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 Quarta , 15 Junho 2005

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 Ser e parecer

 O novo disco de Msia , Drama Box ,  lanado no prximo dia 6 de Junho .
 Numa

 altura em que se diz mais pacificada , a fadista ?
  assim que se sente ,

 independentemente do que os outros pensam ?
 arrisca-se a mostrar a sua voz

 noutros registos

 Gabriela Loureno / VISO n  638 26 Mai .
 2005

 Alm de fados , Drama Box tem boleros e tangos - gneros diferentes mas que

  cantam os mesmos sentimentos  .
 Este  um disco que Msia , 49 anos , dedica a

 sua me , Lusa Velez , catal e bailarina de msica clssica espanhola , que

 actualmente vive em Barcelona .
  Desde a minha infncia no Porto encheu a minha

 vida de msicas que me ajudam a sobreviver quando a vida nos morre .
 No posso

 imaginar melhor herana. 

 Viso : A sua me j ouviu o disco ?

 Msia : Ainda no , porque quero estar a olhar para ela quando isso acontecer .

 Vou lev-lo pessoalmente .
 Foi pela minha me que comecei a ouvir fado e a

 gostar , foi atravs da minha me que despertei para a msica .

 Que recordaes guarda dessa infncia cheia de msica ?

 Tive uma infncia muito especial .
 O meu pai , que j morreu , era portugus ,

 casou com a minha me , espanhola , e foram viver para o Porto .
 Divorciaram-se

 quando eu tinha 4 anos e foi ela quem ficou a tomar conta da famlia , at a

 nvel econmico .

 Mas depois de casar com o seu pai , deixou de danar ...

 Depois do divrcio retomou a carreira e comeou a viajar imenso .
 Quem ficava a

 tomar conta de mim , no Porto , era a minha av catal , que tinha sido actriz

 frvola , digamos assim .
 Fazia umas coisas com duplo sentido e muito engraadas .

 Acho que tenho muitas coisas dela , muitas das piruetas verbais que fao no

 palco vm dela .
 E a minha me era aquela mulher lindssima e maravilhosa , que

 ia e vinha , nunca estava muito tempo presente .

 Que emoes lhe transmitem os trs gneros musicais deste disco ?

 Cantam os mesmos sentimentos : a vida , a morte , o amor , a saudade , a separao ,

 o desamor , o abandono , a nostalgia ...
 Mas acho os boleros mais sensuais , mais

 cantados com a pele , muito mais sussurrados .
 Para o fado , no tenho

 definio ...
  sempre uma espcie de bruma c dentro , mas no  desagradvel , 

 uma sensao insacivel , qualquer coisa intocvel ...
 E os tangos so mais

 cerebrais , mais afirmativos .
 Eu j cantava este tipo de msica antes de 1990 ,

 quando vivia em Madrid .
 Depois , quando voltei , regressei para cantar fado e ter

 um repertrio prprio .

 O que se passou ento para , ao fim destes 15 anos a cantar fado , voltar aos

 boleros e aos tangos ?

 Durante os primeiros anos - porque o fado no estava na moda , porque o meu

 discurso , a minha esttica , as minhas escolhas artsticas eram diferentes -

 obrigaram-me a uma travessia de grande solido .
 No estava a fazer um tipo de

 repertrio que fosse um xito imediato ...
 Ainda hoje no estou ...
 Passei por

 muitas dvidas , invisibilidade ...
 Agora , estou numa altura de pacificao .
 No

 preciso da aprovao dos meus pares , nem de provar nada .
 Se me dissessem para

 fazer isto h dez anos diria ,  ai , no , assim vo dizer que no sou fadista  .

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 A caixa de dramas

 fS Dois boleros , trs tangos e nove fados compem Drama Box

 fSFogo Preso , com poema de Vasco Graa Moura ,  cantado por Msia e dito , nas

 suas lnguas , por Maria de Medeiros , a espanhola Carmen Maura , a francesa

 FannyArdant , a alem UteLemper e a inglesa Miranda Richardson

 fSE se a Morte me Despisse , com msica de Mrio Pacheco , foi construdo por

 Msia com versos de vrios poemas de Natlia Correia

 fSMsia volta a cantar o poema Fado Adivinha II , de Jos Saramago , mas agora

 com outra msica

 fS Duas estreias de escritores no universo do fado : Se o Nosso Mundo Anoiteceu

 de Jos Lus Peixoto e Corao Agulha de Paulo Jos Miranda

 fS Uma fotografia de SophieCalle abre o booklet do disco

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 Afirmou numa entrevista  No sei se sou fadista , mas sei que canto

 fado  .
 Ainda tem dvidas dessas ?

