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 6-1-2002

 CAMAN

 [ INLINE ]

 Bom Dia Lisboa

 Por MIGUEL FRANCISCO CADETE

 ^ Sexta-feira , 16 de Novembro de 2001

 Imps-se como a voz masculina da nova gerao de fadistas .
 Ao quarto lbum , " Pe

 lo Dia Dentro " , j no restam dvidas e vislumbra-se por fim o percorrer de

 novos caminhos .
 A culpa tambm  do seu produtor , Jos Mrio Branco .

 Carlos Manuel Moutinho Paiva dos Santos Duarte , Caman , nasceu em Oeiras h

 trinta e tal anos .
 Desde petiz que canta o fado , por via dos pais que possuem

 uma monstruosa discografia do gnero , a ponto de , em 1979 , ter ganho a Grande

 Noite do Fado .
 Uma conquista que lhe abriu as portas para outros voos - a

 gravao de um lbum ( entretanto esquecido ) produzido por Antnio Chanho - mas

 que , mais tarde , o levaram a abandonar os ambientes de fados e guitarradas .

 Voltou depois , j maior e vacinado , para o percurso das casas de fado e para

 participar no elenco de vrias produes de Filipe La Fria. [ INLINE ]

 As noites de fado no Teatro da Comuna , j na companhia de Jos Mrio

 Branco , sugeriam qualquer coisa mais sria at que surgiu o convite da

 EMI-Valentim de Carvalho para gravar um disco .
 " Uma Noite de Fados "

 foi editado em 1995 , quando o fado ainda no era moda , e marcou o

 aparecimento de uma nova voz masculina entre a nova gerao .

 " Na Linha da Vida " e " Esta Coisa da Alma " cimentaram a sua posio no

 circuito fadista e no s : l fora comeava a ser chamado para mais

 concertos , posteriormente acompanhados pela edio de discos na

 Holanda e na Blgica .
 Em Julho fechou-se nos estdios Next com a sua ,

 j habitual , equipa de trabalho : Jos Mrio Branco na produo e

 direco musical , Jos Manuel Neto na guitarra portuguesa , Carlos

 Manuel Proena na viola e Carlos Bica no contrabaixo .
 Manuel de

 Freitas e Aldina Duarte , autoras de algumas letras , no foram tambm

 dispensadas das sesses que deram origem a " Pelo Dia Dentro " .
 O quarto

 lbum " oficial " de Caman revela , mais uma vez , a faceta mais ortodoxa

 do fado , ainda que com peculiaridades a que no sero estranhos os

 temas compostos por Jos Mrio Branco .
 A par dos fados tradicionais

 ornamentados com textos de poetas consagrados como Teixeira de

 Pascoaes , David Mouro Ferreira , Pedro Homem de Mello ou Pedro Tamen ,

 " Pelo Dia Dentro " d tambm espao a composies de Jos Mrio Branco

 e Amlia Muge que procuram novos caminhos .
 Uma marcha afadistada

 ( " Marcha do Bairro Alto " ) , um tema com uma marcao jazzstica

 ( " Terreiro dos Passos " ) ou uma cano  anos 70 ( " A Cantar  que Te

 Deixas Levar " ) revelam um Caman mais lisboeta e universal do que

 nunca .

 ptimos pretextos para a conversa que se segue .

 Apesar do fado ser associado a ambientes nocturnos , este lbum tem um

 ttulo que parece contrariar esse lado .
 " Pelo Dia Dentro " quer dizer o

 qu ?

 Tal como noutros discos meus , o ttulo foi retirado de um poema .
 Mas 

 uma designao que define bem o disco .
  um disco que tem algum

 movimento , que fala de Lisboa nas vrias fases do dia e das vivncias

 que o dia nos traz ...

  por isso que o disco se divide entre os temas baseados em fados

 tradicionais , como o " Fado Vianinha " ou o " Fado Noquinhas " , e outros

 originais , na sua maioria compostos por Jos Mrio Branco ?

 As coisas aconteceram por acaso .
 Numa conversa entre mim , o Jos

 Mrio , a Manuela de Freitas e a Aldina Duarte , expressei o desejo de

 que este fosse um disco a falar de Lisboa e do ambiente da cidade .
 No

 lbum anterior , no ltimo tema , j se fazia essa ligao pois eu

 cantava " quando Lisboa adormece e devagar anoitece , acorda a luz do

 meu dia " .
 Foi por isso que quis ir buscar poetas mais populares e mais

 ligados ao fado , como Linhares de Barbosa e Jlio de Sousa .
 Essa

 perspectiva de Lisboa tem tambm a ver com uma marcha que eu sabia que

 o Jos Mrio Branco tinha feito h seis anos .
 Esse tema ganhou o

 prmio da melhor marcha de 1995 e eu disse ao Jos Mrio que gostava

 muito de cant-lo .
 Para tentar uma coisa que algumas pessoas j

 fizeram e que  transportar a marcha para o fado .
 Lembro-me de ver a

 Amlia e outros fadistas fazerem isso com " Maria Lisboa " ...

 As marchas sugerem um ambiente menos introspectivo e mais histrinico

 do que aquele reconhecido como pertencendo ao fado .
 Foi uma opo ?

 O fado , para l desse lado introspectivo , tem muito da vivncia do

 dia-a-dia .
 Foi esse lado que quis encontrar , com uma linguagem

 diferente .
 Embora tenha recorrido a poetas populares ligados ao fado ,

 aconteceu tambm uma grande disponibilidade do Jos Mrio Branco para

 compr e escrever letras ...

 Um dos temas mais interessantes  " A Cantar  que te Deixas Levar " ,

 que sugere um tipo de cano portuguesa dos anos 70 , nomeadamente na

 voz de Fernando Tordo e Paulo de Carvalho .

 Essa cano j foi interpretada pelo Jos Mrio Branco e foi escrita

 por ele durante os anos 70 .
  uma cano que faz sentido at porque se

 dispe a alguma crtica social , o que no  estranho se soubermos que

  uma cano do Z Mrio .
 A ideia  alertar para o lado excessivamente

 meditico dos nossos dias .
  ir mais fundo , pensar mais , no se deixar

 levar por coisas fteis .
 Falo de Lisboa , que  o stio que conheo ,

 mas no tem s a ver com Lisboa .
 Pode-se transpor para Portugal

 inteiro .

 O fado encerra ento uma vertente poltica ?

 Poltica no direi , mas todas as msicas tm uma mensagem social , nem

 que seja para mudar a forma de estar das pessoas .
 Quando oio uma

 cano , penso no poema e como  que me pode servir para a minha vida ,

 para o meu dia-a-dia .
 Nem que seja para me sentir bem .
 Esta cano ,

 melodicamente , tem muito de fado , ainda que seja um fado com uma

 concepo que s aparece nos meus discos .
 Uma coisa de que gosto muito

 no meu relacionamento com o Z Mrio foi o facto de ele ter definido

 muito bem o som dos meus discos .
  uma cena minha , criada pelo Z

 Mrio , por mim e pelas pessoas que trabalham connosco .

