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 O FUTURO DA SAUDADE

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 A Reinveno da ptria no Fado da dispora

 por Aida Baptista

 Quando a minha amiga Z Viana me convidou para participar nesta tertlia , eu

 aceitei o convite e s depois me dei conta da insensatez da minha deciso .

 Pediu-me que falasse da situao do fado na dispora canadiana e deparo-me

 agora com uma plateia que sabe toda ela muito mais de fado do que eu .
 Comeo ,

 portanto , por vos confessar que no toco qualquer instrumento , no canto ( nem

 sequer no duche , como a maioria das pessoas ) e a minha formao musical

 quedou-se pelas aulas que faziam parte da estrutura curricular de quem na minha

 gerao frequentou os anos de escolaridade necessrios para poder ingressar

 numa universidade .
 Para alm disso , a minha relao com a msica resume-se 

 fruio que dela retiram todos os que se permitem trabalhar ou descansar com um

 fundo musical que pode variar de gnero , consoante o trabalho que esto a fazer

 ou o estado de esprito em que se encontram .

 Ao longo da minha j longa carreira profissional , a msica nunca foi

 propriamente alvo de qualquer pesquisa especfica a no ser a que , por fora de

 uma poca estudada , se prendia com o enquadramento do pensamento e mentalidade

 dessa mesma poca .
 Assim , tudo quanto possa aqui hoje dizer , no merece a

 avaliao que  dada a qualquer investigao de carcter mais profundo , mas 

 to s o resultado de um olhar crtico e atento de quem viveu durante 5 anos ,

 de forma muito intensa , a dispora por dentro .
 Nesse sentido e s nesse , devo

 dizer que sou uma espectadora perspicaz e interessada por todo o tipo de

 manifestao que indicie um conjunto de referncias levadas do espao bero -

 que cada um deixou ao emigrar - e que tenta perpetuar pelos diversos ancodouros

 a que arrimou .
 No esperem , portanto , que eu desenvolva uma qualquer teoria

 sobre o fado que se canta na dispora .
 Posso apenas dizer-vos que por terras da

 dispora canadiana se canta o fado .
 Acrescentarei : canta-se muito e canta-se

 bem !
 A comprov-lo , basta via internet dar um salto  agenda comunitria da

 imprensa local de expresso portuguesa para nos depararmos com as mais variadas

 e repetidas noites de fado organizadas praticamente todas as semanas .
 Impem-se

 j duas perguntas : Onde se canta o fado ?
 Quem canta o fado ?

 Antes de vos dizer onde se canta o fado , permitam-me que vos fornea alguns

 dados que vos ajudaro a situar no contexto a que me refiro .
 O Canad , como 

 sabido ,  o segundo maior pas do mundo .
 A provncia do Ontrio , com a capital

 em Toronto ,  a que tem maior densidade demogrfica .
 Foi tambm nesta provncia

 que se concentraram os cerca de 300 000 portugueses de uma comunidade avaliada

 em quase meio milho , entre portugueses e luso-canadianos .
 No se admirem ,

 portanto , se vos disser que s no Ontrio h para cima de uma centena de clubes

 e associaes portuguesas , sediando-se mais de trinta s em Toronto .

 Ser membro de direito de um grupo radicado em terra estranha , obriga a resolver

 situaes dirias de conflitualidade para consigo prprio , ultrapassar

 resistncias , absorver padres de conduta que ,  primeira vista , parecem

 incompatveis , numa aprendizagem tanto mais clere quanto maior  o sonho de um

 futuro que se quer recriado .
 Foi para responder a este tipo de situaes que

 desde cedo se formaram os primeiros clubes e associaes que , como no podia

 deixar de ser , passaram a traduzir a necessidade de aqueles que emigram se

 reunirem pela proximidade de origem , como se a voz da geografia constitusse

 ela prpria uma nova linguagem .
 No nos admiremos , portanto , que continentais

 se tenham juntado a continentais e ilhus a ilhus .
 Mas tal como os

 continentais no formam um todo e se dividem por regies , tambm os ilhus

 buscaram a vizinhana de pessoas da mesma ilha .
 E assim temos um proliferar de

 associaes , tantas quantas os marcos geogrficos que nos definem .
 Se a matriz

 comum  ser-se portugus , no podemos ignorar que o rojo  minhoto , a aorda 

 alentejana e a alcatra  terceirense .