 O meu problema sempre esteve - sobretudo num pas conservador , onde a

 imagem marca muito - entre o ser e o parecer .
 No parecia fadista ,

 portanto no podia ser fadista .
 No me auto-intitulo fadista , o que

 digo  que sou uma intrprete de fado .
 Haver momentos especiais ...

 Por exemplo , quando algum se levanta e grita  ah , fadista !
  - e so

 muitas as vezes - , a , sou fadista .
 Se as pessoas estiverem preparadas

 para sentir emoo e no estiverem bloqueadas , talvez me considerem

 fadista , sim .

 Mas , esquecendo as pessoas , no se sente fadista ?

 Ai , sinto-me fadista , claro !
 Sinto-me fadista mesmo .
 E tantas

 influncias que tive na vida para no o ser ...
 Filha de me espanhola ,

 a forte influncia cultural e artstica veio do lado materno , depois

 fui viver para Barcelona e Madrid , viajo por todo o mundo .
 Podem dizer

 qualquer coisa do meu trabalho , mas falta de coerncia no tem havido .

 Toda a gente me alertava , nas editoras ,  porque  que quer cantar

 fado , se o fado no est na moda ?
 O fado no vende , o fado no tem

 prestgio  .
 Seria uma masoquista enorme se durante 15 anos insistisse

 em cantar fado e no me sentisse fadista .

 Agora estamos na situao quase oposta : as editoras procuram fadistas .

  verdade .
 H uma inflao sobretudo de vozes femininas .
 Agora , o fado

 abre portas , vende , tem boa imagem no estrangeiro .
 At pessoas que no

 so fadistas , que nunca quiseram cantar fado , insistem nisso .
 Se

 estivermos atentos s modas  uma desgraa .
 O fado no vive s das

 pessoas que tm um estatuto internacional e que so conhecidas , mas do

 grande nmero de annimos que o cantam .
 Cada vez que vou  Tasca do

 Careca fico fascinada .

 Neste disco no existe tambm uma reaco ao facto de o fado estar na

 moda ?
 Escolhe um caminho diferente ...

 Isso j vem do disco anterior , Canto , no era fado .
 Mas acho que h

 fado em quase tudo o que canto .

  curioso dizer isso , porque , neste disco , em Te Extrao , um bolero

 de Armando Manzanero , h um verso que canta como se fosse fado .
 Foi

 propositado ou saiu-lhe da alma fadista ?

 Nos tangos isso tambm existe .
 Sai-me assim e no impeo .
 De vez em

 quando , h essas contaminaes , que vm da nossa prpria vivncia .
 Da

 mesma forma , acho que , por ter ouvido muita msica francesa , tenho uma

 maneira de cantar fado que  quase , por vezes , a de uma diseuse .

 ...
 contaminaes que surgem espontaneamente ...

 Claro , depois  que se pensa nelas .
 Por norma , fao tudo  ltima da

 hora .
 Os meus msicos j sabem que  quase uma invaso quando me pedem

 a lista do que vou cantar - sei que  preciso para as luzes e tudo o

 mais , mas quero cantar aquilo que me apetecer .
 Sou terrvel .
 Corto a

 franja no dia do concerto e , se tiver um pequeno discurso a fazer ou

 quiser dizer qualquer coisa , decoro-o entre o camarim e o palco .

 Aprendi a apresentar o concerto em vrias lnguas e memorizo aquilo

 cinco minutos antes de comear .

 E depois esquece ?

 Em japons lembro-me perfeitamente , porque j fui 15 vezes ao Japo ,

 mas noutras lnguas esqueo .
 Tenho de me lembrar como se diz

  lgrima  , porque h sempre dois ou trs fados de que digo o nome .

 O Japo  uma das suas paixes , no  ?
 Gosta da msica de l ?