 O Jos Mrio Branco  o seu produtor desde o primeiro lbum e a equipa

 de msicos tambm se manteve nos ltimos discos .
 Encontraram uma

 qumica especial ?

 Acho que sim .
 A partir do segundo disco , quando entrou o Carlos Bica e

 com o Custdio Castelo na guitarra portuguesa e o Jorge Fernando na

 viola , j se conseguiu chegar a qualquer coisa .
 Mas foi no terceiro

 disco e , agora , no quarto que se conseguiu uma guitarra a fazer

 sentido com o poema , uma forma de acompanhamento adequada ...

 Lembro-me de uma fase do Carlos do Carmo e do Chanho em que existia

 uma ligao enorme entre eles .
 Havia um gosto to grande naquilo que

 faziam , que conseguiram gravar discos excelentes , como " O Homem na

 Cidade " e outros .
 Naquela altura foi importante , at para o fado ,

 existir essa ligao to forte .
 Isso percebia-se nos discos e tudo

 fazia sentido .

 E neste caso , qual  a importncia do Jos Mrio Branco ?

  meu amigo e , musicalmente , percebeu o que eu queria .
 Tem uma forma

 de olhar o fado idntica  minha .
 O fado vive de uma determinada

 autenticidade .
 Se se quiser mexer no fado , tudo bem ; mas  uma msica

 especfica .
 Se se ouve um disco de fado  preciso ser-se capaz de o

 identificar como um disco de fado .
 Se misturarmos leite ao caf , deixa

 de ser caf .
  preciso mudar o fado ,  preciso evoluir ; mas tambm 

 preciso ser fado .
 A ideia  no retirar o esprito do " Fado Vianinha " ,

 do " Fado Margaridas " , do " Fado Noquinhas " .

 E que esprito  esse ?

  preciso ser-se fadista a cantar .
 O fado vive muito da palavra : se

 no for um fadista a cantar no  fado .
 H muitas pessoas que cantam o

 fado , mas soa lamechas .
 Um fadista tem uma forma muito sria de lidar

 com as palavras e de usar as palavras nos fados tradicionais .
 O que as

 pessoas sentem hoje  precisamente o mesmo que sentiam h 50 anos e

 isso , naturalmente , reflecte-se nas letras que escrevem para mim .
 So

 coisas intemporais .
 Neste caso , a recolha que a Aldina fez dos poemas

 do Linhares de Barbosa e do Jlio de Sousa tem a ver com isso .

  por isso que neste disco h um tema , " Complicadssima Teia " , em que

 foi dispensado o acompanhamento musical .
  cantado a capella , no se

 ouve a guitarra portuguesa .

 O fado  por excelncia a msica em que a palavra portuguesa melhor se

 passeia .
 Nesse tema encontra-se a palavra no seu estado mais puro .

 Esse tema , com poema de Antnio Botto ,  um recado .
 Fala de amor , de

 desiluso , de incerteza .
 Faz sentido porque canto " quem pe certezas

 na vida facilmente se embaraa na vil comdia do amor " .
 Estou a falar

 com algum e , na histria do fado , encontram-se muitos temas assim .

 Existiam muitos fadistas que cantavam muito este estilo de fado , que

 fala da vida ; por serem pessoas mais velhas , cantavam como quem dava

 conselhos .

 A ideia do tema ser cantado a capella foi do Z Mrio e tive

 dificuldade em aceit-la .
 At porque tambm foi gravado com

 acompanhamento e hoje j no saberia que verso escolher .

 H temas que foram gravados e que no aparecem no alinhamento do

 disco , nomeadamente um da autoria de Joo Afonso .
 Porqu ?

 Os temas que ficaram de fora so muito bons mas no consegui dar-lhes

 a volta .
 Para alm disso , dos 17 gravados era preciso escolher alguns

 e ficou assim .
 De qualquer maneira , vo sair mais tarde , como j

 aconteceu com o " Linha da Vida " e no disco anterior .
 So temas que no

 consegui adaptar ao meu estilo .
 No consegui dar a volta s palavras

 de maneira a que tudo fizesse sentido , de forma a parecer natural .

 H uma marcha , gnero que remete para a alegria e que se pode

 relacionar com o facto do Caman de ter feito parte do elenco de

 produes de Filipe La Fria .
 Como  que isso se conjuga com o

 ambiente mais introspectivo das casas de fado , que to bem conhece ?

 Essa foi uma boa experincia porque me permitiu cantar para mais

 pessoas e chegar a um pblico maior .
 Foi tambm importante porque

 nessa ocasio tive os primeiros contactos para gravar um disco e para

 pisar um palco , coisa muito diferente de cantar numa casa de fados .

 Hoje , h uma maior aceitao do fado por parte das editoras .
 Isso

 notou-se neste caso particular ?

 Quando comecei , era muito difcil .
 O fado no vendia e a minha estreia

 foi nitidamente uma aposta da editora .
 Na altura em que me fizeram o

 convite para gravar eu j tinha um projecto todo estruturado com o

 Jos Mrio Branco para um disco .
 Mas de repente surgiu esse convite

 que apressou as coisas .

 Antes desse primeiro lbum , " Uma Noite de Fados " , nunca tinha gravado ?

 Gravei quatro singles e um LP quando era mido , entre os 10 e os 14

 anos .
 Um desses discos , que gravei aos 14 , foi produzido pelo Antnio

 Chanho .
 Tinha fados tradicionais , mas tambm alguns originais do

 Chanho , do Pedro Osrio e do Carlos Macedo .
  engraado porque a

 forma de cantar j  a mesma , at a diviso das frases , mas depois

 ganhei uma forma de cantar mais serena .

 As casas de fado ainda so o habitat do fado e o lugar privilegiado

 para se cantar e ouvir o fado ?

 Depende .
 Comecei a cantar com dez anos e aos 18 fui para as casas de

 fados , por onde andava todas as noites .
 As casas de fado so

 importantssimas para se aprender a cantar o fado , porque  uma coisa

 que vai crescendo connosco. Lembro-me de ir ao Senhor Vinho , ao fim da

 noite , e estar a cantar e , s duas da manh , chegar um grupo de

 pessoas e aquilo transformar-se numa noite fabulosa , at s cinco da

 manh .
 As casas de fado so isso , no se sabe o que pode acontecer

 porque vivem do momento .
 H noites em que os fadistas cantam bem ,

 porque esto bem dispostos ou porque o pblico ajuda e h empatia .

 Outras vezes , nada disso existe , porque h muitos estrangeiros e eles

 esto noutra .

 As casas de fado , no entanto , tm de sobreviver .
 So a nica escola

 que existe para o fado .

