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 [ INLINE ] [ INLINE ] 05.Set .2004

 O gnio de Amlia Rodrigues

 Uma conversa com Bruno de Almeida , cineasta portugus residente em Nova Iorque

 que realizou um documentrio sobre a fadista

 Os fundamentalistas podero esperar pela totalidade da converso para DVD das

 cinco horas originais de

 The Art of Amlia .
 Tal como havero de entregar-se militantemente a todos os

 esforos que um dia permitiro

 que as preciosas 150 horas de registos visuais da carreira

 de Amlia Rodrigues possam ficar disponveis .
 Mas ,

 entretanto , no ser de todo tempo perdido se forem saboreando o DVD agora

 publicado com a sntese de

 noventa minutos dessas cinco horas ( acrescentado de

 um segundo disco com as verses integrais dos fados

 que , no documentrio , vo surgindo ) , onde o universo de

 Amlia se desvenda .
  a Bruno de Almeida ( ex-msico

 e cineasta portugus residente em Nova Iorque ) que

 deveremos ficar eternamente gratos. [ INLINE ]

 Como  que teve origem e decorreu todo o processo que , em 1995 , desembocou na

 publicao desse documentrio de cinco horas sobre a carreira de Amlia

 Rodrigues ?

 Este projecto comeou com a srie de cinco horas para televiso Amlia , Uma

 Estranha Forma de Vida , em 94 .
 Houve um ano inteiro de pesquisa de imagem .

 Inicialmente , era para ter apenas uma ou duas horas .
 Mas ,  medida que fomos

 vendo as imagens que vieram do mundo inteiro e que ningum sabia que existiam ,

 foi alargada para cinco horas .
 Foi terminada em 95 e passou nessa altura ( e

 mais tarde , aps a morte da Amlia ) na RTP .
 Ficou , ento , decidido fazer o DVD

 numa verso internacional , que  The Art of Amlia .

 Como foi esse processo de descoberta das imagens que existiam espalhadas pelo

 mundo todo ?

 Foi isso que levou  criao do filme a partir de uma

 entrevista s com ela .
 Na origem , eu tinha marcado uma

 srie de entrevistas com outros artistas ( Pavarotti , Caetano Veloso ...
 ) que

 iriam falar sobre ela .
 Tinha uma equipa de

 cinco pessoas a fazer pesquisa de imagem .
 Sabia que ,

 por exemplo , no Japo , no Mxico e nos EUA havia muita coisa .
 Tnhamos todas as

 listas dos concertos .
 Comearam

 a chegar imagens de televiso , de fs que tinham Super 8 ...
 ( existe agora um

 arquivo fantstico , um patrimnio de 150 horas de imagens , e obviamente no

 pude utilizar tudo ) .

 A histria da gravao do concerto para a televiso

 americana , por exemplo ,  curiosa .
 O Vtor Pavo dos

 Santos ( co-autor comigo do filme ) tinha uma fotografia

 desse programa , em 1953 , quando ela estava a cantar

 no " La Vie En Rose " .
 Ligmos  NBC , que era a produtora

 de televiso , confirmaram a data , mas no tinham registo. Falmos  Coca-Cola ,

 que era o " sponsor " do programa ,

 nada .
 Durante oito meses , tentmos tudo. [ INLINE ]

 Museu de Television Broadcast , o MoMa , museus de cinema , Los Angeles , tudo o

 que existia no mundo dos arquivos de televiso ...
 At que o italiano , chefe

 desta equipa de cinco pessoas , se lembrou de que , nos anos 50 , quem ficava com

 as gravaes eram os prprios artistas .
 Conseguimos o nmero de telefone do

 Eddie Fisher ( que , nesse programa , juntamente com o Don Ameche , aparecia com a

 Amlia ) , na altura ainda vivo .
 Telefonmos-lhe e , naturalmente , ele no fazia

 ideia de quem ramos .
 Recordava-se perfeitamente dela ( tinha , alis , estado c ,

 em casa da Amlia , com a mulher , a Debbie Reynolds , em lua-de-mel ) , embora j

 no falasse com ela h vinte anos .
 Confirmou que tinha a gravao , mas

 disse-nos " tm de pr a Amlia ao telefone comigo " .
 Pus os dois em contacto e ,

 assim que ela se riu e ele a ouviu , o assunto ficou resolvido .
 Esta  , alis ,

 uma gravao histrica :  a primeira gravao de um artista portugus em

 televiso .
 Nessa altura , a televiso no existia ainda em Portugal .

 Mas como  que isso conduziu , afinal ,  ideia da entrevista com ela como eixo

 de todo o documentrio ?

  medida que eu ia recebendo as cassetes , telefonava-lhe

 e pedia para ela ver as imagens .
 Ela viu a totalidade das

 150 horas de imagens !
 Pela primeira e ltima vez .
 Recordava-se de imensos

 pormenores impressionantes .

 Era uma poca em que o grupo dos artistas da msica ,

 dos " crooners " , era muito mais pequeno , conheciam-se todos .
 Os tipos do

 " ratpack " ( o gang do Sinatra , Dean

 Martin , Sammy Davis ...
 ) , Eddie Fisher , Vic Damone , os italo-americanos ...

 encontravam-se nos mesmos bares e

 iam beber copos por a .
 A Amlia ia-me contando que

 andou a cantar para eles ...
 Era evidente que no precisava

 de fazer entrevistas a outras pessoas .
 Tinha de ser ela a

 falar perante aquele espelho .
 J depois do visionamento

 das imagens todas , fiz-lhe uma entrevista durante cinco

 dias , no Brejo , sempre  noite , das onze s cinco da manh .
 Ela era um

 vampiro , vivia de noite ...
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 As vossas conversas eram mais ou menos livres , divagavam , ou obedeciam a uma

 ordem cronolgica ?