 Gosto muito e ouo muito .
 Os japoneses esto sempre a copiar - e

 atravs disso acho que viajam pelo mundo - msicas de outras culturas ,

 o que me deu a ideia de cantar um disco todo em japons .
  Tambm

 podemos imitar-vos !
  [ risos ] A nvel esttico , gosto muito do Japo :

 ou so muito kitsch ou so muito minimalistas .
 Tambm sou uma pessoa

 de extremos , portanto percebo bem isso .
 Ainda por cima , como viajo

 muito , sou uma esponja , adoro coisas de outras culturas .
 E gostava que

 se percebesse que , por se ser assim , no se  menos portugus .
 Cabe

 tudo .

 At neste disco se nota essa paixo , numa fotografia ...

 Foi um acaso extraordinrio .
 Gosto muito de fotografia - se no fosse

 cantora , acho que era fotgrafa - e vi no Libration um novo

 fotgrafo , rasguei a pgina e guardei-a .
 Ele fotografava O ventre de

 Tquio .
 Era assim que se chamava o artigo .
 Quando fomos tirar as

 fotografias no Hotel Ritz , em Lisboa , pus aquele recorte mas nem

 reparei .
 Depois , achei que era coerente [ risos ] .

 Que histria  a deste disco , que nos  contada no s pelas msicas

 mas tambm pelas fotografias do booklet ?

  a histria de uma mulher que vive situaes afectivas e emotivas

 muito fortes e que est num hotel .
 Escusado ser dizer que isso tambm

 remete para o meu quotidiano itinerante .
 As fotografias podem ser

 interpretadas como se quiser .
 H a fotografia da SophieCalle , que

 pedi para utilizar .
 As outras so do Francisco Arago , com quem

 trabalho h quase 12 anos .
 Nos concertos tambm estou a construir esse

 ambiente .
 Propus aos meus msicos no serem os msicos da Msia ,

 vestidos de preto , mas sim clientes do hotel .
 Cada um tem a sua

 personalidade .
 H um que fuma e queima as colchas das camas -

 portanto , esse  o msico pirmano que j no  aceite em nenhum hotel

 e tem de estar no Drama Box Hotel .
 Outro , vestido com uma gabardina ,

 tem um carcter mais srio ,  como se fosse um inspector das finanas

 que fez um grande desfalque e se escondeu ali - e , ento , eu dei-lhe

 um instrumento e disse-lhe  recomece a sua vida  .
 Outro ainda nasceu

 num hotel e nunca saiu de l .
 O msico que toca piano e acordeo  o

 marinheiro que perdeu a graa do mar , porque , de um momento para o

 outro , enjoou - ento , atravs do acordeo , segue as ondas e a

 cadncia do mar .
 Eu prpria sou uma hspede do hotel .

 ...
 tambm com o seu drama ...

 Ai , claro. [ risos ] Cheia de dramas me deito , cheia de dramas me

 levanto. [ risos ] Tambm sou uma personagem .
 Mesmo a prpria voz tem

 uma dramaturgia neste disco .
 Se ouvirmos a minha voz no primeiro

 bolero , num registo muito grave , ou a ouvirmos noutra msica , podiam

 ser cantoras diferentes .
 E eu tambm sou uma hspede daquele hotel .

 Com que dramas ?

 Os meus. [ risos ] Mas sempre atravs da personagem .
 Nunca directos .

 As minhas lgrimas no vo para o palco .

 Como foi pr msicos de fado a tocar boleros e tangos ?

 Este disco tem dois motivos : um  ser a prenda para a minha me , outro

  uma noite em Zagreb , em que , depois de um concerto , estava tudo

 fechado e nos sentmos numa esplanada onde as cadeiras estavam com

 correntes e nos pusemos a cantar boleros no meio da praa principal .

 Os meus msicos j me andavam a chatear h muito tempo para fazer um

 disco de boleros , porque adoram .
 Tenho uma enorme sorte porque eles

 so corajosos , cmplices e bons msicos .
 Os tangos so complicados ,

 mas eles l arranjam maneira de me seguir em todas as minhas

 aventuras .
 So uma outra famlia .

 Fogo Preso , escrito por Vasco Graa Moura , alm de ser cantado por

 si ,  declamado por Maria de Medeiros , FannyArdant , UteLemper ,

 Carmen Maura e Miranda Richardson .
 O que quis fazer ?