 Comentrio

 PURISTAS E REFORMISTAS , UMA ABSTRACO

 PUBLICO ^ Sexta-feira , 16 de Novembro de 2001

 Apesar de emparceirar com a nebulosa de novas cantadoras do fado apresentadas c

 omo herdeiras de Amlia , ao ser distinguido com o galardo de representante de

 uma nova gerao Caman tem evidentes vantagens face  concorrncia .
 Logo 

 partida , at porque Carlos do Carmo tem permanecido em pousio , Caman irrompe

 como a voz masculina que melhor representa o fado nos dias que correm .
 Depois

 de quatro lbuns e uma carreira que ameaa , ainda que timidamente ,

 internacionalizar-se decisivamente , ele  considerado , quase num coro unnime -

 e com todo o perigo que isso implica - , o fadista do novo milnio. Fiel 

 tradio fadista da segunda metade do sculo XX , Caman imps-se com firmeza

 nos meios do fado , integrando a faco que no ousa a modernizao do gnero ,

 antes preferindo seguir os preceitos tidos como inultrapassveis por alguns .

 [ INLINE ]

 Por tudo isto , Caman  um ptimo exemplo para atestar das virtudes e

 desventuras do fado nos dias que correm .

  que apesar de consensualmente considerado o maior fadista do nosso

 tempo , no chega aos topes de vendas , a juventude portuguesa no

 pendura cartazes com o seu retrato nas paredes do quarto e o seu lbum

 anterior , " Esta Coisa da Alma " , no conseguiu transcender a marca ,

 ainda assim considerada invejvel , de doze mil cpias vendidas ; algo

 distante dos campees de vendas portugueses como Silence 4 , Delfins ou

 Pedro Abrunhosa , capazes de se aproximarem das 200 mil unidades .

 Ou seja , o fado no desfruta hoje da popularidade que alcanou durante

 os dias da rdio , sendo incapaz de criar um mercado que ultrapasse os

 seus crculos mais estritos a ponto de possibilitar carreiras

 condignas aos seus mais distintos intrpretes e autores , quase todos

 obrigados a manter actividades extra-currculares como modo de

 subsistncia .

 Tal situao mereceria um srio debate que procurasse desvender as

 causas e solues do problema que , no entanto , no parece ter lugar na

 j vulgarizada discusso entre puristas e reformistas .
 Essa questo ,

 que o tempo se encarregou de provar como cada vez mais abstracta ,

 sinaliza porm a necessidade da abertura do fado a novos mercados ,

 tornando urgente a captao de outros pblicos que engrossem o nmero

 de amantes de fados e guitarradas .
 Ora , a conquista de novas plateias

 s pode surgir de uma maior penetrao do fado no mercado nacional -

 onde urge captar novas geraes - e no mercado internacional - onde

 continua a ser o carto de visita da msica portuguesa , como provam os

 feitos dos Madredeus , Msia e Dulce Pontes .
 Uma poltica menos

 provinciana de alguns meios de comunicao social , como tem sido

 frisado parcialmente por Nuno Galopim [ suplemento DN + ] com o exemplo

 da rdio Nostalgia , tambm seria desejvel , assim como aces

 concertadas que visassem uma maior divulgao do gnero nos mercados

 externos .

 Regressando a Caman , o seu exemplo  extremamente til , no s porque

  um indicador preciso do actual estado do fado , mas tambm porque

 torna gritante a necessidade de coexistncia - e mais do que isso ,

 colaborao - entre puristas e reformadores no sentido de conquistarem

 mercados dentro e fora de portas .

 Sem novas geraes de ouvintes que admirem os grandes dolos de

 sempre , o fado entrar definitivamente num estado moribundo .
 E esse  ,

 inquestionavelmente , um processo a ser despoletado por fadistas que

 conduzam o gnero a um novo estado e a uma nova forma que escapa , de

 todo ,  ortodoxia .

 Miguel Francisco Cadete

 Caman , Cantador de Histrias

 ^ PUBLICO Sexta-feira , 27 de Julho de 2001

 Espreitmos Caman nas sesses de gravao do seu prximo disco .

 Espreitmos um fadista  procura do tempo justo para as palavras .
 E de

 uma singularidade musical , entre o fado , o jazz e as msicas

 tradicional e ligeira .
 Aguardamos , ento , " Pelo Dia Dentro " .
 Ricardo

 Gross

 Portas de Benfica , Venda Nova , Amadora ...
 Numa praceta , nem mais nem menos rese

 rvada do que outras ( mas com a vantagem de possuir um ptimo restaurante ) ,

 situam-se os estdios Next , local escolhido para a gravao do quarto disco de

 Caman , a editar no ltimo trimestre deste ano .

 As sesses decorreram em ambiente familiar , nas duas primeiras semanas de

 Julho .
 Nunca se encontravam mais de seis pessoas no estdio , incluindo os

 imprescindveis Jos Mrio Branco ( produtor , director musical , arranjador ,

 compositor , letrista ...
 ) , Antnio Pinheiro da Silva ( responsvel pela gravao ,

 mistura e masterizao ) e Joe Fossard ( assistente , operador de Pro-Tools ) ; os

 msicos ( Carlos Bica , Carlos Manuel Proena e Jos Manuel Neto ) , que transitam

 do anterior CD , " Esta Coisa da Alma " ; duas poetas , sobretudo fs , companheiras

 e amigas ( Aldina Duarte e Manuela de Freitas ) ; e o produtor executivo Paulo

 Salgado .
 Algum que desejasse infiltrar-se neste ambiente informal e cmplice ,

 fazendo-se passar ora percebido , ora despercebido , tinha pela frente um

 desafio. [ INLINE ]

 Segredando histrias .
 Ao quarto dia de gravaes ainda se procuravam

 nomes para aquele que se ir chamar , ao que tudo indica , " Pelo Dia

 Dentro " .
 No fugindo a uma tradio iniciada com " Na Linha da Vida " ( o

 segundo lbum ) , o ncleo de colaboradores do fadista s admitia

 sugestes para o ttulo que tivessem origem nas letras dos fados do

 CD .

 A base musical com voz de referncia j estava ,  altura , construda

 para a maioria dos 17 temas ( seis musicados e 11 fados tradicionais ) .

 Dos tradicionais , alguns ficaro pelo caminho , mas , pelo que foi dado

 a ouvir , a seleco apresenta-se difcil .

 O acaso ditou que um primeiro contacto ocorresse com a verso , ainda

 por finalizar , de " Sem Deus nem Senhor " , tema que ir encerrar " Pelo

 Dia Dentro " - letra e msica de Jos Mrio Branco , que comandava o

 tempo dos msicos ( o contrabaixo de Bica e a viola de Carlos Manuel ) e

 a intensidade do intrprete .

 A voz e os instrumentos encontravam-se em divises separadas .
 O

 segredo residia na iluso de que partilhavam o mesmo espao .
 Talvez

 at partilhassem ...
 um mesmo espao interior ?
 Caman cantava sempre de

 auscultadores - atravs deles ouvia a msica - como se segredasse uma

 histria .
 Jos Mrio Branco pedia aos msicos para se libertarem da

 melodia e pensarem nas palavras .
 A msica j l estava , dizia ele , e

 eles sabiam-na de cor .
 A msica , esta msica ( !
 ) , nesta voz e com este

 arranjo ,  arte .
 Que acaba depressa , deixando em suspenso uma emoo

 que escapa ao domnio da razo .
 Um misto de tristeza , lucidez ,

 serenidade .

