 12-4-2001

 AMLIA RODRIGUES

 ( 1920 - 1999 )

 CANES :

 Medo : Quem dorme  noite comigo

 Estranha forma de vida

 Libertao

 H festa na mouraria

 No  desgraa ser pobre

 Gaivota

 Com que voz

 Madrugada de Alfama

 Ai mouraria

 Fado portugus

 Maria : Lisboa

 Barco negro

 Povo que lavas no rio

 Meu amor , meu amor

 No peas demais  vida

 Pode ver um dossier sobre a cantora aqui .

 Medo : Quem dorme  noite comigo

 Letra : Reinaldo Ferreira

 Msica : Alain Oulman

 Quem dorme  noite comigo ?

  meu segredo ,  meu segredo !

 Mas se insistirem , desdigo .

 O medo mora comigo ,

 Mas s o medo , mas s o medo !

 E cedo , porque me embala

 Num vaivm de solido ,

  com silncio que fala ,

 Com voz de mvel que estala

 E nos perturba a razo .

 Que farei quando , deitado ,

 Fitando o espao vazio ,

 Grita no espao fitado

 Que est dormindo a meu lado ,

 Lzaro e frio ?

 Gritar ?
 Quem pode salvar-me

 Do que est dentro de mim ?

 Gostava at de matar-me .

 Mas eu sei que ele h-de esperar-me

 Ao p da ponte do fim .

 [ INLINE ]

 Estranha forma de vida

 Letra e msica : Alfredo Duarte e Amalia Rodrigues

 Foi por vontade de Deus

 que eu vivo nesta ansiedade .

 Que todos os ais so meus ,

 Que  toda a minha saudade .

 Foi por vontade de Deus .

 Que estranha forma de vida

 tem este meu corao :

 vive de forma perdida ;

 Quem lhe daria o condo ?

 Que estranha forma de vida .

 Corao independente ,

 corao que no comando :

 vive perdido entre a gente ,

 teimosamente sangrando ,

 corao independente .

 Eu no te acompanho mais :

 para , deixa de bater .

 Se no sabes aonde vais ,

 porque teimas em correr ,

 eu no te acompanho mais .

 Libertao

 Letra : David Mouro Ferreira

 Msica : Santos Moreira

 Fui  praia , e vi nos limos

 a nossa vida enredada :

  meu amor , se fugimos ,

 ningum saber de nada .

 Na esquina de cada rua ,

 uma sombra nos espreita ,

 e nos olhares se insinua ,

 de repente uma suspeita .

 Fui ao campo , e vi os ramos

 decepados e torcidos :

  meu amor , se ficamos ,

 pobres dos nossos sentidos .

 Ho-de transformar o mar

 deste amor numa lagoa :

 e de lodo ho-de a cercar ,

 porque o mundo no perdoa .

 Em tudo vejo fronteiras ,

 fronteiras ao nosso amor .

 Longe daqu , onde queiras ,

 a vida ser maior .

 Nem as esp'ranas do cu

 me conseguem demover

 Este amor  teu e meu :

 s na terra o queremos ter .

 H festa na mouraria

 Letra e msica : A. Amargo ; A Duarte

 H festa na Mouraria ,

  dia da procisso

 da senhora da sade .

 At a Rosa Maria

 da rua do Capelo

 parece que tem virtude .

 Naquele bairro fadista

 calaram-se as guitarradas :

 no se canta nesse dia ,

 velha tradio bairrista ,

 vibram no ar badaladas ,

 h festa na Mouraria .

 Colchas ricas nas janelas ,

 ptalas soltas no cho .

 Almas crentes , povo rude

 anda a f pelas vielas :

  dia da procisso

 da senhora da sade .

 Aps um curto rumor

 profundo silncio pesa :

 por sobre o largo da guia

 passa a Virgem no andor .

 Tudo se ajoelha e reza ,

 at a Rosa Maria .

 Como que petrificada ,

 em fervorosa orao ,

  tal a sua atitude ,

 que a rosa j desfolhada

 da rua do Capelo

 parece que tem virtude .

 No  desgraa ser pobre

 Letra e msica : Norberto Arajo

 No  desgraa ser pobre ,

 no  desgraa ser louca :

 desgraa  trazer o fado

 no corao e na boca .

 Nesta vida desvairada ,

 ser feliz  coisa pouca .

 Se as loucas no sentem nada ,

 no  desgraa ser louca .