 Precisamente por este disco ter uma vertente teatral to forte e por ,

 nos espectculos j ter vontade de dizer uma frase no meio da msica ,

 apeteceu-me ouvir , dito , um poema que canto .
 Como este disco 

 declinado no feminino , convidei estas dramaqueens .
 J conhecia

 pessoalmente a Maria de Medeiros , a Miranda Richardson e a UteLemper .

 Agora , conheo tambm a FannyArdant , e com a Carmen Maura s falei ao

 telefone .
 So actrizes que fazem papis fortes .
 Para mim , como

 produtora do disco , foi a maior surpresa artstica que tive .
 Tm todas

 uma energia muito diferente .
 Parecem poemas diferentes .
 A Carmen Maura

  muito almodovariana , a UteLemper parece um animal selvagem ...

 No que toca aos poemas , temos , mais uma vez , autores contemporneos .

 Como surgiram estas colaboraes ?

 O Vasco Graa Moura j tinha escrito para o Canto .
 Pedi-lhe um poema

 que falasse de amor numa situao limite , de sentimentos radicais .
 A

 Rosa Lobato Faria , uma colaborao de h muitos anos , viu um programa

 de televiso onde eu dizia que preferia cantar as cicatrizes e no as

 feridas abertas , e fez-me o

 poema que se chama Cicatrizes .
 H duas pessoas novas nestas lides , com

 as quais queria trabalhar : uma  o Paulo Jos Miranda que me fez um

 poema que no rimava , mas lindo de morrer ...
 foi o Mrio Pacheco que o

 musicou - ele fez a maior parte das msicas do disco e acho que  ,

 neste momento , o maior compositor de fados .
 Outra  o Jos Lus

 Peixoto , em que digo , no canto , a primeira quadra , porque aquela

 mtrica era um bocado complicada de ser cantada .

 H tambm E se a Morte me Despisse , com poemas de Natlia Correia .

 D-me imenso gozo cantar .
 Peguei na obra dela , fui buscar versos e

 constru quadras .
 Se fosse morrer ,  a mensagem que deixava para o meu

 pblico :  Ficou entre ns o tempo que fica uma andorinha  .

 E tambm um texto de Jos Saramago ...

 ...
 que retomo .
 Fao muitas vezes isso , porque esta arquitectura do

 fado  muito interessante .
 J o tinha cantado num disco , em 1993 , mas

 com outra msica .
 E a msica onde canto o poema de Jos Lus Peixoto

 j fora cantada com uma letra do Jorge Palma , que tambm pela primeira

 vez tinha escrito para fado .
 A riqueza do fado tradicional est em

 permitir uma linguagem contempornea e releituras de temas .
 A msica 

 uma espcie de base onde nos podemos apoiar para voar e onde podemos

 ser criativos .
 Das coisas que mais me irrita so as pessoas que

 insinuam que o fado tradicional  pobre .

 Em Ritual , o fado Cor de Lua era escrito por si .
 No voltou a

 escrever ?

 Nesse disco , 90 % eram poetas populares e atrevi-me , ali , no meio , a

 fazer uma letra .
 Tambm teve a ver com uma situao muito difcil por

 que passei pessoalmente em 2000 .
 Mas foi uma excepo .
 No tenho

 qualidade potica. [ # FimNoticia ]

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 O disco que se segue

 Colectnea de vrios concertos gravados pelo mundo durante os ltimos 15 anos ,

 O Beijo da Formiga ser um disco especial .
   um convite ao pblico a entrar no

 camarim , subir ao autocarro das tournes , assistir s provas de som  , explica a

 fadista .
 Para o guiar nessa viagem , Msia est a escrever um livro que

 acompanhar a edio .
  Sou fascinada por padres e tenho fotografias das

 alcatifas dos hotis , por exemplo .
 H coisas que no tm nada a ver com o

 palco , mas de que falo no livro , como o mercado das aves em HongKong .
 E falo

 de outras que vou sabendo ...
 Em Hamburgo h um cisne autntico que se apaixonou

 por um cisne de madeira .
 Esta  a prova de que no somos s ns os humanos que

 fazemos estes erros terrveis no amor. [ risos ]  Este j  um projecto antigo ,

 mas Msia garante que no ser mais adiado .
  Em Junho , completo 50 anos e quero

 mesmo faz-lo. 

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