 Veio a calhar que em seguida se passasse a outro tema de Jos Mrio

 Branco ( com letra do prprio e de Manuela de Freitas ) , " A cantar " .
 " Ai

 Lisboa quem te dera estar segura / Que o teu canto  sem mistura / E

 nasce mesmo de ti. " Jos Mrio Branco advertia : " No esperem pelo

 cantor .
 Estendam o tapete ao cantor ...
 " A marcao rtmica ,

 jazzstica , da viola e do contrabaixo , insinuava-se .
 Os msicos

 aceleravam o tempo , embora Caman se mantivesse sereno na sua cadncia

 de " cantador " de histrias .
 Essa serenidade era paga com uma ateno

 exclusiva ao canto .
 Caman teria por certo uma opinio sobre a

 interveno de cada msico , mas esta nunca se fazia ouvir

 directamente .
 Depois de muitas palavras " a cantar " , o silncio ...

 " Pelo Dia Dentro " poder surpreender os que procuram a novidade e os

 que anseiam pela continuidade .
 As interpretaes do cantor h muito

 que caminham para a criao de um distanciamento entre voz e palavras .

 Quer isto dizer que o objectivo proposto volta a ser o de que as

 histrias , os fados , no pertenam necessariamente a quem os canta e

 possam ser as histrias , os fados , de qualquer um de ns .

 Caman nunca partia para uma nova msica sem uma opinio formada sobre

 o que acabara de gravar .
 A opinio quase se adivinhava nos seus

 diferentes estados de humor , embora fosse pouco verbalizada .
 A pose

 algo introvertida ( outros diriam , concentrada ) escondia o parecer que

 Caman preza acima de qualquer outro : o seu prprio .
 Jos Mrio

 Branco , que sabe lidar com eles ( o fadista e o seu carcter ) melhor do

 que ningum , trabalhava ao teclado nas harmonias da guitarra

 portuguesa que figurariam na " Marcha do Bairro Alto " , composio de

 sua autoria que venceu , em 1995 , o concurso de marchas do mesmo

 bairro .

 De olhos fechados .
 Os dias mudaram-se , os fados trocaram-se .

 " Redond / ilha " casa um poema belssimo de Pedro Tmen com o " Fado

 popular coimbro " .
 Na altura , a boda ia ainda a meio , embora a unio

 pudesse vingar uma vida inteira ...
 A guitarra portuguesa tem um

 protagonismo determinante neste " Redond / ilha " .
 Caman ia cant-lo

 outra vez , tendo por referncia uma gravao anterior que parecia

 perfeita .
 Inultrapassvel ?
 Uma vez definidas a parte instrumental e a

 linha meldica , o fadista trabalhava sobre a sua interpretao .
 Era

 altura para cuidar dos detalhes .
 Entrar sereno e descontrado .
 Deitar

 o canto sobre uma confortvel cama musical j feita .
 Doutro modo , as

 palavras no repousariam .
 " Cada lugar minha cama / Cada cama  lua

 alta. " Dico perfeita .

 O canto de Caman v-se , porque clarifica o ( s ) sentido ( s ) das

 palavras .
 Ao ouvi-lo apenas - temos tendncia para o fazer como Caman

 canta , de olhos fechados - , cria-se a mesma disponibilidade de quem se

 entrega  leitura .
 Ele procura o tempo justo para a relao com as

 palavras .
 Se outros podem ser fadistas , embora no cantem o fado

 ( porque sabem viver a sua verdade emocional ) , Caman , apesar de no

 escrever ( que se saiba ...
 ) ,  um poeta .

 " Sem abrigo " , com letra e msica de Joo Afonso ,  mais uma das 17

 hipteses para o alinhamento final .
 Por baixo da mesa de gravao , os

 ps de Jos Mrio Branco e Caman batiam a compasso .
 Ainda nessa

 noite , foi tempo de ouvir apressadamente mais trs fados : a

 " Vendedeira " , com o privilgio de ter Aldina Duarte , autora da letra ,

 na plateia ( no  apenas por ser mulher de Caman que a sua opinio 

 constantemente solicitada ; Aldina tem uma relao algo masoquista com

 a sua parcialidade : podia ouvir Caman cantar dezenas de vezes o mesmo

 fado que gostaria de o ouvir sempre ...
 embora gostasse definitivamente

 de umas interpretaes e menos de outras - a msica era a " Marcha

 Manuel Maria " ) .
 Depois , foi a vez do " Templo dourado " , mantendo-se

 Aldina presente .

 A outra autora , Manuela de Freitas , prestava especial ateno s suas

 palavras .
 A msica , tradicional , era do " Fado Margaridas " .
 A ela

 decidiram voltar mais tarde Jos Mrio Branco e Caman .
 Por ltimo , o

 " Prisioneiro " , outro dos poemas de Manuela de Freitas , com msica do

 " Fado das horas " .
 Letra de fonte segura .
 Caman j l bebeu muitas

 palavras que sempre lhe fizeram bem  sade .
 A base musical estava

 excelente !

 Despedida .
 Nono dia de gravaes , final de tarde .
 Caman cantava na

 msica " Eu lembro-me de ti " , de Alfredo Marceneiro , o texto " Noite

 apressada " de outra referncia importante para o artista : o poeta

 David Mouro-Ferreira .
 Letra enorme na proporo da responsabilidade .

 Uma maratona de poesia .
 No era , obviamente , uma " escada " - a " Escada

 sem corrimo " , interpretao dilacerante no disco " Esta Coisa da Alma "

 ( o terceiro de Caman ) - , mas o desfilar das palavras sugeria ainda a

 forma da espiral .

 No por acaso , o poema " Noite apressada " terminava nos versos : " Era

 afinal quase nada / E tudo parecia imenso. " A porta do estdio de

 gravao estava quase fechada para no perturbar a concentrao de

 msicos e tcnicos .
 A interpretao , apesar de escutada na

 clandestinidade , parecia definitiva .
 Caman , insatisfeito , arriscaria

 um registo mais recolhido , mas resignou-se  qualidade da prestao

 anterior .
 Para , em seguida , regressar ao " Prisioneiro " .
 " Que estranha

 contradio / Eu pedir-te liberdade / Sabendo que a condio /  ficar

 preso  saudade. " Feito de palavras simples e sentidos complexos ...