 Chegados aqui tenho que introduzir um dado novo : de entre todos estes

 portugueses , 70 % so de origem aoriana e , entre os aorianos , a maior

 percentagem  da ilha de S. Miguel .
 No tendo o fado propriamente uma raiz

 aoriana , e sendo a chamarrita , a charamba e a sapateia , os registos meldicos

 mais caractersticos deste arquiplago , como entender , ento , que haja um

 pblico cada vez mais predisposto a ouvir fado ?
 A explicao ,  falta de outra ,

 s se pode encontrar na universalidade da msica como nica linguagem

 pacificamente aceite independentemente das tradies dominantes numa

 determinada regio .
 Por isso , Luciana Machado , por exemplo , de origem aoriana ,

  uma das vozes mais conhecidas e reconhecidas na Comunidade de Toronto , tendo

 sido h bem pouco tempo alvo de uma justa e merecida homenagem .

 Referida que foi uma das vozes do fado , tentarei ento satisfazer a curiosidade

 de quem se mantm ainda suspenso da resposta  pergunta : Quem canta o fado ?

 Um primeiro grupo  aquele que pode ser considerado o responsvel pela difuso

 e manuteno do fado como elemento vivo por terras da dispora : pessoas que

 emigraram numa fase j adulta e quase sempre com alguma experincia pessoal ou

 familiar ligada ao fado .
 No fundo , consideram-se portadores de um testemunho

 que se sentem obrigados a transmitir como um prolongamento da ptria que se

 propuseram cumprir noutras paragens .
 Se para ns este grupo  fcil de entender

  luz de um mercado da saudade que insiste em preservar todas as referncias

 que carregou na bagagem , o mesmo se no poder dizer de quem nasceu j em terra

 alheia e tem como lngua materna o ingls que , como sabemos , no  lngua em

 que se cante o fado .
 Por isso , cada ano que passa , no deixa de me surpreender

 por haver sempre estudantes de lngua portuguesa a fazerem as suas

 apresentaes sobre o fado e sobre a maior intrprete de sempre do fado -

 Amlia Rodrigues .
 E h tambm quem continue a escrever ' A minha experincia com

 o fado comeou desde que eu nasci .
 A minha me cantava sempre fados enquanto

 fazia os trabalhos de casa .
 Enquanto lavava a roupa , preparava a acomida ou

 lavava a loia , cantava .
 Quando eu era novinha , achava as canes muito

 tristes , e algumas faziam-me chorar .
 Ao longo dos anos , comecei a gostar de

 fado .
 Mais tarde , comecei a cantar fado tambm ' .
 Janet Silveira , in Origens ,

 Maio 2003

 Quase apetece dizer que a dispora mais no  do que uma caixa de ressonncia

 de tudo quanto acontece no pas de origem .
  semelhana do que se passa em

 Portugal onde cada vez h mais gente nova a interessar-se por fado e a cantar

 fado , tambm na dispora encontramos , cada vez com mais frequncia , gente nova

 a querer entrar pelos caminhos do fado .
 Em alguns casos , gente muito nova

 mesmo .
 Falo-vos , por exemplo da Vernica : 12 anos , nascida no Canad ,

 ascendncia cruzada de pai portugus e me de alma moambicana .
 Como a Janet , o

 gosto pelo fado foi bebido nas referncias musicais do ambiente familiar , num

 processo em que a memria continua a ser o nosso vnculo com o tempo .
 Qualquer

 que seja a relao de pertena a estabelecer com o novo espao , quase sempre

 nos comportamos como um rio , ou seja , devolvemos a jusante o resultado de tudo

 quanto foi recebido e depositado no percurso de crescimento a montante .
  bvio

 que nesse percurso se vo incorporando novos cones nem sempre culturalmente

 bem aceites e vistos , na maioria das vezes como intrusos .
 O segredo estar em

 saber conciliar inovao e tradio na proporo exacta da coabitao pacfica

 entre passado e presente .

 O processo de integrao  sempre doloroso : implica rupturas e cortes com o

 passado , por muito que se insista em manter a ponte entre as duas margens .
 Mas

 tambm  verdade que quanto  maior a necessidade de nos tornarmos iguais , mais

 forte  o sentimento de nos mantermos diferentes , por mais prolongados que

 sejam os banhos de aculturao em que nos mergulham .
 Condenados a verbalizar

 silncios em malabarismos gestuais , o fado foi a voz da nossa inquietao , um

 dos elementos identitrios a marcar a diferena .

 Ambiente intimista , luzes apagadas , velas acesas , silncio que se vai cantar o

 fado !
 De olhos fechados , canta-se o fado .
 De olhos fechados , ouve-se o fado .

 Voamos para onde quisermos nas asas de uma viela da bomia mais escondida dum

 bairro de Lisboa porque o fado  sempre a reinveno da Ptria ausente no

 gemido de uma guitarra .

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  2003 Tertulia do fado , Lisboa , Portugal

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