 Ao nascer trouxe uma estrela ;

 nela o destino traado .

 No foi desgraa traz-la :

 desgraa  trazer o fado .

 Desgraa  andar a gente

 de tanto cantar , j rouca ,

 e o fado , teimosamente ,

 no corao e na boca .

 Gaivota

 Letra : Alexandre O'Neill

 Msica Alain Oulman

 Se uma gaivota viesse

 trazer-me o cu de Lisboa

 no desenho que fizesse ,

 nesse cu onde o olhar

  uma asa que no voa ,

 esmorece e cai no mar .

 Que perfeito corao

 no meu peito bateria ,

 meu amor na tua mo ,

 nessa mo onde cabia

 perfeito o meu corao .

 Se um portugus marinheiro ,

 dos sete mares andarilho ,

 fosse quem sabe o primeiro

 a contar-me o que inventasse ,

 se um olhar de novo brilho

 no meu olhar se enlaasse .

 Que perfeito corao

 no meu peito bateria ,

 meu amor na tua mo ,

 nessa mo onde cabia

 perfeito o meu corao .

 Se ao dizer adeus  vida

 as aves todas do cu ,

 me dessem na despedida

 o teu olhar derradeiro ,

 esse olhar que era s teu ,

 amor que foste o primeiro .

 Que perfeito corao

 no meu peito morreria ,

 meu amor na tua mo ,

 nessa mo onde perfeito

 bateu o meu corao .

 Com que voz

 Msica : Alain Oulman

 Letra : Cames

 Com que voz chorarei meu triste fado ,

 que em to dura paixo me sepultou .

 Que mor no seja a dor que me deixou

 o tempo , de meu bem desenganado .

 Mas chorar no estima neste estado

 aonde suspirar nunca aproveitou .

 Triste quero viver , poi se mudou

 em tisteza a alegria do passado .

 Assim a vida passo descontente ,

 ao som nesta priso do grilho duro

 que lastima ao p que a sofre e sente .

 De tanto mal , a causa  amor puro ,

 devido a quem de mim tenho ausente ,

 por quem a vida e bens dele aventuro .

 Madrugada de Alfama

 Letra : David Mouro-Ferreira

 Msica : Alain Oulman

 Mora num beco de Alfama

 e chamam-lhe a madrugada ,

 mas ela , de to estouvada

 nem sabe como se chama .

 Mora numa gua-furtada

 que  a mais alta de Alfama

 e que o sol primeiro inflama

 quando acorda  madrugada .

 Mora numa gua-furtada

 que  a mais alta de Alfama .

 Nem mesmo na Madragoa

 ningum compete com ela ,

 que do alto da janela

 to cedo beija Lisboa .

 E a sua colcha amarela

 faz inveja  Madragoa :

 Madragoa no perdoa

 que madruguem mais do que ela .

 E a sua colcha amarela

 faz inveja  Madragoa .

 Mora num beco de Alfama

 e chamam-lhe a madrugada ;

 so mastros de luz doirada

 os ferros da sua cama .

 E a sua colcha amarela

 a brilhar sobre Lisboa ,

  como a estatua de proa

 que anuncia a caravela ,

 a sua colcha amarela

 a brilhar sobre Lisboa .

 Ai mouraria

 Letra e msica : Amadeu do Vale , Frederico Valrio

 Ai , Mouraria

 da velha Rua da Palma ,

 onde eu um dia

 deixei presa a minha alma ,

 por ter passado

 mesmo ao meu lado

 certo fadista

 de cor morena ,

 boca pequena

 e olhar troista .

 Ai , Mouraria

 do homem do meu encanto

 que me mentia ,

 mas que eu adorava tanto .

 Amor que o vento ,

 como um lamento ,

 levou consigo ,

 mais que ainda agora

 a toda a hora

 trago comigo .

 Ai , Mouraria

 dos rouxinis nos beirais ,

 dos vestidos cor-de rosa ,

 dos preges tradicionais .

 Ai , Mouraria

 das procisses a passar ,

 da Severa em voz saudosa ,

 da guitarra a soluar .

 Fado portugus

 Msica Alain Oulman

 Letra : Jos Rgio

 O Fado nasceu um dia ,

 quando o vento mal bulia

 e o cu o mar prolongava ,

 na amurada dum veleiro ,

 no peito dum marinheiro

 que , estando triste , cantava ,

 que , estando triste , cantava .