 Com destreza libertados do " Prisioneiro " , produtor e artista

 conversavam sobre a intencionalidade a dar ao " Templo dourado " , mais

 um fado que ficara em " banho-maria " das sesses anteriores .
 Este fado

 seria uma espcie de conversa entre mestre e discpulo , como no

 " Siddhartha " , de Herman Hesse ( Jos Mrio Branco tambm d conselhos

 de leitura s pessoas que estima ) .
 A tarefa do mais jovem - Caman 

 discpulo , enquanto escuta Jos Mrio Branco , e ser mestre ao

 interpretar o fado ( " que estranha contradio " mesmo ...
 ) - , no sendo

 simples , ter no final a sua recompensa : a liberdade .

 Finalmente , a propsito de intencionalidade , algum lembrou um senhor

 cujo regresso aos palcos se anuncia para breve : Carlos do Carmo , que

 em matria de canto convicto  , no fado , a referncia .
 " Templo

 dourado " no era de todo o " Fado Alberto " , mas andava muito perto ...

 A " Marcha do Bairro Alto " , que pede pulmo que baste e  dos temas

 mais alegres de " Pelo Dia Dentro " sai finalmente limpinha , sem osso .

 Talvez na procura de um contraste mais brusco , Caman atacaria em

 seguida o " Terreiro dos Passos " , outro " tour de force " a exigir

 disponibilidade vocal particular .
 A letra e msica so de Amlia Muge

 e a marcao inicial assaz jazzstica pertencia , est claro , a Carlos

 Bica .
 Este tema , neste disco ,  sintomtico de uma heterogeneidade que

 Caman persegue entre o fado , o jazz ( ?
 ) e as msicas tradicional e

 ligeira .

 " Terreiro dos Passos " , com a sua enorme complexidade , traduzida nos

 arranjos de Jos Mrio Branco , que j havia colaborado com Amlia numa

 anterior gravao do tema ( no lbum " Todos os Dias " ) , as harmonias em

 desafio  voz , o refro , pico , intimista , a ameaa no canto ,

 assombrado , como que chegado das trevas , foi a despedida possvel , um

 at breve , a este " Pelo Dia Dentro " que , apesar da familiaridade

 estabelecida , manter-se- to ou mais ansiado do que se sobre ele

 pairasse o mais profundo mistrio .
 Como aquele de que  constituda " a

 matria dos sonhos " , primeira hiptese de ttulo para o novo disco -

 entretanto descartada .

 [ INLINE ]

 " No me imagino a fazer outra coisa "

 Fadista Caman lana hoje o seu novo trabalho discogrfico , o quarto

 de uma carreira de xito , intitulado " Pelo Dia Dentro "

 DINA MARGATO

 " Uma Noite de Fados " , " Na Linha da Vida " , " Esta Coisa da Alma " e agora

 " Pelo Dia Dentro " , os quatro discos de Caman que assinalam quatro

 passos no seu reconhecimento como fadista .
 Agora que j no canta

 regularmente em casas de fados , dedica este trabalho ao dia , ao

 bulcio quotidiano da cidade onde vive , Lisboa .
 " Pelo Dia Dentro "

 resulta de uma continuao natural , mas tambm representa o porto de

 chegada num qualquer manh , o disco da maturidade , como em escassas

 palavras admite : " Sim , acaba por ser isso " .
 O novo lbum  hoje

 lanado no mercado nacional .

 Os discos no resumem a sua carreira iniciada muito antes disso ,

 lembra que com dez anos cantou na televiso num programa " Pscoa dos

 Hospitais " .
 Em 1979 , sai vitorioso no concurso " Grande Noite do Fado " ;

 a participao nos espectculos de Filipe La Fria , serviram-lhe de

 alavanca , deu mesmo nas vistas em " Grande Noite " , " Maldita Cocana " ,

 " Cabaret " .
 O primeiro convite para gravar um disco surge na sequncia

 do espectculo " Maldita Cocana " .
 Depois , no Teatro da Comuna conhece

 Jos Mrio Branco , e a par da relao de amizade desenvolvem um

 compadrio profissional que os leva a conceber o primeiro disco em

 1995 .
 Este trabalho foi gravado ao vivo , durante quatro noites

 seguidas no Palcio de Alcovas .

 Bisav e pai cantavam

 Como  que tudo comeou ?
 Caman faz o prefcio  resposta dizendo : " S

 sei fazer isto , no saberia fazer outra coisa , no me imagino a fazer

 outra coisa " .
 As razes do interesse pelo fado vm da infncia : o

 bisav era fadista profissional , o pai tambm cantava , embora nunca

 tivesse vivido do fado , a famlia sempre esteve ligada ao meio .
 Entre

 os discos l de casa , constavam os xitos de Amlia ( a quem se refere

 com frequncia ) , de Carlos do Carmo , Fernando Maurcio , Maria Teresa

 de Noronha e Luclia do Carmo .
 Sempre os ouviu .
 Um dia , a convalescer

 de um doena que o retm em casa , comea a prestar-lhes outra ateno

 e a sua ligao com o fado refora-se .

 Nos anos 80 , como qualquer adolescente , entusiasma-se pelos " hits " e

 ritmos da poca , refere as preferncias pelos Spandau Ballet ou

 Rolling Stones .
 O fado no era propriamente um gnero na moda e acaba

 por recalc-lo , remet-lo a um segundo plano .
 At porque a mudana de

 voz dificultava-lhe a interpretao que gostaria de dar s canes .

 " L vai o fadista "

 Por volta dos 18 anos , d-se a viragem , volta a acreditar no fadista

 que h em si e comea a cantar regularmente no Arsenal do Alfeite .

 Recorda desses tempos ser gozado pelos colegas e vizinhos da mesma

 idade , que lhe diziam quando passava : " L vai o fadista " .
 Na altura , o

 fado no tinha o estatuto que hoje voltou a adquirir .
 " Hoje est na

 moda , mas naquela poca no tinha grande aceitao : s gostavam do

 fado as classes muito baixas ou uma reduzida elite " .

 A distino recebida em Outubro pelos Prmios Blitz , de melhor voz

 masculina nacional ,  descrita por Caman como uma satisfao mpar .

 " Ter sido reconhecido , pertencendo ao fado , num universo onde se

 privilegia outros gneros , foi muito importante " .
 Fala do disco de

 prata da venda de " Esta Coisa da Alma " , enaltecendo o trabalho da

 editora , aproveitando para apontar as apostas que estas empresas tm

 feito ultimamente no fado .
 A elas se deve tambm a divulgao de uma

 nova gerao , onde , no entanto , no se inclui , apesar dos 35 anos que

 vai fazer em Dezembro .
 " J ando nisto h muito tempo , tem sido a minha

 vida " .

 Caman conheceu a internacionalizao em vrios espectculos , em

 Frana , Espanha , Macau , Blgica , Holanda .
 O lanamento de " Na linha

 da Vida " em 1999 , na Coreia , marcou o seu lanamento no mercado

 oriental .
 O fadista no colecciona s discos de fado , em sua casa

 costuma ouvir sobretudo jazz e msica brasileira .
 As tendncias

 electrnicas nas suas vrias " nuances " no lhe despertam ateno

 suficiente para adquirir esses discos , mas gosta de ouvir esses ritmos

 quando sai  noite , nos bares da capital .

