 Tudo isto  fado

 Diz-se que fado vem de fatu , palavra latina que significa destino .
 E

 que  fado dos portugueses cantar o fado .
 Fado  afinal aquilo que 

 fatal , o que necessariamente tem de acontecer .
 A ndole plangente e

 fatalista daquela que se diz ser a cano de Lisboa no pode assim ser

 outra , porque fado  fado , e o resto  inveno de escriturrios ,

 engomadinhos , temerosos de sangue , de lgrimas e do odor a vinho mal

 cozido .
 Aquilo que cantavam em tempos que j l vo , ou deviam ir , os

 estudantes de Coimbra no era fado : era balada , tristonha e piegas ,

 chansonette de quem no sabe muito bem que coisa  espetar , apenas por

 paixo , uma faca nas tripas de algum .
 E meter toda a raiva , todo o

 sofrimento , numa s cantiga .

 Esta conversa em tom de l menor vem a propsito de uma das chamadas

 " caractersticas do ser portugus " da qual tardamos em nos libertar .
 A

 saber : a chateza .
 Para o brasileiro comum , portugus  sinnimo de

 chato , de fatalista , objecto de piada que se move ao som da guitarra e

 come bacalhau acompanhado por uma voz dolente que debita , no gravador

 de pilhas , um " Ai Mouraria !
 " qualquer .
 Para o japons mais culto

 Portugal  , para alm das correrias loucas da Rosa Mota e dos

 chilreios dos Madredeus , tambm apenas fado .
 Ou  Amlia .
 Mas Amlia

 no  fado : porque cantava , porque canta , com uma elevao , um olhar

 altivo , que no so prprios do fado .
 Amlia  , perdoe-se o

 sacrilgio , mais canto lrico .
 Fado-fado  antes Severa , coitada , 

 Marceneiro , com a voz a precisar de uma colherada de mel , talvez a

 Hermnia quando estava com os copos ,  Maria da Visitao ,  Z

 Porfrio ,  Ginginhas , so outros tantos malandros igualmente

 desconhecidos do excelentssimo pblico .
 Fado  o que faz quem puxa

 pela voz quando sente ganas de puxar da pistola .
 Ou quem apenas quer

 chorar perdidamente num ombro de algum .

 Porque mora em boa parte da lusa ndole essa atraco pelo

 infelizmente inevitvel , pela mais pura desgraa , pela triste sina ,

 pelo ai Jesus quem nos acode .
 Os saudosistas , que Teixeira de Pascoaes

 comandava , nada inventaram : apenas elevaram um pouco o estatuto de uma

 atitude nacional que , vendo bem ,  possvel remontar ao rei Afonso

 Henriques , avanando s investidas , passo em frente passo atrs , para

 no estar muito tempo fora de casa e longe do braseiro .
 E os

 portugueses que emigram fazem-no apenas para poderem voltar de vez e

 em grande  doura triste da ptria que os espera .
 L longe , em

 Manitoba , Falls River ou Uagadugu , arrepiam-se todos - enquanto pensam

 no regresso - quando a seleco das quinas ganha por 2-1 ao onze do

 Liechtenstein .

 [ INLINE ]

 Da , por certo , o xito actual de reality shows e concursos

 televisivos .
 Tanto faz que se mostrem diante da nao os esforos

 desesperados do jovem que quer a todo o custo chamar a ateno

 afectiva de uma Neide Vanessa qualquer , que se conte a lgubre

 histria da moa , coitadinha , forada por um malandro de bigode a

 actos contra-natura , ou a daquele rapaz que se injectava apenas por

 causa das ms companhias ( e que assaltou de estico duas velhinhas ,

 mas no foi por mal ) .
 Ou ainda a da senhora , pobrezinha , que procura

 agora os avs que nunca teve .
  , no fundo , tudo boa gente , que se

 presta em pblico a servir de inspirao para a letra desgraada de um

 fado .
 Nem mesmo aquele chimpanz que at h algum tempo danava e dava

 urros , aos sbados  noite , na pantalha da SIC , fugia ao cenrio : as

 suas idas e vindas apenas serviam para que se sentisse maior emoo

 quando na vida real , apagadas as luzes , guitarras e violas cumprissem

 a sua funo .

 Quanto a esse pas , um tanto desmiolado , que ouve Jorge Palma ou P. J .

 Harvey , que se rebola ao ritmo brbaro de canes cubanas ou de

 msicas de pretos , que corta estradas em protesto ou na defesa dos

 seus direitos , que escapa a essa absoluta essncia da predestinada

 desgraa , no  pas nem  nada .
  inveno do exterior .
 Um malefcio

 da Internet e da TV por cabo .
 Porque para a maioria dos cidados -

 fora das folias importadas do Carnaval ou das santas carraspanas em

 honra do padroeiro - tudo quanto mexe , tudo o que existe , deve ser

 triste .
 Efectivamente triste , pois por isso existe .
 E por isso  fado .

 Rui Bebiano

 e-mail : rbebiano@mail.telepac.pt

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