 Ai , que lindeza tamanha ,

 meu cho , meu monte , meu vale ,

 de folhas , flores , frutas de oiro ,

 v se vs terras de Espanha ,

 areias de Portugal ,

 olhar ceguinho de choro .

 Na boca dum marinheiro

 do frgil barco veleiro ,

 morrendo a cano magoada ,

 diz o pungir dos desejos

 do lbio a queimar de beijos

 que beija o ar , e mais nada ,

 que beija o ar , e mais nada .

 Me , adeus .
 Adeus , Maria .

 Guarda bem no teu sentido

 que aqui te fao uma jura :

 que ou te levo  sacristia ,

 ou foi Deus que foi servido

 dar-me no mar sepultura .

 Ora eis que embora outro dia ,

 quando o vento nem bulia

 e o cu o mar prolongava ,

  proa de outro velero

 velava outro marinheiro

 que , estando triste , cantava ,

 que , estando triste , cantava .

 Maria : Lisboa

 Msica : Alain Oulman

 Letra : David Mouro Ferreira

  varina , usa chinela ,

 tem movimentos de gata ;

 na canastra , a caravela ,

 no corao , a fragata .

 Em vez de corvos no chaile ,

 gaivotas vm pousar .

 Quando o vento a leva ao baile ,

 baila no baile com o mar .

  de conchas o vestido ,

 tem algas na cabeleira ,

 e nas velas o latido

 do motor duma traineira .

 Vende sonho e maresia ,

 tempestades apregoa .

 Seu nome prprio : Maria ;

 seu apelido : Lisboa .

 Barco negro

 Msica : Caco Velho : Piratini

 Letra : David Mouro Ferreira

 De manh , que medo , que me achasses feia !

 Acordei , tremendo , deitada n'areia

 Mas logo os teus olhos disseram que no ,

 E o sol penetrou no meu corao. [ Bis ]

 Vi depois , numa rocha , uma cruz ,

 E o teu barco negro danava na luz

 Vi teu brao acenando , entre as velas j soltas

 Dizem as velhas da praia , que no voltas :

 So loucas !
 So loucas !

 Eu sei , meu amor ,

 Que nem chegaste a partir ,

 Pois tudo , em meu redor ,

 Me diz qu'ests sempre comigo. [ Bis ]

 No vento que lana areia nos vidros ;

 Na gua que canta , no fogo mortio ;

 No calor do leito , nos bancos vazios ;

 Dentro do meu peito , ests sempre comigo .

 Povo que lavas no rio

 Fado Victria

 Pedro Homem de Melo

 Povo que lavas no rio

 E talhas com o teu machado

 As tbuas do meu caixo .

 Pode haver quem te defenda

 Quem compre o teu cho sagrado

 Mas a tua vida no .

 Fui ter  mesa redonda

 Bebi em malga que me esconde

 O beijo de mo em mo .

 Era o vinho que me deste

 A gua pura , puro agreste

 Mas a tua vida no .

 Aromas de luz e de lama

 Dormi com eles na cama

 Tive a mesma condio .

 Povo , povo , eu te perteno

 Deste-me alturas de incenso ,

 Mas a tua vida no .

 Povo que lavas no rio

 E talhas com o teu machado

 As tbuas do meu caixo .

 Pode haver quem te defenda

 Quem compre o teu cho sagrado

 Mas a tua vida no .

 Meu amor , meu amor

 Msica : Alain Oulman

 Letra : Ary dos Santos

 Meu amor meu amor

 meu corpo em movimento

 minha voz  procura

 do seu prprio lamento .

 Meu limo de amargura meu punhal a escrever

 ns parmos o tempo no sabemos morrer

 e nascemos nascemos

 do nosso entristecer .

 Meu amor meu amor

 meu n e sofrimento

 minha m de ternura

 minha nau de tormento

 este mar no tem cura este cu no tem ar

 ns parmos o vento no sabemos nadar

 e morremos morremos

 devagar devagar .

 No peas demais  vida

 ( lvaro Duarte Simes - 1968 )

 No peas demais  vida ,

 Aceita o ela te deu

 Uma janela florida

 Mostra a cor de todo o cu .

 Afinal a felicidade

 Cabe num rosto a sorrir

 Ai de quem sente a ansiedade

 De viver sempre a pedir .

 L , l , l , r , r , l , l , l

 ..............................

 No peas demais  vida ,

 Aceita o que ela te d ,

 Porque a ambio desmedida

 Faz-nos crer o que no h .