 Jornal de Notcias - 19-11-2001

 Na linha da vida

 Aos 12 anos ganhou a Grande Noite do Fado .
 Desistiu de cantar aos 14 .

 Descobriu depois o lado negro da vida , at que encontrou os melhores

 palcos e o caminho da alma .
 Caman explica como

 Entrevista de Ana Soromenho e Vtor Rainho

 Onde nasceu ?

 Em Oeiras , em 1967 , onde vivi at deixar a casa dos meus pais .
 Tenho

 dois irmos , o Hlder e o Pedro , mas sou o mais velho .
 Andava num

 infantrio e o padre que tomava conta de ns dizia  minha me que

 gostava que eu viesse a ser padre , mas logo perceberam que isso nunca

 viria a acontecer porque era muito rebelde .
 Depois fui para a escola ,

 foi nessa altura que ouvi fados pela primeira vez ...

 Adoeceu e ouviu todos os discos que havia em casa .

  verdade , s havia discos de fado .
 A famlia toda da parte do meu

 pai , desde o meu bisav , cantava fado .
 Trabalhavam e cantavam aos

 fins-de-semana .

 Que faziam os seus pais ?

 A minha me era domstica e o meu pai desenhador no Arsenal do

 Alfeite .
 Mas foi nessa altura , em que estive 15 dias doente , que ouvi

 compulsivamente todos os discos de fado .
 Lembro-me de que no tinha

 jeito nenhum para cantar mas havia naquela msica uma caracterstica

 diferente com a qual me identificava muito .
  estranho um mido de

 sete anos gostar muito de fado .
 Decorei as letras e comecei a cantar .

 Como reagiam os amigos quando cantava ?

 Tinha o grupo de Oeiras com quem fazia aquelas brincadeiras perigosas

 de ir para cima da ponte onde passava o comboio , faltvamos s aulas e

 essas malandrices .
 Gostava muito dessas aventuras de putos .
 S que ,

 entretanto , fui-me fechando um bocado porque fazia uma coisa que era

 completamente diferente de todos os midos da minha idade .
 Gostava

 muito de cantar fado mas tinha vergonha porque gozavam comigo .
 Achava

 estranho as pessoas rirem-se quando dizia que ia para os fados .

 Que idade tinha ?

 Oito , nove anos .
 Todos os fins-de-semana ia com os meus pais cantar s

 colectividades .
 Havia uns poetas populares que escreviam coisas

 especficas para a minha idade , que falavam da escola , da me , coisas

 assim .

 Tinha muitos amigos ?

 Bastantes .
 Mas o fado era uma coisa minha , um segredo .
 E depois havia

 tudo o resto , a escola , os amigos , as brincadeiras .
 Nunca me exibia .

 Alis , sempre tive imenso medo de falar do que fazia e ainda hoje

 tenho .
 Talvez tenha a ver com esse passado .
 Era muito reservado e o

 fado , de algum modo , salvou-me um bocadinho ...

 O que quer dizer ?

 Que  uma msica de emoes contidas , uma forma de cantar sem grandes

 exteriorizaes , nem grandes ` performances ' .
  apenas necessrio ter

 alma e sentido da palavra .
 De repente , tive a sensao de que o fado

 no precisava de mim para nada , eu  que precisava do fado porque , se

 no existisse fado , nunca teria feito da msica a minha vida , no

 poderia cantar outro estilo musical .
  difcil explicar ...
 O fado tem

 a ver com a minha maneira de ser , muito discreta , e facilitou-me a

 forma de me expressar .

 J fazia noitadas ?

 No .
 Quando ia aos fins-de-semana com os meus pais eles iam cedo para

 casa , ou ento ficava a dormir no carro .

 Como  que um mido de oito anos vivia esse mundo dos adultos ?

 No era s um mundo de adultos , sempre houve muitas crianas a ir aos

 fados  noite , era um ambiente de famlias .
 Lembro-me de ver , nessa

 altura , a Marina Mota a cantar .
 Cada colectividade tinha a sua

 criana .

 Quantos anos tinha quando ganhou a Grande Noite do Fado ?

 Tinha 12 anos , em 1979 .
 Um amigo do meu pai , que era um fadista

 amador , convenceu-me a ir dizendo que era um grande espectculo e que

 iam assistir seis mil pessoas .
 Achei graa , fui e ganhei .
 Nem sabia

 que era um concurso .
 Mas fui para o palco e cantei um fado tradicional

  minha maneira .
 Claro que fiquei muito nervoso , com os joelhos a

 tremer .
 A Grande Noite do Fado  um acontecimento muito popular e as

 pessoas , quando gostam , batem com os ps no cho , estamos a falar do

 Coliseu , que faz um barulho ensurdecedor .
 Saram umas reportagens

 numas revistas , achei muita graa ver a fotografia , mas depois , claro ,

 desliguei .

 Gravou discos .

 Sim .
 Fiz quatro ` singles ' e um LP .
 Na altura existiam umas editoras

 pequenas que convenceram o meu pai .
  engraado porque o meu pai

 levava os discos l para o trabalho e os colegas compravam todos .

 Ainda hoje encontro pessoas desse tempo que tm discos que eu no

 tenho .
 No gosto de ouvir esses registos , faz-me impresso essa voz de

 criana .

 Era considerado um menino-prodgio ?

 Acho que sim , com exagero .
 Penso que percebiam que eu tinha qualquer

 coisa .
 De repente , h uma criana que tem uma grande capacidade

 intuitiva de interpretar .

 No consegue separar as suas memrias do fado ?

 No , no consigo .
 Est tudo ligado .
 S houve um perodo na minha vida

 em que me desliguei , entre os 14 e os 18 anos .
 A voz comeou a

 modificar-se e a perder a expresso .
 No sabia o que fazer com ela .

 Nesse perodo descobri outras msicas , comecei a ouvir e a gostar de

 outras coisas .
 Simplesmente , resolvi parar de cantar .

 Aos 14 anos perdeu esse estado de alma ?

 No .
 Mas tambm tinha ganho outra conscincia .
 Era j um adolescente .

 Houve um desinteresse normal , tinha tambm a ver com a influncia das

 outras msicas , dos amigos , das namoradas , de tudo .
 Queria descobrir

 outras coisas , queria curtir e , principalmente , j no queria ir aos

 fados com os meus pais .
 Queria era estar com o pessoal da minha idade .

 Que fazia nessa altura ?

 Estudava , mas passei a faz-lo  noite .

 Com que idade ?

 Com 16 anos .
 Nunca fui bom aluno .
 Chumbei e resolvi comear a

 trabalhar .
 Fui para o Arsenal do Alfeite , onde estava o meu pai , que

 era o chefe de construo naval , e arranjou-me l um emprego .

 Trabalhava de dia e estudava  noite , mas por pouco tempo .
 Fiz s o 9

 ano .

 No Arsenal fazia o qu ?

