Berkle Colege of Music , em Boston .
 Ainda nos EUA estudou percusso com Alan

 Dawson .

 Fundador da editora Tecla e Jorsom , Jorge Costa Pinto fez em Londres cursos de

 captao de som , corte de acetatos , galvanoplastia e prensagem .
 Tem no

 currculo de engenheiro de som dezenas de gravaes .

 Na RTP , a convite de Joo Soares Louro , foi assessor do Departamento de

 Programas Musicais e Recreativos na direco de Carlos Cruz e Maria Elisa .

  cooperador da Sociedade Portuguesa de Autores ( compositor ) e membro da Audio

 Engineering Society ( USA )

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