 E no h sinceramente

 Maneira de ser feliz

 Para quem quer constantemente

 Ser mais feliz do que quis .

 L , l , l , r , r , l , l , l

 ..............................

 No peas demais  vida ,

 E aceita o que ela te der ,

 s vezes , basta a guarida

 Dum abrao de mulher .

 Num sorriso de criana

 Ou no sol quente a brilhar

 Existe um tesouro de esperana

 Que ningum pode comprar .

 L , l , l , r , r , l , l , l

 ..............................

 Se afinal basta a guarida

 Dum abrao de mulher ,

 No peas demais  vida ,

 E aceita o que ela te der .

 L , l , l , r , r , l , l , l

 ..............................

 LINKS ( letras ) : O O O O

 [ INLINE ]

 PBLICO , 30 de Julho de 2004-07-30

 Suplemento Y

 AMLIA - Uma volta ao mundo em 90 minutos .

 Estreado nos Estados Unidos h quatro anos , The Art of Amalia chega

 agora a Portugal em DVD duplo , com uma hora de extras .
 So 90 minutos

 em que Amlia deu , de novo , a volta ao mundo , como se renascesse .

 NUNO PACHECO

 " Ol , o meu nome  David Byrne. " V-se que  , mas no  isso que

 importa .
 O que  importa  o que ele diz , virado para a cmara , quando

 confessa que ficou fascinado por Amlia na primeira vez que a ouviu

 cantar .
 Foi em 1989 , dez anos antes de o porem diante da cmara a

 falar dela .
 " Era como se uma espcie de exploso emocional sasse

 daquelas pequenas colunas que eu estava a utilizar na altura. " Uma

 exploso que trazia " toda a tristeza do Universo. " Amlia .
 A Arte de

 Amlia .
 " The Art of Amlia " , assim ficou o filme , estreado em Nova

 Iorque no ano 2000 e agora , quatro anos depois , chegado a nossas casas

 num DVD duplo com a chancela da EMI-Valentim de Carvalho .

 Byrne , que ajudou a caucionar muitos nomes da chamada " msica do

 mundo " ( na maioria dos casos , tudo o que no  estritamente

 norte-americano ou ingls ) era , para a Amrica , o " carto de visita "

 ideal e talvez por isso ele surja antes do genrico , na sua singela

 declarao de fascnio .
 Mas quando surge Amlia , numa interpretao

 deslumbrante de " Estranha forma de vida " , Byrne apaga-se e fica apenas

 uma voz , belssima , por cima de uma sucesso de imagens mudas , Amlias

 de todos os tempos , uma sorridente , outra enigmtica , outra da cor do

 mistrio que ela prpria foi e criou .

 O filme , esse , nasceu em Nova Iorque , no incio dos anos 90 , de um

 encontro entre Amlia Rodrigues , ento com 70 anos , e o cineasta Bruno

 de Almeida .
 No apenas o filme , mas uma ligao apaixonada de Bruno

 ( portugus , nascido em Paris em 1965 e a residir em Nova Iorque desde

 1985 ) ao universo de Amlia .
 Comeou por filmar um concerto dela no

 Town Hall , em Novembro de 1990 , que veio a ser editado em VHS em 1991

 sob o ttulo " Amlia Rodrigues Live o New York City " .
 Depois ,

 embrenhou-se em arquivos e bobinas para realizar algo ainda mais

 ambicioso : um documentrio de cinco horas chamado " Amlia , Uma

 Estranha Forma de Vida " .
 Concludo em 1994 , foi exibido na RTP em

 1995 , em episdios de uma hora cada , sendo posteriormente editado

 tambm em VHS , numa caixa com cinco cassetes .
 Um e outro no

 conheceram , ainda , transposio para DVD ( do primeiro h um DVD

 pirata , de qualidade medocre ) .