 Era ajudante de calafate , mas s fiquei dois anos .
 Percebi que no

 tinha jeito para aquilo e no era o que queria para a minha vida .

 Nessa altura comecei a pensar como  que poderia voltar ao fado .

 E como voltou ?

 Um dia , o Carlos Zel telefonou para minha casa a dizer que ia haver um

 programa do Joaquim Letria dedicado aos novos talentos e desafiou-me .

 Fui , cantei uma msica do Thilo Krasman com letra da Rosa Lobato

 Faria .

 Porque  que se lembraram de si ?

 Eu tinha comeado , aos fins-de-semana , a ir a restaurantes onde se

 cantava o fado .
 Foi nessa altura que voltei a cantar .
 O Carlos Zel

 costumava aparecer por l e ouviu-me .
 Lembro-me de , nessa poca , tinha

 j 18 anos , ir  noite , apanhar o comboio , com o meu fatinho completo

 de cantar o fado e as pessoas gozarem comigo na rua : `  fadista !!
 ' .

 Tinha muita vergonha .
 Entretanto , o irmo do Carlos Zel , o Alcino

 Frazo , era um excelente guitarrista , estava a gerir o Fado Maior , o

 antigo Senhor Vinho , e arranjou maneira de eu cantar l todas as

 noites .
 Cantava at s duas da manh , deitava-me s quatro e depois

 levantava-me s duas da tarde .
 s vezes , saa dos fados e ia para as

 discotecas .

 Como era o ambiente das casas de fados ?

 Aprendia-se muito .
 Estava com pessoas muito mais velhas que eram

 msicos muito experientes .
 Foi nessa aprendizagem que me formei e

 adquiri a minha escola .
 Fazia o que mais gostava de fazer na vida .
 Era

 um ambiente muito engraado porque , quando acabvamos de trabalhar , ao

 fim da noite , juntava-se a malta das casas todas e eram momentos

 ntimos e muito criativos onde se contavam histrias do passado .

 Muitas vezes ficvamos ali a cantar uns para os outros , at s sete ,

 oito da manh .

 Que histrias eram ?

 Sobre o fado , sobre fadistas , sobre pessoas que eu nunca tinha

 conhecido mas que gostava imenso , como o Alfredo Marceneiro ou o

 Manuel de Almeida .
 Ainda hoje tenho saudades deles .
 A msica  o

 elemento que une aquele ambiente de vivncias muito particulares .
 Essa

  a essncia do fado .
 Gostava de ficar naquelas conversas , tratavam-me

 como um puto que estava ali a aprender e eu tinha um grande respeito

 pelos fadistas mais velhos .

 No convivia com pessoas da sua idade ?

 Sim .
 Mas sempre vivi muito no meio das pessoas mais velhas .
 Nessas

 noites , s vezes acontecia os meus amigos irem ter comigo e depois

 sairmos , mas eles no frequentavam as casas .

 Quantos anos esteve nas casas de fados ?

 Mais de dez .
 At aos 31 .
 H seis , decidi que s iria fazer concertos .

 Comearam a surgir mais oportunidades e a haver um circuito de

 trabalho mais interessante para mim .
 Gosto de fazer espectculos e

 discos porque tenho mais disponibilidade para desenvolver o meu

 projecto .
 A rotina das casas torna-se limitadora e acontece que ,

 muitas vezes , as pessoas no esto l para ouvir cantar .
 O fado vem

 com o menu do jantar .
 E havia muitas noites em que no me apetecia ir .

 Quanto ganhava ?

 Pouco .
 Talvez dez contos por noite .

 Alguma vez sentiu que podia perder o rumo  sua vida ?

 Vrias vezes .
 Na fase dos 16 , 17 anos , comecei a portar-me mal , a

 chumbar , a faltar s aulas , tinha a mania de beber copos , at s

 tantas e ...
 entrei numa fase complicada ...

 Complicada ?
 Com lcool e drogas duras ?

 Sim .
 Muito puxada .
 Durante muito tempo a minha vida foi sempre pautada

 por grandes tentativas de deixar a dependncia das drogas e do lcool .

 Tinha sempre o sonho de fazer uma vida normal como os outros que

 trabalhavam , estudavam .
 Achava que era especial , diferente , sentia-me

 sozinho , era uma coisa estranha .
 No conseguia relacionar-me com o

 mundo sem ter a ` cabea cheia ' .

 Como foi , nesse perodo , a sua vivncia nas casas de fado ?

 Sempre houve gente que me apoiou , mas enfrentar as pessoas quando

 cantava foi difcil .
 Se estivesse limpo comeava a tremer , sentia

 muito medo de falhar .
 Ao princpio , quando se entra nessa vida ,  tudo

 fcil , muito cor-de-rosa , sentia-me o maior .
 S que , depois , existe a

 fase seguinte da dependncia e  extremamente complicada .
 No se

 consegue desenvolver absolutamente nada , vive-se totalmente obcecado .

 Passou a ser uma aflio , nunca conseguia ter paz de esprito .

 Mas tinha perodos em que tentava sair ?

 Sim .
 Sempre andei dentro e fora .
 Havia perodos em que conseguia parar

 e tentava organizar-me .
 Mas era sempre difcil , houve alturas em que

 deixei de acreditar que iria conseguir .

 Nessa altura conseguia ter uma vida de trabalho regular ?

 Sim .
 Porque enquanto estava a cantar conseguia controlar as doses .

 Muitas vezes substitua a droga pelo lcool .
 Mas , mesmo nesse perodo ,

 tive a oportunidade de ter aquela experincia nas casas de fados , com

 aquelas pessoas e fui assimilando tudo o que era para assimilar

 artisticamente .
 Mais tarde , consegui aplicar essas experincias , de

 uma forma muito produtiva , no meu trabalho .
 Eu digo que cantar o fado

 foi uma forma de salvao e  verdade , porque gostava tanto de cantar ,

 queria tanto , que nunca deixei de ser profissional .
 Nunca perdi o p .

 Poucas pessoas que esto hoje a cantar tiveram a oportunidade que eu

 tive .
 Sabia que era um trunfo e que um dia teria de o aproveitar da

 melhor forma .

 Quando comeou a conseguir deixar as drogas duras e o lcool ?

 Nos ltimos oito anos .
 Os primeiros dois foram muito difceis , com

 altos e baixos , mas houve um momento do ` clic ' .
 Comecei a tratar-me , a

 deixar a droga aos poucos e a perceber que conseguia mudar a minha

 vida .
 Tentei arriscar viver de outra maneira .
 Felizmente , essa fase

 coincidiu com o perodo em que comearam a surgir outras oportunidades

 e esse impulso ajudou-me muito .

 Novos projectos ?

 Sim .
 H sete anos conheci o Jos Mrio Branco , foi um grande incentivo

 para mim .
 A Aldina Duarte , minha ex-mulher , organizou umas noites de

 fado no Teatro da Comuna .
 Tambm fui convidado pelo Filipe La Fria

 para fazer uns programas e participar na pea Maldita Cocana .
 Foi uma

 fase em que me expus mais e tentei encontrar outro tipo de pblico .