 Fiz um plano de entrevista , que comeava em 1920 , completamente delineado com

 os tpicos-base .
 Ela , obviamente , muitas vezes afastava-se do ponto que

 estvamos a abordar , mas eu regressava sempre ao tema , seguindo mais ou menos a

 trajectria da carreira .

 No visionamento dessas imagens , a Amlia teve um papel na escolha do que se ia

 aproveitar e rejeitar ?

 Ela aprovava umas verses e recusava outras .
 Havia , por exemplo , dez gravaes

 da " Gaivota " .
 Ela nunca cantava o mesmo fado da mesma forma ( alis , na verso

 de cinco horas , meti cinco verses todas diferentes do " Povo Que Lavas no

 Rio " ) .
 Em cada msica , a Amlia tomava uma trajectria diferente , que depois

 analisava .
 Est tudo nesse arquivo , hoje na Valentim de Carvalho , mas que

 espero que , um dia , algum governo , se decida a classificar como patrimnio

 cultural nacional ou internacional .
  fundamental conservar aquelas imagens

 todas e pass-las para digital .
 Dentro de dez , quinze anos , a fita magntica

 vai comear a deteriorar-se e ser tarde de mais .

 Ao longo desse contacto e das conversas que teve com a Amlia , foi possvel

 aperceber-se se ela tinha uma noo real da importncia que verdadeiramente

 teve ?

  uma boa pergunta .
 Um dia , " off the record " , perguntei-lhe exactamente isso .

 Ela riu-se ...
 Acho que tinha e que no tinha .
 No fim de uma carreira como a

 dela tem que haver uma noo lcida , e ela sentia muito bem a importncia que

 tinha a sua relao com o povo , o pblico .
 Sobre a importncia propriamente

 musical e artstica , ela ria-se ...

 Outro aspecto interessante era a forma como ela , sem nunca o dizer

 explicitamente , se procurava dissociar da forma como o Estado Novo se

 apropriara da imagem dela como " patrimnio " do regime ...

 Ela teve sempre uma relao um bocado " nave " com a poltica .
 Como sabe ,

 durante o regime fascista , era tida como comunista .
 Indirectamente , atravs do

 Alain Oulman e dos poetas todos de esquerda , apoiou e ajudou muita gente a sair

 do pas .
 Nos arquivos da PIDE , a Amlia era descrita como " simpatizante do

 Partido Comunista " .
 Obviamente , ela no era de nenhum partido .
 Era uma pessoa

 completamente apoltica .
 At ao 25 de Abril foi usada pelo Estado Novo , da

 mesma forma que foi usada pelo Governo socialista com o Mrio Soares , ou pelos

 outros .
 Isso passa-se sempre em todos os pases com um artista daquele calibre .

 Foi a mesma coisa com o Manolete e com o Domingun .
 Uma pessoa com tanto

 sucesso como a Amlia num pas onde o sucesso no  uma coisa muito

 tradicional , sobretudo internacionalmente , era inevitvel .
 Ela sofreu um bom

 bocado com essa histria , isso abateu-a muito .

 O que era interessante na Amlia ( e isso  notrio em diversas passagens da

 entrevista )  como algum como ela , que no teve exactamente uma educao

 acadmica formal elevada , era capaz de um discurso inteligente , articulado ,

 quase se pode dizer culto ...

 Muito culto .
 E no se esquea de que a Amlia falava portugus , espanhol ,

 francs , ingls , alemo e italiano .
 Fluentemente .
 E cantava .
 No s isso como

 lia e conhecia poesia de cada pas .
 E , depois , tinha uma intuio a propsito

 da qual acho que se pode falar mesmo de genialidade .
 A Amlia tinha a quarta

 classe .
 Tudo o resto foi uma cultura adquirida , uma cultura de vida .
 A Amlia

 era a nica cantora que , por exemplo , percorria a Itlia toda , da Siclia a

 Milo , e cantava nos vrios dialectos : siciliano , napolitano ( gravou um disco

 muito bonito , Anema e Core , a ltima gravao que ela fez , em 1995 , com o

 Roberto Murolo ) , romano , por a fora ...
 E tinha uma intuio , uma inteligncia

 na compreenso dos poetas que no era nada estudada .
  isso que , depois , passa

 muito para a msica e que atinge as pessoas em qualquer parte do mundo .

 A Amlia , naturalmente , no ouvia s fado ...

 Ficmos amigos e passvamos horas a falar sobre tudo , sobre todos os tipos de

 msica .
 Mostrei-lhe gravaes do Miles Davis , do John Coltrane , do Frank

 Zappa ...
 Apesar de nem o rock nem o jazz serem gneros musicais que ela

 habitualmente escutasse muito , tinha uma intuio que lhe permitia

 perfeitamente entender e apreciar o que ouvia .
 Ela tinha , alis , uma coisa

 muito em comum com o Miles Davis , no fraseado : ser capaz de estar a cantar

 atrs do tempo e  frente do tempo , de repente , em duas quadras , cai no tempo ,

 volta para trs ,  impressionante .
 Isso era uma improvisao dentro da

 estrutura do fado que  extraordinariamente rgida .
 E ela apercebia-se muito

 bem dessa identidade de processos entre o que ela fazia e aquilo que eu lhe

 fazia ouvir do Miles Davis .

 ENTREVISTA DE JOO LISBOA

  2004 SOJORNAL SA .
 TODOS OS DIREITOS RESERVADOS .