 Mas a extenso do documentrio vedava-lhe a entrada nas salas de

 cinema .
 Por isso surgiu a ideia de adapt-lo a esse formato ,

 juntando-lhe novos materiais mas usando a mesma ( longa ) entrevista

 feita a Amlia , em sua casa .
 Bruno voltou , ento , aos materiais e

 ainda estava s voltas com eles quando Amlia morreu .
 O filme foi

 ento concludo e estreado nos EUA , nos cinemas , com assinalvel

 xito .
 O " New York Times " de 3 de Dezembro de 2000 anunciava : " A

 rainha do fado , a alma de Portugal , est viva outra vez. " No texto ,

 assinado por Jon Pareles , citava-se Bruno de Almeida : " Ela era como

 Miles Davis , quebrando as regras enquanto os puristas diziam : ` no

 faas isso ' .
 Cinco anos depois , o que ela fazia  que se tornava a

 regra. "

 vertigem de sons e imagens .
 Mas Nova Iorque est longe e o filme

 agora est aqui .
 Para quem viu " Amlia , Uma Estranha Forma de Vida " , o

 documentrio matricial , " The Art of Amlia " parece uma curta-metragem .

  uma sensao ilusria , porque tem 90 minutos , mas percorre a longa

 carreira de Amlia de forma to rpida que quase parece voar por sobre

 datas e imagens .
  mais acessvel ?
 Sem dvida .
 Mas perde grande parte

 da sensao de nos afundarmos lentamente numa vida para dela

 percebermos o sentido .

 Amlia , nas suas declaraes videogravadas , tem o condo de

 simplificar tudo ( como fez , alis , nesse livro obrigatrio que  a

 " Amlia : Uma Biografia " , de Pavo dos Santos , que lhe d a palavra na

 primeira pessoa como se ela , em lugar de o gravar em longas conversas ,

 o escrevesse ) .
 " Os portugueses inventaram o fado " , diz .
 Porqu ?
 Porque

 estavam tristes , porque tinham " muita razo de queixa do mundo. " Ela

 no teve , antes pelo contrrio .
 O filme , menos centrado na vida da

 cantora do que na sua carreira , segue-a em mltiplas deambulaes

 pelos quatro cantos do globo .
 Madrid em 1943 , Rio de Janeiro em 1944 ,

 Paris em 1949 , Nova lorque em 1952 .
 Lugares onde voltar , uma e outra

 vez .
 Canta fados mas tambm tudo o que absorve e logo trauteia , como

 se por debaixo da pele uma imensa esponja lhe ocupasse o lugar dos

 sentidos .
 J em pequena , vinha do cinema a cantar canes de Gardel

 sem saber uma palavra de castelhano .
 Mas decorava-lhes o som e assim

 contrariava os cnones .
 " Isto era  espanhola , no se fazia " , diz ela

 ao comentar a forma como cantava " L porque tens cinco pedras " .
 No se

 fazia , no fado , mas ela cantar coplas espanholas como " Lerele "

 ( grafada erradamente no DVD como " Lerere " ) , como cantar mais tarde

 rancheras , dias depois de pisar solo mexicano ( " Fallaste corazn " 

 uma , entre vrias ) ou a " Tarantella " , gravada em Itlia em duas

 tardes , a ler directamente do napolitano .
 No se fazia , mas pouco lhe

 importava .

 H , nesta vertigem de sons e imagens , momentos em que a histria

 parece pairar sem ligar ao relgio .
  o caso de " A Mouraria " ( aos

 12m08s do filme , na integra no DVD2 ) , onde uma Amlia

 extraordinariamente jovial empenha todos os seus sentidos na primeira

 cano que Frederico Valrio lhe ofereceu ; ou o excerto do filme " Les

 Amants du Tage " onde ela canta " Barco Negro " perante uma plateia

 extasiada ( 28m29s , tambm na integra no DVD2 ) .
 Deste ltimo , Amlia

 recorda que os figurantes se esqueceram que estavam num filme e

 irromperam em aplausos quando ela cantou " Esto loucas " .
 Henri

 Verneuil , o realizador , ter dito : " Tenho a cena estragada , mas  um

 grande sinal. "

 Mas h mais : depois do belssimo " Abandono " ( 36m34s ) , com poema de

 David Mouro-Ferreira , e do " Fado portugus " de Jos Rgio ( 38m49s ) ,

 pode ver-se um ensaio com Alain Oulman , ao piano , e ela a trautear uma

 cano nos estdios da Valentim de Carvalho ( 41 m34s ) .
 Ou Charles

 Trenet a apresent-la em Cannes , em 1963 , anunciando um fado para

 depois ouvi-la cantar " Mi florero " , do reportrio de Lola Flores .
 Ou

 ainda ( aos 24m26s ) Dom Ameche a apresent-la como convidada especial

 de Eddie Fisher no " Coke Time " ( patrocinado pela Coca Cola ) , para

 cantar " April in Portugal " : " Coimbra " .