 Comearam a aparecer nos espectculos da Comuna pessoas da minha

 idade , uma malta que nunca tinha ouvido fado , gente ligada ao teatro .

 De repente , j no era aquela coisa de cantar s dois ou trs

 fadinhos , tinha que aguentar um repertrio grande .
 Comecei a cantar

 versos de outros poetas , como Fernando Pessoa .
 Comecei a ler poesia

 contempornea para melhorar o fado que cantava , tentei procurar outros

 caminhos e a fazer as minhas escolhas .
 Percebi que estar no palco me

 podia fazer sentir descontrado .
 Nunca teria imaginado que aguentaria

 tanto tempo a cantar sem o recurso a drogas e ao lcool ...

  por isso que aparece um disco que se chama Na Linha da Vida ?

 De algum modo .
 Foi um disco que fiz j totalmente recuperado .
 E embora

 Noite de Fados , o primeiro disco , fosse um trabalho que j reflectia

 alguma maturidade , no outro j me sentia uma pessoa completamente

 diferente .
 Comecei a fazer espectculos no estrangeiro e a viver

 situaes de stresse e de muito medo , mas percebi que conseguia lidar

 com elas .

 Como ?

 Lembro-me de telefonar para amigos antes dos espectculos a dizer que

 no conseguia entrar , que tinha imenso medo de cantar sem ajuda de

 nada .
 Claro que qualquer artista pode sentir isso , todos temos

 inseguranas .
 Nunca perdi os meus medos , nem as minhas angstias ,

 apenas arranjei uma forma de lidar com elas sem precisar de mais nada .

 E hoje em dia prefiro o meu pior dia como eu sou do que o meu melhor

 dia como eu era .
 Tenho sempre medo , mas quando acontece e corre bem ,

 vale a pena o risco .
  um prazer enorme .

 Como  sentir o pblico todo a aplaudir de p ?

 Melhor do que isso  estar a cantar e ouvir o silncio .
  uma coisa

 estranhssima conseguir ouvir as pessoas a susterem a respirao .
 

 engraado porque , hoje em dia , acho que  muito mais fcil conseguir

 empatia com pblico nos espectculos do que nas casas de fados .

 Geralmente , as casas de fado so uma incgnita , h dias em que as

 pessoas esto disponveis para ouvir e outros em que no .
 E aos

 fadistas nem sempre apetece cantar .
 Para ouvir fado  preciso estar

 com esprito ,  poesia e faz reflectir .
 Num espectculo ao vivo h

 toda uma preparao para que isso acontea .

 No estrangeiro actua maioritariamente para portugueses ?

 Raramente .
 S cantei trs vezes para emigrantes .
 O fado l fora  cada

 vez mais consumido em festivais de ` World Music ' .
 Claro que h sempre

 alguns portugueses na sala .

 Como conseguiu reunir em torno de si a unanimidade da crtica ?

 Sempre acreditei no fado ,  preciso ser fadista para se cantar o fado .

 No se pode ser outra coisa .
 H uma caracterstica prpria neste

 cantar que se identifica imediatamente .
 Depois  um trabalho que se

 constri , mais pessoal , mas onde nunca se pode perder o fio condutor .

 Li imensa poesia , aperfeioei o meu conhecimento da lngua portuguesa ,

 da mtrica - - a Aldina Duarte fez uma recolha de poetas populares e

 clssicos que introduzi no meu repertrio .
 Comecei a trabalhar com

 msicos que vinham de outras reas .
 Consegui juntar ao fado

 tradicional a minha histria .
 Talvez seja por isso que reno

 unanimidade .

 Ganhou o prmio Blitz .

  verdade .
  um prmio do rock e isso foi muito bom .

 O fado est na moda ?

 Conquistou um lugar .
 Sei que contribui para isso , de alguma forma .

 Claro que j existia a Amlia , o Carlos do Carmo e outros .
 Mas , quando

 comecei , estava sozinho .
 Havia a Msia , que era muito mais conhecida

 l fora , e o Paulo Bragana , que tambm era muito particular .
 Do fado

 tradicional era s eu .
 S mais tarde apareceram outros fadistas novos

 que comearam a ganhar lugar .
 E , claro , foi esse conjunto de pessoas

 que fez com que o fado voltasse .

 Vende muitos discos ?

 Cerca de 20 mil .
 Tem vindo sempre a crescer , o primeiro vendeu 1500 ...

 Consegue viver dos discos que vende ?

 E dos espectculos que fao .
 Consigo fazer uma mdia de 40 por ano .

 S ouve fado ?

 No , claro que no !
 Oio jazz , autores brasileiros , adoro bossa nova ,

 tambm posso consumir msica actual , house , um tecno mais misturado

 com jazz .
 Mas oio muito fado .

 Nunca canta em casas de fado ?

 No .

 Mas frequenta ?

 s vezes .
 E gosto !
 E se me apetecer cantar , at canto , h coisas que

 acontecem numa cada de fados que no acontecem num espectculo .

 Os seus irmos tambm so fadistas .
 Nunca fez nada com eles ?

 Trabalhei com o meu irmo Hlder , foi meu produtor e empresrio

 durante uns meses .
 Mas , entretanto , as coisas foram mudando e , de

 repente , decidi trabalhar com outro produtor .
 Ambos estvamos a

 comear e evolumos muito a fazer coisas diferentes .

 Durante dez anos foi casado com uma fadista e sempre trabalharam

 juntos , No  complicado ?

 A Aldina sempre participou nos meus discos , fazia a recolha de

 material e foi assistente de produo em todos eles .
 O percurso dela

 no fado  muito diferente do meu .
 Comeou mais tarde e , se calhar , o

 seu tempo vir depois .
 Um dia que queira fazer uma carreira para se

 tornar mais conhecida vai faz-lo , naturalmente , tem todas as

 condies para isso .

 Porque tem tanto medo de falhar ?

 Sempre fui assim .
 Vou tentando aprender a viver de outra maneira e

 tentar enfrentar os meus medos .
 J consegui muita coisa .
 Agora estou

 novamente noutra fase , mais solitria .
 Estou a aprender a viver

 sozinho e a organizar-me .
 Nunca tinha tido essa experincia .
 Sempre

 vivi em casa dos meus pais .
 Sa com 24 anos para casar .
 Mas estou a

 gostar imenso desta experincia .

 Algum dia imaginou que seria famoso como fadista ?

 Acreditava que era possvel .
 No que tivesse uma necessidade enorme de

 que isso acontecesse mas achava que seria reconhecido pelo fado .
 Desde

 mido , tive o ` feeling ' de que iria acontecer .
 Apesar das

 inseguranas , h qualquer coisa que a gente faz e que sabe que  s

 nosso .

 EXPRESSO , VIDAS - 18-5-2002

 LINKS :

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