 A morte e as falhas .
 O filme salta depois , em traos largos , pelos

 pontos obrigatrios da sua carreira e pelas personagens que a

 povoaram , de Anthony Quinn ( planeou para ela " As Bodas de Sangue " , de

 Lorca , que nunca se concretizou ) at Caetano Veloso , que num concerto

 seu , no Coliseu de Lisboa , a descobre na plateia e a abraa ternamente

 no palco : " Uma das coisas mais fortes na minha formao " , diz , "  o

 som ` que sai e sempre sair da garganta de Amlia Rodrigues. "

 Depois vm mais lugares : a URSS e o Leste europeu , a Itlia , o Japo .

 E medalhas .
 E homenagens : " Eu estou viva mas onde o sinto  quase

 sempre no palco. " Fora dele , doa-lhe a negao da eternidade , como

 Pavo dos Santos registou no seu livro : " Desde que existe morte ,

 imediatamente a vida  absurda ( ...
 ) A ideia da morte acompanhou-me

 dos treze aos dezoito anos ( ...
 ) Andava sempre a querer matar-me. "

 Quando a irm , Aninhas , morreu de tuberculose , aos 16 anos , Amlia

 ( que tinha 20 ) perdeu os instintos suicidas .
 At lhe ser diagnosticado

 um tumor , em 1984 .
 A , viajou para Nova Iorque com inteno de pr

 termo  vida .
 Mas foi salva pela arte .
 Ofereceram-lhe um filme de Fred

 Astaire , em vdeo , e ela deixou-se encantar pelas imagens .
 Durante

 dias , comprou todos os filmes dele que encontrou .
 Esqueceu-se da

 morte , inebriou-se de vida e uma operao salvou-a .
 At que , a 6 de

 Outubro de 1999 , a sua " estranha forma de vida " teve o fim que h

 muito adivinhava .
 Tinha 79 anos e no " traiu " , entrando noutro , o

 sculo que verdadeiramente a amou .

 O filme d-nos a ver tudo isso , excepto o ltimo adeus , pontuado num

 subtil registo .
 A acompanh-lo , um segundo DVD permite ver e ouvir , na

 ntegra , 18 das 40 canes que integram o filme , do " Fado Malhoa " at

 " Povo que lavas no rio " j muito sofrido , numa voz que apenas no

 timbre recordava o intenso brilho de outrora .
 So estes os extras ,

 alm de um trailer , um videoclip de " Estranha forma de vida " ,

 discografia e filmografia seleccionadas ( nos filmes falta ,

 incompreensivelmente , qualquer referncia a " Vendaval Maravilhoso " , de

 1949 , de Leito de Barros ) e , por fim , alguns livros e endereos na

 net .

 Na narrao original , em ingls , Bruno de Almeida colocou um dos seus

 actores-ftiche , John Ventimiglia , o Artie Bucco da srie " Os

 Sopranos " e o inefvel " Louie " de " On The Run " ( " Em Fuga " , 1999 ) .
 Mas ,

 para a edio em DVD , escolheu outros actores : Joaquim de Almeida ( na

 narrao portuguesa , que soa demasiado rspida ) e Maria de Medeiros

 ( mais envolvente na narrao em francs ) .
 H um narrador espanhol , mas

 no  identificado .
 Claramente virado para o mercado internacional e

 sem folheto que o acompanhe , o DVD , embora seja desde j uma

 referncia obrigatria nos registos videogrficos de Amlia , tem

 falhas incompreensveis .
 Como o irritante salto entre camadas no DVD1 ,

 que mutila uma frase de Amlia quando esta fala do seu melhor papel no

 cinema e logo num filme onde no canta ) .
 E a ausncia de referncias

 escritas , temporais ou outras , das " msicas completas " que integram o

 DVD2 .
 Seria muito pedir que , para cada cano ou excerto de filme , se

 indicasse , mesmo em letra pequena , a provenincia ou data ?
 E por que

 motivo no h , no segundo DVD , uma breve conversa com Bruno de Almeida

 onde o realizador explicasse os passos seguidos na concretizao do

 filme ?
 Talvez seja preciso esperar pela edio revista ( naturalmente

 bem vinda ) do documentrio de cinco horas para que a informao

 cuidada rompa os limites da superficialidade .
 At l , " The Art of

 Amlia " merece ser visto , revisto e dado a ver , de preferncia aos que

 dizem , como ela no clebre fado homnimo que to bem cantava : " Amlia ?

 No sei quem  " .

 setstats 1

